Newark carioca

Aqui sentado, neste asséptico e impessoal lounge de aeroporto, bebo sozinho.

Ao longe, por entre o frio, o skyline iluminado de Newark.

Aqui sentado dizia, vou-me aquecendo como posso.

Il secondo saggio

O fim-de-semana passado comprei um piano. Não é de cauda, mas é um piano. Verdadeiro, preto, enorme. Carreguei-o às costas até ao primeiro andar, comprido e pesado. Nessa tarde tocámos juntos. Canções simples e divertidas. Rãs que remam, ursos que saltam, toupeiras que dançam. Tocamos com a língua entre os dentes e os dedos hirtos. Mas tocamos. E rimos. E quando nessa noite fomos todos dormir, o piano lá ficou, no escuro, recheado de notas, a olhar em redor a sua nova morada.

PS: Lembrei-me agora deste texto que escrevi, noutros tempos e noutras paragens.       

Gula ou Volúpia?
George IV, A VOLUPTUARY under the horrors of Digestion– by James Gillray 1792

Já aqui todos (e mais alguns) deixámos os nossos pecados. Não resisto porém à minha gula. Gula essa que aqui em cima deixo e que encontrei numa parede de uma biblioteca da Madison Avenue. Andava por lá num sábado soalheiro, à procura, com o olhar, da silhueta de um velho amigo nosso.

Numa parede de plasma também lá encontrei isto:

The Divine Jane: Reflections on Austen from The Morgan Library & Museum on Vimeo.

A Arte do Possível

Benjamin Zander — Maestro

Aqui têm, mais um maestro judeu de fortes tendências iluministas. Já o tinha feito uma vez aqui e tinha prometido que não o faria de novo. No entanto, veio-me visitar, e por isso não resisto a trazê-lo aqui, ao nosso cemitério. Encontrava-me reunido com mais uma centena de pessoas num hotel de Princeton, à conversa sobre como curar a Sida, o Alzheimer e a TB. Objectivos grandiosos, que tornam necessária a prática da arte do possível. Zander ali esteve conosco, duas horas, nos seus 78 anos, irradiando energia, humor e imaginação.

No final, não o consegui apanhar, e não lhe consegui apertar a mão. Queria ter-lhe perguntado o que pensava sobre isto.

Appalling! — teria certamente respondido, com um sorriso de inúmeras possibilidades.

 

PS: Para os que nunca lêm self-help business books, este pode ser o primeiro que vale a pena.

A piscina de Jorge (.…) Borges

Li isto,

e lembrei-me disto.

Slow-Mo photography, I guess.

Tem lá dentro espelhos, reflexos e sombras.

Tem também gente prisioneira do tempo e se resistirem até ao fim,

um senhor completamente nu.

Bill Viola’s The Reflecting Pool, 1977–1979

Banda sonora para um querido morto

A culpa é da Eugénia que abriu aqui em baixo a boceta de Nico, perdão, de Pandora.

“Jesus” — The Velvet Underground — The Velvet Underground 1969

A Alma de NINI

Habitantes de NY reunem-se ao fim do dia para observar o fenómeno da aparição da alma de Nini, uma Portuguesa que por lá a perdeu.

De chapéu de coco no planeta B 612

01 — Henry Purcell — Title Music From A Clockwork Orange

Got Moloko?

Começo por dizer que não gosto de bater em velhinhos debaixo de pontes ou de praticar violência carnal com as mulheres dos outros (nem com a minha, naturalmente). Como sabemos, estes são divertimentos muito do agrado do nosso old brother Alex aqui em cima. No entanto, Alex é um dos meus vilões preferidos*. Não pelo seu apetite pela ultra-violência contra tudo e todos, ou pela sua falta de lealdade para com os seus, mas sim porque eu próprio, por vezes, gostava de poder chegar a casa ao fim do dia, e em frente ao espelho, vestir um fato de macaco branco, pôr uns suspensórios, um chapéu de coco, uma pestana postiça no olho direito e umas Doc martens de ponta cardada, e depois de beber um copázio de old knifey moloko, ir de bastão na mão, para a rua, abrir umas cabeças. Que cabeças perguntar-me-ão? Simples. As dos estúpidos e dos maus, dos que batem nas crianças e nos põem bombas nas pizzerias. Dos que roubam as coisas dos outros e dos que abatem arvores sem plantarem uma flor que seja. Dos que poluem, estragam e mentem. Dos que gostam da guerra e ficam sempre com tudo. Essas e mais umas outras. Não é bem o meu lado vilão. É mais o meu lado que sonha com um full-time job de vigilante mascarado.

Faria tudo isto ao som de Purcell, pelas mãos do(a) intrigante Walter (Wendy?) Carlos, claro está e que espero estejam já a ouvir.

E o meu herói?

Este.

Sentado no meu outro ombro.

E que me impede de me tornar crescido demais.

Chama-se Lucas e não tem o meu segundo nome. Tem o último.

Il ramona donc également le volcan éteint. S’ils sont bien ramonés, les volcans brûlent doucement et régulièrement, sans éruptions. Les éruptions volcaniques sont comme des feux de cheminée. Évidemment sur notre terre nous sommes beaucoup trop petits pour ramoner nos volcans. C’est pourquoi ils nous causent des tas d’ennuis.

* Não posso deixar passar a oportunidade de me referir ao meu segundo vilão preferido. É danado, resiliente, eloquente, belo e sagaz. My type of guy……

Olrik — EPJ

PS: Só me resta passar a mão a um outro amigo de Alex (não aquele lá de cima, mas o outro, o morto). Conta-nos lá tudo, tudo o que só tu sabes de heróis e vilões, meu caro Pedro Marta Santos!

Versões Particulares I

A proposta é da Joana.

Aqui fica a primeira.

Não vale ir ao Google nem ao YouTube.

Quem cantava, quem era, este elegante estribilho?

“Too Drunk to Fuck” — Nouvelle Vague 2004

La carretera de Luna y Bernal

“Y tu  Mamá también” — Alfonso Cuarón 2001 México

 

Se pensar bem, acho que este é o meu Road Movie favorito.

Vi-o em Milão em ante-estreia, no dia 10 de Setembro, na reprise do Festival de Veneza, que se realiza todos os anos em Milão, imediatamente após o final do mesmo.

Corria o ano de 2001. No dia seguinte vi o “Monsoon Wedding” da Nair e a partir dessa tarde já não vi mais nenhum.

Nas próximas férias.…

O que me dizem a umas férias numa República independente, que tem como fronteiras o actual estado da Flórida, a Este, a do Texas, a Oeste, compreende as elegantes cidades de Nouvelle Orleans, St. Francisville e Pensacola, e é percorrida pelos poderosos rios, Perdido e Mississipi? Os Yankees nunca lá conseguiram meter os pés e as culturas que o habitam são predominantemente a Espanhola e a Francesa. Sobreviveu até aos dias de hoje como terra de farra e boa música, belas caboclas e piratas bem-falantes. A lingua oficial é o crioulo. Fuma-se tabaco Holandês e todas as casas têm um fantasma residente. Comem-se picantes Jambalayas e estaladiços lombos de crocodilo frito, tudo lavado com pequeninos, mas muitos, copinhos de Rum.

Eis a República Florida do Oeste.


The Republic of West Florida (circa 1760)


 

Luxúria revisitada

Nusrath Fateh Ali Khan (Paquistão 1948–1997)

 

Há quem diga que na história do Islão, ninguem cantou o Sufismo melhor do que ele.

Que Nusrath era o Rei do Qawwali

Que cantava o amor com palavras de fogo e de sangue

e que foi levado por um Deus egoísta, que o quis só para si.

 

Tumhein Dillagi Bhool Jani Pare Gi

You will have to forget about mere lust

Come into the ways of love and see

You will not then laugh at my torment

Touch your heart to someone once and see

Laughter comes close to the lips, what daring

It’s a matter of the heart, no mere attachment

Take wound upon wound yet live, take wound upon wound yet live

Drink sips of your own blood, Drink sips of your own blood

Don’t say “aha!” [a cry of anguish], close your lips, love is not amusement

By applying your heart, you will realize

Loving is not mere attachment

It is not some game, the bond of love

Don’t mistake this for water, this is fire, fire

This longing of the heart will make you cry blood

Don’t mistake the attachment of the heart for a game

This love is not easy, understand at least this

It is a river of fire that can’t be crossed but by drowning

You will have to forget about mere lust

(Poema Sufi — Origem desconhecida)


folhetim 6 — Sandeep

À mais de duas horas que Sandeep seguia com o olhar os esforços de um caranguejo, que, febrilmente, tentava sair de uma pequena reentrância feita na rocha pelo mar. Na sua indolência, parecia-lhe ter estado sentado naquela praia toda a sua vida. À sua volta, jovens raparigas em saris coloridos tomavam banho no meio de gritos e risinhos de excitação. Duas crianças corriam sobre o areal com um papagaio meio rasgado, enquanto um casal de europeus dormia andrajoso, enrolado numa manta, tudo sob um céu de chumbo que anunciava mais uma chuvada torrencial. Sandeep pensou em como Calangute, se transformava, durante a monção, numa praia relativamente banal e descolorida. Mas isso talvez fosse devido ao seu estado de espírito, que se podia dizer, não fosse dos melhores.

 O caranguejo conseguiu finalmente libertar-se e enterrar-se rapidíssimo na areia. Sem saber porquê, Sandeep voltou a pensar em Francisco. Três semanas antes, tinha-o deixado na estação de Chidambaram num decrépito autocarro partindo em direcção a Vaitheeswaram. Francisco tinha levado com ele a roupa que tinha vestida, e uma das suas crónicas dores de cabeça. Tinham-se separado com um grande mau estar instalado entre ambos, e desde esse dia não tinha tido mais notícias de Francisco. Em Madras, (continuava a chamar-lhe assim, que se danassem os mais nacionalistas) tinham assistido ao casamento de Pria, a sua prima que vivia em Chicago e que tinha decidido vir-se casar na Índia. Tinham partido depois da festa no comboio da tarde para Chidambaram, (Catarina tinha ficado na cidade para ir fotografar as grutas de Gudiyam) e uma vez chegados, tinham-se instalado na estação, à espera do autocarro que pela manhã os levaria a Vaitheeswaram. Tinham fumado um resto de marijuana que o irmão do noivo lhes tinha oferecido em Madras e Francisco tinha ficado visivelmente mal disposto. Independentemente disso, e desde que tinha deixado Catarina umas horas antes, Francisco parecia irrequieto e mal-humorado. E fora aí, apenas umas horas antes da chegada do autocarro, e para sua surpresa, que Francisco lhe comunicara a sua intenção de continuar sozinho. “Tenho que pensar na minha vida Sandeep. Tenho que ir sozinho à procura de quem sou. Desculpa-me”. Tinha-lhe então pedido que voltasse a Madras e esperasse ali por ele com Catarina. Sandeep, para além de não sentir uma especial simpatia por Catarina, implicava profundamente com a tensão que esta parecia criar em Francisco.

Achou tudo aquilo ridículo e um típico exemplo de um misticismo pedante de que só um Europeu pode padecer. Afirmou categoricamente que não voltaria a Madras. Disse-lhe frontalmente que não compreendia como um amigo pode deixar outro no meio da estrada, pedindo-lhe que se fosse embora assim sem mais nem menos. Discutiram, como os velhos companheiros de Universidade que tinham sido tantos anos antes. Disse-lhe que se sentia uma espécie de Passepartout a acompanhar um Phileas Fogg de pacotilha. Francisco ignorou a sua ironia e pareceu-lhe indiferente e distante. Confuso e magoado, Sandeep decidiu seguir viagem de acordo com o plano inicial, que tinham traçado alguns meses antes: seguir até Fort Kochi de comboio, regressar a Bangalore e apanhar o avião para Goa onde passaria os últimos dias antes de voltar ao ponto de partida, em Mumbai. Dali, no final do mês, regressaria então definitivamente a casa, em Boston. Despediram-se com um aceno e sem uma palavra.

Agora, ali sentado na areia de uma praia de Goa, pensava no que se teria passado com Francisco durante aquela viagem. Tinha-lhe tentado telefonar inúmeras vezes sem nunca obter resposta. Tinha-se esquecido de ficar com o número de telefone de Catarina, e agora, numa espécie de remorso tardio, estava seriamente preocupado com o amigo. Nos últimos anos, Francisco não tinha tido uma vida fácil. A horrível morte da primeira mulher e o drama de se ver sozinho com dois filhos, a perda dos pais, os surreais problemas com as autoridades em Portugal e os meses que tinha passado num hospital, pareciam ter feito de Francisco, um homem muito diferente do Português despreocupado que tinha conhecido nos anos noventa, quando ambos, juntos, tinham feito uma pós-graduação em Penn State. Decidiu que uma vez chegado a Boston, teria que tentar contactar de novo Francisco, por onde quer que este andasse, e tentar perceber o que verdadeiramente se passava com ele e como seria possível ajudá-lo.

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O avião caiu pesado sobra a pista do aeroporto de Logan em Boston. Só ao sair da porta e ao entrar no terminal, Sandeep tomou consciência que tinha deixado a Índia. Um cheiro adocicado e enjoativo a pipocas e cinnamon rolls, inundava o aeroporto. Apeteceu-lhe embarcar de novo e regressar imediatamente a Mumbai, que era afinal e sempre a sua cidade. O táxi deixou-o em Harvard Square. Caminhou deprimido os duzentos metros que o separavam do edifício de tijolos vermelhos e janelas de ferro forjado, onde residia. Ao entrar em casa, atirou o saco de viagem para cima do sofá e o correio para cima da mesa da sala. Tomou um duche, sentou-se na cama e de repente sentiu-se a pessoa mais só do mundo. Adormeceu decidido a esquecer aquela viagem que tanto prometera e tanto o desiludira.

Só na manha seguinte, quando passou de novo pela sala em direcção à cozinha é que se lembrou de ouvir as mensagens gravadas no telefone de casa. A primeira, a mais recente era de Veerle, a sua namorada holandesa, que Sandeep não tinha verdadeiramente vontade de voltar a ver. A segunda era da manhã do dia anterior. Sandeep sentiu um sobressalto. Era a voz de Francisco!

Falava numa correria de palavras. Estava em Nova Iorque. Tinha deixado a Catarina. Falava de um acidente de autocarro na Índia e de ter perdido o telemóvel. Tinha encontrado um Baba chamado Nadi Jyotisha e uma biblioteca de folhas de palmeira. Tinha estado em Atenas e tinha conhecido um tal Hydranthrópous. Referia-se a ambos como verdadeiras divindades. Este último aparentemente, tinha-lhe falado de uma Catherine de Cleves, de um livro perdido por mais de 400 anos e de um símbolo escondido numa iluminura. Um símbolo que era uma tatuagem. Uma tatuagem que o perseguia para onde quer que fosse. Uma tatuagem que era o seu nome. Fez ainda uma referência desconexa a Angola, a uma carta e a uma Tia chamada Susana. Sandeep achou Francisco completamente histérico, falando como que possesso. Propunha-lhe encontrarem-se no dia seguinte, à noite, num bar chamado “Smalls” em Greenwich Village. Explicava-lhe tudo depois.

Após a preocupação contínua dos últimos dias com a sorte do amigo, a Sandeep, não restava senão voltar para o aeroporto e ir ter com Francisco a Nova Iorque. Tudo aquilo lhe parecia produto de uma mente fora do sítio. Francisco tinha-se deixado impressionar por mais um dos tantos intrujões de aldeia de que o seu país era rico. E provavelmente na Grécia, a mesma coisa. Francisco precisava dele. Antes de sair, resolveu acender o computador e verificar a morada do tal bar em Greenwich Village. Estava já para desligar o computador quando se lembrou de verificar um pormenor da mensagem de Francisco. E escreveu. Catherine de Cleves. Diante dos seus olhos, lá estava de facto uma história de um famoso Livro de Horas, perdido e encontrado, um exemplo da mais fina arte de iluminar a religião e o espírito dos homens. E de repente percebeu o que o seu amigo estava a fazer em Nova Iorque. Sandeep leu em voz alta: Demons and Devotion: The Hours of Catherine of Cleves” January 22 through May 2, 2010 at the Morgan Library and Museum, New York City. Francisco estava ali porque era ali que estava, o que parecia ser, o objecto da sua obsessão. Provavelmente, via-o, numa segunda biblioteca de folhas de palmeira. Com as mãos trémulas imprimiu o texto. Dobrou a página, meteu-a no bolso, agarrou de novo no saco de viagem e saiu apagando a luz. Do computador, ligado sobre a mesa de trabalho, a luz terrível e assustadora de uma iluminura, banhava as paredes da sala escura.

“Flying High in the Sky” with the Italian piano player

Diz-se que o mundo é uma aldeia. Diz-se assim, por dizer. No entanto, segunda-feira passada, ao apanhar em Milão, o voo 45J da Continental com destino a Newark, encontro para meu espanto, sentado na primeira fila da classe económica, o meu novo amigo, Rossano Sportiello, o virtuoso Italian piano player sobre o qual aqui deixei um post à umas semanas atrás.

–Maestro Sportiello, buon giorno! Mi presento di nuovo! Questa è una coincidenza pazzesca! Non so se lei si ricorda di me.… — começo timidamente.

–Per Baco! — responde com um sorriso  – Ma certamente! A New York! Da Smalls! Ma che mondo piccolo questo…..!

Pergunto-lhe que coisa veio fazer a Itália. Responde que esteve em Berna a tocar num clube e que aproveitou para vir a Milão ver a família. Regressa agora a sua casa, em Nova Iorque. A mesma simpatia e modéstia que recordava. Apertamos as mãos, desejamo-nos mutuamente un buon viaggio e volto ao meu lugar. Sinto-me quase em culpa por viajar em business enquanto um novo talento do Jazz mundial, tenha que penar encolhido em classe económica. Até lhe deve fazer mal à circulação dos dedos, pensei provincial. Por momentos considero voltar atrás para em reverência lhe oferecer o meu lugar, mas contenho-me face ao ridículo que a situação poderia criar.

No entanto uma coisa tinha que fazer.

E embora correndo o risco que o meu pianista pudesse pensar que tinha pela frente um groupy obcecado, um verdadeiro stalker intercontinental, agarro nuns papéis de extraordinária importância que tinha ali à mão e que tinha imprimido para ler durante o voo, e vou pedir-lhe um autógrafo.

Deixo-o aqui para que todos confirmem que talvez e afinal, não existam mesmo coincidências.

PS: Deixou-me a sua morada virtual. Mora aqui.

Ira

A Ira é cega. É má. É colérica e rancorosa. Gosta de esquecer a virtude e remoer o vício. Tanto ataca o próximo como faz mal ao próprio. É destrutiva e agressiva. É puro e irracional instinto de sobrevivência. É suicídio. A Ira é de evitar. A Ira é coisa má.

A Ira é forte. É energia. É indignação. É construção e assertividade. A Ira é transparente e não ambígua. Em doses curtas mas intensas, tempera os espíritos e clarifica as ideias. A Ira recomenda-se. A Ira é coisa boa.

Loucura

Em 1981, Issei Sagawa, assassinou e comeu, no seu apartamento de Paris, Renée Hartevelt, uma bonita estudante Holandesa, sua colega de curso na Sorbonne. Issei, tendo-a escolhido devido à sua beleza e constituição física, convidou-a para jantar, matou-a com um tiro nas costas e durante dois dias comeu-a a várias refeições, começando pelas pernas e coxas e cozinhando depois diversos dos seus órgãos. Foi apanhado quando tentava desfazer-se do corpo deitando-o a um lago nos arredores da cidade.

A loucura está obviamente nas suas acções mas ainda mais no facto de Issei, depois de algum tempo internado numa instituição psiquiátrica em França, ter sido transferido para o Japão onde acabou por ser libertado. Hoje, é um convidado frequente de emissões televisivas e num macabro “turn of events”, escreve artigos sobre gastronomia para diversos restaurantes de Tóquio.

Quando era miúdo, recordo que se dizia entre primos, que a Renée era amiga de uma amiga de uma minha prima mais velha que tinha ido estudar para Paris. Deliciosos estes mitos de família.

Desta história, os The Stranglers fizeram a canção “La Folie” que incluíram no seu álbum do mesmo nome em 1981. Hugh Cornwell, Jean-Jacques Burnel, Jet Black e Dave Greefield foram os estranguladores originais e um dos quartetos mais “creepy” de todos os tempos. Nesses anos, produziram algumas das mais hipnóticas canções pop que conheço. A dita “La Folie” e a sempre eterna “Golden Brown” são um bom exemplo disso. Deixo aqui as duas.

 


Sépia Hipnótica

Jackson Pollock 51, 1951

Hans Namuth and Paul Falkenberg (directors)

Morton Feldman (composer)


Um ilustre querido morto nas suas próprias palavras.

Pollock morreu passados 4 anos num acidente de automóvel enquanto D.U.I.

Não, ainda não é a Bündchen esperando nuinha.

Vi isto, gostei muito, e lembrei-me disto.


“Over” — Peter Hammill, 1976


Porque afinal e à sua maneira, Hammill tem nele também, algo de profundamente casto.

 

Top Cat and the Italian piano player

Smalls Jazz Club. W 10th Street, New York City.

Este é um verdadeiro “Village joint”. Uma porta discreta, uma escada a pique. Um bar corrido à direita, 6 filas de cadeiras díspares, um pequeno palco elevado. Um piano à esquerda. Uma fotografia de Louis Armstrong na parede do fundo. Muito pouco espaço. No Smoking.

Aqui fui trazido pela primeira vez pelo meu amigo Fernando. Recordo que na altura não se serviam bebidas alcoólicas. Por lá, passaram entre tantos outros, Lee Konitz e Bill Saxton, mas também Slide Hampton, Jonathan Voltzok, Sam Barsh, David Budway e Spike Wilner. Se conheço os primeiros, não faço ideia quem sejam os últimos. Podem ser todos músicos famosos e editados, mas se o leitor conhece algum deles, tiro-lhe o chapéu. No “Smalls” tocam famosos e anónimos alike. Geralmente, durante o ultimo set do programa, os ditos anónimos começam a chegar com os seus instrumentos. Chegam encasacados e discretos. Por vezes vergados pelo peso do contrabaixo ou dos pratos da bateria. São eles os músicos que animarão o resto da noite. Conhecem-se e vão-se chamando ao palco alternadamente em longas sessões de improviso que podem ir até às pequenas horas da manhã. The real deal.

No passado Sábado, dia 23 de Janeiro, tocou o Harry Allen  e o seu Quartet. O line-up da banda era este: Tenor Sax: Harry Allen, Piano: Rossano Sportiello, Contrabaixo: Joel Forbes, Bateria: Chuck Riggs. Tocaram bem e muito. Originais e Standards. Ouvi e gostei muito.

Entre sets, fumando um cigarro cá fora, sentado num banco ao lado do porteiro, indago sobre a proveniência do pianista. Com um nome destes não me parece que seja um Italo-Americano de Brooklyn. Milaaan! — responde o porteiro lentamente, debaixo de uma enorme boina basca. Não resisto e voltando para baixo espero o final da actuação para o conhecer. Não só é um talento especializado em Dixieland, como é simpático, coisa que é rara num Milanês. Por pura cortesia elogia o meu Italiano. Já não consegue imaginar viver em Milão. Corrige-se. Não consegue sequer imaginar viver num sítio que não seja Nova Iorque. E confirma as minhas suspeitas. Em Milão não há um local decente onde ir ouvir Jazz de qualidade. A meio da conversa junta-se este senhor. Um verdadeiro Top Cat. Fala-se do ambiente caloroso que aqui se sente e da simpatia do público. Os dois combinam alegres tocar juntos um dia em Roma. Uma festa. Nos meus três Jameson’s com gelo tenho a tentação de confessar que em miúdo tocava harmónica mas contenho-me. Tocava pessimamente.

Despedimo-nos como velhos amigos mas deixo-me ficar mais um bocadinho.

Nesta cidade, é verdadeiramente difícil decidir ir para a cama.

Overlord

E para quem quiser saber mais sobre Overlord e os meses que se lhe seguiram, Antony Beevor, conta tudo o que há para saber neste admirável “D-Day, The Battle for Normandy”. É sabido que este autor trabalha com hordas de investigadores que vasculham a história como quem raspa o fundo de um tacho. Mas Beevor consegue com isso, contar a guerra de uma forma única e diferente. Conta-a através das pessoas, sejam elas os assustados soldados que sem saberem onde estavam tentavam cumprir as suas missões, ou os agricultores franceses que lhes vendiam o leite ao mesmo preço que o tinham feito aos Alemães, ou as mulheres que ávidas se lançavam sobre a seda dos pára-quedas aliados. Conta-a ainda através do som das balas, a entrar na areia molhada como se de ar a passar entre os dentes se tratasse ou do rumor infernal das 88 mm alemãs capazes de rebentar os tímpanos a um homem a mais de 50 metros. Por fim conta-a como ela é, horrenda e brutal e mesmo assim, por breves momentos, capaz de trazer ao de cima o que de melhor e mais nobre existe dentro dos homens e das suas emoções.