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	<title>É tudo gente morta</title>
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		<title>Os Anormais</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Sep 2010 08:39:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Francisco Feijó Delgado</dc:creator>
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		<description><![CDATA[João Baptista dos Santos nasceu em Faro, no ano de 1843. Eu nunca tinha ouvido falar dele. Não é que haja falta de anormais na nossa praça pública, pelo que é concebível que um ou outro escape, no entanto, a este senhor não faltaria fama por entre os mais jovens, caso dele tivessem tido conhecimento [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/09/dos_santos.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-18192" title="dos_santos" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/09/dos_santos-300x304.jpg" alt="" width="300" height="304" /></a> João Baptista dos Santos nasceu em Faro, no ano de 1843. <em>Eu</em> nunca tinha ouvido falar dele. Não é que haja falta de anormais na nossa praça pública, pelo que é concebível que um ou outro escape, no entanto, a este senhor não faltaria fama por entre os mais jovens, caso dele tivessem tido conhecimento no ano certo da escolaridade obrigatória. É que João Baptista dos Santos possuía, entre as duas normais, uma terceira perna. Uma aberração, ou mera curiosidade, consoante as opiniões, a verdade é que o homem nasceu com mais um membro (que na realidade eram duas pernas atrofiadas fundidas). A perna não era funcional, embora pudesse ser manipulada e, muito embora nunca tenha sido operado, Baptista dos Santos era capaz de andar a cavalo, amarrando a sua terceira perna a uma das coxas. Ainda assim, por curioso que este fenómeno fosse, o que suscitava mais interesse era o facto de João Baptista dos Santos sofrer da raríssima <em>diphallia</em>. E, ao contrário da sua terceira perna, o segundo pénis era perfeitamente funcional. Segundo o fotógrafo Charles DeForest Fredricks, que registou a única fotografia conhecida de João Baptista, “basta a visão de uma mulher para excitar as suas propensas amorosas. Ele funciona com ambos os pénis, acabando com um e continuando com o outro.” Tendo sido oferecido um generoso contrato para se exibir em circos franceses, João Baptista dos Santos recusou a oferta, preferindo mostrar-se apenas em círculos médico-científicos.</p>
<p>Mas como uma curiosidade se torna ainda mais interessante quando outra curiosidade se associa a ela, cá vai a segunda parte desta diplopia. Embora não haja provas, reza a história que João Baptista dos Santos terá tido um <em>affair</em>, em Paris, com a cortesã Blanche Dumas. Dumas não só tinha também uma terceira perna, como sofria de duplicação vaginal, que, à semelhança do seu contraposto luso, eram perfeitamente funcionais.</p>
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		<title>Portrait of a Lady II</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Sep 2010 23:05:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[É o meu lit de mort preferido – se é que se pode ter um, ponto relativamente ao qual acalento ainda algumas dúvidas. Aquele que eu teria escolhido, em resposta ao desafio aqui lançado pelo Pedro, não fossem as múltiplas e extenuantes actividades de férias que por essa altura absorviam parte substancial do meu tempo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-18184" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/09/portrait-of-a-lady-ii/ophelia-millais-1852/"><img class="aligncenter size-full wp-image-18184" title="Ophelia, Millais, 1852" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/09/Ophelia-Millais-1852.jpg" alt="" width="500" height="281" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">É o meu <em>lit de mort</em> preferido – se é que se pode ter um, ponto relativamente ao qual acalento ainda algumas dúvidas. Aquele que eu teria escolhido, em resposta ao desafio <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/lit-de-mort-i-ii-e-va-la-ate-iii/">aqui </a>lançado pelo Pedro, não fossem as múltiplas e extenuantes actividades de férias que por essa altura absorviam parte substancial do meu tempo e energia.   </p>
<p style="text-align: justify;">Gosto do exuberante cenário verde e das flores, tão variadas e coloridas — mesmo sabendo que algumas delas simbolizam, neste contexto, realidades tão pouco alegres como o amor não correspondido, a dor, a tristeza ou a própria morte. Gosto também da serenidade do rosto de Ophelia e do modo como jaz no leito do rio — faz-me sempre lembrar a Bela Adormecida ou a Branca de Neve, mortas-mas-não-tanto…   </p>
<p style="text-align: justify;">Elisabeth Siddal (1829–1862) foi um dos modelos preferidos dos pintores da<em> Pre-Raphaelite Brotherhood</em>, fundada cerca de 1848 por John Everett Millais, William Holman Hunt e Dante Gabriel Rossetti. Descrições da época referem-na como <em>a most beautiful creature, tall and slender</em>, com <em>greenish-blue unsparkling eyes, large perfect eyelids, brilliant complexion and a lavish heavy wealth of coppery golden hair</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Tinha 19 anos quando posou para Millais. Este, fiel ao cânon pré-rafaelita, queria o quadro <em>as truthfull as possible</em> naquilo que retratava. Por isso, pintou-o em duas etapas e em diferentes cenários. Toda a parte da natureza, <em>outside</em> <em>in the open air</em>, nas margens do rio Hogsmill, no Surrey, directamente para a tela (sem esboços ou apontamentos). A figura de Ophelia, naturalmente no seu estúdio … ao longo de incontáveis horas durante as quais Elisabeth, com um vestido antigo, bordado a prata, permaneceu mergulhada numa banheira cheia de água, teoricamente aquecida por lâmpadas colocadas por baixo. As quais, com frequência, se apagavam sem que o artista, absorto no seu trabalho, reparasse. Resultado: um enorme sucesso artístico para Millais, na <em>Royal Academy Exhibition</em>, de 1852. E, pelo menos, uma pneumonia para Elisabeth.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi esta a primeira e também a única vez que Elisabeth serviu de modelo a Millais. Por razões totalmente alheias às <em>extreme working conditions</em>: terá sido outro, e bem mais comezinho, o motivo. Dele vos falarei num próximo <em>Portrait</em>, se tiverem a gentileza de o aguardar e de o ler, claro…</p>
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		<title>Alto e pára o baile</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Sep 2010 13:05:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Quando Pedro Passos Coelho chegou ao poder no PSD, o futuro próximo do país parecia ter ficado decidido. Acabara-se a balbúrdia na oposição e José Sócrates, que só se aguentava em pé por falta de comparência desta, tinha finalmente os dias contados. Sabia-se que os tempos eram difíceis, que existiriam orçamentos «de guerra» para apresentar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">
<div id="attachment_18177" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-18177 " title="the dance paula rego" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/09/the-dance-paula-rego-500x387.jpg" alt="" width="500" height="387" /><p class="wp-caption-text">Paula Rego — A dança. 1988</p></div>
<p>Quando Pedro Passos Coelho chegou ao poder no PSD, o futuro próximo do país parecia ter ficado decidido. Acabara-se a balbúrdia na oposição e José Sócrates, que só se aguentava em pé por falta de comparência desta, tinha finalmente os dias contados. Sabia-se que os tempos eram difíceis, que existiriam orçamentos «de guerra» para apresentar e sabia-se que, com as eleições presidenciais de permeio, o país viveria um limbo político forçado de meia dúzia de meses. Era, como um dia disse António Guterres, uma questão de fazer as contas: Passos chegaria a S. Bento até final do 1º semestre de 2011. No círculo mais próximo do futuro Primeiro-Ministro a confiança era tal que a data se adiantava à boca cheia. E a verdade é que as primeiras sondagens vieram dar sustentação a esta científica tese. Passos provava ser um político responsável, era ponderado e educado, dava-se ar de estadista, vivia, em suma, em estado de graça.</p>
<p>Eis senão quando passou alguma coisinha má na cabeça dos conselheiros políticos do líder do PSD. Sem que nada o fizesse esperar, Passos Coelho iniciou uma série masoquista de tiros no pé. Paradoxalmente, não tanto porque estivesse errado o conteúdo das suas propostas (faço parte do quase extinto leque dos neoliberais furiosos capaz de subscrever boa parte das ideias subjacentes ao seu projeto de revisão constitucional). Mas sobretudo porque errou clamorosamente no timing e na forma. Na questão da Constituição, como na do Orçamento de Estado, revelou ingenuidade política, insensibilidade social e sobretudo um inexplicável desnorte. O resto é sabido. As sondagens fizeram marcha atrás, José Sócrates foi buscar ao baú mais uma das suas sete vidas e, num ápice, aconteceu o que todos julgavam ser já impossível: a dúvida reinstalou-se. Será desta?</p>
<p>A coisa tem, é inegável, um lado dramático. Portugal precisa desesperadamente de mudar de vida e de encerrar este ciclo político de governação socialista. Mas como o Verão ainda não chegou ao fim, vale também a pena olhar para o lado divertido (ainda que grotesco) da questão. É que, num país onde a confusão entre as esferas política e económica é total, onde grassam promiscuidades e corrupções de toda a ordem, onde o Estado é simultaneamente fraco e imenso, não é suposto que as coisas funcionem desta maneira. Há meses que no país «empresarial» tinha já começado o baile, sinistro, subterrâneo e costumeiro que sempre antecipa a dança de cadeiras no topo da hierarquia política. Desde que (prematuramente?) se decretou a morte de Sócrates, a azáfama era mais do que muita. Contrataram-se assessores, nomearam-se administradores, iniciaram-se avenças, retomaram-se «amizades», redescobriram-se até velhas cumplicidades ideológicas que a governação socialista obnubilara. E agora, sem que a sombra de um aviso, a orquestra pára e a música cala-se? As coisas não se fazem assim! O baile pode tornar-se um tumulto! Temo pelas pisadelas, pelos encontrões, pelas traições variadas e pelas quedas estrepitosas. E receio bem que os próximos tempos sejam tempos de muitas espargatas. Pelo menos enquanto não voltar a perceber-se em que sentido vai dançar-se o corridinho.</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p>Publicado na Visão a 2.9.2010</p>
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		<title>Les portes de la nuit</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Sep 2010 02:29:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Saiba: há um bailado que se fez filme, sendo, também, um poema de sol nocturno, do sol nocturno, e mais se fez, canção, na voz de Montand e título mudado de outro filme por causa do sucesso do mesmo excerto de poema, ainda por publicar na íntegra, a canção, desta vez na voz de Nat [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Saiba: há um bailado que se fez filme, sendo, também, um poema de sol nocturno, do sol nocturno, e mais se fez, canção, na voz de Montand e título mudado de outro filme por causa do sucesso do mesmo excerto de poema, ainda por publicar na íntegra, a canção, desta vez na voz de Nat King Cole. Fôlego. Mostro só o filme, que vi hoje pela primeira vez e nunca o soube antes de hoje. Gosto tanto destas surpresas felizes por haver.. Tem, este filme, coisa queirosiana de sombrinha vermelha de Maria a descer sobre Pedro, na carruagem, premonição de sangue, ferida, escoamento de vida, morte. Está lá em baixo, a premonição, outra, no entanto: procurei para si no YouTube, encontrei, claro, logo a seguir à linda cena da fabulosa Joan, de fato de banho, ao espelho. Poderia deixar algo do bailado, ou do primeiro filme, da primeira canção, do poema. Não. Só o que descobri hoje. Porquê? Ao Nat king Cole já o dancei com o meu avô, Les feuilles mortes, não é segredo, ouço, ouço — mas sou suspeita por causa de Prévert -, e de Roland Petit nem digo um <a href="http://www.youtube.com/watch?v=PBwAbrB8R0E">ai</a>: ai ai..</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"><a href="http://archive.sensesofcinema.com/contents/directors/02/aldrich.html"><em><strong>Autumn Leaves, Robert Aldrich</strong></em></a> (1956, Wm. Goetz Productions) Producer: William Goetz.  Screenplay: Jack          Jevne, Lewis Meltzer, and Robert Blees. Director of Photography:  Charles          Lang, Jr. (1:85:1). Music: Hans Salter. Cast: Joan Crawford  (Millicent          Wetherby), Cliff Robertson (Burt Hanson), Vera Miles (Virginia),  Lorne          Greene (Hanson). Filmed at Columbia Studios, Los Angeles,  beginning August          31, 1955. Completed: November 21, 1955. Running time: 107  minutes. Distribution:          Columbia. Released: September 11, 1956 (Los Angeles).Original  Title: <em>The          Way We Are. </em>Silver Bear Award for Best Direction from the  6th Berlin          Film Festival.</span></p>
<p>
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/3Xh0lDQteNE?fs=1&amp;hl=pt_PT" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/3Xh0lDQteNE?fs=1&amp;hl=pt_PT" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object>
</p>
<p><span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"><br />
 </span></p>
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		<title>Di sotto in sù</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Sep 2010 23:02:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Dizem-me que a coisa começou mais cedo mas “pôs-de moda” lá para o século XVII. Os especialistas dir-vos-ão que é uma variante específica de ilusionismo baptizada Di sotto in sù ou Prospettiva Melozziana . O Vasco explicar-vos-á  que, mais coisa, menos coisa, tanta palavra bonita pode trocar-se pela mais voyeurista expressão “de baixo para cima”. E [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Dizem-me que a coisa começou mais cedo mas “pôs-de moda” lá para o século XVII. Os especialistas dir-vos-ão que é uma variante específica de <em>ilusionismo</em> baptizada <em><strong>Di sotto in sù</strong></em> ou <strong><em>P</em></strong><em><strong>rospettiva Melozziana</strong></em> . O Vasco explicar-vos-á  que, mais coisa, menos coisa, tanta palavra bonita pode trocar-se pela mais voyeurista expressão “<em>de baixo para cima</em>”. E eu, que não sou italiano nem especialista de coisa alguma, só posso dizer-vos que acredito, com a força de todas as paredes e de todos os tectos do mundo, que a ninguém devia ser roubado o prazer de ver-se assim enganado. Uma vez que fosse na vida. Mesmo que, deslumbrado pela beleza furtiva que é sempre a beleza de um <em>trompe l’oeil</em>, não ganhasse para o susto. Que é o que o terá acontecido à bela e arfante Gonzaga quando acordou, numa pecaminosa manhã, na sua <em>camera degli sposi</em>, com um coro de inconvenientes querubins a espreitar-lhe as linhas rococós da sua escandalosa nudez.</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<div id="attachment_16667" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-16667" title="caravaggio" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/07/caravaggio-300x739.jpg" alt="" width="300" height="739" /><p class="wp-caption-text">Caravaggio. Jupiter, Neptuno e Plutão</p></div>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<div id="attachment_17985" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-17985" title="800px-Andrea_Mantegna_064" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/800px-Andrea_Mantegna_064-500x346.jpg" alt="" width="500" height="346" /><p class="wp-caption-text">Andrea Mantegna, Camera degli sposi</p></div>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<div id="attachment_17986" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-17986" title="Sant'Ignazio_-_painted_dome_-_antmoose" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/SantIgnazio_-_painted_dome_-_antmoose-500x500.jpg" alt="" width="500" height="500" /><p class="wp-caption-text">Andrea Pozzo, Igreja de Sant’Ignazio</p></div>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Olá, fala a Marta</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Sep 2010 11:06:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[“Olá, fala a Marta…” A frase é popular, mas só a dizemos porque -  faz hoje 132 anos — aconteceu uma pequena revolução. O Boston Telephon Dispatch, sob a asa do senhor Bell, ouvi dizer que discutível inventor do telefone, foi o primeiro operador a criar uma central telefónica. Eram rapazes que se ocupavam de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-large wp-image-18154  aligncenter" title="Emma nutt" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/09/Emma-nutt-500x383.jpg" alt="" width="500" height="383" /></p>
<p style="text-align: justify;">“Olá, fala a Marta…” A frase é popular, mas só a dizemos porque -  faz hoje 132 anos — aconteceu uma pequena revolução. O Boston Telephon Dispatch, sob a asa do senhor Bell, ouvi dizer que discutível inventor do telefone, foi o primeiro operador a criar uma central telefónica. Eram rapazes que se ocupavam de tudo, do telégrafo e dos telefones. Mas se no telégrafo eram ágeis e imbatíveis, ao telefone mostravam-se irritadiços, sempre prontos a praguejar, já para não falar na tentação de mandar para o Bujumbura quem só queria ir até Luanda. <br />
Tocou uma campainha na cabeça do senhor Bell e ele revolucionou: entrevistou e contratou Emma Nutt, fazendo dela a primeira telefonista do mundo. A voz de Emma, suave,  a sua paciência, uma prodigiosa memória que lhe permitia saber de cor todos os números do directório de Boston, ditaram o futuro: o triunfo das telefonistas, a maravilhosa associação do telefone à voz feminina. O telefone é uma mulher: é por isso que é fácil falar com ele, dar-lhe beijinhos, prometer-lhe ternuras e, claro, mentir-lhe com um bocadinho de vergonha.</p>
<p style="text-align: justify;"> <object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/yD400yZy9qs?fs=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/yD400yZy9qs?fs=1" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
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		<title>O olissipômago</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Sep 2010 04:24:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Eça de Queiroz</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Olissipófago, primeiro pensei em olissipófago. Mas depois lembrei-me que corria sérios riscos de má interpretação por parte dos restantes membros do ETGM – que como toda a gente sabe é um blogue rodeado de lisboetas por todos os lados menos por um, chamado istmo. Mais a diáspora e ilhas adjacentes, bem entendido. Que se descuidem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-18136" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/09/o-olissipomago/rio-1/"><img class="aligncenter size-medium wp-image-18136" title="rio-1" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/09/rio-1-300x400.jpg" alt="" width="300" height="400" /></a></p>
<p>Olissipófago, primeiro pensei em olissipófago.</p>
<p>Mas depois lembrei-me que corria sérios riscos de má interpretação por parte dos restantes membros do <strong><em>ETGM </em></strong>– que como toda a gente sabe é um blogue rodeado de lisboetas por todos os lados menos por um, chamado istmo. Mais a diáspora e ilhas adjacentes, bem entendido.<br />
 Que se descuidem os alfacinhas porque a situação dispensa cuidados – pelo menos pela parte que me toca: adoro <strong>Lisboa</strong>, sempre foi assim, já o disse e até já o escrevi em livro. E tudo.<br />
 Mas voltemos ao olissipófago e ao seu feliz substituto olissipômago: o primeiro representará algo ou alguém que objectivamente se alimenta de <strong>Lisboa</strong>. O rol de exemplos é imenso, mas vou apenas citar aqui o que já em tempos disse sobre o assunto: «<strong>Lisboa é, à semelhança de outras capitais, refém do poder que alberga</strong>».<br />
 Com os olissipófagos já arregimentados em <em>su sitio</em> passemos agora ao olisspômago e derivados. Por decomposição associativa com o anterior vocábulo, rapidamente se chegará à evidência gástrica do segundo: olissipômago é aquela parte de <strong>Lisboa</strong> – individual ou colectiva – que serve de pança à ruminante capital.<br />
 <a rel="attachment wp-att-18140" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/09/o-olissipomago/cidades-publico-4/"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-18140" title="cidades-Público" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/09/cidades-Público3-110x150.jpg" alt="" width="110" height="150" /></a>Porque a capital volta e meia dá-lhe para isso, rumina – e bastante, como se irá a seguir fazer prova.<br />
 Convém antes de mais afirmar, <em>just for the record</em>, que nada me move contra o conhecido olissipógrafo a que me irei referir – mas o facto é que afirmações suas veiculadas no sempre amável e diário <strong>Público</strong> provam que também ele é elemento activo do agora celebrizado olissipômago. Será assim como que uma espécie de enzima.<br />
 O artigo a que me refiro viu luz no suplemento <strong><em>Cidades</em></strong> do dia <strong>22 de Agosto</strong>, a um domingo – curiosamente no mesmo dia do ano em que cheguei de <strong>Angola</strong> , faz agora 35 anos, e, numa coincidência quase suspeita, também no mesmo dia em que faz anos a mãe da minha filha Joana (que raio de ideia a minha de meter isto aqui – mas é assim que tem de ser).<br />
 A chamada ao tema principal, com um título a puxar para o fadista – «<strong><em>A triste agonia das casas com histórias para contar</em></strong>» –, leva-nos ao trabalho da jornalista <strong>Cláudia Sobral,</strong> que assina um texto pertinente e bem documentado onde discorre e ouve discorrer sobre os vários <em>pecados</em> da capital em termos do seu património imobiliário ligado a figuras históricas da cidade.</p>
<p><a rel="attachment wp-att-18141" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/09/o-olissipomago/torme-2/"><img class="alignright size-thumbnail wp-image-18141" title="torme-2" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/09/torme-2-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a></p>
<p>Já a meio do texto, mais concretamente no subtítulo «<strong><em>Quando uma casa pode tornar-se num museu</em></strong>», ficamos a saber onde ficavam as casas de <strong>Wenceslau de Moraes</strong> e de <strong>Camões</strong> e de como a intervenção do <strong>Estado</strong> nesta matéria é notavelmente desastrosa – ou seja, uma não-notícia. Logo a seguir surge a questão da existência de um espólio interessante que consiga transmitir o espírito necessário à constituição de uma casa-museu – solução universalmente utilizada e que em Portugal tem alguns exemplos bem sucedidos e conhecidos.<br />
 Ficamos depois a saber que a casa-atelier de <strong>Alfredo Keil</strong>, na <strong>Avenida da Liberdade</strong>, não foi transformada em atelier-museu porque o respectivo espólio do poeta e pintor seguiam já viagem até <strong>Torres Novas</strong>, por decisão da família – que, segundo me informei, fartou-se de esperar por protocolos com as câmaras de <strong>Lisboa</strong> e <strong>Sintra</strong>.<br />
 Assim, embora tenha nascido em <strong>Lisboa</strong>, <strong>Alfredo Keil</strong> terá a sua casa-museu em <strong>Torres Novas</strong> – que foi quem se apresentou ao serviço.<br />
 <a rel="attachment wp-att-18142" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/09/o-olissipomago/pic01125/"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-18142" title="PIC01125" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/09/PIC01125-112x150.jpg" alt="" width="112" height="150" /></a>Finalmente chegamos ao cerne da questão – mais concretamente à pança lisboeta.<br />
 Porque imediatamente a seguir ao desengonçado caso de <strong>Keil</strong> surge a seguinte afirmação:<br />
 «<strong>”<em>Infelizmente situações destas são muito frequentes</em>”, comenta Appio Sottomayor. E dá outro exemplo: “<em>O espólio de Eça de Queirós foi parar a Tornos, aonde ninguém vai, em vez de estar aqui numa casa digna desse nome</em>”</strong>».<br />
 Confesso que não sei o que me irritou mais, se os «<strong><em>Tornos</em></strong>» do insigne olissipógrafo, se o «<strong><em>foi parar</em></strong>» ou se a «<strong><em>casa digna desse nome</em></strong>», ou se o «<strong><em>aonde ninguém vai</em></strong>». Mas imediatamente passaram-me pelas meninges cenas cruas dum filme de <em>zombies</em> que conheço muito bem, chamado «<strong><em>O Terreiro do Poço</em></strong>» (já não tenho mais cópias para emprestar ou vender, desculpem lá)…<br />
 O que terá levado o sr. <strong>Sottomayor</strong> a pensar que <strong>Eça</strong> pertence a <strong>Lisboa</strong> é algo que me intriga imenso: <strong>Eça</strong> viveu em <strong>Lisboa</strong> bem pouco tempo, não nasceu lá nem lá morreu, e bem pouco ali escreveu. E o que escreveu sobre a cidade foi a desancar na capital do Império, no seu funcionalismo carrapatoso, nas suas pêgas esbotenadas, nos seus condes de fancaria, na sua ópera bufa e na mais ridícula corrida de cavalos que alguém poderá algum dia ter visto em toda a sua vida sobre a terra.<br />
 Será que o ilustre olissipômago, perdão, olissipógrafo gosta de punições?<br />
 <img class="alignright size-thumbnail wp-image-18144" title="torm1" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/09/torm11-150x112.jpg" alt="" width="150" height="112" /><span style="color: #000000;">Cruzes, será?!…<br />
 </span>Obviamente, no <strong>Público–<em>on line</em></strong> surgiram imediatamente pessoas que prestimosamente explicaram ao sr. <strong>Appio</strong> a evidência da sua desdita – acrescentando, por exemplo, que só faltava transportar a magnífica (a meu ver pouco menos que ímpar) <strong>Casa-Museu de S. Miguel de Ceide</strong> para <strong>Lisboa</strong>, pois <strong>Camilo</strong> também foi um grande português e como tal devia ser visível na capital.<br />
 E porque não, digo eu, rapinar <strong>Amadeo</strong> a <strong>Amarante</strong> e <strong>Grão Vasco</strong> a <strong>Viseu</strong>?…<br />
 É claro que também acrescentei lá o meu brevíssimo e modesto comentário. É mesmo modesto.<br />
 <a rel="attachment wp-att-18145" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/09/o-olissipomago/pic01128/"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-18145" title="PIC01128" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/09/PIC01128-150x112.jpg" alt="" width="150" height="112" /></a><a rel="attachment wp-att-18146" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/09/o-olissipomago/pic01126/"><img class="alignright size-thumbnail wp-image-18146" title="PIC01126" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/09/PIC01126-150x112.jpg" alt="" width="150" height="112" /></a> Aqui está ele:<br />
 «<strong>Appio Sottomayor nada sabe sobre a Fundação Eça de Queiroz.<br />
 </strong><strong>O espólio não «foi parar a Tormes»*, como diz. Foi a família que o reuniu a partir do desejo da filha do escritor em abrigar naquela casa simbólica as memórias próximas do pai.<br />
 </strong><strong>Além da casa e do espólio é bom não esquecer que Eça está sepultado em Santa Cruz do Douro, que existe um “<em>Caminho do Jacinto</em>” (a subida à serra) e toda uma função cultural visível nas inúmeras visitas escolares (e não só), bem como nas várias iniciativas de carácter nacional e até internacional.<br />
 </strong><strong>Uma casa de Eça em Lisboa para quê? Emprego para amigos do centralismo parolo, como acontece em tantos casos?<br />
 </strong><strong>Veja-se a Fundação Vieira e Arpad…<br />
 </strong><strong>Eça só disse mal de Lisboa, não é de lá e viveu ali bem poucos anos. Tormes é considerada pelos queirosianos o ”<em>sítio</em>” mais alto do escritor, por razões de todos conhecidas.<br />
 </strong><strong>Sr. Sottomayor: Eça não é um coche, por muito que o senhor o queira coisificado</strong>».</p>
<p><a rel="attachment wp-att-18147" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/09/o-olissipomago/pic01123/"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-18147" title="PIC01123" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/09/PIC01123-150x112.jpg" alt="" width="150" height="112" /></a></p>
<p>&amp; toclas.</p>
<p><strong>*Na secção “O Público errou” o nome de Tormes aparece rectificado. Erro de edição, parece.</strong></p>
<p><strong> Nota: não mostro fotos do interior da casa ou do espólio de Eça de propósito. Vão lá!</strong></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
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		<title>Hugh Hefner? Pois sim..</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Sep 2010 01:38:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O mais nu por encomenda a mais nua. Um pediu, o coleccionador. O outro, o pintor, sim, sim, com certeza. Mas há-de ser um escândalo, digo o quê? Olhe, diga que é A origem do mundo, pois que há-de dizer?1975?! Estou em crer que foi lá para os idos de 1866. Mais compostinha, presa num [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O mais nu por encomenda a mais nua. Um pediu, o coleccionador. O outro, o pintor, sim, sim, com certeza. Mas há-de ser um escândalo, digo o quê? Olhe, diga que é A origem do mundo, pois que há-de dizer?1975?! Estou em crer que foi lá para os idos de 1866.</p>
<div id="attachment_18131" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a rel="attachment wp-att-18131" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/09/hugh-hefner-pois-sim/courbet-lorigine-du-monde/"><img class="size-medium wp-image-18131" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/09/Courbet-lórigine-du-monde-300x246.jpg" alt="" width="300" height="246" /></a><p class="wp-caption-text">Courbet</p></div>
<p>Mais compostinha, presa num rochedo, ó dela, à espera de Perseu há uma fartura de tempo, e o diabo do homem, perdão, deus, a matar medusas, a Andrómeda de Lempicka. Não teve de esperar até 2006. Em 1929 foi salva.</p>
<div id="attachment_18132" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a rel="attachment wp-att-18132" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/09/hugh-hefner-pois-sim/tamara-de-lempicka-andromeda/"><img class="size-medium wp-image-18132" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/09/Tamara-de-Lempicka-Andromeda-300x400.jpg" alt="" width="300" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">Tamara de Lempicka</p></div>
<p>Se playboy, playgirl. É para que saiba.</p>
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		<title>Portrait of a Lady I</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Aug 2010 23:05:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Perfectly hideous … and yet quite recognizable. É o que terá escrito acerca deste quadro, quando da sua primeira exposição pública, em 1915, a sua autora. Satisfeitíssima, pois fora justamente esse o resultado pretendido.   Vanessa Bell (1879–1961) gozava já por essa altura de amplo reconhecimento como um dos mais talentosos e activos elementos do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a rel="attachment wp-att-18113" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/09/portrait-of-a-lady-i/bell-mrs-st-john-hutchinson-1915/"><img class="size-full wp-image-18113   aligncenter" title="Bell - Mrs. St. John Hutchinson - 1915" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/Bell-Mrs.-St.-John-Hutchinson-1915.jpg" alt="" width="392" height="512" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Perfectly hideous … and yet quite recognizable.</strong></em> É o que terá escrito acerca deste quadro, quando da sua primeira exposição pública, em 1915, a sua autora. Satisfeitíssima, pois fora justamente esse o resultado pretendido.  </p>
<p style="text-align: justify;">Vanessa Bell (1879–1961) gozava já por essa altura de amplo reconhecimento como um dos mais talentosos e activos elementos do inovador e irreverente Bloomsbury Group – o qual integrava artistas e escritores como Roger Fry, Clive Bell, Duncan Grant, Leonard e Virginia Woolf (sua irmã mais nova), E.M. Forster, Maynard Keynes, Lytton Strachey e Dora Carrington. E que se rebelou abertamente contra os rígidos padrões vitorianos, em matéria de arte, de estética e também de costumes. Os Bloomsberries pensavam, escreviam, pintavam e viviam <em>playfully and lightheartedly</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Vanessa e Clive Bell mantinham, desde o nascimento dos seus dois filhos, um <em>open marriage</em>, que não impedia cada um de fazer a vida que bem entendesse. São conhecidos o breve <em>affair</em> de Vanessa com Roger Fry e a sua ligação duradoura com Duncan Grant, de quem teve uma filha, em 1918. Quanto a Clive, a <em>well renowned womanizer</em>, teve a sua mais que <em> fair share</em> de relações extraconjugais. Mary St John Hutchinson, mulher de um conhecido advogado, patrona das artes e aspirante a escritora foi uma das suas incontáveis amantes.</p>
<p style="text-align: justify;">E era-o ainda, quando encomendou este retrato e posou para Vanessa. Esta sabia evidentemente. Mas, tudo leva a crer, não gostava. Mesmo nada. Daí a <em>unflattering nature of the portrait</em>, o qual não deixa margem para dúvidas quanto aos seus <em>feelings</em> para com a modelo. Os especialistas destacam a forte influência fauvista deste quadro, traduzida na exuberância e audácia das<em> non-naturalistic</em> cores utilizadas. Opção justificada pela grande admiração que Bell tinha por Matisse. Quanto à concreta selecção de tons, as motivações terão sido bem outras — digo eu. Verde é verde. E logo este tom, é sabido, não favorece ninguém. O lilás também não ajuda. A combinação das duas,  fatal. Para não referir os  demais detalhes.</p>
<p style="text-align: justify;">Agrada-me este quadro. Gosto do que evidencia de normalidade por parte de quem o pintou. Porque mesmo nas mais extraordinariamente moldadas relações, há-de haver limites. O que vale por dizer que <em>some things never change</em>. E ainda bem: afinal, quem não se sente, não é filho de boa gente. E gosto, sobretudo, da deliciosa forma — tão subtil quanto eficaz — com que resolve o eterno problema da outra, do ciúme, da vingança. Quais faca, na liga ou na mão. Quais alguidar. Quais banhos de sangue. Tela, pincéis e tinta, numa mistura absolutamente letal de <em>repulsive colours</em> e fabuloso talento…   </p>
]]></content:encoded>
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		<title>Coisas do Diabo</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Aug 2010 19:51:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ao princípio estranhara. Ao tempo, achava que já tinha provado de tudo o que lhe podia dar o prazer da sua carne na carne de uma mulher. Fantasias tivera-as aos rodos, daquelas que faziam o Oshima parecer um menino de coro e que há muito tinham deixado de o ser porque vividas até ao tutano. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img title="Botero-Homenagem-a-Bonnard-1972" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/Botero-Homenagem-a-Bonnard-19725.jpg" alt="" width="436" height="553" /></p>
<p style="text-align: justify;">Ao princípio estranhara. Ao tempo, achava que já tinha provado de tudo o que lhe podia dar o prazer da sua carne na carne de uma mulher. Fantasias tivera-as aos rodos, daquelas que faziam o Oshima parecer um menino de coro e que há muito tinham deixado de o ser porque vividas até ao tutano. Dos relatos dos seus amigos das pândegas das sextas-feiras, também não vinha nada de novo. Apenas mais do mesmo. A verdade é que nenhuma das mulheres que tivera – e já não se lembrava se desistira de as contar depois da quinquagésima ou se daquela vez em que lhe apareceram quatro à porta de sua casa — lhe tinha feito uma exigência daquelas. Estranhara mas aceitara as regras do jogo. E acabou mesmo por se excitar com a ideia. Afinal de contas, pensou ele, sabia que tinha um talento especial para satisfazer todos os caprichos sexuais delas. E este, ao contrário de outros, nem era de todo irracional. Ela explicara-lhe que, por ser uma mulher casada, só podia ser assim. Uma vez por mês, sempre à quarta-feira à tarde que era quando o marido estava fora e ela tinha a sua folga semanal. Sempre na banheira, onde ela o esperava de corpo imerso. Para que não se sentisse suja e as impurezas daquele prazer proibido fossem todas pelo ralo abaixo logo que ela saísse do transe. Só podiam ser obra do diabo, dizia-lhe ela, aqueles estremeções que lhe percorriam o corpo todo. E ele acreditava nela, quando ela lhe jurava que com o marido, homem temente a Deus, não havia nada daquilo. E ele tinha de se depilar todinho, com o cabo e as lâminas que ela lá tinha guardado só para ele. Ou melhor, ele depilava-se até onde o seu braço alcançava e deixava-lhe a ela – e que prazer tinha ela nisso antes do outro prazer que aí vinha! – a minuciosa tarefa de remover as pilosidades traseiras. E ele já se habituara ao riso que tomava conta dela no momento da extracção daqueles tufos redondos que enfeitavam as suas nádegas (que eram enfeites, isso era coisa dela, porque ele nunca lhes conseguira por a vista em cima, nem através do espelho que havia lá em casa). Um riso que vinha assim em convulsões e que só podia ser uma espécie de preparação mental para as convulsões subsequentes. Tinha de ser assim porque com ela, mulher casada e também temente a Deus, nada a podia fazer sentir como uma cadela com cio. E, enquanto não desaparecessem aqueles pelos todos que eram o orgulho da virilidade dele, era assim que ela se sentia.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele estranhara ao princípio. Mas agora não se queixava. Sentia-se bem naquele papel de diabo. Só tinha pena de a coisa só acontecer uma vez por mês. Tinha de ser assim, dizia-lhe ela. O pelo tinha de voltar a crescer para ser arrancado como uma erva daninha.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>O tempo e o espaço</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Aug 2010 17:18:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[As imagens são tão boas que não vou estragar-vos o gosto com sermões. Ora vejam. Este é um anúncio da Playboy brasileira. O tema merece futuros posts de alguns dos mais ilustres autores aqui do cemitério (caramba, mortos, mas nem tanto).   A discrição deste suave anúncio de um gel entusiasma e, vá lá, comove. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As imagens são tão boas que não vou estragar-vos o gosto com sermões. Ora vejam. <br />
Este é um anúncio da Playboy brasileira. O tema merece futuros posts de alguns dos mais ilustres autores aqui do cemitério (caramba, mortos, mas nem tanto).</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-18101  aligncenter" title="playboy_0" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/playboy_0.jpg" alt="" width="629" height="435" /><br class="spacer_" /></p>
<p style="text-align: center;"> </p>
<p>A discrição deste suave anúncio de um gel entusiasma e, vá lá, comove. Não deve haver melhor gel. Manix-gel high power lubrification, se querem saber.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-18098  aligncenter" title="Manix gel" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/Manix-gel.jpg" alt="" width="450" height="614" /></p>
]]></content:encoded>
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		<title>O drama do desemprego</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Aug 2010 10:09:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Empregos. Jobs. Mesmo aqui, neste Cemitério de Gente Morta, estamos longe de ser insensíveis ao drama do desemprego, um dos cancros do nosso mundo globalizado. Queremos ajudar. Mas reconhecemos que não é fácil. Cada vez há menos postos de trabalho decentes e, quando aparecem, reunir as condições de candidatura exige recursos filosóficos que não estão [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Empregos. Jobs. Mesmo aqui, neste Cemitério de Gente Morta, estamos longe de ser insensíveis ao drama do desemprego, um dos cancros do nosso mundo globalizado. Queremos ajudar. Mas reconhecemos que não é fácil. Cada vez há menos postos de trabalho decentes e, quando aparecem, reunir as condições de candidatura exige recursos filosóficos que não estão ao alcance de qualquer um. Para ser franco, acho mais fácil resolver o paradoxo de Zenão…</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-18092  aligncenter" title="cullen-job" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/cullen-job.jpg" alt="" width="450" height="147" /></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Um Perfeito Vazio</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Aug 2010 20:48:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[  Não se lembrava da última vez que tomara um banho de imersão. Naquele dia, apetecera-lhe. Encheu a banheira e despejou lá para dentro uns sais e mais um gel, presente de Natal ou de anos, não sabia ao certo. O rosa-vivo destes tingiu a água e a espuma. No ar, um intenso cheiro a rebuçado de framboesa. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> <a rel="attachment wp-att-18074" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/um-perfeito-vazio/botero-homenagem-a-bonnard-4/"><img class="aligncenter size-full wp-image-18074" title="Botero-Homenagem-a-Bonnard" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/Botero-Homenagem-a-Bonnard3.jpg" alt="" width="300" height="380" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Não se lembrava da última vez que tomara um banho de imersão. Naquele dia, apetecera-lhe. Encheu a banheira e despejou lá para dentro uns sais e mais um gel, presente de Natal ou de anos, não sabia ao certo. O rosa-vivo destes tingiu a água e a espuma. No ar, um intenso cheiro a rebuçado de framboesa. Ou seria morango? Sentia-se vagamente ridícula. Hesitou. Mas aquilo era suposto ser relaxante, revigorante, activar a circulação nas pernas… Largou o roupão e entrou na banheira. Excelente, a temperatura da água. Procurou uma posição confortável. Olhou à volta — o lavatório, o pequeno armário por baixo que mandara há tempos fazer, o espelho a começar a embaciar. Será que também é cor-de-rosa, o vapor? Sorriu da absurda ideia e fechou os olhos. Para logo os abrir e, rapidamente, espreitar e voltar a fechá-los. Tudo na mesma.   </p>
<p style="text-align: justify;">Às vezes parecia-lhe ainda vê-lo ali. De pé, diante do lavatório. A fazer a barba. Nu.</p>
<p style="text-align: justify;">Estes <em>flashes</em> causavam-lhe uma irritação difícil de controlar. A mesma que sentia quando, dali, de onde estava, ele a interpelava. Com os seus problemas — pessoais, familiares, profissionais, tanto fazia. “Olha lá”, começava invariavelmente. Mesmo sabendo, porque tantas vezes ela lho dissera, que tal tratamento lhe desagradava. Depois as questões, os dilemas, os impasses, quase todos fruto da sua exasperante falta de sensibilidade e de empatia, de instinto e de tacto. Que o passar dos anos agravava. Ela respondia, resolvia. Seguiam-se os cenários, antecipados à exaustão, construídos uns sobre os outros, hipotéticos e surreais — então e se ele me responder que? e se eles me propuserem antes que? e se não aceitarem isto? e se o tipo começa com a conversa de outro dia? e se? e então se? olha lá, e se? Não valia a pena encurtar o duche: ele segui-la-ia até ao quarto. Era um exercício cansativo e inútil. Mas ao qual não tinha como escapar. A alternativa era o inferno, logo ali, logo pela manhã. Sabia-o, porque experimentara. Não responder ou explicar que estava absorta nos seus problemas. O resultado, sarcasmo e rancor: <em>obrigado, muito obrigado, está uma pessoa cheia de problemas e é esta a ajuda que recebe; da próxima vez que me vieres chatear com os teus dramas, vais ver como é!</em> Não era provável que isso viesse a suceder. Percebera há muito que neste, como noutros planos, nada era como esperara. Tentara. Mas sem êxito. <em>Foste parva, agora admiras-te</em>, <em>tão inteligente para umas coisas…</em>, <em>esses tipos são umas bestas, só percebem à bruta,</em> fora o que obtivera, de conforto e de conselho. Quisera crer tratar-se de incapacidade dele: se mal resolvia os seus problemas, como haveria de saber acudir aos alheios? Logo percebera ser algo muito diferente: uma visão totalmente enviesada do amor, do casamento, dos papéis do homem e da mulher. Profunda, enraizada, ancestral. Que ele nem sob tortura admitiria professar. Mas que praticava, se praticava. Por isso o desconcertava a insistência dela na reciprocidade: não era suposto maçá-lo com os seus problemas, não era suposto sequer tê-los.  </p>
<p style="text-align: justify;">Piores, muito piores eram os outros <em>flashes</em>. Felizmente cada vez mais espaçados. Imagens e sons de explosões de fúria descontrolada. Sempre dirigida a ela. Fosse qual fosse o detonador. Gritos e ameaças, insultos e reprimendas. Até acalmar. Até à próxima. Que só não sabia quando, onde e por que motivo ocorreria. Nunca pedira perdão. Nunca mostrara arrependimento. Uma ou outra vez admitira, displicente, ter-se talvez excedido, mas — que diabo! -, tinha razão. Tinha sempre razão. Os gritos eram um suplício, as descomposturas um enxovalho: <em>vê se metes isso de uma vez nesse bestunto</em>, <em>não me voltas a fazer isso</em>, <em>não me voltas a colocar numa situação destas, ouviste?</em> Implorava-lhe que parasse. <em>Não consigo, não vês que não consigo? Eu bem te disse para não me irritares</em>. Ou então, <em>tu pelos vistos não percebeste ainda a gravidade do que fizeste</em>. E continuava. Para que ela percebesse. Só que ela persistia em não o fazer. Em não achar inaceitável telefonar-lhe do escritório a avisar que ia chegar mais tarde, pedir-lhe que fosse, muito excepcionalmente, claro, buscar as crianças ou ao supermercado comprar leite para o dia seguinte, o facto de a empregada não ter lavado e engomado no mesmo dia (de chuva torrencial) <em>aquela</em> camisa branca, igual a todas as outras, que ele decidira (<em>in pectore</em>), usar no dia seguinte.</p>
<p style="text-align: justify;">A princípio optara por ignorar. Não fora fácil, mas desenvolvera um excelente auto-domínio. Só que tanto para ele, como para as crianças, que assistiam às cenas – como impedi-lo? – isso equivalia a submissão. Passou a ripostar. A agressividade subiu de tom. Aos primeiros encontrões arranjou forças para o que há muito sabia ter de fazer. Nos meses seguintes, a violência continuou, sob todas as formas pelas quais ele sabia poder atingi-la, mostrar-lhe que ela estava ainda ao seu alcance. Mas não era a mesma coisa. Já não dormia com o inimigo. Já não partilhava com ele a intimidade. A casa de banho cor-de-rosa. O medo, a humilhação, o embaraço haviam dado lugar a um delicioso, desmedido e libertador alívio.   </p>
<p style="text-align: justify;">Abriu de novo os olhos. Só para mirar, mais uma vez, o lavatório, o pequeno armário por baixo, o espelho já completamente embaciado. De branco, afinal. O vazio, onde antes estava ele. Um perfeito vazio. Imenso e luminoso. Sorriu e estendeu o pé na direcção da misturadora: <em>será que consigo pôr um bocadinho mais de água quente?</em>   </p>
]]></content:encoded>
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		<title>Le coeur n´a qu´une seule bouche</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Aug 2010 04:24:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Não revi Alphaville. Bem, não hoje –  e quem raio quer viver em Alphaville? Morrer. Já morreu em Alpahville, um bocadinho? Bem, não hoje. E a culpa é de Truffaut. Não, não me enganei. Há muitos anos, nem sei quantos, sei no entanto que tudo cheirava a novo na sala, até o escuro era novo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/dcVcwwo8QFE?fs=1&amp;hl=pt_PT" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/dcVcwwo8QFE?fs=1&amp;hl=pt_PT" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object>
</p>
<p style="text-align: justify;">Não revi Alphaville. Bem, não hoje –  e quem raio quer viver em Alphaville? Morrer. Já morreu em Alpahville, um bocadinho? Bem, não hoje. E a culpa é de Truffaut. Não, não me enganei. Há muitos anos, nem sei quantos, sei no entanto que tudo cheirava a novo na sala, até o escuro era novo e o ar condicionado limpo, fui ver Alphaville. Não sei se era nova, a sala, cheirava, pelo menos, a de novo. Sempre troquei datas e acontecimentos, tinha-me enganado, portanto, não muito, porém, era Jules et Jim, no Fórum Picoas, num ciclo de cinema ao abrigo da Nouvelle Vague. Ó diabo. Tão velha estava a Nouvelle e  não sabia de nada dela — ainda não sei. Na altura tinha alegrias à hora certa, solitárias como os vícios. Outra: Gulbenkian. Os vidros rasgavam a sala de alto a baixo e fora era dentro: sempre fui feliz disso, e ainda. Respiro fundo. Descanso. Jardins. Ruas. Instituições no centro do mundo que nos aliviam do peso ignorância: museus, cinemas, teatros, galerias e livrarias. Bibliotecas. Já disse jardins, mais ou menos botânicos, ruas? Antiquários, passeios, esplanadas. Mais que tudo livros, textos e conversas. Conversas com os livros e os textos também. Música. Habituei-me cedo e bem a ir sozinha, sem interrupções que não fossem as minhas, sem enervantes toques rápidos e repetidos no braço, sem vozes a comerem-me a paciência. É horrível, não é, dizer isto assim? Da primeira vez que vi a menina Bailarina de Degas, depois de a circundar dentro do caixão de vidro, eu ponteiros de relógio, tive de me sentar a vê-la. Foi na Tate. Sentei-me no banco, daqueles bancos o mais ao lado, de onde via quase tudo, menos o outro lado. Quem quereria ficar lá comigo, sabe Deus quanto tempo foi o tempo que fiquei, só a pasmar, sem um único pensamento? De vez em quando dou por mim, não a rememorar, a ver, de facto, o peso perfeitamente distribuído para aquela posição. Sem interrupções, nem enervantes toques rápidos e repetidos no braço, sem vozes a comerem-me a paciência. Se voltar a ter um amor, logo logo vou-lhe perguntar: você adormece? Eu  queria. A ver filmes no sofá, no ballet, em conferências. Em tudo o que lhe desse seca e a mim gosto, ou mesmo que lhe desse gosto, queria um amor que adormecesse. Ao meu lado, claro, muito diferente de cada um para seu lado. Também não precisa de ter um ouvidinho de tuberculoso. Há qualquer coisa sexy num homem que ouve ligeiramente mal. E que adormece. Tudo está bem quando um homem adormece. Até o malinho que apetece fazer-lhe. Não vale a pena voltarmos ao mesmo, já tinha ficado assente que eu era horrível. Isto para dizer que acabei de rever Jules e Jim. Tinha, no entanto, planeado ontem um texto sobre Paul Éluard dito pela Natacha. Duas vezes na mesma vida o mesmo desencontro-encontro. Gosto-os tanto – ao Éluard de Natacha e ao Jules e Jim. Só poderia gostar mais se um amor que fosse meu, eu dele, ressonasse agora, ao de leve, o genérico.</p>
<p>
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/SHikpdf8ktM?fs=1&amp;hl=pt_PT" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/SHikpdf8ktM?fs=1&amp;hl=pt_PT" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
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		<title>As mulheres, os homens #2</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2010/08/as-mulheres-os-homens-2/</link>
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		<pubDate>Sun, 29 Aug 2010 21:34:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[A adorável princesa da Sardenha, que tanto veneramos, veio explicar em francês que as mulheres são diferentes dos homens por quererem tudo. Tout. O que, claro, a qualquer homem parece logo rien du tout. Traduzindo, e nem é preciso ser para esperanto, os homens querem ontologicamente a mesma coisa: só que para os homens qualquer coisa, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A adorável princesa da Sardenha, que tanto veneramos, <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/pardon-my-french/"><strong><span style="color: #ff0000;">veio explicar em francês</span></strong> </a>que as mulheres são diferentes dos homens por quererem tudo. <strong>Tout</strong>. O que, claro, a qualquer homem parece logo <strong>rien du tout</strong>. Traduzindo, e nem é preciso ser para esperanto, os homens querem ontologicamente a mesma coisa: só que para os homens qualquer coisa, a mais pequenina coisa, é já tudo. O homem é holográfico: basta-lhe a fina abertura do decote e fica logo na veemente excitação de quem já viu a eternidade – um nimbado mamilo e valha-nos Deus e os sonhos de toda a corte celestial!<br />
Mas querem os dois, masculinos e femininos, a mesma coisa – os homens a mais pequena partícula, que acarinham como se fosse tudo, porque é <strong>tudo</strong>; as mulheres querem tudo com medo que o <strong>tudo</strong> seja menos do que a soma das mais pequeninas partes.<br />
Vamos lá ser pedagógicos e ouvir cada um — uma mulher, um homem – pedir a mesma coisa. <strong>Vão ouvir</strong> que cada um, pedindo o mesmo, pede coisas diferentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Ladies first, claro, com mil perdões pelo execrável visual do vídeo – não vejam, ouçam só:</p>
<p style="text-align: justify;"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/afYODl73Wcs?fs=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/afYODl73Wcs?fs=1" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p style="text-align: justify;">Ouviram? Claro que é lindo. Mas perceberam o artifício, a pose, o subtil prazer de tirar mais dor da contemplação da dor do que da própria dor? Ouçam lá agora um homem a querer a mesma coisa:</p>
<p style="text-align: justify;"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/WdiM8W324qQ?fs=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/WdiM8W324qQ?fs=1" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p style="text-align: justify;">Claro que já viram a diferença. Até lhe custa começar, de tão fundo vem a voz. Rouca de emoção pela coisa que se quer. Nenhum cuidado com a expressão, toda a atenção vai direitinha para o coração um bocadinho partido da silly girl – ó, a forma como o rapaz aconchega a silly girl entre a língua e o céu da boca!</p>
<p style="text-align: justify;"> <em>A canção foi composta por Tom Waits para um dos meus filmes de culto, o One From the Heart, de Francis Coppola. Infelizmente, não consegui encontrar o momento mais comovente do filme, quando o personagem do Frederic Forrest, que não sabe cantar, do que a namorada sempre se queixava, canta o “You’re my sunshine” no aeroporto para que ela, arrebatada por um cantor, pianista, bailarino (tudo!), não o deixe.</em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Pardon my french..</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Aug 2010 16:23:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Bichezas puras e líricas.. pois sim, Manuel Fonseca. Não é para o amor que os homens pedalam desde os dias do triciclo, é para o muro! E este não cai que não é o de Berlim: sempre foi assim, sempre assim será. E porquê? Porque o homem, essa besta flor, separa o mundo em tulas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Bichezas puras e líricas.. pois sim,<a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/as-mulheres-os-homens/"> Manuel Fonseca</a>. Não é para o amor que os homens pedalam desde os dias do triciclo, é para o muro! E este não cai que não é o de Berlim: sempre foi assim, sempre assim será. E porquê? Porque o homem, essa besta flor, separa o mundo em tulas e kittys, quer moedas de uma só face. Azarucho. Não há. As mulheres são de outra loiça, pedalam para outro lugar, querem o que querem. E o que é? Eu digo-lhe, não o deixo a perguntar-se do além como o tio Freud. <span style="background-color: #ff99cc;"><strong>Tudo</strong></span>. Não se assuste, porém, não vá provocar um estampido entre a sua espécie: o<span style="background-color: #ff99cc;"><strong> tudo</strong></span> das mulheres é feito de<em> <a href="http://www.youtube.com/watch?v=x8bWDuC9A3A">ces petits riens que me venaient de vous.</a></em></p>
<p style="text-align: justify;">
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="640" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/0bm9A3Ts6II?fs=1&amp;hl=pt_PT" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="640" height="385" src="http://www.youtube.com/v/0bm9A3Ts6II?fs=1&amp;hl=pt_PT" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object>
</p>
<p style="text-align: justify;">Ps: Manuel Fonseca, francamente, então passou-lhe pela cabeça que<a href="../2010/06/havera-jantar-mas-nao-descascamos-as-batatas/"> deixava, como deixou, neste lindo cemitério, o Christopher Walken a  gritar pela Delilah e eu não ia ver isso tudo tudinho?</a></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
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		<title>A outra infância # 4</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2010/08/a-outra-infancia-4/</link>
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		<pubDate>Sun, 29 Aug 2010 13:04:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Nos tempos homéricos, os gregos viajavam pelos líquidos caminhos: «todo o dia tinham desfraldadas as velas das naus, que corriam sobre o mar; em seguida o Sol punha-se e a sombra cobria todos os caminhos.» Assim chegou Ulisses ao fim da terra, ao curso profundo do Oceano, onde se situava o país dos Cimérios, coberto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/Gonçalo-bebé1.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/Gonçalo-bebé1-300x300.jpg" alt="" title="Gonçalo" width="300" height="300" class="aligncenter size-medium wp-image-18049" /></a></p>
<p>Nos tempos homéricos, os gregos viajavam pelos líquidos caminhos: «todo o dia tinham desfraldadas as velas das naus, que corriam sobre o mar; em seguida o Sol punha-se e a sombra cobria todos os caminhos.» Assim chegou Ulisses ao fim da terra, ao curso profundo do Oceano, onde se situava o país dos Cimérios, coberto de nuvens e de brumas. Naquele lugar, que o Sol, com os seus raios, nunca aquece, estendendo sobre aqueles mortais uma noite maldita, haveria Ulisses de, por indicação de Circe, descer à mansão dos mortos e interrogar o velho Tirésias (<strong><em>Odisseia</em></strong>, Canto XI).<br />
Ora, o que aqui me interessa nesta visão ainda brutal dos nossos heróicos gregos sobre o mundo e sobre nós é a distinção radical entre o dia e a noite, a alegria e a tristeza, a luz e a escuridão. Assim é a minha infância, tal como hoje me lembro dela.<br />
Os mortos habitam, como diz Tirésias, uma região sem alegria, à qual não chega a luz do Sol. Aquiles, o herói Aquiles, agora morto, pálido, exangue, confessa a Ulisses preferir viver como um escravo de um qualquer homem sem importância nem património do que reinar sobre todos os mortos, que já nada são.<br />
A alegria, com efeito, pertence ao mundo dos vivos, para o qual Ulisses quer regressar. Por isso, o nome do fruto que cresce ao sol, que os latinos hão-de chamar <em>apricus</em>, há-de, mais tarde, querer também dizer abrigo. Ter abrigo, com efeito, não é ter um telhado, mas ter acesso ao Sol. Assim, nas nossas cidades, o excluído não é o que não tem tecto, mas o que não tem acesso ao Sol, à luz, à alegria e à vida. É o que vive na sombra, esquecido da verdade do ser, pois que o seu sangue não é aquecido pelo Sol.<br />
Assim é a saudade da minha infância. Lembro dentro de mim, criança, esta distinção radical entre a noite e o dia, a tristeza e a alegria, a morte e a vida; esta crença natural na luzidia verdade do ser que me rodeia e ao qual me entregava com o seu brilho reflectido nos meus olhos; esta vontade corajosa de viver rindo, sem medo de chorar – porque sempre chorando o medo… Outras coisas terei experimentado e sido e vivido. Só disto tenho saudades. A isto apenas regresso. Tudo o resto morreu, esquecido. </p>
]]></content:encoded>
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		<title>As mulheres, os homens</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Aug 2010 09:37:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[As mulheres. Falemos então de “as mulheres”. São seres alados, bem sei, mas o que nelas nos tortura é a dúvida. Negam. Bem podem os sentidos delas dizer o contrário. Negam na mesma. O beijo que lhes pomos na boca, os nossos dedos a apertar-lhes onde a carne é macia, soube-lhes melhor que framboesas. Negam. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">As mulheres. Falemos então de “as mulheres”. São seres alados, bem sei, mas o que nelas nos tortura é a dúvida. Negam. Bem podem os sentidos delas dizer o contrário. Negam na mesma. O beijo que lhes pomos na boca, os nossos dedos a apertar-lhes onde a carne é macia, soube-lhes melhor que framboesas. Negam. Podia insistir. Não insisto, Kate Winslet é que confessa. A cantar.</p>
<p style="text-align: justify;"><object width="480" height="295"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/Ei57e5s3YWI?fs=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/Ei57e5s3YWI?fs=1" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="295" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p style="text-align: justify;">Os homens. Falemos então de “os homens”. Seres de coração puro, líricos. Seres sofridos, tanto faz que seja a cappela ou com orquestra e coro. A violência dos trabalhos, a áspera barba, o grosseiro fato de macaco: tudo fragilidades quando se arranha a superfície. Movem-se como ursos: bailarinos inconfessados e insuspeitos. Mesmo num triciclo onde pedalam a sua inocência é já para o amor que pedalam porque é muito só o homem sem amor. Mesmo ou se canta e dança como James Gandolfini.</p>
<p style="text-align: justify;"> <object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/JSwrJHZERKc?fs=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/JSwrJHZERKc?fs=1" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p style="text-align: justify;">Os extractos são do peculiar “Romances and Cigarettes” realizado por bizarro John Turturro.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>GODARD! Odeio-te..</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2010/08/godard-odeio-te/</link>
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		<pubDate>Sat, 28 Aug 2010 20:34:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Há mil razões para odiar Godard. Se esta não vos for suficiente, a mim basta-me, recordem Rimbaud, o mínimo feminino de alteração obrigatória, je est une autre, na boca de Nana. Ou lembrem-se dela a dançar.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há mil razões para odiar Godard. Se esta não vos for suficiente, a mim basta-me, recordem Rimbaud, o mínimo feminino de alteração obrigatória, je est une autre, na boca de Nana. Ou lembrem-se dela a dançar.</p>
<p><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/KY5An_X7o4o?fs=1&amp;hl=pt_PT"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/KY5An_X7o4o?fs=1&amp;hl=pt_PT" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="385"></embed></object>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
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		<title>Encontrei a Eugénia na ma-schamba</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Aug 2010 14:19:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A Ma-Schamba que é um belo de um blog com cambiantes índicos, elogiou a nossa Eugénia. Embora quem a boca da nossa Eugénia beija não beije, Deus lhes valha, a boca de todos os mortos deste cemitério, não quer a gerência deixar de sublinhar a merecida referência e pedir à Ma-Schamba que se sinta veementemente [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A <a href="http://ma-schamba.com/">Ma-Schamba </a>que é um belo de um blog com cambiantes índicos, <a href="http://ma-schamba.com/politicamente-correcto/lily-allen/"><strong><span style="background-color: #ffffff;"><span style="color: #ff0000;">elogiou a nossa Eugénia</span></span></strong></a>. Embora quem a boca da nossa Eugénia beija não beije, Deus lhes valha, a boca de todos os mortos deste cemitério, não quer a gerência deixar de sublinhar a merecida referência e pedir à Ma-Schamba que se sinta veementemente abraçada.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Um dois três, mate lá outra vez..</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Aug 2010 13:38:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Reincide. Reincide sempre. E nós, reincido,  nós em ahs e ohs. Queremos mais: o Manuel S. Fonseca mata bem e, como em rima bebé, matou Bogart como ninguém: de cansaço, desilusão e, por ser carta fora do baralho, rosto fora do talho, peça que não se sabe pegar. Depois contou-nos dos olhos abertos de Louise [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Reincide. Reincide sempre. E nós, reincido,  nós em ahs e ohs. Queremos mais: o Manuel S. Fonseca mata bem e, como em rima bebé, matou <a href="http://www.etudogentemorta.com/cemiterio/humphrey-bogart/">Bogart </a>como ninguém: de cansaço, desilusão e, por ser carta fora do baralho, rosto fora do talho, peça que não se sabe pegar. Depois contou-nos dos olhos abertos de Louise Brooks e de como viram nele o que Hollywood acabou por lhe dar: numa prosa de sombras, a escuridão nossa de cada dia. E disse o como, o onde e por mão de quem. Depois calou-se e não nos disse mais nada. A culpa é do Bogart: porque não fez também filmes de capa e espada?! Um bilhete para a<a href="http://www.etudogentemorta.com/cemiterio/humphrey-bogart/"> sessão da tarde</a>, se faz favor.</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
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		<title>O dedo no Phantom</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Aug 2010 01:43:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[O Herói é o nome de guerra de um “quase-autor” do É Tudo Gente Morta. Quase autor, quase nómada, tem colaboração bissexta, que eu acolho e, mero intermediário, publico com o maior gosto na minha campa privativa. É meu kamba, meu amigo, e há tão poucos.   O dedo no Phantom Um post do Herói [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>O Herói é o nome de guerra de um “quase-autor” do É Tudo Gente Morta. Quase autor, quase nómada, tem colaboração bissexta, que eu acolho e, mero intermediário, publico com o maior gosto na minha campa privativa. É meu kamba, meu amigo, e há tão poucos.</em></p>
<p style="text-align: center;"> <img class="size-large wp-image-18015  aligncenter" title="Rolls-Royce_Drophead_1024x768" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/Rolls-Royce_Drophead_1024x768-500x375.jpg" alt="" width="500" height="375" /></p>
<h2 style="text-align: justify;">O dedo no Phantom<br />
Um post do Herói</h2>
<p style="text-align: justify;">E eu ia dizer que não a um Cadillac Ride &amp; Drive? Fui lá depois de sair do consulado da fraternité. Os franceses, é sempre outra conversa. Fala-se do que se quer e, no fim, só se falou de cultura. Abençoados attachés.<br />
Já percebeste, meu, que me apanhaste na tua L.A. Saí de Santa Monica e o gps levou-me ao Groove. “<em>Esqueça a snobeira, lá é que é</em>”, disse-me o attaché, a pensar que eu queria o que ele estava a pensar. Quando cheguei, vi que era verdade. Um gado novo. Não te vou dizer fresco porque aqui, ainda estão na catequese e já coalharam (as merdas que eu aprendi convosco, meu).<br />
Fui ao que fui sem saber ao que ia. Queria um test drive da Cadillac a lembrar-me do espada do velho Pinto. No meio do buzz mordeu-me o sotaque patrício*. O brother andava sem pisar, contente e senhor de si. Meti conversa e eram dois lá da banda mais garinas** locais.  <br />
<em>O que é que vocês estão a fazer aqui e komé k é? Ah, eu lá moro em alvalade e os meus kotas…***</em> Em breve síntese, como diria o redundante Gebo, nosso prof de língua pátria, os ndengues**** estão cá a estudar e têm pais ministros – vá lá, da nomenklatura amiga e democrática. Como me viram amancebado com o Cadillac, gabaram-se: <em>meu, vou mostrar-te o que é um bom mambo*****</em>. Desceram-me até ao parking e enfiaram o ticket na boca do valet. Três minutos depois caíram-me os queixos. O caxico***** aparece com um Phantom, meu. Como a tua ignorância na matéria é lendária, explico-te: são quinhentos mil dólares de carro. Um brinquedo feito pela Rolls Royce, com motor V povoado por 12 cilindros e 48 válvulas. Phantom Drophead Coupé em mãos pouco mais do que adolescentes.<br />
Estes putos estão a formar o espírito para servir a terra que os heróis libertaram das algemas******. Estranhei-lhes a contradição. Estranharam-me a estranheza. “<em>Komé, temos que representar a pátria, é o nível, não vamos dar uma de subserviência.</em>” Sabem falar, meu, e eu subservi logo: em 5 segundos já batíamos as 60 milhas. Só para cheirar, que em L.A. não se brinca. “<em>Mama 25 aos 100, guio-o com um dedo e rasga como um Porsche</em>”.<br />
Não duvidei: um dedo para o Phantom, a mão inteira para segurar a terra amada que me viu nascer.</p>
<p><em><strong>Glossário<br />
da lavra do esquecido Manuel S. Fonseca</strong> </em></p>
<p><em>*Patrício – designa reconhecimento e pertença entre angolanos negros<br />
** Garina – jovem de sexo feminino<br />
*** Kotas – Mais velhos, pais<br />
****Ndengues – mais novos, crianças<br />
****Ter um bom mambo – ter alguma coisa de valor<br />
*****Caxico – criado, tratamento depreciativo<br />
******Os heróis quebraram as algemas – verso do hino do 4 de Fevereiro, data simbólica do início da luta de libertação de Angola</em></p>
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		<title>A outra infância #3</title>
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		<pubDate>Fri, 27 Aug 2010 23:43:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Eça de Queiroz</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Humpf!… Humpf, sim!… E tanto humpf porquê?!, perguntar-me-ão. Simplesmente porque toda a minha primeira vida foi um conjunto sórdido de não-actos e, como tal, não teve direito a registos documentais de gabarito – bem ao contrário do que se passou com o esfusiante e radiofónico MSF ou com a convincente e empenhadíssima Eugénia da Sardenha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><br class="spacer_" /></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<div id="attachment_18004" class="wp-caption aligncenter" style="width: 239px"><a rel="attachment wp-att-18004" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/humpf/kk-5/"><img class="size-full wp-image-18004  " title="kk-5" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/kk-5.jpg" alt="" width="229" height="265" /></a><p class="wp-caption-text">A amiba sorridente…</p></div>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p style="text-align: justify;">Humpf!…</p>
<p style="text-align: justify;">Humpf, sim!…<br />
 E tanto humpf porquê?!, perguntar-me-ão.<br />
 Simplesmente porque toda a minha primeira vida foi um conjunto sórdido de não-actos e, como tal, não teve direito a registos documentais de gabarito – bem ao contrário do que se passou com o esfusiante e radiofónico <strong>MSF</strong> ou com a convincente e empenhadíssima <strong>Eugénia da Sardenha e Duas Sicílias</strong>.<br />
 Eu era um abrolho. Olhe-se para aquele sorrisinho de amiba sonolenta, os ombros descaídos (mas aqueles ombros, <em>Mon Dieu</em>!)… Um horror.<br />
 Tenho, isso sim, uma foto interessante da minha <strong>Comunhão Solene</strong> – que pensava fazer interagir para este requisito tão específico do <strong><em>ETGM</em></strong>.<br />
 Cedo piei! <br />
 Que não, porque agora vai haver também performativos comungantes escarrapachados neste nosso cemitério, mais dia, menos dia. Bem, é costume dizer-se que a vingança se serve fria. Lá terei de esperar, aguentando para já estoicamente os dichotes e zombarias da turba multa que o documento acima fazem prever. E com toda a razão, repito.<br />
 Foi um momento estranho, este. Sei que estava na <strong>Piscina da Granja</strong>, pois nos anos 50 só lá vendiam sorvetes de copinho e eu tenho a respectiva colherinha na mão. Recortaram-me do fundo sem qualquer explicação plausível.<br />
 Mas o que sei desses tempos é que – dizia-me a minha <strong>Mãe</strong> aos 16 anos – «<strong>eras amoroso</strong>» (<strong>I&amp;%$¥§≠ώЏжΣ&amp;YT</strong>, e mais<strong> GXXXXX!!!!</strong>)…<br />
 Sei bem porque era <em>amoroso</em>: não mexia uma palha, sempre com aquele sorrisinho parvo. Os meus pais, que jogavam <em>bridge</em> em casa dos amigos granjolas, nunca tinham problemas comigo: bastava darem-me uma caixa de fósforos para as mãos e eu, pacientemente, tirava-os todos da caixa, um a um, para depois tornar a metê-los lá dentro segundo o mesmo método. Estava nisto horas e nem sequer um incêndio ateei! <br />
 Um protozoário…<br />
 Um dia, enfim, tudo mudou. Aos oito anos.<br />
 Havia um jantar lá em casa, várias pessoas convidadas, os meus irmãos tinham vindo de Lisboa, onde estudavam, e eu iria ter lugar à mesa junto dos mais velhos. Contavam-se anedotas aos berros, como de costume, e estava tudo muito divertido, como de costume.<br />
 Então eu disse que também tinha uma anedota para contar…<br />
 Acharam imensa graça que eu, o trambolho silencioso e emimesmado, tivesse (ou sequer soubesse!) uma piada. O que aquela gente se riu desse simples facto…<br />
 Incitaram-me imenso, «<strong>ora conte lá a sua anedota, que querido!…</strong>». Assim acicatado eu fui-me em frente com a prosa – que era um dos vários <strong><em>cúmulos</em></strong> que povoavam o anedotário do século. Comecei por perguntar à amável e condescendente plateia, com a vozinha prenhe da inocência que se aceita num catraio daquela idade:<br />
 – <strong>Sabem qual é o cúmulo do azar?…</strong> Depois do «<strong>não</strong>» genérico (ignorantes!) lá continuei na minha pedagógica missão:<br />
 – <strong>É ser filho da Brigitte Bardot e mamar por <em>biberon</em>!…<br />
 </strong>Foi um sucesso enorme! Bem à medida dos urros do espanto e da repreensão logo ali instalados, e dos risinhos parvos das minhas duas irmãs e da minha <strong>Alice</strong>. E à época eu nem fazia a mais pequena ideia da existência do tremendo <strong>Sigmund</strong>! Veja-se lá bem…<br />
 Com isto passei a contar com a censura prévia do meu irmão <strong>Zé Maria</strong>, que me ouvia em confissão sempre que eu declarava publicamente a existência de nova piada em <em>stock</em>. Algumas passavam, outras não.<br />
 Vivíamos a <strong>Ditadura</strong>, era o que era…<br />
 Pouco tempo depois (concretamente a seguir à <strong>Primeira Comunhão</strong>) ingressei no restrito grupo dos <strong><em>terroristas da Granja</em></strong>, assim crismado pelo interessante conjunto de patifarias que conseguia produzir num único dia. E três anos mais tarde, ainda que sob identidade alternativa devido à pouca idade acumulada, ascendi ao já mediático grupo dos <strong><em>teddy boys da Granja</em></strong>, com direito a pelo menos duas primeiras páginas no velho <strong><em>Jornal de Notícias</em></strong> (que ao tempo era ainda mais pateta do que é hoje) e um rol de desacatos em carteira verdadeiramente impressionante.<br />
 Vinguei-me, pois, dessa foto, e da imagem deformada que ela de mim fazia.<br />
 &amp; toclas.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<div id="attachment_18009" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a rel="attachment wp-att-18009" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/humpf/mae-lx-2/"><img class="size-medium wp-image-18009" title="mãe-lx" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/mãe-lx1-300x424.jpg" alt="" width="300" height="424" /></a><p class="wp-caption-text">Ela sim, era bonita</p></div>
<p><br class="spacer_" /></p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Ludopédico leonino — mais uma grande noite europeia # 1</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2010/08/ludopedico-leonino-mais-uma-grande-noite-europeia-1/</link>
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		<pubDate>Fri, 27 Aug 2010 15:34:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Cruz na porta da tabacaria! Às 18H estava sentado à secretária, laborando em prol do share holder e nem me lembrei. Na verdade – declinemos as liberdades poéticas – lembrei-me, mas não quis saber. De propósito: eles que dessem pela minha falta. Quem morreu? O próprio Alves? Dou Quando saí ao fim do dia, o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h3><em></p>
<div id="attachment_17980" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><em><img class="size-large wp-image-17980" title="paulo sergio" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/paulo-sergio-500x375.jpg" alt="" width="500" height="375" /></em><p class="wp-caption-text">prostrai-vos!</p></div>
<p>
Cruz na porta da tabacaria!</em></h3>
<p>Às 18H estava sentado à secretária, laborando em prol do <em>share holder</em> e nem me lembrei. Na verdade – declinemos as liberdades poéticas – lembrei-me, mas não quis saber. De propósito: eles que dessem pela minha falta.</p>
<h3><em>Quem morreu? O próprio Alves? Dou</em></h3>
<p>Quando saí ao fim do dia, o segurança estava ostensivamente de costas para o televisor pendurado na parede. Revendo agora a pose, consigo esmiuçar a mensagem que o instinto me enviou: se o homem, que é um daqueles usuais benfiquistas azedos, perpetuamente de mal com o universo, virava as espaldas ao jogo é porque tinha comichões. Olhei para cima e lá estava: em letra miudinha, muito discreto ao canto da pantalha – zero-um. Olha! pensei. E saí.</p>
<h3><em>Ao diabo o bem-estar que trazia</em></h3>
<p>A caminho de casa o relato radialista exaltava uma épica batalha em relvados hamletianos – o habitual. De repente (mais tarde percebi que foi uma improvável parabólica de 30 metros), zero-dois. O próprio e emérito Pedro Gomes balbuciou umas evidências que acabara de não ver segundos antes, para disfarçar a surpresa que lhe acometeu.<br />
Aqui deram-me uns nervos; aqueles bandalhos aproveitaram à traição a minha paz de espírito e pela surra punham-se a jogar com decência? Ai era assim? Então, só para enervá-los, fui a correr para casa ver a segunda metade da segunda parte.</p>
<h3><em>Desde ontem a cidade mudou</em></h3>
<p>Mas os marotos são espertos. Quandodei um salto à cozinha a buscar os pistacios do prolongamento, o sonso do Djaló roçou com a luva do pé no esférico e ei-lo, qual mero coralífero, flutuando rumo ao precipício das redes.<br />
Vitória! Vitória! Vitória! Eu não vos disse sempre que?</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>A outra infância #2</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2010/08/a-outra-infancia-2/</link>
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		<pubDate>Fri, 27 Aug 2010 14:37:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando eu era pequena, muito pequena, tinha, não é segredo, já contei, uma grande fúria escritiva que a custo, e só de tão tremenda vontade, me cabia dentro. Não era só por não ter a desejada independência leitora — e isso era-me muito. Tanto. Era a ainda mais grave incompreensão do significado das letras, desenho [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a rel="attachment wp-att-17963" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/a-outra-infancia-2/1-3/"><img class="aligncenter size-medium wp-image-17963" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/12-300x433.jpg" alt="" width="300" height="433" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Quando eu era pequena, muito pequena, tinha, não é segredo, <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/04/lista-de-coisas-que-como-a-maca-de-newton-me-cairam-com-estrondo-na-cabeca-4/">já contei</a>, uma grande fúria escritiva que a custo, e só de tão tremenda vontade, me cabia dentro. Não era só por não ter a desejada independência leitora — e isso era-me muito. Tanto. Era a ainda mais grave incompreensão do significado das letras, desenho de curvas e rectas que correspondiam, por uma lógica que me escapava, a sons que faziam palavras para dizer no papel. E eu, que desespero!, não as sabia nem percebia porque é que um <em>A</em> dito se desenhava em <em>A</em> de bico. Fazia aquela fúria estreitar-se até passar pela ponta redonda da lapiseira, e em cima de folhas cheiinhas de frases escritas por alguém, o que apanhasse, zás! era meu, apontamentos, listas de compras, o diabo, era-me igual, sabia lá eu o que estava escrito, só sabia que havia de saber nem que tivesse que escrever por cima, letra a letra, tudo. Tudinho a fazer força demais na caneta, a exasperar-me do cansaço de intermináveis linhas de uma folha toda de palavras de alto a baixo. Mas feliz de sei escrever por cima, só não sei o que diz, não faz mal, faz de conta que diz.. será que diz? Uma vez tirei as teimas: pedi que lessem. Tinha esperança que tivesse ficado escrito por cima, não o que estava escrito por baixo, antes aquilo que tinha pensado enquanto escrevia por cima: o meu pensamento também escrevia, soprava pela tinta coisas de uma cadela e uma menina, circo, rua, casas, ser grande, malinhas, princesa e príncipe e encantamentos, pessoas crescidas, árvores, mar, feira. Porém não: a mão não escrevia o pensamento. Um dia. Às vezes, quando aquele caudal de esforço rasgava o papel e me fugia nas linhas, ficava submersa dele, apetecia-me gritar ou chorar ou as duas coisas juntas mais atirar livros ao chão com estrondo, rasgar tudo. Sabe Deus como, em vez de, ia a velocidade alucinante, a minha avó, páre vendaval, dar banho a uma boneca, aconchegar o chorão no carrinho azul escuro de rodas brancas, pô-lo a dormir nos lençóis com patinhos amarelos bordados, fronha igual, a dobra debruada a bordado inglês, e fitinha também amarela, sobre a manta macia, de tricot, por cima. Ou andar de bicicleta. Páre vendaval. Uma infância inteira, a vida toda, páre. Eu vendaval parava. Depois, calma, voltava. No quintal, traseiras de tudo já depois de tudo, não no pequenino, de cozinha, ao lado, bonitinho, onde um enorme Dezembro floria de vermelho o Natal, alecrim, hortelã, salsa e coentros o ano todo, acesso restrito por causa de um canteiro em pedra que a minha avó inventara. Não, no outro, ao fundo do fim da casa, onde um cavalete, o meu avô fazia-me vontadinhas, improvisara-me um cavalete enorme, não no quarto fechado e sério com escrivaninha, nem pensar, no quintal, com o melhor movimento de entra e sai, gente de fora que eu não via dentro, e máquinas, pias, tanques, alguidares de roupa  que esperavam para subir as escadas até aos estendais lá de cima, e até uma galinha sem cabeça a correr uma dança circular de morte. Quando era pequena e quase até ser grande tinha calo no dedo médio.</p>
<p><a rel="attachment wp-att-17964" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/a-outra-infancia-2/attachment/2/"><img class="aligncenter size-large wp-image-17964" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/2-500x322.jpg" alt="" width="500" height="322" /></a></p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Gadgets do velho estado importados do seu passado</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2010/08/17943/</link>
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		<pubDate>Fri, 27 Aug 2010 01:34:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Eça de Queiroz</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Reencontrei há dias esta velha BD e mais umas coisas perdidas do seu tempo. Como já não servem o seu tempo resolvi mostrá-las. Esta espécie de BD elegíaca da travessia aérea do Atlântico Sul, sendo anterior ao salazarismo, exibe alguns toques de revivalismo histórico que o Estado Novo aproveitou depois até ao ridículo. Note-se que as imagens são bordejadas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Reencontrei há dias esta velha <em>BD</em><em> </em>e mais umas coisas perdidas do seu tempo.<br />
Como já não servem o seu tempo resolvi mostrá-las.<br />
Esta espécie de <em>BD</em> elegíaca da travessia aérea do <strong>Atlântico Sul</strong>, sendo anterior ao salazarismo, exibe alguns toques de revivalismo histórico que o <strong>Estado Novo</strong> aproveitou depois até ao ridículo. Note-se que as imagens são bordejadas a cordas manuelinas, sendo o epílogo entrançado  com motivos do ouro popular de <strong>Viana do Castelo</strong>.<br />
Sinceramente gosto dos desenhos.</p>
<p><a rel="attachment wp-att-17944" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/17943/gc1-4/"><img class="aligncenter size-large wp-image-17944" title="gc1" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/gc15-500x366.jpg" alt="" width="500" height="366" /></a></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p><a rel="attachment wp-att-17945" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/17943/gc2-3/"><img class="aligncenter size-large wp-image-17945" title="gc2" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/gc22-500x130.jpg" alt="" width="500" height="130" /></a><a rel="attachment wp-att-17947" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/17943/gc4-5/"></a></p>
<p><a rel="attachment wp-att-17947" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/17943/gc4-5/"><img class="aligncenter size-large wp-image-17947" title="gc4" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/gc44-500x132.jpg" alt="" width="500" height="132" /></a><a rel="attachment wp-att-17948" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/17943/gc8-2/"></a></p>
<p><a rel="attachment wp-att-17948" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/17943/gc8-2/"><img class="aligncenter size-large wp-image-17948" title="gc8" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/gc81-500x130.jpg" alt="" width="500" height="130" /></a><a rel="attachment wp-att-17949" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/17943/gc11/"></a></p>
<p style="text-align: center;"><a rel="attachment wp-att-17949" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/17943/gc11/"><img class="aligncenter size-large wp-image-17949" title="gc11" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/gc111-500x130.jpg" alt="" width="500" height="130" /></a><a rel="attachment wp-att-17950" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/17943/gc13-2/"><img class="size-thumbnail wp-image-17950 aligncenter" title="gc13" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/gc131-150x150.jpg" alt="" width="90" height="90" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">A peça a seguir é um cinzeiro em bronze da joalharia <strong>Leitão &amp; Irmão</strong><strong> </strong>produzido, segundo tradição oral caseira (por norma bastante fiável) a propósito da <strong>Exposição do Mundo Português</strong><strong> </strong>, corriam os anos 40.<br />
Tem cordas, a velha caravela, é salazarosa q.b. e eu sempre gostei imenso deste cinzeiro — tanto que me apoderei dele sem dar explicações a ninguém. Presumo que tenha sido oferecido ao meu pai ou ao meu avô Carlos Selvagem.</p>
<p><a rel="attachment wp-att-17951" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/17943/leitao-irmao-2/"><img class="aligncenter size-medium wp-image-17951" title="leitão &amp; irmão" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/leitão-irmão1-300x309.jpg" alt="" width="300" height="309" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Finalmente, inscrevo a época com gentis missivas dos seus dois mais conhecidos protagonistas. Estão um pouco sujas porque as apanhei do lixo.</p>
<p><a rel="attachment wp-att-17952" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/17943/salazar-c-4/"><img class="aligncenter size-large wp-image-17952" title="salazar &amp; c" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/salazar-c4-500x323.jpg" alt="" width="500" height="323" /></a></p>
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		<title>Hoje sonhei-me ao contrário</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Aug 2010 21:05:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Hoje sonhei-me ao contrário. Olhava-me ao espelho, olhava-me com o espelho, olhava-me pelo espelho, e via-me do avesso. Estava fora de mim e era só costas. Saíra de mim, fugira de mim e crescera muito para além do que era eu. Estrangeiro, peludo, grotesco e imenso, para dentro do nada. Morto de cabeça invertida e reflexo de coisa nenhuma. Tu eras [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-17802" title="Botero-Homenagem-a-Bonnard-1972" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/Botero-Homenagem-a-Bonnard-19725.jpg" alt="" width="436" height="553" /></p>
<p>Hoje sonhei-me ao contrário. Olhava-me ao espelho, olhava-me com o espelho, olhava-me pelo espelho, e via-me do avesso. Estava fora de mim e era só costas. Saíra de mim, fugira de mim e crescera muito para além do que era eu. Estrangeiro, peludo, grotesco e imenso, para dentro do nada. Morto de cabeça invertida e reflexo de coisa nenhuma. Tu eras ninguém e já não me sentias. Eras retrete, eras minúsculos chinelos de um rosa muito vivo, eras o banho já frio e não querias ser memória de nós. Nem sexo, nem paixão, nem saudade. Muito menos a fragrância do corpo que em ti fora mulher. Afogavas-te num silêncio transparente de quotidiano e desejavas que eu fosse também, higienicamente vazio. E eu, para te fintar a vontade, fazia-me revés, fazia-me viés e cortava, à navalha, todas as excrescências do que ainda tinha sido. Do que ainda tínhamos sido. Pêlos de amor, de desejo, de ternura e de raiva incontida de fazer o tempo parar. E eles, para te iludir a vontade, caíam. Decepados para dentro de mim e do ralo conspurcado de sabão azul que ainda era eu. Desciam, rodopiavam, pelo labirinto canalizado da minha alma.</p>
<p>Hoje sonhei-me ao contrário. Tinha o coração escanhoado e estava limpo de ti.</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Só Visto</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Aug 2010 23:34:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[É uma das hottest shops em Londres por estes dias. Para quem tenha entre 12 e 21 anos, mais coisa menos coisa, claro. Tinha-me sido muito recomendada por amigas, mães de  adolescentes que insistiam: “as roupas são o máximo, e a loja, bem, a loja … tens de lá ir” ou “esquece a GAP e vai mas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-17892" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/so-visto/af-formatada/"><img class="aligncenter size-full wp-image-17892" title="A&amp;F -  Formatada" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/AF-Formatada.jpg" alt="" width="640" height="342" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">É uma das <em>hottest shops</em> em Londres por estes dias. Para quem tenha entre 12 e 21 anos, mais coisa menos coisa, claro. Tinha-me sido muito recomendada por amigas, mães de  adolescentes que insistiam: “as roupas são o máximo, e a loja, bem, a loja … tens de lá ir” ou “esquece a GAP e vai mas é a esta, que é o que está a dar, é o que as miúdas usam agora …”.</p>
<p style="text-align: justify;">Fui. Hoje. Ao fim de um dia de chuva torrencial. Encharcada e já exausta, de tanto <em>input</em> cultural, de tanto caminhar, de tanta e tão bela compra. Demorei a dar com o sítio, num labirinto entre Regent e Piccadilly. Por um triz não falhei a entrada: perante a multidão que do lado de fora convivia animada achei que se tratava de um <em>pub</em>, de um concerto <em>rock</em> ou coisa assim. Mas não. <em>It was it</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">A Abercrombie and Fitch é basicamente o que se obtém juntando, num mesmo sítio, a Zara (tirando a parte dos preços …) e o bar mais <em>in</em> do momento (tirando a parte dos copos …). Música de dança aos berros, escuridão total, pequenos pontos de luz nas prateleiras onde está a roupa que é suposto comprar-se. Cheira intensamente a perfume em todos os recantos. E depois há os vendedores. Têm todos, rapazes e raparigas, pelo menos 1,80 m de altura. São lindos de morrer. Mesmo. Elas magérrimas, com caras de anjo e cabelos compridos. Eles muito bem apessoados, com um físico que evidencia várias – muitas, muitas mesmo – horas de ginásio. De entre os eles, vários têm como única função permanecer na entrada da loja, de <em>jeans</em> e troco nú — impecavelmente moldado e depilado -, a saudar afavelmente quem chega e a deixarem-se fotografar com ofegantes adolescentes de todas as nacionalidades, diante de um fundo especialmente preparado para o efeito, cheio de logótipos, que com estas coisas do <em>marketing</em> não se brinca. Vários outros, aos pares, dançam, enérgicos e felizes, debruçados na varanda do andar de cima. Se não tivesse visto, não acreditava.</p>
<p style="text-align: justify;">Entrei, saltei a parte das fotos extáticas com os moços semi-despidos e dirigi-me resoluta para o interior da loja. Queria uns <em>atuendos</em> giros e adequadamente <em>griffés</em> para levar às minhas filhas mais velhas. Rapidamente percebi que não iria ser tarefa fácil. Zonas havia em que simplesmente se não podia passar, tal a profusão de meninas a remexer nas roupas e a pedir conselhos aos giraços de turno. A situação era agravada, na secção <em>girls clothing </em>por onde andei, pela absurda quantidade de rapazinhos embasbacados, bem mais interessados em meter conversa com as vendedoras que nos <em>jeans, leggings, tops</em> e afins, e que só estorvavam. O ambiente era de festa, de garagem ou de praia. A média de idades rondava os 18 anos. Senti-me um verdadeiro dinossauro. A princípio, um daqueles grandes, afáveis e inofensivos. Mas isso foi antes de tentar desincumbir-me da missão que me levara até ali.    </p>
<p style="text-align: justify;">Porque se tratava de comprar roupa, procurei inteirar-me dos modelos, cores, tamanhos e preços das várias peças. O problema é que pouco ou nada conseguia ver às escuras. Pareceu-me tudo relativamente banal — muita camisa de algodão em xadrez ou às riscas, muita mini-saia farfalhuda com flores, muito short de ganga, muita <em>sweat shirt</em> com capuz, em versão com e sem <em>zip</em>, e profusos dizeres alusivos à marca. <em>Hot</em>, só mesmo os preços. <em>Red hot</em>. E gente, gente, gente. Por todo o lado. Cheguei a ponderar vir-me embora, de mãos a abanar. Mas uma mulher nunca desiste – nem mesmo, ou sobretudo, num sítio destes. Tratei, isso sim, de ser mais proactiva. Por outras palavras, transformei-me num dinossauro muito mau, daqueles assassinos, com várias fileiras de dentes. Dirigi-me a um menino e a uma menina que dobravam peças de roupa que a turba atirara pelo ar e anunciei-lhes que <em>I was freaking out</em>, pelo que tinham de me ajudar. Muito. Os dois. <em>Right away.</em> Foram do mais simpático e prestável: mostraram e provaram modelos, adivinharam tamanhos, deram palpites e sugestões, aventuraram-se nas <em>overcrowded </em>partes da loja onde me recusei a voltar, para buscar peças que eu havia vislumbrado. Acabei contentíssima, numa fila interminável para pagar, entre uma muçulmana de cabeça coberta de negro e <em>piercing</em> no nariz e de duas francesas que tentavam por todos os meios passar-me à frente até que lhes rosnei que era escusado o esforço. A menina da caixa, gentilíssima, meteu todas as minhas aquisições e mais as compras que trazia comigo (e cujos sacos de papel estavam desfeitos por causa da chuva) nos emblemáticos sacos da loja — que ostentam o garboso torso acima publicado, mas com mais dois palmos à vista.</p>
<p style="text-align: justify;">Percorri toda a Regent Street até ao metro e, depois, toda a estação de Paddington e vários quilómetros de comboio, até ao carro do meu irmão, transportando em cada mão dois sacos. Ou seja, um conspícuo total de quatro homens em tronco nú.  Cuja visão, se no centro de Londres suscita olhares cúmplices e aprovadores por parte de mães e filhas iniciadas, vai gerando um genuíno e crescente embaraço à medida que dele nos afastamos em direcção ao <em>countryside.</em> Não tenho como descrever a cara estupefacta da idosa que viajava ao meu lado no comboio quando baixei os meus quatro-sacos-quatro e me despedi desejando-lhe <em>all the best</em>… Ou o estado de agitação em que ficaram os dois “cromos” locais que, beberricando cervejitas ao balcão do bar da carruagem, controlavam e comentavam, jocosos, quem entrava e quem saía …   </p>
<p style="text-align: justify;">Muito pode o amor de mãe, é o que é.   </p>
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		<title>A outra infância</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Aug 2010 23:01:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Há quem invente para os mortos outra vida. A nós, mortos deste cemitério, quando nos acolheram, distribuiram-nos um passado, resquícios de infância, uma ilusória paixão. Ao Vasco, à Eugénia, à saudosa Teresa, ao PN, ao Navarro, à Joana - eu sei, Francisquinho e young master Peter, também a vós, imberbes fantasmas! Não me pediram reserva. Poderia agora mostrar-vos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Há quem invente para os mortos outra vida. A nós, mortos deste cemitério, quando nos acolheram, distribuiram-nos um passado, resquícios de infância, uma ilusória paixão. Ao Vasco, à Eugénia, à saudosa Teresa, ao PN, ao Navarro, à Joana - eu sei, Francisquinho e young master Peter, também a vós, imberbes fantasmas! <br />
Não me pediram reserva. Poderia agora mostrar-vos uma apócrifa versão da Enciclopédia Britânica que me deram logo à entrada, um óleo especial para polir ossos, um bizarro instrumento para (helás! monsieur Antoine) matar dragões. Balanceando em cada mão os ingredientes do kit de acolhimento, do que gostei mais foi desta fotografia, simbolo inofensivo e inocente de uma outra vida. É antiga, tão humana, cheia de riso como um verso. Não é, de certeza, minha.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-large wp-image-17889  aligncenter" title="infância5" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/infância5-500x821.jpg" alt="" width="400" height="657" /></p>
<p style="text-align: justify;">Aos meus companheiros, que se movem como eu na fina sombra da copa destes ciprestes, peço que sem pudor aqui mostrem as fotos com que, para consolo da humildade das nossas almas, nos recriaram uma infância.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Não se faz!</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Aug 2010 21:38:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Pois é. Por inspiração malvada do Manuel S. Fonseca e do seu cúmplice Pedro Norton, mergulhei inocente e inadvertidamente no mundo genial, no doubt, mas um tudo nada porno-antropofágico, do senhor Jean-Christophe Grangé. Esta última semana, e repito, por culpa dos senhores acima citados, tenho-a assim passado completamente aterrado, sonhando com falsos autistas comedores de vaginas, sádicos desmembramentos de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pois é. Por <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/07/a-vida-nao-se-faz-so-de-caravaggios/">inspiração malvada </a>do Manuel S. Fonseca e do seu cúmplice Pedro Norton, mergulhei inocente e inadvertidamente no mundo genial, <em>no doubt</em>, mas um tudo nada porno-antropofágico, do senhor Jean-Christophe Grangé. Esta última semana, e repito, por culpa dos senhores acima citados, tenho-a assim passado completamente aterrado, sonhando com falsos autistas comedores de vaginas, sádicos desmembramentos de bonitas parisienses, requintadas extracções de sebo humano e líquido amniótico e outros pesadelos afins. No entanto, tenho de admitir, é da melhor literatura que tenho ingerido nos últimos anos no <em>under-rated</em> campo dos romances amarelos (desculpem-me a coloração mas os italianos chamam <em>Gialli</em> aos romances policiais e eu gosto de lhes seguir algumas tendências). E lá no fundo até é tema que fica bem nas exangues páginas deste blogue. </p>
<p>Mas lá que faria Simenon abanar a cabeça e pronunciar um reprovador <em>tsk tsk tsk</em>, lá isso faria.</p>
<p>Recomendo. Vão lá e leiam, se tiverem coragem. Por agora, fiquem a sós com a morte. Pura e dura, e que por vezes, como aqui em baixo, é verdadeiramente bela de se ver. </p>
<p>
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/EY1K-LuT_pY?fs=1&amp;hl=en_US" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/EY1K-LuT_pY?fs=1&amp;hl=en_US" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object>
</p>
<p>Les Rivieres Pourpres, 2000 — Mathieu Kassovitz de um original de J.C. Grangé </p>
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		<title>Domingos, o augusto</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2010/08/domingos-o-augusto/</link>
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		<pubDate>Wed, 25 Aug 2010 02:14:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Eça de Queiroz</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Esta semana já é a segunda vez que escrevo a respeito de Domingos – de bem diferentes Domingos. E ainda bem, que assim varia-se. O de hoje é bem diferente do de ontem, mas do ontem da vida, não da semana: da timidez anterior, que escondia com eficácia o goleador perigoso que falava pouco para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-17868" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/domingos-o-augusto/domingos-paciencia/"><img class="alignleft size-medium wp-image-17868" title="domingos paciência" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/domingos-paciência-300x257.jpg" alt="" width="300" height="257" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Esta semana já é a segunda vez que escrevo a respeito de <strong>Domingos</strong> – de bem diferentes <strong>Domingos</strong>. E ainda bem, que assim varia-se.</p>
<p style="text-align: justify;">O de hoje é bem diferente do de ontem, mas do ontem da vida, não da semana: da timidez anterior, que escondia com eficácia o goleador perigoso que falava pouco para não dizer asneiras, sobrou apenas o mesmo cuidado com as palavras e o mesmo tipo de fé nas qualidades da equipa com que trabalha. Aquele 7º lugar da <strong>Académica</strong> não foi nenhum fogacho, como logo no ano seguinte se viu (e bem pode agora <strong>Jorge Jesus</strong> reclamar <strong><em>ADN</em></strong> que já ninguém o leva muito a sério).<br />
A primeira vez que vi o <strong>Domingos</strong> jogar foi contra o <strong>Sporting</strong>, nas <strong>Antas</strong>, talvez em 90/91 – já não sei. À época não gostava particularmente de futebol e fora levado ao espectáculo por arrastamento sócio-profissional: fui com jornalistas do <strong>Expresso</strong>, e até tínhamos no grupo um <em>lagarto</em> importado de Lisboa para o efeito, o agora já <em>solar</em> <strong>José António Lima</strong>.<br />
Na altura escandalizei-me quando me disseram que só começara a comer bifes – muitos bifes, a ver se botava corpo – no <strong>FCP</strong>. Em campo achei-o um lingrinhas improvável, um qualquer erro de <em>casting</em> incompreensível para mim, ignaro mal iniciado.<br />
No fim o <strong>Porto</strong> ganhou com um golo feito já na compensação. Marcou <strong>Domingos</strong>.<br />
Depois ganhou tudo o que quis no país, durante anos.</p>
<p style="text-align: justify;">Agora quis treinar.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais uma vez não acreditei. Que sim, que era um magnífico jogador, mas que lhe faltava tudo o resto. Esse resto, pensava eu, era uma personalidade capaz de induzir um choque de vontade imperiosa num grupo inevitavelmente mercuriano como o é um balneário, uns tantos directores e o presidente de um clube de futebol.<a rel="attachment wp-att-17869" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/domingos-o-augusto/scb-2/"><img class="alignright size-thumbnail wp-image-17869" title="scb" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/scb-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a><br />
É claro que um clube como o <strong>Sporting Clube de Braga</strong> o favorece pela dimensão média das suas próprias roldanas. São as medidas ideais para o estágio actual, e ali já ninguém mexe um dedo sem que a sua opinião seja ouvida. Particularmente depois de boa parte do orçamento desta época estar já em recato devido à dose óptima de audácia eficaz do seu treinador.<br />
Mais uma vez me enganei a respeito de <strong>Domingos</strong>.<br />
Paciência.<br />
O nome assenta-lhe que nem uma luva.<br />
Acho que por uma vez não me enganarei muito se, com o entusiasmo próprio dos treinadores de bancada que acham ter naquele preciso instante descoberto a pólvora, murmurar aos quatro ventos:</p>
<p style="text-align: justify;">– <strong>Este rapaz ainda vai longe…</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/xh77CfQndto?fs=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/xh77CfQndto?fs=1" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p style="text-align: justify;">Gosto muito deste vídeo: primeiro porque era o único disponível no <em>youtube</em>, e depois porque é cantado numa língua suficientemente remota para que não consiga perceber uma única palavra do que diz o locutor – o que é óptimo para a minha faceta parolo-carinhosa. Presumo logo que estão a dizer maravilhas – e neste caso até é capaz de ser verdade.</p>
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		<title>Quem é Botero?</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Aug 2010 23:38:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>É Tudo Gente Morta</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[A Teresa Font, que é autora de “Foi Assim Que Aconteceu”, viu o desafio do Gonçalo e não resistiu a explicar-lhe. Vai ler o Gonçalo e vamos ler todos para saber se foi assim ou não que aconteceu. Quem é Botero? Um post de Teresa Font  Ela estava a pedi-las. Quantas vezes lhe disse? Quantas? [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>A Teresa Font, que é autora de “<a href="http://www.presenca.pt/catalogue.ud121?oid=13604&amp;from_zone=Produto+associado+Foi+Assim+que+Aconteceu">Foi Assim Que Aconteceu</a>”, viu o desafio do Gonçalo e não resistiu a explicar-lhe. Vai ler o Gonçalo e vamos ler todos para saber se foi assim ou não que aconteceu.</em></p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-thumbnail wp-image-17818  aligncenter" title="botero pelos" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/botero-pelos-118x150.jpg" alt="" width="118" height="150" /></p>
<h2>Quem é Botero?<br />
Um post de Teresa Font</h2>
<p> Ela estava a pedi-las.<br />
Quantas vezes lhe disse? Quantas?<br />
E se o Gualter soubesse, com as coisas como estão? Hã?<br />
Ela sabe, sabia. A massa que eu lhe devo.<br />
E a Madalena? Se a Madalena sonhasse? Sim, que ela a Lurdinhas aguenta, mas esta…Separações, uma pensão, carro, a casa, ver os filhos ao fim-de-semana…Estúpida. Esta estúpida estava a pedi-las.<br />
Diz que com lixívia sai tudo. Passas um pano e não fica nada.<br />
Um bocadinho de água fria na cara e desandar. Brrr.<br />
Que impressão. Aqueles olhos abertos. E as mãos…mas fica mais natural.<br />
Diz o Gualter que ela passava a vida a ameaçar que se matava. Que agora estava melhor.<br />
Pudera.<br />
E com a mania que era intelectual. Quem raio seria Botero? Saiu-te caro o Botero, pensou. Se não fosse essa do Botero, não sei se tinha a coragem.<br />
A grande cabra encheu-me de nódoas negras. Passa a vida a ver filmes da Sharon Stone e pensa….pensava. Que.<br />
Estúpida. Estava a pedi-las.<br />
Lá vou ter que dormir de t-shirt. E a Madalena a querer pôr-me emplastro leão para as dores nas costas.<br />
Por emplastro, se calhar a velha dá por falta da digitalina…o melhor é substituir os comprimidos. Ponho laxantes…ahahahah.<br />
Devia era por a dose a dobrar. Matava dois coelhos de uma cajadada. Sogras. Merda.<br />
Farto de mulheres.<br />
É estranho, não sinto nada. Se calhar é como tudo, a gente habitua-se.<br />
Saltou para o Mercedes, o carro dele estava na oficina.<br />
Ladrões, rosnou, os recentes instintos assassinos à solta, a imaginar os empregados desmembrados nos fatos – macaco sujos de óleo.<br />
Acelerou na direcção da Foz. Tinha tempo, antes de jantar. E a Lurdinhas também andava muito refilona. Apalpou o frasco no bolso. Prudência. Daqui a uns meses, talvez.<br />
Ligou o leitor de CD’s. A música melhorou-lhe a disposição. Grandes brasileiros.<br />
<em>“Madalena, o que é meu não se divide, e tão pouco se admite…”</em></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Pela estrada abaixo</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Aug 2010 21:05:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[foto de Kathryn Parker Almanas O que lhe pareceu mais estranho não foram as sete cabeças envolvidas em celofane que estavam na arca frigorífica. O pelicano da BT até se alegrou quando viu a furgoneta fumegante descendo por ali abaixo, adornando nas curvas da serra, rumo a Vila Velha de Ródão. Àquela hora pós prandial, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="mceTemp mceIEcenter" style="text-align: justify;">
<dl id="attachment_17841" class="wp-caption aligncenter" style="width: 632px;">
<dt class="wp-caption-dt" style="text-align: justify;"><img class="size-full wp-image-17841  " title="almanas" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/almanas.jpg" alt="" width="622" height="500" /></dt>
<dd class="wp-caption-dd">foto de Kathryn Parker Almanas</dd>
</dl>
</div>
<p style="text-align: justify;">O que lhe pareceu mais estranho não foram as sete cabeças envolvidas em celofane que estavam na arca frigorífica.<br />
 O pelicano da BT até se alegrou quando viu a furgoneta fumegante descendo por ali abaixo, adornando nas curvas da serra, rumo a Vila Velha de Ródão. Àquela hora pós prandial, com os pinheiros a estalarem ao sol ameaçando combustões e tragédias, dormitava ele ao volante do patrulha, na emboscada à N18. Lá surgiu então a descomposta carrinha. Despertado num repelão, alarmou a sirene, atravessou o patrulha na estrada e ergueu a palma da mão fazendo alto. Ato contínuo, as portas do veículo prevaricador se abriram e delas despontaram dois indivíduos com propósitos de fuga. Entusiasmado e bem oleado pela adrenalina, o guarda deu uns tiros para o ar e outro para diante, só para ser levado a sério, ao que já um estava amochado no asfalto com a cabeça entre as mãos e outro de joelhos e braços levantados, ambos irrompendo num lamento ululante e enigmático. Eram romenos. A seguir foi a revista ao furgão e lá dentro a arca ligada a uma bateria a zumbir na penumbra. O resto já sabem.<br />
 Veio a tropa toda do posto de Vila Velha cortar o trânsito, esticar fitas amarelas, registar a ocorrência e mostrar aprumo. No calabouço, antes que chegasse a polícia graúda, bem sacudiram a ciganada com tabefes, cuspidelas, berros, o tenente mandou-os despir, um cabo de olhos vermelhos agitou um facalhão mesmo diante do seu nariz, mas os flagrados, uma vez começando a gemer já não pararam, entregues ao fatalismo zíngaro, o que viesse que viesse depressa, porque tinha que vir. Ficou assim a guarda sem muito que reportar aos inspetores que nessa noite mesmo chegaram da cidade. Ao verem uns paisanos com tanto à vontade na esquadra dando ordens aos fardas, os ciganos descompuseram-se de vez, aterrorizados com a dimensão da desgraça que decerto se preparava.<br />
 Desembrulhadas, expostas, classificadas, enumeradas e conferidas as cabeças, o que verdadeiramente intrigou o inspector foi a placidez daqueles rostos decepados cerce por um corte limpo e breve. A expressão que eles ofereciam não era de abandono nem a de quem foi passado ao fio durante o sono. Era outra coisa: uma tranquilidade consciente, uma espécie de felicidade interior; tinham ar de enamorados, como se ainda neles houvesse alma.<br />
 De pronto, com grandes demonstrações de submissão e humilíssimos, os romenos romperam numa algaraviada, donde se retirava que não sabiam nada, que tinham sido pagos para levar a carga sem abrirem e muito menos desligarem a arca, que nada sabiam, que o frete tinha sido combinado em Lisboa, que não sabiam de nada, que tinham ordens para atirar o aparelho ao Tejo, junto ao Cedilho, em terra de ninguém. Fora isto não sabiam mais nada, por favor sinhor. É assim que eles nos levam à certa, remoeu o inspetor.<br />
 O pânico tomou os ciganos, ao verem os polícias virar costas e irem-se embora sem mais, deixando-os entregues à guarda. Nos praças e no próprio tenente inflamava-se o despeito por terem sido excluídos do interrogatório. O meu tenente vá levantando o auto relativo ao código da estrada que infrações não faltam para armar um valente processo, o resto fica ao nosso cuidado, não se preocupe. Obrigado – e foi esta despedida do inspetor.<br />
 Num assomo de autoridade castrense o oficial ordenou aos subordinados:<br />
 – Levem esta merda toda para os bombeiros, não quero aqui nada a estorvar o serviço.<br />
 Tal era o humor dos guardas quando acolheram os ciganos de volta. Os coitados acoitaram-se no fundo mais negro da cela e agudizaram a tétrica melopeia.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
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		<title>A pedra espera ainda dar flor</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Aug 2010 16:11:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[No outro dia reli HÚMUS, de Raul Brandão, e na noite seguinte HÚMUS, de Herberto Helder. Ficou-me — deve-me ter ficado, só agora dei pela fome -  a apetecer exercício com as mesmas regras inventadas por este último, brincadeira como a dos miúdos, mesmo a sério, brincadeira  igual à paixão que se apropria do corpo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em><a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/atras-desta-vila-ha-outra-vila-maior/">No outro dia reli HÚMUS, de Raul Brandão</a>, e na noite seguinte </em><em>HÚMUS, de Herberto Helder. Ficou-me — deve-me ter ficado, só agora dei pela fome -  a apetecer exercício com as mesmas regras inventadas por este último, brincadeira como a dos miúdos, mesmo a sério, brincadeira  igual à paixão que se apropria do corpo do amor para o conhecer e fazê-lo seu — ou melhor, de si. Tudo em pequenina escala, claro, que os supra citados danados são pesos pesados. Por isso, não a partir de HÚMUS, apenas de: A pedra espera ainda dar flor. <br />
 </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Material: texto do HÚMUS de Herberto Helder<br />
 Regra: fuga?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em> </em></p>
<div id="attachment_17821" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><em><em><a rel="attachment wp-att-17821" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/a-pedra-espera-ainda-dar-flor/photo-mj-arvores-planicie/"><img class="size-large wp-image-17821" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/Photo-MJ-árvores-planície-500x332.jpg" alt="" width="500" height="332" /></a></em></em><p class="wp-caption-text">Fotografia de Maria João Cabrita</p></div>
<p style="text-align: justify;"><strong>A PEDRA ESPERA AINDA DAR FLOR</strong><br />
 Soerguido pelo único esforço da erva, sou o grito dos mortos. Ouves?<br />
 Uma tarde que viesse nas pontas dos pés.. uma candeia em mão de mulher: claridade  de primaveras extasiadas, flores desmedidas, uma candeia em mão de mulher.<br />
 A praça debaixo de água, tudo isto, pátio castelo escada torre porta, tudo isto flutua debaixo de água com um povo de estátuas por cima, um povo de mortos em  baixo. Somos o reflexo, o mundo não é real.<br />
 Uma tarde que viesse nas pontas dos pés.. uma candeia em mão de mulher: claridade  de primaveras extasiadas, flores desmedidas, uma candeia em mão de mulher.<br />
 Fecho os olhos. O silêncio. E o que se cria no silêncio é uma voz, as bocas falam por muitas bocas: floresta apodrecida, tocamo-nos todos como as árvores no interior da terra, uma atrás da outra, floresta apodrecida, um remexer de treva, a terra treva remexe, põe-se a caminho a floresta apodrecida — uma vida monstruosa, ouve-se a dor das árvores, sente-se a dor dos seres.<br />
 Uma tarde que viesse nas pontas dos pés.. uma candeia em mão de mulher: claridade de primaveras extasiadas, flores desmedidas, uma candeia em mão de mulher.<br />
 E o céu? Ponho o ouvido à escuta: palavras vivas através da paciência que desliza, mar inesgotável que desliza, som de água que desliza, o céu. Desliza. Muitas bocas, o céu. Estou só e a noite, vem a noite, pausa e silêncio, a noite com outras noites em cima, inferno: uma camada de flor, um grito, outra camada de flor, outro grito. Também eu atravessei vivo o inferno entre o inferno e o sonho: dessa pata escorre sempre ternura. E o grito dos mortos, uma voz de palavras vivas, as bocas falam por muitas bocas as palavras vivas.<br />
 Uma tarde que viesse nas pontas dos pés.. uma candeia em mão de mulher: claridade de primaveras extasiadas, flores desmedidas, uma candeia em mão de mulher.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Pelos, pelos cantos, pelo ralo, pelas tampas</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Aug 2010 15:28:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>É Tudo Gente Morta</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[O desafio foi lançado pelo Gonçalo que postou a imagem de um quadro com que Botero homenageou Bonnard. Hoje é a Turmalina que nos surpreende, respondendo ao desafio e vindo morar connosco. Pelos, pelos cantos, pelo ralo, pelas tampas Um post de Turmalina Em 20 e tantos anos de convivência ele não aprendeu o quanto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>O desafio foi lançado pelo Gonçalo que postou a imagem de um quadro com que Botero homenageou Bonnard. Hoje é a Turmalina que nos surpreende, respondendo ao desafio e vindo morar connosco.</em></p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-thumbnail wp-image-17818    aligncenter" title="botero pelos" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/botero-pelos-118x150.jpg" alt="" width="118" height="150" /></p>
<h2>Pelos, pelos cantos, pelo ralo, pelas tampas<br />
Um post de Turmalina</h2>
<p style="text-align: justify;">Em 20 e tantos anos de convivência ele não aprendeu o quanto eu odeio encontrar pelos na pia. Por certo, faz de propósito. Aí reclamo, ele faz que não escuta, não adianta nada e logo eu amarro a cara.E isso é praticamente toda manhã. Porque antes de encontrar os pelos na pia já tive de me deparar com os pelos no ralo do chuveiro e quando não, no sabonete.Todo o meu bom humor matinal acaba aí. Acho que é disso que ele gosta. Sempre achei que ele tivesse umas tendências sado-masoquistas.</p>
<p style="text-align: justify;">E ainda tem mulher por aí que adora homem peludo. Mas o pior foi quando em que ele resolveu cortar os pelos pubianos, acho que de tanto eu reclamar. Bem que eu avisei para usar a tesourinha. Mas não, teimoso que só, foi direto na máquina, coisa de macho. A teimosia, é claro! Não preciso nem dizer que depois ele não agüentou a coceira e teve de recorrer ao farmacêutico No primeiro dia a coisa ficou tão ruim que o pobre não pode nem ir trabalhar.</p>
<p style="text-align: justify;">Até hoje ele jura que foi praga que eu roguei. Mas pode uma coisa dessas? Logo eu, a pessoa mais interessada na área de lazer. Não tem cabimento. E mesmo assim, depois de todo esse quiprocó, ele ainda não entendeu que é só juntar os pelos da pia e mandar ralo abaixo.Porque eu juro que eu não sou uma pessoa assim tão chata, afinal nem da toalha molhada sobre a cama e a tampa do vaso levantada eu reclamo. E o papel higiênico então, que ele nunca repõe. Isso sem falar na mania de tomar banho de perfume.</p>
<p style="text-align: justify;">Aí que eu não entendi quando acordei e ao lavar o rosto na pia, impecavelmente limpa nesta manhã, tinha um bilhetinho no espelho que dizia assim:</p>
<p style="text-align: justify;">- Querida, espero que a pia esteja do seu gosto. Não me espere para o jantar, nem hoje, nem amanhã, nem nunca mais. Vou morar com a Madalena! </p>
]]></content:encoded>
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		<title>Sentença Judicial da Província de Sergipe, Brasil, no ano de 1833</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Aug 2010 21:32:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Chegou-me às mãos esta notícia que dá conta da inteireza da justiça brasileira. Ora leiam: Para além de muitas outras questões que poderiam a este propósito abordar-se (como é o caso das questões jurídicas, que interessarão sobretudo à Joana; ou da estética do abuso, que poderá ser defendida pelo Manuel; ou da radiografia do acto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Chegou-me às mãos esta notícia que dá conta da inteireza da justiça brasileira. Ora leiam:</p>
<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/Brasil-Sergipe-Sentença-de-1833.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/Brasil-Sergipe-Sentença-de-1833-500x630.jpg" alt="" title="Brasil-Sergipe - Sentença de 1833" width="500" height="630" class="aligncenter size-large wp-image-17807" /></a></p>
<p>Para além de muitas outras questões que poderiam a este propósito abordar-se (como é o caso das questões jurídicas, que interessarão sobretudo à Joana; ou da estética do abuso, que poderá ser defendida pelo Manuel; ou da radiografia do acto executório, coisa que muito interessaria o Pedro Norton; ou outras…) interessam-me aqui sobretudo as questões filosóficas, que só poderão ser verdadeiramente resolvidas, no entanto, com a ajuda das nossas amigas — e amigos — transatlânticos. Peço-vos, por isso, que nos digam:</p>
<p>1. Porque é que ao homem chamam “cabra”?<br />
2. Pode-se também chamar bode a uma senhora?<br />
3. O que quer dizer “abrafolou-se”?<br />
4. O que quer dizer exactamente: “uma senhora ficar com as encomendas de fora”?<br />
5. E mais pedagogicamente: como é que, em tal caso, as põe para dentro?<br />
6. Qual o significado de “conxambrar”?<br />
7. Pode-se, como insinua o Sr. Dr. Juíz, conxambrar também com homens?<br />
8. E porque é que isso lhes mete medo?<br />
9. A capadura feita a macete é muito dolorosa?<br />
10. O que deve legalmente fazer o carcereiro com o justo resultado da execução da sentença?</p>
<p>Enfim, são dúvidas que ficam, mas que era importante resolver.</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Perdão</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Aug 2010 18:01:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[As nódoas negras nas costas do seu homem maravilhavam Madalena. E de tal modo ela se excitava com tamanha demonstração de piedade que acabava por tremer de medo ao sentir deveras a luxúria dos seus pensamentos. “Um simples pecadora”, pensava Madalena agitando as águas. O cheiro da maresia no verão ou da terra húmida de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-17802" title="Botero-Homenagem-a-Bonnard-1972" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/Botero-Homenagem-a-Bonnard-19725.jpg" alt="" width="436" height="553" /><br />
As nódoas negras nas costas do seu homem maravilhavam Madalena. E de tal modo ela se excitava com tamanha demonstração de piedade que acabava por tremer de medo ao sentir deveras a luxúria dos seus pensamentos. “Um simples pecadora”, pensava Madalena agitando as águas.<br />
O cheiro da maresia no verão ou da terra húmida de outono, o ruído feliz dos filhos a crescer, o aconchego caloroso da lareira no inverno, nada disto demovia José Maria da sua missão. Todas as noites via o noticiário na televisão com escrúpulo e minúcia, anotando mentalmente as desgraças apresentadas, os crimes tão soezes quanto o esforço dos jornalistas para os ampliar e toda a coleção de tragédias globais que cintilavam com alacridade no ecrã elétrico.<br />
Mais tarde, no sereno da alta noite, trancava-se na casa de banho e iniciava os trabalhos de expiação: uma vergastada por cada alma perdida, como mandavam as Ordens, assim redimindo todas aquelas mortes que não encontrariam outra salvação.<br />
– São dias de grande abundância, mas tudo acaba porque tudo acaba – murmurava José Maria.<br />
E Madalena, demolhada, anuía em silêncio.<br />
Depois dormiam como justos até ao raiar da aurora. Lá vinha novo dia.</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Ludopédico leonino — 2ª jornada</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2010/08/ludopedico-leonino-2%c2%aa-jornada/</link>
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		<pubDate>Mon, 23 Aug 2010 17:01:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.etudogentemorta.com/?p=17796</guid>
		<description><![CDATA[E logo à segunda jornada, no primeiro jogo em casa, impera a descontração nas bancadas de Alvalade. Os otimistas, desejosos de sofrer as ansiedades dos grandes momentos, dirão que é por ser ainda verão e o povo anda desafogado, sem estro para emoções fortes; esperemos pelo Natal, aconselham. Os realistas, embora inibidos de o expressarem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-full wp-image-17797" title="patricio" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/patricio.jpg" alt="" width="448" height="296" /><br />
E logo à segunda jornada, no primeiro jogo em casa, impera a descontração nas bancadas de Alvalade. Os otimistas, desejosos de sofrer as ansiedades dos grandes momentos, dirão que é por ser ainda verão e o povo anda desafogado, sem estro para emoções fortes; esperemos pelo Natal, aconselham. Os realistas, embora inibidos de o expressarem em voz alta, acham que sempre é melhor assim, deste modo aristotélico: uma época recatada, sem as grandes turbulências das vitórias que dão esperanças infaustas, nem as vertiginosas deceções que nunca deixam de sobrevir. Vamos passar uma tarde à bola, os miúdos gozam umas horas de ar livre, conversa-se com a rapaziada do lado e o entretenimento fica rematado com a bifana da roulote final – há lá tempo mais bem passado…<br />
Mas não há jogo que não deixe contas por apresentar. Rui Patrício, por exemplo, ameaça, <em>malgré lui</em>, converter-se no herói leonino do momento. Quatro vezes quatro, o guarda abandonou as redes, para vir desferir uns chutões fora da área. Qual foi o balanço? Por duas ocasiões livrou-nos do nunca inesperado golo adversário; noutra permitiu que o insular lhe aplicasse um arco ogival ainda mais amplo que o traçado pelos estudantes na Luz, na semana anterior e só por subtilezas da mecânica newtoniana a bola não entrou; e noutra ainda, a mais funesta, atropelou o desgraçado João Pereira o qual só veio a recobrar numa cama de hospital.<br />
Em resumo: Patrício não está nada melhor do que era e continua a fazer estragos mais evidentes que os proveitos. Todavia, graças à analítica comparativa, reparam-se agora nele qualidades imprevistas. Sucede isto porque do outro lado da estrada, perfilou-se um fantoche desconcertado e desconcertante que, ó prodígio, se mostra capaz de produzir mais comoções e fiascos que o nosso Patrício. Será pequena compensação, mas uma alegria sempre é uma alegria.<br />
Entretanto e por desfastio, o Sporting aceitou o convite do Marítimo para marcar um golito de penalty, já o contra regra ia correndo o pano. Menos mal, pois assim sem mais nem ontem, ficou o passarinho a piar atrás de nós.</p>
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		<title>O meu Mercedes é maior…</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Aug 2010 01:01:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Eça de Queiroz</dc:creator>
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		<description><![CDATA[– Ó Minguinhos, olha que tu bem podias ir a um daqueles institutos de estética, que também há disso para homens, sabes?… – Fogo, Gina… E, e instituto de estética pra quê, carago?!…, questionou o sucateiro por entre esgares de barbearia. – É desses pêlos todos que tens nas tuas costas, filho… Dantes não tinhas. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-17786" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/o-meu-mercedes-e-maior/botero-homenagem-a-bonnard-1972-5/"><img class="aligncenter size-medium wp-image-17786" title="Botero-Homenagem-a-Bonnard-1972" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/Botero-Homenagem-a-Bonnard-19724-300x380.jpg" alt="" width="300" height="380" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">– <strong>Ó Minguinhos, olha que tu bem podias ir a um daqueles institutos de estética, que também há disso para homens, sabes?…<br />
 </strong>– <strong>Fogo, Gina… E, e instituto de estética pra quê, carago?!…</strong>, questionou o sucateiro por entre esgares de barbearia.<br />
 – <strong>É desses pêlos todos que tens nas tuas costas, filho… Dantes não tinhas. Ai, môre, é que te fica tão mal…<br />
 </strong>– <strong>Isto foi derivado à merda do tratamento capilar que fiz na Figueira há três meses: cresceu-me pêlos por todos os lados, até onde não queria. Até na ponta do nariz! Aliás vou já rapá-los…<br />
 </strong>Domingos limpou cuidadosamente a face glabra com a toalha de mão. Queria estar decente para o almoço que ia ter com o doutor do banco. «<strong>O homem foi ministro… e agora é ele que manda…, está certo!</strong>», concluiu no surdo pensamento, reconhecendo mesmo que sem ele a compra dos carris da CP a preço de saldo nunca poderia ter acontecido. E adoçar-lhe um bocado a boca com meia dúzia de bons robalos fora uma ideia bestial do seu amigo e sócio Eusébio Dias, que controlava os leilões de peixe em várias lotas do país. «<strong>Talvez o gajo abata algum na comissão…</strong>».<br />
 O chapinhar da água atrás de si fê-lo regressar aos pêlos nas costas:<br />
 – <strong>E que queres tu que eu faça, mulhiére?…<br />
 </strong>Georgina rebolou na água como uma toninha grávida e riu-se baixo, para não ofender:<br />
 – <strong>Que faças uma depilação… Olha que é muito moderno! Dizem que é metro sexual e tudo…<br />
 </strong>– <strong>Metro quêee?!…<br />
 </strong>– <strong>Sexual…<br />
 </strong>– <strong>Metro sexual nem na farmácia, filha. Andas a ler essas revistas malucas e acreditas em tudo! Não há disso em lado nenhum…<br />
 </strong>– <strong>Metro sexual é como se chama aos gajos modernos, meu burro! Os actores <em>VIPes</em>, o Clóni e esses todos. Olha, o Castelo Branco depila-se todo…<br />
 </strong>– <strong>Pôrra! O conde maluco?! Ó Gina, carago, tu agora queres-me a pegar de empurrão?!… Tu não me brinques com coisas sérias</strong> – ameaçou o sucateiro no tom de voz enferrujado com que assustava a mulher quando ela tentava espingardar mais do que o previsto.<br />
 E Georgina, que recebera há dois meses o <strong><em>Mercedes</em></strong> descapotável que ele lhe prometera como prenda de anos, logo ali percebeu que tinha encaminhado mal a conversa. Defensiva, recuou de imediato:<br />
 – <strong>Ó filho, não é nada disso, sei que és mesmo muito homem… A bem dizer acho que gostas de ir ao <em>Lua Azul</em> para mostrar isso, não é?…<br />
 </strong>A mulher pensava assim enaltecer a vaidade macha do marido. Mas não estava nada à espera do acrescento que este ia fazer à sua suposição.<br />
 Domingos deu uma gargalhada curta, prosseguindo na voz paciente de quem explica o funcionamento duma empilhadora industrial a um técnico de contas:<br />
 – <strong>Isso do <em>Lua Azul</em> não é por causa das gajas; ou antes, não é só por causa das gajas. É muito mais o prestígio…, o prestígio é que é importante.<br />
 </strong>– <strong>Ora, prestígio…</strong>, comentou Georgina em tom de gozo descrente.<br />
 – <strong>Prestígio sim senhor, está lá tudo o que mexe na borracha, percebes rapariga? Todas as noites, estão lá todos. É como ter uma amante, que também dá muito prestígio… Isso sim!<br />
 </strong>– <strong>Uma amante?!!!</strong>, rugiu Gina, gerando algum reboliço salpicado para os lados. – <strong>Tu tens uma amante, meu corno de merda?!…<br />
 </strong>Perdera subitamente o medo do marido ao aperceber-se da desconhecida invasão territorial. E Domingos, subitamente apanhado por esse mesmo medo que fugia, respondeu contemporizador:<br />
 – <strong>Ó môre, todos nós, os gajos de prestígio, temos de ter uma amante, carago! É como que uma questão de princípio, percebes? Olha o Barros – o de Ílhavo, sabes?… E o Eusébio! Esse ainda ontem deu um <em>Mercedes</em> à dele, por sinal igualzinho ao que eu dei há tempos à minha…<br />
 </strong>– <strong>Ai tu destes um <em>Mercedes</em> à tua, meu granda pulha?!…<br />
 </strong>Georgina levantara-se da banheira num repente de <em>tsunami</em> e segurava na mão direita um frasco pesado de sais de banho que tinham trazido da Tailândia. O ar ameaçador era inequívoco, mesmo se visto ao espelho, e o sucateiro sabia que existiam riscos reais a partir dali.<br />
 Então, com insuspeita agilidade, virou-se para trás e num gesto rápido segurou-lhe ambas as mãos. Os fortes corpos quase se tocavam, ela pingando, ele peludo.<br />
 Com o olhar bem fixo no rosto irado da mulher, Domingos apelou à calma:<br />
 – <strong>Não sejas tola, Gina, o <em>Mercedes</em> que dei à gaja é uma merda comparado com o teu… É daqueles pequeninos, nem capota automática tem! E foi comprado em segunda mão, vê lá tu… Foi só para amaciar, percebes môre?…<br />
 </strong>Com a ira facial a transformar-se progressivamente em beicinho, Gina roçou ao de leve os peitos túrgidos pelo denso matagal piloso do marido. Por fim perguntou, já na sua voz fininha e prometedora de criança mimada:<br />
 – <strong>O meu Mercedes é maior que o dela?… É, Mingos?…<br />
 </strong>– <strong>É filha, é. Pelo menos o dobro</strong> – elogiou o sucateiro, largando os punhos da mulher devagar e envolvendo-a num paternal e redondo abraço.<br />
 – <strong>Vá! Quero uma beijoca já!</strong>, exigiu o sucateiro num acesso de ternura.</p>
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		<title>Don´t ask me..</title>
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		<pubDate>Sun, 22 Aug 2010 18:57:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[ASK ME HOW DO YOU GET TO TOMORROWLAND* Ao quotidiano máximo as arestas mínimas: mundo curvo de linhas côncavas que nos retêm, corpo na rede em balanço de domingo; mundo curvo de linhas convexas que nos expulsam sem nos deixar cair; vida de anos feitos de meses feitos de horas feitas de gravidade e força [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_17762" class="wp-caption aligncenter" style="width: 262px"><a rel="attachment wp-att-17762" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/don%c2%b4t-ask-me/botero-homenagem-a-bonnard-3/"><img class="size-full wp-image-17762" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/Botero-Homenagem-a-Bonnard2.jpg" alt="" width="252" height="320" /></a><p class="wp-caption-text">Botero, Homenagem a Bonnard</p></div>
<p style="text-align: justify;"><strong>ASK   ME HOW DO YOU GET TO TOMORROWLAND</strong>*<br />
 Ao quotidiano máximo as arestas mínimas: mundo curvo de linhas côncavas   que nos retêm, corpo na rede em balanço de domingo; mundo curvo de   linhas convexas que nos expulsam sem nos deixar cair; vida de anos   feitos de meses feitos de horas feitas de gravidade e força centrípeta,   não queremos sair das linhas côncavas de domingo, agarram-nos os anos nas linhas convexas,   não nos deixam cair das linhas convexas, máximo quotidiano, mínimas   arestas. <br />
 Aqui, imersa e morna, já satisfeita e bem cumprida a higiénica do   sexo na mecânica do orgasmo, penso-nos: em que dia, meu amor ao espelho,   meu espelho, deixámos de ser paixão e passámos a ser família?</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">* verso  da canção <em>TOMORROWLAND**, </em>interpretada por<em> Terry  McKay</em>, Deborah Kerr, em  <em>AN AFFAIR TO REMEMBER, 1957<br />
 ** TOMORROWLAND, </em>música de Harry Warren, letra de Harold Adamson e Leo McCarey</p>
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