Hildegard von Bingen

HILDEGARD VON BINGEN

(Bermersheim 1098 – Bingen 1179)

De Hildegard von Bingen conheci primeiro a música. Diferente e belíssima. Surgiram depois as referências aos seus textos e ao entusiasmo que suscitavam na teologia feminista contemporânea. A tornar irresistível a curiosidade sobre esta mulher, que nasceu em plena Primeira Cruzada e morreu no ano em que a bula Manifestis Probatum reconheceu Afonso Henriques como Rei de Portugal.   

Foi extraordinária, a sua vida. Pelos seus feitos, muito para lá do que seria expectável de uma mulher do seu tempo e condição religiosa. E pelo que estes representaram, de superação das tremendas limitações que a condenavam a uma existência previsível, de obscuridade e obediência.

Hildegard nasceu em 1098. Foi a décima descendente dos seus pais que, seguindo o costume da época, a ofereceram a Deus como dízimo. Entregue à Igreja com 8 anos, foi confiada à eremita Jutta de Sponheim. E com esta encerrada num eremitério anexo ao mosteiro beneditino de Disibodenberg. Cresceu em isolamento e recebeu uma instrução muito elementar. Sabia ler, mas escrevia com dificuldade. Tinha uma saúde frágil, com frequentes crises de um mal que a prostrava e a deixava cega. Professou aos 14 anos como beneditina no convento fundado a partir do eremitério, trocando a reclusão pela clausura.

Não obstante, gozou de autoridade como teóloga e mística. Distinguiu-se como compositora e poetisa. Dirigiu e fundou mosteiros. Viajou e dedicou-se à pregação. Correspondeu-se com Bernardo de Claraval, Frederico I Barbarossa, Henrique II e Leonor de Aquitânia. Teve voz activa em muitas questões que abalaram a cristandade, como o cisma de 1159 e o catarismo. O que nem sempre foi fácil, simples ou isento de controvérsia. Porque a ordem religiosa reproduzia, em muito, a social, o convento de que, desde 1136, era superiora vivia sob a autoridade do mosteiro de Disibodenberg, a cujo abade muito desagradava o seu protagonismo. Saturada da penúria a que este submetia as monjas, apesar da riqueza do respectivo património (que lhe cabia administrar), Hildegard decidiu, cerca de 1148, fundar uma comunidade independente. Foi feroz a oposição do referido abade, que durante anos recusou devolver os dotes das monjas. E polémico o local escolhido, Rupertsberg (Bingen), numa zona montanhosa isolada, sem a protecção de qualquer convento masculino, facto inédito e que gerou resistência nas próprias monjas. À construção do novo mosteiro, consagrado em 1152, referem-se muitos dos seus cânticos, como a sequência O Jerusalem. Valendo-se da autonomia conquistada e do crescente reconhecimento de que gozava, Hildegard reclamou, insistiu e obteve, em 1158, autorização para pregar. Num tempo em que era rara a intervenção feminina no espaço público e na exegese bíblica, percorreu todo o vale do Reno e proferiu sermões nas principais abadias e cidades, dirigidos ao clero (regular e secular) e também a leigos.   

Os principais textos de Hildegard constam da trilogia Scivias (Scito Vias Domini), Liber vitae meritorum e De operatione Dei. E consistem no relato e interpretação das visões que tinha desde criança, mas que só a partir dos 40 anos decidiu revelar — ditando-as ao monge Volmar, que supria o seu fraco domínio da escrita. Tais visões eram acompanhadas de intensas alterações físicas, cuja descrição permite supor que Hildegard sofreria de enxaqueca, por coincidirem com os respectivos sintomas típicos. Submetidos a rigoroso exame, os seus primeiros textos foram lidos aos presentes no Sínodo de Trier (1147) pelo próprio papa Eugénio III, cujo imprimatur abarcou quaisquer outros que Hildegard viesse a produzir, por serem de inquestionável inspiração divina. Um dos traços mais curiosos de todos seus escritos é a preponderância de personificações femininas, fortes e assertivas — a Ecclesia, a Caritas e, sobretudo, a Sapientia (para além de Maria) — que os torna, no presente, objecto dilecto dos estudiosos do feminine divine.    

Last, but by no means the least, a música. Hildegard compôs cerca de 77 obras destinadas ao Ofício Divino e a festas religiosas, agrupadas na Symphonia armonie celestium revelationum e a Ordo Virtutum, uma oratória para vozes femininas (com um único papel masculino, o Diabo). Baseou-se no canto gregoriano, que conhecia bem (pois vivera, desde criança e por largos anos, ao ritmo das horas canónicas de Disibodenberg), mas que reformulou de forma profunda e original, inspirada, dizia, pelas suas visões. Contrastando com a sobriedade da música sacra da época, a sua é emotiva e intensa. Composta quase sempre para vozes femininas, caracteriza-se por variações de tom amplas e abruptas e por vocalizações de soprano altas e complexas. As letras, escritas num latim medieval modificado (com palavras inventadas e/ou simplificadas) contêm as mesmas imagens e descrições de luz e de cor que marcam os seus textos.

Mais que a feminista avant la lettre e a progressista, quase subversiva, em matérias teológicas e de costumes retratada, com manifesto (ainda que compreensível) exagero, em certas biografias, Hildegard von Bingen foi uma mulher do seu tempo que soube transformar circunstâncias incomuns em talentos e oportunidades que tornaram a sua vida excepcional. E é justamente isso que faz dela uma figura única, fascinante e inspiradora.

 

 Joana Vasconcelos

 

http://www.youtube.com/watch?v=LJEfyZSvg5c
 
http://www.youtube.com/watch?v=irxG-GCV5Es
 
http://www.youtube.com/watch?v=6mCdLNblwRw


Comentários a “Hildegard von Bingen” (12)

  1. José Navarro de Andrade diz:

    Belíssimo texto, extraordinária personagem.
    Todavia, não deixa de ser curioso verificar que, mais uma vez, os eventos que atestavam a santidade ou a penetração divina na alma e no corpo dos místicos, eram, sabemo-lo hoje, manifestações de patologias mentais, à época misteriosas e assustadoras, agora perfeitamente diagnosticáveis.
    Entretanto, e crendo que faz o seu género, ofereço-lhe este link que provavelmente já conhece. Aconselho vivamente a esportular o dinheiro que pedem porque as graças obtidas serão milhentas:
    http://www.stileantico.co.uk/SongofSongs.php
    (no iTunes é capaz de ficar mais bem servida)

    • Joana Vasconcelos diz:

      Obrigada José Navarro, também pelo link. Não conhecia e gostei muito. Acho que vou mesmo passar pelo iTunes no fim-de-semana.

  2. Pedro Norton diz:

    Joana, belo texto. Aprendi quase tudo.

  3. Orcama diz:

    Foi uma novidade. Aprendi tudo. Ainda bem que trocou de lado, Joana “von” Vasconcelos e se tornou autora.

  4. Joana Vasconcelos diz:

    Vielen Dank Orcama, nett Patenonkel! Deste ou do outro lado, é sempre um gosto quando aparece… :)

  5. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Ainda não lho tinha dito Joana. Gostei muito!

  6. teresaconceicao diz:

    Joana, ainda não tinha tido tempo.

    Gostei tanto.
    As personagens desta época são tão difìceis de iluminar.
    Obrigada por nos ter trazido esta. E que música tão bonita.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Obrigada Teresa, enquanto escrevia, pensava às vezes em si e no que desenharia, ao ler os textos cheios de cor e de luz de Hildegard.

  7. Também gosto muita da figura de Hildegard de Bingen. Se callhar já conheces o livro sobre ela, Música escarlate, chama-se, e, dá uma boa perspectiva do que terá sido fundar um mosteiro no longíquo séc. XI e da obstinação de Hildegard.
    Dia 27 de março, às 15.00, haverá uma conferência sobre ela no Centro de Estudos da Ordem do Carmo. Talvez nos encontremos lá.

  8. Joana Vasconcelos diz:

    Sofia, que bom teres aparecido! Li o Música Escarlate há uns anos, quando comecei a ficar mesmo intrigada e curiosa com a figura. Gostei muitíssimo, não só da parte biográfica propriamente dita, como, sobretudo, do que continha de transcrições dos textos e de pistas que não resisiti a explorar, de Bíblia e marcador em riste e, depois, em textos mais recentes, uns mais literários outros mais teológicos.

    Vou tomar nota desta tua indicação da conferência. Thanks!

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