O Pós-Moderno Rumance de Bing Laden Obama, Barack Osama e os Sete Pares de França

Xilogravura de J. Borges, s/d

 

Logo após os terríveis atentados, o então homem mais poderoso do mundo, Walter G. Ambush, ordenou a caça. Mas dez anos se passaram, e nada avançou nesse rumo. Invadiram países. Mataram civis como piolhos. Ocuparam militarmente cidades. Decretaram exclusões aéreas. Derrubaram tiranos, que antes aliados.

Cria-se que o terrorista, Barack Osama, vivia nas montanhas. Em cavernas. No meio de fanáticos rebeldes, que tinham destruído esculturas milenares. Acreditava-se que vivia sem luz elétrica, instalações sanitárias, aparelho de barbear. Meio como Simão no deserto. Só que permanentemente com um AR-15 à mão. Ah, essa tendência ocidental de orientalizar o Oriente!

O sucessor de Ambush, o novo homem mais poderoso do mundo, Bing Laden Obama, com a popularidade em baixa e uma eleição adiante, pôs ainda mais dólares na caçada. E a coisa virou prioridade. Queria Barack Osama vivo ou morto. A vingança virou razão de estado para Obama: Osama deveria ser capturado a todo custo. Era a cabeça mais a prêmio. O prototípico Wanted. Como nos westerns – que, no fim das contas, nas mãos de um John Ford são muito mais belos.

Formaram-se esquadrões especializados em decifrar os hábitos, gostos, posições e suposições do procurado. E assim satélites e potentes câmeras microscoparam o planeta no rastro de Barack Osama. Abriram olhos e escutas digitais que escanearam meio mundo. Quantas inconfidências  não captaram no caminho.

Classificaram mil e um documentos secretos. Informações. Entre elas, que Barack Osama gostava de futebol. E torcia pelo Arsenal. Dado importante. Aficionados por futebol são, em geral, homens passionais. A conduzir-se por impulsos. Caem mais facilmente em ciladas.

Porém, por mais que Bing Laden Obama pusesse em prioridade a captura de Barack Osama, este escorria-lhe pelas mãos como uma enguia recém-retirada d’água. E, não obstante, as eleições batiam à porta. Algo precisava ser feito.

A secretária de estado sugeriu que a melhor opção seria desviar o foco. E invadir outro país. Um Tadjiquistão desses qualquer. E depor mais um ex-aliado tirano. Pensaram na Costa do Marfim. Mas não. Era reles demais. Café pequeno. Então optaram por subir um pouco no mapa até a Líbia, em cujo subsolo havia um mar de petróleo. Ali podiam contar com mais aliados. A demagogia dos líderes europeus. Principalmente a do presidente Narkozy, um canastrão por igual em apuros de baixa popularidade e eleições batendo à porta. O mesmo que recebera poucos meses antes, com circunstância e tapetes vermelhos, o tirano cujo nome se pode grafar de cem formas diferentes.

Mas que golpe de azar esse bombardeio da Lábia, que dizer da Líbia! Menos de dois lapsos depois, pegaram o homem.

Barack Osama foi, enfim, morto. Não em cavernas no remoto Afeganistão. Mas numa mansão cheia de almofadas, livros e um televisor de alta definição, no subúrbio de uma metrópole. A operação secreta sequer foi compartida com o governo do Paquistão, um dos muitos –stãos que estão situados entre a Europa e a Ásia.

Dizem que o corpo de Barack Osama foi jogado no mar. Provavelmente para evitar que o túmulo pudesse virar um santuário caro aos radicais religiosos. (Em digressão, ocorre se Hitler possui um túmulo). Mas toda essa história, toda essa histeria, de se jogar no mar, soa, ainda hoje, um tanto obscura.

E, sem embargo, na mesma noite da notícia, regozijada, a multidão se reuniu em frente a residência de Bing Laden Obama. E uma onda de bandeiras, como numa vitória esportiva, prenunciou o resultado das eleições vindouras.

Enquanto isso, se assim mesmo foi – quem o dirá, a televisão? – o cadáver de Barack Osama, no fundo das águas, era devorado por um cardume de leviatãs, em algum lugar dos sete mares.

 

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A Obra de Arte na Era de sua Funcionalidade Técnica

Richard Deacon, Let’s not be stupid, 1991

 

Let’s not be stupid é o título da escultura que fica bem diante do Centro de Artes da Universidade de Warwick — ao sul de Coventry, não muito longe de Stratford-upon-Avon. Sugere duas formas proto-biológicas ligadas por uma “escada”, por filamentos de DNA. Ou algo que o valha.

Certa noite – e muito frio fazia a noite – com uns tantos pints a mais de cerveja e ale no sangue pulamos um bocado sobre as tubulações de Let’s not be stupid. Um congraçamento espontâneo selvagem universal  – e desse grupo saiu até uma atual professora da instituição. Éramos em maioria estudantes de cinema, literatura comparada e teorias da tradução. E a estrutura do troço é em aço repintado. Oca. Dá uma percussão e tanto. Um som bonito, que segue, de acordo com a região explorada, entre uma caixa de surdo, um pandeiro e um tamborim. Acho que foi a única vez em que comandei uma bateria de escola de samba. A escultura, de resto, não sofreu maiores arranhões. Em menos de dez minutos, porém, dois guardas intimidantes — altos e robustos (e, pior, sóbrios) — chegaram ao local tiracolando um par de nutridos pastores alemães. Já comia um samba louco, desenfreado, embora não houvesse mais que um brasileiro.

Quase fomos em cana.


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O Equilibrista



Amanhã eu vou ao circo com meu amor. Que medo não tenho de ver o funâmbulo lá, próximo aos vértices da lona, sem rede embaixo para ampará-lo. Posso vê-lo: um pé, depois o outro no bambo do fio. A derme ressumando. O brilho da maquiagem. E o fio vibrando após o espasmo, trêmulo, até lastrar-se, sulcando-lhe a sapatilha. As amigas me contaram, entre risadinhas. A malha. Seus músculos. Ainda assim, na hora H, devo apertar a mão de meu amor. E mesmo sabendo como vou reagir, acho que nosso dinheiro será de todo bem gasto. Poderia ser mais. Explico. Não que deseje que o funâmbulo caia. E, contudo, se deve tomar a sério a possibilidade da queda. Ela faz parte do jogo. E se ele caísse, os bilhetes decerto valeriam mais. Pois acrobatas não despencam do fio a cada meia-hora. Essa possibilidade me enche de confiança. A vida fica mais plena com ela. Sinto até ganas de engravidar. De voar. Tomar um milk-shake cheio de condenadas calorias. De tatuar um tatu – não um isópode qualquer. Um armadilho de cartoon. Mas um tatu clássico, digamos, na linha dos jacarés estilizados no logotipo de antigas latas de querosene, que hoje ninguém mais usa – perto do umbigo. Vontade de voar, sim, mas com um cartão de milhagens bem à mão. De equilibrar-me numa linha imaginária entre o foi e o será sem ser o é. E sublinho, com um reforço no imaginário da linha, a segurança que meu amor me dá, porque ele parece ter saído da casa dos Brothers. Sobrevivido a paredões. Também porque com ele tudo avessa tratos de polé. Tenho um pouco de receio do escuro. Por isso durmo com a TV ligada, quando ele não está. Temo ruídos desconhecidos. E jamais li  A Paixão Segundo G.H., porque não suporto baratas, ainda que literárias. Morro de medo dos riscos desnecessários. Não se deve dar sopa ao azar. Como diz o ditado chinês: “desconhecidas eram duas almas, que agiam e pensavam iguais”. Correr riscos sobre finas superfícies não é boa coisa. A não ser que a gente apenas expecte. A não ser que, como o funâmbulo, se trabalhe na corredoria de riscos. A não ser que, por ofício, se corra riscos para riscar do mapa dos outros a possibilidade de riscos. A não ser que o ofício corra na 4ª vara, onde dizem, a desembargadora prima pela agilidade e encara peixes graúdos. A não ser que se arrisque levar jabs de todo lado por expor-se em demasia. E expor-se, de certo modo (ou será do modo certo?), é sempre expor os demais. Tirar véus. Equilibrar-se acima dos receios, dos constrangimentos. Censuras.

E, no entanto, quantas noites de insônia não me sento à escrivaninha. Desalinhada. Cheia de desejos e intraduções. Vontade de largar-me pelo mundo sem fator RH definido, lenço ou devidos documentos. Vontade de deitar com amigas. De afagá-las… Vontades de dizer o que nem eu mesma sei. E há lápis. E há papel. E há riscos, em esboço, na minha cachola. Mas não risco sobre eles. Tudo segue em branco. Limpo. Pristino. Despalimpsestado. Vedado em herméticas. Cadernos em branco. Verdade que, como decoração, stationery, têm lá seu valor.

Escrever é pouco mais que equilibrar riscos numa linha. E, assim, ressalvo que lá, bem acima, no pavimento anterior do sonho, o funâmbulo contará para sempre com meu amor. Porém sonhos envelhecem rápido. E logo a manhã rompe. Está chovendo. E se põe as galochas para ir ao trabalho. Ah, essa pressa. Ainda mais terrível quando se está naqueles dias… E, ao mais, o que é a escrita hoje, senão a garantia de se não estorvar a decoração, o stationery, de sobre a mesa?

 

[NOTA — a foto não possui a indicação do crédito de autoria. E foi recolhida no Flickr. É de 2007]

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O Presente

Arte dos índios Kuna [Panamá]

 

Vou te dar de presente um labirinto. O condomínio é barato. As paredes, de ardósia. O calor das tardes refrata nas paredes. E as imagens que se vê mais parecem miragens. É um labirinto, mas tem esse contorno de oásis. Um pouco de calor. Azulejos. E, porém, quão amenas nascem as manhãs! E os pátios alpendrados sucedem-se, cercando fontes. Lá, mais acima, nos minaretes, o crescente deita sombra na areia. As salamandras imóveis ao sol. No mais, os impostos são módicos. Há espelhos d’água, tamareiras. A areia das dunas, tão alva. Nos primeiros tempos, às quartas-feiras, apurando o ouvido, percebe-se, ao longe, uma grande festa. E a música estala. É meio como quando logo após o clique do mouse abrir várias janelas, um jingle troar inadvertido; e o susto devolver a medida do absorto. E, erguendo a vista, Princesa, pode-se admirar o artifício dos fogos riscando a noite, feito mísseis teleguiados. Voam até um zênite bem suspenso lá acima. Parecem passar ao largo de Cástor e Pólux. E, então, minguantes, riscam o céu de volta, e dissipam-se contra a planície. E logo ouve-se no piscar luminoso a solidão dos zangões não tripulados. E de novo os fogos. Mas isso é tudo. Essas festas extinguem-se rápido. E há alguns inconvenientes. Por exemplo, na gramática do labirinto, depois de algumas semanas, não existe o verbo ser.

 

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Adoro quando a Mariana fala

 

 

Adoro quando a Mariana fala. E quando se põe expansiva, fica uma poçinha – muito pouco – de saliva no lábio inferior. Um rosa difuso cobre-lhe o rosto branco se ela se envergonha um tanto do que diz. Eu não ligo. Às vezes desligo do sentido das palavras. Só tenho ouvidos para a inflexão doce de sua voz. Tantas coisas acompanham essa voz. E quando sorri abrem-se as covinhas nas maçãs do rosto. E há o sinal acima do sobrelábio esquerdo, que, suponho, muito antes de saber de Wittgenstein, descobriu por si que era um tremendo argumento no espaço. O sorriso é o fecho de sua voz. E será que há voz que eu mais goste de ouvir? Ela ressoa em meu crânio. E eu pouco faço ideia de como ela ressoa fora dele.

 

Não é a mesma coisa. Mesmo quando a escuto gravada.

 

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A Reafinação da Arte de Chutar Tampinhas & Outras Rotundas Superfícies

 

 

α. SOBRE MÚSICA POPULAR, FUTEBOL, LITERATURA E, INCLUSIVE, O BENFICA

Quem o viu jogar dizia que estava entre os mais elegantes meias já nascidos no lado de cá da galáxia. Que tinha DNA de bola, quem duvida? O pai era Domingos da Guia, um zagueiro tão classudo, que os aguerridos uruguaios – jogou por alguns anos em Montevidéu – chamavam-no de Don Domingos.

Domingos da Guia chegou a seleção brasileira. E não só chegou. Fez escola. Aí pelos idos de 30 e 40. Seu apodo a tudo esclarece: “o Divino Mestre”. A irreverência do apodo deve ter atraído o protesto de um algum protonotário apostólico mais exaltado.

Talvez ele não fosse tão afoito. Tampouco temperamental como o célebre Luís Pereira, aquele que, em desespero, saiu driblando meio carrossel holandês, em 74, numa semifinal em que o time de Cruyff bateu um Brasil deslustrado, excessivamente cauteloso e falto de imaginação. E Luís desferiu botinadas indesculpáveis em alguns dos homens de laranja. Neeskens quase foi partido ao meio. Luís acabou expulso. Saiu de campo xingando a torcida neerlandesa. Aos gritos. Se Luís era técnico – um dos mais habilidosos zagueiros centrais a pisar num estádio – faltava cabeça, o zen-budismo de Don Domingos. Também companheiros de seleção à altura, é verdade.

Ter a cabeça no lugar, também tem a ver com estar no lugar certo. Pois quantos tiranos não foram mais crueis que Luís XVI e ainda assim não a perderam? Posicionar-se não à revelia no tempo, porém conscientemente no espaço é a Lei da Gravidade para zagueiros. E eles devem esforçar-se para, pelo menos dentro das quatro linhas, não convertê-la na Lei da Gravidez.

Defesas como Domingos da Guia e Luís Pereira são arquétipos. Mitos do futebol. Quem comparar a eles? Baresi? O injustiçado Luizinho? Maldini? Lúcio? Tiago Silva? David Luiz? Se este último fosse menos afobado, talvez. Mas para ele há ainda muita peleja por diante. E ainda: se porventura possuísse metade da técnica no manejo da pelota que possuíam da Guia e Pereira. E se David Luiz não tratar de corrigir pequenos vícios, arrebatamentos, impulsos, melhor acerto no tempo de bola, não obterá o posto de sucessor de Lúcio como zagueiro central da Seleção Brasileira.

Mas isso outros quinhentos são. É posto apenas de propósito, para relativizar certos dogmas benfiquistas. Sem que se espere retaliações de tão generosos partidários. Nosso mote passa mesmo é pelo Divino Mestre. Ele teve um filho, como dissemos, que também foi jogador. E que jogador! Sua noção de espaço, não só perfeita, como também o estilo, o ritmo de ocupá-lo, o modo de colonizá-lo. Abismava quem o seguia. E todos que o seguiam, por onde ele não era bem recebido, batiam o pó das sandálias. Convenhamos, se era filho do Divino Mestre, algo messiânico, sebastianista, portava na ponta das chuteiras. Seu cognome, sintética abreviação do paterno, era pura e simplesmente: “o Divino”.

Porém tanta perícia na arte de decifrar o espaço, dividir as águas debaixo das de cima, domar o tempo, deu-se na época errada. Ao menos em termos de seleção e Brasil. Pois quanto a clubes, a despeito de haver começado no modesto Bangu, Ademir da Guia simplesmente comandou, por dez anos, um dos mais célebres esquadrões a pisar um relvado: a Academia.

A Academia era como se chamava a equipe do Palmeiras aí pelo fim dos 60 aos primeiros anos da década seguinte, quando foram bicampeões brasileiros, 72–73. Alguma referência à Grécia Antiga havia de ter para brindar o classicismo daquele futebol. E Ademir da Guia era Platão – uma vez que Sócrates jogou no Corinthians, como todos sabem. Tive um time de futebol de botão que trazia estampado a efígie dos craques desse onze legendário. E, glória à altura, o adversário desse time – nos imaginários relvados, tribunas de sala-de-estar e assoalhados à enceradeira que confinavam com pés de mesinhas de centro – era ninguém menos que o Santos de Pelé. A blasfêmia é a de que havia os que preferiam vê-lo jogar à Sua Majestade. A elegância era seu sinal.

 

β. O VERDADEIRO INGLÊS, O ÚNICO INGLÊS, É O BRASILEIRO

No campo das letras, por outro lado, tivemos craques à altura. Nem todos, no entanto, farejaram o futebol a contento. O lacônico Graciliano Ramos, autor do primoroso Infância, chegou mesmo a prognosticar que o futebol não vingaria no Brasil. Soubesse ele no que isso ia dar, e o rascunho de sua crônica teria sido queimado no cinzeiro mais à mão. Basta dizer que, só uns poucos anos depois, seu amigo, Lins do Rego, virou flamenguista, tendencioso, quase pérfido. Chegou a dirigente do clube. Ary Barroso, o compositor de “Aquarela do Brasil”, amigo de Lins do Rego, foi locutor esportivo. Era tão malevolamente pró-Flamengo, que além de não tocar sua célebre gaitinha quando dos gols adversários, dava-se ao desplante, com frequência, de sequer narrá-los. Mudando o assunto da locução do jogo para amenidades, a vencedora do concurso de Rainha do Rádio, o que estava em cartaz nos cinemas, o aumento no preço das maçãs.

As crônicas de Nelson Rodrigues, reunidas sob a proustiana (e zombeteira) rubrica de À Sombra das Chuteiras Imortais, são uma delícia. Um dos livros-chave para entender a estreita conjunção entre música popular (de altíssima qualidade), literatura, rádio, futebol e a auto-estima nacional numa era em que a TV ainda engatinhava. À Sombra das Chuteiras… são um canteiro de bem regadas hipérboles, a medrar sobre os relvados em flor. Muito se deve a Nelson. Expressões emblemáticas, como a seleção de futebol ser “a pátria de chuteiras”. No fundo, isso é engraçado. Mas é impressionante o quanto traduz, em antecipação. Quando a França foi campeã, em 98, não sei se no Le Monde ou no Le Figaro, ao se descrever o cortejo da vitória, em Paris, em carro aberto, multidão nas ruas, bandeirinhas tricolores, foi também dito que os jogadores foram recebidos a la brésilienne. A França queria ser o Brasil. Nem que só uma vezinha. Advinha-se, quase, o dedo de Nelson nisso tudo. Ou de um de seus personagens mais hilários: “o Sobrenatural de Almeida”.

Sua teoria pantagruélica, carnavalesca,  é a de que ao ganhar seu primeiro mundial, na Suécia, em 1958, o Brasil exorcizou de vez o que ele chama de crônico “complexo de vira-latas”. O trecho em que disserta sobre o impacto dessa primeira conquista sabe a um auto-humor otimista, delirante, ufanista, exagerado como sempre. Mas ufanista à brasileira. Sem apelar para um belicismo real, para além daquele que o futebol idealmente convoca. No fundo, é uma tentativa engraçadíssima de enxotar velhos fantasmas. Inclusive futebolísticos. Caso da traumática derrota para o Uruguai, em casa, na final de 1950. E nessa brincadeira, sim, há vernizes de verdade. O texto tem feito rir gerações de leitores, ainda que em algum trecho, esteja crivado de um humor de feição um tanto politicamente incorreto para os diascorrentes, isso, todavia, não o torna menos divertido:


Vejam como tudo mudou. A vitória passará a influir em todas as nossas relações com o mundo. Eu pergunto: – que éramos nós? Uns humildes. O brasileiro fazia-me lembrar aquele personagem de Dickens que vivia batendo no peito: — ‘Eu sou humilde! Eu sou o sujeito mais humilde do mundo!’. Vivia desfraldando essa humildade e a esfregando na cara de todo mundo. E, se alguém punha em dúvida a sua humildade, eis o Fulano esbravejante e querendo partir caras. Assim era o brasileiro. Servil com a namorada, com a mulher, com os credores. Mal comparando, um São Francisco de Assis, de camisola e alpercatas. […] Mas vem a deslumbrante vitória do escrete e o brasileiro já trata a namorada, a mulher, os credores de outra maneira; reage diante do mundo com um potente, um irresistível élan vital. E vou mais além: — diziam de nós que éramos a flor de três raças tristes. A partir do título mundial, começamos a achar que a nossa tristeza é uma piada fracassada. Afirmava-se também que éramos feios. Mentira! Ou, pelo menos, o triunfo embelezou-nos. Na pior das hipóteses, somos uns ex-buchos. […] E o escrete vem e dá um banho de bola, um show de futebol, um baile imortal na Suécia. Como se isso não bastasse, ainda se permite o luxo de vencer de goleada a última peleja [5 X 2]. Foi uma lavagem total. […] Outra característica da jornada: – o brasileiro sempre se achou um cafajeste irremediável e invejava o inglês. Hoje, com a nossa impecabilíssima linha disciplinar no Mundial, verificamos o seguinte: – o verdadeiro inglês, o único inglês, é o brasileiro.

 

Nelson era tricolor. Fluminense. Pó de arroz, como se diz. O clube de futebol mais elitista do Rio. O mesmo que, no começo do século passado, ao perceber que os demais estavam a ganhar tudo e mais um pouco de campeonatos e copas, com negros e mestiços em suas hostes, exigia dos seus primeiros recrutados negros, que maquiassem o rosto com pó de arroz. Assim reza a lenda. Assim grudou-se a alcunha. E ao que tudo indica, a lenda está rente à realidade, pois, no início, o futebol no Brasil era esporte de elite, as grandes massas – que naturalmente, além de filhos e netos de ex-escravos, incluíam os brancos pobres (e entre estes muitos imigrantes italianos, alemães, portugueses, japoneses, libaneses, judeus, poloneses…) – preferiam, então, as regatas e as corridas de cavalo. Isso de “pó-de-arroz”, no entanto, não impediu que tricolores famosos fossem dirigentes comunistas ou gente de esquerda. Como Chico Buarque, para selar a questão sem maniqueizá-la.

Como se sabe, o primeiro clube do Rio – Roma do futebol brasileiro em seu nascedouro – a aceitar negros, foi o Vasco da Gama, precisamente o time da colônia portuguesa. Este ano de 2011, em comemoração ao fato, o Vasco, que em sua camisa negra traz uma faixa branca descendo em diagonal do ombro esquerdo à cintura aliás, desenho copiado ao River Plate argentino joga todo de preto. É estranhíssimo. Não parece o Vasco. A prática tem gerado protesto. Inclusive de vascaínos negros, que preferiam outras formas de homenagem a ter de alterar o intocável manto do clube. E não é isto lindo?

Porém, uma vez mais fomos bater longe e temos de voltar. Guimarães Rosa, se gostava de futebol, não gostava muito. Muito antes dele, quem parecia entender do riscado era o paulistano [Antônio de] Alcântara Machado, que apesar do nome português foi o maior cronista das vicissitudes e prazeres dos imigrantes italianos nas primeiras décadas do século passado. Mas mesmo neste o futebol ainda é apenas episódio. Drummond parecia gostar. Um pouco. E, antes dele, Manuel Bandeira também não muito. Ambos escreveram sobre futebol. Mas sem a gana com que falaram de pedras no meio do caminho ou de exílios em Pasárgada. Ambos produziram, como em contrário não podia ser, textos finamente escritos, embora neles não se sinta o pulso do torcedor. O coração batendo a mil. A verve do aficionado.

Poemas e crônicas de circunstância. Como esporadicamente – porque afinal ser esporádico, não ter muito sistema era o seu sistema – se pode perceber em Vinícius de Moraes. Mas, sobretudo, se pode perceber nas letras de samba de um filho de imigrantes portugueses, Noel Rosa – que, para quem sabe de samba, viveu intensamente a década de 30. Foi simplesmente a quem Chico Buarque tomou como modelo. E, entre outras, gravou do mestre, a belíssima “Filosofia”: “O mundo me condena/ E ninguém tem pena,/ Falando sempre mal do meu nome,/ Deixando de saber/ Se eu vou morrer de sede/ Ou se eu vou morrer de fome.// Mas, a filosofia hoje me auxilia/ a viver indiferente assim […].

Noel era um boêmio. Seu nome está para o bairro carioca de Vila Isabel, assim como o de Pessoa para o Chiado. Abandonou o curso de Medicina e morreu aos 26 anos, genial e tuberculoso, depois de haver revolucionado a música brasileira. Este, sim, já escrevia com todas as letras sobre futebol. Emblemáticas letras de música marcadas por um coloquialismo estilizado, tão fino que macaqueado por alguns poetas modernistas menos aquilatados. Eis o começo de sua “Conversa de Botequim”, que é de 1935: “Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa/ Uma boa média que não seja requentada,/ Um pão bem quente com manteiga à beça,/ Um guardanapo e um copo d’água bem gelada./ Feche a porta da direita com muito cuidado,/ Que não estou disposto a ficar exposto ao sol,/ Vá perguntar ao seu freguês do lado/ Qual foi o resultado do futebol […]”.

Ah, o resultado do futebol. O resultado do futebol foi uma nação de fanáticos. Mas foi bem esse o caminho do nobre esporte bretão por aqui. Primeiro conquistou o rádio e a canção popular, antes de poder ser assunto da prosa e da poesia. Da grande poesia impressa, e seus balangandãs. A televisão chegaria à reboque, em 1950.

Houve também uma fartura de cronistas. Nem todos talentosos. Mas alguns exponenciais. Quase sempre não especializados. Cito, muito na linha de Noel, embora não compositor, mas também filho de imigrantes lusos, nascido em São Paulo – depois atraído ao Rio – um nome injustiçado: João Antônio Ferreira Filho (1937−1996). Mais conhecido como João Antonio. Ele era alguém que escrevia contos e crônicas. E o futebol aparecia em suas crônicas por tabela. Embora parecesse estar sempre ali, ainda quando não. É possível lembrar de textos seus que podem figurar em uma antologia da crônica brasileira moderna, como “A Afinação da Arte de Chutar Tampinhas”. Em tempo, nomes como João Antônio – hoje, quase esquecido – foram importantíssimos por despertar na garotada dos anos 70 e 80 o gosto pela leitura. A leitura das coisas cotidianas, que, em suas crônicas, assomavam transfiguradas por esse esmalte de beleza chamado estilo.

 

γ. DA LESMA, DA CÂMARA LENTA, DO HOMEM DENTRO DO PESADELO

João Cabral de Melo Neto talvez haja sido o poeta que, de fato, mais conhecia de futebol. Mesmo que tenha escrito pouco acerca. Dizem alguns que ele chegou a praticar semi-profissionalmente. No América do Recife, que hoje já não existe. Podemos ilustrar esse conhecer de causa cabralino com dois poemas curtos.

O primeiro é uma ode – ou mais precisamente uma anti-ode à Cabral – dedicada à elegância de Ademir da Guia, o Divino. O maestro que alterava o andamento de uma partida de acordo com a tensão que ela demandava. Geralmente cadenciando-a, domando-a. Pois o apressado come cru. Elegância e pressa dificilmente se coadunam. O estilo de Ademir da Guia era pleno de perorações, desvios, longa anacefaleose, até chegarem os epílogos. Havia uma inimitável sabedoria nessa especiosa lentidão que, paradoxalmente, podia abreviar espaços com um simples toque em profundidade, à esquerda, para achar, por breve brecha, como um raio, o ponta-de-lança próximo à linha da pequena área. E aí a rede estufava:

 

ADEMIR DA GUIA

 

Ademir impõe com seu jogo

o ritmo do chumbo (e o peso),

da lesma, da câmara lenta,

do homem dentro do pesadelo.

 

Ritmo líquido se infiltrando

no adversário, grosso, de dentro,

impondo-lhe o que ele deseja,

mandando nele, apodrecendo-o.

 

Ritmo morno, de andar na areia,

de água doente de alagados,

entorpecendo e então atando

o mais irrequieto adversário.

 

João Cabral de Melo Neto

 

Que o poema fique, também, como marco de amizade. De desagravo. Aos benfiquistas. Por peraltices passadas. Em futebol, como na vida, a mágoa é má conselheira. E o que seria do futebol sem rivalidades que só no futebol, entre amigos, na amplidão dos estádios ou na exiguidade dos botecos, que os esticam – ainda quando virtuais – devem ser cultivadas?

Há, então, o outro poema. Este mais circunstancial. Mas que é inevitável juntar à postagem. Porque quando se pergunta: por que se joga futebol? Uma das respostas possíveis seria: joga-se futebol por causa das mulheres. Para poder conquistá-las? Galanteá-las? Impressioná-las? Presenteá-las? Esquecê-las? Distraí-las? Sublimá-las? Barganhar um tempinho sem ter de discutir ou “trabalhar” a relação? Vá saber. Afinal, o que mais se aproxima dos torneios medievais?

Não é uma tese muito convincente. Mas ao menos é uma tese.

Isso está dito porque, no íntimo, o que se quer driblar, aqui, é a complexa relação das mulheres com o futebol. E ter de discorrer sobre assunto tão mais intrincado. Misterioso. Faltaria espaço. Mas quem sabe uma sugestão engenhosa, na qual se capta a idiossincrática personalidade de uma escritora, possa vazar, poema abaixo, alguma sugestão. Uma pista. Trata-se de um outro poema de circunstância, também de João Cabral, como predito. Nos versos, ele discorre sobre uma das obsessões de Clarice Lispector.

Possivelmente não seja a peça mais adequada para fechar um argumento. Mas ao menos guarda alguma coerência quando se pensa no nome deste blogue.

 

 

CONTAM DE CLARICE LISPECTOR

 

 

Um dia, Clarice Lispector

intercambiava com amigos

dez mil anedotas de morte,

e do que tem de sério e circo.

 

Nisso, chegam outros amigos,

vindos do último futebol,

comentando o jogo, recontando-o,

refazendo-o de gol a gol.

 

Quando o futebol esmorece,

abre a boca um silêncio enorme

e ouve-se a voz de Clarice:

Vamos voltar a falar de morte?

 

 

João Cabral de Melo Neto

 

* * *

Até Que F.C.

Antônio Bandeira, Football in Hyde Park, 1964

 

 

Quando o Time começou a série invicta, quem poderia prever a catástrofe?

O estatístico, o jornalista, o banqueiro, o pai-de-santo? E as vitórias se foram acumulando como grãos caindo na mão-única da ampulheta. Goleadas rompantes. Humilhações aos cachos infligidas aos adversários. Posses de bola que beiravam os noventa por cento. Gols de uma plasticidade inenarrável: bicicletas, chaleiras, lambretas, chapéus, coberturas, vaselinas. Para não falar nos olímpicos, de placa, –laços, de letra, de cabeça, de morte súbita, de falta, de voleio.

E o Time não empatava mais. Vencia. Com folga. Era aterrador. Um festival de sutilezas ao pé destinadas. Primeiros toques. Embaixadas. Lençóis. Linhas-de-passe. Folhas secas. Tabelas. Trivelas. Festivais de overlapping. E mais chapas, ladinhos, peitos de pé, calcanhares, três dedos, de arrodeios, elásticos. Prolapsos. Bicos, se necessários. E, sim, curvas para dentro e fora. E, se não bastasse, os desarmes mais precisos, sem falta, na bola. As antecipações decisivas. Os lançamentos de timings jazzísticos. Avances sincronizados pela polirritimia dos sambas. Jogar sem a bola. Triangulações. Pontos futuros. Uma geometria ensinada a partir do corpo. A ginga venenosa, de entortar a dorsal do goleiro adversário antes de bater no contrapé. Ou então, as mãos trocadas mais proezas que um par de luvas já envolveu a espanar a pelota a escanteio, nas raras, avulsíssimas vezes, em que o goleiro do Time precisava mover-se.

A saber, tudo na conta, cônscia, de que futebol é antes sonho. Antecipar movimentos tornando-os imprevisíveis. No fim, é a mesma tarefa do poeta, apenasmente feita pelo corpo. Grafada, no fino ar, pelo corpo. Ou melhor, por um grupo de corpos. As vitórias do Time, longe de calcadas num pragmático defensivismo, eram compostas do somatório dessas antecipações do mover-se. Semi-instintivas como fossem. Como fossem frágeis bem-te-vis que desafiam altaneiros gaviões. E os logram em pura antecipação de moveres no vôo, ainda que sob o risco da própria vida. Alguns chegam a bicar o cocuruto dos gaviões. Porém uma hora algo desfunciona. Sai dos guizos. Todas essas manobras, extremamente ao risco, são belas. Até que… Um dia é da caça. Ainda que, no caso, a caça seja o predador (o gavião), enredado pela destreza do predado (bem-te-vi). Qual o ciclo disso ninguém sabe. Sabe-se, no entanto, que farra de nenhum bando de bem-te-vis prevalece para sempre. E, mais cedo ou mais tarde, topa num até e num que

Sim, Senhoras e Senhores, de pé, tirem os chapéus, reabotoem por um pouco os casacos, os colarinhos; reapertem o nó das gravatas – refaçam o make-up, meninas, os penteados, por favor! (vai aqui, neste por favor, uma inflexão castelhana) – ante essas duas partículas unidas para um caráter temporal… Na vida, como no futebol – ainda que na TV – elas a tudo põem termo. Tudo. Desde acordos ortográficos à vida mesma. Não poucas soluções verticais, sim, acabam na mais ignominiosa horizontalidade de um até que. Não são ambas partículas as que assomam cintilantes na célebre fórmula das núpcias? Assim à imagem da vida e do casamento, mesmo a mais vibrante, inquebrantável sequência de glórias, jamais – never ever – vista no universo dos relvados termina em um modesto até, em um singelo quê… [PLACE COMERCIAL HERE].

E todavia, eis a questão. A própria questão, no caso do Time. A carnadura do argumento. Medula. O Time convertera-se em pancada profunda no atequeísmo. O Time parecia imune às partículas, como se alguém houvesse inoculado em seu espírito uma vacina anti-derrota. Ou seja, até que… bulhufas. Até que… necas de pitibiribas. Zeros à direita e à esquerda — dependendo de se o Time jogava de visitante, ou mandava os jogos. A independer de estar em casa ou viajar, o até e o quê tardavam como nunca. Pareciam ter perdido a usual serventia. E se haver desmontado séries estatísticas. Eis a questão. Séria questão. E era só azeite vovozinha e selváticos gritos de gol. E nada do atequê chegar. Tão só essa verve. Essa fúria grande e sonorosa, para lembrar do épico e do poeta. Nenhuma circunstância periclitava. Reponham os chapéus, tornem aos assentos e à soda limonada, Senhoras, Senhores. Desculpem-nos a digressão.

Todos da presciência passaram à pós-certeza: aquele Time não perdia nem perderia mais. Jamais. Nunca mais. De jeito nenhum. Nevermore. Nem pelos figos da figueira que o passarinho bicou. Ainda que os corvos aprendessem, como papagaios, a contar histórias da Moura Torta. Ou a dizer: “dá-o pé-louro”. Ou a chilrear como rouxinóis ou corrupiões. Nem que chovesse canivetes. As galinhas pusessem triângulos escalenos. Ou o nome Sócrates não mais designasse o pai da filosofia, um talentosíssimo meia meio boêmio de Ribeirão Preto e um político – parece, questionado – em certa república europeia. Por qualquer acidente, tsumami, acaso ou mau presságio, aquele Time não perdia. E passar bem.

Preocupados, os cartolas da Federação reuniram-se. À primeira questão – Quanto? – outras em corolário seguiram: E agora? Evasão de público? O rúgbi prospera? Até a porrinha, o curling, a luta greco-romana e o hóquei sobre patins já fazem mais adeptos? O quê? No Algarve o cricket é já mais popular? Em Trás-os-Montes? Quem diria, no Sertão até? E quanto ao desinteresse dos patrocinadores? Que falar do receio dos grandes clubes, temerosos de goleadas desmoralizantes? E se a Federação concedesse ao Time o status vitalício de hors concours?

Uhm, noch nein. Seria exagerar um pouco – disse Joseph – Mas, então, Scheiße, que fazer? O time não só não perde: já não toma gols!

Consultaram executivos estadunidenses, gurus nepaleses, filósofos franceses, estadistas britânicos, tenistas australianos, mascates libaneses, banqueiros suíços, mafiosos, pais-de-santo brasileiros, generais alemães, primeiros-ministros portugueses, magnatas russos – verdade que essas sete últimas classes na surdina consultaram. E Nada.

Um filósofo francês teve, afinal, uma ideia: assegurou aos cartolas que a solução poderia ser dada por Miss Venezuela. Porém, na prática, a bela – que por mera, meríssma coincidência, era também loira – evaporou com a teoria. Coisas da globalização. E das teorias do Caos. Aí, um caudilho latino-americano resolveu intervir por conta e risco. Mas o Rei de Espanha retrucou:

¿Por qué no te callas?

Ah! Não só nada. A coisa parecia sem jeito. Nem mesmo promessas a Santo Expedito! A diferença era tanta que os atletas do Time começaram a jogar com dez por alvitre próprio. Depois baixariam para nove, é verdade. Os que não participavam da partida, entediados, entretiam-se jogando gamão, numa mesa à lateral do gramado. Fumavam Havanas. Às vezes, dizem, mandavam os gandulas atirar, por brinde, garrafas de champanha à torcida. Na sequência, começaram a portar uma saúna desmontável e meia-dúzia de massagistas mais anatômicas do que chassis da Fórmula-1. E combinando uma piscina portátil aos sistemas de irrigação dos relvados começaram a atrair mais atenção e fotógrafos que o próprio jogo em si. Segundo as más línguas, o craque do time sofria de gota. Havia um inexcedível grau de aristocracia naquela equipe.

E, se é assim, que dizer da última partida, um 7×0 aplastador? E, não bastasse, em um dos tentos, Athekhevisky, o grande líbero, a glória maior dos adeptos adversários, dera com os fundilhos na grama, driblado que fora, magistralmente. E não pelo craque do Time, mas pelo humilde segundo reserva do volante de contenção. Verdade, toda essa pirotecnia esteve mais para vitória de Pirro. Tantos malabares para um estádio quase às moscas, pois a própria torcida já desistira do Time faz alguma temporada. Perdera a graça. Ninguém mais os seguia, nem pela TV. Houve ameaças. A Al-Qaeda tentou sumir com eles. Falam que, por outro hemisfério, a CIA.

Por então, formaram-se seleções para bater o Time. A todo custo e várias. Nacionais, multinacionais, transcontinentais, thais, neanderthais, unilaterais, multipolares, estruturalistas, pós-modernas, pós-contemporâneas, LGBT’s, virtuais, bipolares, desglobalizadas, opusdeisinas, multiculturais, suplementares, indecidíveis, deleuzianas, mourinhas, legionárias, à tasca, totais, cisalpinas, ultramontanas, jacobinas, desconstruídas, luizinas, filipinas, escolásticas… Tss. Tss. Tss. Nada. Nada. Nada. O Time as trinchava, todas. As trucidava. Enchurascava-as sem piedade nem dó. As comia como bolinhos de bacalhau. As refogava em microondas. Formaram-se, assim, meta-seleções… para meta-derrotas. Era um ultraje futebolístico. E todas levavam olés históricos. Chocolates colossais. Sovas desmoralizantes. Verdadeiros nocautes.

De tudo se tentou. Juízes devida e regiamente subornados. Propostas indecentes a jogadores mais venais – a embolsar, verdade, muito mais que trinta dinheiros. A cada temporada, trocavam os modos de disputa dos diversos campeonatos, copas, torneios. Fórmulas as mais esdrúxulas. Calendários alterados sem aviso prévio. Adversários sorteados cinco minutos antes do apito inicial. As investidas de compras eram cifras de zeros infindos em euros, dólares, libras, coroas, yuans, rúpias, conchas, reais.

Certa feita, marcaram um amistoso em Nuuk, na Groenlândia e, em menos de 48hs, outro em São Tomé. Mas o Time fez picadinho do esperado choque térmico. Nada. O jetleg para o beleléu foi. O Time parecia escarnecer de tudo. De todo mundo. Em toda parte. Botar no bolso os fusos horários, as latitudes, como se guarda, no jeans, um envelope com tabletes de menta.

Tudo somado desistir era o por dever. Num Ato de desespero, Joseph e seus compinchas, optaram pelo sequestro. E despacharam todo o Time e comissão técnica para uma estação orbital depois de pagar os olhos da cara aos Estados Unidos, à Rússia e à China. À China? Sim, o chineses, desejosos de aprenderem a jogar a fina arte do futebol, tomaram para si os encargos de nutrir, vestir e dar um soldo mínimo – mínimo, de facto, custo & benefício – aos integrantes do Time em órbita. Foram despachados do Cabo Canaveral, certo Sábado de Aleluia às 16hs, horário local; o planeta, congraçando-se, via-satélite; estourando champanhas, aliviado.

Podia voltar-se ao futebol.

 

 

[PAUSA PRÉ-EPÍLOGO]

 

 

* * *

Veja se agora você descobre outras coisas

 

O azul em suas escleróticas é planeta. Bola de squash flutuando em água mineral. Há nele a desnecessidade de ser belo. Porém tratar de cores é sempre estar mais perto do coração. E ele mais o branco são alga que só se dá em notícia com um pouco mais de desenho. Que é no desenho onde se entra, por pouco, no diagrama da criação.

O molho de chaves sobre a madeira semi-fosca da mesa. E o que a sala à miraculosa luz do ocaso refrata: aquele delicioso sabor de se estar perdido em ruas. Não por necessidade, mas por uma sorte de opção, anti-turismo. E mais dois passos pela sala quase austera. Antes excessivamente ordenada. Lavrada na sobriedade que releva a dignidade morta de cada objeto: o armário, o jarro, o quadro.

É como volver aos dez e muitos. E adentrar, quase sem querer e crer, cheio de recreios, frios de sezão, pudores – no íntimo, falsos – o pequeno apartamento da professora da graduação apenas para um café. E haver tantos textos. Quer dizer, texturas tantas sob a pele de cada palavra, que só a clepsidra nos vai apontar. Depois, depois dos filmes. Anos depois. Décadas. Diplomas. Os subentendidos.

O que ela quis mesmo dizer com:

Veja se agora você descobre outras coisas.

Chove.

Veja se agora você descobre outras coisas.

As palavras chegam com tanta clareza. E ressoam, consensuais. Jamais desviam. Mas sabem á torpe ignorância de se sentir acolhido. Gregário. Parte de uma causa maior. Algo concreto, que tangencia grandes abstrações. Os nomes que nos fazem tão infelizes: democracia, dignidade, retidão, paciência, amizade, fé, amor. Mas, digamos, numa convenção dos escoteiros é como as palavras chegam. Subitamente. De quando em quando. Com aquela certeza de se crer numa causa cuja legitimidade não se põe em dúvida nunca, nem por um segundo:

Veja se agora você descobre outras coisas.

E mesmo que a tênue luz ainda filtre-se para contra-esmerar cada objeto da sala com uma sombra única, que se vai lembrar para sempre, para sempre, agora o mistério já não é o mesmo. E em não sendo o mesmo como pode ser mistério? Há as dobras da cortina. E cada uma delas, feito um tipo, na caixa de tipos, entra para composição. E ainda que das dobras da cortina em tipos convertidas saltem gralhas, são tão deliciosas a marca das serifas como flans de iogurte com calda de goiaba.

E, então, após a sala, doce é o rumor sem fama dos tecidos no que ela desabotoa a blusa de seda do lado de lá, às costas. Ouve-se como dobra cada peça. Os diferentes volumes sucedendo-se no lastro do colchão ao erguer dos braços, e desvencilhos. E de como o zíper ressoa, entrabrindo a saia, a encher o ocaso de uma langorosa bondade. Cheia de bocejos, cigarras que se ouve e não há, lentas circunvoluções, meandros, dobras. Alguma tensão. E de novo o zíper. E aquele um vago aroma de bredos e nardos.

É. Sim. É verdade. Ninguém pode volver nunca aos dez e muitos. E há as frases. Aquelas. Do tipo. Predadoras. Que alcançam o status de cabalas. E em cuja ordem não se pode tocar sem desviar o rumo da vida. Que perseguir nos vãos nos vão com o mesmo instinto com que as mãos se postam para amparar, por travesseiro, o rosto adormecido sobre o tampo da mesa:

Veja se agora você descobre outras coisas.

 

* * *

 

Com philosophia não há arvores: há ideias apenas

Frase num pára-choques de caminhão em Florianópolis, Sul do Brasil

 

 

Pessoa Diria

 

 

No último semestre de 2010, mais de 200.000 pessoas passaram pela exposição Fernando Pessoa, Plural como o Universo. A exposição esteve em cartaz no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. E ora segue para o Rio.

 

Pessoa é uma obsessão no Brasil. Seria em qualquer país. Mas no Brasil é mais. Cada vez mais. Não há um único poeta brasileiro do século passado mais amado, citado, cobrado em exames, imbricado na vida, no seguir dos dias, no preço do abacate do que Pessoa. Isso deve ter enervado alguns. Os grandes. Há ciúmes. Explícitos. Drummond, por exemplo, escreveu um “Sonetilho do Falso Fernando Pessoa”, que é assim:

 

Onde nasci, morri.

Onde morri, existo.

E das peles que visto

muitas há que não vi.

 

Sem mim como sem ti

posso durar. Desisto

de tudo quanto é misto

e que odiei ou senti.

 

Nem Fausto nem Mefisto,

à deusa que se ri

deste nosso oaristo,

 

eis-me a dizer: assisto

além, nenhum, aqui,

mas não sou eu, nem isto.

 

 

Não é o melhor Drummond. Mas revela no incontornável do ressentimento a pitada da admiração. Especialmente ao brincar tão “levianamente” com as antinomias pessoanas.

 

Também recentemente lançou-se, no Brasil, uma sibérica biografia de Pessoa [Pessoa, Quase uma Biografia, Ed. Record, 736 ps.]. Foi escrita por um conceituado advogado de Pernambuco, que ainda leva Cavalcanti no nome. Talvez só essa de bacharel & letras desperte alguma desconfiança. E biografias, bem, às vezes pesam mais do que valem. E embora os dez anos da pesquisa, as teses defendidas não são convidativas. Ou mesmo outras. Os fatos não reluzem um Ano Novo. Que na vida pessoal Pessoa fosse tímido, que a seu dia-a-dia faltasse qualquer pitada de heroísmo, que sua relação com Ophélia Queirós não se tenha consumado, que houvesse uma suposta homossexualidade, que o ocultismo lhe atraísse… Quês e mais quês e mais quês não dão um queijo. E há muito fôlego para eles. Mas todos esses quês parecem cafés pequenos, tomados ao largo da Brazileira. Um cardápio de assuntos que não desvela muito.

 

Muito mais misteriosa [e re-ve-la-do-ra!] é a poesia de Pessoa. Ou os próprios nomes: Pessoa, Ophélia, Caeiro, Orpheu, Sá-Carneiro… Muito mais misterioso é o fascínio que a poesia de Pessoa exerce num país carnavalesco, barroco, grotesco e minimalista, derramado e concretista; todo retorcido, contrastado, nada afeito à reflexão. E, aqui, poder imaginar Pessoa torcendo pelo Vasco da Gama, nas arquibancadas de São Januário. Ou assoviando um samba de Noel, num boteco – perto dos Arcos da Lapa ou em Santa Teresa – entre uma e outra caipirinha. Pessoa é nosso à fração que se fez palavra. É nosso e pronto. Como a batida da bossa-nova, as redondilhas dos cantadores do Nordeste, o falsete de Milton Nascimento, o humor de Carmem Miranda, a capoeira, a arquitetura de Niemeyer, os dribles de Neymar.

 

No íntimo, bom é pensar que Pessoa gostaria disso. Por que quem não gosta de ser gostado? Em quase qualquer lugar? Em todos?  Ou de se saber numericamente tão reivindicado no país para o qual enviou o mais clássico de seus heterônimos. Milhões. Em latitudes. Em atitudes várias. A ler Pessoa. Nutrir-se dele. Todo um mundo. Em toda parte.

 

* * *

 

Por que, por vezes, Portugal prefere pensar pequeno? Ou opta por? Como não pensar que um país que produziu alguém assim – pessoa diria de outra forma (?) – não pode sair, de pés próprios de eventuais percalços?

 

* * *

 

O mar é um afrodisíaco para perdões imediatos

“Curral” de pesca na região de Bitupitá



Ensaio Sobre as Águas

Quem os levou foi Leandro. Como mestre de canoa, o filho de Ivan, revelou-se afoito e inconsequente. O inverso do pai, que as construía, e era muito de medir palavras, cauteloso. Talvez, por igual, por certa tartamudez não infrequente entre os pescadores de Bitupitá. Mas a leviandade de Leandro andava bem à medida de seus dezessete. Tirou finas em mourões, para exibir o quanto detinha o manejo da embarcação. Porém, ao arriscar uma manobra mais ousada, abalroou a proa contra a tela de um curral. O proprietário, que se encontrava próximo, numa outra canoa, bem mais robusta que a pilotada por Leandro, esbravejou feio. Mas logo a contrariedade dissipou-se, assim como o susto.

E, então, todos foram convocados por ele, aos gritos, largos gestos, para um peixe grelhado e cerveja. Logo estavam na água, dando braçadas que suprissem os cinquenta ou sessenta metros entre as duas embarcações. Joel foi o primeiro a chegar. E conseguiu soerguer-se sozinho. Flávia veio em seguida, e Joel ajudou-a a subir. Milena e Álvaro chegaram na sequência. E, por último, pois haviam mergulhado um tanto depois de seus passageiros, Leandro e outro garoto, que lhe ajudava ao cabo, na condução da canoa. Função a que eles chamam de “cabeiro”, e que envolve, entre outras fainas, a de aspergir a vela com água do mar, colhida em uma cabaça.

Todo o time de despesca do curral usava um curioso uniforme laranja, de mangas compridas e chapéus de palha à cabeça, presos ao queixo por um cordame de tucum. O proprietário, Antônio José, sentado à popa, era auditor fiscal estadual, e revelou-se um bom anfitrião. Sem chapéu, cofiava um vasto bigode grisalho; e brincou mais de uma vez com a desastrada manobra de Leandro, a quem se referia como “Ivanzinho”:

O Ivanzinho ainda não mediu os costados da barca dele? Se o Ivan soubesse das estrepolias desse menino… sei não…

À certa altura, Leandro sentiu os brios e amuou-se um tanto. Mas logo estavam todos comendo um serra fresquinho, recém retirado do mar e bebendo cerveja. Milena preferiu uma soda. Também provaram de uma zambaia, que impressionava mais pela extensão esguia do corpo, alvíssima carne, quase azulada, que propriamente pelo sabor. Em dado momento, as postas de peixe eram depositadas, depois de fritas, diretamente sobre as tábuas do banco de popa. E Seu Antônio José não perdeu a vez:

Podem comer sem susto. O mar é melhor detergente. Isso aqui é mais limpo do que os pratos da Toinha!

Ele realmente tirara aquele fim de manhã para ironizar um tanto com o atabalhoado jovem timoneiro. Com o pequeno desastre de sua manobra. A mãe de Leandro, Toinha, era proprietária de uma pequena barraca de praia, onde preparava algum quitute. Mas, então, ao banco de popa, havia também uma travessa com farofa. E, após fritas, quem o desejasse podia polvilhar as postas na farofa antes de degustá-las. É provável que Joel e os outros jamais houvessem provado peixe mais fresco em toda a vida.

De resto, Joel restou à popa, com Flávia, em alguma conversa um tanto animada com Seu Antônio José. Álvaro e Milena seguiram mais à proa. Mas retrocederam; e, por fim, acabaram de pé, equilibrando-se sobre o banco de vela, agarrando-se de um flanco e de outro, ao mastro. Foi quando, de fato, começou a “despesca-grande” do curral – como eles chamam – após findarem uma meticulosa limpeza da extensa rede.

E então a rede, com sua trama de fios azuis, foi sendo alçada à canoa ao empuxo concentrado de quase todo grupo, enquanto três deles faziam lastro, escorados no flanco oposto. E o ritmo do arrasto da rede era ditado por comandos de voz, que roçavam um canto. Dezenas de peixes eram tão pequenos que coavam-se pelo náilon das malhas, e as escamas soltas na água emprestavam-lhes um efeito fosforescente à medida que a pressão sobre os outros peixes, maiores, crescia; e a rede entumescida roçava o verdume da canoa. E logo que a rede subiu mais à tona, Joel pode divisar que ali vinha um peixe de dimensões excepcionais. Pois, então, toda a rede vibrava em espasmos de uma formidável violência. Verdadeiros trancos. Algo grande debatia-se ali pela própria vida.

Joel não estava errado. Tratava-se de um enorme cação-lixa de cerca de dois metros. Seu Antônio José lhe dissera que, inicialmente, pensara tratar-se de uma aruanã.

Os pequenos peixes prateados continuavam a vazar pelas malhas. E o rastro fosforescente das escamas luzia ainda mais intensamente sobre o verde das águas. Flávia, que estava bem à frente de Joel, este encostado ao banco de popa, escorou-se nele. E ele sentiu um calor subindo pela coluna. E fortemente excitado pelo volume das formas dela, deslizou a mão pela cintura da mulher. Por ser alvejado, de leve, nas faces, pelos cabelos dela, molhados por aquela água salífera, e restos de maresia em sua pele alva, sentiu um imediato, ardente desejo de possuí-la. Ali. Naquele instante. O short branco úmido, colado e translúcido revelando-lhe a minúscula parte de baixo do biquine, e o bem torneado das pernas:

Será que a canoa pode com o peso desse bicho? – ela perguntou – com um travo excitado na voz. Não por receio, mas em admiração, porque nunca havia visto peixe maior que aquele, vivo, debatendo-se, assim bem diante de si.

Fique tranquila – Joel lhe disse – eles sabem exatamente o que fazem.

No meio do cardume, do amontoado de espécimes diversas, o grande tubarão debatia-se com vigor. E foi dificultoso subir com a rede para dentro. A borda da canoa a inclinar-se tão próxima à face da água que eles viam a hora de, em caso de uma onda mais robusta, um jato de água borrifar-se para o cavername da embarcação. Mas isso não aconteceu. Ainda assim Flávia inclinara-se inteira para o lado contrário, em lastro. E Joel acariciou-lhe o pescoço e os ombros.

Ela o faz por instinto, ele pensou. Coragem não lhe falta. Nem o dizer a verdade. E nem beleza. Simples exercícios matinais e alguma natação ajudavam a manter o corpo dela em plena forma. E enquanto o time de despesca desdobrava-se na tarefa de passar para dentro da canoa a rede com o enorme cação, Joel deu de lembrar de como haviam feito amor, na noite anterior. Ela, então, preferira um modo gentil e lento. Fixando-o nos olhos. Ele adivinhando, podendo ler o prazer dela sobretudo na contração de seus lábios. Como de uso, tremiam. Repuxavam-se. Retesavam-se ou distendiam-se. Como molduras do que ela sentia. Desenhavam estranhas formas. E quando chegavam próximos a mascar uma goma inexistente, enchiam-se de saliva. Era o sinal. Dentro em breve, ela iria gozar. Como quase sempre, sem espalhafato ou grandes urros. Mas por um gemido apertado, doce de ouvir.

Porém, então, o sol caía em placa sobre eles. E ele, às costas dela, podia entrever-lhe o perfil iluminado por sucessivos e diferentes matizes de reflexos do sol no lombo das ondas. E Joel encheu-se de súbita ternura:

Minha mulher! – disse isso apenas num mover de lábios. Sem qualquer articulação de voz.

Uma vez lançado sobre as cavernas, o enorme cação bufava feito um touro. Emitindo esse estanho ruído pelas brânquias que vibravam intensamente. Até que um dos tripulantes enfiou o dedo em seu minúsculo olho lateral e, com um cacete, encheu-lhe de pauladas na parte de cima da cabeça. E o matou. Nessa hora, Flávia e Milena desviaram o olhar. Álvaro fixava a cena fascinado, desde o banco da vela, do qual Milena havia descido:

Ah uma máquina! – haviam trazido uma câmera. Uma Cannon de boa resolução. Mas a câmera havia ficado na outra canoa. E, no mais, teria sido impossível trazê-la a nado.

Morto o bicho, para seu corpo enorme, convergiam todos os olhares. Até um polvo de dimensões razoáveis, ao lado de pequenos cardumes de sardinhas e dos samburás dos pescadores, não parecia mais que um coadjuvante perto daquele Leviatã.

Vocês me deram sorte – disse seu Antônio José – esse bicho é dos maiores que já caiu na rede nos últimos tempos – tomou um gole de cerveja, ao modo de brinde, em aberta comemoração.

Depois, Flávia fez questão de tocar a pele áspera do cação. E foi hora de Joel pensar:

Ah, uma máquina!

Porque a cena era tão arquetipicamente bela e fera. Mas quando Flávia brincou de arremessar uma pequena sardinha para dentro da boca do bicho, quase pondo os dedos ao alcance da mandíbula do tubarão recém abatido, um pescador a advertiu que nisso algum risco havia:

Pruquê pode inda tê um ‘restim’, um fiapo de vida nele, né dona? A ‘rente’ nunca sabe…

Num gesto brusco e automático Flávia afastou a mão. O sol do meio-dia lacerava. E não é preciso dizer com que destreza eles voltaram nadando para a outra canoa, após despedirem-se. Todos a imaginar imensos cações-lixa como aquele, nadando sob seus corpos. Porém Joel e Flávia nadavam em reguladas, bem ritmadas braçadas. E, quando o amigo de Leandro tratava de soerguer Álvaro, como de uso, o último a chegar, utilizando-se do cabo de vela, ainda teve tempo de gracejar:

Mas que merozinho mais pesado! – em referência ao porte físico gorducho do outro.

Na volta, Leandro ainda cometeu uma segunda imprudência mais grave. Ao tentar costear de fininho a amurada de um curral, acabou involuntariamente fisgando, com o leme, o cabo de âncora de uma outra canoa e rebocando-a a toda velocidade. Seu amigo, arriscadamente, pulou n’água para desenredar o cabo do timão, no que a proa da outra canoa achegava-se perigosamente, não só pela tração da canoa em que eles estavam, como também movida aos insultos de seu ocupante, que, até então, pescava tranquilamente, de linha, acompanhado de uma filha pequena. A garotinha devia ter seus cinco anos. Talvez seis. Desfeito o bizarro enleio, o outro falou com Leandro como se nada houvesse acontecido. E até lhe perguntou se certa partida de madeira já havia chegado ao barracão de Ivan. O mar é um afrodisíaco para perdões imediatos.

Logo estavam na praia. Sentados em rústicas cadeiras de armar, na barraca de Toinha, tomando água de côco:

Ah, ainda bem que eles vão trazer o cação pra praia – disse Milena – contar tudo isso sem fotos, lá em Fortaleza, sei não: ia parecer história de pescador.

* * *

Eu pensei que…

Jannis Kounellis, Bells, 1993



Um pouco mais de miolo



Rua Raul Pompéia. Pompéia. Zona Oeste. São Paulo. Terceiro andar.

No Dia de Finados de 2001, fui dormir de madrugada. O sono foi intenso, mas curto. Acordei pouco antes da manhã. Uma sexta. Talvez com um fiapo do que andara lendo ainda a espiralar no sonho. Tratava-se dos Comentários de São João da Cruz à Noite Escura da Alma. Pela janela entreaberta, filtrava-se a frialdade. E uma perna de bairro — mais desolado e belo — fazia-se ao claro-escuro. Escrevi um poema e tomei um pouco de leite. Enviei o poema, por imeio, para alguns amigos.

E fiquei meio lendo, meio cochilando até quase o meio-dia.

Então desci à pequena padaria do supermercado 24 horas. O dia estava encoberto e ameno. Uma leve friagem percorria as ladeiras íngremes. Sentei-me a uma mesa de onde podia divisar a rua pela vidraça e corri os olhos pelas manchetes da Folha. Pedi um café com leite e um pão com manteiga, passado na chapa; salada de frutas; suco de acerola; algumas fatias de queijo; apresuntado de peru; geléia de goiaba.

A balconista era certamente novata. Havia algo de estranhamente desajustado em seus gestos. Em menos de meia-hora e um quarto, tomei meu café e li um pouco mais do jornal, tomando algumas notas em um minúsculo caderno. E também notei que o pão viera sem o miolo. Um desses garotos descabelados e rotos me pediu algo em voz baixa. Minha resposta, em voz baixa, o dissuadiu de insistir por algo.

Após pagar no caixa, acenei para balconista novata, e disse-lhe em reserva — ela, surpresa, debruçando-se além da conta debaixo do avental sobre o balcão:

Achei interessante que o pão tenha vindo sem o miolo. Às vezes, eu até gosto assim. Mas, talvez, nem todos os clientes vão achar simpático.

Ela me interrompeu com um sorriso constrangido, onde havia um mau dente incisivo:

É que o pão tava quentinho, eu pensei que…

Sabia um tanto do que ela havia pensado. Ou o adivinhava, de algum modo. Ou pensava que adivinhava: o quanto no Nordeste há esse hábito de pelar o pão. E se deixar brincando, dedos involuntários, a modelar formas com o miolo. Formas que, por vezes, algo sugerem. Nem que apenas nuvens mais carregadas em um dia límpido, sem qualquer migalha delas.

Ao sair do supermercado, com o feriado estendido, desacelerando horas, me ocorreu ir até um café, e passar o resto da tarde lendo por lá. E tomar alguma cerveja para abrir o apetite. O feriado, desde o sol-posto da véspera, despovoara um tanto as ruas. Os paulistanos haviam descido para as praias. Estava agradável caminhar. Notei cordões bem finos enroscados, como delicados cipós, ao longo dos fios de telefone, e que isso me agradava. Passei por um homem, com sacolas de supermercado. E ele, soerguendo uma das sacolas, não sem alguma dificuldade, lambia algo que parecia ser um selo. E, porém, sobressaltou-se quando notou que era notado. Uma jovem, bela como um anjo, passeava seu advento. Sem timidez. Nem expansão. Mas um certo, espontâneo, aloofness. Uma mulher loura, madura e branca, excessivamente contida, em formas densas, sob um jeans, prendeu meu olhar por um lapso, próximo a um ponto de ônibus. E lembrei de um poema. De Pessoa: “Dá a surpresa de ser/ É alta, de um louro escuro/ Faz bem só pensar em ver/ Seu corpo meio maduro”. Chegando ao café, dei com todas as mesas à calçada, vazias. Dispostas de certo jeito que gosto. Um tanto obliquamente em relação à travessa. Mas um impulso me disse para não sentar ali.

Segui até o fim do quarteirão. E desatei um passeio pelas ruas em volta. Um tanto à deriva. E de novo me veio a visão e o sabor daquele casca de pão, a manteiga liqüefeita, por cima, como se da terra. E de novo me veio o sorriso da balconista. Seu mau dente. Minha fria formalidade.

Pensei em direitos do consumidor. Está na moda. Como o politicamente correto. Certa compulsiva ênfase para se falar em discriminação. Meio à norte-americana. A bobagem de todos se mostrarem infinitamente complacentes e expeditos com os aidéticos. Ou com os homossexuais à frente de câmeras e de microfones abertos. Para depois nutrirem as mesmas posturas de sempre, em piadas torpes, por botecos e botecos, pelo país afora. E, em meio a toda essa massa sem fermento, os tais direitos do consumidor. Mas que argumento de pão mais sem miolo! O que, no fim de tudo são os direitos do consumidor?

Por exemplo, o que são os direitos do consumidor diante do que se deve ao próximo? Nada são, em certas circunstâncias. Quando muito, a ratificação mais extrema da insanidade. E ainda mais diante daquele constrangimento da balconista. De seu mau dente. De seu primeiro dia de trabalho. De seu acanhado, belo sotaque nordestino com aqueles “d’s” tão liguadentais. Tão dignos. Talvez pernambucanos. Ou caririenses. De sua perene divindade. De ela apontar que, de fato, Deus é – porque falta tanto para tantos. Do fato de estar ali desde manhã, e de haver tomado um ônibus para ali estar, desde antes de manhã; enquanto se pode escrever poemas, passar imeios para amigos em cidades distintas, em países outros, deambular pelo bairro tranquilo. Entrever comportamentos estranhos. Belas mulheres. Finos cordões enroscados na fiação telefônica. Relembrar-se de um poema de Pessoa. Ler São João da Cruz – e guardar tão pouco! Do fato de ela mal saber ler, enquanto se pode fazer pós-graduações insípidas, tão sem sentido, tão inúteis diante do essencial, do fato matinal que é um café com leite com pão e manteiga postos à mesa.

Mesmo sem miolo.

E pus os óculos escuros, para disfarçar que a uma certa tristeza corresponde água salgada nos olhos.

Então, voltei para casa, porque a vida que se faz entre livros é, por igual, faina que parece não ter fim. E pão repassado na chapa. E, por vezes, exige um sangue frio, que não pode ceder a essas sentimentalidades. Mesmo de um exilado. Ou à essa talha de uma comoção mais forte na manhã de um feriado. E é um tanto palha, no fim de tudo. Lucerneira. Um entristecer da carne – se a ela não se põem limites. Como o de caminhar por ruas semi-desertas quando o dobre de finados, nos sinos da Igreja de Nossa Senhora da Pompeia, anuncia tempos idos. Tempos em que, quem sabe, se não descia às praias para desfrutar do feriado que, então, se chamava “Dia Santo”.

Ao dobrar o jornal sob a axila, para abrir o portão do prédio, sentia-me refeito. Feliz, por lesado em meus direitos de consumidor. E, eventualmente, com um pouco mais de miolo.


[Verão de 2001]


Nota — Texto originalmente publicado na já extinta revista (especializada em crônicas) Nariz de Cera, em 2004.

* * *

Menos o Ribamar que ele nunca deixou de ser

O poeta Ferreira Gullar, Prêmio Camões, em 2010



Biliático Ribamar


Não se pode fugir a alguma náusea depois de se ler certa entrevista de José Ribamar Ferreira — aliás, Ferreira Gullar — ao diário português O Público.

Gullar é isto mesmo. O retrato de parte de nossos intelectuais. A forma como defende José Serra e ataca Dilma Rousseff é, entre outras coisas, deliberadamente falaciosa. Se nos fosse dado criar um neologismo para o caso: “biliática”.

Eleições. Um assunto que desperta paixões. Em geral, mais em pessoas ou extremamente jovens – e portanto ingênuas – ou em velhos mal intencionados, como Gullar, que com certeza tiraria alguma vantagem pessoal no caso de uma improvável vitória de Serra.

Toda a entrevista é uma coleção de resmungos. Alguns chulos. De resmungos típicos daqueles esquerdistas de gabinete. Daqueles ex-comunistas que jamais dispensaram viver sob ar refrigerado. Os mesmos que até hoje se entrepoupam. Como, por exemplo, ao referir-se ao apoio dado pelos amigos Oscar Niemeyer e Chico Buarque a Dilma Rousseff, Gullar faz ressalvas a ambos. E pensar que esse escritor, que possui um magro, bom volume de poemas (seu segundo, A Luta Corporal [1954]), e nada muito além disso (seus livros sobre estética e artes plásticas são mais do que datados), recebeu o prestigioso Prêmio Camões este ano…

Há na entrevista de Gullar não só aquele tom de velho debochado, que acumulou prestígio e poder ao longo da vida. Mas, ainda mais expressamente, o tom do jovem inescrupuloso, que não media o esforço de o quanto sua militância política implicaria em algum bem-estar material sobre qualquer custo. Acima de qualquer escolha ideológica. Que talvez se sentisse humilhado até no nome — Ribamar - que ele sempre quis apagar de seu nome em prol do afrancesado, embora gralhado Gullar [Goulart, Goulard?]. Em sua entrevista vem tudo de volta, à tona, menos o próprio Ribamar que ele nunca deixou de ser. [1] Ou, quem sabe, ele também omita que começou na literatura tendo por parceiro, aliás, outro Ribamar: José Sarney. E que juntos até editaram uma revista, A Ilha. Pois sim. Nessas horas, a memória não aflora tanto quanto quando ele informa à exasperada repórter portuguesa que foi preso na ditadura.

Há mesmo um momento em que ele diz que “do povo vem tudo”: Lula e Ferandinho Beira-Mar. Até se pode concordar com ele. E pode-se dizer, em suplemento, que de um povo que tem uma elite intelectual onde se sobressai um certo Ferreira Gullar vem mesmo tudo, até os Josés Ribamares, Sarneys e Gullares da vida.

 

Para a íntegra da entrevista:


http://bit.ly/bbQhtP


[1] No Brasil, o nome Ribamar é automaticamente associado a gente pobre. Em especial, do estado do Maranhão, cujo padroeiro é São José de Ribamar. É de lá que provém Ferreira Gullar. Daí que tanto Ferreira Gullar quanto o ex-presidente José Sarney — cujas aspirações literárias são levadas à piada aqui no Brasil, apesar de, pelo prestígio político, ele haver ingressado na Academia Brasileira de Letras — levem no nome de “José Ribamar”. A família Sarney exerce grande influência política em dois estados brasileiros, governando-os como feudos. O próprio Maranhão, desde a década de 60 — Glauber Rocha inspirou-se na demagogia despótica de Sarney para filmar um documentário no Maranhão — e o Amapá, já na região da Amazônia, e pelo qual José Sarney elegeu-se senador. O Maranhão é um estado historicamente muito rico. Potencialmente muito rico — há reservas e mais reservas minerais (sobretudo minério de ferro); ao sul há extensas plantações de soja.  Mas apesar de tudo isso, o Maranhão é o segundo estado mais pobre do país — e, aqui ressalvo, não pelo PIB, mas pelo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).

 

* * *

Imerso até o pescoço

Alexandre da Cunha, Skateboarderistismatronics (fan),  2004



Pelo Tempo do Agora

 

 

Isso vem de um tempo em que seus amigos eram ruídos. Como o da sineta do distribuidor de gás, em sua motocicleta, cedo, numa manhã de sol. Ou o rumor distante da televisão sempre ligada, na sala. Os bem-te-vis. Os sebites. As turueís. As lavandeiras. A buzina de um carro passando lá, abaixo. A corrente da bicicleta do entregador de água mineral. O martelar em algum prédio a erguer-se nas redondezas, envolto em um daqueles imensos véus verdes. Espectrais. O circulador de ar tentando minorar os calores de quase todo mês, que não julho e agosto.

 

Vem de um tempo de muito café, cigarros. De provar com insipidez o gosto dos alimentos. Mesmo o sumo das frutas que mais apreciava: cajarana, maracujá, murici, açaí. De não sentir o calor. O suor. De uma sensibilidade extrema ao banho frio em madrugadas sem dormir. Os sonhos recorrentes. A custo lembrados.

 

Há dois anos se tinha separado. E havia dois filhos pequenos, que encontrava cada vez menos. Ele distanciara-se por completo da ex-mulher. Sentia certo alívio de não viver mais sob a tensão que os cercara nos últimos tempos, e morava sozinho em um pequeno apartamento na Aldeota de onde saía apenas para dar aulas na Faculdade de Arquitetura ou para longas errâncias a pé, pela cidade.

 

Desde o início daquele ano, por alguma razão, passou meses sem ir em direção ao mar. Ele sabia o que cabia nesse alguma. Um breve interlúdio. Uma lacuna preenchida por um nome. Um nome de mulher que lhe tocara forte, quando ele já havia concluído: na meia-idade tal sorte de entusiasmo já não mais punha frêmito no corpo. Ou então, adolescentemente convoca um nome assim. Tão forte que ele simplesmente evitava passar pelos mesmos espaços que passara com ela só uns poucos meses antes. E porém já para trás há séculos. Não se deve crer tão firmemente numa vida que pode dissipar-se fácil.

 

Queria esquecê-la. E, claro, o esquecimento não é uma determinação que se toma de forma consciente, porque somos muito mais escolhidos pelas lembranças que o contrário. E, então, mesmo sem circular pelos mesmos espaços em que ela andara com ele, ele sempre lembrava dela, ainda que remasse contra.

 

A primeira vez que viu seu rosto, num café, ao modo de sucessivos véus sendo retirados em frações de segundos para uma nitidez quase espectral: os olhos de uma azul lavado, não profundos como em mar alto. Porém plácidos espelhos d’água. Rasos lagos. De ver a areia ao leito. Ligeiramente amendoados, oblíquos. Piscinas. Precisos em contraponto aos cabelos presos, com um ou outro fio ligeiramente dissonando. Os ombros nus traspassados pelas alças do vestido. A imaculada pele branca. Tudo que a alma podia sentir sendo corpo. E atrás do vestido, da compleição frágil, da reticente serenidade de ouvinte, ela pulsava em vulcão prestes a lançar lavas para todas os pontos cardeais deste mundo.

 

Certa madrugada, acordou duas vezes de sonhos profundos, na noite quente, suando frio. E nos dois lá estava ela, inscrita: as feições muito nítidas, o corpo bem delineado e, algo, franzino à primeira vista. Porém nada franzino depois de tocado.

 

E, porém, o quanto o calendário é breve sendo longo para humanos. E ele, certa manhã, não resistindo ao apelo de um dia expeditamente claro, em um quente outubro, o céu, quase translúcido de haver sido lavado pelas pequenas chuvas, em setembro, se pôs na direção do mar: uma inevitável reta desde o pequeno prédio em que morava.

 

Aquilo agregava a aventura de uma cruzada. De uma travessia de deserto. De um veleiro a caminho de Java. Que coisa. Que quase nada. Era apenas uma caminhada de uns dez quarteirões na descida da colina à praia:

 

O passado, que se dane! – pensou.

 

Caminhando ao longo do píer, prosseguia lentamente. E eis que de repente, à sua destra viu. Viu uma garota que se equilibrava sobre uma espécie de prancha. Semelhante a uma prancha à vela, só que sem vela fincada. Ela cravava os pés ao centro, sobre um anteparo negro, antiderrapante. Oscilando sobre as ondas de após a rebentação com um remo à mão, auxiliada por uma outra garota, que agarrava-se à proa, e de quem só se via a cabeça e os braços para fora da água. Suas mãos delicadas sobre o metal do remo reluzindo ao sol. A tentar uma forma de prumo para o corpo oscilante, as ondas à medida de causar trôpegas inércias, os cabelos a flutuar ao vento como bandeiras despregadas.

 

Seu corpo era brônzeo, esguio, semi-atlético. E insistia naquela lenta navegação, um tanto desajeitada, porque a preamar empurrava-as para a praia. Com um semblante compenetrado, ela prosseguia, naquele esporte aparentemente inócuo. Contida, em parte, pela necessidade de se equilibrar. Assim que quase não saíam do ponto de onde se encontravam, uns trinta ou quarenta metros da praia. Ele, escorado á balaustrada, um pouco à sombra de uma luminária contemplava a coisa toda.

 

Contemplava a coisa toda até, súbito, reconhecê-la na garota que se equilibrava. Às vezes, abrindo um pequeno sorriso para a outra, na proa. Ou indicando com o dedo algo, à esquerda, na estrutura amarela da prancha. Então, sacou do bolso uma pequena câmera digital e, buscando discrição, fez uma dúzia e meia de fotos. Algumas em zoom.

 

Ao tornar para casa, sentou-se à bancada e, após transferir as fotos para o computador, analisou-as uma a uma na tela de cristal líquido. Não havia dúvidas: era impossível decretar se era ou não ela. E, de repente, até entendia que a moça mergulhada na água, a segurar a proa era a que era ela por contraposição à outra, se a cena era vista a partir de um cromo onde tudo surgia ligeiramente de um ângulo mais oblíquo. Em plano médio, nenhuma das duas era ela. Em plano mais fechado, ambas eram ela. Em close extremo apenas a que se equilibrava era ela. Numa das panorâmicas, somente a prancha era a prancha, porque ambas haviam mergulhado àquele instante.

 

Enxerga-se além da conta, quando se segue imerso até o pescoço numa situação assim. Mesmo sem querer.

 

Mas isso veio de um tempo em que seus amigos eram ruídos. Como o da sineta do distribuidor de gás, em sua motocicleta, cedo, numa manhã de sol. Ou o rumor distante da televisão sempre ligada, na sala. Os bem-te-vis. Os sebites. As turueís. As lavandeiras. A buzina de um carro passando lá, abaixo. A corrente da bicicleta do entregador de água mineral. O martelar em algum prédio a erguer-se nas redondezas, envolto em um daqueles imensos véus verdes. Espectrais. O circulador de ar tentando minorar os calores de quase todo mês, que não julho, agosto.

 

 

* * *


No Desolamento do Feriado

Marcel Duchamp, Couple of Laundress’ Aprons, 1959



L’Inquietude

 

Ao subir a serra já noite feita, ele percebera aquela grande carreta no ziguezague das curvas, desde uns quinhentos metros. Suas luzes difusas, assomando e murchando, ao sabor das espirais, na estrada. E de uma tênue neblina.

Lá abaixo, as luzes da cidade.

Por fim aproximaram-se. E ficaram rentes a traseira do vasto caminhão por um bom quarto de hora. Era uma noite de lua nova. E a neblina, apesar de não espessa, colava-se na delicada pele do rosto dela e embaciava o para-brisas. A estrada era estreita. Como se não bastasse, o motorista pouco parecia disposto a sinalizar. Sobre o repasse fugaz dos faróis as silhuetas das árvores assomavam, altas, volta e meia, para tornar a mergulhar no escuro.

Os carros que vinham na mão contrária, apesar de baixarem os faróis, sempre ofuscavam em demasia os olhos dele, dado que desapareciam, atrás do extenso corpo do caminhão, para desembargarem-se de súbito.

Ela contava sobre o trabalho na faculdade. Estava se passando algo de errado com o novo supervisor geral. Aparentemente era um sujeito sanguíneo. Assumira o cargo há pouco e já se indispusera com toda uma leva de professores. Seu tom de voz era cavo. E canalizava com alguma dramaticidade a situação, antes de desmanchar-se num riso cheio de staccati e resfôlegos:

Mas ele ainda vai ver o que é bom pra tosse!

Dissera aquilo com o punho cerrado batendo sobre o livro fechado, ao colo. Escandindo lentamente as palavras, quase de forma artificial. E havia uma gota de saliva sobre seu lábio.

Ele passava as marchas, puxando o cigarro. As curvas eram fechadas. E ele tracionava as marchas a golpes, empurrando-as a leve socos, nunca envolvendo o pomo da alavanca com a mão. Pelos vidros abertos, a frialdade aumentava. E ela vestiu um pulôver laranja claro, de gola. A gola ao modo de fôrma e gesso demarcando seus traços delicados, o cabelo curto:

Por que que quando você quer não escuta nada do que a gente diz?

Ele prosseguiu em silêncio, fumando.

O motorista, enfim sinalizou. Ultrapassaram-no. A corrente de ar aumentou e ela soergueu o vidro da porta:

O frio tá começando a pegar.

Ele pensava em como encontrara uma ex-colega do fórum na livraria um pouco antes do almoço. Uma bela morena clara: alta, esguia:

Carlos? Oi, tudo bem? – e no colarem os rostos ao se saudarem, o rosto dela estava levemente arrefecido e, sem suor, retransmitia uma sensação de viço, que ele quase podia repressentir na face, junto com a neblina.

Podia rever as roupas dela. As formas dela, sob a saia bege. O lenço ao pescoço, longo, ressaltando da blusa púrpura de gola. Podia refazer o quanto era adelgaçada, bem-apessoada, os dentes ligeiramente proeminentes, o belo sorriso. Ou de como movia-se com altivez apesar de parecer apressada. Mas também do modo que, ao avesso da antiga expansividade, lhe saudara com algum protocolo.

Vim comprar uns livros pr’os meninos! – disse de passagem, na direção dos caixas.

Ela pensava no jovem doutor que chegara de Santa Catarina. E, desavisado de que ela era casada, lhe havia convidado a jantar. Em como era alto e parecia seguro e agudo por trás dos olhos esverdeados. Em como uma réplica dele, dita em calma, com a voz grave, que não modulava nunca, calara o supervisor geral. Lembrava de suas mandíbulas bem constituídas. Da forma como sua simples presença elidia toda a arrogância do homenzinho calvo, de voz irritantemente tiple. Pensava nos cabelos castanho claros dele, quase loiros. Nos olhos verdes-zinco sob os óculos de aros finos. No bem torneado de seus bíceps. No modo como a única ênfase que punha na voz era quando pronunciava o nome dela:

Flávia, é preciso preencher a caderneta logo depois da aula? Como é que faz aqui?

Porém ela não cessava de falar. Porque, ao contrário dele, possuía grande capacidade para dedicar-se a um assunto no pensamento, a outro na fala.

Meia-hora depois, após registrarem-se no hotel, alternaram-se no banho quente, enquanto cada um à vez, desfazia parcialmente as malas. Escolheram um amplo quarto, no primeiro piso, de camas separadas, debruçado sobre uma íngreme vertente. Este vale só era pressentido por uma pálida lâmpada de mercúrio debruçada sobre o chasmo e volteada por uma pequena nuvem de vespas. Grilos cantavam. E, em avulso, um coaxar de sapo.

Depois de trocarem-se, desceram ao restaurante.

Jantaram quase em silêncio, não fosse por ela. Contou algo que uma sua tia, também professora, mas na Faculdade de Economia, certa feita fizera, ainda na juventude: durante uma aula, num dia de grande calor: retirar o sutiã,  contorcendo-o blusa abaixo, à frente dos alunos. Os alunos pasmos diante da cena.

Ele sorriu:

Sempre achei que ela tinha um parafuso a menos – comentou, depois de entornar o vinho. Um tinto argentino, seco.

Depois da sobremesa, foram à portaria, e o recepcionista lhes refez o percurso a pé até a pequena cidade, cravada num vale não tão extenso:

Mamãe detestaria fazer essa caminhada.

A mãe dela, apesar de médica; apesar de prescrever caminhadas para todos seus pacientes, detestava andar:

Parece que se vai sempre a lugar nenhum, mesmo quando se vai a um – era o que dizia.

Ele abriu um meio-sorriso. Bem podia imaginar a sogra dizendo isso. A voz esganiçada, com uma não forçada desfaçatez em tudo que dizia.

A trilha até o povoado era relativamente ampla para a passagem de dois veículos. Eles caminhavam à direita, na contramão de um possível veículo que os colhesse vindo de adiante. Mas nenhum carro veio pela esguia estrada carroçável. Eles não se davam as mãos. Embora seguissem tão rentes que seus ombros se tocavam, por vezes.

Uma espécie de apito soou de dentro de um pequena casa, avulsa e alpendrada. Um desses apitos de criança. A neblina dissipara. E pela iluminação da pequena cidade, podia-se ver uma igreja, no ponto mais alto da colina, ladeada por um renque de palmeiras imperiais.

O apito ressonou de novo. Já mais ao longe:

Acho que esqueci de trazer meu creme de rosto – disse ela – essa umidade da serra é de lascar.

Lá embaixo, as casas pequenas, amontoadas umas sobre as outras, pareciam estar com frio. Ele aprumou a gola estreita do casaco:

Amanhã, o sol deve abrir. É sempre assim, depois dessas noites úmidas.

Voltearam por ruas estreitas e sinuosas. E pararam para um chocolate num pequeno café. Uma mendiga acercou-se da mesa deles:

Ei, Seu Zé, me dê uma ajuda pelos olhos de Nossa Senhora Aparecida.

A dona do café a afastou. E a mendiga, com um trapo à cabeça, ficou sentada à coxia, as mãos prendendo os joelhos e a barra da saia:

Voltamos na terça de manhã, então? – disse ele.

É. Quero aproveitar o resto do feriado para corrigir umas provas.

Ele olhou para cima e percebeu na decoração um tanto profusa do simpático café uma fateixa. Sempre lhe enternecia qualquer referência ao mar. E imaginou o quanto aquele objeto estava apartado das mãos que o fizeram àquela altura da serra.

E também o quanto faltava uma âncora para eles. De momento.

Ela, que tinha um leve problema crônico de cegueira noturna, fixava detidamente o açucareiro, nele adivinhando dois grãos de chocolate solúvel, que retirou, com a colherinha, enquanto um pequeno bocado de açúcar trasfegou-se para o tampo da mesa. E pensou que teria sido bom haver aceito o convite para jantar com o catarinense.

De volta ao hotel, em que eram praticamente os únicos hóspedes, assistiram o telejornal no saguão e, enfastiados pelo filme que se seguiu, subiram para o quarto. Pelo corredor estreito e sombrio ele a guiava. Mas as chaves do quarto estavam com ela.

Ao fazerem amor, sob a pálida luminária à cabeceira, com uma extática lentidão, seguiam adivinhando todos os procedimentos, todas as posturas. Tudo o que mais um ao outro agradava. Houve um pouco mais de fervor àquela noite. Apagaram a luminária.

Ele pensando nos olhos negros da ex-colega do fórum que não se refletiam nos olhos azuis dela. Ela pensando nos olhos verdes do jovem professor catarinense que pouco tinham a ver com os olhos castanhos claros dele. Ela gemeu mais forte e doce. Ele sentiu calafrios há muito não pressentidos.

Lá fora os sapos coaxavam. E, pela janela levemente entreaberta, um fio de luz varava o aposento envolto pelo rocio das árvores serranas a esmaltar o parapeito, no desolamento do feriado.

 

 

* * *

Água quebrada a frieza

Aspecto da Orla de Camocim



Reminiscências e a inevitável viagem em família

um texto mais longo para uma mais longa paciência


Amyr Klink, o navegador solitário, uma celebridade no Brasil, tendo publicado diversos travelogues sobre suas arrojadas expedições náuticas – que inclui a travessia do Atlântico em um minúsculo barco a remos e uma audaciosa circunavegação da Antártica em um veleiro – disse da cidade em que nasci, ser o maior museu a céu aberto de construção náutica artesanal no país, quando por lá passou no início desta década. Era para ter ficado um par de dias. Ficou semanas, encantado com a perícia dos artesãos náuticos locais.

Porém até os meus nove anos, 1973, Camocim era então um porto respeitável. O estuário do rio ainda não havia sido assoreado por bancos de areia e navios de um considerável calado ainda adentravam a barra e atracavam no cais. Comerciavam sobretudo com a indústria salineira; o beneficiamento da pesca da lagosta e de um peixe que para nós é o sucedâneo do bacalhau – só que mais saboroso –: o tarpão, mais conhecido na região por camurupim; o extrativismo de ceras vegetais, que no passado responderam inclusive pelo que depois foi substituído pelo acetato nos discos de vinil; além de um lucrativo contrabando de uísque, que aportava via as distantes Guianas.

Em tempos passados, o porto fora frequentado por embarcações que vinham de ainda bem mais longe. Basta lembrar que a viúva que morava na casa vizinha à de meu avô materno, Antônio Enéas de Vasconcelos, fora casada com um comandante de navio norueguês, que optou por se fixar na cidade.

Afora isso, havia uma estação ferroviária que deixou de funcionar apenas em 1975, um ano após nossa família mudar-se para Fortaleza. Como se não bastasse toda a fachada de Camocim, velhos sobrados, solares, trapiches, hoje já bastante descaracterizados, debruça-se sobre a foz do rio guarnecida por uma antiga balaustrada, pontilhada de pequenos ancoradouros. E tudo isso a ela conferia um aspecto totalmente distinto de qualquer cidade do Ceará ou mesmo do Nordeste – com a possível exceção de Recife – da Recife de uns anos para trás: uma estranha atmosfera vagamente europeizada. Essa ambiência era muito mais acentuada, à época em que moramos lá. Inclusive com várias casas providas de porões, ao modo de adegas, ainda que não houvesse qualquer vinho a estocar lá por baixo.

Mas, em geral, o binômio ferrrovia-porto, junto com o fato de um camocinense ser um dos pioneiros da aviação no Brasil, suscitava um futuro de prosperidade e importância que, para todos os efeitos, não vingou.

Aliás, essas doses homeopáticas de micro-modernidade urbana aí de inícios para meados do sec. XX em Camocim suscitaram durante algum tempo algumas analogias com o Recife, guardadas as devidíssimas proporções. Como sede da Estrada de Ferro de Sobral, essa Camocim concentrou até a década anterior a que nasci, os anos 50, um considerável contingente de ferroviários. Cerca de trezentos operários. Mão de obra especializada revezando-se dia e noite, com usina elétrica própria 24 horas ao dia, desde os anos 20.

Fabricavam-se vagões, reparavam-se pesadas locomotivas em suas oficinas, que tanto me impressionavam, quando por lá passeávamos nos finais de semana, elas já tendendo à ruína, por sua arquitetura de arcos altíssimos e imensos portões, erguida seguindo um padrão inglês do final do sec. XIX. O mesmo que reencontrei, anos depois, em Stockport ou nos subúrbios de Manchester. Meu pai, que deixara a cidade com sete anos, para o colégio interno, descrevia a azáfama dessas oficinas com verve. E podia-se ouvir, pelas suas palavras, todo aquele mundo mecânico: o bater dos malhos; o encaixe das tábuas cavilhadas, respingadas; a mordida dos alicates; o came, a plaina…

E o que se comentava, então, era que, pela concentração de operários, os dois maiores pólos de comunismo no Nordeste aí pelos conturbados idos de 30 eram precisamente Recife e Camocim.

Assim, para todos os efeitos, meus dois irmãos e eu éramos crianças que, ao mesmo tempo que jogávamos bola e bila, brincávamos na rua, assistíamos John Wayne e Western Spaghetti no cinema, víamos Lost in Space e I Dream of Jeannie na TV, detestávamos as aulas de catecismo, dançávamos o São João com as colegas da escola e tomávamos banho na água salobra da foz do Rio Coreaú – antigo Rio Camocim ou Rio da Cruz, por onde Vieira e os jesuítas aportaram na demanda das Missões da Serra da Ibiapapa – também tínhamos algo que nos afastava daquilo tudo.

E esse afastamento passava pela biblioteca de meu pai. Meu pai fora educado por professores alemães, e lê o francês e o alemão com fluência. E esse distanciamento ressaltava mais precisamente pelo fato de ele nos haver ensinado francês desde muito cedo. Porque nada agrega uma perspectiva maior do que, desde cedo, ser capaz de “pensar” a realidade à volta sob um outro esquema mental. O esquema mental de um outro idioma – o que equivale a dizer: de uma outra cultura. É como estar fazendo uma permanente tradução. De modo que, durante anos, meu pai era um dos poucos assinantes do semanário L’Express na cidade, assim como nós, com toda certeza, os únicos a receber semanalmente Le Journal de Mickey.

Aliás, um de meus livros prediletos dessa infância camocinense era um dicionário para crianças, maravilhosamente ilustrado, intitulado Mon Larousse en images.

Não tenho dúvida de que a realidade à volta era incomensuravelmente mais sopesada por aportes de elementos críticos, mesmo para o esquema mental das crianças que éramos, pelo fato de pensá-la, parcialmente, em uma outra língua. E, em nosso caso, muito ironicamente, aprendemos até a conjugar certos tempos verbais em francês antes de fazê-lo em português. Além disso, desde cedo aprendemos a jogar xadrez. E nesse aspecto, era eu mais preguiçoso que meu irmão mais novo. O que envidava o fato de que ele ganhasse mais partidas. O que não me irritava pouco. Aliás ele sempre se saía melhor em aritmética, na escola. Enquanto minhas matérias favoritas eram história e português.

E, no entanto, havia uma concreção de linguagens e expressões as quais meu pai era por demais estrangeiro para dela dar conta. Ele vivera boa parte da infância e da juventude fora da cidade. E esta linguagem concreta, tão enraizada no local, nos veio por minha mãe. E era tão ou mais importante do que a livresca. Ao menos para mim. Porque incorporava expressões de uma poesia indemarcável. Como quando ficávamos doentes e era necessário banhar-nos à água morna. E a essa água morna se chamava “água quebrada a frieza”. Acho que não preciso dizer mais nada, aqui.

Meu pai e minha mãe parecem bastante com suas famílias. E, de certo modo, se complementam em temperamento. Meu Pai, mais reservado, cético, embora dotado de um senso de humor rascante. Por problemas de fígado nunca pode beber algo mais forte que uma taça de vinho ao almoço. De modo que jamais o vi bêbado. Minha mãe comunicativa, amiga das vizinhas, tocava um pouco de bandolim. Eles gostavam de caminhar juntos ao longo do rio ou até a chácara de meus avós. E o faziam todas as noites, mesmo se depois fossem ao cinema. E esse hábito de longas caminhadas se estendeu a todos os filhos.

Meus avós, de resto, foram amigos de pândega na mocidade. E o Vasconcelos, mais aberto, bonachão, espírito plebeu, jamais entendia a altivez do Carvalho:

Vem cá, rapaz, por que tu pareces ter um rei na barriga?

Mas e havia ainda outras demarcações que nos perspectivavam Camocim – e nos convidavam a fabular outras terras. Nosso vizinho, da casa à direita, por exemplo, era Fernando Cela.

Seu Fernando era filho do ex-chefe da divisão mecânica da ferrovia. Este era conhecido como Mestre Cela, galego da região de Orense – estava quase a se jubilar quando meu avô começou a trabalhar na mesma ferrovia, no início dos anos 30. E as famílias se conheciam desde os tempos de meu bisavô, o Coronel Severiano José de Carvalho, sobre cujas terras praticamente todo núcleo mais central da cidade de Camocim se ergueu.

Também guardo certa desconfiança de que esta afinidade se dá pelo fato de os Carvalhos, a família de meu pai, ser nortenha, de uma qualquer aldeia próxima a Braga. E, logo, estar ali, não tão distante da Galícia. E também com quase certeza – reter algum traço de ascendência judia.

A ascendência judia se podia pressentir de algum modo, embora eles fossem extremamente católicos. Podia-se pressentir em alguns dos nomes de meus tios-avós: Júlia, Esther, Josias. Em algum caco de comportamento, de temperamento, de um certo tipo físico, de hábitos, que depois confirmei um tanto ao ler, entre outros, a excelente História da Filosofia Hebraico-Portuguesa, de Pinharanda Gomes. Um livro pelo qual nutro grande apreço.

Os Vasconcelos, de minha mãe, são o ramo de uma família mais extensa. Provindos de Santana do Acaraú e fixados em Camocim somente a partir de meu bisavô. São provavelmente de origem açoriana, como tantas famílias daquela região. Mas isto de açorianos é ainda mais hipótese. De outro modo, são gente de melhores humores, menos taciturna ou chegada aos livros que os Carvalhos. E de enorme senso prático. E há ainda uma mistura de sangue com holandeses – melhor seria dizer com flamengos – mais recentes, de muito depois das invasões da época do ciclo do açúcar.

Mas tornando à Galícia, não cheguei a conhecer Mestre Cela, pois quando nasci ele já havia morrido. Porém seu outro filho era ninguém menos que o pintor Raimundo Cela, talvez o mais renomado pintor e gravurista cearense, que por uma questão de temperamento jamais aderiu ao modernismo, aferrando-se a uma pintura neo-classicista de sólida formação acadêmica e apego ao figurativo.

Este Cela engenheiro e artista plástico, de quem só conheci alguns quadros e o estúdio – ele falecera em Niterói pouco antes de eu nascer – havia morado durante seus anos de formação em Paris e junto com o irmão, Fernando, que era proprietário de um pequeno banco local, empenhado-se na montagem de uma usina termelétrica, que foi responsável pela cidade ser uma das primeiras a ter iluminação pública no estado. Eles eram parentes não tão distantes de Camilo José Cela, o novelista espanhol, Prêmio Nobel, e bastante polêmico por se ter postado ao lado do franquismo quando dos trágicos episódios da Guerra Civil naquele país. E não só por isso. Como quando, já idoso, propôs a uma entrevistadora da TV espanhola a demonstração de como ele era capaz de absorver um litro de água pelo ânus, como então requeria a terapia prescrita para uma dessas doenças da velhice.

Nada mais distante de seus primos do outro lado do Atlântico: austeros, de palavras poucas, quase portando consigo aquele sentimento espanhol do trágico de quem nos fala Ortega y Gasset, entre outros.

A ferrovia, de resto, em sua inauguração, 1879, contou com a visita do Conde D’Eu. E uma parte dos políticos do Partido Liberal que vinham do Rio de Janeiro, ao tempo do Segundo Império, em demanda do Maranhão, hospedava-se no sobrado de meu bisavô paterno, Severiano José, que talvez fosse a última das escalas – ou a primeira em sentido contrário – de passagem entre o sul, o Rio de Janeiro, a então capital, e o norte do país: o Maranhão, a Amazônia.

Paradoxalmente eram republicanos, ao contrário de meu pai que ainda nutre certa simpatia pelo império. Simpatia que se estendeu a 2/3 dos filhos.

A família era de uma prosperidade que não se elasteceu aos filhos de meu bisavô. De uma ou de outra forma, eram muitos irmãos. E eles dilapidaram através de maus negócios quase todo o patrimônio, embora sem perder certos fumos aristocráticos, cultivados pelo velho Severiano José. Seu filho mais velho montou um jornal, chamado A Palavra – do qual ainda vi uma peso para papel em mármore, encimado por letras vermelhas, que meu pai usou sobre o tampo de sua mesa de trabalho durante anos. Esse tio-avô jornalista foi amigo – e é inclusive mencionado em artigo – pelo Barão de Studart, um filho de ingleses que foi o maior colecionador de documentos históricos sobre a província (depois estado) – do Ceará. Tendo inclusive comprado do próprio bolso muitos documentos, originais, mapas e manuscritos em Lisboa, Madri e Amsterdam.

Certa inclinação para o cultivo de alguma sensibilidade mais ligada às artes também se estendia à música entre os Carvalhos. Os filhos do velho Coronel Severiano José, praticamente mantinham uma pequena orquestra de câmara em família. Ainda me recordo de, em criança, haver achado o tampo de um violino, empoeirado e carcomido, no velho sobrado que eles, um dia, tinham ocupado, e que ficava vizinho à segunda casa em que moramos. Sem embargo, em anos para trás, essa casa formava um todo com o sobrado, até ser desmembrada e reformada, quando adquirida por meu pai, ao fim dos anos 60.

Este sobrado, ainda do sec. XIX, ficava em uma esquina – e à época era habitado por velhas tias-avós, que, então, apesar de viverem já muito modestamente, cultivavam uma espécie de atitude altaneira, que eu, à época, não adivinhava de onde poderia provir; embora apreciasse os sequilhos que elas usualmente nos serviam no café daquela velha casa de aspecto arcaico, decadente, com cheiro de coisa antiga. Uma delas, aliás, Tia Mimi, era organista do coro da Igreja do Bom Jesus dos Navegantes e autora do Hino do Padroeiro da cidade.

Além disso, há algumas léguas de Camocim, do lado de lá do rio, eles possuíam uma fazenda, chamada São Mateus, que era um verdadeiro feudo a se perder de vista, dotada de uma praia particular, as Imburanas, à qual se chegava de barco através de um exuberante manguezal.

Apesar de abolicionista e republicano, este bisavô paterno – seu pai, meu tetravô, que fora alferes do Exército do Império, chamava-se Honorato José de Carvalho – ainda teve escravos domésticos. Um deles chamava-se Damião.

Uma das histórias que me recordo ainda ter ouvido em família foi a de que este Damião era dado a pequenos, inexpressivos furtos.

Certa feita, um maranhense, Senador do Império, a caminho do Rio de Janeiro, longa viagem feita em vapores de cabotagem, hospedou-se na casa de meu bisavô. Ocorre que ele apreciava fumar cachimbo. E, de fato, possuía um belo exemplar de um cachimbo inglês que, sem mais nem menos, sumiu misteriosamente.

Um de meus tios-avós, Caetano, de espírito mais bem-humorado, logo disse à minha bisavó, Maria Brito de Carvalho – que, muito paradoxalmente, era, em parte, mulata e responde pela abençoada fração de africanidade que eu próprio porto no sangue. (E, aqui, é de se fazer notar o quanto não se pode tomar este assunto nos mesmos moldes como ele é tomado, por exemplo, no Deep South de Faulkner, Flannery O’Connor & Cia. – embora deva ser investigado com a seriedade que o tema demanda):

Mamãe, a solução parece simples: levar o Damião para se confessar com o Padre Zé Augusto.

De fato, a providência foi ouvida. E posta em prática.

E dali umas poucas horas, o cachimbo do senador reapareceu sobre um aparador da sala de jantar da mesma forma misteriosa como tinha sumido.

Felizmente meu avô, que criou todos os seus filhos numa pequena chácara que antes ficava nos arrabaldes da cidade e hoje se encontra praticamente em seu centro, já não teve mais escravos. Ele nasceu, aliás, em 1893, cinco anos após a tardia abolição da escravatura no Brasil. De resto, o Ceará libertou os escravos quatro anos antes de a abolição se ter dado no Brasil inteiro. E, para além, como almoxarife da estrada de Ferro, a vida de meu avô passou longe da abastança do pai. Casou já maduro, com mais de quarenta anos e teve dez filhos. Eram comuns, essas famílias imensas, ao tempo da Era Vargas, aqui no Brasil.

Minha avó paterna é a única da família, tanto por parte de pai quanto de mãe, que não é da região de Camocim. Ela vem do sul do estado, do Cariri – de lendas similares às dos westerns, e terra do legendário Padre Cícero. Basta lembrar que o pequeno povoado de onde provém sua família – os Pinheiros, os Gomes – leva o significativo nome de Riacho do Sangue.

Seu avô foi o Coronel Basílio Gomes, que fundou uma cidade que leva o oximoresco nome de Brejo Santo. Como com intervalada frequência ela viajava a visitar os parentes em Brejo Santo, longa jornada ferroviária, e, à época uma, sermos adolescentes de um sarcasmo um pouco acima da média, às vezes perguntávamos:

E então, Papai, a Vovó já foi pro brejo?

Um tanto aos poucos meu Pai foi percebendo nossos olhares de malina cumplicidade. E a resposta agregou, então, uma nova preposição:

É, ela já foi ao Brejo.

Esta avó, a única que não nasceu em Camocim é por quase ironia, também a única a ainda morar lá. Está prestes a completar cem anos, ela é de 1913, e ainda reside nessa mesma chácara em que criaram-se meu pai e todos os meus tios, e que está na posse da família há mais de cento e cinquenta anos.

Hoje minha família não tem mais qualquer importância política na cidade. E só é lembrada por gente já bastante idosa. Como Arthur Queirós, que é um espécie de cronista local, completamente siderado por escritores portugueses do sec. XIX, como o próprio Eça.

Isso de não ter importância política não chega a ser um desastre. Talvez porque através de meu avô paterno, José dos Santos Carvalho, termos aprendido a olhar a política institucional com sublinhado ceticismo, desde muito cedo. E esse ceticismo é ainda mais aguçado em meu pai. Embora ele saiba das coisas.

À época mais ferrenha da ditadura, ao fim dos 60, estava a ler O Capital quando um agente da censura, oficial do exército, andou pela cidade. Um amigo o aconselhou a sumir com o livro, pois uma das práticas do tal agente era a de bisbilhotar as bibliotecas privadas. Meu pai não o fez. Mesmo que, de resto, estivesse longe de simpatizar com o marxismo. A leitura era para ele um hábito compulsivo. De entrar madrugada afora. Ainda que tivesse de acordar muito cedo para a faina diária, no Banco do Brasil, do qual chegou a ser gerente-adjunto.

Nos diascorrentes, não é infrequente que eu passe muito tempo sem ir a Camocim, ao contrário de outras épocas. Gostaria de poder ir mais. Porém, embora a cidade se tenha transformado imensamente desde meus tempos de garoto, ir até lá é sempre como voltar a um pouco daquela atmosfera, àqueles usos e costumes – a televisão por lá chegou somente em 1969, tinha eu cinco anos – hoje já tão outros.

 

Ou como reabrir o Mon larousse en images. Ou uvir a expressão “água quebrada a frieza”.


*   *   *



Enquanto a canção é roída

Lee Botencou, 1958



Tua Nova Ariadne


Há um tubo. E nele se entra. Este tubo conduz a um outro tubo. E dentro deste outro tubo há uma encruzilhada. Depois dessa encruzilhada há muitas possibilidades de tubo. Uma capilaridade estranha. Em que cada passo sobre os tubos encharcados ressoa como o tinir de um caixa registradora bem no vão do juízo. Está um pouco escuro. Os tubos são tantos. As vezes imensas retas. Retas que parecem não terminar. Embora terminem abruptamente, para mais baixo, uma cava. Ou mais acima, aclive. Nada pressentidos. Ou então, a galeria de tubos assoma tão intrincada como o sistema de rotundas da Estrada de Ferro Oeste de Minas. E é aí que se descobre: mesmo se houvesse uma Ariadne e um fio jamais seria possível sair da tubulação. Daí se saca o celular. Mas é tão grande, tão pleno de curvaturas e camadas sobrepostas o dédalo de tubos que qualquer sinal de celular imediatamente seria barrado pela interferência metálica e indiferente. E, de repente, ao tentar repor o celular no bolso do jeans, percebes que não é celular mas um graveto molhado na água fétida dos tubos. E que não há jeans porém uma superfície cinza e peluda. É teu corpo nu e molhado, com pequenos pelos boiando de leve à tona, feito penugem, na semi-obscuridade que as grelhas dos bueiros – muito altas e vagas, lá, lá acima – ainda garantem. E tu tentas escalar até elas, pois ainda sentes frio, às vezes. Mas os tubos estão cheios de limo. E, de algum modo, mesmo sentido-te mais preênsil por alguma razão, tu não logras galgar pelas laterais côncavas. E então teu corpo, mais e mais felpudo cai, ainda uma vez, dentro do charco, nos tubos. Só tu podes ouvir o baque na água imunda, ecoando, pois é certo, não há mais ninguém na tubulação. E logo tua visão principia a adaptar-se à insuficiência da luz. E instintivamente, com crescente destreza, começas a escolher se é melhor seguir a direita, a esquerda, adiante, para achar o de comer. Cada vez menos pela vista, que te está baça como um pano de pratos encardido, porém por teu faro tremendamente aguçado. E aprendes a viver sem cardealidade ou bússolas. E quase mais não sentes frio. Farejando aquelas superfícies de camadas e camadas de lodo. Palimpsestadas. Até chegar ao ponto em que percebes largar um rastro atrás de ti. Um tênue rastro na água. Um rastro que cresce. Timidamente. Deixado pelo mover de tua cauda na poça perene. A cauda que segue aumentando no correr de um tempo indemarcável. Tornando-se forte e essencial parte de ti, quando tudo estiver formado. Aprendes a torcer o corpo e lambê-la se ela se contunde, sentindo dores ao enroscar-se nos fios de arame vindos de um não sei onde para a tubulação. Ou o prazer que ela te dá, ao flutuar macia, mais facilmente que o resto do corpo na ininterrupta umidade em que vives dentro dos tubos. Ela é tua antena. Teu fio. Tua Ariadne. Com ela segues mais apaziguado com a ideia de que jamais tornarás ao não sei onde de onde vieste. E até, entre os grandes incisivos, ameaças assoviar uma velha bossa-nova, enquanto avanças ao ritmo das patas na água. Tua cauda ao modo de antena, como um segundo faro.

 

Te ajudando com o equilíbrio, enquanto a canção é roída.


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Já que o assunto andou sendo Beatles por aqui, um pouco de ornitologia

O “assum” ou “anum” [Crotophaga ani]

The Raven, Assum Preto, Blackbird


Como todo apreciador da música dos Beatles, apesar dos créditos para Lennon e McCartney, até mesmo, digamos, um lennonista, sabe que “Blackbird” (letra e música) é apenas de Paul McCartney, embora por razões de contrato ela seja também creditada a Lennon. Isto segue com a ressalva de que muita coisa só de Lennon é também atribuída a McCartney em parceria, como “Dear Prudence”, “Happiness is Warm Gun”, “Across the Universe”, “Julia” e tantas outras (a maior delas, sem dúvida: “Strawberry Fields Forever”).

“Blackbird” sempre foi uma de minhas canções favoritas. E, lá, lá, bem nas priscas eras da adolescência musical, senti-me resolutamente orgulhoso quando aprendi a tocá-la. Tucídides fala de seu registro como historiador da Guerra do Peloponeso nos termos de “uma aquisição para sempre”. Quando aprendi a tocar “Blackbird” sabia que havia chegado a uma dessas “aquisições para sempre” – ainda que sua estrutura seja obviamente decalcada da Bourré em Mi Menor, de Bach, uma peça bastante popular entre guitarristas iniciantes.

Entretanto, para um brasileiro do Nordeste, há algo mais em «Blackbird».

E por quê? Porque é tão óbvia a ligação entre o “Blackbird” de McCartney e o “Assum Preto” da letra do cearense Humberto Teixeira para a célebre canção de Luiz Gonzaga. [Nota: e isto sem um saber da existência do outro. “Assum-Preto” (1950) é, no entanto, anterior a “Blackbird”].

Em “Velha Roupa Colorida”, o compositor brasileiro Belchior brinca um pouco com isto e vai mais além, incluindo o corvo de Poe na ciranda, quando diz: “Como Poe, poeta louco americano/Eu pergunto ao passarinho:/ Blackbird, assum-preto, o que se faz? […]”. Como “Poe” tem mais ou menos a mesma pronúncia de “Paul”, ele não só está citando o autor de “The Raven” [“O Corvo”] como também Paul McCartney e seu blackbird – a despeito de Paul não ser propriamente americano. Nem todo mundo se dá conta disto, no entanto.

O blackbird [melro] é um passarinho muito comum na Inglaterra. E não pude deixar de lembrar da música quando os vi, em bandos, pela primeira vez, nos amplos parques do campus da Universidade de Warwick, onde residi, em alojamento, por alguns meses, no início dos anos 90. Esta canção foi extensamente regravada. Há covers e mais covers. No entanto, a melhor versão é mesma a original: Paul ao violão acústico [um Martin, estilo folk], marcando os compassos com um pé de metrônomo. E só. Das versões, uma que se destaca é a de Crosby, Stills & Nash — que, convenhamos, sabem urdir harmonias vocais como poucos [como Brian Wilson ou os Beach Boys, por exemplo]. Ou a de Jaco Pastorius, explorando as diferenças de textura sonora entre um contrabaixo e um harmônica de boca.

A prática de furar os olhos de certos passarinhos canoros, supostamente para cantarem ainda melhor, não era tão infrequente até as primeiras décadas do sec. XX, no Nordeste do Brasil. O pássaro referido na canção é mais popularmente conhecido como “anum”.

Abaixo segue a letra da canção:


Assum Preto


Tudo em volta é só beleza

Céu de abril e a mata em flor

Mas assum preto, cego dos olhos

Não vendo a luz, canta de dor

Mas assum preto, cego dos olhos

Não vendo a luz,  canta de dor


Talvez por ignorância

Ou maldade da pior

Furaram os olhos do assum preto

Para ele assim cantar melhor

Furaram os olhos do assum preto

Para ele assim cantar melhor


Assum preto vive solto

Mas não pode avoar

Mil vezes a sina de uma gaiola

Desde que o céu pudesse olhar

Mil vezes a sina de uma gaiola

Desde que o céu pudesse olhar


Assum preto, o meu cantar

É tão triste quanto o teu

Também roubaram o meu amor

Que era a luz dos olhos meus

Também roubaram o meu amor

Que era a luz dos olhos meus



No velho e bom Youtube, pode-se ver uma interpretação de «Assum Preto» [com algumas limitações de áudio (há dezenas de outras no tube, mas esta é especial)] de Gal Costa, acompanhada tão só de um contrabaixo e alguma percussão quase incidental e improvisada:

http://www.youtube.com/watch?v=ZMEYXZ4b2hI


Ou para quem gostar de algo mais acertado  e contemporâneo em termos de técnicas de gravação, esta, de uma cantora pouco conhecida, Cristina Motta:


http://www.youtube.com/watch?v=BdtIwxlGPSs


Ou ainda para quem quiser uma versão com Dominguinhos, o digno sucessor do próprio Gonzaga no ‘acordeão’ [nós dizemos ‘sanfona’]:


http://www.youtube.com/watch?v=uuvKvo82G0U


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Jean Vigo e o Barco que Passa: Paixão e Fé


Jena Vigo, filmagens

A saúde frágil; a morte precoce; as misteriosas circunstâncias que cercam o desaparecimento do pai (um agitador anarquista provavelmente morto na prisão pela polícia); a infância enfermiça, assombrada pela ausência da mãe; a vida, desde cedo, marcada pela repulsa à rígida disciplina dos colégios internos (e que se refrata em um de seus filmes); o exílio em Nice, em busca de ares mais saudáveis para os pulmões fracos; o envolvimento com um incipiente e internacionalizado cineclubismo; as alterações na montagem original de seu único longa-metragem em nome de ditames comerciais; tudo isto conspira para fazer de Jean Vigo, que morreu 76 anos atrás, no dia 05 de outubro de 1934 – tinha apenas 29 anos –  uma espécie de santo padroeiro do cinema.
Se assim é, sua melhor “hagiografia” foi escrita pelo crítico de cinema brasileiro Paulo Emílio Salles Gomes. E traduzida para idiomas diversos. Lembro de havê-la lido pela primeira vez numa tradução para o inglês. É, sem embargo, citada elogiosamente, entre outros, por François Truffaut – que tinha em Vigo uma espécie de modelo.
Aliás, Paulo Emílio, como é conhecido por cá, não limitou-se a Vigo, tendo escrito, por igual, um belo livro sobre seu pai, Eugeni Bonaventura de Vigo i Salles, que adotou o jocoso pseudônimo de Miguel Almereyda – um anagrama que incorpora a palavra “merda”, em francês (“y a la merde”), como ele próprio dizia aos amigos entre risadas. A família provinha de Andorra e da Catalunha.
Para além de um documentário sobre natação, que impressiona pela ousadia de suas tomadas subaquáticas [Taris, roi de l’eau, 1931] , toda obra de Vigo resume-se a três filmes: o errático e instigante documentário curta-metragem A Propos de Nice (1929); o média metragem Zéro de Conduite (1933), um dos primeiros filmes a tratar, de forma contundente, o mundo a partir do ponto de vista da infância; e o magnífico longa L’Atalante (1934).
Sendo L’Atalante um de meus filmes favoritos, limitar-me-ei, a comentá-lo. Quem sabe para referendar o ponto de vista de que obras falam mais que homens. Ou melhor, falam mais propriamente deles – inclusive dos que as fizeram.
E, sendo assim, embarquemos.

Num ambiente da província, recém-casados deixam uma igreja acompanhados de um pequeno séquito e dirigem-se à margem do rio. São antecipados por dois marujos em azáfama, que correm pelos campos até uma chata ancorada à beira-rio. As imagens, montadas numa descontinuidade que antecipa a nouvelle-vague em trinta anos, são de uma aterradora beleza.
Por alguma razão Boris Kaufman disse que os anos passados em colaboração com Jean Vigo foram um “paraíso cinemático”. Kaufman, irmão mais novo de ninguém menos que Dziga Vertov (cujo verdadeiro nome era Denis Kaufman), seguiria posteriormente para Hollywood, onde seu apurado senso de cinematografia responderia pelo lirismo de filmes como On the Waterfront (Sindicato de Ladrões, aqui no Brasil; Elia Kazan, 1954).
Mas sob a direção de Vigo, ele nos legou também as imagens de L’Atalante (1934), talvez o filme mais intenso daquele período em que o cinema sonoro ainda debatia-se para se estabelecer por contraposição ao mudo – cuja linguagem já estava perfeitamente estruturada e era bem mais efectiva e sofisticada.
Por tudo L’Atalante é um dos primeiros grandes filmes sonoros. Pela maravilhosa direção de atores – com destaque para o assombroso talento de Michel Simon; pelo sobredito lirismo da fotografia de Kaufman; pela trilha sonora, calcada na canção “Le chaland qui passe” [“A chata que passa”] – mas cujo tema mais belo é, sem dúvida, um instrumental, comandado por um realejo, com vaga atmosfera nostálgica e circense; pela simplicidade e engenhosidade da trama, que explora as tensões entre recém-casados com uma ternura incomportável; pela integridade com que paisagens urbanas ou rurais são exploradas em esplendoroso senso de realidade. É canino o faro de Vigo para achar a locação exata – o que denuncia nele o documentarista que já realizara o esplêndido A Propos de Nice.
Até mesmo alguns, hoje, notáveis erros de continuidade são perdoáveis. Como por exemplo, o fato de Dita Parlo reaparecer no barco com sua bolsa – que fora furtada quando de sua voluntariosa fuga para Paris, no auge da crise conjugal. A contrapartida desse auge, do lado masculino, é quando Jean Dasté mergulha no rio e tem uma visão de sua amada, trajada de noiva, imersa na água, como uma sereia branca.
O momento em que o irrequieto Pére Jules [Michel Simon] sai à cata da jovem esposa do capitão, já temendo pela integridade mental do mesmo, é também uma das sequências mais notáveis do filme. Ele deambula em hesitação: atravessa pontes, caminha por uma avenida em que um automóvel dá uma ré. E, de repente, pequeno milagre, soa esse tema instrumental de uma ternura abissal. Pére Jules então, senta-se desolado num banco de praça. Uma prostituta passa. Ele ameaça segui-la. Mas então, não sem certo ar irritado, volta à sua missão de reencontrar a jovem esposa em fuga. Por alguma razão há tanta modernidade antecipada neste momento, que o tema (aplicado à imagem) soa algo à la Beatles.
E, no entanto, chega ser quase uma heresia destacar qualquer momento em L’Atalante. Como em todo grande filme, cada mínimo plano assoma transfigurado por uma intransponível beleza. E é a forte integridade deles o que, no fim, importa. Apesar de tantas e tantas sequências memoráveis. E até mesmo – e sobretudo – aquelas em que apenas a paisagem se ressalta, sem a presença humana, revelam-se de uma indizível plasticidade, como quando um sobrado assoma em quadro, à margem, tomado ao fim do crepúsculo, com suas luzes acesas e certo ar de avulso desolamento, visto do ponto-de-vista do barco que passa. Toda a paisagem conspira para contar da atmosfera de paixão e tensão que envolve o jovem casal. Até mesmo a paisagem corporal de Pére Jules, com suas tatuagens espalhadas por todo o corpo, semelha ser uma extensão dessa paisagem. Isso, na cena em que ele introduz Dita Parlo à sua cabine e em que ele mais parece alguém saído do frenesi dos desenhos animados do que propriamente humano. Um força dinâmica. Um dáimon, no sentido grego do termo.
Essa trama simples, a da recém-esposa provinciana do capitão de um pequeno barco mercante fluvial que se entedia com a rotina nos claustrofóbicos espaços do ambiente e sonha com a efervescência da metrópole, é primorosamente narrada em L’Atalante. Porém narrada com uma carga de paixão, sinestesia e intensidade limítrofes. Parece que se pode sentir esse filme de diversas maneiras. Quer dizer, não só com a visão ou com o ouvido. Parece que se pode senti-lo como se sente o mundo exterior durante uma caminhada: o vento passando nos galhos, o canto de um pássaro, o latido de um cão, os passos de alguém que caminha sobre folhas secas, o alarido de crianças durante um recreio escolar, a sombra dos desenhos dos fios dos postes na calçada, o choro de um bebê, alguém passando com um pacote de pães…
Sim, pode-se sentir que L’Atalante foi realizado a partir dessa paixão, dessa mesma e imensa carga de amor e fé. Tanto no cinema quanto na realidade deste mundo.

Uma frase de Marx, reminiscências & mesas dobráveis

 


Contrariando o autor de O Capital


Marx diz que “a humanidade apenas se propõe os problemas que é capaz de resolver”. Mas é impossível aferrar-se a esta frase com certo grau de convicção. Ou, no mínimo, deve-se entrevê-la com mui severas reservas.

Redimensões de escala são sempre importantes. Especialmente depois que o corpo não cresce mais, porque são mais sutis. No presente, mantenho em meu quarto uma mesa dobrável, dessas que se usam em bares. Certo dia, ao olhar para ela mais detidamente, percebi que, embora meu quarto, que também faz as vezes de estúdio, embora relativamente amplo e arejado, é bem menor do que eu julgava que fosse. Ou seja, que os bares e botecos são, em geral, ambientes mais dilatados do que se pensa. Para comportar algumas dezenas de mesas dobráveis como a que eu tenho ora diante dos olhos.

Mas então, a mesa me lembrou de um tempo que não estava diante dos olhos: como pode? Um tempo em que eu almoçava em um restaurante por quilo, no bairro da Pompéia em São Paulo.

O quilo era instalado em um antiga casa assobradada. E, como eu não conhecia ninguém, buscava os ambientes menos frequentados. Invariavelmente, seguia para os altos, em que os quartos talvez tivessem a área do meu quarto atual; e em que havia, usualmente, mesas vazias; e de onde era possível descortinar a Igreja de São João Vianey e a praça adjacente, com o tráfego deslizando pela Rua Coriolano.

Era possível, assim, escapar de um problema para o qual nunca encontrei uma solução. Um problema de comensalidade. De comer juntos à volta de uma mesa sem se conhecer. É claro que acontecia de, por vezes, alguém sentar á minha mesa. Ou de o restaurante estar tão cheio, que não avulsava mesa vazia e era necessário sentar-se à mesa com outros. Então você ficava ali, mastigando o seu feijão com arroz, seu torresminho e bife ao molho madeira diante de um desconhecido , em silêncio, fingindo paulistanamente que os outros eram uma camada de invisível, uma borra, vultos indistintos ou desfocados, que, quando muito, se entrolhavam de rabo de olho, apesar de ouvir os nhoque-nhoques dos lábios e línguas, ou aquele fricativação de ar limpando os dentes por aspiração. Ou ainda o modo como se depunha três dedos da mão ao modo de toldo, durante a palitação dos dentes.

Até hoje acho impertinente dirigir a palavra a alguém que não conheço numa situação assim ou em quase qualquer outra. A não ser que tenha algo verdadeiramente imprescindível a dizer. Tal como: “Veja, a cortina está pegando fogo!” Ou então: “quase não consigo olhar mais para nada que não seja seus olhos!”

Talvez porque ache o fim essas conversas do tipo: “Tá chovendo, né?” ou “Puxa, que calor!” e que, invariavelmente terminam num “Essa semana tá fogo!”. Ou então, pura e simplesmente num “É!”. Ou ainda pior, aquela maneira de olharem para você como se você houvesse quebrado uma ética preciosa e indiscutível: solitários não se falam em restaurante por quilo.

Como na esmagadora maioria dos dias não há incêndios ou paixões, acho, então, esse problema, o da comensalidade nos quilos da Pompéia, quando se vai sozinho, durante um dia de grande movimento, e se toma lugar numa mesa—dobrável ou não—no andar de cima de um casarão convertido em restaurante, onde há uma janela em que se descortina a Igreja de São João Vianey e o tráfego da Rua Coriolano no limiar da tarde, constrangedor. E, embora esse problema me haja sido proposto pela raça humana, sei que vou morrer sem achar solução para ele.

Tudo isso talvez não dissesse a Marx, se ele por acaso sentasse do lado de lá de minha mesa desdobrável ou não, num quilo. Afinal, há certas incoerências entre a sobredeterminação da estrutura que talvez valessem mais a pena discutir, durante o almoço. Mas logo, logo eu ouviria o nhoque-noque dele mastigando. Ou a mais-valia da gastura de ouvir sua língua passando pelos incisivos, provocando aquela fricação aguda, de quando se limpa os dentes por aspiração de ar.

Quem vai aos quilos tem hora marcada para volver ao trabalho. Joga o pasto para o esôfago, pensando na produtividade, no patrão, na conta, nas crianças, na Praia Grande, no Guarujá, no trânsito, no Minhocão, na filha do vizinho, na greve dos metroviários, na final da Copa do Brasil, na gripe suína ou não. E em muitas outras minhocas, prestações, insumos.

Marx estava errado. A humanidade, desde de o ovo e da galinha, vive a se propor problemas insolúveis.

* * *


E dizer: ó ceu, ó mar, ó clã, ó destino!

George Stevens, Swing Time, 1936

Filósofos franceses & as Auto-Peças O Fialho

[com o pensar em David Foster Wallace, apesar da ausência de notas de rodapé]

“Então passei a contemplar a sabedoria, e a loucura e a estultícia. Pois que fará o homem que seguir ao rei? O mesmo que outros já fizeram”.

[Eclesiastes, 2,12]


Parece que a diferença de perspectiva entre os 20 e os 40 hoje em dia não é assim tão grande. Vejamos, a distância entre essa perspectiva é, às vezes, menos de uma década. E as décadas encolheram, uma vez que a perspectiva de vida aumentou no mundo todo. E essa vida virtualizou-se. Verdade, que aos vinte, o mundo é mais novidade. Aquela luz que se vê no rosto da menina, também se reproduz, em ilusão, refletida nas dobras da cortina, quando você volta para o quarto, bêbado e feliz, cheio de sonhos e projetos, depois de gastar sua mesada comprando tratados de pensadores franceses ou exilados romenos, que posam para fotos com ares e bicos fatais, mas que você acha que são muito legais. A luz do sol – maior em dias de estio, menor nos de chuva – sempre guarda um matiz aprazível. Afinal, você não tem contas a pagar. Ex-mulheres para encher teu saco. Ainda não meteu o nariz para fora do casaco de papai. E conferiu um pouco do que este vasto mundo tem, de fato, a desoferecer ou oferecer, sem ser propriamente teu retrato. Não tem filhos para cuidar. Porque é você que ainda é cuidado. Não tem aquela menininha que quer porque quer ouvir pela décima primeira vez a mesma história. E se revolta, se você não contar a historinha do mesmo jeito, com o mesmo entusiasmo e ca-pri-cho-sa-men-te as mesmas pausas, entonações, onomatopeias. Até com aquele sopro bufado no meio, que ela tanto gosta. E aí você tem de ser leitor e sonoplasta. Senão ela chora. E, por uma misteriosa razão, você não quer que ela chore. Mas, indo adiante, você ainda não teve projetos profissionais, que você sabia bons ou ao menos normais, arrasados por imbecis que galgaram para a sub-chefia do teu departamento a custa de muito puxa-saquismo e falta de visão – mas entendem que você deve trabalhar dobrado para a glória da firma, dos cofres e, sobretudo, do patrão que está logo acima dele – e que é seu deus e senhor (que ele, anjo decaído e travesti de Silvério dos Reis nas horas vagas) está doido para depor na primeira ocasião. E para depois arrotar: eu sou o melhor. Tenho uma Hilux e namoro uma das dançarinas dos Aviões do Forró. Aos vinte, você tem a mamãe para passar a mão no cabelo quando você sente certas dores no cotovelo. E um cão sem pulgas a levar a passeio. Todos os teus amigos são solteiros, gastam suas mesadinhas, estágios e parcos salários de primeiros empregos, bolsinhas de pós-graduação, com cinema, cerveja, futebol, praia, putas e um brinquinho de aros para a eleita no Dia dos Namorados. Ou comem-se entre si feito loucos. Mas seu fetiche maior é simples. Não vai muito além de traçar aquela coroa recém-separada que nunca olha para você no elevador — enquanto outras coisas se elevam, involuntariamente. E você pondera: será tarde para ser surfista? Talvez ela goste de um tipo mais… esportista. Será preciso mudar de look? Mas outra coisa que você quer mesmo é ser amigo daquele escritor famoso, no Facebook. E quanta especiaria! Fumar uns baseados, cafungar umas carreiras e sentir-se um gênio deslocado, incompreendido e solitário, o ser humano mais desgraçado de todo Dionísio Torres. Aos vinte ainda se pode ser de garçom a alto-executivo. E com muito menos insônia do que se imagina. E muito menos castigo. Pode-se pôr uma mochila nas costas e pegar carona até a Patagônia. E achar que o mundo gira em torno do teu umbigo. Pode-se ser irônico. Ter seu ritmo. Deslizar. Fazer isso, dizer aquilo. Sorrir após a aprovação de tuas frases de efeito. Tentar cativar os mais velhos com suas piruetinhas para ganhar o pirulito do elogio. E sentir-se a revelação da vez. Você tem códigos próprios, gírias, gestos tribais e acha isso muito bacana. Ter convicções inarredáveis. Ídolos. Porta-vozes. Aquele guitarrista que exprime o que você sente. Aquela cantora que escande com tamanha veemência os versos que, com toda certeza, foram feitos sob medida para quando você está curtindo aquela deprê por causa da menina dos brinquinhos de aro, que ora lhe passou para trás e anda de namoro com um robusto ferrabrás, um personal trainerqualquer dessa vida mais saudável, a que todos aspiram. Ou, se do contrário, está contente, ao ouvir a cantora, dá pulos de alegria quase em estágio de epitalâmio como quando você foi na Disneylânia. Você pode sonhar com uma ampla geografia. E querer passar uns meses na Groenlândia. Mas resolve seus problemas sexuais mesmo é com aquela filha de um funcionário do fórum que mora na Gentilândia. Agora, numa noite de sorte, pode até deitar com uma hippie argentina e depois uma deusa de ébano soteropolitana. Por turnos ou simultaneamente. Pode assistir filmes de Bertolucci e achar que a vida não é assim tão diferente. Escolher uma menina para namorar que guarde nem que seja uma nesga de semelhança com Liv Tyler. E tentar roubar-lhe a beleza. Embora você seja tão purista que acaba por achar que a sua Liv, bem, tem algumas espinhas a mais no rosto e uns lábios não tão carnudos. Ainda que o rosto fosse da maciez da espuma-do-mar e os lábios duas polpas de pitanga antes de você gozar. E, fora da alcova, brigar muito com seus pais, com seus professores. Faz parte. Cavar polêmicas tão altissonantes quanto ocas. Contestar os “coroas”, os “caretas”, as “patrulhas”. E curtir a galera. Tudo isso para escapar da tua louca e vera vontade de comer a mamãe. Comprar uma guitarra e sequer aprender a tocar “Sunshine of Your Love”. Aos vinte você é uma promessa. É mercurial como o sol de abril desabando em finas aparas de luz sobre as ruas de Fortaleza às duas da tarde, quando, à sombra, sente-se a brisa roçar o rosto feito um afago. Há algo de semi-deus grego em você. E ainda não de Otelo e de Iago. Você está para terminar a faculdade com aquele vago sentimento de haver feito o curso errado. Mas para e pensa: ainda dá tempo. E, com as engrenagens a mil em tua cabeça, inventa logo três diferentes futuros: monge budista, proprietário das Auto Peças O Fialho – o sobrenome da família – ou comissário da ONU para assuntos estratégicos no Alto Volta. E isso não parece sanha, mas a coisa mais sã. De repente, você está comendo em Paris e cagando em Amsterdam. Mesmo sem sair da Aldeota. É um pouco o colateral de tanto pó. De tantos Ciórans e Benjamins da estante pra cachola. Do tanto que você deixa sua mesada com o traficante. Tudo semelha um feature. E, no filme, claro, você é sempre o mocinho, o centro do mundo, todos se curvam ante sua passagem mesmo sem saber. Ainda que você seja aquele anti-herói mal-barbeado com um cigarro ao canto do lábio, tipo Albert Camus ou Mickey Rourke, o jovem; aquele que todos desprezam e anda sempre olhando para o chão com cabisbaixos olhos fatais, chutando latas, o nada ou algo mais. VOCÊ tem elã,VOCÊ é demais. O cultivo dessa auto-adoração sob forma do solitário maldito é a sua tara. Os outros é que não notam. Mas VOCÊ sabe: VOCÊ é o cara! Agora, a câmera nota. Pois deixa os outros sempre em segundo plano e desfocados. Aos vinte, a câmera adora VOCÊ e VOCÊ se sente adorado por ela. Mesmo nos momentos mais violentos. Mesmo nos mais fatais. 
O problema é que tudo isso esgota sem mais. O filme, súbito, acaba antes mesmo de ser editado. Sem aviso prévio. E quando se olha para trás, de volta para o espelho, já não se tem muito remédio. E então se solicita uma troca, um corte para a próxima cena, e — que acinte! — a câmera já não está mais lá, passou para a geração seguinte. De início, você se revolta, tenta voltar ao proscênio, volver a los vinte! Como pode, logo você, virando figurante!? Um extra que passa tão desapercebido quanto um asceta essênio. E era tudo do que você mais temia. Ser uma daquelas figuras deslustradas, desfocadas, em segundo plano, perto da coxia dos tempos em que VOCÊ era o galã. Então desanda a malhar feito louco, maromba pesado, corre quilômetros, toma suplementos alimentares e açaís, implanta reservas capilares sobre os pampas da calva, submete-se ao terrível exame de próstata, tinge o gris nas costeletas. Mas, nas Auto Peças O Fialho da vida, mesmo o botox que se enxerta no rosto não substitui a selvageria de ter vinte anos. Como o tempo pode ter passado assim tão sem você se sentir entrando pelos canos? 
E agora, aos quarenta, é você quem vende canos de escape, bobinas e calotas, atrás do balcão. E o fato de voltar a ter mais cabelos na cabeça de novo parece não haver melhorado as ideias dentro dela. Mesmo passando rápido, os dias são quase o mesmo. A mesma esparrela. Ao fim de um deles, você coça o ventre, já proeminente, ou as partes menos eminentes. Fecha o caixa. E pede para o Anísio descer a porta corrediça, porque já são seis e meia da tarde e você tem que pegar a Emília na aula de francês e o Fialho Jr. na capoeira. E, então, ao chegar no condomínio, responder uns imeios desejando aos clientes, fornecedores e amigos: “Felicidades!”, a época é de festas. E, por fim, sem erro, tomar seu uísque e falar da vida alheia no bar do Ideal Clube. Que ninguém é de ferro.


appendix: DOIS POEMAS DE LEMINSKI COMEÇANDO COM “UM DIA”

um dia quero ser 
um grande poeta inglês 
do século passado 
dizer 
ó céu ó mar ó clã ó destino 
lutar na índia em 1866 
e sumir num naufrágio clandestino

* * *

um dia 
a gente ia ser homero 
a obra nada menos que uma ilíada

depois 
a barra pesando 
dava pra ser aí um rimbaud 
um ungaretti um fernando pessoa qualquer 
um lorca um eluárd um ginsberg

por fim 
acabamos o pequeno poeta de província 
que sempre fomos 
por trás de tantas máscaras 
que o tempo tratou como a flores

* * *