Arquivo do folhetim


11 — A Dor e o Nada

A Dor. É aterradora, violenta luz branca a torturar-me a sala da consciência. Desculpem se vos interrompo, acabou-se o narrador; sou, porque só eu posso contar a minha história, o narrador de mim mesmo. “Entre a dor e o nada”, digo, a pensar que a minha vida é um folhetim. E a Dor voltou. A Dor, som de uma bola de árvore de natal a cair, demente e lancinante. Vejo Sandeep a sair do carro, a correr como debaixo de fogo, na mata africana. E lembro-me. Lembro-me, porque a Dor voltou. Mansa, antes de ser violenta filha da puta. Estou lá em baixo caído a esvair-me em sangue, S. a segurar-me a cabeça e um Menino a dar-me beijos. Estou aqui em cima, a Dor atravessada na boca, nos dentes o ferro que põe o mundo a arder. Lá em baixo, não vejo, nem sinto, Nada; aqui em cima vejo-me, sinto a Dor e lembro, pela primeira vez lembro.

Francisco Xavier nasceu quando a mina rebentou e me rebentou todo. Ainda não sabia da Dor. E do Nada, nada sabia. Sabia de ti, Catarina, de te amar tanto que tive de te levar comigo. Um ano de casados quando a tropa me apanhou e comissão de combate em Angola. Estavas em Malange que era o mais perto que podias estar. No acampamento e no mato, Sandeep e eu fazíamos a guerra que queríamos fazer, a tentar que fosse o nosso o lado bom. Ele o indiano mais preto que conheço, eu a querer ser tão preto que conseguisse cheirar a catinga. A nossa guerra só seria a deles se nos fundíssemos com eles. Era a vez do Sandeep mas “Hoje vou eu no jipe da frente”, disse-lhe e ele riu-se, “Para dar sorte”. Fui e, agora que a Dor voltou, lembro-me: vejo fragmentos de mina e jipe a desfazerem-se no ar, o sopro da explosão, um vestido vermelho de chamas e eu, leve, leve, bola de árvore de natal, silenciosa, surda, suspensa antes de cair no abismo negro.

 ****

Aquele que está ali na maca, sou eu. Ainda não estou morto. O capitão veio comigo no helicóptero. Há pouco percebi que quase chorou. Faz-se teso, homem a falar com os médicos. Desanuvia o horror com uma piada forte: “Ó doutor, foda-se, deste meu alferes agora é que se pode dizer que não vale um caralho”. E baixa a cabeça de vergonha, intranquilo.

Não morri, não se pode morrer quando a nossa missão é o mais infecto sofrimento. Acordei esquecido de mim, cabeça vazia, uma ferida vermelha entre as pernas. Desmembrado, lembrei-me: sou como Francisco Xavier, há um pedaço de mim que, de mão em mão e fiel defunto, anda por aí. Acordo outra vez, muitas vezes, aos berros no hospital militar: “Façam-me um relicário com as bolas e passeiem-me o membro, o decepado, em procissão”. No silêncio embaraçado da enfermaria, respondia-me o riso grotesco do Senhor.

É dois dedos abaixo do umbigo que começo a gostar muito mais de ti” dizias-me em Malange. E agora Catarina? Agora, sou Francisco Xavier, padroeiro dos meus relicários corpóreos e recuso a simples recordação do meu nome. Tinha um nome e não quero saber. Não quero, não consigo, não me interessa saber o nome que gritavas primeiro, antes dos pequenos roncos surdos, dos olhos tão fechados, dos dedos que me espetavas na carne, a anunciar que começavas a vir-te, a vir-te toda do tanto que gostavas de me foder, que te fodesse com tudo o que tinha dois dedos abaixo do umbigo. Plenitude, dizem. Alegria da carne, êxtase de músculos e ossos, um amor de magma, saliva e os cabrões dos beijos, chupados, loucos, de te arrancar o coração para dentro do meu peito. E agora estás aí, Sandeep ao teu lado, aos pés da cama de Francisco Xavier.

Vomitei rancor, raiva, revolta. A guerra que fiz, a tiro, à bomba, a fogo redentor, os mortos deles e os meus, comi-os, rasguei-os à dentada, meu alimento, só meu, contra os que não estiveram lá. “Crise de identidade” retorquiu o manhoso e fleumático psiquiatra. Estou aqui em cima, o meu outro corpo lá em baixo a levar beijos de um Menino, sinto a Dor e lembro-me. Vejo-me a agarrar o psiquiatra pelos colarinhos, estoiro-lhe a cabeça contra o vidro da janela, “Ah, filho da puta, cada tiro que dei nos cornos de um preto era a um branco como tu que eu queria matar. Matei-os para os livrar de ti, do teu cheiro de branco suado, das tuas falinhas mansas, da tua missa civilizada. Rebento-te os cornos e rebento-te o cu”. E penso que, afinal, não posso, não tenho como rebentar-lhe o cu, o que o riso grotesco do Senhor me confirma.

Pela tua mão, pelo meu pé, trouxeste-me de volta a casa. A tua abnegação dói-me. Só de pensar, dói-me também o Sandeep, “Meu irmão isto”, “Meu irmão aquilo”, a fingir que o mundo é uma manta confortável, que tudo passa e com tudo se vive. A vossa bondade dá frutos: dois dedos abaixo do umbigo, agora, só o pecado hediondo de uma existência antes da memória de ser. Os monstros são limalha incandescente na minha cabeça. Manipulo-vos, chantageio-vos, traio-vos para que me traiam. “Quero que tenhas os dois filhos que te prometi quando tinha o nome que não lembro.” Quero que os tenhas agora com o meu nome, Francisco Xavier, que não tos pode fazer. Reféns da vossa bondade, nem tu, nem Sandeep têm como recusar. Desta vez sou eu que estou aos pés da cama, reluzentes e tesas as ebúrneas nádegas empurram Sandeep para dentro de ti, e eu, Francisco Xavier, coroa de açucenas na cabeça, lírio na mão, aos pés da cama. Não gritas nenhum nome, só os pequenos roncos a anunciar o que sempre anunciaram, olhos imensamente abertos, um castelo a desfazer-se em cada uma das tuas íris verdes, o turbilhão e a nuvem de poeira a virem em direcção aos meus tão maus, tão magoados. Morri, morri sim, morri na cinza do teu olhar.

Fugi, fugi de mim, do meu mal e do mau que fico de estar ao pé de ti. Fugi, dizem, para procurar. Fugi, explico, para me perder. E agora, estou perdido entre dois corpos. Um lá em baixo, a cabeça reclinada no gordo regaço de S., a inútil azáfama de Sandeep a seu lado, e um Menino que só eu e S. vemos aos beijos na minha boca. O outro corpo aqui em cima, áscuas no peito, a Dor de me ver lá em baixo a sangrar, a Dor aqui em cima de me lembrar. Os beijos do Menino puxam-me para baixo. A boca dele, vulva rosa, quer, percebo, juntar-me. Repugna-me a energia áspera, atómica, do Menino. Prefiro o riso alarve, de água suja do Senhor. É o que trago nas veias, constelações do meu corpo. O corpo de baixo, o corpo de cima, entre a Dor e o Nada.

Fugi de mim, perdendo-me em tudo. No estuque ressurreccional dos conventos beneditinos, na fancaria mítica da Grécia, no patético esoterismo indiano, nos buracos selvagens, na devassidão de membros abertos, inventei-me Francisco Xavier. Inventei-me a orfandade, a morte dos meus pais vivos para na deles esconder a fuga aos dois filhos que tiveste, meus filhos que Sandeep te fez por cobrida procuração. Inventei que nem sequer meus pais eram, para esconder em tragédia de opereta a simples realidade de não serem meus os filhos que saíram da clareira obscura em que foi preciso ser outro a vir-se para que os tivesses.

 ****

 Ontem á noite, Nova Iorque era uma cidade para o amor. Chegava do rio uma angústia nocturna. Deixei-me levar por essa falsa liberdade. Entrei no bar, a luz a queimar as paredes subreptícias, as mesas cheias, mãos nos bolsos a esconder a minha inquietação. A cantora negra abria e fechava os braços, a saia curta, as pernas jovens, alegres de serem tão novas, macias. Experimentei o esquecido sabor da ternura. As pernas da cantora comoveram-me. Aos olhos fechados voltaram-me imagens esquecidas. Há tanto tempo que não me queimava a polpa dos dedos. E das coxas firmes no palco, da saia que dela me devolve a redonda linha da nádega, chega-me o teu primeiro cheiro, Catarina, o perfume tão inocente do primeiro desejo, do lírico vulcão que me acendeste no peito, desse instante em que a eternidade era nossa e as mãos nos ardiam. As mãos nos bolsos, olhos espetados nas pernas jovens, caminhei até ao palco e, com a cantora, all i could was cry,  chorei.  Por um segundo, apenas um, deixei de ouvir o riso paquidérmico do Senhor. Disse: “preciso que voltes, Catarina, e que te vingues da vergonha deste fogo extinto.

Mesmo no vendaval do Vodka Room vi logo, vertigo que fosse, que eras tu. O cabelo loiro não disfarçava a memória da tua franja morena. Chamares-te Catherine e vires do Zimbabué não escondeu a forma como levas o dedo médio aos lábios e veladamente lhe acaricias a polpa com a língua. Só não sabia como, resignada, cumpririas a vingança, a redenção.

Agora sei, a bala que tenho a flutuar-me nos pulmões, diz-me. Os beijos do Menino desenharam-me na testa a pedra. Bem podias dizer, Senhor “És Pedro, e sobre esta pedra edificarei um reino de tormento e escuridão.” Sou Pedro e tenho de escolher entre a Dor e o Nada. Entre juntar ou separar o corpo de baixo e o corpo de cima. O Menino vai voltar a colar-se-me à boca num beijo, sedento da minha Dor. Penso, e é a última ironia: “Vai mas é beijar o caralho.” Abro a grande válvula da alma, o inferno que me sorva, escolho o Nada. Sou Pedro e nunca mais ouvirei a gargalhada obscena do Senhor.

The End

10 — Agora e na Hora da Nossa Morte

Seria esta a forma da morte? Seria este o cheiro da morte? Seria esta a cor da morte? Nada de túneis? Nada de ofuscantes luzes brancas? Nada de revisitar naquele último instante todos os instantes da vida? Onde estava aquele voo derradeiro? Aquele voo para olhar, à distância, o seu próprio corpo sem vida? Era isto, a morte? Um buraco fumegante a rasgar-lhe a cabeça e nem um assomo de dor? O mesmo corpo de sempre? A mesma alma maldita fazendo-se pequena, cada vez mais pequena, mas incapaz de libertar-se da prisão ainda quente que era aquele monte de vísceras que continuava a ser ele?

Francisco sentia-se mirrar a cada instante. Um mirrar singular, é certo. Porque o corpo continuava o mesmo. Arrefecia, fazia-se duro de tão amarelo, mas não perdia volume, não perdia tamanho. Era só ele, Francisco Xavier, que parecia fazer-se matéria dentro da própria matéria e que regredia para a mais absoluta profundidade do seu ser. Estava morto e nunca fora tão corpo. «Merda!». É isto a Morte?

Uma gota de água solta-se da raiz do Mundo e vem desfazer-se com toda a brutalidade do Génesis na sua testa ensanguentada. Depois outra. E mais outra. Grossas, negras, viscosas. Lá fora (fora do corpo? Fora de si?) o restaurante deixa inundar-se naquela escuridão aquosa e os gritos dos clientes, pouco a pouco, vão-se afogando numa massa única de indizível solidão. Escrevi restaurante? Não deveria ter escrito. Aquelas paredes que escorrem fuligem e sangue são – Francisco está absolutamente certo disso – as paredes da Igreja da Transfiguração de onde, em verdade vos digo, nunca chegou a sair.

«Duas vezes terás de morrer até encontrares o teu nome inteiro». É S. quem lhe segura a cabeça e é o menino, o menino fugido de Botticelli, quem o beija na fronte. Francisco está mudo. Imóvel. Feito corpo perdido no seu próprio corpo. A água primordial continua a chover.

«Tens medo?». Francisco quer dizer-lhe que sim. Que tem medo. Medo de não voltar a ver os filhos. Medo de nunca vir a saber de que foi feito o seu sangue. Medo de perder Catarina e de possuir Catherine. Mas está sufocado dentro de si e tudo o que ouve é a gargalhada obscena do Senhor. «Tens medo?» repete o menino. Mais uma gota, mais um riso alarve.

«Tens medo?». Desta vez é Sainte-Foi que, a um canto, esboça um sorriso trocista. A água negra e fétida chega-lhe à cintura e cala, ainda mais calada, toda a saudade do mundo. Francisco quer chorar mas no abismo visceral onde se deixou perder não há espaço para lágrimas. A saudade faz-se, ela também, corpo e matéria e é mais uma vez a grotesca gargalhada do Senhor que rasga o silêncio da Igreja.

«Tens medo?». Não há uma ponta de maldade na voz do menino. Mas do altar levanta-se agora um querubim num voo frenético, esse sim, todo feito de escárnio e troça. Os pelicanos aplaudem, histéricos. Todos peito, todos sangue. José de Arimateia sai do seu torpor milenar e vem boiar para o colo do Senhor. «Tens medo?». Mais risos, mais aplausos. E a chuva negra que não pára de se chover.

«Tens medo?» Que sim, que sim, está cheio de medo. Mas o pânico é todo silêncio e Francisco está perdido no labirinto do seu corpo afogado. «Tens medo?». O menino volta a beijá-lo e só então se faz simultaneamente Pai, Mãe e Caim e Abel – seus filhos. E o beijo cresce de escuro e, feito caranguejo, escreve-lhe na fronte o símbolo que é o seu nome antes de voltar a desaparecer em sangue. Durante alguns segundos tudo se faz nada e o Mundo deixa de girar. Até que o Senhor volta a estremecer, gordo, imenso. Com duas braçadas de paquiderme nada até ao altar. Um esforço de criação. E eis que se ergue daquela água escura e que as paredes voltam a crepitar naquele bzzzz estaladiço.

«O sacana do menino está a beijá-lo! De quem foi a ideia de trazê-lo cá para baixo? Perdemos o controlo desta merda! A puta da Babilónia está aí contigo? Diz-lhe que ligue ao Matuschek! Depressa!». Sandeep só teve tempo de travar a fundo.

9 — I don’t want to set the world on fire

Nova Iorque, pela manhã. Lá fora muita luz e uma brisa suave, um pouco quente e húmida. Francisco acordou sobressaltado e dorido, e perdeu pouco tempo a admirar os raios de sol que se reflectiam múltiplas vezes nos vidros daqueles edifícios. Nem mesmo depois de uma semana em que Manhattan não vira o céu azul. Ao gin, conhecia-lhe perfeitamente todos os efeitos e sintomas remanescentes de uma noite sentado ao bar. Há anos que, a exemplo da bem sucedida centenária rainha Mãe, elegera a genebra como seu principal conservante. Aqueles vodkas perfumados da noite anterior, tantos e tão variados, esses, embora saborosos, tinham-no deixado frágil. Precisava de qualquer coisa para comer, para se recompor. Pelo menos da fraqueza geral e das mãos que tremiam, porque para aquilo que se passara na igreja, não conhecia paliativo algum.

Sentado ao balcão, enquanto deselegantemente saciava o seu apetite com uma comida pouco elegante, sentiu alguém a aproximar-se.
— O papa devia decretar que Deus não existe.
Excuse me?
— Sim, era o que era preciso; que o papa decretasse que Deus não existe e que tudo não passa de imaginações e congeminações nossas. Ao menos assim é bem possível que os quadros deixassem de nos sussurrar coisas. — Nisto solta uma valente gargalhada, senta-se ao seu lado e aperta-lhe o ombro. — Come on old chap, don’t tell me you can’t remember anything from last night?

Harry era um britânico com um aspecto de se situar um pouco para lá da meia-idade, mas bem antes da terceira. Era um herdeiro e antigo fazendeiro no Zimbabwe, que tinha transferido as suas operações para Moçambique, mas que já não mais se interessava por aquelas andanças, agora que os árabes e os chineses se infiltravam cada vez mais nos destinos africanos. Estava em Nova Iorque para finalizar a transferência dos seus negócios, algo de monta. O dinheiro bastava-lhe já e queria agora dedicar-se exclusivamente à filantropia. Ainda assim, como o próprio afirmava, embora educado com as maneiras dos ingleses, a terra africana ainda lhe concedia a rudeza e a simplicidade no trato que o caracterizavam.

— Nem mesmo do pianista gordo? Os meus parabéns, não se lembra mesmo de nada; mas garanto-lhe que se portou como um verdadeiro gentleman e terá de voltar à Vodka Room, para apreciar devidamente aquelas maravilhosas concoctions que eles preparam. Ah!, — exclama, estendendo o braço em direcção à entrada, — aí vem a minha filha, que também conheceu ontem à noite. Catherine, parece que temos aqui um caso de amnésia auto-induzida bem sucedido. Formidável, não é? Quem diria, depois daquelas horas de conversa desenvolta!

Catherine. Como é que não me lembro desta mulher. Não pode ser.” Catherine era assombrosamente parecida com Catarina. Loira, em vez de morena, mais sólida e rígida, como alguém que tem de lidar todos os dias com seres muito maiores e mais fortes do que ela. Ainda assim, aquele vestido caía-lhe na perfeição.

— Temos de ir agora pai — disse, pousando a mão no seu antebraço. Depois, virando-se para Francisco, — é a nossa última reunião, mas logo temos uma festa a que não me apetece nada ir. Se o meu pai acordar em tratar de fazer sala, leva-me a jantar para nos dedicarmos ao seu mistério?

Francisco anuiu, algo envergonhado. Que lhes teria contado na noite anterior? É certo que falou da igreja e da “Virgem e do Menino”, mas e o resto? A Grécia? A Índia? E o telefonema? E porque quereria ela ir jantar com ele; terá despertado assim tanto interesse? E a coincidência de ela ser igual a Catarina. Francisco pouco entendia daquilo que se estava a passar com ele. Inseguro e nebuloso. Traído e traidor; perdido. E no entanto excitado — excitado como um adolescente que descobriu a sua nova vocação, mas que ainda não se apercebeu de que cedo se vai cansar dela.

Nada daquilo fazia sentido, mas ainda assim não queria perder a oportunidade que Catherine lhe oferecera. O telefone, esse desligara-o. Os filhos? Mais tarde. Há tempo. O resto do mundo? Gira. E o dia passou-o a escrevinhar coisas num bloco, entre cafés, livrarias e mais uma visita à Pierpont Morgan. Estranhamente estava absorto em pensamentos vazios e arrogantemente evitava que algo daquilo que até ali se tinha passado lhe viesse à mente.

À noite, embora melhor vestido, não deixava de se aparentar com um hipotético Hemingway, vestido à civil, num fim-de-semana de licença após a libertação de Paris. E estranhamente, sentia-se um pouco hemingway. Nem ele sabia o que isso era, mas era a sua máscara cobarde. Catherine estava deslumbrante, tendo quebrado a formalidade da sua indumentária institucional com a naturalidade de alguém que é um operacional e não um teórico de gabinete — “Vamos?”

— Então, as paredes falam-lhe? Já ouvi dizer que são boas ouvintes, mas falar — troçou, enquanto se preparava para provar o vinho que lhes tinham trazido.
— Foi um quadro, ainda assim, foi a minha primeira vez, também… Quem sabe, é possível que não fosse eu o destinatário daquela mensagem. Certamente que era para uma mulher.
— Os pensamentos abertos de uma, talvez? Talvez da sua mulher? Oportunidade única.
— Ex-mulher.
— Ai sim? Mas olhe que as paredes, ou os quadros, não falam a qualquer um.
— E porquê a mim?
— Antes disso, fale-me de si, que ontem à noite não esteve completamente coerente. Quem é…
— Eu? — interrompeu — agora sou um viajante perdido.

Francisco começou então a contar-lhe, selectivamente, a sua viagem, partindo dali de Nova Iorque para trás. Catherine ia acenando quando os pedaços soltos que ele tinha embargadamente revelado na noite interior encontravam o seu lugar na narrativa. Francisco continuava surpreendido pelo interesse de Catherine, mas estava mais interessado no seu interesse por Catherine. Um interesse muito primário. E claro, sempre que possível, embelezava os acontecimentos, tentando não discorrer sobre os estados de alma que até da sua mente tentava afastar. Catherine indeferia qualquer inversão no sentido da conversa, cada vez que ele tentava perguntar coisas e, para uma crescente irritação de Francisco, esquivava-se a revelar mais sobre ela própria.

— Ainda assim, não consigo entender o que o trouxe a Nova Iorque e a aquela igreja em particular — afirmou Catherine quando Francisco terminou a sua explanação sem nunca ter revelado, no entanto, a Índia e o que lá se passou.

Francisco não sabia o que responder. Em parte, porque ele próprio tinha dúvidas sobre o que ali estava a fazer. Mas sobretudo, porque não sabia porque havia de revelar a uma estranha aquilo que o consumia, uma estranha que despertava um interesse na sua história fora do comum, e que, mais estranho de tudo, era uma estranha que se aparentava com a sua própria mulher. A mulher, tinha-a deixado; esta atraía-o.
— Porque deixou os seus filhos?
— Desculpe?
— Porque é que deixou os seus filhos para trás. Não foi só a sua mulher.
— Como sabe dos meus filhos? Como sabe que tenho filhos? — Francisco estava apreensivo.
— As clínicas do meu pai, que giro, são no Sul da Índia. — e um silêncio instalou-se — É uma pesquisa cósmica? Não sabe qual é o seu lugar no mundo? E os seus filhos?
— Oiça as coisas não são assim tão simples.
— Não são? Há quem as complique propositadamente.
— Nada disso, não inventei o que se está a passar comigo.
— Tem a certeza?

Francisco sentia-se agora ameaçado por aquela mulher, que subia o seu tom de voz e participava em mais uma das coincidências mirabolantes a juntar a todos os eventos estranhos dos últimos tempos. Mas não deixava de se sentir atraído por ela, ainda que agora estivesse também assustado. Certo é que Francisco sentia-se agora mais vivo do que nas recentes deambulações: um confronto directo, nada de instruções crípticas e obscuras.

— Claro que tenho a certeza! Repare nisto que está a acontecer: pelos vistos já me conhecia antes de me conhecer! E eu nunca tinha ouvido falar de si!
— E os seus filhos?
— Os meus filhos estão bem! Estarão bem!
— Abandonou-os.
— Não!
— Abandonou a mãe deles.
— Mais uma vez, as coisas não são assim tão simples! — e dizendo isto o medo subiu-lhe a medula, encolhendo-se, e a atracção que ainda sentia por Catherine já não tinha força para se sobrepor à sua cobardia.
— A Luísa bem me disse…
— …o quê?!
— Lembra-se do que lhe disse o guru do templo de Vaitheeswaram?

Naquele instante Francisco recordou-se claramente da primeira frase escrita naquele pedaço de papel: “Duas vezes terás de morrer até encontrares o teu nome inteiro.” Quando levantou a cabeça e olhou para Catherine só viu uma pistola apontada na sua direcção e um clarão.

Catherine rapidamente saíu do restaurante e entrou num carro, com Sandeep ao volante. Lá dentro Francisco estava estendido no chão e depois do zumbido ter desvanecido, sem saber bem o que sentia, se é que sentia alguma coisa, apenas ouvia vindo das colunas do restaurante “I don’t want to set the world on fire”. Durante uns breves instantes só, até os restantes comensais começarem aos gritos.

I don’t want to set the world on fire | The Ink Spots

8– Interlúdio e Fuga

– Merda!
Primeiro foi a voz. A parede crepitava num bzzz estaladiço e de repente acendeu-se nela a imagem de um homem sentado, um corpo enorme. Tinha o olhar disperso dos cegos mas intimidava, a sua opulenta figura.
– Senhor?
Disse Catarina hesitante e reverente. A transmissão oscilava, fustigada pela chuva de drops. A pouco e pouco foi estabilizando.
– A vossa rede está uma desgraça. Quem vos viu e quem vos vê, pobres, pobres europeus que eram os senhores do mundo e agora nem conseguem fazer uma teleconferência em condições – o Senhor começou a frase a rir e acabou-a a tossir. Riso e tosse quase convulsos, no mesmo formidável estremecimento.
Catarina olhou pela janela do seu apartamento na Plaka. Da rua subia-lhe o rumor festivo de centenas de passos e vozes. Eram os turistas chineses a subirem para a Acrópole. Em menos de uma hora ia começar o espectáculo quotidiano do Ligh & Sound The Ancient Hellas. Tal como todos os habitantes do bairro, também ela teria que vestir a toga e ir à varanda deitar fogo de artifício. Era disso que viviam.
– Estamos muito descontentes com o curso das coisas, meu anjo. – A ironia de S. angustiou Catarina – demos-lhe um homem a guardar, só um, e perdeu-o? Onde pára o seu valido com nome de santo?
– Ficou à porta de uma igreja em Nova Iorque, Senhor. – Qual? – The Little Church Around the Corner, a Igreja da Transfiguração, na Rua 29 – Catarina sentiu um abismo entre a grandiloquência do nome oficial e a prosaica localização.
– Logo essa… O homem está mesmo perdido. Só um descrente é que entra nas igrejas à procura de respostas. Quem tem o hábito de lá ir já sabe o que espera.
– Não era o Sandeep que estava a tomar conta dele? – ousou perguntar Catarina, sabendo que são insondáveis os desígnios de quem pode.
Dois sulcos riscaram a testa de S.
– Era. Mas tive que o chamar. – Isto foi dito sem levantar nem gelar a voz, afirmado como quem descreve.
Catarina recebeu isto como a verdadeira forma do poder.
O Senhor começou a crescer, a erguer o seu volume colossal. Ocupava agora toda a imagem, enquanto a voz afundava o tom, martelando cada sílaba. O rosto avermelhava-se mas os olhos vagueavam indiferentes à cólera que os sacudia.
– Tive pena dele, vi-o desesperado, a morte deteve-se na sua vida com impiedade, foi a mulher que agonizou com um sofrimento minucioso; foi o desaparecimento súbito dos pais que afinal não eram os verdadeiros pais, o que lhe impediu de recordá-los amorosamente, retribuindo o imenso amor que lhe deram em vida; foi o desamparo dos filhos de quem ele ouvia o choro sufocado todas as noites, numa tristeza que lhe afugentava o sono eo deixava prostrado de amargura. Tudo isto fez com que a compaixão voltasse a tocar-me e decidi intervir. Sim, resolvi agir. E qual foi o resultado?
Catarina teve a perfeita dimensão da sua fragilidade diante da fúria que vinha ao seu encontro. Naquele instante viu como tudo podia desaparecer num clic. E recomeçar logo a seguir num estalar de dedos, sem sombra de passado. E percebeu que se uma pergunta nunca encontra resposta, é porque deve estar mal feita.
– Esse Francisco Xavier abandonou os filhos, que é a maior das crueldades; ficou cego ao que lhe era oferecido, desdenhou ou ignorou os sinais que lhe foram postos à frente. Para quê? Para correr como uma galinha tonta de enigma em enigma à volta do mundo como uma personagem dos livros daquele locutor de TV, como é que ele se chama? – Catarina lembrou-se mas não disse e S. suspirou enfadado, esvaziando a sua ira. – Tanto acidente para encontrar o nome. Vale a pena juntar mais sofrimento ao sofrimento por um nome? E isto o vosso livre arbítrio?
Houve um súbito silêncio. No ar só os alegres ditongos chineses que se exclamavam da rua. O senhor permaneceu imóvel e Catarina também não se mexeu, mas receou que a transmissão tivesse bloqueado.  S. acabou por fazer um gesto de abandono com a mão.
– O homem já começou a ouvir coisas dentro de quadros. Ainda não descobrimos os limites da nossa paciência, mas não é tolerável que um episódio tão insignificante possa ficar fora de controlo. Vamos acabar com esta deambulação insensata. Nem Boston, nem Atenas. Está na hora, vá buscá-lo e traga-o de novo a casa. À casa de origem. Lisboa.
Catarina endireitou-se na ponta da cadeira, ainda sem coragem para desvanecer a tensão nos músculos.
Não nos deixe ficar mal, Catarina. – disse o Senhor com alarmante  suavidade – Se o seu Francisco Xavier continuar tão aflito para se identificar consigo próprio teremos sempre o recurso de lhe marcar um encontro com Deus. Quando é a pedido não há remorsos.
Um vórtice negro. Desligou.


O telemóvel tocou e veio uma repentina bátega de chuva. Na esquina da 29 com a Madison Francisco viu o nome no visor e lembrou-se da frase: “Diz-lhe que estás viva, e que o teu nome é o nome dele”.
– Não posso viver sem ti. Amo-te. Vou aí buscar-te.

7– Little Church Around the Corner

Os grandes edifícios humanos são todos sobre um crime. Os arranha-céus são sobre o crime dos que caíram das suas vigas, dos que se atiraram das suas janelas, dos que dão um tiro nos cornos cá em baixo porque as gravatas lá em cima cancelaram as hipotecas. As pontes são sobre o crime das mãos a cheirar a maços de cem dólares, das mulheres que bateram com o corpo na água, até aí tão graciosa, depois de o distenderem em câmara lenta durante um segundo, o segundo em que recapitulam a vida miserável que os pais ou o marido lhes ofereceram antes de se deixarem cair na escuridão do rio. As catedrais são sobre o crime de crucificar o único homem que acreditou em nós, Senhor, antes de queimarem com tochas os pecados que nos aquecem vivos e um minuto depois de molharem as testas dos recém-nascidos para que não vivam mortos.


Francisco Xavier, este, o vosso, sabia desses crimes. Também conhecia outras trivialidades: que o sexo é a única forma de adiar a morte e que o amor é a única forma de lhe escapar, pelo menos até à hora em Que, Senhor.

Há uma semana que andava escondido em aviões, dissimulado nos hotéis, desaparecido pelas cidades-tifo da América, um mês depois dos labirintos de Atenas que cheiravam todos a mar mitra ou a mel mofo, das bibliotecas aquáticas de Vaitheeswaram, das ravinas ortodoxas e dos círculos hindus, das igrejas e dos templos, dos mistagogos e dos bramanes, dos bispos e dos babalorixás, dos diáconos, presbíteros, clérigos, padres e homens-bata com mais sangue no tecido e nas mãos, rais te partam, Senhor, que os anos passam e só me deixas o sal na boca, a poeira das viagens sem epílogo, os dedos gretados, os pés em sombra por saber cada vez menos e depois me levas tudo, mulher, pais que não são mas amava como se fossem, o gosto pela comida, o olfacto dos líquidos, a beleza indiferente das flores, a preguiça que vem com o que alguns chamam de felicidade — palavra que aprendi a odiar sem uma onça de cinismo e como nenhum outro som inciso à face da Terra -, o vazio exacto do fantasma que me atravessa a cabeça como vara de aço dentada, cinco vezes ao dia, cinco vezes a mesma dor de corno por andar mais perdido do que na madrugada do início, oito anos antes, quando percebi que o nome aos pulos no fim dos lábios não era meu, e que o nome verdadeiro estava perdido na gaveta das meias de um bêbado grotescamente invisível, de feitos lendários, apelido ubíquo e juízo mais aleatório do que um magistrado de calças coçadas e dentes comidos pelo gin com medo de trovões e apreço por cachopas sem idade para votar no partido que o fez deslizar na sua própria merda para o cadeirão de um tribunal da escória mais pura e sul-americana. Senhor.


Saiu da Morgan, a olhar um momento para o novo fim de linha, a linha que tinha traçado mentalmente e conferido em demasiados guardanapos do “Smalls”, até perceber que Sandeep já não aparecia e o dono do estaminé, um esboço de beatnick com barbas miríficas e hálito tão desagradável como os neo-cons, o ter posto delicadamente dali para fora.


O fim da linha era agora uma frase, que retirara, na tradução inglesa, de um dos sete salmos penitenciais do Livro das Horas de Catarina de Cleves, o salmo 131, que sabia chamar-se, comummente, De Profundis:


My soul waiteth for the Lord more than they that watch for the morning: I say, more than they that watch for the morning.


Esmagou a frase e as mais vívidas encarnações do Senhor nela guardadas, e atirou-as para o lixo.

Resolveu caminhar um pouco: para um homem perdido, havia poucas cidades melhores do que Nova Iorque. Desceu a Madison sem reparar nos publicitários brancos, apressados, com 5O Cent a sair-lhes dos i-phones, nas mulheres negras e orientais, mestres em nada-fazer, de Mizrahi nos pés, botox nas têmporas e vinho branco australiano nas veias enquanto os cães lhes tapam discretamente os joelhos, única prova da sua verdadeira idade geológica, nas crianças de mil cores e rostos, ora de acúcar, ora apimentados, como um anúncio da Diesel com duas vassouradas sebentas de realidade social, quando percebeu que já tinha percorrido sete quarteirões, da East 36th à East 29th Street.


Olhou em frente: “Little Church Around the Corner”, dizia o letreiro, estranhamente epicurista, junto à igrejazinha.


“Outra não…”. Mas tinha-se levantado às 04h30, o sol, indiferente às parvoíces terrenas, estava preste a recolher-se entre a Pennsylvania Station e o Garden, a perna esquerda ainda lhe doía da pancada que deu na banheira armadilhada do Chelsea Hotel, e resolveu entrar: pelo letreiro, faltavam quinze minutos para o encerramento.


Apesar do nome, a “Little Church Around the Corner” tinha mais ídolos, referências, capelinhas e homenagens do que o Giants Stadium: mosaicos venezianos do arcanjo Gabriel, chancelas revivalistas do gótico vitoriano, parapeitos com pelicanos a amamentarem as suas crias, púlpitos de bronze, painéis flamengos do século XVI revestindo as paredes do confessionário, um columbário para as cinzas dos paroquianos, um ícone, de Vladislav Andrejev, representando a Anastasis, vitrais sobre a igualdade racial, uma janela a figurar o actor Edwin Booth (irmão de um senhor de má fama chamado John Wilkes Booth ) encenando uma cena de “Hamlet”, uma capela a José de Arimateia, uma estatueta da Igreja Episcopal ao Bom Pastor, medalhões com referências à folha de palmeira dos persas, à flor de lótus dos egípcios, ao jarro de água dos islâmicos, à “cruz de fylfot” dos budistas (também celebrizada por “suástica”), à árvore da vida dos hindus, ao golfinho dos romanos e à nuvem celestial dos chineses — tudo aquilo era agora para Francisco, para este Francisco, um bricabraque de “recuerdos” espirituais.


Na igreja deserta de almas para acudir, só um pequenino vitral, no canto oeste, lhe chamou a atenção. Originalmente desenhado para uma igreja belga do século XIV, depois destruída nas Guerras Napoleónicas, mostrava Sainte-Foi, a cristã virgem da Aquitânia, perseguida e torturada até à morte pelos romanos ao recusar os rituais pagãos.

Na simplicidade do desenho, quase se podia sentir a graça da menina.

Já dera meia-volta para sair quando, ao fundo do seu olhar, reparou na capela junto ao baptistério.

Atravessou o septo, aproximou-se e entrou.

Ao lado do pequeno altar, uma réplica de “A Virgem e o Menino”, de Botticelli.

Pára, olhando para o quadro. Fixa-se por um momento na face da Virgem Maria: de uma estarrecedora serenidade, não parece o rosto de uma rapariga de quinze anos, a idade em que Maria teve o Menino. Olha-a bem, inclinada sobre a criança, que parece dizer qualquer coisa à mãe, e sente que aquele rosto tranquilo lhe é profundamente familiar, como se pertencesse à única passageira de uma barca que navega dentro de si há dezenas de anos, o rosto nas fotografias que Catarina recebera de Malange.

Ouve um sussurro.

Olha em volta, ilibando o susto pelo cansaço. Volta a ouvir, e percebe que o sussurro vem do quadro.

Aproxima-se mais, quase tocando a tela com a maçã do rosto: perante um quadro, deixa de tentar ver para tentar ouvir, quando repara que o sussurro vem do Menino.

Encosta o ouvido à boca rosa da criança, deixando assim a sua face a par com a face da Virgem Maria, quase se tocando, pele em pele, na mais primorosa das transubstanciações.

E consegue ouvir:


“Diz-lhe que estás viva, e que o teu nome é o nome dele”

 


6 — Sandeep

À mais de duas horas que Sandeep seguia com o olhar os esforços de um caranguejo, que, febrilmente, tentava sair de uma pequena reentrância feita na rocha pelo mar. Na sua indolência, parecia-lhe ter estado sentado naquela praia toda a sua vida. À sua volta, jovens raparigas em saris coloridos tomavam banho no meio de gritos e risinhos de excitação. Duas crianças corriam sobre o areal com um papagaio meio rasgado, enquanto um casal de europeus dormia andrajoso, enrolado numa manta, tudo sob um céu de chumbo que anunciava mais uma chuvada torrencial. Sandeep pensou em como Calangute, se transformava, durante a monção, numa praia relativamente banal e descolorida. Mas isso talvez fosse devido ao seu estado de espírito, que se podia dizer, não fosse dos melhores.

 O caranguejo conseguiu finalmente libertar-se e enterrar-se rapidíssimo na areia. Sem saber porquê, Sandeep voltou a pensar em Francisco. Três semanas antes, tinha-o deixado na estação de Chidambaram num decrépito autocarro partindo em direcção a Vaitheeswaram. Francisco tinha levado com ele a roupa que tinha vestida, e uma das suas crónicas dores de cabeça. Tinham-se separado com um grande mau estar instalado entre ambos, e desde esse dia não tinha tido mais notícias de Francisco. Em Madras, (continuava a chamar-lhe assim, que se danassem os mais nacionalistas) tinham assistido ao casamento de Pria, a sua prima que vivia em Chicago e que tinha decidido vir-se casar na Índia. Tinham partido depois da festa no comboio da tarde para Chidambaram, (Catarina tinha ficado na cidade para ir fotografar as grutas de Gudiyam) e uma vez chegados, tinham-se instalado na estação, à espera do autocarro que pela manhã os levaria a Vaitheeswaram. Tinham fumado um resto de marijuana que o irmão do noivo lhes tinha oferecido em Madras e Francisco tinha ficado visivelmente mal disposto. Independentemente disso, e desde que tinha deixado Catarina umas horas antes, Francisco parecia irrequieto e mal-humorado. E fora aí, apenas umas horas antes da chegada do autocarro, e para sua surpresa, que Francisco lhe comunicara a sua intenção de continuar sozinho. “Tenho que pensar na minha vida Sandeep. Tenho que ir sozinho à procura de quem sou. Desculpa-me”. Tinha-lhe então pedido que voltasse a Madras e esperasse ali por ele com Catarina. Sandeep, para além de não sentir uma especial simpatia por Catarina, implicava profundamente com a tensão que esta parecia criar em Francisco.

Achou tudo aquilo ridículo e um típico exemplo de um misticismo pedante de que só um Europeu pode padecer. Afirmou categoricamente que não voltaria a Madras. Disse-lhe frontalmente que não compreendia como um amigo pode deixar outro no meio da estrada, pedindo-lhe que se fosse embora assim sem mais nem menos. Discutiram, como os velhos companheiros de Universidade que tinham sido tantos anos antes. Disse-lhe que se sentia uma espécie de Passepartout a acompanhar um Phileas Fogg de pacotilha. Francisco ignorou a sua ironia e pareceu-lhe indiferente e distante. Confuso e magoado, Sandeep decidiu seguir viagem de acordo com o plano inicial, que tinham traçado alguns meses antes: seguir até Fort Kochi de comboio, regressar a Bangalore e apanhar o avião para Goa onde passaria os últimos dias antes de voltar ao ponto de partida, em Mumbai. Dali, no final do mês, regressaria então definitivamente a casa, em Boston. Despediram-se com um aceno e sem uma palavra.

Agora, ali sentado na areia de uma praia de Goa, pensava no que se teria passado com Francisco durante aquela viagem. Tinha-lhe tentado telefonar inúmeras vezes sem nunca obter resposta. Tinha-se esquecido de ficar com o número de telefone de Catarina, e agora, numa espécie de remorso tardio, estava seriamente preocupado com o amigo. Nos últimos anos, Francisco não tinha tido uma vida fácil. A horrível morte da primeira mulher e o drama de se ver sozinho com dois filhos, a perda dos pais, os surreais problemas com as autoridades em Portugal e os meses que tinha passado num hospital, pareciam ter feito de Francisco, um homem muito diferente do Português despreocupado que tinha conhecido nos anos noventa, quando ambos, juntos, tinham feito uma pós-graduação em Penn State. Decidiu que uma vez chegado a Boston, teria que tentar contactar de novo Francisco, por onde quer que este andasse, e tentar perceber o que verdadeiramente se passava com ele e como seria possível ajudá-lo.

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O avião caiu pesado sobra a pista do aeroporto de Logan em Boston. Só ao sair da porta e ao entrar no terminal, Sandeep tomou consciência que tinha deixado a Índia. Um cheiro adocicado e enjoativo a pipocas e cinnamon rolls, inundava o aeroporto. Apeteceu-lhe embarcar de novo e regressar imediatamente a Mumbai, que era afinal e sempre a sua cidade. O táxi deixou-o em Harvard Square. Caminhou deprimido os duzentos metros que o separavam do edifício de tijolos vermelhos e janelas de ferro forjado, onde residia. Ao entrar em casa, atirou o saco de viagem para cima do sofá e o correio para cima da mesa da sala. Tomou um duche, sentou-se na cama e de repente sentiu-se a pessoa mais só do mundo. Adormeceu decidido a esquecer aquela viagem que tanto prometera e tanto o desiludira.

Só na manha seguinte, quando passou de novo pela sala em direcção à cozinha é que se lembrou de ouvir as mensagens gravadas no telefone de casa. A primeira, a mais recente era de Veerle, a sua namorada holandesa, que Sandeep não tinha verdadeiramente vontade de voltar a ver. A segunda era da manhã do dia anterior. Sandeep sentiu um sobressalto. Era a voz de Francisco!

Falava numa correria de palavras. Estava em Nova Iorque. Tinha deixado a Catarina. Falava de um acidente de autocarro na Índia e de ter perdido o telemóvel. Tinha encontrado um Baba chamado Nadi Jyotisha e uma biblioteca de folhas de palmeira. Tinha estado em Atenas e tinha conhecido um tal Hydranthrópous. Referia-se a ambos como verdadeiras divindades. Este último aparentemente, tinha-lhe falado de uma Catherine de Cleves, de um livro perdido por mais de 400 anos e de um símbolo escondido numa iluminura. Um símbolo que era uma tatuagem. Uma tatuagem que o perseguia para onde quer que fosse. Uma tatuagem que era o seu nome. Fez ainda uma referência desconexa a Angola, a uma carta e a uma Tia chamada Susana. Sandeep achou Francisco completamente histérico, falando como que possesso. Propunha-lhe encontrarem-se no dia seguinte, à noite, num bar chamado “Smalls” em Greenwich Village. Explicava-lhe tudo depois.

Após a preocupação contínua dos últimos dias com a sorte do amigo, a Sandeep, não restava senão voltar para o aeroporto e ir ter com Francisco a Nova Iorque. Tudo aquilo lhe parecia produto de uma mente fora do sítio. Francisco tinha-se deixado impressionar por mais um dos tantos intrujões de aldeia de que o seu país era rico. E provavelmente na Grécia, a mesma coisa. Francisco precisava dele. Antes de sair, resolveu acender o computador e verificar a morada do tal bar em Greenwich Village. Estava já para desligar o computador quando se lembrou de verificar um pormenor da mensagem de Francisco. E escreveu. Catherine de Cleves. Diante dos seus olhos, lá estava de facto uma história de um famoso Livro de Horas, perdido e encontrado, um exemplo da mais fina arte de iluminar a religião e o espírito dos homens. E de repente percebeu o que o seu amigo estava a fazer em Nova Iorque. Sandeep leu em voz alta: Demons and Devotion: The Hours of Catherine of Cleves” January 22 through May 2, 2010 at the Morgan Library and Museum, New York City. Francisco estava ali porque era ali que estava, o que parecia ser, o objecto da sua obsessão. Provavelmente, via-o, numa segunda biblioteca de folhas de palmeira. Com as mãos trémulas imprimiu o texto. Dobrou a página, meteu-a no bolso, agarrou de novo no saco de viagem e saiu apagando a luz. Do computador, ligado sobre a mesa de trabalho, a luz terrível e assustadora de uma iluminura, banhava as paredes da sala escura.

5 — Pela mão de Catarina

E assim foi: no dia seguinte ele e Catarina já percorriam os escombros de Atenas à procura de um sinal que os levasse ao segredo do seu nome. Durante largos minutos, a caminhada prosseguiu ao ritmo do silêncio das suas vozes, a sua mão na mão de Catarina, nenhum dos dois se atrevendo a verbalizar as recordações que a cidade lhes trazia. Fora ali, uns anos antes, que tudo começara. Primeiro, a crise financeira mundial e as consequências devastadoras sobre a economia grega. Depois vieram os tumultos na rua, a repressão policial e dali até à violência generalizada e ao golpe de estado foi um pequeno passo. A partir daí, preferia evitar a memória da sucessão vertiginosa dos acontecimentos que levaram à debandada geral do país. Tinha consciência do privilégio de que beneficiara, o de ter para onde ir, ao contrário de tantos milhões a quem fora negada essa oportunidade. Só por isso regressara ao país que o vira nascer num momento em que ninguém se aventuraria a recomeçar a vida aí.

 Mas rapidamente a esperança dera lugar ao desânimo. Não só a morte dos pais que não o eram e a descoberta de não saber quem era. Mas, também e sobretudo, a perseguição sem tréguas que lhe fora movida ao investigar as suspeitas que se avolumavam sobre as tenebrosas manobras do governo para controlar a comunicação social. E depois o internamento forçado. Se a sua identidade já sofrera um rude golpe antes do hospital, quando de lá saiu não se reconhecia em nenhum dos seus gestos. Pura e simplesmente, o corpo deixara de lhe obedecer. E a mais ténue lembrança daquilo que deixara por fazer quando o foram buscar à redacção do jornal num colete de forças provocava-lhe, sempre, aquelas insuportáveis dores de cabeça, sempre aquelas pontadas que o demoviam de qualquer resistência ao sentimento de indiferença geral que, já antes de ele ter ousado lutar pela verdade, se tinha apoderado de todos os outros.

E lá estavam elas, as dores de cabeça, outra vez. Como uma vergastada que lhe tolhia o raciocínio sempre que lhe vinha à cabeça aquilo que o mantinha vivo. E sempre aquela sensação desagradável de não saber se podia confiar em alguém. Nem mesmo em Catarina. A verdade é que não conseguia preencher os vazios de memória que reduziam o seu passado a uma manta de retalhos sem ordem aparente. E, no caos mental em que mergulhara desde que entrara no hospital, Catarina era uma das pontas soltas por explicar. Não sabia como ela entrara na sua vida, como assumira junto dos seus filhos o papel da mãe desaparecida, como se instalara nele aquele sentimento de absoluta dependência em relação a ela. Sabia, isso sim, que não podia passar sem ela, como sabia que, mesmo antes de encontrar as palavras certas para verbalizar o que sentia, ela já as tinha na ponta da língua. E vivia angustiado por não conseguir impedir que todas as suas emoções fossem filtradas até à manipulação por Catarina. Qualquer que ele fosse, todo o seu ser estava nas mãos dela. Pensava – e aí sem o mais leve sinal de dor na cabeça, o que mais reforçava a sua irritação — que o desejo intenso que nele provocavam o corpo quente e as formas perfeitas de Catarina, e aquela pele dela que era a sua também, não podia ser explicação para tudo. Nunca sentira tanto ardor, tanta febre, tanta sofreguidão como aqueles que vinham à tona quando os seus corpos se fundiam e a sua mente se distraía da obsessão que tomara conta dele e o trouxera de volta a Atenas.

Havia algo que lhe dizia que Catarina só estava ali para o controlar, para o manter no colete de forças a que há muito estava sujeito. Mas bastava um sorriso dela para o desarmar, para o dissuadir de qualquer pergunta inconveniente ou embaraçosa. E, nesse momento, convencia-se do absurdo da desconfiança que Catarina lhe inspirava.

4 — Até ao chão da voz activa…

Nem mais uma palavra ouviu da carta que Catarina lhe lia. A voz dela ecoava, ao fundo, enquanto se apossava dele a confusão de todas as coisas. Entre a desunião dos momentos todos e o símbolo na pele da Luísa tentava ver um sinal. Mas nada mostrava ainda o seu sentido. Viera à procura do seu nome inteiro, no qual se mostrasse quem é, mas tudo lhe lembrava apenas aquilo que poderia ter sido. A Catarina. A Luísa. A Susana.
– Francisco!? Francisco!?
– Sim! Catarina. Estou aqui.
– Não achas isto tudo extraordinário?
– É. Extraordinário. Nem sei bem o que hei-de dizer-te. Na verdade, estou atordoado. Deixa-me falar com a Luísa e arranjar uma maneira de ir para aí. Amanhã falamos.
Pediu o jeep emprestado à Luísa para poder ir até Chennai, onde a Catarina o esperava, no hotel. As quatro horas de viagem iam passando indistintas na indiferença dos solavancos da estrada e do espírito. Parou, perdido, sem que houvesse outro caminho. Precisava de tempo e de ar. Abriu a janela. Respirou fundo. Mas o ar não transpunha os angustiados limites dos seus pulmões. Com a mente e o coração sufocados, tirou do bolso o papel que lhe dera o guru no templo de Vaitheeswaram. E então leu-o. Devagar.
«Duas vezes terás de morrer até encontrares o teu nome inteiro. Da água surgirá a terra firme e da terra surgirá o ar e o espírito. Segue a estrada que vai até Atenas. Aí encontrarás Hydranthrópous, único descendente vivo do sábio Tales, de Mileto. Perguntar-lhe-ás então pela chave com a qual hás-de abrir a porta que encerra o segredo da vida.»
«Duas vezes terás de morrer!» Agora, como no templo, aquelas palavras sobrepunham-se a todas as outras. Resistia-lhes, imediatamente. Não queria ter de morrer, apesar de não se sentir bem vivo. A predição das suas mortes instantemente o remetia para a morte dos seus pais, no Porto, três anos antes. Para o desastre, inesperado. Para a dor à espera, no hospital. Para a terrível revelação de que o sangue deles não era o seu. Para a interrupção das vidas deles. Para a desconexão da sua.
Desde então tudo mudara. Crescera nele, continuamente, o desânimo de ser quem era. Nada parecia ligá-lo ao mundo, pelo qual andava, alheado. Catarina tentara ajudá-lo, mas estavam deslaçados. Apenas num fundo de si persistia ainda, escondido, o desejo de ser quem seria. E foi dele que surgiu a ideia da vinda aos templos de Vaitheeswaram e de Fort Kochi. Os Norton´s, uns amigos da Catarina, que costumavam passar férias na Índia, falaram-lhes, não sei porquê, destes lugares, aos quais os peregrinos acorriam à procura dos seus nomes. A ideia dilatou-se no seu fundo até que o latente desejo de si mesmo começou lentamente a descobrir-se na demorada preparação desta viagem. «Duas vezes terás de morrer até encontrares o teu nome inteiro.» Seriam estas suas mortes as duas mortes dos seus dois pais?
«Da água surgirá a terra firme e da terra surgirá o ar e o espírito.» Mais calmo, ia meditando, enquanto voltava a guiar. Aquelas palavras, embora incompreendidas, permitiam-lhe recomeçar a pensar. A lágrima de onde partira tinha agora de chorá-la por dentro, dissolvendo-o, inteiro. Chorar, sem perceber, até ao chão de si mesmo. Só assim a dor seria sua. Só assim a poderia dizer. Afirmando-se, estaria só, mas então já não teria tanto medo. A água, brotando de dentro, não secaria, ela também, com o seu secar. O ar? O ar não sabia. Mas já conseguia respirar.
«Da água surgirá a terra firme e da terra surgirá o ar e o espírito.» Chegara a hora de se afirmar. Não já na água maternal, mas fora dela. O mundo inteiro fora, até hoje, apenas e tão-somente uma mãe. Todo ele se alargara, ao recebê-lo, prenhe de um feminino amor por si. O amor dos dois se confundia, dando-lhe tudo, pedindo-lhe nada. Mas eis que sentia, lá dentro – num outro dentro, num dentro de si –, um poder irreprimível de afirmar-se e uma vontade de marcar novas fronteiras. Sentia crescendo em si a força de um toiro branco, daqueles capazes de roubar a uns pais a única filha e de, carregando-a virilmente no seu dorso, se adentrarem pelos líquidos caminhos, neles firmando ilhas de terra viva.
O espírito!? O espírito move-se sobre a superfície das águas, para as quais olha, sem tocá-las. Por isso agora, entre ele e elas, serei terra, na qual me erga capaz de amar e ser amado. Terra-água. Terra viva. Terra-planta, terra-bicho, terra-homem. Terra-anjo? Terra-Deus? Já se verá. O depois virá depois. E será, num só, dos dois. Mas agora é tempo apenas de afirmar. De romper, de dividir, de decidir. «Segue a estrada que vai até Atenas.»
Chegara. Era tarde. Subiu as escadas do hotel e entrou no quarto onde Catarina já dormia. Tocou gentilmente no seu ombro, enquanto pousava as chaves na mesa-de-cabeceira. Então disse-lhe, baixinho:
– Catarina. Sou eu. Dorme. Já não vamos para Fort Kochi. Amanhã vamos para Atenas.

3 — Pretérito Imperfeito

Francisco voltou-se para o intérprete. Tinha perguntas. Queria respostas. O que estava no papel era demasiado absurdo. Certamente um equívoco, fruto de tanta tradução, num e noutro sentido. Mas antes que pudesse dizer o que quer que fosse, o guru leitor começou a juntar e a empilhar as folhas de palmeira. As suas. Porque o eram, disso não tinha a menor dúvida. Cabeças baixas e vozes ainda mais baixas, o guru e o astrólogo conversavam entre si, como se ele já ali não estivesse. E o intérprete, impassível:

- You have to go, sir, no more for you here, sir

Saiu. Desconcertado. De papel na mão. E agora? A luz intensa do sol já alto, depois de horas naquela penumbra, era quase insuportável. Olhou à volta, em busca de uma sombra. Foi então que a viu.

Vinha na sua direcção. Decidida e apressada. Alta e esguia. O cabelo escuro e curto, ondulado e ligeiramente despenteado. Na mão direita, um saco enorme, castanho, cheio a abarrotar. Tal como sempre a conhecera e a recordava.

- Xavier, tens que vir comigo.

Xavier. Só ela o chamava assim. Desde aquela tarde, no bar do liceu. A propósito do seu segundo nome. Diferente, comentara alguém. Nome de santo viajante, dissera ela. Nome do meu avô, rematara ele. As meninas presentes acharam graça e começara a brincadeira do Xavier. Que se prolongara na faculdade, ante a profusão de Franciscos nas pautas. O nome pegara, nas sessões de estudo e nas saídas. Mas, depois, a vida a sério e o Francisco haviam levado a melhor. O Xavier subsistia apenas nos telefonemas e nos postais dela, que chegavam dos vários cantos do mundo. Cada vez mais espaçados. Sobretudo depois daquela noite, que ainda hoje Francisco evitava lembrar.  

- Xavier, estás bem? Tens que vir, anda tudo à tua procura

- Luísa, o que é que estás aqui a fazer?

Vacinas. E consultas de pediatria. Numa clínica próxima, ao abrigo de um programa que envolvia várias ONG, entre as quais a sua. Estava ali há quase um ano, vinda de Goa e, antes, de Puducherry. Tudo isto lhe contou Luísa, enquanto conduzia o jeep no meio do trânsito caótico. 

Antes, ainda no templo, começara por lhe explicar a razão da sua surpreendente presença.

- A tua mulher está numa aflição, há vários dias que não consegue falar contigo…

Acalmado o alarme inicial – “não, não aconteceu nada, os teus filhos estão bem” – Luísa relatou o pouco que sabia. Catarina ficara, conforme combinado, em Chennai. Estranhara a ausência de notícias de Francisco e tentara repetidamente ligar-lhe para o telemóvel. Em vão. Ao fim de dois dias, contactara a Embaixada e dera o alarme. Alguém do consulado de Goa ligara para a clínica, nessa manhã, a pedir ajuda para o localizar. Por coincidência, Luísa estava a observar uma criança, com sintomas de varicela. O avô, que a trouxera e à mãe, lembrava-se de um estrangeiro no autocarro vindo de Chidambaram, dias antes. Ia para o templo. Talvez ainda por lá estivesse. E oferecera-se para a acompanhar.    

Francisco tirara o telemóvel da mochila. Não funcionava. Lembrava-se de ter enviado um sms a Catarina quando o autocarro partira. E de o ter apanhado do chão, na confusão que se seguira ao rebentamento do pneu. A verdade é que entre o acidentado percurso até ao templo e o estranho fascínio que por lá o envolvera, havia perdido toda e qualquer noção do tempo. Quatro dias? Seria possível?

- Estou sem telemóvel. Emprestas-me o teu?

- Não adianta, esta zona não tem rede, vamos ter que ir até à clínica e ligar de lá.

Caminhavam rumo à saída do recinto quando apareceu o homem. Era o seu companheiro do autocarro. Não pareceu surpreendido ao ver Francisco. Contente, sim. Fez-lhe o seu largo e inconfundível sorriso sem dentes. E dirigiu-se a Luísa, numa língua incompreensível, gesticulando e apontando para ele. Ela traduziu:  

- Diz que o que aconteceu lá dentro é o teu karma. Ou então não era ainda a altura, tens que voltar, para saber… Mas tu, que tens o mesmo nome, lembra-te do caranguejo … 

Francisco fitou-os, estupefacto. Nada daquilo fazia sentido. O homem desdentado. À sua procura, com Luísa. A comentar o que sucedera na biblioteca. E como sabia o seu nome? E que história era essa do caranguejo?

- Caranguejo?

- É o caranguejo de São Francisco Xavier, uma lenda muito antiga, aqui por estes lados.… Basicamente significa que às vezes é preciso perder primeiro, para encontrar depois …

O homem sorria. De súbito, fez um gesto de despedida e afastou-se, em passo ágil.

O jeep ora avançava lentamente, ora parava. Francisco fechou os olhos e encostou a cabeça à janela. Sentia-se exausto e incapaz de raciocinar ou reagir. 

- Xavier, podes passar-me os meus óculos escuros? Estão aí dentro do saco, num estojo preto…

Foi ao dar-lhe os óculos para a mão direita, que Luísa estendera sem desviar o olhar da estrada, que Francisco reparou na tatuagem. Na parte inferior do antebraço, junto ao pulso. Um símbolo. Impenetrável, mas estranhamente familiar.  

Espreitou, pela janela, a imensidão de gente que caminhava ao longo da estrada. Para o templo e de regresso. Homens e mulheres, de todas as idades. E crianças, muitas. Ao colo e pela mão. Pensou na mulher do sari cor de coral e na menina. Ainda estariam lá? Ou iriam também, estrada fora, naquela multidão? A mão pequenina na mão da mãe. Num sobressalto, lembrou-se! O pano que a mulher bordava. O seu pulso, que a repetição do gesto de passar a agulha e puxar a linha deixava entrever, tatuado. O pendente ao pescoço da menina, numa fita cor de coral. O símbolo. O mesmo que marcava o pulso de Luísa…

- Cá estamos

A clínica funcionava num conjunto de pavilhões brancos pré-fabricados. Tinha a toda a volta uma vedação de canas com uma trepadeira verde. Luísa parou o jeep junto do maior. Entraram. A sala de espera, ampla e luminosa, estava cheia. Havia crianças por todo o lado. Francisco via-as, através da parede de vidro do gabinete onde Luísa o deixara. E ouvia, apesar da porta fechada, a algazarra de vozes pequeninas que riam, choravam, tagarelavam e guinchavam. Pegou no telefone e marcou o número. 

Tinha prontas várias explicações e outras tantas desculpas, para tentar travar a rajada de recriminações, não totalmente imerecidas, com que sabia bem que ia ser recebido. Mas, mais que zangada, Catarina estava preocupada. E muito assustada.  

Desde que Francisco partira para Vaitheeswaram que um homem ligava insistentemente para o hotel, à sua procura. Catarina atendera-o várias vezes. A conversa era sempre a mesma: queria falar com Francisco, era urgente, important information, delicate issue. Não se identificava, nem deixava qualquer contacto. 

Depois, ao cair da tarde do dia anterior, fora entregue um envelope na recepção do hotel. Para Francisco. Por uma mulher de sari roxo, sem mais explicações. Catarina abrira-o, claro. Lá dentro, três fotografias antigas, com inscrições manuscritas no verso. E uma carta. Também antiga. Escrita em Malange, a 1 de Fevereiro de 1965.

- Queres que ta leia?

Francisco encostou-se para trás na cadeira e fechou os olhos. Do outro lado da linha, a voz de Catarina:

“Minha querida Susana”                                        

2 — Sobre a água

Pegou na mão da menina e olhou em volta. Os outros passageiros já se sentavam na berma, ao pé do autocarro manco. Sem pneu para mudar, esperariam horas por boleia como de costume. Na estrada apinhada para Vaitheeswaram só passavam camiões coroados de gente.

A sua sombra alta projectava-se agora de tamanho igual à da menina. E de outra sombra ao lado. Algo se desconcertou em si antes de olhar. Pressentiu-lhe a presença, tocou-o antes de o tocar o almíscar voante do tecido. A mulher tinha uma ferida na fronte. Não falaram enquanto ele apressou o curativo. O sangue estancou num silêncio sem peso. A mão pequenina já sem medo a segurar a cor do sari da mãe.

— We go Nadi Jyotisha.

Queria apressar a ida. Mas aqui o tempo é uma roda furada. Um calor abafado de esponja. O coral de um sari que se lhe acende em perturbação. Uma mão pequenina de olhos fundos. A distância mede-se em tempo, duas dezenas de quilómetros vão a compasso desta caravana de carroças de búfalos domésticos que agora passa. Sobem para o curto espaço livre de uma, e daí para a confusão ordenada do caminho ao longo do rio Kaveri. O fluir do rio imita a corrente de gente, festa de buzinas pó animais. Sorri para o intervalo do aviso pintado em pedra na estrada, letras negras destacadas na cal: “Go home in piece, not in pieces”.

Acomodações feitas nos arredores do templo de Vaitheeswaram, no dia seguinte seguem em trio na direcção do santuário, no rasto dos peregrinos. O templo ergue-se circular e em pirâmide para cima e para baixo, repetido na água do lago em volta. Palácio borboleta líquida.

Esperam na fila às portas da biblioteca do templo. Imaginou-a sem as cortinas espessas das paredes, uma biblioteca de água. Onde encerrados durante séculos viviam destinos escritos em folhas de palmeira. A impressa herança dos sete sábios. Milhares de mapas Nadi à espera durante séculos. Todas as vidas de todos os habitantes do mundo. Não, de todos não. Apenas as de quem os procurava.

Na extensa fila encostam-se no corredor de pedra casais jovens de mãos suadas, sentam-se no chão estudantes de calcanhares nervosos, velhos de cores indecisas. A menina compenetrada alinha pauzinhos de madeira, a mulher-mãe borda em pano outrora branco o início de um símbolo impenetrável.

Horas grossas, inteiras, até chegar a vez deles. Demanda de dias inteiros. Primeiro deixar a impressão digital do polegar direito, os homens, do esquerdo, as mulheres. Voltar no outro dia, mais indicações, regressar num dia outro. Entre o farnel de arroz seco repartido que elas comiam com os dedos sobre pão redondo e molho vermelho picante, sem nunca o seguir para um restaurante, os rajás que lhes comprava ao vendedor da carrinha rosa choque, as orações no templo ao deus Shiva observadas em burburinho de flores e incenso. E esperar nas sombras de outra noite e outra.

Os tambores do templo soaram o Kathakali durante toda a última noite. Assistiram ao espectáculo em frente ao lago. A menina dormia no colo de coral da mulher-mãe, a mão pequenina a segurar o cabelo molhado sobre a testa. A ternura sobre a testa. Ela sabia. Elas sabiam. E esse conhecimento unido intimidava-o e confortava-o. Sustentava-lhe a espera e a busca. A inquietação. A urdidura do tempo abria-se em sequências de coroas de círculos sobre a pele. Vidas antes de vidas ressoavam com eles nos tambores da noite, nas máscaras pintadas e nas saias rodopiantes dos dançarinos sobre a água, nesta boca de silêncios sem sorriso. Nesta.

Insónia de tambores até amanhecer. Às portas da biblioteca de água descalçam os sapatos, elas entram por uma porta, ele por outra. Três homens sentados esperam numa luz de poeira húmida. O guru Nadi, profissão e barba branca hereditárias, traz de um recanto de estantes escondidas sete maços de folhas de palmeira. Irmanadas por corda gasta, preservadas em óleo de sangue de pavão. Espalha-as sobre a mesa. Irá ler as folhas em cântico tamil, soprar a energia dos canais que respiram o tempo.

Camisa de linho bege empapada em suor, ele adia o corpo como antes de uma radiografia. O guru leitor das barbas não se apressa, ainda não tem certezas. Faz perguntas que o tradutor calvo transporta em inglês. Ao lado, o astrólogo consulente aguarda para comprovar se o mapa desenhado ali defronte é o do cliente. Falta confirmar iniciais de letras, esperar o último jogo sim ou não. “You have two sons?” Yes. “Your mother’s name begins with an S?” Yes. “Your father’s name begins with an A?” Yes. “Your name begins with an E?” No. Guru e astrólogo sussuram em dialecto, reviram as folhas dos sete maços, buscam. Alvoroço, abanam as cabeças, o tradutor em ponte: “Estes maços eram a nossa derradeira hipótese. As tuas folhas não estão nesta biblioteca. Mas sabemos onde podes encontrar o descendente de um dos sete sábios. É lá que está o que procuras”.

O guru leitor rabiscou a lápis duas palavras num canto de papel de embrulho. Deu-lho. Camisa beje em desalinho, ele levantou-se e decifrou lentamente cada letra. Estremeceu.

- Não pode ser. 

1 — O Caçador de Tempo

No exacto instante em que fechou a porta de casa, blindada, cinco voltas no trinco, uma, duas, três, silenciosa e densa, ouviu cair, tinha de ser, só podia ser, uma bola da árvore de Natal. Saltitou, rolou. Algo tremera na raiz do mundo. Quanto sabia, quanto poderia saber de si mesmo no espelho dos objectos? Das relações? Algo tremera na raiz do mundo, a chave no trinco e entre a pressão do polegar contra o indicador, o ouvido a decidir: a rolar, parou. Quatro. Desde a raiz do mundo até ao breve soluço no ramo alto, algo tremera e desprendera a bola de papel cartonado, forrado de pratas impressas de bagas e ramos de azevinho, oca caíra, alta e leve no chão de tábua corrida, a rolar o som claro até ao tapete, parou. Cinco. Algo tremera na raiz do mundo e reverberara nos ossos o que as articulações não amortecem. A bola caída, parada rente ao tapete, uma lágrima inteira, cheia, caída no chão, à porta de casa. Nenhum tapete a aconchegar-lhe a queda desde a raiz do mundo. Tinha-lhe acontecido isto antes. Duas vezes isto. E agora outra vez isto de, sem aviso, em sincronia, sem nexo aparente de causalidade, isto de a vida se deixar inspirar e a consciência dela, na expiração, lhe explodir os sentidos e o pensamento no centro do peito, é a água, o lugar exacto onde o eu se lhe diluía e por uma fracção de segundo, uma fracção de segundo apenas, e o tempo suspendido mostrava-lhe a eternidade em perfeito equilíbrio. Sem julgamento. Sem existência individual apesar de si mesmo. Depois, este laço desfazia-se e a ligação com as coisas voltava a ter a gravidade que lhe era própria: dois dedos abaixo do umbigo. Desfazia-se com uma lágrima inteira, cheia, e num murmúrio, no centro do peito, nos escombros dos sentidos:
— água primordial. O que chega aos olhos é a água primordial.

Isto. E por isto já a chave no bolso, por isto já a caminho do aeroporto, por isto já em Chennai, por isto já em Chidambaram, por isto em Vaitheeswaram Kovil, por isto em Fort Kochi. Não. Em Fort Kochi ainda não. Eram vinte e poucos os quilómetros de distância entre Chidambaram e Vaitheeswaram. De autocarro. Nenhum turista. Fechou os olhos e deixou a cabeça bater contra o vidro a trepidação da estrada, e pelo corpo, a trepidação da estrada. Assim embalado, com brusquidão de mãe impaciente, nem dormia nem acordava. A cabeça repousada no vidro, o pescoço inclinado para a direita, a camisa de linho amarrotada em cada movimento do corpo, bege, e as calças de linho, beges, as pernas compridas demais para o espaço estreito entre os bancos, a napa colada às costas numa só mancha de suor. Abriu os olhos. Ao lado, um homem sorria-lhe a falta de dentes, as mãos firmemente seguras no encosto da frente como se fosse cair do lugar para fora. Dedos de amarelas unhas irregulares afundadas na carne, largos dedos deformados. A sorrir-lhe a falta de dentes. Endireitou-se no banco. A acenar-lhe a cabeça, a fazer –lhe com a mão o gesto de agarrar o banco, sorria-lhe. Por insistência, ou simpatia, agarrou também o banco da frente e antes que tivesse tempo para voltar a fechar os olhos, os braços primeiro, o estômago e o pescoço depois, receberam o embate. Quatro mãos firmemente agarradas ao banco da frente, o homem a sorrir-lhe ainda, a assentir com a cabeça, o sorriso de um idiota, mas nos dentes, now you know, now you know. Saíram. Não havia feridos graves, nada que fosse além das escoriações, se se descontasse o pneu rebentado de morte. Apalpou o braço de uma menina que chorava em gritos o susto — a mão, tão pequenina de medo, a segurar a dor no pulso do outro braço. E sacudiu o médico nele que ia para toda a parte com ele.
come. We go Nadi Jyotisha.
A verdade estava na estrada, de pé, a olhá-lo, a falar-lhe a partir daquela boca, como antes tinha estado sentada ao seu lado sem que a notasse. Porque ele era aquele que procurava, a verdade viera ao seu encontro. Cego. Tinha vindo para ver o seu nome, e o dos seus pais e dos seus filhos, escritos em folhas de palmeira, toda a vida de todos, presa entre duas tiras de madeira perfuradas, páginas de palmeira perfuradas, identificadas e catalogadas a partir da impressão digital do seu polegar direito. Não para uma predição do futuro. Este, tal como o passado e os passados, já tinha acontecido e estava registado há tanto tempo, que fora primeiro dito de boca a orelha, depois fechado dentro do alfabeto grantha e vatteluttu, em sânscrito, em tamil, guardando na linha curva da mais poética das línguas, o puro conhecimento perdido, oferecido pelos sete sábios ao homem. Até o do já esquecido e o do porvir: desde o pecado hediondo de uma existência antes da memória de ser, ao dia da morte encerrado no último batimento do coração deste corpo cuja vida se mede em inspirações.