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	<title>É tudo gente morta</title>
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		<title>De que é gostamos quando gostamos?</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Mar 2010 01:22:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Há coisas de que, sem esforço, gostamos. Por unanimidade e aclamação. Gostamos mesmo. Do lindo sol, do sabor fresco da cerveja ao pé do mar, da espumosa exuberância do champagne, de deitarmos a cabeça entre as amadas coxas. Vivemos para isso, a pensar nisso. Sabemos que é aqui e nesse aqui que reside a felicidade. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Há coisas de que, sem esforço, gostamos. Por unanimidade e aclamação. Gostamos mesmo. Do lindo sol, do sabor fresco da cerveja ao pé do mar, da espumosa exuberância do champagne, de deitarmos a cabeça entre as amadas coxas. Vivemos para isso, a pensar nisso. Sabemos que é aqui e nesse aqui que reside a felicidade. <br />
Então, porque é que nos comove tanto que se cante assim, mesmo quando o que assim se canta é a nostalgia de um tempo só de heroísmo e sacrifício?!</p>
<p><object width="480" height="295"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/Dr82JEKs9NM&#038;fs=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/Dr82JEKs9NM&#038;fs=1" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="295" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p style="text-align: justify;">Ou porque é que tanto nos exalta e alvoroça o ritmo das botas que marcham, a imponência dos exércitos em parada, da patriótica multidão unida em torno de coisa quase nenhuma?!</p>
<p><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/znEePD1nJxo&#038;fs=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/znEePD1nJxo&#038;fs=1" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
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		<title>Desabafos de experimentalista</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Mar 2010 16:25:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Francisco Feijó Delgado</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[
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			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_9470" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/kriptonyte.jpg"><img class="size-large wp-image-9470" title="Kryptonite " src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/kriptonyte-500x400.jpg" alt="" width="500" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">Oh no, kryptonite is destroying my work.</p></div>
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		<title>Augusto, prazer em conhecê-lo!</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Mar 2010 11:33:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Para além do tão envolvente e angustiante post abaixo, aqui ao lado o Ruy Vasconcelos apresenta-nos um “Midas de frases curtas”, um conversador que vale a conversa inteira e nunca acabada. É o nosso mais recente “querido morto”. Andou por aí, na “madrugada sonolenta, de bolero em bolero” e, agora, está “com a vida que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Para além do tão envolvente e angustiante post abaixo, <a href="http://www.etudogentemorta.com/cemiterio/augusto-pontes/">aqui ao lado </a>o Ruy Vasconcelos apresenta-nos um “<strong><em>Midas de frases curtas</em></strong>”, um conversador que vale a conversa inteira e nunca acabada. É o nosso mais recente “querido morto”. Andou por aí, na “<strong><em>madrugada sonolenta, de bolero em bolero</em></strong>” e, agora, está “<strong><em>com a vida que pediu a Deus</em></strong>”.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Arquelogia de um futuro sem retornos</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Mar 2010 02:10:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ruy Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[
Barbara Kruger, My Pretty Poney, 1988
Um velha short-story com meia e doze notas de rodapé
 
Aos quinze, ela foi a um show de rock.i E aprimeravistou-se amando um caraii da idade dela. Foram cinco anos de violentas convulsões. Como são os segundos partos, essa muda de pele. Ele foi para os Estado Unidos, por um ano. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h1 lang="pt-BR"><a rel="attachment wp-att-9456" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/03/arquelogia-de-um-futuro-sem-retornoso/cri_81418-2/"><img class="aligncenter size-full wp-image-9456" title="CRI_81418" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/CRI_814181.jpg" alt="" width="500" height="246" /></a></h1>
<p style="text-align: right;">Barbara Kruger, <em>My Pretty Poney</em>, 1988</p>
<h1 lang="pt-BR"><span style="font-family: times new roman,times;">Um velha <em>short-story</em> com meia e doze notas de rodapé</span></h1>
<p lang="pt-BR"> </p>
<p style="text-align: justify;">Aos quinze, ela foi a um show de rock.<sup><a href="#sdendnote1sym"><sup>i</sup></a></sup> E aprimeravistou-se amando um cara<sup><a href="#sdendnote2sym"><sup>ii</sup></a></sup> da idade dela. Foram cinco anos de violentas convulsões. Como são os segundos partos, essa muda de pele. Ele foi para os Estado Unidos, por um ano. Intercâmbio cultural. E lhe deu um fora por MSN<sup><a href="#sdendnote3sym"><sup>iii</sup></a></sup>. Ela passou uma semana na treva do quarto. Sem livro, sem internet. Só com sua música e um jejum. Quer dizer, com a música deles. A mesma canção. De novo. E de novo. E depois silêncio. Profundo silêncio. Silêncio instalado após saber que não ia mais se matar. Seguiu vivente. Teve namorados outros. Poucos. Casos. Alguns a princípio. Depois muitos. Simultâneos. A rodo. Pulou de cama em cama com um percevejo.<sup><a href="#sdendnote4sym"><sup>iv</sup></a></sup> Cheia de mágoa até a raiz dos cabelos castanhos claros. Do delicado rosto com o sinal acima do sobrelábio esquerdo. Quanto mais maltratavam-na, caiam em seu gosto. Porém desgostava na carreira. Logo a seguir. Como se enjoa de um chá. Criou uma ciranda de mistério à volta de si em torno dos vinte e cinco. Uma espécie de vestido opaco que não deixa ver as formas. Chorava de noite. Sorria de dia. A desfaçatez passou a ser seu orgulho. Só conseguia transar sem estima. Por esporte.<sup><a href="#sdendnote5sym"><sup>v</sup></a></sup> Mecânica. Passatempo. Mero instinto? E lhe causava arrepio a possibilidade de voltar a sentir.<sup><a href="#sdendnote6sym"><sup>vi</sup></a></sup> Para um amigo fotógrafo posou vestida à grega segurando uma grande maçã mordida. Então começou a viver mais na <em>internet</em> que fora dela. Juntou-se a um grupo de visitadores de lojas de decoração: <em>Le Décor du Fort</em>. Mantinham blogues e intercâmbios. Visitações a lojas de grife e brechós eram muito mais esporádicas que o que viviam na virtuália. E por todos os poros virtuais lá estavam: redes sociais, transmissões em tempo real, jogos, frases de efeito, mensagens por celulares e entropias outras.<sup><a href="#sdendnote7sym"><sup>vii</sup></a></sup> Mil noites e uma socados em seus quartos apertando teclas. Trocavam fotos, canções, caprichos, sugestões de novos sítios.<sup><a href="#sdendnote8sym"><sup>viii</sup></a></sup> Havia zelos  como os há entre amigos. Entre iniciados. Círculos de giz. E ela pairava acima de todos, como a única janela na parede de pedra chupa o olhar do passante.  Como o quartzo limado de sol. Um diamante moreno claro desejado por homens e mulheres. Imponente em sua volubilidade. Quase uma gnosiologia,<em> Le Décor du Fort</em>. Eram ingênuos, opinativos. Felizes, no entanto. O gordo estudante de engenharia civil. O magro estudante de engenharia elétrica. A publicitária frustrada. A risonha apresentadora do telejornal. Quase todos.<sup><a href="#sdendnote9sym"><sup>ix</sup></a></sup> Ela não. Passaram os anos. Obcecada por casamentos, foi madrinha de uns dez. E quase foi do seu próprio. Casou no tempo certo. Viçosa, felina. Como um jaguar atravessando um rio. Mas mesmo depois de casada, ficou para tia.<sup><a href="#sdendnote10sym"><sup>x</sup></a></sup> A rigidez da dor desenhou-se então em seu rosto, sem mais criptogramas no dealbar da velhice. Separou-se. Como metade dos de sua classe e geração.<sup><a href="#sdendnote11sym"><sup>xi</sup></a></sup> Celibatou-se. Aposentou-se como assessora de imprensa da Assembleia Legislativa. Morreu magra e infeliz. De câncer no pulmão. Como morrem os tristes.<sup><a href="#sdendnote12sym"><sup>xii</sup></a></sup> Mesmo sem ter fumado um cigarro na vida. Um leve sorriso nos lábios ainda era a linha que podia, devia ter dito. Uma frase que reteve na ponta da língua. No vértice do fôlego. Anos. Nos artelhos aos flancos do teclado. Jamais pressionados, os caracteres que não se sequenciaram nunca para forma de sentença. Aquele não dito. Breve, decisivo. Que moldou seus lábios num sorriso leve quando o corpo enrijeceu. A única frase que devia ter dito. Mas não disse. Num brinquedo antigo e precário. Chamado MSN.</p>
<p lang="pt-PT"><a href="#sdendnote1anc">i</a>“Shows 	de rock” seriam algo análogos aos nossos atuais <em>drunkards</em>, 	porém como bem menos interferência de comandos suprassensíveis, a 	imposição de uma música a um público passivo, não interativo, e 	a impossibilidade de contato via emissão cerebral.</p>
<p><a href="#sdendnote2anc">ii</a>“Cara” 	eslango brasileiro arcaico para “gajo”, “zola”, no Brasil de 	hoje. Em Portugal e Africanidade, “rapaz”, “cabra”.</p>
<p><a href="#sdendnote3anc">iii</a>Primitiva 	modalidade de comunicação pela “rede mundial” quando os 	“computadores” ainda eram acoplados a teclados com letras e 	caracteres. No início, ainda alâmbricos. Muito popular, sobretudo 	entre jovens, do início do sec. XXI da Era Comum.</p>
<p><a href="#sdendnote4anc">iv</a>O 	suficiente para ser odiada por metade das esposas e namoradas da, 	então, emergente alta classe-média, na Aldeota.</p>
<p><a href="#sdendnote5anc">v</a>Duvida-se 	da eficácia desta assertiva. Uma vez que havia uma veemente grau de 	paixão em alguns esportes de então, à exceção do críquete. 	Notadamente no futebol e no carnaval – que começou como algo 	lúdico, sem uma característica propriamente esportiva e restrito a 	alguns dias que precediam a Quaresma, no antigo calendário cristão.</p>
<p><a href="#sdendnote6anc">vi</a>A 	acepção deste expressivo vetorial desinenciado é completamente 	distinto da nossa. No sistema moral de então preponderava uma 	sanção  entre afecção e sexo(?). Embora isso quase sempre não 	se cumprisse fora dos códigos e da “razão tolerável”, para 	citar o téorico angolano Manuel Fonseca Mourinho.</p>
<p><a href="#sdendnote7anc">vii</a>“Redes 	sociais”, “transmissões em tempo real”, “jogos 	[eletrônicos]”, “mensagens por celulares” eram modalidades de 	comunicação pré-teledata, no que se chamava “internet”, ou “rede 	mundial de computadores”. Redes sociais eram avós das nossas 	<em>talktos</em>. 	Jogos eram ainda da fase eletrônica ou virtual, uma febre á época. 	Ao ponto de um casal da extinta Coréia [província da União do 	Pacífico] gastar doze horas por dia criando uma bebê virtual 	enquanto a filha de três meses morria de inanição. “Celulares” 	[“telemóveis”, em Portugal,  província da atual Periféria 	Europaica] eram aparelhos de comunicação pré-teledata, manejados 	por… teclas pressionáveis, ainda desta vez. Sem nenhum comando de 	onda cerebral. Bastante precários e a funcionar com baterias 	recarregáveis de curtíssima duração.</p>
<p><a href="#sdendnote8anc">viii</a>“Sítios” 	[“sites” no Brasil e nos Estados Unidos pré–<em>latinos</em>] 	eram, na internet, precursora da rede infraespacial de teledata, os avós de nossas “tabs”. 	Funcionavam em grandes e desgraciosas geringonças que ocupavam imenso espaço e 	geravam uma descomunal quantidade de lixo intermitente. E mesmo os 	portáteis pesavam alguns quilos. Era “o computador”.</p>
<p><a href="#sdendnote9anc">ix</a>Há 	quem censure essa distância entre este “quase todos” e ao que 	se refere “felizes, no entanto”. Também suspeita-se que o 	“quase todos” possa estender-se a “eram ingênuos e 	opinativos”. Mas essa hipótese parece haver sido descartada pela 	maioria dos exegetas pós-contemporâneos.</p>
<p><a href="#sdendnote10anc">x</a>Descobriu-se 	que seu útero era atrofiado, não ancho o suficiente para envolver 	um feto.</p>
<p><a href="#sdendnote11anc">xi</a>Segundo 	dados do antigo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística 	(IBGE), atual CGEBS (Conservatório de Geoestatística do Brasil e 	Suramérica), 46% dos brasileiros de alta classe-média nascidos na 	década de 80 do século sec. XX divorciaram-se. Uma estatística 	ainda bastante tímida, mas já encorajadora para a era 	Pre-Hecatômbica.</p>
<p><a href="#sdendnote12anc">xii</a>De 	acordo com o  médico, professor universitário, escritor –  	jornalista televisivo, de espessa ressonância – Dr. Drauzio 	Varella, o câncer no pulmão estaria intimamente relacionado ao uso 	do tabaco, à excessiva introspecção, à depressão e às crises 	de pânico. Todos esses “sintomas psicossomáticos”,[*] por seu 	turno, associados à dificuldade de comunicação e relativa 	infelicidade ou insatisfação consigo próprio também entravam na 	pauta. Esta teoria, bastante propagada na primeira década do sec. 	XXI, chega a tirar riso. A televisão detinha, então, grande 	impacto sobre a população do país. O Dr. Varella fazia muito 	sucesso na extinta Rede Globo, cujo forte era o folhetim eletrônico, 	denominado de “novela”. O formato do folhetim vazava, no 	entanto, para o jornalismo, a crônica social, o comentário 	político, a documentaridade, etc. De fato, a teoria do Dr. Varella 	pode soar extremamente divertida nos diascorrentes. Pois todos 	sabemos que o câncer no pulmão, doença quase extinta, é 	provocado por substâncias que contém látex, como as gomas de 	mascar e o açaí, entre outras plantas resinosas ainda encontradas 	nas microreservas da Amazônia. Entravam também na composição das 	“sodas”, como no caso da popular e intragável <em>Coca-Cola</em>. 	Daí a razão da alta incidência de câncer no pulmão entre os 	xamãs indígenas ou os integrantes das seitas Santo Daime e União 	Vegetal, que, em seus rituais, ingeriam uma beberragem resinosa 	chamada auasca, cuja origem remete aos índigenas da selva peruana. 	O látex está na composição do papel. Suportedata por excelência 	do período. Também usado como envoltório do tabaco.</p>
<p>[*] 	O conceito “sintoma” ainda era usado nas escolas e na prática 	da paramedicina.</p>
<p style="text-align: right;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p>* * *<br class="spacer_" /></p>
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		<title>11 de Março</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Mar 2010 00:38:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
Faz hoje 35 anos. No dia 11 de Março de 1975, Portugal, que então vivia tudo sem espanto, assistiu a um golpe de estado que nacionalizou quase todos os grandes grupos económicos. Banca, seguros, transportes e o diabo a quatro que é o que mais e melhor move o êmbolo do capital. Escapou o SLB!
Passo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-medium wp-image-9451" title="Nacionalizacaobanca2" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/Nacionalizacaobanca2-300x212.jpg" alt="" width="300" height="212" /></p>
<p style="text-align: justify;">Faz hoje 35 anos. No dia 11 de Março de 1975, Portugal, que então vivia tudo sem espanto, assistiu a um golpe de estado que nacionalizou quase todos os grandes grupos económicos. Banca, seguros, transportes e o diabo a quatro que é o que mais e melhor move o êmbolo do capital. Escapou o SLB!<br />
Passo a vida a ouvir elogios a ardentes e vibrantes visionários. Acabo invariavelmente, e dez anos depois, a descobrir o obscuro estampanço das luminárias. <br />
Decidi jogar à defesa: visionários são os que, 30 anos depois, descobrimos que tinham razão. É, por isso, de elementar justiça saudar os visionários do 11 de Março. Se não fosse o que, então, passou por incompreendido assalto, expliquem-me o que é que hoje, a 11 de Março de 2010, o Estado teria para vender e dar gás ao PEC?<br />
Aquela malta que se vê na foto acima, no Terreiro do Paço, sabia que estava a trabalhar para o futuro! Haja alguém que reconheça, retrospectivamente, a centelha de futuro (e de inominável liberalismo) que atravessou a mente dos nossos truculentos revolucionários de 75. O ministro Teixeira dos Santos, devoto e obrigado, antes de todos.</p>
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		<title>Este país, chique a valer, só está para dâmasos. E salcedes!</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2010/03/este-pais-chique-a-valer-so-esta-para-damasos-e-salcedes/</link>
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		<pubDate>Wed, 10 Mar 2010 19:15:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[
Eu tenho uma pistola. De agrafos, o que é que estava a pensar?! É pesada, a danada,  tão pesada que não se deixa pegar direitinha, sem apoio. Ora isto vem a  propósito do quê? Do PEC, do que é havia de ser… e não é porque vá  desandar a agrafar a classe [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-9435" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/03/este-pais-chique-a-valer-so-esta-para-damasos-e-salcedes/bolo-prenda-2/"><img class="aligncenter size-medium wp-image-9435" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/bolo-prenda1-300x300.jpg" alt="" width="300" height="300" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Eu tenho uma pistola. De agrafos, o que é que estava a pensar?! É pesada, a danada,  tão pesada que não se deixa pegar direitinha, sem apoio. Ora isto vem a  propósito do quê? Do PEC, do que é havia de ser… e não é porque vá  desandar a agrafar a classe política em geral e os gestores públicos em  particular. É porque, sem me chamar Martha Stewart ou Bree Van De Kamp,  tenho um defeito terrível que, nas relações pessoais e na economia  doméstica, é uma qualidade: <em><span style="background-color: #ccffff;">quando olho para uma pessoa ou coisa, nunca  considero só aquilo que ela é, mas tudo aquilo que ela pode ser</span></em> — tive  uma epifania, acho que, mal comparado, é um feitio de alquimista.  Adiante. Nas outras situações é mau porque induz, pode  induzir, em erros de avaliação. Graves. Todavia nestas duas situações é bom. Não podia  ser melhor.<br />
 A parte humana é obviamente fácil de entender: <em><span style="background-color: #ccffff;">quando se vê uma  pessoa no esplendor do seu futuro potencial, basta, no presente, na relação com ela, ir a direito em direcção a esse futuro, prevendo as dificuldades, para  que a  pessoa manifeste a sua capacidade no presente.</span></em> E é uma felicidade. <br />
 Agora, a parte  doméstica porque, nos dias que correm, convém gastar menos, no entanto,  vivendo tão ou mais bem, ou mesmo, tendo uma vida melhor do que quando  se gasta mais. É preciso olhar para uma moldura de loja dos trezentos e vê-la costume made para um quarto. Encontrar  entre bases de candeeiro de feira de velharias, a talha que se restaura e folheia a ouro. Lembrar de quem gosta de bolachas de manteiga e quem prefere compota. Saber o que comprar e onde e a quem. E o que  fazer com aquilo que se compra para que se dê, como direi?, o milagre da  multiplicação do vinho e do pão, mas sem a parte do milagre. Enfim, esquecer o que não interessa: que há hipermercados que vendem o tomate a mais de dois euros o quilo. A verdade é que poupando, se tem liberdade para as pequeninas extravagâncias e para alguma generosidade — só falo, obviamente, daqueles que têm a satisfação das necessidades básicas assegurada. Mais do que  tempo, o que é necessário é organização. No fundo, é a <strong><em>teoria do porco</em></strong>.  Em toda a sua extensão quando possível. Quando não, o mais que se  conseguir. Olhe, a teoria do meio porco e não se fala mais nisso. Eu não compro febras, compro um porco. Não  compro secretos, não compro lombo, não compro linguiças, nem banha. Nem  presunto. Compro um porco. Não compro carne cheia de antibióticos, criada a partir de ração de farinhas duvidosas, carne que encolhe  no tamanho e no peso quando se cozinha e sabe a qualquer coisa vagamente  porca. Compro carne de um bicho meio selvagem que anda pelos montados a  comer bolotas e o que deve, tem uma vida santa e uma morte limpa. <em>Ai um  porco é muito grande, onde é que eu ponho tanta carne?! </em>Diz você.<em> </em>Compre a meias  com a sua irmã. A treias com o seu irmão e pais. A seias com as suas  lindas amigas.<em> E o que é que isto tem que ver com a pistola?</em> Tudo! Fazer  coisas é bom. Seja para nós, seja para os que amamos. Para os que não sabemos amar, também. Faz-nos sentir  competentes porque nos dá competências. E fazê-lo acompanhado, é  diversão de programa de festas. Até educação para a frugalidade e/ou  criatividade, sem seca. E para a justa medida quando a vaidade nos dá para a hipérbole. O corpo é tão importante como a cabeça e é uma  alegria utilizá-lo – não me estou a referir a exercícios de yoga ou  manobras de outra natureza, que, concedo, é tudo também muito bom. E nem sequer é preciso ter jeito: vontade e  prática, bastam. Para corrigir os erros, usa-se a tal da cabeça. Volto  para lhe contar tudo. Pronto, conto só um bocadinho. Sabe o que é eu  fiz? Já forrei uma cabeceira de cama, um sofá, uma fartura de bancos de  cozinha. Não foi hoje. Se parecem projectos dignos de uma aula de trabalhos manuais? Essa é boa… Garanto-lhe que parecem ter vindo do estofador — de um estofador que admite pequeninas imperfeições do seu aprendiz que as disfarça com muito afinco. Isto para ficarmos pelos  agrafos. Se fosse falar de candeeiros, abria uma loja de iluminação.  Bem, quase. Teria, vá, uma prateleira numa loja de iluminação. Comida? Só lhe digo, na sexta-feira, uma querida amiga faz anos e eu vou levar para o pai dela bolinhos de gema de ovo. Se saírem mal, uma garrafa de belo tinto.</p>
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		<title>Madalena</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Mar 2010 00:14:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[É alegre e optimista, corajosa e persistente, generosa e sensata. Gosta de ler e de tocar guitarra, de escrever e de desenhar. Devora quantidades desmedidas de chocolate e de arroz e detesta bananas. Tem a secretária e o quarto sempre arrumados. É uma barra nas notas e imbatível a nadar costas. Cuida de toda a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_9421" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a rel="attachment wp-att-9421" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/03/madalena/madalenapascoa2009formatada/"><img class="size-medium wp-image-9421" title="MADALENAPASCOA2009Formatada" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/MADALENAPASCOA2009Formatada-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a><p class="wp-caption-text">JV, MADALENA, Páscoa 2009</p></div>
<p style="text-align: justify;">É alegre e optimista, corajosa e persistente, generosa e sensata. Gosta de ler e de tocar guitarra, de escrever e de desenhar. Devora quantidades desmedidas de chocolate e de arroz e detesta bananas. Tem a secretária e o quarto sempre arrumados. É uma barra nas notas e imbatível a nadar costas. Cuida de toda a gente – de mim, quando me sente cansada ou triste, das irmãs, a quem livra dos mais delirantes enredos, dos atrapalhados colegas nas vésperas dos testes, dos idosos do lar que visita às terças e a quem leva maçãs, bolachas, marmelada e tudo o mais que lhe ocorre furtar da despensa cá de casa.               </p>
<p style="text-align: justify;">Quer ser médica e salvar vidas. Diz que vai para África. Também quer ser escritora e ter três filhas. E não duvida que um dia vai avistar uma baleia azul a nadar em pleno oceano.   </p>
<p style="text-align: justify;">Às vezes zanga-se. Comigo, porque não a compreendo. Com as irmãs, porque abusam indecentemente dela. Com o cabelo, com as borbulhas, com as amigas e com o mundo em geral, porque sim. Então resmunga e brada aos céus, profere negras ameaças e fecha-se no quarto, a remoer. Disfarço como posso uma imensa vontade de rir e suspiro de alívio: afinal ela é normal. </p>
<p style="text-align: justify;">Nasceu faz hoje 15 anos. E mudou a minha vida para sempre.</p>
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		<title>Stairway to heaven</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Mar 2010 23:31:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
Começa como uma balada. Acaba em apocalíptico hard-rock. Primeiro romance, depois matança. Mas é uma grandessíssima canção de uns ingleses marados que davam pelo nome de Led Zeppelin. Robert Plant cantava com voz e cabelos, Jimmy Page desunhava-se no (talvez) mais mítico solo de guitarra da história do rock. À canção, tocaram-na de todas as [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/3mGb9yLGK8M&#038;fs=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/3mGb9yLGK8M&#038;fs=1" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p style="text-align: justify;">Começa como uma balada. Acaba em apocalíptico hard-rock. Primeiro romance, depois matança. Mas é uma grandessíssima canção de uns ingleses marados que davam pelo nome de Led Zeppelin. Robert Plant cantava com voz e cabelos, Jimmy Page desunhava-se no (talvez) mais mítico solo de guitarra da história do rock. À canção, tocaram-na de todas as maneiras e feitios. Ninguém melhor do que os autores. Mas gosto muito do “tribute” irónico, desconstrutivo, desarmante, que Frank Zappa lhe dedicou. De Zeppelin a Zappa, estamos a falar de gente séria, com escadinha para o paraíso.</p>
<p><object width="384" height="313"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/7YYjeB_PmuQ&#038;fs=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/7YYjeB_PmuQ&#038;fs=1" type="application/x-shockwave-flash" width="384" height="313" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
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		<title>Dois livros, duas capas</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Mar 2010 18:54:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Lá vem, outra vez, outra vez! a declaração de interesses… A editora e eu, eu e a editora, blá, blá, blá… Mas o que é que querem, não resisto a mostrar capas e livros novos.
Já tinha dito que a Guerra e Paz publicou até hoje 3 livros de Agustina? Já e repito: As Meninas com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Lá vem, outra vez, outra vez! a declaração de interesses… A editora e eu, eu e a editora, blá, blá, blá… Mas o que é que querem, não resisto a mostrar capas e livros novos.<br />
Já tinha dito que a Guerra e Paz publicou até hoje 3 livros de Agustina? Já e repito: As Meninas com Paula Rego, Fama e Segredo da História de Portugal, o autobiográfico Livro de Agustina.<br />
Já tinha dito que, muito em breve, a Guerra e Paz terá também 3 livros publicados de Jorge de Sena? Não? Digo agora: nos próximos dois meses, à Correspondência de Sena com Sophia, agora reimpresso com 9 cartas inéditas, a Guerra e Paz vai juntar dois novos livros, Dedicácias, contendo os mais violentos poemas de escárnio e maldizer do poeta, e a Correspondência que trocou com Raul Leal.<br />
Mas hoje, as capas e os novos livros que mostro são os de nova aposta: a publicação sistemática de novos romancistas portugueses.<br />
“<strong><em>Todos os dias, a toda hora penso que esta vida não pode ser a minha vida</em></strong>” lê-se no romance de estreia de Cristina Boavida, a que ela chamou “<strong>Só No Escuro Podes Ver as Estrelas</strong>”. A editora deu-lhe esta linda capa:</p>
<p style="text-align: center;"> <img class="size-medium wp-image-9412  aligncenter" title="Só no Escuro Podes Ver as Estrelas GP" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/Só-no-Escuro-Podes-Ver-as-Estrelas-GP1-300x458.jpg" alt="" width="300" height="458" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>“- Ora até que enfim – silvou baixinho Damião S. Sampaio, ajeitando melhor os fundilhos à cadeira de trabalho.</em></strong>” foi a forma que António Eça de Queiroz encontrou para começar o seu primeiríssimo romance, titulado com toda a propriedade “<strong>O Romance Ilegal do Sr. Rodolfo</strong>” que a editora revestiu com capa celestial:</p>
<p style="text-align: center;"> <img class="size-full wp-image-9413    aligncenter" title="untitled" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/untitled.bmp" alt="" /></p>
<p> Primeiros romances. Estou firmemente convencido que a Cristina e o António vão escrever muitos mais.</p>
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		<title>Hoje à noite, em Milão</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Mar 2010 11:59:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Faz hoje 168 anos, ia uma louca e vertiginosa azáfama em muitas casas milanesas. Senhoras armavam cabelos, criadas passavam-lhes os longos vestidos, lustravam-se os generosos centímetros de doce seio que brilhariam depois no insensato decote. À noite, “ah, logo à noite”, estrear-se-ia no Scala a terceira ópera de… de…, “ai como é que ele se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Faz hoje 168 anos, ia uma louca e vertiginosa azáfama em muitas casas milanesas. Senhoras armavam cabelos, criadas passavam-lhes os longos vestidos, lustravam-se os generosos centímetros de doce seio que brilhariam depois no insensato decote. À noite, “<em>ah, logo à noite</em>”, estrear-se-ia no Scala a terceira ópera de… de…, “<em>ai como é que ele se chama..?</em>”, “<em>Olha, Verdi, sei que é Verdi!</em>”.<br />
Livremente inspirada nos incidentes bíblicos, a cuja fantasia presto devoção, Nabucco, terceira ópera de Verdi, segue os sofrimentos e peregrinação do povo judeu, desde o ataque até à escravização e exílio. Tudo sob a feroz e férrea acção de Nabucodonosor (“<em>Não sou rei! Sou Deus!</em>”).<br />
A noite foi gloriosa e o público pediu encore do “Immenso Jehovah”. Mas colado às paredes, caminhando pelas vielas mais escusas, um compositor alemão, Otto Nicolai, que recusara o libreto, a ele primeiro oferecido, ruminava impropérios: “<em>Como é que podem gostar disto, o homem compõe como um louco, nem profissional é. Que história, só de raiva, sangue e matança!</em>”<br />
E era e começava assim:</p>
<p><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/ODnfv0MI4Hk&#038;fs=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/ODnfv0MI4Hk&#038;fs=1" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p>E era e acabava assim:</p>
<p><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/xRNe9RbltjQ&#038;fs=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/xRNe9RbltjQ&#038;fs=1" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
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		<title>In Memoriam — Mark Linkous</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Mar 2010 01:23:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[

Mais um grande talento da música que nos deixa prematuramente. Partiu porque quis e, provavelmente, porque percebeu de vez que o “It´s a Wonderful Life” que (en)cantava só existia no mundo de perfeitas harmonias que a sua voz e guitarra criaram para os Sparklehorse. Deixa-nos com esse legado, um dos mais brilhantes álbuns da década [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><br class="spacer_" /></p>
<p><img class="aligncenter size-medium wp-image-9402" title="Mark Linkous" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/sparklehorse-s1-300x171.jpg" alt="" width="300" height="171" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mais um grande talento da música que nos deixa prematuramente. Partiu porque quis e, provavelmente, porque percebeu de vez que o “It´s a Wonderful Life” que (en)cantava só existia no mundo de perfeitas harmonias que a sua voz e guitarra criaram para os <em>Sparklehorse</em>. Deixa-nos com esse legado, um dos mais brilhantes álbuns da década agora finda, tantas vezes ouvido no silêncio da noite profunda e dos poucos que, sempre que nele pegava, acabava invariavelmente por ouvir não uma, mas duas e três vezes seguidas, e sempre como se fosse a primeira.</p>
<p style="text-align: justify;"> <br />
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/CR23qpdiIVE&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/CR23qpdiIVE&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object></p>
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		<title>É delito e agradecemos</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Mar 2010 22:46:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[O nosso blog é como aquelas criancinhas de que as mães e as amigas das mães dizem “ai tão perfeitinho”.  Foi o Francisco que o fez e muito bem feito. Mas o Francisco avisou logo que ainda faltava uma coisa — os links. E faltam. Ainda. 
Agora, por acaso, disseram-me ao ouvido que o Delito [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O nosso blog é como aquelas criancinhas de que as mães e as amigas das mães dizem “ai tão perfeitinho”.  Foi o Francisco que o fez e muito bem feito. Mas o Francisco avisou logo que ainda faltava uma coisa — os links. E faltam. Ainda. <br />
Agora, por acaso, disseram-me ao ouvido que o <a href="http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/">Delito de Opinião</a>, um blog a sério e muito bom, gostou duma roupinha lavada com que nos andámos a passear no fim de semana e fez-nos link <a href="http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/1533368.html">aqui</a>. E nós gostámos, gostamos e agradecemos.</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p><a href="http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/1533368.html"></a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Manuel Fonseca, conte tudo tudinho!</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2010/03/manuel-fonseca-conte-tudo-tudinho/</link>
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		<pubDate>Mon, 08 Mar 2010 18:24:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[De Eugénia, dita Rainha da Sardenha, Serva das Servas de Deus, da Bondade e Modéstia, ao Caríssimo Irmão em Cristo, e Bloga, Pedro Marta Santos, Ilustre Rei de todos os Cinéfilos, habitantes das terras brumosas do Reino da Cinefilândia, Servo dos Servos do Argumento que, oferecendo como veículo as palavras de Sua pena, cede a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">De Eugénia, dita Rainha da Sardenha, Serva das Servas de Deus, da Bondade e Modéstia, ao Caríssimo Irmão em Cristo, e Bloga, Pedro Marta Santos, Ilustre Rei de todos os Cinéfilos, habitantes das terras brumosas do Reino da Cinefilândia, Servo dos Servos do Argumento que, oferecendo como veículo as palavras de Sua pena, cede a Excelsa voz ao silêncio das imaginações.<br />
 Mostrastes, e indubitavelmente o vimos, que sois bom Rei das terras da Cinefilândia pois incontáveis vezes defendestes Vossos súbditos do mal contra eles arremedado — permiti que, à laia de menor exemplo, a Vossa humildade contemple o generoso bom serviço que prestastes a Dom M. Noite Shyamalan, cavaleiro -, e por Vossa corajosa defesa, por Vosso reconhecimento da grandeza de outrém, conquistastes a eterna dívida deles e dos que os seguem que, assim, Vos são e serão leais e aos Vossos pés depositam a espada dos serviços que heis-de, por merecimento, haver.  Destes, intrépido, valoroso e sem proveito próprio, o que para Vós colhestes em sabedoria após fotogramada reflexão e por isso deve a Sardenha responder sem delongas ao que a Vossa modéstia suplica, usando de desnecessária reverência no tom ao dirigir-se-nos, a nós que somos em Majestade iguais a Vós, ainda que em virtude não mais que o último dos Vossos discípulos. Todavia, antes, e porque o primeiro magistério da Sardenha obriga à verdade que só nos mitos infantis se revela, cabe-nos confirmar a pura linhagem, idoneidade, toda e cada uma das proezas, e o que por pudor ocultastes: o devotado fervor amoroso e conjugal consumado na cabana de ouro, na praia, daquele que entre os Grandes é Máximo, o Fantasma. Atendo, então, ao que podendo ordenar, pedis.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta seria a altura ideal para falar da minha Murasaki Shikibu, ou do meu Churchill, do Jung, mesmo da Sei Shonagon, ou de tantos tão superiores outros, vá, da Jo March, não fora, apesar da genuína admiração, o facto de, infelizmente, não serem os meus mais internos heróis. <br />
 O meu grande herói é D. Vito Corleone. Gosto de tudo dele e não tenho, ó desgosto, umazinha só das qualidades que nele superabundam e a mim tanto faltam. Gosto-o criança muda e subestimada, gosto-o fechado no quarto, de quarentena, a cantar para ter tudo o que já tinha perdido, gosto-o diligente de mercearia e ali babá de levar para a mulher aconchegar a casa, um tapete persa grande demais. Gosto-o por tão familiar. E por ser salomónico, proporcional e sem excessos. Mas mais que tudo, gosto que as circunstâncias que o determinam, determinem a excelência porque não se pode determinar aquilo que não se é.</p>
<p style="text-align: justify;"><a rel="attachment wp-att-9379" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/03/manuel-fonseca-conte-tudo-tudinho/the-godfather-family-photo/"><img class="aligncenter size-large wp-image-9379" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/the-godfather-family-photo-500x281.jpg" alt="" width="500" height="281" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">O meu vilão parece divertido. Mas é um monstro. E é perigoso: é infantil, egoísta, indisciplinado, insuportável. Sabotador. Exaspera-me. Cansa-me. É pior do que Penélope à noite: desfaz, tenta desfazer, tudo. É o Calvin. O que me vale é que o meu Hobbes não é só o meu lindo Cão. É a, inaceitável para século XXI, Anita.</p>
<p><a rel="attachment wp-att-9380" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/03/manuel-fonseca-conte-tudo-tudinho/calvin-and-hobbes-calvin-and-hobbes-1395529-1280-1024/"><img class="alignleft size-medium wp-image-9380" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/Calvin-and-Hobbes-calvin-and-hobbes-1395529-1280-1024-300x240.jpg" alt="" width="300" height="240" /></a><a rel="attachment wp-att-9381" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/03/manuel-fonseca-conte-tudo-tudinho/martine1_m/"><img class="alignright size-medium wp-image-9381" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/Martine1_m-300x234.jpg" alt="" width="300" height="234" /></a></p>
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		<title>Bread and Roses</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Mar 2010 09:22:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[As we come marching, marching in the beauty of the day,
A million darkened kitchens, a thousand mill lofts gray,
Are touched with all the radiance that a sudden sun discloses,
For the people hear us singing: “Bread and roses! Bread and roses!”
As we come marching, marching, we battle too for men,
For they are women’s children, and we [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><em>As we come marching, marching in the beauty of the day,</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>A million darkened kitchens, a thousand mill lofts gray,</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Are touched with all the radiance that a sudden sun discloses,</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>For the people hear us singing: “Bread and roses! Bread and roses!”</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>As we come marching, marching, we battle too for men,</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>For they are women’s children, and we mother them again.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Our lives shall not be sweated from birth until life closes;</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Hearts starve as well as bodies; give us bread, but give us roses!</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>As we come marching, marching, unnumbered women dead</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Go crying through our singing their ancient cry for bread.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Small art and love and beauty their drudging spirits knew.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Yes, it is bread we fight for — but we fight for roses, too!</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>As we come marching, marching, we bring the greater days.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>The rising of the women means the rising of the race.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>No more the drudge and idler — ten that toil where one reposes,</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>But a sharing of life’s glories: Bread and roses! </em><em>Bread and roses!</em></p>
<p style="text-align: right;">James Oppenheim, 1911</p>
<p style="text-align: right;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><em>Bread and Roses</em>. Melhores salários e condições mais dignas de trabalho e de vida (redução da jornada diária e protecção na maternidade). Era o que exigiam estas mulheres, operárias têxteis. Na manifestação de 8 de Março de 1857, em Nova Iorque, que juntou 15.000. Na <em>Lawrence Strike</em>, que durou entre Janeiro e Março de 1912, no Massachussetts, e que envolveu cerca de 20.000 trabalhadores, na sua maioria mulheres imigrantes.</p>
<p style="text-align: justify;">O Dia Internacional da Mulher foi instituído em 1910, na II Conferência Internacional de Mulheres Trabalhadoras, em Copenhaga. Há 100 anos. Surgiu como jornada de sensibilização e reflexão, de pressão e luta. Rapidamente evoluiu do plano estritamente laboral para o da igualdade e dignidade da mulher em todos os aspectos da vida. E é assim que deve ser e se deve manter. Não na versão delicodoce e quase sãovalentinizada do “feliz dia da mulher!”, bem-intencionada, eu sei, mas que me leva ao desespero…    </p>
<p style="text-align: justify;">Porque, nesta nossa parte do mundo, por todo esse mundo fora, o pão dos salários, do poder, das responsabilidades familiares, das tarefas da vida corrente não é ainda partilhado de forma justa e solidária. Porque a vida das mulheres e meninas, vítimas de discriminação, violência, exploração, sujeição e depreciação sob as mais diversas, brutais e inaceitáveis formas está longe, muito longe de ser um mar de rosas.      </p>
<p style="text-align: justify;"> <br />
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/oYRcCa-ddOo&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/oYRcCa-ddOo&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object></p>
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		<title>Passar a Outro e Não ao Mesmo</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Mar 2010 05:33:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Marta Santos</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[
Os vestidos dos Óscares distraem-me sempre: está na melhor hora de conhecer, na hora que ela entenda como a melhor, os heróis e vilãs de Sua Majestade Eugénia — ou serão heroínas e vilões?
Talvez da Sardenha venha a voz: “Caminha devagar, porque caminhas sobre os meus sonhos”.
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">
<div id="attachment_9367" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a rel="attachment wp-att-9367" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/03/passar-a-outro-e-nao-ao-mesmo/kathryn-bigelow-cu01-wide-horizontal/"><img class="size-medium wp-image-9367" title="kathryn-bigelow-CU01-wide-horizontal" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/kathryn-bigelow-CU01-wide-horizontal-300x162.jpg" alt="" width="300" height="162" /></a><p class="wp-caption-text">Kathryn Bigelow a caminho de casa do produtor Manuel Fonseca</p></div>
<p style="text-align: justify;">Os vestidos dos Óscares distraem-me sempre: está na melhor hora de conhecer, na hora que ela entenda como a melhor, os heróis e vilãs de Sua Majestade Eugénia — ou serão heroínas e vilões?</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez da Sardenha venha a voz: “Caminha devagar, porque caminhas sobre os meus sonhos”.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Para ficar na sala mesmo até ao fim</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Mar 2010 02:08:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Mesmo que não pertença ao restrito círculo de cinéfilos snobs que não arredam pé de uma sala de cinema antes de passar no écran a última linha de créditos do genérico final, há uma razão muito forte para que fique mesmo até ao fim da projecção em Shutter Island, o novo filme de Martin Scorsese. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Mesmo que não pertença ao restrito círculo de cinéfilos snobs que não arredam pé de uma sala de cinema antes de passar no écran a última linha de créditos do genérico final, há uma razão muito forte para que fique mesmo até ao fim da projecção em <em>Shutter Island</em>, o novo filme de Martin Scorsese. Lamento informar que não será ainda a tão aguardada explicação de Marty sobre as misteriosas razões que o levam a insistir em Leonardo Di Caprio para todo o tipo de papéis. <em>It´s all about a song</em>. Sim, uma canção que o fará dar por muito bem empregue esses seis minutos suplementares que permanecerá na sala. Uma canção que, só por si, justificaria um Oscar para o filme, não fosse este não ter estreado a tempo de concorrer aos prémios deste ano, e não lhe faltasse a ela, à canção, o requisito da originalidade necessário para receber a estatueta. Na verdade, é apenas um velho clássico de Dinah Washington (“This Bitter Earth”) adaptado a uma composição de Max Richter (“On The Nature of Daylight”). Se não quiserem levar com o Di Caprio durante duas horas e meia (duas horas e meia, apesar de tudo, muito bem passadas, como quase sempre acontece com Scorsese) só para terem o prazer de a ouvir, façam favor de a ouvir já aqui.</p>
<p style="text-align: justify;"> <br />
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="640" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/kEJ5MbrVJjU&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="640" height="385" src="http://www.youtube.com/v/kEJ5MbrVJjU&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object></p>
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		<title>8– Interlúdio e Fuga</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Mar 2010 01:39:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[cadavres exquis]]></category>

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		<description><![CDATA[– Merda!
 Primeiro foi a voz. A parede crepitava num bzzz estaladiço e de repente acendeu-se nela a imagem de um homem sentado, um corpo enorme. Tinha o olhar disperso dos cegos mas intimidava, a sua opulenta figura.
 – Senhor?
 Disse Catarina hesitante e reverente. A transmissão oscilava, fustigada pela chuva de drops. A pouco [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>– Merda!<br />
 Primeiro foi a voz. A parede crepitava num bzzz estaladiço e de repente acendeu-se nela a imagem de um homem sentado, um corpo enorme. Tinha o olhar disperso dos cegos mas intimidava, a sua opulenta figura.<br />
 – Senhor?<br />
 Disse Catarina hesitante e reverente. A transmissão oscilava, fustigada pela chuva de drops. A pouco e pouco foi estabilizando.<br />
 – A vossa rede está uma desgraça. Quem vos viu e quem vos vê, pobres, pobres europeus que eram os senhores do mundo e agora nem conseguem fazer uma teleconferência em condições – o Senhor começou a frase a rir e acabou-a a tossir. Riso e tosse quase convulsos, no mesmo formidável estremecimento.<br />
 Catarina olhou pela janela do seu apartamento na Plaka. Da rua subia-lhe o rumor festivo de centenas de passos e vozes. Eram os turistas chineses a subirem para a Acrópole. Em menos de uma hora ia começar o espectáculo quotidiano do Ligh &amp; Sound The Ancient Hellas. Tal como todos os habitantes do bairro, também ela teria que vestir a toga e ir à varanda deitar fogo de artifício. Era disso que viviam.<br />
 – Estamos muito descontentes com o curso das coisas, meu anjo. – A ironia de S. angustiou Catarina – demos-lhe um homem a guardar, só um, e perdeu-o? Onde pára o seu valido com nome de santo?<br />
 – Ficou à porta de uma igreja em Nova Iorque, Senhor. – Qual? – The Little Church Around the Corner, a Igreja da Transfiguração, na Rua 29 – Catarina sentiu um abismo entre a grandiloquência do nome oficial e a prosaica localização.<br />
 – Logo essa… O homem está mesmo perdido. Só um descrente é que entra nas igrejas à procura de respostas. Quem tem o hábito de lá ir já sabe o que espera.<br />
 – Não era o Sandeep que estava a tomar conta dele? – ousou perguntar Catarina, sabendo que são insondáveis os desígnios de quem pode.<br />
 Dois sulcos riscaram a testa de S.<br />
 – Era. Mas tive que o chamar. – Isto foi dito sem levantar nem gelar a voz, afirmado como quem descreve.<br />
 Catarina recebeu isto como a verdadeira forma do poder.<br />
 O Senhor começou a crescer, a erguer o seu volume colossal. Ocupava agora toda a imagem, enquanto a voz afundava o tom, martelando cada sílaba. O rosto avermelhava-se mas os olhos vagueavam indiferentes à cólera que os sacudia.<br />
 – Tive pena dele, vi-o desesperado, a morte deteve-se na sua vida com impiedade, foi a mulher que agonizou com um sofrimento minucioso; foi o desaparecimento súbito dos pais que afinal não eram os verdadeiros pais, o que lhe impediu de recordá-los amorosamente, retribuindo o imenso amor que lhe deram em vida; foi o desamparo dos filhos de quem ele ouvia o choro sufocado todas as noites, numa tristeza que lhe afugentava o sono eo deixava prostrado de amargura. Tudo isto fez com que a compaixão voltasse a tocar-me e decidi intervir. Sim, resolvi agir. E qual foi o resultado?<br />
 Catarina teve a perfeita dimensão da sua fragilidade diante da fúria que vinha ao seu encontro. Naquele instante viu como tudo podia desaparecer num clic. E recomeçar logo a seguir num estalar de dedos, sem sombra de passado. E percebeu que se uma pergunta nunca encontra resposta, é porque deve estar mal feita.<br />
 – Esse Francisco Xavier abandonou os filhos, que é a maior das crueldades; ficou cego ao que lhe era oferecido, desdenhou ou ignorou os sinais que lhe foram postos à frente. Para quê? Para correr como uma galinha tonta de enigma em enigma à volta do mundo como uma personagem dos livros daquele locutor de TV, como é que ele se chama? – Catarina lembrou-se mas não disse e S. suspirou enfadado, esvaziando a sua ira. – Tanto acidente para encontrar o nome. Vale a pena juntar mais sofrimento ao sofrimento por um nome? E isto o vosso livre arbítrio?<br />
 Houve um súbito silêncio. No ar só os alegres ditongos chineses que se exclamavam da rua. O senhor permaneceu imóvel e Catarina também não se mexeu, mas receou que a transmissão tivesse bloqueado.  S. acabou por fazer um gesto de abandono com a mão.<br />
 – O homem já começou a ouvir coisas dentro de quadros. Ainda não descobrimos os limites da nossa paciência, mas não é tolerável que um episódio tão insignificante possa ficar fora de controlo. Vamos acabar com esta deambulação insensata. Nem Boston, nem Atenas. Está na hora, vá buscá-lo e traga-o de novo a casa. À casa de origem. Lisboa.<br />
 Catarina endireitou-se na ponta da cadeira, ainda sem coragem para desvanecer a tensão nos músculos.<br />
 Não nos deixe ficar mal, Catarina. – disse o Senhor com alarmante  suavidade – Se o seu Francisco Xavier continuar tão aflito para se identificar consigo próprio teremos sempre o recurso de lhe marcar um encontro com Deus. Quando é a pedido não há remorsos.<br />
 Um vórtice negro. Desligou.</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p>O telemóvel tocou e veio uma repentina bátega de chuva. Na esquina da 29 com a Madison Francisco viu o nome no visor e lembrou-se da frase: “Diz-lhe que estás viva, e que o teu nome é o nome dele”.<br />
 – Não posso viver sem ti. Amo-te. Vou aí buscar-te.</p>
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		<title>Heróis e Vilãs, ou Quando Eu Era Pequeníssimo</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Mar 2010 21:49:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Marta Santos</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[
Cheguei tarde mas apareci (sorry, Vasco).
O meu herói, o meu único herói, é o Fantasma, filho de Lee Falk, há poucos dias 74 anos, celebrados num 17 de Fevereiro.
Kit Walker, o Fantasma que conheci há mais de três décadas, era o vigésimo primeiro de uma lista de justiceiros iniciada em 1536, quando Christopher Walker, marinheiro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-9335" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/03/herois-e-vilas-ou-quando-eu-era-pequenissimo/the-phantoms-revenge-2/"><img class="aligncenter size-full wp-image-9335" title="the-phantoms-revenge" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/the-phantoms-revenge1.jpg" alt="" width="500" height="375" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Cheguei tarde mas apareci (sorry, Vasco).</p>
<p style="text-align: justify;">O meu herói, o meu único herói, é o Fantasma, filho de Lee Falk, há poucos dias 74 anos, celebrados num 17 de Fevereiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Kit Walker, o Fantasma que conheci há mais de três décadas, era o vigésimo primeiro de uma lista de justiceiros iniciada em 1536, quando Christopher Walker, marinheiro de Portsmouth, antigo grumete da nau Santa Maria, delfim de Cristovão Colombo, foi morto por um pirata da Irmandade dos Singh numa caravela naufragada algures no Índico, ao largo da costa do reino de Bengalla. Christopher Jr, único sobrevivente do naufrágio, é salvo por uma tribo de pigmeus, os Bandar, escravizados há séculos pelos Wasaka, adoradores de Uzuki, o Deus Demónio.</p>
<p style="text-align: justify;">Christopher encontra os restos mortais do assassino do seu pai e, levantando o crânio do facínora, jura dedicar a sua vida “à destruição da pirataria, da cobiça, da crueldade e da injustiça em todas as suas formas. Os meus filhos e os filhos deles seguir-me-ão.”</p>
<p style="text-align: justify;"><a rel="attachment wp-att-9340" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/03/herois-e-vilas-ou-quando-eu-era-pequenissimo/fantasma_face01/"><img class="alignright size-full wp-image-9340" title="fantasma_face01" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/fantasma_face01.jpg" alt="" width="196" height="248" /></a>Depois de resgatar os Bandar do jugo dos Wasaka, Christopher inspira-se nos símbolos de Uzuki para criar um vingador mascarado, defensor de fracos e oprimidos, eterno habitante de uma gruta em forma de caveira, de rosto desconhecido e, por isso, mais temível, com fato púrpura a surgir das profundezas da selva para petrificar os adversários, cujo rosto marca para sempre através do anel, representando o crânio da morte, que usa na mão direita, um anel feito dos pregos que fixaram Jesus na cruz, outrora propriedade de Nero, o imperador pirómano.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem recurso a poderes mágicos, poções divinas, insondáveis super-forças ou destinos providenciais, Kit, o vigésimo primeiro “Fantasma que Caminha”, faz uso apenas dos seus talentos naturais, de um espírito inquebrantável, transmitido de pais a filhos durante quatro séculos e das ajudas de Guran, chefe dos Bandar, do lobo Devil e do cavalo Hero.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois de ser criado na Caverna da Caveira pela mãe, antiga dupla de Rita Hayworth, Kit continua a sua educação nos EUA, onde conhece Diana Palmer — ela tem 12 anos, eu 9, e é paixão à primeira vista.  Separam-se até aos 18 anos de ambos, quando um Natal em Clarksville os reúne para sempre (Kit é um bocado lento na formalização das intenções, já que  apenas casará com Diana em 1978 — Mandrake e alguns ministros, estranhamente impolutos, comparecem ao copo de água).</p>
<p style="text-align: justify;"><a rel="attachment wp-att-9342" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/03/herois-e-vilas-ou-quando-eu-era-pequenissimo/phantomdianapalmer/"><img class="aligncenter size-medium wp-image-9342" title="phantomdianapalmer" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/phantomdianapalmer-300x202.jpg" alt="" width="300" height="202" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">De face nunca revelada aos leitores — só os inimigos lhe conhecem o rosto, pouco antes de darem de finados -, o fantasma era tudo o que eu queria ser: forte, justo e, claro, vencedor de corações (16 homens tentaram casar com Diana, mas ela desprezou-os a todos). No traço mítico, muito Stevenson, de Ray Moore, ou na limpidez de Wilson McCoy (entretanto, já históricos como Carmine Infantino ou revelações como Dave Gibbons se enfeitiçaram pelo mascarado), o Fantasma que Caminha foi o meu fato de Carnaval na festa do centro de convívio da única avenida, finda na estação de comboios, de uma terrinha de vento fresco, encostada ao mar, chamada Valadares, onde vivi durante dois anos.</p>
<p style="text-align: justify;">Fiquei em terceiro lugar no concurso da festa, mas nem concorrentes ou júri percebiam porque é que estava enfiado num fato púrpura e de anel de caveira no dedo (pode marcar um homem, eu sei, mas vou recuperando): ninguém sabia quem era o Fantasma. Foi em 1977.</p>
<p style="text-align: justify;">Três anos antes, a um par de quilómetros dali, ainda junto a águas salgadas, numa terrinha ainda mais pequena chamada Lavadores, no tempo em que o meu pai regressava de Londres com o primeiro comboio eléctrico que vi na vida (acho que sempre gostei de comboios por causa desse), deitei-me no beliche de cima do quarto que partilhava com a minha irmã (ela aconchegava-se aos peluches no beliche de baixo), a minha mãe apagou a luz da cozinha, deixando apenas uma luz de presença junto à sala, e e não consegui dormir por causa desta:</p>
<p style="text-align: justify;">
<div id="attachment_9345" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a rel="attachment wp-att-9345" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/03/herois-e-vilas-ou-quando-eu-era-pequenissimo/maleficent/"><img class="size-medium wp-image-9345" title="maleficent" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/maleficent-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a><p class="wp-caption-text">A Bruxa Maléfica, circa 1959</p></div>
<p>Havia um cabide no hall, de sombras recortadas pela luz precária junto à sala. O cabide, olhos fechados, olhos abertos, era igual à Bruxa dos Cornos (sabia eu lá que outras razões nos podiam levar a todos, em namoros certos e difusos, a transportar as mesmas razões em vergonha ou ignorância…). Corrijo: o cabide não era igual à Bruxa Maléfica de “A Bela Adormecida” de Marc Davis (o animador que criará depois essa meia-irmã dickensiana da fada má, a Cruella De Vil de “os 101 Dálmatas), de Walt Disney, Perrault e, em certa medida, de Tchaikovsky e dos irmãos Grimm. Aquele cabide ERA a Bruxa Maléfica.</p>
<p style="text-align: justify;">Com a cabeça debaixo da almofada,o Cabide ganhava as formas e as chamas da Bruxa, convocava os corvos negros, abria os braços para tudo cobrir de escuridão e aproximava-se de mim, passo a passo com os cascos de Lúcifer, os olhos amarelos a brilhar no manto preto, pronta a devorar-me braços, língua e crânio (nessa altura, ainda não tinha ouvido falar daquele senhor austríaco que gostava de histéricas e epilépticas).</p>
<p style="text-align: justify;">
<div id="attachment_9346" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a rel="attachment wp-att-9346" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/03/herois-e-vilas-ou-quando-eu-era-pequenissimo/spinningwheel/"><img class="size-medium wp-image-9346" title="spinningwheel" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/spinningwheel-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a><p class="wp-caption-text">A roda roda rodando</p></div>
<p style="text-align: justify;">Umas horas antes, tinha-a visto no Cinema Vale Formoso — ficava junto à Constituição, na capital dos homens Bês -  a amaldiçoar o baptizado da princesa Aurora, lançando-a, feitiço abaixo, escadas acima, pela torre do Castelo sem Nome onde, 16 anos depois, Aurora irá tocar na roda que roda, picando a mão e sangrando — primeiro sangue, primeiro sexo — para adormecer o reino em trevas de séculos, à espera do beijo de amor e do amor de beijo que a redima.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">Tirava eu a cabeça do travesseiro e o cabide lá estava, imóvel mas prestes a atacar, os ramos de uma árvore com olhos grandes para te comer, avozinha.</p>
<p style="text-align: justify;">Tinha seis anos, e nunca senti, antes ou depois, tanto medo como no beliche da casa pequena, luz trémula, Lavadores, a norte instante do sol nascente.</p>
<p style="text-align: justify;"><a rel="attachment wp-att-9347" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/03/herois-e-vilas-ou-quando-eu-era-pequenissimo/maleficent2/"><img class="aligncenter size-large wp-image-9347" title="Maleficent2" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/Maleficent2-500x749.jpg" alt="" width="500" height="749" /></a></p>
<p><br class="spacer_" /></p></p>
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		<title>Para começar pelo começo, a preto muito preto</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Mar 2010 20:46:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Em 1899, Joseph Conrad, estimado marido, arrancava com The heart of darkness, ao seu jeito de pedra na água, o jeito dele, a traçar o caminho mais curto entre a superfície clara e o fundo escuro: The Nellie, a cruising yawl, swung to her anchor without a flutter of the sails, and was at rest. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em 1899, Joseph Conrad, estimado marido, arrancava com <strong><em>The heart of darkness</em></strong>, ao seu jeito de pedra na água, o jeito dele, a traçar o caminho mais curto entre a superfície clara e o fundo escuro: <em>The Nellie, a cruising yawl, swung to her anchor without a flutter of the sails, and was at rest. The flood had made, the wind was nearly calm, and being bound down the river, the only thing for it was to come to and wait for the turn of the tide.</em> Eu não era nascida. Porém, diante disto, pensei logo em nascer. Não pude, no entanto, por absoluta falta de ainda desinventados pai e mãe.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1951, Graham Greene, estimado marido, arrancava com <strong><em>The end of the affair</em></strong>, ao seu jeito exacto, o jeito dele, de osso limpo: <em>A story has no beginning or end; arbitrarily one chooses that moment of experience from which to look back or from which to look ahead. </em>Eu não era nascida. Pensei, por ser absolutamente impossível impensá-lo: <em>gostava tanto de ir comprar a primeira edição..</em> Mas qual o quê?! Tive de conformar-me ao estado de incriada. Que nervos!</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1944, Dylan Thomas, marido apenas de Caitlin McNamara — tão mau marido, tão muito amado, tão bom amor mal amado dos dois que ela terá dito no hospital, quando ele já moribundo: <em>Is the bloody man dead yet? -</em>, começou a escrever <strong><em>Under Milk Wood.</em></strong> Entregou a versão final, 9 anos depois, à BBC que, em 1954, e pela voz de Richard Burton, me fez pensar seriamente em nascer, desse por onde desse!  Não consegui: apesar do meu pai já ter idade para ser pai, a verdade é que a minha mãe tinha, e teria ainda por bastante tempo, idade para ser mãe só de bonecas. Não fez mal. O YouTube guardou para mim. Passa-se tudo nos primeiros 30 segundos. Assim é mais fácil acompanhar: <em>To begin at the beginning: It is spring, moonless night in the small town, starless and bible-black, the cobblestreets silent and the hunched, courters’-and-rabbits’ wood limping invisible down to the sloeblack, slow, black, crowblack, fishingboatbobbing sea.</em></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p>
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/uuPO2Kvqlms&amp;hl=pt_PT&amp;fs=1&amp;" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/uuPO2Kvqlms&amp;hl=pt_PT&amp;fs=1&amp;" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
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		<title>Mil e uma noites</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Mar 2010 19:06:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[
A vida não tem gracinha nenhuma. Não me venham cantar a virtude da verdade; nem façam hinos à prosaica realidade. A vida, a prosaica realidade, está todos os dias na Imprensa e faz primeiras páginas infames. Torce-se o jornal e escorre sangue.
O que exalta e nos exalta é a ficção; só a mentira tem imaginação [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-large wp-image-9323" title="1001-nights--sheherazade-rae-chichilnitsky" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/1001-nights-sheherazade-rae-chichilnitsky-500x596.jpg" alt="" width="400" height="477" /></p>
<p style="text-align: justify;">A vida não tem gracinha nenhuma. Não me venham cantar a virtude da verdade; nem façam hinos à prosaica realidade. A vida, a prosaica realidade, está todos os dias na Imprensa e faz primeiras páginas infames. Torce-se o jornal e escorre sangue.<br />
O que exalta e nos exalta é a ficção; só a mentira tem imaginação para proclamar o sublime. Experimentem. Viajem por montes e planícies, entrem nos bares mais escusos das mais escuras noites, e nada: chato, flat, plat, só lá encontram a lisa realidade e nem um cavaleiro andante. A vida é primeiro, às vezes segundo acto que nunca chega a terceiro. Tão pouco para uma boa comédia, coisa nenhuma para uma realíssima tragédia.<br />
Don Quixote e Sancho Pança, sim! Nas intermináveis páginas do livro onde existem, nas múltiplas e intraduzíveis línguas em que já foi escrito, proclamam incansáveis a superioridade de um idealismo que resiste ao ridículo.<br />
Os verdadeiros heróis são de papel. Ninguém, nenhuma polícia, nem mesmo o cortejo de um milhão de detectives de carne e osso, se aproximará, debilmente que seja, da rigorosa capacidade dedutiva do britânico Sherlock Holmes ou de Hercule Poirot, de imprestável nacionalidade belga.<br />
Dizem-me que há seres dúplices, manéis de dia, marias à noite, mas na vida topam-se à légua. Só uma imaginação poética e em transe mediúnico teria criado o corpo desdobrável e prodigioso que é, ao mesmo tempo, Dr. Jekyl e Mr. Hyde. Querem provas: leiam o livro, vejam os filmes.<br />
E digo-vos: mesmo nos momentos mais trágicos, quando só a sobrevivência conta, a honesta e nostálgica ficção canta mais alto. Durante a II Grande Guerra, de um lado e do outro da trincheira, a mesma mulher (“<strong><em>husky, sensuous, nostalgic</em></strong>”), Lili Marleen, assombrava os corações dos soldados alemães e dos soldados aliados. Era só um nome, duas palavras a fechar uma estrofe. Nunca ninguém a viu, a essa rapariga lírica e erecta debaixo de um desmaiado candeeiro. Mas todos, soldados, alemães e aliados, agachados ou erectos, a cantaram e perdidamente a amaram.<br />
Não há um recanto da nossa vida, em que a ficção não se intrometa e, despudorada, triunfe. O incauto Édipo dos pés furados mete-se entre o filho que somos e os pais que temos. Lolita, a decotada ninfa, atormenta-nos a maturidade. Othello vem todas as noites instilar um obtuso ciúme na almofada em que afundamos as nossas insónias.<br />
Donde vem este exército de fantasmas, esta legião de incorpóreas entidades? Às vezes, acredito que cada um de nós é como um rei de mil e uma noites a quem, de madrugada em madrugada, a eloquente Xerazade surpreende com lendas e histórias, com poemas e canções. Com tão boa ficção, que préstimo pode ter a vida, a não ser o de, na madrugada do dia seguinte, nos ser revelado o fim da história que ontem à noite nos começaram a contar?</p>
<p style="text-align: justify;"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/DH6zRAJ8ziY&#038;fs=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/DH6zRAJ8ziY&#038;fs=1" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
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		<title>Violentas são as horas da paixão…</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2010/03/violentas-sao-as-horas-da-paixao/</link>
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		<pubDate>Sun, 07 Mar 2010 17:06:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[
Basta uma só memória tua para me contrair inteiro.
Respiro o ar, já na barriga revoltado,
E logo se me enche o peito, comovido.
Cai-me a cabeça para trás, um pouco.
O pescoço, levemente contorcido,
Transporta-me para um e outro lado.
Então, de olhos fechados, para te ver,
Procuro inspirar-te, devagar…
E estando consumado o respirar
Expiro deleitado por te ter.
Violentas são as horas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_9308" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-9308" title="cântico-dos-cânticos" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/cântico-dos-cânticos1-300x375.jpg" alt="" width="300" height="375" /><p class="wp-caption-text">Meinrad Craighead, <strong><em>Cântico dos Cânticos</em></strong>, 1966</p></div>
<p>Basta uma só memória tua para me contrair inteiro.</p>
<p>Respiro o ar, já na barriga revoltado,<br />
E logo se me enche o peito, comovido.<br />
Cai-me a cabeça para trás, um pouco.<br />
O pescoço, levemente contorcido,<br />
Transporta-me para um e outro lado.<br />
Então, de olhos fechados, para te ver,<br />
Procuro inspirar-te, devagar…<br />
E estando consumado o respirar<br />
Expiro deleitado por te ter.</p>
<p>Violentas são as horas da paixão!</p>
<p>Contrariamente ao hábito tranquilo<br />
De um atarefamento quieto de surpresas,<br />
Violentas são as horas da paixão…<br />
Durante as quais ando eu, qual Salomão,<br />
Pulando sobre montes e outeiros,<br />
Espreitando a minha amada p´las janelas<br />
E introduzindo-me na sala do festim,<br />
De onde saio a correr, para lá de mim,<br />
Saltando como o veado, ou as gazelas,<br />
Por sobre todo o monte dos balseiros,<br />
Feliz, sob o olhar da minha amada.</p>
<p>Pois só o afastamento me revela quem tu és:<br />
A cor do teu cabelo,<br />
O tamanho dos teus pés…<br />
E logo de novo o desejo de em ti perder-me outra vez.</p>
<p>Tu trazes-me em desordem que não quis<br />
Para um mundo onde posso ser feliz.<br />
E é por isso, meu amor, que ando cansado:<br />
É por isso, meu amor – por ser amado!</p>
<p>* Escrevo este <em>post</em>, com a devida autorização da minha mulher, <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/03/o-mais-doce-comeco-quando-amada">acedendo a um pedido da Joana Vasconcelos feito, ali em baixo, num recomeço do Manuel S. (de Salomão) Fonseca</a>.</p>
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		<title>O tio da América</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Mar 2010 15:43:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[ 
Para os anti-americanos primários vai ser um festim. Sem ofensa, como vão já compreender.
Aqui há tempos, um grupo de paleontólogos da Universidade do Oregon descobriu os mais antigos vestígios de presença humana já encontrados na América. Em relação ao que se sabia, estes “novos” sinais fazem recuar 1.200 anos o relógio da actividade humana no [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong> <img class="size-medium wp-image-9303  aligncenter" title="the_woman_of_naharon__oldest_human_in_the_american_continent_11600_rc14__higher_res_of_all_tsqueletons_available" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/the_woman_of_naharon__oldest_human_in_the_american_continent_11600_rc14__higher_res_of_all_tsqueletons_available-300x195.jpg" alt="" width="300" height="195" /></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Para os anti-americanos primários vai ser um festim. Sem ofensa, como vão já compreender.<br />
Aqui há tempos, um grupo de paleontólogos da Universidade do Oregon descobriu os mais antigos vestígios de presença humana já encontrados na América. Em relação ao que se sabia, estes “novos” sinais fazem recuar 1.200 anos o relógio da actividade humana no continente em que, não sabendo para onde ia, não sabendo onde estava e já mal sabendo donde vinha,  Colombo tropeçou. Ou seja, os nova-iorquinos, o pessoal de Washington e San Francisco, Obama e Ms. Clinton, sabem agora que há 12.300 anos tinham já uns patuscos tios americanos.<br />
Infelizmente, a herança que receberam, perene embora, não é a mais palatável, não se presumindo que as partilhas venham a desencadear disputas coléricas e fratricidas. Não sou de me pôr a adivinhar, mas cheira-me que ninguém vai querer meter a mão neste património.<br />
Ainda não falei, vou falar: o que os cientistas encontraram foi tão só o esforçado resultado da defecação desses antepassados yankees. Encontraram, pois, excrementos.<br />
Os coprólitos – assim se chama em linguagem de gente aos excrementos fossilizados – foram laboriosa e laboratorialmente analisados, provando-se (sic) serem genuínos. Ao ADN humano aparecem associados uns remanescents genéticos de coiotes e lobos, deduzindo os paleontólogos que, das duas uma, ou esses americanos primitivos tinham feito deles um ululante repasto ou os dissolutos animais decidiram intervir no curso da História, alvejando com uma realíssima mijinha a idiossincrática retro-manifestação dos mais antigos habitantes do Oregon.<br />
Está claro, a esta perfumada herança genética os anti-americanos primários (mesmo alguns secundários) vão chamar um figo. Dirão que a coisa – em particular “aquela coisa” – afinal não começou com Bush e que os antecedentes já vêm de longe. Dirão que a política “neo-con” foi bem adubada por estes “pais fundadores” ou que o cheiro que ressuma da ocupação americana do Iraque é, afinal, milenar.<br />
Sem renegar a minha babada admiração pela América (o que lutei pelas primeiras jeans e pela primordial coca-cola), mesmo eu tenho de reconhecer que aquele resquício dos tempos é inestético e mal-cheiroso e, sobretudo, que o mais humilde gesto humano – que nada, hoje, parece impelir-nos a travar – pode no futuro, por ominosa denúncia genética e datação a radiocarbono, ganhar dura notoriedade que envergonhe os nossos vindouros.<br />
Sejamos humildes e façamos, no nosso dia-a-dia, o que temos a fazer. Com a consciência, porém, de que o resultado não escapará ao apertado crivo dos nossos tetranetos. Olfacto incluído.</p>
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		<title>quando eu era pequenino, 10</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Mar 2010 10:15:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[
Grandes alegrias trazem lágrimas. Sempre será assim e muito mais assim foi no Natal de 1974. Só vos digo e para vosso sossego: a alegria tem uma ferocidade vaidosa e dramática.
Em 1974, estava em Luanda, cidade sofrida e a caminho da crudelíssima independência. Aos 21 anos sentia-me tão só quanto só se pode estar. A [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-9297  aligncenter" title="ruined-nativity" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/ruined-nativity.jpg" alt="" width="300" height="450" /></p>
<p style="text-align: justify;">Grandes alegrias trazem lágrimas. Sempre será assim e muito mais assim foi no Natal de 1974. Só vos digo e para vosso sossego: a alegria tem uma ferocidade vaidosa e dramática.<br />
Em 1974, estava em Luanda, cidade sofrida e a caminho da crudelíssima independência. Aos 21 anos sentia-me tão só quanto só se pode estar. A família tinha deixado África e eu, nem pai, nem mãe, estava por minha conta, acompanhado por uma pequneina multidão de amigos cujas cabeças, dia a dia, iam rolando à velocidade da guilhotina na Revolução Francesa. Mortos pela guerra que havia? Nem mortos, nem atropelados. Eram apenas nomes inconsoláveis que, dia a dia, a ponte aérea para Lisboa abatia ao activo. Para nós, e para o que na altura interessava, defuntos irremediáveis e indesculpáveis. E, de repente, dei comigo sozinho, entre o céu e a terra, o mar e tudo. <br />
No meio desse caos furioso e obsessivo, no meio do fogo amigo e do fogo inimigo de cuja ontologia duvidava, começou a crescer, modesto mas abnegado, o Natal, o meu Natal de 74. <br />
Não sei se foi um sussurro, se foi um piscar de olhos, mas esse Natal, que na Europa calha tão bem aparecer como uma lareira no meio do Inverno, surgiu suave, mais tropical do que nunca, e foi o meu primeiro e verdadeiro Natal angolano.<br />
O caloroso acolhimento foi duma família africana, comandada por um patriarca como nunca mais encontrei. Entre irmãos, irmãs e meio-irmãos eram uns seis, mais primas e primos, pai e mãe, como só existem nas grandes sagas familiares. Eu, branco branquíssimo, fui recebido como filho. A geleira, como numa família decente e lindamente mulata se chama a um frigorífico, estava (esteve durantes dois anos) à disposição: “<em>Aqui não se pede, abre-se e tira-se.</em>” <br />
Lembro-me de nos organizarmos e traficarmos. Sei que houve vinho, couves e bacalhau a chegar de Portugal. Se algum dia (e peço perdão) o Menino Jesus me tinha parecido anedótico e um pouco tolo, no Verão angolano de 74 tive a impressão de que o Natal era intemporal, robusto e sem caprichos.<br />
Naquela noite de 24 de Dezembro tive a melhor das ceias. De vez em quando, com a irregularidade de nunca pararem, as soviéticas rajadas das AK iam pondo vírgulas e pontos de interrogação nessa noite de uma estrela. Menos insistentes, com uma delicadeza obsoleta, dois ou três morteiros introduziam a necessária nota de suspense. Coisa pouca e, <em>I promise</em>, nem sequer me estou a fazer interessante. Coisa muita foram as conversas, as promessas, as juras e os choros dessa ceia tão delicada e intensa. Os discursos, meu Deus, o gosto que tínhamos nos nossos discursos, tão vibrantes, tão eufóricos, tão nus. Apontavam-nos uma pistola à cabeça e discursávamos. Mesmo mortos, continuaríamos, engajados (explico se me perguntarem), a discursar, e sempre com alegria feroz, vaidosa e dramática.<br />
Foi, imagino que foi, no meio dos discursos, em pleno Natal de 74, ciciado e susurrante, que dei comigo a pensar: quem sabe se em vez do verdadeiro Cristo ser Marx – como diziam os nossos discursos e a ponta de cada espingarda –  quem sabe se, afinal, o verdadeiro Marx não será este Cristo anunciado por uma estrela amarela no céu vermelho de África.<br />
Para ser completamente franco interessa-me bem mais a a pergunta do que qualquer resposta.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-9298  aligncenter" title="_40348549_blackchrist203" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/40348549_blackchrist203.jpg" alt="" width="203" height="250" /></p>
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		<title>O mais doce começo quando, Amada…</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Mar 2010 00:48:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[
É contigo que estou a falar. Não me interessa nada a literatura do MSF (quem é que se vai esfolar a ler Goytisolo), o rubicundo começo camiliano do JNA, o homem solteiro de Joana d’ Austen. Quero ler-te, quero que me leias, o mais doce dos começos quando, Amada, me disseste:
Beija-me com beijos da tua [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-medium wp-image-9291  aligncenter" title="6a00e008d62947883400e54f20adb78833-800wi" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/6a00e008d62947883400e54f20adb78833-800wi-300x287.jpg" alt="" width="300" height="287" /></p>
<p style="text-align: justify;">É contigo que estou a falar. Não me interessa nada a literatura do MSF (quem é que se vai esfolar a ler Goytisolo), o rubicundo começo camiliano do JNA, o homem solteiro de Joana d’ Austen. Quero ler-te, quero que me leias, o mais doce dos começos quando, Amada, me disseste:</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Beija-me com beijos da tua boca!<br />
Teus amores são melhores do que o vinho,<br />
o odor dos teus perfumes é suave,<br />
teu nome é como um óleo escorrendo,<br />
e as donzelas se enamoram de ti…</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">E logo eu (seria eu ou não eu?), Amado, te respondi:</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Minha amada eu te comparo<br />
À égua atrelada ao carro do Faraó!<br />
Que beleza tuas faces entre os brincos,<br />
Far-te-emos pingentes de ouro<br />
Cravejados de prata. </em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">É este o começo – tu sabes – , o mais doce dos começos.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Uma Questão de Princípios</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Mar 2010 23:30:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[
Foi uma óptima ideia do MSF. Que o JNA já tivera e há muito acalentava, mas in pectore. Extraordinários começos de belos livros. Gostei muito dos textos e dos inícios que escolheram. Apesar de um e outro terem incluído dois dos meus absolutamente preferidos — Pride and Prejudice (Jane Austen) e Rebecca (Daphne du Maurier).
Que fique, pois, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-9281" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/03/uma-questao-de-principios/pilhadeliivrosformatadaii/"><img class="aligncenter size-medium wp-image-9281" title="PilhadeLiivrosFormatadaII" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/PilhadeLiivrosFormatadaII-300x419.jpg" alt="" width="300" height="419" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Foi uma óptima ideia do MSF. Que o JNA já tivera e há muito acalentava, mas <em>in pectore.</em> Extraordinários começos de belos livros. Gostei muito dos textos e dos inícios que escolheram. Apesar de um e outro terem incluído dois dos meus absolutamente preferidos — <em>Pride and Prejudice (</em>Jane Austen) e <em>Rebecca (</em>Daphne du Maurier).</p>
<p style="text-align: justify;">Que fique, pois, bem claro que os começos que se seguem acrescem a estes dois, que estão muito bem onde estão, mas que é como se estivessem também aqui.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>A story has no beginning or end: arbitrarily one chooses that moment of experience from which to look back or from which to look ahead</strong> (The End of the Affair, </em>Graham Greene<em>)</em>. Gosto muito deste surpreendente começo, e muitíssimo do que se lhe segue. <em>One of my favorite books, ever</em>.  </p>
<p><strong><em>Mrs. Dalloway said she would buy the flowers herself </em></strong><em>(</em><em>Mrs Dalloway, </em>Virginia Woolf<em>)</em>. Excelente a tranquila simplicidade deste princípio, que de modo algum nos prepara para a fabulosa intensidade do que vem depois.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>No era el hombre más honesto ni el más piadoso, pero era un hombre valiente</em></strong><em> (</em><em>El Capitán Alatriste, </em>Arturo Pérez-Reverte<em>)</em>. É assim, na voz do fiel, sensato e também valente Iñigo de Balboa, seu escudeiro, que começa a primeira das fantásticas histórias do capitão Alatriste. Foi aqui também que começou o meu encanto com as mesmas, que ainda hoje se mantém.   </p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Naquele lugar a guerra tinha morto a estrada </em></strong><em>(</em><em>Terra Sonâmbula, </em>Mia Couto<em>).</em> Gosto dos começos do Mia Couto. Porque me tocam profundamente, como este, ou porque me apanham de surpresa. Difícil, sempre, é parar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>The first Wednesday in any month was a Perfectly Awful Day – a day to be awaited with dread, endured with cour</em></strong><strong><em>age and forgotten with haste </em></strong><em>(</em><em>Daddy-Long Legs, </em>Judy Webster<em>). </em>É o delicioso início de um delicioso livro que me acompanha desde os treze ou catorze anos. Não o empresto: comprei um para as minhas filhas. Não é esta a única parte que fixei. Mas é certamente a que mais utilizo. Quantas vezes, de véspera, antes de adormecer, ou no próprio dia, quando toca o maldito despertador, me ocorre que, pelos mais variados motivos, lá vem um <em>Perfectly Awful Day</em>. E posso garantir que me basta lembrar este trecho e recitar mentalmente a receita da extraordinária Judy para a coisa parecer logo menos negra…       <em> </em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Meu avô foi o padre Rufino da Conceição, licenciado em Teologia, autor de uma devota «Vida de Santa Filomena» e prior da Amendoeirinha. Meu pai, afilhado de Nossa Senhora da Assunção, chamava-se Rufino da Assunção Raposo – e vivia em Évora com minha avó, Filomena Raposo, por alcunha «a Repolhuda», doceira na Rua do Lagar dos Dízimos” </em></strong><em>(</em><em>A Relíquia,  </em>Eça de Queiroz<em>). </em>Não é o meu Eça preferido, mas é absolutamente irresistível. Logo desde este princípio. <strong><em>  </em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Termino com o belíssimo começo de uma das mais adoráveis histórias para crianças que conheço. Certamente a que mais vezes li às minhas filhas. E das primeiras que elas quiseram ler, sozinhas. Sei-a quase de cor:</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Era uma vez uma casa branca nas dunas, voltada para o mar. Tinha uma porta, sete janelas e  uma varanda de madeira pintada de verde. Em roda da casa havia um jardim de areia onde cresciam lírios brancos e uma planta que dava flores brancas, amarelas e roxas</em></strong><em> </em><em>(</em><em>A Menina do Mar, </em>Sophia de Mello Breyner Andresen<em>).</em></p>
<p>Sempre achei, ainda hoje acho, que um dia vou ter uma casa assim. Tal e qual. Só as flores é que em vez de amarelas e roxas serão vermelhas. E talvez também cor-de-rosa. </p>
]]></content:encoded>
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		<title>O princípio dos princípios</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Mar 2010 22:20:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[
Sei que não é politicamente correcto (um dia ainda hei-de falar nisso), mas não conheço princípio maior e melhor do que este:
«No princípio, criou Deus os céus e a terra.» (Gn. 1, 1)
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-medium wp-image-9268" title="criação" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/criação-300x200.jpg" alt="" width="300" height="200" /></p>
<p>Sei que não é politicamente correcto (um dia ainda hei-de falar nisso), mas não conheço princípio maior e melhor do que este:</p>
<p>«No princípio, criou Deus os céus e a terra.» (Gn. 1, 1)</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Um bom princípio</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Mar 2010 18:07:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[O sr. Manuel Fonseca pilhou-me uma ideia que eu há muito acalentava. Evocar a ignorância das minhas íntimas e nunca declaradas intenções será por certo desculpa suficiente neste mundo repleto de factos observáveis, mas não o ilibará no meu tribunal subjectivo.
 Por isso, façam o favor de ler este post antes do dele, porque essa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_9260" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-9260" title="cryptic_summit_kamrooz_aram" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/cryptic_summit_kamrooz_aram-500x395.jpg" alt="" width="500" height="395" /><p class="wp-caption-text">Kamrooz Aram, “Cryptic Summit”, 2007</p></div>
<p>O sr. Manuel Fonseca pilhou-me uma ideia que eu há muito acalentava. Evocar a ignorância das minhas íntimas e nunca declaradas intenções será por certo desculpa suficiente neste mundo repleto de factos observáveis, mas não o ilibará no meu tribunal subjectivo.<br />
 Por isso, façam o favor de ler este <em>post</em> antes do dele, porque essa é a ordem justa.<br />
 Como escreveu Frank Herbert na abertura de “Dune” (quem? onde?): “<em>A beginning is the time for taking the most delicate care that the balances are correct</em>.” Ou seja, um livro começa pelo princípio. Duas coisas podem espantar nesta frase: que haja alguém que tenha a lata de registar uma evidência tão pedestre e que haja quem escreva um livro esquecendo esta evidência tão pedestre. Sou capaz de jurar que a segunda é pior que a primeira.<br />
 O modo como a narrativa se desencadeia compele-me, a mim leitor instável, a seguir em frente ou a largar o volume logo ali. Às vezes é mesmo em pé na livraria que tomo a decisão, o que faço levando pouco em conta o respeito pelo nome do autor inscrito na capa: as coisas hão de valer por si, ou não. Se tiverem paciência para continuar, partilho convosco um punhado exemplos vividos e confirmados de livros que arriscaram prometer mundos e fundos logo na primeira frase e  me compeliram a escolhê-los {refCit}<em>on the spot</em>{/refCit}.<br />
 {textCit}Tenho o prazer de vos comunicar que as restantes páginas não desmereceram os votos iniciais{/textCit}</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p>“Naquele ano coube a Martinho Dias Nabasco acompanhar o que restava duma família numerosa e abastada, ao cemitério da terra natal.”<br />
 Agustina Bessa-Luís, “A Ronda da Noite”</p>
<p style="text-align: justify;">“Partimos então no jipe, o Paulino e eu, a caminho de Opuho, na Namíbia, pela fronteira de Namacunde, Sta. Clara… Essa foi a primeira viagem… A que estou a fazer agora é a segunda. Vim de avião até Windhoek, aluguei um carro, cheguei a Outjo ao cair da tarde de ontem, vou aqui ficar uns dias, esta é a primeira manhã. Estou a escrever num desses famosos {refCit}cadernos{/refCit} de capa preta, quer dizer, num caderno feito para durar, para caber tudo nele.”<br />
 Ruy Duarte de Carvalho, “as Paisagens Propícias”<br />
 {textCit}Com o livro comprei também um moleskine{/textCit}</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">“Criado embora entre hálitos de faisão, cedo me especializei na arte de estender os braços.”<br />
 Nuno Bragança, “A Noite e o Riso”</p>
<p style="text-align: justify;">“A Eufémia Troncha catava-o, fingia estalinhos insecticidas, fazia-lhe com a unha titilações, atritos suaves no casco da coroa, inventava para o nutrir e inflamar carícias e guisados, surpreendia-lhe o apetite com fricassés muito aromáticos, tinha meiguices e candonguices duma donzela que afaga os pombinhos entre os seios virginais, decotava o corpete dos vestidos para lhe escaldar o sangue, fazia trejeitos lascivos de gata que se rebola escandecida nos telhados – uma cróia velha com muita experiência sublinhada.”<br />
 Camilo Castelo Branco, “A Corja”</p>
<p style="text-align: justify;">Por fim, a abertura das aberturas que tem o romance todo numa frase (mais o filme):</p>
<p style="text-align: justify;">“<em>Last night I dreamt I went to Manderley again</em>.”<br />
 Daphne du Maurier, “Rebecca”</p>
]]></content:encoded>
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		<title>seis palavras, uma tragédia</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Mar 2010 15:03:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[
Tinha dito aqui, após aturada e científica investigação, que os falantes de língua inglesa utilizam hoje cinco vezes mais palavras do que as utilizadas por Shakespeare para escrever o sombrio Hamlet. O aperto lexical não obstou, é claro, (e como diria qualquer presidente da república) à grandeza imortal de Shakespeare. Aliás, fazendo justiça ao homem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-medium wp-image-9245  aligncenter" title="Newly-Identified-portrait-001" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/Newly-Identified-portrait-001-300x180.jpg" alt="" width="300" height="180" /></p>
<p style="text-align: justify;">Tinha dito <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/03/o-portugues-e-defunto/">aqui</a>, após aturada e científica investigação, que os falantes de língua inglesa utilizam hoje cinco vezes mais palavras do que as utilizadas por Shakespeare para escrever o sombrio Hamlet. O aperto lexical não obstou, é claro, (e como diria qualquer presidente da república) à grandeza imortal de Shakespeare. Aliás, fazendo justiça ao homem de Stratford Upon Avon deve dizer-se que foi ele o primeiro a usar, na escrita, pelo menos as seguintes palavras: <strong>bog, bump, assassination, hurry, lovely</strong> e <strong>dwindle</strong>.<br />
Com o que nelas há de pantanoso, de choque e confronto, de sangue a correr, de descontrolado alvoroço e amoroso intermezzo, de final dissipação, será que alguém precisa de mais do que seis palavras para escrever uma tragédia?</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Uma solidão de Joana D’Arc</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Mar 2010 11:39:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[
Das pontes que sobrevoam o Sena, a Alexandre III é a minha favorita. Não admira: beirão e camponês, com duas décadas de trópicos, para mim tudo o que brilha é ouro. 
Não foi em Paris, foi em Lisboa que, há 2 anos, soube o que acontecera. Não tive a mínima dúvida: à lenda dos 107 [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-medium wp-image-9240  aligncenter" title="090403064031454323421421" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/090403064031454323421421-300x395.jpg" alt="" width="300" height="395" /></p>
<p style="text-align: justify;">Das pontes que sobrevoam o Sena, a Alexandre III é a minha favorita. Não admira: beirão e camponês, com duas décadas de trópicos, para mim tudo o que brilha é ouro. <br />
Não foi em Paris, foi em Lisboa que, há 2 anos, soube o que acontecera. Não tive a mínima dúvida: à lenda dos 107 metros de comprimento desta ponte dourada que homenageia o czar de que herdou o nome, acabava de se acrescentar o mistério e a certeza da morte de uma princesa africana.<br />
Katoucha Niane, nascida em Conacry, brilhou, a ébano, seda e prata, nos desfiles de moda dos anos 80. E mesmo eu, que sou resolutamente um rapaz sem virtudes, arrogo-me a capacidade e a imodéstia de lhe admirar a beleza. Katoucha tinha uma beleza prodigiosa. Real. Foi a musa inspiradora de Yves Saint-Laurent. Desaparecida no primeiro dia de Fevereiro, o seu corpo lindo e longilíneo apareceu a flutuar nas águas do Sena, no que deveria ter sido, não fora ser o ano bissexto, o último dia desse mês cinzento e frio.<br />
A que propósito vem a lembrança desse dia já esquecido e gélido? Há um patético na ocorrência que toca a minha, e julgo que a vossa, masculinidade. Katoucha – essa mulher deslumbrante que aos 9 anos fora vítima de excisão – vivia sozinha num barco de luxo, ancorado num cais junto à ponte que, à noite, é iluminada por 14 candelabros de bronze. Terá, por acidente, caído ao leito gelado do rio que dá a Paris margem esquerda e margem direita. Não havia ninguém com ela, ninguém no rio, ninguém na ponte Alexandre III.<br />
A solidão de Katoucha é o clamoroso anúncio do fracasso de todos os homens. Além de bela, era uma mulher inteligente, com personalidade forte. E deitava-se sozinha, num barco sumptuoso, em cima da palpitante cama de água que é o Sena.<br />
Quero crer que vivemos um tempo de arrefecimento afectivo global. Em Paris, milhões de homens atarefados em jogos improváveis e, como diria o cronista Nelson Rodrigues se fosse vivo, “<strong>ela ali, erecta, numa solidão de Joana d’Arc</strong>”. Cabe-nos a todos, homens, uma fatia de culpa pela solidão que afogou esta mulher.<br />
Katoucha habitava sobre as águas, ela que nem sabia nadar.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-medium wp-image-9241  aligncenter" title="73077821_jW4mVepb" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/73077821_jW4mVepb-300x202.jpg" alt="" width="300" height="202" /></p>
]]></content:encoded>
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		<title>O mais silencioso dos quadros</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2010/03/o-mais-silencioso-dos-quadros/</link>
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		<pubDate>Sat, 06 Mar 2010 10:03:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[
Se me disserem que é azul, eu digo que mentem. Há um silêncio roxo ou púrpura que esmaga a cantora (ou é uma noiva?) geométrica e branca. Ao fundo, o pianista dissonante poderia ser, como Kandinsky que o pintou, um notário.
Não tenho a certeza de gostar de Kandinsky. E ele ralado… Seja como for, as [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-medium wp-image-9235" title="kandinsky_singer" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/kandinsky_singer1-300x400.jpg" alt="" width="300" height="400" /></p>
<p style="text-align: justify;">Se me disserem que é azul, eu digo que mentem. Há um silêncio roxo ou púrpura que esmaga a cantora (ou é uma noiva?) geométrica e branca. Ao fundo, o pianista dissonante poderia ser, como Kandinsky que o pintou, um notário.<br />
Não tenho a certeza de gostar de Kandinsky. E ele ralado… Seja como for, as “<em>Composições</em>” de Kandinsky – ao contrário desta “<em>Cantora</em>” de 1903 – são, quanto mais abstractas, mais vibrantes e tão musicais como ele achava que toda a pintura deveria ser.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-thumbnail wp-image-9236  aligncenter" title="comp7640" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/comp7640-150x99.jpg" alt="" width="150" height="99" /></p>
<p style="text-align: justify;">“<em>A cor é como as teclas, os olhos são as harmonias, a alma é um piano de múltiplas cordas</em>”. Palpita-me que Kandinsky terá dito isto alguns anos depois de ter pintado “<em>A Cantora</em>”, o mais silencioso dos quadros. Um silêncio em roxo e púrpura. Igual, e também foi o russo pintor que o disse, “<em>ao silêncio do corpo depois da morte</em>”.</p>
<p style="text-align: justify;">ps– publicado há que tempos aqui, neste<a href="http://adobradogrito.blogspot.com/"> blog </a>tão bom de pintura</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Moisés ouviu vozes</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Mar 2010 00:37:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[
Educa muito ler os jornais. Ou as revistas da « especialidade ». Eis o que li: um investigador israelita afirmou que a revelação divina dos «Dez Mandamentos», no Monte Sinai, foi o insólito resultado de Moisés ter, na altura, consumido alucinogéneos. Deus não foi tido nem achado ou, para dizer as coisas de maneira que até a miudagem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-large wp-image-9229" title="marc-chagall-moses-from-the-bible" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/marc-chagall-moses-from-the-bible-500x719.jpg" alt="" width="400" height="575" /></p>
<p style="text-align: justify;">Educa muito ler os jornais. Ou as revistas da « especialidade ». Eis o que li: um investigador israelita afirmou que a revelação divina dos «<strong><em>Dez Mandamentos</em></strong>», no Monte Sinai, foi o insólito resultado de Moisés ter, na altura, consumido alucinogéneos. Deus não foi tido nem achado ou, para dizer as coisas de maneira que até a miudagem do bullying entenda, Moisés estava com uma pedra de todo o tamanho. Não admira que ouvisse vozes, não admira que tivesse visões.<br />
O «<strong><em>estudo</em></strong>» (que os rabis se apressaram a designar com nomes, passe a ironia, pouco católicos) publicou-se na revista «<strong><em>Time and Mind</em></strong>». O autor, Benny Shanon, recusa, liminar, ter-se tratado de um acontecimento metafísico e sobrenatural, sustentando que Moisés, assim como o povo eleito que o seguia, consumia psicotrópicos com adicta regularidade.<br />
Shanon, que asseguro com total confiança não ter a mínima ligação ao Hamas (nem parentesco com Bin Laden), investigou, declarando que o povo errante de Israel estava sob o efeito de estupefacientes. E foi nesse lindo estado que Moisés subiu aos picos do Monte Sinai. Perguntam-me: então, a voz que ribombava como um trovão, a sarça-ardente, a montanha fumegante? A resposta é simples : a culpa é da «<strong><em>peganum harmala</em></strong>», essa flor branca de cinco pétalas pontiagudas, cujas sementes Moisés deve ter mascado (?) antes de rebentar em soluços e visões. (Não se masca, bebe-se como um chá, mas já lá vamos).<br />
A teoria de Shanon, especialista de psicologia cognitiva, é tudo menos inócua. Não parece ilícito concluirmos que a ética da civilização em que bebemos o leite materno – do «<strong><em>não matarás</em></strong>» ao «<strong><em>não furtarás</em></strong>», do «<strong><em>honrarás pai e mãe</em></strong>» ao «<strong><em>não desejarás a mulher do próximo</em></strong>» – se funda em duas tábuas com <strong><em>Dez Mandamentos</em></strong> que correm o risco de mais não ser, afinal, do que versículos de um profeta que estava, ao redigi-los, no mesmíssimo estupor de Allen Ginsberg quando desembestou a escrever o interminável «<strong><em>Uivo</em></strong>». Com a ressalva, valha-nos Deus, de que Moisés escrevia bem melhor.<br />
Seja como for, vamos admitir (nem que seja por guloso exercício intelectual) que Moisés tivesse tomado ainda mais uma chávena (a forma canónica de consumo) da «<strong><em>peganum harmala</em></strong>». Mais uma chávena, outros mandamentos e, se calhar, avaliaríamos o mundo com a moral de um Jack, o Estripador. Mais uma chávena e hoje veríamos com outros olhos os «off-shores», com outros ouvidos as escutas e, em particular, a reluzente mulher do próximo.<br />
Dizem-me que a mulher do próximo já e sempre a vimos com outros olhos. Pois sim, mas escusávamos de ter a carrada de complexos de culpa que, entre cada chávena, ao olhá-la tanto nos aflige.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Um bom começo</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Mar 2010 23:31:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
“Todas as famílias felizes são iguais. Cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Se eu fosse autor destas duas frases, a minha crónica terminaria aqui. Mas não, não sou. A feliz conjugação saiu armada e imortal da imaginação de um russo, anárquico e prodigioso. É assim que começa “Anna Karenina”, um dos romances maiores [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-9220  aligncenter" title="boschwedding" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/boschwedding.jpg" alt="" width="475" height="526" /></p>
<p style="text-align: justify;">“<strong><em>Todas as famílias felizes são iguais. Cada família infeliz é infeliz à sua maneira</em></strong>”. Se eu fosse autor destas duas frases, a minha crónica terminaria aqui. Mas não, não sou. A feliz conjugação saiu armada e imortal da imaginação de um russo, anárquico e prodigioso. É assim que começa “<strong><em>Anna Karenina</em></strong>”, um dos romances maiores (são todos) de Leão Tolstoi.<br />
Parafraseando o que em tempos disseram os nossos Correios, numa campanha ganhadora aliás, começar bem é meio caminho andado.<br />
Há, na história da literatura, alguns começos extraordinários. D. H. Lawrence abria o seu controverso “<strong><em>O Amante de Lady Chatterley</em></strong>” com uma frase severa: “<strong><em>A nossa época é essencialmente trágica, por isso nos recusamos a levá-la a sério</em></strong>”. O livro encabeçado por esta frase, relatando no miolo a fusão tórrida de um guarda-florestal com uma aristocrata, foi levado tão a sério que, publicado pela primeira vez, em 1928, na católica Florença, só em 1960 teve impressão autorizada no liberal Reino Unido. Claro que o facto da dita fusão ser, na prosa de Lawrence, reduzida a uma palavra inglesa com quatro letras explica em parte a trágica proibição.<br />
Nas leituras adolescentes, as minhas, claro, um dos começos que mais me impressionou foi o da “<strong><em>Reivindicação do Conde Julião</em></strong>”, romance assinado por Juan Goytisolo. Em minúsculas – o estilo é o homem – Goytisolo punha na boca do seu narrador, que do alto de uma colina em Tânger se dirigia à Espanha de Franco, esta amargura anti-patriótica: “<strong><em>terra ingrata, espúria e mesquinha entre todas, jamais voltarei a ti</em></strong>”. À direita e à esquerda, poucos lhe pouparam a traição delirante que a invectiva supunha. A mim, esta maldição forçou-me a devorar cada página. Duma vez por todas, passei a corar sempre que lia a palavra patriotismo.<br />
“<strong><em>Conheci-a há oito anos. Era minha aluna</em></strong>”. Esta é, para mim, a melhor abertura de um romance de Philip Roth. “<strong><em>O Animal Moribundo</em></strong>”, um belo romance, não será o melhor do escritor. Mas o arranque anuncia uma glorificação do sexo que, à medida que viramos as páginas, nos leva a crer que a “verdade do orgasmo” talvez seja a única verdade capaz de suspender a morte. Ou precipitá-la?<br />
O meu romance português preferido, “<strong><em>El-Rei Junot</em></strong>”, que Raul Brandão escreveu em 1912, tem um arranque que rima com o tema pungente da invasão francesa: “<strong><em>A história é dor, a verdadeira história é a dos gritos</em></strong>”. Mais do que um romance histórico, “<strong><em>Junot</em></strong>” é o trabalho de um artista que pinta a tragédia humana com uma combinação improvável de farsa, grotesco, comicidade e metafísica.<br />
Não sei se acabe com Jane Austen ou com James Joyce. <em>Des-hesito</em>! No mais ilegível dos seus romances, “<strong><em>Finnegans Wake</em></strong>”, a primeira frase do irlandês contem todos os mistérios do mundo: “<strong><em>riverrun, past Eve and Adam’s, from swerve of shore to bend of bay…</em></strong>”, o que em português tentativamente dá “<strong><em>riocorrente, depois de Eva e Adão, do desvio da praia à dobra da baía</em></strong>…”. E poucas vezes a escrita terá fluído como este rio, ancestral e a abrir-se sobre um mar de sibilantes para a redonda, doce e acolhedora aliteração de uma baía (“<strong><em>from swerve of shore to bend of bay</em></strong>”).<br />
Mas para acabar, e acabar com a <em>des-hesitação</em>, escolho a epítome do amor romântico que é “<strong><em>Orgulho e Preconceito</em></strong>”, de Jane Austen. “<strong><em>É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro na posse de uma boa fortuna deve estar à procura de uma esposa.</em></strong>” Porque é que nada neste nosso mundo é já tão seguro e certo como os padrões desse mundo de reconhecimento e segurança?<strong> </strong></p>
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		<title>Raio X francamente mais decente</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Mar 2010 20:30:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[


A pedido de várias famílias.
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			<content:encoded><![CDATA[<p><br class="spacer_" /></p>
<p><img class="aligncenter size-medium wp-image-9209" title="X-RAY-pants" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/X-RAY-pants-300x239.jpg" alt="" width="300" height="239" /></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p style="text-align: center;">A pedido de várias <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/02/dejeuner-sur-lherbe/">famílias</a>.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>O Caso das Escutas</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Mar 2010 18:27:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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Não sei exactamente porquê. Terá sido excesso de sol? Terá sido uma «overdose» de canal parlamento? O que é certo é que a memória tem razões que a própria razão desconhece e hoje acordei, a meio da noite, a recitar um texto genial de Luis Fernando Veríssimo. Talvez estejam lembrados, é a história de Leonor [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-medium wp-image-9204" title="elevador" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/elevador-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></p>
<p>Não sei exactamente porquê. Terá sido excesso de sol? Terá sido uma «overdose» de canal parlamento? O que é certo é que a memória tem razões que a própria razão desconhece e hoje acordei, a meio da noite, a recitar um texto genial de Luis Fernando Veríssimo. Talvez estejam lembrados, é a história de Leonor e Ataíde que resolvem «botar» um microfone escondido no elevador do prédio. Querem saber o que dizem os amigos quando entram e saem de sua casa.</p>
<p>«<em>- Vai dar galho, Ataíde…</em></p>
<p><em>- Vai nada.</em></p>
<p><em>E Ataíde instalou um microfone no elevador. O primeiro teste foi quando convidaram o Júlio e a Rosa para jantar. Ataíde ouviu Júlio dizer para Rosa dentro do elevador, na subida:</em></p>
<p><em>- Às onze horas a gente dá o fora.</em></p>
<p><em>- Acho que às onze ainda não serviram o jantar. Se eu conheço a Leonor…</em></p>
<p><em>- Não importa. Às onze nos mandamos. Amanhã eu tenho academia.</em></p>
<p><em>E Ataíde ouviu Júlio dizer para Rosa dentro do elevador, na descida:</em></p>
<p><em>- Saco, Rosa. Uma hora da manhã. Não viu eu fazer sinais prà gente ir embora?</em></p>
<p><em>- Aquilo era um sinal? Pensei que você estivesse limpando o ouvido.»</em></p>
<p>Da segunda vez a coisa piora:</p>
<p><em>«- O Ataíde está meio acabadão, tá não?</em></p>
<p><em>- Acho não. Prà idade dele…</em></p>
<p><em>- Também, ter de aguentar a Leonor… (…)</em></p>
<p><em>- Cachorra!»</em></p>
<p>Mas Leonor e Ataíde persistem. Leonor e Ataíde insistem.</p>
<p><em>«Ligam da portaria para anunciar que o Sr. Marcos e a Dona Lia estão subindo. No elevador, Lia diz:</em></p>
<p><em>- Se a Leonor servir salmão outra vez, eu me mato.</em></p>
<p><em>Depois, Lia não entende a frieza da Leonor com ela durante todo o jantar. Não sabe que Leonor teve de suspender o salmão que serviria. Que substituiu o salmão por um resto de pernil que, graças a Deus, ainda tinha na geladeira. Descendo no elevador, Lia comenta com Marcos:</em></p>
<p><em>- A Leonor enlouqueceu. Você viu? Serviu pernil com molho remolado pra peixe.»</em></p>
<p>Mas à quarta tentativa, tudo azeda de vez.</p>
<p><em>«Depois de um jantar para os amigos que ainda restavam, os melhores amigos do casal foram os últimos a sair. Marjori e Adão. Amigos chegadíssimos. Amigos de muito tempo. Depois das despedidas, depois de fechada a porta do elevador e de o elevador começar a descer com Marjori e Adão, Ataíde hesitou. (…) O que ouviram foi o fim de uma frase dita pelo Adão:</em></p>
<p><em>- …cada vez mais chato.</em></p>
<p><em>- Viu só, Ataíde? — disse Leonor. — É sobre você.</em></p>
<p><em>- Porquê eu? Tinha mais gente no jantar!</em></p>
<p><em>- Sei não… Sei não…</em></p>
<p><em>E nunca saberiam mesmo. No dia seguinte, Ataíde tirou o microfone escondido no elevador.»</em></p>
<p>Eu também estou a ficar deprimido. Sendo impossível desligar o país, não sei se não é, apesar de tudo, de fazer como o Ataíde.</p>
<p><em>Publicado na Visão em 4.2.2010</em></p>
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		<title>O politicamente correcto…</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Mar 2010 17:23:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Francisco Feijó Delgado</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[… assume muitas formas.

Recentemente, face à tragédia que ocorreu na Madeira e às inevitáveis vozes do “se a coisa tivesse sido bem feita”, a grande maioria dos opinion makers e comentadores tratou de elogiar os presidentes da Câmara do Funchal e do Governo Regional (quando na maioria das vezes, excepto o sr. Presidente da Assembleia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>… assume muitas formas.</p>
<p><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/aTf0h3nobAs&#038;fs=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/aTf0h3nobAs&#038;fs=1" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p>Recentemente, face à tragédia que ocorreu na Madeira e às inevitáveis vozes do “se a coisa tivesse sido bem feita”, a grande maioria dos <em>opinion makers</em> e comentadores tratou de elogiar os presidentes da Câmara do Funchal e do Governo Regional (quando na maioria das vezes, excepto o sr. Presidente da Assembleia em dias não, aproveitam para chamar de tudo ao Presidente do Governo regional), bem como de dizer que aquela não era altura para se falar dos “e se…”.</p>
<p>A questão é que não é “e se”. O programa acima, do segundo canal da televisão de serviço público, menciona <strong>tudo</strong>. As características especiais da precipitação na Madeira, as características especiais das enxurradas na Madeira, a necessidade de evitar as construções na periferia ou no leito das ribeiras — e não se trata apenas de construções ilegais ou particulares; há equipamento municipal — a ausência de planos de emergência, a necessidade da existência de instrumentação capaz de prever o tempo de forma a se poder proceder à evacuação atempada e finalmente a negligência dos poderes local e regional na fiscalização, planeamento e no incumprimento da lei.</p>
<p>Agora é altura de se falar disto, porque, como se vê, ter falado antes não adiantou muito. E muito menos adianta fazer-se de sonsos e tecer elogios bacocos.</p>
<p><small><a href="http://www.youtube.com/watch?v=2EXk-mQQEtY">Mais</a>.</small></p>
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		<title>A Paciência</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Mar 2010 08:52:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Francisco Feijó Delgado</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[


A paciência, como todos sabem, é a virtude que faz de um bom prankster, um sublime prankster. Para além da lata e da cara de pau, uma das características fundamentais de um pregador de partidas digno desse nome é saber esperar. A paciência é a renúncia temporária ao tão humano sentimento da gratidão imediata. É a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="601" height="338" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowfullscreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://vimeo.com/moogaloop.swf?clip_id=5239013&amp;server=vimeo.com&amp;show_title=1&amp;show_byline=1&amp;show_portrait=0&amp;color=c42622&amp;fullscreen=1" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="601" height="338" src="http://vimeo.com/moogaloop.swf?clip_id=5239013&amp;server=vimeo.com&amp;show_title=1&amp;show_byline=1&amp;show_portrait=0&amp;color=c42622&amp;fullscreen=1" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object>
</p>
<p>A paciência, como todos sabem, é a virtude que faz de um bom <em>prankster</em>, um sublime <em>prankster</em>. Para além da <em>lata</em> e da cara de pau, uma das características fundamentais de um <em>pregador</em> de partidas digno desse nome é saber esperar. A paciência é a renúncia temporária ao tão humano sentimento da gratidão imediata. É a abnegação na demanda de uma causa ulterior. É a perseverança sofrida. A paciência faz de um ser humano banal, um homem invisível e, a partir daí, capaz de tudo.</p>
<p>Só através da paciência se alcança a gratificação diferida. Como um predador à espera do vento para se lançar sobre a presa, quem prega partidas tem de ser capaz de esperar que as melhores condições se propiciem; porque nem ele consegue controlar tudo. E só aquele disposto a aceitar o desfecho de uma partida, mesmo não podendo assistir a ele, pode aspirar à verdadeira realização, à descoberta da paz interior que caracteriza o maior dos aldrabões.</p>
<p><small>[1] — <a href="http://www.newyorker.com/reporting/2009/05/18/090518fa_fact_lehrer?currentPage=all" target="_blank">Don’t! — The secret of self control</a> — <em>The New Yorker</em> | Maio de 2009</small></p>
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		<title>O português é defunto</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Mar 2010 23:26:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O português é defunto e saudosista. Ou, para ser justo, até porque já confessei e confirmo: eu sou defunto e saudosista. Pelo passado, pelo admirável passado, somos capazes de fazer mais do que promete a força humana. Eu também. Recusamo-nos – recuso-me – a ser apóstolo das novas gerações. Quase tudo o que interessa é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_9177" class="wp-caption aligncenter" style="width: 498px"><img class="size-full wp-image-9177" title="Dali-Geopolitical" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/Dali-Geopolitical.jpg" alt="" width="488" height="450" /><p class="wp-caption-text">Dali: criança geopolítica observa o nascimento do Homem Novo.</p></div>
<p style="text-align: justify;">O português é defunto e saudosista. Ou, para ser justo, até porque já confessei e confirmo: eu sou defunto e saudosista. Pelo passado, pelo admirável passado, somos capazes de fazer mais do que promete a força humana. Eu também. Recusamo-nos – recuso-me – a ser apóstolo das novas gerações. Quase tudo o que interessa é o passado e os seus pobres diabos. Na literatura como na pintura. No futebol, como (hèlas!) no amor. Na ciência como na tecnologia.<br />
Se este post fosse um <strong><em>quizz</em></strong>, impunha-se agora a pergunta: verdadeiro ou falso?<br />
Afinal somos também, com mais ou menos mérito, os gloriosos e loucos herdeiros do poeta que cantou a mudança.  Em catorze versos, Camões quis preparar-nos para um mundo tão composto de mudança – “<strong><em>mudam-se os tempos, mudam-se as vontades</em></strong>” – que bem nos avisou estar, a mudança de cada dia, tão mudada que “<strong><em>não se muda já como soía</em></strong>”.<br />
Só que o mundo já não cabe num soneto. Ou cabe?! Sugiro uma primeira e modesta experiência: saiam à rua e comprem um jornal. Não digo o “Público”, talvez nem o “Expresso”. Mas, por exemplo, o “New York Times”. Numa só semana, o “NYTimes” soma mais informação do que a que seria possível a um europeu recolher durante toda a sua vida se vivesse no século XVIII. <strong>Pura e comprovada estatística.<br />
</strong>Dizem, e para que não seja só a cabeça de Camões a rolar, que a língua inglesa actual incorpora 5 (cinco) vezes mais palavras do que as utilizadas por Shakespeare. O facto não restaura o velho e decrépito império. A verdade é – linda estatística! – que a China, nos próximos anos, vai transformar-se no país do mundo com mais falantes de língua inglesa. <strong><em>God save the Queen</em></strong>.<br />
Mas há mais: a velocidade. A velocidade da mudança. Continuei, displicente e distraído, a ver as estatísticas. Pediram segredo mas, aturdido, conto na mesma. Entre o seu musical arranque e a obtenção de um auditório de 50 milhões de ouvintes, a rádio teve a paciência de esperar 38 anos. A televisão, muito mais messalina, acomodou idêntica promiscuidade em 13. A internet, abrindo a banda, consumou os 50 milhões em quatro breves anos.<br />
Hoje, na televisão, Medina Restelo Carrreira pediu melhor escola lamentando que a dialogante nova ministra tivesse implodido a avaliação dos professores. Só que a mudança já avaliou a própria escola. Se aceitarmos a hipótese – outra vez o raio da estatística! – de que os 10 empregos que vão ter maior procura no ano que vem ainda nem sequer existiam há 5 ou 6 anos, teremos de concluir que professores e escolas deveriam estar a formar alunos para empregos que ainda não existem e para dominar tecnologias por inventar. Parafraseando o que disse Einstein, justificando a resistência <em>in illo tempore</em> à sua teoria da relatividade, devíamos era estar a prepará-los para problemas que ainda nem sabemos formular.<br />
Com um futuro destes, tão veloz e suicida, nem vale a pena ter passado. Verdadeiro ou falso? Já não sei se respondo por mim, mas anda-me o passado a pedir mais um bocadinho de futuro.</p>
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		<title>Newark carioca</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2010/03/newark-carioca/</link>
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		<pubDate>Thu, 04 Mar 2010 22:55:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
				<category><![CDATA[regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Aqui sentado, neste asséptico e impessoal lounge de aeroporto, bebo sozinho.
Ao longe, por entre o frio, o skyline iluminado de Newark.
Aqui sentado dizia, vou-me aquecendo como posso.


]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">Aqui sentado, neste asséptico e impessoal <em>lounge</em> de aeroporto, bebo sozinho.</p>
<p style="text-align: center;">Ao longe, por entre o frio, o skyline iluminado de Newark.</p>
<p style="text-align: center;">Aqui sentado dizia, vou-me aquecendo como posso.</p>
<p>
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="425" height="344" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/jStx8oxtNCc&amp;hl=en_US&amp;fs=1&amp;" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="425" height="344" src="http://www.youtube.com/v/jStx8oxtNCc&amp;hl=en_US&amp;fs=1&amp;" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object></p>
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		<title>Foi como foi e pronto</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Mar 2010 12:03:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
No meio de Hamlet há aquela peça que encena dentro da peça que vemos, o drama do príncipe poltrão. É um momento utilizado na escola para ilustrar a técnica do mise en abyme. Assim é também o futebol: um eloquentíssimo mise en abyme daquilo a que chamamos “vida real”, encenado por 22 rapazes de calções, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-medium wp-image-9165" title="djalo-4" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/03/djalo-4-300x205.jpg" alt="" width="300" height="205" /><br />
No meio de Hamlet há aquela peça que encena dentro da peça que vemos, o drama do príncipe poltrão. É um momento utilizado na escola para ilustrar a técnica do <em>mise en abyme</em>. Assim é também o futebol: um eloquentíssimo <em>mise en abyme</em> daquilo a que chamamos “vida real”, encenado por 22 rapazes de calções, mais 3 ladrões sem casaca, rodeados tanto por um punhado de mulheres com um prodigioso léxico de insultos (caso do A.D.R.) como de 40.000 uivantes em ira ou alegria.<br />
 Para ilustrar esta analogia peço que considerem o caso Djaló, Yannick Djaló.<br />
 Fadaram-lhe um futuro auspicioso e o menino, sonhando fintas mirabolantes e golos de bandeira em noites europeias, foi logo cortar o cabelo à campeão, e furar as orelhas de diamantes, que em futebol é o emblema dos predestinados.<br />
 Mas da potência ao ato vai um abismo, que nem os filósofos árabes medievais, nem os coevos monges cristãos que lhes pilharam o pensamento, conseguiram resolver; pelo que o tempo passava e o destino tardava. E se debaixo da bondosa tutela de Derlei ainda Djaló teve uns minutos de ser capaz de qualquer coisa acima da vulgaridade, quando íamos ao deixa-lá-ver-melhor já lá não estava nada digno de estima. E as coisas foram indo assim, ou seja, cada vez pior. Em campo exibia demasiado uma pose petulante, aparentando preocupar-se mais com a estética do que com os resultados, como se fosse um poeta da Assírio, propondo umas corridinhas em pezinhos de lã amarelos, sem consequência.<br />
 De modo que estivemos nisto até à semana passada. E de repente, sem alerta prévio, quem era aquele acelerador de partículas em campo? Era o Djaló, a romper, driblar, rematar. E tudo isto com uma convicção e uma certeza dir-se-ia que “evidentes”, como se nada tivesse sido de outra maneira.<br />
 Como se explica tão drástica metamorfose, tamanho salto quântico da noite para o dia? Os crentes, que sabem sempre o que dizer, exclamarão: “Milagre!” Ou então: “mistérios da Divina Providência” que é o que avançam quando precisam de não explicar o que dizem. Os ludopedistas, que tendem a ser deterministas,  declamarão razões como se já soubessem antes o que só repararam depois. Mas na verdade a explicação é só uma: não há explicação.<br />
 O irrompimento do novo Djaló, que em nada o velho deixava antever, é semelhante à maior parte daquilo que nos sucede na vida – apenas acontece. <em>And that’s that</em>.</p>
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		<title>Von Trier antes de dogmas e depressões</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Mar 2010 01:08:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Eu sei que pode ser difícil para alguns de vós. Mas tentem voltar a um tempo em que, para Lars von Trier, ainda não havia dogmas nem o cinema era (só) uma terapia para curar depressões. Recuem a 1991 e atrevam-se a mergulhar fundo no sombrio mundo de Europa. Nada de transcendente, basta deixarem-se levar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Eu sei que pode ser difícil para alguns de vós. Mas tentem voltar a um tempo em que, para Lars von Trier, ainda não havia dogmas nem o cinema era (só) uma terapia para curar depressões. Recuem a 1991 e atrevam-se a mergulhar fundo no sombrio mundo de <em>Europa</em>. Nada de transcendente, basta deixarem-se levar pela voz hipnotizante de Max von Sydow enquanto contam até 10. Quando a contagem acabar, garanto-vos que já não se lembrarão do <em>Antichrist</em>. Depois, à medida que o filme avança, não se espantem se tiverem vontade de engolir os impropérios que, ainda recentemente, dirigiam ao pobre Lars. No final, ficará uma esperança: a de que Lars von Trier, um destes dias, voltará a ser genial. Como o foi em <em>Europa.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em> <br />
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<br />
</em></p>
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