Encontros imediatos

       Estava eu durante a tarde a folhear um dos meus livros preferidos quando dei de caras com nosso PN. Apanhado em pleno voo pela pena rápida e demoníaca de Delacroix. Está com ar de ir aprontar alguma.

                    E não é que aprontou mesmo? Já não lhe bastava ter ido desassossegar um dos mais distintos e lendários magos de todos os tempos. Agora até se atreve por uns inocentes subúrbios aguados de saias rodadas que tentei durante a mesma tarde. Foi quando me afastei da aguarela por uns momentos. Ao regressar, ele já estava instalado por entre flores e saias de belas raparigas saídas das linhas de Helberto Helder (que se podem ler neste blog, aqui uns posts mais abaixo).                  

                Nasceu de repente, sorrateiro sorriso briguento, sem pedir autorização. E desde quando precisa, perguntará? Pois sim, eu sei que surge onde e quando lhe dá na real gana. Mas agora foi apanhado e denunciado, só lhe resta dar sumiço ao seu sumido tridente…ou arrisca-se a levar com um Super Borrão em cima. O meu herói contra um vilão do piorio. (Contra Steven F. Seagal nunca me atreveria, muito menos contra Manuel S. Fonseca. Esses, aposto que antes de trocarem iniciais entre si, até trocavam as minhas!)

As estrelas amam,cantam sol e pássaros?

   Um poema para a Turmalina e para as outras raparigas belas belas         

                                                                      CANÇÃO


                             Muito belas flores vermelhas, azuis, amarelas.

                             Dizemos às raparigas: “Vamos passear entre elas.”

                             Vem o vento e move as flores belas, amarelas.

                             Quando dançam, as raparigas são como elas.

                             Umas são pequenas, outras são grandes flores abertas.

                             Os pássaros amam, e cantam sol e estrelas.

                             Doce é o odor das flores de tantas cores belas.

                             Mais doces são as raparigas belas belas

                             Mais doces que as flores vermelhas, azuis, amarelas.



                              Canção dos Yaquis, América do Norte, Versão de Herberto Hélder

                                  In Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, p. 172

Nem o céu é igual

          O conto que o PMS contou aqui abaixo deixou-me assim virada para dentro. Fui enfiar-me na Rosa do Mundo em busca de poemas do príncipio do mundo. A antologia mais bela e maior da Assírio & Alvim confortou-me: inclui até belissímos poemas esquimós. Mas o livro de papel bíblia abriu-se mágico neste que aqui segue à frente, e é este que tem de ser.

            Em busca de imagens para o poema entre as minhas fotos, encontrei céus de muitos países.

Cada céu podia ser de qualquer país? Talvez. Se trocasse os nomes às fotos, alguma vez um país reencontraria o seu céu? Ou ficaria um país com um chapéu de nuvens que não lhe servia?

Olho para estes céus todos enfileirados à minha frente. Se baralhasse as cartas, talvez ninguém desse por nada, talvez nenhum país notasse. Como aquelas coisas que são iguais em todos nós, os céus também. E no entanto nenhum céu é igual. E de repente. 


                                         E DE REPENTE É NOITE


                                         Cada um está só sobre o coração da terra

                                         Trespassado por um raio de sol:

                                          E de repente é noite.



                                   Salvatore Quasímodo, (1901 – 1968), Itália, trad Ernesto Sampaio,  

                                        in  Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, p. 1422

The bright side of life

“Always look on the bright side of life” é a minha música de trautear e assobiar preferida.

Uma canção de Eric Idle para A Vida de Brian dos Monty Python, de 1979.

Contagiou o herói meu Super Borrão Negro, ou vice-versa.

Parece que desde então é menina para ser cantada em grupo onde quer que um grupo se encontre, em carros do lixo, jogos de futebol, casamentos, baptizados, funerais ou afins. É música para acordar um morto, ou mesmo mais.

A Temperança

          A Temperança, desta vez sim, a sério, pelas linhas do outro primo que agora também insiste em ser publicado (primeiro não queria), depois de lhe ter descoberto a sebenta num baú poeirento lá em casa. O primo Rigoberto estava uns anos mais adiantado que o primo Roberto, quando era miúdo queria ser poeta declamador, agora é funcionário público, não se terá perdido tudo. Fez a redacção sobre a virtude pedida pelo professor (o tal que se chamava Manuel, S qualquer coisa, confirma o primo pelo telefone), fez a redacção, dizia, com dedicatória de rimas e retrato (qualquer semelhança com a figura do primo agora será mera coincidência).

A Temperança

                                                              Bicho baixote e anafado,                                                    

                                                        Mais que virtude, tem pecado.                                          

                                            Em equilíbrio forçado sobre arame mal atado               

                                               Segura por fio otário, é ela e o seu contrário.                

 

                                                         Quando já não pode comer mais, 

                                                       pede dieta aos demais comensais.

                                                  Querem que pensem que resiste à Gula

                                                          mas se descobrem fica fula.

 

                                                    Mostra tensa azia e pedra calcário,                         

                                                  Tem mesa vazia e doces no armário.                      

                                                    Moderadora de debate televisivo,                            

                                                   Vivacidades abate sem improviso.       

                 

                                                 Chamem lá o sizo, pachorra é preciso,

                                           Que não há paciência para mais abstinência. 

                                           Para virtude universal deixa muito a desejar,

                                      A modéstia já lhe rança, a Temperança tem pança. 

A Tempegança

          Não, não é engano ou gralha, nem gansa, foi mesmo assim que encontrei escrita a palavra, por alguém que não embirra com a temperança tanto como eu. Por absoluto acaso, num baú poeirento descobri umas sebentas de escola primária, com umas redacções de uns primos que vêm mesmo a calhar. Parece que tinham um professor que lhes dava umas redacções muito chatas para fazer sobre pecados e virtudes. Desconfio que se chamava Manuel, o professor, mas não quero estar a levantar falsos testemunhos.

A letra do primo Roberto é um pouco díficil de perceber, deixo aqui uma transcrição:

                                          Guedacção:  A Tempegança

A Tempegança é quando é dia de tempegague a gança. Eu gosto muinto. A minha mãe bótale muinta aguaguedente pela guela abaixo comá ti Custóida faz aos piguns e depois a minha mãe bota muintas coisas na panela com a gança depenada embaixo e batatas também e a gente depois come tudo e vinga-se da gança que ela também nos comia o bolicao e bicava-nos e tudo.

De sombras e outros heróis

            Quem responde por mim quando me assanho? O meu eu vilão só podia ser uma personagem de banda desenhada. O meu lado negro é às pintinhas. E, para meu rubor, já se encontra convenientemente retratado. É uma criatura selvagem de ar aparentemente inofensivo e por vezes até amoroso, como uma aturada e prolongada pesquisa científica fez o favor de documentar.

           Mas quando se zanga, sobretudo para defender os seus, não é de meias medidas. Nem meias falas nem grande falador. É uma fúria pegada que não deixa nada inteiro.

Para que não haja dúvidas e sirva de aviso a provocadores, vejamos em pormenor o que acontece aos alvos inimigos deste desmando enfurecido. 

              Mesmo que superiores em número e em força e pertencentes a uma espécie temível por catálogo e astuta por imposição da natureza, até os mais pintados são forçados a bater em retirada com o rabinho… ía dizer entre as pernas, mas parece-me que não seria a figura de estilo mais apropriada.

  

              Quanto ao herói, o meu lado brilhante é que é mesmo negro mas é só na cor. Tirando isso, é garoto risonho e bem disposto. Nem sempre encarado com sentido de humor, é certo. E se tardei nesta resposta ao desafio, não foi por demorar na busca, mas sim por não encontrar retratos do meu herói, que calculo demasiado rápido e discreto para se deixar apanhar. Logo, estive a tentar plasmá-lo de mansinho, não fosse ser vítima, por proximidade excessiva, das travessuras do meu Super Borrão Negro: o super herói que atinge mentirosos e malfeitores bem falantes e os borra de tinta negra fluorescente sempre que apanhados em falta.

       Estejam onde estiverem, não importa que cargo ocupem, splash!, não a sereia, mas tintados da cabeça aos pés. Tanto mais pretos quanto maior a finura do embuste. Imagino que este Super Borrão fizesse um figurão no parlamento, nos tribunais e demais púlpitos por aí fora. Mas deve andar ocupadissímo não sei onde, dava tanto jeito aqui mais à mão…Talvez o racismo não lhe achasse grande graça, ía andar tudo pretinho por aí, mas as lavandarias iriam facturar à farta, os produtos de banho esgotar nas prateleiras, as lojas de roupa não teriam mãos a medir, era um grande fomento ao consumo e dava cabo da crise num abrir e pingar tinta.

E depois, despede-se sempre a cantar: “Always look on the bright side of life! Taram, taram” 


           Agora, colada às palavras da Eugénia, a desafiadora, pergunto ao nosso Norton:
1. Pedro, quem é o seu menino mau? Quem responde por si quando arranha?
Pode escolher de um disco, de uma peça de teatro, da publicidade, só tem de ser público. E até pode uma menina má…
2. Se o Pedro Norton fosse um herói, ou mesmo um anti herói, quem seria?
Valem todos, desde o inventor do pião ao Gaston La Gaffe. E não esqueça: passe a outro e não ao mesmo. Estamos todos curiosos!

Experiência funda

Enquanto eu escavo em busca do meu dark dark side, aproxima-se de mim um turista:

 

- Pode tirar-me uma foto, por favor?

- Hum. Sim, claro. Quer com esta em especial?

- Não, é mesmo com todas as que puder…E já agora, se não se importa, para este lado também?

- Aqui está. Já agora, porquê o seu interesse no local?

- Fui coveiro, há uns anos.

- Escolha sua?

- Não, não tive escolha. Recusei o serviço militar, fui obrigado a trabalhar, mas foi o único emprego que encontrei na altura. Durou um ano inteiro

Cemitério de Montparnasse, Paris, tc

- Como foi a experiência?

- Funda. Tinha que cavar 1,80m por cada sepultura.

- Fugiu de umas trincheiras, arranjou outras.

- Mas não me enterrei nelas.

- O que lhe ficou desse tempo?

- Uma caveira. Ainda a tenho lá na sala.


Uma festa lá em baixo

 

          Estão frente a uma tabuleta com nomes e números. O diálogo ouve-se à distância, em sotaque americano cerrado. Segue tradução simultânea.

 

 - Olha quem está aqui, Charles Baudelaire, ah. E Jean-Paul Sartre!

- Olha para isto, Marguerite Duras! Io-nes-co! Até Samuel Beckett, dá para acreditar?

- Aaaah! E Serge Gainsbourg! E ali, Jean Seberg, que excitação!

- Mas como é que esta gente toda se encontra aqui no mesmo sítio?

- Deve ser uma festa pegada, lá em baixo.


Cemitério de Montparnasse, Paris, tc

Cemitério de Montparnasse, Paris, tc


Cinco presentes impossíveis

          São uns que eu há muito queria ter dado às minhas pessoas, mas foram amarelecendo impossíveis  desde a adolescência sem encontrar fita a condizer. E nem todos cabiam num bolso. Eram tantos. Ofereço agora estes. Sempre podem inventar-lhes outros usos.

Um rebuçado com sabor a beijo   

para tornar menos amargas as ausências

                            Cartas velejadoras   

que transportem o mar e as saudades dos marinheiros

 

Um lugar suspenso no tempo

para se ter todo o tempo para as coisas mais gostadas

                    Um tapete voante 

para o corpo acompanhar as viagens onde o espírito vagueia sozinho


      Um bicho duche 

para os banhos mais exóticos 

folhetim 2 — Sobre a água

Pegou na mão da menina e olhou em volta. Os outros passageiros já se sentavam na berma, ao pé do autocarro manco. Sem pneu para mudar, esperariam horas por boleia como de costume. Na estrada apinhada para Vaitheeswaram só passavam camiões coroados de gente.

A sua sombra alta projectava-se agora de tamanho igual à da menina. E de outra sombra ao lado. Algo se desconcertou em si antes de olhar. Pressentiu-lhe a presença, tocou-o antes de o tocar o almíscar voante do tecido. A mulher tinha uma ferida na fronte. Não falaram enquanto ele apressou o curativo. O sangue estancou num silêncio sem peso. A mão pequenina já sem medo a segurar a cor do sari da mãe.

— We go Nadi Jyotisha.

Queria apressar a ida. Mas aqui o tempo é uma roda furada. Um calor abafado de esponja. O coral de um sari que se lhe acende em perturbação. Uma mão pequenina de olhos fundos. A distância mede-se em tempo, duas dezenas de quilómetros vão a compasso desta caravana de carroças de búfalos domésticos que agora passa. Sobem para o curto espaço livre de uma, e daí para a confusão ordenada do caminho ao longo do rio Kaveri. O fluir do rio imita a corrente de gente, festa de buzinas pó animais. Sorri para o intervalo do aviso pintado em pedra na estrada, letras negras destacadas na cal: “Go home in piece, not in pieces”.

Acomodações feitas nos arredores do templo de Vaitheeswaram, no dia seguinte seguem em trio na direcção do santuário, no rasto dos peregrinos. O templo ergue-se circular e em pirâmide para cima e para baixo, repetido na água do lago em volta. Palácio borboleta líquida.

Esperam na fila às portas da biblioteca do templo. Imaginou-a sem as cortinas espessas das paredes, uma biblioteca de água. Onde encerrados durante séculos viviam destinos escritos em folhas de palmeira. A impressa herança dos sete sábios. Milhares de mapas Nadi à espera durante séculos. Todas as vidas de todos os habitantes do mundo. Não, de todos não. Apenas as de quem os procurava.

Na extensa fila encostam-se no corredor de pedra casais jovens de mãos suadas, sentam-se no chão estudantes de calcanhares nervosos, velhos de cores indecisas. A menina compenetrada alinha pauzinhos de madeira, a mulher-mãe borda em pano outrora branco o início de um símbolo impenetrável.

Horas grossas, inteiras, até chegar a vez deles. Demanda de dias inteiros. Primeiro deixar a impressão digital do polegar direito, os homens, do esquerdo, as mulheres. Voltar no outro dia, mais indicações, regressar num dia outro. Entre o farnel de arroz seco repartido que elas comiam com os dedos sobre pão redondo e molho vermelho picante, sem nunca o seguir para um restaurante, os rajás que lhes comprava ao vendedor da carrinha rosa choque, as orações no templo ao deus Shiva observadas em burburinho de flores e incenso. E esperar nas sombras de outra noite e outra.

Os tambores do templo soaram o Kathakali durante toda a última noite. Assistiram ao espectáculo em frente ao lago. A menina dormia no colo de coral da mulher-mãe, a mão pequenina a segurar o cabelo molhado sobre a testa. A ternura sobre a testa. Ela sabia. Elas sabiam. E esse conhecimento unido intimidava-o e confortava-o. Sustentava-lhe a espera e a busca. A inquietação. A urdidura do tempo abria-se em sequências de coroas de círculos sobre a pele. Vidas antes de vidas ressoavam com eles nos tambores da noite, nas máscaras pintadas e nas saias rodopiantes dos dançarinos sobre a água, nesta boca de silêncios sem sorriso. Nesta.

Insónia de tambores até amanhecer. Às portas da biblioteca de água descalçam os sapatos, elas entram por uma porta, ele por outra. Três homens sentados esperam numa luz de poeira húmida. O guru Nadi, profissão e barba branca hereditárias, traz de um recanto de estantes escondidas sete maços de folhas de palmeira. Irmanadas por corda gasta, preservadas em óleo de sangue de pavão. Espalha-as sobre a mesa. Irá ler as folhas em cântico tamil, soprar a energia dos canais que respiram o tempo.

Camisa de linho bege empapada em suor, ele adia o corpo como antes de uma radiografia. O guru leitor das barbas não se apressa, ainda não tem certezas. Faz perguntas que o tradutor calvo transporta em inglês. Ao lado, o astrólogo consulente aguarda para comprovar se o mapa desenhado ali defronte é o do cliente. Falta confirmar iniciais de letras, esperar o último jogo sim ou não. “You have two sons?” Yes. “Your mother’s name begins with an S?” Yes. “Your father’s name begins with an A?” Yes. “Your name begins with an E?” No. Guru e astrólogo sussuram em dialecto, reviram as folhas dos sete maços, buscam. Alvoroço, abanam as cabeças, o tradutor em ponte: “Estes maços eram a nossa derradeira hipótese. As tuas folhas não estão nesta biblioteca. Mas sabemos onde podes encontrar o descendente de um dos sete sábios. É lá que está o que procuras”.

O guru leitor rabiscou a lápis duas palavras num canto de papel de embrulho. Deu-lho. Camisa beje em desalinho, ele levantou-se e decifrou lentamente cada letra. Estremeceu.

- Não pode ser. 

Folhetim tim tim

O CAÇADOR DE TEMPO iniciou sua demanda com Eugénia de Vasconcellos e suas venturas podem ser relidas aqui ao lado, em nobilíssimo Cadavre Exquis de páginas criadas pelo benemérito Francisco Feijó Delgado.

Antes de soar a meia-noite no relógio da catedral, dling dlong, e se antes não me transformar eu em abóbora, virá aqui alojar-se o segundo capítulo do folhetim de nosso blogue.  Tremei, ó gentes (que eu também).

O Batô de Rambô e o Helicô

          Sahara, por tc

Atravessando o deserto do sahara, o sol estava quente e queimou a minha cara, ai que caloo-ooo—ooô. Esfrego os braços para aquecer, quem escreveu esta canção nunca esteve no deserto em Janeiro. O frio é tanto que nem se consegue dormir à noite na tenda.

             E quem disse que o deserto é silencioso não ouviu o barulho dos motores repetido noites inteiras, mecânicos a reparar carros e motos, a seguir os aviões a deslocar uma invasora cidade móvel deste para outro lugar vazio, cheio de areia. 

             Rompia o século XXI, passagem para o ano 2000 pela fresquinha e eu no deserto, pronta para um inaugural Paris-Dakar-Cairo, em cobertura jornalística. (mixed feelings about it, poderia escrever tantos contras como prós sobre o rally, não será neste texto). 

              Já antes tinha sido enlaçada pelo encanto do deserto, outro deserto, muito mais longe e muito mais antes de reportar sobre o rally. Recebi mais este deserto de braços abertos, amaldiçoei várias vezes tanta abertura, maldição e desejo, repeti a experiência três Janeiros seguidos.

              Como jornalista, podia usar dos helicópteros da organização francesa para sobrevoar a corrida. Os cenários eram grandiosos, a leitura de um país feita de cima e de perto cria novos inventários de olhares. Países inteiros estendidos, dengosos, a deixar-se mirar por uma aranha voadora. 

               É a geologia que conta a História. Percebe-se, por exemplo, onde o corpo do mar deixou marcas: assentou na rocha como um amante apanhado em flagrante… milhões de anos depois. Pisgou-se pela calada, deixou na Mauritânia uma extensa praia cheia de vestígios.

               Assim num click de foto, pode parecer invejante a viagem de helicóptero. Mas não era bem um passeio. Eram 14 horas. Saíamos antes de o sol nascer, voltávamos quase escuro. Entre voos a filmar e paragens para captar em terra a passagem de carros e motos, eram horas de espera. Uma seca. Localização definitivamente apropriada para o termo.

 

               Era eu, o piloto e o operador de câmara franceses. E por vezes alguns miúdos que chegavam não se sabe de que tufo de erva, à espera de um cadeau qualquer. Foi durante uma dessas secas que tirei um poema da cartola.

               Fiz cara de barco, a minha melhor voz de água e tempestade. E recitei-lhes de cor as quadras de “Le Bateau Ivre” de Rimbaud que guardo num meu canto esquerdo.

               Reacção? Racção. Ofereceram-me metade da de combate deles, chocolate e tudo. Gesto magnânimo para gente de desporto que nunca teria ouvido falar de Natália Correia. Faria eu tanto se ouvisse um estrangeiro em Pessoa no deserto? Não tínhamos conversado muito até aí e falamos bastante depois.  

                E não voltei a vê-los por uma semana. Até ao dia em que, da Líbia para o Egipto, eu devia seguir no Antonov de serviço, como todos os jornalistas. Só havia cinco helicópteros, lugares para penduras eram poucos e muito concorridos. Mas eu queria tanto conhecer o rosto do Egipto de cima. Queria tanto sobrevoar o Nilo. 

                Eu sei que tinha tranças e sorriso. Mas havia outras que também. 

                E gosto de pensar que foi o Bateau de Rimbaud que me levou.  

                 Se o meu sobrinho um dia me perguntar para que serve a poesia, já posso responder-lhe:

                — Serve, Afonso, para andar de helicóptero. E comer chocolates. 

O barco de Rimbaud

       Para navegar com o mar de piratas do Manuel Sinbad Fonseca, tenho uma história que reune o mar e o seu reverso, o deserto. E um rio. 

        É uma história com leme de poema, um que muito me é grato.  

Nuvens-flor, Odilon Redon

Comme je descendais des Fleuves impassibles, 
Je ne me sentis plus guidé par les haleurs : 
Des Peaux-Rouges criards les avaient pris pour cibles 
Les ayant cloués nus aux poteaux de couleurs.

J’étais insoucieux de tous les équipages, 
Porteur de blés flamands ou de cotons anglais. 
Quand avec mes haleurs ont fini ces tapages 
Les Fleuves m’ont laissé descendre où je voulais.
 (…)

Plus douce qu’aux enfants la chair des pommes sures, 
L’eau verte pénétra ma coque de sapin 
Et des taches de vins bleus et des vomissures 
Me lava, dispersant gouvernail et grappin

Et dès lors, je me suis baigné dans le Poème 
De la Mer, infusé d’astres, et lactescent, 
Dévorant les azurs verts ; où, flottaison blême 
Et ravie, un noyé pensif parfois descend ;  (…)

                                                     Le Bateau Ivre,  Jean-Arthur Rimbaud                            

           Deixo aqui apenas pouco mais que o arranque da embriagada viagem, o poema inteiro ocupa várias páginas, e inunda-me inteira muitas vezes. 

           E agora chegou-me nesta associação livre barco-deserto-rio-Janeiro. Dá uma historinha. 

           Que há-de desaguar por aí a seguir. 
 

Gostos Malteses

Gosto tanto

- de ver os meus sobrinhos a pintar, dou-lhes os tubos primários que eles transformam em cores impossíveis e linhas como eu nunca conseguirei (o Picasso já sabia)

- de viver com vista para o mar e das variações das ondas sobre o farol do Bugio

- do primeiro café da manhã com jornais na esplanada

- de bons petiscos regionais com melhor vinho tinto em jantares de amigos

- de tardes preguiçosas de leitura

- de bibliotecas de belas e monstros, da Xerazade e de bons contadores de histórias

- de banda desenhada, misturo os heróis e reuno o Corto Maltese com o Marsupilami, o Gaston la Gaffe com o Philémon, o Astérix com o Iznogoud, como recortes para cadáveres esquisitos

- de ilustrações de livros infantis, de livros de fotografia e das fotografias encostadas aos livros nas estantes, dormem de dia com eles, sabem mais deles que eu 

- dos espelhos e do aleph de Borges, e de todos os livros dele

- do jogo de olhares das figuras de Giotto na Basílica de S. Francisco de Assis, de Piero de la Francesca (sem Assis), de Velásquez, de Goya, de El Greco, de Odilon Redon, de Munch, de Manet, de Schiele e aqui começaria outra lista de escolha espinhosa

- de passar uma tarde num museu ou capela a tentar re-desenhar num caderno os frescos ou pinturas que me intrigam ou comovem, para onde seguem os traços, como conseguem a luz

- do Amarcord, de Fellini (e de todos os outros dele, já agora)

- das mãos sobre o piano de Glenn Gould, de jazz, de música árabe e africana

- da arte da fuga (de Bach, e não apenas)

- de longas viagens por terra, de desenhar em viagem e de todos os mapas para lá chegar, mesmo que depois não os siga

- do amanhecer no pico do Ramelau, Timor-leste (herança paterna)

- da intensidade e perplexidades do Irão, Iémen, Índia. E do Curdistão, Butão, Tibete. E da Guiné, Egipto, Etiópia

- de fumar cachimbo d’água com tabaco de maçã (eu que não fumo)

- de colecções de chapéus e óculos, de cavalos de ferro guerreiros e de cruzes etíopes

- de andar a pé, de bicicleta, a cavalo e de moto na lama e na areia

- de pincéis e de todos os materiais de pintura, de pintar furiosamente uma tela em branco e de descobrir que tubos preciso para conseguir a cor da chuva rente à vinha, tenho de ir ver outra vez como pintam os sobrinhos

Bichanos à solta

Em breve vão azucrinar-nos o cemitério. Secretos e sábios, rafeiros e ranzinzas, pios e piratas. Em jogos de nomes. Quem serão?

Horn Please, Ok?

India on the road, versão all over?…

Prego a fundo a 40 km por hora, três camiões Tata degladiam-se pela faixa direita da estrada, apitos mais a fundo que o acelerador. 

Sorrisos do Bihar, por tc

Reparou, Pedro?, os condutores avançam sempre de sorriso aferrado para o embate frontal, iludido no último segundo. Ouvi dizer que deve ser por acreditarem na reencarnação. Ou então devem estar a encomendar a alma à temível deusa Kali com que o Vasco Grilo se deparou.

Mas é preciso conceder numa coisa: delicadeza na carroçaria não lhes falta.

Polite all ways, por tc

 Seja re-bem-vindo, Pedro!

Que fazer quando tudo desaba?

Costumamos usar o verbo  desabar  em forma figurada. Mas quando é a sério e é uma cidade que desmorona? 

O sismo no Haiti  é uma catástrofe tremenda, que fica pior à medida que vão chegando notícias.  É longe, não apetece pensar nisso.  De vez em quando a natureza parece fazer calhar a uma parte diferente do mundo uma dose extra de sofrimento. Mas o nosso pior terramoto em Lisboa foi há 255 anos e ainda nos é presente, lembramo-nos dele sem ter havido televisão nem internet nem youtube.

Que faríamos nós agora,  se fosse aqui? Se nos desaparecessem os mais queridos, se perdessemos tudo.

O que nos restava?

Como cicatrizam em nós as tragédias?


( Foto tirada daqui: http://sic.sapo.pt/online/noticias/mundo/especiais/sismo+no+haiti/)


E se for 2066?

          Não, não é engano na referência ao nome de um livro em voga e a pergunta é de retórica: estamos mesmo em 2066. Pelo menos para um grande número de hindus*. Celebraram no nosso Outubro a entrada no Ano Novo Hindu, o ano Vikram de 2066. Eu sei porque estava lá a assistir às cerimónias de Ano Novo, no Templo Hindu de Lisboa.

INDIA 2066 022

          O que se riram quando lhes perguntei por este futuro paralelo. Não, não tinham ainda inventado a cura para a Sida, nem confirmavam se havia vida em Marte. Mas falaram da sua antecipada e calma sabedoria sobre o fim do mundo no ano 2000: sabiam então, de antemão, que não ía acabar, porque há muito tinham passado por ele sem sinais de apocalipse. Aliás, as oferendas aos deuses e o símbolo da prosperidade aceso em velas e bandeiras não deixariam que tal acontecesse.

INDIA 2066 034

           Logo, Manuel, em teoria prosaica, o futuro existe e convive mesmo aqui ao lado com o seu poético presente de todos os dias. Também o relembro aqui porque neste nosso viajado blog temos um conviva a viver neste momento em 2066. Espero que no regresso nos possa relatar essa inaudita e impossível experiência de viajar também no tempo.


          * Não será 2066 para todos os hindus, porque as várias culturas parte do hinduísmo seguem calendários independentes, baseados nas estações e na economia agrária de cada região, ou de acordo com calendários lunares… pelo menos foi o que percebi, porque para voltar a 2009, na altura, bastou-me descer as escadas do Templo.

A minha montanha mágica #3

                “Its western summit is called The House of God. Close to the western summit there is the dried and frozen carcass of a leopard. No one has ever explained what the leopard was seeking at that altitude”.                  

                                                                           The Snows of Kilimanjaro, Ernest Hemingway

                                natal 2009 167

             Levei o livro até ao topo, inchado e disforme da chuva e da geada nocturna. Não encontrei logo a resposta para adivinha sobre o leopardo, mas encontrei o bicho da canção que os carregadores mais repetiam. A do medo da montanha: Ó serpente, ó serpente, vens morder a minha carne, ó serpente, ó serpente, no escuro sobre os ossos, em tradução muito livre do swahili.

             A serpente: o mal de altitude, em adaptação ocidental. Pode revestir-se de diferentes peles: a que asfixia e mata se não se descer imediatamente; a que provoca náuseas, insónias e mal estar geral.  Quatro portugueses do grupo sofreram-na: os montanhistas mais experimentados, os que subiam mais depressa. Um foi transportado de maca para baixo. Não conseguiram o pico.            

             Depois de atingir o nível da cratera, a 5 695 m, toda a noite a escalar na neve para evitar o degelo com o sol…e ainda falta um obstáculo: subir o desnível de 200 metros, pela parede do vulcão extinto. Na foto parece meia unha, na manhã parece intransponível. Pernas enterradas na neve, custa tanto respirar. Cada passo pesa um dia inteiro. Faz-se pagar caro este Uhuru Peak, o pico da liberdade.

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               Conseguir o topo não é o auge. Parece um anti-climax: é o alívio, uf, respirar fundo, agora ainda falta descer. O que me safou todos os dias foi ser lenta (é um dos segredos, adaptar lentamente o corpo à altitude e à falta de oxigénio no ar). O reencontro com o meu avô também, claro. E ter um objectivo: em trabalho, não posso desistir.

                Mas sofri de insónias, fúrias e exaustão. E perguntei-me muitas vezes que raio procurava aquele grupo de portugueses na montanha, só podem ser doidos. Ou serão como o leopardo? E logo no fim do ano.

                Fui percebendo ao longo dos anos, antevi a meio da descida, pés em bolha, meia-noite de ano novo com uma sopa aguada a saber à melhor iguaria. Essa coisa muito gasta do valorizar as coisas pequenas, da superação e etcs. Essa coisa da aprendizagem que só se faz pelo esforço. Essas coisas que o meu avô me mostrava sempre e eu esqueci e me foram devolvidas aqui porque doeu.

                 Quando nos toca, transforma-nos, sim Joana, é isso. E o encontro com esta montanha e os encontros que se deram nela fizeram-me voltar diferente à vida de todos os dias,  que maneira tão bonita de dizer isto, Joana. Parece que quando nos dói, transforma mais. E esta foi uma dorzinha tão apenas no corpo.

                 Já tive montanhas maiores e mais sérias pela frente, desde então. Mas esta foi a primeira, a que me deu o abanão. Por isso a sinto minha.