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	<title>É tudo gente morta &#187; Vasco Grilo</title>
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		<title>Singing in the rain</title>
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		<pubDate>Tue, 28 Jun 2011 11:01:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Verona, Novembro 2002 Somos uma pequena amostra de mundo. Pelas salas da nossa discreta business school Milanesa, no meio da molhada estudantesca, pode-se encontrar um pouco de tudo. Um arquitecto Chileno, uma editora de moda de Madrid e um par de brokers londrinos. Dois engenheiros alemães da BMW, um economista Peruano, um Russo vendedor de Smirnoff e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/arena1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-30095" title="arena" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/arena1.jpg" alt="" width="500" height="267" /></a></p>
<p style="text-align: left;">Verona, Novembro 2002</p>
<p>Somos uma pequena amostra de mundo. Pelas salas da nossa discreta business school Milanesa, no meio da molhada estudantesca, pode-se encontrar um pouco de tudo. Um arquitecto Chileno, uma editora de moda de Madrid e um par de brokers londrinos. Dois engenheiros alemães da BMW, um economista Peruano, um Russo vendedor de Smirnoff e uma Dinamarquesa especialista em energy bonds. Temos também um italiano desenhador de motores de formula 1, um espanhol de Alicante importador de mármores, uma contabilista de Kiev, um marketeer de Lyon, um outro de Atenas e ainda uma outra de Nova Iorque. E também uma catrefada de Italianos oriundos das muitas províncias desta terra. Depois há também uns meninos e meninas do papá vindos das Américas e do Sudeste Asiático que aqui vieram para encontrar vocação ou talvez só para gastar o dinheiro do mesmo, quem sabe. Ah! E há um português claro. Como é que me podia ter esquecido? Há sempre um português.</p>
<p>Durante meses, enturmamo-nos e guerreamo-nos em confrontos simulados, em apresentações fictícias, em debates ilusórios. Vivemos de Excel e Powerpoint. Desenhamos negócios, aprendemos as artes e os vícios da alta finança. Calculamos terríveis Futures e ainda mais sombrias Derivatives. Pensamos um mundo todo virtual. Todinho. Feito de e-commerce e de produtos invisíveis, que ajuntem máximo valor, custem o mínimo possível e se possam vender por muito dinheiro. Dinheiro. Aprendemos a fazer dinheiro. Aos montes. Para nós e para o outro, esse ilustre e anónimo vulto que entrou nas nossas vidas e que se chama shareholder e que aprendemos a amar e de quem tentamos perceber e adivinhar apetites e caprichos.</p>
<p>Mas os tempos são duros. Na maioria, despedimo-nos de bons empregos para poder aqui estar. Alguns endividaram-se com isso. Quase ninguém tem uma perspectiva de emprego. Manhattan explodiu o ano passado, a bolha das Dotcom também e estamos em guerra. Agora parece que vem aí mais uma. Vai ficar tão lindo o Médio Oriente a ferro e fogo. Londres não contrata. Milão fechou as portas. A Alemanha está parada. Trabalhar nos Estados Unidos para um não residente é uma impossibilidade. A Job Fair que aqui organizaram na escola foi um desastre. Apareceram meia dúzia de empresas Italianas de segunda a distribuir brochuras e pouco mais. Faltam duas semanas para a graduation e a coisa está a ficar feia para a maior parte de nós. Os ambicionados montes de <em>fat green paper</em> que todos esperavam que viessem, tardam a chegar.</p>
<p>Mas esta noite ninguém pensa nisso. Num comboio para Verona mandamos à fava a Finança, o comportamento das organizações, o e-marketing e a gestão de operações. Viemos quase todos numa espécie de catarse colectiva para limpar o espírito e aligeirar a alma. A bordo, no bar do comboio somos uns 30. Preparam-se Martinis a rodos e os mais prosaicos dão cabo do stock de cerveja a um desesperado barman das <em>Ferrovie dello Stato</em>. Bebe-se e dança-se. A real party on wheels! Só a Dinamarquesa dos energy bonds é que olha pela janela do comboio em movimento. Nos olhos alguma preocupação. Será que pensa no seu futuro? No futuro da economia mundial? Nos milhares de desempregados e nas suas famílias? No fim de um ciclo económico. Volta a olhar para dentro. — Looks like it´s gonna rain guys.….<br />
<iframe width="640" height="390" src="http://www.youtube.com/embed/vgF-yv_oeJ8" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p style="text-align: center;">Jamiroquai — <em>Corner of the World </em>- Live in Verona  - 11/11/02</p>
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		<title>Holly, Valens and the Big Bopper</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Jun 2011 23:13:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Queridos Mortos]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando Hubert Dwyer, proprietário da Dwyer Flying Service de Mason City no Iowa, subiu a bordo do seu pequeno avião de reserva, sabia que a sua esperança era já coisa vã e que aquelas buscas o estavam a conduzir inevitavelmente para um trágico desfecho. Era o dia 3 de Fevereiro de 1959 e nessa madrugada, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/hollyfrontpage.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/hollyfrontpage.jpg" alt="" title="hollyfrontpage" width="250" height="198" class="aligncenter size-full wp-image-29464" /></a>
<p style="text-align: justify;">Quando Hubert Dwyer, proprietário da Dwyer Flying Service de Mason City no Iowa, subiu a bordo do seu pequeno avião de reserva, sabia que a sua esperança era já coisa vã e que aquelas buscas o estavam a conduzir inevitavelmente para um trágico desfecho.</p>
<p style="text-align: justify;">Era o dia 3 de Fevereiro de 1959 e nessa madrugada, Buddy Holly, Ritchie Valens e J.P. Richardson, mais conhecido como “The Big Bopper”, tinham de percorrer as 380 milhas que separavam Clear Lake, no Iowa, da cidade de Moorhead, no Minnesota. Viajavam à coisa de um mês num velho autocarro sem aquecimento e a perspectiva de dormir mais uma noite a bordo de um frigorifico sobre rodas era algo de insuportável. O programa do tour em que participavam, o “Winter Dance Party Tour”, era alucinante. Tinha sido desenhado para bater vinte e quatro cidades em dois meses e estava a submeter os músicos a um regime infernal. Tinham já cruzado todo o “potato country” dos estados do Wisconsin, do Minnesota, do Michigan, do Iowa, do Indiana e do Illinois e tocariam ainda em tudo o que era cidade do Mid-West onde vivesse gente já contaminada pelo vírus do Rock n´Roll.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse final de década, os três músicos tinham já ascendido à condição de super estrelas desse novo estilo musical que estava a revolucionar os pacatos lares Americanos do pós guerra. Depois de uma vida a tocar pelos bares do seu Texas natal, Buddy Holly agora com 22 anos, vivia em Nova Iorque no meio da cena artística que começava a movimentar a cidade a partir da Village e tinha publicado com enorme sucesso, no ano anterior, “That´ll be the day”, o seu terceiro álbum. Ritchie Valens, com apenas 17 anos, era o pioneiro e leader declarado do chamado Chicano Rock e preparava-se para sozinho  dar à musica latina, nos Estados Unidos, a projecção e o reconhecimento que esta indubitavelmente merecia. J.P. Richardson, era um incrível personagem, “bigger than life”, um famoso e mais maduro DJ da mítica estação de rádio Texana, a KTRM e que tinha lançado de sua autoria e cantado por ele próprio, o delicioso e cremoso “Chantilly Lace” que no verão de 58 tinha chegado e se tinha mantido por 22 semanas nos topo das Pop Charts Norte Americanas.</p>
<p style="text-align: justify;">Nessa madrugada, no final do concerto de Clear Lake e sabendo que Buddy Holly tinha conseguido alugar um Beechcraft Bonanza de quatro lugares pronto para voar os elementos da sua banda para Moorhead, Valens sugeriu que se lançasse uma moeda ao ar para decidir quem ia e quem ficava. Saiu-lhe na sorte um lugar no avião. Richardson, atacado por uma violenta constipação, pediu a um outro dos músicos da banda de Holly se lhe poderia ceder o lugar. Quando por volta da meia noite e meia, o pequeno avião deixou por fim o hangar, sentado nele estavam pois as três principais estrelas do tour, as suas inseparáveis guitarras e todo o enorme talento que levavam dentro deles. Conta-se que antes de partir, Buddy Holly terá dito a Waylon Jennings, um dos seus músicos que se preparava para dormir enrolado num cobertor a bordo do autocarro do tour, a frase — “Well, I hope your ol’ bus freezes up”. Jennings, também de forma jocosa ter-lhe-á respondido — “Well, I hope your ol’ plane crashes”.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando Hubert Dwyer viu lá em baixo, da pequena janela do avião, a carcaça fumegante do seu Bonanza de aluguer, confirmou para consigo aquilo que já sabia e fechou os olhos em desespero. Na explosão do aparelho, os corpos dos músicos tinham sido projectados em várias direcções. O de Buddy Holly era o mais fácil de reconhecer. O seu blusão de cabedal amarelo era uma pincelada de cor que contrastava com o branco cheio da neve que resplandecia sob o sol de inverno dessa triste manhã.</p>
<p style="text-align: justify;">Diz-se que nesse dia <a href="http://www.youtube.com/watch?v=Lu7hxguhFfI&amp;feature=related">a música morreu</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Desculpe-me o chato do Don Mclean, mas eu não concordo.</p>
<p>Oh! and Rock on Kid! You know this one´s for you…</p>
<p><iframe width="480" height="390" src="http://www.youtube.com/embed/GMezwtB1oCU" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p><iframe width="480" height="390" src="http://www.youtube.com/embed/MWqLPxJ7kxU" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p><iframe width="480" height="390" src="http://www.youtube.com/embed/ozr-EItKGu8" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
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		<title>De mitos e bochechas…</title>
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		<pubDate>Thu, 26 May 2011 21:36:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Não conheço pessoalmente nenhuma Rock Star famosa. No entanto, no dia 11 de Setembro de 1993, toquei na mão de uma. Entrava com a sua entourage para dentro do pavilhão da minha universidade e estando eu ali, à mão de semear, deu-me um hi5 de amigalhaço. Uns meses depois morria, entregue à melodia doce de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não conheço pessoalmente nenhuma Rock Star famosa. No entanto, no dia 11 de Setembro de 1993, toquei na mão de uma. Entrava com a sua entourage para dentro do pavilhão da minha universidade e estando eu ali, à mão de semear, deu-me um hi5 de amigalhaço. Uns meses depois morria, entregue à melodia doce de uma caçadeira.</p>
<p>No dia seguinte à notícia da sua morte, participei numa festa para uma associação de apoio a crianças desfavorecidas de um bairro nos arredores de Filadélfia. Depois de pintar as caras de alguns miúdos com umas borboletas bastante desenxabidas, apareceu-me uma miúda de cerca de seis anos que me pediu para lhe desenhar um Kurt Cobain numa das suas bochechas. A tarefa era complicada mas a coisa saiu-me bem. A criançada radical que a seguia na fila achou aquilo tudo “like super cool, dude!” e acabei por pintar mais de quinze Kurt Cobains nas bochechas coradas daquele fim de tarde. Percebi naquele preciso momento que todas as gerações têm os seus mitos e que tinha ali mesmo, com pastéis e guaches, criado uma com as minhas próprias mãos.<br />
And it felt like, you know, super cool too!<br />
<iframe width="640" height="390" src="http://www.youtube.com/embed/FIk8rVGuptA" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p id="ded" style="text-align: center;" dir="ltr"><span style="font-size: x-small;">11/09/93 — Stabler Arena, Lehigh University, Bethlehem, PA</span></p>
<p style="text-align: left;" dir="ltr">PS: Peço desculpa pela qualidade do clip mas </span>é assim que o recordo. </p>
]]></content:encoded>
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		<title>Uma caixa longa demais…</title>
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		<pubDate>Tue, 24 May 2011 13:48:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[A mãe da minha amiga S. faleceu o ano passado. Só passados seis meses, a S. encontrou coragem para conduzir até à Liguria e começar a esvaziar as gavetas e os armários da casa materna. E foi aí que descobriu, no meio de muitas outras velharias empoeiradas e estaladiças, uma grande caixa de laca chinesa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/laca1.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-28897" title="laca" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/laca1-300x200.jpg" alt="" width="300" height="200" /></a>A mãe da minha amiga S. faleceu o ano passado. Só passados seis meses, a S. encontrou coragem para conduzir até à Liguria e começar a esvaziar as gavetas e os armários da casa materna. E foi aí que descobriu, no meio de muitas outras velharias empoeiradas e estaladiças, uma grande caixa de laca chinesa cheia de cordéis. Na tampa, escrito na minuciosa caligrafia de sua mãe, podia-se ler:</p>
<p style="text-align: center;"><em>Pequenos pedaços de cordel,</em><br />
<em>demasiado curtos para voltarem a ser usados.</em></p>
<p style="text-align: justify;">E aí, de pé, sozinha no meio da sala da costura, chorou finalmente tudo o que tinha a chorar. Penso que foi a única coisa que de lá trouxe nesse dia. Lá no fundo, nós, latinos, como povo, pertencemos com certeza todos a uma antiga estirpe de poetas.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Brave New World</title>
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		<pubDate>Mon, 23 May 2011 21:04:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Partilhar com o resto do mundo aquilo que faço, leio, vejo e compro é aparentemente uma coisa que me dá prazer. Seguramente não o faria se assim não fosse. Através do Amazon, do Trip Advisor, do Facebook, e de outras redes sociais e comerciais, faço-o com grande regularidade. And yet… Ao fazê-lo, sei também, mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/bravenewworldcover-full.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-28854" title="bravenewworldcover-full" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/bravenewworldcover-full-300x328.jpg" alt="" width="300" height="328" /></a>Partilhar com o resto do mundo aquilo que faço, leio, vejo e compro é aparentemente uma coisa que me dá prazer. Seguramente não o faria se assim não fosse. Através do Amazon, do Trip Advisor, do Facebook, e de outras redes sociais e comerciais, faço-o com grande regularidade.</p>
<p>And yet…</p>
<p>Ao fazê-lo, sei também, mais e melhor, aquilo que as outras pessoas fazem, lêem, vêem e compram. E isso permite-me saber o que fazem e lêem e vêem e compram, as pessoas que são como EU. O que por sua vez me permite comportar-me e ser sempre e cada vez mais como as pessoas que são como EU. Isto é importante pois ajuda-me a ser cada vez mais parecido com o protótipo do tipo de pessoa que sou, que gosto de ser e com o qual todas as outras pessoas que são como EU se identificam. Por sua vez, cada vez que dou a conhecer aos outros o que sou, através do que faço, do que leio, do que vejo e do que compro, ajudo também aquelas que são como EU a tornarem-se mais como EU sou. E por isso, ao serem mais como EU, ajudo-as a serem mais como elas mesmas são. Ou pelo menos a fazer, a ler, a ver e sobretudo a comprar, as mesmas coisas.</p>
<p>Começo a estar convencido que os produtos de todo este admirável mundo novo não são afinal as coisas que faço, os livros que leio ou as coisas que vejo e compro. Começo a estar convencido que o verdadeiro produto, o asset transaccionável no meio de tudo isto, sou EU mesmo. EU e todos aqueles que me são iguais o que de alguma forma e cada vez mais, me parece ser praticamente toda a gente.</p>
<p>Não é fantástico?</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Falso Adeus ou “Just riding for the feeling”</title>
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		<pubDate>Mon, 16 May 2011 20:26:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Fica aqui guardada para outras alturas em que mergulhados na tristeza da despedida tenham que deixar aqueles que amam. Estive para fazer uso dela este fim de semana mas o suave vento do destino não deixou. Ainda bem. Aqui fica guardada, dizia, no caso de poderem precisar dela. Usem-na bem. Bill Callahan “Riding For The [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Fica aqui guardada para outras alturas em que mergulhados na tristeza da despedida tenham que deixar aqueles que amam. Estive para fazer uso dela este fim de semana mas o suave vento do destino não deixou. Ainda bem.<br />
Aqui fica guardada, dizia, no caso de poderem precisar dela. Usem-na bem.<br />
<iframe width="640" height="390" src="http://www.youtube.com/embed/yYg6eIH7qR8" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<h1 id="watch-headline-title" style="text-align: center;"><span style="font-size: small;"><span style="font-size: 13px; font-weight: normal;"><span style="font-size: xx-large;"><span style="font-size: 26px;"><strong><span style="font-size: x-small;">Bill Callahan “Riding For The Feeling“</span><br />
</strong></span></span></span></span></h1>
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		<title>N´Orleenz P. Hall</title>
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		<pubDate>Fri, 06 May 2011 11:10:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Tenho a certeza que o nosso José Navarro de Andrade já lá esteve a abanar o pé pelo menos uma vez na sua vida. E a nossa Eugénia se não esteve, deveria ter estado. Este é um local de gente velha mas de gente nova também. E de muita gente morta claro está. Uma velha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho a certeza que o nosso José Navarro de Andrade já lá esteve a abanar o pé pelo menos uma vez na sua vida. E a nossa Eugénia se não esteve, deveria ter estado. Este é um local de gente velha mas de gente nova também. E de muita gente morta claro está. Uma velha Juke Box cheia de memórias de grande música, muita bebida e pouca conversa. Fica-lhe aqui uma homenagem e a minha imensa vontade de lá voltar um destes dias.</p>
<p><iframe width="640" height="510" src="http://www.youtube.com/embed/lJO6S7mrX8s" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Caranguejos e outros animais estranhos</title>
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		<pubDate>Sat, 16 Apr 2011 22:31:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Ao desafio da Marta, decidi, tal como o fez a Joana Vasconcelos (somos muito competitivos nós os dois), apresentar dois livros que para mim foram de alguma forma estranhos. Aqui estão ambos, acompanhados de sucinta nota. Porque o li todo às escondidas. Antes do tempo. Percevejos e sífilis. Sombrios quartos de hotel e fome de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ao <a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/04/a-infancia-e-um-lugar-estranho/">desafio da Marta</a>, decidi, tal como o fez a Joana Vasconcelos (somos muito competitivos nós os dois), apresentar dois livros que para mim foram de alguma forma estranhos. Aqui estão ambos, acompanhados de sucinta nota.</p>
<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/tropic.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-26996" title="tropic" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/tropic.jpg" alt="" width="309" height="400" /></a></p>
<p>Porque o li todo às escondidas. Antes do tempo. Percevejos e sífilis. Sombrios quartos de hotel e fome de tudo. Mulheres com as entranhas em chamas e homens pálidos com problemas intestinais. Uma Paris bafienta, de gente mal lavada, expatriados falidos e artistas sem alma. Tudo regado com a inflamável e sardónica  gasolina de Miller que sem que eu percebesse porquê, conseguia apesar de tudo celebrar a essencial condição humana de estarmos vivos.</p>
<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/Les_bienveillantes.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-26997" title="Les_bienveillantes" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/Les_bienveillantes-300x438.jpg" alt="" width="300" height="438" /></a></p>
<p>Porque ainda hoje estou para perceber se gostei ou não, se valeu o dinheiro que paguei por ele e se é literatura ou apenas um vómito pretensioso. No entanto passei quatro dias agarrado a ele. Aprendi de cor todas as hierarquias do exército Nazi e das SS. Mergulhei depois da sua leitura e durante semanas a fio, na história das Einsatzkommandos e da campanha de Estalinegrado. Interroguei-me a fundo que carreira teria eu feito nas fileiras do partido Nazi e das SS, se tivesse sido apanhado na geração que tinha 15 anos em 1930 na Alemanha. Li uma parte do livro numa viagem de avião. Ao meu lado, um senhor com uma certa idade perguntou-me se estava a gostar. Disse-me depois que tinha lido duas vezes de seguida e que tinha odiado ambas. Penso que se preparava para ler uma terceira.</p>
<p>Agora passa ao outro e não ao mesmo, eu passo sempre ao mesmo, ora conte-nos lá, <span style="color: #993300;"><strong>Sr. Pedro Marta Santos</strong></span> que estranhezas tem apoidas sobre o bordo do seu bidé.</p>
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		<title>Duas canções para ouvir entre-carnificinas</title>
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		<pubDate>Wed, 13 Apr 2011 23:43:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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<p><iframe title="YouTube video player" width="640" height="510" src="http://www.youtube.com/embed/602n7u9Va8Y" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
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		<title>SCARY MONSTERS</title>
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		<pubDate>Wed, 13 Apr 2011 22:53:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Warning: The following is definetly NOT for the faint-hearted. Depois não digam que não avisei. Entramos de rompante, directamente do nosso yellow cab, chamados por um bouncer negro que, metido dentro de um apertado Armani gessato e com uma pala de cabedal a cobrir-lhe o olho esquerdo, nos abre caminho pelo meio da multidão. Sou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><em>Warning: The following is definetly NOT for the faint-hearted. Depois não digam que não avisei. </em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/zzatmosphere_102708_1111.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-26864" title="zzatmosphere_102708_111" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/zzatmosphere_102708_1111.jpg" alt="" width="574" height="382" /></a>Entramos de rompante, directamente do nosso <em>yellow cab</em>, chamados por um <em>bouncer</em> negro que, metido dentro de um apertado Armani <em>gessato</em> e com uma pala de cabedal a cobrir-lhe o olho esquerdo, nos abre caminho pelo meio da multidão. Sou levado pela mão da Valentina, que sem coincidência é filha de um amigo de Crepax, ex-modelo das passarelas de Milão e que desta cidade onde agora vive parece conhecer tudo e todos. Ao nosso lado entram também o metro e oitenta de uma Florentina sua amiga e mais dois seus conterrâneos, nossos amigos comuns de Milão e que acabaram de chegar à cidade. Um naipe de luxo. <em>A super posh crowd, I guess</em>. Aqui dentro terminou o primeiro <em>set</em> e está para começar o segundo. O espaço é relativamente apertado. No ar paira um inebriante fragor de Chanel No. 5 que a esta pequena hora da noite se mistura já com outros perfumes mais primordiais, como aqueles do álcool, do sexo e do sangue. À minha volta, um cenário barroco, rico em talhas douradas, lustres de cristal estilo Maria Teresa e pesadas cortinas de veludo adamascado, cor de carne. O público, esse, agrupado em pequenos camarotes ou sentado em mesas espalhadas pela plateia, é elegantíssimo. Perigosamente sofisticado, dir-se-ia. Alguns trouxeram plumas na cabeça. Outros o seu sexo indefinido. Outros vieram de <em>top hat</em> e mascarilha. Outros ainda com a face coberta de <em>piercings</em> que os potentes reflectores deste burlesco cabaret convertem em movimentadas máscaras de luz. Sob o palco, de costas para um pano agora corrido, banhada por uma ácida luz azul e por uma bizarra e lenta canção de embalar, dança uma anoréxica beldade ariana. Endossa, minimalista, um par de suspensórios, um slip de pele e um cristalino copo de vodka. Reparo no seu olhar vítreo. Fixo no vazio. A sua coreografia é simples. Mãos que se alçam rápidas, esticadas nos braços lá em cima e que depois  descem, ondulando, vagarosamente, para se virem pousar, como borboletas venenosas, na magreza das ancas que se balançam ossudas, suspensas no cabedal dos seus finos suspensórios.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Sinto um arrepio de nervosismo. Embora me encontre no coração desta megatrópole que é Nova Iorque, parece-me que viajei no tempo. Que vim parar ao Wintergarten Varieté de Berlim ou ao Fledermaus Kabarett de Viena, e o tempo, o tempo é aquele que vai desde o fim da primeira carnificina até ao início da segunda. Essa estreita janela de oportunidade em que um estranho povo do centro da Europa, habitualmente sisudo e monocromático, descobriu que </em><em>na sua pobreza económica, se podia divertir na decadência da beleza e com a cor do cinema mudo, tudo ao som da estrutura caótica de um género musical acabado de chegar do novo mundo. E acho que o melhor é aproveitar enquanto isto dura pois por coerência natural com os factos, a qualquer momento pode entrar por aqui a dentro uma patrulha de sturmtruppen nazi, esses party poopers que passavam a vida a estragar festas, a desligar a música, a apagar a luz e mandar toda a gente para casa.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Encosto-me ao bar. — <em>Hey dude! My name´s Derek and this here is my girlfriend Sharon. Wasco? Nice to meet you, Wasco!</em> – É Texano e como todos os texanos sente uma enorme necessidade de ser amigável. Como se veste e se move, vê-se que não pertence à eclética <em>in-crowd</em> que nos rodeia. – <em>This place´s just awsome! First time here?</em> — Respondo-lhe monosilábico que não. Intimida-me o excesso de simpatia dos outros. Por sorte somos interrompidos por uma fila de gente emplumada que atravessa o público em direcção ao palco empunhando pequenos archotes de fogo de artifício. A bailarina dos olhos de vidro desce do palco deixando lugar a uma fogosa e altíssima pantera negra que, caminhando sobre uns altíssimos <em>stilettos</em> de aço e envergando uma luminosa cabeleira cor-de-laranja, anuncia, cantando sob uma batida disco-sound, o número que se segue. Um contorcionista. Que tem um físico de herói grego e que escala pilhas de cadeiras e se baloiça lá no alto. Uma menina dentro de um mini vestidinho cor de rosa, acompanha-o. Parece uma <em>pin-up</em> dos anos 50 e vai fazendo caretas lascivas com a boquinha em O cada vez que este Adónis ensaia uma nova pose. Aplausos. Regressa a pantera. Sorrindo misteriosamente, anuncia o número seguinte como um dos momentos altos da noite. Sobe agora para o palco um vulto corpulento, debaixo de uma túnica e um capuz. A música torna-se de repente lenta e sombria. De costas, deixa cair o capuz e depois a túnica. É uma mulher. Volumosa e integralmente coberta por uma única tatuagem. Cabelo loiro cortado à marine. Vira-se e olha para o público com uma rajada de desprezo. Vestido tem apenas um corset, que lhe vai da cintura até à base de uns seios gigantescos. Agora, silêncio. O tempo pára. Noto pelo canto do olho a Valentina. – Bella, non guardare! — diz à amiga. Afinal não trazia só o corset. Trazia também uma faca. Grande  e afiada. Manipula-a com destreza. Beija-lhe a lâmina com amor e depois, decididamente, de cima para baixo, afia-a lentamente na língua. Sorri agora num esgar de sangue. Um fio líquido que se abre pelo queixo abaixo, e que percorre depois a curva do pescoço e os seios descobertos. E é neles que em seguida se fixa, incidindo uma cruz vermelha em cada um deles. O público exulta em silencio. Já sem surpresa, aquilo que pensava que estaria para acontecer, acontece. E ela fá-lo com um sorriso ainda maior. O sangue corre-lhe agora pelas pernas abaixo. Tem a faca enfiada até ao punho de baixo para cima, com os joelhos ligeiramente flectidos. Sorri sempre. Com movimentos repetidos, numa macabra cadência, simula o prazer de um orgasmo de dor. E por fim retira-se, deixando sob o palco uma escura poça de sangue que acaba pisada pela turba que de repente invadiu o palco dançando um techno beat sobreposto pela voz cavernosa do Jim Morrison. Até este público, aparentemente habituado a emoções fortes, necessita de um momento de pausa. Pela parte que me toca, decido que é chegado o momento de restabelecer as forças e beber, todo de um trago, um whisky triplo sem gelo.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Não me admiraria se a qualquer momento entrasse o velho Marquis envergando uma empoeirada peruca brizzolata, um capote vermelho cardinalício, e uma carnavalesca máscara veneziana, dourada e sardónica. Viria ali seguramente na condição de caçador de talentos. Caçador de jovens beldades, disponíveis a juntarem-se a ele na busca incessante de um mundo de prazeres líquidos e espessos. Confesso que o sangue não é coisa que me impressione mas só com muita dificuldade me posso divertir na sua presença. Num outro tempo, li quase todo o Sade. Fi-lo com gosto, confesso. É leitura arrepiante mas que estimula valentemente os órgãos. Sobretudo o cerebral. Mas não estou convencido que sangue em palco, v</em><em>erdadeiro ou falso que seja, contribua significativamente para me </em><em>abrir os horizontes. Tito Lívio, o historiador romano, afirmava que o principio do fim de um império se poderia prever através de dois muito simples indicadores. O primeiro seria a ascensão dos cozinheiros do império à condição de super estrelas. O segundo, a aceitação de lutas e jogos de sangue como um divertimento de massa. Two out of two, I would say to good old Titus.</em></p>
<p style="text-align: justify;">A pantera negra de novo. Desta vez está vestida de <em>Southern Belle</em>, estilo <em>Scarlett O´Hara</em>, com um vestido longo e uma cabeleira de grandes caracóis loiros. — <em>And now, Ladies and Gentleman, with you, the most beautiful man in the world!</em>- Dá-se inicio ao terceiro <em>set</em> da noite e sobe agora para o palco um gigante de dois metros, loiro, olhos azuis, esculpido e sorridente. Um <em>All American Boy</em>. Um verdadeiro <em>Jock</em>. No entanto, vem vestido de Cupido, num apertado <em>slip</em> prateado e calçado numas plataformas de vinte centímetros de altura. A face, pesadamente maquilhada, é apenas um pedestal para uma gigantesca tiara de plumas brancas e amarelas. Um verdadeiro <em>Drag-Demi-God</em> do Olimpo de Queens ou de Staten Island. O seu numero consiste em comer espadas de vários tamanho e feitios. Suscita muitos aplausos e gritos. Seguem-se-lhe, uma lindíssima de morrer Isadora Duncan, que nua, dança ao som de Fateh Ali Kahn, um Billy Idol de corninhos acompanhado por um corpo de baile em velho estilo Sado-maso e por fim uma formosa senhora sob uma cama de pregos, que se humedece voluptuosamente com uma esponja para poder vir a ser enxugada por uma pluma gigante, empunhada por um <em>coolie</em> de turbante, apaixonado, subserviente e completamente nu. Quando penso que o espectáculo está para terminar, passa por mim na direcção do palco, a pantera negra, que, agora completamente careca, traz pela mão a verdadeira atracção da noite. Penso que seja um muito famoso artista do reino pois sobe ao palco sob uma chuva de aplausos e assobios. Aí, senta-se pomposamente num majestoso trono imperial. Vem vestido de leopardo e saltos altos e é claramente orgulhoso da sua frondosa cabeleira negra. Como um ministro de sua majestade, traz consigo uma mala vermelha. Abre-a sobre os joelhos e bate as palmas com uma alegria infantil. Tem lá dentro uma muito variada colecção de objectos. Escolhe um pequeno pino de bowling vermelho e levantando-se com um sorriso para o publico pergunta — <em>Should I? Should I? Yeees! -</em> responde o público unânime. Percebo que a coisa se fará agora muito <em>hard</em>. E efectivamente, dobrado sobre si mesmo e de costas viradas para o público, o artista dá início a uma muito íntima experiência com formas, cores e diversos calibres. O gelo do meu segundo whisky triplo derrete-se todo de uma vez deixando-o mole e desenxabido. Um grupo de meninas com um ar muito bem está espalhado pelos sofás de um camarote à minha esquerda.  Estão todas vestidas com floridos cocktail dresses e parecem saídas de um filme com a Julie Andrews. Já beberam umas quatro garrafas de Möet e lançam gritos de incitamento e histeria para o palco. Iluminam-se com o flash dos seus  Blackberries de último modelo com que, pondo a bizarria em palco como decoração de fundo, tiram fotografias umas às outras. O artista retira-se ainda empalado, caminhando com alguma dificuldade. Flores voam na sua direcção. Os emplumados que tomaram agora conta do palco estão todos em tronco nu. Eles e elas, elas e eles, já não sei. À minha direita reparo em Derek, o meu texano, sentado no corrimão da escada que acede aos camarotes superiores. Cabisbaixo parece vencido pelos acontecimentos. <em>- What´s up Texas? Are you OK, buddy?</em> — Olha-me esgazeado -<em> They´re all dead people, you know?</em> — diz-me apontando para o palco com um movimento lento do queixo – <em>They don´t know it yet, but they´re all dead, these fucking scary monsters! –</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Afasto-me a sorrir. They´re all dead people? Really? Acho que não. E disso percebo alguma coisa. Monsters? Scary monsters? You bet. Really scary ones. Vejo agora a Valentina por entre a multidão que se move em direcção ao bar. Junto-me a ela. – Andiamo fuori a fumarci una cigaretta? – Sem saber porquê levanto o olhar. Lá de cima, o DJ, que por acaso é uma, cruza o olhar com o meu. Pisca-me o olho como se soubesse aquilo em que estou a pensar. E de facto, enquanto me aproximo da saída de fumadores, consigo ainda ouvir o guincho da guitarra do Robert Fripp, seguida da cadência de uma espécie de latido rouco, a que por fim se sobrepõe a voz do meu Pierrot, o último dos verdadeiros domadores de monstros ainda vivo. </em></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p><iframe title="YouTube video player" width="640" height="510" src="http://www.youtube.com/embed/Ne5XyG4VrmQ" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p style="text-align: justify;">PS: Estas emoções fortes, vivem-se na Chrystie, numa paralela à Bowery, em Manhattan. O Cabaret chama-se “The Box” e já uma vez <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/04/licao-pratica-de-globalizacao-ii/">aqui </a>falei dele. Voltei lá a semana passada. O público é agora mais mainstream e mais endinheirado. O espectáculo, esse, é ainda mais sangrento e hardcore do que aquilo que recordava. Um aviso agora já inútil. Não é, decididamente, o Cirque du Soleir.</p>
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		<title>Brinde de Março</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Mar 2011 11:29:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[E apesar do segundo e explosivo discurso de Christian, os convivas voltaram a erguer-se e a levantar, joviais, as suas flautas em honra do anfitrião. Como se nada tivesse sido dito. Como se Christian não tivesse segundos antes acusado o pai, em voz alta para todos ouvirem, de o ter molestado sexualmente durante toda a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/Kroyer-274348.jpg"><img class="size-medium wp-image-26013 aligncenter" title="Kroyer-274348" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/Kroyer-274348-300x244.jpg" alt="" width="300" height="244" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">E apesar do segundo e explosivo discurso de Christian, os convivas voltaram a erguer-se e a levantar, joviais, as suas flautas em honra do anfitrião. Como se nada tivesse sido dito. Como se Christian não tivesse segundos antes acusado o pai, em voz alta para todos ouvirem, de o ter molestado sexualmente durante toda a sua infância. Como se não tivesse acusado também a mãe de cumplicidade e de esconder de toda a família a tara do marido. Como se não tivesse descrito o pai com um monstro que justificava o abuso sobre os filhos com o facto de achar que estes eram uns incapazes, bons senão para aquilo. Como se não o tivesse acusado ainda de responsabilidade pela morte de Linda, a sua adorada irmã gémea, também ela vítima da sua perversão e de quem o suicídio, um ano antes, deveria pesar mais do que nunca sobre a sua consciência.</p>
<p style="text-align: justify;">Christian tinha já deixado a mesa, quando todos se levantaram de flautas na mão. Percorria agora cambaleante, de Chablis e Champagne, as alamedas dos jardins de seu pai e limpando o sangue que lhe saía pelo canto da boca com um lenço, ia deixando para trás e de vez, a casa da sua família, as suas sinistras recordações e a imensa vergonha de seu pai.</p>
<p style="text-align: justify;">O Toastmaster, naquela tarde um primo afastado de Viborg, disse então algumas palavras. Apesar dos nós dos dedos doridos e de ter perdido um dos seus botões de punho de marfim, estava radiante por ter levado aquele almoço até ao fim. Porque afinal, é necessário, defronte à deselegante exposição pública daquilo que por boa educação não deve ser nunca revelado, manter um certo aplomb e um discreto sentido de decência e sobretudo, naquela bela tarde de Março, a aparência de que a primavera deve ser respeitada para lá dos problemas da família e dos homens e das mulheres que dela fazem parte.</p>
<p style="text-align: justify;">Skål!</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<div id="attachment_26066" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/festen.jpg"><img class="size-medium wp-image-26066" title="festen" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/festen-300x232.jpg" alt="" width="300" height="232" /></a><p class="wp-caption-text">Festen — Thomas Vinterberg, 1998</p></div>
<p style="text-align: justify;">PS: — Numa noite de inverno de 1998, cinco portugueses vão ao cinema. Fazem-no numa pequena sala de cinema em Cambridge, Massachusetts. Uns, mais intelectualizados, fazem-no para ver um filme Dogma 95, um exemplo de puro cinema de ponta Escandinavo. Outros, mais prosaicos vão ao cinema, ponto final. No final as opiniões dividem-se. A polémica estabelece-se. Por sorte acaba tudo com uns copos bebidos algures num bar de Boston. O filme era o “Festen” de Thomas Vinterberg e alguns desses Portugueses são agora mortos activos nesta nossa alegre <em>festen </em>virtual.</p>
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		<title>Tempo</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Mar 2011 15:28:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[No início era como uma onda gigante, que me levava dali, onde estava, para ali, onde ia parar. Dentro dela, arrastado, deixava-me ir, evitando obstáculos e agarrando-me a objectos e a pessoas também elas presas na vertigem desse moto continuo. Tudo instabilidade criativa. Tudo ondulação improdutiva. E apesar da velocidade e do espaço percorrido, desse [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No início era como uma onda gigante, que me levava dali, onde estava, para ali, onde ia parar. Dentro dela, arrastado, deixava-me ir, evitando obstáculos e agarrando-me a objectos e a pessoas também elas presas na vertigem desse moto continuo. Tudo instabilidade criativa. Tudo ondulação improdutiva. E apesar da velocidade e do espaço percorrido, desse tempo vi pouco e retive um quase nada.</p>
<p>Vislumbro-me agora como que debaixo de uma cascata. Quase não me mexo. Estou ali de pé, imóvel como um bocado de rocha dentro de uma parede de água. E apesar desta me cair pesada sobre os ombros, sou finalmente senhor do meu movimento. Apesar da cortina liquida que em catadupa me turva a vista, vejo agora melhor os contornos de tudo. Sobretudo dos outros. Apesar de estático, vejo agora mais longe, e mais perto também.</p>
<p>No fim destes caminhos líquidos do tempo, espero um dia encontrar um lago de águas mornas e planas. Um lago onde poderei finalmente ver os pés e as mãos e o resto do corpo, dentro e fora, meu e dos outros, tudo através de um fluido que desejo transparente e cristalino. E aí, com movimentos lentos, flutuando a teu lado, dar-te-ei a minha mão, sabendo já que nesse tempo, quererei de novo o mar inteiro e que terei saudades do vento e das ondas e da espuma que nelas vive. </p>
<p>Em Janeiro do ano de 2000, Noah Kalima, resolveu aprisionar o tempo em forma de fotões luminosos, dentro do seu disco pessoal. Fotografou-se todos os dias, numa rotina diária e religiosa e a esse tempo não deu quartel, desafiando-o sem um sorriso, sem uma expressão no rosto. Sem nunca respirar. Com o cabelo ao vento.</p>
<p><iframe title="YouTube video player" width="640" height="510" src="http://www.youtube.com/embed/6B26asyGKDo" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
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		<title>Moon</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Mar 2011 14:05:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Poderia perfeitamente ter sido realizado no início da década de 80. Um clássico filme de série B, produzido com um orçamento reduzido e à margem das grandes produtoras, utilizando um actor promissor mas ainda pouco conhecido e aproveitando as sobras dos cenários de outros filmes maiores e mais endinheirados. Poderia também ter sido imaginado e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/moon_movie.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-25830" title="moon_movie" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/moon_movie-300x223.jpg" alt="" width="300" height="223" /></a>Poderia perfeitamente ter sido realizado no início da década de 80. Um clássico filme de série B, produzido com um orçamento reduzido e à margem das grandes produtoras, utilizando um actor promissor mas ainda pouco conhecido e aproveitando as sobras dos cenários de outros filmes maiores e mais endinheirados. Poderia também ter sido imaginado e dirigido por um aspirante a <em>starman</em>, um fanático de aventuras espaciais e esotéricas, hoje já esquecido, desejoso na altura, de seguir os passos já dados por Kubrick, Scott ou Tarkovsky.</p>
<p> E no entanto, foi realizado em 2009, os cenários se bem que minimalistas são originais, e de B o filme tem muito pouco. Com ele, numa alegoria requintada, juntamo-nos à solitária existência de um mineiro sobre a superfície da Lua e com ele viajamos depois ao centro das aspirações e limitações da sua condição humana (?) e por fim ao fundo da terrível suspeita de que afinal de contas estamos mesmo sós com nós mesmos e que chegado o fim, nada nos restará senão o nosso próprio reflexo num espelho imperfeito que flutua no nada vazio e gélido do cosmos. Por todas essas razões — um pouco indigestas para alguns é certo — mas sobretudo porque é uma história verdadeiramente bem contada e por sua vez interpretada por um excepcional Sam Rockwell, este filme é um <em>must</em>.</p>
<p> Duncan Jones, o seu jovem realizador, para além de se revelar um estupendo encenador, é, com certeza, um óptimo gestor da sua economia caseira pois conseguiu recrear um universo lunar de paisagens relativamente credíveis e uma série de espaços interiores que sugerem os melhores ambientes de 2001 ou de Alien, queimando com isso um orçamento de cinco magros milhões de dólares apenas.</p>
<p> Quanto à sua legitimidade como homem das estrelas, Duncan Jones tem-na toda. È nem mais nem menos do que o primogénito do Starman himself, o nosso Major Tom, sim, o homem que caiu do espaço, David Jones, em arte David Bowie.</p>
<p><iframe title="YouTube video player" width="640" height="390" src="http://www.youtube.com/embed/twuScTcDP_Q" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p style="text-align: center;"><em>Moon</em>, Duncan Jones 2009</p>
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		<title>Winter´s Bone</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Mar 2011 11:44:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Esta é, aparentemente, uma América sem ponta de esperança nem audácia, onde só a crueldade e a desolação parecem encontrar terra fértil onde florescer. Um mundo invernal de florestas nuas, infestado de uma pobreza material e moral arrepiantes, colorido a som de tiros de caçadeira e tenuemente aquecido pelo fogo branco da metanfetamina que a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Esta é, aparentemente, uma América sem ponta de esperança nem audácia, onde só a crueldade e a desolação parecem encontrar terra fértil onde florescer. Um mundo invernal de florestas nuas, infestado de uma pobreza material e moral arrepiantes, colorido a som de tiros de caçadeira e tenuemente aquecido pelo fogo branco da metanfetamina que a todos queima a pele e funde o cérebro. E no entanto, lá bem dentro deste conto sombrio, acabamos por encontrar a incrível coragem de quem, possuída pela determinação e instinto de sobrevivência, consegue com uma força sobre humana, levantar, de uns valentes metros, a fasquia da civilização e salvar com isso, o que a todos eles resta de alguma humanidade.</p>
<p>Um filme indelével que deixa marcas nos pulsos.</p>
<p><iframe title="YouTube video player" width="640" height="390" src="http://www.youtube.com/embed/c0khRUfTfPM" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p style="text-align: center;"><em>Winter´s Bone</em> — Debra Granik, 2010</p>
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		<title>Bellino, ma non ancora Zac!</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Feb 2011 02:03:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O Escritor não tem limites. Concebe, desenha, desenvolve, corrige. Volta atrás. Apaga e desenha de novo. E depois colora. E enche os espaços. Ou não. E desse processo, emergem ideias, figuras, momentos, e depois talvez palavras e frases, tudo que acaba pintado numa tela abstracta de caracteres a que só o decorrer do discurso e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O Escritor não tem limites. Concebe, desenha, desenvolve, corrige. Volta atrás. Apaga e desenha de novo. E depois colora. E enche os espaços. Ou não. E desse processo, emergem ideias, figuras, momentos, e depois talvez palavras e frases, tudo que acaba pintado numa tela abstracta de caracteres a que só o decorrer do discurso e a imaginação do leitor acabam por dar sentido e expressão. Mas depois, a um certo ponto, lá de dentro, sai gente. Gente a sério. Com nariz, boca e olhos. Que respira e come e dorme. E que nos agrada ou nos causa horror. Ou que nos apaixona ou por vezes repele. Gente a sério. Mas na verdade, toda esta gente não nos é dada assim, toda de uma vez. É-nos dada página a página. E com elas, as páginas, vai-se alterando a percepção da forma do rosto, e das nuances do tom de cabelo. E da forma como caminham ou de como falam. Ou como lhes bate o sol na face ou de como passam as mãos pelo cabelo. E sobretudo de como olham cá para fora, para quem as lê.</p>
<p>O Realizador, <em>Il Regista</em>, coitado, não têm em princípio a liberdade do Escritor original. Isto porque no filme, a gente, essa gente que, página a página, tirou cá para fora o Escritor com a cumplicidade de quem lê, tem de ser metida, toda de uma vez e de novo, dentro da obra, que desta vez é animada. Il Regista têm por isso que tomar decisões. Tem que fazer escolhas e em relação a essa gente, tem que as fazer muito cedo. Que se erradas, de acordo com uma lógica e sensibilidade não escrita, pois que a verdade reside em milhões de interpretações individuais e por isso mesmo é infinita, lhe podem custar o filme e a razão de ser do mesmo.</p>
<p>Luchino Visconti correu todo o norte Europeu à procura de Tadzio. Encontrou-o na Suécia, depois de passar horas sentado, em quartos de hotel, a olhar para rapazinhos loiros de tronco nu. O seu Tadzio chamava-se Bjorn Andresen e nas suas próprias palavras, considerou-lhe a beleza com uma verdadeira projecção do intelecto. O excerto de documentário que aqui vos deixo, foi produzido pela RAI, e apresentado no contexto inocente dos anos que foram os 70. Nos tempos esquizofrénicos e paranóicos que hoje vivemos, duvido que fosse transmitido no mesmo formato sem levantar protestos das mentes mais puritanas. No entanto aqui fica, ilustrando o incrível momento em que o dito Regista, na sua busca, consegue hesitar e duvidar insatisfeito das opções que tem pela frente, não reconhecendo que está já de fronte a um mito, esse mito que se viria a tornar, reconhecidamente, no mais universal Tadzio de toda a humanidade.</p>
<p><iframe title="YouTube video player" width="640" height="510" src="http://www.youtube.com/embed/FRn1L8GIqM4" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p>Alla ricerca di Tadzio — Morte a Venezia — Luchino Visconti</p>
<p><em>E il grandioso prodotto finale…</em></p>
<p><iframe title="YouTube video player" width="640" height="390" src="http://www.youtube.com/embed/X4N8B1ggYc4" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p>Morte a Venezia — Luchino Visconti, 1971</p>
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		<title>Dia do namorado</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Feb 2011 21:49:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Durante semanas acariciou-lhe os lábios com escarlate. O bico dos seios com púrpura. A menina dos olhos com azul celeste. Agora amava-a. Sabia-o com toda a força e certeza. Sempre tinha gostado de mulheres grandes e cheias. Achava que aquilo de que se gosta se deve ter tanto de. E aquela era sua. Só sua. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_24730" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/Livro_Mattotti_Barracao.jpg"><img class="size-large wp-image-24730 " title="Livro_Mattotti_Barracao" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/Livro_Mattotti_Barracao-500x270.jpg" alt="" width="500" height="270" /></a><p class="wp-caption-text">Carnaval — Lorenzo Mattotti 2005</p></div>
<p>Durante semanas acariciou-lhe os lábios com escarlate. O bico dos seios com púrpura. A menina dos olhos com azul celeste. Agora amava-a. Sabia-o com toda a força e certeza. Sempre tinha gostado de mulheres grandes e cheias. Achava que aquilo de que se gosta se deve ter tanto de. E aquela era sua. Só sua. Nesse dia levou-lhe flores. Um gigantesco maço de girassóis. Mas ela tinha-se ido embora. Fugida com o circo que deixara a cidade. Para o outro lado do mundo tinha ido, a desgraçada. Nesse dia partiu-se-lhe o coração. Nessa noite, jurou que nunca mais.</p>
<p>No dia seguinte comprou fio de ferro e cartão e cola, e trouxe de novo as suas tintas.</p>
<p>Percebera que tinha cometido um erro de escala. Precisava de fazer uma ainda maior.</p>
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		<title>Fantademocrazia</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Feb 2011 23:24:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Um hino possível para a geração tramada de que aqui fala o PN. Cara Democrazia — Ivano Fossati, L´Arcangelo 2006]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um hino possível para a geração <em>tramada</em> de que <a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/02/bacalhau-e-democracia/">aqui</a> fala o PN.</p>
<p><iframe title="YouTube video player" width="480" height="390" src="http://www.youtube.com/embed/TnCDW9TlzzQ?rel=0" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p style="text-align: center;">Cara Democrazia — Ivano Fossati, L´Arcangelo 2006</p>
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		<title>New York state of mind</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Feb 2011 00:22:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Sento-me e peço um copo de água mineral. Meto três Unisons na palma da mão e de um trago mando tudo para baixo. Sei que devia tomar só um mas amanhã de manhã tenho imenso que fazer em Milão e tenho mesmo que tentar dormir. Acabei de passar uma semana em New Jersey, a saltar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/helena_christensen_5spgw.jpg"><img class="size-medium wp-image-24487 alignnone" title="helena_christensen_5spgw" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/helena_christensen_5spgw-300x400.jpg" alt="" width="300" height="400" /></a></p>
<p>Sento-me e peço um copo de água mineral. Meto três <em>Unisons</em> na palma da mão e de um trago mando tudo para baixo. Sei que devia tomar só um mas amanhã de manhã tenho imenso que fazer em Milão e tenho mesmo que tentar dormir. Acabei de passar uma semana em New Jersey, a saltar de hotel em hotel e de reunião em reunião sem nunca dormir mais de quatro horas por noite e estou absolutamente exausto. Abro a bolsa cinzenta das <em>amenities</em> e tiro as meias de lã, a mascarilha azul do Zorro e os tampões para os ouvidos. O 4B aqui ao meu lado parece que vai ficar vazio. Vou poder ficar com uma almofada e um cobertor extras. Que sorte a minha.</p>
<p><em>Todos os meses, um pouco como um autómato, faço este New York-Milão da Continental Airlines. O voo parte ao fim do dia e geralmente não me apercebo sequer do descolar do avião. Numa rotina pré-definida, e antes de embarcar, mastigo rapidamente qualquer coisa num dos restaurantes do aeroporto, engulo uma pastilha para dormir, e uma vez já sentado a bordo, enrolo-me num cobertor e tento dormir cerca de seis, das sete horas de viagem que separam estas duas cidades onde, hoje, de alguma forma, vivo e trabalho. Ao meu lado sentam-se habitualmente outros muito cansados e imensamente aborrecidos road warriors, que, como eu, cruzam os céus na ânsia ilusória de que não lhes fuja nem a vida, nem a carreira profissional, acumulando traveller miles que nunca chegam a consumir e pesadas olheiras violáceas debaixo do olhos. As únicas e raras ocasiões em que a soturna cabine deste maldito 747 se alegra um pouco, acontecem quando se realizam as fashion weeks de ambas cidades e que, por alguns dias, trazem para bordo alguns dos exemplares mais coloridos da in-crowd do mundo da alta moda internacional e com eles um pouco da galhardia e da ligeireza aparente que os caracterizam.</em></p>
<p>Sorte a minha dizia, pois aqui na <em>Business First</em> todos os lugares estão ocupados excepto este 4B que, livre ao meu lado, me permitirá dormir com alguma privacidade, sem ter que levar toda a noite com um tipo de boca aberta, <em>halitando</em> para cima de mim e ressonando sob o efeito, também ele, de uma qualquer droga sonífera. A chefe de cabine prepara-se finalmente para fechar a porta mas reparo agora que um último passageiro parece estar a entrar. È uma mulher e pelo canto do olho observo-a, esperançoso que passe por mim, siga lá para trás para as catacumbas escuras da <em>Economy Class</em> e me deixe livre esta preciosa e completamente vazia poltrona mais os seus extras tão úteis. As luzes de cabine foram já reduzidas para o descolar mas reparo de longe que é alta e magra e que usa os cabelos longos, apanhados num rabo-de-cavalo. Reparo também que caminha ligeira, em longos passos elegantes, colocando um pé em frente do outro riscando uma perfeita linha recta ao longo do corredor. Noto-lhe umas ancas generosas que dançando enchem o mesmo e uns braços longos que as fintam, flutuando ligeiros ao longo do corpo. Para meu desespero mas alguma curiosidade, apercebo-me que pára diante do meu 4B. Não a olho, mas quando se estica para colocar no compartimento superior o seu saco de viagem, confirmo-lhe um corpo esguio e bem feito. Só quando finalmente se senta ao meu lado e me cumprimenta com um grande sorriso aberto, é que reconheço que devo ao Deus omnipotente um agradecimento pela sua graça e favor. Conheço-a de nome. E vocês também. Chama-se Helena Christensen e é neste preciso momento a mais bela criatura à face da terra. Eu, na minha insignificância, o mais feliz de todos os passageiros, de todos os voos, de todos os aviões do planeta.</p>
<p>Tomamos agora um aperitivo em companhia, como velhos amigos. Trocamos palavras simpáticas com uma familiaridade mundana. Falamos de Milão, que conhece melhor que eu, de Itália e dos seus encantos e por fim, inevitavelmente, das vergonhas a que os seus obscenos políticos a sujeitam. Diz-me que viaja regularmente entre a Europa e os Estados Unidos e numa candura de princesa, confessa-me que por mais que tente, não consegue dormir em aviões. Demasiadas ervilhas debaixo do assento, imagino. Mentalmente, vou-me preparando para o mais estimulante tête-à-tête nocturno e aéreo da minha vida. Na realidade, preparo-me para jantar a sós e de seguida — porque ela não dormirá, sei-o agora — passar toda uma noite na companhia da mais bela top-model da minha juventude. Com aquela que, semi-nua, a preto e branco, e dançando numa praia de areia branca, me encheu a cabeça de inenarráveis fantasias. Aquela que depois de ter pisado todas as passerelles do mundo, vinha agora ali, sentar-se ao meu lado e dar-me a possibilidade de vingar sem piedade, a longa monotonia da minha adolescência Lisboeta.</p>
<p>A minha pretensão foi no entanto de pouca dura. Algum tempo depois de o avião descolar e para meu desespero, os três Unisons começam a fazer efeito. Sem que o consiga controlar, sinto as pálpebras a quererem-se desenrolar como velhas gelosias. Oiço a voz da minha nova amiga, a Helena, sempre mais longe. A meio de uma frase enrola-se-me a língua e esqueço-me do que estava para dizer. Olha-me paciente com um sorriso mas sinto que estou gradualmente a perder a sua atenção. Afinal ela é uma cosmopolita cidadã do mundo, sem tempo a perder com banalidades ou falta de savoir-faire. Mas já não há nada que eu possa fazer. São fortíssimas estas malditas pastilhas. Apercebo-me agora, com dificuldade, que a chefe de cabine me pergunta se desejo o Chicken breast ou o Steamed Halibut. Confundo-me. A sua cara já não apresenta contornos definidos. Trôpego, peço-lhe mais um sumo de tomate. Descuidado, entorno os cajus por cima do formosíssimo colo celestial da Helena e peço-lhe desculpa num grunhido inteligível e pastoso. Sinto a cabeça que lentamente se me apaga. Quero desculpar-me mas não consigo articular uma palavra que seja. As luzes à minha volta começam a tornar-se opacas. De repente tudo se extingue.</p>
<p>…</p>
<p><em>Are you OK? Abro os olhos. A cabine está envolta em penumbra. Todos dormem. Todos não, pois foi a Helena que me acordou com a sua voz suave. Devo estar a sonhar. O 4B está de novo vazio. A Helena está agora sentada ao meu colo. Tirou a camisola de gola alta que trazia vestida e  ficou apenas com um top branco que lhe deixa de fora o umbigo. Só agora reparo que endossa uns ligeiríssimos calções de seda às riscas e uns aderentes collants de renda. Endireito-me na cadeira. Preciso de saber. Jogo o tudo por tudo. </em><em>– Helena darling? Would you please hit me really hard in the face? </em><em>- A Helena parecia estar à espera deste meu pedido pois levanta-se imediatamente num movimento decidido. Olha para mim com um sorriso que aparenta algo de selvagem e levando a mão atrás, esbofeteia-me com violência. Rejubilo agradecido pois sinto a dor e o calor que me invadem a face e que me confirmam a realidade do momento. Sinto-me agora estranhamente vivo. Como nunca antes na minha vida, direi. Quando a Helena ganha balanço e se prepara para me desferrar uma segunda bofetada, ganho coragem, agarro-lhe o pulso e puxando-a para mim, abraço-a e beijo-a intensamente. Sem pudor. E esta, após alguma resistência inicial acaba por se deixar beijar. È bela assim abandonada ao prazer de um beijo. O corpo é firme. Um perfume de sal e sol na pele. É ainda mais bela, agora que, na proximidade do beijo, lhe vejo os dois olhos fundidos num só, que me olham num azul de fundo do mar. Sem que eu o deseje, liberta-se por fim do meu abraço e olha-me com um ar g</em><em>rave.</em><em> </em><em>- Let’s just get the hell out of here. </em><em>You and me. What do you say? — Respondo-lhe que sim, igualmente grave. E subserviente. Com ela, neste momento, iria até ao fim do mundo se fosse preciso. Apercebo-me que tenho uma porta de emergência ao meu lado. Levanto a alavanca e abro-a sem pensar. A pressão do vento que entra repentino desfaz-lhe o rabo-de-cavalo. A luz das estrelas acende-lhe o rosto de uma cor avermelhada. De fogo. É agora uma deusa nórdica saída de uma opera de Wagner. — You go first! – grita-me numa voz sedutora sob o rumor ensurdecedor do vento e das turbinas. Com o coração aos pulos olho para ela e para a cabine uma ultima vez e salto confiante. E já no ar, vejo o avião que se afasta e a luz da pequena porta aberta que se extingue e a Helena que da janelinha do meu 4A me diz adeus com o mesmo olhar selvagem de antes.</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em>Flutuo agora a mil e quinhentos pés de altitude e vejo Nova Iorque lá em baixo mais os seus milhares de luzes amarelas que na noite escura, definem os contornos dos seus cinco bairros. É linda a cidade vista daqui. Parece uma jóia minhota. Um daqueles brincos de filigrana dourada em forma de coração, que foi por alguém pousado ou esquecido sobre um xaile de lã escura. Considerando a fantasia destas minhas observações, sinto-me estranhamente despreocupado com a minha precária situação. De repente penso até que o melhor seria telefonar à minha assistente e cancelar as reuniões de Milão amanhã de manhã. Está-se bem aqui em cima, em queda livre. Parece-me até ouvir uma agradável música de fundo. Sim. É indiscutivelmente música. E à medida que me aproximo do solo vai-se tornando cada vez mais nítida. Vem ali de baixo, à direita, daquelas avenidas iluminadas à beira mar. Brooklyn parece-me. </em></p>
<p><em> </em></p>
<p>Estupendos estes Unisons.</p>
<p><iframe title="YouTube video player" width="640" height="390" src="http://www.youtube.com/embed/UFlsXgw_SFE?rel=0" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
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		<title>Voglio di più</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Feb 2011 10:34:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Já te disse que tens que exigir mais da vida? Não? Então digo-to de novo. Tens que exigir mais da vida. Agora. Exigir tudo. Imediatamente. Mas vais ter que acordar. E levantar o rabo dessa cadeira. E saber que só depende de ti das tuas ideias, da tua força, e que não é fácil, e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Já te disse que tens que exigir mais da vida?<br />
 Não?<br />
 Então digo-to de novo.</p>
<p>Tens que exigir mais da vida.<br />
 Agora.<br />
 Exigir tudo.<br />
 Imediatamente.</p>
<p>Mas vais ter que acordar.<br />
 E levantar o rabo dessa cadeira.<br />
 E saber que só depende de ti<br />
 das tuas ideias,<br />
 da tua força,<br />
 e que não é fácil,<br />
 e que nunca te bastará.</p>
<p><iframe title="YouTube video player" width="480" height="390" src="http://www.youtube.com/embed/JeAC98H8bpw?rel=0" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p>Jovanotti — Voglio di più, LORENZO 1994</p>
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		<title>Where the hell are my eyes, Eugénia do ETGM? *</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Feb 2011 18:19:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Regressava a casa. A pé. Exausto. Era noite. Ou talvez dia, já ninguém o sabe. Lá do alto, por cima do guarda-chuva, caía água pesada. Milanesa. Protónica. Carregada de óxidos. Daquela que deixa, no dia seguinte, desenhadas na capota dos automóveis, intricadas cornucópias de cinza e que converte os vidros das janelas em taipais opacos, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Regressava a casa. A pé. Exausto. Era noite. Ou talvez dia, já ninguém o sabe. Lá do alto, por cima do guarda-chuva, caía água pesada. Milanesa. Protónica. Carregada de óxidos. Daquela que deixa, no dia seguinte, desenhadas na capota dos automóveis, intricadas cornucópias de cinza e que converte os vidros das janelas em taipais opacos, de sépia e de ferrugem. Os passeios sempre húmidos da minha rua, que continua iluminada por antiquadas e gastas lâmpadas de néon e que de tão intermitentes emitem mais sombra que luz, tinham-se já esvaziado àquela hora tardia. Eles eram três. Vieram felinos, ali do lado do parque e no meu cansaço não os vi aproximar. Um encostou-me com violência contra uma parede. Um segundo, com uma mão, garrotou-me o pescoço enquanto que com a outra me bloqueou a testa, imobilizando-me completamente a cabeça. Ao terceiro, vi-lhe tirar do bolso um estranho instrumento metálico. Curvo. Medonho. E esse instrumento foi a última coisa que vi, ali mesmo em frente dos olhos, antes de perder os sentidos. </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Recuperei a consciência sentado no chão, sob um resto ténue de chuva. Tocando a face senti com horror que me tinham esvaziado as órbitas e levado ambos os olhos. Tinham deixado tudo suturado com cura. Com artes de cirurgião. Para trás não tinham ficado quaisquer vestígios de sangue. Nem de dor. Apenas duas cavernas escuras, desprovidas de matéria e de memória.</em></p>
<div class="mceTemp mceIEcenter" style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><em>Agora, aqui sentado a dedilhar este teclado com um par de olhos de nova geração, tento agarrar-me a memórias abstractas, sem rosto. Eu já tinha ouvido falar destes traficantes de órgãos. Sei que o fazem a soldo de Minoritários de elite, gente disposta a tudo para poder manter intacta a sua desesperada identidade humana. Tristemente, não me resta mais do que a esperança de que um dia, e faltam poucos pelo que dizem, caminhando pelas ruas desta corroída e triste cidade-mundo, possa frinalmente encontrar, na cara de alguém, um par de olhos que, pelas cores e memórias que projectam, possa reconhecer como meus. </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Se isso acontecer, quem sabe o que farei…</em></p>
<div id="attachment_24263" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/perro-andaluz-1.jpg"><img class="size-large wp-image-24263" title="perro andaluz-1" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/perro-andaluz-1-500x373.jpg" alt="" width="500" height="373" /></a><p class="wp-caption-text">“Un chien andalou” — Luis Buñuel, 1929</p></div>
<p> * Eu sei onde mora essa tal de <em><strong><a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/01/uma-short-de-olhos/">Madalena</a>.</strong></em><em></em></p>
</div>
]]></content:encoded>
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		<title>Short de Janeiro — Bunga Bunga</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/01/bunga-bunga/</link>
		<comments>http://www.etudogentemorta.com/2011/01/bunga-bunga/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 26 Jan 2011 16:12:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Sentado num grande sofá de veludo adamascado, em pleno Bunga Bunga, o seu clube privado, Sílvio olhava cansado à sua volta. Via as mesmas caras, as mesmas pernas e as mesmas mamas do costume. Novas, velhas, saídas do boletim meteorológico do Canale 5 ou das fileiras do Grande Fratello, pertenciam todas àquela raça de fêmeas insípidas que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/01/charlie-whitecocktailparty-500x2951.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-24015" title="charlie-whitecocktailparty-500x295" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/01/charlie-whitecocktailparty-500x2951.jpg" alt="" width="500" height="295" /></a>Sentado num grande sofá de veludo adamascado, em pleno <em>Bunga Bunga</em>, o seu clube privado, Sílvio olhava cansado à sua volta. Via as mesmas caras, as mesmas pernas e as mesmas mamas do costume. Novas, velhas, saídas do boletim meteorológico do <em>Canale 5</em> ou das fileiras do <em>Grande Fratello</em>, pertenciam todas àquela raça de fêmeas insípidas que frequentavam a sua casa à anos. <em>Che fastidio! Che noia</em>!</p>
<p> Mas ali, agora que olhava melhor, no meio de toda aquela carne já tão usada e cheirada e gasta, estava decididamente algo de novo. Quem seria aquela estranha criatura? Uma mulher a quem uma operação estética teria corrido terrivelmente mal? Uma jovem adolescente com um sério problema de urticária? E de onde viria? Da Roménia? Das Filipinas? De uma favela de São Paulo? Não conseguia perceber. Tudo era possível. Mas uma coisa era certa. Daquela fruta nunca tinha provado.</p>
<p> Sílvio tinha tido um dia infernal. Um que começara em Bruxelas a aturar o <em>pirla</em> do Françês e a <em>sechiona</em> da Alemã, continuado em Roma com uma comissão parlamentar que não era mais do que uma corja de <em>andicapatti</em> e acabado em Milão a aturar o <em>pezzente </em>do advogado da ex-mulher, aquela vaca que a brincar a brincar levava para casa, todos os meses, quase três milhões de euros. Sentia que, hoje, por isso mesmo, merecia qualquer coisa de diferente. Sentia-se <em>arzillo, pimpante</em>, e com vontade de se portar mal. E que problema tinha uma noite um pouco mais bizarra? Seja. Esperava só que aquela ali não se fizesse de difícil. Também com aquele aspecto não poderia ir muito longe. E afinal de contas, com estas <em>puttane</em>, é tudo uma questão de champanhe e cash-flow e ele afinal chama-se Sílvio, e é só o rei incontestável desta grande <em>Commedia all´Italiana. </em></p>
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		<title>Postal de Tóquio</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Jan 2011 14:43:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Decido então deixar, definitivamente, o reboliço de Ginza. Para trás ficaram os arranha-céus e o trânsito, as hordas de gente e o seu ruído ensurdecedor. No parque imperial, aquela hora, não está ninguém. Sozinho, percorro alamedas sinuosas, que alguém cortou na relva com a ajuda de um bisturi. Passo por entre estreitas muralhas de pedra [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_24003" class="wp-caption aligncenter" style="width: 650px"><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/01/Tokyo22011-016.jpg"><img class="size-full wp-image-24003  " title="Tokyo22011 016" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/01/Tokyo22011-016.jpg" alt="" width="640" height="482" /></a><p class="wp-caption-text">The Urban Buddha, Tóquio, 23 de Janeiro 2011</p></div>
<p>Decido então deixar, definitivamente, o reboliço de <em>Ginza</em>. Para trás ficaram os arranha-céus e o trânsito, as hordas de gente e o seu ruído ensurdecedor. No parque imperial, aquela hora, não está ninguém. Sozinho, percorro alamedas sinuosas, que alguém cortou na relva com a ajuda de um bisturi. Passo por entre estreitas muralhas de pedra e descubro pequenos lagos preguiçosos onde nadam cardumes de <em>Koy</em> gigantescos, claramente ignaros de um reino que já não é. Só ao chegar lá a cima, onde repousam as ruínas do castelo de <em>Edo</em>, é que me apercebo que não estou só. Penso que terá entrado atrás de mim, a flutuar, rente ao chão, etéreo e silencioso. E foi até ali. Ali no que me parece ser, daqui de onde o vejo, o único sitio possível onde poderia alguma vez pousar.</p>
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		<title>Django</title>
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		<pubDate>Mon, 24 Jan 2011 14:17:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Era um ciganito Belga cheio de talento. Aos treze anos tocava já como um mestre. Como não sabia escrever nem ler o seu nome, no primeiro disco que gravou com o acordeonista Jean Vaissade, foi como Jiango Renard que lhe foi feito crédito. Até aos vinte anos viveu acampado com os outros Manouches nos arrabaldes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/01/djangobig12.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/01/djangobig12-300x475.jpg" alt="" title="djangobig1" width="300" height="475" class="aligncenter size-medium wp-image-23981" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Era um ciganito Belga cheio de talento. Aos treze anos tocava já como um mestre. Como não sabia escrever nem ler o seu nome, no primeiro disco que gravou com o acordeonista Jean Vaissade, foi como <em>Jiango Renard</em> que lhe foi feito crédito. Até aos vinte anos viveu acampado com os outros <em>Manouches</em> nos arrabaldes de Paris, mas, quer passeando despreocupadamente pelas ruas da cidade com a guitarra às costas, quer tocando-a a solo no famoso “La Java”, Django Reinhardt revelou sempre um elegante e fascinante porte de cavalheiro. Aos 18 anos, quando ainda vivia numa roulote com Sophie, a sua jovem mulher, um terrível fogo que destruiu por completo a mesma, queimou-lhe dois dedos da mão esquerda que ficaram para sempre deformados e curvados na direcção da palma da mão. Mas Django era cigano e rijo e não desanimou. No hospital onde esteve internado durante 18 meses, inventou-se um novo sistema de dedilhar que lhe permitia usar os dois dedos afectados nas duas primeiras cordas da guitarra, ficando o trabalho pesado a cargo do indicador e do médio. Estava criada uma nova técnica e com ela, um génio absoluto. Do seu encontro absolutamente casual com Stéphane Grappelli durante uma Jam session no Hotel Claridge de Paris, em 1933, resultou o histórico Quinteto do Hot Clube de França, talvez o melhor de todos os grupos de Jazz que a Europa jamais produziu.</p>
<p style="text-align: left;">Nesse dia passaram, um e outro, à imortalidade.</p>
<p style="text-align: center;">&gt;<iframe title="YouTube video player" class="youtube-player" type="text/html" width="480" height="390" src="http://www.youtube.com/embed/-iJ7bs4mTUY" frameborder="0" allowFullScreen></iframe></p>
<p style="text-align: center;">Django Reinhardt — J’attendrai Swing 1939</p>
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		<title>Emílio Salgari</title>
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		<pubDate>Fri, 21 Jan 2011 17:09:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Queridos Mortos]]></category>

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		<description><![CDATA[  Se me perguntarem onde é que eu agora gostaria de ir passar umas férias, uma daquelas sem mulher, nem filhos, nem amigos, numa expedição que tivesse como único objectivo o de encontrar o aventureiro que, creio, ainda viva lá bem no fundo dos meus genes, onde eu gostava mesmo de ir, dizia, era à [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><em><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/01/Emilio_Salgari_ritratto.jpg"><img class="aligncenter" title="Emilio_Salgari_ritratto" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/01/Emilio_Salgari_ritratto.jpg" alt="" width="138" height="198" /></a></em><em> </em></p>
<p><em>Se me perguntarem onde é que eu agora gostaria de ir passar umas férias, uma daquelas sem mulher, nem filhos, nem amigos, numa expedição que tivesse como único objectivo o de encontrar o aventureiro que, creio, ainda viva lá bem no fundo dos meus genes, onde eu gostava mesmo de ir, dizia, era à Maracaíbo do século XVI, engajar-me como corsário de alto bordo na tripulação do Relâmpago e ir navegar pelos mares das Caraíbas em busca de perigosas aventuras. Para estar à altura dos meus companheiros, envergaria uns calções de sarja às riscas, uma camisa de flanela rota, desbotada e sem mangas, uma faixa vermelha à cintura segurando duas pesadas pistolas e na cabeça um enorme chapéu de feltro de abas esfarrapadas. Usaria a minha barba espessa e comprida e traria sempre nos olhos, vermelhos do sal e do gruel, uma enorme paixão pelo mar, pelo sangue e pelo ouro. Nessas férias, lançar-me-ia diariamente nas mais arriscadas empresas náuticas, cometeria actos de valentia e vilania, lutaria até à morte contra Holandeses e Espanhóis, beberia litros de rum e beijaria sem distinção, as mais belas, bem como as mais desdentadas mulheres dos bordéis da Ilha das Tartarugas. Sim, porque eu não viveria em Maracaíbo. Aliás, odiá-la-ia com todo o fel do meu mau fígado, pois ela era, nesses tempos, a roca forte desses cães dos Espanhóis e do seu odioso governador, o inominável duque flamengo, Wan Guld, inimigo do corso internacional e o assassino confessado dos Corsários Verde e Vermelho, irmãos do meu comandante e herói, o temível Corsário Negro.</em></p>
<p>Sonhos fantasiosos de aventuras como esta, só são hoje possíveis porque um rapaz originário de Verona, decidiu um dia pôr os seus talentos literários ao serviço da escrita de romances de aventura. Fê-lo depois de chumbar no curso de Capitão de Marinha e por pura necessidade económica, sem nunca ter posto os pés fora de Itália e sem nunca ter navegado para lá do Mar Adriático. O rapaz chamava-se Emílio Salgari e na sua vida relativamente curta, viria a escrever mais de 84 romances, e cerca de 120 novelas, que viriam por sua vez a definir um estilo e um universo literário e com isso entreter, ao longo de todo o Século XX, inteiras gerações de jovens leitores, competindo na sua fantasia e inspiração com outros escritores do seu tempo, normalmente considerados figuras maiores da literatura chamada de aventuras, tais como Júlio Verne, Alexandre Dumas e Robert Louis Stevenson.</p>
<p>Salgari era um não-conformista e de alguma forma um homem à frente do seu tempo. Escrevia aventuras no seu estado mais puro e nunca deixou que as suas histórias se empastelassem de moralidade, de banais princípios pedagógicos ou de um sentido artificial de justiça aparente. Não evitou a violência nem a morte, pois ela faz parte do drama da vida. Na sua obra nunca relegou a mulher para um segundo plano e em vez disso, deu-lhe para sempre um protagonismo e uma valentia nunca vistas (que corajosa a Iolanda, a filha do Corsário Negro). Não deixou que a religião tomasse conta dos seus personagens, dando-lhes uma liberdade moral decididamente saudável. Salgari escreveu ainda e sempre, encontrando um equilíbrio perfeito entre a realidade e a fantasia. Ao mesmo tempo que deu às suas aventuras um enquadramento histórico detalhado, exigindo de si mesmo um rigor quase enciclopédico, e descrevendo por isso, minuciosamente, o mar e a terra e as plantas e os animais que caracterizam os diversos locais por onde as suas aventuras se desenrolam, por outro lado, deixou sempre correr a sua enorme fantasia e a sua capacidade de contextualizar o que nunca tinha visto nem jamais vivido, envolvendo os seus personagens e com eles os leitores nas mais rocambolescas viragens de sorte e destino, deixando-os a eles, personagens e a nós, leitores, literalmente sem fôlego, e sem a mínima ideia do que poderá estar para acontecer ao virar da próxima página.</p>
<p>Pessoalmente, aquilo de que mais gosto na literatura de Salgari é o contraste entre esses dois grandes espaços em que o seu universo literário se articula. O primeiro desses espaços é o mar. Ele é imenso e rápido, luminoso e aberto, onde se encontram juncos, galeões, escunas, chalupas e brigues num incessante entrecruzar de grandes batalhas e pequenas escaramuças, de abordagens e naufrágios, de salvamentos e novas partidas. O segundo espaço é por outro lado, a floresta. Densa, lenta, húmida, misteriosa. Um espaço que tanto pode ser um refúgio como um assustador e infinito labirinto, repleto de animais venenosos, doenças malditas, templos misteriosos e seitas sedentas de sangue, onde das longas caminhadas empreendidas pelos heróis de Salgari resultam sempre umas quantas mortes terríveis, quer por doença ou por mordedura de cobra, quer, no caso de se encontrarem com os temíveis Tugues, por um horrível e lento estrangulamento. E é neste contraste que o bem e o mal se confrontam numa batalha universal e intemporal. O bem, mesmo quando é personificado por figuras sombrias e perigosas, revela-se sempre no heroísmo, humanidade e generosidade totais das mesmas, em oposição ao mal, geralmente identificado com as forças de opressão, sejam elas os colonizadores britânicos ou as seitas adoradoras de Kali (no caso de Sandokan), sejam os Espanhóis ou os Holandeses (no caso das histórias dos Corsários das Ilhas das Tartarugas) e que revelam sempre uma predisposição para a ganância, para a prepotência, para o fervor religioso e para uma enorme crueldade para com os mais fracos.</p>
<p>Em miúdo, ofereceram-me alguns exemplares da Colecção Salgari da Editora Romano Torres. Lembro-me de ter completado a colecção nos anos seguintes, comprando, na feira do livro, por meia dúzia de escudos, os exemplares que me faltavam. Tinham uma capa de papel colorido e umas ilustrações de sonho e ainda lá estão, numa estante de casa dos meus pais, na Praia das Maçãs. Confesso que uma das frustrações mais profundas da minha infância foi ter perdido o último episódio da série televisiva “Sandokan”, aquele em que a Marianne morre e em que Sandokan reconquista Mompracem. Agora, reeditado em Itália e em vários outros países, Emílio Salgari, parece estar de volta. Nestes tempos em que as aventuras se vivem de uma forma politicamente correcta em frente aos televisores e às Wiis, a leitura de Salgari torna-se mais do que nunca obrigatória. Este Natal, tentei ler a história do Corsário Negro ao meu filho de sete anos. Curiosamente assustou-se logo no início da história aquando da descrição de Maracaíbo, dos doze corpos pendurados na forca da Praça de Armas, e do cadáver do Corsário Vermelho a quem sem respeito de qualquer espécie, enfiaram uma beata na boca. Ou foi isso que o assustou, ou foi a voz de trovão que fiz quando nos diálogos de abertura fala o assustador Corsário Negro. Para o ano que vem tentarei de novo.</p>
<p>Salgari morreu na miséria total. Explorado pelos seus editores, com a mulher demente internada num hospício, e sem possuir sequer um par de sapatos, Emílio Salgari comete <em>hara kiri</em> no dia 25 de Abril de 1911, aos quarenta e nove anos de idade. Como despedida deixa uma nota aos mesmos editores dizendo: “Peço a vós que enriquecestes à custa da minha pele, enquanto mantivestes a minha família na pobreza, que pelo menos tenhais a decência de pagar o meu funeral. Saúdo-vos quebrando a minha pena”*</p>
<p><em>Amortalhado na bandeira do Corsário Negro, depositamos o corpo do nosso camarada Emílio sobre uma tábua apoiada à amurada do Relâmpago. A segurar a mesma tábua estou eu, o Van Stiller, o Carmaux e o Morgan, o hábil e intrépido piloto do navio. Ao levantarmos a extremidade da tábua e enquanto o corpo do nosso criador desliza na direcção do abismo marinho, ouve-se o canhão de bombordo que dispara uma salva de metralha e o assustado bater de asas de um corvo-marinho que havia pousado lá em cima no cesto da gávea. Do convés do tombadilho, o Corsário Negro, mais pálido que nunca, faz-me uma saudação discreta com a cabeça, virando-se depois com o olhar sombrio, na direcção de Maracaíbo. Atacamos esta noite. Vingamos a morte do Corsário Vermelho. Os homens estão prontos e eu também. Resta-me afiar a lâmina da minha cuchilla, encher de pólvora a minha bolsa de pele e esperar pelo melhor. Se for capturado acabarei com uma corda ao pescoço na Plaza de Armas da cidade. Se morrer, numa vala comum à saída da mesma, entre o bem e o mal, onde acaba a maresia do porto e começa a humidade pegajosa e quente da floresta. Se no entanto vencermos e tomarmos vitoriosos o palácio do governador, seremos nós a pendurar o corpo sem vida desse bastardo do Wan Guld às portas da cidade e ficarei eu, com certeza, com mais uma bela história para contar, lá no escritório, durante a próxima reunião do Board. </em> </p>
<p>Por essa história e pelo sonho, um grande obrigado, meu querido Emílio Salgari!</p>
<p>Vasco Grilo</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/01/013nm.jpg"><img class="aligncenter" title="013nm" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/01/013nm.jpg" alt="" width="175" height="278" /></a></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p>* Torres Fontes, Luis;  <strong>Vida e obra de Emilio Salgari</strong></p>
]]></content:encoded>
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		<title>As minhas prendas — Ainda vou a tempo?</title>
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		<pubDate>Wed, 19 Jan 2011 00:11:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Este Natal fui apanhado desprevenido. Entre viagens mirabolantes, catadupas de trabalho e mais as aulas de ski dos meninos, fiquei sem tempo, sem tinta e sem rede para poder embrulhar e oferecer umas prendinhas aos meus co-bloggers que tanta falta me fazem quando, sem eles, passo mais de uma mão-cheia de dias. Assim, aqui um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><br class="spacer_" /></p>
<div id="attachment_23697" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/01/xmas-tree.jpg"><img class="size-medium wp-image-23697" title="xmas tree" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/01/xmas-tree-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a><p class="wp-caption-text">Mais vale tarde que nunca.</p></div>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p>Este Natal fui apanhado desprevenido. Entre viagens mirabolantes, catadupas de trabalho e mais as aulas de ski dos meninos, fiquei sem tempo, sem tinta e sem rede para poder embrulhar e oferecer umas prendinhas aos meus co-bloggers que tanta falta me fazem quando, sem eles, passo mais de uma mão-cheia de dias. Assim, aqui um bocado à pressa e usando o papel de embrulho que consegui salvar das mãozinhas delicadas dos meus filhos, resolvi empacotar umas lembranças aos meus queridos e defuntos amigos.</p>
<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=LBDU6XtAoWk&amp;feature=channel">Esta</a> é para a Teresa Conceição, que gosta de navegar à deriva pelos desertos desse mundo fora.</p>
<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=wuGPYvQjKac">Esta</a> aqui é para a Eugénia de Vasconcellos porque o amor também é feito de sangue e ela que o sabe contar tão bem.</p>
<p>E para que a Joana Vasconcelos possa aquecer as mãos, depois do frio que apanhou este ano numa noite de primavera, fica aqui <a href="http://www.youtube.com/watch?v=Nkkci8I30qg&amp;feature=related">esta</a>.</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p>A Marta, que me fez um grandioso creme de marisco fica com <a href="http://www.youtube.com/watch?v=tDZy6-fMCw4">esta</a>.</p>
<p>O Zé Navarro de Andrade, que teve um ano difícil, pode, e deve, ter <a href="http://www.youtube.com/watch?v=mIcffgtzs14">esta</a>.</p>
<p>E <a href="http://www.youtube.com/watch?v=bBLW0poHIiw&amp;feature=related">aquela ali</a> é para o Manuel S. Fonseca que como toda a gente, já teve 20 anos e também um dia sonhou com Paris.</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=VpmOTGungnA&amp;feature=related">Esta</a> é para o Pedro Norton que lá bem no fundo tem alma gitana,</p>
<p>e <a href="http://www.youtube.com/watch?v=VTCJ5hedcVA">aquela</a> ali é para o Ruy que é poeta e que nunca hesita em me en(cantar).</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p>Para o Diogo foi mais difícil porque ele já tem tudo. De qualquer modo arrisco e ofereço-lhe <a href="http://www.youtube.com/watch?v=RNZAm5xgaFM&amp;feature=related">esta</a>.</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p>Ao Gonçalo, que é o único que me faz pensar no Seu sacrifício de vez em quando, trouxe-lhe <a href="http://www.youtube.com/watch?v=0Su8LXNS16A">esta</a>,</p>
<p>e para o António, porque em 1970 já andava de chapéu à banda, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=ZrcOEoFttWU">aquela</a> ali.</p>
<p>Para terminar, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=bZ6cNGhdgEU&amp;feature=related">esta</a> aqui para o Francisco porque vive em Boston, Mass. que é a coolest city do planeta,</p>
<p>e para o Pedro MS, que com as suas Kino-listas se tornou no meu guia espiritual, aqui fica a <a href="http://www.youtube.com/watch?v=Qg44qKSbsdQ">última</a>.</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p>Espero que gostem e que no próximo Natal cá estejamos todos outra vez bem enterradinhos.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Canto fantasmagórico</title>
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		<pubDate>Sat, 15 Jan 2011 01:30:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O Bob Hope cantou-a só para mim. Lembrava-me de a ter já ouvido em qualquer filme. Bob Hope and Shirley Ross, “Thanks for the Memory” de “The Big Broadcast of 1938″]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O Bob Hope <a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/01/princeton-ghosts/">cantou-a só para mim</a>. Lembrava-me de a ter já ouvido em qualquer filme.</p>
<p>
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/nKgUq5dziEk?fs=1&amp;hl=en_US" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/nKgUq5dziEk?fs=1&amp;hl=en_US" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object>
</p>
<p style="text-align: center;">Bob Hope and Shirley Ross, “Thanks for the Memory” de “The Big Broadcast of 1938″</p>
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		<title>Princeton Ghosts</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Jan 2011 20:52:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Poder-se-ia definir como um verdadeiro albergue de gente morta. Situado em plena Palmer Square, é o centro gravitacional de Princeton e da sua Universidade e como tal, já ali dormiu muito ilustre defunto. Sob o pórtico da entrada pode-se ler: “Rest Traveller, Rest, and Banish Thoughts of Care; Drink to Thy friends and Recommend Them [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_23502" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/01/The-Nassau-Inn.jpg"><img class="size-full wp-image-23502" title="The Nassau Inn" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/01/The-Nassau-Inn.jpg" alt="" width="300" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">The Nassau Inn — Princeton, NJ</p></div>
<p>Poder-se-ia definir como um verdadeiro albergue de gente morta. Situado em plena Palmer Square, é o centro gravitacional de Princeton e da sua Universidade e como tal, já ali dormiu muito ilustre defunto. Sob o pórtico da entrada pode-se ler:</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p style="text-align: center;"><em>“Rest Traveller, Rest, and Banish Thoughts of Care;</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Drink to Thy friends and Recommend Them Here”</em></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p>Chama-se The Nassau Inn, existe desde 1769 e nota-se. A recepção trepida sob a vibração das caldeiras instaladas na cave do edifício e de noite, a velha estrutura emite deseperados e tétricos lamentos fazendo ranger as suas madeira centenárias e uivar os seus fantasmas residentes. E estes não são poucos. Não sou certamente um ilustre intelectual ou académico mas esta semana também lá passei uma noite e digo-vos que pouco consegui dormir. Numa sequência interminavel de sustos, fui visitado no meu quarto por um rol de personagens fantasmagóricas que tendo lá dormido em vida se recusaram até hoje a fazer o check-out e a pagar a conta. Primeiro foi o Bob Hope que me cantou o “Thanks for the Memory” até eu adormecer. A seguir, entrou o F. Scott Fitzgerald que me acordou e sentando-se na borda da minha cama me contou uma estranha historia de gente rica e morta. Tinha claramente bebido demais, lá em baixo, no bar do Yankee Doodle. Devo ter adormecido de novo pois de repente e esbaforido, apareceu o JFK que entrou no meu quarto seguramente convencido que era o da Grace Kelly. Foi-se embora com um ar desconsolado. Pela uma e meia da manhã apareceu o Walter Cronkite que trazia um capacete do exercito Americano com a escrita Born to Kill e um microfone na mão. Estava bastante desorientado pelo que tive que o conduzir até à porta. No corredor, abandonada, estava uma cadeira de rodas com as iniciais FDR. Desisti de dormir pelas duas. E fiz bem. Dez minutos depois entrou-me o Albert Einstein pelo quarto, a esvoaçar a uma velocidade surpreendente. Seguiram-se o George Washington e o Paul Revere, que entraram de carabina em punho, me perguntaram se escondia algum Inglês e voltaram a sair sem mais uma palavra.  Por fim entrou o Robert Oppenheimer que andava à procura do Einstein. Parecia ter qualquer coisa de explosivo para lhe contar. Pelas três da manhã decido ir à casa de banho e descubro um sari pendurado atrás da porta. Curioso, verifico que, bordado a seda na etiqueta, está o nome da Indira Gandhi. Para terminar as excitações da noite, quando regresso ao quarto constato para minha surpresa que a Grace Kelly se meteu na minha cama (convencida certamente que eu era o JFK.) Resolvi deixá-la viver a sua ilusão e ali ficou até de manhã.</p>
<p>Que noite, amigos, que noite.</p>
<p>PS: Um dos pontos altos do The Nassau Inn é também este mural, pintado por Norman Rockwell para o Yankee Doodle Tap Room e onde, a seus pés, bebi anteontem um potente copázio de Southern Comfort (um dos mais intragáveis mas característicos Burbons do mundo). Cheers!</p>
<div id="attachment_23501" class="wp-caption aligncenter" style="width: 584px"><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/01/YDTR_Mural.jpg"><img class="size-full wp-image-23501 " title="YDTR_Mural" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/01/YDTR_Mural.jpg" alt="" width="574" height="185" /></a><p class="wp-caption-text">Yankee Doodle — Norman Rockwell 1937</p></div>
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		<title>Hunger</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Dec 2010 19:34:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[1981– Sonho… …que sou um homem adulto. Que estou preso. No bloco H dos calabouços destes colonialistas filhos da puta. Não recordo o último dia em que me lavei. Ou cortei o cabelo. Ou fiz a barba. Debaixo deste cobertor estou completamente nu. Tenho as unhas compridas e negras. Os meus pés gelados são uma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_22586" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/12/gallery1978.jpg"><img class="size-full wp-image-22586" title="gallery1978" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/12/gallery1978.jpg" alt="" width="300" height="180" /></a><p class="wp-caption-text">The Dirty Protest</p></div>
<p style="text-align: left;">1981– Sonho…</p>
<p>…que sou um homem adulto. Que estou preso. No bloco H dos calabouços destes colonialistas filhos da puta. Não recordo o último dia em que me lavei. Ou cortei o cabelo. Ou fiz a barba. Debaixo deste cobertor estou completamente nu. Tenho as unhas compridas e negras. Os meus pés gelados são uma chaga sangrenta. Comigo está um outro companheiro de combate. É um veterano, não um aprendiz como eu. Metódicamente e como todos os outros, ensinou-me a recolher bocados de comida com os quais construimos um canal inclinado por onde, todas as tardes, fazemos correr o nosso mijo, por debaixo da porta, para o corredor da prisão. Quando aqui cheguei, tinha já coberto as paredes da cela com excrementos. Verdadeiras pinturas rupestres feitas com a sua própria merda. Agora ajudo-o, usando a minha própria matéria-prima. Ontem fizeram-nos uma inspecção. Tiraram o Bobby da cela dele e bateram-lhe com uns bastões de borracha de um novo tipo, mais compridos e flexíveis que os habituais. Fizeram-no com alegria. Depois, cortaram-lhe o cabelo à navalhada e lavaram-lhe o sarro e o sangue com um jacto de água gelada. Um dos guardas, um sacana com medo da sua própria sombra, com uma luva de lavar loiça, enfiou-lhe dois dedos pelo cu acima e depois pela garganta abaixo, à procura de provas. Provas de quê? De que estamos vivos? Transformaram-nos em seres pré-históricos estes animais. Viver como tal é a unica forma de protesto que nos resta. Ou antes. Não exactamente. Temos ainda a morte. Aquela em que nos deixamos morrer. Voluntariamente. De fome. Uma morte inútil? É possível. Talvez apenas um martírio vaidoso e exibicionista. Mas talvez seja a coisa certa. Porque afinal o que é necessário é combater. E é de uma guerra que esta porra se trata.</p>
<p>Acordo…</p>
<p>…e acendo a luz. Pelo quarto parece-me sentir ainda o odor acre da creolina com que se limpam os corredores das prisões e dos quarteis. Olhando as minhas mãos na penumbra dir-se-ia que tenho as unhas partidas e sujas. São seis da manhã. Tenho treze anos, ando no segundo ano e hoje tenho ponto de matemática. Abano a cabeça e viro ao contrário a minha almofada quente e húmida. O melhor é dormir mais um bocado.</p>
<p>
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="640" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/Mw7WJLZmVF4?fs=1&amp;hl=en_US" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="640" height="385" src="http://www.youtube.com/v/Mw7WJLZmVF4?fs=1&amp;hl=en_US" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object>
</p>
<p style="text-align: center;">“Hunger” — Steve McQueen, 2008</p>
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		<title>Dan Auerbach</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Nov 2010 02:37:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Poderia ser um primo distante de Hendrix, ou de Dylan, ou de Morrison, ou de Clapton. Não é. Vem de Akron, Ohio e as suas influências são outras. Mais directas e profundas. Influências que emanam vaporosas das campas de Robert Johnson e de R. L. Burnside. De Robert Nighthawk e de Hound Dog Taylor. Todos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/11/Dan+Auerbach+auerbach.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-21289" title="Dan+Auerbach+auerbach" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/11/Dan+Auerbach+auerbach-300x300.jpg" alt="" width="300" height="300" /></a>Poderia ser um primo distante de Hendrix, ou de Dylan, ou de Morrison, ou de Clapton. Não é. Vem de Akron, Ohio e as suas influências são outras. Mais directas e profundas. Influências que emanam vaporosas das campas de Robert Johnson e de R. L. Burnside. De Robert Nighthawk e de Hound Dog Taylor. Todos mestres diplomados no azul das almas, no vermelho das paixões e no amarelo do pó que cobre essas longas estradas que cruzam infinitas, o Deep South Americano.</p>
<p>A solo, com o Patrick Carney nos The Black Keys ou na companhia dos seus bizarros Fast Five, Dan Auerbach, na sua versatilidade explosiva veio decididamente para ficar.</p>
<p>So simple.</p>
<p>So good.</p>
<p>God Bless him!</p>
<p style="text-align: center;">
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="640" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/9o4l10CtN7g?fs=1&amp;hl=en_US" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="640" height="385" src="http://www.youtube.com/v/9o4l10CtN7g?fs=1&amp;hl=en_US" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object></p>
<p>“Heartbroken, in Disrepair” — Dan Auerbach 2009</p>
<p style="text-align: center;">
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/j-nvCYdVHz8?fs=1&amp;hl=en_US" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/j-nvCYdVHz8?fs=1&amp;hl=en_US" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object></p>
<p>“Mean Monsoon” — Dan Auerbach and the Fast Five 2009</p>
<p style="text-align: center;">
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="640" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/mpaPBCBjSVc?fs=1&amp;hl=en_US" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="640" height="385" src="http://www.youtube.com/v/mpaPBCBjSVc?fs=1&amp;hl=en_US" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object></p>
<p>“Tighten Up” — The Black Keys 2010</p>
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		<title>Apocalypse Then</title>
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		<pubDate>Wed, 27 Oct 2010 08:54:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Há qualquer coisa de apocalíptico e aterrador no som do cravo. Penso sempre que, após um gigantesco cataclismo nuclear, o primeiro instrumento a ser encontrado pelos possíveis sobreviventes do mesmo, seria um cravo.  Imagino uma andrajosa e solitária sombra em busca de água e de comida que, com angústia, depara com a perna de um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há qualquer coisa de apocalíptico e aterrador no som do cravo. Penso sempre que, após um gigantesco cataclismo nuclear, o primeiro instrumento a ser encontrado pelos possíveis sobreviventes do mesmo, seria um cravo.  Imagino uma andrajosa e solitária sombra em busca de água e de comida que, com angústia, depara com a perna de um cravo, enterrado e invertido. A dita perna, emergindo por entre os escombros, espreita as cinzas de um mundo que já não é. Como o telescópio de uma máquina de viajar no tempo. Imagino depois a mesma sombra a afastar, com as costas da mão, as tóxicas poeiras que cobrem as teclas do instrumento, e depois também duas lágrimas, luminosas e radioactivas, que lhe descendo pela face, abrem dois incandescentes sulcos de luz na escuridão do mundo à sua volta. E imagino-a por fim a sentar-se num caixote, à sua frente, com os braços estendidos ao longo do corpo e os nós dos dedos tocando terra, tentando recordar qualquer coisa que seja de um passado que lhe parece agora infinitamente distante. Finalmente, vejo-a a desferir tesos golpes de raiva contra o marfim e contra o seu mundo ferido de morte, e a lançar, para o vazio, um alucinado e dissonante berro de desespero e dor.</p>
<p>É com esse tipo de desespero e dor que acho que o toca a Elżbieta Chojnacka, nesta composição do grandíssimo compositor polaco Henryk Górecki. Na sua polónia de 1981, estou convencido que Górecki a imaginava e escrevia pensando em cataclismos futuros. Sei no entanto que pensava a sua música em geral, como uma coluna sonora de outros apocalipses, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=chwDoQuD77g&amp;feature=related">esses</a> com certeza já muito menos imaginários.</p>
<p>
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/rP_z2Jz1xc0?fs=1&amp;hl=en_US" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/rP_z2Jz1xc0?fs=1&amp;hl=en_US" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object>
</p>
<p style="text-align: center;">H. M. Górecki — Concerto for Harpsichord and String Orchestra, Op. 40</p>
<p style="text-align: center;">Elżbieta Chojnacka, harpsichord<br />
 Narodowa Orkiestra Symfoniczna Polskiego Radia<br />
 Antoni Wit, conductor</p>
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		<title>13 Musas de uma vez só…</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2010/10/13-musas-de-uma-vez-so/</link>
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		<pubDate>Tue, 19 Oct 2010 21:42:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Não uma mas treze, treze musas para o Diogo. Espero que por agora lhe bastem. Todas Giocondas. Ou Jocondas? De certeza, todas belas e  muito nuas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não uma mas treze, treze musas para o <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/10/procura-se-musa/">Diogo</a>. Espero que por agora lhe bastem.</p>
<p>Todas Giocondas.</p>
<p>Ou Jocondas?</p>
<p>De certeza, todas belas e  <a href="http://www.wix.com/rossylor/gioconde">muito nuas</a>.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Tarde de Sexta-feira e faz sol lá fora.</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2010/10/tarde-de-sexta-feira-e-faz-sol-la-fora/</link>
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		<pubDate>Fri, 15 Oct 2010 10:43:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Hoje acordei com saudades do meu Walkman. E das tardes a fazer cassetes com os meus primos. E dos Prefab Sprout, e dos The The, e dos Weekend, e dos Everything But The Girl. Bom tarde e bom fim de semana! Faron Young — STEVE MCQUEEN, Prefab Sprout 1985 Uncertain Smile — SOUL MINING, The [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje acordei com saudades do meu Walkman. E das tardes a fazer cassetes com os meus primos. E dos Prefab Sprout, e dos The The, e dos Weekend, e dos Everything But The Girl.</p>
<p>Bom tarde e bom fim de semana!</p>
<p>
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/0FVEUwDAfzU?fs=1&amp;hl=en_US" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/0FVEUwDAfzU?fs=1&amp;hl=en_US" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object>
</p>
<p style="text-align: center;">Faron Young — STEVE MCQUEEN, Prefab Sprout 1985</p>
<p>
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/dz50N2_tCCg?fs=1&amp;hl=en_US" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/dz50N2_tCCg?fs=1&amp;hl=en_US" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object>
</p>
<p style="text-align: center;">Uncertain Smile — SOUL MINING, The The 1983</p>
<p>
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/FNLB1O4B8vQ?fs=1&amp;hl=en_US" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/FNLB1O4B8vQ?fs=1&amp;hl=en_US" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object>
</p>
<p style="text-align: center;">Summer days — LA VARIETÉ, Weekend 1982</p>
<p>
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/JJddDYbrxwM?fs=1&amp;hl=en_US" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/JJddDYbrxwM?fs=1&amp;hl=en_US" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object>
</p>
<p style="text-align: center;">Bittersweet — EDEN, Everything but the Girl 1984</p>
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		<title>The Silly Preacher</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Oct 2010 05:10:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Um dia fui a Graceland. Com uma das maiores ressacas da minha vida, mas fui. Uma experiência estonteante.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um dia fui a Graceland. Com uma das maiores <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/10/the-howlin-preacher/">ressacas</a> da minha vida, mas fui.</p>
<p>Uma experiência estonteante.</p>
<p>
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/FzH-1bsf28g?fs=1&amp;hl=en_US" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/FzH-1bsf28g?fs=1&amp;hl=en_US" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object></p>
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		<title>The Howlin’ Preacher</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Oct 2010 04:54:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Tennesse, 1997 - I don’t drink alcohol, Doc! Twenty three years and two months! Not a single drop! Fico com o Pitcher de cerveja suspenso no ar. Quem numa profunda voz de barítono acaba de me confessar a sua abstémia é um negro de nome Samuel. Sorri perante a minha estupefacção. – The good lord [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/beale.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-20328" title="beale" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/beale.jpg" alt="" width="518" height="354" /></a></p>
<p>Tennesse, 1997</p>
<p>- I don’t drink alcohol, Doc! Twenty three years and two months! Not a single drop!</p>
<p>Fico com o Pitcher de cerveja suspenso no ar. Quem numa profunda voz de barítono acaba de me confessar a sua abstémia é um negro de nome Samuel. Sorri perante a minha estupefacção. – The good lord Jesus showed me the way, you know Doc? — Há mais de uma semana que insiste em chamar-me Doc.</p>
<p>- And I´m a preacher too… — remata orgulhoso com um brilho nos olhos.</p>
<p>Estamos em Março mas está calor. Viemos todos jantar a East Memphis. No <em>Corky´s Ribs &amp; BBQ</em>. — Best ribs in the Country! We ship everywhere! We supply the White House! — Acredito que sim. E não é difícil imaginar o Presidente Clinton sentado nos sofás da West Wing, a chupar dos seus dedos anafados o delicioso e espesso Corky´s Special Hickory Sauce, enquanto discute com o seu Chief of Staff se as melhores ribs são perhaps as do Tennessee ou indeed as do seu estado natal, o Arkansas. Aqui, longe desses requintes intelectuais de Washington, à mesa somos doze, encafuados numa sala fumarenta nas traseiras do estabelecimento. Sou o único branco. Todos negros à excepção do Sandeep que, na sua magreza e natural delicadeza indiana, sentado ao lado de um dos operários das linhas de enchimento, um enorme negro de pura raça mandinga, parece um galão tirado à pressa, descolorado e insípido. Vê-se que está exausto e eu também. Trabalhámos juntos toda a semana. Quinze horas por dia. Os operários que nos ajudaram a levar avante o nosso bizarro projecto de engenharia, e com quem agora jantamos, foram incansáveis. Como recompensa, deles e nossa, viemos aqui obstruir as artérias com as famosas ribs do Corky´s e também, e sobretudo, beber uns copos valentes, de cerveja e Burbon. Porque merecemos. É nestes momentos que acho que a vida vale a pena. E sobretudo que vale a pena vivê-la aqui, longe do meu mundo, longe de tudo, mesmo no meio das vidas que vivem os outros, aqui ou onde quer que seja que a vivem. E só mesmo o facto de o Samuel não beber é que me perturba. Decido por isso ajudá-lo e beber pelos dois. Espero que não se esqueça de rezar por mim amanhã de manhã.</p>
<p><em>O que é que andavas por ali a fazer, pareceu-me ouvir perguntar? Explico. Sou uma espécie de desenhador de fábricas. Trabalho para uma empresa de consultoria e concebo Lay-outs para as operações industriais de meia dúzia de multinacionais. Na realidade a empresa sou eu e o meu amigo, irmão e anjo da guarda Sandeep. Neste momento, temos de facturar o mais possível pois estamos a planear uma viagem à Índia em Novembro e durante os dois meses que por lá andaremos, não temos qualquer intenção de trabalhar. O nosso Principal, que era também Indiano e que era também um emérito professor de Harvard, morreu o ano passado num acidente de montanhismo. Na verdade, quase todos os meus amigos aqui são indianos embora estas amizades durem pouco pois a maior parte destes transfere-se para a costa Oeste ao fim de meia dúzia de anos. Vão trabalhar para as empresas de IT que por lá crescem como cogumelos. O Sandeep e eu, decidimos manter a nossa base em New England e depois da morte do Kumar, temos andado por conta própria, a amealhar as nossas hourly fees com alguns projectos já em curso ou com alguns novos accounts que vamos conseguindo abrir graças aos nossos contactos com a Harvard Business School. Tenho um pequeno apartamento em Cambridge mas vivo sobretudo em hotéis, motéis e aeroportos. Quase não tenho oportunidade de gastar o dinheiro que ganho. Compro roupa onde calha e sigo uma dieta gourmet, rica em take out chinese food e garrafas de Snapple Iced Tea. Acumulo centenas de milhares de milhas aéreas e consumo malas de viagem ao mesmo ritmo que consumo a sola dos meus sapatos. </em></p>
<p><em> </em><em>Mas que life-style simpático, estão talvez a pensar com um sorriso trocista. Têm razão. Talvez não o seja. Mas olhem, tenho andado a ver o mundo aos bocadinhos. Tenho trabalhado em cidades onde nunca pensei alguma vez pôr os pés, como Monterrey no México ou Gwangju na Coreia do Sul, junto á costa do mar amarelo. E também em cidades mágicas como Manaus, o Cairo ou Istambul. Ou ambientes de estranhos contrastes como Afula no norte da Galileia ou Jeddha na Arábia Saudita. E com tudo isso, nestes últimos tempos tenho-me cruzado e sentado à mesa com todo o tipo de humanidade. Gente como o anafado dono de uma fábrica na Arábia Saudita que, sentado num luxuoso restaurante de Jeddha, com um sorriso fininho e as unhas bem tratadas, me descreveu orgulhoso o imenso valor acrescentado dos recursos humanos que, ao preço da chuva, importava do Paquistão e do Sudão. Ou o dedicado director de qualidade de uma empresa no Cairo que a um palmo do meu nariz, em árabe e aos berros, me informou que na sua fábrica mandava ele e que eu podia voltar para a América com os meus planos de aumento de produtividade. Ou o Plant Manager que me convidou para jantar em sua casa em Tiberias, nas margens do mar da Galileia em Israel e onde conheci a sua filha que, nos seus 18 anos e enquanto nos servia o jantar, me contou que tinha acabado de completar um turno do seu serviço militar como espia infiltrada numa célula de resistência armada palestiniana. Ou os dois gestores Ingleses que, expatriados e já para lá da meia idade, viviam encurralados em Seul, entre trabalho, bebedeiras e sonolentas conversas com as namoradas de turno, essas beldades jovens e anónimas, que aos magotes frequentam os bares dos melhores hotéis asiáticos. Ou ainda os simples, mas educados e sempre sorridentes operários egípcios, com quem dividi pedaços de frango frito, enquanto sentados em bidons ferrugentos nas traseiras de uma fábrica plantada no meio do deserto, fumámos shisha de um cachimbo de água improvisado. </em></p>
<p><em> </em><em>Admito. Por vezes vou parar a destinos menos cosmopolitas ou exóticos. Neste preciso momento, há já mais de um mês que ando pelo sul dos Estados Unidos. Collierville, Arkadelphia, Texarkana, Tyler, Shreveport. Cidades e vilas desta América profunda, primitiva, inculta e segregacionista mas por vezes tão solidária, generosa e surpreendentemente cordial. Cidades com aeroportos onde chego por vezes já noite funda, no ]ultimo vôo e onde um segurança octogenário vem, cambaleante de sono, abrir a porta para que os passageiros possam sair do terminal. Algumas são verdadeiras vilórias onde num pequeno balcão rent-a-car, me estendem as chaves de um veículo de modelo indefinido, ao volante do qual, mergulhando na escuridão de uma qualquer auto-estrada secundária, vou procurar o Holiday Inn mais próximo. São também cidades que há muito perderam o centro e o nexo. Em que a main street já só alberga discount marts, liquor stores e gente sem casa nem rumo. Cidades onde nos arredores encontro fábricas irremediavelmente condenadas à morte, de onde empresas, que há muito as esqueceram, tentam tirar ainda algum lucro que investem depois nas maquilladoras do México e na Índia e na China. Fábricas populadas exclusivamente por duas raças: os African Americans e os exemplares dessa outra raça que os americanos de classe média definem cruelmente como White Trash. Pretos e Lixo Branco, em suma, que com os seus bonés de basebol, as botas cardadas e a roupa comprada nos thrift stores que como ervas daninhas nascem e morrem na borda das autoestradas, se batem duramente para que ao fim do dia consigam ainda acreditar nessa escorregadia ilusão que por vezes parece ser, o American Dream.</em></p>
<p>Olho para as minhas mãos. Estão vermelhas de pimentão. Tenho os dedos e as unhas impregnadas do tal Corky´s Special Hickory Sauce de que o Clinton tanto gosta. Tento, sem sucesso, limpá-los com um toalhete perfumado que retiro com dificuldade de um sachet com o logótipo do restaurante. É um Porky-Pig que sorri amavelmente e me convida a encomendar uma dose de ribs pelo telefone, da próxima vez que não podendo sair de casa, me assolar uma incontornável gana de as comer. Em cima da mesa, <em>pitchers</em> de cerveja vazios, pilhas de <em>ribs</em> roídas com afinco e restos de <em>pulled pork</em>, <em>beans</em> e <em>corn on the cob</em> são testemunhas da nossa voracidade. Pergunto aos meus companheiros de mesa como é que se vai para Graceland. Amanhã, antes de voltar para Boston, quero lá ir. Olham-me com alguma circunspecção e ouço de novo a voz quente de Samuel, o operário pregador, – Elvis Presley is a white man´s invention, Doc! – Acenos de cabeça. — They coudn´t deal with us being on top, you know? Primeiro olha-me sério e logo a seguir abre de novo um grande sorriso. Sorrio-lhe também. Levanta-se então, e apoiando os punhos fechados no tampo da mesa, como imagino que faça um verdadeiro preacher no momento da prega, afirma quase cantando — Now! Are you interested in listening to some serious southern music?  — Atordoado pelo cansaço e pelos vapores do álcool, não estou seguro se Samuel se dirige a mim, ao Sandeep ou ao seu Good Lord, mas pelo sim pelo não, respondo-lhe afirmativamente.</p>
<p>Entramos por uma porta entreaberta nas traseiras de um edifício que dá para um parque de estacionamento. Descemos dois lances de escadas. O ambiente lá em baixo é quente e húmido. O espaço está cheio. A sala é pequena. As paredes pintadas de vermelho. De músicos não há vislumbre e eu continuo a ser o único branco. Já não sei em quantos bares entrámos antes de aqui chegar. Mais um shot de burbon e uma cerveja. As têmporas batem-me agora alternadas, sincopadas, ora a direita ora a esquerda. São duas e meia da manhã e devia estar a dormir á horas. O Sandeep fala ininterruptamente com dois dos nossos homens. Tenta-lhes explicar aquilo que andámos a fazer toda a semana. Ouço-o falar de design of experiments, control variables e statistic process control. Naturalmente já ninguém o ouve. Há excepção do Samuel, bebemos todos demais e começo a não saber onde estamos nem como ali viemos parar. Entram finalmente os músicos. Metem-me mais um shot de burbon na mão. Samuel está agitado, nervoso. O guitarrista senta-se numa cadeira em cima de um palco improvisado e faz-me um gesto com a cabeça. Não é para mim, era para o Samuel. Conhecem-se. Despejo o burbon pela goela abaixo. O Samuel sobe para o palco. Afinal também é um pecador. Não bebe mas canta o pecado dos outros, penso. O calor é insuportável. Samuel canta agora. Como um diabo. Qualquer coisa que envolve um comboio e um escravo e uma loja de penhores. È enfezado mas tem uma voz incrivelmente potente. Um Howlin’ Wolf, pregador e operário. A sua voz ribomba contra as paredes vermelhas e parece acelerar o latejar das minhas têmporas. A guitarra metálica que fere. A batida ritmada, como um comboio de carga que atravessa o delta do Mississípi. Preciso de ar. Urgentemente. Dirijo-me para as escadas ouvindo ainda ao longe uma guitarra e um lobo que canta. Já cá fora, o ar fresco da noite atordoa-me. Acendo um cigarro. Sento-me na borda do passeio e apoio a cabeça sobre os joelhos.</p>
<p>Acho que amanhã já não vou a Graceland.</p>
<p>Fuck ! Talvez seja altura de mudar de vida.</p>
<p></p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/4Ou-6A3MKow?fs=1&amp;hl=en_US" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/4Ou-6A3MKow?fs=1&amp;hl=en_US" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object>
</p>
<p style="text-align: center;">How Many More Years — Howlin’ Wolf</p>
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		<title>Blasfémia! Blasfémia!</title>
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		<pubDate>Wed, 13 Oct 2010 02:09:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Perdoem-me. Sei que este é um Blog que elogia o bom e o belo. E por isso mesmo, sei que vou cometer uma heresia com a seguinte afirmação.  Os Beatles causam-me urticária.  Cresci, claro está, com a fantástica música que produziram. Em minha casa ouviam-se o Revolver, o Yellow Submarine e essas duas míticas colectâneas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/beatles.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-20275" title="beatles" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/beatles.jpg" alt="" width="500" height="375" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Perdoem-me. Sei que este é um Blog que elogia o bom e o belo. E por isso mesmo, sei que vou cometer uma heresia com a seguinte afirmação.</p>
<p style="text-align: center;"> Os Beatles causam-me urticária.</p>
<p style="text-align: justify;"> Cresci, claro está, com a fantástica música que produziram. Em minha casa ouviam-se o <em>Revolver</em>, o <em>Yellow Submarine</em> e essas duas míticas colectâneas que não conheço por outro nome senão como aquela Azul e aquela Vermelha. Canto de cor praticamente tudo o que escreveram e considero o <em>White Album</em>, ainda hoje, e apesar dos anos, como um dos melhores discos jamais incisos. Reconheço que abriram todas as portas, misturaram todos os estilos e inspiraram todos os que depois deles vieram. Tenho amigos e familiares que desenvolveram complexas patologias de fanatismo após excessiva exposição à sua música. A canção preferida dos meus filhos continua a ser o <em>I am the Walrus</em>, e eu próprio, enquanto escrevo estas linhas, oiço no meu i-pod o <em>I Want You,</em> desse extraordinário disco que é, também, o <em>Abbey Road.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Tenho no entanto de admitir que, para lá da música que fizeram, desenvolvi, ao longo dos anos, uma forte embirração com o mito dos fabfour (é sobretudo este termo que me causa a tal urticária) e com o evangelho segundo John, Paul, George e Ringo que os fanáticos sacerdotes da Beatlemania continuam a usar, ainda hoje, como gospel sagrado. Assim, (em voz baixa, que é para não me baterem na rua), confesso primeiro que embirro solenemente com o Paul e a alegria simplória que o move e o faz abanar a cabeça de um lado para o outro enquanto saúda as fãs com o seu sorriso pacóvio. Logo a seguir, implico também com o George e o seu espiritualismo urbano de periferia, alimentado a baforadas de haxixe e enérgicas massagens yurvédicas. Mas em particular, admito, nutro uma fortíssima alergia ao John Lennon. Alergia às suas caretas, em que piscando os olhinhos para a câmara se faz de engraçadinho. Alergia à cara de enjoo com que ficou quando a fama, que incomodativa que é a fama, lhe bateu à porta. Mas alergia sobretudo à sua fase de rabi apocalíptico, com cabelo e barba até ao umbigo, metido numa cama malcheirosa durante dias a fio, na companhia da não menos aberrante e ainda por cima medíocre, Yoko Ono.</p>
<p style="text-align: justify;"> Ainda aquele que consigo tolerar melhor, apesar da improvável cara de tonto que Deus lhe deu, é o Ringo. Excelente baterista, nunca levou demasiado a sério a sua condição de Beatle e sempre me pareceu aquele que, ao contrário dos outros, foi capaz de se divertir alguma coisa com a fama e o dinheiro que ganhou. Assim, para me redimir destes meus mesquinhos sentimentos e respondendo ao desafio da Joana, (que deixou de ser minha amiga logo no primeiro parágrafo), deixo aqui uma das minhas canções preferidas, composta e cantada pelo Ringo e que por acaso, até parece ter sido escrita a pensar neste blog, aqui escondido debaixo das ondas e onde cantando e dançando sabemos que ninguem nos poderá encontrar.</p>
<p><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/FobvhVgZOCI?fs=1&amp;hl=en_US"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/FobvhVgZOCI?fs=1&amp;hl=en_US" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="385"></embed></object></p>
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		<title>Serendipity musical</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Oct 2010 23:25:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Acontece de vez em quando. Uma vez por ano no máximo. Aparece-nos assim. De repente. Uma canção, uma só. Porque se ouve num filme. Ou na rádio, mudando de estação. Ou porque alguém a ela se refere numa conversa. E ali fica. Na parte detrás da memória, à espera que o momento chegue. E depois, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Acontece de vez em quando. Uma vez por ano no máximo. Aparece-nos assim. De repente. Uma canção, uma só. Porque se ouve num filme. Ou na rádio, mudando de estação. Ou porque alguém a ela se refere numa conversa. E ali fica. Na parte detrás da memória, à espera que o momento chegue. E depois, um dia, é paixão. Que não descola. E o incrível é que esteve sempre ali. À espera que a encontrássemos. É assim a música. Desta vez foi a Karen Dalton. Um espírito Cherokee que me apareceu numa rua de Nova Iorque. Descobri que morreu em 1993, mas juro-vos que estava ali, à minha frente, de banjo na mão. E agora não me deixa ir embora. <br />
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="640" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/er8PVjBB5xM?fs=1&amp;hl=en_US" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="640" height="385" src="http://www.youtube.com/v/er8PVjBB5xM?fs=1&amp;hl=en_US" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object>
</p>
<p style="text-align: center;">Same Old Man — Karen Dalton 1971</p>
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		<title>Mica la troviamo con i santi.…</title>
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		<pubDate>Thu, 07 Oct 2010 14:41:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Roubaram a bicicleta nova ao meu filho. Tínhamo-la comprado no dia anterior, cinzento metalizada, com dezoito mudanças e um elegante selim de pele castanha. Nesse dia, à hora do almoço, perante as lágrimas e o desespero, gostava de o ter levado a uma das muitas Trattorie do nosso bairro, fazê-lo beber um copo de vinho [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a style="text-decoration: none;" href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/una-scena-del-film-ladri-di-biciclette-50780.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-20032" title="una-scena-del-film-ladri-di-biciclette-50780" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/una-scena-del-film-ladri-di-biciclette-50780.jpg" alt="" width="373" height="293" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Roubaram a bicicleta nova ao meu filho. Tínhamo-la comprado no dia anterior, cinzento metalizada, com dezoito mudanças e um elegante selim de pele castanha. Nesse dia, à hora do almoço, perante as lágrimas e o desespero, gostava de o ter levado a uma das muitas <em>Trattorie</em> do nosso bairro, fazê-lo beber um copo de vinho branco, comer uma <em>mozzarella in carrozza</em>, e falar-lhe das agruras da vida e de como um homem que cai ou é feito cair, se levanta sempre, com os olhos no infinito e as costas direitas. Mas os tempos hoje são outros, e não o fiz. O pai moderno que sou, preocupado com os traumas e as sequelas que pudessem ficar, foi a correr comprar-lhe uma igual, cadeado e capacete e tudo. A ilusão era simples. O pai tinha telefonado à polícia. Tinha apertado com eles. Pusera-os na ponta dos pés. E eles tinham-na encontrado! Abandonada no parque! Um verdadeiro milagre!</p>
<p>Afinal, as rezas da mãe deram resultado.</p>
<p>Ou talvez tenham sido os santos, que lá em cima velam por nós.</p>
<p>…</p>
<p>Ao que me obrigam estes <em>maledetti Ladri di Biciclette</em>!</p>
<p>
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/Myo2vOIGvLQ?fs=1&amp;hl=en_US" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/Myo2vOIGvLQ?fs=1&amp;hl=en_US" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object>
</p>
<p style="text-align: center;"><em>Ladri di Biciclette</em> — Vittorio de Sica 1948</p>
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		<title>Short Story de Outubro</title>
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		<pubDate>Sun, 03 Oct 2010 22:10:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Agora que a guerra acabou, nada lhes resta senão a contenção de uma esmagadora e absurda monotonia. O mundo que, por breves momentos, pareceu estar pronto para receber a vontade que tinham de o conquistar, parece ter voltado a fugir para as páginas mortas da vida dos outros. O aborrecimento, esse, fuma-se por isso sem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><br class="spacer_" /></p>
<div id="attachment_19916" class="wp-caption aligncenter" style="width: 468px"><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/herbert_list_31.jpg"><img class="size-full wp-image-19916" title="herbert_list_3" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/herbert_list_31.jpg" alt="" width="458" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">Friends at Lake Starnberger, 1946. ©Herbert List/Magnum.</p></div>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p><span style="font-style: normal;">Agora que a guerra acabou, nada lhes resta senão a contenção de uma esmagadora e absurda monotonia. O mundo que, por breves momentos, pareceu estar pronto para receber a vontade que tinham de o conquistar, parece ter voltado a fugir para as páginas mortas da vida dos outros. O aborrecimento, esse, fuma-se por isso sem pressas, na esperança que talvez a paz se distraia, e que o raio da vida, de uma vez por todas, se digne a começar.</span></p>
<p><span style="font-style: normal;">Aqui vos deixo a imagem que ilustrará as Short Stories de Outubro.</span></p>
<p><span style="font-style: normal;"><br />
</span></p>
<p>PS: Joana, para teu esclarecimento, esta não é uma fotografia de uma campanha publicitária da A&amp;F, <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/so-visto/">essas</a> de que nos confessaste tanto gostar.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Easy Peasy Lemon Squeezy!</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2010/09/easy-peasy-lemon-squeezy/</link>
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		<pubDate>Thu, 30 Sep 2010 15:50:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Éramos pobres, sim. Mas ali por ali, tínhamos encontrado o poço sem fundo. Eles? Quem são eles? Esqueçam-se deles! Não precisamos deles para nada. Sem esforço, sem ideias, sem trabalhar, sem investir, sem aprender nada de novo: chocolate para todos; festas de anos com palhaços; tardes de shopping furiosas, que o mau tempo é lá [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Éramos pobres, sim. Mas ali por ali, tínhamos encontrado o poço sem fundo. Eles? Quem são eles? Esqueçam-se deles! Não precisamos deles para nada. Sem esforço, sem ideias, sem trabalhar, sem investir, sem aprender nada de novo: chocolate para todos; festas de anos com palhaços; tardes de shopping furiosas, que o mau tempo é lá fora. Somos modernos. Sushi, sushi. Fácil, fácil. Easy Peasy, Lemon Squeezy!</p>
<p>Agora o buraco negro comeu-nos e vamos lá ficar dentro um bocado. A emagrecer. Eles são os culpados de tudo? Claro que sim. Foram eles! Esqueceram-se de nós, que estávamos de férias na neve e não demos por nada.</p>
<p>Agora, já de castigo para a cama e sem jantar que é para aprendermos a estar mais atentos nas aulas.</p>
<p>
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		<title>Juke Box 1971</title>
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		<pubDate>Fri, 24 Sep 2010 22:57:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vasco Grilo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Continuo convencido que é no primeiro ano de uma nova década que em termos musicais se produz aquilo que acaba por definir tudo o que mais tarde a caracterizará nesses mesmo termos. Entrar numa loja de discos em finais de 1971, dirigir-se à secção de Novos Lançamentos e constatar que ali, diante dos nossos olhos, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Continuo convencido que é no primeiro ano de uma nova década que em termos musicais se produz aquilo que acaba por definir tudo o que mais tarde a caracterizará nesses mesmo termos. Entrar numa loja de discos em finais de 1971, dirigir-se à secção de Novos Lançamentos e constatar que ali, diante dos nossos olhos, estava praticamente tudo o que seria necessário levar para uma ilha deserta durante os dez anos seguintes, foi com certeza, para quem o fez, a confirmação dessa mesma teoria.</p>
<p style="text-align: justify;">Senão, vejamos. Nesse ano saíram :</p>
<p style="text-align: center;">Aqualung – Jethro Tull</p>
<p style="text-align: center;">There’s a Riot Going On – Sly and the Family Stone</p>
<p style="text-align: center;">What’s Going On – Marvin Gaye</p>
<p style="text-align: center;">The Yes Album – Yes</p>
<p style="text-align: center;">Who’s Next – The Who</p>
<p style="text-align: center;">Tapestry – Carole King</p>
<p style="text-align: center;">Sticky Fingers – The Rolling Stones</p>
<p style="text-align: center;">Imagine – John Lennon</p>
<p style="text-align: center;">Surf’s Up – The Beach Boys</p>
<p style="text-align: center;">L.A. Woman – The Doors</p>
<p style="text-align: center;">Tago Mago – Can</p>
<p style="text-align: center;">IV – Led Zeppelin</p>
<p style="text-align: center;">Histoire de Melody Nelson – Serge Gainsbourg</p>
<p style="text-align: center;">Songs of Love and Hate – Leonard Cohen</p>
<p style="text-align: center;">Blue – Joni Mitchell</p>
<p style="text-align: center;">Pearl – Janis Joplin</p>
<p style="text-align: center;">Hunky Dory – David Bowie</p>
<p style="text-align: justify;">Para não ser exaustivo e não transformar este blog numa Juke Box, deixo aqui em baixo apenas cinco amostras desta minha lista. Ficam assim os leitores respectivamente com o melaço denso do Marvin Gaye, o vanguardismo afetamínico do Bowie, a cadência hipnótica (a melhor <em>road song </em>jamais escrita) dos Doors, o experimentalismo alucinado dos Can e a sordidez requintada do Gainsbourg.</p>
<p style="text-align: justify;">PS: Não é obviamente permitido e muito menos legal, ver o clip do Gainsbourg mais de três vezes na mesma noite.</p>
<p><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/Y9KC7uhMY9s?fs=1&amp;hl=it_IT"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/Y9KC7uhMY9s?fs=1&amp;hl=it_IT" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="385"></embed></object></p>
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<p><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/uMVnEGcMsFs?fs=1&amp;hl=it_IT"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/uMVnEGcMsFs?fs=1&amp;hl=it_IT" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="385"></embed></object></p>
<p><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/uBVdqjPEZqs?fs=1&amp;hl=it_IT"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/uBVdqjPEZqs?fs=1&amp;hl=it_IT" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="385"></embed></object></p>
<p><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/w9AsQ7vxpL0?fs=1&amp;hl=it_IT"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/w9AsQ7vxpL0?fs=1&amp;hl=it_IT" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="385"></embed></object></p>
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