“Os ateus não entram nesta história: vão colados aos crentes porque crentes como os crentes são”. Assim acabou o Manuel o seu texto de resposta ao Gonçalo, que o Ateísmo é mais um credo, perfeitamente anti-paralelo à crença no divino. Talvez o tenha sido e continue a ser para muitos, mas a verdade é que os pratos da balança têm vindo a alterar-se. Eu defendo que há condições para assim já não ser; o meu ateísmo não é uma fé.
Antes de começar, quer no entanto dizer que posso vir a passar por arrogante neste post. Voltarei a essa questão, mais tarde, mas peço, por antecipação, desculpas. Talvez a minha (de)formação profissional, talvez a minha falta de experiência neste mundo. Poderei parecer arrogante, mas tentarei justificar-me, não julgo sofrer da arrogância científica descrita, entre outros, por Onésimo Almeida no seu “De Marx a Darwin”.
“A crença em Deus é um apetrecho vigoroso, uma enzima que nos dinamiza.” Estamos longe de o provar, mas é uma hipótese com cabimento, aquela o Manuel enunciou: a ideia do sagrado e do divino, não passarem de um mero instrumento evolutivo. Teria surgido com o aparecimento de uma capacidade distinta do homem primitivo: a de possuir um cérebro poderosíssimo, uma consciência que parece suplantar as dos demais organismos vivos, pelo menos aqui na Terra.
Não só o homem tem uma maior consciência de si e dos outros, como do mundo em que o rodeia. O tal cérebro poderoso terá começado a criar problemas a ele próprio: como qualquer “tecnologia” pode se usado para vários fins, uns bons, outros maus. E esses problemas foram os que decorreram dessa maior percepção: as questões de foro psicológico e íntimo, bem como o despertar da consciência (no sentido de awareness e não de conscience) do que o rodeia. Estes dois tipos de questões — a consciência do interior e do exterior — estão íntimamente e inevitavelmente ligados. A procura de explicações e das origens é, acto contínuo, a solução imediata.
De um ponto de vista evolutivo, o facto de todas as civilizações terem desenvolvido sistemas de divindades e espiritualidade semelhantes revela perfeita consistência — não são ocorrências separadas, mas ramificações de uma árvore comum. Dirão que poderá também ser produto da universalidade do divino; certo é que, por ora, não há meio de provar nenhuma das hipóteses. Mas a verdade é que é isso que temos observado na biologia: a manutenção e conservação das “peças fundamentais”. Todos os seres vivos na Terra têm ADN, composto pelas mesmas exactas moléculas. Todas as células eucarióticas, das amibas às células dos mamíferos, i.e., todas as do nosso corpo, têm mitocôndrias, um organelo que produz o combustível das células. Claro, o Criador poderia ter criado toda a diversidade no mundo da forma que quisesse, mas, qual programador preguiçoso, usou os mesmos “componentes”, over and over and over again. Mas não é sobre a criação que aqui venho, ainda que, antes do fim voltarei brevemente ao assunto para enquadrar o raciocínio que quero fazer.
Comecemos exactamente pela: a Fé é uma crença, baseada numa relação de confiança por ventura unidireccional. Segundo algumas definições é uma crença sem necessidade de prova. No catolicismo, quanto menor a essa necessidade de prova, mais grandiosa é a Fé — “Bem-aventurados os que não viram e creram” (João, 20:29). Ora, o ateísmo que defendo é um ateísmo de conjectura e de lógica. Uma conjectura, recordo é proposição não provada, que aparenta estar correcta e não foi provada errada. O facto de aparentar ser correcta, é, obviamente, muito subjectivo. Defendo, aliás, que é uma posição que só pode ser assumida estando ao corrente da ciência, portanto, de certa forma, não está acessível a todos. E a ciência mais não é que a criação de um corpo de conhecimento lógico e coerente, tendo por base uma linguagem não subjectiva e cuja dependência da realidade é absoluta, já que só ela mesmo pode validar, no todo ou em parte, essa mesma descrição.
A religião teve, ao longo dos séculos, a necessidade de explicar o homem e o mundo — do material ao espiritual. No entanto, todas as religiões sem excepção têm visto a sua abrangência diminuída: já poucas tentam explicar os factos do mundo natural. Nesse aspecto, a ciência soma vitória atrás de vitória, numa interminável lista de KOs. A mecânica celestial, o funcionamento dos dos vasos sanguíneos, a tectónica de placas, a química inorgânica, a origem das espécies. Estará tudo explicado? Estamos muito longe disso, mas a ciência tem criado um corpo de conhecimento, lógico e coerente, com provas empíricas. Não só permitem explicar o funcionamento do mundo, como, conhecendo as regras, manipulá-lo. Assim, hoje manipulamos a radiação electromagnética e dessa forma transmitimos conversas, sem fios, para bem mais longe do que alguém conseguiria gritar.
As explicações dadas pelas religiões, por muito bonitas e elegantes que possam ser, não explicam quase nada. E há mesmo mais: a ciência, através dos seus processos, consegue prever. Ao contrário das religiões, que vêm a sua “jurisdição” contrair-se, a da ciência, pelo contrário aumenta: pelo seu próprio desenvolvimento. Faço notar ainda que não há nada na ciência que seja considerado fora do seu objecto de estudo, já que a ciência pretende descrever o Universo e, ou seja, tudo. O que acontece é que podemos não ter instrumentos para nos debruçarmos sobre um determinado assunto, pelo que não o podemos estudar agora. E quero relevar esse “agora”: há medida que o corpo de conhecimento vai sendo expandido, a teoria e a tecnologia têm criado sempre instrumentos que expandem a área da abrangência da ciência.

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Ao longo da História tem sido sempre assim: a ciência a aumentar a sua capacidade de explicar, as religiões a diminuir. E no entanto, oddly enough a resistência a dar o benefício da dúvida às religiões tem-se provado uma constante. Pouco importa vivermos mais tempo, curarmos centenas de doenças que outrora dizimaram populações inteiras, sabermos voar ou sair do planeta, prevermos razoavelmente o tempo a curto prazo, comunicarmos instantaneamente com qualquer outra pessoa do mundo. Pouco importa o, por ventura mais belo, facto de estarmos a construir uma descrição do funcionamento das peças do Universo altamente coerente e, surpreendentemente, explicativa. A religião continua a ter um papel fundamental — quando digo religião falo da mais pequena à menor, da mais organizada à unipessoal — quando digo religião falo da necessida da crença no divino, no sobrenatural.
A ciência está longe de conseguir descrever bem o funcionamento social. Mas mais significativo, está muito longe de descrever talvez o mais importante e relevante instrumento da condição humana: o cérebro. Não sabemos quase nada: não sabemos como se guardam as memórias, como se formam os pensamentos e as emoções e, sobretudo, não sabemos de onde vem a consciência. Não temos nenhum instrumento, teórico ou tecnológico para nos debruçarmos sobre o assunto e esse, é o alvo último da religião.
A consciência, ou a alma — palavra perigosa por ao longo dos séculos ter sido dissociada da de corpo — é aquilo que nós acreditamos sermos nós próprios, o nosso âmago, a nossa essência. Aí, a ciência ainda tem nada ou muito pouco a dizer e é aí que se refugia a religião. Como em todos os os casos anteriores, por omissão, o Homem parece preferir a explicação da religião ao vazio. E até ser desvendada a natureza do fenómeno, prevalecerá, ainda que a História nos mostre que, mais tarde ou mais cedo, invariavelmente, não é a explicação sobrenatural, aquela que prevalece.
Com tudo isto, em que é que acredito - em jeito de provocação, já que o certo será dizer, o que é que sabemos. Sabemos que há quatro forças fundamentais que ligam o universo: a gravidade, electromagnética e as interacções fortes e fracas, forças nucleares. São elas que dominam e manipulam as interacções e os movimentos das particulares elementares que constituem tudo aquilo que conhecemos. Sabemos de todas essas partículas? Não? Temos uma teoria completa que as descrevam? Também não, mas sabemos muitas coisas acerca delas e é devido a esse conhecimento que temos hoje Telemóveis, ou Tomografia de Emissão de Positrões.
Essas partículas formam os elementos, que por sua vez formam os compostos químicos, que são os componentes materiais do universo: as estrelas, os planetas, os oceanos, a atmosfera, as pedras, o solo, e todos os seres vivos que conhecemos. Temos uma história, ainda muito esburacada, é certo, mas com fio condutor, de como as primeiras partículas se aglomeraram para fazer as estrelas, os planetas e os seus conteúdos. Só conhecemos bem um, mas de todos os que conhecemos é o único que tem aquilo a que decidimos chamar “vida”. A vida é o que caracteriza o que denominamos de organismos vivos, seres mais ou menos complexos, muitos deles autónomos, que consomem recursos e têm a capacidade de metabolizar componentes do meio que os rodeiam para se replicar e multiplicar. A história que temos, claro está, com os tais buracos, é no entanto cada vez mais completa no sentido de nos proporcionar o tal fio condutor: estes seres vivos parecem ter a mesma origem e parece haver mecanismos, que seguindo as regras e limitações impostas pelas forças do universo, conseguem promover a emergência de complexidade criando aquilo a que chamámos evolução. A ciência hoje está mais desenvolvida do que nunca. Temos pedaços de conhecimento que permitem observar alguns contornos num gigantesco puzzle a que ainda faltam a grande maioria das peças. Isso permite-nos concluir alguma coisa? Sim, algumas coisas, como referi acima.
Esta história é baseada em factos e provas, sendo que alguns elementos são ainda provas preliminares e incompletas. Mas faz sentido e aquilo que é verdadeiramente provado é considerado como verdade. Nesta história não há qualquer intervenção de um ou mais deuses, de algo que seja sobrenatural. Nesta história apenas há um lugar para um ou mais deuses criadores: na origem das origens.
Esse é o meu ateísmo: se houver um Deus, ele é desnecessário em todos os elementos da história que até agora conhecemos e não há indícios de que venha a ser necessário. Existirá um Deus na origem das origens? Que lançou a semente. A ciência não diz nada sobre isso e eu também não. O âmago da questão é que a maioria dos crentes não quer saber desse Deus distante, antigo e não interventivo. O Deus que interessa às pessoas é aquele que nos reconforta, que providencia uma origem para os valores morais, que permite o estabelecimento de uma ordem e de um objectivo ulterior — e, por ventura, um lugar para o além da morte. Note-se este Deus escusa de ser o Deus católico, ou o de qualquer religião organizada ou não — este é o Deus pessoal, a entidade, o algo superior a nós, que em algum aspecto da sentido às coisas. Na história do mundo dada pela ciência não há a necessidade para nenhuma intervenção divina deste tipo. Se não há necessidade, se eu nunca vi qualquer intervenção do divino, então para mim, a explicação mais simples e lógica é a de que esse Deus pessoal não existe.
A minha arrogância, de que falei no início, é de ter fé em que a ciência vai continuar a ser o que foi e é: vai expandir os seus horizontes e explicar cada vez mais coisas. O limite? Não faço ideia. Há ainda muito para descobrir e entender como funciona. Como disse acima, o maior desafio talvez seja a questão da emergência da consciência e o seu funcionamento. No seu vindouro livro, o Papa afirma:
No estado corrente das coisas, o homem moderno é tentado a dizer: a Criação tornou-se inteligível através da ciência. Francis S. Collins, por exemplo, que liderou o Projecto do Genoma Humano, afirma com agradável surpresa: “A linguagem de Deus foi revelada” (The Language of God, p. 122). De facto, na magnificência matemática da criação, que hoje podemos ler no código genético humano, reconhecemos a linguagem de Deus. Mas infelizmente não a linguagem no seu todo. A verdade funcional do homem foi descoberta. Mas a verdade acerca do homem ele próprio — quem é, de onde vem, o que deve fazer, o que está errado, o que está certo — isto não pode, infelizmente, ser lido da mesma maneira. De mãos dadas com o crescente conhecimento da verdade funcional, parece haver um aumento da cegueira perante a “verdade” ela própria — em direcção à nossa real identidade.
Sou contra a linguagem usada por Collins, por poder dar azo a confusão. Não li “The Language of God” portanto não sei se a frase é irónica ou tem um fundamento religioso — como por exemplo, se denomina à hipotética particula elementar, o bosão de Higgs, a “Partícula de Deus”. De qualquer maneira, estou em desacordo com o Papa. Em primeiro lugar, a verdade funcional do homem não foi descoberta, mas está a ser descoberta. O genoma humano é uma minúscula parte dessa verdade funcional. No entanto, a maior divergência perante o raciocínio de Bento XVI é a separação entre “verdade funcional” e “verdade verdadeira”. A minha extrapolação, e mais uma vez a arrogância, é considerar que a ciência poderá em breve responder a estas questões, se não terá mesmo já respondido a algumas. O que está certo, o que está errado? Talvez seja mais um mecanismo evolutivo, à semelhança do hipotético que o Manuel mencionou, de estabilização de sociedades, de manutenção de uma paz conducente à sobrevivência. Por algum motivo, aquilo que consideramos “bem” dá origem a sociedades mais estáveis, e portanto mais prolíficas. Isso não implica que em certos casos, uma sociedade “anti-bem” não seja localmente estável: veja-se a Alemanha Nazi no pré-guerra. Estou a especular. De onde vem o homem? E se a verdade funcional acerca desta questão for a verdade verdadeira: vimos de um hominídeo que vem de outro ser mais primordial que vem de seres unicelulares que por sua vez vieram de compostos químicos que em tempos fizeram parte de uma estrela. Haverá alguma verdade não funcional subjacente?
Este texto já vai longuíssimo e por ventura são poucos os que até aqui chegaram. Mas quero terminar com uma nota. A não crença num Deus criador e organizador, o facto de a “verdade verdadeira” poder não ser mais que a “verdade funcional”, tudo isso não limita a visão do mundo a um determinismo cinzento e depressivo. Pelo contrário, a mecânica do funcionamento de todo o Universo, e como ela é capaz de gerar a complexidade e a diversidade daquilo que assistimos, da pedra ao ser consciente — em que parte dessa complexidade e diversidade é a criação de sistemas socio-filosóficos essenciais para a as sociedades e sua evolução, entre os quais se encontram as religiões — é de uma perfeição formidável. Esperem até saber do princípio holográfico para saber o que é beleza. Talvez a única desvantagem seja a imediatez da falta do além-morte; mas, há que ter um bocadinho de coragem.