Roberto Bolaño e alguns fins do mundo (possíveis ou não)

Wols, Le dictateur, c. 1945

 

Toma-se um livro de Roberto Bolaño para ler. O livro é um bocado feio. Tem a capa de um vermelho berrante. E nela cerca de metade é aberta para uma foto. Na foto em preto e branco se vê um velho gaúcho de barbas brancas, o pampa sem fim estendendo-se por trás dele. E próximo a ele, um pouco como se o farejasse, vemos um coelho nitidamente aplicado – a exemplo do velho – sobre a infinita linha de horizonte do pampa, quebrada apenas por uma espécie de cânion. Acima disso há o título do livro, El Gaucho Insufrible, postado em tipos pequenos uns dois centímetros abaixo do nome do autor, que rende três vezes mais. Arrematando tudo, abaixo da foto, vem o nome da editora e a série: Anagrama/ Colección Compactos. É isso, trata-se de um livro originalmente publicado em Barcelona, outubro de 2003. E houve quatro reimpressões depois disso. As duas últimas em 2010.

São contos.

O primeiro lê-se com certa desconfiança. Parece deliberadamente vago ou experimental ou inconclusivo. Ou de algum modo sugere certo sabor de que nada acontece. De estar impregnado de alguma previsível pasmaceira pós-moderna: no plano da forma e no que segue contado. Surge bem escrito, mas parece com o quê? Com um conto escrito por excelência por qualquer conhecido seu em qualquer ponto do planeta. E, de preferência, alguém que se assumiu de fato como escritor profissional. O conto que lhe chega geralmente numa revista, numa antologia, ou mesmo por imeio. Por que Bolaño dá a precedência do livro a este conto é difícil supor. Nele há uma americano sombrio flanando pela Cidade do México. Há um engolidor de fogo. Há o narrador.

Talvez porque o segundo, que dá título ao livro, é uma granada estilhaçando cem mil lugares-comuns. É o inverso do hermetismo pseudo-sofisticado do primeiro. É um conto que não quer restar como nada “sofisticado”. Longe disso. Há um oximoro aqui porque esse segundo, “El Gaucho Insufrible”, compõe uma devastadora síntese da América Latina tomada a partir de um ponto de vista da Argentina no início dos 2000. E é tão impiedosamente sardônico, caricato, que o retrato esboçado tira risos pelo excesso de Apocalipse.

Um advogado bem sucedido, Peneda, que chegou a juiz, retrocede à figura do gaúcho após a aposentadoria. Os pampas seguem infestados por coelhos que aparentemente são a única fonte de alimento durante uma acachapante crise econômica que abate-se sobre a Argentina. Depois de algumas peripécias, Peneda, o juiz jubilado — sem muita plata nem tanto prestígio assim – muda-se para sua estância. A tempo de observar que àquele bando de gaúchos – completamente ineptos e de mãos cegas para qualquer ofício – inicialmente, só dois assuntos interessam, e com igual desvelo: a crise econômica e o futebol.

Depois, passada a erupção da crise, fica apenas o futebol. Eles próprios foram (ou são filhos de) antigos barras bravas, que não hesitavam em abandonar a casa, a mulher, os filhos, para seguir com psicótica devoção o clube do coração pelos rincões mais remotos da Argentina.

E, no entanto, se há uma lista de livros em que você se pega a bolar de rir com o inusitado do humor, a indizível fome de contundência, El Gaucho Insufrible há de estar nela:

 

La mujer no hablaba mucho pero sin duda trabajaba más que los seis gauchos que para entonces Pereda tenía en nomina, lo cual es un decir, pues a menudo se pasaba meses sin pagarles. De hecho, algunos de los gauchos tenían una noción del tiempo, por llamarla así, distinta de la normal. El mes podía tener cuarenta días sin que eso los causase dolor de cabeza. Los años cuatrocientos cuarenta días. En realidad, ninguno de ellos, incluido Pereda, procuraba pensar en ese tema. Había gauchos que hablaban al calor de la lumbre de electroshocks y otros que hablaban como comentaristas deportivos expertos, sólo que los partidos de fútbol que mentaban habían sucedido mucho tiempo atrás, cuando ellos tenían veinte años o treinta y pertenencían a alguna barra brava. La puta que los parió, pensaba Peneda con ternura, una ternura varonil, eso sí.

 

E o dente na veia prossegue pelos contos seguintes. Especialmente “Dois Cuentos Católicos”, “Literatura + Enfermedad= Enfermedad” até chegar a uma espécie de inferno definitivo em “Los Mitos de Cthulhu” – que é um dos dois ensaios breves que fecham o livro de contos com inusual contundência.

Neste último, em tom exaltadíssimo, Bolaño não poupa ninguém nem abre grande margem para compromissos. Traça um diagrama boschiano da literatura em língua espanhola. E um diagrama interessante, apocalíptico. Perfeitamente maldito. Que não se iria escutar nunca na voz de escritores que são verdadeiros establishments ambulantes, como Octavio Paz, Gabriel García Marquez ou Mario Vargas Llosa. E por outro lado, como aponta Bolaño, escritores dessa envergadura institucional gastam tanto tempo construindo a própria respeitabilidade, cerzindo a própria imagem que, no fundo, perdem qualquer possibilidade de contundência. Nenhuma sensibilidade. Nenhum “senso-comum”, como dizia Gertrude Stein: “todos recebem tanta informação o dia inteiro que acabam perdendo seu senso comum”. Eis porque, entre outras e ao lado deles, Bolaño soa como nitroglicerina pura. Uma máquina de moer carne literária que faz picadinho de gente como Sánchez Dragó, Ana Rosa Quintana, Isabel Allende ou Pérez-Reverte. (Em uma de suas últimas entrevista há um visível mal-estar quando ele lembra que Paulo Coelho está na Academia Brasileira).

As páginas pingam ressentimento, dor, revolta, uma compreensível fúria, aplacados um tanto pela voltagem de humor página após página:

 

Ana Rosa Quintana, una presentadora de televisión simpatiquísima, es quien escribe el mejor libro sobre la mujer maltratada de nuestros días. Sánchez Dragó es quien escribe los mejores libros de viajes. Me encanta Sánchez Dragó. No se le notan los años. ¿ Se teñirá el pelo con henna o con un tinte común y corriente de peluquería? ¿ O no le salen canas? ¿Y si no le salen canas, por qué no se queda calvo, que es lo que suele pasarles a aquellos que conservan su viejo color de pelo?

 

Ou então:

 

Latinoamérica fue el manicomio de Europa así como Estados Unidos fue su fábrica. La fábrica está ahora en poder de los capatazes e locos huidos son su mano de obra. El manicómio, desde hace mas de sesenta años, se está quemando en su propio aceite, en su propia grasa.

 

É claro que o que mais ressalta nesse diagrama é a aspereza de Bolaño diante da inércia do establishment literário ou acadêmico. Nesse sentido ele é bem-vindo em qualquer tempo. Mesmo numa circunstância em que os Estados Unidos encontram-se em relativa decadência assim como a situação europeia bem menos confortável que a euforia unificacionista de só alguns anos atrás. E em parte por que? Porque o futuro parece haver apostado suas fichas na China e, em menor escala, em outras economias emergentes – e isso inclui países da própria América Latina (este conceito lábil, em que brasileiros volta e meia se incluem, volta e meia não; volta e meia são incluídos; volta e meia não). E, no entanto o excesso de carnaval, de barroco, de deformação, e de uma violenta alegria é tão contagiante no Brasil, que há uma unanimidade: dentro em breve, seremos uma superpotência real, por méritos próprios, ainda que uns poucos venham questionando mais e mais os métodos de “inclusão” social do governo e, em especial, a habilidade para manipular a máquina de propaganda – especialmente a partir do segundo mandato Lula. Parece haver no Brasil uma total incapacidade de articulação ou uma progressiva perda de espaço de articulação para uma oposição efetiva e respeitável. Isso é já suficientemente perigoso – ainda que as regras do jogo político pareçam mais consolidadas que em alguns outros países do continente: Venezuela, Equador, Bolívia, Peru e até mesmo Argentina e Colômbia. Parece que o Chile e o Brasil estão um pouquinho mais aprumados quanto ao respeito pelo estado de direito – quem irá convencer um anarquista a escrever estado com maiúsculas?Ainda assim, há como que uma reserva de mercado na burocracia estatal, nos quadros acadêmicos que assomam como prerrogativas ou oligopólios do PT. E isso tende a crescer.

Voltando de bugalhos a alhos, o diagnóstico de Bolaño – como entre nós há talvez no passado recente somente o da figura solitária e igualmente auto-disruptiva de Paulo Leminski – compele ao menos a refletir um pouco para fora da assepsia dos padrões. Inclusive televisivos. Ele tem um laivo dessa sacrossanta ira que é também a do norte-americano David Foster-Wallace, por ilustração. Um pouco desses cachorros doidos varridos cujo latido é, volta e meia, pleno de premonições ou sugestões que passam muito ao largo de soluções excessivamente instituídas, sedadas, necrosadas, entorpecentes. Como Foster-Wallace e Paulo Leminski, há na palavra de Bolaño a verve de uma experiência alternante, que sinaliza para o desvio de práticas constituídas: a bolsa de estudos, a cátedra acadêmica, os ensaios soporíferos e inócuos produzidos em série nos departamentos universitários, a academia de letras, a supervalorização das novas mídias e do ambiente televisivo e digital. De suas observações pingam uma sorte de sinceridade da qual é perto de impossível abster-se.

E há o humor abrasivo. Em seu romance mais conhecido Los detectives salvajes [Os detetives selvagens, 1998], os protagonistas são dois jovens poetas de vanguarda. Mas o mais espantoso é que, a despeito disso, o livro fervilha de ação… e humor. Os dois se metem em encrencas sucessivas enquanto deambulam pela Cidade do México na década de 70. Depois, seguem para muito mais longe. Porém um dos trechos mais impagáveis é quando um amigo de ambos, um poeta gay, esboça uma classificação bastante sui generis dos gênero literários: “Romances, em geral, são heterossexuais, enquanto a poesia é completamente homossexual; acho que contos são bissexuais, embora eles não digam”.

E, então, esse mesmo amigo declara que até o momento a poesia lhe havia satisfeito plenamente, apesar de cedo ou tarde “estar predestinado a cometer a vulgaridade de escrever contos”.

A prosa de Bolaño não é algo que fala de fora para dentro da vida. Que estranha a vida. Ou a torna meta-alguma-coisa. Ou tem aquela horrenda encheção de linguiça tão à francesa. A do intelectual hierático que assina manifestos e pontifica sobre quase qualquer assunto: o bem e o mal; o torto e o direito; a crise nos Estados Unidos e a influência da menstruação das minhocasa na coloração do Mar Vermelho. Bolaño não deixaria pedra sobre pedra de tipos assim. Por exemplo, de gente como Bernard-Hénri Lévy. Ou qualquer dentre esses intelectuais arroz-de-festa. A gozação que faz de conceitos como “pensamento débil” ou a onda que tira em cima de nomes constituídos, apoiando diagnoses infames é de se tirar o chapéu. Para no fim, dizer, parodiando o próprio Borges, que:

 

Si pudiéramos crucificar a Borges, lo crucificaríamos. Somos los asesinos tímidos, los asesinos prudentes. Creemos que nuestro cerebro es un mausoleo de mármol, cuando en realidad es una casa hecha con cartones, una chabola perdida entre un descampado y un crepúsculo interminable. (Quien dice, por otra parte, que no hayamos crucificado a Borges. Lo dice Borges, que murió en Ginebra.) Sigamos pues, los dictados de Gracia Márquez y leamos Alejandro Dumas. Hagámosle caso a Pérez Dragó o a Gracia Conte y leamos Pérez-Reverte. En el folletón está la salvación del lector (y de paso de la industria editorial). Quien nos lo iba decir. Mucho presumir de Proust, mucho estudiar las páginas de Joyce que cuelgan de un alambre, y la respuesta estaba en el folletón. Pero somos malos para la cama y probablemente volveremos a meter la pata. Todo lleva a pensar que esto no tiene salida.

 

Roberto Bolaño morreu em Barcelona oito anos atrás. O volume de contos El Gaucho Insufrible é seu primeiro livro póstumo publicado. Outros seguiram-se. Inclusive o romance 2666. Esse chileno irrequieto, nada insofrível, frisava que “mi única patria son mis hijos. Y tal vez, pero en segundo plano, algunos instantes, algunas calles, algunos rostros o escenas o libros que están dentro de mí y que algún día olvidaré, que es lo mejor que uno puede hacer con la patria”.

 

 

* * *

Portugal: 1. Sagres

 

1. Sagres

 

A mitologia começa nos nomes da infância. Quem não teve uma infância sobressaltada pelo poder dos nomes pode dizer que verdadeiramente absorveu alguma seiva para contar? E, aqui, em especial o nome de pessoas, lugares. Íamos à escola e não podíamos ver muitas coisas. Muito mais cegos, tínhamos de imaginá-las. Forte. Nada piano. Mesmo a TV, que estava começando, era em preto e branco. Quer dizer, o jogo de preencher lacunas – muito maior, então – nos fazia coloristas de um mundo distante que, quando muito, pendia para matizes de cinza. Na tela da TV, quase nada. Talvez na foto de Lisboa, na Enciclopédia, com um automóvel antigo por uma praça cinza, misteriosa, que a legenda dizia, sussurrando, roçando o ouvido, ser: Rossio. Vivíamos numa rarefação de imagens que nos tornava amplamente imaginativos. Em especial na escola. Nas aulas de história, quando se dizia: “caravela“ havia tão só uma gravura no livro didático. Miúda, um pouco sem graça. Mas antes a palavra. Ah, a palavra. Nada como ela: vela. Com um pouco de imaginação talvez assemelhável a um daqueles navios que eventualmente víamos em filmes de piratas. Sim. E podia-se sentir no rosto o respingar das ondas lambendo o pano: vela. Devia ser de um outro tipo? Pois, então, como entender que “caravela” designasse também o estranho animal que mais parecia um balão de aniversário, inflável, arroxeado, que queimava a pele recém molhada pela água? E logo vinham outros tantos nomes de lugares, pessoas: “Tordesilhas”, “Sagres”, “Henrique”, “Manuel”, “Vasco”, “Pedro”, “Pindorama”. Alguns eram engraçados e sugeriam algo como um caracol, ecovolteando no tubo da clarineta: “Calicute”. E que tal a “Nau Catarineta”?Alguns a gente não achava vivalma com aqueles nomes: Mem, Fernão, Urraca. Não havia mais ninguém com eles. Uns eram bons e belos: Évora, Sintra, Coimbra. Outros eram pequenos, delicados, sumários como diminutivos: Minho. (Este era também uma marca de vinagre. Calma. Ainda não nos era, em ironia, dado imaginar a tenacidade forjada naquelas margens). Outros cunhados em um nobre fogo amarelo e azul: Douro. E havia os que reapareciam mais e estavam no vero centro da coisa: Lisboa. E esta era tão boa palavra que nela havia um aroma flor-de-lis, a beleza de uma mulher ridente. Al-fa-ma: abria madrugadas, mágicas portas, repletas de especiarias. Cravo soando à luz da manhã. Outros, enfim, intratáveis, apenas tocados pelo olho, a letra não chegava a formar pronúncia: “Mauritsstad”. Ou se formava era algo corrupto, inventado apenas pela necessidade, quase mecânica, de articular sons no ar. No fino ar.

Sons no ar. Como um bem-me-quer. Como um mal-me-quer. Como uma turbina…

E muitos anos depois, quando veio o anúncio do comandante de que o avião iria sobrevoar o continente europeu a gente, como num sonho, punha o olho pela janela e lá, abaixo, havia terra de novo: uma enseada ao centro e, no sul, extremo, depois de um delicado istmo, uma península. E a alma mal acreditava. E o coração pulsava mais rápido. Não era assim só ficção. Tudo aquilo, enfim, tinha um canto. Existia. Aquilo era: Sagres.

E a península. Parecia apenas um prólogo. Insinuação de uma terra imensa que queria brotar ainda. Após. Longe. Muitas ondas depois. Mares oceanos. Onde a língua pudesse achar de novo uma casa. E o coração baixar todas as guardas e dormir tranquilo. Outra vez. Com aquela semana diferente, cheia de ordinais e feiras. E, então, naquele momento, simples assim, o nome reencontrava o ser. Como se houvesse um imperativo no nome. E a gente entendia senha e porquê de haver algo de miraculoso e sagrado, em Sagres.

 

* * *

Por que você faz cinema?

Joaquim Pedro de Andrade [1932–1988]

 


Para chatear os imbecis
Para não ser aplaudido depois de seqüências dó-de-peito
Para viver à beira do abismo
Para correr o risco de ser desmascarado pelo grande público
Para que conhecidos e desconhecidos se deliciem
Para que os justos e os bons ganhem dinheiro, sobretudo eu mesmo
Porque, de outro jeito, a vida não vale a pena
Para ver e mostrar o nunca visto, o bem e o mal, o feio e o bonito
Porque vi Simão no Deserto
Para insultar os arrogantes e poderosos, quando ficam como cachorros dentro d’água no escuro do cinema
Para ser lesado em meus direitos autorais.


Joaquim Pedro de Andrade

[in Pourquoi filmez-vous? / Libération / Paris / maio de 1987]

 

*   *   *

Um senhor meio: Oz

Vincent van Gogh, Paisagem com Neve, 1888

 

 

Amos Oz

Conhecer uma Mulher [Conoscere una donna, trad. de Alessandro Guetta, Feltrinelli, Milano, 2000]

 

Difícil aferir os méritos de um escritor quando ele não é lido no original.

Menos mal se a tradução é italiana. Os italianos, historicamente, desenvolveram a melhor escola de tradução da Europa. Uma que vem colhendo frutos desde a Renascença e, entre outros, é responsável pelo lema mais célebre nos domínios da tradução: “Traduttore, traditore!”

O certo é que Amos Oz escreve em hebraico. E nem todo mundo sabe hebraico. O hebraico é lido da direita para a esquerda e possui uma estrutura oriental e um alfabeto próprio onde não há vogais, ao menos no hebraico clássico. No hebraico moderno convencionou-se uma combinação de pontos e traços para designá-las, chamada niqqud. Além disso é a linguagem da maior parte da Bíblia. E da parte da Bíblia que é a mais essencial para a religião judaica, os cinco primeiros livros, a Torah.

E isso de ser a linguagem da Bíblia pode ser algo intrincado de manejar. Um dilema. Pois há, por exemplo aquela elevadíssima poesia que se pode encontrar em Isaías ou Jeremias; ou nos Salmos. E então há que estar vigilante para que uma volta no quarteirão até a banca de revistas e limpar o olho com a visão de uma bela mulher não reverbere esses ecos monumentais. Que um “oi, tudo bem?”, o comezinho e o cotidiano não ecoem como dentro da nave vazia de uma majestosa catedral gótica.

Além disso, o hebraico passou séculos como língua morta – a exemplo do latim ou do grego arcaico. E só foi reavivado no sec. XIX e, em quase sequência, incentivado pelo movimento sionista.

Amos Oz é um escritor bastante prolífico. Mas ao se pronunciar o nome de Oz, de imediato vem a mente Meu Miguel ou Meu Michael, o seu romance de 1967 que é lido como uma metáfora política. E é também a obra mais ressonante de Oz. Isso, a despeito de certa contrariedade do autor. Para quem a trama apenas narra a história de um amor malogrado a partir de um ponto de vista feminino.

Aliás, até os nomes próprios portam esse eco bíblico. Sendo El um dos nomes de Deus em hebraico, Miguel quer dizer “Quem como Deus?”

Mas não é sobre Meu Miguel que versaremos, senão sobre Conhecer uma Mulher, que é de 1989. O protagonista de Conhecer uma Mulher é um agente do serviço secreto Israelense. E o livro é um tanto quanto seu trabalho de luto pela perda da esposa. Uma cantiga de viúvo. E uma cantiga de viúvo tão bonita quanto o poema de Drummond – de resto musicado por Villa-Lobos:

 

CANTIGA DE VIÚVO

 

A noite caiu na minh’alma,

fiquei triste sem querer.

Uma sombra veio vindo,

veio vindo, me abraçou.

Era a sombra de meu bem

que morreu há tanto tempo.

 

Me abraçou com tanto amor

me apertou com tanto fogo

me beijou, me consolou.

 

Depois riu devagarinho,

me disse adeus com a cabeça

e saiu. Fechou a porta.

Ouvi seus passos na escada.

Depois mais nada…

acabou.

 

É este o motivo do Conhecer uma Mulher, de Oz. Yoel, o agente secreto, é de um temperamento irritantemente lógico e metódico. Furtivo, lacônico, esquivo. De medir cada sílaba, cultivar grande silêncio. Deixar esse canteiro de silêncio germinar. E cada uma dessas flores de silêncio, em geral, desabrochar em pétalas de ruminação. Ou seja, de como teria reagido a esposa morta numa situação xis de um aqui e de um agora onde ela não é mais. Ou de reminiscências dela: gestos, gostos, posturas, objetos, roupas, fotos…

Reiteradas vezes Oz tem dito que um de seus assuntos favoritos é a família. A família como uma instituição que não fez água, e está aí há milênios. Isso, por igual, tem a ver com uma visada mais judia que cristã, se vista a partir de um determinado ângulo. E esse ângulo referenda certa crença de Oz. Pois Para Oz o “o próximo” é algo abstrato e lato demais para ser, de fato, amado. E o que amamos está dentro do círculo de giz dos afetos e das amizades. Com o destaque de que o vero centro desse círculo de giz traçado no cimento irregular da calçada é a própria família. A que não se escolheu pertencer. E a que se optou por formar. Mas de cuja medula, se não se consegue equacionar certos fluidos, nada pode caminhar a contento para devir.

Mesmo que isso do próximo, de algum modo seja desmentido, ao menos em parte, nos relatos de Oz, esse absenteísmo diante do próximo é algo que Oz faz questão de sublinhar. E, no entanto, também contraditar no fio de sua própria narrativa pois, apesar de ser um tanto irônico e, por vezes deliberadamente bem humorado em relação a seus personagens, ele quase sempre os trata com grande senso de compassividade.

De resto, com uma formação em Filosofia, seu pensador predileto é, significativamente, Espinosa. Oz conta entre os adeptos de Espinosa que não creem que o autor da Ética se haja convertido ao cristianismo.Quando é certo que em trechos de seus escritos, Espinosa reconhece a divindade de Jesus. E paga até um alto preço por isso, uma vez que sofre uma espécie de “excomunhão” da própria comunidade judia de Amsterdam. Um herem. [O sentido da palavra em hebraico é o de banimento].

Também “excomungado” ou “banido” – quer dizer, separado do restante da humanidade pela perda da mulher – é como parece se encontrar Yoel, o personagem central de Conhecer uma Mulher. E, como se não bastasse, toda misteriosa circunstância da morte de Ivria, a esposa, a quem ele amava ardentemente, aponta para um adultério. E assim, o fato de Yoel aposentar-se precocemente e mudar de Jerusalém, a cidade em que o casal vivia antes da morte dela, para uma ampla casa nos subúrbios de Tel-Aviv, junto com a filha, a mãe e a sogra diz muito dessa obsessão de Oz pela família.

A relação entre pai e filha é, quase sempre, apenas protocolar. Mas cabe um universo de cuidado e delicados meandros nesse quase e nesse sempre. A filha sofre de uma espécie branda de epilepsia. E isso parece torná-la, aparentemente, presa fácil de uma auto-imagem pouco lisonjeira. E uma personalidade, de algum modo, vulnerável. Mas, aqui, entram muitos outros componentes, pois, sem hesitação, Oz herdou todas as indizíveis habilidades e magias dos grandes narradores judaicos. De Singer a Salinger. E, de muito antes destes, da própria Bíblia, onde relatos como os da Gênese ou do Êxodo, além dos livros sapienciais ao modo dos midrash, como Tobias ou Ruth, para não mencionar Jonas – este pequeno conto tão deslocado quanto cintilante inserido poesia dos profetas a meio – conformam a própria razão de ser do povo judeu. Daí que eles também sejam chamados – e com toda justiça: “o povo do livro”. Pois nenhum outro povo, nem mesmo os gregos com Heródoto et alli, possui um faro tão forte para narração a partir de uma narração previamente consolidada e aludida como fonte viva de unidade no seguir dos dias. E essa narração é, naturalmente, a Bíblia.

Ou ainda, se há uma característica marcante em Oz é a imensa habilidade em fisgar a atenção do leitor. Em seduzi-lo desde o princípio. Palavra a Palavra. Frase a Frase. Sentença a Sentença. Parágrafo a Parágrafo. Capítulo a Capítulo. E, assim, Conhecer uma Mulher, assoma vívido, por traçar com tanto vigor e energia sinestésica essa cantiga de viúvo. Esse cotidiano assombrado pela falta de uma e a relação de Yoel com as três outras mulheres sobreviventes: a filha, a mãe e a sogra da defunta. Assim como também sua ligação a mais alguns poucos amigos.

E aqui, sim, há tanta presentificação. Tanta localía. Tantos odores, sensualidades, texturas, climas, atmosferas, objetos, gestos, sabores que o leitor parece testemunhar esse cotidiano. Degustando a comida, assistindo a TV, podando a grama, lavando a roupa, fazendo pequenos trabalhos domésticos, entrando noites adentro, assombradas por uma ausência, acontemplando o mar à noite, visitando um velho senhor num Kibbutz – na que surte ser uma das mais bem-humoradas cenas do romance.

Mas romances acabam. E pelo que há nos primeiros quatro quintos de Conhecer uma Mulher o leitor aspira por um final digno desses quatro quintos. E é precisamente o que não ocorre. O livro tem cinquenta capítulos relativamente curtos. Mas quando se chega ao capítulo quarenta ele como que se acelera. E num mau sentido. Quase ao modo de um folhetim eletrônico, de uma telenovela. E então o desfecho já se pode pressentir bem menos misterioso ou sinestésico ou poético do que os capítulos que o precedem prometiam. Esses últimos capítulos parecem desprovidos dos tempos mortos, redundâncias, divagações, engenhosas associações presentificadas nos anteriores. É como se o fim não honrasse a dignidade do meio.

Agora, convenhamos, é um senhor começo.

E um senhor meio.

 

* * *

 

Orfeu e a conjunção adversativa

[s/i/c]

 

Então compôs um nocturno tempestuoso e selvagem,

Porém, estava meio mouca.

Entrou na dança com a desenvoltura dos potros frísios,

Porém não tinha pernas.

Sentiu o barro descolar de seus pés durante a decolagem,

Porém as asas, de cera.

Tirou licks, bends, slides e harpejos de sua Gibson Les Paul,

Porém ouvia valsas búlgaras.

Gravou em plano-sequência metade e mais de um conto de Hammett,

Porém o olho picava segundos.

Do azul, tirou um soneto cheio de energia, címbalo e pausas,

Porém só lia prosa.

Quando, enfim o fisgou, o tarpão espasmava no ar, e muito oscilava barco,

Porém, e se os peixes gritassem?

Ao jantar preparou lombo de cerdo à moda de Granada,

Porém era vegetariana.

À mesa pôs um bordeaux Chateau Lafite, 1987,

Porém preferia vinho do padre.

Reclinou a cabeça para ouvir os grãos de silêncio na voz dela,

Porém saraivava todos os palavrões em um .

Depois de safas esquivas, nocauteou-o com um cruzado no queixo,

Porém pugilismo é selvageria, mesmo em legítima defesa.

Executou um perfeito tercio de varas,

Porém, todos sabem, tauromaquia há só para bárbaros.

Propôs-lhe uma semana a explorar os mistérios e arabescos da Alhambra,

Porém achava mais graça no Empire State Building.

Na corda bamba, lá, acima, duas cambalhotas do mesmo impossível,

Porém riscos, sem rede, são para idiotas.

Da cadeira de armar, no convés, ocaso a meio, requestou duas piñas coladas,

Porém cruzeiros, querido, só do sul e no céu.

No croqui a casa endentava na pedra e a queda d’água a transversava.

Porém quem dorme com o pingar de água por perto?

Pingou uma gota de leite no mug de Earl Grey:

Porém era alérgica a derivados lácteos.

Pintou um imenso tríptico elogiadíssimo pela crítica,

Porém a miopia de longe, a presbiopia de perto. Sinto.

Levou-a para assistir Ordet na Cinemateca,

Porém bem melhor estimava Bring Me The Head of Alfredo Garcia.

Perdeu a cabeça e apelou para o coração,

Porém, até quem lambe barro sabe, é onde os fracos não tem vez.

Decidiu, enfim, integrar porém a seu vocabulário:

Quem precisa de poréns, quando se tem mas, todavias, contudos, não obstantes?

 

* * *

Parecia Ter Mais

[s/i/c]

 

O Professor Edwin McCohert. Ele era muito sério. Um cientista. Matemático de renome. Com artigos em revistas conceituadas. Era membro do conselho de editorialismo científico da Universidade de Edimburgo, onde lecionava. Alunos brilhantes haviam passado por sua tutoria. Edwin McCohert era quase incapaz de pensar essas futilidade inúteis e moderadamente estúpidas que quase todo mundo pensa. Mas às vezes ele pensava. E em outras vezes, até as experienciava meio a contragosto. Coisas do tipo: seria possível a uma mosca dar a volta à Terra se dirigisse todos os esforços nesse sentido, ao invés de ficar revoando sobre o cabelo do Professor Louis Herbert Mayall, que devia ter esquecido mais uma vez de tomar banho?

Ah!, as moscas, os mosquitos… sim, são, no fim, tão anatômicos. Os mosquitos, então, mais parecem caças a jato de tão bem desenhados. Com certeza devem ter inspirados os designers da McDonnell Douglas a projetar o F-18. Já as moscas, parecem so disgustingly annoying. How could such a petty thing be so stubborn? Como ousam pousar em nossa sopa? E, superando elefantes, incomodar muito mais. Como é chato, depois de um lauto almoço no fim-de-semana jazer estatelado em um macio sofá e, daí, vem aquela mosca que pousa sempre no mesmo lugar. Um pouco para esquerda na tua testa, que está crescendo em calva. A gente a espanta e é mesmo que nada. Ela vem de novo e pousa um pouco para esquerda, na testa. No exato ponto. No centro do moscoporto. E, então, lá pela enésima vez, quando ela já nos enlouqueceu por completo, saímos correndo atrás de esmagá-la com o jornal pela sala afora. Leda tentativa, mas pelo menos isso a afasta da testa e nos dá uma probabilidade maior de siesta.

Mas eram raras às vezes que o Professor Edwin McCohert pensava assim. Em geral, era muito mais lógico. Sisudo. Comedido. Sua mulher tinha quase vontade de convencê-lo a ter um affair com uma professora assistente, cuja especialidade eram curvas e parabólicas. Mas ele, embora pressentisse os innuendos da mulher, não se animava tanto. Mesmo que achasse a colega não de todo desatraente. E notasse certos olhares oblíquos sob os espessos óculos dela. Será? Não. Devia ser impressão. E, além disso, ela era casada e levemente estrábica (quiet charming!). E anglicana devota. Se ao menos fosse católica… Na verdade, de todo esse imbróglio, apenas uma coisa lhe ocorreu. Algo um um tanto constrangedor, indeed, um tanto fora de propósito, enquanto erguia a chávena de Earl Grey: como as moscas trepam? Será uma sobre a outra; ou será, well, como aqueles cachorros quando definitivamente encangados, cada um vira-se para um lado? Será que trepam durante o voo ou tão-só nas cornijas um tanto empoeiradas das lareiras? E se for durante o voo, quem despenderá mais energia, pois há que manter o curso do voo e, ao mesmo tempo, well, you know, actually:

–Oh, fuck off, what a hell of a thought – dizia com os botões de seu roupão de flanela, que o abotoava até o pescoço o Professor Edwin McCohert. Mas nem Rangers X Celtics na TV conseguia desviar seu pensar da cópula das moscas. Havia enciclopédias e uma boa seção de livros de entomologia para tanto na biblioteca da universidade, ponderou. E o Departamento de Biologia não era dos mais fracos. Porém o Professor McCohert não tomava a iniciativa: – I wonder if, I wonder if…E o que era pior: ele não se lembrava. Ainda que o dilema lhe tenha parecido infame, repulsivo, indigno de um cientista; de momento, lhe parecia quase essencial que dirimisse a dúvida. Como pôde ter esquecido essas coisas que a gente sabe desde a adolescência? Mas não. Não ousaria ir ao Google ou indagar a ninguém. Nem mesmo ao zelador paquistanês, que certamente era versado nesses… ‘subjects’. Foi então que resolveu pôr, por garantia de pensamentos mais saudáveis, telas protetoras nas janelas e portas da casa. De forma que as moscas não viessem perturbar seu sonho de equações diferenciais, pousando sempre no mesmo lugar; e arruinando sua sacrossanta siesta.

Dizem que morreu durante uma delas, antes dos sessenta.

Mas com certeza parecia ter mais de oitenta e cinco.

 

*   *   *

Encontre-me no Hotel Montana


[s/i/c]

 

Eu ia dizer de boas aberturas de contos. De como elas se assemelham a boas aberturas no xadrez. Mas depois desgostei da ideia. Pois então me lembrei que não gosto tanto de xadrez. E portanto não gosto tanto de aberturas de xadrez. E o quanto aberturas de xadrez são apenas o prólogo de um passeio mais ou menos mecânico das pedras sobre o tabuleiro. Não se pode divagar com as pedras, em errância. Flanar com elas. Pois, nesse caso, você se deita em maus lençóis. E então aberturas de bons contos são quase sempre menos previsíveis que clássicas aberturas de xadrez. Uma das mais espirituosas aberturas de um conto é esta:

 

Madrid is full of boys named Paco, which is the diminutive of the name Francisco, and there is a Madrid joke about a father who came to Madrid and inserted an advertisement in the personal columns of El Liberal which said: PACO MEET ME AT HOTEL MONTANA NOON TUESDAY ALL IS FORGIVEN PAPA and how a squadron of Guardia Civil had be called out to disperse the eight hundred young men who answered the advertisement. But this Paco, who waited on table at the pension Luarca, have no father to forgive him, nor anything of the father to forgive.

 

[Ernst Hemingway, “The Capital of the World”, in Winner Takes Nothing, 1939]

 

Madri está cheia de rapazes chamados Paco, que é o diminutivo de Francisco, e há essa anedota de um pai que veio a Madri e inseriu um anúncio nos classificados de El Liberal em que se lia: PACO ENCONTRE-ME NO HOTEL MONTANA TERÇA À TARDE TUDO ESTÁ PERDOADO PAPA, e de como um esquadrão da Guardia Civil teve de ser chamado para dispersar os oitocentos jovens que responderam ao anúncio. Porém esse Paco, que esperava à mesa na Pensão Luarca, não tinha pai para perdoá-lo, nem nada a ser perdoado pelo pai.


* * *

O Berro

[s/i/c]

 

Se elas são ou não razoáveis, isso é uma outra história. Mas que elas passam pela sanção de um grupo, nem se discute. Pode-se, no entanto, discutir se isso é democracia. Se chega perto de ser. Ou se, do contrário, é apenar uma oligarquiazinha torpe, visto que se está a falar de um grupo exíguo; menor mesmo, em seu núcleo duro, que os Trinta Tiranos. Uma congregação formada, digamos, por um grupo de amigos pós-adolescentes que deixaram a faculdade há não muito. E em que cada um ainda anda à cata de seu próprio grifo, em busca de seu tempo rentável. E o deslumbre de começar a vida profissional em meio a um aparato técnico tão presente em suas vidas – como nunca, nunca dantes – parece sustentar a corda bamba da sociabilidade entre todos – ao modo de um cordão umbilical que, como o verdadeiro cordão umbilical, tem o condão de virtualizar-se pelo resto da vida –, e é o que suprapessoalmente e ao fim das contas, afere o peso delas. Das ideias.

Ah, as ideias. A configuração que elas assumem por intermeio de determinadas gírias. O perigo aqui mora em se tomar a afetividade do grupo como molde de mundividência efetiva. Única. Exclusiva. O papel de parede sob o qual repousam os ícones, constritivos e senháticos como gírias. Basta clicar neles e prosseguir com esse novo estilo de pensar que pode durar o tempo de se beber uma soda em lata, o de assistir um clipe no Youtube ou o de ler, dia após dia, no iphone, os cabeçalhos dos noticiosos ou outras manchetes, mais pentatêuticas, onde estão escritas, nas tábuas digitais, os volúveis decálogos do consumo e do gozo. O perigo, aqui, é inadvertir-se de algumas possibilidades. Ou seja, que entre outras, no jogo do bicho, há um lado de nossa personalidade que é também e magnificamente estepe e lobo. E lobo não dos outros. Mas lobo apenas. E uma longa estepe. E há aqueles instantes em que não se é só mais um entre tantos. E há decisões que ninguém, por mais que se grude à nossa pele no transcorrer de muitas noites e incontáveis argumentos, pode tomar pela gente. E, então, sim: segue-se o diagrama em 3D como algo tão rígido quanto o trotar dos cavalos obedientes, adiante e sempre, eia, tracionando o tílburi, limitados pelos tapa-olhos laterais – e pode-se ouvir como o rumor de seus cascos ritmados retine sobre o macadame. É, sim, porque num grupo, como num partido neo-nazi, numa torcida organizada ou numa reunião de Centro Acadêmico, tudo fica mais fácil. Guarda o mesmo figurino, o mesmo ar, a mesma atitude. Uma tatuagem mental quase idêntica de um corpo para o outro. E há sempre aquele mais disposto a sugerir uma badernazinha na cervejaria, na loja de cristais do imigrante ucraniano, que seja. Começa assim, depois piora. E, então, queimam-se livros em público, ou eles são apagados na virtuália, etc.

Na maioria das vezes, contudo, nem quebradeira ou fogo são reais, mas metafísicos – o que, por vezes, não resulta em sevícias lá muito mais mitigáveis. São praticados à direita, mas também à torto. A banalidade de demonizar o outro para salvar a pele do próprio grupo. Isso vem de tão longe, não é mesmo? Isso tem sido procedimento padrão, não exceção, ao longo do que se convencionou chamar História, ou Ocidente ou Civilização Judaico-Cristã ou diga-lá-sua-senha. Sua palavra-passe para adentrar essa maquininha que se pode portar à mão e nela compilar enciclopédias e a Biblioteca do Congresso. Quase sem desvio. Em qualquer lugar. Seria o Aleph de Borges? E é preciso muito tutano para tentar enxergar as coisas para além do espesso véu que o mundo não analógico propõe, ao modo de tapa-olhos laterais: alinhar o obediente trote dos cavalos virtuais que rebocam o tílburi do teu pensamento ao gosto do cocheiro-software, cujas chicotadas espasmam-se por soluções TI que te permitem, ao alcance de um clique, verificar todas as espécies de pinguins – inclusive as já extintas – com seus respectivos nomes científicos: Spheniscus magellanicus, Pygoscelis adeliae, Aptenodytes forsteri, Megadyptes antipodes, enfim, toda uma litania de pinguins que equivale a um daqueles longos genealogias ou inventários em Crônicas e em Números. E quando se pensa na incrível faina dos exploradores. Nos frios e fomes passados. O desconforto das viagens, o escorbuto. A saudade de casa. No lapso de anos sem conta. Sem uma mulher. Nos que morreram enregelados nos convés dos navios desabastecidos, cercados pelo gelo nos círculos polares, para que, à conveniência de um tênue toque de indicador, deitado em tua cama, certo começo de noite, com o notebook escorado à bandeja do cooler, pudesses ter acesso a um volume de informações que eles próprios, exploradores não tiveram, nunca. Embora a experiência não virtual – digamos, loboestépica da coisa – essa é, no fim, inacessável.

Sim, a virtualidade é um bom casaco tecido por códigos expressamente devotados a não vestir todo aquele que a põe em xeque. Que expõe a eventual feiura de seu rosto. Um rosto que, nas rugas invisíveis sob a máscara atraente de softwares, ícones, designs, amortece a selvagem valentia do coração. Porque a virtualidade quase sempre é uma forma de tornar mais ampla a invisibilidade no grupo, embora individuada na medida exata de certa mesquinhez, tédio, banalidade, número, dispêndio. Ou o que se costumou chamar de dialógico – aqueles acanhados comentários à barra das notícias, como notas de rodapé desconsoladas. E essa vontade de soltar a voz no coro das demais. Parece ser uma banalidade comum a todos nós, consumidores, filhos de Eva, cujos tijolos e argamassa mental são confeccionados pela pasmaceira e a profusão – em geral levianas – das referências, citações, cantos de cisne apocalípticos e descartáveis. Uau! O que a virtualidade, propõe, no fim, é o impossível: um indivíduo.

E, então, o que se pensa ser afeto, não é mais que lealdade ao partido neo-nazi, fidelidade ao grupo pequeno. À torcida organizada que solta mais abertamente aquele grito reprimido. Um urro tribal. Aquele berro de mortal ódio ao estranho. E pensar que, quando sozinhos, a mastigar pipocas, mitigar devaneios e engolir soda diante do televisor, meio barrigudos e inofensivos, cada um se desmancha em lágrimas diante da puerilidade de um comercial da Coca-Cola. Porém juntos, quão diferentes. Conformamos aquele grupo operoso e disciplinado, cego, tripulando uma caravela virtual, com os canhões voltados, alertas, a farejar na delicadeza do múltiplo em torno de si, no imenso mar oceano dos signos, o milagre da diferença.

 

 

E é assim; em um daqueles quartiers sem rosto, a imigrante a portar seu véu – não por imposição, machismo, mas por convicção íntima e uma delicadeza que tem a ver com tradição. E, por uma sanha coletiva, cedo ou tarde, sabemos, ela terá de passar pela humilhação de retirá-lo. Para poder votar, acomodar-se numa sala de aula.

 

* * *

Anedota de Português

[s/i/c]

 

O Manuel viajou para o Brasil. Era sua primeira viagem e cercada de expectativas.

Após duas semanas, seu amigo Joaquim for buscá-lo no aeroporto:

E então, Manuel, como se foi de Brasil?

Ah, pois nem te conto, Joaquim: o Brasil é lindo! Trouxe-te até um berimbau e fitinhas do Bonfim.

Mas diga-me cá uma coisa: o que mais gostaste?

Ora, de não pouco, rapaz: as praias, a música, as mulheres… O Brasil é uma maravilha!

E o que menos gostaste, Manuel?

Das escadas rolantes?

De facto? E por quê?

Imagina que estava a subir por uma delas, houve um blackout, e lá fico eu, quase duas horas, de pé; a esperar o retorno da energia.

Arre, mas tu és mesmo burro, Manuel. Por que não te sentaste, rapaz?


* * *

Pronome Pessoal Isonômico da Primeira, da Segunda e da Fernanda Pessoa

Nan Goldin, Nan and Brian in Bed, 1983


Uma vez, porque fazia calor, e a calmaria se estendia nos trópicos com um langor de podar gestos, e, como se não bastasse, não havia muito o que dizer – mais ou menos como no caso de Meursault ao sol em L’étranger – uma amiga, quando nosso affair era já sem saída, me disse:

Ninguém merece a responsabilidade de ser o portador da felicidade de outra pessoa.

Achei a frase retórica.

Depois achei a frase meio Saint-Exupéry e pequeno principesca. E ainda não sei se há uma evolução de um para outro achamento. Mas decidi que não ia tomá-la assim tão impunemente. Até porque as amigas, as amigas mais velhas, escoladas, as tutoras que minha amiga tomava como modelos, pela vida afora, tinham, a olhos vistos, dado com os burros – e que bela tropa deles – n’água, e justo por um:

Ninguém merece a responsabilidade de ser o portador da felicidade de outra pessoa.

Foi então que resolvi analisar a frase também pela sua nuance legal. Como se conformasse uma sorte de artigo do Código Civil. E pudesse ser expressa mais ou menos assim:

Ninguém merece a responsabilidade de ser o portador da felicidade de outra pessoa. A não ser quando se é essa outra pessoa. Então, que os outros façam de um tudo pela gente: equilibrem-se na corda bamba para nos divertir; nos levem de passeio à Alhambra; morram pela gente; apaguem incêndios; nos salvem de afogamentos certos arrastando-nos à braçadas seguras até a praia; façam intervenções cirúrgicas que troquem nosso cansado coração por um de fibra sintética, mais longevo e imune a essas teias sentimentais; saltem pendurados em frágil cipó sobre fossos ardentes e gigantescas quedas d’água para nos resgatar da queda do helicóptero com ganas de Indiana Jones – que não adianta. Não é necessário retribuir. Revogam-se disposições em contrário.

Porém se a segunda pessoa, pois assim nos assumimos – no fundo a beneficiária de tanto bem-estar advindo dessa felicidade portátil – mudasse, por um pouco – por uns anos, por umas férias, por um veraneio, por uma festa de São João, pelos últimos quinze minutos de uma final de futebol, vá lá – de ideia; então se acabava achando a felicidade de um modo simples.[1] Vai saber.

Havia de incisar, contudo: mais que portador – no sentido de carregador, profissional da estiva, do tipo Sísifo, Atlas, Afrodite, Hécate; ou do tipo mensageiro: Hermes, anjo, Samuel, Isaías, carteiro, servidor ou correio eletrônico – a segunda pessoa, beneficiária dessa portabilidade, devia ir além, e ser ela mesma e também a própria responsável. Haveria então, ao que parece, um empate, uma correspondência. Percebem o que quero dizer?

Agora, tudo isso ressalvado se ou o “ninguém” ou a “outra pessoa” se chame Fernando. Fernando Pessoa. Porque aí, bem, a beleza dos versos é tão rematada, que ela, já sendo responsável pela felicidade de toda a gente, em toda parte, não precisava, de fato, ser responsável por mais muita coisa.

 

NOTA

[1] o que não quer dizer “fácil”. Essa coisa de felicidade e amor, aliás, pode oscilar entre os pareceres de dois escritores ingleses:

“If this be not love, it is madness, and then it is pardonable.” [William Congreve]

“What is commonly called love, namely the desire of satisfying a voracious appetite with a certain quantity of delicate white human flesh.” [Henry Fielding]

 

* * *

A Imagem Imóvel da Eternidade

Jean Vigo, A propos de Nice, 1930

 

Para uma conversa com os mestres Manuel S. Fonseca e José Navarro de Andrade

Fragmento sobre tempo e cinema

 

E se disséssemos que o cinema “é a imagem imóvel da eternidade”? Isso seria reduzi-lo à fotografia? Seria forçar sua coincidência com a famosa fórmula do tempo em Platão?

 

Não. O melhor cinema é imóvel. Quer dizer, visa a imobilidade em tendência. Assim como a melhor escritura tende para o silêncio. Assim como as melhores fotos – mesmo as, digamos, de uma natureza morta – dispõem-se para o movimento: indicam-no.

 

CODA

Pode-se pensar em George Oppen: ” eu veria o que a folha da grama veria, se tivesse olhos”. Ou J.M.G. Le Clézio: “a realidade da matéria, vista segundo suas mentiras pelos olhos de um mono. Vista pelos olhos de um polvo. Vista pelos olhos das ervas e dos gafanhotos. Pelas anêmonas do mar. Pelos pepinos-do-mar. Pelas baratas. Pelas folhas de gerânio […] O que é morto, é. O que é vivo, o que é animado ou imóvel, é. E o que não é mais, é ainda”. O cinema, como movimento [movie=moverzinho em inglês] tende à imobilidade, ao still. A fotografia, imóvel, tende ao movimento.

 

*   *   *

O Presente Deve Ser Mais Discreto que do Indicativo

 

Do Questionário de Sem-se-Ver:

1 — Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?

Sim. Vários. A Bíblia, sem dúvida teria a precedência. Wittgenstein costumava dizer que havia muito pouco de trágico na Bíblia. Ele estava errado. Ver o Reino de Israel ser confiscado de Saul por Samuel é uma cena para lá de shakespeariana.

 

2 — Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

Eu tenho problemas sérios, aqui. Principalmente com os russos. Devo ter sido agente da CIA em outra encarnação. E a coisa é mais aguda logo com Dostoiévski. De início pensei que fossem as traduções. Mas depois descobri que não. Tentei vários livros dele – em especial Crime e Castigo – em versões e idiomas diversos, e não cheguei ao fim de nenhum. Então, o problema deve ser outro. Algo misterioso, quando se sabe que ele é um dos heróis de Robert Bresson; e eu sou fã de carterinha do cinema de Bresson. Isso também ocorreu, em grau menor, com Turguenyev. E, aqui, chega a ser um acinte, porque Turguenyev é o grande modelo de Hemingway; e Hemingway é um autor chave para mim. Mas, enfim, os russos – e Dostoiévski, em particular – são apenas a ponta de um iceberg de livros não lidos até o fim. E isso inclui até Borges, que tem alguns livros um tanto previsíveis (de resenhas, de pseudo-prefácios, sobre literatura inglesa, etc.). Além disso, Borges como poeta é apenas sofrível. Já fui mais preocupado com esse aspecto de abandonar um livro. De ter de lê-lo integralmente. Hoje, vejo considerável humor nisso. Quando se abandona (depois de certa tentativa um tanto exigente) é porque há coisas mais urgentes pedindo leitura.

 

3 — Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?

A Bíblia.

 

4 — Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?

Talvez algo mais dos franceses em geral, porque li demais em inglês, sobretudo poesia. Céline e o Voyage au bout de la nuit, por exemplo. O Rouge Brésil, de Jean Christophe Rufin. Há um emigrado brasileiro no Quebec, chamado Sergio Kokis, que escreve em francês e é um bocado popular por lá – parece, no entanto, bastante ressentido com o Brasil; e com os dissidentes de esquerda do período da ditadura. Não achei brilhante o único livro seu que li, mas precisaria ter melhor impressão. Li menos Gide e Francis Ponge e Jacques Roubaud do que gostaria. Roubaud tem um livro de poemas que é de uma beleza acima de qualquer suspeita: Quelque chose noir.  No Brasil, os intelectuais veem com alguma reserva um escritor que já li em recorrência: J.M.G. Le Clézio. E pretendo ler mais. Há um belo livro dele chamado L’Extase materiélle. E há romances mais convencionais mas de igual beleza sinestésica, como Desért. Gostaria de ler poesia todo dia – mas nem sempre estou no mood. Há os dias ou os meses da poesia. E há outros em que ela está ali, mas não prevalece. Certa vez tentei decorar Os Lusíadas. Não fui além do Terceiro Canto. E, no entanto, algo me diz que é preciso trazer o máximo possível de Camões de cor. Em especial, da Lírica. Houve época em que trazia uns 30, 40 Sonetos de cabeça. Nos sonetos, aliás, prefiro Camões a Shakespeare. E é uma pena a distância que se criou entre os leitores portugueses contemporâneos e Camões. Não entendo. Acho isso constrangedor, lamentável. A não ser que ele esteja subentendido. Não é possível. Sendo ainda mais específico: Larkin é um grande poeta? Sim, claro. Mas quem sabe de poesia, sabe que Larkin não é digno de lustrar as botas sobressalentes de Camões, se este acaso as possuísse…Sinto que pela sintaxe, a permanência dos gerúndios, o português do Brasil está mais próximo de Camões. Cervantes chamava o português de “a doce língua”. E, sem sombra de dúvida, o acento brasileiro assoma mais vogal, lento – quer dizer solene – e clássico, como em Camões. O que não quer dizer que não entenda que os falares da variante europeia não tenham seus encantos próprios.

 

5– Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?

O Apocalipse. É desolador… O livro inteiro é uma terrível  ‘cena final’. A pintura de Bosch perde feio…

Assimétrico citar, mas lembro sempre do final de The Sun Also Rises (ou Fiesta), de Hemingway, com aquele casal que se entende quase telepaticamente, mas não pode consumar o amor; e o do Gatsby de Scott Fitzgerald, que tem um desfecho ainda mais sombrio. Há também o fim de uma crônica de Rubem Braga,  chamada “A Outra Noite”, que tem um final muito suave.

 

6– Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?

Sim. Havia uma enciclopédia infanto-juvenil ricamente ilustrada e escrita em excelente português: O Tesouro da Juventude. Eram dezoito volumes, encadernados em azul-cobalto. Uma maravilha. Editada pela Clássicos Jackson. Era dividida por Livros. Cada volume trazia seções de todos os livros. E a metade do último volume, o dezoito, era um grande índice remissivo. Meus livros favoritos eram O Livro dos Contos, o Livro das Belas Ações e O Livro do Velho Mundo. No Livro dos Contos se encontrava de Esopo a Andersen, passando por La Fontaine, os Irmãos Grimm e J. M. Barrie. Havia também um dicionário para crianças em francês, extremamente bem ilustrado chamado Mon Larousse en images – que está entre os livros que mais doem não possuir mais. Na escola, minhas disciplinas favoritas eram espontaneamente história e português – o que já ajudava. Li muito gibis em mais de uma língua. De todos os tipos: de Disney a Tex, passando por Tintim, os superheróis Marvell e os Hannah-Barbera. Asterix e Calvin & Hobbes só conheci depois de adulto, mas não gostei menos. Até os catorze anos colecionei revistas em quadrinhos. Li Júlio Verne e ainda muito mais Monteiro Lobato, que é um autor infanto-juvenil muito popular por aqui. As edições de Lobato lançadas à época eram vividamente ilustradas por um haitiano, educado nos Estados Unidos, chamado André Le Blanc. Le Blanc virou para mim o arquétipo do ilustrador para crianças. Era sensacional. Impossível dissociar os personagens de seus esboços. Até hoje acho que um livro de Lobato é só parcialmente “válido” sem as ilustrações de Le Blanc.

 

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.

Em prosa, qualquer um da fase realista de Machado de Assis, que abre com Memórias Póstumas de Brás Cubas – possivelmente o melhor deles junto a Dom Casmurro – passa por Esaú e Jacó e encerra com O Conselheiro Aires. (Mas é melhor lê-los depois dos quarente. É o que se diz.) O esplêndido Os Sertões de Euclydes da Cunha – um livro para se ter paciência e um bom dicionário de português ao lado. Borges era um admirador de Euclydes. Esse esplêndido também se aplica a qualquer livro de Guimarães Rosa, que Zé Navarro disse, aqui, ser melhor que Joyce: e é mesmo! Desde Primeiras Estórias até Tutameia (o mais sintético e difícil), passando pelo clássico absoluto: Grande Sertão: Veredas. Um dos mais subestimados livros em prosa, no Brasil, se chama Infância, e é de Graciliano Ramos. Há os excelentes prosadores argentinos: Bioy-Casares (La Invención de Morel), Julio Cortázar (Rayuela), Ricardo Piglia (Nombre Falso), para não falar do óbvio: Borges (Historia Universal de la Infamia). Prosa em inglês, indicaria os dois volumes de contos de Flannery O’Connor. O Revolutionary Road, de Richard Yates, um romance avultado, na grande tradição realista e sensorial de Hemingway e Scott Fitzgerald. E ainda nessa tradição, A Sport and a Pastime, de James Salter – uma novela de uma voltagem erótica alucinante. Harold Brodkey escreveu contos esquisitos, como Stories in an Almost Classical Mode. E aos que tem estômago para uma colossal piada plena de experimentalismo e verve: Infinite Jest, de David Foster Wallace. Em poesia seria tanta coisa… Há poetas modernistas brasileiros que merecem ser lidos, para além dos mais consagrados – ou seja, de Drummond, João Cabral, Murilo Mendes, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Jorge de Lima, Vinícius de Moraes. São eles: Dante Milano, Rui Ribeiro Couto e Joaquim Cardozo. Nutro especial carinho por Cardozo, e o modo como univeraliza a paisagem, as cores do Nordeste do Brasil, de seu litoral, transluzindo-as em senhas e metáforas outras, especialmente em seus dois primeiros livros: Poemas e Signo Estrelado. Há uma percepção da paisagem muito aguçada, rente à poesia japonesa. De momento, não creio que haja um só poeta brasileiro contemporâneo tão forte quanto Helder. Em termos de poesia em inglês meu autor favorito, entre os mais recentes, é Robert Creeley, que morreu em 2005 – e com quem cheguei a trocar breve correspondência. Gosto, em especial, de seus livros: For Love, Words e Later. Ele foi um autor bastante prolífico. Uma poesia mais abstrata que os instantâneos de William Carlos Willliams, mas ao menos tão bem medida quanto. Ele vem de uma tradição diversa da de, digamos, Robert Lowell ou Elisabeth Bishop – talvez a maior poeta das Américas no sec. XX, e que morou muitos anos no Brasil. E há também um grupo de poetas muito pouco conhecidos em português para além dos Black Mountain Poets, o grupo ao qual afiliava-se Creeley – e que são contemporâneos dos poetas beats, não menos contestadores, só que um pouco mais “envernizados” –; esses outros – paradoxalmente uma geração mais velha – são chamados de Objectivist Poets, e incluem nomes como Louis Zukovsky, Karl Rakosi, Lorine Niedecker, Charles Resnikoff e George Oppen. Poetas herméticos, filosóficos e, em geral, vinculados à comunidade judia de Nova Iorque. Gosto particularmente de Oppen, que foi um dos mentores do romancista Paul Auster (New York Trilogy), e cujos Collected Poems é um livrinho magro, de menos de 300 páginas. Traduzi algo dele para revistas brasileiras. Ainda em prosa, dos que li em tradução (em geral para o italiano ou para o inglês) aprecio o israelense Amos Oz (To Know a Woman) e Isaac Bashevis Singer (Gimpel, The Fool and Other Stories), que escrevia em iídiche e foi traduzido, entre outros, por Saul Bellow. O poeta de língua alemã Paul Celan (Mohn und Gedächtnis) é exponencial.

 

9. Que livro estás a ler neste momento?

Ah, isto não digo. O presente dever ser mais discreto que do indicativo.

 

* * *

A Gênese do Dadivoso Raio

[s/i/c]

 

É certo que não ia dar certo. Mas isso era lá razão para desistir? E, para além, se a vida é uma loteria, por que não um pouco mais de filosofia nos para-choques de caminhão dessa circunstância amorosa convertida em risco e seus derivados cíclicos – um tanto como sondar a percepção dos penteados masculinos pelas mulheres sikhs ou lançar-se à investigação do sistema de interpretação dos sonhos entre os pigmeus Mbuti; eu te pergunto, Teresa.

Sei que Teresa não me responde. Teresa não sai de casa. Faz a volta ao mundo à volta do quarto. E, pela vidraça, desenha alvos concêntricos nas poças de chuva acertados pelo azul-de-metileno da doce melancolia que porta no olhar, quando muito, mais acesa por um gole de Madeira antes do almoço. E tanto acento põe em sonhar com o sabor adstringente das carandas, que lhes sente melhor o gosto do que aqueles turistas entusiasmados e infames, que as provam in loco, lá na Colômbia, enquanto um desses guias turísticos meio locos – que podiam se chamar Roberto Bolaño, Harold Brodkey, Robert Creeley ou Juan Vasco Grilo – lhes fica dirigindo o modo correto de descascá-las e se é lícito começar a degustação pelo hemisfério onde há mais polpa que caroço. O que naturalmente redunda no fato de, sem o saberem, todos sentirem o mesmo sabor.

Mas mesmo numa circunstância assim, diverso travo Teresa experimentaria. E é por isso que gosto de Teresa. Ela sente mesmo o gosto do que gosta. Por exemplo, seus autores favoritos – Dashiell Hammett, Raymond Chandler, Ross MacDonald, Isidro Parodi – são seus autores favoritos e ponto. Não o são apenas porque James Wood ou Daniel Mendelsohn assim decretaram em New Yorkers ou New York Time Review of Books. Mas porque quando Teresa os lê, lhe atravessa o corpo uma sensação gozosa, quase espanhola e carmelita descalça. Uma gênese.

A gênese daquele dadivoso raio que só pode existir depois da clássica carícia entre autor e leitor. A carícia que, no desolamento do feriado, leva-nos a ler para chegar a um termo a todo custo. E porque só aquele termo e nenhum outro traduz o que suficiencia o momento.

E, então, perdido em devaneios, uma noite. Tão longa que parece que a gente está sozinho no mundo, não fosse o dicionário. E há um poço, de onde, se bem se recorda, alguém puxava água, há tanto tempo. Esse alguém já se foi. E quase todos os que beberam daquela água. E a noite afunda no poço inevitavelmente. Como quando se tenta achar o termo exato, e ele não vem. E a gente sabe – ou ao menos Teresa sabe – quando não for mais preciso, num déjà-vu desses qualquer, ele virá, soberbo, dentro de um landau puxado por garbosos cavalos.

 

NOTA — da ilustração: uma foto em desfoque tomada meio ao acaso no Flickr. E sem indicação de crédito [s/i/c].

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Um lullaby (mas quem quiser acordar, tá valendo)

Charles and Ray Eames, Elephant Chair, 1945

 

primeiro, pense quantos alfinetes cabem na cabeça de um elefante. segundo, freie seu desejo de esmagar algumas cabeças com patas de elefante e torturar algumas amantes com dedos de alfinetes. depois conte quantos elefantes cabem na sua cabeça delirante, enquanto você segue alfinetando gregos e troianos. hoje, jante carne de elefante e palite os dentes com alfinetes. tudo no mundo é uma questão de cabeças, alfinetes e elefantes.

 

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Biscoito Chinês

 

 

Hoje, ao partir o biscoito chinês: “as lágrimas dos bons não caem por terra, vão para o céu”.

 

Ah, bom! isso deve explicar a trovoada e o aguaceiro que se abateu sobre a cidade.

 

* * *

Outra palavra mais clara

[s/i/c]

 

 

Da versatilidade frásica de Fausto Nilo, poeta

 

algum aspecto sobre um dos mais brilhantes letristas da música popular brasileira

 

Há um trovador provençal. Seu estilo era hermético. E seu nome, Peire Raimon de Tolosa. Seus versos mais famosos são:

 

Atressi cum la candela

que si meteissa destrui

per far clartat ad autrui,

chant, on plus trac gren martire,

per plazer de l’autra gen.

 

Que podem palidamente ser traduzidos como:

 

assim como a candeia

a si própria consome

para esclarecer gente alheia

canto fundo meu tormento

para o prazer de outra aldeia

 

Toco nisso, porque lembro do apreço que Fausto Nilo nutre pela poesia dos trovadores. Na verdade, em certo rumo, Fausto se converteu num deles. E, embora seja exclusivamente letrista, achou as palavras certas para as belas melodias de quase todos os grandes compositores e intérpretes de sua geração. Ao se falar de letristas, se pode pensar nos mineiros Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Márcio Borges. Nos cariocas Paulo César Pinheiro e Abel Silva. Nos baianos Capinam e Luiz Galvão. O paranaense Paulo Leminski foi um poeta muito rente à letra de música, embora tenha produzido pouco especificamente para a canção. E há o grande Torquato Neto, outro que se foi ligeiro, e também oscilou entre a poesia impressa e a letra de música. E todos eles são excelentes. Mas nem todos possuem a versatilidade de Fausto Nilo. Lembro de haver, aí por 2003, escrito um artigo para O Povo, em que defendia a tese de que o canto de cisne, não só de Raimundo Fagner, como de todo o propalado Pessoal do Ceará, havia sido o magnífico – e elegíaco – álbum Beleza, de 1980.

Alguns dias depois recebi um imeio de Fausto. Ele, muito educadamente, como usa ser, contrargumentou que não era bem assim. Que eu estava fechando a questão um tanto sob um ângulo extra-estético. Ou seja, que o fato de a música de Raimundo Fagner se haver tornado mais popularesca, ou mesmo cortejado o número, não impediu que também, eventualmente, fosse calcada em canções de grande voltagem musical e refinamento poético.

Depois do que lembro? De vagamente sair da Desafinado, a loja de discos, certo lusco-fusco, conversando com Fausto a lhe indagar – provavelmente pela milésima vez – sobre a confecção do Beleza, ao qual além de contribuir com letras, ele também desenhou a capa. Seguíamos Dom Luiz acima, e, claro, devido ao horário, havia um tráfego medonho na avenida. Lembro que estava do lado exterior da calçada – das exíguas calçadas de Fortaleza – e, volta e meia, pisava a pista, desviando-me dos carros para evitar os transeuntes e o pessoal que esperava nos pontos de ônibus. Os automóveis, no entanto, passavam muito rente de onde meus pés. Eu fazia isso quase inconsciente, levando fé em minha capacidade de driblar obstáculos em caminhadas. Porém, numa das vezes em que estava com os dois pés no asfalto, senti uma mão puxando meu braço:

Não faça isso – disse Fausto – esse negócio é perigoso. Sei que você é jovem. Mas, repare, eu já vou para sessenta. A gente quando ganha em anos perde um pouco de reflexo. Inevitável ver uma fração a mais de perigo em tudo. Boa garantia é andar nas calçadas. Mesmo que se espere um pouco.

Aquele senso de cuidado, cautela e, sobretudo, de medida, de espaço, só poderia provir da conjunção dos dois ofícios de Fausto, que, de resto, causariam inveja a João Cabral (a despeito de este não gostar de música — à exceção do frevo e do flamenco): arquiteto e letrista. Eu diria poeta, embora Fausto reitere que não; não é poeta, mas letrista. Isso, contudo, é já outra discussão, longa e inconclusiva.

Mas, sim, Fausto tinha razão. Há canções de grande requinte – e não poucas – da fase pós–Beleza. Ou só um pouco antes. Ou muito depois. E em parcerias diversas, com Moraes Moreira, por ilustração; e escute-se a belíssima “Meninas do Brasil”. E ainda com Moraes, “Chão da Praça”, recentemente relembrada por Caetano Veloso. Mas, além dessas, fico com duas, que me parecem extremamente bem conseguidas: “Pedras Que Cantam” (Dominguinhos/ Fausto Nilo) e “Palavras de Amor” (Manassés/ Fausto Nilo).

Teria muito pano para as mangas para tecer alguma prosa sobre “Pedras que Cantam”. Mas seus dotes são tão evidentes que seria perda de tempo. Ela foi abertura de telenovela da Globo, anos atrás; e tocou à exaustão. Quanto à segunda, sim; essa segunda, ao mencionar o “romance de amor” – gênero medieval – lança Fausto na intensa direção de sua pesquisa em torno da música francesa. Recordo de uma vez – e passamos de ano sem nos ver – ele me indagar se por acaso eu tinha notícia de algum detalhe sobre uma história em versos, um “rumance” – muito popular no interior do Ceará – , que fazia alusão a um aluno, que havia morto a pedradas um pavão, bicho do afeto maior de seu professor, e, pelo crime, ficara jurado de morte.

Sim, na verdade, tinha ouvido essa história da boca de minha avó, quando criança. Mas sequer recordava o teor dos versos. Senão uma vaga melodia. O sentido geral da trama. E o número de sílabas ecoando na cabeça. Aquele cavername de ritmo. A medida (forma) verberava em minha mente mais do que a trama (conteúdo).

Depois consultando em casa, descobri que J. Leite de Vasconcelos, o eminente filólogo português, a tinha recolhido em algumas variâncias e que, de resto, ela também havia sido muito popular no Norte do Brasil, da Bahia ao Piauí. E provavelmente durante mais tempo do que se imagina. Ou ao menos até a televisão arrasar essas finas narrativas, plenas de arquétipos.

Palavra de Amor” aponta para algo que o clichê (e a telenovela) ainda não atentou: a afectividade entre sertanejos é contida. Pode ser de uma deliciosa reticência. De um laconismo com “regras” de corte muito próprias. Daí a fatura do verso que o calar fala mais que o filosofar.

E, aqui, é preciso lembrar que Fausto nasceu em Quixeramobim e, por uma dessas conjunções astrais, na mesma casa que viu vir ao mundo ninguém menos que Antônio Conselheiro. “Palavra de Amor” também aponta, como umas poucas de outras canções, para essa pequena obsessão de Fausto – que, de resto canta como um diseur: a música medieval, e em especial, a francesa. Esse interesse de Fausto estica-se de um trovador antigo, Raimon de Tolosa – que possui o mesmo prenome de Fagner – à modernidade de Leonard Cohen, o judeu-canadense, em cuja tradição de grande letrista Fausto também pode ser inscrito. Aliás, há algo de judeu no temperamento de Fausto Nilo. De algum modo. Até mesmo em suas feições. O poeta norte-americano George Oppen dizia: “em algum lugar a meio caminho entre o fato de ser singular e o fato de ser numeroso está o fato de ser judeu”.

*

Fausto é alguém que caminha nesse limiar entre o singular, o numeroso. Como arquiteto. Mas também como um homem com uma permanente canção. Sua memória de velhos sambas é prodigiosa. Não menos seu enciclopédico conhecimento sobre clubes de futebol — ele é vascaíno. E quem quiser comprovar a sua fertilidade com as letras – onde, no caso, além das lais francesas entra uma pitada de García Lorca e dos cantadores do sertão profundo – escute as canções abaixo. Na segunda há a habitual plangência da voz de Fagner e a perícia pop dos músicos do Roupa Nova nessa rendição de “Palavra de Amor” (Manassés/Fausto Nilo) no velho e bom tube, além da íntegra da letra, mais abaixo. Na primeira, há a malemolência nova-baiana da voz e do violão de Moraes Moreira em “Meninas do Brasil”, que é já um clássico: “Três meninas do Brasil/ Três Corações Democratas […] ”

 

“Três Meninas do Brasil”

http://www.youtube.com/watch?v=I1zL5-3WXBA&feature=player_embedded

 

“Palavra de Amor”

http://www.youtube.com/watch?v=JbgDAoUeLdE

 


Palavra de Amor

 

 

Na divina claridade

Em que você se iluminou,

O calendário seria

Um dia de cada cor,

Futuro, ah, como eu queria

Te cobiçar, ventania,

Num romance de amor –

E a lua ainda mais clara

Queria escutar tua fala

Com palavra de amor.

 

Meu amor quando se cala

Fala mais que um pensador.

Me ensinou que a vida vai

Onde a saudade ficou

E enquanto a vida não pára,

Não pára nunca esse motor.

Outra alegria mais clara

Seria escutar tua fala

Com palavra de amor.

 

[Fausto Nilo]

 

* * *

 

Um Sergipe do Espírito

Cartaz de Le diable probablement, filme de Robert Bresson, 1977

 

 

 

Se eu fechar os olhos nessa esplêndida tarde de verão em que minha inconsciência como uma pipa sobrevoa a amplidão da Praia de Atalaia, joguem meu corpo no mar. Eu queria uma última vez dar um abraço na Rainha, e cumprimentar um a um todos os peixinhos que me ensinaram a nadar. E ensinaram em tão boa fé. Com a clarividência com que se enxerga o fundo do mar profundo e calmo, como num soneto de Camilo Pessanha:
Singra o navio. Sob a água clara
Vê-se o fundo do mar, de areia fina…
- Impecável figura peregrina,
A distância sem fim que nos separa!
Anos atrás, Princesa, e eu tinha água do mar e fina areia. Tinha pólvora, chumbo e bala. Aliás era só o que eu tinha. Era um paiol ambulante. Disparei pra todo lado. Fiz um fuzuê dos diabos. Passei risco de faca no chão. Comi juízos à vista e a prazo. Fiz carradas de inimigos. Fui o antidiplomata por excelência. O criador-de-caso. O contrariador-mor. Minha loção após barba se chamava maldição.
Ainda assim, era jovem. E a um garoto tudo se perdoa. Há uma espécie de complacência dos mais velhos que se diverte com a desbragada ousadia, ambição dos aspirantes no campo do Vida Futebol Clube. Perdoam até essa compulsão por, digamos, uma excessiva sinceridade de formas e meios. Le mot juste. As pessoas, em geral, gostam mais de mentira e fealdade. De engodos. De ser guias turísticas, com pacotes de voos promocionais, para a Hipocrisia do Norte, bilhetes só de ida. Graduam suas consciências. Até o ponto do sabor da Emulsão de Scott ser tomado por champanha, se assim é de melhor vantagem tirar.
Porém esse zelo por denúncias em um sujeito de meia-idade já não sabe tão atraente do que quando, ainda no começo do primeiro tempo, os adversários a se estudar, medindo distâncias aos jabs, meio deslocado na vida, tonto de mão cheia, você queria – e ainda havia essa porta – de estar só em times da Premier League. E demonstrar sua mestria — de fundo do mar e areia fina —  naqueles estádios limpinhos, gramados imaculados, diante dos quais todos sentam em poltronas como num teatro para lhe apreciar a arte. Palmas. Ou então, ao passarem pela alameda, se há um leve toque de ombros entre os sobretudos, se diz um polido, entanto mais que protocolar: Sorry! E a outra responde: Cheers! Tudo civil e desportivo. O figurino comanda. E, well, well, algumas temporadas depois, alguns títulos a menos, outros protestados, mesmo com uma alcunha de super-heroi, lá está você batendo uma bola em Sergipe. Não um bolão. Uma bola que mal dá pro gasto. Já um pouquinho quadrada. Naqueles campinhos de quarta divisão. E, pior, perdida toda a londrina empáfia, a incorporar uma espécie de Sergipe do espírito.
E é quando você nota designers gorduchos que escrevem versinhos de pé-quebrado ou crônicas melosas ao Natal e redatores publicitários com aquela sofisticação fílmica da mais escancarada província lhe passarem para trás no gosto das meninas. É o fim. E, olha, não daquelas meninas d’antanho. Neves de outrora, como diz o bom Villon. Mas de uma magricela qualquer que mal conjuga dois verbos em francês lá no Jardim das Oliveiras:
–Bon jour, ma chérie – diz ela.
–Bon jour, mon chéri – diz ele
E assim vão axerrrisando a vida. Et le diable abre um sorriso. Sim, le diable probablement. Está como ele gosta.
Deus meu. É de entregar pontos. Esse abandono. É de pensar: o pé entortou de vez. Gangrenou por falta de samba. E há a cabeça. Dessa, melhor nem falar. Como escapar das insônias que te roem os dias? Aqueles dias de passadas glórias. Llenos de ilusión. De goleadas fundamentais:
–Você gosta de caqui? Caqui? Dióspiro the scholars use to say. Prefere qu’eu descasque? Fino ou mas destampado? Como? Eu não estou entendeeeeendo. You’re so cute.
Quantos diálogos em meio-off por charme e excesso. E eram tantos so’s à frente de excelsos adjetivos.
Porém há como em versos bem sabidos, o instante em que toda essa exuberância – na qual os espertos tomam carona – acaba. Espartanamente mais que espotaneamente. Isso de ser jovem. Ter ritmo. Fazer isso. Dizer aquilo. Deslizar. Degustar vinhos verdes ao sabor de amêijoas, e o rio da aldeia ser mais largo que o Tejo. Mas então os bares fecham, as virtudes se negam. Os rios secam. Qual Tejo o quê! Aquele charme de cativar a mais apática aluna, sentada lá na última fila, a que comutou de ônibus em dois terminais depois de uma jornada de trabalho de treze horas, vai para as cucuias. Ela cai no sono e baba toda a carteira, bem no meio de sua aula. Da aula que já tinha sido melhor show que Sílvio Santos. E você, grisalho, calvo, cardíaco, se olha no espelho e pergunta como o tempo pôde ter feito isso áquele menino assim tão depressa. E o que você ainda pode fazer para merecer aquilo que está à sua frente.
Mesmo com aquele Sergipe no espírito.
*   *   *
Design e fantasia

[s/i/c]

 

Impressiona como o design dos mouses tem evoluído. Há uma variedade — de volumes, contornos, cores — cada vez mais proporcional à vertiginosa fantasia dos desenhadores industriais. O modelo acima, por exemplo, lembra vagamente algo entre um molusco, uma papoila, uma ameixa. E, porém, algo me diz que não parece um presente sutil para o Dia dos Namorados, que, no Brasil, celebra-se tradicionalmente no 12 de junho, véspera de Santo Antônio (embora uma corrente noveau riche entenda mudar a data para o São Valentim, como nos blockbusters). Enfim, assemelha-se a um espécime de lagosta, que certa vez vi em abundância nas praias de Florianópolis. Levei algumas para a casa. O sabor, posso garantir, é assim diferente de tudo neste mundo.

 

*   *   *

O Forasteiro

Lyonel Fininger, Ye Learned Apothecary, 1901

 

[depois de Kafka]

 

Eu não conhecia bem a cidade e tinha de chegar ao terminal rodoviário. Chovia escasso. A prevenir algum atraso — entendo a pontualidade ser um índice civil mesmo numa capital estranha e sem terceiros interessados (como a gente se engana, e aí é que mora o perigo) — caminhava apressado, com a mala de rodinhas. O guincho das rodinhas a abater-se sobre o macadame com intervalado pio de araponga. Malho na bigorna do juízo. E, mais contínuo, em esmeril às vezes disfarçado maçarico. A hora começava a ermar. Era lua nova. Um bonde sulcava pela rua plana. E, em breve, apenas sua trepidação fez-se ouvir nos longes. Havia tavernas esparsas, vagabundos dormindo sob marquises. No remoto, os fiapos do bonde. Um aroma agridoce de haxixe. Para um americano, como essas velhas cidades podem ser lúgubres quando saem dos cartões-postais. Rua após rua. Labirintam-se. E o frio. Um grupo de ciganos à volta de um violino não só desfiava a canção triste, a que de uso é desfiada por um grupo de ciganos à volta de um violino ou de um realejo em noites assim, mas eram tristes por igual. Em um quiosque fechado pendia uma manchete em mofo: Europe Was Yesterday. Uma mulher chorava um vale de lágrimas, resmungando algo em um dialeto eslavo. Apenas por sua inflexão sentia-se que o que arengava tinha a ver com aquele desespero quase infantil de querer muito uma coisa e não poder tê-la: fosse biscoito, pulôver, sexo. Eis a flecha que o arco do exílio primeiro arremessa. O estofo de que são feitos os sonhos. Não com uma explosão, mas com um suspiro. E eu entendia: aquilo que ela dizia já tinha sido dito em português. E da seguinte forma: até que venha aquele alegre dia que eu vá onde vós is, contente e ledo. Mas tanto tempo quem o passaria. Ao passar pela praça onde havia a magnífica quadriga dominando a fonte, caminho e sempre, algo não batia com o mapa virtual, no celular. E foi então que notei, próximo, dois guardas:

Por favor, qual é o rumo do terminal rodoviário?

O senhor quer saber o rumo – um deles disse com uma expressão séria.

É a intenção.

E ao cotovelar o outro:

Este senhor quer saber o rumo, Aloysius. Este senhor quer saber o rumo.

Tanto riram juntos que um deles teve de tossir para desenredar o fôlego. Quebravam-se de segurar quepes à cabeça. O rumor de um carrilhão assaltou a rua.  E então, semi-recomposto, o que não era Aloysius disse:

Meu Senhor, desista. Quem pode ter um rumo numa noite dessas?

 

* * *

O Colóquio

[sem indicação de crédito]

 

Primeiro, foi indagado sobre desconstrução e sujeito. Seguiu-se um longo desvio meandrado por perguntas secundárias. E então Didier Jacquestas, filósofo mais famoso do mundo em 2012, ergueu a mão. Como se sua mão, venada e bem composta, amparasse o peso da pausa. E todos seguiam a mão pré-amparando o próximo pensamento a provir daquela formidável moleira. Lentamente. Até se deter.

Porém não se deteve. Fora blefe? Tropo? Elisão? Silêncio e gestos às vezes tão bem coalescem. E a mão seguiu erguendo.

Da cabine, o diretor da TV inglesa mandou o câmera fechar o quadro na mão do filósofo, desconstruindo o ambiente: a cinzitude da tarde em Oxford, as árvores peladas, os seres humanos excessivamente vestidos, pelas amplas janelas do salão. A mão do homem que ensinara a desler textos. E todos estavam extasiados diante daquela brusca pausa e erguer de mão. E seguiam a postos, porque sua palavra era lei para muitos.

Mas ele não falou, nesse segundo instante. Nada contraleu. Limitou-se a erguer a mão.

Uma comoção percorreu os circunstantes. É que eles se deram conta de que ele estava velho. E uma líder separatista radical sentiu um calafrio só de pensar na hipótese de o filósofo ser avô. Tomar nas mãos uma criança ao invés de abaixo-assinados. Dirigir a ela todos aqueles mimos, dengos e lengalengas – com sonoplastias próprias e muitas momices – que se tem dizer a uma criança para ela reconfortar-se no mundo. Seria isso uma narrativa possível de contraler? Melhor não pensar nisso agora. Solteira, a líder militava pela separação da Herzegovina.

Herzegovinas à parte, como são mais filósofos os filósofos continentais. Parece faltar a seus sucedâneos britânicos certo senso de mise-en-scène. Um semblante. Essa prosperidade do gesto, o compassar do ritmo. Nada parente da mão a suster no espaço o peso da pausa. Fisionomia de filósofo. Sobrancelhas de filósofo. Mau nó de gravata de filósofo. Lapelas rotas. Meias puídas de filósofo. Como os latinos conseguem ser muito mais, digamos, efetivos e dignos nessas situações. Outro dia um filósofo – português, ao que parece – estava na TV, cantando um rap. Ah, que inveja dessas liberdades do Continente.

Um placar luminoso informava que no parque, lá fora, fazia doze abaixo de zero.

Fortes eram as sobrancelhas de Monsieur Jacquestas. Elas, de certo modo, o salvavam. Espalhavam-se negras e enérgicas pelas duas metades da testa suportando rugas quase desconstruídas, e as cãs. Os olhos pouco serviam. Eram de uma fixidez cética, porém piedosa. Uma brusca piedade que às vezes tudo corroía. Certa culpa católica calcada —  retinas adentro — à Santo Agostinho. Embora não de uma piedade fácil, corpo-com-órgão. Tanto que entre os palestrantes fora o único a não abrir mão de seu estipêndio em prol da Anistia Internacional:

Não era um fariseu – compreendeu o renomado antropólogo. O mesmo que, ano passado, havia vendido a mansão da família – oitenta e dois cômodos – no Surrey, em prol de uma fundação de proteção à vida selvagem no Quênia.

Para já, dependendo do ponto de vista, a mão mascarava o rosto do filósofo. Era firme. Dedos não tremiam. E a mão saía da manga do casaco corduroy. E prosseguia, lentamente: pré-erguendo o próximo argumento?

E todos ainda estavam com o que há pouco ocorrera. O professor Eagleton contrargumentara:

Mas isso não tem lógica.

E o filósofo em adorável acento francês:

And so what?

Ah, em que terceiro ato do bardo isso poderia se achar. Foi o suficiente, junto com um soerguer de sobrancelhas e um embicar de lábios, para provocar o umedecimento de certas superfícies, em geral pilosas, mas em tendência depiladas à brasileira. E também para elevar, do braço do assento ao queixo, nove mãos basbaques.

E agora esse interregno. O silêncio e a mão do filósofo. O filósofo e a mão do filósofo. Um mediterrâneo.

Setenta e três pares de óculos acompanhavam o movimento. Quase duas centenas a olho nu. Três câmeras postadas. Mais uma divagando pelo salão em langoroso travelling.

É, havia algo de Andaluzia, oh boy! What other use for castanets. – E isso ocorreu a um desafeto de Didier Jacquestas. Mas mesmo o desafeto era incapaz de desconstruir a mão do filósofo, porque tinha poucos discípulos. E esses nenhuma importância na liga acadêmica. E o filósofo erguia a mão. E o desafeto era quem mais o admirava no salão de conferências do colégio.

Porém chegou o ponto em que a mão sobrepujou a altura da cabeça, do privilegiado quengo do filósofo franco-argelino. E, então, a plateia – incluindo os câmeras da BBC – começaram a levitar, suavemente, teleguiados pela ateleologia da mão.

 

* * *