Singing in the rain

Verona, Novembro 2002

Somos uma pequena amostra de mundo. Pelas salas da nossa discreta business school Milanesa, no meio da molhada estudantesca, pode-se encontrar um pouco de tudo. Um arquitecto Chileno, uma editora de moda de Madrid e um par de brokers londrinos. Dois engenheiros alemães da BMW, um economista Peruano, um Russo vendedor de Smirnoff e uma Dinamarquesa especialista em energy bonds. Temos também um italiano desenhador de motores de formula 1, um espanhol de Alicante importador de mármores, uma contabilista de Kiev, um marketeer de Lyon, um outro de Atenas e ainda uma outra de Nova Iorque. E também uma catrefada de Italianos oriundos das muitas províncias desta terra. Depois há também uns meninos e meninas do papá vindos das Américas e do Sudeste Asiático que aqui vieram para encontrar vocação ou talvez só para gastar o dinheiro do mesmo, quem sabe. Ah! E há um português claro. Como é que me podia ter esquecido? Há sempre um português.

Durante meses, enturmamo-nos e guerreamo-nos em confrontos simulados, em apresentações fictícias, em debates ilusórios. Vivemos de Excel e Powerpoint. Desenhamos negócios, aprendemos as artes e os vícios da alta finança. Calculamos terríveis Futures e ainda mais sombrias Derivatives. Pensamos um mundo todo virtual. Todinho. Feito de e-commerce e de produtos invisíveis, que ajuntem máximo valor, custem o mínimo possível e se possam vender por muito dinheiro. Dinheiro. Aprendemos a fazer dinheiro. Aos montes. Para nós e para o outro, esse ilustre e anónimo vulto que entrou nas nossas vidas e que se chama shareholder e que aprendemos a amar e de quem tentamos perceber e adivinhar apetites e caprichos.

Mas os tempos são duros. Na maioria, despedimo-nos de bons empregos para poder aqui estar. Alguns endividaram-se com isso. Quase ninguém tem uma perspectiva de emprego. Manhattan explodiu o ano passado, a bolha das Dotcom também e estamos em guerra. Agora parece que vem aí mais uma. Vai ficar tão lindo o Médio Oriente a ferro e fogo. Londres não contrata. Milão fechou as portas. A Alemanha está parada. Trabalhar nos Estados Unidos para um não residente é uma impossibilidade. A Job Fair que aqui organizaram na escola foi um desastre. Apareceram meia dúzia de empresas Italianas de segunda a distribuir brochuras e pouco mais. Faltam duas semanas para a graduation e a coisa está a ficar feia para a maior parte de nós. Os ambicionados montes de fat green paper que todos esperavam que viessem, tardam a chegar.

Mas esta noite ninguém pensa nisso. Num comboio para Verona mandamos à fava a Finança, o comportamento das organizações, o e-marketing e a gestão de operações. Viemos quase todos numa espécie de catarse colectiva para limpar o espírito e aligeirar a alma. A bordo, no bar do comboio somos uns 30. Preparam-se Martinis a rodos e os mais prosaicos dão cabo do stock de cerveja a um desesperado barman das Ferrovie dello Stato. Bebe-se e dança-se. A real party on wheels! Só a Dinamarquesa dos energy bonds é que olha pela janela do comboio em movimento. Nos olhos alguma preocupação. Será que pensa no seu futuro? No futuro da economia mundial? Nos milhares de desempregados e nas suas famílias? No fim de um ciclo económico. Volta a olhar para dentro. — Looks like it´s gonna rain guys.….

Jamiroquai — Corner of the World - Live in Verona  - 11/11/02

Holly, Valens and the Big Bopper

Quando Hubert Dwyer, proprietário da Dwyer Flying Service de Mason City no Iowa, subiu a bordo do seu pequeno avião de reserva, sabia que a sua esperança era já coisa vã e que aquelas buscas o estavam a conduzir inevitavelmente para um trágico desfecho.

Era o dia 3 de Fevereiro de 1959 e nessa madrugada, Buddy Holly, Ritchie Valens e J.P. Richardson, mais conhecido como “The Big Bopper”, tinham de percorrer as 380 milhas que separavam Clear Lake, no Iowa, da cidade de Moorhead, no Minnesota. Viajavam à coisa de um mês num velho autocarro sem aquecimento e a perspectiva de dormir mais uma noite a bordo de um frigorifico sobre rodas era algo de insuportável. O programa do tour em que participavam, o “Winter Dance Party Tour”, era alucinante. Tinha sido desenhado para bater vinte e quatro cidades em dois meses e estava a submeter os músicos a um regime infernal. Tinham já cruzado todo o “potato country” dos estados do Wisconsin, do Minnesota, do Michigan, do Iowa, do Indiana e do Illinois e tocariam ainda em tudo o que era cidade do Mid-West onde vivesse gente já contaminada pelo vírus do Rock n´Roll.

Nesse final de década, os três músicos tinham já ascendido à condição de super estrelas desse novo estilo musical que estava a revolucionar os pacatos lares Americanos do pós guerra. Depois de uma vida a tocar pelos bares do seu Texas natal, Buddy Holly agora com 22 anos, vivia em Nova Iorque no meio da cena artística que começava a movimentar a cidade a partir da Village e tinha publicado com enorme sucesso, no ano anterior, “That´ll be the day”, o seu terceiro álbum. Ritchie Valens, com apenas 17 anos, era o pioneiro e leader declarado do chamado Chicano Rock e preparava-se para sozinho dar à musica latina, nos Estados Unidos, a projecção e o reconhecimento que esta indubitavelmente merecia. J.P. Richardson, era um incrível personagem, “bigger than life”, um famoso e mais maduro DJ da mítica estação de rádio Texana, a KTRM e que tinha lançado de sua autoria e cantado por ele próprio, o delicioso e cremoso “Chantilly Lace” que no verão de 58 tinha chegado e se tinha mantido por 22 semanas nos topo das Pop Charts Norte Americanas.

Nessa madrugada, no final do concerto de Clear Lake e sabendo que Buddy Holly tinha conseguido alugar um Beechcraft Bonanza de quatro lugares pronto para voar os elementos da sua banda para Moorhead, Valens sugeriu que se lançasse uma moeda ao ar para decidir quem ia e quem ficava. Saiu-lhe na sorte um lugar no avião. Richardson, atacado por uma violenta constipação, pediu a um outro dos músicos da banda de Holly se lhe poderia ceder o lugar. Quando por volta da meia noite e meia, o pequeno avião deixou por fim o hangar, sentado nele estavam pois as três principais estrelas do tour, as suas inseparáveis guitarras e todo o enorme talento que levavam dentro deles. Conta-se que antes de partir, Buddy Holly terá dito a Waylon Jennings, um dos seus músicos que se preparava para dormir enrolado num cobertor a bordo do autocarro do tour, a frase — “Well, I hope your ol’ bus freezes up”. Jennings, também de forma jocosa ter-lhe-á respondido — “Well, I hope your ol’ plane crashes”.

Quando Hubert Dwyer viu lá em baixo, da pequena janela do avião, a carcaça fumegante do seu Bonanza de aluguer, confirmou para consigo aquilo que já sabia e fechou os olhos em desespero. Na explosão do aparelho, os corpos dos músicos tinham sido projectados em várias direcções. O de Buddy Holly era o mais fácil de reconhecer. O seu blusão de cabedal amarelo era uma pincelada de cor que contrastava com o branco cheio da neve que resplandecia sob o sol de inverno dessa triste manhã.

Diz-se que nesse dia a música morreu.

Desculpe-me o chato do Don Mclean, mas eu não concordo.

Oh! and Rock on Kid! You know this one´s for you…

De mitos e bochechas…

Não conheço pessoalmente nenhuma Rock Star famosa. No entanto, no dia 11 de Setembro de 1993, toquei na mão de uma. Entrava com a sua entourage para dentro do pavilhão da minha universidade e estando eu ali, à mão de semear, deu-me um hi5 de amigalhaço. Uns meses depois morria, entregue à melodia doce de uma caçadeira.

No dia seguinte à notícia da sua morte, participei numa festa para uma associação de apoio a crianças desfavorecidas de um bairro nos arredores de Filadélfia. Depois de pintar as caras de alguns miúdos com umas borboletas bastante desenxabidas, apareceu-me uma miúda de cerca de seis anos que me pediu para lhe desenhar um Kurt Cobain numa das suas bochechas. A tarefa era complicada mas a coisa saiu-me bem. A criançada radical que a seguia na fila achou aquilo tudo “like super cool, dude!” e acabei por pintar mais de quinze Kurt Cobains nas bochechas coradas daquele fim de tarde. Percebi naquele preciso momento que todas as gerações têm os seus mitos e que tinha ali mesmo, com pastéis e guaches, criado uma com as minhas próprias mãos.
And it felt like, you know, super cool too!

11÷09÷93 — Stabler Arena, Lehigh University, Bethlehem, PA

PS: Peço desculpa pela qualidade do clip mas é assim que o recordo. 

Uma caixa longa demais…

A mãe da minha amiga S. faleceu o ano passado. Só passados seis meses, a S. encontrou coragem para conduzir até à Liguria e começar a esvaziar as gavetas e os armários da casa materna. E foi aí que descobriu, no meio de muitas outras velharias empoeiradas e estaladiças, uma grande caixa de laca chinesa cheia de cordéis. Na tampa, escrito na minuciosa caligrafia de sua mãe, podia-se ler:

Pequenos pedaços de cordel,
demasiado curtos para voltarem a ser usados.

E aí, de pé, sozinha no meio da sala da costura, chorou finalmente tudo o que tinha a chorar. Penso que foi a única coisa que de lá trouxe nesse dia. Lá no fundo, nós, latinos, como povo, pertencemos com certeza todos a uma antiga estirpe de poetas.

Brave New World

Partilhar com o resto do mundo aquilo que faço, leio, vejo e compro é aparentemente uma coisa que me dá prazer. Seguramente não o faria se assim não fosse. Através do Amazon, do Trip Advisor, do Facebook, e de outras redes sociais e comerciais, faço-o com grande regularidade.

And yet…

Ao fazê-lo, sei também, mais e melhor, aquilo que as outras pessoas fazem, lêem, vêem e compram. E isso permite-me saber o que fazem e lêem e vêem e compram, as pessoas que são como EU. O que por sua vez me permite comportar-me e ser sempre e cada vez mais como as pessoas que são como EU. Isto é importante pois ajuda-me a ser cada vez mais parecido com o protótipo do tipo de pessoa que sou, que gosto de ser e com o qual todas as outras pessoas que são como EU se identificam. Por sua vez, cada vez que dou a conhecer aos outros o que sou, através do que faço, do que leio, do que vejo e do que compro, ajudo também aquelas que são como EU a tornarem-se mais como EU sou. E por isso, ao serem mais como EU, ajudo-as a serem mais como elas mesmas são. Ou pelo menos a fazer, a ler, a ver e sobretudo a comprar, as mesmas coisas.

Começo a estar convencido que os produtos de todo este admirável mundo novo não são afinal as coisas que faço, os livros que leio ou as coisas que vejo e compro. Começo a estar convencido que o verdadeiro produto, o asset transaccionável no meio de tudo isto, sou EU mesmo. EU e todos aqueles que me são iguais o que de alguma forma e cada vez mais, me parece ser praticamente toda a gente.

Não é fantástico?

Falso Adeus ou “Just riding for the feeling”

Fica aqui guardada para outras alturas em que mergulhados na tristeza da despedida tenham que deixar aqueles que amam. Estive para fazer uso dela este fim de semana mas o suave vento do destino não deixou. Ainda bem.
Aqui fica guardada, dizia, no caso de poderem precisar dela. Usem-na bem.

Bill Callahan “Riding For The Feeling“

N´Orleenz P. Hall

Tenho a certeza que o nosso José Navarro de Andrade já lá esteve a abanar o pé pelo menos uma vez na sua vida. E a nossa Eugénia se não esteve, deveria ter estado. Este é um local de gente velha mas de gente nova também. E de muita gente morta claro está. Uma velha Juke Box cheia de memórias de grande música, muita bebida e pouca conversa. Fica-lhe aqui uma homenagem e a minha imensa vontade de lá voltar um destes dias.

Caranguejos e outros animais estranhos

Ao desafio da Marta, decidi, tal como o fez a Joana Vasconcelos (somos muito competitivos nós os dois), apresentar dois livros que para mim foram de alguma forma estranhos. Aqui estão ambos, acompanhados de sucinta nota.

Porque o li todo às escondidas. Antes do tempo. Percevejos e sífilis. Sombrios quartos de hotel e fome de tudo. Mulheres com as entranhas em chamas e homens pálidos com problemas intestinais. Uma Paris bafienta, de gente mal lavada, expatriados falidos e artistas sem alma. Tudo regado com a inflamável e sardónica gasolina de Miller que sem que eu percebesse porquê, conseguia apesar de tudo celebrar a essencial condição humana de estarmos vivos.

Porque ainda hoje estou para perceber se gostei ou não, se valeu o dinheiro que paguei por ele e se é literatura ou apenas um vómito pretensioso. No entanto passei quatro dias agarrado a ele. Aprendi de cor todas as hierarquias do exército Nazi e das SS. Mergulhei depois da sua leitura e durante semanas a fio, na história das Einsatzkommandos e da campanha de Estalinegrado. Interroguei-me a fundo que carreira teria eu feito nas fileiras do partido Nazi e das SS, se tivesse sido apanhado na geração que tinha 15 anos em 1930 na Alemanha. Li uma parte do livro numa viagem de avião. Ao meu lado, um senhor com uma certa idade perguntou-me se estava a gostar. Disse-me depois que tinha lido duas vezes de seguida e que tinha odiado ambas. Penso que se preparava para ler uma terceira.

Agora passa ao outro e não ao mesmo, eu passo sempre ao mesmo, ora conte-nos lá, Sr. Pedro Marta Santos que estranhezas tem apoidas sobre o bordo do seu bidé.

Duas canções para ouvir entre-carnificinas

SCARY MONSTERS

Warning: The following is definetly NOT for the faint-hearted. Depois não digam que não avisei.

Entramos de rompante, directamente do nosso yellow cab, chamados por um bouncer negro que, metido dentro de um apertado Armani gessato e com uma pala de cabedal a cobrir-lhe o olho esquerdo, nos abre caminho pelo meio da multidão. Sou levado pela mão da Valentina, que sem coincidência é filha de um amigo de Crepax, ex-modelo das passarelas de Milão e que desta cidade onde agora vive parece conhecer tudo e todos. Ao nosso lado entram também o metro e oitenta de uma Florentina sua amiga e mais dois seus conterrâneos, nossos amigos comuns de Milão e que acabaram de chegar à cidade. Um naipe de luxo. A super posh crowd, I guess. Aqui dentro terminou o primeiro set e está para começar o segundo. O espaço é relativamente apertado. No ar paira um inebriante fragor de Chanel No. 5 que a esta pequena hora da noite se mistura já com outros perfumes mais primordiais, como aqueles do álcool, do sexo e do sangue. À minha volta, um cenário barroco, rico em talhas douradas, lustres de cristal estilo Maria Teresa e pesadas cortinas de veludo adamascado, cor de carne. O público, esse, agrupado em pequenos camarotes ou sentado em mesas espalhadas pela plateia, é elegantíssimo. Perigosamente sofisticado, dir-se-ia. Alguns trouxeram plumas na cabeça. Outros o seu sexo indefinido. Outros vieram de top hat e mascarilha. Outros ainda com a face coberta de piercings que os potentes reflectores deste burlesco cabaret convertem em movimentadas máscaras de luz. Sob o palco, de costas para um pano agora corrido, banhada por uma ácida luz azul e por uma bizarra e lenta canção de embalar, dança uma anoréxica beldade ariana. Endossa, minimalista, um par de suspensórios, um slip de pele e um cristalino copo de vodka. Reparo no seu olhar vítreo. Fixo no vazio. A sua coreografia é simples. Mãos que se alçam rápidas, esticadas nos braços lá em cima e que depois  descem, ondulando, vagarosamente, para se virem pousar, como borboletas venenosas, na magreza das ancas que se balançam ossudas, suspensas no cabedal dos seus finos suspensórios.

Sinto um arrepio de nervosismo. Embora me encontre no coração desta megatrópole que é Nova Iorque, parece-me que viajei no tempo. Que vim parar ao Wintergarten Varieté de Berlim ou ao Fledermaus Kabarett de Viena, e o tempo, o tempo é aquele que vai desde o fim da primeira carnificina até ao início da segunda. Essa estreita janela de oportunidade em que um estranho povo do centro da Europa, habitualmente sisudo e monocromático, descobriu que na sua pobreza económica, se podia divertir na decadência da beleza e com a cor do cinema mudo, tudo ao som da estrutura caótica de um género musical acabado de chegar do novo mundo. E acho que o melhor é aproveitar enquanto isto dura pois por coerência natural com os factos, a qualquer momento pode entrar por aqui a dentro uma patrulha de sturmtruppen nazi, esses party poopers que passavam a vida a estragar festas, a desligar a música, a apagar a luz e mandar toda a gente para casa.

Encosto-me ao bar. — Hey dude! My name´s Derek and this here is my girlfriend Sharon. Wasco? Nice to meet you, Wasco! – É Texano e como todos os texanos sente uma enorme necessidade de ser amigável. Como se veste e se move, vê-se que não pertence à eclética in-crowd que nos rodeia. – This place´s just awsome! First time here? — Respondo-lhe monosilábico que não. Intimida-me o excesso de simpatia dos outros. Por sorte somos interrompidos por uma fila de gente emplumada que atravessa o público em direcção ao palco empunhando pequenos archotes de fogo de artifício. A bailarina dos olhos de vidro desce do palco deixando lugar a uma fogosa e altíssima pantera negra que, caminhando sobre uns altíssimos stilettos de aço e envergando uma luminosa cabeleira cor-de-laranja, anuncia, cantando sob uma batida disco-sound, o número que se segue. Um contorcionista. Que tem um físico de herói grego e que escala pilhas de cadeiras e se baloiça lá no alto. Uma menina dentro de um mini vestidinho cor de rosa, acompanha-o. Parece uma pin-up dos anos 50 e vai fazendo caretas lascivas com a boquinha em O cada vez que este Adónis ensaia uma nova pose. Aplausos. Regressa a pantera. Sorrindo misteriosamente, anuncia o número seguinte como um dos momentos altos da noite. Sobe agora para o palco um vulto corpulento, debaixo de uma túnica e um capuz. A música torna-se de repente lenta e sombria. De costas, deixa cair o capuz e depois a túnica. É uma mulher. Volumosa e integralmente coberta por uma única tatuagem. Cabelo loiro cortado à marine. Vira-se e olha para o público com uma rajada de desprezo. Vestido tem apenas um corset, que lhe vai da cintura até à base de uns seios gigantescos. Agora, silêncio. O tempo pára. Noto pelo canto do olho a Valentina. – Bella, non guardare! — diz à amiga. Afinal não trazia só o corset. Trazia também uma faca. Grande  e afiada. Manipula-a com destreza. Beija-lhe a lâmina com amor e depois, decididamente, de cima para baixo, afia-a lentamente na língua. Sorri agora num esgar de sangue. Um fio líquido que se abre pelo queixo abaixo, e que percorre depois a curva do pescoço e os seios descobertos. E é neles que em seguida se fixa, incidindo uma cruz vermelha em cada um deles. O público exulta em silencio. Já sem surpresa, aquilo que pensava que estaria para acontecer, acontece. E ela fá-lo com um sorriso ainda maior. O sangue corre-lhe agora pelas pernas abaixo. Tem a faca enfiada até ao punho de baixo para cima, com os joelhos ligeiramente flectidos. Sorri sempre. Com movimentos repetidos, numa macabra cadência, simula o prazer de um orgasmo de dor. E por fim retira-se, deixando sob o palco uma escura poça de sangue que acaba pisada pela turba que de repente invadiu o palco dançando um techno beat sobreposto pela voz cavernosa do Jim Morrison. Até este público, aparentemente habituado a emoções fortes, necessita de um momento de pausa. Pela parte que me toca, decido que é chegado o momento de restabelecer as forças e beber, todo de um trago, um whisky triplo sem gelo.

Não me admiraria se a qualquer momento entrasse o velho Marquis envergando uma empoeirada peruca brizzolata, um capote vermelho cardinalício, e uma carnavalesca máscara veneziana, dourada e sardónica. Viria ali seguramente na condição de caçador de talentos. Caçador de jovens beldades, disponíveis a juntarem-se a ele na busca incessante de um mundo de prazeres líquidos e espessos. Confesso que o sangue não é coisa que me impressione mas só com muita dificuldade me posso divertir na sua presença. Num outro tempo, li quase todo o Sade. Fi-lo com gosto, confesso. É leitura arrepiante mas que estimula valentemente os órgãos. Sobretudo o cerebral. Mas não estou convencido que sangue em palco, verdadeiro ou falso que seja, contribua significativamente para me abrir os horizontes. Tito Lívio, o historiador romano, afirmava que o principio do fim de um império se poderia prever através de dois muito simples indicadores. O primeiro seria a ascensão dos cozinheiros do império à condição de super estrelas. O segundo, a aceitação de lutas e jogos de sangue como um divertimento de massa. Two out of two, I would say to good old Titus.

A pantera negra de novo. Desta vez está vestida de Southern Belle, estilo Scarlett O´Hara, com um vestido longo e uma cabeleira de grandes caracóis loiros. — And now, Ladies and Gentleman, with you, the most beautiful man in the world!- Dá-se inicio ao terceiro set da noite e sobe agora para o palco um gigante de dois metros, loiro, olhos azuis, esculpido e sorridente. Um All American Boy. Um verdadeiro Jock. No entanto, vem vestido de Cupido, num apertado slip prateado e calçado numas plataformas de vinte centímetros de altura. A face, pesadamente maquilhada, é apenas um pedestal para uma gigantesca tiara de plumas brancas e amarelas. Um verdadeiro Drag-Demi-God do Olimpo de Queens ou de Staten Island. O seu numero consiste em comer espadas de vários tamanho e feitios. Suscita muitos aplausos e gritos. Seguem-se-lhe, uma lindíssima de morrer Isadora Duncan, que nua, dança ao som de Fateh Ali Kahn, um Billy Idol de corninhos acompanhado por um corpo de baile em velho estilo Sado-maso e por fim uma formosa senhora sob uma cama de pregos, que se humedece voluptuosamente com uma esponja para poder vir a ser enxugada por uma pluma gigante, empunhada por um coolie de turbante, apaixonado, subserviente e completamente nu. Quando penso que o espectáculo está para terminar, passa por mim na direcção do palco, a pantera negra, que, agora completamente careca, traz pela mão a verdadeira atracção da noite. Penso que seja um muito famoso artista do reino pois sobe ao palco sob uma chuva de aplausos e assobios. Aí, senta-se pomposamente num majestoso trono imperial. Vem vestido de leopardo e saltos altos e é claramente orgulhoso da sua frondosa cabeleira negra. Como um ministro de sua majestade, traz consigo uma mala vermelha. Abre-a sobre os joelhos e bate as palmas com uma alegria infantil. Tem lá dentro uma muito variada colecção de objectos. Escolhe um pequeno pino de bowling vermelho e levantando-se com um sorriso para o publico pergunta — Should I? Should I? Yeees! - responde o público unânime. Percebo que a coisa se fará agora muito hard. E efectivamente, dobrado sobre si mesmo e de costas viradas para o público, o artista dá início a uma muito íntima experiência com formas, cores e diversos calibres. O gelo do meu segundo whisky triplo derrete-se todo de uma vez deixando-o mole e desenxabido. Um grupo de meninas com um ar muito bem está espalhado pelos sofás de um camarote à minha esquerda.  Estão todas vestidas com floridos cocktail dresses e parecem saídas de um filme com a Julie Andrews. Já beberam umas quatro garrafas de Möet e lançam gritos de incitamento e histeria para o palco. Iluminam-se com o flash dos seus  Blackberries de último modelo com que, pondo a bizarria em palco como decoração de fundo, tiram fotografias umas às outras. O artista retira-se ainda empalado, caminhando com alguma dificuldade. Flores voam na sua direcção. Os emplumados que tomaram agora conta do palco estão todos em tronco nu. Eles e elas, elas e eles, já não sei. À minha direita reparo em Derek, o meu texano, sentado no corrimão da escada que acede aos camarotes superiores. Cabisbaixo parece vencido pelos acontecimentos. - What´s up Texas? Are you OK, buddy? — Olha-me esgazeado - They´re all dead people, you know? — diz-me apontando para o palco com um movimento lento do queixo – They don´t know it yet, but they´re all dead, these fucking scary monsters! –

Afasto-me a sorrir. They´re all dead people? Really? Acho que não. E disso percebo alguma coisa. Monsters? Scary monsters? You bet. Really scary ones. Vejo agora a Valentina por entre a multidão que se move em direcção ao bar. Junto-me a ela. – Andiamo fuori a fumarci una cigaretta? – Sem saber porquê levanto o olhar. Lá de cima, o DJ, que por acaso é uma, cruza o olhar com o meu. Pisca-me o olho como se soubesse aquilo em que estou a pensar. E de facto, enquanto me aproximo da saída de fumadores, consigo ainda ouvir o guincho da guitarra do Robert Fripp, seguida da cadência de uma espécie de latido rouco, a que por fim se sobrepõe a voz do meu Pierrot, o último dos verdadeiros domadores de monstros ainda vivo.

 

PS: Estas emoções fortes, vivem-se na Chrystie, numa paralela à Bowery, em Manhattan. O Cabaret chama-se “The Box” e já uma vez aqui falei dele. Voltei lá a semana passada. O público é agora mais mainstream e mais endinheirado. O espectáculo, esse, é ainda mais sangrento e hardcore do que aquilo que recordava. Um aviso agora já inútil. Não é, decididamente, o Cirque du Soleir.

Brinde de Março

E apesar do segundo e explosivo discurso de Christian, os convivas voltaram a erguer-se e a levantar, joviais, as suas flautas em honra do anfitrião. Como se nada tivesse sido dito. Como se Christian não tivesse segundos antes acusado o pai, em voz alta para todos ouvirem, de o ter molestado sexualmente durante toda a sua infância. Como se não tivesse acusado também a mãe de cumplicidade e de esconder de toda a família a tara do marido. Como se não tivesse descrito o pai com um monstro que justificava o abuso sobre os filhos com o facto de achar que estes eram uns incapazes, bons senão para aquilo. Como se não o tivesse acusado ainda de responsabilidade pela morte de Linda, a sua adorada irmã gémea, também ela vítima da sua perversão e de quem o suicídio, um ano antes, deveria pesar mais do que nunca sobre a sua consciência.

Christian tinha já deixado a mesa, quando todos se levantaram de flautas na mão. Percorria agora cambaleante, de Chablis e Champagne, as alamedas dos jardins de seu pai e limpando o sangue que lhe saía pelo canto da boca com um lenço, ia deixando para trás e de vez, a casa da sua família, as suas sinistras recordações e a imensa vergonha de seu pai.

O Toastmaster, naquela tarde um primo afastado de Viborg, disse então algumas palavras. Apesar dos nós dos dedos doridos e de ter perdido um dos seus botões de punho de marfim, estava radiante por ter levado aquele almoço até ao fim. Porque afinal, é necessário, defronte à deselegante exposição pública daquilo que por boa educação não deve ser nunca revelado, manter um certo aplomb e um discreto sentido de decência e sobretudo, naquela bela tarde de Março, a aparência de que a primavera deve ser respeitada para lá dos problemas da família e dos homens e das mulheres que dela fazem parte.

Skål!

 

Festen — Thomas Vinterberg, 1998

PS: — Numa noite de inverno de 1998, cinco portugueses vão ao cinema. Fazem-no numa pequena sala de cinema em Cambridge, Massachusetts. Uns, mais intelectualizados, fazem-no para ver um filme Dogma 95, um exemplo de puro cinema de ponta Escandinavo. Outros, mais prosaicos vão ao cinema, ponto final. No final as opiniões dividem-se. A polémica estabelece-se. Por sorte acaba tudo com uns copos bebidos algures num bar de Boston. O filme era o “Festen” de Thomas Vinterberg e alguns desses Portugueses são agora mortos activos nesta nossa alegre festen virtual.

Tempo

No início era como uma onda gigante, que me levava dali, onde estava, para ali, onde ia parar. Dentro dela, arrastado, deixava-me ir, evitando obstáculos e agarrando-me a objectos e a pessoas também elas presas na vertigem desse moto continuo. Tudo instabilidade criativa. Tudo ondulação improdutiva. E apesar da velocidade e do espaço percorrido, desse tempo vi pouco e retive um quase nada.

Vislumbro-me agora como que debaixo de uma cascata. Quase não me mexo. Estou ali de pé, imóvel como um bocado de rocha dentro de uma parede de água. E apesar desta me cair pesada sobre os ombros, sou finalmente senhor do meu movimento. Apesar da cortina liquida que em catadupa me turva a vista, vejo agora melhor os contornos de tudo. Sobretudo dos outros. Apesar de estático, vejo agora mais longe, e mais perto também.

No fim destes caminhos líquidos do tempo, espero um dia encontrar um lago de águas mornas e planas. Um lago onde poderei finalmente ver os pés e as mãos e o resto do corpo, dentro e fora, meu e dos outros, tudo através de um fluido que desejo transparente e cristalino. E aí, com movimentos lentos, flutuando a teu lado, dar-te-ei a minha mão, sabendo já que nesse tempo, quererei de novo o mar inteiro e que terei saudades do vento e das ondas e da espuma que nelas vive.

Em Janeiro do ano de 2000, Noah Kalima, resolveu aprisionar o tempo em forma de fotões luminosos, dentro do seu disco pessoal. Fotografou-se todos os dias, numa rotina diária e religiosa e a esse tempo não deu quartel, desafiando-o sem um sorriso, sem uma expressão no rosto. Sem nunca respirar. Com o cabelo ao vento.

Moon

Poderia perfeitamente ter sido realizado no início da década de 80. Um clássico filme de série B, produzido com um orçamento reduzido e à margem das grandes produtoras, utilizando um actor promissor mas ainda pouco conhecido e aproveitando as sobras dos cenários de outros filmes maiores e mais endinheirados. Poderia também ter sido imaginado e dirigido por um aspirante a starman, um fanático de aventuras espaciais e esotéricas, hoje já esquecido, desejoso na altura, de seguir os passos já dados por Kubrick, Scott ou Tarkovsky.

 E no entanto, foi realizado em 2009, os cenários se bem que minimalistas são originais, e de B o filme tem muito pouco. Com ele, numa alegoria requintada, juntamo-nos à solitária existência de um mineiro sobre a superfície da Lua e com ele viajamos depois ao centro das aspirações e limitações da sua condição humana (?) e por fim ao fundo da terrível suspeita de que afinal de contas estamos mesmo sós com nós mesmos e que chegado o fim, nada nos restará senão o nosso próprio reflexo num espelho imperfeito que flutua no nada vazio e gélido do cosmos. Por todas essas razões — um pouco indigestas para alguns é certo — mas sobretudo porque é uma história verdadeiramente bem contada e por sua vez interpretada por um excepcional Sam Rockwell, este filme é um must.

 Duncan Jones, o seu jovem realizador, para além de se revelar um estupendo encenador, é, com certeza, um óptimo gestor da sua economia caseira pois conseguiu recrear um universo lunar de paisagens relativamente credíveis e uma série de espaços interiores que sugerem os melhores ambientes de 2001 ou de Alien, queimando com isso um orçamento de cinco magros milhões de dólares apenas.

 Quanto à sua legitimidade como homem das estrelas, Duncan Jones tem-na toda. È nem mais nem menos do que o primogénito do Starman himself, o nosso Major Tom, sim, o homem que caiu do espaço, David Jones, em arte David Bowie.

Moon, Duncan Jones 2009

Winter´s Bone

Esta é, aparentemente, uma América sem ponta de esperança nem audácia, onde só a crueldade e a desolação parecem encontrar terra fértil onde florescer. Um mundo invernal de florestas nuas, infestado de uma pobreza material e moral arrepiantes, colorido a som de tiros de caçadeira e tenuemente aquecido pelo fogo branco da metanfetamina que a todos queima a pele e funde o cérebro. E no entanto, lá bem dentro deste conto sombrio, acabamos por encontrar a incrível coragem de quem, possuída pela determinação e instinto de sobrevivência, consegue com uma força sobre humana, levantar, de uns valentes metros, a fasquia da civilização e salvar com isso, o que a todos eles resta de alguma humanidade.

Um filme indelével que deixa marcas nos pulsos.

Winter´s Bone — Debra Granik, 2010

Bellino, ma non ancora Zac!

O Escritor não tem limites. Concebe, desenha, desenvolve, corrige. Volta atrás. Apaga e desenha de novo. E depois colora. E enche os espaços. Ou não. E desse processo, emergem ideias, figuras, momentos, e depois talvez palavras e frases, tudo que acaba pintado numa tela abstracta de caracteres a que só o decorrer do discurso e a imaginação do leitor acabam por dar sentido e expressão. Mas depois, a um certo ponto, lá de dentro, sai gente. Gente a sério. Com nariz, boca e olhos. Que respira e come e dorme. E que nos agrada ou nos causa horror. Ou que nos apaixona ou por vezes repele. Gente a sério. Mas na verdade, toda esta gente não nos é dada assim, toda de uma vez. É-nos dada página a página. E com elas, as páginas, vai-se alterando a percepção da forma do rosto, e das nuances do tom de cabelo. E da forma como caminham ou de como falam. Ou como lhes bate o sol na face ou de como passam as mãos pelo cabelo. E sobretudo de como olham cá para fora, para quem as lê.

O Realizador, Il Regista, coitado, não têm em princípio a liberdade do Escritor original. Isto porque no filme, a gente, essa gente que, página a página, tirou cá para fora o Escritor com a cumplicidade de quem lê, tem de ser metida, toda de uma vez e de novo, dentro da obra, que desta vez é animada. Il Regista têm por isso que tomar decisões. Tem que fazer escolhas e em relação a essa gente, tem que as fazer muito cedo. Que se erradas, de acordo com uma lógica e sensibilidade não escrita, pois que a verdade reside em milhões de interpretações individuais e por isso mesmo é infinita, lhe podem custar o filme e a razão de ser do mesmo.

Luchino Visconti correu todo o norte Europeu à procura de Tadzio. Encontrou-o na Suécia, depois de passar horas sentado, em quartos de hotel, a olhar para rapazinhos loiros de tronco nu. O seu Tadzio chamava-se Bjorn Andresen e nas suas próprias palavras, considerou-lhe a beleza com uma verdadeira projecção do intelecto. O excerto de documentário que aqui vos deixo, foi produzido pela RAI, e apresentado no contexto inocente dos anos que foram os 70. Nos tempos esquizofrénicos e paranóicos que hoje vivemos, duvido que fosse transmitido no mesmo formato sem levantar protestos das mentes mais puritanas. No entanto aqui fica, ilustrando o incrível momento em que o dito Regista, na sua busca, consegue hesitar e duvidar insatisfeito das opções que tem pela frente, não reconhecendo que está já de fronte a um mito, esse mito que se viria a tornar, reconhecidamente, no mais universal Tadzio de toda a humanidade.

Alla ricerca di Tadzio — Morte a Venezia — Luchino Visconti

E il grandioso prodotto finale…

Morte a Venezia — Luchino Visconti, 1971

Dia do namorado

Carnaval — Lorenzo Mattotti 2005

Durante semanas acariciou-lhe os lábios com escarlate. O bico dos seios com púrpura. A menina dos olhos com azul celeste. Agora amava-a. Sabia-o com toda a força e certeza. Sempre tinha gostado de mulheres grandes e cheias. Achava que aquilo de que se gosta se deve ter tanto de. E aquela era sua. Só sua. Nesse dia levou-lhe flores. Um gigantesco maço de girassóis. Mas ela tinha-se ido embora. Fugida com o circo que deixara a cidade. Para o outro lado do mundo tinha ido, a desgraçada. Nesse dia partiu-se-lhe o coração. Nessa noite, jurou que nunca mais.

No dia seguinte comprou fio de ferro e cartão e cola, e trouxe de novo as suas tintas.

Percebera que tinha cometido um erro de escala. Precisava de fazer uma ainda maior.

Fantademocrazia

Um hino possível para a geração tramada de que aqui fala o PN.

Cara Democrazia — Ivano Fossati, L´Arcangelo 2006

New York state of mind

Sento-me e peço um copo de água mineral. Meto três Unisons na palma da mão e de um trago mando tudo para baixo. Sei que devia tomar só um mas amanhã de manhã tenho imenso que fazer em Milão e tenho mesmo que tentar dormir. Acabei de passar uma semana em New Jersey, a saltar de hotel em hotel e de reunião em reunião sem nunca dormir mais de quatro horas por noite e estou absolutamente exausto. Abro a bolsa cinzenta das amenities e tiro as meias de lã, a mascarilha azul do Zorro e os tampões para os ouvidos. O 4B aqui ao meu lado parece que vai ficar vazio. Vou poder ficar com uma almofada e um cobertor extras. Que sorte a minha.

Todos os meses, um pouco como um autómato, faço este New York-Milão da Continental Airlines. O voo parte ao fim do dia e geralmente não me apercebo sequer do descolar do avião. Numa rotina pré-definida, e antes de embarcar, mastigo rapidamente qualquer coisa num dos restaurantes do aeroporto, engulo uma pastilha para dormir, e uma vez já sentado a bordo, enrolo-me num cobertor e tento dormir cerca de seis, das sete horas de viagem que separam estas duas cidades onde, hoje, de alguma forma, vivo e trabalho. Ao meu lado sentam-se habitualmente outros muito cansados e imensamente aborrecidos road warriors, que, como eu, cruzam os céus na ânsia ilusória de que não lhes fuja nem a vida, nem a carreira profissional, acumulando traveller miles que nunca chegam a consumir e pesadas olheiras violáceas debaixo do olhos. As únicas e raras ocasiões em que a soturna cabine deste maldito 747 se alegra um pouco, acontecem quando se realizam as fashion weeks de ambas cidades e que, por alguns dias, trazem para bordo alguns dos exemplares mais coloridos da in-crowd do mundo da alta moda internacional e com eles um pouco da galhardia e da ligeireza aparente que os caracterizam.

Sorte a minha dizia, pois aqui na Business First todos os lugares estão ocupados excepto este 4B que, livre ao meu lado, me permitirá dormir com alguma privacidade, sem ter que levar toda a noite com um tipo de boca aberta, halitando para cima de mim e ressonando sob o efeito, também ele, de uma qualquer droga sonífera. A chefe de cabine prepara-se finalmente para fechar a porta mas reparo agora que um último passageiro parece estar a entrar. È uma mulher e pelo canto do olho observo-a, esperançoso que passe por mim, siga lá para trás para as catacumbas escuras da Economy Class e me deixe livre esta preciosa e completamente vazia poltrona mais os seus extras tão úteis. As luzes de cabine foram já reduzidas para o descolar mas reparo de longe que é alta e magra e que usa os cabelos longos, apanhados num rabo-de-cavalo. Reparo também que caminha ligeira, em longos passos elegantes, colocando um pé em frente do outro riscando uma perfeita linha recta ao longo do corredor. Noto-lhe umas ancas generosas que dançando enchem o mesmo e uns braços longos que as fintam, flutuando ligeiros ao longo do corpo. Para meu desespero mas alguma curiosidade, apercebo-me que pára diante do meu 4B. Não a olho, mas quando se estica para colocar no compartimento superior o seu saco de viagem, confirmo-lhe um corpo esguio e bem feito. Só quando finalmente se senta ao meu lado e me cumprimenta com um grande sorriso aberto, é que reconheço que devo ao Deus omnipotente um agradecimento pela sua graça e favor. Conheço-a de nome. E vocês também. Chama-se Helena Christensen e é neste preciso momento a mais bela criatura à face da terra. Eu, na minha insignificância, o mais feliz de todos os passageiros, de todos os voos, de todos os aviões do planeta.

Tomamos agora um aperitivo em companhia, como velhos amigos. Trocamos palavras simpáticas com uma familiaridade mundana. Falamos de Milão, que conhece melhor que eu, de Itália e dos seus encantos e por fim, inevitavelmente, das vergonhas a que os seus obscenos políticos a sujeitam. Diz-me que viaja regularmente entre a Europa e os Estados Unidos e numa candura de princesa, confessa-me que por mais que tente, não consegue dormir em aviões. Demasiadas ervilhas debaixo do assento, imagino. Mentalmente, vou-me preparando para o mais estimulante tête-à-tête nocturno e aéreo da minha vida. Na realidade, preparo-me para jantar a sós e de seguida — porque ela não dormirá, sei-o agora — passar toda uma noite na companhia da mais bela top-model da minha juventude. Com aquela que, semi-nua, a preto e branco, e dançando numa praia de areia branca, me encheu a cabeça de inenarráveis fantasias. Aquela que depois de ter pisado todas as passerelles do mundo, vinha agora ali, sentar-se ao meu lado e dar-me a possibilidade de vingar sem piedade, a longa monotonia da minha adolescência Lisboeta.

A minha pretensão foi no entanto de pouca dura. Algum tempo depois de o avião descolar e para meu desespero, os três Unisons começam a fazer efeito. Sem que o consiga controlar, sinto as pálpebras a quererem-se desenrolar como velhas gelosias. Oiço a voz da minha nova amiga, a Helena, sempre mais longe. A meio de uma frase enrola-se-me a língua e esqueço-me do que estava para dizer. Olha-me paciente com um sorriso mas sinto que estou gradualmente a perder a sua atenção. Afinal ela é uma cosmopolita cidadã do mundo, sem tempo a perder com banalidades ou falta de savoir-faire. Mas já não há nada que eu possa fazer. São fortíssimas estas malditas pastilhas. Apercebo-me agora, com dificuldade, que a chefe de cabine me pergunta se desejo o Chicken breast ou o Steamed Halibut. Confundo-me. A sua cara já não apresenta contornos definidos. Trôpego, peço-lhe mais um sumo de tomate. Descuidado, entorno os cajus por cima do formosíssimo colo celestial da Helena e peço-lhe desculpa num grunhido inteligível e pastoso. Sinto a cabeça que lentamente se me apaga. Quero desculpar-me mas não consigo articular uma palavra que seja. As luzes à minha volta começam a tornar-se opacas. De repente tudo se extingue.

Are you OK? Abro os olhos. A cabine está envolta em penumbra. Todos dormem. Todos não, pois foi a Helena que me acordou com a sua voz suave. Devo estar a sonhar. O 4B está de novo vazio. A Helena está agora sentada ao meu colo. Tirou a camisola de gola alta que trazia vestida e  ficou apenas com um top branco que lhe deixa de fora o umbigo. Só agora reparo que endossa uns ligeiríssimos calções de seda às riscas e uns aderentes collants de renda. Endireito-me na cadeira. Preciso de saber. Jogo o tudo por tudo. – Helena darling? Would you please hit me really hard in the face? - A Helena parecia estar à espera deste meu pedido pois levanta-se imediatamente num movimento decidido. Olha para mim com um sorriso que aparenta algo de selvagem e levando a mão atrás, esbofeteia-me com violência. Rejubilo agradecido pois sinto a dor e o calor que me invadem a face e que me confirmam a realidade do momento. Sinto-me agora estranhamente vivo. Como nunca antes na minha vida, direi. Quando a Helena ganha balanço e se prepara para me desferrar uma segunda bofetada, ganho coragem, agarro-lhe o pulso e puxando-a para mim, abraço-a e beijo-a intensamente. Sem pudor. E esta, após alguma resistência inicial acaba por se deixar beijar. È bela assim abandonada ao prazer de um beijo. O corpo é firme. Um perfume de sal e sol na pele. É ainda mais bela, agora que, na proximidade do beijo, lhe vejo os dois olhos fundidos num só, que me olham num azul de fundo do mar. Sem que eu o deseje, liberta-se por fim do meu abraço e olha-me com um ar grave. - Let’s just get the hell out of here. You and me. What do you say? — Respondo-lhe que sim, igualmente grave. E subserviente. Com ela, neste momento, iria até ao fim do mundo se fosse preciso. Apercebo-me que tenho uma porta de emergência ao meu lado. Levanto a alavanca e abro-a sem pensar. A pressão do vento que entra repentino desfaz-lhe o rabo-de-cavalo. A luz das estrelas acende-lhe o rosto de uma cor avermelhada. De fogo. É agora uma deusa nórdica saída de uma opera de Wagner. — You go first! – grita-me numa voz sedutora sob o rumor ensurdecedor do vento e das turbinas. Com o coração aos pulos olho para ela e para a cabine uma ultima vez e salto confiante. E já no ar, vejo o avião que se afasta e a luz da pequena porta aberta que se extingue e a Helena que da janelinha do meu 4A me diz adeus com o mesmo olhar selvagem de antes.

Flutuo agora a mil e quinhentos pés de altitude e vejo Nova Iorque lá em baixo mais os seus milhares de luzes amarelas que na noite escura, definem os contornos dos seus cinco bairros. É linda a cidade vista daqui. Parece uma jóia minhota. Um daqueles brincos de filigrana dourada em forma de coração, que foi por alguém pousado ou esquecido sobre um xaile de lã escura. Considerando a fantasia destas minhas observações, sinto-me estranhamente despreocupado com a minha precária situação. De repente penso até que o melhor seria telefonar à minha assistente e cancelar as reuniões de Milão amanhã de manhã. Está-se bem aqui em cima, em queda livre. Parece-me até ouvir uma agradável música de fundo. Sim. É indiscutivelmente música. E à medida que me aproximo do solo vai-se tornando cada vez mais nítida. Vem ali de baixo, à direita, daquelas avenidas iluminadas à beira mar. Brooklyn parece-me.

Estupendos estes Unisons.

Voglio di più

Já te disse que tens que exigir mais da vida?
Não?
Então digo-to de novo.

Tens que exigir mais da vida.
Agora.
Exigir tudo.
Imediatamente.

Mas vais ter que acordar.
E levantar o rabo dessa cadeira.
E saber que só depende de ti
das tuas ideias,
da tua força,
e que não é fácil,
e que nunca te bastará.

Jovanotti — Voglio di più, LORENZO 1994

Where the hell are my eyes, Eugénia do ETGM? *

Regressava a casa. A pé. Exausto. Era noite. Ou talvez dia, já ninguém o sabe. Lá do alto, por cima do guarda-chuva, caía água pesada. Milanesa. Protónica. Carregada de óxidos. Daquela que deixa, no dia seguinte, desenhadas na capota dos automóveis, intricadas cornucópias de cinza e que converte os vidros das janelas em taipais opacos, de sépia e de ferrugem. Os passeios sempre húmidos da minha rua, que continua iluminada por antiquadas e gastas lâmpadas de néon e que de tão intermitentes emitem mais sombra que luz, tinham-se já esvaziado àquela hora tardia. Eles eram três. Vieram felinos, ali do lado do parque e no meu cansaço não os vi aproximar. Um encostou-me com violência contra uma parede. Um segundo, com uma mão, garrotou-me o pescoço enquanto que com a outra me bloqueou a testa, imobilizando-me completamente a cabeça. Ao terceiro, vi-lhe tirar do bolso um estranho instrumento metálico. Curvo. Medonho. E esse instrumento foi a última coisa que vi, ali mesmo em frente dos olhos, antes de perder os sentidos.

Recuperei a consciência sentado no chão, sob um resto ténue de chuva. Tocando a face senti com horror que me tinham esvaziado as órbitas e levado ambos os olhos. Tinham deixado tudo suturado com cura. Com artes de cirurgião. Para trás não tinham ficado quaisquer vestígios de sangue. Nem de dor. Apenas duas cavernas escuras, desprovidas de matéria e de memória.

Agora, aqui sentado a dedilhar este teclado com um par de olhos de nova geração, tento agarrar-me a memórias abstractas, sem rosto. Eu já tinha ouvido falar destes traficantes de órgãos. Sei que o fazem a soldo de Minoritários de elite, gente disposta a tudo para poder manter intacta a sua desesperada identidade humana. Tristemente, não me resta mais do que a esperança de que um dia, e faltam poucos pelo que dizem, caminhando pelas ruas desta corroída e triste cidade-mundo, possa frinalmente encontrar, na cara de alguém, um par de olhos que, pelas cores e memórias que projectam, possa reconhecer como meus.

Se isso acontecer, quem sabe o que farei…

“Un chien andalou” — Luis Buñuel, 1929

 * Eu sei onde mora essa tal de Madalena.