Sex and Drugs and Rock n’Roll

Londres 1969 

Em 1969 resolvi dar à sola. Estava farto do provincianismo cultural e intelectual do Portugal desses anos. Tinha pânico de ir parar com os costados à Guiné. Desprezava o regime, o seu líder e a farsa parola a que todos pareciam dedicar-se alegremente.

Fiz por isso as malas e fui abrir horizontes para Londres. A Swinging London!!

A expectativa era imensa claro está. Ali esperavam-me os concertos dos Rolling Stones e dos Kinks. Esperavam-me as montras das boutiques de Carnaby Street e as suas fascinantes novas tendências no vestir. Uma vez ali, deixaria crescer o cabelo e dedicar-me-ia efusivamente à prática do amor livre com belas mulheres de nacionalidades exóticas. Consumiria em excesso todo o tipo de substâncias proibidas após o qual me dedicaria à leitura de grandes quantidades de poesia psicadélica e underground. Dormiria ao relento em Trafalgar Square ou na ilha de Wight na companhia de verdadeiros hippies e outros aspirantes a músicos como eu.

Meti na bagagem dois casaquinhos de malha, uns pares de meias quentinhas, fraldas com fartura, um arsenal de chuchas, duas rocas da Chicco e em homenagem ao novo país que me deveria acolher pelos próximos anos, um gorro e um cachecol com riscas vermelhas, brancas e azuis.

Ia ser fantástico! Uma experiência inesquecível!

Foi só uma grande desilusão.

Afinal, os meus pais, nunca me deixaram sair sozinho à noite.

Jaco II

O Francis comemorou-lhe aqui o nascimento. Eu comemoro-lhe hoje a morte. Jaco Pastorius morreu no dia 21 de Setembro de 1987. Tinha 35 anos e era considerado por muitos “The greatest bass player who has ever lived”. Um bipolar maníaco-depressivo, Jaco vivia nesse período uma existência errante dormindo pela rua encharcado em drogas e álcool. Morreu devido a ferimentos resultantes de uma violenta altercação com um porteiro de um clube de Wilton Manors, na Florida, de onde tinha sido banido.

What a waste.

Aqui na companhia de uma Deusa-mãe e de uma finíssima selecção de jovens semi-deuses!

Por um punhado de nada

As esporas das minhas botas empoeiradas que chocalham sinistras com cada passo que dou. A mosca mole que atravessa a antecâmara num lento zumbido de morte. A gota de suor que me escorre pelo escalpe e que ensopa o couro das abas do meu chapéu. O som que produz o cano da pistola, quando com ele afago a barba de cinco dias que trago por fazer.

Ouço-os lá dentro que riem, os miseráveis.

Abro as portas com um violento pontapé. Levantam-se todos largando as cartas. Rolam fichas e moedas e copos pelo chão. O silêncio é sepulcral. Comigo entrou a mosca que pousa sobre o pano verde da mesa de jogo. Lá fora, de repente, uma gaita-de-beiços assobia estridente.

Apanhei mais uma vez o conselho de administração da empresa a jogar às cartas, enquanto lá em baixo, aqueles-que-não-têm-bonus trabalham duro nos seus cubículos. Desta vez não haverá piedade. Tenho seis tiros. Primeiro o CFO. Depois a Directora Comercial. De seguida, o Director de Qualidade, o responsável pelo IT e a Directora de Recursos Humanos. Ficou o CEO para último. Maldição! Encrava-se-me o revólver. O CEO pede clemência. Agacha-se, e passando por cima do corpo da directora comercial, agarra num punhado de dólares que me estende, trémulo. Clic. O revólver gira finalmente. A bala alinha-se com o cano. Os olhos dele. Os meus olhos. A sua mão que empunha as notas. O meu dedo no gatilho.

Bang!

Todos para o cemitério.

PS: No dia 19 de Novembro, Ennio Morricone dará um concerto histórico em Milão. Reunirá uma orquestra e um coro, que num total de mais de 170 membros, executará os seus mais famosos temas cinematográficos. Já tenho bilhete. Se passar por Milão nessa data diga que eu compro mais um.

Short 4+20

Vim aqui parar sem saber muito bem como. Há coisa de um mês trabalhava num PhD num muito bem equipado laboratório de uma universidade da East Coast. Trabalhava com um chinês, um inglês e um Neo-Zelandês. Parecia uma anedota. Fazia de conta que era um cientista, tentando desesperadamente provar algo. O que quer que fosse.

Sentia-me ali bem? Talvez não.

Talvez não? Tenho agora a certeza. Decididamente não me sentia ali nada bem.

Um telefonema foi quanto bastou para largar tudo e desapontar furiosamente o meu advisor. Em três dias vendi o carro, meti o conteúdo do meu apartamento num armazém na borda da Interstate 78, comprei dois fatos e meti-me num avião para o Brasil. — Consulting work in Latin America, lots of freedom and a fat bonus — tinham sido as promessas do Sandeep.

Acho que nesses anos para mudar de rumo me bastava uma rabanada de vento. Digo uma rabanada de vento? Acho que queria dizer uma brisa menos ligeira. Ou talvez apenas me vendesse por pouco. Ou afinal talvez fosse somente o destino a empurrar-me para ti.

Obviamente correu tudo mal. A coisa estava decididamente mal organizada. O cliente brasileiro não tinha coordenado internamente os diferentes stakeholders. O que seriam seis meses de trabalho resumiu-se a um par de reuniões e a um adiar indefinido do projecto. O partner Americano meteu os pés pelas mãos e filou discreto para Nova Iorque. Eu fiquei aqui, num hotel de Porto Alegre a ver passar navios. Não posso regressar aos EUA pois perdi o visto de estudante e o novo visto ainda não foi emitido. Estou enterrado na merda até ao pescoço. O meu único contacto nos EUA é com o Sandeep, que em Boston vai seguindo diligente o processo de emissão do novo Visto.

O único sítio para onde posso ir é para a Europa. Espero que não por muito tempo. Deixei de gostar de lá estar por mais de duas ou três semanas de cada vez. Acho tudo velho e pequeno e chato.

No Sábado passado recebi um convite do Álvaro. É o director da empresa aqui de Porto Alegre com quem deveria trabalhar nos próximos meses. Organizara uma festa de anos num clube da moda da cidade e gostava que eu lá passasse para beber um copo.

Que simpáticos estes brasileiros! Pensando melhor, provavelmente convidou-me por escrúpulo. A imagem de um desgraçado de um português fechado num quarto de hotel semanas a fio tem de alguma forma de criar algum peso na consciência.   

Foi ali chegando que te conheci. És cunhada dele. És advogada. Terás mais 15 anos do que eu. Divorciaste-te e fizeste bem. O casamento é uma grande noia. Dizes-me que és Polaca e Portuguesa e Italiana mas que trazes contigo um coração todo gaúcho. És de certeza mais Europeia do que eu. Falamos de Portugal que não conheces e de Nova Iorque que adoras. E de livros também. Banalidades sobre Jorge Amado e Eça. Mas falas-me também de Machado de Assis que nunca li. E depois de Kerouac e de Burroughs e de Withman. Bebemos muita vodka. Não percebo se és verdadeiramente o meu tipo. Eu penso não ser o teu, mas és linda, linda, de morrer.

Ontem voltámo-nos a ver. Jantámos juntos debaixo de um alpendre numa tasca ao pé do porto. Sentados em cadeiras de plástico e com os pés descalços sobre a terra batida embebedámo-nos, fumámos uns beedis que trazias contigo e rimo-nos estupidamente de tudo e de nada. Falas-me do teu filho e do filho da puta do teu ex-marido. Falo-te da minha solidão, mas também da liberdade que nas últimas semanas, por acaso, se insidiou na minha vida. Sem saber porquê e num repente conto-te tudo o que posso sobre mim, aberto como um dos maracujás que comi ao pequeno almoço. Como uma miúda de quinze anos, encolhes os ombros como se nada tivesse importância. Dizes que não queres falar sobre coisas tristes e contas-me que os teus cabelos ruivos são difíceis de pentear. Que o teu nariz é ligeiramente torto. Confessas-me que gostas de fazer amor de manhã. Respondo-te que o teu nariz é de facto torto e que de manhã eu também. Levas-me para tua casa no teu Volkswagen. Pedes desculpa pelo guarda armado que nos abre o portão e pelo arame farpado que rodeia o teu condomínio. A erva-mate Barão que preparas transforma-nos em sérios e sóbrios amantes. Consumimo-nos num fôlego e de repente aprendo tudo aquilo que pensava já saber.

Agora aí sentada, no contraste branco que de repente invadiu este quarto, fumas um dos teus Dunhill’s. Estendido nos lençóis em desalinho da tua cama, penso angustiado no maldito avião que me levará para Lisboa logo á tarde.

- Sei que não vou ver você nunca mais — dizes-me enrolada em fumo. — Por isso mesmo não pode ir embora sem ouvir minha canção favorita. Aposto que não conhece….

Conhecia, mas agora conheço melhor.

Saudades de ti.

Be safe

Desculpem-me a ousadia do grafismo, mas hoje não me apetece pensar na morte.

Of horses and photographers

O Eadweard Muybridge, na sua paixão por cavalos e fotografia, poderia ter sido amigo do nosso novo morto. Que eu saiba não o foi. Mas o Philip Glass não o esqueceu e adoptando-lhe a paixão, compôs-lhe a sua mais bonita composição. O cavalo, esse, lá se constatou que quando a galope, levantava mesmo as quatro patas do chão.

The Photographer — Phillip Glass 1982

Uma gaiola para Carlos Relvas

Golegã, Fevereiro de 1977 — Entro no enorme jardim com alguma apreensão e receio. Atravessamos um grande portão verde de ferro forjado. Retorcido. Carcomido. Enferrujado. Ameaçador. Lá dentro espera-nos uma selva densa, escura e húmida. — Está tudo abandonado desde o início do século — diz-me o meu pai. Eu, a minha irmã e a minha prima Maria, que tem quatro anos menos que eu, percorremos vagarosamente velhos caminhos de gravilha, desenhados por entre uma anacrónica amálgama de cactos, palmeiras, eucaliptos e acácias. Tudo sombrio e gigantesco e mergulhado numa atmosfera de penumbra e mistério. Como num filme, guiados por um longo e delicado travelling que percorre uma sinuosa alameda em torno a um triste charco seco, vejo-a aparecer finalmente. É extraordinária. Nunca vi nada do género mas também só tenho oito anos e ainda não vi muita coisa. – Um verdadeiro joguete fidalgo — tinha-a definido peremptório de manhã, ainda em frente à lareira, o meu querido avô José Elias, que não é meu avô mas é como se fosse, – Um verdadeiro prodígio saído da criatividade do melhor sangue que o Ribatejo jamais produziu! – tinha rematado, atirando para o fogo mais um enorme toro de madeira. Recordo estas palavras aproximando-me dela silencioso. Reverente. A brisa fria que percorre a avenida lá fora, passa em frente à câmara municipal, aquela que para meu orgulho, é presidida pelo Avô Elias, entra pelo portão, e atravessando o jardim vem por fim enregelar-nos as costas. Agora que a vejo melhor, não se pode bem dizer que aquilo que temos ali, diante de nós, seja uma verdadeira residência. Parece-se mais com uma enorme e bizarra casa de bonecas. Um jogo decrépito deixado ali a apodrecer sob o denso musgo que cobre o fundo do jardim. Um antigo brinquedo, abandonado por uma gigantesca criança, excêntrica e precoce. Uma estrutura mágica, idealizada num outro tempo, para vestir um qualquer estranho propósito. Ou uma qualquer estranha ideia. Ou talvez mesmo e somente, um muito pessoal sonho de grandeza e iluminação.

O andar térreo é inteiramente em alvenaria, bem como a fachada do primeiro andar e as duas escadarias externas que lateralmente o envolvem. Decorada com motivos manuelinos e arabescos, alvos bustos em relevo e pontiagudos minaretes, parece uma decadente vivenda otomana, daquelas que abandonadas, juncam as margens do Bósforo. Apoiada na fachada e cobrindo todo o primeiro andar, uma delicada estrutura de ferro forjado e vidro. De alguma forma lembra o Petit Palais embora em vez das grandes vidraças reflectirem um muito azul céu parisiense, espelhem aqui, num obscuro jardim Goleganense, um invernal céu de Fevereiro, pincelado de nuvens cinzentas, que lá no alto sobrevoam pesadas a lezíria Ribatejana preanunciando chuva e tempestade. — Foi ali em cima que ele viveu os últimos anos da sua vida – diz o Avô Elias agora ao frio, envergando um pesado capote de pele. — Ele tinha-a construído com o propósito único de aqui fazer fotografia. Mas acabou por vir aqui morrer em finais do século dezanove nos braços da sua Mariana, depois de uma grande viagem pela Europa e Estados Unidos onde fotografou um pouco de tudo e onde participou em inúmeras exposições. Diz-se que já de regresso à Golegã se viu envolvido num estúpido acidente a cavalo. Era diabético e a ferida nunca sarou! – Virando-me de novo na direcção da casa e interrogando-me sobre de quem serão aqueles dois bustos que decoram a fachada, oiço-o ainda dizer num sussurro aos outros membros da comitiva familiar que nos acompanha – Imaginem que no seu testamento final, pedia que quando lhe confirmassem o óbito, lhe fossem cortadas as artérias carótidas para que não pudesse ser enterrado vivo. Estranhas as susceptibilidades dessa época, não acham? – Apercebo-me agora que não vamos poder entrar. A casa está fechada. Pelo que percebo da continuação da conversa, pertence a uma senhora, descendente da dita Mariana e que vive em Lisboa, num hotel. Percebo também que lá dentro está toda a vida daquele que foi o proprietário daquela casa. Sinto falar de milhares de negativos, de chapas e de impressões. De livros e de equipamento valiosíssimo. Falam de um espólio riquíssimo, de um património de interesse mundial e de um plano para o salvar. Voltamos para casa e para o calor da lareira. Fica-me uma pedra de gravilha na sola dos meus Arthur Ash. Fica-me também a curiosa sensação de ter acabado de visitar um cenário de um filme, de onde a qualquer momento poderia ter saído um coelho falante, um pterodáctilo ou a sombra chinesa de um príncipe oriental.

Descrevo tudo isto de memória e com mais de 30 anos passados sobre essa data. No meu imaginário pessoal, nunca esqueci a visita a essa casa, nem o jardim, nem o ambiente peculiar que me ficou dessa espreitadela ao mundo desaparecido do Carlos Relvas. Sim, porque é dele que falo. Esse ilustre fidalgo Ribatejano que foi agricultor, cavaleiro, toureiro, arquitecto, engenheiro, inventor e violinista. Mas que foi sobretudo e para sempre, aquele que no seu pioneirismo, considero um dos mais inovadores e talentosos fotógrafos de todos os tempos.

Click to open

Golegã , Agosto de 2010 — Os meus filhos e os filhos da minha prima Maria, que continua a ter menos quatro anos que eu, correm à nossa frente pelos carreiros impecavelmente limpos do jardim do Museu-Casa-Estúdio Carlos Relvas. Como forma de os aliciar a deixarem os mergulhos de piscina e virem dar uma volta, foi-lhes descrita uma enorme casa de vidro, uma espécie de gaiola gigante com uma grande escada feita de uma raríssima madeira vinda da Índia e belas fotografias de cavalos lusitanos penduradas nas paredes. Estão excitadíssimos. Entramos sem pagar bilhete. – Entrem depressa que já começou o filme! Pagam depois à saída – diz-nos uma curadora sorridente. Só podemos estar em Portugal, penso. No interior, uma holografia projectada sobre um manequim de Carlos Relvas, ressuscita-o e fá-lo falar de si, da arte da fotografia, da sua vida e da sua casa. Olhos e bocas abrem-se em estupefacção. Percorremos os laboratórios de revelação e impressão e entramos numa sala de espera que, no seu barroco, soube fazer esperar príncipes e mendigos. Subimos uma prodigiosa escada de madeira em caracol, e ascendemos ao estúdio sempre na companhia da simpática curadora. É um palácio de vidro e de encanto. É tudo luz. Um fantástico templo dedicado à fotografia. Um mecanismo de regulação de cortinas altera a luminosidade do espaço permitindo brincar ao jogo do chiaroscuro de que Carlos Relvas era mestre. Fazemos agora uma roda. - Era aqui, — inicia a nossa guia — que ao longo dos anos, Carlos Relvas se banhava no seu mundo de chapas de vidro e de colódio seco. De algodão-pólvora e de iodeto de potássio. Era aqui que orquestrava os seus modelos, com os seus costumes pitorescos e o bric a brac que caracterizava os seus famosos Quadros Photographicos. Foi aqui também que fotografou e amou a sua segunda mulher, Mariana do Carmo Pinto Correia, também ela fotógrafa e musa inspiradora. Era daqui que saía em expedições pelo Ribatejo e pelo mundo fora, em busca de novas paisagens, de monumentos e de povo que lhe permitisse experimentar com essa sua paixão, acabadinha de inventar pelos seus precursores e ídolos, Niépce e Daguerre — (descubro que são deles os bustos de mármore que decoram a fachada). As crianças, divertidas, correm agora e para aflição de todos, por entre antigos espelhos, reflectores, telas e adereços. Olham depois atentos através da lente de uma muito antiga máquina fotográfica e riem-se alegremente das pomposas vestimentas endossadas pelas gentes antigas das fotografias em exposição. Acabam por fim encantados, a olhar, de novo de boca aberta e através da magnífica estrutura transparente, para o céu lá em cima, hoje resplandecente de azul e de sol.

Voltamos a descer. Compro um livro sobre a vida e a fotografia de Relvas na pequena loja do museu. Olho de novo para os miúdos que correm agora para um bonito charco coberto de nenúfares. Depois de um manequim falante, uma visita guiada, e um postal colorido na mão, pergunto-me que recordação lhes ficará deste dia. A minha continuará para sempre aquela de 1977, num mágico dia frio de Fevereiro, pela mão do meu pai e embalado pela voz grave e quente do meu querido Avô José Elias, aquele que afinal não era meu avô mas era como se fosse.

Vasco Grilo

Carlos Relvas 1838–1894

Não se faz!

Pois é. Por inspiração malvada do Manuel S. Fonseca e do seu cúmplice Pedro Norton, mergulhei inocente e inadvertidamente no mundo genial, no doubt, mas um tudo nada porno-antropofágico, do senhor Jean-Christophe Grangé. Esta última semana, e repito, por culpa dos senhores acima citados, tenho-a assim passado completamente aterrado, sonhando com falsos autistas comedores de vaginas, sádicos desmembramentos de bonitas parisienses, requintadas extracções de sebo humano e líquido amniótico e outros pesadelos afins. No entanto, tenho de admitir, é da melhor literatura que tenho ingerido nos últimos anos no under-rated campo dos romances amarelos (desculpem-me a coloração mas os italianos chamam Gialli aos romances policiais e eu gosto de lhes seguir algumas tendências). E lá no fundo até é tema que fica bem nas exangues páginas deste blogue. 

Mas lá que faria Simenon abanar a cabeça e pronunciar um reprovador tsk tsk tsk, lá isso faria.

Recomendo. Vão lá e leiam, se tiverem coragem. Por agora, fiquem a sós com a morte. Pura e dura, e que por vezes, como aqui em baixo, é verdadeiramente bela de se ver. 

Les Rivieres Pourpres, 2000 — Mathieu Kassovitz de um original de J.C. Grangé 

Breaking Bounds

Ligeiro como uma pluma retiro-me a banhos.

Enterro-me de novo e por uma noite apenas, no dia 19, num cemitério de Lisboa ainda por definir.

Será uma verdadeira noite de mortos-vivos.

Beware.

Até já.

Breaking Bounds — Lois Greenfield 1982

Breaking Bounds — Lois Greenfield 1982

Breaking Bounds — Lois Greenfield 1982

Breaking Bounds — Lois Greenfield 1982

Viggo E.Q.

Viggo feeling good!

Viggo in Mordor

Viggo in Hell

Viggo arrestedViggo arrested in Malanje having Nescafé and Scotch

Hyperkulturemia

Feeling Dizzy at the Uffizi?

Faz este mês um ano, que se deu no Museu do Louvre em Paris um dos mais malévolos ataques a uma obra de arte jamais registados na história daquele museu. O ataque foi perpetrado por uma senhora de nacionalidade Russa que sem razão aparente que o justificasse, atirou, por cima da cabeça de um estarrecido grupo de turistas, uma chávena de porcelana, (comprada minutos antes na loja do museu) ao gentilíssimo sorriso da Mona Lisa. À parte de um grande susto e uns quantos cacos por terra, o ataque não resultou em nada de grave e a dita Gioconda continuou a sorrir, enclausurada como está numa caixa de vidro anti-humidade, anti-choque, anti-vibrações e claro está anti-chávenas-de-museu. No entanto, tudo isto não passaria de um gratuito acto de vandalismo senão pelo curioso facto de a tal senhora Russa ter sido imediatamente conduzida a um hospital e, sob observação médica especializada, lhe ter sido diagnosticado um mal muitíssimo raro, o muito eclético e ilustre, Síndrome de Stendhal.

Este Síndrome, identificado nos anos 70 pela psiquiatra Gabriella Magherini depois de um longo estudo e da observação diligente de centenas de turistas afectados por tonturas e desmaios após terem passado várias horas no museu Uffizi em Florença, veio a ser diagnosticado pela primeira vez e oficialmente em 1982. O síndrome, também conhecido como Síndrome de Florença ou ainda melhor, como Hyperkulturemia, é assim definido como uma doença do foro psico-somático, que se revela através de tonturas, aceleramentos cardíacos, confusão e alucinações, verificadas em indivíduos sujeitos a uma sobre exposição a obras de pintura e escultura e outros objectos de grande beleza artística em geral. Os casos mais extremos, que normalmente ocorrem em espaços fechados, podem resultar em fortes ataques de histeria ou em verdadeiros ataques às próprias obras de arte tal como ocorreu com a senhora Russa e a sua inocente chávena de chá.

É curioso como se pode hoje constatar que, ao longo dos séculos, episódios da manifestação deste Síndrome se encontram descritos em diversas obras de literatura. A mais famosa descrição do fenómeno, e daí o nome atribuído a esta curiosa condição, encontra-se num diário de viagens, Naples and Florence: A Journey from Milan to Reggio, escrito por Stendhal (de seu nome Henri-Marie Beyle), durante uma sua visita à Basilica della Santa Croce em Florença. Neste texto, o autor descreve assim o fenómeno:  

« J’étais arrivé à ce point d’émotion où se rencontrent les sensations célestes données par les Beaux Arts et les sentiments passionnés. En sortant de Santa Croce, j’avais un battement de cœur, la vie était épuisée chez moi, je marchais avec la crainte de tomber. »

Pelo que se sabe hoje, Stendhal consegui sair da igreja, ter-se-á sentado a ler um poema (terá procurado um mau poema, imagino) e terá com isso recuperado os sentidos, evitando assim um possível ataque da sua parte a uma das muitas e magníficas obras de arte que embelezam a Basílica.

 Talvez, mas só talvez, este curioso síndrome possa assim justificar alguns dos mais famosos ataques realizados contra o património artístico da humanidade.

Aquele de Lazlo Toth, que atacou a “Pietá” do Miguel Ângelo com um martelo em 1972,

“Deixem-me em paz! O meu nome é Jesus Cristo!”

ou o do turista que, em 1959, atirou ácido ao “Fall of the Rebel Angels ” de Rubens. Ou o daquele pintor falhado que esmagou os dedos dos pés do David em 1991 também com um martelo ou o de Mary Richardson, uma suffragette Inglesa que em 1914 entrou na National Gallery em Londres e esfaqueou com um cutelo do talho, a tela “La Venus del Espejo” do Velazquez.

Um arrepio na espinha da “Venus do Espelho” — Diego Velazquez 1651

E talvez, mas só talvez, se justifiquem ainda a série de ataques a um dos mais famosos quadros de todos os tempos. O “Nigh Watch” de Rembrandt. Esta gigantesca tela (confirma-se agora — de uma beleza de ensandecer), foi sujeita a um ataque à faca em 1911 por parte de um marinheiro desempregado, um outro em 1975 por parte de Wilhelmus de Rijk, um gigantesco professor primário Holandês que a atacou também à faca (desta vez desferindo-lhe mais de doze facadas e remetendo o quadro para um longo período de restauro) e por fim em 1990 em que um Alemão a pulverizou com ácido, tendo a pintura sido salva pela pronta intervenção dos guardas do Rijksmuseum que com água conseguiram neutralizar o efeito corrosivo do mesmo.

Sob risco de vos infligir o dito Síndrome e de com isso vos fazer atacar selvaticamente o vosso pobre monitor com uma esferográfica, aqui deixo em baixo a prova do poder do “Night Watch”, pelas mãos desse grande maestro que é o Peter Greenaway.

Enjoy the madness!

Nightwatching — Peter Greenaway, 2006

Coney Island, NY #3

E se achar que a praia este ano está horrível, que aquela família que se instalou ali ao seu lado na areia é rasca e barulhenta,  e que a água está fria e suja e não se pode tomar banho, pense sempre que há pior. Muito pior.

Coney Island, algures na primeira metade do Séc. XX


Coney Island, NY #2

Untitled — Matilde Damele, 2000

Cyclone — Bethany Obrecht, 2005

Sailors — Todd Boebel,1999

No leaning/Game Concession — Hazel Hankin, 1977


Short, short way to Paris

Quando, silenciosamente, Carlos da Maia entrou no camarote, percebeu que não lhe seria possível resistir. Pé ante pé, aproximou-se por detrás, e com um cú-cú sussurrado à orelha, espetou-lhe os dois indicadores nos lombos, ali por cima da terceira costela, mesmo por debaixo da costura do espartilho. A Srª Dona Castro Moniz, naturalmente, largou um grito, e largou também o binóculo, que se foi quebrar lá em baixo e em mil bocados, no cocuruto da cabeça adormecida do Sr. Martins, o importador de bacalhau, que gostava muito de música mas que nunca resistia até ao final do segundo acto. A partir daí, foi uma barafunda. O espectáculo teve que ser interrompido para poderem fazer sair em braços e pela porta principal em direcção à sua caleche, o dito Sr. Martins. A Srª Dona Castro Moniz aproveitou a confusão gerada para se retirar pelas traseiras. Ia visivelmente aborrecida e envergonhada. Carlos, esse, ali sentado e olhando o leque abandonado sobre o espesso tapete encarnado que revestia o camarote, decidiu, em toda a sua nonchalance, que era hora de fazer uma viagem a Paris. Ainda por cima a saison estava a acabar e nunca a sua cidade lhe tinha parecido tão enfadonha e provincial como agora. Tomado pela ligeireza de uma decisão bem tomada, Carlos levantou-se. Pegou no chapéu e na bengala, meteu o leque no bolso (mandá-lo-ia já de Paris à Srª Dona Castro Moniz com o devido pedido de desculpas) e por entre uma multidão exaltada pelos acontecimentos da noite, desceu as escadarias do São Carlos assobiando a Marselhesa baixinho.

Coney Island, NY

No passado dia 17 de Julho, estando em Nova Iorque, decidi meter-me num comboio da linha D, atravessar Manhattan para o lado de Brooklyn, e ir procurar a amiga do amigo do Diogo para Coney Island. Aqui, local para onde durante os últimos cem anos se dirigiram, e dirigem, hordas de ”we the people”, vindas dos mais sufocante boros de Nova Iorque em busca de praia, ar fresco, e um pouco de roller coaster entertainement, disputava-se nesse dia o SIREN, um tradicional festival de música Indie, patrocinado pelo jornal  The Village Voice e em que bandas underground da East Coast se exibem todos os anos para mostrarem o que de mais novo e menos comercial por essa mesma costa se faz.

Ao contrário do que aconteceu com o Diogo, (já te disse Diogo, que continuo a roer-me de inveja pelo concerto dos Roxy Music?) não me foram servidos pratos nostálgicos de grande música de outros tempos. Pelo contrário. Os músicos de bandas com nomes como The Screaming Females, Surfer Blood, Apache Beat, Holy Fuck ou Cymbals Eat Guitars, são crianças nascidas no início dos anos 90 sem terem sequer ainda idade para serem alunos da nossa Joana Vasconcelos. Confesso que alguns deles, em palco, explanaram conceitos musicais que só em parte consigo compreender. Mas como todas as novas gerações de Rock n´Rollers (it´s just Rock n´Roll after all) que se vão alternando na construção da história do mesmo, eles saltaram e berraram e aceleraram e travaram o tempo e o som e o espaço o melhor que puderam e souberam. E com eles saltou e berrou e dançou, toda uma gigantesca tribo heterogénea composta por teenagers suados, velhos hippies fumados, miúdas tatuadas e muitos quarentões (como eu) bastante acalorados. Gostei muito. Gostei sobretudo da guitarra eléctrica (e electrizante) dessa verdadeira teenage girl guitar messiah que é a Marissa Paternoster, (vocalista e guitarrista dos Screaming Females) e gostei também, e muito, das complexas e ricas texturas musicais de uns muito imberbes mas igualmente promissores, Cymbals Eat Guitars.

Durante a tarde, fui bebendo sucessivas latas de uma bebida energética de cor azul turquesa, distribuídas gratuitamente por umas gentilíssimas patrocinadoras de mini saia, e no fim, rendido e comovido, comi, de dentro de um barquinho de papel pardo e com um curioso garfinho de cartão, uns deliciosos filetes de peixe frito que teriam feito o José Navarro de Andrade lamber com volúpia os seus bigodes de gato.

Foi uma tarde bem passada.

PS1: Não tive obviamente grande sucesso com o objectivo primeiro da minha excursão a Coney Island. Vi e conheci muitas meninas de origem asiática correspondendo à descrição que me tinha sido dada, mas nenhuma tinha estado na semana anterior em Lisboa no festival da Optimus. Fiquei no entanto com vários números de telefone que darei ao Diogo já da próxima vez que nos encontrarmos.   

PS2: Deixo aqui em baixo alguma da música que ali ouvi, mas faço já um aviso. O segundo clip dos Screaming Females é profundamente indigesto. Artístico, muito Pop Art e lailailaiaiai, mas muito indigesto. Depois não digam que não avisei.

“Girlfriend” — Screaming Females

“And the hazy sea” — Cymbals Eat Guitars

My Kasterlee lads

Kasterlee War Cemetery — Belgium

Descobri-o à uns anos atrás numa tarde soalheira, enquanto corria através das bucólicas paisagens primaveris do Norte da Bélgica, nos arredores da pequena cidade de Kasterlee. Estão lá em repouso 100 soldados escoceses dos regimentos do The Royal Scots, do The King’s Own Scottish Borderers e do The Royal Scots Fusiliers. Era quase tudo rapaziada com menos de 20 anos e que aqui perdeu a vida em Setembro de 1944, durante a travessia do canal de Meuse-Escaut. A operação militar em que participavam, — um gigantesco ataque aéreo pára-quedista americano, desenhado para conquistar os países baixos em 48 horas e abrir caminho às tropas aliadas para acabar com a guerra numa questão de semanas– viria a revelar-se como o maior fiasco dos aliados após o sucesso inicial da operação Overlord e do desembarque nas praias da Normandia. A esta chamaram-lhe operação Market Garden e dela resta só mesmo este lindíssimo e luminoso garden, onde por vezes, depois de um dia no escritório, venho acabar os meus footings, esticando os músculos estendido na sua erva verde e bebendo a água que, de uma fonte plantada no meio do cemitério, faz viver cristalina, a força e a coragem daqueles jovens soldados que ali deixaram por nós, as suas vidas. Este é mesmo o meu cemitério preferido e se pudesse e o merecesse, viria para aqui um dia fazer companhia a estes lads, e ouvir para a eternidade, no meio de gargalhadas e canecas de Scotch, as suas histórias de guerra e amizade, de amor e de morte. 

Chris Mburu-Back

No início dos anos 70, Hilde, uma jovem professora primária de origem judia, nascida na Alemanha e refugiada na Suécia, decide participar num programa internacional patrocinado pelo governo Sueco. O programa, tem como objectivo ajudar crianças de comunidades rurais no Quénia que necessitam de ajuda económica para prosseguirem os seus estudos secundários. Uma vez integrada no programa, e até aos dias de hoje, Hilde contribui do seu bolso a quantia de 15 dólares por mês. Não é rica mas através de uma atenta economia caseira, nunca falha um pagamento.

Hilde Back

No final dos anos 70, Chris Mburu, uma criança de uma miserável aldeia no Quénia, começa a receber ajuda financeira de um distante e rico sponsor residente na Suécia, e com isso, prossegue determinado os seus estudos através do sistema educativo Queniano, até vir a ser admitido no curso de direito da Universidade de Nairobi e por fim num curso de pós-graduação em Harvard. Na sua determinação e vontade de mudar o estado em que o seu continente de origem se encontra, candidata-se a uma posição na Organização das Nações Unidas e uma vez aceite, dedica toda a sua carreira e energia na defesa dos direitos do homem e no combate ao genocídio, fenómeno que por uma sinistra coincidência, durante os anos 40, tinha destruído a família daquela que Chris sabe agora ser a sua generosa protectora.

Chris Mburu

 Em 2001, Chris criou um fundo que nasce do seu desejo de retribuir de alguma forma a generosidade que lhe permitiu ser o que é hoje. O fundo chama-se Hilde Back Education Fund e todos os anos ajuda dezenas de famílias a pagar os estudos de crianças que, tendo revelado enormes aptidões intelectuais, não podem dedicar-se em pleno aos estudos e à sua própria educação, devido à falta de meios económicos. Quando o criou, fê-lo de forma altruísta e em honra de uma pessoa que nunca tinha visto e de quem conhecia apenas o nome. Nos anos que se seguiram, procurou e encontrou uma muito estupefacta e octogenária Hilda, de quem se tornou grande amigo e, de alguma forma, o filho que esta nunca teve.

Soa um bocadinho a romance de faca e alguidar? Sim. E é por isso mesmo que é fantástico. Desta maravilhosa história foi feito o documentário de que deixo o trailer aqui em baixo e que acabou seleccionado este ano pelo Sundance Festival.

“A Small Act” — Jennifer Arnold, 2010

PS: Estas coisas não se dizem, mas o meu irremediável orgulho impede-me a contenção. Nos últimos anos, tornei-me, num contributing angel da UNHCR. Contribuo com uma (demasiado pequena) doação mensal, trago no pulso uma daquelas ridículas pulseiras de plástico azuis e quando vejo os voluntários da UNHCR na televisão, a distribuir comida e mantimentos a crianças refugiadas, penso que de alguma forma também lá estou. Fico-me por aqui. Podem guardar a faca e o alguidar.

Dentata

Como sempre a culpa não é minha. É dos outros.

LeBon à la guillotine!

Nos anos 80, enquanto as minhas primas mais velhas (e as suas amigas — algumas delas que por acaso também por aqui andam — e aqui arrisco) se deleitavam com a voz inconsequente do foleirão do Simon Le Bon e com a música já um pouco plastificada dos Fleetwood Mac do “Mirage” e dos Roxy Music do “Avalon”, eu e os meus primos, tentando demonstrar-lhes o nosso desdém mais profundo, explorávamos o que para nós era o máximo daquilo que definíamos como exemplos de música verdadeiramente de vanguarda. Os Smiths eram bons mas um bocadinho comerciais. Os Bauhaus, uma anedota gótica. Os U2 demasiado rockeiros. O que era muita bom mesmo, era isto:

Laurie Anderson — Big Science

E isto:

Robert Fripp & The League of Gentleman

E coisas mais antigas como isto:

Brian Eno — Here come the warm jets

Obviamente que de música sabíamos muito pouco e hoje, pensando bem, aquela que desses anos 80 me ficou mesmo como uma doce recordação é toda uma outra. Na festa de 40 anos de uma amiga no outro dia, numa bonita villa ali para os lados de Corso Vercelli em Milão, acabei aos saltos no meio de outros quarentões e quarentonas, a dançar ao som disto:

The Police — Regatta de blanc

e disto,

 

Joe Jackson — I’m the man!

Aconselho. Foi uma experiência muitíssimo revigorante.

O vira-bosta

Afinal, o escaravelho que rebola bolas de excremento pela savana africana e de quem aqui falei, (a Wikipedia chama-lhe rola-bosta ou vira-bosta) é um cidadão planetário absolutamente exemplar e ainda por cima era adorado pelos antigos Egípcios como um verdadeiro deus. Sinto-me agora  muito melhor. Suspeito que este tema de natureza algo escatológica me foi sugerido por este post do PN. Já não é a primeira vez, aliás, que nos dedicamos a temas desta natureza.