Blog de luxo #4

Santa Eugénia de Roma

Não é de Roma, mas é como se fosse. É da Sardenha que é para aquelas bandas. A outra tinha queda para se vestir à homem, ai tão bem tão bem, que foi nomeada abade de um machíssimo mosteiro. Claro está, acabou decapitada que é para não andar a desorientar os frades. A cá do blog, felizmente, ainda tem cabeça. E se dependesse só de nós também já tinha sido feita santinha.

Prisões de Pedra


Durante cerca de 40 anos um gigantesco bloco de mármore viveu, esquecido, nas proximidades do Duomo de Florença. Reza a lenda que tinha sido comprado em 1464 para ser transformado na gigantesca figura de um profeta que haveria de espantar tolos na catedral. Tolos eram, veio a provar-se, todos quantos se deixaram convencer que a pedra se molda assim, a golpes de simples capricho. Durante cerca de quarenta anos o bloco de mármore derrotou todas as violências e todas as agressões. Durante cerca de quarenta anos foi mais forte que a força de qualquer escultor. Durante quarenta anos humilhou artistas, desafiou escopros, venceu cinzéis. Os homens foram e vieram, os sonhos do profeta ruíram, o bloco de mármore ficou. Imenso, bruto, esquecido.

Até que, corria já o ano de 1501, chegou a Florença um homem que se dizia maior que todos os homens. Divino. Olhou o monolito, tirou-lhe as medidas, sentiu-lhe a alma, adivinhou a vida que guardava em si. E dedicou três anos, três anos inteiros sem tirar nem pôr, a libertar, a golpes infinitos de redução e renuncia, o monumental David que a pedra, afinal, sempre soubera ali. Era esse o segredo que dizia ser seu. Sabia que todas as Pietàs, todos os Bacos e todos os Davids, eram antes de ser. Prisioneiros perpétuos de todos os mármores do Mundo. Esculpir era tão só libertar.

Dona Augusta

Até ao Diogo ter mergulhado, com a generosidade que lhe é costumeira, na inclemência verde que engoliu a Roça Dona Augusta, tudo o que sabia dela, sabia-o nesta fotografia.  Sabia a varanda, sabia a escadaria, sabia os quadros em desalinho que a brandura das noites tropicais embalavam sem razoável critério. Sabia a minha bisavó, hirta de branco, senhora do seu nariz e do resto dos narizes da família.  Sabia-lhe o filho que era meu herói, era meu avô e lhe seguia, respeitosamente, os passos decididos da ternura que nunca lhe deu. E se não sabia o cavalheiro, gordo e de linho, charuto a imaginar-se na boca papuda, sabia-o ao menos ali. Congelado para todo o tempo, no calor sufocante de uma caixa de papel pardo, cheia de fotografias de mortos que alguém chorara antes de mim.

Minto. Sabia-a muito mais. Sabia-a de muitas outras fotografias onde, nunca se mostrando, aparecia, pressuposta, no rosto feliz do meu avô-herói. Sabia-a, vaidosa, quando, de fato de banho imenso, ele me acenava na praia, muitos anos antes de eu poder ser acenado. Sabia-a, no riacho estridente de fresco que ele atravessava, a cavalo, sorridente de estribos de caixa, com o garbo vaidoso dos seus anos de bonito rapaz. Sabia-a ainda daquelas outras em que ele, único amor incondicional da minha meninice, se sentava nos joelhos austeros do outro avô que era o seu e lhe confiara a Roça. E sabia-a sobretudo das suas histórias, cansadas de tão repetidas, mentirosas de tão divertidas. Povoadas de bichos estranhos, de terrores nocturnos, de ruídos espessos, de cacau em desatino, de gente que provavelmente nunca existiu e de aventuras delirantes de uma valentia que só nós dois sabíamos ser sua.

Tudo o que sei sobre a Roça Dona Augusta, sei-o nesta fotografia. E não há selva, negra de jibóias, não há calor insalubre, não há miséria, não há culpado abandono, que engulam todas as saudades que sendo só dele, se fizeram muito minhas.

Lit de Mort IX



Detalhe de Ophelia, John Everett Millais

Estudo p. Ophelia, John Everett Millais.

Found drowned, George Frederick Watts. 1867


Os lits de mort aquíferos sempre me fascinaram. Os cabelos em algas, as mãos pisciformes, os vestidos etéreos, o sopro suave do vento transmutado em água, o mudo bailado das pernas que se alongam na imensa brancura da sua inutilidade. Os rios, os lagos, até o mar quando depois da tempestade volta a ganhar horizontalidade, emprestam a todas estas mortes uma serenidade amniótica que não é possível encontrar em mais leito nenhum. Por isso sempre me fascinaram a Ophelia que é de Millais mas também é da Joana, os meninos afogados por Ruben A. para inundarem o Rapaz de Veludo da “calma marinha do seu silêncio”, ou a fotografia que nunca vi — porque nunca foi tirada — da última viagem, pesada de seixos, de Virginia Woolf pelo Rio Ouse.





Omayra Sánchez por Frank Fournier. 1985


Infelizmente, nem sempre se faz de embrionária suavidade a morte pela água. Trágica e ironicamente o “lit de mort” de Omayra Sánchez foi a cama de escombros em que se transformou a casa que sempre fora a sua. O ano era 1985, a água fez-se lama, a morte durou três dias. E eu nunca mais esqueci a resignação tão adulta daqueles olhos muito pretos de menina que nunca se faria mulher.


Alto e pára o baile

Paula Rego — A dança. 1988

Quando Pedro Passos Coelho chegou ao poder no PSD, o futuro próximo do país parecia ter ficado decidido. Acabara-se a balbúrdia na oposição e José Sócrates, que só se aguentava em pé por falta de comparência desta, tinha finalmente os dias contados. Sabia-se que os tempos eram difíceis, que existiriam orçamentos «de guerra» para apresentar e sabia-se que, com as eleições presidenciais de permeio, o país viveria um limbo político forçado de meia dúzia de meses. Era, como um dia disse António Guterres, uma questão de fazer as contas: Passos chegaria a S. Bento até final do 1º semestre de 2011. No círculo mais próximo do futuro Primeiro-Ministro a confiança era tal que a data se adiantava à boca cheia. E a verdade é que as primeiras sondagens vieram dar sustentação a esta científica tese. Passos provava ser um político responsável, era ponderado e educado, dava-se ar de estadista, vivia, em suma, em estado de graça.

Eis senão quando passou alguma coisinha má na cabeça dos conselheiros políticos do líder do PSD. Sem que nada o fizesse esperar, Passos Coelho iniciou uma série masoquista de tiros no pé. Paradoxalmente, não tanto porque estivesse errado o conteúdo das suas propostas (faço parte do quase extinto leque dos neoliberais furiosos capaz de subscrever boa parte das ideias subjacentes ao seu projeto de revisão constitucional). Mas sobretudo porque errou clamorosamente no timing e na forma. Na questão da Constituição, como na do Orçamento de Estado, revelou ingenuidade política, insensibilidade social e sobretudo um inexplicável desnorte. O resto é sabido. As sondagens fizeram marcha atrás, José Sócrates foi buscar ao baú mais uma das suas sete vidas e, num ápice, aconteceu o que todos julgavam ser já impossível: a dúvida reinstalou-se. Será desta?

A coisa tem, é inegável, um lado dramático. Portugal precisa desesperadamente de mudar de vida e de encerrar este ciclo político de governação socialista. Mas como o Verão ainda não chegou ao fim, vale também a pena olhar para o lado divertido (ainda que grotesco) da questão. É que, num país onde a confusão entre as esferas política e económica é total, onde grassam promiscuidades e corrupções de toda a ordem, onde o Estado é simultaneamente fraco e imenso, não é suposto que as coisas funcionem desta maneira. Há meses que no país «empresarial» tinha já começado o baile, sinistro, subterrâneo e costumeiro que sempre antecipa a dança de cadeiras no topo da hierarquia política. Desde que (prematuramente?) se decretou a morte de Sócrates, a azáfama era mais do que muita. Contrataram-se assessores, nomearam-se administradores, iniciaram-se avenças, retomaram-se «amizades», redescobriram-se até velhas cumplicidades ideológicas que a governação socialista obnubilara. E agora, sem que a sombra de um aviso, a orquestra pára e a música cala-se? As coisas não se fazem assim! O baile pode tornar-se um tumulto! Temo pelas pisadelas, pelos encontrões, pelas traições variadas e pelas quedas estrepitosas. E receio bem que os próximos tempos sejam tempos de muitas espargatas. Pelo menos enquanto não voltar a perceber-se em que sentido vai dançar-se o corridinho.


Publicado na Visão a 2.9.2010

Di sotto in sù

Dizem-me que a coisa começou mais cedo mas “pôs-de moda” lá para o século XVII. Os especialistas dir-vos-ão que é uma variante específica de ilusionismo baptizada Di sotto in sù ou Prospettiva Melozziana . O Vasco explicar-vos-á  que, mais coisa, menos coisa, tanta palavra bonita pode trocar-se pela mais voyeurista expressão “de baixo para cima”. E eu, que não sou italiano nem especialista de coisa alguma, só posso dizer-vos que acredito, com a força de todas as paredes e de todos os tectos do mundo, que a ninguém devia ser roubado o prazer de ver-se assim enganado. Uma vez que fosse na vida. Mesmo que, deslumbrado pela beleza furtiva que é sempre a beleza de um trompe l’oeil, não ganhasse para o susto. Que é o que o terá acontecido à bela e arfante Gonzaga quando acordou, numa pecaminosa manhã, na sua camera degli sposi, com um coro de inconvenientes querubins a espreitar-lhe as linhas rococós da sua escandalosa nudez.




Caravaggio. Jupiter, Neptuno e Plutão



Andrea Mantegna, Camera degli sposi



Andrea Pozzo, Igreja de Sant’Ignazio



Hoje sonhei-me ao contrário

Hoje sonhei-me ao contrário. Olhava-me ao espelho, olhava-me com o espelho, olhava-me pelo espelho, e via-me do avesso. Estava fora de mim e era só costas. Saíra de mim, fugira de mim e crescera muito para além do que era eu. Estrangeiro, peludo, grotesco e imenso, para dentro do nada. Morto de cabeça invertida e reflexo de coisa nenhuma. Tu eras ninguém e já não me sentias. Eras retrete, eras minúsculos chinelos de um rosa muito vivo, eras o banho já frio e não querias ser memória de nós. Nem sexo, nem paixão, nem saudade. Muito menos a fragrância do corpo que em ti fora mulher. Afogavas-te num silêncio transparente de quotidiano e desejavas que eu fosse também, higienicamente vazio. E eu, para te fintar a vontade, fazia-me revés, fazia-me viés e cortava, à navalha, todas as excrescências do que ainda tinha sido. Do que ainda tínhamos sido. Pêlos de amor, de desejo, de ternura e de raiva incontida de fazer o tempo parar. E eles, para te iludir a vontade, caíam. Decepados para dentro de mim e do ralo conspurcado de sabão azul que ainda era eu. Desciam, rodopiavam, pelo labirinto canalizado da minha alma.

Hoje sonhei-me ao contrário. Tinha o coração escanhoado e estava limpo de ti.


Lit de Mort VIII *

Morrer com Dignidade — Fotografia de Daniel Pedrogam

O homem que aqui vêem sente e sabe a morte. O filho, que aqui imaginam, sabe-a com ele. E é desse saber surdo e partilhado que se faz esta dignidade imensa. É nesse saber surdo e partilhado que fica congelado o tempo. Nunca mais o pai se levantaria do leito que foi o seu. Cinco dias depois era nunca e seria sempre. Adeus Lit de Mort. Até ao meu regresso.


* Esta história não é minha. Roubei-a aqui na esperança de que, no despudorado furto, possa perceber-se uma homenagem singela.

Lit de Mort VII

Dapnhe Todd venceu o BP Portrait award 2010 com este impressionante “Last Portrait of Mother” que tive a sorte de ver na National Portrait Gallery, em Julho passado. Gosto particularmente deste lit de mort que, em bom rigor, ainda não o é. Gosto do peito sem peitos, da boca esquecida que parece procurá-los, dos olhos baços de um tristeza azul cinza. Gosto dos dedos imensos e descarnados. Gosto da pele mumificada de amarelo e da nuvem de penas que molda o cadáver numa paródia de vida. E gosto sobretudo da ternura da filha. Porque é ternura, não duvidem, o que arranca à mãe, num petrificado instante, este último sopro de crudelíssima beleza.

Primeiros!

Este é o meu maior pesadelo. Não o livrinho, que parece deliciosamente mórbido e que podem folhear aqui. Mas a ideia de ser o pássaro dodô da minha família e amigos. Sendo certo que nesta matéria não tenho mesmo pressa nenhuma («importa-se voltar mais tarde?»), lá em casa faço absoluta questão de gritar: «Primeiros!». Prontos. Tá dito.



Lit de Mort VI

Lit de Mort VI — By the deathbed por Edvard Munch

Lit de Mort V


Lit de Mort V — Vielle Femme por Rufus Anson



Lit de Mort IV
Lit de Mort IV - Tolstoy por Morozov

Lit de Mort IV — Tolstoy por Morozov

 

Lit de Mort I, II e, vá lá, até III

Gosto de leitos de morte. Não me perguntem porquê. Gosto dos que estão felizes, adormecidos na paz que é segredo de sábio. Gosto dos que carregam a máscara macerada do tempo a ser antes de tempo. Gosto dos resignados e gosto dos revoltados. Dos que morrem pintados de azul e dos que se despedem em amarelo. Gosto de mortos a preto e branco. Dos meus que arrancaram postas de mim. E dos outros que também imagino um pouco meus. Dos penteados e dos mais descabelados. Gosto dos que morrem em silêncio e dos que choram para toda a eternidade. Gosto das mães, dos filhos e sobretudo dos filhos que morreram às mães. Gosto até, vá-se lá perceber, dos que se vão amortalhados em lençóis sem amanhãs como me imagino no dia em que eu já não for. Gosto de todos. E gosto muito. Tanto, tanto, que já confessei o morto que queria ser e até o morto que queria parecer. Tanto, tanto, que o Manuel, sempre educado, veio morrer comigo para que não se dissesse que era capricho de um louco só. Tanto, tanto que quero apresentar-vos mais uns quantos. E desde já vos convido a convidar os que mais queiram. Só há uma regra. Que gostem muito e os deixem ser gostados.



Lit de Mort I — Victor Hugo por Nadar




Lit de Mort II — Proust por Man Ray




Lit de Mort III — Ernesto Che Guevara



E agora vou de férias

O Sr. S Fonseca que se apresente rapidamente ao serviço para tomar conta deste ensandecido cemitério.

O Mau Olhado

Gostava de olhar-lhe a alma. Assombrosamente vazia, preta de tão só. Gostava de espreitar-lhe as entranhas, as vísceras, as artérias e as saudades que lhe ensombreciam a bílis. Gostava de perscrutar cada defeito, cada orifício ácido de desamor, cada metastase da enorme tristeza que o carcomia. Gostava de ver como quem palpa, cada resquício de remorso, cada traço de angústia. Comprazia-se em aumentar-lhe a dor, revelando, amplificando, agigantando até a um operático absurdo, os pavores, os medos, os traumas, os fantasmas azuis que lhe pintavam o cérebro de avesso. Gostava de se saber senhora daquele destino afogado nos fluídos espessos do passado. Passado que era presente e seria futuro enquanto pudesse vestir-se de luto e armar-se daquele óculo de uma crueldade muito sua que lhe vingava o despeito de mulher trocada.

Haveria de sentir-lhe o olhar, negro, gélido, dilacerante, telescópico, até ao fim dos seus dias.

Sonho de uma noite de verão

Sonhei ou hoje estava uma noite tropical em Cascais? Sonhei ou ouvi Declan Patrick Aloysius MacManus, numa surpreendente reencarnação folk, tocar Elvis Presley? Ou para ser mais rigoroso, Junior Parker e Sam Phillips que foram os verdadeiros maquinistas do Mystery Train (“Train I ride sixteen coaches long. Train I ride sixteen coaches long. Well, that long black train carries my baby home”) que Elvis (não é esse, é o outro) celebrizou, Jarmusch recuperou e Elvis (agora sim, é esse) ressuscitou hoje? Sonhei ou Elvis (esse) tocou Jimi Hendrix (The Wind Cries Mary)? Sonhei ou o eclético Elvis pôs o punk definitivamente na gaveta e acabou a noite a tocar um estrondoso Happy que Richards compôs mas que Jagger também reivindicou? E sonhei ou havia mais um morto do nosso cemitério na assistência? A dançar ao pé do Ministro das Finanças?

Sexo, Mentiras e Cornos

Na esquina do Palazzo Braschi existe uma desfigurada estátua de Menelau (do Século III AC) que o povo de Roma, por alguma razão ainda hoje desconhecida, decidiu baptizar com o nome de Pasquino. Desde o século XVI, ao que parece por primeva inspiração do Cardeal Olivero Carafa, que serve de repositório a criticas verrinosas, insultos gratuitos ou sugestões maldosas, em verso ou prosa, que ali vão encontrar guarida a coberto da noite. O termo “pasquim”, a que só por profissional decoro não recorro mais vezes para descrever algumas publicações da nossa praça, tem origem, precisamente, nesse torso descarnado do pobre “cornuti” da Lacedemónia. Não lhe bastava ter ficado sem mulher (bem jeitosa, segundo se diz), o pobre passou ainda à história como símbolo maior da infâmia.

Jour de Fête

Alguma coisa me diz que a festa, aqui no cemitério, está para durar.

Parabéns Signor Grillo


Il Grillo Parlante por Mazzantini