Se me perguntarem onde é que eu agora gostaria de ir passar umas férias, uma daquelas sem mulher, nem filhos, nem amigos, numa expedição que tivesse como único objectivo o de encontrar o aventureiro que, creio, ainda viva lá bem no fundo dos meus genes, onde eu gostava mesmo de ir, dizia, era à Maracaíbo do século XVI, engajar-me como corsário de alto bordo na tripulação do Relâmpago e ir navegar pelos mares das Caraíbas em busca de perigosas aventuras. Para estar à altura dos meus companheiros, envergaria uns calções de sarja às riscas, uma camisa de flanela rota, desbotada e sem mangas, uma faixa vermelha à cintura segurando duas pesadas pistolas e na cabeça um enorme chapéu de feltro de abas esfarrapadas. Usaria a minha barba espessa e comprida e traria sempre nos olhos, vermelhos do sal e do gruel, uma enorme paixão pelo mar, pelo sangue e pelo ouro. Nessas férias, lançar-me-ia diariamente nas mais arriscadas empresas náuticas, cometeria actos de valentia e vilania, lutaria até à morte contra Holandeses e Espanhóis, beberia litros de rum e beijaria sem distinção, as mais belas, bem como as mais desdentadas mulheres dos bordéis da Ilha das Tartarugas. Sim, porque eu não viveria em Maracaíbo. Aliás, odiá-la-ia com todo o fel do meu mau fígado, pois ela era, nesses tempos, a roca forte desses cães dos Espanhóis e do seu odioso governador, o inominável duque flamengo, Wan Guld, inimigo do corso internacional e o assassino confessado dos Corsários Verde e Vermelho, irmãos do meu comandante e herói, o temível Corsário Negro.
Sonhos fantasiosos de aventuras como esta, só são hoje possíveis porque um rapaz originário de Verona, decidiu um dia pôr os seus talentos literários ao serviço da escrita de romances de aventura. Fê-lo depois de chumbar no curso de Capitão de Marinha e por pura necessidade económica, sem nunca ter posto os pés fora de Itália e sem nunca ter navegado para lá do Mar Adriático. O rapaz chamava-se Emílio Salgari e na sua vida relativamente curta, viria a escrever mais de 84 romances, e cerca de 120 novelas, que viriam por sua vez a definir um estilo e um universo literário e com isso entreter, ao longo de todo o Século XX, inteiras gerações de jovens leitores, competindo na sua fantasia e inspiração com outros escritores do seu tempo, normalmente considerados figuras maiores da literatura chamada de aventuras, tais como Júlio Verne, Alexandre Dumas e Robert Louis Stevenson.
Salgari era um não-conformista e de alguma forma um homem à frente do seu tempo. Escrevia aventuras no seu estado mais puro e nunca deixou que as suas histórias se empastelassem de moralidade, de banais princípios pedagógicos ou de um sentido artificial de justiça aparente. Não evitou a violência nem a morte, pois ela faz parte do drama da vida. Na sua obra nunca relegou a mulher para um segundo plano e em vez disso, deu-lhe para sempre um protagonismo e uma valentia nunca vistas (que corajosa a Iolanda, a filha do Corsário Negro). Não deixou que a religião tomasse conta dos seus personagens, dando-lhes uma liberdade moral decididamente saudável. Salgari escreveu ainda e sempre, encontrando um equilíbrio perfeito entre a realidade e a fantasia. Ao mesmo tempo que deu às suas aventuras um enquadramento histórico detalhado, exigindo de si mesmo um rigor quase enciclopédico, e descrevendo por isso, minuciosamente, o mar e a terra e as plantas e os animais que caracterizam os diversos locais por onde as suas aventuras se desenrolam, por outro lado, deixou sempre correr a sua enorme fantasia e a sua capacidade de contextualizar o que nunca tinha visto nem jamais vivido, envolvendo os seus personagens e com eles os leitores nas mais rocambolescas viragens de sorte e destino, deixando-os a eles, personagens e a nós, leitores, literalmente sem fôlego, e sem a mínima ideia do que poderá estar para acontecer ao virar da próxima página.
Pessoalmente, aquilo de que mais gosto na literatura de Salgari é o contraste entre esses dois grandes espaços em que o seu universo literário se articula. O primeiro desses espaços é o mar. Ele é imenso e rápido, luminoso e aberto, onde se encontram juncos, galeões, escunas, chalupas e brigues num incessante entrecruzar de grandes batalhas e pequenas escaramuças, de abordagens e naufrágios, de salvamentos e novas partidas. O segundo espaço é por outro lado, a floresta. Densa, lenta, húmida, misteriosa. Um espaço que tanto pode ser um refúgio como um assustador e infinito labirinto, repleto de animais venenosos, doenças malditas, templos misteriosos e seitas sedentas de sangue, onde das longas caminhadas empreendidas pelos heróis de Salgari resultam sempre umas quantas mortes terríveis, quer por doença ou por mordedura de cobra, quer, no caso de se encontrarem com os temíveis Tugues, por um horrível e lento estrangulamento. E é neste contraste que o bem e o mal se confrontam numa batalha universal e intemporal. O bem, mesmo quando é personificado por figuras sombrias e perigosas, revela-se sempre no heroísmo, humanidade e generosidade totais das mesmas, em oposição ao mal, geralmente identificado com as forças de opressão, sejam elas os colonizadores britânicos ou as seitas adoradoras de Kali (no caso de Sandokan), sejam os Espanhóis ou os Holandeses (no caso das histórias dos Corsários das Ilhas das Tartarugas) e que revelam sempre uma predisposição para a ganância, para a prepotência, para o fervor religioso e para uma enorme crueldade para com os mais fracos.
Em miúdo, ofereceram-me alguns exemplares da Colecção Salgari da Editora Romano Torres. Lembro-me de ter completado a colecção nos anos seguintes, comprando, na feira do livro, por meia dúzia de escudos, os exemplares que me faltavam. Tinham uma capa de papel colorido e umas ilustrações de sonho e ainda lá estão, numa estante de casa dos meus pais, na Praia das Maçãs. Confesso que uma das frustrações mais profundas da minha infância foi ter perdido o último episódio da série televisiva “Sandokan”, aquele em que a Marianne morre e em que Sandokan reconquista Mompracem. Agora, reeditado em Itália e em vários outros países, Emílio Salgari, parece estar de volta. Nestes tempos em que as aventuras se vivem de uma forma politicamente correcta em frente aos televisores e às Wiis, a leitura de Salgari torna-se mais do que nunca obrigatória. Este Natal, tentei ler a história do Corsário Negro ao meu filho de sete anos. Curiosamente assustou-se logo no início da história aquando da descrição de Maracaíbo, dos doze corpos pendurados na forca da Praça de Armas, e do cadáver do Corsário Vermelho a quem sem respeito de qualquer espécie, enfiaram uma beata na boca. Ou foi isso que o assustou, ou foi a voz de trovão que fiz quando nos diálogos de abertura fala o assustador Corsário Negro. Para o ano que vem tentarei de novo.
Salgari morreu na miséria total. Explorado pelos seus editores, com a mulher demente internada num hospício, e sem possuir sequer um par de sapatos, Emílio Salgari comete hara kiri no dia 25 de Abril de 1911, aos quarenta e nove anos de idade. Como despedida deixa uma nota aos mesmos editores dizendo: “Peço a vós que enriquecestes à custa da minha pele, enquanto mantivestes a minha família na pobreza, que pelo menos tenhais a decência de pagar o meu funeral. Saúdo-vos quebrando a minha pena”*
Amortalhado na bandeira do Corsário Negro, depositamos o corpo do nosso camarada Emílio sobre uma tábua apoiada à amurada do Relâmpago. A segurar a mesma tábua estou eu, o Van Stiller, o Carmaux e o Morgan, o hábil e intrépido piloto do navio. Ao levantarmos a extremidade da tábua e enquanto o corpo do nosso criador desliza na direcção do abismo marinho, ouve-se o canhão de bombordo que dispara uma salva de metralha e o assustado bater de asas de um corvo-marinho que havia pousado lá em cima no cesto da gávea. Do convés do tombadilho, o Corsário Negro, mais pálido que nunca, faz-me uma saudação discreta com a cabeça, virando-se depois com o olhar sombrio, na direcção de Maracaíbo. Atacamos esta noite. Vingamos a morte do Corsário Vermelho. Os homens estão prontos e eu também. Resta-me afiar a lâmina da minha cuchilla, encher de pólvora a minha bolsa de pele e esperar pelo melhor. Se for capturado acabarei com uma corda ao pescoço na Plaza de Armas da cidade. Se morrer, numa vala comum à saída da mesma, entre o bem e o mal, onde acaba a maresia do porto e começa a humidade pegajosa e quente da floresta. Se no entanto vencermos e tomarmos vitoriosos o palácio do governador, seremos nós a pendurar o corpo sem vida desse bastardo do Wan Guld às portas da cidade e ficarei eu, com certeza, com mais uma bela história para contar, lá no escritório, durante a próxima reunião do Board.
Por essa história e pelo sonho, um grande obrigado, meu querido Emílio Salgari!
Vasco Grilo

* Torres Fontes, Luis; Vida e obra de Emilio Salgari