Marilyn´s replacement

Continuo a acreditar que, se a Marilyn Monroe tivesse nascido em 1956, hoje, e para além de todas as oportunidades que temos de a continuar a ver (sem nunca cair) e ouvir, teriamos seguramente também, o prazer de a degustar na capa do primeiro álbum dos Roxy Music. Como nasceu em 1926 e em 1972 há muito que não estava disponível para photoshoots, o fotógrafo Karl Stoecker teve pois que se contentar com a Kari-Ann Muller. Sem desprimor para a Marilyn, que por sinal faz hoje anos, têm que concordar que a Kari era também estupenda. Tão estupenda que se decidiu por uma actividade a tempo-inteiro como  mulher de Chris “brother of mick”  Jagger. Mick Jagger, esse, que não satisfeito, ainda foi roubar mais uma diva famosa ao pobre do Bryan (com y) Ferry, mas isto já é gossip a mais para um blogue desta categoria.

Para terminar a minha argumentação refiro ainda que este primeiro álbum tinha um tema dedicado a um outro grande do Silver Screen, o grande H.B., num dos melhores momentos de sempre dessa grandessissima banda que foram os Roxy Music.

“He´s looking at you kid”

2 H.B. - Roxy Music 1972

É tudo bicharada morta #2

aqui falei do coelho que vive em minha casa. Há gostos para tudo dirão. Sim é verdade, confirmo. Neste nosso mundo, até para com o mais abjecto ou perigoso dos animais, existe alguém disposto a verter o seu amor, carinho e delicatessens alimentares de todo o tipo, sem limites, e esquecendo as mais elementares regras do bom-senso. Recentemente, soube de um casal que, em Milão, vive num apartamento com dois tigres adultos. Em Milão! No centro da cidade! (Suspeito que os dois simpáticos gatinhos terão já despovoado completamente o terceiro e quarto andares — Podemos só imaginar a dramática perda de valor do imóvel!)

Mantendo-me neste tema, deixo-vos por isso com a história que me contou um amigo meu no outro dia. É toda verdade verdadinha, tal como o era já, aquela a que me refiro lá em cima.  

O meu amigo K. tem uma Piton lá em casa. Um daqueles monstros da grossura de um pneu de um autocarro, capaz de comer um cão de razoáveis dimensões e que se alimenta substancialmente de ratos vivos e aditivos sólidos à base de sangue bovino. Há cerca de um mês, a Piton deixou de comer. É de referir que é normal que uma piton esteja em jejum por períodos de uma ou duas semanas, mas a sua “Foufone” (assim lhe chama carinhosamente) deixou de comer, period. K., que lhe dá melhores tratos do que aqueles que dispensa a alguns elementos da sua própria família, bem que tentou enfiar-lhe pela boca a baixo, e á força, os pequenos ratinhos brancos de laboratório de sua prelecção, mas nada. Nem uma dentadinha. Desesperado, acabou por levá-la ao veterinário para ouvir um conselho.

“Nada de estranho”, disse-lhe o Senhor Doutor dos animais “existem casos em que este tipo de Constrictors está meses sem comer. Não se preocupe, tenha um olho nela e se isto continuar por mais duas semanas, volte cá.” Duas semanas depois o meu amigo voltou ao veterinário. O doutor, depois de uma curta observação referiu-lhe que não encontrava nada de estranho na sua Piton. Mas depois curioso perguntou “Você têm-lhe observado algum comportamento particularmente inusual durante estas últimas semanas?” O meu amigo K. pensou um pouco e respondeu “Olhe doutor agora que pergunta, temos de facto visto algo de diferente no seu comportamento. Sabe, a nossa “Foufone” costuma vir dormir connosco, enrolando-se habitualmente aos pés da nossa cama para receber o nosso calor. No entanto, nestas últimas semanas, temos notado que, em vez de se enrolar, se estica toda ao longo do colchão, paralela á minha mulher. Temos achado piada acordar com ela naquela posição mas agora que mo pergunta, espero que o pobre animal não esteja a querer dizer-nos qualquer coisa.”

O doutor levantou-se. “Meu caro amigo, receio que tenhamos de abater imediatamente o seu animal de estimação.” “Abater a “Foufone”? Porquê, o que é que se passa com ela?” perguntou K. alarmado. O Doutor olhou-o frontal. “Não se passa nada de especial com a “Foufone”. O animal está de perfeita saúde. O que se passa é que ela se está a preparar para uma grande refeição.”

Confuso o meu amigo pergunta-lhe o porquê então, de abater a “Foufone”.

“Porque durante todas estas noites, a sua “Foufone” esticada na sua cama,” disse grave o veterninário, “ao lado da sua mulher…”

“Sim?”

“têm estado calmamente a tirar-lhe as medidas, meu caro amigo!”

Algarve Campestre

Em 1974, Brian Ferry, na companhia dos seus amigos Antony Price e Eric Boman, desenhador de moda um, fotógrafo de moda o outro, resolveu transferir-se para Portugal durante umas semanas, para escrever as letras das dez canções que viriam a compor o seu quarto álbum de originais com os Roxy Music. Um dia, na praia, fizeram duas estupendas amizades. Elas eram Alemãs. Altas, deliciosas e já coradas pelo bom sol Português. Por coincidência, (passam-se sempre com os mesmos, estas coincidências) as duas meninas eram modelos profissionais, habituadas às catwalks de Milão e Paris e que naqueles dias (e noites) se passeavam pelos nossos Algarves em busca de sol e aventura. A partir desse dia, esta ilustre pandilha passou a encontrar-se todas as manhãs na praia, fazendo grandes passeios de barco pela costa Vicentina e saindo juntos ao fim do dia, explorando a ainda quasi-virgem vida nocturna Algarvia. Numa dessas noites, inspirado pela beleza bastante suis-generis das duas raparigas, e por vários copos de Mateus Rosé, seguramente bebidos entre uma sardinha e um bailarico, o meloso Brian, puxando de todo o seu charme de meia branca, propôs-lhes um negócio. Uma proposta à qual não poderam de forma alguma dizer não.

E assim, no final dessa noite, no canto mais verde que foi possível encontrar no jardim da casa onde Brian e os seus amigos pernoitavam, acenderam-se os holofotes. Às meninas, foram-lhes aplicadas umas fortes camadas de rouge e baton, pelo que de seguida lhes foi retirada, delicadamente, quase toda a roupa que traziam vestida.

Chamavam-se Constanze Karoli e Eveline Grunwald e para nossa sorte e deleite, ficaram para sempre imortaladas nesta fotografia. Os redodendros algarvios também. O álbum chamou-se Country Life e viria a tornar-se num dos maiores sucessos de sempre da banda.

Country Life — Roxy Music 1974

PS: Quem sabe por onde andaria o nosso José Navarro de Andrade nessa noite?  

O cemitério dos livros-não-lidos

Sob o risco de vir a ser trasladado pelos meus co-bloggers, e voltado a enterrar lá para trás, ao pé do muro deste cemitério, onde só há campas rasas e enfeitadas com cruzes sem nome, decidi expor aqui, em público, o rol de alguns dos meus maiores e melhores falhanços literários. Sim, títulos de renome que, por ter ido de férias para paragens não propícias à leitura, ou porque leituras mais estimulante se atravessaram pelo meio ou porque estes se revelaram chatos como potassa, ali ficaram, semi-lidos, abandonados, sobre a mesa-de-cabeceira ou na borda de uma estante até que, resignado e envergonhado, os levei definitivamente para o cemitério dos livros não lidos, que fica numa prateleira bem alta do meu escritório, que a vista não alcança e onde o embaraço não chega.

Aqui têm então, uma parte da minha lista da vergonha, toda de uma vez.

Ulisses — James Joyce —  pág 112 

Light in August — Faulkner — pág 56 

Mau Tempo no Canal — Nemésio — pág 62 

The Picture of Dorian Gray — Wilde — pág 91

A Peste — Camus — pág 25

A Ilha do Tesouro — Stevenson — pág 195

O Idiota — Dostoevsky — pág 86

Lost Horizon — James Hilton — pág 45

Os Sete Pilares da Sabedoria — Lawrence — pág 139

My Name is Red — Pamuk — pág 38

The Cleft — Doris Lessing — pág 63 


Espero que tenham lido tudo depressa e com os olhos fechados.

Sonho laranja #2

A Eugénia roubou-me aqui a banda sonora de um post que andava à muito para fazer. Para não me ficar, e porque a mesma Eugénia aqui deixou uma das ecléticas preferências musicais do seu sobrinho, deixo-vos aqui ficar o Bécaud preferido das crianças lá de casa.

L’Orange — Gilbert Bécaud 1964

A German Oddity

Este é um daqueles álbuns que, com sorte, se encontram no máximo uma vez por ano. Daqueles que, tendo caído do céu por acaso, se enfiam debaixo da pele, e durante dias sem conta nos perseguem, e nos impedem de ouvir qualquer outra coisa que seja. Daqueles que têm de ser oferecidos a todas as pessoas de quem se gosta. Daqueles que se põem no carro e ali ficam durante semanas e meses e às vezes um ano inteiro.

Este ainda por cima é uma oddity, pois vem da Alemanha, que como é reconhecido, não é necessariamente pródiga na produção de pérolas do género. Talvez se possa também dizer que Konstantin Gropper, ouviu e aprendeu, (muito bem aprendidas aliás), as mais recentes lições harmónicas dos Radiohead e dos Arcade Fire e talvez também daquele amigo do Diogo, o Sufjan Stevens. Mas do que não restam dúvidas é de que Konstantin e os seus Get Well Soon aprenderam bem a lição, e como resultado fizeram este inquietante “Vexations”, um disco verdadeiramente celestial.

5 Steps — 7 words — “Vexations”, Get Well Soon 2010

Seneca´s Silence — “Vexations”, Get Well Soon 2010

We Are Free - “Vexations”, Get Well Soon 2010

Una cittá Nerazzurra!

A Presidente da Câmara da cidade de Milão* decidiu, ontem á noite, num Conselho Comunal especial, remover de Santa Maria delle Grazie, a Última Ceia de Da Vinci. Afirmou em conferência de imprensa que a pintura estava já um bocado velhota, e que o tema de Cristo, francamente, um pouco datado. Em seu lugar afixar-se-á uma grande fotografia a cores de um tal de Mou, um novo Messias que está para deixar a cidade.

* Letizia Moratti, cunhada de Massimo Moratti, filho de Angelo Moratti. Tudo gente de pele azul e negra.

Sei que te vou chocar…

…mas assim ficas mais descansado por saber que, também eu, tenho um lado piroso.

Mina — “Il cielo in una stanza” de G. Paoli

Do filme “Appuntamento ad Ischia”, 1960, Reg. Mario Mattoli

Para o aniversário do Diogo…

 

…uma pequena lembrança. Vinda de um período longínquo, em que acho que o formato tradicional da canção pop/rock ainda o fazia levantar o dedo mindinho do pé, e antes que os riffs das guitarras lhe soassem a déjá écouté, virando-se ele por isso, para outros (bons) sons.


A intromissão da Eugénia

Que estranho. Imediatamente após a leitura das primeiras páginas deste livro, Ethel, a personagem que nos guia através desta arrebatadora história, transformou-se na Eugénia. Sim, na nossa Eugénia. Por mais que tentasse dar-lhe umas feições originais e minhas, ali estava ela, a Eugénia, a espreitar lá de dentro da história, através do espírito curioso e poético da pequena Ethel.

A coisa estranha é que ainda estou para a conhecer a nossa Eugénia. Ainda nem a vi e já aparece vestida de fada nos livros dos outros. Que estranho.

O livro recomenda-se naturalmente. Muito. 

ler em rede #8

“Les raboteurs de parquet” — Gustave Caillebotte, 1875. Musée d´Orsay, Paris

Este post do MSF, tem alguns sabores parecidos com os deste, da Ana Cássia Rebelo, que não só é a autora solitária do blogue Ana de Amsterdam, como é uma das mais prolíficas e talentosas escritoras da bloga. Vão lá visitá-la, que vale a pena. Se o fizerem, leiam também este e este.

Texto com “Rebuke”

O MSF, pôs-me em grande dificuldade, desafiando-me aqui, a um debate ao qual tentei escapar (não por receio de medir os comprimentos das nossas anatomias, mas sim por receio de não estar à altura de um duro e puro debate de ideias) e trazendo consigo um exército de intelectuais difícil de rebater. Repetindo que estes são temas sobre os quais pouco leio e sobre os quais pouco sei, e assumindo que percebi a tese do autor (o que não é óbvio), tentarei satisfazer a sua “curiosidade de saber” dizendo que a minha discórdia com Stark, (autor do livro “The Victory of Reason: How Christianity Led to Freedom, Capitalism, and Western Success”, de que fala aqui o Gonçalo) relaciona-se apenas, com a dificuldade que tenho em ver causa e efeito de uma forma linear. A ideia base, Cristianismo -> Razão -> Capitalismo -> Vitória, parece-me simplista e forçada. Prefiro ver no cristianismo, um movimento que é contemporaneamente origem e produto da infra-estrutura física, económica, intelectual e política que na Europa se construiu ao longo dos séculos. Sem as estradas romanas o pequeno culto de Cristo que existia na Palestina nunca teria saído de si mesmo. Sem o modelo proto-capitalista do Império romano, nunca o culto de Cristo se teria, em Roma, auto-financiado e tornado numa força política relevante. Sem a orgânica e espontânea absorção de “bits and pieces” de outras religiões, nunca o movimento teria tido a “membership” inicial que lhe permitiria ganhar massa crítica para poder crescer.

Se o Cristianismo tem como base os ensinamentos de Cristo, não penso que este entenderia a Razão, o Capitalismo e a Vitória como consequências directas do seu pensamento*. Se o Cristianismo em vez disso, não é mais do que o somatório das ideias que, ao longo dos séculos se foram agregando em torno da ideia inicial, através dos contributos de alguns dos maiores pensadores da civilização humana, não vejo como se possa isolar o Cristianismo de todas as outras correntes de ideias que, contemporaneamente, foram contribuindo para o que o mundo Ocidental é hoje. Penso ainda que o sucesso do Cristianismo é o facto de este se ter tornado numa religião bastante “easy-going”, fácil de aceitar, e com a qual conviver. Uma religião compatível e aberta que foi sabendo integrar razão e tolerância. Uma religião que é fonte e resultado directo das necessidades que, na minha opinião, interessam o homem antes de tudo o resto e que o Cristianismo (Católico ou Protestante) no tempo soube compreender: a busca de liberdade, de recursos de sobrevivência e de algum reconhecimento da parte do outro.

Poderia a Europa ter-se desenvolvido como o fez sem o Cristianismo, ou tendo abraçado outra religião? Talvez não. Na minha opinião, isto reforça mais ainda a ideia de que a Europa desenvolveu e adoptou, o modelo de religião de menor energia, aquele que lhe deu maior espaço e liberdade de acção para se desenvolver na direcção em que o fez.

Dito tudo isto, é melhor que vá comprar o livro do Stark e ler melhor o que escreveram alguns dos amigos do MSF, antes que ele e os meus co-bloguistas mais eruditos me venham aqui enterrar em pântanos ainda mais profundos. Acho que já não vou ter tempo.

*Desculpem-me a enorme presunção de imaginar o que Jesus Cristo pensaria ou não desta conversa.

Treating dandruff by decapitation


Frank Zappa — US Senate 1985


Não penso que o Frank Zappa alguma vez, e até àquele dia, tivesse sequer assistido a um “hearing” do senado americano. Suspeito até que, ele próprio, nunca se tenha sequer imaginado vestido num fato e gravata, com um microfone daqueles pequeninos em frente da farfalhuda bigodeira, a dirigir-se respeitavelmente aos políticos que desde sempre satirizou sem piedade». Disse políticos? Queria dizer mulheres de políticos. Naquele caso a Tipper Gore e as suas amigas do Parents Music Resource Center (PMRC). Estas queriam que todos os discos com material de conteúdo explícito fossem rotulados voluntariamente pelos músicos num complexo sistema de classificação de conteúdos. Naquele dia e sem rodeios Zappa foi pois ao Senado dizer-lhes o seguinte:

«The PMRC proposal is an ill-conceived piece of nonsense which fails to deliver any real benefits to children, infringes the civil liberties of people who are not children, and promises to keep the courts busy for years dealing with the interpretational and enforcemental problems inherent in the proposal’s design. It is my understanding that, in law, First Amendment issues are decided with a preference for the least restrictive alternative. In this context, the PMRC’s demands are the equivalent of treating dandruff by decapitation … The establishment of a rating system, voluntary or otherwise, opens the door to an endless parade of moral quality control programs based on things certain Christians do not like. What if the next bunch of Washington wives demands a large yellow “J” on all material written or performed by Jews, in order to save helpless children from exposure to concealed Zionist doctrine?»

Naturalmente que o PMRC levou a melhor e o famoso “Tipper Sticker” pode ser visto hoje em muitos discos considerados “explícitos”. O Zappa como castigo levou com um desses no seu “Jazz from Hell” que, curiosamente, não continha uma palavra sequer que fosse.

Frank Zappa and Bianca Odin — “Dirty Love”, Live in Philly 1976

“Rebuke” sem texto

Rembrandt, Christ Drives Money-Changers from the Temple, 1626 Oil on panel, The Pushkin Museum of Fine Art — Moscow

Gostei muito de ler este post do Gonçalo, que nos trouxe um muito interessante excerto do livro “The Victory of Reason: How Christianity Led to Freedom, Capitalism, and Western Sucess”, do sociólogo Rodney Stark. Embora tenha gostado de o ler (o excerto), e respeite o ponto de vista e a metodologia do autor (sobretudo sendo ele declaradamente ateu), não consigo concordar com quase nenhuma das ideias que propõe. No entanto, porque sou um absoluto leigo nesta matéria e porque não li o livro na sua íntegra, não vou aqui deixar as razões da minha discordância. Para que não me acusem de fugir ao debate, deixo aqui, para quem queira escrever um rebuke ao livro de Stark, uma sugestão para um seu possível título:

The Victory of Reason: How the Western love for Freedom, Capitalism, and Success let to Christianity”

Nojo

Porque um dos nossos co-mortos atravessa um prolongado e difícil período de nojo, e porque o seu ecrã não é mais que um espelho negro, e porque a um luto de jeito fica sempre bem um dash dramático de expressionismo à Alemã, aqui lhe fica um tributo. Integral. De Weimar a Adolf.

Black Mirror — Neon Bible, The Arcade Fire 2007

O amigo do automóvel encarnado

Nos final dos anos 80 fiz, em Lisboa, um novo melhor amigo. Que me ficou até hoje. Não o vejo tanto quanto gostaria mas a vida é assim. Uns num sítio, outros noutro. Durante anos andámo-nos a desencontrar pelo mundo fora. Primeiro partiu ele em direcção à Alemanha, e eu aos Estados Unidos. Depois foi ele para os Estados Unidos e eu para a Holanda. Vim depois para Itália tendo ido ele para a Irlanda. Há uns anos atrás decidiu finalmente regressar a Portugal. Eu ainda não me consegui decidir a fazer o mesmo. Talvez, e também pela nossa amizade, o faça um dia. O tempo mo dirá. São difíceis estas amizades modernas.

Quando o conheci, cruzavamos, num desarrumado automóvel encarnado, a sinuosa rota Lisboa-Praia Grande, onde se ouvia sempre…

…isto, (um verdadeiro Rocky Horror Show on speed)

…e isto, (para cuja genialidade nunca tive, e continuo a não ter, palavras.)

E a vida era, nesses anos, e também por causa dos “istos” aqui de cima, uma verdadeira festa.

Vinhetas de Al-Qahira* #2

Enquanto noutros campeonatos menores, caiu finalmente o pano, na CAF (Confederation of African Football) Champions League, a competição continua ao rubro. Na passada noite de Domingo, 9 de Maio, o Cairo parou. Disputava-se a segunda mão do encontro dos 1/16 de final, entre os campeões Egípcios do Al-Ahly do Cairo e os Líbios do Al-Ittihad. Na primeira mão os Líbios tinham conseguido bater em casa, sem piedade, a equipa do Al Ahly, por 2 a zero.

A tensão nessa noite era altíssima.

Pelas ruas viam-se apenas mulheres e crianças…

…nalgumas lojas havia quem acabasse à pressa os últimos afazeres…

…e nas vielas mais escuras, experimentavam-se à pressa as derradeiras tácticas.

Mas uma vez começada a partida, foi para o pequeno ecrã que se viraram as atenções……

…e se começou a sofrer com amor à camisola.

Nessa noite tiveram todos motivos de sobra para festejar. A equipa do Cairo, com três golos absolutamente espectaculares,  ganhou a partida, passando assim aos oitavos de final da competição.

E vejam que bonito que é o vermelho forte destes campeões! Nunca vi nada assim!

Viva o Al-Ahly!

 

*القاهرة ou Cairo

Social Networking Terrorists*

Busy making brand new social connections

Estou convencido que o Facebook, o LinkedIn, o Blogger e outras aplicações afins foram criados por uma organização terrorista com o objectivo de apagar do mundo quaisquer vestígios de produtividade e de pôr de joelhos o que resta da civilização e inteligência humanas. Alias, o declínio económico a que assistimos é, segundo a minha opinião, uma consequência directa e exclusiva destas perniciosas aplicações.

Senão vejamos.

Tomemos como exemplo um qualquer meu dia de trabalho.

Às primeiras horas da manhã, antes de abrir o Outlook e mergulhar nas centenas de incómodos e irrelevantes e-mails que me esperam, faço uma visita relâmpago ao Hotmail para ver se recebi e-mail na minha conta pessoal.

Aí, encontro os importantes updates do LinkedIn, do Facebook, do Plaxo, da Apple, do Star Tracker, do portal do cidadão, dos Supermercados Esselunga, e do ubíquo IKEA.

Após a reunião das nove verifico no LinkedIn quem foi promovido, quem foi despedido (mais os últimos que os primeiros), quem se “linkou” a quem e quem se transferiu para outro país.

Imediatamente a seguir à intromissão de um telefonema por volta das dez, aproveito para ver se nos dois ou três blogues que sigo se publicou algo de interessante. Hoje mesmo li um intrigante post sobre a religião das abelhas, um outro bastante venenoso sobre a textura das almofadas do parlamento Europeu e ainda um outro particularmente pungente sobre as pragas de mosquitos que se reproduzem nas águas estagnadas das piscinas que, nas casas abandonadas devido ao credit crunch no Arizona, lhes servem de viveiros.

Antes de almoço tenho ainda tempo para visitar o Facebook, no qual respondo ao incisivo inquérito “What type of beer are you?”. Sou uma “Duvel” belga. Exprimo ainda o meu estado de espírito numa curta mas relevante frase do tipo “Tired of working, I’m ready to go on a vacation to the Maldives” e acabo a espreitar o mundo real lendo na diagonal e online os títulos principais da BBC, do Público, do FT e do Corriere della Sera.

Durante a tarde, entre uma aborrecida reunião com um Finance Controler americano e uma outra com uma escorbútica directora de HR Croata sobre mais um inútil Talent assessment review, decido dedicar-me ao detalhado estudo de uma serie de interessantíssimas fotografias, que uma amiga, que não vejo desde os tempos do liceu, partilha com o resto do planeta, e onde ela própria (está igual, mas mais gorda), sorri com turística alegria para a câmara, endossando luminosos e coloridos fatos de ski, na companhia do marido e dos filhos numa qualquer estância de neve Espanhola (constato angustiado que casou com o surfista da Turma B).

Ao fim do dia, tendo decidido ir para casa às sete da tarde de forma a ainda poder dar um contributo à educação dos meus filhos, decido escrever mais um post, que duas pessoas se darão ao trabalho de ler e um iluminado anónimo, proveniente do Rio Grande do Sul, de comentar.

Chego a casa às dez da noite. Os meus filhos dormem já há horas. Estou cansado mas satisfeito e com a convicção de ter cumprido o meu dever. Estou “conectado” com o mundo e altamente produtivo no manter das minhas relações pessoais e profissionais. A minha contribuição para a economia mundial, essa, foi hoje, de exactamente menos 23 basis points.

É pois evidente que quem ganha são os terroristas do social networking.


* Post publicado no Geração de 60 (26 de Março 2009) e que aqui deixo a pedido da Joana Vasconcelos. Deixo também os dois comentários abaixo, que pela sua relevância e profundidade, são de alguma forma sintomáticos daquilo a que o post acima se refere…..

Pedro Norton disse…  Sempre achei que podias ser muitas coisas estranhas. Mas uma Duvel Belga! Tanto anos para saíres do frigorífico…

Vasco M. Grilo  disse… Fiquei mortificado como podes imaginar. Tantos anos a beber Sagres em grandes e viris canecas de barro cinzento para vir a descobrir isto da Duvel tão tarde na minha vida.….

Vinhetas de Al-Qahira*

Na Madrassa do Sultão Hassan, o tempo parece ter parado no século XIII.

Mas os magníficos Qaliis precisam de ser aspirados, e nada melhor que um Dyson de última geração, pois têm uma autonomia suficiente para aspirar três salões de prega, de seguida e sem precisar de recarregar.

O contraste entre o Divino e o Tecnólogico é demasiadamente abrupto. É o que basta para me fazer perder os sentidos.

Recupero a consciência, agora absolutamente cristalina, umas horas mais tarde no Mosteiro de São Jorge.

Tinha sido salvo pela Nossa Senhora dos Cópticos e pelos seus fervorosos Tourist Policemen.

*القاهرة ou Cairo

Areia precisa-se

David Roberts (1796 – 1864)

Ilustre viajante e artista, David Roberts criou, sozinho (com a ajuda dos seus aparos e pincéis), a imagem romântica do Próximo Oriente que viria a alimentar a imaginação da Europa do século XIX, e que de alguma forma perdura ainda nos nossos dias.

Roberts, um relativamente desconhecido pintor Escocês que tinha feito carreira pintando elaborados sets teatrais em Edimburgo e Londres, tinha, no entanto e por isso mesmo, o perfil ideal para poder pintar os  dramáticos cenários que o esperavam no meio dos desertos e cidades por onde viria a viajar. Com as suas mais de 200 litografias, Roberts trouxe, pela primeira vez para o mundo ocidental, uma detalhada ilustração do que eram as terras do Egipto, da Núbia e da Terra Santa. Com isso conseguiu, num registo quase fotográfico, retratar o excitante encontro do homem moderno com civilizações à muito desaparecidas, e das quais se sabia nessa altura muito pouco.

David Roberts — Templo de Edfu

A poesia visual que Roberts deixou, no entanto, não demoraria muito a desaparecer. Nas mãos de modernos Tour Operators, e no meio de pilhas de garrafas de plástico deitadas para o chão, de habitantes locais que se vendem por um Euro à fotografia e de guias turísticos que debitam, a uma velocidade supersónica, factos mais que duvidosos a multidões de turistas desidratados e aborrecidos, o Cairo e os seus vestígios arqueológicos em particular ( e que re-visitei este fim de semana), não passam hoje de uma muito remota sugestão daquilo que Roberts nos deixou tão vivamente ilustrado nos seus lindíssimos desenhos.

David Roberts — Abu Simbel

Por vezes interrogo-me se não teríamos feito melhor justiça a esses nossos antepassados, deixando tudo coberto de areia e esquecimento.