Desvio

Vi-os uma vez num velho teatro de Berlim. O projecto na sua origem nasce da enorme inspiração criativa do seu fundador, Lloyd Newson, um bailarino, coreógrafo e artista de origem australiana que vive e trabalha em Londres. Chamam-se DV8 Physical Theatre e a enorme criatividade demonstrada no trabalho que têm desenvolvido ao longo dos anos, resulta de uma muito segura utilização de múltiplos estilos e meios de expressão. Os dois excertos em filme aqui em baixo são um bom exemplo disso.

The Cost of Living — 2004

Dead dreams of monochrome men — 1990

Meet you at the rooftop

Mudar de casa nunca é fácil. Sobretudo se debaixo de 37 graus centígrados, numa cidade húmida e sem uma ponta de vento. Foram duas semanas passadas numa casa desconhecida, sem ter uma verdadeira cama, sem frigorífico, sem livros, sem roupa e sem ar condicionado, movendo caixas de um lado para o outro, sentindo-me como um daqueles escaravelhos africanos que empurram bolinhas de excremento sobre o solo duro da savana, sem qualquer lógica aparente e sem nunca concluir o que quer que seja. E o pior de tudo foi fazer tudo isto sem ter uma redezinha em casa onde ligar o meu portátil. Agora o pior já passou e posso finalmente regressar a este acolhedor cemitério e às lides da gente morta. De qualquer maneira abandono de imediato o novo lar, deixando o resto da família a abrir as últimas caixas, partindo, antes que comecem as férias, para um derradeiro périplo até à ilha de Manhattan.

A soar-me nos ouvidos, levo esta canção.

Lovin’Spoonful — Summer in the city — 1966

Get in trouble with Saul Bellow

O Diogo já aqui falou dele. Por aqui discutem-se os gostos gastronómicos do outro.

Por aqui, em alternativa, podem deliciar-se com uma melancólica mas muito inspirada composição, em que o primeiro canta o segundo.

Saul Bellow — Sufjan Stevens

What’s the worth of
All the work of my hands?
And the worst of
On Lake Michigan

Get in solid walls 
With the know-it-alls
Get in trouble with Saul Bellow

And my good friends
With their eyes on what it takes
I could kiss them
But the bravest make mistakes

Get in solid walls
With the know-it-alls
Get in trouble with Saul Bellow

Get in solid walls
And with what it calls
Get in trouble with Saul Bellow

Uma short short com bibelot

Há muito que ninguém a tocava. Há mais de um ano, pensou. Há mais de um ano que vivia na mais completa solidão. Sentia que a sua existência não importava a quem quer que fosse. Estava ali, abandonada, como uma vulgar peça de mobiliário ou um bibelot de enfeite industrial. E pensando bem, sentia-se ainda jovem, fresca, cheia de coisas para dizer e emoções para viver e transmitir aos outros. Sentia uma desesperada saudade de contacto humano. Nos velhos tempos do escritório, quando ainda estava na luminosa sala grande, ao lado do escritório do patrão, trabalhava lado a lado com uma grande equipa. Os dias eram vivazes e alegres, e o seu trabalho mantinha-a no centro da atenção de todos. Mas a verdade é que desde que o Sr. João e os outros tinham sido despedidos e a tinham mandado para aquela sala, nunca mais ninguém se dignara a olhar para ela. Sobretudo aquele simplório do Sr. Mateus, que ali sentado só tinha olhos para os seus relatórios da produção e para aquela flauzina da menina Augusta, que ali ao lado, no escritório da contabilidade se senta em frente de uma daquelas coisas novas, cheia de fios entrelaçados e uma pantalha toda cheia de colorido.

Era mesmo difícil estar ali, a envelhecer, sabendo-se ser a última de uma ilustre linhagem de máquinas de escrever.

Blood on the walls of ETGM

Como o JNA está a dar música a quem hoje à noite por aqui passou, aproveito para dar alguma a quem por aqui ainda anda.

O critério de escolha é puramente estético. Pura conjugação cromática com os tons por vezes mais sangrentos deste blog.

Wolf like meTV on the radio

The hardest button to button — The White Stripes

Pássaros raros

Herbert Vogel foi durante toda a sua vida um modesto funcionário do United States Postal Service. Dorothy Vogel, a sua mulher, uma dedicada bibliotecária da Brooklyn Public Library. O vencimento dela, serviu-lhes, ao longo dos anos, para pagarem as despesas de uma existência que se pode descrever, no mínimo, como bastante modesta. O dele, por outro lado, usaram-no para financiar a criação de uma das mais completas e complexas colecções de arte contemporânea e minimalista que algum privado jamais coleccionou nos Estados Unidos ou na Europa. Uma parte da colecção, encontra-se hoje na National Gallery of Art em Washington e uma outra em permanente movimento à volta do mundo. Os exemplares mais interessantes da colecção, no entanto, penso que se encontram ainda no pequeno apartamento que o casal possui em Brooklyn, enfiados debaixo da sua cama de uma vida, encostados ao aquário das tartarugas na bancada da cozinha, ou pendurados por cima do autoclismo, na parede da casa de banho.

Ladies and Gentlemen, please meet, art lovers and collectors, The Vogels!

Herb & Dorothy — a film by Megumi Sasaki 2009

Plover eggs and champagne, anyone?

Com a naturalidade que só um upbringing católico e aristocrático lhe poderia dar, Sebastian convidou Charles para um almoço nos seus modestos aposentos universitários. Conheceram-se ontem à noite quando Sebastian, chegado ao college com uns amigos depois de mais uma noite de pândega, lhe deixou, através da janela e no meio do chão da sala, o conteúdo do seu jantar. Ainda não será hoje que Charles entrará definitivamente no exclusivo mundo de Sebastian e de Aloysius, o seu pequeno urso de peluche. Mas será durante este requintado almoço que Charles, pela primeira vez, se dará ao doce privilégio de mordiscar ovinhos de borrelho regados a champagne, e em que terá o exquisite pleasure de conhecer o delicioso e frolicky, Anthony Blanche. Um homem de mundo que só sabe beber Brandy Alexander´s aos pares e que nunca deixa em mãos alheias a escolha da cor do seu verniz para as unhas (dos pés).

Eterna Paixão

Ela. Sempre ela. Sempre a mesma. 
Aquela que vive nos sonhos dos homens.
Desde sempre.
E nos sonhos das mulheres.
Que também sonham,
com os homens,
e com a mulher dos seus sonhos.
Desde sempre. Sempre a mesma. Sempre ela.

Making plans for Friday night…

Ossos Virtuais

Lembrava-me de lhe ter visto os “Ossos” em 97 numas férias em Lisboa, mas depois perdi-lhe o rasto. Recordo-o terrivelmente dark mas incrivelmente belo. Sei agora que fez, mais tarde, coisas ainda melhores. Descobri-o de novo aqui, que por acaso é uma pequena cinemateca virtual e onde por acaso vale bem pena ir passear.

Lenny´s mine rocks!

Alguém me disse no outro dia que o velho Leonard foi sempre um poeta chato e reaccionário.
Lá terão as suas razões mas com certeza que nunca ouviram isto:

Tiko

Red House, Kitsilano — Tiko Kerr

Em 1974, em vésperas de entrar para a faculdade de medicina de Toronto, Tiko Kerr decidiu fazer uma viagem. Acabou, por durante dez anos, cruzar o planeta em todas as direcções, tentando encontrar-se consigo mesmo enquanto desenhava e pintava tudo o que o interiormente o tocava. Descobriu que era um artista e que a carreira de médico teria que ficar para uma outra encarnação.  A sua viagem de descoberta interior, no entanto, viria a ser dramaticamente travada, quando em 1983 lhe foi diagnosticado o vírus da SIDA. Começou assim, nesse ano, uma luta de mais de vinte anos em que se sujeitou ao estigma e à descriminação a que a sua terrível condição o votaram e a uma série de tratamentos devastantes sobre a sua vida pessoal e profissional. Chegou a estar quase cego, incapaz de caminhar e com um peso corpóreo de menos de 45 kg. Tratava-se com uma combinação de  80 pastilhas diárias dos quais resultavam terríveis efeitos secundários.

Em 2006, o seu médico, descobriu que uma pequena empresa na Bélgica tinha a decorrer testes clínicos em dois compounds totalmente revolucionários que tinham o potencial de praticamente eliminar a presença do vírus. Os compounds eram o TMC114 e o TMC125, ambos desenvolvidos por uma equipa de cientistas que, através de uma posterior aquisição, são hoje meus colegas de trabalho. Após a resistência inicial do governo Canadiano em lhe aprovar o tratamento com estes dois medicamentos ainda em fase experimental, e lhe cobrir as respectivas despesas médicas, Tiko conseguiu, através de uma campanha mediática cerrada, (chegou a colocar caixões vazios à porta do Ministério da Saúde), que o governo acabasse por lhe aprovar e pagar o tratamento. Em dois dias após o inicio da nova medicação, os níveis do vírus no seu sangue reduziram-se em 90%.

Tiko é hoje um reputado artista, um atleta (é um remador de sucesso), um spokesperson de inúmeras associações que apoiam os doentes de Sida em todo o mundo e um muito activo defensor dos direitos dos mais desfavorecidos na sua comunidade. Decidi convidá-lo para vir falar à minha equipa de trabalho esta semana em Princeton. E ele, aí, contou-nos esta sua história e connosco riu, e chorou. E nós rimos e choramos com ele. Durante os dois dias que esteve connosco, conheceu-nos e recolheu as nossas ideias. Fez um grande desenho numa tela e convidou-nos a todos a pintar. No final tive o prazer de em palco, com ele, e para as mais de 300 pessoas que tinham dado o seu contributo, descobrir, com grande pompa, a pintura que nos fez e que é, afinal, a prova de que ele está vivo, que nós tivemos alguma coisa a ver com isso e que a única coisa que lhe devemos, é continuar.

E o desafio é claro. Agora que já quase curámos os ricos, temos que quase curar os pobres. O plano: colocar em África, a dez centésimos de dólar por pastilha, os mesmos compounds que salvaram o Tiko e tentar debelar esta terrível praga que continua a matar, por ano e só em África,  1,5 milhões de pessoas e a afectar a vida de 25 milhões de outras, homens, mulheres e crianças. Sem querer parecer pretensioso, quando não estou aqui a escrevinhar ou em casa a gozar os doces prazeres de uma tranquila vida familiar, ando por aí, com este danado plano na cabeça que é, verdadeiramente, a única coisa que me mantêm acordado de noite.


Esta não é a capital do estado de Nova Iorque

Nemésio contado às criancinhas

Gustave Doré (1832-1883)Tudo começou com um piano de cauda em queda livre. Afinal, sempre eram cento e setenta quilos de teclas e pés e cauda, e apesar de lançado de um não muito alto segundo andar, quando me caiu em cima causou-me, digamos, algum dano. Naturalmente que ao perder os sentidos, não me apercebi das trevas que viscosas e pestíferas, de imediato me abraçaram a alma, que naquele momento, já destacada, observava curiosa o meu corpo inerte. Agora, de repente, uma luz. Não uma luz calda e temperada, vinda do fundo de um túnel, recortando uma figura celeste que me sorri e me enche de paz. Mas uma luz concentrada, um foco intenso e ácido, um laser no meio dos olhos que me rasga o córtex e o dilacera em mil fragmentos. Abrir os olhos custa-me. Parecem colados com gesso. Aquela é sem dúvida, a luz de uma pequena lanterna. Daquelas que usam os médicos nas emergências dos hospitais para acordar os vivos. Empunha-a um homenzinho de pequena estatura, com uns óculos de massa preta e o cabelo puxado para trás, com brilhantina. Veste uma discreta sobre-casaca cinzento-escuro e empunha a custo, devido ao peso, um gigantesco livro vermelho. Há nele qualquer coisa de estranhamente familiar. Dobrado e com a cara praticamente colada à minha, observa-me com uns grandes olhos curiosos. Num sobressalto, desliga a lanterna, ergue-se abruptamente e voltando-se para trás exclama num inglês perfeito, de Oxford, “He´s back! We can start! Please sit down, Gentlemen!” O seu olhar penetrante e inquisitório regressa ao meu. “Curioso! Curioso! Você é o meu primeiro sabe?” Fala agora num Português embebido num sotaque que me parece ser da Madeira ou dos Açores. Dos Açores. Decididamente dos Açores. “Sabia que jamais alguém deixou um livro meu a meio? Você é o primeiro.” Torce o nariz de um lado para o outro duas vezes, puxa pela corrente de um relógio que tem no bolso e exclama agitado em Inglês, “Oh dear! Oh dear! I shall be too late”. Observando-o enquanto se afasta apressado, carregando aquele grande livro encarnado, e com o seu relógio de bolso, que tem ainda na mão, sou invadido por uma curiosa sensação de dejá-vu.

Esfrego os olhos e tento agora focar melhor o olhar. O ar é rarefeito. Sinto alguma dificuldade em respirar. Ouço música. Do tipo que se ouve em alguns centros comerciais ou nos supermercados. Lá em cima, um céu muito azul mas estrelado ilumina tudo com uma luz forte e cristalina. Sob os meus pés, uma espessa e fofa alcatifa beije que parece de algodão. Para minha surpresa reparo agora que o curioso senhor da lanterna se foi sentar numa confortável poltrona de design italiano, que afinal é uma de muitas que se perfilam à minha frente. Em cada uma delas está sentada uma pessoa. À minha direita, um enorme portão dourado fecha o acesso a uma larga escadaria de mármore que, subindo majestosa e encaracolada, se vai perder lá em cima, no céu estrelado. À minha esquerda, um alçapão deixa vislumbrar uma escada de granito que descendo no seu interior parece aceder a uma catacumba de onde emana um fumo amarelado e acre. Vejo agora que uma das figuras sentadas numa das poltronas me acena efusivamente. Aproximo-me e quando me encontro defronte desta fila de poltronas apercebo-me que, para além de uma gaze que me envolve a cabeça, estou completamente nu e isto é terrivelmente embaraçante.

“Mister…?” O homem que se me dirige é um tipo de cabelo loiro, tisnado pelo sol e que veste uma longa túnica branca. Consulta uma folha de papel em branco. “…Grilo?” diz subitamente, levantando na minha direcção uns olhos muito azuis. “Mister Grilo, I presume?” Aceno afirmativamente com um movimento de cabeça. “Jolly Good! All very well organised up here. Jolly good!” profere visivelmente satisfeito, dobrando a folha de papel em quatro e metendo-a num bolso interior da túnica. “We´re ready. Please sit down, Mr. Grilo”. Para minha incredulidade acabei de o reconhecer. É T.E. Lawrence. Sim o “Lawrence of Arabia”. O verdadeiro. Constato que é um bocadinho menos atraente que o Peter O´Toole no “Lawrence” do David Lean, mas que é, mesmo assim, um tipo muito bem-parecido. Faço agora atenção a todos os outros que sentados o acompanham. Afixados às poltronas, estão os seus nomes respectivos. Da esquerda para a direita vejo que estão ali, William Faulkner, com um ar discreto e repousado, Oscar Wilde, um tanto obeso, cabelo comprido e bem tratado, vestindo uma rebuscada camisa de seda cor-de-laranja e um muito longo e dandy “doublet” assertoado, Albert Camus, com um semblante carregado e misterioso fumando de um bonito nargilê de prata apoiado no chão, e  imediatamente a seu lado……é mesmo ele! É o Vitorino Nemésio! Eu sabia que era Açoriano aquele sotaque. Ao centro, o T.E. Lawrence, que pôs agora o seu Kofia branco na cabeça e que tem à sua esquerda o Robert Stevenson. Para ser preciso, o nome de Stevenson está riscado e escrito por cima está um curioso nome – Tusitala e no seu ombro, um papagaio verde parece estar a dizer-lhe algo ao ouvido. À direita de Stevenson, com uma expressão sorumbática e ausente está ainda Fedor Dostoyevski, seguido de James Joyce, que me parece francamente embriagado.

Nemésio, com um movimento de cabeça, indica-me uma cadeira que entretanto se materializou na minha frente e que tem também o meu nome escrito em pequenas letras manuscritas. Sinto um arrepio que me sobe pela espinha e sento-me, tentando mascarar o nervosismo que agora me invade. Olhando de revés aquele ilustre painel, passam-me diante dos olhos, memórias de inúmeros livros e títulos que associo aqueles autores e apercebo-me angustiado que são todos autores de livros que, ou não li de todo, ou cujos livros deixei a meio e nunca terminei. E naquele instante percebo finalmente porque estão eles aqui e o que estou eu aqui a fazer. Uma primeira coisa é certa: estou indiscutivelmente morto. Mortinho da silva. A segunda é que chegou, indubitavelmente, o momento do meu juízo final. Este é o momento da verdade. È aqui que terei de prestar as contas da minha vida. E percebo também que não as prestarei a um Deus justo e compreensivo como sempre esperei. Não as prestarei a um júri de almas eleitas, sábias e condescendentes. Não. As Contas aqui, no purgatório e às portas do céu, (porque é aqui mesmo que me encontro, não tenho agora dúvidas), prestá-las-ei a um bando de escritores egocêntricos e prepotentes, os quais me farão um julgamento sumário, de acordo com o menos justo de todos os critérios, ou seja, a sua própria percepção do valor que acreditam ter e que, aos seus olhos, e por ter abandonado desrespeitosamente os seus textos mais famosos, não reconheço. Ou seja. Em bom português (Açoriano e Lisboeta) estou irremediavelmente fodido.

Após alguns minutos em que os elementos deste meu ilustríssimo júri se consultam uns com os outros num murmúrio de vozes e línguas, Nemésio levanta-se. Limpa os óculos e abrindo o grosso livro de capa vermelha, começa a ler, agora em Português. E durante cerca de cinco minutos faz um rápido sumário da minha vida. Percorre-a secamente e sem grandes rodeios, chegando rapidamente ao fatídico episódio do piano voador. Aí, faz uma longa pausa, tira os óculos, pede-me com cortesia que me levante e olhando-me com firmeza, lança então sobre mim, a terrível mas já esperada acusação. Sou culpado do crime de abandono voluntário de obras-primas de literatura. Culpado de ter interrompido e não reatado, por razões pueris como uma ida para férias ou uma outra leitura de menos importância mas mais apetecível que se meteu pelo meio, a leitura de textos que laboriosamente construídos pelos autores ali presentes, se destinavam a iluminar e a esclarecer a minha fraca e desenxabida alma de mortal. Este crime é acrescido de uma agravante relacionada com o facto de ter mantido as ditas obras em casa e à vista de todos, procurando criar, com isso, uma imagem pessoal de cultura, falsa e enganosa. Os presentes lançam “yeis” como se estivessem na Câmara dos Comuns, enquanto ao mesmo tempo me lançam olhares reprovadores, acenando com as cabeças, síncronos e graves, ao ritmo da acusação.

Nemésio termina a sua curta intervenção sobre a minha pessoa, pousa o livro, e de seguida, ainda de pé, dá início à apresentação do júri. Inicia pois uma dissertação em que apresenta todos os escritores presentes, enaltecendo as suas qualidades literárias e as obras de maior relevo de cada um, referindo ainda a importância que tiveram no desenvolvimento da literatura, do pensamento e da cultura, na sociedade ocidental e no mundo em geral. Fala de Camus, e do seu papel na evolução do pensamento existencialista na Europa e do trabalho que desenvolveu na defesa dos direitos do homem. Fala de Wilde, da sua obsessão com a ideia do belo absoluto e da forma como defendia que a arte deveria existir independentemente das efémeras coisas da vida. Fala de Joyce, do seu caleidoscópico Ulisses e do impacto que o seu estilo visionário teve na literatura moderna ocidental. Fala longamente de Dostoyevsky, e da poderosa marca que deixou, na matéria de que é feito o espírito humano. Fala também ainda, do mundo poético de Faulkner, do mundo aberto de T.E. Lawrence e daquele sem fronteiras de Stevenson. À medida que discorre, reparo que os visados se empertigam e orgulhosos olham para mim, altivos e solenes. A argumentação é esmagadora. A importância dos presentes é evidente. Como pude? Como pude deixar de lado tamanha grandeza, tamanha monumentalidade? O meu crime é imenso. Os meus juízes são claramente, uma emanação directa de Deus. Sinto-me mesquinho e desprezível. Mas ao mesmo tempo sinto-me pronto a assumir a minha culpa e a aceitar sem receio, de peito aberto, a pena que me será infligida. E apercebo-me que é chegado o momento.

Os autores levantam-se e reúnem-se num grupo compacto em torno a Nemésio. Abraçam-se e cumprimentam-se satisfeitos dando palmadinhas nas costas de Nemésio. “Estiveste mesmo bem, Vitorino!” dizem-lhe. Só Joyce parece continuar meio adormecido, enterrado no seu sofá. Tem uma garrafa de Bushmills irlandês a seu lado e pergunto-me como a fará chegar aqui, a esta tão pura e celestial morada. Subitamente, apercebo-me que há um qualquer problema pois o burburinho inicial passou agora a um muito mais intenso debate de opiniões. Ouço um “Off with his head!” que me parece proferido por Stevenson. Mas é a Faulkner que oiço dizer, levantando o braço na direcção de Nemésio “Mas Ó amigo Nemésio! E a Doris Lessing? E o Pamuk? Verificámos agora aqui na documentação do caso, que o Senhor Grilo também lhes deixou uns livros a meio. Têm que concordar que Pamuk é em si mesmo um monumento literário da modernidade! E a Lessing, embora um bocadinho indigesta, não deixa de ser fantasiosa. Têm absolutamente que ser ouvidos. Isto aqui em cima é, ou não, uma democracia?” Nemésio hesita por alguns segundos, “Bem, eu diria que estando ambos ainda vivos….” Nesse momento, Joyce levanta-se e cambaleante dirige-se aos seus companheiros. “Bem, Ó William, vamos lá com calma pá! Lá que tu venhas pra´qui com as tuas democracias de americano tudo bem, mas a verdade é que o seu amigo Pamuk, também não leu o meu Ulisses todo, Porra! Chegou à página noventa e oito ou noventa e nove ou lá o que é, e depois nada! Como é que é isto? Também vai ter que me passar por aqui na minha frente um dia!” e depois, olhando o infinito com um olhar esgazeado e dando mais um golo da garrafa de Bushmills “Dir-lhe-ei das boas a esse cão de um Otomano!” T.E. Lawrence tira energicamente o kofia da cabeça “Apoiado! A-poi-a-do! Esses Otomanos não são boa gente. Aqui à uns anos atrás também tive um episódio muito desagradável com um Coronel Turco. Nunca mais o esquecerei! Tinha um bigode fininho e sebento que me fazia comichão aqui atrás da orelha! Isso não é boa gente, não, by Jove!” Camus tem o olhar turvado pelos potentes fumos aspirados do seu nagilê. “Lá estão vocês Ingleses com os vossos complexos coloniais! Lá por o Lawrence ter partilhado a sua intimidade com um turco menos simpático quando andava a brincar aos diplomatas pela Arábia fora, não quer dizer que o Pamuk não seja um grande escritor.” “INGLÊS EU?” gritou Joyce com a voz empastelada de single malt, colando o nariz á testa de Camus e espetando-lhe um dedo na barriga. “Como te atreves a chamar-me Inglês, meu miserável pied-noir?” Camus arregalou os seus olhos negros como tições, “Pied-noir com todo o orgulho, Connard!! E fica sabendo que também não li o teu Ulisses de merda, e toma lá esta!” completou desferindo uma sonora estalada em Joyce.

A situação precipita-se. Wilde e Faulkner procuram separar Camus e Joyce. Joyce tenta desferrar um murro em Camus mas em vez de o atingir, golpeia em cheio a face de Wilde, que com um grito estridente alivia a sólida presa em que tinha o Argelino. Este, (com uma agilidade surprendente para quem me parece estar bastante pedrado), escapa-lhe e corre na direcção de Dostoyevski e Stevenson que lhe bloqueiam o caminho. Estes tentam apanhá-lo mas Dostoyevsky, com os movimentos pesados e rígidos devido a uma vida passada a escrever em análise e introspecção, colide violentamente contra Stevenson. A complexa vida interior do primeiro e a mais outdoorsy do segundo revelam-se nesse momento incompatíveis aos olhos de ambos. Para mais, constato, pelos intensos olhares que trocam, que Dostoyevski não leu Stevenson e Stevenson não leu Dostoyevski. Não consigo perceber quem golpeia quem, mas numa questão de segundos, envolvem-se os dois também num intenso pugilato. Nesse momento, Camus tira do bolso uma pistola. Wilde, com um gesto dramático, cobrindo a sua pálida testa com as costas da mão, deixa-se cair desmaiado. Vitorino Nemésio, desesperado, tenta acalmar os espíritos, “Albert! Mas você precisa de estar sempre aos tiros? Não lhe bastam as pistolas das suas histórias? “ Ouve-se um disparo seco. Camus larga a pistola, e de novo com uma grande agilidade, galga o portão de ouro, salta para os degraus de mármore e corre por eles acima em direcção ao céu estrelado. Stevenson, que parecia esperar o momento oportuno, tira rapidamente do bolso um lenço vermelho que ata à cabeça, e seguido pelo seu papagaio que lhe esvoaça em torno confuso, lança-se atrás de Camus gritando a plenos pulmões “A mim, marinheiros! Isto sim que é vida! Ahoooooy!”. Entretanto, ao tentar desviar-se do projéctil que lhe tinha sido dirigido, Faulkner tropeça em Joyce, (que de gatas pelo chão tenta encontrar a sua garrafa de whisky), perde o equilíbrio, pontapeia a garrafa que afinal estava ali à ponta dos seus pés e não conseguindo evitar o vazio do alçapão, cai pelas escadas de granito abaixo, com a dita garrafa que rebola atrás dele. Ao ver isto, Joyce lança um rouco grito de desespero “Nooooo! My last bottle! Fuck you Faulkner! May the Almighty damn you forever!!” e lança-se também pelo alçapão a baixo.

T.E. Lawrence, que até ali tinha estado afastado da acção tentando perceber a dinâmica do conflito, aproxima-se do corpo inanimado de Oscar Wilde e debruça-se sobre ele para tentar perceber o que lhe aconteceu. Wilde, nesse preciso instante, abre os olhos, e sem dar tempo a Lawrence de reagir, abraça-o e puxando-o para si, beija-o ardentemente. Lawrence tenta resistir por alguns instantes mas a admiração que senta pela obra de Wilde, (“O retrato de Dorian Gray” em particular) é mais forte do que ele e acaba por ceder. Enlaçados no seu viril abraço nem reparam que são atentamente observados, por uma dúzia de anjos que, na curiosidade que a sua condição lhes confere, desceram pelas escadas de mármore para poderem ver o que estaria a causar todo aquele estardalhaço. Apercebo-me agora que Dostoyevski apanhou a arma deixada cair por Camus e que se afastou de toda aquela agitação. Parece muito abatido. Talvez sinta a chegada de mais um ataque epiléptico. Senta-se numa das poltronas vazias. Vejo-o levantar a arma e disparar. A cabeça cai-lhe para o lado. Curiosamente, após o disparo, do pequeno orifício que se formou na têmpora, não lhe sai sangue mas sim um enxame de pequenos insectos. São milhares, milhões, que num repente enchem o céu e tudo o que nos rodeia, de cor. De vermelho. São Joaninhas.

Aproveito a confusão para tentar escapar deste manicómio celeste. Caminho discreto até á borda de uma longa plataforma que para lá das poltronas Italianas, se estende sobre o infinito. Só me resta saltar. Saltar para o abismo na esperança de ir parar a algum sítio consideravelmente mais tranquilo do que este. Sinto nesse momento e mais uma vez o sotaque Açoriano de Vitorino Nemésio atrás de mim. “Valha-me Nossa Senhora, meu caro Senhor Grilo. Que vergonha.” Duas profundas rugas na testa revelam um estado de espírito cansado e um pouco amargurado. “Isso. Vá. Vá para baixo, e por favor não refira a ninguém o que aqui viu.” Diz-me pesaroso. “Decididamente não era chegada ainda a sua hora.” E então com uma voz doce e piscando-me o olho, diz-me “E não se esqueça de lá em baixo, acabar o meu muito singelo livrinho. Sim, sim, esse que não acabou e que nem passou da página sessenta e dois! Olha que vale a pena.” E ainda com um olhar um pouco triste “É que sabe? Eu gostava tanto de o voltar a ler, o meu livro. Imagine que aqui em cima não nos deixam ler livros! Podemos só falar de nós mesmos, escritores, uns aos outros, até à mais profunda da náusea. E depois, sabe, como consolação fazem-nos cantar uns salmos gregorianos deveras aborrecidos. É uma tristeza, meu caro amigo. Uma tristeza. Ah, se eu soubesse o que sei hoje” E sorriu com um sorriso maroto. De coelho. Abraça-me efusivamente beijando-me. Deseja-me boa sorte e dá-me uma forte palmada nas costas que me faz cair desamparado no vazio.

Caio agora em queda livre. À minha volta, no espaço, suspensos, estão milhares de livros, em muitas línguas e de todos os tipos e tamanhos. Semi-abertos parecem pássaros que planam ao vento. Sei agora que ainda não foi desta. Foi-me dada uma segunda chance e a primeira coisa que farei com ela quando regressar lá a baixo é ler o “Mau tempo no Canal”. Prometi ao Nemésio que o farei, e para mais, sei agora que se não me despachar, lá em cima, um dia, não mais o poderei fazer.

Vasco Grilo

PS: Depois desta vergonha toda, seria bom que alguém fizesse aqui um dia a devida homenagem a Vitorino Nemésio. Eu pela minha parte vou mesmo começar por ler a dita obra prima que por pouco me ia condenando às penas do Inferno.


Pop Quiz

Sweet Charity — Bob Fosse 1969

A cena coreografada aqui em cima é:

a)   uma tentativa de Bob Fosse de ridicularizar todos os outros autores de filmes musicais

b)   uma aula de aeróbica gone terribly wrong porque alguém meteu LSD no Gatorade

c)   uma versão hollywoodiana de um filme de Fellini

d)   a coreografia seminal que tudo inspirou, da Liza Minnelli à Miley Cyrus.

e)   all of the above

As respostas podem ser mandadas para o ETGM, acompanhadas por sugestões de outros grandes momentos musicais de um filme à vossa escolha. O prémio é um fim-de-semana em casa da Eugénia de Vasconcellos a descascar batatinhas novas para acompanhar um polvo no forno que a mesma Eugénia preparará no Domingo respectivo. Os elementos do ETGM e os quatrocentos e vinte e quatro (424) leitores que nos seguem agora no Facebook, estão todos convidados para o almoço, claro está.

PS: Meninos e meninas com abdolminais particularmente desenvolvidos não entram.

Um nó no coração

Li isto:*

…e lembrei-me disto:

 

*Ontem, depois de 220 páginas de pura angústia,

e com um nó cego no estômago

acabei por me ir deitar,

nos braços adormecidos do meu filho Lucas.

My Boy.

My Good Guy.

Marilyn´s replacement

Continuo a acreditar que, se a Marilyn Monroe tivesse nascido em 1956, hoje, e para além de todas as oportunidades que temos de a continuar a ver (sem nunca cair) e ouvir, teriamos seguramente também, o prazer de a degustar na capa do primeiro álbum dos Roxy Music. Como nasceu em 1926 e em 1972 há muito que não estava disponível para photoshoots, o fotógrafo Karl Stoecker teve pois que se contentar com a Kari-Ann Muller. Sem desprimor para a Marilyn, que por sinal faz hoje anos, têm que concordar que a Kari era também estupenda. Tão estupenda que se decidiu por uma actividade a tempo-inteiro como  mulher de Chris “brother of mick”  Jagger. Mick Jagger, esse, que não satisfeito, ainda foi roubar mais uma diva famosa ao pobre do Bryan (com y) Ferry, mas isto já é gossip a mais para um blogue desta categoria.

Para terminar a minha argumentação refiro ainda que este primeiro álbum tinha um tema dedicado a um outro grande do Silver Screen, o grande H.B., num dos melhores momentos de sempre dessa grandessissima banda que foram os Roxy Music.

“He´s looking at you kid”

2 H.B. - Roxy Music 1972

É tudo bicharada morta #2

aqui falei do coelho que vive em minha casa. Há gostos para tudo dirão. Sim é verdade, confirmo. Neste nosso mundo, até para com o mais abjecto ou perigoso dos animais, existe alguém disposto a verter o seu amor, carinho e delicatessens alimentares de todo o tipo, sem limites, e esquecendo as mais elementares regras do bom-senso. Recentemente, soube de um casal que, em Milão, vive num apartamento com dois tigres adultos. Em Milão! No centro da cidade! (Suspeito que os dois simpáticos gatinhos terão já despovoado completamente o terceiro e quarto andares — Podemos só imaginar a dramática perda de valor do imóvel!)

Mantendo-me neste tema, deixo-vos por isso com a história que me contou um amigo meu no outro dia. É toda verdade verdadinha, tal como o era já, aquela a que me refiro lá em cima.  

O meu amigo K. tem uma Piton lá em casa. Um daqueles monstros da grossura de um pneu de um autocarro, capaz de comer um cão de razoáveis dimensões e que se alimenta substancialmente de ratos vivos e aditivos sólidos à base de sangue bovino. Há cerca de um mês, a Piton deixou de comer. É de referir que é normal que uma piton esteja em jejum por períodos de uma ou duas semanas, mas a sua “Foufone” (assim lhe chama carinhosamente) deixou de comer, period. K., que lhe dá melhores tratos do que aqueles que dispensa a alguns elementos da sua própria família, bem que tentou enfiar-lhe pela boca a baixo, e á força, os pequenos ratinhos brancos de laboratório de sua prelecção, mas nada. Nem uma dentadinha. Desesperado, acabou por levá-la ao veterinário para ouvir um conselho.

“Nada de estranho”, disse-lhe o Senhor Doutor dos animais “existem casos em que este tipo de Constrictors está meses sem comer. Não se preocupe, tenha um olho nela e se isto continuar por mais duas semanas, volte cá.” Duas semanas depois o meu amigo voltou ao veterinário. O doutor, depois de uma curta observação referiu-lhe que não encontrava nada de estranho na sua Piton. Mas depois curioso perguntou “Você têm-lhe observado algum comportamento particularmente inusual durante estas últimas semanas?” O meu amigo K. pensou um pouco e respondeu “Olhe doutor agora que pergunta, temos de facto visto algo de diferente no seu comportamento. Sabe, a nossa “Foufone” costuma vir dormir connosco, enrolando-se habitualmente aos pés da nossa cama para receber o nosso calor. No entanto, nestas últimas semanas, temos notado que, em vez de se enrolar, se estica toda ao longo do colchão, paralela á minha mulher. Temos achado piada acordar com ela naquela posição mas agora que mo pergunta, espero que o pobre animal não esteja a querer dizer-nos qualquer coisa.”

O doutor levantou-se. “Meu caro amigo, receio que tenhamos de abater imediatamente o seu animal de estimação.” “Abater a “Foufone”? Porquê, o que é que se passa com ela?” perguntou K. alarmado. O Doutor olhou-o frontal. “Não se passa nada de especial com a “Foufone”. O animal está de perfeita saúde. O que se passa é que ela se está a preparar para uma grande refeição.”

Confuso o meu amigo pergunta-lhe o porquê então, de abater a “Foufone”.

“Porque durante todas estas noites, a sua “Foufone” esticada na sua cama,” disse grave o veterninário, “ao lado da sua mulher…”

“Sim?”

“têm estado calmamente a tirar-lhe as medidas, meu caro amigo!”

Algarve Campestre

Em 1974, Brian Ferry, na companhia dos seus amigos Antony Price e Eric Boman, desenhador de moda um, fotógrafo de moda o outro, resolveu transferir-se para Portugal durante umas semanas, para escrever as letras das dez canções que viriam a compor o seu quarto álbum de originais com os Roxy Music. Um dia, na praia, fizeram duas estupendas amizades. Elas eram Alemãs. Altas, deliciosas e já coradas pelo bom sol Português. Por coincidência, (passam-se sempre com os mesmos, estas coincidências) as duas meninas eram modelos profissionais, habituadas às catwalks de Milão e Paris e que naqueles dias (e noites) se passeavam pelos nossos Algarves em busca de sol e aventura. A partir desse dia, esta ilustre pandilha passou a encontrar-se todas as manhãs na praia, fazendo grandes passeios de barco pela costa Vicentina e saindo juntos ao fim do dia, explorando a ainda quasi-virgem vida nocturna Algarvia. Numa dessas noites, inspirado pela beleza bastante suis-generis das duas raparigas, e por vários copos de Mateus Rosé, seguramente bebidos entre uma sardinha e um bailarico, o meloso Brian, puxando de todo o seu charme de meia branca, propôs-lhes um negócio. Uma proposta à qual não poderam de forma alguma dizer não.

E assim, no final dessa noite, no canto mais verde que foi possível encontrar no jardim da casa onde Brian e os seus amigos pernoitavam, acenderam-se os holofotes. Às meninas, foram-lhes aplicadas umas fortes camadas de rouge e baton, pelo que de seguida lhes foi retirada, delicadamente, quase toda a roupa que traziam vestida.

Chamavam-se Constanze Karoli e Eveline Grunwald e para nossa sorte e deleite, ficaram para sempre imortaladas nesta fotografia. Os redodendros algarvios também. O álbum chamou-se Country Life e viria a tornar-se num dos maiores sucessos de sempre da banda.

Country Life — Roxy Music 1974

PS: Quem sabe por onde andaria o nosso José Navarro de Andrade nessa noite?  

O cemitério dos livros-não-lidos

Sob o risco de vir a ser trasladado pelos meus co-bloggers, e voltado a enterrar lá para trás, ao pé do muro deste cemitério, onde só há campas rasas e enfeitadas com cruzes sem nome, decidi expor aqui, em público, o rol de alguns dos meus maiores e melhores falhanços literários. Sim, títulos de renome que, por ter ido de férias para paragens não propícias à leitura, ou porque leituras mais estimulante se atravessaram pelo meio ou porque estes se revelaram chatos como potassa, ali ficaram, semi-lidos, abandonados, sobre a mesa-de-cabeceira ou na borda de uma estante até que, resignado e envergonhado, os levei definitivamente para o cemitério dos livros não lidos, que fica numa prateleira bem alta do meu escritório, que a vista não alcança e onde o embaraço não chega.

Aqui têm então, uma parte da minha lista da vergonha, toda de uma vez.

Ulisses — James Joyce —  pág 112 

Light in August — Faulkner — pág 56 

Mau Tempo no Canal — Nemésio — pág 62 

The Picture of Dorian Gray — Wilde — pág 91

A Peste — Camus — pág 25

A Ilha do Tesouro — Stevenson — pág 195

O Idiota — Dostoevsky — pág 86

Lost Horizon — James Hilton — pág 45

Os Sete Pilares da Sabedoria — Lawrence — pág 139

My Name is Red — Pamuk — pág 38

The Cleft — Doris Lessing — pág 63 


Espero que tenham lido tudo depressa e com os olhos fechados.