O politicamente correcto…

… assume muitas formas.

Recentemente, face à tragédia que ocorreu na Madeira e às inevitáveis vozes do “se a coisa tivesse sido bem feita”, a grande maioria dos opinion makers e comentadores tratou de elogiar os presidentes da Câmara do Funchal e do Governo Regional (quando na maioria das vezes, excepto o sr. Presidente da Assembleia em dias não, aproveitam para chamar de tudo ao Presidente do Governo regional), bem como de dizer que aquela não era altura para se falar dos “e se…”.

A questão é que não é “e se”. O programa acima, do segundo canal da televisão de serviço público, menciona tudo. As características especiais da precipitação na Madeira, as características especiais das enxurradas na Madeira, a necessidade de evitar as construções na periferia ou no leito das ribeiras — e não se trata apenas de construções ilegais ou particulares; há equipamento municipal — a ausência de planos de emergência, a necessidade da existência de instrumentação capaz de prever o tempo de forma a se poder proceder à evacuação atempada e finalmente a negligência dos poderes local e regional na fiscalização, planeamento e no incumprimento da lei.

Agora é altura de se falar disto, porque, como se vê, ter falado antes não adiantou muito. E muito menos adianta fazer-se de sonsos e tecer elogios bacocos.

Mais.

A Paciência

A paciência, como todos sabem, é a virtude que faz de um bom prankster, um sublime prankster. Para além da lata e da cara de pau, uma das características fundamentais de um pregador de partidas digno desse nome é saber esperar. A paciência é a renúncia temporária ao tão humano sentimento da gratidão imediata. É a abnegação na demanda de uma causa ulterior. É a perseverança sofrida. A paciência faz de um ser humano banal, um homem invisível e, a partir daí, capaz de tudo.

Só através da paciência se alcança a gratificação diferida. Como um predador à espera do vento para se lançar sobre a presa, quem prega partidas tem de ser capaz de esperar que as melhores condições se propiciem; porque nem ele consegue controlar tudo. E só aquele disposto a aceitar o desfecho de uma partida, mesmo não podendo assistir a ele, pode aspirar à verdadeira realização, à descoberta da paz interior que caracteriza o maior dos aldrabões.

[1] — Don’t! — The secret of self controlThe New Yorker | Maio de 2009

Adams

As a very important source of strength and security, cherish public credit. One method of preserving it is, to use it as sparingly as possible; avoiding occasions of expense by cultivating peace, but remembering also that timely disbursements to prepare for danger frequently prevent much greater disbursements to repel it; avoiding likewise the accumulation of debt, not only by shunning occasions of expense, but by vigorous exertions in time of peace to discharge the debts, which unavoidable wars may have occasioned, not ungenerously throwing upon posterity the burthen, which we ourselves ought to bear. The execution of these maxims belongs to your representatives, but it is necessary that public opinion should cooperate.
     Washington, The Farewell Address

John Adams | Opening Titles

Quando alguém conhecido vem cá a Boston, o trabalho de casa que lhes dou é a mini-série John Adams. Pelo menos o primeiro episódio. Não é Tocqueville, mas é HBO.

John Adams foi um dos founding fathers, do reviralho. Advogado bostoniano, membro da primeira delegação do Massachusetts ao Congresso Continental, primo de Samuel Adams, foi quem defendeu os soldados britânicos envolvidos no Massacre de Boston, o que lhe granjeou fama de justo e imparcial. Depressa se aliou aos seus conterrâneos revolucionários quando entendeu que os britânicos não lhes concediam as mesmas leis e o mesmo respeito a que tinham direito os cidadãos da metrópole. Não vou contar muitos detalhes, façam o trabalho de casa; a mini-série é soberba. Adams viria a ser o primeiro vice-Presidente dos E.U.A., segundo Presidente, sucedendo a Washington, pai de John Quincy Adams, Ministro Plenipotenciário ao reino de Portugal com vinte e oito anos e mais tarde sexto Presidente dos Estados Unidos.

Boston fica mais vimaranense, o seu ar inspirador e também eu quero ser um revolucionário. Ainda assim, o mais formidável daquela luta é a colecção de homens que se juntou para fundar esta(aquela) nação. A coincidência temporal de pessoas como Washington, Adams, Franklin, Jefferson, Lafayette é de uma inveja histórica aterradora. Tomara poder viver algo semelhante. Tomara poder assistir a tamanha dedicação à causa pública, tanto espírito inovador, tanto brio e sentido de Estado.

Porreiro, pá.

Accepted + escaped

(and I do not drink)
Harry Houdini

A great evil is rising in the east

O texto do Vasco fez-me lembrar dois soberbos livros sobre a segunda guerra mundial, ou melhor, sobre o período imediatamente antes. Uma altura especialmente aterradora, quando o poderio nazi se entranhou pela população alemã e a transformou num aglomerado tenso e perigoso, onde ódios e rancores permeavam um misticismo e um desejo de grandiosidade, tudo combinado numa sociedade educada, eficaz e eficiente.

O primeiro, trata-se de um breve conjunto de cartas fictícias, escrito em 1938 por uma americana, Kathrine Taylor, e conta a história de dois amigos galeristas alemães radicados em S. Francisco que se mantêm em contacto por via postal, após o regresso de um deles à Alemanha, enquanto o outro, judeu, permanece nos Estados Unidos. À medida que o amigo retornado vai subindo na carreira hierárquica de serviço público a que se dedicou e com a progressiva implementação das ideologias nazis, a correspondência com um judeu torna-se um problema. Mais que isso, torna-se indesejada perante a transfiguração do amigo. Taylor ficou impressionada ao aperceber-se da monstruosidade que ganhava forma na Alemanha nazi, ao descobrir que uma carta poderia pôr em risco a vida do destinatário. “Address Unknown”, embora ficcionado, terá sido certamente um espelho da perversidade cirúrgica do regime alemão e é uma elegante história de vingança e/ou esperança.

O segundo é a “História de um Alemão” de Sebastian Haffner. Se a memória não me atraiçoa, trata-se de um relato na primeira pessoa das vivências de um jovem alemão no período entre guerras. Haffner acabou por exilar-se em Londres, antes da invasão da Polónia e, mais tarde, os seus filhos publicaram os registos do pai, incluindo um capítulo descoberto dissociado do manuscrito. Não sendo estudo académico e não sendo Haffner judeu, o livro é literalmente o relato de um cidadão alemão, testemunha da ascensão nazi. Primeiro como um rapaz em idade escolar, mais tarde como estudante de direito e posteriormente tentando dar os primeiros passos na carreira, numa sociedade, por essa altura, já completamente nazificada. Mais impressionante que o ambiente de terror que se instala, particularmente para aqueles que tinham relações com judeus e/ou discordavam da visão do mundo hitleriana, a meu ver, é a contribuição do seu relato para responder às perguntas: como pode aquilo acontecer? como é que uma pessoa se embui, respeita e participa naquele ideal? Particularmente interessante é a sua descrição do campo onde passou vários meses, uma espécie de recruta civil, onde os homens eram treinados para serem membros destacados da sociedade nazi.

Haffner descreve então a criação do sentimento de camaradagem — irmãos de armas em tempo de paz — entre os participantes do campo, sempre sob a sombra do regime. Esta camaradagem, ao contrário de benéfica, criou a estrutura social perfeita para a diluição de culpas, para a auto-desresponsabilização, em que o indivíduo nunca se sente como parte autónoma e capaz da sociedade, mas sim um elo apenas, importante no conjunto, mas destituído de capacidades de decisão. A ocasião perfeita para se invocar que apenas se obedece a ordens superiores, tal como o soldado, parte integrante do exército, mas individualmente com quase nenhum poder de decisão sobre os destinos deste último, restando-lhe entregar-se à lealdade e consanguinidade dos seus camaradas.

“A camaradagem faz parte integrante da guerra. Tal como o álcool, apoia e conforta os homens obrigados a viver em condições desumanas. Torna tolerável o intolerável. Ajuda a superar a morte o sofrimento, a desolação. Anestesia. Conforta-nos pela perda de todos os bens da civilização que impõe. É justificada pelas terríveis necessidades e amargos sacrifícios. Contudo, separada de tudo isto, exercida apenas por si própria, pelo prazer e intoxicação, torna-se um vício. E pouco importa que traga um pouco de bem-estar. Corrompe e perverte os homens mais que o álcool e o ópio. Torna-os incapazes de uma vida pessoal, responsável e civilizada. É, no fundo, um instrumento de descivilização. (…)

Começando pelo essencial, a camaradagem aniquila totalmente o sentido de responsabilidade pessoal, quer seja cívica, ou mais grave ainda, religiosa. O homem que vive em camaradagem fica liberto de todas a s preocupações existenciais e do duro combate pela vida. Tem uma cama na caserna, comida e o uniforme. O seu quotidiano está pré-escrito de manhã à noite. Não necessita de se preocupar com nada. Deixa de estar submetido à lei do «cada um por si» , mas vive sob a suavidade generosidade do «todos por um». Uma das maiores falsidades reside em afirmar que as leis da camaradagem são mais duras que as da vida civil e individual. Define-se, ao contrário, por um amolecimento e só se justificam para os soldados presos numa guerra inevitável, para homens que enfrentam a morte. Só a ameaça da morte autoriza e legitima esta monstruosa isenção de responsabilidade. E sabe-se que até mesmo os mais corajosos guerreiros, quando repousam demasiado nas macias almofadas da camaradagem, mostram-se incapazes de enfrentar os duros combates da vida civil.

Muito mais grave é o facto de a camaradagem ilibar o homem de qualquer responsabilidade por si próprio, ante Deus e a sua consciência. Fazem o mesmo que todos os seus camaradas. Não lhes resta alternativa. (…) De facto, a camaradagem implica a estabilização do nível intelectual no escalão inferior, acessível ao menos dotado. A camaradagem não tolera discussão.“


Sebastian Haffner, A História de um Alemão

- Desconhecido Nesta Morada, ISBN 9789727922284
- A História de Um Alemão, ISBN 9789722027700

Seek Love Foolishly

A evolução


On the Origin of Species: The Preservation of Favoured Traces
Ben Fry

Cheios de nada?

Escherichia coli vista ao microsópio electrónico.
Rocky Mountain Laboratories, NIAID, NIH

Por ventura, a esta hora, poucos dos que por aqui param estarão a pensar em bactérias, micróbios ou outros seres unicelulares. Ainda assim, aqui vai. De que somos nós feitos? A pergunta é suficientemente vaga para poder merecer muitas e variadas respostas. De átomos e moléculas a setenta por cento de água, de músculos e ossos a outros tipos de tecidos.

Peguemos na ponta do véu pela unidade básica arbitrária que é a célula. Cada um de nós é constituído por qualquer coisa como 100.000.000.000.000 células (mais zero, menos zero). Há-as dos mais variados tipos e feitios. Na escola aprendemos que as células são basicamente uns sacos, umas cápsulas mais ou menos rígidas, que trazem dentro de si pequenas estruturas: as eucarióticas têm núcleo, vesículas, mitocôndrias etc. Toda uma aparelhagem que faz funcionar aquelas pequenas fábricas. Mas como imaginar o que lá está dentro? Os microscópios revelam essas estruturas, relativamente grandes ao nível molecular. Mais além a resolução começa a falhar e torna-se difícil descrever os detalhes mais pequenos, que se aproximam do tamanho de átomos individuais. É possível utilizar técnicas como a difracção de raios-X para conhecer a estrutura, átomo a átomo, das proteínas e outras moléculas que habitam nas células, mas não de uma forma dinâmica e geralmente é preciso destruir as células para se obter as tais moléculas que se quer observar. Isso destrói a visão geral da célula.

Voltemos então à pergunta: como está tudo organizado lá dentro? O núcleo, o ADN, as vesículas — todas estas estruturas interiores das células estão mergulhadas num líquido contido pela membrana da célula, mas a visão não é a de um balão, cheio de água, com algumas coisas lá dentro.

Desenho de uma E. Coli
David Goodsell | Biochem. Mol. Biol. Educ. (2009) vol. 37 (6)

A figura acima é um desenho de uma bactéria, a Escherichia coli, as mesmas fotografadas no início deste post, correspondendo a uma ampliação de 70.000x (os microscópios ópticos tradicionais não vão muito além de 1000x). Todos nós temos milhões de E. coli a viver simbioticamente nos nossos intestinos. As bactérias não são seres eucarióticos, pelo que não têm estruturas internas compartimentadas, como o núcleo; o ADN, neste caso, em vez de estar altamente enrolado e organizado em cromossomas como no caso dos humanos, está disposto numa espécie de novelo (a amarelo). Mas longe de estar simplesmente mergulhado num líquido, como poderão observar no desenho acima ou no detalhe, em baixo, o interior da célula é densamente povoado — claustrofobicamente cheio de coisas. E que coisas são essas?

Pormenor da membrana, com âncora de um flagelo, da cromatina e do citoplasma da bactéria
David Goodsell | Biochem. Mol. Biol. Educ. (2009) vol. 37 (6)

Aqui representa-se sobretudo o ADN e proteínas associadas (em amarelo e laranja), a verde, os lípidos da membrana e proteínas associadas e a azul e lilás, as principais moléculas do citoplasma: enzimas, proteínas responsáveis pela replicação e interpretação do ADN com vista a criar outras proteínas e o RNA, espécie de papel químico do ADN. Esta visão é reconstituída através dos conhecimentos actuais da bioquímica e biologia celular e claro, contém nela muitas assunções. De fora ficam moléculas mais pequenas, tais como os nutrientes ou detritos produzidos pela célula: os açúcares, o óxigénio, o dióxido de carbono etc. É este excesso de população que provavelmente mantém o novelo de ADN junto, apertando-o.

Por fim, aqui fica um vídeo, onde são simuladas as interacções de moléculas do citoplasma para ajudar a construir a imagem do que se passa na vida agitada e apertada do interior de uma célula:

Modelo computacional do citoplasma duma E.coli
Adrian Elcock et. al

A agitação é devido ao ruído térmico: qualquer partícula, a temperaturas acima do zero absoluto, possui energia térmica, sendo que a sua manifestação é através de vibrações, causando este efeito visualmente semelhante à estática nas televisões. Nós também as temos, mas as vibrações são pequenas demais para que causem algum efeito visível à nossa escala. Se reparem bem, as proteínas mais pequenas mexem-se mesmo. Uma referência final: Life in a crowded world.

2/3 too long

No pun intended, como dizem aqui os americanos, em relação ao longo post do PMS.

Sabor aveludado

A inflexão na sonoridade dalguns dos «a», com a abertura do som, depois de uma fracção de tempo ínfima quase fechado. Os «e» circunflexos que enchem a boca. O alongar dalgumas das sílabas. Pouco interessa tentar descrever os pormenores, basta ouvir. Gosto especialmente do sotaque do Porto em canções.

Não é bem só do Porto, é daquelas redondezas. Não sei especificar bem, mas começará ali pelos lados de Aveiro, parando antes de chegar ao Minho; para o interior, não deve ir muito além de Amarante.

Talvez não passe de uma colecção de boas memórias. Talvez não sejam mais que boas recordações deixadas pelas músicas, ou marcas que o Porto cravou. Aquela cidade escura radia algo que não sei bem o que é, mas que me atrai e me faz pensar no futuro. Num futuro, sempre risonho. O falar daquelas redondezas leva-me até lá. É, certamente, datada, mas aqui fica uma lista de alguns dos meus intérpretes favoritos com o tal sotaque.




Começo com os incontornáveis, — para os da minha geração, — Ornatos Violeta. Manuel Cruz não engana ninguém: é todo Porto em cada sílaba.

Dia Mau | O Monstro Precisa de Amigos


Para horror de muitos teenagers atormentados e não só, o grupo desmembrar-se-ía em 2002, mas não acabou tudo aí. Manuel Cruz transferiu a sua voz para os Pluto, tendo entretanto já passado para o  Foge Bandido Foge:

Só mais um começo | Bom Dia


e o baixista Nuno Prata deu casa própria ao seu portoguês:

Nada é tão mau | Nuno e Nico


Há-os já com currículo. O porto de Sérgio Godinho é voluptuoso quando fala de Lisboa:

Lisboa Que Amanhece | O Irmão do Meio


O Rui Veloso, com cuja canção duplamente homónima partilho o nome, tem um lado lunar que não é o melhor que já fez, mas de que gosto muito:

Lado Lunar | Lado Lunar


E o Pedro Abrunhosa:

Se Eu Fosse Um Dia o Teu Olhar | Tempo


Há outro Rui, o Reininho, de cuja voz não sou particularmente grande apreciador. Ainda assim, pelo relevo que tem, não o poderia deixar de fora, pelo que o incluo aqui num dueto com a também portista Mónica Ferraz, numa música dos Mesa:

Luz Vaga | Mesa


E agora, sempre suave, a vila condense, Manuela Azevedo e o seu Clã:

O sopro do coração | Lustro


Voltemos a mais novos. Jorge Cruz, da fronteira sul desta região demarcada, cuja Dona Ligeirinha talvez seja mais famosa que a Adriana. Ainda assim, gostei muito de:

Nada | Poeira


O funk dos Outbreak acabou e agora, sei, pelo menos há miguelation. Mas a Maia da Marta Girão ficou por aqui:

Insiste em Resistir | Minuto Funk


Os dois mil e oito, também da Maia, ainda em versão sem ser de estúdio:

Acordes com Arroz | 2008


Por fim, o Paulo Praça, ex-Grace, a solo, num dos discos que mais gostei nos últimos tempos:

(Diz) A Verdade | Disco de Cabeceira


Venham mais.

A sportsman and a gentleman

Muito bom, o arquivo do New York Times.

A ilusão

O pequeno filme é sublime. Aconselho até que vão ao site, no vimeo e o vejam em alta definição. A fotografia é excelente, toda a composição, a simplicidade, a leveza e a elegância. Tem brio. E claro, uma biblioteca daquelas é simplesmente avassaladora.

Tudo isto se junta a um outro facto. O de quase nada deste filme ser real. Sim, quase tudo é criado em computador; segundo o autor só não o são as flores a crescer, os céus, o avião, os pombos e o fotógrafo.


Não pode. Pode, pode:

Quais homenzinhos azuis.

A partilha

Minha mãe tem talento para cozinhar. Domina o cânone clássico da gastronomia portuguesa, apenas não incorrendo muito pelos doces conventuais. No entanto, não se fica por aí e recolhe receitas de todo o lado, sempre com um sentido prático e de eficiência, mas mais importante, não se limita pelo rol de instruções das mesmas. Chama a si mesmo a liberdade para inovar, mudar, substituir ou acrescentar e não se coíbe de tentar gestos culinários menos óbvios para tentar imitar este ou aquele conjunto de sabor que experimentou, mas para o qual não tem receita.

Acho que herdei algumas dessas características, talvez a mais importante a tal de não seguir à risca as receitas, muito embora um certo excesso de confiança já me tenha custado alguns dissabores. Ainda assim, aquela que mais espanto causa à maioria das pessoas a quem confesso, é o facto de não gostar de revelar receitas. Não é que não defenda o trânsito de ideias gastronómicas; aceito as que me derem. Revelar, no entanto, especialmente as melhores, é algo que faço a contragosto. Não me perguntem porquê, é algo interior, mais forte que eu. Às vezes é tão forte, confesso, que aos mais insistentes que não se contentam com um simples não, há que recorrer a um golpe baixo. Lá temos de revelar a receita, mas só aparentemente, claro, já que vai, ou sem o segredo principal, ou adulterada. Não é má vontade, e também não sou dono de nenhum restaurante que precise de guardar a alma do negócio. É algo mais cósmico, um tanto ou quanto herdeiro do espírito monástico e obscuro de algumas ordens religiosas. Se for das melhores receitas, é provável que não consigam obter nada de mim. Verdade seja dita, também não sou nenhum chef.

Unschärfe

E como o Manuel afirmou gostar de Heisenberg, aqui vai um aceno. Fundador da mecânica quântica, cujo resultado mais mediático é a Unschärferelation, o princípio da incerteza. É a fórmula que está ali em cima, no selo:

o produto da incerteza do momento de uma partícula com a incerteza da sua posição é da ordem de uma constante, h (6.636 x 10–34 m2 kg/s)

Infelizmente, talvez exclamem alguns de espírito mais literário, não sou dado a trazer à realidade dos dias, filosofias de cordel baseadas em soundbytes científicos. Assim, da mesma forma que abomino o “já Einstein dizia que tudo é relativo”, também não suporto que se use fundamentação quântica para explicar as agruras da vida. Agora, lá por não gostar do romantocientifismo, não quer dizer que não aprecie a beleza das descobertas da ciência, pelo contrário —ah, dirão outros de espírito mais literário, mas ligeiramente diferente dos anteriores.

O que é que diz aquela pequena fórmula? Diz simplesmente que, em sistemas quânticos, não podem existir estados com determinados conjuntos de variáveis, em que ambas tenham valores definidos. O mais comum exemplo é o acima: num sistema quântico, uma partícula, — por exemplo um electrão, — não tem um momento (energia, relacionado com a velocidade) e uma posição absolutamente definidos. Por natureza, o sistema tem uma certa incerteza.

Não há justificações para esta incerteza inerente da natureza. Simplesmente é assim que a ela parece funcionar. E há um formalismo matemático que descreve bem estes bizarros funcionamentos do mundo: a física quântica. Mas só no mundo à escala muito pequenina, por isso repeti sempre “em sistemas quânticos”. À nossa escala, os fenómenos quânticos têm pouco interesse: os radares de Lisboa sabem sempre a que velocidade iam e onde estavam os carros que multaram. Também vós, olhando fora da janela, sabem que o vosso carro está parado e o sítio onde ele está estacionado. Mas se o vosso carro fosse do tamanho de um electrão não saberiam, e não por ele ser pequenino, mas porque a natureza é esquisita, nesse universo. Difusa (Unschärfe).

Disse que à nossa escala, os fenómenos quânticos têm pouco interesse, mas nem isso é completamente verdade. Os vossos telemóveis, as vossas televisões e o computador onde estão a ler este post, todos utilizam tecnologias que fazem uso destes aspectos bizarros da natureza.

Mas mais interessante será chegarmos ao ponto de perguntarmos: e o nosso cérebro, será ele um sistema quântico? Será que nós próprios andamos ao sabor das bizarrias da natureza? Será que fugimos ao determinismo e somos aleatórios por natureza? Provavelmente não é um sistema quântico, já que os nossos neurónios e os mecanismos dos processos neuronais existem e funcionam a uma escala relativamente grande, comparativamente às dimensões relevantes para a quântica, mas não sei o suficiente para o dizer com certeza. A complexidade dos padrões neuronais é gigantesca e só isso serve por si só para gerar sistemas complexíssimos, um pouco da mesma maneira que, apesar de sabermos as equações que governam o movimento de massas de ar, não conseguimos prever o tempo com mais de duas semanas de antecedência. Isso, no entanto, é outra história. CZYRJCY6BPNK

Ano Novo, Velha História

De regresso à fresquinha Boston, volto de novo à nossa acolhedora casa, com algumas novidades, no que a protagonistas diz respeito. Bem vindos sejam os novos e bem partidos sejam os que por agora cá não estão. É interessante a cronologia deste blog, tão novo e já com alguma história para contar. A História é inevitavelmente feita de Gente Morta, gente que na sua grande maioria pouco contacto directo entre elas tiveram. Mas que se vai repetindo em ciclos que se assemelham, sendo que no entanto, essa brutal máquina vai brotando cá para fora novas coisas.

A História é feita de refeições, também. Em Lisboa pude encontrar e reencontrar a maior parte dos membro do animado grupo de jovens que está listado aqui à direita. Uma agradável surpresa, que, sem dúvida, como a História, é preciso que se repita.

E agora, para um tom menos alegre, como fadado português que sou, um trecho de mais repetitiva História, premonitória, como se quer em inícios de anos.

Às multidões, sem excepção das que prestam culto superficial aos princípios democráticos, agrada o uso e abuso do chicote por parte de quantos se alçaram ou foram alçados a posição cimeiras de comando. Por atavismo, confunde-se dinamismo — qualidade necessária em governantes — com histerismo, basófia e tirania. Confunde-se a capacidade de sonhar com a de realizar. E, ao passo que personalidades marcantes são submetidas a deformações pejorativas e odientas por um partidarismo infrene, este afoita-se à fabricação de super-homens, hiperbolizados segundo uma pauta mais ou menos nietszchiana.

Cunha Leal, As Minhas Memórias, vol. II

A todos, um excelente 2010.

A Morcela de Arouca

Se há coisa de que não nos podemos queixar, em Portugal, é da doçaria. Bolos, bolinhos, pastéis, tartes ou mousses, à sobremesa, ou à tardinha, há de tudo um pouco. Portugal é porventura o país com mais pastelarias per capita, a grande maioria com capacidade bastante para nos trazerem à mesa os  bolos. Mas no que diz respeito ao bolo industrial e semi-industrial já foi tudo dito no  Fabrico Próprio, pelo que não me vou alongar.

Nos Estados Unidos, apesar de a América Runs on Donuts, o panorama é confrangedor. Ora muffin, ora brownie, ora brownie, ora muffin. E à sobremesa, depois do jantar, a dimensão da decadent triple layer mud pie geralmente requere que não se tenha comido nada da entrée, que, ao contrário do que o nome indica, é o prato principal. Na europa do norte e leste, há, para mim, um uso excessivo de especiarias e frutas cristalizadas. Das sobremesas asiáticas não penso que haja nenhuma que me tenha deixado saudade, embora verdade seja dita, só pude provar aquilo que me descreveram como sendo sobremesas asiáticas, já que não tive ainda a felicidade de as poder degustar in loco.

Assim sendo, temos de, literalmente, dar graças a Deus pela doçaria que temos, nomeadamente a conventual. Bem aventuradas as freiras e frades com tanta gema de ovo à mão de semear. E as colheitas colhemo-nas nós. Ele é o pastel de Tentúgal, barrigas de freiras, ovos moles, toucinho do céu, clarinhas de fão etc.

photo

Desta feita trago-vos as morcelas de Arouca. Do “Um tratado da cozinha Portuguesa do século XV” de António Gomes Filho:

Com farinha de rosca, pinhões, amêndoas em pedaços, gema de ovo, banha de porco derretida, calda de açúcar, sal, cravo-da-índia, canela em pó e algumas gotas de água-de-flor façam uma massa e encham com ela as tripas. Em seguida lancem estas na água fervente, até ficarem duras. Ao cozerem-nas, dêem-lhes uns piques com um garfo, para não estourarem.

Iguaria sem igual, causa sempre espanto por ser doce e vir entripada. Nunca as comi cozidas, mas sim fritas em manteiga, em que todos os sabores ficam principescamente envolvidos naquela crosta estaladiça. E não há melhor que ir prová-las directamente às origens, onde o magnífico Convento de Arouca vos espera.

A todos um excelente Natal e caso não apareça no sapatinho uma caixa de morcelas, podem sempre recorrer ao Sr. Manuel Bastos (256944851), que também sabe expedir prendas. Mas presente, presente, é irem com quem mais gostam a Arouca. Não ficarão desiludidos.

Não era o Sócrates, daquela vez, no parlamento.

Nova Amesterdão

map1 map2 map3

Há uns tempos, na Boston Public Library, deparei-me com um mapa da cidade de Nova Amesterdão, datado de 1672, da autoria do francês Gérard Jollain. Nova Amesterdão era o nome dado pelos holandeses à cidade que no futuro se iria chamar Nova Iorque. O mapa era este:

Nova_Amsterd_o

Nowel Amsterdam en L Amerique
Gérard Jollain (1672)

A imagem, logo à partida, não só não me fez lembrar Manhattan, que é uma ilha, como me pareceu estranhamente similar à nossa própria cidade de Lisboa (pré-1755). Segundo pude constatar a seguir, o autor da imagem não só deliberadamente falsificou o nome da cidade, que em 1664 tinha já sido tomada pelos britânicos e subsequentemente denominada Nova Iorque, como inventou uma cidade completamente fictícia, com base na seguinte imagem de Lisboa, datada de 1617:

Lisboa

Olissippo quae nunc Lisboa ciuitas amplissima Lusitaniae
Braun & Hogenberg (1617)

A Sé passou a ser a Maison de Ville, o Terreiro do Paço o Almirantado, o Tejo o Mar do Norte, o Castelo de S. Jorge o Chateau de Nassau e por aí em diante. Até incluiu um pequeno mapa com as redondezas da então Nova Holanda e o Quebéc pode ser visto no canto superior direito. Para explorar melhor os mapas, sugiro o muito bom site de mapas da Boston Public Library, encontrando-se cada um deles, respectivamente aqui e aqui.

Descobri ainda, quando escrevi este post, que só existiram meia dúzia de cópias deste mapa e, há pouco tempo, não sei ao certo precisar quando, estava catalogado e avaliado por um antiquário de Nova Iorque pela módica quantia de quarenta e dois mil dólares.

Publicado originalmente aqui.

Atestados

tea

Para professoras de inglês, inglesas e incrédulas. Causa mais impressão se vier da família real (embora eu estava a torcer para que viesse com um carimbo real), não que Bextor seja uma autoridade reconhecida no mundo da História, muito embora tenha provas dadas na produção de artistas musicais de qualidade.

ellisbextor

Sophie Ellis-Bextor

Versão brasileira

Desta vez sou eu: já não é do vosso tempo (perdoe-me Ruy, dirijo-me aos lusos). Cresci nos idos anos oitenta do século passado e se há frase que me ficou gravada na mente, depois de incontáveis horas de séries de televisão de duvidosa qualidade, foi a versão brasileira: Herbert Richers [leia-se érbertirrixas]. Em boa verdade, acho que nos anos oitenta ainda as vi em inglês, só mais tarde, já nos noventa, é que, durante a semana e à tarde, passaram as versão dobradas (ou dubladas, em português do brasil).

Versão Brasileira…

Hoje lembrei-me desta frase e fui à procura da misteriosa expressão érbertirrixas. Eis senão quando dou de caras com o obituário do pioneiro da dobragem no Brasil, o senhor Herbert Richers, falecido no passado dia 20 de Novembro.

Herbert Richers (AraraquaraSão Paulo11 de março de 1923 — Rio de Janeiro20 de novembro de 2009) foi um produtor de cinemaempresário brasileiro. Radicado no Rio de Janeiro desde 1942, fundou oito anos mais tarde a empresa homônima Herbert Richers S.A, que começou no ramo de distribuição de filmes.

A empresa Herbert Richers foi uma das pioneiras da dublagem no Brasil. Hoje é uma das maiores empresas do ramo no país, com uma média de 150 horas de filmes dublados por mês, o que corresponde a 70% dos filmes veiculados nas salas de cinema.

in wikipedia


Herbert Richers terá sido o responsável por frases memoráveis como “Kitt, vire à esquerda na próxima direita” e também pelo facto de alguma pronúncia brasileira da língua inglesa não ser a melhor. Em Portugal, ao que consta, de início não houve grande adesão do público à dobragem e mais tarde o Estado Novo proibiu-a.

A questão da dobragem de filmes estrangeiros, que não foi uma questão meramente estética, de manutenção da versão original, provocou um menor impacto da influência do cinema internacional. Até 1948 não houve legislação sobre esta temática mas a tendência geral ia no sentido da legendagem. Houve uma tentativa, em 1936, de dobrar “O Grande Nicolau”, contando, entre outras, com a voz de Vasco Santana. Só que, como explica Luís de Pina, “o público não correspondeu e a distribuição desistiu”.

Anos mais tarde, mesmo que o público e a indústria nacional o quisessem, já não seria possível. A Lei 2027 de 1948, ainda com António Ferro à frente do SNI, para além de criar o Fundo do Cinema Nacional, vem proibir as dobragens. Desta forma, estipula-se que “não é permitida a exibição de filmes de fundo estrangeiros dobrados em língua portuguesa nem a importação de filmes de fundo estrangeiros falados em língua portuguesa, excepto os realizados no Brasil”.

O Cinema no Estado Novo