Não se faz!

Pois é. Por inspiração malvada do Manuel S. Fonseca e do seu cúmplice Pedro Norton, mergulhei inocente e inadvertidamente no mundo genial, no doubt, mas um tudo nada porno-antropofágico, do senhor Jean-Christophe Grangé. Esta última semana, e repito, por culpa dos senhores acima citados, tenho-a assim passado completamente aterrado, sonhando com falsos autistas comedores de vaginas, sádicos desmembramentos de bonitas parisienses, requintadas extracções de sebo humano e líquido amniótico e outros pesadelos afins. No entanto, tenho de admitir, é da melhor literatura que tenho ingerido nos últimos anos no under-rated campo dos romances amarelos (desculpem-me a coloração mas os italianos chamam Gialli aos romances policiais e eu gosto de lhes seguir algumas tendências). E lá no fundo até é tema que fica bem nas exangues páginas deste blogue. 

Mas lá que faria Simenon abanar a cabeça e pronunciar um reprovador tsk tsk tsk, lá isso faria.

Recomendo. Vão lá e leiam, se tiverem coragem. Por agora, fiquem a sós com a morte. Pura e dura, e que por vezes, como aqui em baixo, é verdadeiramente bela de se ver. 

Les Rivieres Pourpres, 2000 — Mathieu Kassovitz de um original de J.C. Grangé 

Breaking Bounds

Ligeiro como uma pluma retiro-me a banhos.

Enterro-me de novo e por uma noite apenas, no dia 19, num cemitério de Lisboa ainda por definir.

Será uma verdadeira noite de mortos-vivos.

Beware.

Até já.

Breaking Bounds — Lois Greenfield 1982

Breaking Bounds — Lois Greenfield 1982

Breaking Bounds — Lois Greenfield 1982

Breaking Bounds — Lois Greenfield 1982

Viggo E.Q.

Viggo feeling good!

Viggo in Mordor

Viggo in Hell

Viggo arrestedViggo arrested in Malanje having Nescafé and Scotch

Hyperkulturemia

Feeling Dizzy at the Uffizi?

Faz este mês um ano, que se deu no Museu do Louvre em Paris um dos mais malévolos ataques a uma obra de arte jamais registados na história daquele museu. O ataque foi perpetrado por uma senhora de nacionalidade Russa que sem razão aparente que o justificasse, atirou, por cima da cabeça de um estarrecido grupo de turistas, uma chávena de porcelana, (comprada minutos antes na loja do museu) ao gentilíssimo sorriso da Mona Lisa. À parte de um grande susto e uns quantos cacos por terra, o ataque não resultou em nada de grave e a dita Gioconda continuou a sorrir, enclausurada como está numa caixa de vidro anti-humidade, anti-choque, anti-vibrações e claro está anti-chávenas-de-museu. No entanto, tudo isto não passaria de um gratuito acto de vandalismo senão pelo curioso facto de a tal senhora Russa ter sido imediatamente conduzida a um hospital e, sob observação médica especializada, lhe ter sido diagnosticado um mal muitíssimo raro, o muito eclético e ilustre, Síndrome de Stendhal.

Este Síndrome, identificado nos anos 70 pela psiquiatra Gabriella Magherini depois de um longo estudo e da observação diligente de centenas de turistas afectados por tonturas e desmaios após terem passado várias horas no museu Uffizi em Florença, veio a ser diagnosticado pela primeira vez e oficialmente em 1982. O síndrome, também conhecido como Síndrome de Florença ou ainda melhor, como Hyperkulturemia, é assim definido como uma doença do foro psico-somático, que se revela através de tonturas, aceleramentos cardíacos, confusão e alucinações, verificadas em indivíduos sujeitos a uma sobre exposição a obras de pintura e escultura e outros objectos de grande beleza artística em geral. Os casos mais extremos, que normalmente ocorrem em espaços fechados, podem resultar em fortes ataques de histeria ou em verdadeiros ataques às próprias obras de arte tal como ocorreu com a senhora Russa e a sua inocente chávena de chá.

É curioso como se pode hoje constatar que, ao longo dos séculos, episódios da manifestação deste Síndrome se encontram descritos em diversas obras de literatura. A mais famosa descrição do fenómeno, e daí o nome atribuído a esta curiosa condição, encontra-se num diário de viagens, Naples and Florence: A Journey from Milan to Reggio, escrito por Stendhal (de seu nome Henri-Marie Beyle), durante uma sua visita à Basilica della Santa Croce em Florença. Neste texto, o autor descreve assim o fenómeno:  

« J’étais arrivé à ce point d’émotion où se rencontrent les sensations célestes données par les Beaux Arts et les sentiments passionnés. En sortant de Santa Croce, j’avais un battement de cœur, la vie était épuisée chez moi, je marchais avec la crainte de tomber. »

Pelo que se sabe hoje, Stendhal consegui sair da igreja, ter-se-á sentado a ler um poema (terá procurado um mau poema, imagino) e terá com isso recuperado os sentidos, evitando assim um possível ataque da sua parte a uma das muitas e magníficas obras de arte que embelezam a Basílica.

 Talvez, mas só talvez, este curioso síndrome possa assim justificar alguns dos mais famosos ataques realizados contra o património artístico da humanidade.

Aquele de Lazlo Toth, que atacou a “Pietá” do Miguel Ângelo com um martelo em 1972,

“Deixem-me em paz! O meu nome é Jesus Cristo!”

ou o do turista que, em 1959, atirou ácido ao “Fall of the Rebel Angels ” de Rubens. Ou o daquele pintor falhado que esmagou os dedos dos pés do David em 1991 também com um martelo ou o de Mary Richardson, uma suffragette Inglesa que em 1914 entrou na National Gallery em Londres e esfaqueou com um cutelo do talho, a tela “La Venus del Espejo” do Velazquez.

Um arrepio na espinha da “Venus do Espelho” — Diego Velazquez 1651

E talvez, mas só talvez, se justifiquem ainda a série de ataques a um dos mais famosos quadros de todos os tempos. O “Nigh Watch” de Rembrandt. Esta gigantesca tela (confirma-se agora — de uma beleza de ensandecer), foi sujeita a um ataque à faca em 1911 por parte de um marinheiro desempregado, um outro em 1975 por parte de Wilhelmus de Rijk, um gigantesco professor primário Holandês que a atacou também à faca (desta vez desferindo-lhe mais de doze facadas e remetendo o quadro para um longo período de restauro) e por fim em 1990 em que um Alemão a pulverizou com ácido, tendo a pintura sido salva pela pronta intervenção dos guardas do Rijksmuseum que com água conseguiram neutralizar o efeito corrosivo do mesmo.

Sob risco de vos infligir o dito Síndrome e de com isso vos fazer atacar selvaticamente o vosso pobre monitor com uma esferográfica, aqui deixo em baixo a prova do poder do “Night Watch”, pelas mãos desse grande maestro que é o Peter Greenaway.

Enjoy the madness!

Nightwatching — Peter Greenaway, 2006

Coney Island, NY #3

E se achar que a praia este ano está horrível, que aquela família que se instalou ali ao seu lado na areia é rasca e barulhenta,  e que a água está fria e suja e não se pode tomar banho, pense sempre que há pior. Muito pior.

Coney Island, algures na primeira metade do Séc. XX


Coney Island, NY #2

Untitled — Matilde Damele, 2000

Cyclone — Bethany Obrecht, 2005

Sailors — Todd Boebel,1999

No leaning/Game Concession — Hazel Hankin, 1977


Short, short way to Paris

Quando, silenciosamente, Carlos da Maia entrou no camarote, percebeu que não lhe seria possível resistir. Pé ante pé, aproximou-se por detrás, e com um cú-cú sussurrado à orelha, espetou-lhe os dois indicadores nos lombos, ali por cima da terceira costela, mesmo por debaixo da costura do espartilho. A Srª Dona Castro Moniz, naturalmente, largou um grito, e largou também o binóculo, que se foi quebrar lá em baixo e em mil bocados, no cocuruto da cabeça adormecida do Sr. Martins, o importador de bacalhau, que gostava muito de música mas que nunca resistia até ao final do segundo acto. A partir daí, foi uma barafunda. O espectáculo teve que ser interrompido para poderem fazer sair em braços e pela porta principal em direcção à sua caleche, o dito Sr. Martins. A Srª Dona Castro Moniz aproveitou a confusão gerada para se retirar pelas traseiras. Ia visivelmente aborrecida e envergonhada. Carlos, esse, ali sentado e olhando o leque abandonado sobre o espesso tapete encarnado que revestia o camarote, decidiu, em toda a sua nonchalance, que era hora de fazer uma viagem a Paris. Ainda por cima a saison estava a acabar e nunca a sua cidade lhe tinha parecido tão enfadonha e provincial como agora. Tomado pela ligeireza de uma decisão bem tomada, Carlos levantou-se. Pegou no chapéu e na bengala, meteu o leque no bolso (mandá-lo-ia já de Paris à Srª Dona Castro Moniz com o devido pedido de desculpas) e por entre uma multidão exaltada pelos acontecimentos da noite, desceu as escadarias do São Carlos assobiando a Marselhesa baixinho.

Coney Island, NY

No passado dia 17 de Julho, estando em Nova Iorque, decidi meter-me num comboio da linha D, atravessar Manhattan para o lado de Brooklyn, e ir procurar a amiga do amigo do Diogo para Coney Island. Aqui, local para onde durante os últimos cem anos se dirigiram, e dirigem, hordas de ”we the people”, vindas dos mais sufocante boros de Nova Iorque em busca de praia, ar fresco, e um pouco de roller coaster entertainement, disputava-se nesse dia o SIREN, um tradicional festival de música Indie, patrocinado pelo jornal  The Village Voice e em que bandas underground da East Coast se exibem todos os anos para mostrarem o que de mais novo e menos comercial por essa mesma costa se faz.

Ao contrário do que aconteceu com o Diogo, (já te disse Diogo, que continuo a roer-me de inveja pelo concerto dos Roxy Music?) não me foram servidos pratos nostálgicos de grande música de outros tempos. Pelo contrário. Os músicos de bandas com nomes como The Screaming Females, Surfer Blood, Apache Beat, Holy Fuck ou Cymbals Eat Guitars, são crianças nascidas no início dos anos 90 sem terem sequer ainda idade para serem alunos da nossa Joana Vasconcelos. Confesso que alguns deles, em palco, explanaram conceitos musicais que só em parte consigo compreender. Mas como todas as novas gerações de Rock n´Rollers (it´s just Rock n´Roll after all) que se vão alternando na construção da história do mesmo, eles saltaram e berraram e aceleraram e travaram o tempo e o som e o espaço o melhor que puderam e souberam. E com eles saltou e berrou e dançou, toda uma gigantesca tribo heterogénea composta por teenagers suados, velhos hippies fumados, miúdas tatuadas e muitos quarentões (como eu) bastante acalorados. Gostei muito. Gostei sobretudo da guitarra eléctrica (e electrizante) dessa verdadeira teenage girl guitar messiah que é a Marissa Paternoster, (vocalista e guitarrista dos Screaming Females) e gostei também, e muito, das complexas e ricas texturas musicais de uns muito imberbes mas igualmente promissores, Cymbals Eat Guitars.

Durante a tarde, fui bebendo sucessivas latas de uma bebida energética de cor azul turquesa, distribuídas gratuitamente por umas gentilíssimas patrocinadoras de mini saia, e no fim, rendido e comovido, comi, de dentro de um barquinho de papel pardo e com um curioso garfinho de cartão, uns deliciosos filetes de peixe frito que teriam feito o José Navarro de Andrade lamber com volúpia os seus bigodes de gato.

Foi uma tarde bem passada.

PS1: Não tive obviamente grande sucesso com o objectivo primeiro da minha excursão a Coney Island. Vi e conheci muitas meninas de origem asiática correspondendo à descrição que me tinha sido dada, mas nenhuma tinha estado na semana anterior em Lisboa no festival da Optimus. Fiquei no entanto com vários números de telefone que darei ao Diogo já da próxima vez que nos encontrarmos.   

PS2: Deixo aqui em baixo alguma da música que ali ouvi, mas faço já um aviso. O segundo clip dos Screaming Females é profundamente indigesto. Artístico, muito Pop Art e lailailaiaiai, mas muito indigesto. Depois não digam que não avisei.

“Girlfriend” — Screaming Females

“And the hazy sea” — Cymbals Eat Guitars

My Kasterlee lads

Kasterlee War Cemetery — Belgium

Descobri-o à uns anos atrás numa tarde soalheira, enquanto corria através das bucólicas paisagens primaveris do Norte da Bélgica, nos arredores da pequena cidade de Kasterlee. Estão lá em repouso 100 soldados escoceses dos regimentos do The Royal Scots, do The King’s Own Scottish Borderers e do The Royal Scots Fusiliers. Era quase tudo rapaziada com menos de 20 anos e que aqui perdeu a vida em Setembro de 1944, durante a travessia do canal de Meuse-Escaut. A operação militar em que participavam, — um gigantesco ataque aéreo pára-quedista americano, desenhado para conquistar os países baixos em 48 horas e abrir caminho às tropas aliadas para acabar com a guerra numa questão de semanas– viria a revelar-se como o maior fiasco dos aliados após o sucesso inicial da operação Overlord e do desembarque nas praias da Normandia. A esta chamaram-lhe operação Market Garden e dela resta só mesmo este lindíssimo e luminoso garden, onde por vezes, depois de um dia no escritório, venho acabar os meus footings, esticando os músculos estendido na sua erva verde e bebendo a água que, de uma fonte plantada no meio do cemitério, faz viver cristalina, a força e a coragem daqueles jovens soldados que ali deixaram por nós, as suas vidas. Este é mesmo o meu cemitério preferido e se pudesse e o merecesse, viria para aqui um dia fazer companhia a estes lads, e ouvir para a eternidade, no meio de gargalhadas e canecas de Scotch, as suas histórias de guerra e amizade, de amor e de morte. 

Chris Mburu-Back

No início dos anos 70, Hilde, uma jovem professora primária de origem judia, nascida na Alemanha e refugiada na Suécia, decide participar num programa internacional patrocinado pelo governo Sueco. O programa, tem como objectivo ajudar crianças de comunidades rurais no Quénia que necessitam de ajuda económica para prosseguirem os seus estudos secundários. Uma vez integrada no programa, e até aos dias de hoje, Hilde contribui do seu bolso a quantia de 15 dólares por mês. Não é rica mas através de uma atenta economia caseira, nunca falha um pagamento.

Hilde Back

No final dos anos 70, Chris Mburu, uma criança de uma miserável aldeia no Quénia, começa a receber ajuda financeira de um distante e rico sponsor residente na Suécia, e com isso, prossegue determinado os seus estudos através do sistema educativo Queniano, até vir a ser admitido no curso de direito da Universidade de Nairobi e por fim num curso de pós-graduação em Harvard. Na sua determinação e vontade de mudar o estado em que o seu continente de origem se encontra, candidata-se a uma posição na Organização das Nações Unidas e uma vez aceite, dedica toda a sua carreira e energia na defesa dos direitos do homem e no combate ao genocídio, fenómeno que por uma sinistra coincidência, durante os anos 40, tinha destruído a família daquela que Chris sabe agora ser a sua generosa protectora.

Chris Mburu

 Em 2001, Chris criou um fundo que nasce do seu desejo de retribuir de alguma forma a generosidade que lhe permitiu ser o que é hoje. O fundo chama-se Hilde Back Education Fund e todos os anos ajuda dezenas de famílias a pagar os estudos de crianças que, tendo revelado enormes aptidões intelectuais, não podem dedicar-se em pleno aos estudos e à sua própria educação, devido à falta de meios económicos. Quando o criou, fê-lo de forma altruísta e em honra de uma pessoa que nunca tinha visto e de quem conhecia apenas o nome. Nos anos que se seguiram, procurou e encontrou uma muito estupefacta e octogenária Hilda, de quem se tornou grande amigo e, de alguma forma, o filho que esta nunca teve.

Soa um bocadinho a romance de faca e alguidar? Sim. E é por isso mesmo que é fantástico. Desta maravilhosa história foi feito o documentário de que deixo o trailer aqui em baixo e que acabou seleccionado este ano pelo Sundance Festival.

“A Small Act” — Jennifer Arnold, 2010

PS: Estas coisas não se dizem, mas o meu irremediável orgulho impede-me a contenção. Nos últimos anos, tornei-me, num contributing angel da UNHCR. Contribuo com uma (demasiado pequena) doação mensal, trago no pulso uma daquelas ridículas pulseiras de plástico azuis e quando vejo os voluntários da UNHCR na televisão, a distribuir comida e mantimentos a crianças refugiadas, penso que de alguma forma também lá estou. Fico-me por aqui. Podem guardar a faca e o alguidar.

Dentata

Como sempre a culpa não é minha. É dos outros.

LeBon à la guillotine!

Nos anos 80, enquanto as minhas primas mais velhas (e as suas amigas — algumas delas que por acaso também por aqui andam — e aqui arrisco) se deleitavam com a voz inconsequente do foleirão do Simon Le Bon e com a música já um pouco plastificada dos Fleetwood Mac do “Mirage” e dos Roxy Music do “Avalon”, eu e os meus primos, tentando demonstrar-lhes o nosso desdém mais profundo, explorávamos o que para nós era o máximo daquilo que definíamos como exemplos de música verdadeiramente de vanguarda. Os Smiths eram bons mas um bocadinho comerciais. Os Bauhaus, uma anedota gótica. Os U2 demasiado rockeiros. O que era muita bom mesmo, era isto:

Laurie Anderson — Big Science

E isto:

Robert Fripp & The League of Gentleman

E coisas mais antigas como isto:

Brian Eno — Here come the warm jets

Obviamente que de música sabíamos muito pouco e hoje, pensando bem, aquela que desses anos 80 me ficou mesmo como uma doce recordação é toda uma outra. Na festa de 40 anos de uma amiga no outro dia, numa bonita villa ali para os lados de Corso Vercelli em Milão, acabei aos saltos no meio de outros quarentões e quarentonas, a dançar ao som disto:

The Police — Regatta de blanc

e disto,

 

Joe Jackson — I’m the man!

Aconselho. Foi uma experiência muitíssimo revigorante.

O vira-bosta

Afinal, o escaravelho que rebola bolas de excremento pela savana africana e de quem aqui falei, (a Wikipedia chama-lhe rola-bosta ou vira-bosta) é um cidadão planetário absolutamente exemplar e ainda por cima era adorado pelos antigos Egípcios como um verdadeiro deus. Sinto-me agora  muito melhor. Suspeito que este tema de natureza algo escatológica me foi sugerido por este post do PN. Já não é a primeira vez, aliás, que nos dedicamos a temas desta natureza.

Desvio

Vi-os uma vez num velho teatro de Berlim. O projecto na sua origem nasce da enorme inspiração criativa do seu fundador, Lloyd Newson, um bailarino, coreógrafo e artista de origem australiana que vive e trabalha em Londres. Chamam-se DV8 Physical Theatre e a enorme criatividade demonstrada no trabalho que têm desenvolvido ao longo dos anos, resulta de uma muito segura utilização de múltiplos estilos e meios de expressão. Os dois excertos em filme aqui em baixo são um bom exemplo disso.

The Cost of Living — 2004

Dead dreams of monochrome men — 1990

Meet you at the rooftop

Mudar de casa nunca é fácil. Sobretudo se debaixo de 37 graus centígrados, numa cidade húmida e sem uma ponta de vento. Foram duas semanas passadas numa casa desconhecida, sem ter uma verdadeira cama, sem frigorífico, sem livros, sem roupa e sem ar condicionado, movendo caixas de um lado para o outro, sentindo-me como um daqueles escaravelhos africanos que empurram bolinhas de excremento sobre o solo duro da savana, sem qualquer lógica aparente e sem nunca concluir o que quer que seja. E o pior de tudo foi fazer tudo isto sem ter uma redezinha em casa onde ligar o meu portátil. Agora o pior já passou e posso finalmente regressar a este acolhedor cemitério e às lides da gente morta. De qualquer maneira abandono de imediato o novo lar, deixando o resto da família a abrir as últimas caixas, partindo, antes que comecem as férias, para um derradeiro périplo até à ilha de Manhattan.

A soar-me nos ouvidos, levo esta canção.

Lovin’Spoonful — Summer in the city — 1966

Get in trouble with Saul Bellow

O Diogo já aqui falou dele. Por aqui discutem-se os gostos gastronómicos do outro.

Por aqui, em alternativa, podem deliciar-se com uma melancólica mas muito inspirada composição, em que o primeiro canta o segundo.

Saul Bellow — Sufjan Stevens

What’s the worth of
All the work of my hands?
And the worst of
On Lake Michigan

Get in solid walls 
With the know-it-alls
Get in trouble with Saul Bellow

And my good friends
With their eyes on what it takes
I could kiss them
But the bravest make mistakes

Get in solid walls
With the know-it-alls
Get in trouble with Saul Bellow

Get in solid walls
And with what it calls
Get in trouble with Saul Bellow

Uma short short com bibelot

Há muito que ninguém a tocava. Há mais de um ano, pensou. Há mais de um ano que vivia na mais completa solidão. Sentia que a sua existência não importava a quem quer que fosse. Estava ali, abandonada, como uma vulgar peça de mobiliário ou um bibelot de enfeite industrial. E pensando bem, sentia-se ainda jovem, fresca, cheia de coisas para dizer e emoções para viver e transmitir aos outros. Sentia uma desesperada saudade de contacto humano. Nos velhos tempos do escritório, quando ainda estava na luminosa sala grande, ao lado do escritório do patrão, trabalhava lado a lado com uma grande equipa. Os dias eram vivazes e alegres, e o seu trabalho mantinha-a no centro da atenção de todos. Mas a verdade é que desde que o Sr. João e os outros tinham sido despedidos e a tinham mandado para aquela sala, nunca mais ninguém se dignara a olhar para ela. Sobretudo aquele simplório do Sr. Mateus, que ali sentado só tinha olhos para os seus relatórios da produção e para aquela flauzina da menina Augusta, que ali ao lado, no escritório da contabilidade se senta em frente de uma daquelas coisas novas, cheia de fios entrelaçados e uma pantalha toda cheia de colorido.

Era mesmo difícil estar ali, a envelhecer, sabendo-se ser a última de uma ilustre linhagem de máquinas de escrever.

Blood on the walls of ETGM

Como o JNA está a dar música a quem hoje à noite por aqui passou, aproveito para dar alguma a quem por aqui ainda anda.

O critério de escolha é puramente estético. Pura conjugação cromática com os tons por vezes mais sangrentos deste blog.

Wolf like meTV on the radio

The hardest button to button — The White Stripes

Pássaros raros

Herbert Vogel foi durante toda a sua vida um modesto funcionário do United States Postal Service. Dorothy Vogel, a sua mulher, uma dedicada bibliotecária da Brooklyn Public Library. O vencimento dela, serviu-lhes, ao longo dos anos, para pagarem as despesas de uma existência que se pode descrever, no mínimo, como bastante modesta. O dele, por outro lado, usaram-no para financiar a criação de uma das mais completas e complexas colecções de arte contemporânea e minimalista que algum privado jamais coleccionou nos Estados Unidos ou na Europa. Uma parte da colecção, encontra-se hoje na National Gallery of Art em Washington e uma outra em permanente movimento à volta do mundo. Os exemplares mais interessantes da colecção, no entanto, penso que se encontram ainda no pequeno apartamento que o casal possui em Brooklyn, enfiados debaixo da sua cama de uma vida, encostados ao aquário das tartarugas na bancada da cozinha, ou pendurados por cima do autoclismo, na parede da casa de banho.

Ladies and Gentlemen, please meet, art lovers and collectors, The Vogels!

Herb & Dorothy — a film by Megumi Sasaki 2009

Plover eggs and champagne, anyone?

Com a naturalidade que só um upbringing católico e aristocrático lhe poderia dar, Sebastian convidou Charles para um almoço nos seus modestos aposentos universitários. Conheceram-se ontem à noite quando Sebastian, chegado ao college com uns amigos depois de mais uma noite de pândega, lhe deixou, através da janela e no meio do chão da sala, o conteúdo do seu jantar. Ainda não será hoje que Charles entrará definitivamente no exclusivo mundo de Sebastian e de Aloysius, o seu pequeno urso de peluche. Mas será durante este requintado almoço que Charles, pela primeira vez, se dará ao doce privilégio de mordiscar ovinhos de borrelho regados a champagne, e em que terá o exquisite pleasure de conhecer o delicioso e frolicky, Anthony Blanche. Um homem de mundo que só sabe beber Brandy Alexander´s aos pares e que nunca deixa em mãos alheias a escolha da cor do seu verniz para as unhas (dos pés).