
Feeling Dizzy at the Uffizi?
Faz este mês um ano, que se deu no Museu do Louvre em Paris um dos mais malévolos ataques a uma obra de arte jamais registados na história daquele museu. O ataque foi perpetrado por uma senhora de nacionalidade Russa que sem razão aparente que o justificasse, atirou, por cima da cabeça de um estarrecido grupo de turistas, uma chávena de porcelana, (comprada minutos antes na loja do museu) ao gentilíssimo sorriso da Mona Lisa. À parte de um grande susto e uns quantos cacos por terra, o ataque não resultou em nada de grave e a dita Gioconda continuou a sorrir, enclausurada como está numa caixa de vidro anti-humidade, anti-choque, anti-vibrações e claro está anti-chávenas-de-museu. No entanto, tudo isto não passaria de um gratuito acto de vandalismo senão pelo curioso facto de a tal senhora Russa ter sido imediatamente conduzida a um hospital e, sob observação médica especializada, lhe ter sido diagnosticado um mal muitíssimo raro, o muito eclético e ilustre, Síndrome de Stendhal.
Este Síndrome, identificado nos anos 70 pela psiquiatra Gabriella Magherini depois de um longo estudo e da observação diligente de centenas de turistas afectados por tonturas e desmaios após terem passado várias horas no museu Uffizi em Florença, veio a ser diagnosticado pela primeira vez e oficialmente em 1982. O síndrome, também conhecido como Síndrome de Florença ou ainda melhor, como Hyperkulturemia, é assim definido como uma doença do foro psico-somático, que se revela através de tonturas, aceleramentos cardíacos, confusão e alucinações, verificadas em indivíduos sujeitos a uma sobre exposição a obras de pintura e escultura e outros objectos de grande beleza artística em geral. Os casos mais extremos, que normalmente ocorrem em espaços fechados, podem resultar em fortes ataques de histeria ou em verdadeiros ataques às próprias obras de arte tal como ocorreu com a senhora Russa e a sua inocente chávena de chá.
É curioso como se pode hoje constatar que, ao longo dos séculos, episódios da manifestação deste Síndrome se encontram descritos em diversas obras de literatura. A mais famosa descrição do fenómeno, e daí o nome atribuído a esta curiosa condição, encontra-se num diário de viagens, Naples and Florence: A Journey from Milan to Reggio, escrito por Stendhal (de seu nome Henri-Marie Beyle), durante uma sua visita à Basilica della Santa Croce em Florença. Neste texto, o autor descreve assim o fenómeno:
« J’étais arrivé à ce point d’émotion où se rencontrent les sensations célestes données par les Beaux Arts et les sentiments passionnés. En sortant de Santa Croce, j’avais un battement de cœur, la vie était épuisée chez moi, je marchais avec la crainte de tomber. »
Pelo que se sabe hoje, Stendhal consegui sair da igreja, ter-se-á sentado a ler um poema (terá procurado um mau poema, imagino) e terá com isso recuperado os sentidos, evitando assim um possível ataque da sua parte a uma das muitas e magníficas obras de arte que embelezam a Basílica.
Talvez, mas só talvez, este curioso síndrome possa assim justificar alguns dos mais famosos ataques realizados contra o património artístico da humanidade.
Aquele de Lazlo Toth, que atacou a “Pietá” do Miguel Ângelo com um martelo em 1972,

“Deixem-me em paz! O meu nome é Jesus Cristo!”
ou o do turista que, em 1959, atirou ácido ao “Fall of the Rebel Angels ” de Rubens. Ou o daquele pintor falhado que esmagou os dedos dos pés do David em 1991 também com um martelo ou o de Mary Richardson, uma suffragette Inglesa que em 1914 entrou na National Gallery em Londres e esfaqueou com um cutelo do talho, a tela “La Venus del Espejo” do Velazquez.

Um arrepio na espinha da “Venus do Espelho” — Diego Velazquez 1651
E talvez, mas só talvez, se justifiquem ainda a série de ataques a um dos mais famosos quadros de todos os tempos. O “Nigh Watch” de Rembrandt. Esta gigantesca tela (confirma-se agora — de uma beleza de ensandecer), foi sujeita a um ataque à faca em 1911 por parte de um marinheiro desempregado, um outro em 1975 por parte de Wilhelmus de Rijk, um gigantesco professor primário Holandês que a atacou também à faca (desta vez desferindo-lhe mais de doze facadas e remetendo o quadro para um longo período de restauro) e por fim em 1990 em que um Alemão a pulverizou com ácido, tendo a pintura sido salva pela pronta intervenção dos guardas do Rijksmuseum que com água conseguiram neutralizar o efeito corrosivo do mesmo.
Sob risco de vos infligir o dito Síndrome e de com isso vos fazer atacar selvaticamente o vosso pobre monitor com uma esferográfica, aqui deixo em baixo a prova do poder do “Night Watch”, pelas mãos desse grande maestro que é o Peter Greenaway.
Enjoy the madness!
Nightwatching — Peter Greenaway, 2006