
Até ao Diogo ter mergulhado, com a generosidade que lhe é costumeira, na inclemência verde que engoliu a Roça Dona Augusta, tudo o que sabia dela, sabia-o nesta fotografia. Sabia a varanda, sabia a escadaria, sabia os quadros em desalinho que a brandura das noites tropicais embalavam sem razoável critério. Sabia a minha bisavó, hirta de branco, senhora do seu nariz e do resto dos narizes da família. Sabia-lhe o filho que era meu herói, era meu avô e lhe seguia, respeitosamente, os passos decididos da ternura que nunca lhe deu. E se não sabia o cavalheiro, gordo e de linho, charuto a imaginar-se na boca papuda, sabia-o ao menos ali. Congelado para todo o tempo, no calor sufocante de uma caixa de papel pardo, cheia de fotografias de mortos que alguém chorara antes de mim.
Minto. Sabia-a muito mais. Sabia-a de muitas outras fotografias onde, nunca se mostrando, aparecia, pressuposta, no rosto feliz do meu avô-herói. Sabia-a, vaidosa, quando, de fato de banho imenso, ele me acenava na praia, muitos anos antes de eu poder ser acenado. Sabia-a, no riacho estridente de fresco que ele atravessava, a cavalo, sorridente de estribos de caixa, com o garbo vaidoso dos seus anos de bonito rapaz. Sabia-a ainda daquelas outras em que ele, único amor incondicional da minha meninice, se sentava nos joelhos austeros do outro avô que era o seu e lhe confiara a Roça. E sabia-a sobretudo das suas histórias, cansadas de tão repetidas, mentirosas de tão divertidas. Povoadas de bichos estranhos, de terrores nocturnos, de ruídos espessos, de cacau em desatino, de gente que provavelmente nunca existiu e de aventuras delirantes de uma valentia que só nós dois sabíamos ser sua.
Tudo o que sei sobre a Roça Dona Augusta, sei-o nesta fotografia. E não há selva, negra de jibóias, não há calor insalubre, não há miséria, não há culpado abandono, que engulam todas as saudades que sendo só dele, se fizeram muito minhas.