A infância


Perdoem-me a presunção. Mas tive a mais feliz de todas as infâncias que se querem felizes.

O meu Mundo, babilónico, amazónico, labirintico de felicidade, era um Infinito bem no centro de Lisboa. De um lado ressonava esse universo tropical e sombrio, inexplorável de tão verde, que  era o Jardim Botânico da Escola Politécnica que veio a ser, por artes da República, Faculdade de Ciências. Araucárias, chorões, cedros, cicadácias, um observatório astronómico de onde podia imaginar-se o Tudo. Que de resto era também, mais coisa menos coisa, o tamanho da rua das palmeiras que pintou o jardineiro Daveau. Do outro lado da minha galáxia, mesmo em frente à casa assombrada e assombrosa que foi o útero abobadado onde cresci, espraiava-se, majestático, o Jardim do Princípe Real. O jardim e o famoso “cupressus Lusitanea Miller” que é cipreste e não cedro, e que é a sombra mais sombra de todas as sombras da Europa. Era esse, aliás, o mais Mundo dos meus Mundos. Explorei-o, de fio a pavio, do lago oitavado à casa do jardineiro que se fez casa de chá, do quiosque perdido à esquina aos bancos de sueca, dias sem fim, de uma alegria pegada e pegajosa, protegido no colo protector da minha mãe ou sob o olhar à prova de todos os monstros que era o olhar de menina doce dessa terrena Maria que também me foi Mãe. Mais à frente, logo ao virar da esquina, ficava o limite do mundo que cartografei. A seguir ao Miradouro de São Pedro de Alcântara era a Terra que mergulhava no Nada. Comprávamos um cartucho pardo de milho, a minha mão minúscula na mão sempre quente do meu pai, os pombos faziam as vezes de anjos e eu, que me tornava senhor deles, ficava simultaneamente no fim e no centro de um Mundo que, no tempo doce que era o tempo de então, girava serenamente à minha procura.

O Deus deste meu firmamento, o Júpiter deste meu Olimpo, falta dizê-lo, fazia as vezes de meu avô e já vos contei que não sei de ninguém que mentisse tão fabulosa e tão extravagantemente. Caçávamos todos os elefantes de África, todos os leões, rinocerontes e palancas negras gigantes que assombravam as Terras do Fim do Mundo. Atravessávamos todos os rios, nadámos todos os desertos, guiámos todos os vapores, enfrentámos todos os pavores. Ensinou-me os mistérios do chocolate suiço e os daquele armário envernizado, delirante de gavetas e fundos falsos. Sonhou-me com Paris, com a Roça D. Augusta, apresentou-me o Xá da Pérsia e fez-me, por correspondência, amigo do seu avô que também tinha sido o seu particularíssimo Deus. Mas o que é mais de tudo, amava-me tão completa e tão incondicionalmente que fazia da minha vida um lugar seguro. E do futuro um destino luminoso de tão risonho.

Tive, repito, a mais doce de todas infâncias. Só eu sei porque morreu. Mas um dia destes talvez vos confesse o dia, a hora e o número da frisa no cinema Tivoli onde a vi pela última vez.

Deixemo-nos de partes gagas!

 


Ansel Adams



Ansel Adams



1 – A moção pode ser contra a direita, a esquerda, o futebol do Sporting, a desflorestação da selva amazónica ou a invasão do país pelos marcianos. Podem existir derrapagem orçamental, medidas estruturais ou falta delas e o que mais se queira sugerir ou inventar. Pode vir o FMI ou o rancho folclórico da baixa Sildávia. A moção pode partir do Bloco, do PCP ou de um repente de um qualquer Paulinho das feiras. Mas será assim tão difícil perceber que é o sonho, perdão, as sondagens que comandam a vida politica? Será assim tão difícil perceber que só das sondagens pode depender o imprescindível apoio do PSD a uma qualquer moção de censura ao governo? Será que é difícil entender que é fundamental que surjam, primeiro, estudos de opinião consistentes sobre uma vitória clara da direita em cenário de antecipação de eleições? Até lá, como diria a minha avó, vamo-nos deixar de partes gagas, está bem?

2 – Alexandre Soares dos Santos chegou, e bem, n’ “o Sócrates”.  Sem paninhos quentes, acusou o Primeiro Ministro de ser especialista em “truques”.  E a coisa, como todas as coisas bizarras, fez-se notícia. Sem tirar qualquer mérito à frontalidade com que o patrão da Jerónimo Martins decidiu afrontar o governo, retiro do episódio uma pequena lição: o tento na língua dos empresários portugueses é inversamente proporcional à percentagem dos lucros gerados no território nacional. No país das maravilhas que é a nossa ensandecida pátria, o ensurdecedor silêncio de todos os demais, que é o que verdadeiramente faz do desabafo uma notícia, é uma demonstração eloquente do grau do seu aprisionamento ao estado.

3 – Perdoem-me se não resisto e se volto ao tema. Mais de 20% dos jovens até aos 24 anos estão desempregados. São quase um em cada quatro. Quase 100.000. Pode gostar-se ou não do fenómeno Deolinda e da geração que representa. Podemos chamar-lhes geração rasca ou, hipótese que me parece apesar de tudo mais justa, geração “à” rasca. Gostos não se discutem. Mas o que me deixa verdadeiramente pasmado é ver esta discussão feita ao contrario. Ver tanta gente inteligente, à esquerda e à direita, entrincheirada de forma maniqueísta em posições ideologicamente trocadas. Eu sei que o mundo está louco mas neste caso, quer parecer-me, o erro é de mero diagnóstico. E é por precipitação que o debate se faz de pés para o ar. Explico melhor: ao contrario do que muitos querem fazer crer, a causa dos jovens desempregados não é a causa dos que, imobilistas e garantistas, querem uma vida feita de facilidades e um emprego para a vida. É a causa de todos quantos querem (ou deviam querer) precisamente o contrario. Porque é obviamente dos nossos empregos para a vida, da insustentabilidade das garantias que fomos abocanhando, da ortodoxia dos nossos sindicatos (que, é bom recordá-lo, são sindicatos de empregados e não de desempregados) que nascem as vidas sem emprego de que muito justamente podem queixar-se os jovens excluídos do actual sistema. Não será inteligente ofender simultaneamente a esquerda e a direita mas parece-me cristalinamente óbvio que “Parva que sou” é um brilhante manifesto liberal.

Publicado na Visão em 24.2.2011

PS: O editorial — por definição inspiradíssimo — do nosso Manuel Hoxha Fonseca é muito claro: a política não mora neste cemitério. Se me atrevo a trazer até aqui este texto é porque recebi ordem — não menos categórica — da nossa Eugénia Luxemburg Vasconcelos. Como não sei por qual dos dois tenho mais respeitinho, optei por obedecer a quem me prometesse que nunca, mas mesmo nunca, nos ia trair com um semanário de referência. Ah pois é…


A fase da mão na mama

Receio bem que seja verdade o que a EV diz aqui. Por uma vez, sem exemplo, não é ela que mente. O Delito é meu. Mas digam lá se o boneco não justifica uma traiçãozinha:

Cupido com a mão na dita. Por Bronzino

Olho em frente e vejo o nada

 Olho em frente e vejo o nada. Um muro imenso feito de tempo. Tempo granítico, concreto, vulcânico. Tempo original, primordial, eterno. Tempo uterino, visceral, sanguíneo. É assim desde que o Mundo é Mundo. Vimos do nada, voltamos ao nada, e é no brevíssimo espaço entre o negro e coisa nenhuma que vivemos, intensamente, a ilusão do tempo. Somos, fomos, seremos? Pura ilusão. Não existe, não existiu nunca, ontem, hoje e amanhã. Não somos, nunca fomos, muito menos seremos. Imaginamos o tempo para fingir a vida. Sonhamos o tempo para dar guarida às memórias do que nunca verdadeiramente foi. Olho em frente e vejo o nada. O tempo é um muro inexpugnável no principio e no fim de tudo. Só a morte verdadeiramente é. A morte e o frio. Olho em frente e vejo o nada.

Bacalhau e Democracia *


Migrant Mother. Dorothea Lange



Ana Bacalhau provavelmente não sabe mas encaixa com toda a legitimidade na novel categoria de “politólogo” que tomou conta do espaço público nos últimos anos. Não tanto porque ganhe a vida a fazer cenários e a alimentar teorias da conspiração mas porque muito fez para recuperar um debate, perigosamente adormecido, que é essencial para pensar e sustentar a ideia democrática.

Bem sei que não colocou a questão exactamente nestes termos, mas é do problema da insuficiência de legitimidade intergeracional da Democracia que fala a sua “geração sem remuneração”. De facto, o nosso regime político assenta na ideia de que os governos podem ser afastados, periodicamente, de forma não violenta e por vontade da maioria dos eleitores. Mas subjacente a esta ideia fundacional está, obviamente, o pressuposto de que os eleitores estão em condições de avaliar todas as consequências da acção dos governantes.

Ora uma das (várias) limitações da ideia democrática é a de que não incorpora uma solução para a legitimação de decisões que produzam efeitos a muito longo prazo e cujas consequências só possam ser avaliadas por gerações distintas daquelas que sufragaram a acção de um determinado governo. E não é difícil perceber que não são poucos os casos em que determinadas decisões políticas geram benefícios imediatos e para uma determinada geração de eleitores sendo que, simultaneamente, acarretam consequências e custos que só serão suportados por uma geração diferente e que nunca será chamada a caucionar a decisão original.

Dir-se-á que esta limitação da arquitectura democrática não é nova e que o regime tem sobrevivido razoavelmente bem à deficiência. E é verdade. Mas também não é menos verdade que, nas últimas décadas, graças em parte a uma crescente sofisticação dos instrumentos financeiros, tem aumentado — e muito — o número e a escala das decisões políticas que acarretam um significativo desajustamento temporal entre os benefícios e os custos que lhes estão implícitos. Das malfadadas SCUT’s, às nebulosas parcerias público-privadas, passando pelos sofisticados esquemas de financiamento a longo prazo das grandes obras públicas o que vemos são o multiplicar de exemplos de antecipação de benefícios e direitos por contrapartida do adiamento — muitas vezes escamoteado — de custos e deveres.

A questão que agora se começa a colocar, à medida que chegam à idade eleitoral os milhares de jovens que são chamados a pagar a factura de uma prosperidade artificial de que os seus pais gozaram, é a de saber até que ponto são sustentáveis as tensões que este fenómeno coloca sobre o nosso sistema político e constitucional. Porque é normal, convenhamos, que esta geração se sinta pouco apegada a um regime que — sem sombra de legitimidade — os traiu e “tramou”. E bem tramados, de resto.

Já bastavam à Democracia todas as demais doenças da modernidade. Mas esta crise da legitimidade intergeracional pode bem ser o grande desafio que tem pela frente.


* Texto publicado na revista Visão a 10.02.2011

Shorts para um mês short

Peter Hujar, 1974


Uns palavrões em forma de assim


Domingo passado fui à Tate Modern e dei com uma exposição do artista mexicano Gabriel Orozco. Se neste blog pudessem escrever-se uns palavrões em forma de assim, contava-vos qual foi a veneranda entidade que apoiou o evento. Paciência. A curiosidade matou o gato.


A Presença dos Ausentes

Estou exausto. De aqui estar, para sempre fixado a óleo, para sempre suspenso, para sempre bom ladrão, para sempre ao teu lado. “Para dar presença aos ausentes”, dizias que dizia Alberti. Uma porra. A eternidade é tempo de mais e ninguém tem direito a condenar-nos à perpétua prisão de um simples instante.
Estou exausto. De fingir sem fim a presença quando é obviamente de ausência infinita que se faz o teu olhar vazio, o meu mundo latido. Ninguém tem direito a emparedar-nos assim. Transparentes de insignificantes, espessos de arcanos significados.
Estou exausto. De vazio. De não ser o pai sofrido que se adivinha tatuado no sudário translúcido que é o teu desconsolado espírito. De não ser o teu cristíco filho, afogado, horizontal e azul, em mares nunca antes prometidos. De não ser epifania nem aparição mas simples consolo de uma fé em trompe l’oeil que finges ser tua.
Estou exausto. De aqui estar mas sobretudo de lá ter sido. Foram, antes destes que são anos de eterna crucificação, anos longe demais.Como se ontem houvesse amanhã. Como se não fosses Pai e ele não fosse inteiro de ti. Como se eu não fosse absoluta e destemperadamente só. Estou exausto. Amar cansa. E a eterna impossibilidade de ser amado cansa mais ainda.
Não é preciso voltar a citar-te Alberti, pois não? O Pai sempre presente, o Filho eterno ausente, e o Cão sou logo eu.

Ernâni Rodrigues Lopes


Conheci-o na altura em que me conheci a mim mesmo. Mais coisa, menos coisa. Eu era dois palmos de gente, um bibe azul de gola branca e uma gravata muito fininha e pintada de encarnado. De elástico. Porque essas coisas dos nós, os das gravatas mas sobretudo os mais metafóricos, são marca e são privilégio da passagem à idade adulta. Ele, já se vê, era um gigante. Um gigante que só desajeitadamente escondia os afectos por trás daquele ar severo. Mas era, apesar de tudo, um gigante. Era o pai, imagine-se o respeitinho imenso, da minha amiga Sofia. E a minha amiga Sofia era o único amparo que eu tinha naquele recreio de tempo infinito, cheio de pigmeus selvagens a gritar a preto e branco e a chorar em francês. Ele era um dos raríssimos amigos do amigo misterioso que era o meu pai. E todos os Natais que foram verdadeiramente Natais, e que foram todos quantos vivi em casa do eterno herói da minha meninice, foram pontuados pela sua visita fugaz. Faltavam sempre poucos minutos para o jantar. O ritual, tal como o recordo, era solene, brevíssimo, tímido. E a troca de presentes fazia as vezes de embrulho de uma amizade que era de gerações.

Até que veio a revolução. Aquela coisa simultaneamente assustadora e esperançosa, aqueles amanhãs que cantam que eram sobretudo proletários pretextos para eu faltar à escola. E ele, a Sofia e o resto da família rumaram, sem aviso prévio, a um lugar estranho. Uma capital tão estranha de um país tão estranho que acabariam por deixar de sê-lo. E nós lá fomos. Ver o Reno, ver o Mundo que se tinha feito infinitamente mais pequeno, mas sobretudo vê-los a eles. Numa casa branca e enorme, num relvado sem fim e no primeiro de todos os sótãos onde dormi. Lá fora, no incompreensível inverno dos adultos, tudo mudava, tudo girava, tudo era angústia, tudo era futuro. Só no particularíssimo mundo que era o nosso, tudo continuava acolhedoramente na mesma. O gigante de voz pausada e de eterno cachimbo continuava de uma imponência suave. A Sofia continuava a ser a amiga de sempre. E foi de resto assim, que os reencontrei, enormes, amigos, e amigos enormes, anos volvidos, na capital mais cinzenta do país mais cinzento de uma Europa que, mais do que ninguém, ele quis fazer nossa.

Boa parte do resto desta história é verdadeiramente História e eu passei a vivê-la a uma respeitadora e cuidadosa distância. Que é a distância que deve guardar-se de um amigo do pai que se fez pessoa verdadeiramente importante. Não tanto porque ele se sentisse coisa diferente, mas porque os meus olhos espantados de adolescente teimavam em ver o Ministro onde ele sempre quis que estivesse apenas o Homem. A minha sageza era tão pouca, que ao Ministro deixei aliás que se seguisse, no lugar que era o meu espírito, o Professor. Distante, analítico, tremendista, austero. Tudo era gravidade, tudo era cinzento, o mundo parecia não ter solução e até o privilégio imenso das sessões individuais de tutoria eram rituais de uma frugalidade que então me parecia assustadoramente densa.

Quis o destino que lhe fizesse, já a faculdade e o mestrado tinham ficado para trás, aquele telefonema. Precisei de uma ajuda. A paixão era marítima e era comum e ele, generoso, estendeu-me a mão com a simplicidade que sempre foi sua. Dias depois, foi a sua vez de me fazer um pedido. Sabedor (desconfio) do meu militante ateísmo, “gostava que me viesses ouvir, logo à noite, na Igreja das Mercês”. Era Julho, a cidade adormecia sob um céu de chumbo. Mas a resposta só podia ser uma e eu lá rumei, desconfiado, a um lugar onde nunca tinha posto os pés. O tema era o “Futuro da Europa”, o lugar, convenhamos, era insólito e o tempo propício a mais tropicais devaneios. Mas tudo isso foi nada. Porque foi a assistência que verdadeiramente me deixou siderado. Professores? Académicos? Estudantes? Desenganem-se. Naquela noite improvável de Verão, a palestra, metodicamente preparada, laboriosamente estruturada, apaixonadamente esbracejada, longa de duas horas e meia, foi dirigida à mais humilde das plateias que possam imaginar. O Ministro era nenhum, o Professor parecia nunca tê-lo sido e ele era de novo o gigante simples dos afectos escondidos. Uma das mais sólidas referências éticas da minha vida.

Quis o destino que pudesse, para sempre, recordá-lo assim.





Morreste-me (*)


No principio, sabes bem, era o Nada. A minha alma era feliz de trevas, a minha memória era um céu invertido de histórias nenhumas. O amor, o desejo, o medo e a dor eram abismos sem ser nem lugar. E era apenas vento o que soprava dentro de mim. No princípio, sabes bem, era o Nada. Era o Nada, eu não rezava e e não queria deixar de ser Caos.

Quiseste fazer a luz, quiseste fazer as manhãs e quiseste sonhar comigo todas as tardes do Mundo. Quiseste afogar a minha alma de mar, quiseste fazer a terra inteira no meu coração. Quiseste nascer, quiseste crescer e fazer-te de mim. Quiseste fazer-me de ti. Foste êxodo, foste dilúvio e por breves instantes que me pareceram ser Sempre, quiseste dar luzeiros ao meu firmamento. Ocupaste cada pedaço de mim. Fizeste-me concreto e eu deixei-me ser criação.

Morreste-me. Nesse reflexo enganador que é ainda o teu e que o meu corpo teima em conservar de ti. Morreste-me. Mas eu já esqueci como era não ser.


(*) “Morreste-me” é um título delicadamente feliz que roubei ao José Luis Peixoto.

Desencantada esperança


Walker Evans, Truck and Sign. New York. 1930


1 — Pertenço a uma geração de portugueses que se privatizou. Não fomos chamados a “fazer” a revolução — o que em si mesmo é coisa boa porque um país não se constrói aos solavancos e a Inglaterra, por exemplo, nunca verdadeiramente precisou de fazer uma — nem nunca sentimos a urgência ou o verdadeiro imperativo de dar parte de nós à coisa pública (expressão, de resto, requintadamente hipócrita porque de hipocrisia se fez, obviamente, esta esfarrapada desculpa que sempre legitimou as mais interesseiras de todas as “generosidades”). Mais por comodismo e soberba do que por real impossibilidade, mais por confiar em nós do que por confiar em quem fazia oposta escolha, fomos acreditando que era possível deixar a César o que é de César. Não que não percebêssemos que os partidos já quase só se faziam de gente sem real alternativa ou pinga de cívico interesse. Não que não percebêssemos que se fechavam, cada vez mais, sobre si mesmos, desconfiados de si e do mundo, perdidos numa paranoia intestina já sem qualquer adesão ao real. Não que não adivinhássemos que a política se fazia, a cada ano que passava, mais irreformável de tão voraz, mais suicida de tão impune.

Acontece que, mesmo sem o saber, mesmo sem o verbalizar, ambicionámos fazer de nós um pouco de Itália. Imaginámos um país que podia dispensar a política, que podia desprezar a política, que podia fazer-se apesar da política. Está bem de ver, enganámo-nos. Redonda e estrepitosamente. Temos, nesta crise que é financeira e económica mas que é sobretudo crise de ética e de decência, tanta ou mais responsabilidade que todos os outros. O Portugal que deixarmos aos nossos filhos é também culpa nossa. Percebê-lo é uma questão de honestidade e de sanidade, mas é sobretudo pré-condição essencial para qualquer assomo de uma imprescindível mudança.

2 — A economia não é mais do que uma ciência de agregados. Uma soma impessoal de decisões, todas elas, cada uma à sua maneira, pessoalíssimas. É por sabê-lo que verdadeiramente me preocupo quando me apanho a desejar, para os meus próprios filhos, um futuro que se faça de emigração. Um futuro que não esteja condicionado, muito menos condenado à partida, por um país em que medra a mediocridade, por um país que faz das relações perversas entre interesses públicos e privados todo um paradigma de (sub)desenvolvimento, por um país sem justiça nem real igualdade de oportunidades, por um país, em suma, que lhes seja um peso absurdo. E é por saber esse desejo feito, apesar de tudo, mais de privilegiada desesperança do que de real desespero (que é, infelizmente, o que sentem cada vez mais portugueses), que mais verdadeiramente me preocupo. Por cada português que desiste de uma certa ideia de pátria, há mais um pouco do país que se deixa morrer. Portugal, mais não é do que a soma das nossas desesperanças e dos nossos desencantos. É isso que verdadeiramente preocupa. E é portanto isso que estamos eticamente obrigados a inverter. O tempo, paradoxalmente, reclama esperança. Nem que seja desencantada esperança.


Publicado na Visão em 28.10.2010

Postais de Viena (VI)

Já vos falei aqui do Kunsthistorisches Museum. Formado a partir das colecções imperiais da casa de Habsburgo, entrou directamente para o meu top ten dos melhores museus em todo o Mundo (vale o que vale, mas cá em casa vale alguma coisa). Dizem os entendidos que o conjunto é desigual porque desigual era o domínio austríaco sobre a Europa. Que está pouco representada a pintura italiana de Trecento e Quattrocento, a pintura francesa em geral, mas que em compensação, a pintura barroca de Bolonha, Florença, Nápoles e Veneza, assim como a pintura flamenga dos séculos XVI e XVII estão documentadas com excepcional riqueza. Enfim, esquisitices. Quem vir o que eu vi não consegue deixar de embasbacar-se como, saloio, me embasbaquei.

Particularmente bem representado está um dos grandes pintores da minha meninice, não porque eu seja assim tão velho, mas porque era de Bruegel que o meu pai mais gostava. Está lá o seu diagonal Casamento de camponeses que sempre me impressionou pela solidão verde e silenciosa da noiva que um costume flamengo da época condenava a que assistisse, ao seu próprio noivado, sem comer, sem falar, mas sobretudo sem a libidinosa companhia do seu recém adquirido esposo, companheiro ou assim.



Pieter Bruegel o Velho, Casamento de Camponeses. 1565

Estão lá, encomendados pelo banqueiro Niclaes Jongelinck para completar um conjunto de seis retratos (dedicados a cada uma das estações de que, à época, se fazia o ano), os glaciares Caçadores da Neve, regressados de uma magra jornada, cães mais que famélicos, velhos mais que enrugados, rapazes mais que deslizantes, todos verdes de cinzento. E estão lá todas as outras histórias dentro da história de que se fazia a arte miniaturista do velho Bruegel: a menina, em baixo à direita, que obriga a irmã mais nova a alombar com o trenó; os corvos que, aqui e ali, salpicam a neve de preto; o camponês de costas quebradas que arrasta um junta de bois. E todas as outras fantasias que queiram inventar, numa tarde de Inverno, confortavelmente sentados, alma a crepitar de lenha, o dia a fechar-se sobre a aldeia.


Pieter Bruegel o Velho, Caçadores na Neve. 1565

Está lá a impossível Torre de Babel. Imensa, delirante, já levemente inclinada como que a anunciar a bíblica desgraça. Está lá o rei Nimrod, a rebentar de zigurática vaidade, de servidores, de uma orgia de descobertas cabeças. E se o monarca apócrifo parece ainda reinar sobre a minúscula cidade, é já a Torre que o esmaga e que reina com ele. Em breve abater-se-á sobre o porto, sobre as frágeis caravelas de óleo, sobre a jangada inútil e sobre a cabeça das dezenas de homens formiga que enxameiam de obsessivo preciosismo o delírio de Bruegel.


Pieter Bruegel o Velho, A Torre de Babel. 1563

Pieter Bruegel o Velho, A Torre de Babel. 1563

Mas de todos os que lá estão, o que mais lá está e o que mais me refez menino do meu pai é o magnético Jogos Infantis. É uma das obras mais enciclopédicas de um dos mais enciclopédicos pintores do século XVI. Garante quem já os contou que são 230 as crianças e 83 os jogos diferentes a que se dedicam. Pim pam pum. Bolas, rodas, aros, tacos, varapaus, cavalos de fingir, saquinhos de areia, máscaras de aterrar e barretes de pasmar. Socos, abraços, cavalitas, gargalhadas, rapazes de cabeça para baixo e raparigas de cabeça tapada. E, cá em baixo, bem ao centro, nem sequer a falta a eterna menina a explorar, á distância periclitante de um galho frágil, os mistérios insondáveis de um cócó de vaca competentemente enrodilhado. Digo eu, porque também me juram que, onde eu vejo excrementos, o velho Bruegel quis pintar um pião. Que se lixe, respondo eu aos livros plenos de sapiência. O fascínio do pintor flamengo é precisamente este. Divirto-me a pintar 230 histórias dentro da história maior que é a parábola sobre a insensatez humana. Cada criança é um nome, uma biografia, uma tragédia, um mundo muito seu. E sou eu, sentado na tarde de Viena, armado dos meus fantasmas e das minhas memórias de gaiato feliz, que os pinto como bem entendo. Pode lá haver divertimento maior? 


Pieter Bruegel, o Velho, Jogos infantis. 1560


Cócó, digo eu.

Postais de Viena (V)

A pedido da Joana e da curiosidade dela que também é a minha, mergulho num passado, perdido de dourados, de esboços e fotografias de época. O que devia ainda ser, de facto, já não pode sê-lo. Só de esquissos pretéritos que se pode ir fazendo o presente.


Gustav Klimt, Jurisprudência.


Gustav Klimt, Filosofia. Esboço.



Gustav Klimt, Medicina.



 


Postais de Viena (IV)

O magnífico Farm Garden With Crucifix que incendiei aqui, não é a única obra perdida de Gustav Klimt. Nem é provavelmente a mais famosa. A grande controvérsia artística do fin de siècle vienense deu-se a propósito dos seus quadros Filosofia, Medicina e Jurisprudência. A obra tinha sido encomendada para a recém-inaugurada Universidade de Viena mas as curvas, sugestivas e generosas, da proposta de Klimt foram recebidas com lúbrico escândalo. “Pornografia”, “perversão”, “afronta artística” e, sabem como é, outros mimos do mesmo calibre. A polémica atingiu proporções tais (a magna questão foi debatida no Parlamento e o Ministério da Cultura austríaco chegou a impedir o envio dos quadros à Exposição Mundial de St. Louis em 1904) que foi ao nariz do próprio Gustav que subiu a mostarda. Mandou a Universidade à fava, recuperou as obras e comprometeu-se a restituir as 30.000 coroas entretanto recebidas a título de adiantamento. 30.000 coroas que, bem entendido, já não tinha. Mais uma vez, foram os Lederer que vieram em seu auxílio. E que receberam, na volta do correio, a Filosofia, toda a filosofia, elle même. A Medicina e a Jurisprudência, ciências reconhecidamente menores, acabaram, depois de mais umas aventuras, por ter o mesmo acarinhado destino. Antes de rumarem, tal como o Jardim do Crucifixo, ao Castelo de Immendorf e ao encontro das chamas.

Para a história desta história só ficaram alguns esboços das três telas. E uma preciosíssima ironia do destino: o Peixe Dourado, assim baptizado por insistência avisada dos amigos do pintor que teria preferido chamar-lhe, no auge da controvérsia da Faculdade… “Aos meus críticos”. Já tenho visto bofetadas menos elegantes.

Gustav Klimt, Peixe Dourado. 1901/02

 

Postais de Viena (III)

Em Viena, fugidas da distante Betúlia, vivem duas Judites. Duas bíblicas Judites de se perder a cabeça. Holofernes que o diga porque a perdeu, muito bem perdida. Para Cranach, em 1530 e para Klimt, corria já o ano de 1901. A primeira, de decote generoso e empunhando, ameaçadora, a arma ainda erecta, vive, toda vermelhos, no magnífico Kunsthistorisches Museum. A segunda, sensualíssima, que ninguém imagina a disferir “com toda a força, dois golpes no pescoço de Holofernes” (Jt 13,6), mora no decadente Belvedere. A primeira é ruiva e é filha de inspiração incógnita. A segunda, morena, tem a boca entreaberta de Adele Bloch-Bauer que Klimt viria a beijar, em tons de dourado êxtase, seis anos mais tarde. Entre as duas, mon coeur balance. Não sei se prefira a que os peitos sugere, se a que o peito revela.



Lucas Cranach, Judite com a cabeça de Holofernes. 1530





Gustav Klimt, Judite I. 1901.

Gustav Klimt, Judite I. 1901.





Gustav Klimt, Adele Bloch-Bauer I, 1907






Ai pede, pede. Tá mesmo a pedi-las.

Tenho um brinquedo novo. E foi a New Yorker que me ensinou a brincar.


Postais de Viena (II)

Serena Lederer, née Pulitzer (sim esse) foi outras das muitas mulheres na vida de Gustav Klimt. Não consta que fosse mãe de qualquer dos seus quatorze filhos, nem que tivesse alimentado os seus sonhos dourados de tão pecaminosos. Não consta sequer que chegasse a ser platónica a relação entre ambos. Como foi, já vos disse, o caso do caso que o pintor manteve com a sacrificial Emilie Floge. Mas Serena foi o ombro amigo (e a carteira recheada) com que Gustav sempre teve a fortuna de poder contar ao longo da vida. E foi porque assim foi que foi de Klimt e do que Klimt foi que se fez a magnífica colecção que os Lederer (Serena e o industrial August) foram juntando, apaixonada e devotamente, durante quarenta longos anos, de 1899 a 1939. Que foi ano de Anschluss e de uma infame “expropriação” que condenaria boa parte dos tesouros de Klimt a um exílio húmido, penoso e forçado, nas caves do Castelo de Immendorf. Exílio trágico, aliás. Que só acabou com o fogo da história que os alemães atearam, ante o avanço das forças soviéticas, nos últimos dias da guerra.

A demência humana não tem limites.E este belíssimo Farm Garden with Crucifix já não é.

Postais de Viena (I)

Amaram juntos uma vida inteira. Gastaram Verões sem fim a remar os sonhos de tamanho muito azul do lago Attersee. Ele desenhou-lhe 399 postais. Ilustrados de quotidiano. Os tudo e os nada de que se fazia a vida. Ela sabia-lhe os filhos, as amantes, as misérias. Sabia cada um dos detalhes de cada uma de todas as noites. Ofereceu-lhe a família que nunca chegaram a formar e fez-se musa silenciosa para que a liberdade se fizesse, também ela, plena de tão sua. E ele retribuiu em arte o que lhe terá recusado em beijos. Em cada um dos beijos que pintou, lubricamente dourados, em todas as outras bocas do Mundo.

Dela, ele terá sido o único. Mas dele, foi ela certamente a mais mulher de todas as mulheres que eram suas e que eram tantas. Porque só ela, renunciando a ser, se fez verdadeira e unicamente sua. E foi por sabê-la única, foi por saber o amor concreto de tanta renúncia, que quis fosse único o único retrato que dela pintou.

Gustav Klimt. Emilie Floge, 1902

Gustav Klimt. Emilie Floge, 1902

Um ano


Este blog faz hoje um ano. A minha avó, se fosse viva, dir-me-ia que tem sido “uma pândega”. Que era o que me dizia quando me queria aliciar a ir “lá para fora jogar o futebol”. E é bem verdade. Mas não é toda a verdade. Temo-nos divertido, ai se temos. Mas, aqui e ali, garantem-me, na solidão imensa que é um ecrã clandestinamente iluminado a altas horas da madrugada, tem havido uma ou outra lágrimazita marota. Pois é. Isto não é só galhofa. Também nos comovemos. Quando o MSF fala, com uma gentileza que é mesmo só sua, de um passado africano que se foi fazendo de nós todos. Com o “amor que luz” e com a escrita  enevoada de tão brilhante da EV. Com os desenhos luminosos da intermitente TC. Com o entusiasmo franco e transbordante com que a JV pinta o quotidiano. Com a erudição mais sisuda do GPM. Com a generosidade com que o DL  faz da partilha o seu modo de vida. Com o cosmopolitismo despretensioso do VG. Com a precocidade genial do FFD. Com a cinefilia esmagadora do PMS. Com o sarcasmo hilariante e os ares de falso durão do JNA. Com a poesia sempre inesperada — porque nunca anunciada — do RV. Com os surtos de uma civilizadíssima loucura do AEQ. Divertimo-nos, comovemo-nos, celebramos a morte porque gostamos de homenagear a vida.

Este blog faz hoje um ano. Obrigado a todos.

Chá à Portuguesa

O leitor dirá que o fenómeno “Tea Party” é mais uma bizarria americana que jamais encontrará eco na Europa civilizada. Muito menos no nosso idílico Portugal dos brandos costumes. E não me parece, de facto, que o país esteja particularmente empenhado em discutir o pecado da masturbação, magna questão que, como se sabe, parece obcecar Christine O’Donell, a grande vencedora das primárias republicanas do Delaware. Nem tão pouco me parece provável ver, a curto prazo, uma versão lusa da inenarrável Sarah Palin sentada num qualquer cadeirão em Belém ou em S. Bento. Tudo razões para que olhemos o fenómeno com o habitual desdém com que costumamos desprezar as excentricidades políticas da direita radical americana? Não tenho a certeza.

É bom perceber que o movimento “Tea Party” (em bom rigor não se pode falar de um partido organizado) é essencialmente um fruto da crise económica e financeira que se abateu sobre a América e o Mundo. O seu discurso populista, patriótico, fiscalmente ultraconservador, encontra um inegável apelo numa classe média que viu desabar o sonho de uma riqueza aparente, que vive o presente com ansiedade, que desconfia do futuro, que sonha com um passado de prosperidade fictícia e sobretudo que vai perdendo toda a esperança nas lideranças políticas tradicionais. É de resto este o caldo onde sempre medraram as propostas políticas anti-sistémicas e de base populista. Será exagerado olhar para o fenómeno com redobrada preocupação? Não tenho a certeza.

Aqui chegados, perguntará o leitor: e que raio tem isto a ver com a situação portuguesa? A resposta é, parece-me, relativamente óbvia. Em Portugal, o caldo social e político é, provavelmente, mais propício ainda a aventuras como as do “Tea Party”. A crise económica e a crise financeira são mais graves e mais profundas. As respostas que, mais tarde ou mais cedo, lhes serão dadas vão ser mais drásticas e mais dolorosas. As camadas mais desfavorecidas da população estão porventura ainda mais desprotegidas. Mas, e este é talvez o aspeto mais determinante, a irresponsabilidade das lideranças políticas ultrapassa os limites do bom senso e o seu crédito é, cada vez mais, nenhum. A anunciada crise política que o chumbo do orçamento de 2011 pode precipitar é apenas mais uma acha para uma fogueira que chamusca PS e PSD por igual. À arrogância autista do solitário José Sócrates junta-se a inabilidade política de um Pedro Passos Coelho visivelmente mal acompanhado. O país assiste, impávido, de braços caídos, a um triste espetáculo político que lhe hipoteca o futuro. Estará a coisa a ficar pronta para cair de madura? Está Portugal a salvo de se entregar nos braços de um líder populista redentor? Será, apesar de tudo, ofensivo estabelecer paralelos históricos com, por exemplo, a República de Weimar? Não tenho a certeza.

Eis aquilo de que tenho a certeza: não está escrito nas estrelas que a Democracia portuguesa vigorará para todo o sempre. E se eu tiver de apostar, direi que o perigo vem menos de uma intentona de militares cabeludos do que um demagogo capaz de transformar o descrédito e o desespero numa alternativa política que a desmantele.

Publicado na Visão a 30.9.2010, escrevi este artigo antes da comunicação ao país do PM. Sabendo o que agora sei, voltava a escrevê-lo.