Um sonho no deserto

              Olhos azuis inesperados na pele morena, sorriso tímido, cabelo espetado, baixo e curvado. Não fosse pela delicadeza de expressão e teria um aspecto mais aproximado de um carregador de bagagens que propriamente de um príncipe das areias. “Hi, my name is Kamal, I have something to show you that you should see”. Em inglês? Em terra franco-árabe falava-me em inglês bem tratado?

             Contou-me uma história extravagante. O meu cameraman estava ao lado e foi ouvindo comigo. Ficamos ambos de olhos arregalados.  Três anos de competições motorizadas concorriam para um bom acervo de histórias, mas esta estava no pódium. O homem insistia para que o acompanhassemos. Estavámos a menos de 15 minutos de distância. Se eu tivesse bigode, teria afinado as pontas. Seria um engodo? Poderia querer raptar-nos? Não, se fosse isso o título deste post seria outro.

  

               Kamal tinha um crachá de convidado vip, o cameraman tinha-o visto em conversa com os organizadores franceses (só muito mais tarde perceberia porquê). Mas algo nele me inspirava confiança.

             Já era noite escura. Kamal convidou-nos para ir com ele num jipe possante. Avisámos alguns colegas de que íamos sair do acampamento, e seguimos deserto adentro. Que verdade haveria nas palavras dele? 

No deserto

               

           Era a melhor hora do dia. Ou antes, a melhor para quem tinha terminado o trabalho. Podia descansar na asa dos aviões, beber uma cerveja a saborear o poente sobre as dunas. Isto se estivesse a olhar para o lado de lá. Quem olhasse para o lado de cá só veria o deserto menos deserto de sempre: aviões aos tropeções, tendas às plantações, ao longe carros e motos em mar estridente de mecânicos: mais um final de dia tranquilo no Rally Paris-Dakar.   

  

           Mas para mim era a altura de maior correria. Depois das últimas entrevistas, correr para o avião de edição, onde trabalhavam umas 30 equipas de televisão ao mesmo tempo, rezar para que as cassetes de pool que eu precisava não estivessem a ser usadas, e estavam sempre, tirar finalmente os tempos das imagens, escrever o texto, editar com um francês resmungão, ele sempre a dizer “ça va pas, ça va pas”, eu a dizer “vai dar sim senhor”, acabar a peça em cima do tempo de envio, mostrar-lhe a língua, correr para o satélite, rezar para que o sinal funcionasse (acho que nunca me senti tão crente como nas duas ou três semanas de duração da competição, nos três Janeiros que por lá andei), enviar a peça até ao último segundo de satélite, e cair para o lado com um fanico antes de ser.

            Foi então que ele apareceu. 

Nunca: mais um presente do ramo de poemas

Há tantas maneiras de falar do tempo. Mas apeteceu-me deixar aqui esta fórmula feliz do poeta. Um sussurrado segredo sibilante que todos conhecemos e todos esquecemos.  Ou parecemos esquecer.

                                                                 CANÇÃO

                                                         O rio passa, passa

                                                         e nunca cessa.

                                                         O vento passa, passa

                                                         e nunca cessa.

                                                         A vida passa:

                                                         nunca regressa.



                       Versão de herberto Hélder, de canção azteca

                       in Rosa do Mundo — 2001 Poemas para o Futuro, Ed. Assírio & Alvim

Oculto Oriente: Outro presente de um ramo de poemas

                   

   

                                                                        CANÇÃO

                                                     Perdi uma pérola na erva.

                                                     Pérola perdida que guarda o seu oculto oriente.

                                                     — O amor àquela que amo um dia se perderá:

                                                    Pérola de orvalho que morre e que fulgura.

 

 

                                 Versão de Herberto Helder, de poema de origem indonésia

                                in  Rosa do Mundo — 2001 Poemas para o futuro,  Ed.Assírio e Alvim



Hermínio Monteiro

      Ou um retrato feito de livros  (1951 – 2001).      

           Tenho uma dívida para com ele. Enorme.

           O trabalho dos editores não se vê, é lá atrás. Não temos deles consciência. Não lhes imaginamos a presença dilecta, discreta, constante. Mas o manobrar invisível do Hermínio deixou marcas. Numa vida entre livros e em defesa dos autores, criou condições
para novos poetas se firmarem, aconchegou os consagrados.

          Sem ele, eu não teria conhecido a obra de Herberto Helder. O estremeção abanão que é Herberto Helder. E conheceria pouco Eugénio de Andrade, António Maria Lisboa, Alexandre O’Neil, Al Berto, Mário Cesariny. Tantos mais. A dele era uma casa de poetas. E os livros da Assírio & Alvim sempre foram os mais bonitos. Nas minhas estantes, os mais folheados. A avidez com que se sorve um livro bonito dá uma bebedeira maior.
          Deixou-me esta dívida para com ele. Enorme. E nunca lhe disse.

          

          O maior orgulho de Hermínio terá sido a publicação, em 2001, de ”Rosa do Mundo — 2001 Poemas para o futuro”, antologia poética universal. Não sei se é a maior, é a mais abrangente que conheço: com vozes de todas as épocas, de uma ponta à outra do globo,
vertidas para português pelos seus poetas.
         Deu-me um olhar de botas de sete léguas. Sem ele não teria imaginado os cânticos de gente antiga tão parecida com a de hoje. Senti-me próxima de tribos índias, aztecas, indonésias, como se descessem as escadas comigo. Como a escutar-lhes a música em cada leitura.

         É uma herança que nos deixou, o último fôlego, mais uma vitória contra a morte: publicou-a em Maio, dois meses depois deixou-nos.

          

           Se lembrasse o Hermínio apenas por essa entrega de papel, já seria muito. Mas conheci-o, ainda que escassamente, entre livraria e trabalho, recitais de poesia e boa comida. E parece-me que até o trabalho era para ele todo afectos. Ficaram-me fundo as bochechas amáveis, a ternura do sotaque transmontano que nunca perdeu.
           Acima de tudo: era um homem bom.
           Tenho esta dívida para com ele. Enorme. E nunca lhe tinha dito.


            E por tudo isso gosto de escrever o nome dele com força.

            Num bloco a vincar as páginas seguintes, como tinta invisível: Manuel Hermínio Monteiro.                                                                                                                      

Palácio aquático: um presente

               Andei por campos brancos, muito pretos.  A colher ramos de poemas floridos. Para oferecer. Não por acaso, nunca por acaso, alguns tinham marcado a fogo as iniciais HH. Trouxe alguns para esta nossa casa acima e abaixo do chão.

 

                                                                      CANÇÃO

                                         A terra é um palácio que olha para cima,

                                        O céu é um palácio que olha para baixo.

                                        - Passarei por cima de todas as águas,

                                        em busca da mulher sete vezes tão bela.

                                        E se o rei se diverte com as suas terras todas,

                                        Eu divirto-me feliz com as filhas dos homens.

 

 

                                       Versão de Herberto Helder, de canção de Madagáscar

                                        In Rosa do Mundo, antologia de poemas universais

O passatempo

     O ringue está pronto. Os homens fazem as suas apostas. Os jogadores entram em campo.

             — Anda cá, que te depeno!, neste contexto não são tiradas de banda desenhada. As lutas de galos em Portugal são ilegais. Em Timor, a luta pelos direitos humanos demorou a ser reconhecida. A luta pelos direitos dos animais talvez demore mais. Entretanto, os animais têm o direito de ganhar. 

timor, 2002, tc

            Nos poucos livros sobre Timor, faz-se uma curta referência a este “passatempo favorito” do povo. Nas províncias de Timor-leste, este é também um intenso jogo de apostas.

            Vencedor e seguidores levam dinheiro para casa, o perdedor fica com frango na púcara. 

Os galos e os meninos

            Nada de confusões. Em Timor, as meninas, que acarinham as galinhas, serão apenas uma cópia-miniatura dos pais, que exibem os galinhos. 

mascote, timor, tc

mascote, timor, tc
















São os galos que se adaptam às vestes dos donos, ou são os donos que gostam de prolongar as cores dos seus galos? Donos-imitadores ou galos-camaleões?


A menina e a galinha


meninas, timor-leste, tc

Poderia ser esta a imagem que falta no post de nosso domingueiro filósofo aqui abaixo? De quantos volteios linguísticos se faz, tentadora, a nossa língua? 


Ela aí vem

Liquiçá, 21 Maio 2002

                 Mãos postas em benção, Nossa Senhora sai à rua em Liquiçá. Carregada em braços pelos Liurais, chefes de tribo. No dia anterior tinham feito breves discursos entusiásticos no palco da festa da independência, agora vergam-se sob o peso da Senhora. 

Os Liurais de Liquiçá

Os Liurais de Liquiçá















Envolta em cachecóis timorenses: a cada volta do caminho, as mulheres que esperam o passar da procissão vão oferecendo à Santa o enfeite-aconchego que trazem ao pescoço. Não sei se no final a Senhora Deles ainda se via, de tantas as oferendas.

Liquiçá, 21 Maio 2002

As mulheres e os anjinhos entoam cânticos lentos, os Liurais lançam-se em danças tribais ritmadas.  Misturam-se sons  de ritos tradicionais timorenses com outros de letras portuguesas católicas, heranças possíveis de missionários lusos. E cascos de cavalos.

(Sem mini-de-filmar, não fiquei com nada gravado, a não ser na mente: seria a música que poderia oferecer ao Diogo hoje aniversariante. Assim, só posso um filme estático e mudo, Diogo - mas eram sons muito bonitos). 

                                                         

           A história desta metade de ilha conta mais de 400 anos de domínio colonial português; três anos de ocupação japonesa durante a II Guerra Mundial; 24 de anexação indonésia, que terá resultado em cerca de 200 mil mortos.

Apesar, ou por causa, do esforço islamizante indonésio, a fé cristã sobrevive. Mais de 90 por cento da população é católica. 


                          Há manifestações de fé diárias, nas missas, ou em dias marcados como as procissões.  Sejam elas conjugadas com expressões animistas ou outras,  são, acima de tudo, cerimónias de espiritualidade intensa.  E mostram que uma forte marca cultural timorense persiste, apesar das violentas e prolongadas interferências exteriores. 

A espera


A caminho de Liquiçá

Cedo o caminho começou a ficar atravancado. Não estava a imaginar este cenário. Serão pouco mais de 60 km entre Dili e Liquiçá, pela estrada estreita construída pelos portugueses. Mas com tanta gente e carro que se demoram mais de duas horas a chegar.

Saí do carro onde ía à boleia e sigo a pé pela estrada. Metro a metro há canas floridas a marcar o caminho, gente à espera debaixo das árvores ou em tectos improvisados.
Um homem vem a caminho lentamente. Quando me vê a tirar fotos, começa a correr para que a próxima já contenha o pequeno elemento mais importante.
A meio do caminho, cruzo-me com um grupo de militares portugueses, da missão de manutenção de paz do território, que se mantinha em Timor-Leste nesse Maio de 2002. O que segue à frente tem um nome que parece caído do céu para a ocasião.

                                     Chama-se Ressurreição.


Dia de festa

              É um país que sopra as velas. Timor-leste nasceu a 20 de Maio de 2002. E parece que a ilha inteira desceu a Díli para fazer nas ruas a festa da indepedência. Foi assim há 8 anos.

Dili, 20 Maio 2002, tc

              Eu andava nas ruas com uma mini-câmara de filmar, pessoas com mais de 60 anos vinham ter comigo e queriam gravar declarações patrióticas em português quase fluente. O que tinham sofrido para viver aquele dia. O valor de empunhar uma bandeira e exibi-la sem medo.

Díli, 20 Maio 2002, tc

      Os jovens só falavam o bahasa indonésio, mas levantavam as cores do país como um coração ao alto.

Timor-leste, 20 Maio 2002

             A máquina de filmar desmaiou com a humidade. As máquinas das fotos não. Tinha levado uma polaroid e andei a oferecer quadradinhos a todas as famílias que pude. Muitos nunca se tinham visto num retrato. Riram muito quando se viram a aparecer lentamente no cartão brilhante.

Díli, 20 Maio 2002, tc

E ficaram com um registo em papel deste dia, que há-de, espero, desbotar mais cedo que a memória.

                 (E se as que vos mostro parecem já esborratadas é porque em 2002 o digital para mim não existia, o scanner também não, e estas são fotos de fotos, duplicadas a partir do meu álbum de recordações). 

                  O que sobreviverá deste dia nestas pessoas?

O amanhecer no Ramelau #05


             Um dia e meio de voo. Lisboa, Londres, Singapura, Indonésia. Em Bali, muita gente no aeroporto. A ocasião é de enchentes. À espera do voo para Díli, encontro um jornalista português da velha guarda que admiro e gosto muito. É uma das minhas referências e pai de dois amigos meus. Presença frequente em Timor desde a invasão indonésia, não podia faltar na data máxima que se aproxima.

             Estou de férias, mas carregada de material fotográfico e uma pequena câmara de filmar. Quero registar tudo o que se vai passar. Se puder, também o regresso do Adelino.

             Quando sobrevoamos a ilha do crocodilo, espreita pela janela, aponta e nomeia com entusiasmo os sítios que reconhece. Depois encosta-se, a voz emociona-se:

             — Timor é bonito. E eu já vi coisas muito bonitas. Mas quando casei, o que queria oferecer à minha mulher era um amanhecer no pico do Ramelau.

O amanhecer no Ramelau #04

           Do outro lado da linha há um silêncio humedecido:

           — Vais para Timor?

          — Vou, pai. Não posso faltar ao grande acontecimento. Já perdi demais. Agora é a História a nascer. E é a sua história. Quero fotografar outra vez as suas fotografias, 40 anos depois. Acha que vou conseguir encontrar os sítios?

            Eu a distraí-lo com retórica. Percebo que se senta. Não é só pela convocação de recordações. Sei que sou uma filha imprópria para pais pacatos. Além de preferir nas férias sítios que as agências de viagem não recomendam, já suportaram comigo um catálogo de sarilhos no Médio Oriente, uma ameaça terrorista no Níger, dois golpes de estado na Guiné. Ía sempre em missão de paz, saía (quase) sempre emissão guerreira. Mas foi em trabalho, papá, que podia eu fazer?

            O pai suspira. Entende que esta viagem também será trabalho, não lhe retiro a ilusão. Quero que se concentre na minha vontade de lhe oferecer uma memória refrescada a cores. E pela primeira vez, agora, conta-me alguns episódios da experiência timorense. No primeiro grupo de militares destacados, em 1959. Recebem um obscuro título lírico: Companhia de Caçadores? Mais de dois anos em Díli. Aileu, Ermera, as montanhas. O que escolhe para relatar são encontros com nativos, missões de charme, oferendas, jangadas de pescadores, marchas na floresta. Como se abrisse um poço de ternura. E memórias turísticas.  

             - Mas de tudo, sabes, não há nada mais bonito do que…

             - Eu sei, pai, eu lembro-me.

O amanhecer no Ramelau #03

              Nunca consegui desatar-lhe os silêncios sobre esse tempo em que Portugal se estendia do Minho a Timor. Ao longo dos anos, fui tentando com viagens preencher alguns espaços em branco. Não era atitude consciente. Mesmo sem planear conheci, além da minha África, quase toda aquela onde ele esteve. Nem por isso me falou dela. Até me faltar, sem Angola, apenas o país mais longínquo no seu percurso. E o mais enigmático.

              300 km de distância separam-nos agora. Com telefone separam-nos três segundos:

              “Pai? Desta vez tem mesmo de ser. Vou a Timor”.

O amanhecer no Ramelau #02

           Já aqui o disse: tudo o que conheci da guerra foram os intervalos.

           Não disse: E as fotografias (um outro nome para intervalos?)

           Tão pequeninas que quase era preciso lupa para reconhecer as pessoas nelas. Chamava-lhe as provas. Mais pareciam pistas, traços de passagem. Algumas em álbuns, outras em envelopes, raras indicavam lugar ou data. Grupos fardados, companheiros de bicicleta, ele rodeado de meninos, uma igreja com mar. Há uma com duas mulheres de vestidos floridos, a minha mãe enervava-se sempre que a descobria repetida em mais um envelope. “Guarda essa, ainda se perde…” Atrás, a tinta permanente: Aileu, 1960. Nessa data ainda faltava muito para se casarem. Mas os ciúmes conhecerão datas? 

            Naqueles dias, eu pegava nos quadrados a preto e branco e fazia um aeroporto e este quadrado aqui já era um avião a levantar, e outro era um pato e outro um lago, e mais outro um avental para uma menina desenhada a lápis.   

            Não havia quadrado para a frase mais repetida, “O amanhecer no Ramelau foi das coisas mais bonitas que vi na vida”, mas é aquele que lembro mais nítido. Letra a letra, para cada uma um degrau de sol sem fim à vista. As outras eram fotografias sem legenda, o Ramelau era uma legenda sem fotografia.          

O amanhecer no Ramelau # 01

            Ele fica quieto, numa terra que é só dele, horizonte no olhar. Tantas vezes. ­Conheço-lhe desde sempre este olhar mudo. O mar em frente protege-o: quem não se embala a olhar o mar? Mas às vezes o mar em frente é de pinheiros ou laranjeiras ou hera na parede. E o mesmo olhar.

          Da sua involuntária geografia viajada nunca falou senão por episódios anedóticos e definitivos. Tantas vezes olhei os mapas a desenhar sem caneta as linhas por onde os navios deviam ter passado. E os portos onde o teriam deixado.

          Tentei adivinhar-lhe os passos de botas cardadas, as pernas camufladas, os medos. Ele dizia sempre: a guerra não é para meninas. E tudo o que conheci da guerra foram os intervalos.

          Desses nunca esqueci um olhar nascente e a frase repetida:

         — O amanhecer no Ramelau foi das coisas mais bonitas que já vi na vida.



António Gedeão

           Foi por causa de um poema. Um sozinho. Quando o recito em voz alta, muito convicta, como quem conta uma história, extraio alguns sorrisos e perplexidades ( — que terá visto ela nisto?). Acho que nunca encontrei ninguém que o tivesse lido ou escutado, ou se lembrasse dele. Eu sei que é um poema curtinho e menor, comparado com os outros dele que tantas vezes se ouviram e foram cantados. Tantas vezes que se tornaram banais.

             Não foi por causa da edição da Poesia Completa, com desenhos de Júlio Pomar (que continua firme cá em casa no lugar de uma partitura de música). Gosto tanto desta edição, os desenhos que não foram feitos para estes poemas somam-lhes tanto. Conheci-o em edição prosaica e, na altura pré-adolescente em que descobri a escrita de António Gedeão, aquelas pontes poéticas entre ciência e vida comum abanaram-me. O segredo científico da lágrima era o cloreto de sódio, e assim se inutilizava o racismo; no íntimo do sonho estava a cisão do átomo, o radar, a geradora, o foguetão que desembarca na superfície lunar, liguei o poema ao Tintin, e ir dormir era a certeza de grandes aventuras sonhadas.

             Nunca soube nem fazia ideia, na altura em que li, de quem eram os Eles que não sabem nem sonham que o sonho comanda a vida da “Pedra Filosofal” de 1956. Nunca imaginei o poema como bandeira de luta para a geração reprimida, um tão aparentemente doce a dar força aos que se atormentavam com uma ditadura e guerra colonial intermináveis.  E durante a adolescência acabei por embirrar com as canções feitas para os poemas, com as rimas, com isto ou aquilo.

               Também demorei a saber que era Rómulo de Carvalho, cientista, professor, quem escrevia com outra assinatura. Chamou ao Homem um animal aflito e publicou o primeiro livro apenas aos 50 anos. E reencontrei-o nesta edição do ano da morte de António Gedeão, 1997, e reconciliei-me. Voltei a comover-me com os poemas que me tinham tocado aos 10 anos. E revi aquele, velho amigo, que tanto me surpreendeu naquele tempo.

António Gedeão, 1967

              É por causa deste texto que aqui convoco o poeta. O poema do poste revelou-me o que mais nenhum conseguiu: a descoberta científica dos locais secretos onde se escondem os dragões. E a cor verdadeira dos terríveis bichos: entre o ferro e a tinta verde, era uma cor muito difícil de fazer, porque fugia, rutilante-cintilante. Lembro-me de tentar desenhos elaborados das escamas e da cauda pontiaguda e sem fim. E de ter passado a olhar com um respeito muito alto para os postes.

              Não me safei: mais de uma vez distraí-me em busca de flores que não estavam lá e esbarrei no poste. E os embates comprovaram-me sempre a verdade do poema: o dragão escondido lançava-me fogo intenso na testa, antes de desaparecer, rutilante-cintilante.


                         Teresa  Conceição                                                                              

O poste e o dragão

           É um delicado, científico e poético lança-chamas que está quase a nascer-morrer aqui mesmo ao lado. De ferro e tinta verde. Podia chamá-lo Podrageão ou Drageoste. Podia, mas não servia de nada. Quem será?

A Digressão 03

                Indo eu, indo eu, à procura de veículo para transporte da Banda durante o tour…

                …encontrei esta Tata, à saída de Katmandu, no caminho para Lucknow (indício sem dúvida auspicioso). Inspiradora de amorosas sinfonias e canções, espaçosa quanto baste para acomodar alegres baixistas, trompetes infernais, tamboretes e vulcões. Contando que a metafísica não ocupe muito espaço, que os Coros Celestiais não se encham de barrigas de freira, e que o fogo de artifício vá dando brado pelo caminho. Além disso, se chover e precisarmos de tecto, poderemos sem dúvida contar com eugeniais feitiços para afastar gotas indesejáveis.

              Quanto à decoração, pode sempre alterar-se a ordem dos factores, acrescentar interrogações…ou ultrapassá-la. Pela direita, pois claro.

             E seguir em frente e procurar novo pópó, porque não?

            Até porque não estava à espera do tamanho e da quantidade de instrumentos tocados por nosso Ruy e Trio Vasconcelllos, descobertos aqui  mais abaixo por nosso VG. Mas Vasco, onde é que se arranja espaço para um Espacial Gerador Harmónico ou uma Máquina de Ressonância Sequencial, ou mesmo para uma Harpa Rotativa? Para já não falar do Radar Acústico (acho que vou ter de requerer um aumento para o meu orçamento ilimitado!)

               O concurso para transporte da Banda está pois aberto: aceitam-se inscrições.