Um dia na selva

Piquenique na floresta de Xe Pian — foto tc

                 Saio para o passeio que havia combinado no dia anterior na casa do turismo: na floresta…em elefante. Sei que o meu anfitrião, Hudong, não fica aborrecido: há 13 paquidermes em Khiet Ngong e os rendimentos dos passeios turísticos são divididos pela comunidade.  A aldeia recebe cerca de 3000 visitantes por ano. Cada viagem de elefante pelo Parque Natural de Xe Pian custa 30 euros, para duas pessoas. Esse dinheiro vai para a caixa comum e é distribuído, não apenas entre os donos dos elefantes, mas por todos os que tratam dos bichos — e todos têm de se revezar: os animais ocupam-lhes muito tempo.           

             Nenhum dos meus companheiros passaria no casting para Tarzan, e eu, sem banho há dois dias, ainda menos para Jane. Mas para Jumbo, temos contrato: Nam vai na perfeição. Bem, é fêmea, não se pode pedir tudo.  Com o condutor Laoh e o guia Toui, formamos um quarteto de filme…série B ou assim.  Toui tem boa voz e canta em lao canções de musical romântico, passe o pleonasmo.  É o único que pode pôr legendas nesta história — entende inglês, benzódeus.             

              Há sofá de bambu para dois no dorso, o condutor vai entre as orelhas ao comando. Somos três e um piquenique em cima da Nam, em passo lento. Sinto-me abusadora, eles riem-se: este é o trabalho mais leve que um elefante pode ter. Antes cortavam e carregavam árvores para construção. Não como estas gigantes, de folhagem densa. Estamos em área protegida. Nam pára sempre que detecta pasto tenro: a toda a hora. A tromba ergue-se em busca das melhores folhas. Se puder passa 20 horas a comer, que chatice ter de dormir quatro.                         

                O nosso piquenique vai além das verduras: tem arroz com um saboroso refogado de peixe picante. Sobremesa de manga e bananas, que partilhamos com a Nam. Ela come um cacho de cada vez! Fica à espera enquanto comemos na margem do regato. Não é preciso prendê-la: estes animais que cresceram com humanos não fogem. Como tem o nosso sofá em cima, não pode rebolar-se na água. Laoh não a deixa passar calor por muito tempo. O banho à mão dura um quarto de hora. Ela, deliciada. Se a água salobra parecesse mais atraente que os meus toalhetes perfumados, nem eu me importaria de fazer figura de elefante.

Um elefante chamado Casa
                De manhã, quando desço, uma parede cinzenta parece ter crescido a tapar a janela.
Espreito. É isto.

Dom em casa, Laos — Foto de tc

                 O espanto salta comigo para a rua. Caramba. Não estava nenhum bicho destes à vista quando cheguei ontem. Hudong está a serrar madeira ao lado, não percebe os olhos arregalados. Já havia elefantes na família antes de ele nascer: esta é a fémea da matriarca Someh, mãe da minha anfitriã Pouh.

                 Aproximo-me. Tem um ar sorridente. Antigo. Está cheia de terra torrada, como eu no dia anterior. Andou a rolar no campo de pasto onde Hudong a leva todas as noites.

                 Vê-se que é menina, não tem presas de marfim. E como Hudong e Pouh, Dom tem 50 anos. Foi bebé ao mesmo tempo. É filhota e mana. Tanta coisa dentro de um nome: Dom quer dizer casa, em lao (casa, como em russo, catedral como em alemão). Abrigo, clã, vida. Para ela, casa deve ser qualquer sítio onde se coma, como faz agora: é o desporto favorito.

                 Afasto-me criança aos pulos. A enviar, em pensamento, postalinhos-soldadinhos aos meus sobrinhos. Afinal não é todos os dias que se pode dizer: a minha família tem um elefante!

Casa de família

 

Aldeia de Kiahtnong, Laos, tc

            Na rua de casinhas de madeira sobre estacas, a primeira placa promete (o quê, não sei). Mais à frente, maior surpresa: Tourist Information (?). Alpendre sobre estacas, uns 5 ou 6 laocianos viram-se para a forasteira que chega, coberta de pó. Falantes de inglês, nicles. As poucas frases lao que decorei colhem sorrisos. Devo ter um sotaque pavoroso. Saco da arma secreta: um pequeno dicionário Inglês-Lao. A palavra mais importante é logo entendida: homestay . Mais uns gestos e risos e há uma senhora de sorriso grande que me pega na mão e leva: Pouh aceita acolher-me na sua casa cor-de-rosa.

             Ainda há luz de dia, pouca. Mas dá para ver bem o sorriso da velhinha Someh, mãe de Pouh. Cozinha o jantar em panela borbulhante, no alpendre. Deve ser habitual receberem turistas. Esta deve ser a maior casa da aldeia, construção sólida de madeira, dois andares. Subimos ao 1º andar para pôr a mochila no quarto espaçoso, mosquiteiro e colchão de casal no chão (2 euros por noite e 1 por refeição, quem pode pedir mais?)                                                                                   

              Ao jantar conheço o resto da família: as duas filhas de Pouh, com maridos e bebés, sentados no chão a ver telenovela tailandesa. Não comem ao mesmo tempo: apenas Pouh e o marido Hudong jantam com a estrangeira. Arroz e sopa de peixe — deliciosa, cheia de especiarias,  gengibre e erva-limão. Hudong arranha inglês, conseguimos meia conversa e riso cheio.

               O aluguer de quartos é comum nas aldeias: para os habitantes aconchega o rendimento familiar; para os turistas é a fórmula mais barata de alojamento e de conhecer por dentro a vida do país. Quem está habituado a comodidades torcerá o nariz às condições oferecidas; quem tem orçamento limitado, suspira de alívio e adapta-se.

               Para esta turista é uma estreia total. Tarde percebe que não há casa de banho (vá lá que os toalhetes perfumados fazem parte da bagagem). Pouh vai ao quarto antes de desligar a luz do gerador. Em riso envergonhado mostra o pequeno item indispensável: um bacio branco como os antigos portugueses. Pormenores. Peanuts, comparado com o me espera amanhã.

O cimento da viagem *

Pakse, Laos, foto tc

           Primeiro é preciso chegar lá. A aldeia não vem no mapa nem se anuncia em passeios turísticos. Estamos em Pakse, capital do sul do Laos. Quem pergunta descobre que não há autocarros para Khiet Ngong. Mas há songteus. Demoram 3 horas a fazer os 60 km, que raio serão os songteus? Resposta na Estação Sul de Songteus de Pakse: parece uma cidade de camiõezinhos de brinquedo. 

           Nove da manhã. Em 50 songteus apertam-se centenas passageiros, animais e carga até ao topo. Qual será o certo? Ninguém fala inglês. Mas vários estranham a minha escolha: que quero eu ir fazer a esta aldeia? Espero vir a ter uma boa resposta. Por agora, só posso mesmo esperar. Três horas a alguns amigos depois, lá aparece o songteu  para a aldeia. Passa do meio-dia. Ao contrário dos outros, não está atulhado. Ou antes, há sempre lugar para mais um. Para variar, ninguém fala inglês. Trocam-se bolachas e sorrisos, almoçam sopa de massa e carne com moscas vendidas na carrinha em frente. Pressa para quê? O songteu há-de arrancar pelas 14h, uma hora depois do previsto.  

          Pára uns 200 metros mais à frente. É um armazém de cimento. Os passageiros saem, as sacas entram. E lá seguimos viagem entalados entre sacas de cimento a largar pó. 

 
                    Depois de 1 hora em alcatrão, paragem em zona de barraquinhas à beira-estrada. Os vendedores de petiscos esticam braços invasores com espetadas coloridas e suspeitas. Os companheiros de estrada compram e comem. Ao mesmo tempo que vestem casacos e se cobrem com máscaras de pano. Ui. A partir daí, a estrada passa a ser de poeira vermelha. Misturada com cimento dá uma cor translumbrante.

                    Abençoo a esperteza de ter molhado o cabelo devido ao calor. Quando finalmente chegamos ao destino, qualquer diferença entre mim e um trolha será pura coincidência.

 

 

(*Com este título alguém esperava um lindo post sobre amizades cimentadas em viagem? Sobre relações de betão e desbetão apenas a nossa Eugénia consegue discorrer. Eu sou terra a terra. Só consegui perceber na pele que às vezes nos aparecem na vida umas poeiras mais concretas que metáforas). 

Soldadinhos em viagem

A caminho! (foto: tc)

          Os soldadinhos que o meu pai inventava para mim em pequena haviam de dar-me vontade de escarafunchar o globo. Primeiro o da sala, depois o outro.

         Nunca tinha tido consciência do papel que uns quadradinhos de pão barrados com histórias podiam representar na sede de aventura. Só me apercebi quando, em viagem, quis enviar postais aos meus sobrinhos. Uns postalinhos-soldadinhos. A história de uma cidade, de uma estrada, de um rio. Mandei. Mas demoravam duas ou mais semanas, às vezes só chegavam depois das minhas malas.

         Na última viagem pensei criar um blog só para eles: postalinhos actuais e com dados de localização para sossegar corações paternos. Os sobrinhos, menino e menina, nunca de acordo, discutiram vários nomes para o privadíssimo blog. Por uma vez acordaram — sem saber, claro: fiz o tira-teimas com cada um em jogo particular.  Adivinhem que nome escolheram?

         Só que a intensidade de uma viagem é maior que a necessidade de escrevê-la com regularidade. Ou a escrita vagueia ao sabor do funcionamento da internet. Por muito Global que a Aldeia seja, uma floresta do sudeste asiático não é perfeita para computadores. Nem um barco no Mekong. Já agora, nem um resort de luxo na Indochina (a preguiça parece tão mais perfeita).

         E as histórias foram ficando para trás, sugadas por dias maiores que a janela de um pc. Nem no blog criado para eles, nem no nosso, elas se estenderam. Só que agora andam por aqui a estalar, a pedir para saírem. Acho que está mais que na altura de pôr os meus soldadinhos a marchar.

Soldadinhos

           Quando eu era pequena, não gostava de comer (devia ser mesmo pequena). E o meu pai, com a paciência dele, inventava: fazia soldadinhos. Quadradinhos de presunto sobre quadradinhos de pão e aqui temos um exército num pires. Rodela de tomate sobre retalho de alface, e lá ía a bandeira portuguesa para a goela.

          Desde que fosse pão com histórias, a coisa ía. Papá, os soldadinhos saem de casa para ir correr mundo? Mundo, munto, fatia de presunto. O mundo é aqui no prato? Prato, pato, cabeça de gato. O mundo são muitos quadradinhos grandes. E este soldadinho vai de Singapura para Hong Kong. A minha boca era Hong Kong, eu o King Kong a comer um soldadinho. Papá, eles têm que lutar muito? Sim, minha filha, a floresta é muito perigosa. E lá seguia meia folha de alface, arbusto poderoso a camuflar perna de chumbo.

          De batalha em batalha, de prato em prato, lá fui engolindo migalhas de Portugal do Minho a Timor. Miolo de Guiné, côdeas de Angola, S.Tomé uma ilha de tomate com sal.

         Meu papá, gosto de ti do tamanho dos quadradinhos todos, mas não quero mais. O pai já não volta para lá, meu fifi. Só mais este, vá. Ah, paciência de pai, são horas de jantar e ainda vais no lanche. Vamos, agora um de queijo. Este não, papá, olha, o queijo caiu, não se come um soldadinho sem bóina. Amarela como aquelas cartas com muitas linhas que mandavas à mamã, vais mandar mais cartas daquelas? O pai não volta para lá, só mais este, vá.

        As histórias do pão tinham sempre pouco sumo. O único sangue era molho de tomate. E tudo o que então aprendi sobre a guerra colonial foi pão com presunto e nomes pitorescos. Distraía-me a olhar para os piões ou berlindes à minha espera, e lá marchava mais um soldadinho.

Dançarinas

meninas a dançar em arco, tc

              

              As lágrimas das meninas ficam em suspenso e fazem arco-íris, disse a Eugénia e eu fui a correr tentar pintá-las.

              Tarde demais, íris em arco: as meninas dos meus olhos estavam a dormir.

              Ou aquilo ali é uma piscadela?  Dela?

Pijama Party no Blog!
                                                                   Eu vou de bailarina.

O que eu queria ser quando a dormir, tc

Afinal é de pijama, mas é party!

Olhá xórte fresquinha!
                   Deixo-vos esta para o caminho: a janela para a short de Maio, pois claro.

               Sem ver mais que estrada nos últimos meses, não admira que só me saltem à vista vistas destas. E nem ando a fazer a rodagem da viatura. Com a velocidade que a cilindrada e as obrigações permitem (mais aquela que estas, que o tesouro é escasso) na estrada tudo pode acontecer: sobretudo se for short. Porque pode dar-se o caso, como aqui, de se pôr ela lisa e sedosa e amarela nas bainhas - mas é só para a fotografia. Ali ao virar da curva tudo muda.  Talvez fique cor-de-rosa…  Ou não será assim?

O Dia do Não Dia

Do all things possible?

                 Quando olhei para o cartaz em Bangkok, achei que tinha sido escrito para mim: “Do all things possible”. Primeiro dia no sudeste asiático e recebo as boas-vindas com todas as letras. Altas longínquas e escondidas como numa charada que necessita de muito caminho para decifrar.

               Agora olho para a memória do cartaz e nela entra o Pimai Lao: o Ano Novo no Laos. Celebra-se agora, são três dias: de 13 a 15 de Abril. 13 é o último dia do ano velho, 15 é o primeiro dia do ano novo, este ano da graça de 2554, para os laocianos. E o dia 14? Não calha nem no velho nem no novo ano, é “o dia do não dia”.

              Eles celebram-no com música, cerimónias budistas…e água. Água benta sobre as casas e os budas, respeitável água sobre os monges e os mais velhos, risonha água sobre os mais novos, os amigos, sobre todos os que passam, turistas incluídos, claro. Pode ser água perfumada ou não, fica tudo abençoado e purificado. Longa e saudável vida para todos. É altura para se andar completamente encharcado nas ruas, o que nem parece desagradável: é a época mais quente do ano no Laos, antes das monções.

Pimai Lao, imagem da net

                      

                        E eu a pensar no Não Dia, dia literário de todas as possibilidades. Só possível na cabeça dos escritores, achava eu. E aqui está um povo que o inventa e recria, a partir de tradições khmer, hindus, whatever.  Um dia extra-ordinário. Um dia-bólico. Dia inteirinho que não existe, dia do nada e do tudo, que nos fazia tanta falta e não temos. Que faríamos nós num dia zero?

Lord Tolkien
               Aconteceu tudo numa semana. Não sei se sei exactamente como ou por onde começou a panca. Mas lembro-me da viagem para Monsaraz e de abrir com chave pesada e ferrugenta a casa de uns amigos numa esquina da vila. Janelas abertas para arejar os quartos, embrulhei-me em cobertores alentejanos de lã na cama de ferro. Chá e bolinhos na mesa de cabeceira, intervalos para migas de poejo e entrecostos lá fora, em época sem telemóveis para distracção: ali me rendi à saga das criaturas viventes em aconchegantes buracos no chão e a orcs elfos e povos antigos da Terra Média e a coisas mais profundas e negras do que a superfície.

The Lord of the Rings, ilustração Alan Lee

                     Uma semana de férias passada entre anéis anões trolls irmandade perseguições perigos elevados. Na altura, quase há 2 décadas, à força de interrails já conhecia meia Europa e uma ou duas terras mais exóticas. Mas percebi que naqueles dias tinha vivido a aventura maior, as melhores férias da minha vida. Ainda hoje, que já dei mais uns passinhos no globo e que a saga dos anéis enjoa toda a gente, acho difícil igualar a vibração, o espanto, o medo, a alegria infantil daqueles dias.

                    Demorei uma semana a devorar a saga, John Ronald Reuel Tolkien levou bem mais de uma década a compô-la. Aos bochechos, entre 1936 e 1949. Bebé em 1892, passou pelo quarto escuro de duas guerras mundiais. Mas diz que na narrativa não há alegoria, afiança que a guerra verdadeira não se assemelha em nada à sua guerra lendária.                                                              

                       Quis criar um mundo privado e paralelo. Mas o que mais me espantava era ter feito isso para dar sentido a uma escrita antiga por ele inventada, do tempo em que “as línguas e as letras eram muito diferentes das de hoje — a obra é de inspiração essencialmente linguística e foi iniciada a fim de proporcionar os antecedentes históricos das línguas élficas”.                              

                 Tinha eu tentado aprender russo — na crença adolescente de que havia de ler Tolstoi no original(!) — grega com o alfabeto, um ano inteiro para me entranhar no cirílico, outro tanto para ler textos de ‘será esta a nossa casa, a cave no sótão, o sótão na cave’, só tão eu, já mais do avesso que a russa casa. Sempre de boca aberta pela descoberta da arbitrariedade de símbolos e correspondência fonética, porquê esta letra para este som se os latinos escolheram outra? E depois vinha aquele lord deus e criava uma língua completa de raiz e um mundo que a traduzia.                                                                             

                  Na altura pensava que o apego a esta invenção das runas era só meu. Apenas hoje, em pesquisa na net, vejo que já na época os escritos de Tolkien eram os preferidos do Reino Unido, arredoores e out doors. Quem se gosta solitária e descobridora primeira, torce-se a conceder que era apenas mais uma na manada. 

                  No fim da saga e daquela semana do século passado, com talento profético a augurar auspiciosa carreira na adivinhação ou em concursos televisivos, saí para as ruas altas de Monsaraz, respiração contida sobre a planície verde ainda sem lago de Alqueva: “Ora aqui está uma história que nunca nada nem ninguém conseguirá alguma vez transpor para uma tela de cinema”…

O autocarro VIP

                 Até era giro se fosse este, não era? Era. Muito à frente. O melhorzinho que vi no Laos nos últimos tempos. E uma sereia rosada a embalar a viagem, enfim, é logo outro colorido.

                 E este é o único à vista quando vou à central de camionagem de Thakek pedir informações sobre autocarros para o sul. O senhor da bilheteira fala inglês, uma raridade. No dia seguinte há autocarro VIP às 8 da manhã, 5 dólares, e carreira normal às 10h, 4 dólares. Um dólar dá para duas ou três refeições aqui, é uma diferença de peso. Não há dúvida na escolha: 6 horas de viagem para 200 km (o outro demora bem mais) e com este calor não se desdenha o ar condicionado. Não se vendem bilhetes com antecedência, porque será?

                É preciso ir cedo no dia seguinte para garantir lugar. Na central já estão mais uns dez turistas, todos franceses de visita à sua Indochina. Todos acima dos 60 e todos com ar desconsolado. O autocarro VIP avariou, temos de ir no outro.

             O outro é isto.                  

                  E isto, que até em Portugal estaria pronto para a sucata, tem de levar os passageiros que iriam nos dois autocarros. Durante duas horas vai enchendo, adentro e acima, com os mais diversos acepipes. Eu já tinha viajado com galinhas e peixe seco ao lado, mas uma moto interinha dentro de uma camioneta é uma estreia absoluta.

               Além da passageira motorizada, entra o dobro do limite dos ocupantes. Para o excedente desencantam-se uns banquinhos de plástico lá atrás, colocam-se ao centro, há uma cama à frente, cabem dez, a moto leva uns cinco em cima, e lá seguimos. E o que fazem os laocianos no meio da balburdia? Protestam, barafustam, queixam-se? Não. Riem. E de cada vez que entra outro passageiro, riem mais.

               O Laos é um país na fila dos mais pobres do mundo. Mas o riso, a par da gentileza, é uma das características nacionais. Vou aprender, ao longo destes dias, que os laos se perdem por uma piada.  Um ocidental não perceberá sempre onde está a graça. E como quase ninguém fala inglês ou francês (os vestígios coloniais estão na arquitectura, não na língua), não se podem explicar. Mas o sorriso gentil está lá sempre. Barafustar para quê? E quando vêm alguma tradução à mão, apontam: have a good trip. E neste caso bem precisamos: a viagem que devia demorar 6 horas há-de tomar umas dez. Uma trip.

 

Nada a declarar?

           Ainda há pouco as nuvens tão perto ali abaixo. Agora já tão distantes lá acima.

           As rodas agarram-se à pista sem solavancos, o alívio dos passageiros ecoa em palmas. Sorrio, ouvidos aluados, costas no encosto, olhos nas arrepiadas asas que contrariam o vento e progridem, já inúteis, no chão de Lisboa. Este é o meu chão. Estou de volta.

         Na alfândega, piscam dois caminhos de saída: o vermelho, das chatices, o verde, para quem quer fugir delas. Escolho. Os polícias miram-me o cabelo mal dormido, os suspeitos chapéus de palhinha orientais atados à mala de mão, o excesso de autocolantes da mala de porão e formam em muro à minha frente: ‘Tem a certeza que nada a declarar?‘

        Hesito uma fracção de segundo. A vontade de provocar está à beirinha.     

        Digo ou não digo?

Falo-lhes do marfim da selva? Das moedas da Indochina francesa? Das jóias do casamento khmer? Do elefante de três cabeças? Dos caixões esculpidos nas árvores? Do mistério de Phu Asa? Dos caranguejos sardentos de Kep? Da moto no autocarro? Do camião de cimento? Da oitava maravilha do mundo? Dentro desta mala cabe isto e muito mais.

        Para minha surpresa, ouço a minha voz adiantar-se: 

        ‘Sim, tenho algo a declarar’.

        Os polícias avançam ombros e sobrancelhas espessas.

         ‘……Siiiim?’

         ‘Declaro que estou muito feliz por estar de volta e que apreciava uma almofada fofa para dormir 24 horas de seguida’.

         ‘Bem, almofadas para 24 horas não temos, mas para 2 ou 3 ainda se arranja’. 

Estivessemos num sketch dos Monty Pyton e a resposta bem poderia ter sido aquela. Não foi.  Assim como assim, ía jurar que vi uns bigodes estremecidos em sorriso:

        ‘Vá lá à sua vida’.

         E eu cá vim.

Dias de festa


Patan, Vale de Katmandu, tc

             …São os que temos tido por aqui. Têm sido festas e flautas e mimos sem pautas. Em formas untadas, das que dão vontade de declarações de amor peganhentas: apetece-me um abraço inteiro a todos os companheiros aqui a sete palmos. E mais abraço e meio aos leitores acima, eles e elas, que nos põem em ponto de rebuçado com tanto carinho, ai que isto está meloso demais, ora pegai um salgadinho para desenjoar.

            Em maré de festa conjunta, só podia vir aqui trazer-vos um presente colectivo (sim, bem podem dizer que estou a fugir com ele à seringa -  e estou, para oriente e por semanas largas — mas antes desafio qualquer um a apanhar-me aqui no meio do povo, e depois, já que aqui estão, digam lá se há coisa melhor para oferecer do que uma festa…) 

Festa de Machindranah, Nepal, tc

           Venham daí ó Todos, esta não tem data marcada, o antigo calendário lunar dita a hora em honra de Machindranah, o muito idoladrado deus dos Newaris, a gente primeira do Vale Proibido. Fazedor da chuva e protector do Vale, tem direito a um mês de celebrações. A animação é assegurada cada dia num bairro diferente, por grupos musicais que se revezam. Assim não se cansam e, oh povo sábio, procuram manter o deus contente todos os dias, enquanto lhe pedem a benção. A divindade segue no interior da carroça, talvez ganhe vida ao som dos pratos e batuques? 

Ora ponha aqui o seu pezinho nepalês, tc

          É uma espécie de dança da chuva. Pede-se a graça da abundância e de boas colheitas, perante o olhar benevolente desta ocidental. O sol segue teimoso há dias. Bem podem saracotear-se até ser noite. E eles sim senhora.

           Pois caiu-me a condescendência toda em cima. Coisas que acontecem e caem: como a chuva ao anoitecer e durante os dias seguintes. Eles e a lua lá sabem.  Os descrentes que se cuidem. Com os deuses, todo o cuidado é pouco. E parece que todas as oferendas não são demais.   

A menina deusa do Vale Proibido

         Mais deuses que habitantes povoam o país dos Dewaris. Ali entre a Índia e o Tibete, sugou dos vizinhos as divindades hindus e budistas. E a complicar o cenário da devoção nepalesa estão os deuses híbridos (hibridíssimos, Eugénia!) de ambas as religiões. Para cada deus a sua festa, a sua rua, a sua casa, o seu cortejo de veneradores. No rebuliço multicor dos cultos, outras excentricidades do reino passam facilmente incógnitas. Mas o que dizer da Kumari, a única deusa viva do mundo?

 

        A praça central de Katmandu está atulhada de gente, sadhus, carroças, riquexós, templos. Nada indica que este é especial. Só depois de entrar, pla quantidade de turistas com guia e pelos postais que uma mulher vende, se percebe: sim, é esta a morada da deusa virgem.

         Em nepalinglês, um guia arrasta-se: “esta tradição começou em 1750…” Saltarei uma tradução penosa. Há várias lendas em torno da origem da crença ( no Nepal cada pergunta tem sempre várias respostas possíveis). Uma delas conta que um soberano tentou violar a deusa protectora do vale. A divindade, enraivecida, ameaçou retirar a protecção ao reino se não fosse adorada através de uma virgem. Desde então muitas meninas emprestam o corpo à deusa, afim de manter o costume e assegurar a sobrevivência do Nepal. Até o rei, dizem, presta vassalagem à deusa menina.

          Aqui neste pátio interior continuo a pensar que esta é uma história apenas para contar aos turistas. Por isso não deixam filmar nem fotografar: para vender postais e receber gorjetas (por isso a foto ficou torta…) Estamos todos à espera da aparição. Talvez neste momento ela esteja a espreitar-nos pelas frestas de madeira, a ver sem ser vista, como Xerazade. Terá consciência desta história de mais de 1001 dias?

         Porque, soube depois, a história é um destino vivido. Em cada década, crianças de 3 anos são seleccionadas por características físicas específicas e através de rituais assustadores e secretos. A que resistir sem chorar nem mostrar emoções é escolhida como a próxima deusa. Passa a viver fechada no palácio, com visitas dos pais. Fica até à primeira menstruação. Depois é substituída por outra, neste templo das infâncias perdidas: em divina repetição.

          A benção torna-se maldição?  Ter uma filha escolhida é uma grande honra para a família. E significa que vai ter sustento enquanto a menina for venerada. Recebe uma pensão vitalícia depois. Enquanto deusa, só sai à rua três vezes por ano, por altura das festas em sua honra. E mostra-se aos turistas da janela do pátio interior. Vai ser agora: todos levantam as cabeças.

Kumari de Katmandu, postal do templo


COMO FAZÊ-LA DANÇAR NUA À LUZ DA LUA

(post levitacional sem teoria budista)

 

 MANUAL DE INSTRUÇÕES

 

 1. Levá-la para a alva vastidão à hora insuspeita das asas nocturnas;

2. Esperar que o luar que afasta a noite tinja as rochas até então escondidas;

3. Deixá-la embriagar-se de beleza no imaterial cenário nevado;

4. Pedir que o sangue lhe seja ardente para não estranhar a temperatura;

5. Desejar que não acabe o momento em que os pés lhe voam no teatro de estrelas;

6. Não fotografar: não se lança luz sobre o luminoso. Não se regista o inesquecível.

7. Esperar o amanhecer e revelar-lhe em esplendor o palco nocturno de neve eterna.


Deserto Branco, Egipto — tc

8. Nunca lhe confessar ter espreitado a lucífuga flutuação.


Será que é dessa que desempata a novela “Um sonho no deserto”?

(a pedido de várias famílias, entram odaliscas e dromedários ao luar, a orquestra organiza-se e toca atrás dos cenários)

 

 Voiz do narrador com sôtaqui documentau:

Com a morte de seu pai, Kamau ficou com a herança de liderar os destinos dos Estúdios Atlas. Estão completando 28 anos. Além de séries e documentários, já aqui foram realizadas mais de 20 longas-metragens reconhecidas além fronteiras.

            A primeira foi A JÓIA DO NILO, em 1984. Depois vieram, para não me cansar vou só dizendo alguns: GLADIADOR,  KUMDUM, A ILHA DO TESOURO ou… ASTÉRIX E CLEÓPATRA.

            E pra você ter uma ideia do impacto na área, uma grande produção como Astérix trouxe uma equipa de 800 pessoas durante 6 meses. Com cenas de 2500 figurantes. Gente, não é fachada não: isto é emprego pra cidade do lado, hotéis ocupados, restaurantes, alugueres, voos, comércio – um negócio de milhões, já antes de chegar aos ecrans.

Voz feminina em off:

Deste lado assistimos sem pagar bilhete. As filmagens acabam, os cenários ficam.

Recebem as mutilações do tempo. E vão criando a paisagem desta cidade feita de pó de histórias, gesso e madeira. Tinta caída.  Fábrica de  trabalho ou  ilusões? Caiu no colo do herdeiro que ainda está a aprender como se conduz um sonho paterno.  

Por enquanto, sabe que tem de seguir todo o processo até ao mais ínfimo pormenor.  Repete: cada pequeno detalhe pode ter a maior importância.

Naquela altura, como num parque de diversões, todos os dias a cidade recebia visitantes. E ninguém me contou, mas eu sei: em algumas noites também.

 

 

(Dromedários becejam,  odaliscas afastam-se dançando ao luar, orquestra pára para uma cerveja.)

E salta mais um episódio quentinho de “Um Sonho No Deserto”

 

A entrada estava protegida por guarda-muros imponentes.

Quem vem lá? Gritaram. Quem manda aqui sou eu, disse Kamal suave. E os guardiões ficaram logo com ar de corso carnavalesco.

Lá dentro, os bichos fitavam-nos em desafio. Para eles, Kamal tinha outra estratégia: ignorou-os e subiu as escadarias como um rei. Os bichos ficaram brancos. A cidade do cinema sou eu. Agora. Porque antes era o meu pai.

 

Voz de Kamal com olhos de montanha distante:

O meu pai era um visionário. Um dia teve o sonho de construir aqui em Ouarzazate estúdios de cinema. Os realizadores e produtores que conhecia  sempre lhe disseram que a qualidade da luz era excepcional, muito generosa. Mágica. Temos vista para as montanhas do Atlas. No inverno há neve, temos o deserto e montes alvos em fundo. Não há muitos locais no mundo que forneçam este cenário natural.

        Os deuses fazem vénia. Kamal fala muito baixinho. O meu pai sempre gostou de arriscar muito alto. E eu, serei capaz?

Mais um episódio dessa novela que é sua: Um sonho no deserto

          Logo depois do genérico entra o letreiro:  DOIS ANOS E MEIO DEPOIS

          Voz feminina em off:  Só então conseguir cumprir o desejo. Tanto tempo à espera, parecia que não ía acontecer nunca.  Chegámos à noite a Marraquexe. Kamal esperava-nos. Não parecia o mesmo. Fato escuro, camisa branca: homem de negócios. Param aqui os sorrisos. O pai morrera. Ele era o herdeiro de um pequeno império – uma cadeia de hotéis e riads de luxo em Marrocos. (Sorrisos podem recomeçar. Está a ver, Gonçalo? Por causa dos medos que os pais incutem, não investi na altura certa e lá perdi a oportunidade de um bom partido…)

        Levou-nos para o seu hotel das arábias em Marraquexe (aparte para fofoca: lindo, apesar dos pormenores pirosos na decoração, luxo dourado excessivo). O herdeiro só estava diferente no visual: até com os empregados usava do trato atento e delicado que dispensava aos convidados. Percebi durante estes dias que o adoravam. Dir-me-ia mais tarde, voz de Kamal com chá de menta: para mim todas as pessoas são importantes, não trataria umas melhor que outras, todos precisamos uns dos outros.  (Fade out a negro)

         Só no dia seguinte seguimos para Ouarzazate.

         E aí sim, rendi-me ao riad às portas do deserto. Construção baixa de adobe rosa terra, palmeiras longas, recantos despojados, jardins e lagos escondidos, quartos rústicos elegantes, nada destoava. Só então percebi a ligação à organização do rally: era em hotéis da família que os vips da competição ficavam – nada de tendas arenosas para esses.

         (escuta-se banda sonora marroquina em crescendo)

          Foi nesse dia que regressámos ao local que nos tinha abanado na aventura nocturna à luz dos faróis. Vimos finalmente à luz do dia a Hollywood do deserto.

Um sonho no deserto #3

             O sol há muito que se tinha escondido. A noite não trazia lua. Íamos conversando, o condutor do jipe cada vez mais entusiasmado, eu e o meu colega cada vez com mais comichão de curiosidade. Estrada de terra, asfalto, terra outra vez. Não demoramos muito a chegar. Havia muros muito altos, um portão de madeira muito alto. As luzes do carro não deixavam ver o fim. Kamal deve ter carregado num botão. Abre-te Sésamo. Sem bandidos, por favor.

           Lá dentro, chão de terra batida a perder de vista. Desapontamento. Kamal fez de propósito. Só virou o carro e apontou os faróis na altura certa. Um navio vicking. Um navio vicking? No meio do nada? As luzes confirmavam: escudos pendurados, figura de proa profusamente hasteada. Não era miragem, não havia água à vista, eu não tinha bebido cerveja. Mas riamos com nervosismo.

           Mais à frente os faróis de novo repentinos como holofotes de cinema: uma gigantesca escultura faraónica. Duas. Várias. Colunas altas. Um templo inteiro. Luxor em Marrocos? Os faróis tornavam a visão ainda mais fantasmagórica. A escuridão encobria e atiçava o espanto. Não tinhamos levado câmaras de filmar nem fotográfica, não podiamos registar nada. No entanto, à medida que as luzes descobriam outra e outra imagem, percebi que nunca iria esquecer aquela noite.  

           Kamal falava do pai e do sonho que tinha começado a construir uns 20 anos antes. Um visionário no deserto. E até então bem sucedido. Não só para a família lucrar, mas a cidade inteira. Acima de tudo, pelo prazer. E o filho queria dar a conhecer o sonho do pai. Já tinha tido equipas de reportagem francesas e espanholas, mas de Portugal ainda nada. E percebi que o patriarca só podia ser uma personagem. Tinha mesmo de o conhecer.

            Mas Kamal, nós agora não podemos, arrancamos com a caravana do rally ainda durante a madrugada. Mas vamos voltar mais tarde. De certeza que vamos voltar.