
Busy making brand new social connections
Estou convencido que o Facebook, o LinkedIn, o Blogger e outras aplicações afins foram criados por uma organização terrorista com o objectivo de apagar do mundo quaisquer vestígios de produtividade e de pôr de joelhos o que resta da civilização e inteligência humanas. Alias, o declínio económico a que assistimos é, segundo a minha opinião, uma consequência directa e exclusiva destas perniciosas aplicações.
Senão vejamos.
Tomemos como exemplo um qualquer meu dia de trabalho.
Às primeiras horas da manhã, antes de abrir o Outlook e mergulhar nas centenas de incómodos e irrelevantes e-mails que me esperam, faço uma visita relâmpago ao Hotmail para ver se recebi e-mail na minha conta pessoal.
Aí, encontro os importantes updates do LinkedIn, do Facebook, do Plaxo, da Apple, do Star Tracker, do portal do cidadão, dos Supermercados Esselunga, e do ubíquo IKEA.
Após a reunião das nove verifico no LinkedIn quem foi promovido, quem foi despedido (mais os últimos que os primeiros), quem se “linkou” a quem e quem se transferiu para outro país.
Imediatamente a seguir à intromissão de um telefonema por volta das dez, aproveito para ver se nos dois ou três blogues que sigo se publicou algo de interessante. Hoje mesmo li um intrigante post sobre a religião das abelhas, um outro bastante venenoso sobre a textura das almofadas do parlamento Europeu e ainda um outro particularmente pungente sobre as pragas de mosquitos que se reproduzem nas águas estagnadas das piscinas que, nas casas abandonadas devido ao credit crunch no Arizona, lhes servem de viveiros.
Antes de almoço tenho ainda tempo para visitar o Facebook, no qual respondo ao incisivo inquérito “What type of beer are you?”. Sou uma “Duvel” belga. Exprimo ainda o meu estado de espírito numa curta mas relevante frase do tipo “Tired of working, I’m ready to go on a vacation to the Maldives” e acabo a espreitar o mundo real lendo na diagonal e online os títulos principais da BBC, do Público, do FT e do Corriere della Sera.
Durante a tarde, entre uma aborrecida reunião com um Finance Controler americano e uma outra com uma escorbútica directora de HR Croata sobre mais um inútil Talent assessment review, decido dedicar-me ao detalhado estudo de uma serie de interessantíssimas fotografias, que uma amiga, que não vejo desde os tempos do liceu, partilha com o resto do planeta, e onde ela própria (está igual, mas mais gorda), sorri com turística alegria para a câmara, endossando luminosos e coloridos fatos de ski, na companhia do marido e dos filhos numa qualquer estância de neve Espanhola (constato angustiado que casou com o surfista da Turma B).
Ao fim do dia, tendo decidido ir para casa às sete da tarde de forma a ainda poder dar um contributo à educação dos meus filhos, decido escrever mais um post, que duas pessoas se darão ao trabalho de ler e um iluminado anónimo, proveniente do Rio Grande do Sul, de comentar.
Chego a casa às dez da noite. Os meus filhos dormem já há horas. Estou cansado mas satisfeito e com a convicção de ter cumprido o meu dever. Estou “conectado” com o mundo e altamente produtivo no manter das minhas relações pessoais e profissionais. A minha contribuição para a economia mundial, essa, foi hoje, de exactamente menos 23 basis points.
É pois evidente que quem ganha são os terroristas do social networking.
* Post publicado no Geração de 60 (26 de Março 2009) e que aqui deixo a pedido da Joana Vasconcelos. Deixo também os dois comentários abaixo, que pela sua relevância e profundidade, são de alguma forma sintomáticos daquilo a que o post acima se refere…..
Pedro Norton disse… Sempre achei que podias ser muitas coisas estranhas. Mas uma Duvel Belga! Tanto anos para saíres do frigorífico…
Vasco M. Grilo disse… Fiquei mortificado como podes imaginar. Tantos anos a beber Sagres em grandes e viris canecas de barro cinzento para vir a descobrir isto da Duvel tão tarde na minha vida.….