Forte

In line, in line, it’s all in line.
My ducks are all in a row.
They do not change, they do not move.
They have nowhere to go.

 

Diz-se que a melhor coisa que se pode ter na vida são os filhos. Gerar uma vida. Criar uma vida. Dar de nós uma parte que há-de ficar, que nos perpetua um bocadinho mais. E que tudo faz sentido depois, ou se não faz, já não sei bem, pelo menos passa-se a reconhecer que nada mais vale, verdadeiramente, a pena. Que até os mais monstruosos homens o reconhecem, mais tarde ou mais cedo. Tretas. Senão como estaria eu, aqui, a guiar esta soberba máquina? O mundo é dos fortes.

Comparações

Dizem que uma discussão acaba quando alguém faz uma comparação com Hitler e/ou a Segunda Guerra Mundial. Eu percebo: ninguém é tão malvado como o senhor do bigode. Toda a gente caiu em cima de Catroga por ter usado Hitler numa comparação sobre demagogia envolvendo o nosso PMd. Claro, não estava a dizer que Sócrates era um mass-murdering fuck-head [1], apenas o óbvio: o facto de se ter apoio de multidões não faz da pessoa uma boa pessoa, ou melhor pessoa. A ficar ofendidos, os senhores jornalistas e o público em geral deveriam criticar o facto de Catroga ter insultado a capacidade de escolha dos nossos concidadãos, já que é óbvio que os alemães provaram estar rotundamente errados ao ajudar Hitler a chegar ao poder (na última eleição antes de serem banidos os partidos políticos que não o NSDAP, este obteve 43,9% dos votos, e o segundo partido mais votado apenas 18,3%).

Mas não estou aqui nem para defender Catroga, nem para discutir os méritos ou deméritos da opinião pública já que analizar as perfeições e imperfeições da Democracia não é tarefa fácil. Apenas para dizer que há muitas e boas comparações que se podem fazer com o período da Alemanha Nazi e da ascenção ao poder daquele que viria a ser o Führer. A história é fascinante: a manipulação das massas, a deturpação do sistema democrático, a provocação e remoção dos adversários políticos e finalmente, o permear de ideais detestáveis numa sociedade moderna. Hitler nasceu de entre uma democracia — com contexto, é certo, e muito doente, mas democracia, nonetheless.

Talvez não se goste destas comparações por pudor, por ferir susceptibilidades, ou por muitas vezes cairem na parvoíce. Mas acho que a grande maioria é por falta de conhecimento. Assim deixo aqui três livros sobre o assunto, para que possam fazer comparações informadas.

1. Hitler, Ian Kershaw — Uma das mais recentes biografias, adaptada dos dois volumes académicos publicados por Kershaw em finais da década de noventa. Fascinante retrato de um homem, político e demagogo brilhante, que era sobretudo um jogador — alucinado, é certo, e obstinado, mas um jogador para quem, a todo o momento, ou era tudo, ou nada. A súbida ao poder é um autêntico filme de acção e intriga. E para quem tem interesse, todos os bastidores da Segunda Grande Guerra. Há também a biografia por John Toland, que não li, mas muito bem cotada, e ainda The Rise and Fall of The Third Reich, por um jornalista americano, William Shirer, que presenciou in loco a chegada dos nazis ao poder. Não recomendo, no entanto, a tradução portuguesa: a qualidade de algumas partes é bastante pobre.

2. A História de um Alemão, Sebastian Haffner — A subida ao poder dos nazis vista por um jovem em vias de se tornar advogado. Um cidadão comum, não judeu, que viveu a ascenção de Hitler e decidiu exilar-se em Inglaterra em 1938, onde se tornou jornalista. O livro nasce de um manuscrito inacabado, descoberto pelo filho de Haffner após a sua morte.

3. Eichmann em Jerusalem, Hannah Arendt — Reportagem feita pela filósofa judia aquando do processo de Eichmann em Israel. Além do ensaio acerca da natureza humana do tecnocrata da Solução Final, merece a pena a discussão sobre o papel dos judeus e da sua comunidade perante o cataclismo que sobre eles se abatia.

Deixo três perspectivas: a do homem que operou as alavancas da história, a de um homem normal que assistiu ao que se passava e a das vítimas do massacre organizado, que, embora com total apoio, não foi um dos empenhos a que Hitler mais se dedicou, mas que só foi possível de florescer na sociedade que ele moldou.

 

[1] — Eddie Izzard, Dress to Kill

Agora eu

disclaimer: eu leio muito pouco. de menos. porque leio muito devagar, por ser preguiçoso, por  me distrair com coisas menores, sei lá. e assusta-me porque há tanta coisa que devia ler, que tenho de ler. a matemática da coisa é aterradora, não sei se por haver livros a mais, se por vivermos tempo de menos. assim, esta minha lista vale o que vale, que é muito pouco, mas como um blog também é um pouco o espelho do que somos, cá vai.

 

1. Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?

Provavelmente, mas ainda tenho tantos para ler, daqueles mesmo mesmo essenciais à sobrevivência humana, que não pensei ainda em reler nenhum.

2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

Pelo menos o Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura do Lobo Antunes e o The Naked and The Dead, do Norman Mailer. Mas esse ainda estou na fase do tentar recomçar.

3. Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?

Não tenho arcaboiço para sequer começar pensar nisso.

4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?

A grande maioria dos clássicos. E por clássicos digo todos os que valem a pena dos gregos ao início do século XX.

5. Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?

Acho que não é bem a cena final, mas quase: aquela do 1984 em que Orwell demonstra que nem mesmo a nossa mente é refúgio seguro o suficiente.

6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?

Acho que o que me deu mais gozo foi — devido aos atrasos na tradução — ler o Tintin, à medida que os livros iam saindo, como se o Hergé os estivesse a escrever. Conta?

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.

Lá está, acho que não tenho estaleca para coisas destas, mas estes dois gostei muito — são incrivelmente deprimentes: O Meu Michael do Amos Oz; Fiesta, The Sun Also Rises do Hemingway.

9. Que livro estás a ler neste momento?

The Plausibility of Life: Resolving Darwin’s Dilemma, Marc Kirschner; The Wizard of Lies: Bernie Madoff and the Death of Trust, Diana Henriques; The Rise and Fall of the Third Reich, William Shirer; Ten Days that Shook the World, John Reed (curiosamente, dois jornalistas americanos que estavam ) e To Kill a Mocking Bird,  Harper Lee, mas este ainda só está na cabeceira.

 

Agora mistério, mistério — ou mesmo consipiração — que fizeram à pergunta 7?

Short Film

Ronaldo
Jan Mettler

Como é que os outros nos olham? Aqueles que vivem do lado de lá da fronteira. Que conhecem o nosso nome, mas nunca nos visitaram. Aqueles que cresceram em países onde em tempos lá estivemos, ou aqueles que, pela geografia, nada têm que ver connosco. E que influência tem isso na maneira em que vivemos, até que modo moldam quem somos?

Há umas semanas fui ao festival de curtas europeias no MIT. Havia uma participação portuguesa (Nenhum Nome de Gonçalo Waddington) que não cheguei a ver. Mas os dois filmes que abriam o festival era inspirados por nós: Inspiração da francesa Elodie Rivalan (apenas o trailer está disponível) e o Ronaldo, acima, pelo suiço Jan Mettler (curta completa).

Salvador Dali

As obras importam claro. E gosto bastante delas, embora, confesso, de entre os surrealistas, prefira os quadros de Magritte ou as esculturas de Giacometti.

Mas de Salvador Dali invejo uma coisa: a capacidade de manipulação do público. Perante uma obra de Dali, não somos nós que lançamos o olhar sobre ela, mas é ele, Dali, que nos envolve na teia cuidadosamente urdida. As suas criações tendem a transcender o material físico que as compõem — dirão que toda a arte assim o é — mas de Dali vem sempre uma grande obra teatral, uma construção excêntrica e meticulosamente preparada. O expoente máximo talvez seja o Teatro-Museu em Figueres, sua terra vital, onde todo o visitante cai como uma presa desorientada nos detalhes daquela grande história que Dali nos conta.

“¿Dónde si no en mi ciudad ha de perdurar lo más extravagante y sólido de mi obra, dónde si no? El Teatro Municipal, lo que quedó de él, me pareció muy adecuado y por tres razones: la primera, porque soy un pintor eminentemente teatral; la segunda, porque el Teatro está justo delante de la iglesia en que fui bautizado; y la tercera, porque fue precisamente en la sala del vestíbulo del Teatro donde expuse mi primera muestra de pintura.”

As tiradas de Dali são famosas e sobejamente recontadas — the nerve. Genial para muitos, a verdade é que como excêntrico Dali, até nisso, teve algumas particularidades originais, entre as quais o facto de ter tido Gala sempre na sua vida e de não ter morrido cedo. Talvez porque soy muy mal pintor por la razón de que soy demasiado inteligente para ser buen pintor. Fez da sua arte fortuna, e embora não tenha sido tão bem sucedido nesse domínio como Warhol, foi igualmente um mestre no que toca ao savoir-être mediático.

Mas a sua presença ficou e sente-se em cada uma das suas obras. Há que, no entanto, ir a Figueres e, aí sim, sentir inveja de alguém que nos deixa indefesos e tão bem nos consegue manipular, com uns cordéis invisíveis, com um talento enorme.

Sailing with a Spencer

To form an Administration of this scale and complexity is a serious undertaking in itself, but it must be remembered that we are in the preliminary stage of one of the greatest battles in (our) history. (…)

In this crisis I hope I may be pardoned if I do not address the House at any length today. I hope that any of my friends and colleagues, or former colleagues, who are affected by the political reconstruction, will make allowance, all allowance, for any lack of ceremony with which it has been necessary to act. I would say to the House, as I said to those who have joined this government: “I have nothing to offer but blood, toil, tears and sweat.” (…)

We have before us an ordeal of the most grievous kind. We have before us many, many long months of struggle and of suffering. You ask, what is our policy? (…) I can answer in one word: It is victory, victory at all costs, victory in spite of all terror, victory, however long and hard the road may be; for without victory, there is no survival.

Winston Churchill
13 de Maio de 1940

Next Stop Atlantic

 

 

 

 

 

Quando o descartar da imponência é tão ligeiro como a inevitável naturalidade inevitável da vida. Next Stop Atlantic, do norte-americano Stephen Mallon.

Recauchetagem “A Resistente”

Recauchetagem “A Resistente”

Recauchetagem “A Resistente”, Lisboa, Portugal — Fotografia sem data. Produzida durante a actividade do Estúdio Mário Novais: 1933–1983.

Tenho parado pouco por esta casa (com boas razões, asseguro), mas deixo uma fotografia que talvez seja de utilidade, nos tempos que se avizinham. Do bom arquivo da Biblioteca de Arte-Fundação Calouste.

Seremos?

“Os ateus não entram nesta história: vão colados aos crentes porque crentes como os crentes são”.  Assim acabou o Manuel o seu texto de resposta ao Gonçalo, que o Ateísmo é mais um credo, perfeitamente anti-paralelo à crença no divino. Talvez o tenha sido e continue a ser para muitos, mas a verdade é que os pratos da balança têm vindo a alterar-se. Eu defendo que há condições para assim já não ser; o meu ateísmo não é uma fé.

Antes de começar, quer no entanto dizer que posso vir a passar por arrogante neste post. Voltarei a essa questão, mais tarde, mas peço, por antecipação, desculpas. Talvez a minha (de)formação profissional, talvez a minha falta de experiência neste mundo. Poderei parecer arrogante, mas tentarei justificar-me, não julgo sofrer da arrogância científica descrita, entre outros, por Onésimo Almeida no seu “De Marx a Darwin”.

“A crença em Deus é um apetrecho vigoroso, uma enzima que nos dinamiza.” Estamos longe de o provar, mas é uma hipótese com cabimento, aquela o Manuel enunciou: a ideia do sagrado e do divino, não passarem de um mero instrumento evolutivo. Teria surgido com o aparecimento de uma capacidade distinta do homem primitivo: a de possuir um cérebro poderosíssimo, uma consciência que parece suplantar as dos demais organismos vivos, pelo menos aqui na Terra.

Não só o homem tem uma maior consciência de si e dos outros, como do mundo em que o rodeia. O tal cérebro poderoso terá começado a criar problemas a ele próprio: como qualquer “tecnologia” pode se usado para vários fins, uns bons, outros maus. E esses problemas foram os que decorreram dessa maior percepção: as questões de foro psicológico e íntimo, bem como o despertar da consciência (no sentido de awareness e não de conscience) do que o rodeia.  Estes dois tipos de questões — a consciência do interior e do exterior — estão íntimamente e inevitavelmente ligados. A procura de explicações e das origens é, acto contínuo, a solução imediata.

De um ponto de vista evolutivo, o facto de todas as civilizações terem desenvolvido sistemas de divindades e espiritualidade semelhantes revela perfeita consistência — não são ocorrências separadas, mas ramificações de uma árvore comum. Dirão que poderá também ser produto da universalidade do divino; certo é que, por ora, não há meio de provar nenhuma das hipóteses. Mas a verdade é que é isso que temos observado na biologia: a manutenção e conservação das “peças fundamentais”. Todos os seres vivos na Terra têm ADN, composto pelas mesmas exactas moléculas. Todas as células eucarióticas, das amibas às células dos mamíferos, i.e., todas as do nosso corpo, têm mitocôndrias, um organelo que produz o combustível das células. Claro, o Criador poderia ter criado toda a diversidade no mundo da forma que quisesse, mas, qual programador preguiçoso, usou os mesmos “componentes”, over and over and over again. Mas não é sobre a criação que aqui venho, ainda que, antes do fim voltarei brevemente ao assunto para enquadrar o raciocínio que quero fazer.

Comecemos exactamente pela: a Fé é uma crença, baseada numa relação de confiança por ventura unidireccional. Segundo algumas definições é uma crença sem necessidade de prova. No catolicismo, quanto menor a essa necessidade de prova, mais grandiosa é a Fé — “Bem-aventurados os que não viram e creram” (João, 20:29). Ora, o ateísmo que defendo é um ateísmo de conjectura e de lógica. Uma conjectura, recordo é proposição não provada, que aparenta estar correcta e não foi provada errada. O facto de aparentar ser correcta, é, obviamente, muito subjectivo. Defendo, aliás, que é uma posição que só pode ser assumida estando ao corrente da ciência, portanto, de certa forma, não está acessível a todos. E a ciência mais não é que a criação de um corpo de conhecimento lógico e coerente, tendo por base uma linguagem não subjectiva e cuja dependência da realidade é absoluta, já que só ela mesmo pode validar, no todo ou em parte, essa mesma descrição.

A religião teve, ao longo dos séculos, a necessidade de explicar o homem e o mundo — do material ao espiritual. No entanto, todas as religiões sem excepção têm visto a sua abrangência diminuída: já poucas tentam explicar os factos do mundo natural. Nesse aspecto, a ciência soma vitória atrás de vitória, numa interminável lista de KOs. A mecânica celestial, o funcionamento dos dos vasos sanguíneos, a tectónica de placas, a química inorgânica, a origem das espécies. Estará tudo explicado? Estamos muito longe disso, mas a ciência tem criado um corpo de conhecimento, lógico e coerente, com provas empíricas. Não só permitem explicar o funcionamento do mundo, como, conhecendo as regras, manipulá-lo. Assim, hoje manipulamos a radiação electromagnética e dessa forma transmitimos conversas, sem fios, para bem mais longe do que alguém conseguiria gritar.

As explicações dadas pelas religiões, por muito bonitas e elegantes que possam ser, não explicam quase nada. E há mesmo mais: a ciência, através dos seus processos, consegue prever. Ao contrário das religiões, que vêm a sua “jurisdição” contrair-se, a da ciência, pelo contrário aumenta: pelo seu próprio desenvolvimento. Faço notar ainda que não há nada na ciência que seja considerado fora do seu objecto de estudo, já que a ciência pretende descrever o Universo e, ou seja, tudo. O que acontece é que podemos não ter instrumentos para nos debruçarmos sobre um determinado assunto, pelo que não o podemos estudar agora. E quero relevar esse “agora”: há medida que o corpo de conhecimento vai sendo expandido, a teoria e a tecnologia têm criado sempre instrumentos que expandem a área da abrangência da ciência.


HIV

Ao longo da História tem sido sempre assim: a ciência a aumentar a sua capacidade de explicar, as religiões a diminuir. E no entanto, oddly enough a resistência a dar o benefício da dúvida às religiões tem-se provado uma constante. Pouco importa vivermos mais tempo, curarmos centenas de doenças que outrora dizimaram populações inteiras, sabermos voar ou sair do planeta, prevermos razoavelmente o tempo a curto prazo, comunicarmos instantaneamente com qualquer outra pessoa do mundo. Pouco importa o, por ventura mais belo, facto de estarmos a construir uma descrição do funcionamento das peças do Universo altamente coerente e, surpreendentemente, explicativa. A religião continua a ter um papel fundamental — quando digo religião falo da mais pequena à menor, da mais organizada à unipessoal — quando digo religião falo da necessida da crença no divino, no sobrenatural.

A ciência está longe de conseguir descrever bem o funcionamento social. Mas mais significativo, está muito longe de descrever talvez o mais importante e relevante instrumento da condição humana: o cérebro. Não sabemos quase nada: não sabemos como se guardam as memórias, como se formam os pensamentos e as emoções e, sobretudo, não sabemos de onde vem a consciência. Não temos nenhum instrumento, teórico ou tecnológico para nos debruçarmos sobre o assunto e esse, é o alvo último da religião.

A consciência, ou a alma — palavra perigosa por ao longo dos séculos ter sido dissociada da de corpo — é aquilo que nós acreditamos sermos nós próprios, o nosso âmago, a nossa essência. Aí, a ciência ainda tem nada ou muito pouco a dizer e é aí que se refugia a religião. Como em todos os os casos anteriores, por omissão, o Homem parece preferir a explicação da religião ao vazio. E até ser desvendada a natureza do fenómeno, prevalecerá, ainda que a História nos mostre que, mais tarde ou mais cedo, invariavelmente, não é a explicação sobrenatural, aquela que prevalece.

Com tudo isto, em que é que acredito - em jeito de provocação, já que o certo será dizer, o que é que sabemos. Sabemos que há quatro forças fundamentais que ligam o universo: a gravidade, electromagnética e as interacções fortes e fracas, forças nucleares. São elas que dominam e manipulam as interacções e os movimentos das particulares elementares que constituem tudo aquilo que conhecemos. Sabemos de todas essas partículas? Não? Temos uma teoria completa que as descrevam? Também não, mas sabemos muitas coisas acerca delas e é devido a esse conhecimento que temos hoje Telemóveis, ou Tomografia de Emissão de Positrões.

Essas partículas formam os elementos, que por sua vez formam os compostos químicos, que são os componentes materiais do universo: as estrelas, os planetas, os oceanos, a atmosfera, as pedras, o solo, e todos os seres vivos que conhecemos. Temos uma história, ainda muito esburacada, é certo, mas com fio condutor, de como as primeiras partículas se aglomeraram para fazer as estrelas, os planetas e os seus conteúdos. Só conhecemos bem um, mas de todos os que conhecemos é o único que tem aquilo a que decidimos chamar “vida”. A vida é o que caracteriza o que denominamos de organismos vivos, seres mais ou menos complexos, muitos deles autónomos, que consomem recursos e têm a capacidade de metabolizar componentes do meio que os rodeiam para se replicar e multiplicar. A história que temos, claro está, com os tais buracos, é no entanto cada vez mais completa no sentido de nos proporcionar o tal fio condutor: estes seres vivos parecem ter a mesma origem e parece haver mecanismos, que seguindo as regras e limitações impostas pelas forças do universo, conseguem promover a emergência de complexidade criando aquilo a que chamámos evolução. A ciência hoje está mais desenvolvida do que nunca. Temos pedaços de conhecimento que permitem observar alguns contornos num gigantesco puzzle a que ainda faltam a grande maioria das peças. Isso permite-nos concluir alguma coisa? Sim, algumas coisas, como referi acima.

Esta história é baseada em factos e provas, sendo que alguns elementos são ainda provas preliminares e incompletas. Mas faz sentido e aquilo que é verdadeiramente provado é considerado como verdade. Nesta história não há qualquer intervenção de um ou mais deuses, de algo que seja sobrenatural. Nesta história apenas há um lugar para um ou mais deuses criadores: na origem das origens.

Esse é o meu ateísmo: se houver um Deus, ele é desnecessário em todos os elementos da história que até agora conhecemos e não há indícios de que venha a ser necessário. Existirá um Deus na origem das origens? Que lançou a semente. A ciência não diz nada sobre isso e eu também não. O âmago da questão é que a maioria dos crentes não quer saber desse Deus distante, antigo e não interventivo. O Deus que interessa às pessoas é aquele que nos reconforta, que providencia uma origem para os valores morais, que permite o estabelecimento de uma ordem e de um objectivo ulterior — e, por ventura, um lugar para o além da morte. Note-se este Deus escusa de ser o Deus católico, ou o de qualquer religião organizada ou não — este é o Deus pessoal, a entidade, o algo superior a nós, que em algum aspecto da sentido às coisas. Na história do mundo dada pela ciência não há a necessidade para nenhuma intervenção divina deste tipo. Se não há necessidade, se eu nunca vi qualquer intervenção do divino, então para mim, a explicação mais simples e lógica é a de que esse Deus pessoal não existe.

A minha arrogância, de que falei no início, é de ter fé em que a ciência vai continuar a ser o que foi e é: vai expandir os seus horizontes e explicar cada vez mais coisas. O limite? Não faço ideia.  Há ainda muito para descobrir e entender como funciona. Como disse acima, o maior desafio talvez seja a questão da emergência da consciência e o seu funcionamento. No seu vindouro livro, o Papa afirma:

No estado corrente das coisas, o homem moderno é tentado a dizer: a Criação tornou-se inteligível através da ciência.  Francis S. Collins, por exemplo, que liderou o Projecto do Genoma Humano, afirma com agradável surpresa: “A linguagem de Deus foi revelada” (The Language of God, p. 122). De facto, na magnificência matemática da criação, que hoje podemos ler no código genético humano, reconhecemos a linguagem de Deus. Mas infelizmente não a linguagem no seu todo. A verdade funcional do homem foi descoberta. Mas a verdade acerca do homem ele próprio — quem é, de onde vem, o que deve fazer, o que está errado, o que está certo — isto não pode, infelizmente, ser lido da mesma maneira. De mãos dadas com o crescente conhecimento da verdade funcional, parece haver um aumento da cegueira perante a “verdade” ela própria — em direcção à nossa real identidade.

Sou contra a linguagem usada por Collins, por poder dar azo a confusão. Não li “The Language of God” portanto não sei se a frase é irónica ou tem um fundamento religioso — como por exemplo, se denomina à hipotética particula elementar, o bosão de Higgs, a “Partícula de Deus”. De qualquer maneira, estou em desacordo com o Papa. Em primeiro lugar, a verdade funcional do homem não foi descoberta, mas está a ser descoberta. O genoma humano é uma minúscula parte dessa verdade funcional. No entanto, a maior divergência perante o raciocínio de Bento XVI é a separação entre “verdade funcional” e “verdade verdadeira”. A minha extrapolação, e mais uma vez a arrogância, é considerar que a ciência poderá em breve responder a estas questões, se não terá mesmo já respondido a algumas. O que está certo, o que está errado? Talvez seja mais um mecanismo evolutivo, à semelhança do hipotético que o Manuel mencionou, de estabilização de sociedades, de manutenção de uma paz conducente à sobrevivência. Por algum motivo, aquilo que consideramos “bem” dá origem a sociedades mais estáveis, e portanto mais prolíficas. Isso não implica que em certos casos, uma sociedade “anti-bem” não seja localmente estável: veja-se a Alemanha Nazi no pré-guerra. Estou a especular. De onde vem o homem? E se a verdade funcional acerca desta questão for a verdade verdadeira: vimos de um hominídeo que vem de outro ser mais primordial que vem de seres unicelulares que por sua vez vieram de compostos químicos que em tempos fizeram parte de uma estrela. Haverá alguma verdade não funcional subjacente?

Este texto já vai longuíssimo e por ventura são poucos os que até aqui chegaram. Mas quero terminar com uma nota. A não crença num Deus criador e organizador, o facto de a “verdade verdadeira” poder não ser mais que a “verdade funcional”, tudo isso não limita a visão do mundo a um determinismo cinzento e depressivo. Pelo contrário, a mecânica do funcionamento de todo o Universo, e como ela é capaz de gerar a complexidade e a diversidade daquilo que assistimos, da pedra ao ser consciente — em que parte dessa complexidade e diversidade é a criação de sistemas socio-filosóficos essenciais para a as sociedades e sua evolução, entre os quais se encontram as religiões — é de uma perfeição formidável. Esperem até saber do princípio holográfico para saber o que é beleza. Talvez a única desvantagem seja a imediatez da falta do além-morte; mas, há que ter um bocadinho de coragem.

Sim senhor está bem assim
Não são muitos aqueles que apreciam o folclore minhoto, mas deixo-vos aqui um vira das Lavradeiras da Meadela.
 

Rancho Folclórico das Lavradeiras da Meadela

Oh que linda troca d’olhos,
Fizeram-me agora ali.
Trocaram seus olhos pretos,
por uns azuis que eu bem vi

Sim senhor, está bem, está bem.
Sim senhor, está bem assim.

Debaixo do chapéu andam,
Olhinhos de namorado.
Não amou a mai’ ninguém.
A mai’ ninguém hei-de amar.

Sim senhor, está bem, está bem.
Sim senhor, está bem assim.

Da minha janela à tua
vai o salto de uma cobra.
‘Inda espero em chamar
À tua mãe minha sogra.

Sim senhor, está bem, está bem.
Sim senhor, está bem assim.

Os homens são como as cobras,
Quando largam a peçonha.
Nem solteiro, nem casado,
Em miúdos têm vergonha.

Sim senhor, está bem, está bem.
Sim senhor, está bem assim.


O mais impressionante nesta composição, nesta troca de olhados que leva ao amor eterno (?) — a última quadra deixa-nos num estado de suspensão — é a inexorável cadência do conformismo. Sim senhor, está bem assim.


Um bom filósofo…

… é, muito provavelmente, um filósofo morto.

Memento mori. Está aí o intento do The Book of Dead Philosophers: descrever em mais ou menos detalhe os momentos finais de muitos dos filósofos que contribuíram para o vasto corpo de conhecimento com que nos presentearam ao longo dos séculos.

O livro não será uma obra-prima, longe disso, mas num blog como o nosso, com o título do nosso e com o editorial que propusemos, era inevitável que um dia viesse a ser mencionado. Talvez seja mais um coffee-table book, com poucas fotografias mas muitas entradas ao jeito de livro dos recordes, sendo que Filosofia e coffee-table book são conceitos que raramente se materializam num só.

Na introdução o autor discorre sobre a falta de preparação que uma sociedade cada vez mais consumista tem para lidar com e admitir a morte. O tema não é novo, mas o ensaio é interessante. E segue defendendo, assente nas palavras dos filósofos, que a Filosofia serve para aprender a morrer. Eu discordaria, passe a arrogância da ignorância, mas afirmaria que a Filosofia serve para aprender a viver, do qual a morte é parte integrante. Não é isso que está em questão, agora; é uma leitura agradável.


Ser crítico de cinema?

Há, neste blogue, gente bem mais qualificada do que eu para falar do que é ser crítico de cinema. A única experiência que eu tenho é a irritação que me causam alguns críticos de cinema. E penso não ser o único — há a celebre reacção do “só tem uma estrelinha, é mesmo este que vou ver!”

É certo, que, com a idade, chegamos ao inevitável “mas eu já vi isto pelas mãos do…”. E aí desculpamos o crítico ao dar-mos-lhe o benefício da dúvida e fazemos vénia à bagagem cinematográfica que certamente terá. Verá coisas que o comum dos mortais não vê.

Entra o “Everything is a Remix”. Não é novo, o conceito, mas está muito bem posto.

Em dez minutos, não é um doutoramento sobre a reutilização de conceitos, ideias, temas, ou técnicas, transversais a todas as artes. Mas em dez minutos dá-nos um perspectiva interessante sobre o que se passa com os filmes mais pop. Vale a pena ver também a primeira parte, que se debruça sobre a música e explorar o site, dedicado ao tema.

E agora, deixo aos especialistas — o que é ser crítico de cinema?

Quando um presidente precisa de calças

“In 1964, Lyndon Johnson needed pants, so he called the Haggar clothing company and asked for some. The call was recorded (like all White House calls at the time), and has since become the stuff of legend. Johnson’s anatomically specific directions to Mr. Haggar are some of the most intimate words we’ve ever heard from the mouth of a President. via

Calouste Gulbenkian

Como em tudo na vida, é preciso sorte. E Portugal teve sorte. Talvez a melhor coisa que aconteceu ao nosso país, no seguimento da Segunda Guerra Mundial, foi a vinda e radicação de Calouste Gulbenkian em Lisboa. Gente não antipática, baixos impostos, um clima mais propício à sua bronquite e um erro dos ingleses que se lhe opuseram devido a acusações de colaboracionismo, levaram a que Gulbenkian se tenha instalado no nosso país.

A sua história é por demais conhecida: descendente de uma família Arménia influente, tornou-se  um magnata do petróleo, o senhor cinco por cento, de grande influência na Europa. Decidido a radicar-se nos Estados Unidos, sentindo que a sua fortuna poderia estar em risco após dificuldades levantadas pelos britânicos no pós-guerra, Gulbenkian, de passagem por Lisboa, acabou por fazer dela a sua morada final.

Há uns tempos, se não me falha a memória, publicou Maria Filomena Mónica no Público, um extenso artigo sobre a vida do filantropo. Fiquei a saber que Calouste Gulbenkian não era pessoa fácil. Terá proibido a sua mulher de doar dinheiro à comunidade arménia que fosse usado de forma meramente caritativa, e não produtiva. Nós os portugueses, tivemos também sorte, quando, ao inspeccionar as contas, em detalhe, dos seus negócios, descobriu que o filho cobrou à empresa do pai (onde estava empregado sem salário) um almoço mais ostensivo que as vontades do pai permitiam — e o comeu à sua secretária. Este recusou-se a pagar, sendo que o filho mais tarde o processou, tendo tudo isso contribuído para que Calouste Gulbenkian deixasse o grosso da sua fortuna à Fundação.

Apesar do nome ser familiar, não sei se Calouste Gulbenkian é, para nós portugueses, um querido morto. Para mim significa formidáveis exposições, um lindo jardim, Laliques fabulosos, horas e horas de música sinfónica e extraordinárias conferências. Tudo isto simbolizado pelo senhor, sentado em frente a Hórus, o falcão, ali à entrada de Lisboa. E Gulbenkian simboliza ainda milhares de bolsas que permitiram enriquecer-nos de cultura e ciência, de sabedoria. Poucos terão feito, no nosso país, pelo conhecimento e pela cultura o que Gulbenkian, por mera casualidade duma paragem, fez por Portugal.

Claro, não seria justo fazer esta homenagem sem relevar os homens e mulheres que fazem da Fundação Calouste Gulbenkian o que ela foi, é e será, deixando apenas o nome de José Azeredo Perdigão, que corporizou a instalação da Fundação, ainda antes do 25 de Abril, e que é hoje uma das mais ricas fundações filantrópicas do mundo.

Flutuar

E a vida passa sem que muitos dêem por ela. A televisão traz-nos impaciência. «Crispação», dizia o nosso ex–prez, e por ventura, com muita razão. Justamente, nos dias que correm, há ódio a escorrer pelos poros; raiva pelo que não somos, vontade de ser quem não queremos ser, uma pressão enorme, e no entanto não nos saltam os olhos. Os telemóveis não nos fazem tão suaves comos os seus anúncios, ao som duma tarde de verão, fazem parecer. Não, são os que estão ao nosso lado que nos suscitam inveja, porque somos quem somos, numa estranha, abotoada e atarracada harmonia social, mas lá dentro, bem no fundo, queremos que os outros falhem. A explicação é simples: a melhor maneira de passarmos à frente, sem termos muito que fazer, é esperar que os outros não tenham sucesso. E poucos conseguem resistir. Aqui ao menos apreciamos as pequeninas grandes coisas.

Prometo que fica para a próxima

São muito poucos aqueles os que ganharam mais do que um Prémio Nobel. Sem contar com as instituições, houve Marie Curie a única mulher a ganhar dois Nobel e a única pessoa a conseguir o feito em duas disciplinas científicas distintas. Linus Pauling ganhou também dois prémios, o da Química e o da Paz. Houve ainda Sanger, que ganhou dois Prémios Nobel na Química e finalmente John Bardeen, que antes de Sanger foi o primeiro laureado a receber mais de um prémio na mesma área científica, a Física.

Aquando da recepção do primeiro, em 1956, pela invenção do transístor, John Bardeen levou consigo a Estocolmo apenas um dos seus três filhos. Os restantes dois estavam a estudar em Harvard e Bardeen não quis perturbar os seus estudos. O Rei Gustav IV, no entanto, repreendeu o cientista por este não ter trazido à cerimónia o resto da família, ao que Bardeen terá respondido, que traria todos os filhos da próxima vez. Em 1972, quando homenageado pela teoria da supercondutividade, cumpriu a sua promessa e levou os três filhos à entrega do prémio.

Infâmia2

Sigmund Rascher

Sigmund Rascher foi um dos infâmes médicos Nazis. Médico das SS, usou os prisioneiros do campo de concentração de Dachau para as suas brutais experiências científicas, em particular para estudar os efeitos adversos a que os pilotos alemães eram submetidos, quando abatidos sobre o gelado mar do norte.

Neste aspecto, Rascher não foi nem mais, nem menos infâme que qualquer outro maníaco médico das SS, nomeadamente o famigerado Josef Mengele. E no entanto, quis trazê-lo aqui para esta nossa nova secção porque até mesmo os Nazis consideraram-no desprezível. Talvez as prioridades não fossem as mesmas que as nossas, mas fica a história.

Rascher deteve um considerável poder entre os seus pares e superiores pela sua proximidade ao Reichsführer SS Heinrich Himmler. Chegou a ele através de, ou devido a, uma relação com uma cantora de Munique, Karoline “Nini” Diehl, provavelmente uma antiga amante de Himmler. Este acabou por ver o casal com bons olhos, talvez por ainda ter afecto por Nini, e acolheu de forma positiva o entusiasmo com que Rascher se dedicava ao seu ofício. Himmler recebeu com interesse as propostas daquele tendo-lhe concedido autorização para realizar as experiências com cobaias humanas, depois de Rascher se ter queixado que era difícil encontrar voluntários (carta abaixo)

Carta a Himmler lamentando a ausência de cobaias humanas, não sem antes reiterar que também o seu segundo filho é forte.
Tradução, arquivo dos processos de Nuremberga

No entanto, o que Himmler não autorizava, era o casamento entre Rascher e Karoline, já que Karoline era quinze anos mais velhar que Rascher e isso não se enquadrava nos princípios raciais e de pureza a que as SS se submetiam. Uma família das SS havia de produzir os melhores exemplares arianos. E no entanto, o amor, mesmo nazi, tudo supera, pelo que passado algum tempo, o casal trouxe ao mundo um filho. Rascher não perdeu tempo em fazer do seu caso um exemplo e agora que tinha mostrado que não ficavam atrás de outros puros arianos mais novos, recebeu de Himmler a anuência para poderem contrair matrimónio.

A família exemplar, que serviu até para efeitos de propaganda, teve, entretanto, mais dois filhos e o casal gozava da maior admiração do Reichführer. Até que em 1944, chegou a Himmler uma notícia que havia de despedaçar a família. De facto as crianças não eram seus filhos biológicos; Karoline pagou para que as crianças fossem raptadas dos pais em estações de comboio de Munique. Himmler ficou furioso e mandou prender os dois, sendo que Rascher foi internado em Buchenwald e mais tarde, ironicamente, em Dachau. De lá não saíu, tendo sido executado pouco antes da chegada dos aliados. Karoline foi enforcada. E assim passou à história um facínora que nem os nazis conseguiram acolher na sua plenitude.

600 anos

Do relógio astronómico de Praga.

Kings of Pasty

Quem aqui costuma trazer filmes franceses é Pedro, mas desta feita apresento-vos eu o documentário “Kings of Pastry”. A obsessiva demanda pelo título de Un des Meilleurs Ouvrier de France em pastelaria e respectivo colarinho é o tema para um verdadeiro calvário sucré.

Comemorar?

E se a monarquia tivesse continuado? Estaríamos melhor, pior? É difícil de dizer, provavelmente nem muito duma coisa, nem muito doutra. Seríamos, com quase certeza absoluta, uma monarquia constitucional parlamentar, teríamos deixado as colónias, de maneira diferente, por ventura, e seríamos membros da União Europeia, como até a mais anti-europeia monarquia da Europa (sem petróleo) o é.

A República é brilhante? Certamente não o é, especialmente esta nossa república. Foi instaurada de forma brutal, o período da Primeira República foi uma selvajaria e levou, entre outras razões contemporâneas, à ditadura. Concedo que há muito pouco para celebrar. Mas a nossa república não é a única do mundo e há-as com sucesso por todo o lado.

Nos dias de hoje, então, que separa uma monarquia duma república? Só uma coisa — e é a única conclusão a que os defensores sérios de um e outro regime podem chegar — que o representante máximo da nação o é ou de forma vitalícia por heriditariedade, ou de forma temporária por escolha entre os pares. O argumento que mais respeito e penso ter mais cabimento, entre os defensores da monarquia, é o da existência de um elemento supra-partidário, supra-política corriqueira, que permite ao monarca uma representatividade mais extensa, integrada e embuída dos valores nacionais e sendo passível de se aproximar mais dos cidadãos. Só esta distância permite um símbolo que todos acolhem com carinho, respeito, dedicação e patriotismo. Vemos este efeito, em ponto pequeno, nos presidentes da república, que são sempre os mais populares dos políticos, sendo que um monarca teria o factor adicional de não ter “bagagem” e de não se ter envolvido em lutas político-partidárias. Caso seja um exímio político, poderá ainda, efectivamente ter uma influência que lhe garanta ainda maior popularidade. No fundo, um monarca pode tornar-se, com mais facilidade, numa figura respeitada, numa imagem de garante da soberania e de valores.

Ainda assim, tal imagem — e que na maioria dos casos é apenas isso — só sobrevive através do estatuto não interventivo que os reis têm: a falta de poder executivo, de decidir valores de impostos, ordenados, contratações e investimentos. Nos raros casos em que a intervenção acontece, geralmente situações de extrema gravidade, aí sim, se vêem os estadistas — Juan Carlos de Espanha, — ou fantoches — Vittorio Emanuele III, — embora tenha as minhas dúvidas de que o facto de serem reis e não primeiros-ministros ou presidentes faça o mínimo de diferença — veja-se Churchill ou Roosevelt, por exemplo. É a real falta de poder real que garante, ao monarca típico dos reinos ocidentais modernos, a sua existência.

Como afirmei que aquela era a única conclusão saudável a que os defensores de ambos os regimes podem chegar, quais os o argumentos que o republicano pode apresentar? Francamente, não há muitos, e para além do facto da heriditariedade nos poder presentear com um monarca obscuro e limitado, o mais importante valor, para mim, é o da igualdade entre os homens, que o Zé Navarro tão bem mencionou. Pura e simplesmente reconhecer que todos temos esse direito, por mais difícil que seja de exercer. Uma democracia completa e organizada tem representantes capazes de desempenhar esse papel com dignidade e em plenitude, seja ele um monarca, ou um cidadão eleito.

E no entanto, sente-se cada vez mais uma pressão monárquica. Penso que continua residual, embora não saiba avaliar com certeza, mas é, de certa forma, normal, já que não vivemos tempos de glórias. Porém o que me deixa varado e plenamente convencido da cegueira da grande maioria dos loquazes defensores da monarquia é que possam sequer considerar, por dois segundos que sejam, que, tíveramos agora um Rei no poder, Sócrates não teria sido eleito, que Passos Coelho não viria a seguir, que os portugueses pagariam impostos com alegria, que a corrupção não existiria, que o tecido de produção e a indústria lá estaria toda, que os portugueses leriam no comboio, que as ruas estariam limpas, que os portugueses fossem generosos no mecenato, que a produtividade fosse maior, que…

Possamos ter uma melhor República.