O meu avô, Alberto Meirelles, em cuja imaginação vivia ainda a força de outros tempos, dizia, com a graça de que se lembram aqueles que o conheciam, que «dois terços da população portuguesa descendem do arcebispo de Braga; só que uns sabem-no – e podem prová-lo – e outros não.» Com esta afirmação expressava o orgulho próprio daquele que se sabe descendente de alguém que, exercendo com virtude heróica os poderes que historicamente lhe foram oferecidos, se tornou o fundador de uma família, de uma gente, de um povo, de uma nação, os quais a partir dele repetidamente se experimentam e reconhecem e por cujo legado se sentem honrados e são responsáveis. É neste sentido que, segundo creio, Portugal deve hoje recolocar-se perante a figura daquele que foi o maior dos seus heróis: Nuno Álvares Pereira.
Neto paterno de D. Gonçalo Pereira – o arcebispo de que falava o meu avô –, Nun´Álvares foi um dos filhos mais novos dos 32 que teve D. Álvaro Gonçalves Pereira, prior da Ordem do Hospital e homem poderosíssimo no seu tempo. Com apenas 13 anos, na corte de D. Fernando, destacando-se numa surtida feita contra os castelhanos, foi armado cavaleiro, espírito no qual fora educado e pelo qual se regia. Após a morte do rei, assumiu-se abertamente contra a sucessão do rei de Castela, que favorecia o papa herético, apoiando decididamente o partido do mestre de Aviz. Separando-se dos seus irmãos – e de grande parte da nobreza –, combateu com D. João por um Portugal português, abrindo com a sua espada o caminho até Coimbra, em cujas cortes o mestre, sob a pena de João das Regras, foi então aclamado rei. No dia seguinte, em Coimbra, foi Nun´Álvares nomeado para o cargo de condestável, no qual em inúmeras batalhas haveria de ser sempre invencido.
Nos longos anos que passaram até que se garantisse a paz, e sobretudo depois da morte de D. Beatriz, sua filha, sentia cada vez mais forte o chamamento que há muito o instava a retirar-se do mundo. Acabou por fazê-lo, mais tarde, para o convento que construíra em Lisboa, no alto do monte da pedreira, em contraponto ao castelo, distribuindo então os seus bens pelos netos e familiares. Um ano depois tornou-se professo dessa mesma Ordem do Carmo, à qual fez doação da propriedade do convento, e passou a viver mendigando, orando e fustigando o corpo, para salvação não só da sua, mas de todas as boas almas. Morreu oito anos depois, num domingo, que era de Páscoa, com auréola de santidade.
É evidente que Nun´Álvares não é um homem do nosso tempo, perante o qual o sentido da sua vida tem, de algum modo, que ser explicado. O nosso tempo, porém, é avesso à existência dos heróis, em cuja força virtuosa e diferenciadora não reconhece a inspiração da liberdade, mas apenas a arbitrariedade do poder. Hoje, com efeito, a ignorância e a apatia instituídas servem apenas a manutenção da indiferença, a qual nos é ideologicamente imposta pelos poderes que, aberta ou dissimuladamente, cada vez mais nos dominam. Do comunismo e do fascismo ao politicamente correcto e ao fim da história, passando pela abstenção e pela realpolitik, tudo se concerta, à nossa volta, num combate sistemático a toda a pertença vertical que interiormente nos anime no seio de uma sociedade que, absolutamente governada por uma racionalidade tecnicamente determinada, se pretende, tão-somente, desmoralizada e horizontal.
O único resquício do herói que teimosamente emerge ainda das profundezas do mais natural desejo humano é a quase cómica figura dos mediáticos super-heróis: seres absolutamente imaginários, sem qualquer fundamento histórico, cujo carácter moral surge a partir da boa utilização que decidem – ou não – fazer dos seus extraordinários poderes físicos. O verdadeiro herói, no entanto, é exactamente o contrário: é o personagem de uma história dramática, à qual, pela virtude do seu carácter, dá um sentido inteiramente novo. Com efeito, é a partir de uma força moral extraordinária que nele surge um poder físico que antes, na verdade, não tinha: um poder inspirado, mais que humano, divino… dado num homem que, afinal, é tão mortal como nós. Por isso, na língua latina – e na grega, de onde a palavra provém –, o herói é um semi-deus: alguém que, entre o humano e o divino, inspira os homens, na sua história, a caminharem para além de si.
Ora, a história do Portugal renascido cedo reconheceu em Nun´Álvares o homem predestinado à tarefa de espiritualizar Portugal. Desde a Crónica do Condestável – pouco depois da sua morte escrita por um autor que ficou anónimo – que, na consciência do nosso povo, se mostrou clara a ideia de que Nun´Álvares nascera imbuído de uma missão divina: por isso nasceu no dia que era de S. João Baptista, sinal de que prepararia a chegada do reino de Aviz; por isso o oráculo astrológico, perante o qual o seu pai exultou, vaticinou a invencibilidade do menino recém-nascido; por isso o alfageme de Santarém lhe fez e entregou a espada com que haveria de abrir o caminho do misterioso ser português; por isso os portugueses se transcendiam ao ver-se na sua presença, enquanto os castelhanos estremeciam ao vê-lo, ao longe, chegar, pois nele ambos reconheciam a força da mão do Senhor; por isso, cumprida a tarefa de interiormente erguer Portugal, se desfez de tudo o que tinha, unindo, pela devoção, os reis e os homens do povo; por isso, nas romarias, espontâneas, até ao seu túmulo, os portugueses experimentaram tantos milagres e alegrias.
Hoje, porém, perdeu-se a crença num destino para Portugal. Entre um passado de que não se lembra e um futuro em que não acredita, o nosso povo está à deriva, sem prumo, sem rumo e sem história. Não há ideal que o motive, nem desgraça que o transforme. Não espera, nem desespera: existe – sem ser português. Ora, é nas alturas de crise que Nun´Álvares surge entre nós, lembrando, àqueles que somos, aqueles que podemos ser. Foi assim em Aljubarrota; foi assim na Restauração; foi assim na conturbação que entre nós antecedeu a República… e é assim, uma vez mais, no tempo que hoje vivemos, pois que Roma, ao reconhecê-lo santo, nos dá a possibilidade de nos lembrarmos de nós mesmos na figura do nosso herói.
Voltemo-nos, pois, para as ruínas do Convento por ele subido, marcas desse terramoto de uma modernidade que veio de fora, e reparemos como, imponente, permanece sublime o templo, erguido naquele monte onde não poderia erguer-se. Três vezes os seus alicerces tiveram que refazer-se, pois que o monte, resvaladiço, não era dado àquela empresa. Caindo os muros, porém, não se desistiu da obra, antes se foi sempre mais fundo, para melhor sustentá-la. E é assim que nos tristes restos em que se vê o que hoje somos, se pode admirar a presença do que fomos e podemos ser: um povo desnecessário, feito a partir de si mesmo, de vontade generosa e inteligência interior, cuja história de coragem em terra branda e amena o fez capaz de pôr de acordo os dons eternos de Deus com a liberdade humana.
Nas ruínas do convento vive o espírito de Nun´Álvares, cuja voz, se nós a ouvirmos, grita contra a indiferença que, disfarçada, sempre espreita, ameaçando Portugal. Foi assim que nas magníficas bodas que uniram a infanta D. Beatriz ao rei D. João de Castela, morrendo D. Fernando em Almada e, com ele, Portugal, Nun´Álvares deitou por terra a mesa das iguarias, com estrondo lembrando aos senhores, que tomavam os seus lugares, que se eles ali estavam era em nome de algo maior. A afirmação da nacionalidade fundada na presença espiritual do herói nunca implicará, no entanto, qualquer risco de imperialismo, já que a relação do herói com os outros é eminentemente moral. O herói é o que vai à frente, desbravando corajosamente o caminho, que as gentes, acreditando, se acostumam a caminhar. O que os une é o caminho, no qual a fé encurta a distância que os separa no peregrinar: o povo, acreditando no herói, chegará a acreditar em si mesmo; o herói, acreditando em si, chegará a acreditar no povo.
Desde pequeno, com efeito, que as leituras de cavalaria inspiraram em Nun´Álvares o desejo de ser, entre nós, um novíssimo Galaaz, com cuja pureza e coragem assumiria a predestinada tarefa de, primeiro, reformar Portugal, e, depois, ser levado aos céus. Jovem que era, no entanto, queria ser herói para si, forçando os próprios combates que haveria de travar e querendo controlar o tempo em que, intacto, se haveria de dar. Toda a sua vida, porém, pode bem caracterizar-se por um contínuo despojamento de todas as coisas do mundo, com o qual heroicamente assumiu as batalhas não escolhidas, às quais se entregou inteiro e cada vez mais para os outros. Assim reergueu Portugal, ao qual completamente se deu, acabando, descalço, em Lisboa, mendigando pela cidade, na qual pedia por todos os homens e já não só pelos portugueses.
O herói, na verdade, tendo esta relação com um povo ao qual concretamente se dá, é ao mesmo tempo arquetípico e, de algum modo, universal, descobrindo, com a sua vida, a realidade pressentida por todos. Nun´Álvares, neste sentido, foi o precursor das descobertas que na Península se fizeram sobre a emergência de um mundo novo – e que as nossas universidades, que bem as compreenderam, um século e meio mais tarde comunicaram ao mundo, que só em parte as quis saber. Falamos da separação entre o poder temporal e o espiritual, que apenas indirectamente deve influir sobre o primeiro; falamos da afirmação da dignidade individual, fundada na liberdade com que o ser se instaura a si mesmo; e falamos na defesa da verdadeira democracia, enquanto único regime que é dado por direito natural e pela qual o povo se assume responsável pelo seu destino. De tudo isto Nun´Álvares foi já o anunciador: anúncio que ficou incompleto numa história que ficou por fazer.
Acabarei, por isso, com aquela exortação (Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto IV, §§ 18 e 19), que, «com palavras mais duras que elegantes», Nun´Álvares dirige ainda à adormecida alma portuguesa:
«Rei tendes tal, que se o valor tiverdes
Igual ao Rei que agora alevantastes,
Desbaratareis tudo o que quiserdes,
Quanto mais a quem já desbaratastes.
E se com isto enfim vos não moverdes
Do penetrante medo que tomastes,
Atai as mãos a vosso vão receio,
Que eu só resistirei ao jugo alheio.
Eu só com meus vassalos, e com esta
(E dizendo isto arranca meia espada)
Defenderei da força dura e infesta
A terra nunca de outrem sojugada.
Em virtude do Rei, da pátria mesta,
Da lealdade já por vós negada,
Vencerei (não só estes adversários)
Mas quantos a meu Rei forem contrários.»
In VV.AA., Nuno Álvares Pereira: Homem, Herói e Santo, Ed. Universidade Lusíada/Ordem do Carmo em Portugal, Lisboa, 2009, págs. 101–105
Gonçalo Pistacchini Moita
















Gonçalo, grande escolha e grande texto! Gostei muito.
Texto inspirado e inspirador, Gonçalo, afinal, estamos a viver a quebra dos alicerces dos nossos Carmos.