A Digressão (em planeamento) 02

           O plano da tournée destes vossos que se assinam Clear Cat Pebble Eyes continua em grande forma:  não desmerecendo o desmedido talento de VG para o poster do tour, e salvo se levantem vozes da banda em contrário, estaremos em vias de fechar contrato com os serviços profissionais  que assegurarão as fotos dos concertos e as imagens, senão para próximos cartazes, pelo menos para uma sumpimpa contra-capa dos primeiros álbuns.

              Estou também em condições de anunciar que a promoção além-fronteiras me parece garantida: a Rádio Bombolom de Bissau já está a mexer cordelinhos para incluir na sua play list diária os álbuns da banda: “As Árvores Morrem de Pé”, o primeiro, como quer VG, e até propostas em contrário, produzido postumamente por Kurt Weill, com arranjos de Edward Elgar, e o segundo, seguindo nosso vulcão JNA“Anything Goes”, talvez por Tony Williams ou Neil Peart.

               Agora reparo.  Só falta mesmo o conteúdo específico dos álbuns… e marcar ensaios. Mas tais serão pormenores de somenos.

               Isto vai ser um arraso!

A Digressão (em planeamento) 01

            Aos que só agora tiveram conhecimento deste lugar de almas bem vivas, e a todos os que desalmadamente se enterram connosco há algum tempo, informo ou relembro que este bando de Gente Morta tem uma banda: os Clear Cat Pebble Eyes ‚ em boa hora nascidos por mercê do nosso de imediato groupie e Fan Club President Vasco Grilo. E com um casting nada abaixo de extraordinário.        

              Tendo sido incumbida das funções de tour planner, e prontamente armada de mapas particulares  e cartografia geral, verifico que mal tenho de mexer uma palha para cumprir a missão.  Ora vejamos o ponto da situação: de acordo com as brilhantes indicações do nosso escolástico metafísico de serviço, esta banda vai ter um Verão de feira em feira, sem falhar a Ovibeja nem a oportunidade de chocalhantes aplausos. Como se sabe, é palco para lanzuda audiência cuja atenção é sempre díficil de cativar. Quem ganha a Ovibeja já nada tem a recear do mundo.

            Nem do mundo e nem da abertura do torneio de futebol ribeirinho para veteranos “As Árvores Morrem de Pé” - segundo a  pronta sugestão do apontado guitarrista PMS, especialista em Projecção de Almas (em Technicolor). As estatísticas denunciam público pouco caloroso, mas que habitualmente não atira garrafas para o palco.

 

                  Mais difíceis, mas não impossíveis de acompanhar, serão os concertos que por certo aqui terão lugar. Os Clear Cat Pebble Eyes já são dados como certos em Atlantis e Shangri-la, sem nunca esquecer Xanadu, e ainda nos castelos habitados pelos cavaleiros do Rei Artur; com Gulliver, arrancarão suspiros ou, quem sabe, corações, em Lilliput e Brobdingnag. Está também em agenda uma actuação especial em Frivola, ilha do Pacífico onde MSF já esteve em reperage.

               Estamos ainda a preparar equipamento especial para a viagem a Capillaria, país submarino onde a vertente masculina da banda fará furor, já que, como adverte ou promete nosso MSF, Capillaria é uma terra sem homens e de gigantescas mulheres louras. (As outras criaturinhas que por lá abundam não vêm agora nada ao caso, de certeza que este vai ser um concerto de comer e chorar por mais… e que vai fazer de nossos instrumentistas gente apta para vencer a maratona até debaixo de água).

             Parece-me que não corremos o risco de ir parar a Figlefia e muito menos iremos, mas com grande pena, a Abaton, luzente cidade sem lugar preciso no mapaTambém ainda não recebemos convite (por que será?) para Where-Nobody-Talks.

              Sem esmorecer, estamos entretanto a encetar ferozes negociações para o concerto de final de tournée que, Jesus ajude e a pontaria não falhe e um dueto da banda não se amofine, será na mais luminosa catedral da capital.  Se não correr de feição, sempre temos a Capela Sistina.

              O Rock in Rio que se cuide!

O Catorze

              Sempre quis ser bombeiro, desde pequenino “tinha um gosto medonho”. Desde pequenino foi pedreiro: “Com 8 anos  já ajudei a fazer a primeira igreja da Penha em Guimarães!“  Mas a gente tanto persegue os sonhos que os agarra. Aos 18 conseguiu. Era o nº 14 na escala. Quando tocava a fogo, largava o ofício de pedreiro e ía como uma flecha. O Catorze não tinha medo de nada.

              “A nossa vida de bombeiro é um romance: abandonar o trabalho e ter o gosto de ser o primeiro a chegar. Apanhar o primeiro carro era a primeira glória. Trazia as pessoas às costas para as salvar”.

              O incêndio na Pousada? Ainda era mosteiro. Teria sido vela acesa? O que é aquilo ali na encosta? Tocou a incêndio às duas da manhã. Dessa vez ficou tão queimado que ninguém o conhecia — “mas o queimar era uma ofensa menorzinha”.  Tinha noites de não ir à cama. Nunca alevantou um tostão do seguro, tinha luvas mas não as levava para os fogos. “O nosso ofício era morte ou gloria”.

               Fura-vidas, atravessou a segunda guerra a ganhar dinheiro com os pregos. Serralheiro, ferreiro, feirante, teve trabalhos vários. Mas bombeiro foi a vida inteira. Enquanto lho permitiram. 58 anos contados e medalhados, quadro honorário dos Voluntários de Guimarães. Os pais não o puseram na escola, mas acha que ser analfabeto nunca lhe prejudicou a vida: ninguém o enganava nas contas. Só não chegou foi a comandante dos bombeiros.       


               Quando o escutaram a minha amiga e o meu caderno, tinha noventa anos. “Tenho saudades de ser um homem feliz com as mulheres. Só estou arrependido de estar velho”.

 

Coisas do demónio

Não, não tem nada a ver, que eu saiba, com nosso PN. São só umas coisas para a nossa colecção: o início e o fim de um texto de página e meia de que gosto muito. A lima não é para quem quer.

           “Este é um conto breve. É mesmo brevíssimo. De resto, se não fosse breve, muitíssimo breve, correria o risco de não ser um conto. A obrigação principal dos contos, mais que dos homens, é conhecerem os seus limites.” 

(…)     “Porque, reconheçamo-lo, a brevidade é tudo. A brevidade permite contenção, prudência, reticência, pudor. O pudor é essencialmente uma virtude breve.”

“A brevidade porém isenta-nos de quaisquer perigos. Ora os perigos são, quase sempre, muito breves. Pelo que podemos concordar que este conto é brevíssimo.”


                                                                         CONTO BREVISSIMO, Jorge de Sena, 1961


O sapateiro da rainha

                  Não sei se me lembrei dele por causa da colecção de heróis que tem desfilado neste cemitério. Ou por ter passado há pouco pela pousada de Estremoz. O certo é que passei lá outras vezes e não me veio à lembrança. Mas desta vez encontrei o caderno onde o desenhei. E os esboços devolveram-me do século passado a cena daquela tarde quente de verão: duas raparigas a escutar um velho numa penumbra fresca de oficina.             

              Os riscos grossos de lápis de cera mostram sapatos, um gato a dormir, o banquinho com raízes, o mapa de linhas de quase cem anos que conduzem aos olhos dele. O rosto lembrava o de Borges (terão todos os cegos alguma semelhança?), e a voz suave formava tiradas de escritor, ele que pouco teria escrito na vida além das contas da sapataria.    

              Contava coisas do tempo em que se fazia testamento quando se ía a Lisboa. Em idade moça ninguém corria mais do que ele. Atravessou o século XX  “como um relógio que nunca precisou de corda”. Sei que disse assim, registei frases soltas enquanto lhe captava os movimentos. A ele que sem ver nos olhava com agrado e agradecimento por ouvintes tão atentas. Nunca quis ser operado ao ouvido por recusar uma anestesia “ali, mesmo ao pé do pensamento”. Não era a minha tarefa, mas irresistível fixar o que dizia — palavras muito usadas pareciam roupa nova.        

          O arranjo era este: a minha amiga escrevia, eu ilustrava (que alívio, nunca gostei de escrever. Quem me dera conseguir falar do mundo só por desenhos. Se tivesse continuado a tracejar talvez tivesse ganho mão). Bem, para aquela revista éramos a equipa com a proposta perfeita: escrever sobre as pousadas portuguesas através da voz e ilustração de uma figura da terra, de alguma forma ligada à história do edifício. Cruzar o herói-da-vila com o castelo-herói. 

         Ela, a minha amiga, agarra o mundo e escreve-o com imagens fortes e poéticas que as minhas aguarelas não alcançam. Essa arte da escrita aqueles homens não podiam conhecer. Nem precisavam. O sapateiro Joaquim e os filhos que lhe herdaram o negócio arregalaram os olhos e os sorrisos perante a bela morena que lhes entrou na loja a pedir uma entrevista. A minha amiga acrescentava à juventude e à simpatia efusivas a aura de estrela televisiva. E eu podia ficar na sombra como sempre gostei, calada e com o caderninho das cores.

          E aquela tarde escorreu encantada em lápis de cera e gatos preguiçosos e contos de homem antigo. Admirava-se de não ser preto, por ter sido criado a sopinhas de café. Mal começara a mexer e já fazia sapatinhos para bonecas. Calçou Estremoz inteira durante noventa anos. O castelo da Rainha Santa era a casa mais bonita e ele, respeitador, nunca lá tinha posto os pés. Como fazer a ligação entre o sapateiro e a pousada? Foi ele que a encontrou, linha contínua a saltar idades: se tivesse nascido no tempo da Rainha, tinha-lhe feito uns sapatos.

Iníciozix e finix

                    Aos inolvidáveis inícios de livros que este blog está a coleccionar, junto agora mais uma colecção que me acalentou longas e repetidas férias de verão, quando as férias eram férias e a repetição um prazer. Há um início de livro que, por mais repetido que fosse, ou por isso mesmo, abria caminho para gargalhadas fundas de cansar o peito e preparar a sesta: “Nous sommes en 50 avant Jésus-Christ. Toute la Gaule est occupée par les Romains… Toute? Non! Un village peuplé d’irréductibles Gaulois résiste encore et toujours à l’envahisseur. 

Astérix chez Rahazade

            E porque, ainda e sempre, o início e o fim aí são aliados, é imperioso que o nocturno banquete final aqui figure em destaque rimado com a matinal calmaria inicial da aldeia. Cenas irredutíveis a.c e d.c. (antes e depois da ceia). 

Astérix entre os belgas

              Fecha-se o círculo de conforto que retempera, o conhecido é que nos dá segurança, tudo está bem quando há javali, (ou o sumo de laranja que a mãe traz antes do sono da tarde ou o leite antes do sono da noite), antes que nova manhã e novo livro se abram pacíficos, como sempre, na nossa aldeia.

      Tudo tão igual neste início que Goscinny e Uderzo até se esqueceram de soltar o bardo desde o anterior banquete final…mas tinha que haver zaragata porque, por acaso, até é das cenas que a nossa Joana gosta mais.

Uma pedrada nunca vem só
       

A grande pedrada da Joana lembrou-me desse distante e próximo e mais que provável autor, ainda que ignorado e solitário como qualquer grande herói, de tão remotos e misteriosos círculos de pedra.

           E segundo rezam escritos a que tive acesso, cuja tradução não porei em causa, as pedras de Stonehenge tiveram origem não apenas no País de Gales como também na longínqua Gália. Logo, não tenho grande dúvidas de que o forte sentimento que terá impelido homens e mulheres de meios limitados para arrastar pesadas pedras terá tido o forte contributo desse homem generoso, praticamente desconhecido na nossa era, para ali as dispor com rigor e precisão, apontadas para onde devia ser e para deixar embasbacados os mais sapientes turistas desde então (mesmo os que faziam o homework com tempo). 

Mas para ele, como se vê, nada mais natural. 

            A corroborar as descrições dos escribas, existem documentos visuais que comprovam os factos. Naqueles tempos parece que já era numeroso o grupo de druidas reunido em torno dos círculos de pedra para futuros rituals.


Encontros imediatos

       Estava eu durante a tarde a folhear um dos meus livros preferidos quando dei de caras com nosso PN. Apanhado em pleno voo pela pena rápida e demoníaca de Delacroix. Está com ar de ir aprontar alguma.

                    E não é que aprontou mesmo? Já não lhe bastava ter ido desassossegar um dos mais distintos e lendários magos de todos os tempos. Agora até se atreve por uns inocentes subúrbios aguados de saias rodadas que tentei durante a mesma tarde. Foi quando me afastei da aguarela por uns momentos. Ao regressar, ele já estava instalado por entre flores e saias de belas raparigas saídas das linhas de Helberto Helder (que se podem ler neste blog, aqui uns posts mais abaixo).                  

                Nasceu de repente, sorrateiro sorriso briguento, sem pedir autorização. E desde quando precisa, perguntará? Pois sim, eu sei que surge onde e quando lhe dá na real gana. Mas agora foi apanhado e denunciado, só lhe resta dar sumiço ao seu sumido tridente…ou arrisca-se a levar com um Super Borrão em cima. O meu herói contra um vilão do piorio. (Contra Steven F. Seagal nunca me atreveria, muito menos contra Manuel S. Fonseca. Esses, aposto que antes de trocarem iniciais entre si, até trocavam as minhas!)

As estrelas amam,cantam sol e pássaros?

   Um poema para a Turmalina e para as outras raparigas belas belas         

                                                                      CANÇÃO


                             Muito belas flores vermelhas, azuis, amarelas.

                             Dizemos às raparigas: “Vamos passear entre elas.”

                             Vem o vento e move as flores belas, amarelas.

                             Quando dançam, as raparigas são como elas.

                             Umas são pequenas, outras são grandes flores abertas.

                             Os pássaros amam, e cantam sol e estrelas.

                             Doce é o odor das flores de tantas cores belas.

                             Mais doces são as raparigas belas belas

                             Mais doces que as flores vermelhas, azuis, amarelas.



                              Canção dos Yaquis, América do Norte, Versão de Herberto Hélder

                                  In Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, p. 172

Nem o céu é igual

          O conto que o PMS contou aqui abaixo deixou-me assim virada para dentro. Fui enfiar-me na Rosa do Mundo em busca de poemas do príncipio do mundo. A antologia mais bela e maior da Assírio & Alvim confortou-me: inclui até belissímos poemas esquimós. Mas o livro de papel bíblia abriu-se mágico neste que aqui segue à frente, e é este que tem de ser.

            Em busca de imagens para o poema entre as minhas fotos, encontrei céus de muitos países.

Cada céu podia ser de qualquer país? Talvez. Se trocasse os nomes às fotos, alguma vez um país reencontraria o seu céu? Ou ficaria um país com um chapéu de nuvens que não lhe servia?

Olho para estes céus todos enfileirados à minha frente. Se baralhasse as cartas, talvez ninguém desse por nada, talvez nenhum país notasse. Como aquelas coisas que são iguais em todos nós, os céus também. E no entanto nenhum céu é igual. E de repente. 


                                         E DE REPENTE É NOITE


                                         Cada um está só sobre o coração da terra

                                         Trespassado por um raio de sol:

                                          E de repente é noite.



                                   Salvatore Quasímodo, (1901 – 1968), Itália, trad Ernesto Sampaio,  

                                        in  Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, p. 1422

The bright side of life

“Always look on the bright side of life” é a minha música de trautear e assobiar preferida.

Uma canção de Eric Idle para A Vida de Brian dos Monty Python, de 1979.

Contagiou o herói meu Super Borrão Negro, ou vice-versa.

Parece que desde então é menina para ser cantada em grupo onde quer que um grupo se encontre, em carros do lixo, jogos de futebol, casamentos, baptizados, funerais ou afins. É música para acordar um morto, ou mesmo mais.

A Temperança

          A Temperança, desta vez sim, a sério, pelas linhas do outro primo que agora também insiste em ser publicado (primeiro não queria), depois de lhe ter descoberto a sebenta num baú poeirento lá em casa. O primo Rigoberto estava uns anos mais adiantado que o primo Roberto, quando era miúdo queria ser poeta declamador, agora é funcionário público, não se terá perdido tudo. Fez a redacção sobre a virtude pedida pelo professor (o tal que se chamava Manuel, S qualquer coisa, confirma o primo pelo telefone), fez a redacção, dizia, com dedicatória de rimas e retrato (qualquer semelhança com a figura do primo agora será mera coincidência).

A Temperança

                                                              Bicho baixote e anafado,                                                    

                                                        Mais que virtude, tem pecado.                                          

                                            Em equilíbrio forçado sobre arame mal atado               

                                               Segura por fio otário, é ela e o seu contrário.                

 

                                                         Quando já não pode comer mais, 

                                                       pede dieta aos demais comensais.

                                                  Querem que pensem que resiste à Gula

                                                          mas se descobrem fica fula.

 

                                                    Mostra tensa azia e pedra calcário,                         

                                                  Tem mesa vazia e doces no armário.                      

                                                    Moderadora de debate televisivo,                            

                                                   Vivacidades abate sem improviso.       

                 

                                                 Chamem lá o sizo, pachorra é preciso,

                                           Que não há paciência para mais abstinência. 

                                           Para virtude universal deixa muito a desejar,

                                      A modéstia já lhe rança, a Temperança tem pança. 

A Tempegança

          Não, não é engano ou gralha, nem gansa, foi mesmo assim que encontrei escrita a palavra, por alguém que não embirra com a temperança tanto como eu. Por absoluto acaso, num baú poeirento descobri umas sebentas de escola primária, com umas redacções de uns primos que vêm mesmo a calhar. Parece que tinham um professor que lhes dava umas redacções muito chatas para fazer sobre pecados e virtudes. Desconfio que se chamava Manuel, o professor, mas não quero estar a levantar falsos testemunhos.

A letra do primo Roberto é um pouco díficil de perceber, deixo aqui uma transcrição:

                                          Guedacção:  A Tempegança

A Tempegança é quando é dia de tempegague a gança. Eu gosto muinto. A minha mãe bótale muinta aguaguedente pela guela abaixo comá ti Custóida faz aos piguns e depois a minha mãe bota muintas coisas na panela com a gança depenada embaixo e batatas também e a gente depois come tudo e vinga-se da gança que ela também nos comia o bolicao e bicava-nos e tudo.

De sombras e outros heróis

            Quem responde por mim quando me assanho? O meu eu vilão só podia ser uma personagem de banda desenhada. O meu lado negro é às pintinhas. E, para meu rubor, já se encontra convenientemente retratado. É uma criatura selvagem de ar aparentemente inofensivo e por vezes até amoroso, como uma aturada e prolongada pesquisa científica fez o favor de documentar.

           Mas quando se zanga, sobretudo para defender os seus, não é de meias medidas. Nem meias falas nem grande falador. É uma fúria pegada que não deixa nada inteiro.

Para que não haja dúvidas e sirva de aviso a provocadores, vejamos em pormenor o que acontece aos alvos inimigos deste desmando enfurecido. 

              Mesmo que superiores em número e em força e pertencentes a uma espécie temível por catálogo e astuta por imposição da natureza, até os mais pintados são forçados a bater em retirada com o rabinho… ía dizer entre as pernas, mas parece-me que não seria a figura de estilo mais apropriada.

  

              Quanto ao herói, o meu lado brilhante é que é mesmo negro mas é só na cor. Tirando isso, é garoto risonho e bem disposto. Nem sempre encarado com sentido de humor, é certo. E se tardei nesta resposta ao desafio, não foi por demorar na busca, mas sim por não encontrar retratos do meu herói, que calculo demasiado rápido e discreto para se deixar apanhar. Logo, estive a tentar plasmá-lo de mansinho, não fosse ser vítima, por proximidade excessiva, das travessuras do meu Super Borrão Negro: o super herói que atinge mentirosos e malfeitores bem falantes e os borra de tinta negra fluorescente sempre que apanhados em falta.

       Estejam onde estiverem, não importa que cargo ocupem, splash!, não a sereia, mas tintados da cabeça aos pés. Tanto mais pretos quanto maior a finura do embuste. Imagino que este Super Borrão fizesse um figurão no parlamento, nos tribunais e demais púlpitos por aí fora. Mas deve andar ocupadissímo não sei onde, dava tanto jeito aqui mais à mão…Talvez o racismo não lhe achasse grande graça, ía andar tudo pretinho por aí, mas as lavandarias iriam facturar à farta, os produtos de banho esgotar nas prateleiras, as lojas de roupa não teriam mãos a medir, era um grande fomento ao consumo e dava cabo da crise num abrir e pingar tinta.

E depois, despede-se sempre a cantar: “Always look on the bright side of life! Taram, taram” 


           Agora, colada às palavras da Eugénia, a desafiadora, pergunto ao nosso Norton:
1. Pedro, quem é o seu menino mau? Quem responde por si quando arranha?
Pode escolher de um disco, de uma peça de teatro, da publicidade, só tem de ser público. E até pode uma menina má…
2. Se o Pedro Norton fosse um herói, ou mesmo um anti herói, quem seria?
Valem todos, desde o inventor do pião ao Gaston La Gaffe. E não esqueça: passe a outro e não ao mesmo. Estamos todos curiosos!

Experiência funda

Enquanto eu escavo em busca do meu dark dark side, aproxima-se de mim um turista:

 

- Pode tirar-me uma foto, por favor?

- Hum. Sim, claro. Quer com esta em especial?

- Não, é mesmo com todas as que puder…E já agora, se não se importa, para este lado também?

- Aqui está. Já agora, porquê o seu interesse no local?

- Fui coveiro, há uns anos.

- Escolha sua?

- Não, não tive escolha. Recusei o serviço militar, fui obrigado a trabalhar, mas foi o único emprego que encontrei na altura. Durou um ano inteiro

Cemitério de Montparnasse, Paris, tc

- Como foi a experiência?

- Funda. Tinha que cavar 1,80m por cada sepultura.

- Fugiu de umas trincheiras, arranjou outras.

- Mas não me enterrei nelas.

- O que lhe ficou desse tempo?

- Uma caveira. Ainda a tenho lá na sala.


Uma festa lá em baixo

 

          Estão frente a uma tabuleta com nomes e números. O diálogo ouve-se à distância, em sotaque americano cerrado. Segue tradução simultânea.

 

 - Olha quem está aqui, Charles Baudelaire, ah. E Jean-Paul Sartre!

- Olha para isto, Marguerite Duras! Io-nes-co! Até Samuel Beckett, dá para acreditar?

- Aaaah! E Serge Gainsbourg! E ali, Jean Seberg, que excitação!

- Mas como é que esta gente toda se encontra aqui no mesmo sítio?

- Deve ser uma festa pegada, lá em baixo.


Cemitério de Montparnasse, Paris, tc

Cemitério de Montparnasse, Paris, tc


Cinco presentes impossíveis

          São uns que eu há muito queria ter dado às minhas pessoas, mas foram amarelecendo impossíveis  desde a adolescência sem encontrar fita a condizer. E nem todos cabiam num bolso. Eram tantos. Ofereço agora estes. Sempre podem inventar-lhes outros usos.

Um rebuçado com sabor a beijo   

para tornar menos amargas as ausências

                            Cartas velejadoras   

que transportem o mar e as saudades dos marinheiros

 

Um lugar suspenso no tempo

para se ter todo o tempo para as coisas mais gostadas

                    Um tapete voante 

para o corpo acompanhar as viagens onde o espírito vagueia sozinho


      Um bicho duche 

para os banhos mais exóticos 

folhetim 2 — Sobre a água

Pegou na mão da menina e olhou em volta. Os outros passageiros já se sentavam na berma, ao pé do autocarro manco. Sem pneu para mudar, esperariam horas por boleia como de costume. Na estrada apinhada para Vaitheeswaram só passavam camiões coroados de gente.

A sua sombra alta projectava-se agora de tamanho igual à da menina. E de outra sombra ao lado. Algo se desconcertou em si antes de olhar. Pressentiu-lhe a presença, tocou-o antes de o tocar o almíscar voante do tecido. A mulher tinha uma ferida na fronte. Não falaram enquanto ele apressou o curativo. O sangue estancou num silêncio sem peso. A mão pequenina já sem medo a segurar a cor do sari da mãe.

— We go Nadi Jyotisha.

Queria apressar a ida. Mas aqui o tempo é uma roda furada. Um calor abafado de esponja. O coral de um sari que se lhe acende em perturbação. Uma mão pequenina de olhos fundos. A distância mede-se em tempo, duas dezenas de quilómetros vão a compasso desta caravana de carroças de búfalos domésticos que agora passa. Sobem para o curto espaço livre de uma, e daí para a confusão ordenada do caminho ao longo do rio Kaveri. O fluir do rio imita a corrente de gente, festa de buzinas pó animais. Sorri para o intervalo do aviso pintado em pedra na estrada, letras negras destacadas na cal: “Go home in piece, not in pieces”.

Acomodações feitas nos arredores do templo de Vaitheeswaram, no dia seguinte seguem em trio na direcção do santuário, no rasto dos peregrinos. O templo ergue-se circular e em pirâmide para cima e para baixo, repetido na água do lago em volta. Palácio borboleta líquida.

Esperam na fila às portas da biblioteca do templo. Imaginou-a sem as cortinas espessas das paredes, uma biblioteca de água. Onde encerrados durante séculos viviam destinos escritos em folhas de palmeira. A impressa herança dos sete sábios. Milhares de mapas Nadi à espera durante séculos. Todas as vidas de todos os habitantes do mundo. Não, de todos não. Apenas as de quem os procurava.

Na extensa fila encostam-se no corredor de pedra casais jovens de mãos suadas, sentam-se no chão estudantes de calcanhares nervosos, velhos de cores indecisas. A menina compenetrada alinha pauzinhos de madeira, a mulher-mãe borda em pano outrora branco o início de um símbolo impenetrável.

Horas grossas, inteiras, até chegar a vez deles. Demanda de dias inteiros. Primeiro deixar a impressão digital do polegar direito, os homens, do esquerdo, as mulheres. Voltar no outro dia, mais indicações, regressar num dia outro. Entre o farnel de arroz seco repartido que elas comiam com os dedos sobre pão redondo e molho vermelho picante, sem nunca o seguir para um restaurante, os rajás que lhes comprava ao vendedor da carrinha rosa choque, as orações no templo ao deus Shiva observadas em burburinho de flores e incenso. E esperar nas sombras de outra noite e outra.

Os tambores do templo soaram o Kathakali durante toda a última noite. Assistiram ao espectáculo em frente ao lago. A menina dormia no colo de coral da mulher-mãe, a mão pequenina a segurar o cabelo molhado sobre a testa. A ternura sobre a testa. Ela sabia. Elas sabiam. E esse conhecimento unido intimidava-o e confortava-o. Sustentava-lhe a espera e a busca. A inquietação. A urdidura do tempo abria-se em sequências de coroas de círculos sobre a pele. Vidas antes de vidas ressoavam com eles nos tambores da noite, nas máscaras pintadas e nas saias rodopiantes dos dançarinos sobre a água, nesta boca de silêncios sem sorriso. Nesta.

Insónia de tambores até amanhecer. Às portas da biblioteca de água descalçam os sapatos, elas entram por uma porta, ele por outra. Três homens sentados esperam numa luz de poeira húmida. O guru Nadi, profissão e barba branca hereditárias, traz de um recanto de estantes escondidas sete maços de folhas de palmeira. Irmanadas por corda gasta, preservadas em óleo de sangue de pavão. Espalha-as sobre a mesa. Irá ler as folhas em cântico tamil, soprar a energia dos canais que respiram o tempo.

Camisa de linho bege empapada em suor, ele adia o corpo como antes de uma radiografia. O guru leitor das barbas não se apressa, ainda não tem certezas. Faz perguntas que o tradutor calvo transporta em inglês. Ao lado, o astrólogo consulente aguarda para comprovar se o mapa desenhado ali defronte é o do cliente. Falta confirmar iniciais de letras, esperar o último jogo sim ou não. “You have two sons?” Yes. “Your mother’s name begins with an S?” Yes. “Your father’s name begins with an A?” Yes. “Your name begins with an E?” No. Guru e astrólogo sussuram em dialecto, reviram as folhas dos sete maços, buscam. Alvoroço, abanam as cabeças, o tradutor em ponte: “Estes maços eram a nossa derradeira hipótese. As tuas folhas não estão nesta biblioteca. Mas sabemos onde podes encontrar o descendente de um dos sete sábios. É lá que está o que procuras”.

O guru leitor rabiscou a lápis duas palavras num canto de papel de embrulho. Deu-lho. Camisa beje em desalinho, ele levantou-se e decifrou lentamente cada letra. Estremeceu.

- Não pode ser. 

Folhetim tim tim

O CAÇADOR DE TEMPO iniciou sua demanda com Eugénia de Vasconcellos e suas venturas podem ser relidas aqui ao lado, em nobilíssimo Cadavre Exquis de páginas criadas pelo benemérito Francisco Feijó Delgado.

Antes de soar a meia-noite no relógio da catedral, dling dlong, e se antes não me transformar eu em abóbora, virá aqui alojar-se o segundo capítulo do folhetim de nosso blogue.  Tremei, ó gentes (que eu também).

O Batô de Rambô e o Helicô

          Sahara, por tc

Atravessando o deserto do sahara, o sol estava quente e queimou a minha cara, ai que caloo-ooo—ooô. Esfrego os braços para aquecer, quem escreveu esta canção nunca esteve no deserto em Janeiro. O frio é tanto que nem se consegue dormir à noite na tenda.

             E quem disse que o deserto é silencioso não ouviu o barulho dos motores repetido noites inteiras, mecânicos a reparar carros e motos, a seguir os aviões a deslocar uma invasora cidade móvel deste para outro lugar vazio, cheio de areia. 

             Rompia o século XXI, passagem para o ano 2000 pela fresquinha e eu no deserto, pronta para um inaugural Paris-Dakar-Cairo, em cobertura jornalística. (mixed feelings about it, poderia escrever tantos contras como prós sobre o rally, não será neste texto). 

              Já antes tinha sido enlaçada pelo encanto do deserto, outro deserto, muito mais longe e muito mais antes de reportar sobre o rally. Recebi mais este deserto de braços abertos, amaldiçoei várias vezes tanta abertura, maldição e desejo, repeti a experiência três Janeiros seguidos.

              Como jornalista, podia usar dos helicópteros da organização francesa para sobrevoar a corrida. Os cenários eram grandiosos, a leitura de um país feita de cima e de perto cria novos inventários de olhares. Países inteiros estendidos, dengosos, a deixar-se mirar por uma aranha voadora. 

               É a geologia que conta a História. Percebe-se, por exemplo, onde o corpo do mar deixou marcas: assentou na rocha como um amante apanhado em flagrante… milhões de anos depois. Pisgou-se pela calada, deixou na Mauritânia uma extensa praia cheia de vestígios.

               Assim num click de foto, pode parecer invejante a viagem de helicóptero. Mas não era bem um passeio. Eram 14 horas. Saíamos antes de o sol nascer, voltávamos quase escuro. Entre voos a filmar e paragens para captar em terra a passagem de carros e motos, eram horas de espera. Uma seca. Localização definitivamente apropriada para o termo.

 

               Era eu, o piloto e o operador de câmara franceses. E por vezes alguns miúdos que chegavam não se sabe de que tufo de erva, à espera de um cadeau qualquer. Foi durante uma dessas secas que tirei um poema da cartola.

               Fiz cara de barco, a minha melhor voz de água e tempestade. E recitei-lhes de cor as quadras de “Le Bateau Ivre” de Rimbaud que guardo num meu canto esquerdo.

               Reacção? Racção. Ofereceram-me metade da de combate deles, chocolate e tudo. Gesto magnânimo para gente de desporto que nunca teria ouvido falar de Natália Correia. Faria eu tanto se ouvisse um estrangeiro em Pessoa no deserto? Não tínhamos conversado muito até aí e falamos bastante depois.  

                E não voltei a vê-los por uma semana. Até ao dia em que, da Líbia para o Egipto, eu devia seguir no Antonov de serviço, como todos os jornalistas. Só havia cinco helicópteros, lugares para penduras eram poucos e muito concorridos. Mas eu queria tanto conhecer o rosto do Egipto de cima. Queria tanto sobrevoar o Nilo. 

                Eu sei que tinha tranças e sorriso. Mas havia outras que também. 

                E gosto de pensar que foi o Bateau de Rimbaud que me levou.  

                 Se o meu sobrinho um dia me perguntar para que serve a poesia, já posso responder-lhe:

                — Serve, Afonso, para andar de helicóptero. E comer chocolates.