O passatempo

     O ringue está pronto. Os homens fazem as suas apostas. Os jogadores entram em campo.

             — Anda cá, que te depeno!, neste contexto não são tiradas de banda desenhada. As lutas de galos em Portugal são ilegais. Em Timor, a luta pelos direitos humanos demorou a ser reconhecida. A luta pelos direitos dos animais talvez demore mais. Entretanto, os animais têm o direito de ganhar. 

timor, 2002, tc

            Nos poucos livros sobre Timor, faz-se uma curta referência a este “passatempo favorito” do povo. Nas províncias de Timor-leste, este é também um intenso jogo de apostas.

            Vencedor e seguidores levam dinheiro para casa, o perdedor fica com frango na púcara. 

Os galos e os meninos

            Nada de confusões. Em Timor, as meninas, que acarinham as galinhas, serão apenas uma cópia-miniatura dos pais, que exibem os galinhos. 

mascote, timor, tc

mascote, timor, tc
















São os galos que se adaptam às vestes dos donos, ou são os donos que gostam de prolongar as cores dos seus galos? Donos-imitadores ou galos-camaleões?


A menina e a galinha


meninas, timor-leste, tc

Poderia ser esta a imagem que falta no post de nosso domingueiro filósofo aqui abaixo? De quantos volteios linguísticos se faz, tentadora, a nossa língua? 


Ela aí vem

Liquiçá, 21 Maio 2002

                 Mãos postas em benção, Nossa Senhora sai à rua em Liquiçá. Carregada em braços pelos Liurais, chefes de tribo. No dia anterior tinham feito breves discursos entusiásticos no palco da festa da independência, agora vergam-se sob o peso da Senhora. 

Os Liurais de Liquiçá

Os Liurais de Liquiçá















Envolta em cachecóis timorenses: a cada volta do caminho, as mulheres que esperam o passar da procissão vão oferecendo à Santa o enfeite-aconchego que trazem ao pescoço. Não sei se no final a Senhora Deles ainda se via, de tantas as oferendas.

Liquiçá, 21 Maio 2002

As mulheres e os anjinhos entoam cânticos lentos, os Liurais lançam-se em danças tribais ritmadas.  Misturam-se sons  de ritos tradicionais timorenses com outros de letras portuguesas católicas, heranças possíveis de missionários lusos. E cascos de cavalos.

(Sem mini-de-filmar, não fiquei com nada gravado, a não ser na mente: seria a música que poderia oferecer ao Diogo hoje aniversariante. Assim, só posso um filme estático e mudo, Diogo - mas eram sons muito bonitos). 

                                                         

           A história desta metade de ilha conta mais de 400 anos de domínio colonial português; três anos de ocupação japonesa durante a II Guerra Mundial; 24 de anexação indonésia, que terá resultado em cerca de 200 mil mortos.

Apesar, ou por causa, do esforço islamizante indonésio, a fé cristã sobrevive. Mais de 90 por cento da população é católica. 


                          Há manifestações de fé diárias, nas missas, ou em dias marcados como as procissões.  Sejam elas conjugadas com expressões animistas ou outras,  são, acima de tudo, cerimónias de espiritualidade intensa.  E mostram que uma forte marca cultural timorense persiste, apesar das violentas e prolongadas interferências exteriores. 

A espera


A caminho de Liquiçá

Cedo o caminho começou a ficar atravancado. Não estava a imaginar este cenário. Serão pouco mais de 60 km entre Dili e Liquiçá, pela estrada estreita construída pelos portugueses. Mas com tanta gente e carro que se demoram mais de duas horas a chegar.

Saí do carro onde ía à boleia e sigo a pé pela estrada. Metro a metro há canas floridas a marcar o caminho, gente à espera debaixo das árvores ou em tectos improvisados.
Um homem vem a caminho lentamente. Quando me vê a tirar fotos, começa a correr para que a próxima já contenha o pequeno elemento mais importante.
A meio do caminho, cruzo-me com um grupo de militares portugueses, da missão de manutenção de paz do território, que se mantinha em Timor-Leste nesse Maio de 2002. O que segue à frente tem um nome que parece caído do céu para a ocasião.

                                     Chama-se Ressurreição.


Dia de festa

              É um país que sopra as velas. Timor-leste nasceu a 20 de Maio de 2002. E parece que a ilha inteira desceu a Díli para fazer nas ruas a festa da indepedência. Foi assim há 8 anos.

Dili, 20 Maio 2002, tc

              Eu andava nas ruas com uma mini-câmara de filmar, pessoas com mais de 60 anos vinham ter comigo e queriam gravar declarações patrióticas em português quase fluente. O que tinham sofrido para viver aquele dia. O valor de empunhar uma bandeira e exibi-la sem medo.

Díli, 20 Maio 2002, tc

      Os jovens só falavam o bahasa indonésio, mas levantavam as cores do país como um coração ao alto.

Timor-leste, 20 Maio 2002

             A máquina de filmar desmaiou com a humidade. As máquinas das fotos não. Tinha levado uma polaroid e andei a oferecer quadradinhos a todas as famílias que pude. Muitos nunca se tinham visto num retrato. Riram muito quando se viram a aparecer lentamente no cartão brilhante.

Díli, 20 Maio 2002, tc

E ficaram com um registo em papel deste dia, que há-de, espero, desbotar mais cedo que a memória.

                 (E se as que vos mostro parecem já esborratadas é porque em 2002 o digital para mim não existia, o scanner também não, e estas são fotos de fotos, duplicadas a partir do meu álbum de recordações). 

                  O que sobreviverá deste dia nestas pessoas?

O amanhecer no Ramelau #05


             Um dia e meio de voo. Lisboa, Londres, Singapura, Indonésia. Em Bali, muita gente no aeroporto. A ocasião é de enchentes. À espera do voo para Díli, encontro um jornalista português da velha guarda que admiro e gosto muito. É uma das minhas referências e pai de dois amigos meus. Presença frequente em Timor desde a invasão indonésia, não podia faltar na data máxima que se aproxima.

             Estou de férias, mas carregada de material fotográfico e uma pequena câmara de filmar. Quero registar tudo o que se vai passar. Se puder, também o regresso do Adelino.

             Quando sobrevoamos a ilha do crocodilo, espreita pela janela, aponta e nomeia com entusiasmo os sítios que reconhece. Depois encosta-se, a voz emociona-se:

             — Timor é bonito. E eu já vi coisas muito bonitas. Mas quando casei, o que queria oferecer à minha mulher era um amanhecer no pico do Ramelau.

O amanhecer no Ramelau #04

           Do outro lado da linha há um silêncio humedecido:

           — Vais para Timor?

          — Vou, pai. Não posso faltar ao grande acontecimento. Já perdi demais. Agora é a História a nascer. E é a sua história. Quero fotografar outra vez as suas fotografias, 40 anos depois. Acha que vou conseguir encontrar os sítios?

            Eu a distraí-lo com retórica. Percebo que se senta. Não é só pela convocação de recordações. Sei que sou uma filha imprópria para pais pacatos. Além de preferir nas férias sítios que as agências de viagem não recomendam, já suportaram comigo um catálogo de sarilhos no Médio Oriente, uma ameaça terrorista no Níger, dois golpes de estado na Guiné. Ía sempre em missão de paz, saía (quase) sempre emissão guerreira. Mas foi em trabalho, papá, que podia eu fazer?

            O pai suspira. Entende que esta viagem também será trabalho, não lhe retiro a ilusão. Quero que se concentre na minha vontade de lhe oferecer uma memória refrescada a cores. E pela primeira vez, agora, conta-me alguns episódios da experiência timorense. No primeiro grupo de militares destacados, em 1959. Recebem um obscuro título lírico: Companhia de Caçadores? Mais de dois anos em Díli. Aileu, Ermera, as montanhas. O que escolhe para relatar são encontros com nativos, missões de charme, oferendas, jangadas de pescadores, marchas na floresta. Como se abrisse um poço de ternura. E memórias turísticas.  

             - Mas de tudo, sabes, não há nada mais bonito do que…

             - Eu sei, pai, eu lembro-me.

O amanhecer no Ramelau #03

              Nunca consegui desatar-lhe os silêncios sobre esse tempo em que Portugal se estendia do Minho a Timor. Ao longo dos anos, fui tentando com viagens preencher alguns espaços em branco. Não era atitude consciente. Mesmo sem planear conheci, além da minha África, quase toda aquela onde ele esteve. Nem por isso me falou dela. Até me faltar, sem Angola, apenas o país mais longínquo no seu percurso. E o mais enigmático.

              300 km de distância separam-nos agora. Com telefone separam-nos três segundos:

              “Pai? Desta vez tem mesmo de ser. Vou a Timor”.

O amanhecer no Ramelau #02

           Já aqui o disse: tudo o que conheci da guerra foram os intervalos.

           Não disse: E as fotografias (um outro nome para intervalos?)

           Tão pequeninas que quase era preciso lupa para reconhecer as pessoas nelas. Chamava-lhe as provas. Mais pareciam pistas, traços de passagem. Algumas em álbuns, outras em envelopes, raras indicavam lugar ou data. Grupos fardados, companheiros de bicicleta, ele rodeado de meninos, uma igreja com mar. Há uma com duas mulheres de vestidos floridos, a minha mãe enervava-se sempre que a descobria repetida em mais um envelope. “Guarda essa, ainda se perde…” Atrás, a tinta permanente: Aileu, 1960. Nessa data ainda faltava muito para se casarem. Mas os ciúmes conhecerão datas? 

            Naqueles dias, eu pegava nos quadrados a preto e branco e fazia um aeroporto e este quadrado aqui já era um avião a levantar, e outro era um pato e outro um lago, e mais outro um avental para uma menina desenhada a lápis.   

            Não havia quadrado para a frase mais repetida, “O amanhecer no Ramelau foi das coisas mais bonitas que vi na vida”, mas é aquele que lembro mais nítido. Letra a letra, para cada uma um degrau de sol sem fim à vista. As outras eram fotografias sem legenda, o Ramelau era uma legenda sem fotografia.          

O amanhecer no Ramelau # 01

            Ele fica quieto, numa terra que é só dele, horizonte no olhar. Tantas vezes. ­Conheço-lhe desde sempre este olhar mudo. O mar em frente protege-o: quem não se embala a olhar o mar? Mas às vezes o mar em frente é de pinheiros ou laranjeiras ou hera na parede. E o mesmo olhar.

          Da sua involuntária geografia viajada nunca falou senão por episódios anedóticos e definitivos. Tantas vezes olhei os mapas a desenhar sem caneta as linhas por onde os navios deviam ter passado. E os portos onde o teriam deixado.

          Tentei adivinhar-lhe os passos de botas cardadas, as pernas camufladas, os medos. Ele dizia sempre: a guerra não é para meninas. E tudo o que conheci da guerra foram os intervalos.

          Desses nunca esqueci um olhar nascente e a frase repetida:

         — O amanhecer no Ramelau foi das coisas mais bonitas que já vi na vida.



O poste e o dragão

           É um delicado, científico e poético lança-chamas que está quase a nascer-morrer aqui mesmo ao lado. De ferro e tinta verde. Podia chamá-lo Podrageão ou Drageoste. Podia, mas não servia de nada. Quem será?

A Digressão 03

                Indo eu, indo eu, à procura de veículo para transporte da Banda durante o tour…

                …encontrei esta Tata, à saída de Katmandu, no caminho para Lucknow (indício sem dúvida auspicioso). Inspiradora de amorosas sinfonias e canções, espaçosa quanto baste para acomodar alegres baixistas, trompetes infernais, tamboretes e vulcões. Contando que a metafísica não ocupe muito espaço, que os Coros Celestiais não se encham de barrigas de freira, e que o fogo de artifício vá dando brado pelo caminho. Além disso, se chover e precisarmos de tecto, poderemos sem dúvida contar com eugeniais feitiços para afastar gotas indesejáveis.

              Quanto à decoração, pode sempre alterar-se a ordem dos factores, acrescentar interrogações…ou ultrapassá-la. Pela direita, pois claro.

             E seguir em frente e procurar novo pópó, porque não?

            Até porque não estava à espera do tamanho e da quantidade de instrumentos tocados por nosso Ruy e Trio Vasconcelllos, descobertos aqui  mais abaixo por nosso VG. Mas Vasco, onde é que se arranja espaço para um Espacial Gerador Harmónico ou uma Máquina de Ressonância Sequencial, ou mesmo para uma Harpa Rotativa? Para já não falar do Radar Acústico (acho que vou ter de requerer um aumento para o meu orçamento ilimitado!)

               O concurso para transporte da Banda está pois aberto: aceitam-se inscrições. 

A Digressão (em planeamento) 02

           O plano da tournée destes vossos que se assinam Clear Cat Pebble Eyes continua em grande forma:  não desmerecendo o desmedido talento de VG para o poster do tour, e salvo se levantem vozes da banda em contrário, estaremos em vias de fechar contrato com os serviços profissionais  que assegurarão as fotos dos concertos e as imagens, senão para próximos cartazes, pelo menos para uma sumpimpa contra-capa dos primeiros álbuns.

              Estou também em condições de anunciar que a promoção além-fronteiras me parece garantida: a Rádio Bombolom de Bissau já está a mexer cordelinhos para incluir na sua play list diária os álbuns da banda: “As Árvores Morrem de Pé”, o primeiro, como quer VG, e até propostas em contrário, produzido postumamente por Kurt Weill, com arranjos de Edward Elgar, e o segundo, seguindo nosso vulcão JNA“Anything Goes”, talvez por Tony Williams ou Neil Peart.

               Agora reparo.  Só falta mesmo o conteúdo específico dos álbuns… e marcar ensaios. Mas tais serão pormenores de somenos.

               Isto vai ser um arraso!

A Digressão (em planeamento) 01

            Aos que só agora tiveram conhecimento deste lugar de almas bem vivas, e a todos os que desalmadamente se enterram connosco há algum tempo, informo ou relembro que este bando de Gente Morta tem uma banda: os Clear Cat Pebble Eyes ‚ em boa hora nascidos por mercê do nosso de imediato groupie e Fan Club President Vasco Grilo. E com um casting nada abaixo de extraordinário.        

              Tendo sido incumbida das funções de tour planner, e prontamente armada de mapas particulares  e cartografia geral, verifico que mal tenho de mexer uma palha para cumprir a missão.  Ora vejamos o ponto da situação: de acordo com as brilhantes indicações do nosso escolástico metafísico de serviço, esta banda vai ter um Verão de feira em feira, sem falhar a Ovibeja nem a oportunidade de chocalhantes aplausos. Como se sabe, é palco para lanzuda audiência cuja atenção é sempre díficil de cativar. Quem ganha a Ovibeja já nada tem a recear do mundo.

            Nem do mundo e nem da abertura do torneio de futebol ribeirinho para veteranos “As Árvores Morrem de Pé” - segundo a  pronta sugestão do apontado guitarrista PMS, especialista em Projecção de Almas (em Technicolor). As estatísticas denunciam público pouco caloroso, mas que habitualmente não atira garrafas para o palco.

 

                  Mais difíceis, mas não impossíveis de acompanhar, serão os concertos que por certo aqui terão lugar. Os Clear Cat Pebble Eyes já são dados como certos em Atlantis e Shangri-la, sem nunca esquecer Xanadu, e ainda nos castelos habitados pelos cavaleiros do Rei Artur; com Gulliver, arrancarão suspiros ou, quem sabe, corações, em Lilliput e Brobdingnag. Está também em agenda uma actuação especial em Frivola, ilha do Pacífico onde MSF já esteve em reperage.

               Estamos ainda a preparar equipamento especial para a viagem a Capillaria, país submarino onde a vertente masculina da banda fará furor, já que, como adverte ou promete nosso MSF, Capillaria é uma terra sem homens e de gigantescas mulheres louras. (As outras criaturinhas que por lá abundam não vêm agora nada ao caso, de certeza que este vai ser um concerto de comer e chorar por mais… e que vai fazer de nossos instrumentistas gente apta para vencer a maratona até debaixo de água).

             Parece-me que não corremos o risco de ir parar a Figlefia e muito menos iremos, mas com grande pena, a Abaton, luzente cidade sem lugar preciso no mapaTambém ainda não recebemos convite (por que será?) para Where-Nobody-Talks.

              Sem esmorecer, estamos entretanto a encetar ferozes negociações para o concerto de final de tournée que, Jesus ajude e a pontaria não falhe e um dueto da banda não se amofine, será na mais luminosa catedral da capital.  Se não correr de feição, sempre temos a Capela Sistina.

              O Rock in Rio que se cuide!

O Catorze

              Sempre quis ser bombeiro, desde pequenino “tinha um gosto medonho”. Desde pequenino foi pedreiro: “Com 8 anos  já ajudei a fazer a primeira igreja da Penha em Guimarães!“  Mas a gente tanto persegue os sonhos que os agarra. Aos 18 conseguiu. Era o nº 14 na escala. Quando tocava a fogo, largava o ofício de pedreiro e ía como uma flecha. O Catorze não tinha medo de nada.

              “A nossa vida de bombeiro é um romance: abandonar o trabalho e ter o gosto de ser o primeiro a chegar. Apanhar o primeiro carro era a primeira glória. Trazia as pessoas às costas para as salvar”.

              O incêndio na Pousada? Ainda era mosteiro. Teria sido vela acesa? O que é aquilo ali na encosta? Tocou a incêndio às duas da manhã. Dessa vez ficou tão queimado que ninguém o conhecia — “mas o queimar era uma ofensa menorzinha”.  Tinha noites de não ir à cama. Nunca alevantou um tostão do seguro, tinha luvas mas não as levava para os fogos. “O nosso ofício era morte ou gloria”.

               Fura-vidas, atravessou a segunda guerra a ganhar dinheiro com os pregos. Serralheiro, ferreiro, feirante, teve trabalhos vários. Mas bombeiro foi a vida inteira. Enquanto lho permitiram. 58 anos contados e medalhados, quadro honorário dos Voluntários de Guimarães. Os pais não o puseram na escola, mas acha que ser analfabeto nunca lhe prejudicou a vida: ninguém o enganava nas contas. Só não chegou foi a comandante dos bombeiros.       


               Quando o escutaram a minha amiga e o meu caderno, tinha noventa anos. “Tenho saudades de ser um homem feliz com as mulheres. Só estou arrependido de estar velho”.

 

Coisas do demónio

Não, não tem nada a ver, que eu saiba, com nosso PN. São só umas coisas para a nossa colecção: o início e o fim de um texto de página e meia de que gosto muito. A lima não é para quem quer.

           “Este é um conto breve. É mesmo brevíssimo. De resto, se não fosse breve, muitíssimo breve, correria o risco de não ser um conto. A obrigação principal dos contos, mais que dos homens, é conhecerem os seus limites.” 

(…)     “Porque, reconheçamo-lo, a brevidade é tudo. A brevidade permite contenção, prudência, reticência, pudor. O pudor é essencialmente uma virtude breve.”

“A brevidade porém isenta-nos de quaisquer perigos. Ora os perigos são, quase sempre, muito breves. Pelo que podemos concordar que este conto é brevíssimo.”


                                                                         CONTO BREVISSIMO, Jorge de Sena, 1961


O sapateiro da rainha

                  Não sei se me lembrei dele por causa da colecção de heróis que tem desfilado neste cemitério. Ou por ter passado há pouco pela pousada de Estremoz. O certo é que passei lá outras vezes e não me veio à lembrança. Mas desta vez encontrei o caderno onde o desenhei. E os esboços devolveram-me do século passado a cena daquela tarde quente de verão: duas raparigas a escutar um velho numa penumbra fresca de oficina.             

              Os riscos grossos de lápis de cera mostram sapatos, um gato a dormir, o banquinho com raízes, o mapa de linhas de quase cem anos que conduzem aos olhos dele. O rosto lembrava o de Borges (terão todos os cegos alguma semelhança?), e a voz suave formava tiradas de escritor, ele que pouco teria escrito na vida além das contas da sapataria.    

              Contava coisas do tempo em que se fazia testamento quando se ía a Lisboa. Em idade moça ninguém corria mais do que ele. Atravessou o século XX  “como um relógio que nunca precisou de corda”. Sei que disse assim, registei frases soltas enquanto lhe captava os movimentos. A ele que sem ver nos olhava com agrado e agradecimento por ouvintes tão atentas. Nunca quis ser operado ao ouvido por recusar uma anestesia “ali, mesmo ao pé do pensamento”. Não era a minha tarefa, mas irresistível fixar o que dizia — palavras muito usadas pareciam roupa nova.        

          O arranjo era este: a minha amiga escrevia, eu ilustrava (que alívio, nunca gostei de escrever. Quem me dera conseguir falar do mundo só por desenhos. Se tivesse continuado a tracejar talvez tivesse ganho mão). Bem, para aquela revista éramos a equipa com a proposta perfeita: escrever sobre as pousadas portuguesas através da voz e ilustração de uma figura da terra, de alguma forma ligada à história do edifício. Cruzar o herói-da-vila com o castelo-herói. 

         Ela, a minha amiga, agarra o mundo e escreve-o com imagens fortes e poéticas que as minhas aguarelas não alcançam. Essa arte da escrita aqueles homens não podiam conhecer. Nem precisavam. O sapateiro Joaquim e os filhos que lhe herdaram o negócio arregalaram os olhos e os sorrisos perante a bela morena que lhes entrou na loja a pedir uma entrevista. A minha amiga acrescentava à juventude e à simpatia efusivas a aura de estrela televisiva. E eu podia ficar na sombra como sempre gostei, calada e com o caderninho das cores.

          E aquela tarde escorreu encantada em lápis de cera e gatos preguiçosos e contos de homem antigo. Admirava-se de não ser preto, por ter sido criado a sopinhas de café. Mal começara a mexer e já fazia sapatinhos para bonecas. Calçou Estremoz inteira durante noventa anos. O castelo da Rainha Santa era a casa mais bonita e ele, respeitador, nunca lá tinha posto os pés. Como fazer a ligação entre o sapateiro e a pousada? Foi ele que a encontrou, linha contínua a saltar idades: se tivesse nascido no tempo da Rainha, tinha-lhe feito uns sapatos.

Iníciozix e finix

                    Aos inolvidáveis inícios de livros que este blog está a coleccionar, junto agora mais uma colecção que me acalentou longas e repetidas férias de verão, quando as férias eram férias e a repetição um prazer. Há um início de livro que, por mais repetido que fosse, ou por isso mesmo, abria caminho para gargalhadas fundas de cansar o peito e preparar a sesta: “Nous sommes en 50 avant Jésus-Christ. Toute la Gaule est occupée par les Romains… Toute? Non! Un village peuplé d’irréductibles Gaulois résiste encore et toujours à l’envahisseur. 

Astérix chez Rahazade

            E porque, ainda e sempre, o início e o fim aí são aliados, é imperioso que o nocturno banquete final aqui figure em destaque rimado com a matinal calmaria inicial da aldeia. Cenas irredutíveis a.c e d.c. (antes e depois da ceia). 

Astérix entre os belgas

              Fecha-se o círculo de conforto que retempera, o conhecido é que nos dá segurança, tudo está bem quando há javali, (ou o sumo de laranja que a mãe traz antes do sono da tarde ou o leite antes do sono da noite), antes que nova manhã e novo livro se abram pacíficos, como sempre, na nossa aldeia.

      Tudo tão igual neste início que Goscinny e Uderzo até se esqueceram de soltar o bardo desde o anterior banquete final…mas tinha que haver zaragata porque, por acaso, até é das cenas que a nossa Joana gosta mais.

Uma pedrada nunca vem só
       

A grande pedrada da Joana lembrou-me desse distante e próximo e mais que provável autor, ainda que ignorado e solitário como qualquer grande herói, de tão remotos e misteriosos círculos de pedra.

           E segundo rezam escritos a que tive acesso, cuja tradução não porei em causa, as pedras de Stonehenge tiveram origem não apenas no País de Gales como também na longínqua Gália. Logo, não tenho grande dúvidas de que o forte sentimento que terá impelido homens e mulheres de meios limitados para arrastar pesadas pedras terá tido o forte contributo desse homem generoso, praticamente desconhecido na nossa era, para ali as dispor com rigor e precisão, apontadas para onde devia ser e para deixar embasbacados os mais sapientes turistas desde então (mesmo os que faziam o homework com tempo). 

Mas para ele, como se vê, nada mais natural. 

            A corroborar as descrições dos escribas, existem documentos visuais que comprovam os factos. Naqueles tempos parece que já era numeroso o grupo de druidas reunido em torno dos círculos de pedra para futuros rituals.