Short de Janeiro — Bunga Bunga

Sentado num grande sofá de veludo adamascado, em pleno Bunga Bunga, o seu clube privado, Sílvio olhava cansado à sua volta. Via as mesmas caras, as mesmas pernas e as mesmas mamas do costume. Novas, velhas, saídas do boletim meteorológico do Canale 5 ou das fileiras do Grande Fratello, pertenciam todas àquela raça de fêmeas insípidas que frequentavam a sua casa à anos. Che fastidio! Che noia!

 Mas ali, agora que olhava melhor, no meio de toda aquela carne já tão usada e cheirada e gasta, estava decididamente algo de novo. Quem seria aquela estranha criatura? Uma mulher a quem uma operação estética teria corrido terrivelmente mal? Uma jovem adolescente com um sério problema de urticária? E de onde viria? Da Roménia? Das Filipinas? De uma favela de São Paulo? Não conseguia perceber. Tudo era possível. Mas uma coisa era certa. Daquela fruta nunca tinha provado.

 Sílvio tinha tido um dia infernal. Um que começara em Bruxelas a aturar o pirla do Françês e a sechiona da Alemã, continuado em Roma com uma comissão parlamentar que não era mais do que uma corja de andicapatti e acabado em Milão a aturar o pezzente do advogado da ex-mulher, aquela vaca que a brincar a brincar levava para casa, todos os meses, quase três milhões de euros. Sentia que, hoje, por isso mesmo, merecia qualquer coisa de diferente. Sentia-se arzillo, pimpante, e com vontade de se portar mal. E que problema tinha uma noite um pouco mais bizarra? Seja. Esperava só que aquela ali não se fizesse de difícil. Também com aquele aspecto não poderia ir muito longe. E afinal de contas, com estas puttane, é tudo uma questão de champanhe e cash-flow e ele afinal chama-se Sílvio, e é só o rei incontestável desta grande Commedia all´Italiana.

Postal de Tóquio

The Urban Buddha, Tóquio, 23 de Janeiro 2011

Decido então deixar, definitivamente, o reboliço de Ginza. Para trás ficaram os arranha-céus e o trânsito, as hordas de gente e o seu ruído ensurdecedor. No parque imperial, aquela hora, não está ninguém. Sozinho, percorro alamedas sinuosas, que alguém cortou na relva com a ajuda de um bisturi. Passo por entre estreitas muralhas de pedra e descubro pequenos lagos preguiçosos onde nadam cardumes de Koy gigantescos, claramente ignaros de um reino que já não é. Só ao chegar lá a cima, onde repousam as ruínas do castelo de Edo, é que me apercebo que não estou só. Penso que terá entrado atrás de mim, a flutuar, rente ao chão, etéreo e silencioso. E foi até ali. Ali no que me parece ser, daqui de onde o vejo, o único sitio possível onde poderia alguma vez pousar.

Django

Era um ciganito Belga cheio de talento. Aos treze anos tocava já como um mestre. Como não sabia escrever nem ler o seu nome, no primeiro disco que gravou com o acordeonista Jean Vaissade, foi como Jiango Renard que lhe foi feito crédito. Até aos vinte anos viveu acampado com os outros Manouches nos arrabaldes de Paris, mas, quer passeando despreocupadamente pelas ruas da cidade com a guitarra às costas, quer tocando-a a solo no famoso “La Java”, Django Reinhardt revelou sempre um elegante e fascinante porte de cavalheiro. Aos 18 anos, quando ainda vivia numa roulote com Sophie, a sua jovem mulher, um terrível fogo que destruiu por completo a mesma, queimou-lhe dois dedos da mão esquerda que ficaram para sempre deformados e curvados na direcção da palma da mão. Mas Django era cigano e rijo e não desanimou. No hospital onde esteve internado durante 18 meses, inventou-se um novo sistema de dedilhar que lhe permitia usar os dois dedos afectados nas duas primeiras cordas da guitarra, ficando o trabalho pesado a cargo do indicador e do médio. Estava criada uma nova técnica e com ela, um génio absoluto. Do seu encontro absolutamente casual com Stéphane Grappelli durante uma Jam session no Hotel Claridge de Paris, em 1933, resultou o histórico Quinteto do Hot Clube de França, talvez o melhor de todos os grupos de Jazz que a Europa jamais produziu.

Nesse dia passaram, um e outro, à imortalidade.

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Django Reinhardt — J’attendrai Swing 1939

Emílio Salgari

 

Se me perguntarem onde é que eu agora gostaria de ir passar umas férias, uma daquelas sem mulher, nem filhos, nem amigos, numa expedição que tivesse como único objectivo o de encontrar o aventureiro que, creio, ainda viva lá bem no fundo dos meus genes, onde eu gostava mesmo de ir, dizia, era à Maracaíbo do século XVI, engajar-me como corsário de alto bordo na tripulação do Relâmpago e ir navegar pelos mares das Caraíbas em busca de perigosas aventuras. Para estar à altura dos meus companheiros, envergaria uns calções de sarja às riscas, uma camisa de flanela rota, desbotada e sem mangas, uma faixa vermelha à cintura segurando duas pesadas pistolas e na cabeça um enorme chapéu de feltro de abas esfarrapadas. Usaria a minha barba espessa e comprida e traria sempre nos olhos, vermelhos do sal e do gruel, uma enorme paixão pelo mar, pelo sangue e pelo ouro. Nessas férias, lançar-me-ia diariamente nas mais arriscadas empresas náuticas, cometeria actos de valentia e vilania, lutaria até à morte contra Holandeses e Espanhóis, beberia litros de rum e beijaria sem distinção, as mais belas, bem como as mais desdentadas mulheres dos bordéis da Ilha das Tartarugas. Sim, porque eu não viveria em Maracaíbo. Aliás, odiá-la-ia com todo o fel do meu mau fígado, pois ela era, nesses tempos, a roca forte desses cães dos Espanhóis e do seu odioso governador, o inominável duque flamengo, Wan Guld, inimigo do corso internacional e o assassino confessado dos Corsários Verde e Vermelho, irmãos do meu comandante e herói, o temível Corsário Negro.

Sonhos fantasiosos de aventuras como esta, só são hoje possíveis porque um rapaz originário de Verona, decidiu um dia pôr os seus talentos literários ao serviço da escrita de romances de aventura. Fê-lo depois de chumbar no curso de Capitão de Marinha e por pura necessidade económica, sem nunca ter posto os pés fora de Itália e sem nunca ter navegado para lá do Mar Adriático. O rapaz chamava-se Emílio Salgari e na sua vida relativamente curta, viria a escrever mais de 84 romances, e cerca de 120 novelas, que viriam por sua vez a definir um estilo e um universo literário e com isso entreter, ao longo de todo o Século XX, inteiras gerações de jovens leitores, competindo na sua fantasia e inspiração com outros escritores do seu tempo, normalmente considerados figuras maiores da literatura chamada de aventuras, tais como Júlio Verne, Alexandre Dumas e Robert Louis Stevenson.

Salgari era um não-conformista e de alguma forma um homem à frente do seu tempo. Escrevia aventuras no seu estado mais puro e nunca deixou que as suas histórias se empastelassem de moralidade, de banais princípios pedagógicos ou de um sentido artificial de justiça aparente. Não evitou a violência nem a morte, pois ela faz parte do drama da vida. Na sua obra nunca relegou a mulher para um segundo plano e em vez disso, deu-lhe para sempre um protagonismo e uma valentia nunca vistas (que corajosa a Iolanda, a filha do Corsário Negro). Não deixou que a religião tomasse conta dos seus personagens, dando-lhes uma liberdade moral decididamente saudável. Salgari escreveu ainda e sempre, encontrando um equilíbrio perfeito entre a realidade e a fantasia. Ao mesmo tempo que deu às suas aventuras um enquadramento histórico detalhado, exigindo de si mesmo um rigor quase enciclopédico, e descrevendo por isso, minuciosamente, o mar e a terra e as plantas e os animais que caracterizam os diversos locais por onde as suas aventuras se desenrolam, por outro lado, deixou sempre correr a sua enorme fantasia e a sua capacidade de contextualizar o que nunca tinha visto nem jamais vivido, envolvendo os seus personagens e com eles os leitores nas mais rocambolescas viragens de sorte e destino, deixando-os a eles, personagens e a nós, leitores, literalmente sem fôlego, e sem a mínima ideia do que poderá estar para acontecer ao virar da próxima página.

Pessoalmente, aquilo de que mais gosto na literatura de Salgari é o contraste entre esses dois grandes espaços em que o seu universo literário se articula. O primeiro desses espaços é o mar. Ele é imenso e rápido, luminoso e aberto, onde se encontram juncos, galeões, escunas, chalupas e brigues num incessante entrecruzar de grandes batalhas e pequenas escaramuças, de abordagens e naufrágios, de salvamentos e novas partidas. O segundo espaço é por outro lado, a floresta. Densa, lenta, húmida, misteriosa. Um espaço que tanto pode ser um refúgio como um assustador e infinito labirinto, repleto de animais venenosos, doenças malditas, templos misteriosos e seitas sedentas de sangue, onde das longas caminhadas empreendidas pelos heróis de Salgari resultam sempre umas quantas mortes terríveis, quer por doença ou por mordedura de cobra, quer, no caso de se encontrarem com os temíveis Tugues, por um horrível e lento estrangulamento. E é neste contraste que o bem e o mal se confrontam numa batalha universal e intemporal. O bem, mesmo quando é personificado por figuras sombrias e perigosas, revela-se sempre no heroísmo, humanidade e generosidade totais das mesmas, em oposição ao mal, geralmente identificado com as forças de opressão, sejam elas os colonizadores britânicos ou as seitas adoradoras de Kali (no caso de Sandokan), sejam os Espanhóis ou os Holandeses (no caso das histórias dos Corsários das Ilhas das Tartarugas) e que revelam sempre uma predisposição para a ganância, para a prepotência, para o fervor religioso e para uma enorme crueldade para com os mais fracos.

Em miúdo, ofereceram-me alguns exemplares da Colecção Salgari da Editora Romano Torres. Lembro-me de ter completado a colecção nos anos seguintes, comprando, na feira do livro, por meia dúzia de escudos, os exemplares que me faltavam. Tinham uma capa de papel colorido e umas ilustrações de sonho e ainda lá estão, numa estante de casa dos meus pais, na Praia das Maçãs. Confesso que uma das frustrações mais profundas da minha infância foi ter perdido o último episódio da série televisiva “Sandokan”, aquele em que a Marianne morre e em que Sandokan reconquista Mompracem. Agora, reeditado em Itália e em vários outros países, Emílio Salgari, parece estar de volta. Nestes tempos em que as aventuras se vivem de uma forma politicamente correcta em frente aos televisores e às Wiis, a leitura de Salgari torna-se mais do que nunca obrigatória. Este Natal, tentei ler a história do Corsário Negro ao meu filho de sete anos. Curiosamente assustou-se logo no início da história aquando da descrição de Maracaíbo, dos doze corpos pendurados na forca da Praça de Armas, e do cadáver do Corsário Vermelho a quem sem respeito de qualquer espécie, enfiaram uma beata na boca. Ou foi isso que o assustou, ou foi a voz de trovão que fiz quando nos diálogos de abertura fala o assustador Corsário Negro. Para o ano que vem tentarei de novo.

Salgari morreu na miséria total. Explorado pelos seus editores, com a mulher demente internada num hospício, e sem possuir sequer um par de sapatos, Emílio Salgari comete hara kiri no dia 25 de Abril de 1911, aos quarenta e nove anos de idade. Como despedida deixa uma nota aos mesmos editores dizendo: “Peço a vós que enriquecestes à custa da minha pele, enquanto mantivestes a minha família na pobreza, que pelo menos tenhais a decência de pagar o meu funeral. Saúdo-vos quebrando a minha pena”*

Amortalhado na bandeira do Corsário Negro, depositamos o corpo do nosso camarada Emílio sobre uma tábua apoiada à amurada do Relâmpago. A segurar a mesma tábua estou eu, o Van Stiller, o Carmaux e o Morgan, o hábil e intrépido piloto do navio. Ao levantarmos a extremidade da tábua e enquanto o corpo do nosso criador desliza na direcção do abismo marinho, ouve-se o canhão de bombordo que dispara uma salva de metralha e o assustado bater de asas de um corvo-marinho que havia pousado lá em cima no cesto da gávea. Do convés do tombadilho, o Corsário Negro, mais pálido que nunca, faz-me uma saudação discreta com a cabeça, virando-se depois com o olhar sombrio, na direcção de Maracaíbo. Atacamos esta noite. Vingamos a morte do Corsário Vermelho. Os homens estão prontos e eu também. Resta-me afiar a lâmina da minha cuchilla, encher de pólvora a minha bolsa de pele e esperar pelo melhor. Se for capturado acabarei com uma corda ao pescoço na Plaza de Armas da cidade. Se morrer, numa vala comum à saída da mesma, entre o bem e o mal, onde acaba a maresia do porto e começa a humidade pegajosa e quente da floresta. Se no entanto vencermos e tomarmos vitoriosos o palácio do governador, seremos nós a pendurar o corpo sem vida desse bastardo do Wan Guld às portas da cidade e ficarei eu, com certeza, com mais uma bela história para contar, lá no escritório, durante a próxima reunião do Board.  

Por essa história e pelo sonho, um grande obrigado, meu querido Emílio Salgari!

Vasco Grilo


* Torres Fontes, Luis;  Vida e obra de Emilio Salgari

As minhas prendas — Ainda vou a tempo?


Mais vale tarde que nunca.


Este Natal fui apanhado desprevenido. Entre viagens mirabolantes, catadupas de trabalho e mais as aulas de ski dos meninos, fiquei sem tempo, sem tinta e sem rede para poder embrulhar e oferecer umas prendinhas aos meus co-bloggers que tanta falta me fazem quando, sem eles, passo mais de uma mão-cheia de dias. Assim, aqui um bocado à pressa e usando o papel de embrulho que consegui salvar das mãozinhas delicadas dos meus filhos, resolvi empacotar umas lembranças aos meus queridos e defuntos amigos.

Esta é para a Teresa Conceição, que gosta de navegar à deriva pelos desertos desse mundo fora.

Esta aqui é para a Eugénia de Vasconcellos porque o amor também é feito de sangue e ela que o sabe contar tão bem.

E para que a Joana Vasconcelos possa aquecer as mãos, depois do frio que apanhou este ano numa noite de primavera, fica aqui esta.


A Marta, que me fez um grandioso creme de marisco fica com esta.

O Zé Navarro de Andrade, que teve um ano difícil, pode, e deve, ter esta.

aquela ali é para o Manuel S. Fonseca que como toda a gente, já teve 20 anos e também um dia sonhou com Paris.


Esta é para o Pedro Norton que lá bem no fundo tem alma gitana,

aquela ali é para o Ruy que é poeta e que nunca hesita em me en(cantar).


Para o Diogo foi mais difícil porque ele já tem tudo. De qualquer modo arrisco e ofereço-lhe esta.


Ao Gonçalo, que é o único que me faz pensar no Seu sacrifício de vez em quando, trouxe-lhe esta,

e para o António, porque em 1970 já andava de chapéu à banda, aquela ali.

Para terminar, esta aqui para o Francisco porque vive em Boston, Mass. que é a coolest city do planeta,

e para o Pedro MS, que com as suas Kino-listas se tornou no meu guia espiritual, aqui fica a última.


Espero que gostem e que no próximo Natal cá estejamos todos outra vez bem enterradinhos.

Canto fantasmagórico

O Bob Hope cantou-a só para mim. Lembrava-me de a ter já ouvido em qualquer filme.

Bob Hope and Shirley Ross, “Thanks for the Memory” de “The Big Broadcast of 1938″

Princeton Ghosts

The Nassau Inn — Princeton, NJ

Poder-se-ia definir como um verdadeiro albergue de gente morta. Situado em plena Palmer Square, é o centro gravitacional de Princeton e da sua Universidade e como tal, já ali dormiu muito ilustre defunto. Sob o pórtico da entrada pode-se ler:


“Rest Traveller, Rest, and Banish Thoughts of Care;

Drink to Thy friends and Recommend Them Here”


Chama-se The Nassau Inn, existe desde 1769 e nota-se. A recepção trepida sob a vibração das caldeiras instaladas na cave do edifício e de noite, a velha estrutura emite deseperados e tétricos lamentos fazendo ranger as suas madeira centenárias e uivar os seus fantasmas residentes. E estes não são poucos. Não sou certamente um ilustre intelectual ou académico mas esta semana também lá passei uma noite e digo-vos que pouco consegui dormir. Numa sequência interminavel de sustos, fui visitado no meu quarto por um rol de personagens fantasmagóricas que tendo lá dormido em vida se recusaram até hoje a fazer o check-out e a pagar a conta. Primeiro foi o Bob Hope que me cantou o “Thanks for the Memory” até eu adormecer. A seguir, entrou o F. Scott Fitzgerald que me acordou e sentando-se na borda da minha cama me contou uma estranha historia de gente rica e morta. Tinha claramente bebido demais, lá em baixo, no bar do Yankee Doodle. Devo ter adormecido de novo pois de repente e esbaforido, apareceu o JFK que entrou no meu quarto seguramente convencido que era o da Grace Kelly. Foi-se embora com um ar desconsolado. Pela uma e meia da manhã apareceu o Walter Cronkite que trazia um capacete do exercito Americano com a escrita Born to Kill e um microfone na mão. Estava bastante desorientado pelo que tive que o conduzir até à porta. No corredor, abandonada, estava uma cadeira de rodas com as iniciais FDR. Desisti de dormir pelas duas. E fiz bem. Dez minutos depois entrou-me o Albert Einstein pelo quarto, a esvoaçar a uma velocidade surpreendente. Seguiram-se o George Washington e o Paul Revere, que entraram de carabina em punho, me perguntaram se escondia algum Inglês e voltaram a sair sem mais uma palavra.  Por fim entrou o Robert Oppenheimer que andava à procura do Einstein. Parecia ter qualquer coisa de explosivo para lhe contar. Pelas três da manhã decido ir à casa de banho e descubro um sari pendurado atrás da porta. Curioso, verifico que, bordado a seda na etiqueta, está o nome da Indira Gandhi. Para terminar as excitações da noite, quando regresso ao quarto constato para minha surpresa que a Grace Kelly se meteu na minha cama (convencida certamente que eu era o JFK.) Resolvi deixá-la viver a sua ilusão e ali ficou até de manhã.

Que noite, amigos, que noite.

PS: Um dos pontos altos do The Nassau Inn é também este mural, pintado por Norman Rockwell para o Yankee Doodle Tap Room e onde, a seus pés, bebi anteontem um potente copázio de Southern Comfort (um dos mais intragáveis mas característicos Burbons do mundo). Cheers!

Yankee Doodle — Norman Rockwell 1937

Hunger

The Dirty Protest

1981– Sonho…

…que sou um homem adulto. Que estou preso. No bloco H dos calabouços destes colonialistas filhos da puta. Não recordo o último dia em que me lavei. Ou cortei o cabelo. Ou fiz a barba. Debaixo deste cobertor estou completamente nu. Tenho as unhas compridas e negras. Os meus pés gelados são uma chaga sangrenta. Comigo está um outro companheiro de combate. É um veterano, não um aprendiz como eu. Metódicamente e como todos os outros, ensinou-me a recolher bocados de comida com os quais construimos um canal inclinado por onde, todas as tardes, fazemos correr o nosso mijo, por debaixo da porta, para o corredor da prisão. Quando aqui cheguei, tinha já coberto as paredes da cela com excrementos. Verdadeiras pinturas rupestres feitas com a sua própria merda. Agora ajudo-o, usando a minha própria matéria-prima. Ontem fizeram-nos uma inspecção. Tiraram o Bobby da cela dele e bateram-lhe com uns bastões de borracha de um novo tipo, mais compridos e flexíveis que os habituais. Fizeram-no com alegria. Depois, cortaram-lhe o cabelo à navalhada e lavaram-lhe o sarro e o sangue com um jacto de água gelada. Um dos guardas, um sacana com medo da sua própria sombra, com uma luva de lavar loiça, enfiou-lhe dois dedos pelo cu acima e depois pela garganta abaixo, à procura de provas. Provas de quê? De que estamos vivos? Transformaram-nos em seres pré-históricos estes animais. Viver como tal é a unica forma de protesto que nos resta. Ou antes. Não exactamente. Temos ainda a morte. Aquela em que nos deixamos morrer. Voluntariamente. De fome. Uma morte inútil? É possível. Talvez apenas um martírio vaidoso e exibicionista. Mas talvez seja a coisa certa. Porque afinal o que é necessário é combater. E é de uma guerra que esta porra se trata.

Acordo…

…e acendo a luz. Pelo quarto parece-me sentir ainda o odor acre da creolina com que se limpam os corredores das prisões e dos quarteis. Olhando as minhas mãos na penumbra dir-se-ia que tenho as unhas partidas e sujas. São seis da manhã. Tenho treze anos, ando no segundo ano e hoje tenho ponto de matemática. Abano a cabeça e viro ao contrário a minha almofada quente e húmida. O melhor é dormir mais um bocado.

“Hunger” — Steve McQueen, 2008

Dan Auerbach

Poderia ser um primo distante de Hendrix, ou de Dylan, ou de Morrison, ou de Clapton. Não é. Vem de Akron, Ohio e as suas influências são outras. Mais directas e profundas. Influências que emanam vaporosas das campas de Robert Johnson e de R. L. Burnside. De Robert Nighthawk e de Hound Dog Taylor. Todos mestres diplomados no azul das almas, no vermelho das paixões e no amarelo do pó que cobre essas longas estradas que cruzam infinitas, o Deep South Americano.

A solo, com o Patrick Carney nos The Black Keys ou na companhia dos seus bizarros Fast Five, Dan Auerbach, na sua versatilidade explosiva veio decididamente para ficar.

So simple.

So good.

God Bless him!

“Heartbroken, in Disrepair” — Dan Auerbach 2009

“Mean Monsoon” — Dan Auerbach and the Fast Five 2009

“Tighten Up” — The Black Keys 2010

Apocalypse Then

Há qualquer coisa de apocalíptico e aterrador no som do cravo. Penso sempre que, após um gigantesco cataclismo nuclear, o primeiro instrumento a ser encontrado pelos possíveis sobreviventes do mesmo, seria um cravo.  Imagino uma andrajosa e solitária sombra em busca de água e de comida que, com angústia, depara com a perna de um cravo, enterrado e invertido. A dita perna, emergindo por entre os escombros, espreita as cinzas de um mundo que já não é. Como o telescópio de uma máquina de viajar no tempo. Imagino depois a mesma sombra a afastar, com as costas da mão, as tóxicas poeiras que cobrem as teclas do instrumento, e depois também duas lágrimas, luminosas e radioactivas, que lhe descendo pela face, abrem dois incandescentes sulcos de luz na escuridão do mundo à sua volta. E imagino-a por fim a sentar-se num caixote, à sua frente, com os braços estendidos ao longo do corpo e os nós dos dedos tocando terra, tentando recordar qualquer coisa que seja de um passado que lhe parece agora infinitamente distante. Finalmente, vejo-a a desferir tesos golpes de raiva contra o marfim e contra o seu mundo ferido de morte, e a lançar, para o vazio, um alucinado e dissonante berro de desespero e dor.

É com esse tipo de desespero e dor que acho que o toca a Elżbieta Chojnacka, nesta composição do grandíssimo compositor polaco Henryk Górecki. Na sua polónia de 1981, estou convencido que Górecki a imaginava e escrevia pensando em cataclismos futuros. Sei no entanto que pensava a sua música em geral, como uma coluna sonora de outros apocalipses, esses com certeza já muito menos imaginários.

H. M. Górecki — Concerto for Harpsichord and String Orchestra, Op. 40

Elżbieta Chojnacka, harpsichord
Narodowa Orkiestra Symfoniczna Polskiego Radia
Antoni Wit, conductor

13 Musas de uma vez só…

Não uma mas treze, treze musas para o Diogo. Espero que por agora lhe bastem.

Todas Giocondas.

Ou Jocondas?

De certeza, todas belas e  muito nuas.

Tarde de Sexta-feira e faz sol lá fora.

Hoje acordei com saudades do meu Walkman. E das tardes a fazer cassetes com os meus primos. E dos Prefab Sprout, e dos The The, e dos Weekend, e dos Everything But The Girl.

Bom tarde e bom fim de semana!

Faron Young — STEVE MCQUEEN, Prefab Sprout 1985

Uncertain Smile — SOUL MINING, The The 1983

Summer days — LA VARIETÉ, Weekend 1982

Bittersweet — EDEN, Everything but the Girl 1984

The Silly Preacher

Um dia fui a Graceland. Com uma das maiores ressacas da minha vida, mas fui.

Uma experiência estonteante.

The Howlin’ Preacher

Tennesse, 1997

- I don’t drink alcohol, Doc! Twenty three years and two months! Not a single drop!

Fico com o Pitcher de cerveja suspenso no ar. Quem numa profunda voz de barítono acaba de me confessar a sua abstémia é um negro de nome Samuel. Sorri perante a minha estupefacção. – The good lord Jesus showed me the way, you know Doc? — Há mais de uma semana que insiste em chamar-me Doc.

- And I´m a preacher too… — remata orgulhoso com um brilho nos olhos.

Estamos em Março mas está calor. Viemos todos jantar a East Memphis. No Corky´s Ribs & BBQ. — Best ribs in the Country! We ship everywhere! We supply the White House! — Acredito que sim. E não é difícil imaginar o Presidente Clinton sentado nos sofás da West Wing, a chupar dos seus dedos anafados o delicioso e espesso Corky´s Special Hickory Sauce, enquanto discute com o seu Chief of Staff se as melhores ribs são perhaps as do Tennessee ou indeed as do seu estado natal, o Arkansas. Aqui, longe desses requintes intelectuais de Washington, à mesa somos doze, encafuados numa sala fumarenta nas traseiras do estabelecimento. Sou o único branco. Todos negros à excepção do Sandeep que, na sua magreza e natural delicadeza indiana, sentado ao lado de um dos operários das linhas de enchimento, um enorme negro de pura raça mandinga, parece um galão tirado à pressa, descolorado e insípido. Vê-se que está exausto e eu também. Trabalhámos juntos toda a semana. Quinze horas por dia. Os operários que nos ajudaram a levar avante o nosso bizarro projecto de engenharia, e com quem agora jantamos, foram incansáveis. Como recompensa, deles e nossa, viemos aqui obstruir as artérias com as famosas ribs do Corky´s e também, e sobretudo, beber uns copos valentes, de cerveja e Burbon. Porque merecemos. É nestes momentos que acho que a vida vale a pena. E sobretudo que vale a pena vivê-la aqui, longe do meu mundo, longe de tudo, mesmo no meio das vidas que vivem os outros, aqui ou onde quer que seja que a vivem. E só mesmo o facto de o Samuel não beber é que me perturba. Decido por isso ajudá-lo e beber pelos dois. Espero que não se esqueça de rezar por mim amanhã de manhã.

O que é que andavas por ali a fazer, pareceu-me ouvir perguntar? Explico. Sou uma espécie de desenhador de fábricas. Trabalho para uma empresa de consultoria e concebo Lay-outs para as operações industriais de meia dúzia de multinacionais. Na realidade a empresa sou eu e o meu amigo, irmão e anjo da guarda Sandeep. Neste momento, temos de facturar o mais possível pois estamos a planear uma viagem à Índia em Novembro e durante os dois meses que por lá andaremos, não temos qualquer intenção de trabalhar. O nosso Principal, que era também Indiano e que era também um emérito professor de Harvard, morreu o ano passado num acidente de montanhismo. Na verdade, quase todos os meus amigos aqui são indianos embora estas amizades durem pouco pois a maior parte destes transfere-se para a costa Oeste ao fim de meia dúzia de anos. Vão trabalhar para as empresas de IT que por lá crescem como cogumelos. O Sandeep e eu, decidimos manter a nossa base em New England e depois da morte do Kumar, temos andado por conta própria, a amealhar as nossas hourly fees com alguns projectos já em curso ou com alguns novos accounts que vamos conseguindo abrir graças aos nossos contactos com a Harvard Business School. Tenho um pequeno apartamento em Cambridge mas vivo sobretudo em hotéis, motéis e aeroportos. Quase não tenho oportunidade de gastar o dinheiro que ganho. Compro roupa onde calha e sigo uma dieta gourmet, rica em take out chinese food e garrafas de Snapple Iced Tea. Acumulo centenas de milhares de milhas aéreas e consumo malas de viagem ao mesmo ritmo que consumo a sola dos meus sapatos.

Mas que life-style simpático, estão talvez a pensar com um sorriso trocista. Têm razão. Talvez não o seja. Mas olhem, tenho andado a ver o mundo aos bocadinhos. Tenho trabalhado em cidades onde nunca pensei alguma vez pôr os pés, como Monterrey no México ou Gwangju na Coreia do Sul, junto á costa do mar amarelo. E também em cidades mágicas como Manaus, o Cairo ou Istambul. Ou ambientes de estranhos contrastes como Afula no norte da Galileia ou Jeddha na Arábia Saudita. E com tudo isso, nestes últimos tempos tenho-me cruzado e sentado à mesa com todo o tipo de humanidade. Gente como o anafado dono de uma fábrica na Arábia Saudita que, sentado num luxuoso restaurante de Jeddha, com um sorriso fininho e as unhas bem tratadas, me descreveu orgulhoso o imenso valor acrescentado dos recursos humanos que, ao preço da chuva, importava do Paquistão e do Sudão. Ou o dedicado director de qualidade de uma empresa no Cairo que a um palmo do meu nariz, em árabe e aos berros, me informou que na sua fábrica mandava ele e que eu podia voltar para a América com os meus planos de aumento de produtividade. Ou o Plant Manager que me convidou para jantar em sua casa em Tiberias, nas margens do mar da Galileia em Israel e onde conheci a sua filha que, nos seus 18 anos e enquanto nos servia o jantar, me contou que tinha acabado de completar um turno do seu serviço militar como espia infiltrada numa célula de resistência armada palestiniana. Ou os dois gestores Ingleses que, expatriados e já para lá da meia idade, viviam encurralados em Seul, entre trabalho, bebedeiras e sonolentas conversas com as namoradas de turno, essas beldades jovens e anónimas, que aos magotes frequentam os bares dos melhores hotéis asiáticos. Ou ainda os simples, mas educados e sempre sorridentes operários egípcios, com quem dividi pedaços de frango frito, enquanto sentados em bidons ferrugentos nas traseiras de uma fábrica plantada no meio do deserto, fumámos shisha de um cachimbo de água improvisado.

Admito. Por vezes vou parar a destinos menos cosmopolitas ou exóticos. Neste preciso momento, há já mais de um mês que ando pelo sul dos Estados Unidos. Collierville, Arkadelphia, Texarkana, Tyler, Shreveport. Cidades e vilas desta América profunda, primitiva, inculta e segregacionista mas por vezes tão solidária, generosa e surpreendentemente cordial. Cidades com aeroportos onde chego por vezes já noite funda, no ]ultimo vôo e onde um segurança octogenário vem, cambaleante de sono, abrir a porta para que os passageiros possam sair do terminal. Algumas são verdadeiras vilórias onde num pequeno balcão rent-a-car, me estendem as chaves de um veículo de modelo indefinido, ao volante do qual, mergulhando na escuridão de uma qualquer auto-estrada secundária, vou procurar o Holiday Inn mais próximo. São também cidades que há muito perderam o centro e o nexo. Em que a main street já só alberga discount marts, liquor stores e gente sem casa nem rumo. Cidades onde nos arredores encontro fábricas irremediavelmente condenadas à morte, de onde empresas, que há muito as esqueceram, tentam tirar ainda algum lucro que investem depois nas maquilladoras do México e na Índia e na China. Fábricas populadas exclusivamente por duas raças: os African Americans e os exemplares dessa outra raça que os americanos de classe média definem cruelmente como White Trash. Pretos e Lixo Branco, em suma, que com os seus bonés de basebol, as botas cardadas e a roupa comprada nos thrift stores que como ervas daninhas nascem e morrem na borda das autoestradas, se batem duramente para que ao fim do dia consigam ainda acreditar nessa escorregadia ilusão que por vezes parece ser, o American Dream.

Olho para as minhas mãos. Estão vermelhas de pimentão. Tenho os dedos e as unhas impregnadas do tal Corky´s Special Hickory Sauce de que o Clinton tanto gosta. Tento, sem sucesso, limpá-los com um toalhete perfumado que retiro com dificuldade de um sachet com o logótipo do restaurante. É um Porky-Pig que sorri amavelmente e me convida a encomendar uma dose de ribs pelo telefone, da próxima vez que não podendo sair de casa, me assolar uma incontornável gana de as comer. Em cima da mesa, pitchers de cerveja vazios, pilhas de ribs roídas com afinco e restos de pulled pork, beans e corn on the cob são testemunhas da nossa voracidade. Pergunto aos meus companheiros de mesa como é que se vai para Graceland. Amanhã, antes de voltar para Boston, quero lá ir. Olham-me com alguma circunspecção e ouço de novo a voz quente de Samuel, o operário pregador, – Elvis Presley is a white man´s invention, Doc! – Acenos de cabeça. — They coudn´t deal with us being on top, you know? Primeiro olha-me sério e logo a seguir abre de novo um grande sorriso. Sorrio-lhe também. Levanta-se então, e apoiando os punhos fechados no tampo da mesa, como imagino que faça um verdadeiro preacher no momento da prega, afirma quase cantando — Now! Are you interested in listening to some serious southern music?  — Atordoado pelo cansaço e pelos vapores do álcool, não estou seguro se Samuel se dirige a mim, ao Sandeep ou ao seu Good Lord, mas pelo sim pelo não, respondo-lhe afirmativamente.

Entramos por uma porta entreaberta nas traseiras de um edifício que dá para um parque de estacionamento. Descemos dois lances de escadas. O ambiente lá em baixo é quente e húmido. O espaço está cheio. A sala é pequena. As paredes pintadas de vermelho. De músicos não há vislumbre e eu continuo a ser o único branco. Já não sei em quantos bares entrámos antes de aqui chegar. Mais um shot de burbon e uma cerveja. As têmporas batem-me agora alternadas, sincopadas, ora a direita ora a esquerda. São duas e meia da manhã e devia estar a dormir á horas. O Sandeep fala ininterruptamente com dois dos nossos homens. Tenta-lhes explicar aquilo que andámos a fazer toda a semana. Ouço-o falar de design of experiments, control variables e statistic process control. Naturalmente já ninguém o ouve. Há excepção do Samuel, bebemos todos demais e começo a não saber onde estamos nem como ali viemos parar. Entram finalmente os músicos. Metem-me mais um shot de burbon na mão. Samuel está agitado, nervoso. O guitarrista senta-se numa cadeira em cima de um palco improvisado e faz-me um gesto com a cabeça. Não é para mim, era para o Samuel. Conhecem-se. Despejo o burbon pela goela abaixo. O Samuel sobe para o palco. Afinal também é um pecador. Não bebe mas canta o pecado dos outros, penso. O calor é insuportável. Samuel canta agora. Como um diabo. Qualquer coisa que envolve um comboio e um escravo e uma loja de penhores. È enfezado mas tem uma voz incrivelmente potente. Um Howlin’ Wolf, pregador e operário. A sua voz ribomba contra as paredes vermelhas e parece acelerar o latejar das minhas têmporas. A guitarra metálica que fere. A batida ritmada, como um comboio de carga que atravessa o delta do Mississípi. Preciso de ar. Urgentemente. Dirijo-me para as escadas ouvindo ainda ao longe uma guitarra e um lobo que canta. Já cá fora, o ar fresco da noite atordoa-me. Acendo um cigarro. Sento-me na borda do passeio e apoio a cabeça sobre os joelhos.

Acho que amanhã já não vou a Graceland.

Fuck ! Talvez seja altura de mudar de vida.

How Many More Years — Howlin’ Wolf

Blasfémia! Blasfémia!

Perdoem-me. Sei que este é um Blog que elogia o bom e o belo. E por isso mesmo, sei que vou cometer uma heresia com a seguinte afirmação.

 Os Beatles causam-me urticária.

 Cresci, claro está, com a fantástica música que produziram. Em minha casa ouviam-se o Revolver, o Yellow Submarine e essas duas míticas colectâneas que não conheço por outro nome senão como aquela Azul e aquela Vermelha. Canto de cor praticamente tudo o que escreveram e considero o White Album, ainda hoje, e apesar dos anos, como um dos melhores discos jamais incisos. Reconheço que abriram todas as portas, misturaram todos os estilos e inspiraram todos os que depois deles vieram. Tenho amigos e familiares que desenvolveram complexas patologias de fanatismo após excessiva exposição à sua música. A canção preferida dos meus filhos continua a ser o I am the Walrus, e eu próprio, enquanto escrevo estas linhas, oiço no meu i-pod o I Want You, desse extraordinário disco que é, também, o Abbey Road.

Tenho no entanto de admitir que, para lá da música que fizeram, desenvolvi, ao longo dos anos, uma forte embirração com o mito dos fabfour (é sobretudo este termo que me causa a tal urticária) e com o evangelho segundo John, Paul, George e Ringo que os fanáticos sacerdotes da Beatlemania continuam a usar, ainda hoje, como gospel sagrado. Assim, (em voz baixa, que é para não me baterem na rua), confesso primeiro que embirro solenemente com o Paul e a alegria simplória que o move e o faz abanar a cabeça de um lado para o outro enquanto saúda as fãs com o seu sorriso pacóvio. Logo a seguir, implico também com o George e o seu espiritualismo urbano de periferia, alimentado a baforadas de haxixe e enérgicas massagens yurvédicas. Mas em particular, admito, nutro uma fortíssima alergia ao John Lennon. Alergia às suas caretas, em que piscando os olhinhos para a câmara se faz de engraçadinho. Alergia à cara de enjoo com que ficou quando a fama, que incomodativa que é a fama, lhe bateu à porta. Mas alergia sobretudo à sua fase de rabi apocalíptico, com cabelo e barba até ao umbigo, metido numa cama malcheirosa durante dias a fio, na companhia da não menos aberrante e ainda por cima medíocre, Yoko Ono.

 Ainda aquele que consigo tolerar melhor, apesar da improvável cara de tonto que Deus lhe deu, é o Ringo. Excelente baterista, nunca levou demasiado a sério a sua condição de Beatle e sempre me pareceu aquele que, ao contrário dos outros, foi capaz de se divertir alguma coisa com a fama e o dinheiro que ganhou. Assim, para me redimir destes meus mesquinhos sentimentos e respondendo ao desafio da Joana, (que deixou de ser minha amiga logo no primeiro parágrafo), deixo aqui uma das minhas canções preferidas, composta e cantada pelo Ringo e que por acaso, até parece ter sido escrita a pensar neste blog, aqui escondido debaixo das ondas e onde cantando e dançando sabemos que ninguem nos poderá encontrar.

Serendipity musical

Acontece de vez em quando. Uma vez por ano no máximo. Aparece-nos assim. De repente. Uma canção, uma só. Porque se ouve num filme. Ou na rádio, mudando de estação. Ou porque alguém a ela se refere numa conversa. E ali fica. Na parte detrás da memória, à espera que o momento chegue. E depois, um dia, é paixão. Que não descola. E o incrível é que esteve sempre ali. À espera que a encontrássemos. É assim a música. Desta vez foi a Karen Dalton. Um espírito Cherokee que me apareceu numa rua de Nova Iorque. Descobri que morreu em 1993, mas juro-vos que estava ali, à minha frente, de banjo na mão. E agora não me deixa ir embora. 

Same Old Man — Karen Dalton 1971

Mica la troviamo con i santi.…

Roubaram a bicicleta nova ao meu filho. Tínhamo-la comprado no dia anterior, cinzento metalizada, com dezoito mudanças e um elegante selim de pele castanha. Nesse dia, à hora do almoço, perante as lágrimas e o desespero, gostava de o ter levado a uma das muitas Trattorie do nosso bairro, fazê-lo beber um copo de vinho branco, comer uma mozzarella in carrozza, e falar-lhe das agruras da vida e de como um homem que cai ou é feito cair, se levanta sempre, com os olhos no infinito e as costas direitas. Mas os tempos hoje são outros, e não o fiz. O pai moderno que sou, preocupado com os traumas e as sequelas que pudessem ficar, foi a correr comprar-lhe uma igual, cadeado e capacete e tudo. A ilusão era simples. O pai tinha telefonado à polícia. Tinha apertado com eles. Pusera-os na ponta dos pés. E eles tinham-na encontrado! Abandonada no parque! Um verdadeiro milagre!

Afinal, as rezas da mãe deram resultado.

Ou talvez tenham sido os santos, que lá em cima velam por nós.

Ao que me obrigam estes maledetti Ladri di Biciclette!

Ladri di Biciclette — Vittorio de Sica 1948

Short Story de Outubro


Friends at Lake Starnberger, 1946. ©Herbert List/Magnum.


Agora que a guerra acabou, nada lhes resta senão a contenção de uma esmagadora e absurda monotonia. O mundo que, por breves momentos, pareceu estar pronto para receber a vontade que tinham de o conquistar, parece ter voltado a fugir para as páginas mortas da vida dos outros. O aborrecimento, esse, fuma-se por isso sem pressas, na esperança que talvez a paz se distraia, e que o raio da vida, de uma vez por todas, se digne a começar.

Aqui vos deixo a imagem que ilustrará as Short Stories de Outubro.


PS: Joana, para teu esclarecimento, esta não é uma fotografia de uma campanha publicitária da A&F, essas de que nos confessaste tanto gostar.

Easy Peasy Lemon Squeezy!

Éramos pobres, sim. Mas ali por ali, tínhamos encontrado o poço sem fundo. Eles? Quem são eles? Esqueçam-se deles! Não precisamos deles para nada. Sem esforço, sem ideias, sem trabalhar, sem investir, sem aprender nada de novo: chocolate para todos; festas de anos com palhaços; tardes de shopping furiosas, que o mau tempo é lá fora. Somos modernos. Sushi, sushi. Fácil, fácil. Easy Peasy, Lemon Squeezy!

Agora o buraco negro comeu-nos e vamos lá ficar dentro um bocado. A emagrecer. Eles são os culpados de tudo? Claro que sim. Foram eles! Esqueceram-se de nós, que estávamos de férias na neve e não demos por nada.

Agora, já de castigo para a cama e sem jantar que é para aprendermos a estar mais atentos nas aulas.

Juke Box 1971

Continuo convencido que é no primeiro ano de uma nova década que em termos musicais se produz aquilo que acaba por definir tudo o que mais tarde a caracterizará nesses mesmo termos. Entrar numa loja de discos em finais de 1971, dirigir-se à secção de Novos Lançamentos e constatar que ali, diante dos nossos olhos, estava praticamente tudo o que seria necessário levar para uma ilha deserta durante os dez anos seguintes, foi com certeza, para quem o fez, a confirmação dessa mesma teoria.

Senão, vejamos. Nesse ano saíram :

Aqualung – Jethro Tull

There’s a Riot Going On – Sly and the Family Stone

What’s Going On – Marvin Gaye

The Yes Album – Yes

Who’s Next – The Who

Tapestry – Carole King

Sticky Fingers – The Rolling Stones

Imagine – John Lennon

Surf’s Up – The Beach Boys

L.A. Woman – The Doors

Tago Mago – Can

IV – Led Zeppelin

Histoire de Melody Nelson – Serge Gainsbourg

Songs of Love and Hate – Leonard Cohen

Blue – Joni Mitchell

Pearl – Janis Joplin

Hunky Dory – David Bowie

Para não ser exaustivo e não transformar este blog numa Juke Box, deixo aqui em baixo apenas cinco amostras desta minha lista. Ficam assim os leitores respectivamente com o melaço denso do Marvin Gaye, o vanguardismo afetamínico do Bowie, a cadência hipnótica (a melhor road song jamais escrita) dos Doors, o experimentalismo alucinado dos Can e a sordidez requintada do Gainsbourg.

PS: Não é obviamente permitido e muito menos legal, ver o clip do Gainsbourg mais de três vezes na mesma noite.