Uma casa em Tortilla Flat

Tenho uma casa em Tortilla Flat. Recomendou-ma um bom amigo. É uma casa feita de vinho bom, do barato e roubado. É uma casa feita para incondicionais amizades. É uma casa feita para arder que é o destino natural de todas as casas que se querem duradouras.

Vão visitá-la. Leiam-na, releiam-na. De um fôlego. Num dia cinzento. Perguntem por Jesus, pelo Pirata e se alguém lá no bairro quiser saber ao que vão, digam que vos falou dela o meu amigo. Verão que não há tristeza que lhe resista e que Steinbeck nunca mais escreveu nada tão divertido.



A Pescada

Georg Flegel, Natureza Morta com Peixe


1 – Não será particularmente recomendável mas é verdade. Eu, que sem mais provas do que os demais portugueses, estou até convencido que José Sócrates conhecia bem o negócio PT/TVI, sou obrigado a fazer minhas as palavras de Rui Pedro Soares. «O relatório apresentado é como a pescada: antes de ser já o era». Mas para que não se diga que faço do jovem prodígio a fonte de toda a minha inspiração, relembro (num breve assomo narcísico) o que escrevi, nas páginas da Visão, no passado mês de Março: «a comissão parlamentar de inquérito ao caso do negócio da PT / TVI dificilmente vai ser muito mais esclarecedora do que têm sido as mediáticas sessões da comissão de ética (…). No fim do dia, todos vão concluir aquilo que já tinham concluído antes de sequer se ter iniciado qualquer um destes processos. O PS ficará (continuará) convencido que José Sócrates nunca mentiu. A oposição não terá (já não tem) qualquer dúvida de que ele não fez outra coisa. E o problema começa aqui. É que as conclusões da comissão parlamentar terão pouco a ver com uma «verdade inequívoca» que um qualquer tribunal tentaria apurar. As conclusões da comissão vão ser, muito mais prosaicamente, apenas e só, as conclusões da oposição maioritária (9 deputados na comissão contra os 8 do PS). «José Sócrates mentiu». Na melhor das hipóteses, «o senhor primeiro-ministro faltou à verdade ao Parlamento (…)». Independentemente do que verdadeiramente se tenha passado, é inevitavelmente o que concluirão. É o que já concluíram». Como não sou bruxo nem me tenho na conta de um analista divinamente iluminado, é preciso procurar as razões para esta astrológica profecia noutro lado: a independência está para as Comissões Parlamentares de Inquérito como o multipartidarismo está para a Coreia do Norte. Digam-me quem vota, dir-vos-ei como vota.

2 – Dito isto, é da mais elementar justiça lembrar que não acertei em toda a linha. Ingénuo, acreditei que entrávamos numa via sem retorno. Que se arriscava a conduzir o país a uma crise política se as oposições fossem minimamente coerentes com as conclusões que já então se adivinhavam. Mas parece que, de então para cá, «o Mundo mudou». E que ninguém está verdadeiramente interessado em ocupar, antes de meados de 2011, a cadeira escaldante de José Sócrates. Não fosse esse “pequeno” contratempo e será que estaríamos agora entretidos a discutir as bizantinas diferenças entre «mentir» e «faltar à verdade»? Eis o que é verdadeiramente impossível de provar.

3 – Como nem tudo é mau, é justa uma palavra de louvor para alguns deputados. Não é por falta de parlamentares inteligentes e bem preparados (João Semedo, Cecília Meireles, João Oliveira, Pedro Duarte) que a Assembleia da República se desacredita ou que as Comissões Parlamentares de Inquérito parecem óperas bufas. Mais uma vez, é preciso procurar mais longe. Pelo meu lado, arrisco-me a dizer que, no sistema político português, as máquinas partidárias e a disciplina que impõem ganharam um peso de tal maneira atrofiante que conseguem o milagre de transformar deputados capazes em simples máquinas de votar.


Publicado na Visão em 17.6.2010


Erro de Paralaxe

Não foi por falta de aviso, mas o Eduardo é, já vão percebê-lo, um fotógrafo absurdamente teimoso. Pedi-lhe que não brincasse com a luz. Pedi-lhe que não brincasse contra a luz. Que deixasse o interruptor sossegado. Não queria amores com «sfumatos» nem revelações de noites americanas. Teimoso, o Eduardo. Fez da manhã fim do dia e pintou sombras chinesas nas paredes. Espalhou uma dor imensa de «grandes lâmpadas eléctricas» onde dantes só existia um obstinado silêncio. E pintou, com um insuportável filtro verde, as memórias ocres do meu escritório. Teimoso, o Eduardo.

Pedi-lhe que não subisse ao escadote para pintar. As meias! Daí não se vêem as meias! Amarelas, com listas pretas. Venenosas, pegajosas, a subir, serpentiformes, pelas escamas da barriga da perna. A bem dizer, daí de onde espreitas, não se vê sequer a minúscula antecâmara do gabinete. Será raquitismo do escadote. Mas não se vê o Sr. S., inanimado, com o pescoço ainda marcado pela violência azul do perfume. Não se vê tão pouco a menina R., deitada de bruços, a arfar, engasgada na sua angústia hemofílica, incapaz de se despedir da vida com uma réstia de musical dignidade.

Pedi-lhe que pintasse com uma grande angular. Assim, como está, não se adivinham os intestinos do prédio todo. Teimoso, o Eduardo. Não se vê o apartamento dos T., com a sua sala pequena de amarela e amarela de tão triste. Não se vêem os jornais espalhados, os cinzeiros sumidos, as garrafas afogadas nem a girafa oxidada que lhes serve de candeeiro. Não se vê o quarto dos gémeos, tão mortos, tão mortos, que quase se diriam nascidos para parecer iguais. Não se vê, sequer, a barbearia que lhe desenha, ao prédio, a capilar esquina.

Assim como está, assim como estás, não passas de um erro de paralaxe. E eu não gosto de gastar os meus pensamentos lúbricos com paralaxes delirantes. Mesmo quando se despem de vestido azul.

Teimoso, este Eduardo.

Em Dia Não

Hoje não devia ter saído da cama.

 

Como é que alguém que assinou, nos últimos dez anos, alguns dos melhores filmes do cinema americano deste século (e do outro) deixa que o pé lhe fuja para a chinela num exercício tão estridentemente fracassado como é Invictus?  Como é que alguém que falou do ressentimento com a violência mais ternurenta que já me foi dada a ver (Gran Torino), que filmou a ambiguidade e a dúvida com uma surpreendente força dramática (Mystic River), que deu um corpo tão real à angustia que é sempre o estertor de qualquer sistema de valores (Letters From Iwo Jima), se perde pelos caminhos ululantes do óbvio num filme sem qualquer sofisticação narrativa e que tem como único ponto “alto” as interpretações chatas, muito chatas, de tão certinhas de Morgan Freeman e Matt Damon?

Suponho que toda a gente tenha direito a ter o seu dia não.



Pazes, caro Francisco?

Ouso, para fazer uma desagradável precisão, intrometer aqui um post que, em bom rigor, devia ter a forma de comentário: Francisco da Cunha Leal, bisavô que o Francisco tão generosamente aqui homenageia, não apenas se “desentendeu” com Norton de Matos, meu tio-bisavô. Os homens, senhores dos seus respectivos narizes, camaradas de armas, políticos, ministros, amantes de Angola, odiavam-se, e estou a ser brando, com todas as forças do Mundo!


Calígula em Angola, por Francisco da Cunha leal



Mas descansem que não quero aqui reeditar, com cem anos de atraso, uma contenda que inflamou o país político e de que as nossas famílias terão guardado, imagino, recordações opostas. Muito pelo contrário. Sublinho a espantosa coincidência para propor ao Francisco tréguas imediatas, incondicionais e sobretudo retroactivas. Que se danem as razões de Francisco e de José! Pazes? Cem anos não são já anos de sobra para uma zaragata?

Art Institute of Chicago 4


Alvarez-Bravo. Ventana de Radiografias. Art Institute of Chicago



A. de Adivinha


Mar de Outubro, 2007

“Sabes: só me apaixonei uma vez. Passou-se quando julguei as sereias apetitosas e querentes de vislumbres humanos — mas faltavam-me orifícios apropriados numa medida confortável de introspecção. Tal foi essa intensidade que me ajoelhei a pedir desculpa — no entanto possibilidades de entusiasmo quebravam-se no auscultar das marés redimindo-se para posses das minhas cápsulas de espuma. Às vezes, sentado na areia, evitava cromossomas aflitivos no revelar de perdigotos para apalpar linguados ao natural. — Alguns ciclóstomos punham-se em ventosas de ciúmes e riam-se quando lhes transmitia festas de cauda. Não acreditavam ser possível a construção de lampreias de ovos pelas pastelarias da baixa.”

Adivinha: quem é o mais injustiçado dos escritores portugueses?

Art Institute of Chicago 3

Henri de Toulouse-Lautrec, Au Moulin Rouge. Art Institute of Chicago

Nunca fui ao Moulin Rouge. Mas fui, pela mão do meu avô, ao Folies Bergères. Os dois. Em Paris. Porque eu estava “a fazer-me um homenzinho” e todas as desculpas eram, realizo, boas desculpas para uma “pândega” entre rapazes da mesma idade. Mais não digo. A não ser que nunca gostei tanto de ser uma boa desculpa.

Sangue Suor e Lágrimas

A 13 de Maio de 1940, há precisamente 70 anos portanto, Winston Churchill fazia a sua primeira aparição na Câmara dos Comuns na qualidade de Primeiro-Ministro. A Segunda Guerra Mundial tinha começado e o avanço da Alemanha Nazi parecia imparável. O discurso que então proferiu passou à história: «I say to the House as I said to ministers who have joined this government, I have nothing to offer but blood, toil, tears, and sweat. We have before us an ordeal of the most grievous kind. We have before us many, many months of struggle and suffering.»

O tempo recomendaria que o Primeiro-Ministro português fosse capaz de traduzir hoje estas palavras. Mas de José Sócrates ninguém espera grandes dotes de tradução. Nem capacidade para recriar um discurso desta elevação e coragem. Porque nunca fez o seu género, porque está enredado numa delirante teia de ficção económica de que não consegue libertar-se, mas sobretudo porque passou o seu tempo.

O mesmo não se pode dizer – ainda — do líder da oposição. Pedro Passos Coelho não acertou em definitivo o estilo com que quer apresentar-se ao eleitorado. No meio da crise em que o país mergulhou, mostrou sentido de responsabilidade e ensaiou – com o inegável sucesso que as sondagens vêm provando – uma pose de Estado. Mas ficou desde logo no ar a ideia de que o PSD podia ter exigido mais ao governo no que toca ao esforço de redução da despesa. Porventura mais preocupante, desde então para cá, já veio garantir que, com ele, os sacrifícios não são para durar para além de 2011.

Dir-se-á que o PSD está escaldado com o discurso da verdade ensaiado com estrepitoso fracasso por Manuela Ferreira Leite. E, eu próprio, devo lembrá-lo, já aqui escrevi sobre as limitações da verdade em Democracia. Ainda assim, parece-me possível sustentar a tese de que Passos Coelho comete um erro ao tergiversar nesta matéria. Por três razões simples. Desde logo, porque, se não é verdade que o «Mundo mudou» nas últimas semanas, é bem verdade que nas últimas semanas muitos mais perceberam que ele, de facto, mudou muito. Depois porque acredito que o fracasso de Manuela Ferreira Leite está associado, não apenas ao «falar verdade» de per si, mas sobretudo à sua incapacidade de conciliar um discurso de verdade com um discurso de esperança. Finalmente porque acredito que, se e quando chegar a Primeiro-Ministro, todo o capital de credibilidade e confiança vai ser pouco para que Pedro Passos Coelho possa dar uma resposta consequente aos problemas que o país atravessa.

É em momentos excepcionais que se revelam os líderes excepcionais. Pedro Passos Coelho pode ainda ambicionar não passar à história como mais um personagem do comboio fantasma de governantes medíocres que nos têm conduzido ao abismo. Mas para isso vai ter de apostar forte e de trocar rapidamente os «amanhãs que cantam» de José Sócrates pelo «sangue, suor e lágrimas» de Churchill. Em breve perceberemos se tem ambição e sobretudo se tem estofo para tanto. Oxalá assim seja. E oxalá saibamos ouvir quem quer que seja que ouse falar assim.


Publicado na Visão em 2.6.2010

Art Institute of Chicago 2
Em Chicago, of all places, tocam os sinos da torre da igreja, há rosmaninho e alecrim pelo chão e vai passando a procissão.  Dever ser bem grave o pecado Bretão para merecer tão luminosa redenção.

Gaston La Touche, Pardon Breton. Art Institute of Chicago




Art Institute of Chicago

É uma mania minha, já aqui confessada, esta de visitar museus de mãos dadas. Ontem visitei o Art Institute of Chicago. E confirmei o já intuía: é possível dar as mãos, naquele sorriso táctil que é um segredo só meu, a duas décadas de distância. Porque foi assim, só aparentemente separados por vinte anos, que ontem passeámos, à chuva, pela Paris de Caillebotte. Porque foi assim que vimos o Verão partir, foi assim que vimos o Inverno chegar, em religioso silêncio, encostados ao feno impressionista e impressionante de Monet. Foi assim que percorremos o Domingo da Grande Jatte. Foi assim que voltámos a respirar Cassatt, Sargent e Whistler, velhos amigos de Boston. Foi assim que bebemos um copo, solitários, na noite americana de Hopper. Foi assim. De mãos dadas por memórias que eram já minhas muitos anos antes de ter chegado a Chicago.

Georges Seurat, Un dimanche après-midi à l’Ile de la Grande Jatte. Art Institute of Chicago

Edward Hopper, Nighthawks. Art Institute of Chicago

Gustave Caillebotte, Rue de Paris, temps de pluie. Art Institute of Chigago

Grant Wood, American Gothic. Art Institute of Chicago

Blog sem Saída

Beco sem Saída. Estocolmo, Junho de 2007


Acabou-se o regabofe. Deste Blog ninguém sai com vida.

Clássicos Contados ao Vasco e Lembrados ao Povo (*)
C. Hofer. Biblioteca Geral Universidade de Coimbra VI. 2006

Flaubert. Madame Bovary. 778 páginas. Uma dona de casa mete o chifre no marido e transa com o padeiro, o leiteiro, o carteiro, o homem do boteco, o dono da mercearia e um vizinho cheio da grana. Depois entra em depressão, envenena– se e morre. Fim.

Leon Tolstoi. Guerra e Paz. 1200 páginas. Um rapaz não quer ir à guerra por estar apaixonado e por isso Napoleão invade Moscou. A mocinha casa-se com outro. Fim.

Marcel Proust. À La recherche du temps perdu. 1600 páginas. Um rapaz asmático sofre de insônia porque a mãe não lhe dá um beijinho de boa– noite. No dia seguinte (pág. 486 vol. I), come um bolo e escreve um livro. Nessa noite (pág.1344, vol.VI) tem um ataque de asma porque a namorada (ou namorado?) se recusa a dar-lhe uns beijinhos. Tudo termina num baile (vol. VII) onde estão todos muito velhinhos — e pronto. Fim.

Luís de Camões. Os Lusíadas. Um poeta com insônia decide encher o saco do rei e contar-lhe uma história de marinheiros que, depois de alguns problemas (logo resolvidos por uma deusa super gente fina), ganham a maior boa vida numa ilha cheia de mulheres gostosas. Fim.

William Shakespeare. Romeo and Juliet. Dois adolescentes doidinhos se apaixonam, mas as famílias proíbem o namoro, as duas turmas saem na porrada, uma briga danada, muita gente se machuca. Então, um padre tem uma idéia idiota e os dois morrem depois de beber veneno, pensando que era sonífero. Fim.

William Shakespeare. Hamlet. Um príncipe com insônia passeia pelas muralhas do castelo, quando o fantasma do pai lhe diz que foi morto pelo tio que dorme com a mãe, cujo homem de confiança é o pai da namorada, que, entretanto, se suicida ao saber que o príncipe matou o seu pai para se vingar do tio que tinha matado o pai do seu namorado e dormia com a mãe. O príncipe mata o tio que dorme com a mãe, depois de falar com uma caveira e morre assassinado pelo irmão da namorada, a mesma que era doida e que tinha se suicidado. Fim.

Sófocles. Édipo-Rei. Maluco tira uma onda, não ouve o que um ceguinho lhe diz e acaba matando o pai, comendo a mãe e furando os olhos. Por conta disso, séculos depois, surge a psicanálise que, enquanto mostra que você vai pelo mesmo caminho, lhe arranca os olhos da cara em cada consulta. Fim.

William Shakespeare. Othelo. Um rei otário, tremendo zé-goela, tem um amigo muito fdp que só pensa em fazê-lo de bobo. O tal “amigo“ não ganha um cargo no governo e resolve se vingar do rei, convencendo– o de que a rainha está dando pra outro. O zé-mané acredita e mata a rainha. Depois descobre que não era corno, mas apenas muito burro por ter acreditado no traíra. Prende o cara e fica chorando sozinho. Fim

(*) resumos surripiados daqui.

Sympathy for Lady Vengeance

Cheguei a Park Chan-wook através do fabuloso Old Boy (o tal, o do polvo de que falei aqui) que me foi recomendado pelo insuspeito Diogo. Meu Old Chap.Prossegui a incursão com Thirst, uma recomendação subtil do meu líder espiritual nestas andanças. Pedro Marta Santos, lui-même. Ontem fechei a trilogia da Vingança (que, em bom rigor, ainda não abri) com o não menos fabuloso Sympathy for Lady Vengeance.

Sabem que mais? É espantoso mas é a mais cruel das verdades. É possível filmar a violência com extraordinária sensibilidade. É possível fazer da mutilação e da morte um espectáculo de puro deleite estético. É possível fazer humor com o mais abjecto de todos os sofrimentos. É possível fazer da vingança um pecado redentor de todos os pecados. Não pensem que enlouqueci. Rendi-me, isso sim, ao talento extraordinário de Mr. Park.

Hoje, depois de por as crianças na cama, talvez abra a trilogia.

Mr. Vengeance já chegou. Pelo correio. No pacote de papel pardo em que se embrulham todos os meus pecados.



Arrumar as Botas

Ilha das Flores, Agosto de 2006

Como o tempo é de crise cedo graciosamente esta foto. Dediquem-na a alguém da vossa particular afeição.

Leituras para não ter de ir à Praia (1)

Em casa dos meus avós, em Ponte de Lima, existia um livrinho pequenino chamado «Código do Bom Tom». Nunca cheguei a lê-lo (eu sei que isso explica muita coisa).  Foi gesto de pueril revolta. Achava que, anos mais tarde, haveria de escrever um tratado chamado «Da importância do implícito. Uma interpretação marxista das regras de boa educação». É claro que nunca cheguei a escrever o livro mas também nunca mais esqueci o Código (o do Bom Tom, não o de Vinci). Mas divago.

Tudo isto são desculpas para vos confessar que acabei de ler «A História da Arte» de Ernst Gombrich. É uma espécie de «Código de Bom Tom» para petulantes como eu que acham que fazer boa figura é discorrer sobre Brunelleschi, entre duas cervejas, numa festa de Verão. Ou que anseiam encontrar a oportunidade certa para poder dizer «que manhã tão extraordinariamente pontilhista, não lhe parece?». Divago, mais uma vez. A História é um clássico, no sentido em que o Calvino do Manuel os definiu. De uma erudição feita luminosa simplicidade. E eu, que destas coisas sei muito menos do que gostaria, tenho-me fartado de aprender. Pesa alguns 3 kgs e é a minha primeira recomendação de Leituras para a Praia que não são mais do que  boas razões para não ter de lá pôr os pés. Convirão, em qualquer caso, que em mais nenhum livro do Mundo se podem aprender coisas tão estivalmente úteis:

Retrato de Hesire, ca 2778 — 2723 a. C.

«Tudo tinha de ser representado a partir do seu ângulo mais característico. (…) A cabeça era mais facilmente vista de perfil, de modo que eles [os egípcios, who else?] a desenhavam lateralmente. Mas se pensarmos no olho humano, é como se fosse visto de frente que habitualmente o consideramos. Portanto um olho de frente era implantado na visão lateral da face. A metade superior do corpo, os ombros e o tronco são melhores vistos de frente, pois assim observamos como os braços se ligam ao corpo. Braços e pernas, porém, vêem-se com muito mais clareza de lado. Essa é a razão pela qual os egípcios nessas imagens, nos parecem tão planos e contorcidos. Além disso os artistas egípcios tinham dificuldade em visualizar um pé ou outro a partir do exterior. Preferiam o contorno definido a partir do dedo grande. Portanto, ambos os pés são vistos do lado de dentro, e o homem representado no relevo parece ter dois pés esquerdos.»

Na primeira ocasião vou-me sair com esta: A menina não acha que, no fundo, no fundo, o cubismo de Picasso e Braque, já está todo no Antigo Egipto?


Anjo Negro



Exile On Main Street, talvez o meu álbum preferido de entre a extensa discografia dos Stones, acabou de ser reeditado este mês. Celebram-se 38 anos do seu lançamento. Que são, mais coisa, menos coisa, os aninhos que faz hoje o nosso Diogo. Tudo boas razões para que responda ao repto da Joana e lhe dedique uma das raras canções de intervenção política escritas pela dupla Jagger / Richards. É uma extraordinária defesa da activista comunista Angela  Davis  e, hão-de concordar, uma belíssima balada, escrita a tinta azul. Uma história de idealismo e generosidade que são também as maiores qualidades do Diogo. Falo, é claro, de Sweet Black Angel que reza assim:

Well de gal in danger, de gal in chains, but she keep on pushin’, would you do the same? She countin’ up de minutes, she countin’ up de days. She’s a sweet black angel, not a gun toting teacher, not a Red lovin’ school marm; ain’t someone gonna free her, free de sweet black slave, free de sweet black slave

 

Mapa Cor de Rosa

A história tem irritantes manias. Uma das principais é teimar em repetir-se. O Portugal de 1890, triste, pobre, inculto, endividado e politicamente degradado, alimentava sonhos demenciais de grandeza cor-de-rosa. Sem meios militares, sem meios financeiros, sem população que sequer lhe alimentasse a quimera, sonhou juntar Angola à Contra-costa e pintar dessa cor o mapa do seu fantasioso futuro. José Sócrates, intérprete aggiornato de uma espécie de segundo rotativismo português, também sonhou um país cor-de-rosa. Sem dinheiro a que pudesse chamar seu, sem um povo a que pudesse chamar educado, sem uma justiça que o não envergonhasse, sonhou amanhãs que cantam feitos de torres eólicas, de choques tecnológicos, de TGV’s e de milagrosos computadores azuis distribuídos a torto e a direito.

A deriva de 1890 acabou como se sabe. A velha Inglaterra, fidelíssima protectora do Reino, falou grosso e o Governo de José Luciano pôs o rabo, ou melhor o mapa, entre as pernas. Daí ao apodrecimento final do regime foi um tirinho. Infelizmente, foi-o, como se viu, no sentido literal do termo. A deriva cor-de-rosa de José Sócrates vai acabar mais ou menos da mesma maneira. A potência protectora é hoje outra mas voltou a falar grosso. A ordem, humilhante mas sensata, para que a piolheira se deixe governar é acatada com igual afinco. E daqui até à derrocada fatal pode ser que também não falte muito. Tanto mais que, no seu estertor final, o regime (de que o PSD sempre foi e continua a ser um importante pilar) persiste na sua suicidária caminhada. Tal como em 1890, metemos, uma vez mais, o rabo, neste caso o PEC, entre as pernas. Mas, e este é o verdadeiro drama, em 2010, fizemos questão de o fazer da pior maneira.

De facto, o ultimato do século XXI cumpre-se castigando os pacóvios do costume. Em vez de aproveitar o humilhante ensejo para, culpando a odiosa Europa, tirar da gaveta as já tão estafadas (de tão prometidas) reformas estruturais e tratar de controlar a despesa pública, optou-se, mais uma vez, por adiar o problema. É bem verdade que, a muito custo, lá se cuidou (provisoriamente) do que resta das nossas finanças. Mas não é menos verdade que, assobiando para o lado, regeneradores e progressistas, perdão, PS e PSD, lá enterraram, mais ainda, o que resta da nossa economia. Que os primeiros o façam, ainda vá que não vá. O ar de fim de festa é tal que, do seu ponto de vista há, de facto, pouco a perder. Que o PSD de Passos peça desculpas em vez de impor que se trate a doença sem acudir apenas aos sintomas, pode bem ser que o poupe a estragos eleitorais imediatos. Mas não é grande augúrio para a saúde do regime.

Era Eça de Queiroz quem dizia, em Agosto de 1891, «eu creio que Portugal acabou». Não tenho queda, e muito menos arte, para tão definitivas declarações. Mas que isto se arrisca a acabar também muito mal, lá isso arrisca. Resta-nos esperar que as coincidências se fiquem por aqui e que, pelo menos, nos poupem aos tiros.


Publicado na Visão a 20 de Maio de 2010 (amanhã, portanto)

Read My Lips


O Milagre



A mãe de S. nasceu nos primeiros anos da 2ª Grande Guerra. Mais coisa, menos coisa. Na Bélgica. Ruiva. Judia. Coisas de má sorte, naquela época. Judia porque sim, ruiva porque dava nas vistas. Coisas de má sorte, em 1940.


Ao avô de S. nunca lhe conheci o nome. Imagino que em Auschwitz ou em Buchenwald lhe tivessem emprestado um número e muitas vezes me perguntei se lhos davam de forma sequencial até chegar a um pavoroso seis-milhões-e-qualquer-coisa ou se os redistribuíam de cada vez que um algarismo perdia o corpo. Para o efeito tanto faz. O que para aqui verdadeiramente importa é que o avô de S. percebeu, com aqueles percebimentos muito angustiados que só percebem os que vão morrer, que a sua hora ia chegar. Intuiu tudo. O almoço interrompido por violentas pancadas na porta. O homem de farda e as botas altas. A sua própria morte estampada no rosto da mulher e depois o comboio, comprido de tão fatal, rumo a parte nenhuma. E as filhas. A mãe de S. e a irmã mais nova. Ruivas, vá-se lá saber porquê. Apartadas do número que viria a ser o seu pai e perdidas da doçura austera da avó de S. que tão bem conheci, noutras paragens e noutros retratos. Intuiu sobretudo as mãos de meninas. Últimos e derradeiros tesouros. Segredos do tamanho do Mundo que as ligariam entre si e através de si a tudo o que ali brutalmente se fechava, naquele almoço de família de 1941. Intuiu tudo e ordenou que as tatuassem. Uns símbolos pequeninos cravados nas coxas. Gémeos e muito, muito azuis. E depois foi o que se sabe. O comboio, o campo, a escuridão, e o número que o servira a ele e que, imagino, passou a servir outro e depois desse ainda outro.


No dia da fotografia iam de férias. A mãe de S. e a irmã mais nova. No Verão, o orfanato mudava-se para o campo. Era já 48, a vida fingia-se normal, e os vestidos, podem vê-los, esvoaçavam, ligeiros, como tinham esvoaçado todos os vestidos, de todas as meninas, todos os verões, antes da Guerra. E ele, o avô de S., que era já coisa nenhuma, talvez a tenha despertado do seu sono triste de mãe sem filhas. Talvez isso. Talvez outra coisa a que prefiram chamar sonho ou simples coincidência. O que é verdade, uma luminosa verdade, é que a avó de S. ouviu os gritinhos abafados das tatuagens azuis. Iguais, muito iguais, mesmo por baixo da borda dos vestidos.

E se me disserem que invento, juro-vos, como outros juraram antes de mim, que não. É o único milagre em que acredito. Contou-mo, muitos anos mais tarde, o meu amigo S.