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Caravaggio. Omnia Vincit Amor


Um inocente cupido com um ar levemente… como direi? andrógino? Não imaginam as coisas que, com um pouco mais de atenção, se encontram num Caravaggio. Com ou sem “dentatas



Omnia Vincit Amor. Detalhe




A vida não se faz só de Caravaggios

Ninguém, nem mesmo ESSE em que estão a pensar, me encomendou o sermão. Mas a verdade é que a transferência do ano se passou no campo da edição livreira. A Guerra e Paz roubou à ASA o mais talentoso escritor policial dos últimos anos. Falo de Jean Christophe Grangé e se acha que a literatura policial é uma arte menor pode parar de ler este post por aqui. Se tem coragem para assumir que não leva a integral de Dostoievski para a praia, siga o meu conselho. Numa banca perto de si.

Ernesto Guevara de la Serna


De acordo com a sua certidão de nascimento, Ernesto Guevara de la Serna nasceu a 14 de Julho de 1928 em Rosario de la Fe, na Argentina. De facto, El Pelao (como lhe chamaria Granado) nasceu um mês antes da data oficial. Celia de la Serna, católica progressista, estava grávida de três meses quando casou com Ernesto Guevara Lynch, descendente arruinado de “boas” famílias espanholas e irlandesas. E a mentirola, guardada em segredo durante trinta anos, evitou um escândalo na sociedade de Buenos Aires.

Ernesto nasceu assim sob a maldição de uma dupla biografia. E nunca mais se livrou dela. A esquerda gosta de celebrar o jovem asmático que cresceu, enclausurado, a ler Verne, Salgari, Stevenson, Cervantes, Baudelaire, Neruda, Jung, Steinbeck, Lorca e, claro está, Ghandi, Marx e Engels. O mito faz-se do jovem inconformado que, farto de medicina até às orelhas, atravessou meia América em cima de uma Norton 500 (a célebre La Poderosa) numa viagem iniciática onde descobre, revoltado, a miséria abjecta dos mineiros de Antofagasta e a condição desumana dos leprosos perdidos na selva amazónica. Que se despedem de um renascido Guevara com um espectáculo que jamais esqueceria: “O cantor era cego e o acordeonista não tinha dedos”. Depois vem Castro e o encontro “que mudaria uma vida”. O Granma, 82 guerrilheiros barbudos, a Sierra Maestra e, já com a década de 50 a correr para o fim, a queda do regime brutal de Batista e a vitória da revolução “libertadora”. O mito começava a apagar o homem e, depois de uma passagem fugaz pelo Banco Central (Castro terá pedido um economista, Guevara terá entendido um comunista), o Che desparece mesmo. O Mundo precisa dele e a injustiça não foi ainda definitivamente erradicada.1965 é “o ano em que esteve em parte nenhuma”. Ou em toda a parte, a fazer fé nos rumores: na Colombia, no Vietnam, num hospital psiquiátrico no México e até sob sete palmos de terra, em Las Vegas, assassinado às ordens de Castro. A lenda cresce. Guevara de la Serna é cada vez menos o dono da sua própria biografia. De tal forma que o homem e o mito só se reencontrariam na morte, em 1967, na selva boliviana. O “Cristo” é definitivamente  imortalizado na lavandaria de Vallegrande, de olhos perdidos no sonho de um Mundo melhor, pela objectiva de Freddy Alborta.

Do outro lado da barricada biográfica, é bem diferente o homem que a direita se tem empenhado em resgatar do mito. Inspirados pelos escritos amargurados e revoltados de Padilla e Cabrera Infante (to name a few), pelo “mártir” Arenas, lutam contra a “Castadura que dura” e acreditam servir a liberdade destruindo, pelos pés de barro, o ídolo pop da revolução cubana. Para o lugar do Che convocam Tatu (a sua incarnação congolesa), descrevem o  aventureiro de méritos militares mais do que duvidosos, «o filho literato de aristocratas e milionários argentinos» que desprezava a imperfeição dos companheiros de revolução e do «povo» em geral.  Juntam-lhe os fuzilamentos de «La Cabaña», a gestão desnorteada do Banco Nacional Cubano, a arrogância intelectual e a admiração pela Coreia do Norte (para não dar mais exemplos) e o ramalhete fica, de facto, composto. De Guevara de la Serna pouco mais sobra do que um ícone instrumentalizado pela nomenklatura cubana.

Pelo meu lado, que dificilmente alguém dirá que é o lado da esquerda, se tiver de optar por uma das biografias paralelas não tenho dúvidas e sacrifico o rigor histórico ao encanto do mito.  Como um dia escreveu Jorge Catañeda: «Há mitos que são maiores que a política ou a ideologia, que são maiores do que as derivas cruéis da história. O Che vive e, desde que não olhemos de perto para a sua vida, continuará a viver enquanto precisarmos dele e da forma que precisarmos dele». E pode alguém honestamente dizer que o Mundo em que vivemos já não precisa de mitos? Que se lixe a história.


Pedro Norton

Um Póstumo Capricho


Félix Nadar. Victor Hugo sur son lit de mort, 1885.


Quando eu morrer, deixem que a barba me cresça.Deixem que o meu cabelo se revolte de tão branco. Deixem-me dormir um sossego muito morto, na escuridão em contraluz de um colchão de penas. Quando eu morrer, vistam-me de algodão ou linho e sonhem-me, lá onde os sais de prata já as não alcançam, as mãos confusas de veias azuis. Fechem a janela devagarinho para não espantar a lua e peçam a Nadar que me fotografe. Não respires. Já está.

A Fogosa Cortesã Fillide

A menina deste quadro já não é. Não porque tenha morrido, coisa que obviamente também terá feito. Mas porque ardeu. Chamava-se, ao que parece, Fillide. Fillide Melandroni. Cortesã, que era a forma politicamente correcta de dizer “prostituta” no séc XVII. Terá sido amante do nosso Michelangelo Merisi que lhe pintou o retrato a troco de sexuais favores. Que a bela Fillide vendia também a Giulio Strozzi, nobre Florentino que haveria de herdar o quadro antes de este rumar à colecção de Vincenzo Giustiniani. Tudo antes de a tela voltar a mudar de ares e entrar no Kaiser-Friederich Museum, em Berlim, onde viria a perder prematuramente a vida durante a Segunda Grande Guerra.

Hoje podemos apenas imaginar a beleza chiaroscura de Fillide através das raras fotografias que sobreviveram à destruição da cidade. O que perdeu em vivacidade cromática, a cortesã de Siena ganhou em romântico mistério. E eu, que gosto de coisas perdidas para todo o sempre, encontro-lhe, precisamente porque já não é, uma imortal beleza. Deve ser dos jasmins que cola ao peito e que o António jurarará que são rosas, senhor. E eu digo-lhe que sim. Que tudo isto são, no fundo, eternos milagres.



Toma que é para aprenderes!



Caravaggio. Rapaz mordido por um lagarto.


Atentem neste quadro de Caravaggio e digam-me o que observam. Um mariola mordido por um lagarto? Pois enganam-se. O ar de lânguido abandono, o torso meio despido, se pensarem bem, já não cheiram a boa coisa. E se vos disser que a flor que usa no cabelo não é uma rosa, símbolo do amor romântico, mas um jasmim, símbolo tradicional do desejo? E que o tecido branco que o envolve é, não uma toga, mas um pecaminoso lençol? Pois é. E reparem que o rapaz avança, guloso, para a fruta. Fruta proibida, sexual tentação, bem entendido. E o que recebe em troca? Um mordidela de um lagarto? Raciocinem melhor. É uma impossibilidade zoológica. Os lagartos, sabem-no bem, não têm dentes. A explicação, garantem-me, é mais subtil e carregada de “metafórica potência”. O réptil sem dentes dá antes corpo a um intemporal pesadelo da masculinidade. Quais lagarto, quais carapuça. Estamos na presença — lamento assustá-los rapazes — da mítica, da vingadora, da dilacerante, da implacável, da castigadora Vagina Dentata. Que é para o petiz aprender a não ir em tentações.



Dicionário de Bolso

Andy Warhol. 192 One Dollar Bills


Para benefício dos leitores da Visão, deixo aqui um breve mas imprescindível léxico para quem quer perceber alguma coisa da trapalhada em que se transformou o caso PT/Telefónica.


Activo Estratégico. A estratégia, já se sabia, tem costas largas. Serve normalmente de argumento final que dispensa justificação ou recurso. Para além do mais, confere sempre um ar sisudo e inteligente a quem por ela clama. E é, quer sob a forma de substantivo, quer sob a forma de adjectivo, uma palavra muito jeitosa (no sentido em que dá um jeitão) para ter à mão. No caso em apreço aprendemos, por exemplo, que o interesse estratégico é um conceito abstracto que convém não definir com grande precisão e que se invoca quando se esgotou qualquer racional económico para justificar um investimento ou recusar um desinvestimento. Na mesma linha, aprendemos, um activo passa a ser estratégico quando já não há mais maneiras, à luz da ciência conhecida, de justificar o seu valor. Dada a natureza altamente volúvel e misteriosa desta definição, ficamos finalmente a saber, o que hoje é estratégico amanhã pode não ser.


Núcleo Duro.É a designação dada a um saco de gatos vestidos de gravata, com interesses divergentes e normalmente conflituantes que, durante um período curto de tempo, se portam civilizadamente uns com os outros. A sua principal característica é, paradoxalmente, não ser tão duro como isso. É assim um bocadinho como o núcleo de um átomo. Sabe-se que é possível dividi-lo (normalmente através do bombardeamento com vil metal) mas ninguém consegue controlar com precisão o que acontece depois da fissão. Muito menos garantir que a fissão nuclear não dá origem a uma reacção em cadeia. E isto para não falar da trapalhada que é ter de enterrar o lixo nuclear, que é como quem diz, a parte do núcleo duro que, deixando de ter utilidade depois da fissão, continua a maçar muita gente durante muito tempo.


Centros de Decisão Nacional.São outra abstracção indefinível. Ninguém sabe exactamente o que são, não há provas que alguém tenha visto algum, mas enchem a malta de fervores patrióticos e também dão um jeitão quando se trata de por o Estado a defender posições indefensáveis. Tal como os activos estratégicos, são de natureza instável e volúvel. Aparecem e desaparecem misteriosa e muito rapidamente do discurso empresarial e politico. Há quem lhes chame os gambozinos da alta finança. Toda a gente sabe que não existem mas mantém muita gente entretida.


Golden Share(por vezes também conhecida por Golden Chair). É a porta dos fundos por onde a politica entra nos bailes “masqués” dos negócios. Ou se preferirem uma alegoria mais carnal, são aquelas portas em “trompe l’oeil” que os reizinhos de todo o tipo e de todo o mundo costumam usar para visitar as suas voluptuosas amantes em noites de maior aperto. Em certo sentido são o oposto dos Centros de Decisão Nacional. Toda a gente sabe que existem, toda a gente sabe exactamente para que servem, toda a gente já viu, inclusive, o poder politico a usá-las com desbragada volúpia e duvidoso decoro, mas todos fingem acreditar que por ali não passa nada.


Publicado na Visão a 15.7.2010

E o cócó, senhores?
A fonte. Marcel Duchamp

A Fonte. Marcel Duchamp

Já ouviram falar das Srªs Sandra Rawls Oltmanns e Savannah Day? Hum… E da American Restroom Association? Também não? Pois fazem mal. Estão a passar ao lado da  batalha pelos direitos humanos mais heróica desde que Rosa Louise McCauley Parks decidiu desobedecer a uma ordem racista de um condutor de autocarros.

Fiquem então a saber que uma mulher leva, em média, 3 minutos para entrar numa casa de banho pública, fazer um xixizinho, e voltar a sair. Um homem consegue aliviar-se em 83.6 segundos. Palavra de cientista. Conclusão? Incontinentes filas nas casas de banho das senhoras.

É para travar esta flagrante iniquidade que o mundo fascinante da luta pela igualdade dos géneros debate agora a necessidade de tornar universalmente obrigatória, em todas as casas de banho públicas, a construção de duas vezes mais retretes para senhoras do que urinóis para homens. Acham bizarro? Pois fiquem sabendo que, enquanto a coisa se discute nas mais altas instâncias mundiais, mais de metade dos estados americanos têm já este tipo de «porcelain parity laws». E que Singapura e Hong Kong também já aderiram à nobre causa. O problema é que o movimento transgender defende uma solução diferente: casas de banho unisexo para todos. A ideia é que assim se elimina também a necessidade de fazer uma escolha pública e à vista de todos, na hora de optar pela casa de banho. Dois coelhos de uma cajadada, por assim dizer. Sem ofensa para os coelhos.

Cheira-me que o Dr. Louçã anda distraído com estas minudências da crise financeira.

O Meu Cemitério Preferido

Primeiro há este blog, claro está. Onde até a Morte morre com elegância e intimidade. Depois existem todos os outros. Os cemitérios que cada um de nós carrega no coração. Poderia falar-vos de muitos. Da casa onde repousa o meu Rapaz de veludo. Do cemitério de aldeia onde se foi morrer o meu avô. Ou desse outro, lá no Minho, onde choviam canas nos dias de festa. Das campas sem fim que pintam de branco a costa verde de sangue da Normandia. Da musicalidade alegre da Recoleta, em Buenos Aires, de que por pouco não fiquei inquilino. Da tristeza caótica do cemitério judeu de Praga onde passeámos, pois claro, de mão dada. Ou ainda daquele outro de que perdi o nome, algures em Chiapas, onde os meninos iam a enterrar de azul. Mas o meu cemitério preferido é outro. Tem vista para a praia mais deserta do Mundo, cheiro bonito de Morna e uma pobreza que não se pode desejar mais pobre.



Cemitério. Fevereiro de 2006



Não querem, caros mortos, abrir-nos os portões dos vossos cemitérios mais queridos?



Uma Vida Sagrada e Profana

Chamaram-lhe o Francis Bacon da Contra Reforma e não consta que se tivesse ralado. Michelangelo Merisi nasceu, não podia deixar de ser, no dia de São Miguel Arcanjo. Oito dias antes da batalha de Lepanto, facto sem qualquer relevância para tudo o que aconteceu antes e depois. Assassino, dissoluto, brigão, “sexualmente ecléctico”, arruaceiro, levou uma vida tumultuosa e intensa. Ali para as zonas que o Vasco frequenta. Uma vida em chiaroscuro que Andrew Graham-Dixon tenta arrancar a quatro séculos de muito pó e de tenebrosa especulação.

Este fim-de-semana, em Londres, dei com ele na montra de uma livraria a chamar por mim. Entrei e comprei-lhe a vida. Embrulhada num belíssimo hardcover acabadinho de sair do forno. É uma desculpa como qualquer outra para não ir à praia.


Blues Verde e Amarelo

O blues mais divertido e mais tropical dos anos 80.

A Guerra dos Mundos

Vão desculpar-me mas hoje deu-me para a bola. Para escrever sobre bola. Mais estimulante ainda, deu-me para perorar sobre as estatísticas da bola que, como bem se sabe, são a marca verdadeiramente distintiva de um intelectual dos relvados. Pois bem, das 32 selecções que iniciaram o grande jogo do Mundo, 13 eram europeias, 6 eram africanas, 3 eram asiáticas, 2 representavam a Oceânia e 8 o continente americano.

Fast Forward: oitavos de final. A Oceânia desapareceu do globo sem que ninguém tivesse reparado que alguma vez lá tinha estado. A África, continente eternamente esquecido, quase deixou de existir. Mas é na Europa que o panorama é mais deprimente. Porque se revelaram largamente infundadas as expectativas dos profissionais das casas de apostas e porque se revelou cruelmente ilusória a riqueza de um futebol que descobriu, do dia para a noite, que importa muito mais estrangeiros do que deveria. Mas tristezas não pagam dívidas e o que é certo é que mais de metade das selecções ficou pelo caminho. A Grécia, por exemplo, naufragou miseravelmente depois de ter passado os últimos anos a enganar meio Mundo com o seu anti-jogo patrocinado por um seleccionador alemão. A França recusou-se a perceber que nada lhe restava da grandeza de outros tempos e, à primeira dificuldade, dedicou-se a fazer aquilo em que verdadeiramente é especialista: greve ao trabalho. O resultado foi o que se viu. Um estrepitoso fracasso do seu modelo de jogo com direito a honras de Estado e cimeira no Eliseu. Já a Alemanha, depois das hesitações do costume, lá fez o que lhe competia para evitar um risco sistémico e acabou na liderança do grupo. A Inglaterra, que não vai em euros, passou a ronda de braço dado com os aliados de sempre, os Estados Unidos. Portugal foi igual a si mesmo e oscilou entre a depressão e a euforia no espaço de poucos dias. E a Espanha, para ser sincero, estraga-me a estatística porque, a fazer fé nos economistas, era suposto ter implodido depois da euforia do Euro..

E se dúvidas existissem quanto ao futuro do Mundo, ter-se-iam dissipado de vez. Até mais ver (escrevo-vos na segunda feira), nesta guerra implacável da globalização os grandes campeões são mesmo a Ásia (2 das 3 selecções apuradas para os oitavos) e a América (7 das 8 selecções continuaram em prova). A Oriente só destoou mesmo a Coreia do Norte. Três derrotas em três jogos e doze golos sofridos são, convenhamos, um grande embaraço ideológico para a nossa Odete e não podem deixar de merecer uma leitura politica. A Ocidente, nada de verdadeiramente novo. Dos Estados Unidos  continuam a chegar sinais de retoma, a América latina cresce a olhos vistos, o Brasil que desconfiava de Dunga mais ainda do que desconfiou de Lula, voltou a ser a promessa do momento e da crise Argentina já ninguém fala.

Dir-me-ão que é só bola. E eu respondo que sim. Que é só bola. Mas a verdade é que a bola se presta a implacáveis metáforas. Serão só coincidências?

Publicado na Visão. 1.7.2010

There is no good communist

Talvez um pouco básico mas, em tempos de exaltados unanimismos, um pouco de “political incorrectness” não faz mal a ninguém.


Ceci n’est pas un chapeau

Nick Veasey. Bowler Hat

 

Nick Veasey. Electric Chair.


Nick Veasey. Basque.



Provoquem-me, provoquem.

Estranhões e Bizarrocos. The Real Thing.

Confesso que não conhecia Tim Flach nem do carro eléctrico. O que, já se vê, é uma desavergonhada vergonha. Tanto mais que tenho andado por aqui a copiá-lo sem metade do talento. Agora que o descobri graças à revista mais Inteligente que se publica em Portugal fiquei com uma senhora cachola.

Uma casa em Tortilla Flat

Tenho uma casa em Tortilla Flat. Recomendou-ma um bom amigo. É uma casa feita de vinho bom, do barato e roubado. É uma casa feita para incondicionais amizades. É uma casa feita para arder que é o destino natural de todas as casas que se querem duradouras.

Vão visitá-la. Leiam-na, releiam-na. De um fôlego. Num dia cinzento. Perguntem por Jesus, pelo Pirata e se alguém lá no bairro quiser saber ao que vão, digam que vos falou dela o meu amigo. Verão que não há tristeza que lhe resista e que Steinbeck nunca mais escreveu nada tão divertido.



A Pescada

Georg Flegel, Natureza Morta com Peixe


1 – Não será particularmente recomendável mas é verdade. Eu, que sem mais provas do que os demais portugueses, estou até convencido que José Sócrates conhecia bem o negócio PT/TVI, sou obrigado a fazer minhas as palavras de Rui Pedro Soares. «O relatório apresentado é como a pescada: antes de ser já o era». Mas para que não se diga que faço do jovem prodígio a fonte de toda a minha inspiração, relembro (num breve assomo narcísico) o que escrevi, nas páginas da Visão, no passado mês de Março: «a comissão parlamentar de inquérito ao caso do negócio da PT / TVI dificilmente vai ser muito mais esclarecedora do que têm sido as mediáticas sessões da comissão de ética (…). No fim do dia, todos vão concluir aquilo que já tinham concluído antes de sequer se ter iniciado qualquer um destes processos. O PS ficará (continuará) convencido que José Sócrates nunca mentiu. A oposição não terá (já não tem) qualquer dúvida de que ele não fez outra coisa. E o problema começa aqui. É que as conclusões da comissão parlamentar terão pouco a ver com uma «verdade inequívoca» que um qualquer tribunal tentaria apurar. As conclusões da comissão vão ser, muito mais prosaicamente, apenas e só, as conclusões da oposição maioritária (9 deputados na comissão contra os 8 do PS). «José Sócrates mentiu». Na melhor das hipóteses, «o senhor primeiro-ministro faltou à verdade ao Parlamento (…)». Independentemente do que verdadeiramente se tenha passado, é inevitavelmente o que concluirão. É o que já concluíram». Como não sou bruxo nem me tenho na conta de um analista divinamente iluminado, é preciso procurar as razões para esta astrológica profecia noutro lado: a independência está para as Comissões Parlamentares de Inquérito como o multipartidarismo está para a Coreia do Norte. Digam-me quem vota, dir-vos-ei como vota.

2 – Dito isto, é da mais elementar justiça lembrar que não acertei em toda a linha. Ingénuo, acreditei que entrávamos numa via sem retorno. Que se arriscava a conduzir o país a uma crise política se as oposições fossem minimamente coerentes com as conclusões que já então se adivinhavam. Mas parece que, de então para cá, «o Mundo mudou». E que ninguém está verdadeiramente interessado em ocupar, antes de meados de 2011, a cadeira escaldante de José Sócrates. Não fosse esse “pequeno” contratempo e será que estaríamos agora entretidos a discutir as bizantinas diferenças entre «mentir» e «faltar à verdade»? Eis o que é verdadeiramente impossível de provar.

3 – Como nem tudo é mau, é justa uma palavra de louvor para alguns deputados. Não é por falta de parlamentares inteligentes e bem preparados (João Semedo, Cecília Meireles, João Oliveira, Pedro Duarte) que a Assembleia da República se desacredita ou que as Comissões Parlamentares de Inquérito parecem óperas bufas. Mais uma vez, é preciso procurar mais longe. Pelo meu lado, arrisco-me a dizer que, no sistema político português, as máquinas partidárias e a disciplina que impõem ganharam um peso de tal maneira atrofiante que conseguem o milagre de transformar deputados capazes em simples máquinas de votar.


Publicado na Visão em 17.6.2010


Erro de Paralaxe

Não foi por falta de aviso, mas o Eduardo é, já vão percebê-lo, um fotógrafo absurdamente teimoso. Pedi-lhe que não brincasse com a luz. Pedi-lhe que não brincasse contra a luz. Que deixasse o interruptor sossegado. Não queria amores com «sfumatos» nem revelações de noites americanas. Teimoso, o Eduardo. Fez da manhã fim do dia e pintou sombras chinesas nas paredes. Espalhou uma dor imensa de «grandes lâmpadas eléctricas» onde dantes só existia um obstinado silêncio. E pintou, com um insuportável filtro verde, as memórias ocres do meu escritório. Teimoso, o Eduardo.

Pedi-lhe que não subisse ao escadote para pintar. As meias! Daí não se vêem as meias! Amarelas, com listas pretas. Venenosas, pegajosas, a subir, serpentiformes, pelas escamas da barriga da perna. A bem dizer, daí de onde espreitas, não se vê sequer a minúscula antecâmara do gabinete. Será raquitismo do escadote. Mas não se vê o Sr. S., inanimado, com o pescoço ainda marcado pela violência azul do perfume. Não se vê tão pouco a menina R., deitada de bruços, a arfar, engasgada na sua angústia hemofílica, incapaz de se despedir da vida com uma réstia de musical dignidade.

Pedi-lhe que pintasse com uma grande angular. Assim, como está, não se adivinham os intestinos do prédio todo. Teimoso, o Eduardo. Não se vê o apartamento dos T., com a sua sala pequena de amarela e amarela de tão triste. Não se vêem os jornais espalhados, os cinzeiros sumidos, as garrafas afogadas nem a girafa oxidada que lhes serve de candeeiro. Não se vê o quarto dos gémeos, tão mortos, tão mortos, que quase se diriam nascidos para parecer iguais. Não se vê, sequer, a barbearia que lhe desenha, ao prédio, a capilar esquina.

Assim como está, assim como estás, não passas de um erro de paralaxe. E eu não gosto de gastar os meus pensamentos lúbricos com paralaxes delirantes. Mesmo quando se despem de vestido azul.

Teimoso, este Eduardo.

Em Dia Não

Hoje não devia ter saído da cama.

 

Como é que alguém que assinou, nos últimos dez anos, alguns dos melhores filmes do cinema americano deste século (e do outro) deixa que o pé lhe fuja para a chinela num exercício tão estridentemente fracassado como é Invictus?  Como é que alguém que falou do ressentimento com a violência mais ternurenta que já me foi dada a ver (Gran Torino), que filmou a ambiguidade e a dúvida com uma surpreendente força dramática (Mystic River), que deu um corpo tão real à angustia que é sempre o estertor de qualquer sistema de valores (Letters From Iwo Jima), se perde pelos caminhos ululantes do óbvio num filme sem qualquer sofisticação narrativa e que tem como único ponto “alto” as interpretações chatas, muito chatas, de tão certinhas de Morgan Freeman e Matt Damon?

Suponho que toda a gente tenha direito a ter o seu dia não.



Pazes, caro Francisco?

Ouso, para fazer uma desagradável precisão, intrometer aqui um post que, em bom rigor, devia ter a forma de comentário: Francisco da Cunha Leal, bisavô que o Francisco tão generosamente aqui homenageia, não apenas se “desentendeu” com Norton de Matos, meu tio-bisavô. Os homens, senhores dos seus respectivos narizes, camaradas de armas, políticos, ministros, amantes de Angola, odiavam-se, e estou a ser brando, com todas as forças do Mundo!


Calígula em Angola, por Francisco da Cunha leal



Mas descansem que não quero aqui reeditar, com cem anos de atraso, uma contenda que inflamou o país político e de que as nossas famílias terão guardado, imagino, recordações opostas. Muito pelo contrário. Sublinho a espantosa coincidência para propor ao Francisco tréguas imediatas, incondicionais e sobretudo retroactivas. Que se danem as razões de Francisco e de José! Pazes? Cem anos não são já anos de sobra para uma zaragata?