Toma-se um livro de Roberto Bolaño para ler. O livro é um bocado feio. Tem a capa de um vermelho berrante. E nela cerca de metade é aberta para uma foto. Na foto em preto e branco se vê um velho gaúcho de barbas brancas, o pampa sem fim estendendo-se por trás dele. E próximo a ele, um pouco como se o farejasse, vemos um coelho nitidamente aplicado – a exemplo do velho – sobre a infinita linha de horizonte do pampa, quebrada apenas por uma espécie de cânion. Acima disso há o título do livro, El Gaucho Insufrible, postado em tipos pequenos uns dois centímetros abaixo do nome do autor, que rende três vezes mais. Arrematando tudo, abaixo da foto, vem o nome da editora e a série: Anagrama/ Colección Compactos. É isso, trata-se de um livro originalmente publicado em Barcelona, outubro de 2003. E houve quatro reimpressões depois disso. As duas últimas em 2010.
São contos.
O primeiro lê-se com certa desconfiança. Parece deliberadamente vago ou experimental ou inconclusivo. Ou de algum modo sugere certo sabor de que nada acontece. De estar impregnado de alguma previsível pasmaceira pós-moderna: no plano da forma e no que segue contado. Surge bem escrito, mas parece com o quê? Com um conto escrito por excelência por qualquer conhecido seu em qualquer ponto do planeta. E, de preferência, alguém que se assumiu de fato como escritor profissional. O conto que lhe chega geralmente numa revista, numa antologia, ou mesmo por imeio. Por que Bolaño dá a precedência do livro a este conto é difícil supor. Nele há uma americano sombrio flanando pela Cidade do México. Há um engolidor de fogo. Há o narrador.
Talvez porque o segundo, que dá título ao livro, é uma granada estilhaçando cem mil lugares-comuns. É o inverso do hermetismo pseudo-sofisticado do primeiro. É um conto que não quer restar como nada “sofisticado”. Longe disso. Há um oximoro aqui porque esse segundo, “El Gaucho Insufrible”, compõe uma devastadora síntese da América Latina tomada a partir de um ponto de vista da Argentina no início dos 2000. E é tão impiedosamente sardônico, caricato, que o retrato esboçado tira risos pelo excesso de Apocalipse.
Um advogado bem sucedido, Peneda, que chegou a juiz, retrocede à figura do gaúcho após a aposentadoria. Os pampas seguem infestados por coelhos que aparentemente são a única fonte de alimento durante uma acachapante crise econômica que abate-se sobre a Argentina. Depois de algumas peripécias, Peneda, o juiz jubilado — sem muita plata nem tanto prestígio assim – muda-se para sua estância. A tempo de observar que àquele bando de gaúchos – completamente ineptos e de mãos cegas para qualquer ofício – inicialmente, só dois assuntos interessam, e com igual desvelo: a crise econômica e o futebol.
Depois, passada a erupção da crise, fica apenas o futebol. Eles próprios foram (ou são filhos de) antigos barras bravas, que não hesitavam em abandonar a casa, a mulher, os filhos, para seguir com psicótica devoção o clube do coração pelos rincões mais remotos da Argentina.
E, no entanto, se há uma lista de livros em que você se pega a bolar de rir com o inusitado do humor, a indizível fome de contundência, El Gaucho Insufrible há de estar nela:
La mujer no hablaba mucho pero sin duda trabajaba más que los seis gauchos que para entonces Pereda tenía en nomina, lo cual es un decir, pues a menudo se pasaba meses sin pagarles. De hecho, algunos de los gauchos tenían una noción del tiempo, por llamarla así, distinta de la normal. El mes podía tener cuarenta días sin que eso los causase dolor de cabeza. Los años cuatrocientos cuarenta días. En realidad, ninguno de ellos, incluido Pereda, procuraba pensar en ese tema. Había gauchos que hablaban al calor de la lumbre de electroshocks y otros que hablaban como comentaristas deportivos expertos, sólo que los partidos de fútbol que mentaban habían sucedido mucho tiempo atrás, cuando ellos tenían veinte años o treinta y pertenencían a alguna barra brava. La puta que los parió, pensaba Peneda con ternura, una ternura varonil, eso sí.
E o dente na veia prossegue pelos contos seguintes. Especialmente “Dois Cuentos Católicos”, “Literatura + Enfermedad= Enfermedad” até chegar a uma espécie de inferno definitivo em “Los Mitos de Cthulhu” – que é um dos dois ensaios breves que fecham o livro de contos com inusual contundência.
Neste último, em tom exaltadíssimo, Bolaño não poupa ninguém nem abre grande margem para compromissos. Traça um diagrama boschiano da literatura em língua espanhola. E um diagrama interessante, apocalíptico. Perfeitamente maldito. Que não se iria escutar nunca na voz de escritores que são verdadeiros establishments ambulantes, como Octavio Paz, Gabriel García Marquez ou Mario Vargas Llosa. E por outro lado, como aponta Bolaño, escritores dessa envergadura institucional gastam tanto tempo construindo a própria respeitabilidade, cerzindo a própria imagem que, no fundo, perdem qualquer possibilidade de contundência. Nenhuma sensibilidade. Nenhum “senso-comum”, como dizia Gertrude Stein: “todos recebem tanta informação o dia inteiro que acabam perdendo seu senso comum”. Eis porque, entre outras e ao lado deles, Bolaño soa como nitroglicerina pura. Uma máquina de moer carne literária que faz picadinho de gente como Sánchez Dragó, Ana Rosa Quintana, Isabel Allende ou Pérez-Reverte. (Em uma de suas últimas entrevista há um visível mal-estar quando ele lembra que Paulo Coelho está na Academia Brasileira).
As páginas pingam ressentimento, dor, revolta, uma compreensível fúria, aplacados um tanto pela voltagem de humor página após página:
Ana Rosa Quintana, una presentadora de televisión simpatiquísima, es quien escribe el mejor libro sobre la mujer maltratada de nuestros días. Sánchez Dragó es quien escribe los mejores libros de viajes. Me encanta Sánchez Dragó. No se le notan los años. ¿ Se teñirá el pelo con henna o con un tinte común y corriente de peluquería? ¿ O no le salen canas? ¿Y si no le salen canas, por qué no se queda calvo, que es lo que suele pasarles a aquellos que conservan su viejo color de pelo?
Ou então:
Latinoamérica fue el manicomio de Europa así como Estados Unidos fue su fábrica. La fábrica está ahora en poder de los capatazes e locos huidos son su mano de obra. El manicómio, desde hace mas de sesenta años, se está quemando en su propio aceite, en su propia grasa.
É claro que o que mais ressalta nesse diagrama é a aspereza de Bolaño diante da inércia do establishment literário ou acadêmico. Nesse sentido ele é bem-vindo em qualquer tempo. Mesmo numa circunstância em que os Estados Unidos encontram-se em relativa decadência assim como a situação europeia bem menos confortável que a euforia unificacionista de só alguns anos atrás. E em parte por que? Porque o futuro parece haver apostado suas fichas na China e, em menor escala, em outras economias emergentes – e isso inclui países da própria América Latina (este conceito lábil, em que brasileiros volta e meia se incluem, volta e meia não; volta e meia são incluídos; volta e meia não). E, no entanto o excesso de carnaval, de barroco, de deformação, e de uma violenta alegria é tão contagiante no Brasil, que há uma unanimidade: dentro em breve, seremos uma superpotência real, por méritos próprios, ainda que uns poucos venham questionando mais e mais os métodos de “inclusão” social do governo e, em especial, a habilidade para manipular a máquina de propaganda – especialmente a partir do segundo mandato Lula. Parece haver no Brasil uma total incapacidade de articulação ou uma progressiva perda de espaço de articulação para uma oposição efetiva e respeitável. Isso é já suficientemente perigoso – ainda que as regras do jogo político pareçam mais consolidadas que em alguns outros países do continente: Venezuela, Equador, Bolívia, Peru e até mesmo Argentina e Colômbia. Parece que o Chile e o Brasil estão um pouquinho mais aprumados quanto ao respeito pelo estado de direito – quem irá convencer um anarquista a escrever estado com maiúsculas?Ainda assim, há como que uma reserva de mercado na burocracia estatal, nos quadros acadêmicos que assomam como prerrogativas ou oligopólios do PT. E isso tende a crescer.
Voltando de bugalhos a alhos, o diagnóstico de Bolaño – como entre nós há talvez no passado recente somente o da figura solitária e igualmente auto-disruptiva de Paulo Leminski – compele ao menos a refletir um pouco para fora da assepsia dos padrões. Inclusive televisivos. Ele tem um laivo dessa sacrossanta ira que é também a do norte-americano David Foster-Wallace, por ilustração. Um pouco desses cachorros doidos varridos cujo latido é, volta e meia, pleno de premonições ou sugestões que passam muito ao largo de soluções excessivamente instituídas, sedadas, necrosadas, entorpecentes. Como Foster-Wallace e Paulo Leminski, há na palavra de Bolaño a verve de uma experiência alternante, que sinaliza para o desvio de práticas constituídas: a bolsa de estudos, a cátedra acadêmica, os ensaios soporíferos e inócuos produzidos em série nos departamentos universitários, a academia de letras, a supervalorização das novas mídias e do ambiente televisivo e digital. De suas observações pingam uma sorte de sinceridade da qual é perto de impossível abster-se.
E há o humor abrasivo. Em seu romance mais conhecido Los detectives salvajes [Os detetives selvagens, 1998], os protagonistas são dois jovens poetas de vanguarda. Mas o mais espantoso é que, a despeito disso, o livro fervilha de ação… e humor. Os dois se metem em encrencas sucessivas enquanto deambulam pela Cidade do México na década de 70. Depois, seguem para muito mais longe. Porém um dos trechos mais impagáveis é quando um amigo de ambos, um poeta gay, esboça uma classificação bastante sui generis dos gênero literários: “Romances, em geral, são heterossexuais, enquanto a poesia é completamente homossexual; acho que contos são bissexuais, embora eles não digam”.
E, então, esse mesmo amigo declara que até o momento a poesia lhe havia satisfeito plenamente, apesar de cedo ou tarde “estar predestinado a cometer a vulgaridade de escrever contos”.
A prosa de Bolaño não é algo que fala de fora para dentro da vida. Que estranha a vida. Ou a torna meta-alguma-coisa. Ou tem aquela horrenda encheção de linguiça tão à francesa. A do intelectual hierático que assina manifestos e pontifica sobre quase qualquer assunto: o bem e o mal; o torto e o direito; a crise nos Estados Unidos e a influência da menstruação das minhocasa na coloração do Mar Vermelho. Bolaño não deixaria pedra sobre pedra de tipos assim. Por exemplo, de gente como Bernard-Hénri Lévy. Ou qualquer dentre esses intelectuais arroz-de-festa. A gozação que faz de conceitos como “pensamento débil” ou a onda que tira em cima de nomes constituídos, apoiando diagnoses infames é de se tirar o chapéu. Para no fim, dizer, parodiando o próprio Borges, que:
Si pudiéramos crucificar a Borges, lo crucificaríamos. Somos los asesinos tímidos, los asesinos prudentes. Creemos que nuestro cerebro es un mausoleo de mármol, cuando en realidad es una casa hecha con cartones, una chabola perdida entre un descampado y un crepúsculo interminable. (Quien dice, por otra parte, que no hayamos crucificado a Borges. Lo dice Borges, que murió en Ginebra.) Sigamos pues, los dictados de Gracia Márquez y leamos Alejandro Dumas. Hagámosle caso a Pérez Dragó o a Gracia Conte y leamos Pérez-Reverte. En el folletón está la salvación del lector (y de paso de la industria editorial). Quien nos lo iba decir. Mucho presumir de Proust, mucho estudiar las páginas de Joyce que cuelgan de un alambre, y la respuesta estaba en el folletón. Pero somos malos para la cama y probablemente volveremos a meter la pata. Todo lleva a pensar que esto no tiene salida.
Roberto Bolaño morreu em Barcelona oito anos atrás. O volume de contos El Gaucho Insufrible é seu primeiro livro póstumo publicado. Outros seguiram-se. Inclusive o romance 2666. Esse chileno irrequieto, nada insofrível, frisava que “mi única patria son mis hijos. Y tal vez, pero en segundo plano, algunos instantes, algunas calles, algunos rostros o escenas o libros que están dentro de mí y que algún día olvidaré, que es lo mejor que uno puede hacer con la patria”.
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