Símbolos e rituais

- α -

Há dias, aqui na universidade onde estou, houve o Commencement, que paradoxalmente marca o fim do cursos, mestrados e doutoramentos dos alunos da instiuição. O paradoxo desfaz-se quando ficamos a saber que o que é realçado não é o fim dos estudos, mas o início do resto da vida. Na minha universidade, em Portugal não houve nada, nem no início, nem no fim e, como ateu que sou, não quis ir à benção das fitas organizada em Lisboa. Não que tenha nada contra, mas simplesmente achei que, para mim, não fazia sentido, não era o símbolo que queria. O Commencement é um símbolo, um ritual: marca a cadência da vida.

- β -

No meu post anterior o Manuel e a Blonde levantaram a questão do paradoxo latente: uns querem o casamento, quando no fundo a população em geral o quer cada vez menos. De seguida o Manuel e o Gonçalo contestaram a simplicidade com que pensam que ponho o problema do valor do casamento.

Certamente — o casamento é uma instituição ancestral, tradicional, conservadora e, sem dúvida alguma, parte integrante, para o bem e para o mal da forja que criou a sociedade que temos. E o que é que está a acontecer agora? Será, como diz o Gonçalo que «há uma cruzada» contra o casamento? Não sei se há uma conspiração, não sei se é deliberado, mas que as férias no Brazil ajudam a que ele esteja fora de moda, lá isso ajudam. É uma cruzada? Não sei. Não estou em condições de fazer uma análise decente sobre o que tem feito diminuir o número de casamentos. Mas não é só o número de casamentos que tem uma variação acentuada: o número de divórcios cresce, e muito. Em 2008, por cada 100 casais que se casavam, 60,4 divorciavam-se. Mas se virmos em cada 100 casamentos pela Igreja, esse número eleva-se para 82.3, enquanto os do civil situavam-se em 42.9, um número relativamente estável no século XXI. Contrariamente, os divórcios de matrimónios contraídos na Igreja, se a tendência continuar, arriscam-se a ser mais numerosos que os casamentos. Se houver uma conspiração, não só está a conseguir que as pessoas não se casem, mas também a evitar que permaneçam nesse estado aqueles que já casaram, especialmente os que o fizeram pela Igreja. Não acredito que haja conspiração.

Divórcios por 100 casamentos
Dados da Pordata

Que quero eu dizer com estes números e gráficos? Bem, queria só que estivessem ao corrente deles. E, não entrando em divagações, vou apenas apontar duas coisas: 1) o casamento religioso pressupõe a eternidade e outros conceitos sobrenaturais; 2) tradicionalmente o casamento em Portugal é religioso, pelo que os que casam ser pela Igreja têm, pelo menos, de rejeitar essa tradição (e aceitar uma cerimónia bem mais feia e pirosa, porque nada ainda bate a cerimónia numa igreja).

Agora, finalmente, a minha posição: eu sou a favor do casamento. Aqui falo do púlpito, porque nunca casei. Desculpar-me-ão os mais experientes e estão no vosso direito para dizer, eh pá, vai lá à tua vida puto. Mesmo que fosse religioso, seria frontalmente contra a ideia do para toda a vida. O casamento é um símbolo, um ritual. O casamento é um contrato, para os noivos e para a sociedade. Uma declaração, um ponto de nucleação. Essencial? Claro que não. Pode ser quebrado? Claro que sim: somos humanos. O casamento que deriva do religioso é conservador e pseudo-romântico; o casamento que defendo, não o é. O casamento é um símbolo, um ritual: marca a cadência da vida.

- γ -

Aqui diz-se que a figura da Primeira Dama serve para denegrir as mulheres. Este é o tipo de ateio-republicanismo que eu, sendo ateu e republicano, não suporto: «É um resquício monárquico preservado como adereço de presidentes e primeiros-ministros. (…) [D]estrói o exemplo de mulher moderna e emancipada de que precisam os povos habituados a hábitos patriarcais e tradições religiosas misóginas. (…) Não importa que os EUA e o Reino Unido, ou mesmo a França, dêem maus exemplos. A emancipação feminina não se compadece com papéis que o progresso e a civilização tornaram anacrónicos.»

Em Portugal oficialmente não temos esta figura mas tradicionalmente as mulheres dos presidentes da República têm assumido este papel. Entre nós os cônjuges destas figuras geralmente não participam nas campanhas eleitorais, ou são pouco visíveis, mas, nos EUA, por exemplo, a candidatura é sempre vista como do casal. Obviamente um dos membros é mais relevante e o cônjuge assume um papel, acima de tudo, simbólico. Há mal nisso? Nenhum, na minha perspectiva, deste que o seja por opção e não coacção. E o inverso acontece? Não é muito comum, talvez; o senhor Merkel (que não se chama Merkel), foi apelidado de Fantasma da Ópera, e o príncipe Filipe de Edimburgo, que, ao invés das esposas dos Reis que passam a ser Rainhas, como cônjuge da Rainha de Inglaterra, meramente se tornou príncipe consorte (mau exemplo inglês e monárquico?). Ter um cargo simbólico não é humilhante e exemplos não faltam, modernos ou antigos, de cônjuges que deixaram marcas relevantes no mundo. Mais, faz precisamente parte integrante do contrato que é o casamento.

- δ -

Termino este post, já longo e maçador, com uma breve consideração. Os símbolos são parte integrante da nossa existência. Fazem parte da nossa linguagem e dos nossos sentidos, do material e do imaterial que nos é fundamental. Os símbolos, quando rituais que não ocos, nem bacocos, têm, para mim o papel fundamental de marcar as entradas e saídas de cena, a passagem de etapas, aquilo a que chamo marcar a cadência da vida. Materializam-se umas vezes em regras de convívio, outras em indumentária, outras em cerimónias — muitas das quais, tirando o aspecto sobrenatural, sou totalmente a favor de herdarmos das religiões — e por aí adiante. Parecerá, por ventura, inútil, mas numa altura em as vidas têm ritmos cada vez mais rápidos, são os pontos que nos ancoram ao friso do tempo. A nós e àqueles que nos rodeiam.

Devia?

O dançar das opiniões é tão flutuante como espigas ao vento, mas bem menos melódico. E os clamores ouvem-se:  ora é porque o Presidente devia intervir, ora não devia intervir, devia ter mais poderes, menos poderes. O Presidente Cavaco Silva tem a emotividade e a expressividade dum espargo e, como tal, nunca me inspirou grande motivação. Para o país, também não penso que tenha sido um brilhante presidente e o seu extremo calculismo político é tão aguçado quanto um bisturi.

Desta feita é porque o Presidente deveria ter seguido em frente, levado as suas convicções até às últimas consequências e vetado o casamento homossexual. Como todos sabemos, caso vetasse, o diploma voltaria à Assembleia da República onde seria novamente aprovado por maioria parlamentar.

Eu respeito a honra e a dignidade das lutas, o tombar pelos valores magnânimos face à inevitabilidade e imutabilidade do resultado. Mas vamos lá ver, é esta uma situação verdadeiramente fracturante? Desta vez concordo com a atitude do Presidente: eu sou o Presidente de todos os Portugueses, não concordo e deixo a minha voz em acta, mas vou seguir a vontade da maioria. Esta não é uma questão prioritária para uma discussão alargada, não é sequer uma questão que divida a sociedade. Uma vez desaparecidas as gerações do século XX alguém sentirá isto como um problema? Não.

Casamentos em Portugal
Dados da Pordata

Aqueles que estão contra a atitude do Presidente, na sua maioria, são representantes de uma comunidade ligada aos valores mais tradicionais e conservadores e, inevitavelmente, católicos. Muitos desses valores são de louvar, nomeadamente aqueles que dizem respeito à integridade humana, mas a organização da sociedade está cada vez mais diferente e menos assente nos padrões definidos pela identidade católica; veja-se o gráfico acima, onde a instituição do casamento está em forte decréscimo, mesmo contando com o decréscimo da população (não representado) — nos anos 70, o número de casamentos correspondia a aproximadamente 3.6% da população entre os 20 e os 40 anos, ao passo que nos anos 90, já só correspondia a cerca de 1,9%. Mas o mais significativo é o decréscimo do número de casamentos religiosos, uma medida indicativa da mudança do tecido dos valores da sociedade e seu correspondente enquadramento na matriz católica.

Assim, o prosseguir da cruzada do Presidente seria apenas um capricho de uma minoria e não a representação de uma tendência maioritária, além de que serviria apenas para provocar uma discussão já fora do prazo de validade que, verdadeiramente, de fracturante tem muito pouco.

Frenchman’s Pier

Frenchman’s Pier
Costa norte do Massachusetts

Direito ao direito

Já aqui mencionei a minha apreciação da conquista que foi a educação generalizada gratuita. Ontem a ministra anunciou a possibilidade de se saltar para o 10º ano do 8º, caso se tenha mais de 15 anos e se passe nos exames. O conceito, em teoria, é bonito: alguém que se distraiu, ou esteve doente, ou que por qualquer outra razão não está onde devia, vai ficar em casa a estudar a matéria que lhe falta. E vai passar.

Não tenho estatísticas, mas suspeito que os que estão nesta situação não são, na sua maioria, pessoas que ficaram retidas por circunstâncias alheias e capazes de superar tal esforço. Existe já algo de semelhante, no 12º ano, onde os alunos podem anular a matrícula e depois, no fim-do-ano, se auto-propor a exame. Recordo-me de uma situação em que um antigo colega terminou a disciplina de Física com dezassete valores, mas essa, não é, sem dúvida alguma, a generalidade dos casos. Muitos são aqueles que têm notas baixíssimas, que não podem ser classificadas como azares. Sem qualquer “taxa moderadora” este tipo de exames gastam recursos e tempo, já que em muitos casos há atitudes de não há nada a perder. Mesmo que não haja facilitismo nos exames — que é duvidoso, — a tendência generalizada da sociedade para a falta de brio e de responsabilização incentivam este tipo de atitudes.

Poderia haver algo como a inscrição patrocinada: um professor, que acompanhou o estudo do aluno e que age como “patrocinador” e só assim o aluno se pode inscrever no tal exame. Isto seria complicado, por ventura, de colocar em prática, pelo que proponho que, a introduzir-se esta medida, houvesse um preço de inscrição no exame de qualquer coisa como €100–200. Claro, se o aluno passasse, a educação seria gratuita: o custo da inscrição seria devolvido.

Tudo isto redunda num problema: o do direito à educação gratuita. Eu sou frontalmente contra este princípio. O que defendo é o direito ao direito de educação gratuita, ou, para simplificar e evitar maria-josé-nogueira-pintices, o direito à oportunidade de educação gratuita. Uma vez desperdiçada essa oportunidade (salvaguardando, é claro, a justiça neste tipo de coisas), então já não é da responsabilidade colectiva do Estado garantir a educação gratuita.

A vida a números de Reynolds baixos

Imaginem nadar em mel. Seria certamente complicado. O mel é altamente viscoso, quando comparado com a água, portanto o esforço necessário para se deslocar num hipotético mar de mel seria muito grande. Mas o factor mais relevante é que as forças inerciais deixam de dominar sobre as forças de atrito devidas à viscosidade. O que quero dizer com isto? Se pegarem num barco de brincar, ou numa prancha de surf e os empurrarem, numa piscina, ou num lago, quando os largarem eles continuarão a deslizar sobre a água durante algum tempo. Isto é a inércia: a resistência que um corpo tem a abandonar o movimento que lhe foi imprimido.

No mel a coisa não se passaria da mesma maneira; a prancha pararia quase de imediato, já que o atrito devido à viscosidade “agarra” a prancha. Assim, se dessem uma braçada nessa tal piscina deslocar-se-iam muito pouco. O número de Reynolds (R) é um número adimensional que relaciona as forças de atrito devido à viscosidade com as forças inerciais. Assim, quando R»1 (muito maior que um) estamos num ambiente dominado pelas forças de inércia, como na água, e quando R«1, num ambiente de alta viscosidade, como no mel.

Ora esta relação não depende apenas das propriedades do fluido, mas também do objecto que nele está imerso. Assim, se escalarmos as dimensões, o comportamento não é o mesmo. O que acontece, por exemplo, ao nível microscópico, é que para um organismo pequenino como uma bactéria, mesmo a água lhe parece mel. Assim não pode nadar como nós, mas tem de desenvolver outras estratégias.

Outras curiosidades resultam de o facto de a baixo número de Reynolds, os fluxos são laminares e não turbulentos. O que isto quer dizer, por exemplo, é que se a água de um rio estivesse num regime laminar, a água que segue junto à costa, não se misturaria com a água no centro do leito.

Sugiro que vejam o seguinte filme, com dois exemplos muito curiosos de efeitos que occorrem em fluidos viscosos, descritos num delicioso sotaque britânico:

[1] — O filme acima é um excerto de um de muitos filmes feitos pelo grande físico Geoffrey Ingram Taylor. Estão todos disponíveis no National Committee for Fluid Mechanics Films.
[2] — Para quem estiver interessado em saber mais, aqui fica um artigo muito interessante e acessível, do qual roubei o título: Life at low Reynolds number.

Iluminar as mentes

Literalmente na porta ao lado do meu laboratório, o grupo liderado pelo Ed Boyden está, também literalmente, a iluminar mentes. Mentes, bem, talvez seja um pouco mediático de mais; rigorosamente está a iluminar células do cérebro. Ainda há muito que nos falta conhecer, para entendermos o funcionamento do nosso organismo, mas talvez aquilo que mais no escapa são os meandros do cérebro. Estamos longe de o perceber, e muito mais longe ainda de o manipular, pelo menos de forma física, já que de forma psicológica, de Kubrik a Estaline há exemplos de sobra.

O campo é a optogenómica, ou seja, utilizar a engenharia genética para introduzir nas células elementos capazes de reagir à luz. Neste subcampo específico da aplicação à neurociência, o objectivo é controlar neurónios com luz. O diagrama abaixo explica como se faz a experiência num rato.

Primeiro, obtém-se o gene que codifica uma opsina (proteína do tipo das que temos nas células da retina, que reagem à luz). Esse gene é depois introduzido no genoma de um lentivirus, o qual é administrado ao animal. O virus infecta neurónios e modifica o código genético destes, introduzindo uma cópia do gene que codifica a bactéria. Se a operação tiver sucesso, o rato continua vivo, mas agora os seus neurónios exprimem a tal proteína. Especificamente, este tipo de proteínas são canais activados por luz, abrindo ou fechando, deixando, ou não, passar iões. Parte da comunicação neuronal dá-se precisamente pela abertura e fecho destes canais. Estas opsinas tornam-se assim em interruptores neuronais, controláveis pelo experimentalista. A única coisa necessária é uma “lanterna”, que se introduz no crâneo do rato.

Silenciamento selectivo the neurónios com luz vermelha ou azul.

Para além de estímulos eléctricos e químicos, esta é mais uma tecnologia que pretende manipular a maquinaria cerebral. À partida, tem a vantagem de poder activar ou desactivar um neurónio de cada vez, sem perturbar outras propriedades. Uma das doenças que se pretende estudar com esta técnica é a epilepsia, que se caracteriza por uma hiperactividade dos neurónios de certas zonas do cérebro. Este controlo remoto poderá servir para silenciar os neurónios hiperactivos durante um ataque epiléptico.

Figuras retiradas de:
[1] Illuminating the BrainNature 465, 26–28 (2010)
[2High-performance genetically targetable optical neural silencing by light-driven proton pumps Nature 463, 98–102 (2010)

Read My Lips 2

Read My Lips

do Governo Sombra

Se…

… Portugal tivesse dinheiro, entre outras coisas, devíamos mandar fazer filmes a sério sobre os Descobrimentos. Aqui deste lado todos sabem quem foi o Colombo, poucos, o Vasco da Gama. Aqui deste lado eleva-se o programa espacial à classe de epopeia moderna — e com razão — a tecnologia, a razão e o empenho, combinados com orgulho, coragem, tenacidade e necessidade. No fundo, o mesmo que nos levou à procura do caminho marítimo para a Índia. Colombo teve sorte, mas foi desprezado pelos nossos Reis, que na altura decidiram pelos pareceres técnicos — ir para a Índia, naquela direcção, não fazia sentido. E se os Gregos são conhecidos pela Grécia Antiga, os Romanos pelo seu Império, os Egípcios, os Ingleses, os Franceses e mesmo os Americanos, o que é que nos falta a nós? Histórias… conhecidas! O que não seria! Na boca de toda a gente. E depois vendiamo-lhes a cortiça. E pasteis de nata. Falta-nos o marketing. Mas não é daquele do Cristiano Ronaldo espetado num dos prédios do Marquês de Pombal.

King and Pope

Largo do Carmo

Sentou-se e pediu logo um café. Costumavam demorar imenso tempo a vir às mesas, naquela esplanada do Largo do Carmo. Àquela hora, deviam faltar dez ou quinze minutos para ela chegar. A palavra ainda não tinha sido inventada; o que lhe vinha à cabeça era um misto de obscenidade e de cobardia.

Há dois meses que sei que te sentas aí, nessa mesma mesa, sempre às terças e às sextas. Coincidência ter-te encontrado, a escrever. Ainda não deixaste de vir uma única vez.

Há dois meses que ele sabe que ela vai àquela esplanada, às terças e sextas, pelas seis horas. Não faltou nem no dia vinte e três de Dezembro; deve ser daqui de Lisboa. Todas as sextas um livro, geralmente de arte, ou arquitectura. Sempre um bloco e uma máquina fotográfica em cima da mesa. Costuma pedir um café e um pastel de nata. Às vezes troca o café por uma meia-de-leite. Outras pede um aperitivo que ainda não conseguiu identificar. Pela aparência, um Moscatel, um Madeira, ou um Porto. Às vezes traz um leitor de CD’s. Não se preocupa em trautear alto; sempre Steve Poltz, Mazgani e Blind Pilot. Ele não conhecia nada daquilo. À hora certa, lá chegava ela. Ele, preso à cadeira.

Será que ela já me viu? Quem é ela? O que faz? As mesmas perguntas, sempre. Jorravam-lhe, inundavam-lhe a imaginação. Não falava daquilo a ninguém. Era ridículo. Nunca fizera nada. Nada mais que observar. Isto é ridículo. Às vezes sustinha a respiração e levantava-se ligeiramente. Depois sentava-se. Já várias vezes vira tipos ir falar com ela. Que frustração, era o que ele sentia. Tipos com bom aspecto (será que era aquilo que faziam na vida?), muitos deviam ser artistas. Pediam para desenhá-la, vinham falar com ela. Já a vira rir, a bom rir. E ele nada mais fazia que imaginá-los a ambos, juntos, a viverem juntos, a prepararem um pequeno-almoço juntos. Tu tropeçaste em mim, eu com as chávenas na mão, tu com o pão com doce, e olhaste-me nos olhos com uma cumplicidade que se situava mesmo entre a culpa e o arrependimento parcial. Ele imaginava-a na sua vida. Imaginava uma vida a dois, diferente. Imaginava, sonhava os bons momentos. Era isso que ele ia ali fazer; ia ali imaginar. Mas ia com a esperança de que um dia se tornasse mesmo a sua própria vida.

O medo, a vergonha. Porquê? Isto é ridículo. Naquele dia tinha dito: é hoje; tem de ser. Ele nunca dizia é hoje. Mais que tudo, o seu medo era de reconhecer-se falhado. Assim evitava falhar-se a si próprio, pelo menos formalmente. Naquele dia disse. É hoje. Tudo planeado. O que diria, o que não diria. Sabia que não iria ser nada disso que lhe viria à cabeça. Mesmo assim recreou aquilo vezes infindáveis, na sua imaginação.

E ela sentou-se. Em dez minutos, ele não pensou em rigorosamente nada. Limitou-se a olhar. Sentiu o tempo a passar. Até que pôs as mãos nos braços da cadeira. Assim que transferiu o peso e se começou a levantar, viu-a levar as mãos à cara. Ficou estático. Ela baixou a cabeça. Ele não conseguia distinguir se estava mesmo a tocar na mesa.

Ela está a chorar.

Ela estava a chorar. Primeiro timidamente. Depois nada o escondia.

Ela está a chorar!

Ele estava surpreendido. Aterrado. E deixou-se cair na cadeira. Na sua mente consolava-a. Passaram cinco ou seis minutos. Ela levantou-se e foi-se embora, a correr.

Anchored Nomad, ou ver pelos olhos deles

Quando estava em Portugal, julgo que como a grande maioria dos meus concidadãos, considerava-me bastante exposto à cultura americana e logo julgava-me capaz de encarar com naturalidade a transposição que me aguardava. No entanto não me livrei do choque cultural e foi bem maior do que estava à espera, talvez precisamente por isso, por não estar à espera.

O blog Anchored Nomad, escrito por uma americana, mãe, casada com um português e a viver em Portugal mostra, de uma forma muito curiosa o reverso da medalha. Para além disso, faz uma incisiva e muito humorística dissecação das nossas particularidades comezinhas (embora se note que por vezes passa a linha da impaciência).

Uma das muitas coisas que notei em Boston, para além do facto de ser muito segregada quando comparada com NY, de não haverem velhos, nem muros, nem cães vadios, foi o facto de os americanos serem, nalgumas coisas, muito púdicos, não sendo especialmente ávidos às demonstrações públicas de amor. Aqui, na Nova Inglaterra, talvez seja mais um dos vestígios do puritanismo.

A nossa nómada ancorada não pôde deixar de fazer a observação inversa. Aqui fica, bem como a hipótese da origem do fenómeno:

Summer is here and the metro stations are sweltering. I cannot stand men with lots of facial hair who make out with their lady friends on the subway platform when we are all drenched in sweat. This is a big problem in the land of mad, passionate public displays of affection. And by the way, I have come to the conclusion that they are not necessarily more romantically inclined here, simply that everyone who is unmarried lives with their parents and therefore they need to do their gettin’ it on in public more often.

Vale a pena seguir, sejam retornados, emigrados ou curiosos. E torcer para que os sogros sejam mais compreensíveis.

E ainda o vermelho

The Red Queen
Alice in Woderland de Tim Burton

Ainda a falência

“Ana, Inês e Mariana estão na Escola Superior de Educação, em Lisboa, e reconhecem que dominar a escrita é uma das suas maiores dificuldades.”

Há qualquer coisa de errado com esta notícia, com a fotografia. Que existe um descontentamento geral com o estado do ensino em Portugal, bem, isso não será nada de novo. Depois do 25 de Abril, há mais de trinta e cinco anos, o ensino público secundário abriu as portas à grande maioria da população. Para alcançar a quantidade é preciso muitas vezes comprometer parte da qualidade — nada de inesperado. Era, portanto, necessário aguentar o embate para depois, mais tarde, se recuperar.

Infelizmente, por vários motivos, muitos deles alheios à expansão do ensino público, a qualidade desejada não foi alcançada, pelo contrário, é do consenso geral que diminui. A história do “i” revela a falta de preparação e os défices graves de formação que os jovens universitários trazem consigo quando ingressam no ensino superior. Destacam-se as falhas no domínio do português, quer nos conhecimentos básicos de vocabulário e ortografia, quer na elaboração de argumentos e de raciocínios.

Em “1984”, Orwell relata a criação da “Novilíngua”, uma nova língua simplificada, onde os sinónimos são eliminados e a variedade e complexidade reduzidas a níveis insignificantes. O objectivo era simplesmente o de entorpecer as mentes e limitar a expressão e a criativadade.

Todos nós usamos a nossa língua para pensarmos, para raciocinarmos, até para evocar memórias. O domínio da língua é fundamental não só para expressarmos quem somos, mas também para elaborarmos sobre o mundo, para o descrever, para operar sobre ele de uma forma que não seja meramente física e romba.

Não sou o primeiro a mencionar isto e muito menos o mais eloquente, mas expressa que está a minha opinião sobre o assunto debruço-me agora sobre o que mais me chocou no artigo: foi a fotografia e a sua legenda.

O Pedro falou da falência ética. Concordo plenamente; estamos para além do «chico-espertismo». Estamos na total e completa ausência de brio, seja profissional, cívico, comunitário ou pessoal. Pior: a maioria não sabe o que é brio. A fotografia acima apresenta, em poses mais ou menos artísticas — ou, pelo menos, deliberadas — três raparigas, futuras professoras, alunas do ensino superior, que alegremente — ou pelo menos sem semblante de vergonha ou tristeza — declaram que nem sequer dominam a escrita. Para ser justo, e como não há palavras suas no corpo da notícia, não sei exactamente a situação que levou os jornalistas a colocarem a fotografia daquela maneira. Mas o pavoneamento da ignorância existe e é um sinal dos tempos. Infelizmente um péssimo sinal.

Run for it

He woke up real fast. Time was, again, running away. He argued it was
Como todas as manhãs levantara-se cedo. Havia sempre muita coisa para fazer,
something genetic, but no one believed in him. He would always rush in
rotineira, é certo, mas gostava de ter tempo para tudo. Tinha vinte e dois anos,
the morning, never having enough time to eat breakfast. He was a cute,
era estudante de direito. Gira, sempre bem vestida e com muita classe. Sempre
good looking, fashionable, kind of uptight, smart and self-assured twenty–
fora uma pessoa extrovertida e dada, com muitos amigos, sempre tivera
two year old college boy, with a reasonable academic path. He was,
namorados, mas faltava-lhe a pessoa certa. Não é que os que tivera não fossem
however, at this time, a lone person. He’d always had liked to have time
pessoas sérias, ou agradáveis, mas simplesmente nenhum era a pessoa de quem
just for himself and there where things he’d rather do alone. But
ela poderia dizer é ele. Essa pessoa — agora queria encontrá-la. Não tinha que ser
that doesn’t mean he was a hermit, on the contrary, but sometimes the
alguém particularmente bonito, nem especialmente inteligente; é claro que todas
habit of doing some things on his own resulted in being often taken for a
as qualidades ajudam, mas o que ela realmente pretendia era alguém com quem
loner. That had always caused him some trouble. He was an abroad
ela pudesse ora estar o mais contente e alegre possível, ora estar uma enorme
student at the cinema institute. Coincidences always had troubled him. What if
quantidade de tempo em silêncio sem que nenhum se sentisse incomodado. No
was his motto. Everyday he´d think of a random walk-by, an encounter
fundo, alguém que lhe conseguisse invadir pacificamente a mente. Existiria alguém
that would trigger some sort of event that would change his entire life. He
assim? Provavelmente não. Mas não conseguia vencer o sentimento interior da
didn’t believe in destiny or fate, but coincidences do often happen.
procura. Talvez acabasse desiludida — no fundo, não é aquilo que todos os seres
Everyday he’d stare at the faces of the subway passengers and choose one
humanos pretendem desde há milhares de anos e nunca conseguiram? Se calhar é
he’d like to meet, the one that would change his life. For years he did this,
porque nunca procuraram no sítio certo. Então o melhor seria ir tentar encontrá-lo
but nothing ever happened. Not a single contact had ever been fruitful. Of
num sítio pouco provável, de forma pouco provável. Onde? Ah! no metro! Mas não
course it wasn’t a great method of choosing the one. He’d just choose
indo-se sentar à beira das pessoas, falando-lhes depois. Não isso não. Teria de
desirable features. Anyway, he realized no fortunate event would take
estar atenta, ver o que se passaria e sentir o momento: sentir precisamente o virar
place by itself, so he decided to trigger what would be the first step on
dos mecanismos da vida. Mais ou menos a mesma coisa que um músico tem de
finding the person he lacked in his life. The next days he looked and
sentir para entrar a tempo na música. Ela teria de saber contar o tempo da vida. No
looked. This time it seemed no one was good enough, until one afternoon,
dia seguinte, entrou, como sempre, na estação do Cais do Sodré, em direcção ao
when returning home, he spotted out, by accident, a girl. The girl. Not that
Areeiro. E foi na estação da Baixa que ele entrou. Parecia uma pessoa diferente de
she had the perfect looks everyone dreams about. She just seemed to be a
todas as outras. Era bonito, com bom aspecto, com muito estilo, mas não era isso
really good person. To seem doesn’t imply that one is, but he thought it
que marcava a mais significativa das diferenças; era o seu olhar, como se estivesse
was worth the attempt. For some reason, he felt she was it. He decided to
à procura de algo, à procura de uma coisa deveras importante. E ela gelou. Perante
approach her. He’d had to trigger the moment, it was in his hands, the fate
a situação não conseguia fazer absolutamente nada, até que duas ou três estações
of an acquaintance. Step by step he got nearer. Suddenly, as he was side
depois, ele começou a olhar fixamente para ela e por fim acabou por se começar a
by side with her, the train stopped. He looked at her. She answered with a
dirigir no seu sentido. Não vinha ter com ela, meramente em direcção a ela. Seria a
smile. The moment was awkward. A bond was made and broken in a
altura de ela despoletar o momento. Mas não conseguia. Ele olhou para ela,
second. She left the carriage at that stop.
quando a composição parou, ela sorriu. E deslizou porta fora.

Esta já tem uns anos. É um bocadinho à teenager inconsciente, mas decidi deixá-la, na mesma.

Not Wright

Rotunda
Guggenheim Museum, NY

Não tenho andado por aqui, por várias e diversas razões, a maioria delas pouco interessantes. Estar ausente deste espaço, por pouco que tempo que seja, significa saltar por cima de uma formidável produção. Está mal, mas teve de ser; agora apresento-me ao serviço — espero — e, entretanto, aqui ficam algumas perspectivas de edifícios de Frank Lloyd Wright que pude ver nas últimas e não tão últimas deambulações pelos Estados Unidos.

Fallingwater
Pennsylvania

Estou longe de ser um adepto inquestionável das obras de Wright e acho que detestaria se toda a arquitectura fosse a dele, já que em mim fica sempre a sensação de que o estilo pradaria implica uma certa bunkerização dos edifícios. Ainda assim, há que admirar a obra, porque é formidável.

Unity Temple
Oak Park, Illinois

Panfleto em branco?

A militância pela militância, embora por vezes poderosa, tem pouco de interessante. O vazio do ateísmo é tão vazio como o vazio religioso, sendo que o vazio do ateísmo é solitário, enquanto que o religioso é acompanhado.

Haverá, certamente, muitos tipos de ateísmos e o meu provém indubitavelmente da evolução do pensamento humano sobretudo devido ao avanço da ciência. E sendo racional, tem pouco a ver com o pragmatismo e hiperrealismo que muitos lhes querem atribuir.

O ateísmo é apenas uma face de uma atitude que se quer muito diferente de um mero prospecto em branco. A palavra fundamental para descrever o ateísmo que defendo é evolução. A mesma de Darwin, que se manifesta no mundo natural, entre as espécies, mas que também opera a nível de consciências, sejam elas individuais e colectivas, e a nível de dinâmicas comportamentais que emergem de sistemas complexos. A espécie humana, a certa altura, parece-me, precisou de lidar com as capacidades que o seu desenvolvido cérebro lhe oferecia. Parte dessas capacidades exigiam a obtenção de explicações para o mundo que a rodeava e o mecanismo evolutivo que permitiu colmatar as falhas de processamento mental foi o da criação de uma solução satisfatória e transitória chamada Deus. Como o período de transição é grande — é preciso que ocorra o desenvolvimento de instrumentos capazes de auxiliar na procura de outra solução — há espaço para que desabrochem comportamentos e atitudes derivadas.

O ateísmo que defendo é, portanto, fruto de uma evolução dos tais instrumentos, que embora não dêem respostas definitivas, vão no seguimento de uma estrutura formal de desenvolvimento de conhecimento e permitem a formação de conjecturas, ou talvez apenas educated guesses.

O ateísmo como evolução, é-o na forma imaterial, isto é, não é fruto das pressões evolutivas ambientais por si só — o cérebro humano terá evoluído muito pouco ou nada nos últimos milénios, — mas fruto da evolução da estrutura de pensamento humano, dos desenvolvimentos colectivos no domínio do conhecimento objectivo e na auto-educação da consciência.

O ateísmo que defendo não pretende a erradicação do conhecimento humano empírico. Nem todo o conhecimento é científico e os milénios de religião têm-nos ensinado sobre a nossa própria natureza, as nossas necessidades. A evolução será feita com a selecção das aprendizagens aí obtidas.

O ateísmo reconhece a necessidade que o espírito tem do metafísico e do espiritual. Isso não implica a presença do sobrenatural, mas implica a necessidade da existência da dúvida, da dúvida subjectiva, pessoal e contemplativa.

O ateísmo reconhece a necessidade lógica e racional do funcionamento do mundo, embora nisso esteja previsto a emergência de padrões de complexidade que permitem a consciência, um elemento, por agora, metafísico, que lida com as particularidades da essência humana, ou a níveis mais básicos, dos animais.

O ateísmo reconhece a inexistência de um Bem ou de um Mal universal, mas apenas de convenções humanas, em que, por exemplo, o Bem humano é convencionado como o conjunto de acções que promovem a vivência feliz e segura da maioria dos elementos duma comunidade. A prevalência de uma ligeira tendência para a bondade da sociedade emerge da dinâmica complexa da coexistência dos indivíduos, em que as sociedades globalmente boas tendem a ser mais estáveis e eficientes do que as más. Penso que isto não está provado cientificamente, trata-se apenas de uma teoria minha; faço ainda notar que existem e existiram sociedades globalmente más (nazis, estalinismo, o Iraque de Saddam etc.), temporariamente estáveis, mas cuja estabilidade foi de curta duração, quando comparada com as sociedades globalmente boas, maioritárias no mundo actual. Aí se operou selecção natural e evolução.

O ateísmo reconhece a existência do desconhecimento humano, tal como a religião, mas não reconhece a existência de um conhecimento supranatural. Isso implica a presença da tangibilidade do desconhecido, não pela sua inacessibilidade supranatural, mas precisamente por ser natural e se encontrar, nas escalas do universo, a um degrau acima, ou degrau abaixo. No entanto esse desconhecido pode e deve ser sempre formalizável como objecto de estudo, ainda que meramente potencial, já que não existem, ainda, os instrumentos necessários para o colocar como problema em toda a sua integridade.

O ateísmo concede mais direitos e deveres ao homem, sendo que ambos coincidem no conceito de responsabilização. Ao homem é-lhe retirado o comando divino, sendo que lhe cabe a ele mesmo o destino.

O ateísmo é a promoção da dúvida existencial quantificável, procurando respostas que obedecem aos mesmos critérios da ciência e aguardando serenamente quando essas respostas não são possíveis numa dada altura do tempo.

O ateísmo implica o reconhecimento da materialidade e insignificância humana, rejeitando o antropocentrismo das religiões, mas celebrando as capacidades que possuímos. Não implica um desespero pela inexistência de propósito sobrenatural capaz de responder à questão da existência humana, mas sim a responsabilização de cada um, individual e colectivamente, na construção de mecanismos capazes de nos tornar aptos a lidar com os cérebros que temos, que abominam a ausência de causalidade.

O ateísmo em si não é nem pode ser o princípio de nada, nem o fim a alcançar. O ateísmo é apenas um passo na evolução humana, nomeadamente no raciocínio e na consciencialização das nossas capacidades e da nossa posição no universo. Como evolução é e será sempre, resultado do que existe para trás e nunca poderá ignorar isso.

É este o ateísmo que quero*.

*exceptuando se me tiver esquecido de alguma coisa

Coisas bonitas da Igreja

clicar

clicar

Kreisler


“Aqui está encerrada el alma de .….”

A 10 de Novembro de 1910, no Queen’s Hall, London a London Philharmonic Society estreou o Concerto para Violino de Edward Elgar. O próprio Elgar dirigiu a orquestra e o solista foi o lendário Fritz Kreisler. O concerto tinha sido prometido a Kreisler, anos antes quando o violinista o pediu a Elgar, e é dedicado a ele. A estreia, com os dois em palco, foi um sucesso.

Apesar de ser o seu instrumento de formação, Elgar não ousou publicar nenhum concerto para violino antes de se tornar um compositor de relevo, mas em 1910 Elgar era já considerado como o maior compositor britânico da época. No entanto, quando escreveu este concerto, já não mais tocava o violino.

Há algumas semanas, tive a oportunidade de ver Nicolaj Znaider na Boston Symphony tocar este concerto. Apesar de já ter ouvido bastantes obras sinfónicas, não me sinto minimamente qualificado para descrever ou qualificar o concerto. Limito-me a dizer que foi uma actuação formidável de um concerto belíssimo — embora não tenha desalojado do primeiro lugar da minha lista de concertos para violino o de Brahms. Impressionante e estremecedor foi também o facto de Znaider ter tocado com o Guarnerius del Gesù de 1741, “ex-Kreisler”, o mesmo usado pelo próprio Fritz Kreisler na estreia de 1910.

[1] A fotografia é de outro Guarneri, o “Kreisler”, ca. 1730 — Library of Congress
[2] Violin Concerto in B minor, Opus 61 — Programa do Concerto — Boston Symphony Orchestra

Santinhos da primeira comunhão…
... em Las Vegas

… em Las Vegas

The end of publishing