
Julgo que das colinas de Almondsbury não se chega a ver o mar. Mas foi do mar que ela chegou. Tão vestida como os resquícios de Inverno ainda exigiam, tão despida como o doce augúrio de Primavera autorizava. O que a vestia e o que a despia tinha a estranheza da “peregrina formosura” de um soneto camoniano. “Vem de longe, talvez deva ir para longe”, foi o que pensou, bem acima do seu chinelo, o sapateiro inglês que primeiro a viu.
Corria o século XIX, o temperado ano de 1817, e um mês antes vozes iradas e pernambucanas tinham-se levantado, do outro lado do Atlântico, contra o execrável domínio português. Se era português, uma algaraviada moura, ou papua o que donzela falava foi o que pareceu indecifrável ao plácido remendão. Chamou a mulher e entregou-lhe aqueles aparentes, descalços e visivelmente opulentos 20 anos, oscilando entre a mendicidade e a realeza.
Mas triste continuava quem de longe quis ventura: a mulher percebeu, da outra e estranha, o que o marido já percebera, o mesmo exacto nada. Foram juntos e entregaram-na às autoridades, mais precisamente ao Overseer of the Poor, cargo que, na sequência das Guerras Napoleónicas, fora criado para punir, mais do que prevenir (ó meu triste e incompreendido Foucault!), a deambulante pobreza e vagabundagem.
Só que para a autoridade do pobre Mr. Hill, o único habitante de todo o condado de Gloucestshire a usar lunetas, e tanto subindo-as como deixando-as deslizar até à ponta do nariz, era menos do que chinês o que aos ouvidos lhe chegava da boca da nervosa e terrivelmente fatigada rapariga. Uma bela e definida boca, informe-se, contrastando no seu naturalismo com o artifício do turbante escuro em que se recolhia o cabelo negro e espesso da jovem.
Lembrou-se a pequena e agitada multidão, entretanto junta, que não só Mr. Worral (proprietário da mansão que encimava a aldeia, como alguém que graciosamente se põe em bicos de pés para corroborar uma esquecida hierarquia) – não só, dizia, Mr. Worral era um magistrado competente, como era casado com Mrs. Worral, americana viajada e que tinha, como dama de companhia, uma descendente de Safo. A criada grega, como plebeia e invejosamente a tratavam, falava várias línguas. Entregaram, por isso, a moça desnuda à prova do poliglotismo da grega. Do latinório levado da breca que se seguiu resultou mais esquiva, enleada e abismada perplexidade. Sei eu o que se passou? Sabe a mediterrânica Eugénia de Vasconcellos, sabe o açoriano Pedro Norton? Digo-vos: nem o cearense Ruy Vasconcelos.
Mr. Worral, da escura desconfiança, depressa passou ao claro e vulcânico lume da esperança. Quis ver-lhe as mãos, as palmas, as unhas, falanges, falanginhas e falangetas, as polpas que imprimem. Tinha-as, palmas, nódulos e polpas, macias como as de uma, do canto nono, ninfa. É-me simpática a ligeira secura em que se afogou por segundos a garganta curta de Mr. Worral.
A aldeia tomou conta da misteriosa e incomunicada jovem. Por gestos dela e gestos deles foram desbravando o desconcerto que era o mundo que por acidente os juntara. Ela. Só comia vegetais, só bebia água e chá. Não parecia saber a função de uma cama, mas rezava, de joelhos, uma mão sobre os olhos durante a ininteligível oração. A que deuses? Será que a demónios? Pensavam eles.
Os Worrall, e em particular o pigarreante Mr. Worral, ferviam de curiosidade: donde vinha e quem era aquela mulher exótica com traços tão europeus? Ao fim de dez dias, tirando esse vem não sei como e aquele dói não sei porquê que a todos nos faz irmãos, só tinham uma palavra em comum – “ananás”. Gritara-a a jovem, dedo em riste, apontando para o desenho de um que ilustrava uma parede da estalagem, o que mais alicerçou a ideia de longe exótica origem, onde se comem crudas las carnes e se bebe viva la sangre.
Durante dez dias, espalhada a notícia, foram chegando viajantes. E foi já em Bristol, nos escritórios de Mr. Worral, que Manuel Enes, nascido em 1785, marinheiro português, ribatejano, pai de Vale Paraíso, mãe de Pontével, teve o engenho e a bem-aventurança de acabar com o sofrimento dela e a ignorância deles.
Manuel falou com ela. Os ingleses ouviram de ambos a bárbara fala, frases curtas, risos rápidos, a concordância gestual. No fim, o mistério teve um honesto desfecho. Ela, disse ele, era Caraboo, princesa da ilha de Javasu algures no Índico. Tinham-na raptado os pérfidos piratas da pérfida Albion. Após tormentosa viagem – e sê-lo-ia sempre por mais que os piratas se arrogassem o mais puro código cavalheiresco – à vista de terra que o Bristol Channel lhe concedia, furtando-se à vigilância dos perna de pau, lançara-se ao mar e nadara para terra.
O desembaraço da competente língua do português envergonhou a reclamada ductilidade das papilas gustativas da grega (não me digam que já se tinham esquecido da criada?!). Enes foi cumulado de prendas e jantares supinos. E partiu.
A princesa viveu então dias de glória. Tudo lhe era permitido: danças exóticas, banhar-se nua no lago. Começou mesmo a escrever na sua língua nativa. Mr. Worral mandou essas delícias textuais para análise em Oxford. Não demorou, para encanto de todos, que a resposta chegasse confirmando-se ser “humbug” a língua escrita por Caraboo.
Humbug, my ass, e façam o favor de se catar em Oxford: dias depois, já a Princesa se convertera numa figura nacional, tudo se descobriu. Uma senhora de Bristol reconheceu em Caraboo a jovem que alojara há pouco tempo e que tinha o hábito de falar às suas filhas com uma linguagem inventada. Um divertido mariolas veio também dizer que numa estalagem próxima comera com Caraboo um tenro bife regado a rum. Caraboo era, de facto, Mary Wilcocks, nascida de família pobre em Witheridge, Devon.
Os Worral, Mr e Mrs, mais a criada grega, caíram-lhes os parentes na lama, uma venenosa humilhação a enlamear-lhes a fímbria dos helénicos mantos.
Mais do que contar os prodigiosos feitos que se seguiram e que precederam esta história infame, há um mistério a elucidar: quem era Manuel Enes, como é que apareceu nesta história, porque raio deu ele crédito e combustível a Mary que, crê-se, nunca vira mais nova? Mais do que procurar vantagens, ter-se-á Manuel animado com o insólito da situação, a doçura do fingimento e do embuste? Terá regressado ao Ribatejo ou partido definitivamente para as Índias, essa terra que o poeta disse “mãe de vilões ruins e madrasta de homens honrados”? Se morreu, o que provavelmente fez há mais de século e meio, nem as Juntas de Freguesia, nem as igrejas de Vale Paraíso ou Pontével lhe guardam certidões desse tão certo óbito.





















































