Shopping like grown-ups + Coincidências

Large Egg
Kenneth Walker

Há dias, houve no MIT mais uma edição do Student Art Loan program. O Visual Arts Center empresta, todos os anos, aos alunos da universidade, umas centenas de obras que possui na sua colecção. São quase todas obras de arte moderna ou contemporânea e emolduradas, sendo que a grande parte dos artistas é-me desconhecida, embora haja alguns de peso como Berenice Abbot, Robert Indiana ou Joan Miró. Algumas das obras deverão custar vários milhares senão dezenas de milhares de dólares — emprestadas.

A ideia é genial. E uma das partes mais interessantes é podermo-nos comportar como gente grande, daquelas que entra em galerias e diz “Quero este!”. Pela terceira vez lá fui, “shopping for art”, e disse “quero este, este e este”. Sem constrangimentos financeiros, sem remorsos, sem olhar a quem: é olhar para a parede e escolher (três, porque é por sorteio). Infelizmente, a desilusão vem quando não nos cabe a nós nenhuma obra. Depois de dois anos com uma parede mais composta, desta vez não me calhou nada… Há sempre o próximo ano!

E agora a parte das coincidências. Já tinha este post em mente, mas escrevi-o quando vi a fotografia de Rineke Dijkstra publicada pelo JNA no post de aniversário. Ora, instantes antes de ter ido escolher os meus quadros deste ano, um colega de laboratório esteve a explicar-me um algoritmo de minimização de caminhos, chamado algoritmo de Dijkstra. O nome não me dizia nada, porque nunca o tinha fixado, apesar de conhecer alguma da obra de Rineke (nomeadamente a série Almerisa). Quando deambulava pela galeria do Visual Arts Center, deparo-me com um indivíduo, numa das molduras, que, a mim, se assemelhava a um forcado. Não estava de barrete, nem numa arena, mas com aquele casaco de veludo ornamentado e com gravata a condizer no bordeaux, só podia ser forcado. Aproximei-me do quadro, acto contínuo,

Vendas Novas, Portugal, 21–05-2000
Rineke Dijkstra

Venham lá mais dois ou cinco

E se eu aqui estou, em parte devo-o ao Miguel Esteves Cardoso, em parte devo-o ao um belo pregado grelhado, mas como ao pregado vi-o e ao Miguel Esteves Cardoso não, devo-o um bocadinho mais ao peixe. Um dia, ainda antes do XVIII Governo Constitucional ter entrado em funções, o MEC inaugurou a sua curta participação no Geração de 60, blog que seguia sem regularidade, com um demolidor “Este blogue é feio”. Eu ofereci-me para lhe dar uma cara nova — ao blog, não ao MEC, — já que, embora não sejam estas as minhas andanças, gosto de perder o pouco tempo que tenho nestas avarias.

Na altura a coisa não deu em nada, embora o MEC tenha dito que gostava dos designs, o que dá sempre para encher uma pessoa de orgulho. Mas mais orgulho dá quando se consegue fazer algo que possa ser disfrutado por outros. Meses depois, o Manuel pegou na minha oferta e apresentou-me ao já referido pregado. Grande benfiquista, apreciador de peixe grelhado à beira-mar e rapaz de grandes aventuras, — foi o que retive na altura, — lá aceitei dar uma cara ao projecto nascente. Mais tarde, e novamente em redor de peixe grelhado na brasa, seguiu-se nova reunião de trabalho, tendo querido o destino novamente reunir descendentes de duas famílias, mas desta feita em termos mais amigáveis, fui apresentado ao Pedro. Algum tempo depois, trabalho entregue e nova proposta: juntar-me ao rol de autores.

A decisão teve considerável impacto no meu próprio blog, que agora vive ainda mais sozinho, mas foi mais que positiva. Não sem certo receio, de ir brincar com esta malta toda, gente que já leu muito, mas cá estou e tendo conhecido uns e outros duma e doutra forma, não me arrependo de maneira alguma. Que venha o segundo ano.

farto de merdosos incompetentes*

Chegou o FMI, 
uí, uí, uí.
Do que compro,
Ao Estado dou um quarto;
farto, farto, farto. 
Para o Porto e p’rá Trafaria
Já só há uma e outra via.
Ficámos sem a terceira
E o TGV? Não há maneira!

*Eu sei, este blog não é dado a insultos, mas o regular funcionamento das instituições (a das siglas) assim o impôs.

Os números

Neste nosso blog ligamos pouco à espuma dos dias. Porquê? Porque aqui fala-se de gente morta; aqui não há zombies.

Anteontem o nosso Primeiro-Ministro veio aos Estados Unidos dar um seminário à margem do mestrado que Manuel Pinho lecciona na Universidade de Columbia, NY. Não quero fazer nenhum grande debate sobre a política, os políticos ou as energias renováveis. Venho só falar dos números. De um em particular, que o PM aventou e que os media papaguearam sem nenhum enquadramento.

Sócrates anunciou que o investimento nas renováveis permite poupar, por ano, 100 milhões de euros em importações de petróleo, notícia que foi amplamente divulgada.

Não cabe aos noticiários fazerem crítica, mas cabe-lhes a eles, isso sim, ajudar os leitores a perceberem o que estão a ler. Confesso que não lido com montantes dessa ordem, mas 100 milhões de euros não me pareceram muito… Fui ver o que dava para comprar com esse dinheiro: a terceira travessia do Tejo custaria 2.000 milhões de euros, portanto, nada de pontes no Tejo. Um TGV para Espanha, custa ao estado (que só paga 42% do total) 5.940 milhões de euros, a preços de 2009,  nada de comboios. Um novo aeroporto são só 4.900 milhões de euros; também não dá, embora segundo os senhores do JN no artigo referenciado, a terceira travessia é uma pechincha, só 145 milhões, mas prefiro confiar no valor anterior, que vem do próprio governo e foi escrito por extenso.

Certo, dirão, mas isso são investimentos a muitos anos, para durarem uns, vá lá, cinquenta anos. Logo, 50 x 100M€ = 5.000 milhões de euros! É comparável… a poupança no petróleo dá para um daqueles investimentos! Afinal não é assim tão pouco! Vejamos só um último valor, antes de largarmos o assunto… Que significam 100 milhões de euros em poupança petróleo, no panorama total das coisas?

Ora bem, em 2009, o custo médio do barril de Brent, foi de $62.7/barril. A taxa de conversão média foi de 1.39, logo o preço médio por barril dá €45. Agora o consumo: segundo o WolframAlpha, a estimativa do consumo de petróleo para 2009 foi de 272.181 barris por dia. Logo, num ano, gastou-se €4.470.572.925, i.e, cerca de 4.500 milhões de euros. O que se poupa é 2.2% do total do consumo anual.

Claramente, um título que dissesse 2.2% era menos chamativo. Sei mais informação 2.2% por ano não parece ser nada de milagroso. Contando com o restante das importações energéticas, em 2008, o saldo da balança era de –8.000 milhões de euros, logo a percentagem é menor considerando toda a energia que importamos. Confesso, no entanto, não sei o investimento que foi necessário para garantir essa poupança de 100 milhões de euros anuais, portanto esses 2.2% até podem ser um bom negócio. Estas minhas contas todas, acabaram por não dizer o fundamental: é ou não bom o negócio que está a ser feito. Não tenho os dados para dizer se sim, senão, mas a questão que quis deixar aqui foi a de que os números só por si dizem pouco, há que os enquadrar (que é diferente de massajar) e os jornais deviam-no fazer decentemente.

SebJosCarMel

Faz hoje precisamente 241 anos que D. José outorgou o título de Marquês de Pombal a Sebastião José de Carvalho e Melo. Senhor Marquês, confesso que à parte de uma estação de serviço conheço pouco destes seus domínios, falha minha é certo, mas em contrapartida, aprecio muito a sua quinta no condado de Oeiras. Verdadeiramente excepcional.

Muitos não o acharão digno de constar entre tão ilustres mortos. Que o digam os Távoras ou D. Maria I! E no entanto optei por trazer Vossa Senhoria a esta casa, correndo o risco de convidar um déspota, conquanto esclarecido. Pode circular, sem que ninguém o incomode, a menos de 20 milhas deste nosso cemitério. Saiba Vossa Senhoria, que pelos lugares onde ando, os nativos não hesitam em invocar os pais fundadores da sua nação. Ora, essa altura é precisamente quando o Marquês exercia funções como Secretário do Reino. E tirando umas tiradas bacocas, poucos são os que o citam. Talvez devesse ser mais lembrado! Ao menos a DOC ficou, bem como as belas avenidas da sua e minha Lisboa. Bem sei que teve tabula rasa, mas verdade seja dita, não houve ainda edil que se vos compare. E um terramoto daquela envergadura logo no início de mandato? Até a Kant fez repensar a vida. Por ventura, dirão alguns, teve a fortuna de servir um amo fraco. Fora isso possível nos dias que correm!

Ah, Senhor Marquês, não quero aqui estar a maçá-lo, mas aproveito a sua estada, para lhe deixar duas quesões. E quanto a zonas aeroportuárias? Um dia serão pequenas. Ota ou Alcochete? E para o «é tudo gente morta», que paradoxo iluminado? Cuidem-se os vivos!

O Sol da Meia-Noite

O post anterior d’O Herói avivou-me as memórias de quando fui ao norte da Suécia. Não vivi o Sol da Meia-noite, nem o fenómeno inverso, já que fui em pleno equinócio, em Março, altura em que a noite e o dia estão equitativamente divididos: doze horas para cada. Mas pude contactar in loco com o sol do ártico e, então, despedaçaram-se-me as expectativas sobre o Sol da Meia-noite. Por algum preconceito a ideia que tinha dos seis meses de sol é que haveria um fartote de luz durante aqueles seis meses. Sim, o sol está acima do horizonte praticamente as vinte e quatro horas do dia. Mas a questão é, por onde anda ele?

A amostra estatística que possuo é pequena, mas a maioria das pessoas a quem perguntei, se não pensarem muito, imaginam o Sol da meia-noite, como um quasi interminável dia de praia. Será?

Num dia de verão, no Algarve, o percurso do sol nos céus é assim:

Note-se que o sol segue na parte cimeira da zona azul. Essa zona delimita os percursos que o sol percorre durante o ano. As sombras são curtas, particularmente nas horas em que o sol vai alto. No solstício de inverno, o sol cruza os céus na parte inferior dessa zona, mais junto ao horizonte.

Vejamos agora, num local sensivelmente a meio da Gronelândia, latitude de aproximadamente 75ºN. Mesmo no verão, o sol segue rasteiro, junto ao horizonte. Certo é que passa mais tempo acima dele e é por isso que ocorre o Sol da Meia-noite, mas sempre sem subir muito.

De notar as sombras, que, logicamente, são muito maiores. E para que não fiquemos só com as simulações, a prova:

Mais que um longo dia de sol, o Sol da Meia-noite é um longuíssimo pôr-do-sol. E, pelo menos para mim, um potente depressivo, como todos os limbos.

Aqui também há coisas boas

Típicamente, a cozinha aqui deste lado do Atlântico não é famosa, pelo menos ao nível da minha bolsa. É demasiado infantilizada: sem espinhas, sem ossos, excepto nos T-bones, adocicada e com pouca variedade. Mas aquele doce ali em cima é bestial, sobretudo em fins de tarde de final de verão, sobre relvados a perder de vista e montanhas lá muito ao fundo.

A morte de Sacadura Cabral

vista deste lado. No seguimento da bela banda desenhada que o nosso caro António tem-nos vindo a apresentar e justamente ampliar, resolvi procurar na internet a primeira página duma edição evocativa da morte de Sacadura Cabral. Tenho um exemplar aí em Portugal, de 1924, que comprei há uns anos numa feira de velharias. É bela e muito interessante, com dois anjos ladeando o malogrado aviador, numa composição romântico-patriótica muito ao estilo da época. E, curiosamente, reti os nomes do editor e outro qualquer personagem principal do jornal, na altura, listados no cabeçalho: Eduardo Schwalbach e Ariosto Saturnino(!).

Sacadura Cabral desapareceu, em 1924, algures sobre o Canal da Mancha. O avião foi encontrado mais tarde, mas o seu corpo e o do seu co-piloto nunca foram avistados.

O arquivo do Diário de Notícias, pelo menos online, é miserável. Não chega sequer ao século XX. E como não estou em Portugal, não vos posso mostrar a tal primeira página. No entanto, dei de caras com um enorme e dedicado esforço do Centro de Estudos Portugueses na Universidade do Massachusetts: o arquivo digital do «Diário de Notícias» (ex «A Alvorada»), um jornal português impresso em New Bedford de 1919 a 1973. A qualidade do arquivo é formidável e todos os jornais são pesquisáveis textualmente. Um recurso interessantíssimo para se conhecer comunidade emigrante nesta zona, bem como pelas notícias que então cá chegavam do nosso país.

A certa altura, quando o rumor da morte chega, o jornal relata:

O malogrado aviador Sacadura Cabral tinha ido à Holanda a pedido do Governo Portuguez, comprar dois aeroplanos, marca Fokker, para a execução d’uma viagem à roda do mundo que estava em projecto.

Aguardamos anciosos noticias oficiaes de Portugal, e fazemos votos para que as noticias particulares que recebemos fossem o resultado dum simples boato.

A tragédia veio a confirmar-se e as notícias não eram certas sobre a descoberta do corpo do aviador. Ainda durante o mês de Dezembro desse ano, publicam-se detalhes adicionais da tragédia, com a informação que ia chegando de Lisboa. Morreu um grande Portuguez.




Com o arquivo entre mãos, coadjuvado por um certo narcisismo genético, fui procurar se a família tinha dado origem a parangonas na Nova Inglaterra. Não vos vou maçar com as minhas pesquisas, no entanto deixo-vos uma pequena notícia, dada no mesmo dia em que caiu o governo presidido por um meu antepassado.

Ao invés do articulista, diria que, em todo o caso, ambas se encontram em risco, e não uma ou outra. E também ao contrário do articulista, não penso que o mais curioso tenha sido o facto da notícia ter partido de um sábio irlandez. Para mim, o mais intrigante é que não sei quem é este segundo Portas, nem mesmo o primeiro (falha cultural minha?). No entanto, será coincidência o facto de Sacadura Cabral ser tio-avô de Paulo e Miguel Portas?! E tendo já o segundo Portas, será que se ainda produzirá, talvez, o fim do mundo?

Ah!, para terminar: é que já em 1938, também em New Bedford, se podia ir à casa Sonotone!

Saltos e Corridas

Em 1936, nos jogos Olímpicos de Berlim, Jesse Owens ganhou quatro medalhas de ouro no atletismo, tendo triunfado na mediática prova dos 100m. A sua vitória estragou os planos nazis de fazer o pleno das vitórias arianas, muito embora os alemães tenho ganho mais medalhas que qualquer outro país, sendo que os Jogos foram considerados um sucesso pelo regime. Hitler não terá cumprimentado Owens, mas mais tarde o atleta afirmou que quando passou em frente ao Führer, este ter-se-à levantado e acenado, tendo Owens respondido de igual forma. Hitler terá deixado de cumprimentar quaisquer atletas a seguir ao primeiro dia, quando tinha saudado apenas os atletas alemães; o comité olímpico terá pedido a Hitler para cumprimentar todos ou nenhum, sendo que Hitler escolheu a segunda hipótese. Quando Owens ganhou, Hitler nem se encontrava no estádio.

Owens, foi o primeiro atleta negro a receber um patrocínio, quando Adolf Dassler, fundador da Adidas, o convenceu a usar sapatilhas da sua marca. No salto em comprimento, o alemão Luz Long, que acabou por ficar em segundo lugar a seguir a Owens, sugeriu-lhe, quando Owens já tinha invalidado dois saltos da classificação, fizesse uma marca na pista uns centímetros antes da marca, para não arriscar demais. Na final, quando Owesn ganhou, o primeiro a cumprimentá-lo foi Long. Owens terá continuado a corresponder-se com a família de Long após a morte deste, na Segunda Guerra Mundial.  Também na Berlim nazi, certo é que menos opressiva para a recepção da olimpíada, Owens pôde usar os transportes públicos livremente e entrar em bares e noutros lugares públicos sem problemas. Como é visível no video acima, a sua vitória foi efusivamente celebrada e nas ruas pediam-lhe tantos autógrafos que Owens se queixou da fama. Ao regressar aos Estados Unidos, houve uma parada na Quinta Avenida em Nova Iorque em sua honra, mas na subsequente recepção no hotel Waldorf-Astoria, Owens teve de tomar o elevador de serviço. Continuou a ter de andar na parte de trás do autocarro e nem Roosevelt, nem Truman o convidaram à Casa Branca. Sem patrocínios ou outros contratos phelpianos, Owens terá ganho algum dinheiro a correr contra cães e cavalos.

“Hitler não me desprezou — foi Roosevelt quem o fez. O presidente nem um telegrama me enviou”.

Os Anormais

João Baptista dos Santos nasceu em Faro, no ano de 1843. Eu nunca tinha ouvido falar dele. Não é que haja falta de anormais na nossa praça pública, pelo que é concebível que um ou outro escape, no entanto, a este senhor não faltaria fama por entre os mais jovens, caso dele tivessem tido conhecimento no ano certo da escolaridade obrigatória. É que João Baptista dos Santos possuía, entre as duas normais, uma terceira perna. Uma aberração, ou mera curiosidade, consoante as opiniões, a verdade é que o homem nasceu com mais um membro (que na realidade eram duas pernas atrofiadas fundidas). A perna não era funcional, embora pudesse ser manipulada e, muito embora nunca tenha sido operado, Baptista dos Santos era capaz de andar a cavalo, amarrando a sua terceira perna a uma das coxas. Ainda assim, por curioso que este fenómeno fosse, o que suscitava mais interesse era o facto de João Baptista dos Santos sofrer da raríssima diphallia. E, ao contrário da sua terceira perna, o segundo pénis era perfeitamente funcional. Segundo o fotógrafo Charles DeForest Fredricks, que registou a única fotografia conhecida de João Baptista, “basta a visão de uma mulher para excitar as suas propensas amorosas. Ele funciona com ambos os pénis, acabando com um e continuando com o outro.” Tendo sido oferecido um generoso contrato para se exibir em circos franceses, João Baptista dos Santos recusou a oferta, preferindo mostrar-se apenas em círculos médico-científicos.

Mas como uma curiosidade se torna ainda mais interessante quando outra curiosidade se associa a ela, cá vai a segunda parte desta diplopia. Embora não haja provas, reza a história que João Baptista dos Santos terá tido um affair, em Paris, com a cortesã Blanche Dumas. Dumas não só tinha também uma terceira perna, como sofria de duplicação vaginal, que, à semelhança do seu contraposto luso, eram perfeitamente funcionais.

KZ Dachau

KZ Dachau


Há um par de meses visitei Dachau. A localidade é uma pequena cidade a uns escassos quilómetros de Munique. O seu nome ficou gravado na nossa memória colectiva devido ao Konzentrationslager Dachau, o primeiro campo de concentração nazi, modelo para os milhares que se haviam de construir até ao fim da guerra e escola dos oficiais SS responsáveis pelo sistema. Dachau não foi um campo de extermínio, apesar de ter crematório e uma câmara de gás que, à excepção de umas experiências não devidamente confirmadas, não foi usada. Não deixou de ser, por isso, obviamente, um local de morte e desgraça.

Ao visitar o campo senti uma certa e justificada apreensão. Era a primeira vez que entrava num daqueles lugares. Ignorando as dezenas de americanos (turba à qual eu, talvez, já pertença um bocadinho), a primeira coisa que me causou impressão foi a localização do campo: está na cidade. Não no centro, e por ventura na altura a cidade não alcançaria directamente os seus muros, mas está longe de ser um local de terror isolado e distante do mundo civilizado. A segunda coisa que me marcou foi o bonito que é. E isso é algo de muito estranho. É certo, já lá não estão os espectros, nem os odores, e as árvores cresceram, mas a verdade é que o local é agradável. É na fronteira com os campos que circundam a cidade, portanto não lhe faltam os sons da natureza. Uma enorme e larga alameda, ladeada por frondosas árvores é, ironicamente, pacificadora. E aí me consciencializei da necessidade de manter a memória viva. A passagem do tempo tudo faz desvanecer e bastavam crescer umas heras e uma erva alta, que logo a floresta engoliria o KZ Dachau para o esquecimento, assim que morressem os últimos sobreviventes.

No entanto, aquilo que me deixou mais perturbado foi, ao sair, quando confrontado com aquele lugar belo, nada isolado, me pus a mim mesmo a questão: tivera eu vivido naquela Alemanha nazi, será que teria tomado parte naquela barbárie? Sei o que gostaria que fosse a resposta. Mas a perspectiva da nossa infalibilidade e, mais grave, de podermos ceder ao Mal as nossas forças para o propagar, foi essa, sem dúvida, a marca aterradora que me imprimiram os mortos de Dachau.

Hello


E entretanto uns partiram, dos quais muitos não voltam. As notícias falam da dívida sempre crescente, o desemprego que não vai famoso, políticos que querem passar todos os alunos, gente que ora é empresário, ora é ministro, sem dar cavaco à terra que os produz. Não é, com certeza, o paraíso, mas é casa. E, não sei como alguns fazem, não consigo cortar a linha. De regresso a Portugal, cá vou eu. Sabe muito bem.

Trago sempre comigo

Um amigo meu, um dia, seguia num carro, com o guia, pelo deserto argelino. À passagem por uma pequena povoação, deram boleia a um aldeão já velho. O seu aspecto era típico de um livro de fotografias do magrebe. Pele queimada pelo sol, uma barba muito branca e um sorriso inebriante. De repente, pouco depois de o automóvel ter iniciado a marcha, pede para parar, sai do carro a correr e volta com um pano branco, todo enrolado.
— É o meu sudário. Sabe, é que já sou velho e não quero maçar ninguém.

Cemitérios?

Também eu quero entrar na conversa sobre os cemitérios preferidos. Os de Paris são marcos, mas já deles falaram. Primeiro, no entanto, falo daqueles de que não gosto. Salvo raras excepções, sobretudo entre os mais antigos, os cemitérios em Portugal são hediondos. Eu tenho alguma experiência em exéquias fúnebres, já que um dos ramos da minha família quase que desapareceu em meia-dúzia de anos, sendo que por isso acho ter alguma autoridade no que respeita à apreciação estética da coisa.

Mármore e flores de plástico — especialmente ao ar livre, onde o primeiro dura séculos e as segundas dias — há que dizer, não combinam. Depois há os jazigos, essas casinhotas onde se podem coleccionar caixões, que por mais dez ou vinte mil euros que custem, não deixam de ser casinhotas onde se coleccionam caixões. E quando são rematados com uma porta de alumínio envidraçada, só fica a faltar adornar com aquelas cortinas espanta-moscas de miçangas à moda do talho. Há, ainda, o problema de se dar rédea solta à imaginação das pessoas que, é sabido, em momentos de dor não estão na posse das suas plenas faculdades e só assim se explica o facto de marcarem as campas dos seus entes queridos para a eternidade com tamanho mau gosto. E já nem falo dos caixões; tomem nota da simplicidade do do papa João Paulo II.

Por fim, a cremação, no nosso país, só resulta em poupar um bocadinho de espaço. Por lei não se pode levar as cinzas para casa, deitá-las ao vento, ao mar, ou noutro qualquer lugar igualmente poético. Não, têm de ficar guardadas, numa urna, numa gaveta, onde? Naqueles cemitérios hediondos.




Entram os americanos. Se há coisa onde deixaram marca e estilo, em grande parte fruto da sua virilidade como nação militarista, é os campos e campos de tombados na guerra. A beleza dos locais, a simplicidade das campas, o cuidado no arranjo, o relvado impecável e a força assombrosa da simetria aliada aos pesados números tornam estes cemitérios os mais bonitos que conheço.

Em cima, o famoso Arlington National Cemetery, e em baixo, em Colleville-sur-mer, na Normandia, junto ao mar, o cemitério das forças americanas mortas na libertação de França, na Segunda Guerra Mundial.

Mas não é só nos cemitérios militares que os americanos se esmeram. Aqui nas redondezas de Boston fica o Mount Auburn Cemetery, um magnífico espaço pela sua beleza natural, pintado de branco no inverno, colorido de radiante verde no verão, ao qual se seguem os maravilhosos tons outonais da Nova Inglaterra. É um encanto passear em Mount Auburn.


A história de Barbados e da Jamaica

It may be tempting for readers to regard this paper as a quaint tale of two exotic islands better known for their beaches, music, and Olympic sprinters than their significance in the global economy. On the contrary, we think that important general lessons lie at the heart of this Caribbean parable.
Institutions versus Policies: A Tale of Two Islands, Peter Blair Henry and Conrad Miller

As coisas nunca são tão simples como alguns querem fazer parecer, de um ou do outro lado. A sociedade portuguesa, após à estabilização que teve lugar na sequência do PREC e dos tumultos pós-25 de Abril, e após um período, breve, de crescimento, começou a ficar crispada. Sampaio usou a palavra vezes sem conta. E, em grande medida, tinha razão. Soares dos Santos levantava a mesma crítica, há dias, no Plano Inclinado: é impossível falar-se entre nós. Discutir, planear, organizar. As críticas são imediatas, não há capacidade de estabelecer um desígnio nacional, não há possibilidade de se encarar um futuro que requere esforço e coordenação. Sê-lo-á por falta de liderança, pela existência de ódios e rancores que poucos querem sanar e ainda devido a uma larga camada que se aproveita deste estado de coisas.

As coisas nunca são tão simples como alguns querem fazer parecer, mas aqui ficam as histórias de Barbados e da Jamaica. (via This American Life.)

The Story of Barbados and Jamaica [ 22min, em inglês ]

O Caminho Certo

Ninguém sabe qual é. E na política, as coisas ainda se tornam mais complicadas. Ontem, até António Costa disse que os ministros não acompanham o dinamismo do Primeiro-Ministro. Por ventura, o que lhes falta é orientação. Aqui está a solução.

A melhor praia do mundo*

*É sabido que qualquer terrinha americana tem a melhor loja de gelados do mundo e, na Nova Inglaterra, os melhores lobster rolls do universo. Aqui também eu faço uso da hipérbole para dar ao Guincho um título que não precisa. E para os que não gostam dos desportos anemoaquáticos, o melhor do Guincho é a raridade com que proporciona o acolhimento a que todos se julgam devidos.

Um bom verão a todos. via

Saramago

Francisco Pinto da Cunha Leal

Partilho com ele os meus três primeiros nomes. Aliás, só o primeiro já era motivo de orgulho, não só para mim, mas também, pelo que pude ver, por entre papeladas velhas , uma carta de condolências do já extinto “Os Franciscos — Clube de homónimos”. Francisco Pinto da Cunha Leal, nasceu, como Fernando Pessoa, em 1888, pronto para a vida irrequieta que iria ter na atribulada primeira metade do século XX que se avizinhava. Nasceu no Alcaide, conterrâneo de João Franco, acabou por descer à capital onde se formou como engenheiro militar. Cedo se deu conta que não era no exército que queria fazer carreira. Com vinte e seis anos partiu para o ultramar, para construir a linha férrea na Serra da Chela, no começo do planalto do sul de Angola. Lá incompatibilizou-se com Norton de Matos, após os estalar da Primeira Guerra Mundial. Em 1917 seguiu com o corpo expedicionário português para França e depois de regressar ingressou na política. Foi Ministro das Finanças e o mais jovem Presidente do Concelho em Portugal. Ao albergar o opositor político António Granjo, foi baleado na tristemente célebre Noite Sangrenta. Foi Reitor da Universidade de Coimbra, director do Século e fundador da Vida Contemporânea. Apoiou a ditadura como forma de acabar com a conturbada instabilidade da Primeira República, mas cedo se voltou contra Salazar, devido à política financeira deste e pelo insustentável prolongar da ditadura. Viveu exilado na Corunha depois de ter fugido dos Açores para onde foi deportado. Foi dos primeiros a propor soluções de autonomia para as colónias.

Muitas mais peripécias teve a sua vida, que não sei aqui devidamente contar. Salazar tolerou-o e o resto da sua vida foi vivido num progressivo esquecimento e recato, certamente indigno do seu carácter e do seu espírito. Eu cresci com algumas memórias recontadas por minha mãe, do seu avô. Hoje é 10 de Junho e talvez seja egoísta da minha parte usar este espaço para deixar aqui esta recordação que não tenho. Mas chama-se Queridos Mortos e porque não? No dia de hoje, é bem relembrado, pois dedicação ao país não lhe faltou.

Aqui deixo um pequeno episódio das suas memórias, que se terá passado logo após o fim da sua formação como engenheiro militar, no despontar da Primeira Guerra dos Balcãs:

A luta pela vida não a ia eu iniciar com o fecho da minha carreira académica, visto como havia mais de meia dúzia de anos que não dependia de subsídios pecuniários familiares. Simplesmente esse combate ia tomar novo aspecto, ia exigir deliberações que poderiam conduzir-me ao sucesso ou insucesso, consoante o seu acerto ou desacerto. Sucedia ainda que essa necessidade de ser criterioso e cauteloso coincidia com uma fase de grande desorientação do meu espírito, que — pobre de mim! — não conseguira regressar ao estado de equilíbrio anterior à morte de minha Mãe.

A boémia, a que me deixara resvalar, no fundo não me seduzia, antes provocava em mim sensações de náusea e desconforto, embora não resolvesse ainda a abandonar essa companheira malfazeja e indesejável. Atraía-me, isso sim, a ideia da Grande Aventura, que me fizesse percorrer sendas bem diversas das ronceiras trajectórias das existências do comum das gentes.

De facto, cada vez mais me reputava incapaz de me adaptar à vida de quartel nos idílicos períodos de paz. O ramerrão das reduzidas tarefas normais, entrecortadas de intermináveis bocejos, até que a publicação da Ordem nos desse o almejado sinal da libertação; os dias de serviço, com as suas noites desconfortáveis, passados em cubículos pouco higiénicos; as fases mais movimentadas e, portanto, menos fastidiosas das escolas de recrutas e repetição — tudo isso não excitava em mim, sequer ao menos, pálidos vislumbres de interesse. Por minha desgraça, se bem que compreendesse a grandeza da servidão militar, a nobreza do amesquinhamento voluntário da pessoa humana, como sacrifício ofertando ao altar da Pátria, não me sentia com vocação para esta modalidade de martirológio.

Quantas vezes, no final dos nossos cursos, não debatemos, eu e o Humberto de Ataíde, este magno problema da orientação a imprimir às nossas vidas! Foi numa dessas conversas que surgiu uma perspectiva que à exaltação das nossas mentes se augurou aliciante.

Tinha deflagrado a guerra entre a Turquia e os povos balcânicos, ansiosos de sacudirem os últimos vestígios de uma tutela que se iniciara com a conquista e a opressão e fora perdendo, através dos tempos, grande parte das sua virulência e crueldade. Aqui nos lançámos os dois em cavilações histórico-filosóficas para decidirmos se o interesse europeu seria melhor servido pela vitória da primeira ou pelos segundos. Acabámos por concluir que o predomínio dos turcos na região balcânica e a integridade da federação austro-húngara eram essenciais para a preservação do equilíbrio e, portanto, da paz na Europa.

É que, durante séculos, desde os recuados tempos do Império Romano, o centro e o oriente do Velho Continente tinha estado sujeitos a um contínuo fluxo e refluxo de invasores, vindos da Ásia, donde resulto que na Boémia e ao longo da zona danubiana se tinham enquistado núcleos populacionais de várias origens étnicas. Aplicar a esses sectores europeus o princípio das nacionalidades para a construção de Estados plenamente autónomos, sem quaisquer restrições de soberania, seria um contrassenso. De facto, concedendo-se-lhes fronteiras naturais, susceptíveis de defesa militar, ficariam encravadas dentro do território de cada Estado, minorias raciais, que estariam submetidas às inevitáveis prepotência das maiorias.

Logicamente só haveria dois arranjos políticos para permitir o convívio de povos racialmente dissemelhantes e assim interpenetradas: a federação — era o caso do Império dos Habsburgos — ou a tutela dum Estado forte sobre um desarticulado conjunto populacional — era o caso da Turquia em relação à manta de retalhos balcânica.

Por este encadeamento de raciocínios, fomos, pois, levados a tomar no conflito em curso o partido da Turquia, contrariando assim a corrente geral da simpatia europeia. Ou não fôssemos nós espíritos autónomos e originais! E então surgiu a tal perspectiva atrás aludida, que pode definir-se nestas poucas palavras: oferecer aos turcos o nosso preciosíssimo concurso militar. Isso sim é que seria a Grande Aventura!

Nessa altura, o meu bom Humberto de Ataíde, cuja imaginação era bem mais fértil do que a minha, começou a enxerta neste problema outros de ordem prática, cuja exposição me deixou boquiaberto. Logo que estivesse assente a nossa partida, deveríamos entender-nos com jornais portugueses, para que eles nos improvisassem em seus correspondentes de guerra, claro está mediante subministração da vil pecúnia. E, após o termo das hostilidades, se delas regressássemos com vida, seria de encarar — porque não? — um giro de conferencias por esses Brasis fora, para ver se, sacudida, a árvore das patacas nos proporcionaria lauta apanha dos seus preciosos frutos. Concordei, está bem de ver, com este sedutor programa de miragens. E não conhecíamos nós a história de Winston Churchill, para nela nos inspirarmos. Não há dúvida de que os bons espíritos usam encontrar-se!

Assente o nosso propósito de colaboração militar com os turcos, tentámos convencer o Carlos Selvagem a dar-lhes adesão. Ele hesitou e acabou por negá-la, mas pouco nos conheceria que pensasse que isso era razão suficiente para provocar a nossa desistência. O que se tornava necessário e urgente era viabilizar o nosso projecto.

Para esse efeito, entendemos por bem dirigir-nos ao representante da Turquia, para fazermos por seu intermédio o oferecimento dos nossos serviços. Tivemos a primeira desilusão quando constatámos que aquele pais não tinha ministro acreditado junto do nosso governo. Havia, porém, um consulado, de cuja localização facilmente nos inteirámos. Sem mais hesitações, lançámo-nos à conquista deste baluarte.

Pelo caminho Humberto de Ataíde ia-me instantemente recomendando que tratasse de me apresentar com garbo militar mais aprimorado que fosse capaz de impor ao meu ingénito desleixo e desenfado. Chegámos por fim ao nosso destinho e fizemo-nos anunciar ao Sr. Cônsul, que, sem enfadonhas demoras, houve por bem receber-nos.

Aqui tivemos a nossa segunda e grave desilusão. Quando esperávamos encontrar um Sr. Turco, fiel ao fez e ao seu pais, deparámos com um Português dos quatro costados, que, ao perguntar-nos com óptima tonalidade alfacinha qual o objectivo da nossa visita, nos deixou estarrecidos. Mas, enfim, refeitos do choque inicial, lá lhe papagueámos o trecho literário, que fora objecto das nossas cogitações.

Coube a vez ao Sr. Cônsul de ficar surpreendido. Olhou para nós com o ar incerto de quem não era susceptível de compreender que dois jovens aventureiros da nossa terra se pudessem importar pouco ou muito com o facto de a distante Turquia perder ou ganhar a guerra. O homem levou a recompor-se bem mais tempo do que a nós anteriormente nos custara a mesma operação. Acabou por declarar-nos que estava pronto a transmitir ao Governo turco o nosso oferecimento e o desejo de que nos fosse indicado o caminho a seguir para o efectivarmos, mas sob a expressa condição de que os Poderes Públicos de Portugal não se opusessem à nossa colaboração no longínquo fenómeno bélico. Respondemos-lhe que iríamos ocupar-nos, sem demora, de tal autorização.

E fomos. Era Ministro da Guerra o Coronel Correia Barreto, pessoa das relações de ambos os pretendentes a protectores da Turquia. Também o Ministro se revelou pressuroso em rever-nos e fê-lo com o mais bondoso e paternal dos seus sorrisos. Ao que vínhamos — inquiriu de nós. Quando dum fôlego, não fosse faltar-lhe a coragem, o Ataíde lhe expôs as nossas ideias e os nossos propósitos, Correia Barreto esgargalou os olhos e à queima-roupa disparou-nos a frase seguinte, como intróito de mais extenso arrazoado: «Vocês estão doidos, rapazes!» E, a seguir, vá de nos demonstrar que a nossa atitude significava, nada mais, nada menos, do que uma tentativa de perturbação da quieta neutralidade do Estado português. E, por mais que nós, atabalhoadamente ao principio, já quase eloquentemente no fim, o procurássemos convencer da sem-razão dos seus argumentos, nada conseguiu abalar a granítica firmeza daquela fortaleza neutralista. Estávamos proibidos de levar a cabo as nossas concepções belicistas.

Ao sairmos desta conferencia com o Correia Barreto, o nosso estado de espírito repartia-se entre a indignação e o desencorajamento, mas, teimoso e férreo nas suas resoluções, Humberto de Ataíde não queria desistir às primeira e teve uma ideia: a de escrevermos ao Cônsul-Geral de Portugal na Turquia — se não me engano, era o Alfredo Mesquita —, pedindo-lhe que transmitisse os nossos desejos ao Governo turco e lhe solicitasse indicação quanto ao caminho a seguir. Estávamos dispostos, se tanto fosse necessário, a pedir a nossa demissão de oficiais do Exército português, mas esperávamos obter a passagem à situação de licença ilimitada, para podermos ausentar-nos do território nacional com passaporte de turismo.

Demorou bastante tempo a almejada resposta. No entanto, precipitara-se o andamento da guerra e os turcos deram-se por vencidos. Esta era a situação, quando chegou por fia a já desnecessária epístola do Sr. Cônsul. Dizia-nos ele que a marcha inexorável dos sucessos bélicos ferira de morte os nossos projectos, mas que o Governo e os jornais turcos haviam tomado conhecimento deles. Em Constantinopla tinha sido altamente apreciado o nosso gesto. E, para prová-lo, mandava-nos três recortes da imprensa local e suas respectivas traduções, todos eles com a mais cativante exaltação do sentimento turcófilo, que presidira aos nossos projectos.

Cunha Leal, As Minhas Memórias

Francisco Feijó Delgado

Ir ao debate

The Great God Debate

Aqui há umas semanas fui assistir ao um debate entre entre Christopher Hitchens e Rabbi Wolpe (“#1 Pulpit Rabbi in America”, seja lá o que isso for), moderado pelo Tom Ashbrook, talvez conhecido dos que passaram por Boston, ou dos que, por qualquer razão, oiçam o On Point na NPR.

O debate em si foi interessante, nada de muito novo, quem conhece a coisa e a causa pode bem imaginar. Mas uma das coisas que me deu mais gozo, foi ir ao debate em si, como quem vai ao cinema ou ao teatro. Acho que o aspecto lúdico dos debates bem podia estar na moda. E acho que fazia um dinheirão, também. Mas não podem ser daqueles maçadores. A única coisa parecida de que me lembro, nos últimos tempos, sendo que  nesses não havia intervenção intervenção do público, é o saudoso É a Cultura Estúpido.

O ETGM bem podia ter uma sessão mensal. Ao menos aí, podíamos chegar a vias de facto!