Arquivo da
História Particular da Infâmia


A Princesa Caraboo
História Particular
da Infâmia

Julgo que das colinas de Almondsbury não se chega a ver o mar. Mas foi do mar que ela chegou. Tão vestida como os resquícios de Inverno ainda exigiam, tão despida como o doce augúrio de Primavera autorizava. O que a vestia e o que a despia tinha a estranheza da “peregrina formosura” de um soneto camoniano. “Vem de longe, talvez deva ir para longe”, foi o que pensou, bem acima do seu chinelo, o sapateiro inglês que primeiro a viu.
Corria o século XIX, o temperado ano de 1817, e um mês antes vozes iradas e pernambucanas tinham-se levantado, do outro lado do Atlântico, contra o execrável domínio português. Se era português, uma algaraviada moura, ou papua o que donzela falava foi o que pareceu indecifrável ao plácido remendão. Chamou a mulher e entregou-lhe aqueles aparentes, descalços e visivelmente opulentos 20 anos, oscilando entre a mendicidade e a realeza.
Mas triste continuava quem de longe quis ventura: a mulher percebeu, da outra e estranha, o que o marido já percebera, o mesmo exacto nada. Foram juntos e entregaram-na às autoridades, mais precisamente ao Overseer of the Poor, cargo que, na sequência das Guerras Napoleónicas, fora criado para punir, mais do que prevenir (ó meu triste e incompreendido Foucault!), a deambulante pobreza e vagabundagem.
Só que para a autoridade do pobre Mr. Hill, o único habitante de todo o condado de Gloucestshire a usar lunetas, e tanto subindo-as como deixando-as deslizar até à ponta do nariz, era menos do que chinês o que aos ouvidos lhe chegava da boca da nervosa e terrivelmente fatigada rapariga. Uma bela e definida boca, informe-se, contrastando no seu naturalismo com o artifício do turbante escuro em que se recolhia o cabelo negro e espesso da jovem.

Lembrou-se a pequena e agitada multidão, entretanto junta, que não só Mr. Worral (proprietário da mansão que encimava a aldeia, como alguém que graciosamente se põe em bicos de pés para corroborar uma esquecida hierarquia) – não só, dizia, Mr. Worral era um magistrado competente, como era casado com Mrs. Worral, americana viajada e que tinha, como dama de companhia, uma descendente de Safo. A criada grega, como plebeia e invejosamente a tratavam, falava várias línguas. Entregaram, por isso, a moça desnuda à prova do poliglotismo da grega. Do latinório levado da breca que se seguiu resultou mais esquiva, enleada e abismada perplexidade. Sei eu o que se passou? Sabe a mediterrânica Eugénia de Vasconcellos, sabe o açoriano Pedro Norton? Digo-vos: nem o cearense Ruy Vasconcelos.
Mr. Worral, da escura desconfiança, depressa passou ao claro e vulcânico lume da esperança. Quis ver-lhe as mãos, as palmas, as unhas, falanges, falanginhas e falangetas, as polpas que imprimem. Tinha-as, palmas, nódulos e polpas, macias como as de uma, do canto nono, ninfa. É-me simpática a ligeira secura em que se afogou por segundos a garganta curta de Mr. Worral.
A aldeia tomou conta da misteriosa e incomunicada jovem. Por gestos dela e gestos deles foram desbravando o desconcerto que era o mundo que por acidente os juntara. Ela. Só comia vegetais, só bebia água e chá. Não parecia saber a função de uma cama, mas rezava, de joelhos, uma mão sobre os olhos durante a ininteligível oração. A que deuses? Será que a demónios? Pensavam eles.

Os Worrall, e em particular o pigarreante Mr. Worral, ferviam de curiosidade: donde vinha e quem era aquela mulher exótica com traços tão europeus? Ao fim de dez dias, tirando esse vem não sei como e aquele dói não sei porquê que a todos nos faz irmãos, só tinham uma palavra em comum – “ananás”. Gritara-a a jovem, dedo em riste, apontando para o desenho de um que ilustrava uma parede da estalagem, o que mais alicerçou a ideia de longe exótica origem, onde se comem crudas las carnes e se bebe viva la sangre.
Durante dez dias, espalhada a notícia, foram chegando viajantes. E foi já em Bristol, nos escritórios de Mr. Worral, que Manuel Enes, nascido em 1785, marinheiro português, ribatejano, pai de Vale Paraíso, mãe de Pontével, teve o engenho e a bem-aventurança de acabar com o sofrimento dela e a ignorância deles.
Manuel falou com ela. Os ingleses ouviram de ambos a bárbara fala, frases curtas, risos rápidos, a concordância gestual. No fim, o mistério teve um honesto desfecho. Ela, disse ele, era Caraboo, princesa da ilha de Javasu algures no Índico. Tinham-na raptado os pérfidos piratas da pérfida Albion. Após tormentosa viagem – e sê-lo-ia sempre por mais que os piratas se arrogassem o mais puro código cavalheiresco – à vista de terra que o Bristol Channel lhe concedia, furtando-se à vigilância dos perna de pau, lançara-se ao mar e nadara para terra.
O desembaraço da competente língua do português envergonhou a reclamada ductilidade das papilas gustativas da grega (não me digam que já se tinham esquecido da criada?!). Enes foi cumulado de prendas e jantares supinos. E partiu.

A princesa viveu então dias de glória. Tudo lhe era permitido: danças exóticas, banhar-se nua no lago. Começou mesmo a escrever na sua língua nativa. Mr. Worral mandou essas delícias textuais para análise em Oxford. Não demorou, para encanto de todos, que a resposta chegasse confirmando-se ser “humbug” a língua escrita por Caraboo.
Humbug, my ass, e façam o favor de se catar em Oxford: dias depois, já a Princesa se convertera numa figura nacional, tudo se descobriu. Uma senhora de Bristol reconheceu em Caraboo a jovem que alojara há pouco tempo e que tinha o hábito de falar às suas filhas com uma linguagem inventada. Um divertido mariolas veio também dizer que numa estalagem próxima comera com Caraboo um tenro bife regado a rum. Caraboo era, de facto, Mary Wilcocks, nascida de família pobre em Witheridge, Devon.
Os Worral, Mr e Mrs, mais a criada grega, caíram-lhes os parentes na lama, uma venenosa humilhação a enlamear-lhes a fímbria dos helénicos mantos.

Mais do que contar os prodigiosos feitos que se seguiram e que precederam esta história infame, há um mistério a elucidar: quem era Manuel Enes, como é que apareceu nesta história, porque raio deu ele crédito e combustível a Mary que, crê-se, nunca vira mais nova? Mais do que procurar vantagens, ter-se-á Manuel animado com o insólito da situação, a doçura do fingimento e do embuste? Terá regressado ao Ribatejo ou partido definitivamente para as Índias, essa terra que o poeta disse “mãe de vilões ruins e madrasta de homens honrados”?  Se morreu, o que provavelmente fez há mais de século e meio, nem as Juntas de Freguesia, nem as igrejas de Vale Paraíso ou Pontével lhe guardam certidões desse tão certo óbito.

Louis Herbert Mayall
História Particular
da Infâmia

LHM, à direita, sem gravata

_
Chamemos-lhe coincidência. Foi em 1986 e o hasard juntou-nos na recepção da Guest House da UCLA. Era a primeira vez dos dois na cidade e protegemo-nos da imensidão de Los Angeles jantando juntos. Eu vinha por Francis Coppola a preparar ciclo e catálogo que faria um ano depois, na Cinemateca e na Gulbenkian; ela da Alemanha para uma investigação sobre o Shubert Theatre da Century City. Abancámos no entretanto extinto Alice’s de Westwood e foi assim que soube de Louis Herbert Mayall. Para Kristin, a coisa começara como um hobby revitalizador das rotinas de bibliotecária, mas baralhava agora a sua organização germânica como obsidiante pesquisa alternativa.
Louis Herbert Mayall fora, contou-me Kristin, um pensador e escritor maldito. Nascido em 1880, no seio de família abastada de Indiana, Mayall teve educação requintada e rebelde. Um comportamento heterodoxo para os padrões sociais e morais da época acabou por determinar a sua expulsão da Universidade de Indiana. Graduou-se na Columbia University, em Filosofia, tendo sido aluno de John Dewey, de quem ficou discípulo e amigo para quase toda a vida.
Ao contrário de Dewey, Louis H. Mayall não tinha vocação pedagógica e era, de natureza, um assistemático. De novo ao contrário de Dewey, a quem, de universidade em universidade, as origens humildes moldaram uma carreira persistente e ascendente, Mayall reunia os meios sumptuários que lhe permitiam cultivar as flores do mal num périplo físico e mental de negligente hedonismo.
Com inteligência de excepção, Louis era dotado de uma capacidade de escrita fulgurante e mimética. Em 1934, Dewey publicou “Art as Experience”. Um mês depois, Mayall veio em segredo a casa do filósofo e entregou a Roberta, a segunda mulher, um manuscrito de 15 páginas, combinando com ela que fosse ocultada a origem do misterioso ensaio. (Louis, ça va de soi, tinha uma certa maneira com as mulheres: ao contrário de outros homens, ganhava-lhes tanto mais confiança quanto mais era fidelíssimo amigo dos maridos.) Nesse curto texto, postumamente titulado “Art: Misery and Solitude” Mayall, num estilo petulo-diletante, nega a ideia de experiência e partilha social da arte sustentada por Dewey e fulmina-lhe a função teleológica de celebração de vida e civilização. De raspão, Philip N. Zeltner, no seu “John Dewey’s Aesthetic Philosophy”, desvela o episódio, o conluio de um vago discípulo com Roberta, e a surpresa, primeiro irritada, depois bem humorada, do professor.
Só que Louis Herbert era camaleónico e um mês depois, desta vez através do Professor A. C. Barnes que patrocinara a escrita da obra, põe nas mãos de Dewey um ensaio de “irónica perversidade” reflexo das “ironic perversities” que o próprio Dewey invocava na primeira linha do primeiro capítulo (The Live Creature) de “Art as Experience”. Em tantas páginas quanto os dedos de uma mão, Mayall devasta a tese do seu professor, segundo a qual a compreensão do sentido da obra de arte exige uma espera que passa pelo esquecimento da obra e um posterior regresso à mesma, um “we must arrive at the theory of art by means of a detour”.
Dewey não gostou da crítica e escavou na areia da praça a este segundo ferro. E pior ficou quando soube que a autoria dos dois textos era do seu diletante discípulo. Parece que, porque não há forma de o confirmar. A proximidade temporal e a cultura biográfica da época barraram qualquer referência ao caso: um biógrafo de 1939, Sidney Hook, omite-o em “John Dewey, an Intellectual Portrait”. E desenganem-se os que esperavam um mundo mais transparente e informado com o triunfo do feminismo: omite-o também, em 2001, Charlene Haddock Seigfried, no “Feminist Interpretations of Dewey”.
Preciso de fazer breve a história que já vai longa. Até aqui, quase tudo foi o que me contou a alemã acidental que comigo partilhou um jantar e não voltei a ver. Nas minhas escassas e ocasionais buscas posteriores, nada me assegura que Dewey não tenha perdoado Mayall. Roberta e o Dr. Barnes terão sabido aplacar a filosófica indignação desencadeada pela elegante displicência de um discípulo niilista. Mas Louis Herbert Mayall foi mais longe. Amigo de filósofos, foi também íntimo de escritores, em particular de Hemingway e Fitzgerald. Mayall descobriu Hemingway quando, em 1930, leu na Fortune um artigo dele: “Bullfighting, sport and industry”. Nos Hemingway Papers, consta um postal de Mayall, de 1931, felicitando o escritor pelo nascimento do terceiro filho, Gregory Hancock Hemingway, com uma citação de Whitman: “… the delicious singing of the mother.”
O entusiasmo de Mayall não teve limites quando, em viagem por África, soube da presença de Ernest nas caçadas que dariam origem a “Nas Verdes Colinas de África”. Louis estava na África do Sul envolvido em negócios de marfim. Arranjou maneira de chegar ao Tanganica e juntou-se, por uma semana, ao grupo. Outra extraordinária coincidência é haver duas raras fotos de Mayall (que junto) e ambas serem dessa sua viagem. Na foto de grupo, Hemingway está à direita, ao lado dele Percival, o caçador que o acompanhava, encoberto pelo torcido corno está Louis H. Mayall, e à esquerda Karl o fellow hunter de Percival.

_

Do entusiasmo de Mayall não há o mais insignificante ou subtil eco na obra de Hemingway. A biografia “hugely exasperanting” de Carlos Baker não tem sinais de Mayall, nem a contabilidade hostil de JeffreyMeyers se lhe refere. E é preciso muito boa vontade para, nas sombras que Michael Reynold convoca no seu “Hemingway: The1930s”, se vislumbrar a silhueta de Louis Herbert.
A que se deve o apagamento? No seu estilo diletante, Mayall , em 1935, terá feito chegar ao escritor e à Scribner’s Magazine um verde texto sobre as colinas de África com ecos das notas que Hemingway, com viril confiança, lhe mostrara no Tanganica. E, mimético, fê-lo quando a revista se preparava para publicar em folhetins o que depois seria o livro de Hemingway. O escândalo do escritor e dos editores da revista chamuscou Mayall, cujo texto nunca foi, obviamente, publicado. Mas está na UCLA, e foi essa a razão clandestina que trouxe Kristin a Los Angeles estudar uma cadeia de teatros cuja origem e lenda está na Broadway.
A irreverência de Louis H. Mayall parece-me despida de má fé. Não lhe subjaz nenhuma ideia de plágio, nem qualquer tentativa de aproveitamento, material ou intelectual, que seria estranha à sua forma hedónica de encarar a vida intelectual. Porquê, então, terem enterrado o seu nome nas profundas do inferno?
A chave do esquecimento não é a heterodoxia do intelectual ou mesmo a agitada vida sexual, que envolveu pelo menos três abafadas histórias de adultérios, uma das quais com a mulher de outro escritor famoso.
A chave do esquecimento foi a 2ª Guerra, a WWII. Amigo do influente historiador Charles Austin Beard, Mayall apoiou-o numa convicta e militante oposição ao envolvimento dos EUA na Guerra. Beard e Mayall, antigos apoiantes do New Deal, eriçaram-se contra Roosevelt e mostraram-lhe todos os bigodes que (não) tinham. Defenderam à outrance o isolacionismo da grande nação americana. Mas a big band da História abafou-lhes o solo lírico e cada um deles pagou duramente a dissensão.
Beard tinha uma obra e uma carreira. Foi vencido. A graça e a aceitação de Mayall sustentavam-se no seu risonho descompromisso que desgraçou ao anunciar-se como profeta. Foi apagado.
Louis Herbert Mayall morreu a 27 de Julho de 1953. Em Honolulu. Nunca publicou.

Bonnie Parker
História Particular
da Infâmia

Quando a conheci, já ela tinha morrido há 60 anos. Conheci Bonnie Parker em 1994, numa festa, na mansão de um big shot do cinema e da televisão, em Beverly Hills. Num sábado de Maio, sol da Califórnia, duas bandas de jazz, vastos relvados e as mesas debaixo de toldos protectores, como na festa do crisma do filho de Michael Corleone, no Godfather part II.

Bonnie Parker morreu em 1934, a 23 de Maio, no mesmo dia, coincidência, em que morreu Clyde Barrow. Para mim, Bonnie terá sempre 24 anos, e agora que, em 1994, eu ali estava a falar com ela, era com os 24 anos dela que eu falava.

Se não estou a mentir, e talvez não esteja, estou pelo menos a confundir. Talvez, nesse dia de Maio, eu tenha conhecido Faye Dunaway e nos 53 anos dela só tenha visto os 24 de Bonnie Parker. Faye, apesar de ser a fabulosa actriz de Thomas Crown Affair, Little Big Man, do superlativo Chinatown, ou desse mediano Network que lhe deu um Oscar, há-de sempre ser a Bonnie do nervoso, moderno-romântico Bonnie and Clyde, de Arthur Penn.  Eu olhava e nos 53 anos de Faye Duanawy só via os 24 de Bonnie Parker. 24 anos fora– da-lei, sim, bem sei: mas quando a lei é, como naqueles tempo de crash e depressão, uma lei da selva, quem é que, por decência, pode ser outra coisa se não um fora-da-lei?

Era uma mansão nas colinas de Beverly Hills, eu a querer falar com Bonnie e respondia-me Faye. Eu a querer falar do Texas, Missouri, Lousiana e Faye a responder-me com o Algarve. Eu a querer sangue, perigo, um tiro à queima-roupa e ela “a minha casa de férias”.

Pensei: Bonnie podia ter sobrevivido. Podia estar aqui. Bonnie era uma rapariga inteligente, a melhor aluna do liceu dela, quase tão bonita como a Faye Dunaway. Escrevia poemas, olha, quase como a Eugénia:

As long as I’ve stayed on this “island,“
And heard “confidence tales” from each “gal,“
Only one seemed interesting and truthful —
The story of “Suicide Sal.”

Ou, num estilo mais pungente:

If a policeman is killed in Dallas,
And they have no clue or guide;
If they can’t find a fiend,
They just wipe their slate clean
And hang it on Bonnie and Clyde.

Some day they’ll go down together;
They’ll bury them side by side;
To few it’ll be grief–
To the law a relief–
But it’s death for Bonnie and Clyde.

Bonnie tinha essa consciência da sombra da morte, uma solidão que um casamento aos 16 anos não preencheu, um anel de noivado que, mesmo depois de ter conhecido Clyde, conservou até ao dia da emboscada fatal. Um desejo escapista: fazer cinema, esse cinema que há tão pouco tempo tinha começado a falar, a ser de palavras, música e sons.

A polícia cercou-os, sem saber quem cercava, em Joplin, Missouri. Fugiram claro, rompendo a tiro a barreira, um sheriff morto outro gravemente ferido. Os polícias sobreviventes encontraram vários rolos de filme não revelado. O talento de Bonnie era evidente. As fotos foram publicadas. Acenderam-se as luzes da ribalta e os jornais renderam-se a uma iconografia subversiva e romântica.

Quando finalmente, e depois de dois anos de assaltos, 7 raptos, e 14 mortes, algumas a sangue-frio, Bonnie e Clyde foram emboscados e abatidos, com mais de 130 tiros que deixaram o carro num passador e os corpos deles com perto de 50 buracos, a sua fama tinha conquistado a nação americana.

Vinte mil pessoas assistiram ao funeral de Bonnie em Dallas. A conversar com os 53 anos de Faye, vi neles o alívio que nesse dia terão sentido os 24 jovens anos de Bonnie. Cúmplice de todos os assaltos, dos infames raptos e dos cobardes assassinatos, é provável que o seu maior sonho fosse, afinal, ser a actriz que foi nas fotografias de Joplin, as fotografias que lhe conferiram tão terrível notoriedade e que nunca a mão dela tenha disparado um tiro. E agora me lembro de ver uma ligeira tremura na mão magra de Faye Dunaway.

 

Al Capone
História Particular
da Infâmia

Entrou em Alcatraz em Agosto de 1934. O director da prisão não voltou a ter sossego. Choviam os telefonemas e as visitas. Al Capone era para a Imprensa e para o grande público o que ontem foi um Beckham e hoje é uma Lady Gaga.

Tem pergaminhos o Príncipe Charles ou a Madonna? Assim os tinha Al Capone. Na prisão federal de Atalanta para onde, a 4 de Maio de 1932, primeiro foi conduzido, na sequência de minudências fiscais cuja emergência se terá devido a notória inveja social, foi-lhe reconhecido um estatuto e o direito a uma identidade. Cultural, diria.

A alcatifa na cela, o majestoso rádio em que ouvia os seriados que antepassaram os nossos televisivos Dr. House ou C.S.I., a cama de água que, invento eu, lhe afagava uma embrionária hérnia, não eram mordomias ilícitas mas apenas a legítima defesa de uma reputação.

Há quem nasça sem vocação. Falo por mim que ainda busco, sombrio, a minha, depois de me terem dito que não ter nenhuma me conferia inapelável desclassificação cívica, filosófica e psicanalítica. Mas eu não nasci em Brooklyn onde as vocações são pré-púberes. Nasceu Al Capone que, imberbe em cima e imberbe em baixo, já geria um negócio de favores femininos. Foi, julgo, o mais jovem CEO do Four Deuces, um nocturníssimo clube de Chicago, cidade para onde se mudou aos 20 anos.

Por vezes em ambiente hostil, e rodeado da mesma ou maior incompreensão que pode nos nossos tempos cercar um primeiro-ministro ou um comissário europeu, Capone teve talento para desenvolver um invulgar e diversificado curriculum profissional. As indústrias do lazer (numa lógica que menos de um século depois gerou as actuais indústrias culturais) foram do seu particularíssimo apreço. As áreas das bebidas espirituosas e desse escape e entretém social que é o jogo mereceram-lhe a maior atenção, depressa se convertendo numa figura de referência, cujo management de excelência obteve reconhecimento universal.

Apesar da exigência e do foco profissional que jamais descurou, Capone não se eximiu à transparência de uma vida pública de grande exposição que lhe granjeou até enorme popularidade. Contou muito a bonomia do seu aspecto: olhos vivos, luminosos, a boca carnuda e risonha, mas também a devota entrega a projectos de responsabilidade social faz dele, como consta de relatos da época, um Robin Hood da Chicago dos anos 20, sempre pronto a patrocinar programas de assistência aos mais carenciados, programas que um olhar mais aquilino nota estarem nimbados da premonitória ideia de rendimento mínimo garantido que campearia em décadas vindouras. É, ainda assim, exagerada a sociológica leitura hagiográfica que tende a aproximá-lo da Madre Teresa de Calcutá. Peca, esse paralelismo, pela menor atenção concedida a contrastantes cambiantes geográficos e a metodologias que a utilização de certos aspectos físicos e tecnológicos tão ruidosamente distingue.

Outro lado sensível era o do seu romantismo. Ainda hoje, passe embora a inconsciência das origens dessa tradição, o cortejo de multidões que em todo o mundo acorrem aos shopping malls no dia de São Valentim, deve tudo às indeléveis marcas com que Al Capone, numa iniciativa que quis modesta e reservada, imortalizou (se é que me autorizam o qualificativo) aquele dia em 1929.

O seu empreendedorismo dinâmico, a sua heterodoxia empresarial, a fácil relação com o povo eleitor, desencadearam a rivalidade dos políticos, num tempo em que as parcerias público-privadas ainda não tinham, porventura, condições económicas para germinar. Foi usada contra ele a injusta e desproporcionada arma fiscal. Perdeu essa primeira batalha.

Perderia a segunda quando, em Alcatraz, o sistema prisional o obrigou a escassez monacal e a quase trabalhos forçados, numa brutal regressão face às progressivas ideias de reinserção social que a cela de Atalanta, na foto abaixo, tão bem comprova.

Com este escorço biográfico presta-se singela homenagem a um homem que não seria perfeito, mas a que só o sarro do preconceito e a insuficiência das ciências sociais, ignorando-lhe a dimensão benemérita, obriga a enterrar neste talhão de particular infâmia.  

 

A duquesa, o homem sem cabeça e o colar de pérolas
História Particular
da Infâmia

Protagonizou um longo e escandaloso divórcio, cujos lurid details causaram um frenesim mediático sem precedentes na Londres dos sixties e por um triz não fizeram cair o governo conservador de Harold Macmillan. 

 Margaret enganou o marido. De forma reiterada e muito pouco discreta. Imprudente, anotava nos seus diários os affaires que ao longo de vários anos foi tendo. Pior, guardava entre os seus mais prezados recuerdos uma extraordinária colecção de fotos Polaroid. As imagens, captadas na sumptuosa casa de banho art deco do seu apartamento de Mayfair, mostravam-na dressed in nothing but three strands of pearls, performing o que o juiz do divórcio qualificou como disgusting sexual activities num homem de quem pouco mais se vê que o torso. Outras havia de um homem sozinho, engaged em lewd practices, também ele shown from the neck down. Estas últimas fotos exibiam ainda salacious comments, a si dirigidos, manuscritos em jeito de dedicatória.  

Que fique, contudo, bem claro que nada disto, só por si, justifica a minha decisão de trazer Margaret Campbell, the Duchess of Argyll, para este infame recanto do nosso cemitério e de aqui a enterrar.

O motivo principal é outro — bem outro e bem mais prosaico. Pérolas. Um colar de pérolas. Um belíssimo e bem-comportado colar de pérolas de três voltas que, por culpa de Margaret, passou a ser símbolo de decadence and debauchery. Numa verdadeira traição a todas as mulheres – nas quais eu me incluo — que desde que o mundo é mundo gostam muito de pérolas e confiam na sua luminosa e límpida beleza para realçar encantos e para exprimir feminilidade e sedução. 

Ethel Margaret Whigham nasceu em 1912, filha única de um milionário escocês. Viveu e estudou em Nova Iorque, onde o seu pai tinha negócios. De regresso a Londres, e como era costume na época, foi apresentada em sociedade mal completou 18 anos. Foi imediato e duradouro o sucesso: a sua beleza e a sua fortuna fizeram dela a debutante of the year de 1930, a sua elegância e a sua exuberante personalidade tornaram-na figura central da social scene de então. Seguiram-se um sem número de pretendentes e de romances, o noivado, anunciado e logo desfeito, com um aristicrata inglês, o casamento com um jogador de golf americano, o divórcio deste e mais um sem número de pretendentes e de romances. Até que em 1951 casou com Ian Douglas Campbell, the 11th Duke of Argyll.  

Um match made in heaven para Margaret – ela própria o reconheceu mais tarde:  “I had wealth, I had good looks. As a young woman I had been constantly photographed, written about, flattered, admired, included in the Ten Best-Dressed Women in the World list. I had become a duchess and mistress of an historic castle. Life was apparently roses all the way”. Só que Margaret não fora feita para a sombria pacatez das scottish highlands, pelo que depressa rumou a Londres, deixando marido e castelo para trás.

O escândalo rebentou em 1959, quando o Duke of Argyll propôs uma acção de divórcio contra Margaret. Como prova das suas acusações de adultério — concretizadas numa extensa e variada lista de 88 supostos amantes, a qual incluía dois ministros, vários actores de Hollywood e três membros da família real -, o marido queixoso apresentou em tribunal os diários de Margaret e as referidas fotos Polaroid, obtidos numa busca ao seu boudoir, levada a cabo pela sua enteada.   

Foi tremendo o escândalo, explosivas as revelações e acusações de parte a parte e desmedida a curiosidade quanto àquele a quem o juiz se referia no processo como the Man Without a Head e que a imprensa da época crismou também como the Headless Lover. Dos vários candidatos apontados, dois havia que se perfilavam como altamente prováveis: o político Duncan Sandys e o actor Douglas Fairbanks Jr., ambos casados, to make matters worse.

Porque Duncan Sandys, além de genro de Winston Churchill, era então Minister of Defence e porque — poor timing indeed, o de Lord Argyll – o julgamento deste infamous divorce coincidiu com os depoimentos na House of Commons e a subsequente demissão de John Profumo, Secretary of State for the War, que se desgraçara também por sexual indiscretions, foi pedido ao magistrado que conduzira o inquérito a este caso que averiguasse quem era the Man Without a Head. O relatório final da investigação ilibou Duncan Sandys, mas foi em tudo o mais inconclusivo — ou seja, nada adiantou quanto à identidade do Headless Lover, que ficou por desvendar durante décadas.

 Sabe-se hoje que o misterioso Headless Man não era um — mas dois. Justamente os dois de que mais insistentemente se falava: Douglas Fairbanks, “apanhado” à época por um exame grafológico (a sua caligrafia correspondia à das “dedicatórias” apostas nas lewd photos) e Duncan Sandys, subtilmente denunciado mais tarde pela própria Margaret que, pouco antes de morrer, confidenciou a um amigo que “the only Polaroid camera in the country at this time had been lent to the Ministry of Defence.

Quanto a Margaret, nunca houve a menor dúvida. Era ela, só podia ser ela. Porque era sua a casa de banho onde haviam sido tiradas as fotos. E por causa do colar. Que distintamente se via nas sexually explicit images e que era a sua signature jewel, indissociável da sua exquisitely elegant imagem que enchia as society pages e as gossip columns, onde tinha lugar cativo. Nunca saberemos porque não o tirou on that occasion: the reason why is left entirely to our imagination. Igualmente não o fez, continuando a apresentar-se, impeccable and defiant in three strands of pearls, durante as audiências de julgamento do divórcio e mesmo depois de a sentença que lhe pôs termo a ter publicamente exposto como a completely promiscuous woman, one who has ceased to be satisfied with normal sexual activities. Tinha estilo e tinha nerve, quite a nerve, há que reconhecer.

Mas que bem podia ter deixado as pérolas fora disto, podia.  

Percy Bysse Shelley
História Particular
da Infâmia

Julgo que ainda tenho o velho livrinho de capa verde publicado pela velha Guimarães. Era A Defesa da Poesia e deve estar sublinhado linha a linha que eu, naquele tempo, lia com as mãos por não me chegarem os olhos.

Trazer Percy Bysse Shelley para este recanto do cemitério que, embora opulento, lúbrico, lúdico e cheio das mais fascinantes devassidões, não deixa de, por infame, ter estigma, é quase uma ofensa ao Romantismo a que o poeta serviu de estandarte e à poesia dele, revolucionária, de uma sensualidade inocente e livre.
Shelley quando morreu não teria mais de 50 leitores. Em vida, fará a 25 de Março 200 anos, fora expulso de Oxford à conta de um apologético panfleto do ateísmo, embora me pareça credível a hipótese de que os vetustos reitores mais do que com as cócegas ao divino se tenham sobretudo encanitado com a diatribe do Poetical Essay on the Existing State of Things que mandava a monarquia * ir viver para debaixo de uma ponte ou de um vão de escada.

Será infame um tipo com 50 leitores ter conquistado uma imortalidade que nunca em vida saboreou? Será infame ter o poeta, em vez de realisticamente se laurear, mordido a mão e cuspido o anel do seu monarca?
Aos 19 anos, Shelley casou com uma menina de 16. Mas inclinava-se a deambulações heterodoxas que, sem o impedirem de engravidar o liso ventre, o afastavam mais regularmente do que o aproximavam da doçura do lar. É com os 19 anos da mulher bem grávidos que, definitivamente, abandona o leito conjugal para viajar pela Europa com Mary Wollstonecraft e com a meia-irmã dela, Claire, dando lenda, bom nome e angélica roupagem ao torpe francesismo ménage à trois. A mulher, Harriett, suicidar-se-ia nas águas prosaicas e frias do lago do Hyde Park, perante o olhar parvo e intrigado dos nocturnos patos do Serpentine.
Já casado com Mary, Shelley repetiu com ela e com a meia-irmã o périplo europeu, com Itália como destino principal. Em Nápoles a heterodoxia conjugal de Shelley obteve a forma de registo notarial: há uma cédula que assinala o nascimento da sua filha Elena. A mãe, li em fonte insegura, é uma misteriosa Marina Padurin, nome apócrifo que tanto pode esconder a maternidade de Claire como a de uma ama que os acompanhava.
Shelley, tantos foram os seus amores – os que teve com outras mulheres e os que instou as mulheres dele a terem com os seus amigos – tinha um ódio: os gatos. Odiava-os tanto que, prova definitiva da sua infâmia, atou um ao papagaio que lançou numa noite de tempestade, na esperança de que um raio o electrocutasse. Ironia bizarra, Charles, seu filho da primeira mulher morreria apanhado por um raio, quatro anos depois do passamento de Shelley.
Foi no mar, afogado, que Shelley morreu. Nas águas, as mesmas ou outras, em que se suicidara a primeira mulher. Quase 30 anos depois, morreu Mary que dele conservara as cinzas e, inteiro, num lenço de seda o coração.

Por infame que o seu trangresssivo e espontâneo clinamen nos pareça, a poesia de Shelley foi e é sublime: Adonais é “a elegia” (inspirou-o a morte de Keats) e Prometheus Unbound uma torrente de puro lirismo. Na Defence of Poetry é o vigoroso campeão de um mundo novo fundado por poetas (“Os poetas são os legisladores não reconhecidos do mundo” é a última e sintomática frase desse vibrante ensaio).
Já sabem como entendo, e tanto aprecio, a infâmia: acho que percebo porque trouxe Shelley para este vivo e caótico recanto.

*  E cito:
Man must assert his native rights, must say
We take from Monarchs’ hand the granted sway;
Oppressive law no more shall power retain,
Peace, love, and concord, once shall rule again,
And heal the anguish of a suffering world;
Then, then shall things which now   
                                                          confusedly hurled, 
Seem Chaos, be resolved to order’s sway,
And error’s night be turned to virtue’s day –

Donald Crowhurst
História Particular
da Infâmia

Foi a primeira coisa que vi na manhã de 1 de Janeiro de 2011. O mar, obstinado, na praia de Sagres. Quando me virei para terra, na direcção da ligeira colina onde se ergue Vila do Bispo, a outra invisível água que paira no ar desenhava a bom traço um curto arco-íris. Atrás de mim, a metros da linha de costa, uma dezena de centauros negros pregava-se às ondas, à espera de uma que viesse irregular, arrogante, ofensiva, para lhe cavalgar a curva, a crista, a espuma jubilatória e obscena. Quantas horas ali ficam, enfiados num fato de borracha negra? Uma vida? Nascem ali e, se lá voltarmos, dias depois, para o ano, ali estão, os mesmos, flutuando nas mesmas ondas, à espera, à procura do mesmo prazer, montar a mesma onda, sobre ela menos de um minuto, fundir-se depois engolido no seu abraço de água e vento.
Terá sido essa, igual paixão, de eterna espera e glória efémera, que arrastou Donald Crowhurst para uma infame, marítima aventura, em 1968, quando em terra, em toda a terra, a humanidade vivia convulsões utópicas e sonhos de sous les pavés la plage?

A história de Crowhurst, pequeno industrial inglês, casado e pai de quatro filhos, velejador amador, já foi glosada, em tom épicos ou elegíacos por cineastas (2 filmes, fora a desistência de Nicholas Roeg), por dramaturgos, poetas e músicos. Inspirou uma ópera.
Sem imaginar o que estava a desencadear, começou-a o Sunday Times. Ao longo de 1967, o jornal fartara-se de vender relatando o périplo solitário de Francis Chichester que dera a volta ao mundo, tripulando o seu veleiro. Era a primeira vez que um homem, um só homem, errava meses pelos oceanos, repetindo a viagem de Magalhães. A chegada foi apoteótica. Tumulto popular em Plymouth; em Buckingham Palace a Rainha fez dele cavaleiro, Sir Francis. E o Sunday Times, na semana seguinte, ficou sem assunto.
Os directores do jornal decidiram então lançar o desafio de uma regata que repetisse o feito de Chichester, mas com uma exigência suplementar. Os competidores, ao contrário de Sir Francis, que fizera uma paragem em Sidney, não podiam tocar em terra durante toda a viagem: era uma volta ao mundo non-stop. A partida teria lugar, conforme opção de cada concorrente, entre 1 de Junho e 31 de Outubro desse lendário 1968 e haveria dois prémios: para o primeiro que completasse a viagem e, principal prémio pecuniário, para o que fizesse a viagem mais rápida.
Inscreveram-se 8 profissionais reputados. Os de costume: ingleses, franceses, um italiano. A surpresa foi Donald Crowhurst, desconhecido, obscuro engenheiro electrónico, proprietário de uma pequena empresa em crise. Era o competidor romântico que logo apaixonou os leitores do Sunday Times. E um milionário que decidiu patrociná-lo. Com uma condição: se Crowhurst desistisse, teria de pagar o investimento com a execução da hipoteca da sua empresa.

Crowhurst apostou num trimarã veloz a que deu o nome de guerra “The Teignmouth Electron”. E, quase no final do prazo, partiu com preparativos tão românticos e mal amanhados como a sua candidatura. O Atlântico Norte foi-lhe madrasta terrível. Castigou-o, atrasou-o e mostrou-lhe a vulnerabilidade do trimarã. Instável, se se virasse já não haveria hipótese de o fazer voltar a uma posição normal: era naufrágio garantido quando chegasse aos mares do sul.
Mas Crowhurst tinha apostado tudo na aventura para ganhar notoriedade, salvar o seu negócio periclitante e projectar o futuro da família. Desistir estava fora de causa: o terrível multimilionário desfaria a sua vida, nem a sua empresa ficaria de pé.
Continuou e disse a primeira mentira no dia em que forneceu pela rádio – o seu único contacto com o mundo e com os mentores da corrida – coordenadas de um percurso que imediatamente lhe deu o record de distância percorrida num só dia.
As mentiras são como as cerejas. Donald Crowhurst sabia que o “The Teignmouth Electron” seria desfeito por um oceano cruel e implacável. Faltavam-lhe também equipamentos vitais que a partida apressada não lhe permitira reunir. Tinha de percorrer o Índico e o Pacífico e voltar a subir aquele Atlântico que agora descia. Tomou uma decisão: para quê navegar duas vezes as mesmas águas, sobretudo quando se sabe que essa é uma impossibilidade heraclitiana. A solução era simples: fingir que navegava. Crowhurst nunca terá lido Pessoa, mas o seu projecto teria agradado ao autor da Ode Marítima. Viajar sem sair do porto. O inglês procurou um local recôndito na costa brasileira e ali ficou por meses. Todos os dias ou todas as noites dava pela rádio as coordenadas, mas cada vez com mais interferências e insólitos ruídos que ele mesmo, engenheiro electrónico, forjava, até avisar de que ia ficar sem rádio e durante meses não comunicaria.

Três meses depois, Crowhurst, que continuava a acompanhar todas as incidências da regata no afinadíssimo rádio, voltou a entrar em contacto. Primeiro a partir, Robin Knox Johnston ganhara a regata com um tempo pavoroso, mas o francês Bernard Moitessier e o britânico Nigel Tetley já tinham reentrado no Atlântico a caminho de casa, com tempos profissionalíssimos. Todos os restantes tinham desistido. Crowhurst deu, por isso, sinal de vida. Anunciou que estava atrás dos outros, como convinha ao seu plano simples. Queria chegar em último para que o júri não esmiuçasse o diário de bordo que laboriosamente escrevera em terra, inventando uma viagem completa, com coordenadas falsas, descrições de condições atmosféricas com dados que recolhera como pudera e pormenores anedóticos para fornecer à escroquerie um manto de credibilidade.
De repente, eis senão quando de repente, tocado por salgada misantropia, o francês anuncia que não regressará a terra: o mar chama-o, vai voltar para o Pacífico, competições e prémios parecem-lhe ridículas vaidades humanas.
Crowhurst está agora em segundo E é esse o lugar que reza por conservar. Assusta-se e manda cautelosas coordenadas. O suficiente para que o Sunday Times e o cidadão comum lhe cantem a audácia. O necessário para que Nigel Tetley mantenha o sentimento de vitória e o coração ao alto. Mas Crowhurst não contou com o exacerbado espírito competitivo de Tetley. O seu compatriota quer ganhar sem margem para dúvida, força o veleiro ao máximo e parte o barco a 30 de Maio de 1969.
Cruel ironia, Crowhurst está agora sozinho no meio do Atlântico e a vitória para a viagem mais rápida é inescapável. Inglaterra espera-o como Atenas ao seu melhor herói. Crowhurst sabe, no entanto, a infame mentira que arquitectou e antecipa o sabor do opróbrio. Ao longo de poucos dias escreve e delira, delira e escreve. Descobre-se filósofo ou um outro Pessoa: Deus e o cosmo, a natureza humana e a sua salvação impregnam as 25 mil palavras que deixou escritas. Descobre-se, ele mesmo, o Filho de Deus: “I have become a second generation cosmic being, I am conceived in the womb of nature, in my own mind… In the womb of the universe.“
E depois, outra vez o silêncio. A 10 de Junho, um navio, o Picard, encontra o veleiro de Crowhurst à deriva. Dele nenhum sinal de vida. Apenas o diário verdadeiro de bordo, nem sequer o falso que Crowhurst terá levado consigo no mergulho para o pacífico fundo do mar.

Como os centauros de Sagres, Donald Crowhurst montou a onda, sentiu glória e angústia efémeras, e deixou-se ir, depois, engolido no seu abraço de água e vento.

François Villon
História Particular
da Infâmia

François Villon (1431−1463)

De François Villon, poeta francês do século XV, quase nada se sabe. Nascido enquanto a cleresia supliciava Joana d’Arc, sem adivinhar que assim permitiria que no século XX o dinamarquês Carl Th Dreyer filmasse em exacerbados grandes-planos a tortura da fêmea e da sua santidade, Villon foi orfão de pai, e alguém, que foi mais do que um pai para ele, enfiou-o na Faculté des Arts de Paris com o objectivo salutar de o converter num clérigo – expliquem-me, se puderem, o que é alguém ser mais do que um pai para nós, a não ser que seja a mãe, a ver se eu percebo.

Só que, quando ao que parece Villon estava certeira e conformadamente a encarreirar no consolo da vida académica, o rei, le roi Charles VII, sabe-se lá se com o FMI à perna, fechou a faculdade. A Villon, deu-lhe para a boémia e no meio dela matou um padre. A razão: saias. Não exactamente as do padre Phillipe, abatido ao activo, e muito menos as putativas, que seriam de Villon, se Villon tivesse feito o que aquele que foi mais do que seu pai queria. A causa, outras saias, irrelevantes para o curso da Grande História, saias que irritantemente nunca levantaremos, mas cuja fresca intimidade o jovem François e o ardiloso Phillipe terão partilhado por turnos que, nalgum momento, foram indesejavelmente coincidentes.

A amante de Charles VII foi a modelo de Fouquet nesta Madona contemporânea de Villon

Villon, em fuga e de lábio rachado, tinha 24 anos, estava no que à época seria metade da esperança de vida, mas o perdão era então mais fácil do que hoje o indulto presidencial. O rei perdoou-lhe no mesmo ano em que se reabilitava a heróica Joana, e no mesmo ano em que os navegadores portugueses (que por certo Villon olimpicamente ignorava) chegavam ao Golfo da Guiné, o que hoje os seguidores de Pablo Escobar e doutro pessoal boliviano, só por ignorância não agradecem. Era Natal de 1456, e Villon, perdoado e regressado a Paris, assaltou o Collège de Navarre – com ajudas ou sendo ele uma delas – roubando um cofre recheado de ouro, o que lhe assegurou fatídico futuro de crime e infâmia.

Do primeiro crime até à sua eventual morte (se é que algum dia morreu e não se limitou a desaparecer para garantir a eternidade), medidos em lenta ampulheta, escorreram oito anos. Oito anos que a lenda preenche com um sortido variado de roubos e violência culminando na sua prisão e condenação à morte por enforcamento. Estes 8 anos horribilis, de 1455 a 1463, foram os anos que fizeram de François Villon, começando na “Ballade des Contre-Véritès” e quase terminando justamente na “Ballade des Pendus”, o glorioso, maior e mais fulgurante poeta desse final de Idade Média que já não conseguia esconder o quanto esperava que um Rinascimento lhe chegasse da mediterrânica Itália.

Num tempo de penúria e de epidemias em que os livros começavam a ser impressos em tipografia, o fugitivo Villon escreveu alguns dos poemas mais comoventes que a literatura de todos os tempos nos deu a ler. Tomara Rimbaud. Digo eu, que li Villon no fim dos meus exaltados 20 anos, um mês antes dos 21, quando, Angola a ferro e fogo, comprei na livraria ABC de Luanda – que então atendia no telefone 25343 – um minúsculo exemplar de 80 páginas com as “Poésies Choisies”, editado nos “Classiques Larousse”. E que capa tão bonita de simples.

Nos poemas de Villon, encontramo-nos com o esplendor do humano: o crime, a dissolução moral, um humor que roça negra sordidez, uma angustiada e poética consciência do transitório e efémero da vida, do seu sentido, do seu destino. E, sobre ou debaixo de tudo, les femmes

Senhor, às damas mais maganas
O prémio deveria dar, feliz.
Por mais que valham Italianas
– Para a boca, só de Paris

as femmes de Villon, “ma demoiselle au nez tortu”, ou essas “dames du temps jadis” (“Dictes moy où, n’en quel pays, / Est Flora la belle Rommaine…”) que me ensinaram saudade dos amores do passado quando de amor mal sabia o presente: “mais où sont les neiges d’antan”. Ou ainda, e dessa maneira de que fiquei fiel devoto: “corps féminin, qui tant est tendre / Poli, soeuf et précieux”.

 Prometeram-lhe a morte na forca. Villon escreveu, nesse momento, um dos mais angustiantes epitáfios que as línguas europeias registam. Por piedade comutaram-lhe a pena e, logo a seguir libertaram-no. De Villon, criminoso, infame e poeta, nada mais se soube. Terá, 31, 32 anos, morrido nessa altura. Estes versos ficaram, imortais:

 

Balada dos Enforcados ou Epitáfio Para Si Mesmo

Irmãos humanos que ao redor viveis,
Não nos olheis com duro coração,
Pois se aos pobres de nós absolveis
Também a vós Deus vos dará perdão.
Aqui nos vedes presos, cinco, seis:
Quanto era cara viva que comia
Foi devorado e em pouco apodrecia.
Ficamos, cinza e pó, os ossos, sós.
Que de nossa aflição ninguém se ria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

Se dizemos irmãos, vós não deveis
Sentir desprezo, embora condenados
Tenhamos sido em vida. Bem sabeis:
Nem todos têm os sentidos sentados.
Desculpai-nos, que já estamos gelados,
Perante o filho da Virgem Maria.
Que seu favor não nos falte um só dia
Para livrar-nos do inimigo atroz.
Estamos mortos: que ninguém sorria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

A chuva nos lavou e nos desfez
E o sol nos fez negros e ressecados,
Corvos furaram nossos olhos e eis–
Nos de pêlos e cílios despojados,
Paralíticos, nunca mais parados,
Pra cá, pra lá, como o vento varia,
Ao seu talante, sem cessar, levados,
Mais bicados do que um dedal. A vós
Não ofertamos nossa confraria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

Meu príncipe Jesus, que a tudo vês,
Não nos entregues à soberania
Do Inferno, que só ouvimos tua voz.
Homens, aqui não cabe zombaria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

tradução Augusto de Campos

Os três impostores
História Particular
da Infâmia

Photo by Hank Walker, 1958

Há uma obra medieval quimérica, “De Tribus Impostoribus”. Moisés, Cristo e Maomé são os três impostores que o título anuncia. O livro não existe, tendo-lhe sido atribuídas as mais variadas autorias. Como diz Jorge Luis Borges, mais do que nas suas inexistentes páginas, o perigo (ou a virtude) estava nos nomes com que o revestiam. O que me trouxe à lembrança estas três histórias.  

Ben W. Jones
Ben W. Jones ganhara o coração do director das prisões do Texas e as mentes dos presos com que trabalhava. Em Huston, em 1955, vira o anúncio oferecendo um posto nas prisões do Estado. Apresentou-se, recheado de credenciais. Não só ganhou o lugar como provou estar acima dos objectivos. Não geria apenas rotinas. Criou um sistema de aulas e de práticas desportivas que levaram o Director Estadual das Prisões, O. B. Ellis, a convidá-lo para um lugar feroz, Huntsville, onde se amontoavam facínoras que as próprias mães tinham gosto em não voltar a ver.
Fiel aos métodos, Ben W. Jones começou com as aulas, passou ao desporto e acabou a mimar e adoçar aquelas almas empedernidas com a projecção de filmes, convertendo-os, por certo, em cine-clubistas militantes.
Teria sido a glória de Ben W. Jones se, exagerando, um dos presos não fosse também leitor dos atrasados números de 1952 da famosa e ilustrada “Life Magazine”. Em menos de um fósforo, passou-se da fotografia que o condenado viu e do artigo lido a uma reunião de emergência e cara agoniada dos mais altos cargos da estrutura prisional. No fim, Ben W. Jones estava perdido e, tempo de fazer as malas, despedido e com guia de marcha.

Martin Godgart
North Haven não é a mais cosmopolita terra do mundo. Plantada no aconchego da baía de Penobscot, na costa do Maine, abrigava, em 1957, uma comunidade feliz, mais feliz ainda desde que Martin Godgart assumira as funções de professor de inglês, latim e francês.
Admirado como professor e estimado pelas boas maneiras, o “lovable professor” aninhara-se, definitivo, no coração da comunidade quando, sob o nome de Santa Claus, abriu uma caixa postal para receber os tradicionais desejos e “greetings”, a que respondeu com prosa nada tradicional, mas de uma elegância comovente e calorosa (“… dir-se-ia um autor na linha É Tudo Gente Morta”, confessaram-me depois em North Haven), enviando presentes aos mais pobres. Numa manhã que anunciava alegrias primaveris, a polícia estadual irrompeu em North Haven. Quando uma hora depois partiram, para espanto dos gentis habitantes, levavam com eles a figura simpaticamente arredondada de Mr. Godgart, cujas irrepreensíveis credenciais o sotaque de Harvard tão bem confirmava.

Joseph Cyr
A mãe de Joseph Cyr talvez pudesse limpar uma orgulhosa lágrima ao ver o nome do seu filho, cirurgião, estampado como herói no jornal desse dia outonal de 1951.
A bordo do HMCS Cayuga, um destroyer canadiano em operações na guerra da Coreia, Cyr tinha operado, de urgência e em pleno deck, três coreanos, um dos quais com uma bala alojada junto ao coração, e tinha-os salvo.
Joseph Cyr apresentara as suas credenciais médicas à Royal Canadian Navy. As necessidades eram muito e, numa antecipação do simplex socrático, fechou-se num dia o processo de admissão de habituais dois meses.
Primeiro embarcado no HMCS Stadacona (e juro não ter sido nenhum dos autores do “Gente Morta” a baptizá-lo assim) onde provou a eficácia dos seus testes psico-físicos com o pessoal, o doutor acabou transferido para o Cayuga. Mal chegado, teve de extrair um dente cariado ao comandante, o que fez com generosa dose de anestésico e a contento da autoridade máxima. Ficaram amigos. Discreto embora, o doutor Joseph Cyr era admirado por todos. Dava grande margem de manobra à equipa no tratamento dos ferimentos ligeiros, usava com liberalidade a penicilina quando algo mais complicado surgia. Não era por ele que HMCS Cayuga não navegaria, imperial, ao longo da costa asiática.
É verdade: descia aos seus dignos aposentos e fechava-se, angustiados minutos, antes das intervenções mais sangrentas. Assim fora com a cárie almirante, assim foi com o estado grave dos guerrilheiros coreanos. A tripulação via no acto, uma imperiosa necessidade de concentração.
Com rigor canadiano, dois repórteres de guerra, nos respectivos jornais, contaram tudo isto que ouviram, a “open deck surgery” a que assistiram e, uma semana depois, a visita do cirurgião aos seus pacientes, em franca recuperação em terra.
A mãe de Joseph Cyr leu impressionada os artigos épicos. Joseph Cyr era seu filho, era cirurgião e estava há mais de um ano num hospital de Grand Falls, New Brunswick, o que um urgente telefonema confirmou. Quando James Plomer, comandante do Cayuga, recebeu a notícia, deitou o telegrama para o lixo, recusando acreditar na intriga. No dia seguinte, a cadeia de comando impôs-se. O admirado Dr. Cyr seguiu, preso, no cruzador britânico RMS Ceylon.

Os três impostores
Ben W. Jones, Martin Godgart e Joseph Cyr convergem os três na figura simpática e gorda, mas não excessivamente gorda, de Ferdinand Waldo Demara, que tinha como Fernando Pessoa a vocação da heteronímia, fingindo deveras o que na verdade sentia. Fazia, através da pura fruição da impostura, o que Pessoa fazia em verso ou desassossegada prosa.
Na sua “aventura maior”, Demara furtara as credenciais do verdadeiro Dr. Cyr, que conhecera em Grand Falls quando fazia noviciado num mosteiro local. Não tinha estudos médicos, a menos que ser pouco mais do que varredor num hospital americano durante poucas semanas sirva de curriculum. Demara confiou na penicilina, na juventude e boa aptidão física dos seus pacientes e numa extraordinária capacidade de memorização visual, que era o que o levava a descer ao seu camarote para ler em velocidade os manuais médicos de que se munira para a aventura. Depois valeu-lhe a audácia e uma divina dose de sorte.
A sua vida é um rosário infindável de “personae”. Nasceu em 1921, foi várias vezes monge (uma delas trapista, outra beneditino), psicólogo, engenheiro civil, adjunto de xerife, advogado, editor, desaparecido em combate, suicida com sucesso, investigador do cancro. Tudo isto forjou, tudo fez com mil nomes e credenciais irrepreensíveis que conseguia misteriosa ou habilmente obter.
Milagrosamente, nunca prejudicou ninguém a não ser a si mesmo quando, com uma pontinha de vaidade, aceitou ser figura do artigo da “Life” que tornaria mais arriscadas e efémeras as suas “vidas” posteriores.
Todos os directores, comandantes, reitores a que enganou juraram que o voltariam a contratar de novo, de tanto terem apreciado os seus serviços. No site do Korea Veterans Association of Canada contam, e eu acredito, que os homens do HMCS Cayuga lhe mandaram um gigantesco cartão de natal com a fotografia do navio e o poema “Loyalty”, de Berton Bratley, sublinhando este verso:
He may be six kinds of a liar, but I love him, Because he is my friend.
Foi imortalizado no filme “The Great Imposter” (fez dele Tony Curtis), e na canção “Ferdinand, the imposter”, de The Band.
Impostor, foi as outras pessoas todas que quis ser, o que nunca conseguiu foi ser ele-mesmo. Não tinha jeito.

EU! – Porque matei Bento XVI
História Particular
da Infâmia

Sei bem que não é minha competência matar hoje ninguém – e que para mais ecoam ainda nos ares puros deste cemitério os forçosamente fortes cabeçalhos do recente passamento de Deus e respectivo enterro.
Mas acontece que tive precisamente hoje uma epifania televisiva relativa a um pequeno conflito interior que me tem atazanado o ego desde que o cardeal Ratzinger foi eleito papa.
A questão é simples: o papa foi eleito com o nome de Benedict XVI mas por cá sempre o conhecemos, porque sempre assim nos foi apresentado, como Bento XVI. Como o assunto era de ego (o meu segundo nome é exactamente Benedito, o mesmo com que a nossa querida Turmalina carinhosamente me trata) nunca aprofundei a questão – talvez por achar que iria fazer uma certa figura de parvo.
Na verdade sempre achei que o erro – porque se trata de um – não passava de latinisse simplista, espécie de preguiça medterrânica que tudo haveria de desculpar.
No entanto hoje, só hoje, percebi que esta singularidade era mesmo singular, exclusivamente lusófona. Porque no noticiário da tarde dei comigo, pasmado, a ver um grupinho de jovens espanholas em Santiago de Compostela a entoar cânticos de boas-vindas ao papa Benedicto XVI! (ainda cheguei a assinar assim, com ‘c’…)
Ora isto já requeria investigação – até porque sei perfeitamente que S. Bento e S. Benedito são santos distintos e distantes entre si cerca de mil anos.
Como não sabia por onde começar – nem tenho à mão o número directo do Núncio Apostólico (uma falha enorme, eu sei!) – apostei no Google a pergunta directa e em cru: «Bento XVI ou Benedito XVI»?…
E o que eu fiquei a saber, mon Dieu!…
Um horror, quase uma infâmia. E por isso me mascarei de Povo Português, pai da lusofonia e mãe de todos os disparates e formalismos informais que se produzem dentro do chamado quadro legal – seja o que for que isto quer dizer neste contexto preciso — e pintei a cara de preto.
Na verdade desconheço se o assunto foi ou não discutido no nosso país, por quem e em que moldes. Já no Brasil o assunto mereceu acesa discussão depois da primeira confusão.
Eis o que apanhei ao acaso.
Diz Hélio Consolaro, professor de português, cronista e presidente da Academia Açaratubense de Letras, no seu site Por Trás das Letras:

Surgiu uma confusão. No primeiro momento, ouviu-se pela tevê que o papa seria chamado de Benedito e depois passou a ser Bento. Essa confusão na tradução aconteceu apenas no Brasil. Qual é o motivo? Houve até gente que levantou suspeita de racismo, pois São Benedito é negro e motivo de piadas, e São Bento é branco.
“Bento” é particípio irregular do verbo benzer, veio do latim de “benedictus,a,um”. Já “Bendito”, particípio passado de “benedicère”. E “benzido” é particípio regular do mesmo verbo.
Bendito que significa louvado, abençoado, consagrado também do latim e tem a mesma origem de bento: “benedictus,a,um”. E daí vem também o nome Benedito, o bem dito, por isso tivemos 15 papas Benedetto.
São Bento e São Benedito foram dois santos diferentes. O primeiro é o protetor das pestes, mordeduras de víboras e lacraias, sendo o segundo o padroeiro dos negros no Brasil. São Benedito também é referenciado como protetor dos escravos e ainda dos pequenos acionistas.
A Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros (CNBB) é que adotou Bento como a tradução oficial de Benedictum. Embora sejam coisas diferentes (Benedictum = bem dito, bendito e não exatamente abençoado, que é Bento), todos os dicionários de nomes em latim apontam “Benedictum” como sinônimo de Bento.
A verdade é que desde o “Benedictum I”, que foi papa lá no princípio e sempre seu nome foi traduzido para Bento no Brasil. Se houve algum preconceito racial na tradução, aconteceu lá atrás, quando não se queria que o papa tivesse nome de padroeiro de escravos.
A revista “Isto É” escreveu que na tradução para o português, Benedictus ganhou duas formas: Bento e Benedito. E foi ouvir o professor de Latim da PUC-SP Jarbas Nascimento que afirmou: “O novo papa é chamado de Bento XVI por um motivo óbvio: não existe nenhum papa Benedito e existe um Bento XV. Todos os papas Benedictus vieram para nós como Bento”.

(http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/sub.php?op=polemica/docs/papabentobenedito)

Em nova chamada, desta vez assinada no seu site pela escritora e historiadora brasileira Urda Alice Klueger, apanho este rechonchudo e apetecível naco:

Vejamos: eu liguei a televisão bem na horinha em que começou a sair uma primeira fumacinha lá na chaminé da capela Sistina, e logo a fumaça ela ficou branca! Era hora do Jornal “Hoje”, e a expressão “Habemus Papa” passou a estar na boca de todos, seguida da grande curiosidade: “Quem é, quem é?” Havia sido escolhido o alemão Joseph Ratzinger, e isto é assunto para que outra discussão! O que nos interessa, neste momento, é que quando se soube quem era o Papa, ele já havia escolhido seu nome de Papa, e o Jornal Hoje já estava devidamente calçado com a presença de um teólogo da USP, que dava explicações. Soube-se que o nome que o Papa escolhera significava “Abençoado”, e o teólogo foi taxativo: tanto em italiano, quanto em português, “Abençoado” significava “Benedito”, ou “Bento”. Então não havia dúvidas: Habemus Papa Benedito!
Por uns 30 minutos, no Brasil, tivemos o Papa Benedito XVI. O Jornal Hoje se estendia sem pressa com o teólogo da USP, quando de repente, uma meia hora depois, o nome do Papa passou para Bento. Eu cá estranhei: aquilo tinha cheiro de racismo! Lembrei-me de São Benedito, santo preto muito popular no Brasil, padroeiro das gentes negras – será que uma coisa não estava tendo a ver com a outra? Passei uma mensagem para uma amiga antropóloga na Alemanha, contando o que acontecia, e ela me respondeu: “Aqui ele é Benedikt. Eu acho que é racismo, sim!” Expus o caso para minha faxineira que viera nesse dia. Ela foi taxativa: “Bento fica melhor, tu não estás vendo? Benedito é nome di nego!”. Eram opiniões de áreas extremas. Telefonei para minha mãe e expus o caso – ela achava melhor não mexer com tais coisas. Então, só restava esperar.
E esperei.
Nas horas seguintes, nos dias seguintes, fui vendo que a exclusividade do nome Bento pertencia ao Brasil (e agora descobri que a Portugal também). Na língua espanhola o papa é Benedicto; na língua alemã é Benedikt – na verdade, não pesquisei em muitos países, pois já conheço um bocado este Brasil onde “Benedito é nome di nego”, e posso entender este racismo que assola a minha gente, sob a capa de uma democracia étnica.
E Portugal, bem … se um dia fomos no embalo de Portugal, penso que hoje Portugal muito nos copia – basta ver o gosto dos portugueses pelas nossas novelas!
Taí o que queria falar. Se “Abençoado”, no Brasil, quer dizer Bento, e não Benedito, acho que São Benedito e nossos irmãos negros têm muito a ver com a coisa. Se na nossa língua não se aceita ter um Papa Benedito, eu acho que tem a ver com o mais descarado racismo, sim. Gilberto Freire que me perdoe, mas a tal democracia étnica está fazendo água.

(http://urdaklueger.blogspot.com/)

É evidente que depois disto tudo só me restava matar Bento XVI.

Já está.

Teúda e Manteúda, a outra legítima
História Particular
da Infâmia

TEÚDA E MANTEÚDA

(1 de Julho de 1867 — 3 de Novembro de 1910)

 Amante. Amásia. Concubina. Manceba. A outra. Mas não qualquer outra. Teúda e manteúda, porque de casa posta, sustentada pelo seu casado benfeitor, o qual provia a todas as suas necessidades materiais, a troco da sua constante e plena disponibilidade e da exclusividade dos seus favores.  

A teúda e manteúda fazia parte do modelo social da época. Reflectia a prosperidade e alimentava a vaidade daquele que a tomava e mantinha, permitindo-lhe exibir ao círculo em que se movia a sua virilidade e o seu domínio dos ways of the world. E, não faltava quem o sustentasse, seria também o sustentáculo de muitos casamentos, ajustados e mantidos por conveniências várias, da continuidade de nomes e títulos, à consolidação de património, passando pelo mutuamente vantajoso intercâmbio de prestígio social e conexões relevantes por desafogo económico, assente em fortuna recente.    

Por tudo isto, mais que tolerada, era aceite. Pela sociedade, que nela não via, muito pelo contrário, uma ameaça à harmonia conjugal e à paz doméstica. Pela mulher casada, desde tenra idade instruída para ser boa esposa e mãe, logo bem ciente dos deveres que lhe cabia cumprir, se não com entusiasmo, ao menos com boa cara — e dos quais fazia parte o não tomar conhecimento de certas coisas. Porque o homem, já se sabe, tem necessidades.   

Sucede, porém, que entre nós se foi além, muito além, nesta matéria. E durante mais de 40 anos a teúda e manteúda beneficiou de um raro e extraordinário estatuto, que não só lhe reconhecia e banalizava a existência, como a legitimava, enquanto ocorrência normal na vida de um homem casado. Dentro de certos limites, impostos pela decência e pela razoabilidade, claro. Eu explico.

O nosso primeiro Código Civil, aprovado por Carta de Lei de D. Luís, de 1 de Julho de 1867, impunha a mulher e marido a obrigação de “guardar mutuamente fidelidade conjugal”, mas modelava o conteúdo desta bem ao sabor dos padrões vigentes. Donde, se permitia o divórcio perante o “adultério da mulher”, sem mais, exigia, para o mesmo efeito, sendo o homem a cometê-lo, além do propriamente dito adultério, que este envolvesse “escândalo público”, “completo desamparo da mulher” ou, pior, que se consumasse “com concubina teúda e manteúda no domicílio conjugal”*. O Código Penal de 1886 confirmava esta desigual valoração dos adultérios, punindo a mulher prevaricadora e o seu cúmplice com prisão “de dois a oito anos” enquanto aplicava ao “homem casado” que tivesse “manceba teúda e manteúda na casa conjugal” uma singela multa**.  

Da primeira destas esclarecedoras normas resultava, antes de mais, que fora dos casos nela descritos, em que o adultério marital ocorria em circunstâncias inaceitáveis, porque especialmente embaraçosas ou indignas, o mesmo era irrelevante. Ainda que decorresse de forma continuada, estável e organizada, com uma amante fixa e oficial. E resultava também a atribuição a esta de uma posição própria, como mulher de facto, com o seu espaço e os seus deveres bem definidos: desde que soubesse ser discreta e moderar as suas expectativas, i.e., manter-se no seu lugar, a teúda e manteúda gozava do beneplácito e da protecção da lei, enquanto amante legítima — tão legítima quanto a legitima esposa, cuja existência e papel social lhe cabia respeitar e em momento algum questionar ou cobiçar.

Mas porque não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe, este estado de graça da teúda e manteúda haveria de chegar ao fim.  

A Lei do Divórcio, elaborada nos primórdios do regime republicano, sob forte pressão das organizações feministas que, tendo contribuído para o triunfo da revolução, exigiam a adopção das mudanças por que haviam lutado, traçava um regime todo ele baseado na igualdade entre mulher e marido – quanto à designação daquele com quem ficariam os filhos, à partilha de responsabilidades com a sua educação e sustento, à prestação de alimentos entre ex-cônjuges e, inevitavelmente, quanto aos motivos do divórcio.   

A complacência do Código Civil novecentista em matéria de adultério masculino deu lugar à estrita aplicação ao marido do que valia já para a mulher. O elenco legal de causas de divórcio litigioso passou a referir, ao lado do “adultério da mulher”, o “adultério do marido” – sem contemplações, graduações ou nuances. No plano criminal, o adultério deste foi expressamente “igualado em carácter e gravidade ao da mulher” e como este punido com prisão***. Do adúltero e da sua cúmplice, claro.  

Estas novas regras tiveram um impacto tremendo na pacata e confortável existência que levava a teúda e mantéuda. Por via da triunfal preponderância nelas assumida pela mulher casada — doravante a única legítima parceira, não mais forçada a suportar a sua vexante concorrência – foi remetida à clandestinidade e desqualificada, numa degradante equiparação, dentro da torpe categoria das “outras”, às mulheres fáceis e promíscuas e às imorais mancebas de portas adentro. Porque não há duas sem três, passou a estar em risco de humilhação pública, como co-ré num divórcio litigioso ou, pior, e sendo essa a opção da esposa ultrajada, ser presa, como cúmplice de adultério criminoso, porque cometido “durante a vida dos cônjuges em commum”****.

Ou seja, de uma assentada passou de elemento estabilizador do casamento, a co-responsável pela ruína do mesmo. Derrotada em toda a linha, a teúda e manteúda não deixou, evidentemente de existir. Mas, porque o seu tempo passara, a sua vida mudou. Muito e para muito pior.

Foi a 3 de Novembro de 1910. Faz hoje 100 anos.


* Artigos 1184.º, § 1.º, e 1204.º, §§ 1.º e 2.º, respectivamente, do Código Civil de 1867.
** Artigos 401.º, § 1.º, e 404.º, § único, respectivamente.  
*** Artigos 4.º, §§ 1.º e 2.º, e 61.º, § 1.º, respectivamente, do Decreto com força de lei, de 3 de Novembro de 1910, o último dos quais alterou o Código Penal, reduzindo para dois anos o prazo máximo da pena de prisão aplicável.
**** Artigo 61.º, corpo e § 1.º, do Decreto com força de lei, de 3 de Novembro de 1910: tal como sucedia já no direito anterior, “o cônjuge offendido” teria “de optar pela acção criminal de adulterio ou pela civil de divórcio (…) com base em adulterio, não podendo cumulá-las em caso algum”.
Infâmia2
História Particular
da Infâmia

Sigmund Rascher

Sigmund Rascher foi um dos infâmes médicos Nazis. Médico das SS, usou os prisioneiros do campo de concentração de Dachau para as suas brutais experiências científicas, em particular para estudar os efeitos adversos a que os pilotos alemães eram submetidos, quando abatidos sobre o gelado mar do norte.

Neste aspecto, Rascher não foi nem mais, nem menos infâme que qualquer outro maníaco médico das SS, nomeadamente o famigerado Josef Mengele. E no entanto, quis trazê-lo aqui para esta nossa nova secção porque até mesmo os Nazis consideraram-no desprezível. Talvez as prioridades não fossem as mesmas que as nossas, mas fica a história.

Rascher deteve um considerável poder entre os seus pares e superiores pela sua proximidade ao Reichsführer SS Heinrich Himmler. Chegou a ele através de, ou devido a, uma relação com uma cantora de Munique, Karoline “Nini” Diehl, provavelmente uma antiga amante de Himmler. Este acabou por ver o casal com bons olhos, talvez por ainda ter afecto por Nini, e acolheu de forma positiva o entusiasmo com que Rascher se dedicava ao seu ofício. Himmler recebeu com interesse as propostas daquele tendo-lhe concedido autorização para realizar as experiências com cobaias humanas, depois de Rascher se ter queixado que era difícil encontrar voluntários (carta abaixo)

Carta a Himmler lamentando a ausência de cobaias humanas, não sem antes reiterar que também o seu segundo filho é forte.
Tradução, arquivo dos processos de Nuremberga

No entanto, o que Himmler não autorizava, era o casamento entre Rascher e Karoline, já que Karoline era quinze anos mais velhar que Rascher e isso não se enquadrava nos princípios raciais e de pureza a que as SS se submetiam. Uma família das SS havia de produzir os melhores exemplares arianos. E no entanto, o amor, mesmo nazi, tudo supera, pelo que passado algum tempo, o casal trouxe ao mundo um filho. Rascher não perdeu tempo em fazer do seu caso um exemplo e agora que tinha mostrado que não ficavam atrás de outros puros arianos mais novos, recebeu de Himmler a anuência para poderem contrair matrimónio.

A família exemplar, que serviu até para efeitos de propaganda, teve, entretanto, mais dois filhos e o casal gozava da maior admiração do Reichführer. Até que em 1944, chegou a Himmler uma notícia que havia de despedaçar a família. De facto as crianças não eram seus filhos biológicos; Karoline pagou para que as crianças fossem raptadas dos pais em estações de comboio de Munique. Himmler ficou furioso e mandou prender os dois, sendo que Rascher foi internado em Buchenwald e mais tarde, ironicamente, em Dachau. De lá não saíu, tendo sido executado pouco antes da chegada dos aliados. Karoline foi enforcada. E assim passou à história um facínora que nem os nazis conseguiram acolher na sua plenitude.

O fim de Constantinopla
História Particular
da Infâmia

Benjamin Constant, “A Entrada de Mehmed II em Constantinopla”, 1876

Na noite de de 28 de Maio de 1453, já quase meia noite, o Imperador Constantino XI Palaeologus subiu à torre que sobranceava a muralha de Blachernae. A seus pés, a escuridão fervilhava de ruídos e ao fundo pontilhavam as fogueiras do arraial turco. Dentro um par de horas começaria o assalto final.
Durante toda essa segunda feira, o povo de Constantinopla, milhares e milhares de pessoas, saíra à rua em procissão atrás das relíquias retiradas dos altares, enquanto os sinos da cidade tangiam incessantemente. Gregos e latinos, ou seja ortodoxos e católicos, uniram-se num Kyrie Eleison. O Imperador juntara-se à multidão, comungando e pedindo perdão se porventura lhe tivesse alguma vez faltado ao dever da caridade com alguém. Depois proclamou que um homem deve estar disposto a morrer pela fé, pela pátria, pela família ou pelo soberano. Tinha chegado a hora de morrer por estas quatro causas.
Ainda estava longe a alvorada do dia 29 quando se iniciou o ataque, com um clamor de gritos, tambores, trompetes e canhões. Os vigias no alto das igrejas junto à porta tocaram os sinos a rebate. Ao ouvi-los, toda a cidade ficou a saber que a batalha havia começado. Os homens acorreram aos seus postos e muitas mulheres apresentaram-se junto às muralhas com água, mantimentos e medicina. Os restantes fiéis congregaram-se nas igrejas, onde as suas preces redobraram de fervor.
Vagas e vagas do infindável exército do sultão Mehmed II fustigaram as muralhas. Exaustos pela falta de sono e pelo jejum, os defensores, cada vez com menos fulgor, mas sempre com gigantesca bravura, foram rechaçando os assaltantes. À primeira luz da madrugada o general Giovanni Giustiniani foi atingido por uma bala e caiu do cavalo. Por fim desanimado, não atendeu aos rogos do Imperador para que não abandonasse a posição, pedindo aos seus genoveses que o levassem do campo. Morreria dias depois na ilha de Chios.
Isolados entre a muralha externa, onde já arvoram os primeiros estandartes turcos, e de costas para a interna, os gregos ainda resistiram a mais uma carga. Mas as portas arrombadas e os muros rompidos, deixavam entrar o tropel otomano. Cercado numa densa tenaz de lanças e lâminas, Constantino despiu a púrpura imperial e acompanhado pelo seu primo Theophilus Palaeologus, pelo Conde de Branas, pelo castelhano Francisco de Toledo e pelos companheiros Katakouzinos, Mateus Sgouromalis e João Dalmatus, os sete, de espada em punho, mergulharam às cutiladas na multidão de janissários – nunca mais foram vistos.
Era agora em corrente que os turcos penetravam as ruas de Constantinopla. Se a vanguarda arremetia em passo seguro na direcção do Augusteum, a praça central onde se levantava a Hagia Sophia, já parte do corpo da tropa se dispersava no saque, arrombando as portas das casas maiores. Lá dentro, as famílias nobres esperavam a turba de arma em riste, sabendo que não mais conquistariam do que uma morte honrosa. Derrubada tão fraca resistência, tudo que não era pilhado era destruído e servas, senhoras, criadas, princesas, todas foram violadas no próprio lugar em que eram apanhadas, fosse laje, chão ou erva, sem distinção de classe ou sangue – após o que a maior parte era degolada. Lojas e armazéns eram devastados com minúcia. Nos conventos as freiras suicidavam-se em massa para que o infiel delas nada aproveitasse e os que se haviam refugiado nas igrejas apenas facilitaram o massacre colectivo. As calçadas de Constantinopla ficaram tintas de sangue – literalmente.
A massa do exército otomano convergiu diante da grandiosa Hagia Sophia. Foi difícil arrombar as imponentes portas de bronze da catedral, barradas pelas centenas de cristãos que nela procuraram asilo e rezavam a última das missas que naquele lugar se celebraram durante mais de 1000 anos. Mas quando os batentes soçobraram, os turcos demoraram horas a passar uns a fio de espada e a escolher outros, sobretudo mulheres, para escravos. O ícone de Apóstolo Lucas, peça central da devoção bizantina foi despedaçado diante de todos.
Mehmed II entrou na cidade na tarde do primeiro dia da ocupação, ordenando à sua guarda pessoal que protegesse os edifícios administrativos. Chancelou a conquista entrando na Hagia Sophia a cavalo, proclamando, a partir desse momento, a conversão da catedral em mesquita. Antes de ordenar o fim da destruição e da mortandade o sultão pediu para si os jovens filhos do Duque Lucas Notaras. O pai recusou e Mehmed mandou decapitá-los. Notaras exigiu então que o supliciassem no fim para que tivesse a certeza de que os filhos não seriam pervertidos.
Foi assim que durante 3 dias se liquidou uma civilização.
A Europa, que a tudo isto assistiu impressionada mas de braços cruzados, nunca mais viu semelhante hecatombe ocorrer no seu reduto. Até hoje, pelo menos.

Elmyr de Hory
História Particular
da Infâmia

Foi um charlatão que é, como bem sabem, o nome que se dá a certos homens de talento. Elmyr iluminou o século XX, de 1906 a 1976. Para os convenientes efeitos de registo chamemos-lhe Elmyr de Hory. Um volátil De Hory que mudou até à exaustão da capacidade do alfabeto: Bory, Cory, Dory, até Zory, para já não falar de Dory-Boutin, Herzog, Hoffman ou Cassou. You name it! Em português: digam nomes!

Mas estou, já é costume, a contar mal a história até porque é difícil estabelecer-lhe a biografia e a investigação não é o meu forte. Nasceu na Hungria, em família aristocrática – e é mentira. O pai era embaixador austro-húngaro – e é mentira. A mãe descendente de consolidada linhagem de banqueiros – e é mentira. Tudo factos, tudo mentira.

Aos 18 anos estava em Munique a estudar Belas-Artes. Dois anos depois, em 1926, já está em Paris, onde foi aluno, muito bom, de Fernand Léger. Tudo factos, tudo verdades. Em Paris, converteu-se ao prazer da vida, da seda, do champagne, das festas, do grande estilo.

Os anos totalitários que precedem a guerra, apanham-no em Budapeste. Tem uma breve passagem pela prisão, por ligação a um espião britânico. Soltam-no, mas um ano depois os nazis espetam com ele num campo de concentração, acusando-o de judeu e homossexual. Sabe-se que não era judeu e sabe-se que era homossexual convicto e praticante. Foi espancado, mas o seu forte instinto de sobrevivência teve artes de engendrar a fuga de um hospital de Berlim. Desenhou, através do império nazi, uma fina linha de trapaças e subornos que o trouxe de volta a França.

Quando a Guerra acabou, o brilhante Elmyr tentou ganhar a vida com os quadros que pintava. Descobriu que mesmo que não morresse à fome, não vestiria casaca e não entraria no mundo de riqueza, volúpia e celebridade a que aspirava. Já se sabe: com a fome vem sempre uma grande vontade de comer e Elmyr descobriu que desenhava Picassos com uma facilidade cândida, infantil. Como há homens que nascem com uma mulher dentro deles e vice-versa, Elmyr descobriu que o seu corpo abrigava outro Picasso. Pelo menos no circuito que se estabelecia entre as suas mãos, os seus olhos e o seu cérebro.  

O primeiro Picasso vendeu-o a um amigo inglês que o tomou, para silenciosa surpresa de Elmyr, por um original. Há silêncios que desencadeiam vocações. Nesse dia de 1946, Elmyr deixou-se cair nos braços da fraude e da falsificação, num certo sentido, num mundo mágico de trickery e make-believe. Paris voltava a ter o seu Houdini. Primeiro os desenhos de Picasso, a que prontamente Elmyr acrescentou desenhos de Matisse, Modiglinani e Renoir.

Vendia-os porta a porta, galeria a galeria. Essa era a parte mais difícil. Elmyr tinha o seu orgulho e o acto de venda, a persuasão do seu interlocutor, era-lhe estranha. Muito mais tarde, já nos anos 50, entrou numa galeria de Los Angeles, abriu o portfolio e Frank Perls, o galerista, ficou abismado com os Picassos e Modiglianis. Tão abismado que desconfiou. Fechou a pasta atirou com ela a Elmyr, gritando-lhe que a porta da rua era a serventia da casa. Elmyr saiu engolindo a humilhação, mas já na rua voltou-se para Perls e perguntou-lhe: “Mas acha que os desenhos estão bem feitos?” E Perls sabia, soube logo, que aqueles desenhos eram obras-primas de falsificação.

Era um falsificador gentil. Não estava ali para enganar ninguém: queria que os seus Picassos e os seus Renoirs fossem amados. Esse amor era a primeira e mais importante remuneração. Acabou por organizar-se para potenciar o melhor de si. Entregou a terceiros a venda. Foi obviamente vítima de fraude. Todos os parceiros com que trabalhou – arduamente, entenda-se – o enganaram miseravelmente nas contas.

Elmyr teve a sua maior glória na década de 50. Viajou até aos Estados Unidos e era como se tivesse chegado ao paraíso. Tinha visto de 3 meses, ficou uma década. Dos desenhos passou aos óleos. Comprou livros (só queria um décimo da biblioteca de arte dele) e estudou estilos. A pouco e pouco alargou o seu portfolio: Vlaminck, Chagall, Toulouse-Lautrec, Dufy, Derain, Degas, Bonnard vieram juntar-se aos primeiros mestres. Não tenho a certeza, mas rezo para que nunca tenha falsificado um Léger. (Hei-de ser sempre um sentimental e tenho a certeza de que Elmyr também o era).

Vai sem dizer que Elmyr não era um copista. O que ele desenhava, o que pintava, eram novas obras desses mestres. Genuínas, inéditas. Geniais, como genial era o Matisse que vendeu ao ao Fogg Art Museum, na Universidade de Harvard. Os peritos viram e os peritos reconheceram-lhe a autenticidade. Compraram-no e, digo eu para envernizar mais esta história, expuseram-no.

E foi aqui que se torceu da que sabem o belo rabo. Mais tarde, novas peritagens descobriram a fraude. E outros coleccionadores – ó os texanos!!! * – descobriram que tinham sido tão suavemente comidos.

Os anos que se seguiram foram anos de fuga e clandestinidade. De luxo ainda, em Ibiza. Os anos em que, com alguma bondade, Elmyr, o charlatão tímido, permitiu, condescendente, que outro charlatão, Clifford Irving ( o escritor que tinha forjado uma biografia de Howard Hughes e por isso tinha sido preso) escrevesse a sua história. E que esse mago da manipulação chamado Orson Welles o fixassse para a eternidade, no filme F for Fake.

Informado de que o governo espanhol cedera ao pedido de extradição da França, o que o significaria acabar os seus anos na cadeia, a 1 de Dezembro de 1976, Elmyr tomou uma overdose de comprimidos e morreu nos braços de Mark Forgy, seu companheiro.

 *Algur H. Meadows, magnata texano do petróleo, descobriu que tinha a mais ampla, mas também a melhor colecção do mundo do falsificações de Degas, Bonnard, Matisses, Picassos e outros pintores menores. Com um sentido de humor mais negro do que o ouro que os tinha pago, Algur espumou de raiva e lançou todos os seus cães, do FBI à Interpol, em busca dos mágicos falsificadores.

Um Modigliani, claro

Rubi, o gigolô
História Particular
da Infâmia




Com Odile, já cinquentão


Não foi sem alguma angústia que me resolvi pela secção HPI para trabalhar este personagem. Na verdade, numa certa medida, tenho alguma admiração por este tipo de patifes – quiçá alguma inveja envergonhada. Além do mais, sobrevive ainda o prazer vaidoso de ter sido vagamente assediado pela sua última mulher – já viúva, claro, corriam céleres e trepidantes em Paris os meados de 70. 
Um facto houve na vida de Rubi que me decidiu de vez pelo tabernáculo dos infames. Porque num artigo do The New York Observer topei com algo que me indignou o suficiente: entre o seu terceiro e quarto casamento, numa das suas mais famosas investidas, pôs um olho negro a uma das poucas mulheres que se lhe negou: Zsa Zsa Gabor.

Ora isso é infame.

Rubi, ou Porfirio Rubirosa Ariza de seu nome de baptismo, foi o mais célebre playboy do pós-guerra. Tal como o seu confrade Alfonso Cabeza de Vaca y Leighton, marquês de Portago, Porfírio adorava carros – e tal como ele acabaria por morrer num.
Só que havia une toute petite différence entre os dois – aspecto este que acabaria por ser crucial na feitura do título que dei a esta micro-biografia: o gigolô. Porque enquanto Alfonso de Portago era um homem rico, que pagava as suas manias, já Rubi – embora filho de diplomata e muitíssimo bem-educado – não tinha cheta.
Nascido na República Dominicana, em San Francisco de Macorís, a 22 de janeiro de 1909, Rubirosa viveu 54 anos de esfusiante e predatória actividade sexual-financeira.
Começou, bem cedo, por não estudar. O que lhe interessava mesmo eram mulheres (e Montmartre era um íman), certos desportos, mais mulheres – quaisquer que fossem –, e dinheiro, de preferência muito. Por isso, cedo também aprendeu a negociar casamentos frutíferos – embora sem filhos.
A primeira a cair na esparrela chamava-se Flor Trujillo, tudo indica que por incitamento do seu próprio pai – o ditador Trujillo, a quem Rubi caíra no goto por artes desconhecidas.
Rapidamente se fez embaixador dominicano em Paris, onde num ápice se apoderou de Danielle Darieux – de tal maneira que depressa trocou de mulher. Consta que Trujillo não terá achado a maior das piadas ao acontecimento; no entanto, fosse por que artes fosse, Rubi continuou a ser o homem de mão do ditador dominicano nos vários palcos do glamour poderoso da Europa – onde, diz-se que se disse, chegou a ser espião.
O facto de Harold Robbins o ter imortalizado sob o nome de Dax na sua saga The Adventurers ajuda a mitificar tal possibilidade, como é óbvio.
Uma coisa é certa: havia sempre mulheres à mistura, de preferência ricas. Depois da Darieux e quando já tinha em mira a maluca da Gabor – que curiosamente lhe deu para trás sempre e por isso levou o tal murro da Infâmia –, Rubi apaixona-se em 1947 pela fortuna americana de Doris Duke, herdeira do império tabagista R. J. Reynolds. Já depois da pêra no olho da incorruptível Zsa Zsa, ataca uma das mais promissoras alianças sexo-financeiras de sempre (se não a maior), desposando (em 1953, tinha eu um ano, cruzes!) a igualmente americana e estupidamente rica Barbara Huttonmasterpiece esta que durou 75 dias e lhe rendeu um módico de 3,5 milhões de dólares (em 1953, mon Dieu!).
Que mais fez ele?!…
Bem, corridas de automóveis, equipas completas de pólo com caríssimos cavalos. E mulheres, claro. Muitas.
Há um pormenor sórdido que ajuda a explicar o sucesso de Rubi entre as mulheres. Para não ferir o dócil tímpano de criaturas mais frágeis citando, por exemplo, Truman Capote, direi apenas o que dele se dizia domesticamente: as empregadas mais afoitas denominavam o maior moinho de pimenta da casa de «Rubirosa»…
Ou seja, o tipo era quase um tripé!
Segue-se lista mais ou menos apócrifa: Dolores Del RíoMarilyn MonroeAva GardnerRita Hayworth, a ex-imperatriz Sora­ya EsfandiaryVeronica LakeKim NovakEva Perón (pudera, ele era quase um descamisado), Heartha Kitt
Estas e muitas outras mulheres ocuparam intensamente a década de Sessenta do atleta da noite que existia naquele que ficou conhecido para sempre como o último dos playboys – que terá já 49 anos quando a década termina (e eu oito!).
Lá pelo meio dá-lhe a bordoeja.
Já com pecúlio acumulado, decide em 1956 casar pela quinta vez. Só que desta vez a escolhida será a quase desconhecida actriz francesa Odile Lèonie Marie Josèphe Berard – que como fortuna possuía fundamentalmente uma carinha larocas de 17 aninhos e uma dose de loucura que emparelha à séria com a de Rubi.
De tal forma foi assim que nos primeiros anos dos Sixties o playboy cinquentenário permanecia já a maior parte do tempo na sua casa dos arredores de Paris, enquanto a jovem Odile Rodin (nome artístico) passava as noites a virar a cidade-luz de pernas para o ar. Literalmente.
Numa madrugada do Verão de 1965, depois duma celebração da vitória da sua equipa de pólo na Taça de França, Rubi cede ao excesso de copos da noite que cruzara e espeta-se com o seu Ferrari numa das muitas árvores que povoam ainda hoje o belo e frondoso Bois de Boulogne.
Odile tem então 28 anos e dirá que seria assim que Rubi preferiria morrer. Talvez.
Conheci-a por momentos, dez anos mais tarde, à saída do parisiense e ultra hedonista Privé. Fez-me negaças sorridentes e inequívoco convite. Ainda era muito bela.
Estranhamente – ou talvez não – não a acompanhei.

Elena e os Polímeros
História Particular
da Infâmia

Foi um destacado membro do Partido Comunista da Roménia – integrou o Comité Municipal de Bucareste (1968), o Comité Central (1972), o Comité Executivo (1973) e o respectivo Gabinete Permanente (1977) e presidiu à Comissão de Quadros do Partido e do Estado (1980). Foi também, enquanto vice-primeiro-ministro, a segunda figura na hierarquia do Estado romeno (1980−1989). E se é inquestionável que a sua ascensão a estes e a outros cargos decorreu essencialmente do facto de ser casada com o homem que por mais de três décadas dominou a Roménia, não o é menos que ao exercê-los revelou excepcional desenvoltura e invulgares atributos, concretizados em inúmeros feitos, dos quais uma ínfima parte bastaria para lhe garantir, de pleno direito (e dispensando a marital intercessão) um lugar neste sombrio recanto do nosso cemitério.

Sucede, porém, que não é por conta dessas negras e conhecidas proezas que trago aqui hoje Elena, mas de outras, que ainda hoje me causam fascínio. Um  absurdo, enviezado e inexplicável fascínio diante do que de grotesco, quase patético, tem o poder exercido de forma desmedida e desconectada da realidade.  

A queda do regime romeno, em 1989, tornou bem patente o abissal contraste entre a sua mirífica imagem, veiculada pela propaganda, e a sinistra realidade das várias atrocidades por si concebidas, ordenadas e cometidas. Um aspecto houve, contudo, que na torrente de dados sobre a vida de Elena me intrigou especialmente: o seu impecável e extenso curriculum académico e científico, o qual incluía um PhD em química de polímeros – com uma tese considerada, à época, um major breakthrough na área – cerca de 11 livros, 90 artigos em revistas científicas, romenas e estrangeiras, e mais de 30 patentes de invenção registadas em seu nome. Achievements próprios de uma vida dedicada ao estudo e à investigação, no resguardo de laboratórios, bibliotecas e gabinetes – e claramente inconciliáveis com uma tão intensa actividade pública como era a sua, entre os lugares políticos que acumulava e a omnipresença, ao lado do marido, enquanto “mãe da nação romena”. A explicação para tão improvável sobreposição de percursos surgiria pouco depois, através de sucessivas revelações que eu segui, num ávido e mórbido crescendo de horror e deleite.

Elena nasceu em 1919, no sul da Roménia, numa família modesta que, ainda assim, a conseguiu manter a estudar até aos catorze anos, altura em que decidiu abandonar a escola – com negativas a tudo, excepto a costura – e rumar a Bucareste. Aí trabalhou como assistente de um laboratório clandestino que produzia pastilhas para emagrecer e como operária têxtil. Nos anos cinquenta, já casada com Nicolae Ceausescu, inscreveu-se num curso nocturno de química, num instituto dedicado à instrução de adultos, a cujas aulas raramente comparecia e do qual foi expulsa por ter sido apanhada a copiar num exame. Inexiste qualquer prova de que tenha prosseguido os seus estudos ou completado uma licenciatura. E, no entanto, escassos anos depois, em 1960, doutorou-se summa cum laude, com uma monografia intitulada Stereospecific Polymerization of Isoprene on the Stabilization of Synthetic Rubbers and Copolymerization. Seguiram-se a nomeação para a presidência do ICECHIM, o principal laboratório de investigação química da Roménia (1965), a condecoração com a Ordem do Mérito Científico de 1ª Classe (1966), a Presidência do Conselho Nacional da Ciência e Teconologia, criado para si (1970), o ingresso na Academia Romena das Ciências (1974), a Presidência do Conselho Nacional da Cultura e Educação (1975). Tudo isto em estreito - e inequívoco - paralelo com a firme e imparável ascensão do seu marido no interior do Partido Comunista e à frente dos destinos da Roménia.

A mesma ganância que fez Imelda Marcos juntar uma obscena colecção de 3000 pares de sapatos terá, numa bem mais retorcida versão, levado Elena Ceausescu a acumular títulos e distinções e a construir um impressionante curriculum, recorrendo, para tanto, aos mais ínvios e tortuosos métodos. Se Evita quis ser lembrada pela sua generosidade e bondade para com os descamisados, Elena de tudo fez para criar e consolidar uma imagem de inteligência, competência e sabedoria que estava longe de possuir. 

Sabe-se hoje que se contava entre os seus planos receber um Nobel. Que as viagens oficiais do casal Ceausescu eram precedidas de nada discretas diligências junto das principais universidades do país em causa, no sentido de lhe serem atribuídos – espontaneamente, claro – doutoramentos honoris causa. E que chegaram a frustrar-se ou a estar em risco algumas dessas viagens ante a recusa, peremptória, de várias universidades, irredutíveis apesar das pressões diplomáticas e políticas “ao mais alto nível”*. Já então no Ocidente se questionava abertamente a autoria dos trabalhos de Elena – que a incansável máquina de propaganda do regime romeno se encarregava de distribuir, traduzidos, pelas bibliotecas científicas de referência. As suspeitas radicavam em raras, mas esclarecedoras, prestações públicas em que aquela exibira uma confrangedora ineptitude em matérias em que seria perita e nas denúncias que, clandestinas, chegavam da comunidade científica romena.  

Só com o fim da era Ceausescu a verdade emergiu. Acerca da extorsão a que haviam sido submetidos inúmeros cientistas, desapropriados, sob ameaça de represálias, dos resultados de anos de paciente e dedicada investigação, os quais eram publicados e, sendo o caso, patenteados por Elena, em seu nome e proveito. Mas também quanto à falta de capacidades intelectuais e de qualificações básicas desta para poder sequer aspirar a tal carreira. São especialmente ilustrativas as circunstâncias em que obteve o seu doutoramento: a recusa inicial da sua tese pelo respeitado Prof. Simionescu (que por isso foi afastado da universidade e cujos trabalhos foram tornados inacessíveis, como se o seu autor jamais houvesse existido), a sua aceitação por um académico menor (que com tal feito se lançou numa fulgurante carreira) e, last but not the least, a prova, que não decorreu na data e local marcados e de forma pública, tendo sido antecipada e realizada à porta fechada. Elena não chegou a comparecer, tendo enviado, através de agentes de Securitate, a sua defesa gravada em cassette, não fosse ter de responder a alguma questão do júri…

Durante mais de trinta anos, Elena fez-se passar por grande académica e investigadora, na mira do prestígio que julgava daí lhe advir. Fê-lo à custa da coacção e da exploração exercidas sobre cientistas capazes mas indefesos, os quais foram injustamente privados do reconhecimento e dos frutos económicos do seu trabalho e remetidos a um anonimato forçado, a troco de paz e sossego. Conta-se que no julgamento sumário que antecedeu a sua execução, no Natal de 1989, um dos oficiais se lhe dirigiu repetidamente usando a alcunha por que era conhecida nos meios científicos - “codoi”, a forma peculiar e por demais reveladora da sua ignorância, como se referia ao dióxido de carbono (CO2). A visão disso e do que se seguiu poderá até ter sido uma catarse para muitos. O mal feito, esse é mais difícil de reparar: a autoria de muitos trabalhos e patentes subsiste inalterada e é possível que decorram muitos anos até ser reposta a verdade. Ou que isso nunca venha a acontecer, full scale. Porque muitos daqueles que foram despojados morreram já e muitos outros partirão sem ter a satisfação de ver o seu trabalho e o seu mérito reconhecidos.

* Foi o caso de Oxford, Cambridge e da major league das universidades americanas. Mas não já das Universidades de Atenas, de Lima, de Buenos Aires, de Nice, de Quito, Teerão, de Amman, de Manila, do Central London Polythechnic (actual University of Westminster) que lhe atribuíram doutoramentos honoris causa e, bem assim, da Royal Society of Chemistry e da Illinois Academy of Sciences, que a admitiram como membro.  

O nariz de A. Schicklgruber Hiedler
História Particular
da Infâmia

Por mera questão de logística é-me impossível trazer para a galera da Infâmia mais do que o nariz de A. Schicklgruber Hiedler. Não só a lotação da galera logo ficaria esgotada como seria bem natural que se afundasse com tamanho peso.
Por isso limitei-me ao seu nariz.
Mas quem foi afinal A. Schicklgruber Hiedler? Para que a respectiva penca pese tanto ou mais do que alguns dos infames mais cotados mundialmente?
Um pouco de genealogia leva-nos a ele com facilidade. A sua avó, Anna Schicklgruber, pariu um Alois de pai incerto, tendo casado mais tarde com um certo Hiedler – de quem teve mais dois filhos. Os anos foram passando, Hiedler morrera já, e Alois Schicklgruber consegue convencer as autoridades do registo civil local que ele, afinal, também era filho do falecido.
No entanto, por razões aparentemente desconhecidas, o grafismo do seu novo nome nasceu alterado para Hitler. Era funcionário dos costumes, apicultor nas horas vagas, e o seu terceiro filho recebeu o nome de Adolf.
Como apenas quero enterrar o seu nariz, vamos lá falar com quem o conheceu de perto (ao nariz) e sobre ele teceu as mais variadas considerações.
O narrador é um dos filhos do escritor Thomas Mann, ele próprio escritor e homossexual assumido, aventureiro por princípio e repórter de guerra pelos Aliados, que se suicidou em 1949 com barbitúricos.
Eis o que Klaus Mann escreveu sobre o infame apêndice nasal de A. Schicklgruber Hiedler.
(A tradução do francês da obra autobiográfica Le Tournant é minha, o que nem foi nenhuma complicação já que tanto a forma como a linguagem do autor não são de exigência complexa)

Não me podiam meter na cabeça que os alemães fossem seriamente capazes de tomar Hitler por um grande homem – pelo Messias! Ele, grande? Bastava olhar para ele!
Eu tive, por várias vezes, oportunidade de estudar aquela fisionomia. Uma vez de muito perto, durante cerca de meia hora. Foi em 1932, cerca de um ano antes da tomada do poder. Ele era um frequentador assíduo do salão de chá do Carlton, facto que então eu desconhecia em absoluto quando uma tarde ali entrei para tomar um café.
Decidira-me por aquele lugar porque o café Luitopold – situado mesmo em frente, do outro lado da Briennerstrasse – se tinha recentemente tornado no ponto de encontro das SA e das SS: as pessoas decentes já não o frequentavam. O Fϋhrer, como então se percebia, partilhava a minha aversão à proximidade dos seus bravos; preferia, ele também, a intimidade e a distinção do salão de chá.
Ali estava ele, sentado, rodeado por alguns dos seus favoritos, saboreando uma tartelette de morangos. Eu sentei-me numa mesa vizinha, a menos de um metro dele. Ele comeu outra tartelette de morangos, coberta de creme batido (os bolos do Carlton eram bons); e depois uma terceira – talvez, de facto, já fosse a quarta. Eu próprio gosto de guloseimas; mas a visão da sua gulodice semi-infantil, semi-carniceira, cortou-me o apetite. Além do mais, já que o acaso me levara até ali, eu queria concentrar toda a minha atenção no pequeno guloso da mesa vizinha, o que não seria de todo possível se eu próprio, como ele, me estivesse a regalar tanto.
Dois assuntos, sobretudo, ocuparam-me durante os cerca de trinta minutos passados em tão desagradável companhia. Primeiramente, onde residiria o segredo da impressão que ele produzia, do fascínio que exercia? Em segundo lugar, quem me lembrava ele, com quem se parecia? Sem qualquer dúvida, ele parecia-se com um homem que eu não conhecia pessoalmente, mas de que vira o retrato por várias vezes. Quem seria então? Charlie Chaplin não. Deus não brinca assim! Chaplin tem de facto o bigodinho, mas de forma alguma o nariz, aquele nariz carnudo, ordinário, aquele nariz obsceno que imediatamente me bateu como o detalhe mais vil e mais característico da fisionomia de Hitler. Chaplin tem encanto, tem graça, espírito, uma grande força interior – tudo qualidades de que se não encontrava o menor traço no meu vizinho, o devorador de creme batido. Pelo contrário, este parecia de substância e constituição das menos nobres, um pequeno burguês mau de olhar turvado pela histeria numa cara pálida e inchada. Nada que fizesse acreditar em grandeza, ou sequer talento!
Certamente, não era divertido estar sentado perto de semelhante criatura; e no entanto eu não conseguia saciar-me da visão daquelas ventas repugnantes. Seguramente nunca o achara minimamente atraente, nem em efígie, nem numa tribuna iluminada; mas a fealdade que então se me apresentava ultrapassava todas as expectativas.
A vulgaridade dos seus traços tranquilizava-me, fazia-me bem. Olhava-o e pensava: tu não vais vencer, Schicklgruber, quando muito vais escacar a tua alma à força de tanto berrar. Tu queres dominar a Alemanha? Tu queres ser ditador – aí, com esse nariz? Não me faças rir! Tu tens tão mau aspecto que quase suscitas piedade – se a tua mediocridade não fosse justamente duma espécie tão especialmente repulsiva… Encomenda mais uma tartelette de morangos, Schicklgruber – é mesmo a quinta? – que daqui a uns anos não poderás mais permitir-te a tanto; um mendigo, esquecido por todos, eis o que serás dentro de poucos anos. Tu nunca chegarás ao poder!
Então ainda não havia a auréola de sangue à volta da sua cabeça, que me pusesse em guarda? Nem inscrição nas paredes do salão de chá do Carlton? Nada de inquietante se via. Nada a não ser a discreta iluminação rosada, a música em surdina, os pastéis e bolos empilhados e, no meio deste quadro idílico duma doçura de creme batido, um pequeno homem antipático mas certamente inofensivo, com um pequeno bigode cómico e ar de teimoso, que bebericava da sua chávena de chocolate, rodeado de companheiros tão insignificantes como ele.
Eu ia apanhando pedaços da sua conversa. Discutiam a apresentação duma farsa musical que ia pela primeira vez ser executada, nessa mesma noite, nos Kammerspiele de Munique.
Uma das nossas amigas mais chegadas, Thérèse Giehse, uma comediante especializada em papéis de composição, era a personagem principal. O Fϋhrer declarou que se divertira muito com esta representação. Em primeiro lugar porque as operetas em geral eram uma coisa encantadora («… um humor são… rimo-nos, por uma vez, com toda a vontade…»); segundo, e sobretudo, por causa da Giehse, que ele, o Fϋhrer, achava «muito simplesmente formidável». «Uma artista popular, como só se encontram na Alemanha», afirmava em tom provocante, assombrando-se de imediato quando um dos seus camaradas – não seria talvez o Streicher? – assinalou com cautela que a senhora, tanto quanto ele sabia, não era uma pura ariana. «Um pequeno defeito… raça não completamente irrepreensível…» murmurava desajeitado o acólito – ao que o pequeno bigodudo, que tinha falado até aí com uma circunspecção um pouco forçada, elevou a voz de forma ameaçadora. «Isso são insinuações maldosas! cortou ele franzindo as sobrancelhas. Como seu eu não fosse capaz de ver a diferença entre um talento natural germânico e a falsidade judaica!»
Eu tive de fazer um grande esforço para não me escangalhar a rir. Que pena a Giehse não estar ali para ouvir aquilo!
Tu nunca chegarás ao poder, pobre idiota Schicklgruber! pensei mais uma vez, agora muitíssimo divertido. Enquanto chamava pela empregada para pagar a minha despesa, lembrei-me de repente em quem este tipo me fazia pensar.
Haarmann
, evidentemente. Como é que a ideia não me chegara mais cedo? Vejamos, sem dúvida ele era parecido com o assassino de miúdos de Hannover, cujo processo causara sensação pouco tempo antes. E ele, o austríaco, o frequentador de operetas, sentado na mesa ao lado, seria tão eficaz como o seu duplo da Alemanha do Norte? Esse Barba Azul homossexual conseguira atrair trinta ou quarenta adolescentes à sua acolhedora alcova onde, no decorrer do acto sexual, lhes abria a garganta à dentada para depois transformar os cadáveres em deliciosas salsichas. Uma performance estupidificante, sobretudo se se imaginar que este diligente amigo das crianças era locatário numa casa exígua onde vivia rodeado de vizinhos atentos! Querer é poder: se se persegue um objectivo com tenacidade, superam-se as coisas aparentemente mais impossíveis. Eu sentia-me varado com a semelhança entre estes dois homens de acção. O bigode e a melena, o olhar velado, a boca ora triste, ora brutal, a fronte marcada, e o mesmo nariz indecente. Tudo era igual!
Isto, isto nunca chegará ao poder! Estava perfeitamente seguro do meu juízo, enquanto me dirigia para a saída. Tu és um falhado, Schicklgruber. Chegarás no máximo ao crime sádico!
Nada de auréola a sangrar? Nenhuma inscrição? Nenhum sinal de alarme? Uma nação que sempre fora tão orgulhosa dos seus poetas, dos seus pensadores, aceitava apanhar uma punaise para o homem do destino.

E realmente apanhou, essa e muitas outras.

A conversão de Girolamo
História Particular
da Infâmia

 

Chegara no dia anterior. Na segunda noite, Girolamo foi à Igreja. Era conhecido o seu gosto pelo debate e recomendaram-lhe o sermão de um frade agostinho. Sentou-se. O frade aproximou-se do púlpito. A voz veio sobre ele como um sinal de fogo. Sacudido pela pedra do pecado e pelo punhal da vingança, Girolamo tombou morto aos próprios pés.
O frade em chamas incendiou o pecado, o adultério, a prostituição, a doutrina de Balaão, a imoderação gulosa das carnes ímpias sacrificadas aos ídolos. O cadáver de Girolamo girou duas vezes sobre si mesmo e pôs-se de pé.
Converte-te, pois! Do contrário, virei logo contra ti, para combatê-los com a espada da minha boca* gritava o frade alado, voando negro e rente à cúpula da catedral. Da sua terrivel boca de anjo saíam visões proféticas: relâmpagos e trovões reduziam a cinzas a imoralidade do clero, uma tempestade de granizo tombou sobre os blasfemos, os ventos da ira gelaram os pagãos e o vício. Girolamo viu entao a Besta que subia do mar e viu que era esse o seu novo corpo: dez chifres e sete cabeças, a Besta com mandíbulas de Leão.
Viera a Faenza para uma curta viagem. Saíra de Ferrara, homem jovem de 22 anos, com doçuras de filósofo, mãos com dons de médico, no riso e na personalidade a benção de tantos talentos. Era Girolamo, filho de família. De quem a vida e os prazeres dela gostavam.
A voz do frade — se alguém tem ouvidos, ouça – calou-se. Girolamo, imolado à perigosa perseverança e fé dos santos, levantou-se. Escorria-lhe no corpo o suor acre da salvação. Entrou na noite de breu, pronto para lançar o grande lagar do furor de Deus sobre a cidade, o mundo, os livros, as mulheres e os homens.
Em Faenza, depois da prédica de um frade agostinho, morrera Girolamo, nascia Savonarola.
Um inexplicável minuto de vento polar cruzou o luxo da voluptuosa e distante Florença.

*Do “Apocalipse” donde, aliás, são pilhadas as imagens que povoam o texto.

Medeia
História Particular
da Infâmia

Bernard Safran, Medea

No século v antes de Cristo, tempo de Eurípedes, já depois das reformas de Clístenes, Atenas era uma cidade insulada: em toda a volta o passado, o próprio passado, e em si mesma, o presente a despontar o desconhecido. Porque um novo sistema irrigara a sociedade de sangue e pensamento regenerados, aflorava a regeneração nessa sociedade: pelas mãos da democracia fazia-se filosofia, política, jurisprudência. A este recomeço, senda do ocidente que somos, juntou-se outro, e igualmente sincrético: o da expressão. É nesta charneira, também senda nossa, porém literária, que Medeia surge em inextinguível fulgor, incandescente sempre, então como hoje. Porque nela  habitam os dois tempos do mundo feito de antes e depois desta Atenas. E os dois rostos do amor, em perpétuo trânsito entre a memória e o pavor, à procura do impossível concílio para extremos que se consomem até à destruição em cada vez que se tocam, e se reconstroiem em cada vez que se afastam. A voz que Eurípedes ofereceu a Medeia, é a voz do conflito entre duas vozes, desde a sua génese ao seu desaparecimento. Foi ali, nas areias móveis daquele século, que o estabelecido mais se enraizou, patriarcado e razão, e matriarcado e mito cederam a esse estabelecimento. A síntese faz-se sempre sobre a mobilidade — ou não poderia fazer-se. É a história da história que a sedimenta. Mais tarde, a tragédia descerá até aos homens o que em cena, antes, cabia aos Heróis, porém na hora do meio, naquela hora em que as sombras são tanto mais longas quanto o desejo é de mais sol, o trágico é Medeia.
Medeia é humana, primeira entre as mulheres porque filha de um rei — da Cólquida. No entanto, não o é completamente, descende também da divindade. É muito jovem, virgem, sem isso obste à sabedoria: é sacerdotisa. Em tudo o que lhe é apontado, ela é o que podemos saber, porque somos, e o que jamais, porque doutra natureza. Chega Jasão. Argonauta entre argonautas, timoneiro no destino de rei, colhe, não apenas a princesa em flor, carne divina, mas a rainha nela escondida quando estabeleceu com ela um pacto pelo qual superou o de outra forma insuperável: ela trai o pai, mata o irmão e parte com Jasão para atravessar o mar escuro e fundo onde submerge virgindade e destruição criadora no caminho de peripécias até Corinto, onde emerge maternal em substância criada. Nos filhos, portanto. Em Corinto, ela que o não é, faz-se uma mulher de Corinto. E submete-se. Os dias arrumam-se a outros dias, os filhos crescem e o marido. Ela, na retaguarda, permanece quem sempre foi, manifestando o que ocultava na Cólquida, ocultando o que na Cólquida manifestava. A natureza de Medeia é constante. Sempre humana e divina. Só as circunstâncias vão mudando. Chega aquela que a tornou infame. Creonte, rei, pretende casar a sua filha Creusa com Jasão. Propõe. Medeia sofre. Tanto que, sendo uma estranha, o Coro de quem a estranhou a chora: Jasão quer o trono, quer Creusa, e seja Medeia expulsa como Creonte ordena. Medeia vinga-se plenamente e ao fim da vingança mais se vinga: mata os próprios filhos, os seus filhos com Jasão.
Vou passar por cima das construções feitas pela súmula  multidisciplinar. Não iria além do já tão dito em qualquer dos casos e, decerto, menos bem. Classificação de filicídios e psicoses. Ou do lugar da mulher na sociedade patriarcal. Os contributos para os estudos femininos: a sujeição do eu criativo ao eu materno, do eu mulher ao outro homem. Da vinculação entre sexualidade e violência. Acabaria, talvez, a falar de Gerti no romance de Elfriede Jelinek. Nem repito as divisões da mulher pelo preto e branco da demonização e eudeusamento trazidas pelos estereótipos: masoquista/depressiva/passiva/dessexualizada/mãe versus sádica/omnipotente/castradora/devoradora. Medeia caminha pelas margens deste rio onde tantas águas convergem quanto nela se depositam, em silenciosa obscuridade, os nossos repúdio e incompreensão, maiores do que o entendimento do sofrimento. Basta ver, para percebermos que não entendemos, que não conseguimos entender, que Medeia continua depois de nós pararmos. Ela segue para Tebas, Atenas, casa com Egeu, tem outro filho por quem volta a matar para lhe dar um trono. Nós, com toda a nossa multidisciplinaridade, estamos parados desde o assassinato dos filhos pela mãe. Há dois mil anos. Parámos ali. Ficámos paralizados diante do horror. Pintamo-lo, escrevemo-lo, analizamo-lo, representamo-lo. Fazemos círculos mágicos que nos guardam do lado de dentro.
Será suficiente dizer de Eurípedes que foi um autor de excepção, um homem tão ancorado na sua actualidade que reduziu o tamanho dos deuses, dos mitos, da religião para que no combate com este novo homem, neste novo mundo que Atenas inaugurara fossem mais iguais os fios das espadas? Que vanguarda é a deste homem que traz a experiência subjectiva e pessoal das relações familiares e sociais para o espaço dos heróis, redimensionada uma e outro, enquanto pergunta por nós no espelho de cena? É isto a ficção? Porque se é, é sinónima de verdade, tanto quanto de recriação pessoal e social pela reflexão que exibe e a que obriga.

Francisco da Costa, o prior entocado
História Particular
da Infâmia

O personagem que traslado hoje para a vala da Infâmia foi realmente um tipo infame – e como tal fica muito bem aqui (aliás nem sei se não fica bem de mais…).
Infelizmente, como muito viveu nas Beiras lá pelas horas do século XV, e não foi herói ou poeta, pouco se lhe conhece a figura – se era alto ou magro, baixo ou gordo, julgo que ninguém sabe.
No entanto, o pouco que se sabe dá que pensar – além de permitir esse desporto moderno tão querido de economistas e políticos que é a estatística. Foram aliás as suas impressionantes estatísticas que, para o bem e para o mal, chamaram a atenção de D. João II. E garanto – faço mesmo disso prova – que o Príncipe Perfeito arregalou os olhos de espanto quando ouviu relato pormenorizado das aventuras do desconhecido (até então) abade de Trancoso.
Por alto, muitos serão os que conhecem a lenda deste Francisco da Costa – e essa é a razão para me socorrer da estatística para alindar a respectiva lápide (se é que tal é possível, pois este tipo foi realmente um crápula doido varrido em situação agravadíssima).
Transcrevo agora a sentença contra ele proferida em 1487, que pode ser verificada no maço 7 do armário 5 da Torre do Tombo:
«Padre Francisco da Costa, prior de Trancoso, de idade de sessenta e dois anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi arguido e que ele mesmo não contrariou, sendo acusado de ter dormido:
Com vinte e nove afilhadas e tendo delas noventa e sete filhas e trinta e sete filhos;
De cinco irmãs teve dezoito filhas;
De nove comadres trinta e oito filhos e dezoito filhas;
De sete amas teve vinte e nove filhos e cinco filhas;
De duas escravas teve vinte e um filhos e sete filhas;
Dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve três filhas,
Da própria mãe teve dois filhos.
Total: duzentos e setenta e cinco, sendo cento e quarenta e oito do sexo feminino e cento e vinte e sete do sexo masculino, tendo concebido em cinquenta e quatro mulheres».

Bom…, nem sei bem como caracterizar o animal, mas para lá das parafilias evidentes é óbvio que o tipo tinha uma capacidade de convencer verdadeiramente empolgante. Já não falo das afilhadas, cunhadas, irmãs e amas – tudo isso me parece aceitavelmente promíscuo. Agora dois filhos da própria mãe?!… Reincidentes, os dois? Seria mal de família?…
Não faço a mais pequena ideia mas é bem possível, como é igualmente provável que o popular insulto «filho-da-mãe» tenha nascido de congéneres deboches.
Mas vamos à bela da estatística.
Se considerarmos que o frenesim sexual do abade de Trancoso desatou a inseminar com sucesso a partir dos 20 anos, e que quando foi condenado a esquartejamento ainda era activo na sua vera arte da cobrição, atingimos a espectacular média dos 6,5 filhos por ano (e mais uns poses) – dificilmente ultrapassável pelos mais afamados coitantes do reino e não só.
Mas os números não acabam aqui: como esta caterva descendente nasceu de 54 diferentes ventres, temos uma média real de cinco filhos por mãe!
Infelizmente, nesses tempos mais coevos nada havia de semelhante ao actual e de valoroso préstimo Livro Guiness dos Recordes. Por isso temo que nunca saberemos a verdade em toda a sua magnitude.  E será que rapazes também marchavam? Nada de espantar face a tam desmedido empenho – mais a vantagem de que não pariam.
A verdade é que o prior Costa era um verdadeiro empalador — se bem me faço entender. É que são números de envergonhar uma qualquer Hollywood dos Anos Sessenta, um vigor de deixar reconhecidos faunos, como Brando ou Rubirosa, à beira da impotência técnica!…
Seja como for há aqui questões que me comovem – e suponho que também a todos a quem devo a graça de me lerem: onde se acomodava esta maltinha toda? Quem lhes dava de comer e lhes mudava os cueiros?… Será que, como padre radical que era, Francisco da Costa convencia aquelas mulheres todas a golpes de bula e bentinhos, animando-as com promessas de eterna e celestial redenção?…
É que nem nos mártires de Alá, carambas!
Ou seria antes um galã irresistível, um porno-padre que só de olhar ou passar por perto logo deixava as medievas damas todas a tremelicar de lascívia e com vontade de trepetir?… São questões pertinentes, estas.
Mas – ó incúria do pátrio torrão que nos sujas a memória a nacos de escuridão! –, nada disso se sabe: não existem estudos adequados, aprofundamentos académicos, relatórios fiáveis ou quejandos. Nada.
Nada a não ser a comutação da pena que el-rei tão avisadamente decretara e oficializara com os reais selos, e que pouco tempo mais tarde – a 17 de Março do mesmo ano – haveria de desdizer com os mesmíssimo e reais selos e um sentido prático no mínimo avant la lettre:
«El-Rei D. João II lhe perdoou a morte e o mandou por em liberdade aos dezassete dias do mês de Março de 1487, com o fundamento de ajudar a povoar aquela região da Beira Alta, tão despovoada ao tempo, e guardar no Real Arquivo esta sentença, devassa e mais papéis que formaram o processo».

Desconhece-se se houve mais descendência – mas cheira-me que é bem provável.