Os Anormais

João Baptista dos Santos nasceu em Faro, no ano de 1843. Eu nunca tinha ouvido falar dele. Não é que haja falta de anormais na nossa praça pública, pelo que é concebível que um ou outro escape, no entanto, a este senhor não faltaria fama por entre os mais jovens, caso dele tivessem tido conhecimento no ano certo da escolaridade obrigatória. É que João Baptista dos Santos possuía, entre as duas normais, uma terceira perna. Uma aberração, ou mera curiosidade, consoante as opiniões, a verdade é que o homem nasceu com mais um membro (que na realidade eram duas pernas atrofiadas fundidas). A perna não era funcional, embora pudesse ser manipulada e, muito embora nunca tenha sido operado, Baptista dos Santos era capaz de andar a cavalo, amarrando a sua terceira perna a uma das coxas. Ainda assim, por curioso que este fenómeno fosse, o que suscitava mais interesse era o facto de João Baptista dos Santos sofrer da raríssima diphallia. E, ao contrário da sua terceira perna, o segundo pénis era perfeitamente funcional. Segundo o fotógrafo Charles DeForest Fredricks, que registou a única fotografia conhecida de João Baptista, “basta a visão de uma mulher para excitar as suas propensas amorosas. Ele funciona com ambos os pénis, acabando com um e continuando com o outro.” Tendo sido oferecido um generoso contrato para se exibir em circos franceses, João Baptista dos Santos recusou a oferta, preferindo mostrar-se apenas em círculos médico-científicos.

Mas como uma curiosidade se torna ainda mais interessante quando outra curiosidade se associa a ela, cá vai a segunda parte desta diplopia. Embora não haja provas, reza a história que João Baptista dos Santos terá tido um affair, em Paris, com a cortesã Blanche Dumas. Dumas não só tinha também uma terceira perna, como sofria de duplicação vaginal, que, à semelhança do seu contraposto luso, eram perfeitamente funcionais.

KZ Dachau

KZ Dachau


Há um par de meses visitei Dachau. A localidade é uma pequena cidade a uns escassos quilómetros de Munique. O seu nome ficou gravado na nossa memória colectiva devido ao Konzentrationslager Dachau, o primeiro campo de concentração nazi, modelo para os milhares que se haviam de construir até ao fim da guerra e escola dos oficiais SS responsáveis pelo sistema. Dachau não foi um campo de extermínio, apesar de ter crematório e uma câmara de gás que, à excepção de umas experiências não devidamente confirmadas, não foi usada. Não deixou de ser, por isso, obviamente, um local de morte e desgraça.

Ao visitar o campo senti uma certa e justificada apreensão. Era a primeira vez que entrava num daqueles lugares. Ignorando as dezenas de americanos (turba à qual eu, talvez, já pertença um bocadinho), a primeira coisa que me causou impressão foi a localização do campo: está na cidade. Não no centro, e por ventura na altura a cidade não alcançaria directamente os seus muros, mas está longe de ser um local de terror isolado e distante do mundo civilizado. A segunda coisa que me marcou foi o bonito que é. E isso é algo de muito estranho. É certo, já lá não estão os espectros, nem os odores, e as árvores cresceram, mas a verdade é que o local é agradável. É na fronteira com os campos que circundam a cidade, portanto não lhe faltam os sons da natureza. Uma enorme e larga alameda, ladeada por frondosas árvores é, ironicamente, pacificadora. E aí me consciencializei da necessidade de manter a memória viva. A passagem do tempo tudo faz desvanecer e bastavam crescer umas heras e uma erva alta, que logo a floresta engoliria o KZ Dachau para o esquecimento, assim que morressem os últimos sobreviventes.

No entanto, aquilo que me deixou mais perturbado foi, ao sair, quando confrontado com aquele lugar belo, nada isolado, me pus a mim mesmo a questão: tivera eu vivido naquela Alemanha nazi, será que teria tomado parte naquela barbárie? Sei o que gostaria que fosse a resposta. Mas a perspectiva da nossa infalibilidade e, mais grave, de podermos ceder ao Mal as nossas forças para o propagar, foi essa, sem dúvida, a marca aterradora que me imprimiram os mortos de Dachau.

Hello


E entretanto uns partiram, dos quais muitos não voltam. As notícias falam da dívida sempre crescente, o desemprego que não vai famoso, políticos que querem passar todos os alunos, gente que ora é empresário, ora é ministro, sem dar cavaco à terra que os produz. Não é, com certeza, o paraíso, mas é casa. E, não sei como alguns fazem, não consigo cortar a linha. De regresso a Portugal, cá vou eu. Sabe muito bem.

Trago sempre comigo

Um amigo meu, um dia, seguia num carro, com o guia, pelo deserto argelino. À passagem por uma pequena povoação, deram boleia a um aldeão já velho. O seu aspecto era típico de um livro de fotografias do magrebe. Pele queimada pelo sol, uma barba muito branca e um sorriso inebriante. De repente, pouco depois de o automóvel ter iniciado a marcha, pede para parar, sai do carro a correr e volta com um pano branco, todo enrolado.
— É o meu sudário. Sabe, é que já sou velho e não quero maçar ninguém.

Cemitérios?

Também eu quero entrar na conversa sobre os cemitérios preferidos. Os de Paris são marcos, mas já deles falaram. Primeiro, no entanto, falo daqueles de que não gosto. Salvo raras excepções, sobretudo entre os mais antigos, os cemitérios em Portugal são hediondos. Eu tenho alguma experiência em exéquias fúnebres, já que um dos ramos da minha família quase que desapareceu em meia-dúzia de anos, sendo que por isso acho ter alguma autoridade no que respeita à apreciação estética da coisa.

Mármore e flores de plástico — especialmente ao ar livre, onde o primeiro dura séculos e as segundas dias — há que dizer, não combinam. Depois há os jazigos, essas casinhotas onde se podem coleccionar caixões, que por mais dez ou vinte mil euros que custem, não deixam de ser casinhotas onde se coleccionam caixões. E quando são rematados com uma porta de alumínio envidraçada, só fica a faltar adornar com aquelas cortinas espanta-moscas de miçangas à moda do talho. Há, ainda, o problema de se dar rédea solta à imaginação das pessoas que, é sabido, em momentos de dor não estão na posse das suas plenas faculdades e só assim se explica o facto de marcarem as campas dos seus entes queridos para a eternidade com tamanho mau gosto. E já nem falo dos caixões; tomem nota da simplicidade do do papa João Paulo II.

Por fim, a cremação, no nosso país, só resulta em poupar um bocadinho de espaço. Por lei não se pode levar as cinzas para casa, deitá-las ao vento, ao mar, ou noutro qualquer lugar igualmente poético. Não, têm de ficar guardadas, numa urna, numa gaveta, onde? Naqueles cemitérios hediondos.




Entram os americanos. Se há coisa onde deixaram marca e estilo, em grande parte fruto da sua virilidade como nação militarista, é os campos e campos de tombados na guerra. A beleza dos locais, a simplicidade das campas, o cuidado no arranjo, o relvado impecável e a força assombrosa da simetria aliada aos pesados números tornam estes cemitérios os mais bonitos que conheço.

Em cima, o famoso Arlington National Cemetery, e em baixo, em Colleville-sur-mer, na Normandia, junto ao mar, o cemitério das forças americanas mortas na libertação de França, na Segunda Guerra Mundial.

Mas não é só nos cemitérios militares que os americanos se esmeram. Aqui nas redondezas de Boston fica o Mount Auburn Cemetery, um magnífico espaço pela sua beleza natural, pintado de branco no inverno, colorido de radiante verde no verão, ao qual se seguem os maravilhosos tons outonais da Nova Inglaterra. É um encanto passear em Mount Auburn.


A história de Barbados e da Jamaica

It may be tempting for readers to regard this paper as a quaint tale of two exotic islands better known for their beaches, music, and Olympic sprinters than their significance in the global economy. On the contrary, we think that important general lessons lie at the heart of this Caribbean parable.
Institutions versus Policies: A Tale of Two Islands, Peter Blair Henry and Conrad Miller

As coisas nunca são tão simples como alguns querem fazer parecer, de um ou do outro lado. A sociedade portuguesa, após à estabilização que teve lugar na sequência do PREC e dos tumultos pós-25 de Abril, e após um período, breve, de crescimento, começou a ficar crispada. Sampaio usou a palavra vezes sem conta. E, em grande medida, tinha razão. Soares dos Santos levantava a mesma crítica, há dias, no Plano Inclinado: é impossível falar-se entre nós. Discutir, planear, organizar. As críticas são imediatas, não há capacidade de estabelecer um desígnio nacional, não há possibilidade de se encarar um futuro que requere esforço e coordenação. Sê-lo-á por falta de liderança, pela existência de ódios e rancores que poucos querem sanar e ainda devido a uma larga camada que se aproveita deste estado de coisas.

As coisas nunca são tão simples como alguns querem fazer parecer, mas aqui ficam as histórias de Barbados e da Jamaica. (via This American Life.)

The Story of Barbados and Jamaica [ 22min, em inglês ]

O Caminho Certo

Ninguém sabe qual é. E na política, as coisas ainda se tornam mais complicadas. Ontem, até António Costa disse que os ministros não acompanham o dinamismo do Primeiro-Ministro. Por ventura, o que lhes falta é orientação. Aqui está a solução.

A melhor praia do mundo*

*É sabido que qualquer terrinha americana tem a melhor loja de gelados do mundo e, na Nova Inglaterra, os melhores lobster rolls do universo. Aqui também eu faço uso da hipérbole para dar ao Guincho um título que não precisa. E para os que não gostam dos desportos anemoaquáticos, o melhor do Guincho é a raridade com que proporciona o acolhimento a que todos se julgam devidos.

Um bom verão a todos. via

Saramago

Ir ao debate

The Great God Debate

Aqui há umas semanas fui assistir ao um debate entre entre Christopher Hitchens e Rabbi Wolpe (“#1 Pulpit Rabbi in America”, seja lá o que isso for), moderado pelo Tom Ashbrook, talvez conhecido dos que passaram por Boston, ou dos que, por qualquer razão, oiçam o On Point na NPR.

O debate em si foi interessante, nada de muito novo, quem conhece a coisa e a causa pode bem imaginar. Mas uma das coisas que me deu mais gozo, foi ir ao debate em si, como quem vai ao cinema ou ao teatro. Acho que o aspecto lúdico dos debates bem podia estar na moda. E acho que fazia um dinheirão, também. Mas não podem ser daqueles maçadores. A única coisa parecida de que me lembro, nos últimos tempos, sendo que  nesses não havia intervenção intervenção do público, é o saudoso É a Cultura Estúpido.

O ETGM bem podia ter uma sessão mensal. Ao menos aí, podíamos chegar a vias de facto!

Símbolos e rituais

- α -

Há dias, aqui na universidade onde estou, houve o Commencement, que paradoxalmente marca o fim do cursos, mestrados e doutoramentos dos alunos da instiuição. O paradoxo desfaz-se quando ficamos a saber que o que é realçado não é o fim dos estudos, mas o início do resto da vida. Na minha universidade, em Portugal não houve nada, nem no início, nem no fim e, como ateu que sou, não quis ir à benção das fitas organizada em Lisboa. Não que tenha nada contra, mas simplesmente achei que, para mim, não fazia sentido, não era o símbolo que queria. O Commencement é um símbolo, um ritual: marca a cadência da vida.

- β -

No meu post anterior o Manuel e a Blonde levantaram a questão do paradoxo latente: uns querem o casamento, quando no fundo a população em geral o quer cada vez menos. De seguida o Manuel e o Gonçalo contestaram a simplicidade com que pensam que ponho o problema do valor do casamento.

Certamente — o casamento é uma instituição ancestral, tradicional, conservadora e, sem dúvida alguma, parte integrante, para o bem e para o mal da forja que criou a sociedade que temos. E o que é que está a acontecer agora? Será, como diz o Gonçalo que «há uma cruzada» contra o casamento? Não sei se há uma conspiração, não sei se é deliberado, mas que as férias no Brazil ajudam a que ele esteja fora de moda, lá isso ajudam. É uma cruzada? Não sei. Não estou em condições de fazer uma análise decente sobre o que tem feito diminuir o número de casamentos. Mas não é só o número de casamentos que tem uma variação acentuada: o número de divórcios cresce, e muito. Em 2008, por cada 100 casais que se casavam, 60,4 divorciavam-se. Mas se virmos em cada 100 casamentos pela Igreja, esse número eleva-se para 82.3, enquanto os do civil situavam-se em 42.9, um número relativamente estável no século XXI. Contrariamente, os divórcios de matrimónios contraídos na Igreja, se a tendência continuar, arriscam-se a ser mais numerosos que os casamentos. Se houver uma conspiração, não só está a conseguir que as pessoas não se casem, mas também a evitar que permaneçam nesse estado aqueles que já casaram, especialmente os que o fizeram pela Igreja. Não acredito que haja conspiração.

Divórcios por 100 casamentos
Dados da Pordata

Que quero eu dizer com estes números e gráficos? Bem, queria só que estivessem ao corrente deles. E, não entrando em divagações, vou apenas apontar duas coisas: 1) o casamento religioso pressupõe a eternidade e outros conceitos sobrenaturais; 2) tradicionalmente o casamento em Portugal é religioso, pelo que os que casam ser pela Igreja têm, pelo menos, de rejeitar essa tradição (e aceitar uma cerimónia bem mais feia e pirosa, porque nada ainda bate a cerimónia numa igreja).

Agora, finalmente, a minha posição: eu sou a favor do casamento. Aqui falo do púlpito, porque nunca casei. Desculpar-me-ão os mais experientes e estão no vosso direito para dizer, eh pá, vai lá à tua vida puto. Mesmo que fosse religioso, seria frontalmente contra a ideia do para toda a vida. O casamento é um símbolo, um ritual. O casamento é um contrato, para os noivos e para a sociedade. Uma declaração, um ponto de nucleação. Essencial? Claro que não. Pode ser quebrado? Claro que sim: somos humanos. O casamento que deriva do religioso é conservador e pseudo-romântico; o casamento que defendo, não o é. O casamento é um símbolo, um ritual: marca a cadência da vida.

- γ -

Aqui diz-se que a figura da Primeira Dama serve para denegrir as mulheres. Este é o tipo de ateio-republicanismo que eu, sendo ateu e republicano, não suporto: «É um resquício monárquico preservado como adereço de presidentes e primeiros-ministros. (…) [D]estrói o exemplo de mulher moderna e emancipada de que precisam os povos habituados a hábitos patriarcais e tradições religiosas misóginas. (…) Não importa que os EUA e o Reino Unido, ou mesmo a França, dêem maus exemplos. A emancipação feminina não se compadece com papéis que o progresso e a civilização tornaram anacrónicos.»

Em Portugal oficialmente não temos esta figura mas tradicionalmente as mulheres dos presidentes da República têm assumido este papel. Entre nós os cônjuges destas figuras geralmente não participam nas campanhas eleitorais, ou são pouco visíveis, mas, nos EUA, por exemplo, a candidatura é sempre vista como do casal. Obviamente um dos membros é mais relevante e o cônjuge assume um papel, acima de tudo, simbólico. Há mal nisso? Nenhum, na minha perspectiva, deste que o seja por opção e não coacção. E o inverso acontece? Não é muito comum, talvez; o senhor Merkel (que não se chama Merkel), foi apelidado de Fantasma da Ópera, e o príncipe Filipe de Edimburgo, que, ao invés das esposas dos Reis que passam a ser Rainhas, como cônjuge da Rainha de Inglaterra, meramente se tornou príncipe consorte (mau exemplo inglês e monárquico?). Ter um cargo simbólico não é humilhante e exemplos não faltam, modernos ou antigos, de cônjuges que deixaram marcas relevantes no mundo. Mais, faz precisamente parte integrante do contrato que é o casamento.

- δ -

Termino este post, já longo e maçador, com uma breve consideração. Os símbolos são parte integrante da nossa existência. Fazem parte da nossa linguagem e dos nossos sentidos, do material e do imaterial que nos é fundamental. Os símbolos, quando rituais que não ocos, nem bacocos, têm, para mim o papel fundamental de marcar as entradas e saídas de cena, a passagem de etapas, aquilo a que chamo marcar a cadência da vida. Materializam-se umas vezes em regras de convívio, outras em indumentária, outras em cerimónias — muitas das quais, tirando o aspecto sobrenatural, sou totalmente a favor de herdarmos das religiões — e por aí adiante. Parecerá, por ventura, inútil, mas numa altura em as vidas têm ritmos cada vez mais rápidos, são os pontos que nos ancoram ao friso do tempo. A nós e àqueles que nos rodeiam.

Devia?

O dançar das opiniões é tão flutuante como espigas ao vento, mas bem menos melódico. E os clamores ouvem-se:  ora é porque o Presidente devia intervir, ora não devia intervir, devia ter mais poderes, menos poderes. O Presidente Cavaco Silva tem a emotividade e a expressividade dum espargo e, como tal, nunca me inspirou grande motivação. Para o país, também não penso que tenha sido um brilhante presidente e o seu extremo calculismo político é tão aguçado quanto um bisturi.

Desta feita é porque o Presidente deveria ter seguido em frente, levado as suas convicções até às últimas consequências e vetado o casamento homossexual. Como todos sabemos, caso vetasse, o diploma voltaria à Assembleia da República onde seria novamente aprovado por maioria parlamentar.

Eu respeito a honra e a dignidade das lutas, o tombar pelos valores magnânimos face à inevitabilidade e imutabilidade do resultado. Mas vamos lá ver, é esta uma situação verdadeiramente fracturante? Desta vez concordo com a atitude do Presidente: eu sou o Presidente de todos os Portugueses, não concordo e deixo a minha voz em acta, mas vou seguir a vontade da maioria. Esta não é uma questão prioritária para uma discussão alargada, não é sequer uma questão que divida a sociedade. Uma vez desaparecidas as gerações do século XX alguém sentirá isto como um problema? Não.

Casamentos em Portugal
Dados da Pordata

Aqueles que estão contra a atitude do Presidente, na sua maioria, são representantes de uma comunidade ligada aos valores mais tradicionais e conservadores e, inevitavelmente, católicos. Muitos desses valores são de louvar, nomeadamente aqueles que dizem respeito à integridade humana, mas a organização da sociedade está cada vez mais diferente e menos assente nos padrões definidos pela identidade católica; veja-se o gráfico acima, onde a instituição do casamento está em forte decréscimo, mesmo contando com o decréscimo da população (não representado) — nos anos 70, o número de casamentos correspondia a aproximadamente 3.6% da população entre os 20 e os 40 anos, ao passo que nos anos 90, já só correspondia a cerca de 1,9%. Mas o mais significativo é o decréscimo do número de casamentos religiosos, uma medida indicativa da mudança do tecido dos valores da sociedade e seu correspondente enquadramento na matriz católica.

Assim, o prosseguir da cruzada do Presidente seria apenas um capricho de uma minoria e não a representação de uma tendência maioritária, além de que serviria apenas para provocar uma discussão já fora do prazo de validade que, verdadeiramente, de fracturante tem muito pouco.

Frenchman’s Pier

Frenchman’s Pier
Costa norte do Massachusetts

Direito ao direito

Já aqui mencionei a minha apreciação da conquista que foi a educação generalizada gratuita. Ontem a ministra anunciou a possibilidade de se saltar para o 10º ano do 8º, caso se tenha mais de 15 anos e se passe nos exames. O conceito, em teoria, é bonito: alguém que se distraiu, ou esteve doente, ou que por qualquer outra razão não está onde devia, vai ficar em casa a estudar a matéria que lhe falta. E vai passar.

Não tenho estatísticas, mas suspeito que os que estão nesta situação não são, na sua maioria, pessoas que ficaram retidas por circunstâncias alheias e capazes de superar tal esforço. Existe já algo de semelhante, no 12º ano, onde os alunos podem anular a matrícula e depois, no fim-do-ano, se auto-propor a exame. Recordo-me de uma situação em que um antigo colega terminou a disciplina de Física com dezassete valores, mas essa, não é, sem dúvida alguma, a generalidade dos casos. Muitos são aqueles que têm notas baixíssimas, que não podem ser classificadas como azares. Sem qualquer “taxa moderadora” este tipo de exames gastam recursos e tempo, já que em muitos casos há atitudes de não há nada a perder. Mesmo que não haja facilitismo nos exames — que é duvidoso, — a tendência generalizada da sociedade para a falta de brio e de responsabilização incentivam este tipo de atitudes.

Poderia haver algo como a inscrição patrocinada: um professor, que acompanhou o estudo do aluno e que age como “patrocinador” e só assim o aluno se pode inscrever no tal exame. Isto seria complicado, por ventura, de colocar em prática, pelo que proponho que, a introduzir-se esta medida, houvesse um preço de inscrição no exame de qualquer coisa como €100–200. Claro, se o aluno passasse, a educação seria gratuita: o custo da inscrição seria devolvido.

Tudo isto redunda num problema: o do direito à educação gratuita. Eu sou frontalmente contra este princípio. O que defendo é o direito ao direito de educação gratuita, ou, para simplificar e evitar maria-josé-nogueira-pintices, o direito à oportunidade de educação gratuita. Uma vez desperdiçada essa oportunidade (salvaguardando, é claro, a justiça neste tipo de coisas), então já não é da responsabilidade colectiva do Estado garantir a educação gratuita.

A vida a números de Reynolds baixos

Imaginem nadar em mel. Seria certamente complicado. O mel é altamente viscoso, quando comparado com a água, portanto o esforço necessário para se deslocar num hipotético mar de mel seria muito grande. Mas o factor mais relevante é que as forças inerciais deixam de dominar sobre as forças de atrito devidas à viscosidade. O que quero dizer com isto? Se pegarem num barco de brincar, ou numa prancha de surf e os empurrarem, numa piscina, ou num lago, quando os largarem eles continuarão a deslizar sobre a água durante algum tempo. Isto é a inércia: a resistência que um corpo tem a abandonar o movimento que lhe foi imprimido.

No mel a coisa não se passaria da mesma maneira; a prancha pararia quase de imediato, já que o atrito devido à viscosidade “agarra” a prancha. Assim, se dessem uma braçada nessa tal piscina deslocar-se-iam muito pouco. O número de Reynolds (R) é um número adimensional que relaciona as forças de atrito devido à viscosidade com as forças inerciais. Assim, quando R»1 (muito maior que um) estamos num ambiente dominado pelas forças de inércia, como na água, e quando R«1, num ambiente de alta viscosidade, como no mel.

Ora esta relação não depende apenas das propriedades do fluido, mas também do objecto que nele está imerso. Assim, se escalarmos as dimensões, o comportamento não é o mesmo. O que acontece, por exemplo, ao nível microscópico, é que para um organismo pequenino como uma bactéria, mesmo a água lhe parece mel. Assim não pode nadar como nós, mas tem de desenvolver outras estratégias.

Outras curiosidades resultam de o facto de a baixo número de Reynolds, os fluxos são laminares e não turbulentos. O que isto quer dizer, por exemplo, é que se a água de um rio estivesse num regime laminar, a água que segue junto à costa, não se misturaria com a água no centro do leito.

Sugiro que vejam o seguinte filme, com dois exemplos muito curiosos de efeitos que occorrem em fluidos viscosos, descritos num delicioso sotaque britânico:

[1] — O filme acima é um excerto de um de muitos filmes feitos pelo grande físico Geoffrey Ingram Taylor. Estão todos disponíveis no National Committee for Fluid Mechanics Films.
[2] — Para quem estiver interessado em saber mais, aqui fica um artigo muito interessante e acessível, do qual roubei o título: Life at low Reynolds number.

Iluminar as mentes

Literalmente na porta ao lado do meu laboratório, o grupo liderado pelo Ed Boyden está, também literalmente, a iluminar mentes. Mentes, bem, talvez seja um pouco mediático de mais; rigorosamente está a iluminar células do cérebro. Ainda há muito que nos falta conhecer, para entendermos o funcionamento do nosso organismo, mas talvez aquilo que mais no escapa são os meandros do cérebro. Estamos longe de o perceber, e muito mais longe ainda de o manipular, pelo menos de forma física, já que de forma psicológica, de Kubrik a Estaline há exemplos de sobra.

O campo é a optogenómica, ou seja, utilizar a engenharia genética para introduzir nas células elementos capazes de reagir à luz. Neste subcampo específico da aplicação à neurociência, o objectivo é controlar neurónios com luz. O diagrama abaixo explica como se faz a experiência num rato.

Primeiro, obtém-se o gene que codifica uma opsina (proteína do tipo das que temos nas células da retina, que reagem à luz). Esse gene é depois introduzido no genoma de um lentivirus, o qual é administrado ao animal. O virus infecta neurónios e modifica o código genético destes, introduzindo uma cópia do gene que codifica a bactéria. Se a operação tiver sucesso, o rato continua vivo, mas agora os seus neurónios exprimem a tal proteína. Especificamente, este tipo de proteínas são canais activados por luz, abrindo ou fechando, deixando, ou não, passar iões. Parte da comunicação neuronal dá-se precisamente pela abertura e fecho destes canais. Estas opsinas tornam-se assim em interruptores neuronais, controláveis pelo experimentalista. A única coisa necessária é uma “lanterna”, que se introduz no crâneo do rato.

Silenciamento selectivo the neurónios com luz vermelha ou azul.

Para além de estímulos eléctricos e químicos, esta é mais uma tecnologia que pretende manipular a maquinaria cerebral. À partida, tem a vantagem de poder activar ou desactivar um neurónio de cada vez, sem perturbar outras propriedades. Uma das doenças que se pretende estudar com esta técnica é a epilepsia, que se caracteriza por uma hiperactividade dos neurónios de certas zonas do cérebro. Este controlo remoto poderá servir para silenciar os neurónios hiperactivos durante um ataque epiléptico.

Figuras retiradas de:
[1] Illuminating the BrainNature 465, 26–28 (2010)
[2High-performance genetically targetable optical neural silencing by light-driven proton pumps Nature 463, 98–102 (2010)

Read My Lips 2

Read My Lips

do Governo Sombra

Se…

… Portugal tivesse dinheiro, entre outras coisas, devíamos mandar fazer filmes a sério sobre os Descobrimentos. Aqui deste lado todos sabem quem foi o Colombo, poucos, o Vasco da Gama. Aqui deste lado eleva-se o programa espacial à classe de epopeia moderna — e com razão — a tecnologia, a razão e o empenho, combinados com orgulho, coragem, tenacidade e necessidade. No fundo, o mesmo que nos levou à procura do caminho marítimo para a Índia. Colombo teve sorte, mas foi desprezado pelos nossos Reis, que na altura decidiram pelos pareceres técnicos — ir para a Índia, naquela direcção, não fazia sentido. E se os Gregos são conhecidos pela Grécia Antiga, os Romanos pelo seu Império, os Egípcios, os Ingleses, os Franceses e mesmo os Americanos, o que é que nos falta a nós? Histórias… conhecidas! O que não seria! Na boca de toda a gente. E depois vendiamo-lhes a cortiça. E pasteis de nata. Falta-nos o marketing. Mas não é daquele do Cristiano Ronaldo espetado num dos prédios do Marquês de Pombal.

King and Pope

Largo do Carmo

Sentou-se e pediu logo um café. Costumavam demorar imenso tempo a vir às mesas, naquela esplanada do Largo do Carmo. Àquela hora, deviam faltar dez ou quinze minutos para ela chegar. A palavra ainda não tinha sido inventada; o que lhe vinha à cabeça era um misto de obscenidade e de cobardia.

Há dois meses que sei que te sentas aí, nessa mesma mesa, sempre às terças e às sextas. Coincidência ter-te encontrado, a escrever. Ainda não deixaste de vir uma única vez.

Há dois meses que ele sabe que ela vai àquela esplanada, às terças e sextas, pelas seis horas. Não faltou nem no dia vinte e três de Dezembro; deve ser daqui de Lisboa. Todas as sextas um livro, geralmente de arte, ou arquitectura. Sempre um bloco e uma máquina fotográfica em cima da mesa. Costuma pedir um café e um pastel de nata. Às vezes troca o café por uma meia-de-leite. Outras pede um aperitivo que ainda não conseguiu identificar. Pela aparência, um Moscatel, um Madeira, ou um Porto. Às vezes traz um leitor de CD’s. Não se preocupa em trautear alto; sempre Steve Poltz, Mazgani e Blind Pilot. Ele não conhecia nada daquilo. À hora certa, lá chegava ela. Ele, preso à cadeira.

Será que ela já me viu? Quem é ela? O que faz? As mesmas perguntas, sempre. Jorravam-lhe, inundavam-lhe a imaginação. Não falava daquilo a ninguém. Era ridículo. Nunca fizera nada. Nada mais que observar. Isto é ridículo. Às vezes sustinha a respiração e levantava-se ligeiramente. Depois sentava-se. Já várias vezes vira tipos ir falar com ela. Que frustração, era o que ele sentia. Tipos com bom aspecto (será que era aquilo que faziam na vida?), muitos deviam ser artistas. Pediam para desenhá-la, vinham falar com ela. Já a vira rir, a bom rir. E ele nada mais fazia que imaginá-los a ambos, juntos, a viverem juntos, a prepararem um pequeno-almoço juntos. Tu tropeçaste em mim, eu com as chávenas na mão, tu com o pão com doce, e olhaste-me nos olhos com uma cumplicidade que se situava mesmo entre a culpa e o arrependimento parcial. Ele imaginava-a na sua vida. Imaginava uma vida a dois, diferente. Imaginava, sonhava os bons momentos. Era isso que ele ia ali fazer; ia ali imaginar. Mas ia com a esperança de que um dia se tornasse mesmo a sua própria vida.

O medo, a vergonha. Porquê? Isto é ridículo. Naquele dia tinha dito: é hoje; tem de ser. Ele nunca dizia é hoje. Mais que tudo, o seu medo era de reconhecer-se falhado. Assim evitava falhar-se a si próprio, pelo menos formalmente. Naquele dia disse. É hoje. Tudo planeado. O que diria, o que não diria. Sabia que não iria ser nada disso que lhe viria à cabeça. Mesmo assim recreou aquilo vezes infindáveis, na sua imaginação.

E ela sentou-se. Em dez minutos, ele não pensou em rigorosamente nada. Limitou-se a olhar. Sentiu o tempo a passar. Até que pôs as mãos nos braços da cadeira. Assim que transferiu o peso e se começou a levantar, viu-a levar as mãos à cara. Ficou estático. Ela baixou a cabeça. Ele não conseguia distinguir se estava mesmo a tocar na mesa.

Ela está a chorar.

Ela estava a chorar. Primeiro timidamente. Depois nada o escondia.

Ela está a chorar!

Ele estava surpreendido. Aterrado. E deixou-se cair na cadeira. Na sua mente consolava-a. Passaram cinco ou seis minutos. Ela levantou-se e foi-se embora, a correr.