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	<title>É tudo gente morta &#187; Pedro Norton</title>
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		<title>The End</title>
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		<pubDate>Mon, 04 Jul 2011 15:41:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Há pessoas que nascem para morrer novas. Há blogs que nascem para morrer garotos. E todos nós, ponho-me eu para aqui a achar, sempre soubemos que seria assim. Dois aninhos por fazer.  Bem vistas as coisas, não é uma tragédia. Morremos, é certo. Mas morremos de felicidade. Pura, juvenil, inesperada. Que é cor das amizades e o feitio das [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-30303" title="ckane-the-end-title" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/07/ckane-the-end-title.jpg" alt="" width="483" height="362" /></p>
<p>Há pessoas que nascem para morrer novas. Há blogs que nascem para morrer garotos. E todos nós, ponho-me eu para aqui a achar, sempre soubemos que seria assim. Dois aninhos por fazer.  Bem vistas as coisas, não é uma tragédia. Morremos, é certo. Mas morremos de felicidade. Pura, juvenil, inesperada. Que é cor das amizades e o feitio das cumplicidades que nesta campa, tal como no fado, nasceram a par. E a<em> lenda, simples, singela, </em>de nós todos - atrevemo-nos a esperar — talvez  também reze um dia:</p>
<p style="text-align: center;"><em> Quando os incautos passavam</em></p>
<p style="text-align: center;"><em> junto à linda sepultura, </em></p>
<p style="text-align: center;"><em>toda a gente afirma e jura</em></p>
<p style="text-align: center;"><em> que os textos coravam</em></p>
<p style="text-align: center;"><em> e o tempo parava para ninguém lhes tocar</em></p>
<p style="text-align: center;"><em> </em></p>
<p> Obrigado a todos, autores e leitores, pelos tempos felizes que se viveram aqui.</p>
<p> <span style="color: #ff0000;"><strong>É Tudo Gente Morta.</strong></span></p>
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		<title>O preço da discórdia</title>
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		<pubDate>Thu, 30 Jun 2011 16:30:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Li, há uns anos valentes, um livro que mudou radicalmente a forma como via mas sobretudo como “sentia” a segunda grande guerra. É bem verdade que não foi o primeiro nem o último. O tema sempre me suscitou curiosidade e os livros, históricos, biográficos, romanceados, há muito que se acotovelam na desordem aparente que é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-30159" title="jewish_children" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/jewish_children.jpg" alt="" width="460" height="327" /></p>
<p>Li, há uns anos valentes, um livro que mudou radicalmente a forma como via mas sobretudo como “sentia” a segunda grande guerra. É bem verdade que não foi o primeiro nem o último. O tema sempre me suscitou curiosidade e os livros, históricos, biográficos, romanceados, há muito que se acotovelam na desordem aparente que é a minha biblioteca. Também é verdade que nunca é inteiramente possível “experimentar” a segunda guerra mundial como objecto de simples reflexāo intelectual. Ainda hoje guardo na memória o olhar angustiado de um rapazinho que um dia teve a minha idade e que sobreviveu no genérico, cem vezes repetido, do fabuloso documentário com que a BBC assombrava as minhas tardes de meninice ao Domingo. Mas foi com “<em>Se isto é um homem</em>” de Primo Levi que o conflito de 39 — 45 tomou para mim uma dimensão verdadeiramente humana. A escala não é a das grandes batalhas, a tragédia não é a das grandes opções políticas e geo-estratégicas. Os personagens não são os heróis míticos nem os génios amorais que escreveram as linhas maiores da História. A miséria, muito pelo contrário, tem tamanho de homem, a angústia cabe no peito de um rapazinho, a batalha mais impressiva é a que opõe um pai e um filho e o seu objectivo é a conquista de um simples pedaço de pão. Algures, num comboio sobrelotado a caminho de um campo de extermínio.</p>
<p>Tudo isto, embora nada pareça, vem a propósito da crise grega. Que, é bom não esquecê-lo, não é essencialmente grega e muito menos é sobre dívida soberana, agências de notação financeira, ou mais uma dúzia de conceitos relativamente abstractos. A crise dita grega é a crise de um dos projectos de paz mais fabulosos da história da humanidade. Filho dos horrores dilacerantes e muito concretos da segunda grande guerra e de um par de estadistas que os vivenciaram.</p>
<p>E assim regressamos a Primo Levi. Tenho para mim, é uma tese que vale o que vale, que a crise da Europa é a crise do desaparecimento dos últimos líderes que viveram, experimentaram, sofreram, directamente, o horror da segunda grande guerra. É a crise do desaparecimento de uma geração de líderes, mas também de cidadãos em geral, que conheceu o terrível preço de uma alternativa ao projecto de unificação europeia. Para quem os custos que agora paralisam e parecem condenar a Europa mais não seriam do que risíveis minudências quando comparados com a tragédia da simples ameaça, por mais ténue que possa julgar-se, de um conflito continental. A crise da Europa, que só metaforicamente é grega, é pois uma crise de memória. Memória viva, memória vivida, que não tem a Sra. Merkel, o Sr. Sarkozy, o Sr. Barroso, mas que também não têm os milhares de gregos, espanhóis e portugueses que protestam na ruas, como não a têm os milhões de eleitores e contribuintes alemães ou finlandeses.</p>
<p>Tenho uma certa tendência para o pessimismo. Dêem-me pois o devido desconto. Mas, feito o aviso, estou absolutamente convencido de que o que andamos a discutir na Europa é a viabilidade de legar aos nossos filhos os anos de paz que herdámos dos nossos pais. Postas as coisas assim, concordarão que o preço a pagar — apareça ele sob a forma de sacrifícios financeiros ou de cedências de soberania — será sempre pequeno demais.</p>
<p><em>Publicado na Visão em 30.06.2011</em></p>
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		<title>Uma coisa assim mais eyebrow</title>
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		<pubDate>Sun, 26 Jun 2011 18:39:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[        Deixe-me ser franca Sr. Norton: Não estou nada convencida que valha a pena entrevistá-lo. São cunhas do Sr. Fonseca. Ainda assim faz questão de dizer alguma coisa? - Gostava imenso. E acha que pode pôr uma fotografia minha? Despeje, vá. Não tenho o dia todo. - Olhe viajei na selva. Na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> </p>
<div id="attachment_30055" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-30055" title="Passeio_Auto" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/Passeio_Auto-500x497.jpg" alt="" width="500" height="497" /><p class="wp-caption-text">Não é o Fiat do meu pai mas vai ali a minha avó.</p></div>
<p> </p>
<p> </p>
<p> </p>
<p><em>Deixe-me ser franca Sr. Norton: Não estou nada convencida que valha a pena entrevistá-lo. São cunhas do Sr. Fonseca. Ainda assim faz questão de dizer alguma coisa?</em></p>
<p>- Gostava imenso. E acha que pode pôr uma fotografia minha?</p>
<p><em>Despeje, vá. Não tenho o dia todo.</em></p>
<p>- Olhe viajei na selva. Na selva virgem.</p>
<p><em>Na selva?</em></p>
<p>É verdade. Fica ali ao fim da Rua da Escola Politécnica, antes do Mundo começar a caminhar para o Fim do Mundo. Eu devia ter três, talvez quatro anos. Tudo aquilo era imenso, tropicalíssimo, sufocante de verde. Tinham-me jurado que existia um lago no centro da selva. Uma coisa oitavada com uma gruta por baixo. De uma frescura intensa. E eu fui. Já lhe disse que usava botas ortopédicas? Imagina a dificuldade de atravessar a selva de botas ortopédicas? Pois é. Montámos o primeiro acampamento ao pé da casa do jardineiro. Romântica. De madeira. À sombra infinita de uma árvore de borracha. Daquelas que nos sussurram lendas primordiais ao ouvido, nas noites de verão. A partir daí continuei sozinho. A Maria distraiu-se e eu achei melhor deixar mulheres e crianças para trás. A minha irmã também se ficou, o meu irmão ainda não era, e o valente lá de casa era só eu. Durante uns tempos ainda vi o cume abobadado do castelo do meu avô, depois, aos poucos, o verde fechou-se, apareceram patos e fracas do tamanho de ursos, formigas gigantes e um bichos de conta que não me cabiam nos punhos. Palavra de honra! Agora pare lá a merda do gravador. <em>Off the record</em> ou lá como se diz. Comecei a ficar à rasca. Sabe como é? Um homem não é de ferro e o terror começou a instalar-se na minha alma de menino armado aos cucos. Não consigo precisar-lhe quantos dias andei assim. Eu e os meus pés chatos. O tempo não se mede em meses, muito menos em dias no coração angustiado de quem nos perde. Para a Maria foram anos, confessou-me ela depois. E eu só cheguei ao lago muitos anos depois.</p>
<p><em>Muito bem. Apresente os meus cumprimentos ao Sr. Fonseca.</em></p>
<p>Espere lá, espere lá! Ligue lá essa coisa outra vez. Quero falar-lhe do meu pai. Pode fazer-me aquela perguntas sobre as pessoas a que associo as viagens?</p>
<p><em>Sr. Norton, associa sempre viagens a pessoas?</em></p>
<p>Ora ainda bem que me faz essa pergunta. Queria falar-lhe do meu pai. Tinha um Fiat 125 que comprou ao meu bisavô. Começou por ser <em>grenat</em>. Ou <em>grená</em> como agora se escreve. Estofos cor de caca, escaldavam que se fartava no Verão. Depois pintou-o de verde escuro e até parece que passou a andar mais depressa. Mas do que eu queria falar-lhe era das viagens para Ponte de Lima. Nós éramos 5, com a Lucília ficávamos seis e não havia ano em que não sobrasse lugar para mais um primo. Partíamos invariavelmente de manhãzinha, no início de Julho. Um calor dos diabos e os estofos, já se vê, a merda dos estofos a dar-lhe. A auto-estrada, a bem dizer, era só uma amostra para enganar incautos. Ainda não nos tínhamos feito à dita e ela acabava num perigosíssimo repente. Ali para Vila Franca. Naquela época a ponte ainda era Marechal Carmona e tinha umas portagens todas giras, de tijolo. Mas para o efeito tanto faz porque seguíamos em frente. Cruzávamo-nos com o Zé na Azambuja e depois, ala que se faz tarde, Venda das Raparigas. O almoço normalmente ficava para Coimbra, já a larica era muita. Não consigo dizer-lhe o que comíamos porque o que nos impressionava eram os <em>trolleys</em>. Sabe o que são <em>trolleys</em>? Assim como os eléctricos do Zé (eu era mais o 24) mas com uns senhores pneus. Antes do Porto era certinho que alguém já tinha vomitado mas o meu pai tinha um jeitão para travar a fundo e a minha mãe levava sempre uma muda. Depois era Braga, a noite caía, parávamos religiosamente para fazer xixi ao pé de uma carantonha de granito e voltávamos a sair do carro para tentar abraçar o maior eucalipto de Portugal. Corvos, Anais (são nomes de freguesias, não olhe para mim com essa cara) e finalmente Queijada. Só primos eram trinta, os avós e os tios também se perfilavam no topo da escadaria e começavam oficialmente, ano após anos, as melhores férias grandes do Mundo.</p>
<p><em>Olhe Sr. Norton, não vá levar a mal, mas responde outro dia às perguntas sobre os hotéis, está bem? A nossa revista é assim uma coisa mais eyebrow, sabe como é? Cumprimentos ao Sr. Fonseca.</em></p>
<p> </p>
<p> </p>
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		<title>Biblioteca Itinerante</title>
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		<pubDate>Sun, 22 May 2011 18:59:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[  A ideia nasceu numa conversa com a Marta e o Ruy, algures ali em baixo. Se é que isto da net tem cima e baixo, capa e contracapa, verso e reverso. Seja como for,  a ideia é construir a Biblioteca Itinerante do ETGM. Não se trata, em rigor, de compilar literatura de viagens. Trata-se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_28780" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-28780" title="johannes-vermeer-the-astronomer-detail" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/johannes-vermeer-the-astronomer-detail-500x669.jpg" alt="" width="500" height="669" /><p class="wp-caption-text">Detalhe de O Astrónomo, Vermeer</p></div>
<p> </p>
<p>A ideia nasceu numa conversa com a Marta e o Ruy, algures ali em baixo. Se é que isto da net tem cima e baixo, capa e contracapa, verso e reverso. Seja como for,  a ideia é construir a <strong>Biblioteca Itinerante do ETGM</strong>. Não se trata, em rigor, de compilar literatura <span style="color: #ff0000;"><strong>de</strong></span> viagens. Trata-se de edificar uma livraria <strong><span style="color: #ff0000;">para</span></strong> viagens. O desafio é verdadeiramente planetário. Ou, com jeitinho, um pouco mais do que isso. É, literal e literariamente, o<em> Mundo à Nossa Procura</em>. E eu só me atrevo a começar — e é só de um princípio que se trata — porque a Marta e o Ruy prometem (não prometem?) seguir-me.</p>
<p> </p>
<p>Lituma nos Andes, <em>Mario Vargas Llosa</em></p>
<p>Terra do Fogo, <em>Francisco Coloane</em></p>
<p>Na Patagónia, <em>Bruce Chatwin</em></p>
<p>Latinoamericana e Diários da Bolívia, <em>Ernesto Che Guevara</em></p>
<p>The White Tiger, <em>Aravind Adiga</em></p>
<p>Um estranho em Goa, <em>José Eduardo Agualusa</em></p>
<p>Plain tales from the hills, <em>Rudyard Kipling</em></p>
<p>Por amor da Índia, <em>Catherine Clément</em></p>
<p>Uma ideia da Índia, <em>Alberto Moravia</em></p>
<p>Ébano, Travels with Herodutus, Imperium e The Emperor, <em>Ryszard Kapuscinski </em>(provavelmente o melhor jornalista-viajante contemporâneo)</p>
<p>Odisseia, <em>Homero</em></p>
<p>O (des)caminho para Santiago, <em>Cees Nooteboom</em></p>
<p>Istanbul, <em>Orhan Pamuk</em></p>
<p>A book of traveller’s tales, <em>Eric Newby</em></p>
<p>South, <em>Ernest Shackleton</em></p>
<p>As ilhas desconhecidas, <em>Raul Brandão</em></p>
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		<title>Isto em terra anda perigoso</title>
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		<pubDate>Sun, 22 May 2011 16:43:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ontem passei o dia do lado de lá do mar. Dizem-me que isto em terra anda perigoso.  ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ontem passei o dia do lado de lá do mar. Dizem-me que isto em terra anda perigoso.</p>
<div id="attachment_28761" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-28761" title="IMG_0176c" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/IMG_0176c-500x179.jpg" alt="" width="500" height="179" /><p class="wp-caption-text">AudiMedCup I, Maio de 2011</p></div>
<div id="attachment_28762" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-28762" title="IMG_0201b" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/IMG_0201b-500x262.jpg" alt="" width="500" height="262" /><p class="wp-caption-text">AudiMedCup II, Maio de 2011.</p></div>
<div id="attachment_28764" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-28764 " title="IMG_0178" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/IMG_01781-500x210.jpg" alt="" width="500" height="210" /><p class="wp-caption-text">AudiMedCup III, Maio de 2011.</p></div>
<div id="attachment_28765" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-28765" title="IMG_0204" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/IMG_0204-500x267.jpg" alt="" width="500" height="267" /><p class="wp-caption-text">AudiMedCup IV, Maio de 2011</p></div>
<p style="text-align: center;"> </p>
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		<title>A minha estante</title>
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		<pubDate>Thu, 19 May 2011 22:25:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[  1 — Existe um livro que lerias e relerias várias vezes? Lamento a falta de originalidade mas a minha escolha vai mesmo para esse alucinogénico Manual dos Maus Costumes de Jahvé, El, Elohim, Adonai, Chadai ou, tout simplement, Deus. Para os mais íntimos. O que está longe de ser o meu caso.   2 — Existe algum [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_28606" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-28606" title="gustave_dore_dante_bertram_de_born" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/gustave_dore_dante_bertram_de_born-500x634.jpg" alt="" width="500" height="634" /><p class="wp-caption-text">Eu, livros é só com bonecos.</p></div>
<p> </p>
<p>1 — <strong>Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?</strong></p>
<p>Lamento a falta de originalidade mas a minha escolha vai mesmo para esse alucinogénico <em>Manual dos Maus Costumes</em> de Jahvé, El, Elohim, Adonai, Chadai ou, <em>tout simplement</em>, Deus. Para os mais íntimos. O que está longe de ser o meu caso.</p>
<p> </p>
<p>2 — <strong>Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?</strong></p>
<p>Ui há tantos. E com a idade há cada vez mais. Para não procurar mais longe, fico-me já pelo <em>Levítico</em>. Chato como a potassa e eu detesto que me dêem muitas ordens. Mas se querem saber tudo, também desisti enquanto buscava o <em>Tempo Perdido</em>. E ainda há o <em>Atlas Shrugged</em> da Ayn Rand. Mas a esse prometo voltar, quanto mais não seja pelo meu amigo Carneiro. Pronto, está bem, o Moby Dick também. Tratem-me por Ismael mas a verdade é uma coisa muito bonita. E já que estamos nisto, fiquem sabendo que a <em>Madame Bovary </em>me ia matando de neura, que não percebi patavina do <em>Silmarillion</em> de J.R.R. Tolkien e que não leio Saramago por puro preconceito.</p>
<p> </p>
<p>3 — <strong>Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?</strong></p>
<p>Um só unzinho? E não vale dizer outra vez a Bíblia? A <em>Divina Comédia.</em> É quase tão deliciosamente delirante e também vem com bonecos do Gustave Doré.</p>
<p> </p>
<p>4 — <strong>Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?</strong></p>
<p>Para além da <em>Obra Reunida</em> de Juan Rulfo? Tudo o que possam imaginar talvez com excepção de Richard Bach.</p>
<p> </p>
<p>5– <strong>Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?</strong></p>
<p>Nenhum. Mas isso diz mais de mim do que dos livros.</p>
<p> </p>
<p>6– <strong>Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?</strong></p>
<p>A minha infância, como todas as infâncias fez-se de livros enfiados pela garganta abaixo e de livres escolhas. O Malhadinhas, o Phèdre de Racine e as <em>Contemplations</em> de Victor Hugo conquistaram um lugar eterno no Olimpo das minhas implicações. Safou-se o Molière e foi um pau. Do <em>bright side of the force</em> ficou a <em>Bibliotheque Verte</em> (com destaque para o Philipe Ebly); <em>Os Sete</em> porque sempre achei que <em>Os Cinco</em> era coisa de maricas; um livro alemão sobre caça do meu avô que cheirava bem que se fartava; <em>La Bête est Morte</em>, um livro de quadradinhos com um lobo com ares de Adolf Hitler na capa que a minha mãe recebeu em 1951; uma colecção interminável de <em>Disney Especial;</em> uma revistas pornográficas do meu tio que, se não eram do tempo em que os animais falavam, pelo menos eram ainda de uma época em que se podia usar pintelheira à vontade; e mais umas coisas edificantes do mesmo género. Estavam à espera de quê? Que eu tivesse lido a <em>Odisseia</em> aos sete aninhos?</p>
<p> </p>
<p>8.<strong> Indica alguns dos teus livros preferidos.</strong></p>
<p>Tudo do Ruben A. mas <em>O Mundo à Minha Procura</em> mais do que tudo. Tudo do Philip Roth, do Vargas Llosa, do Jorge Amado, do Sandor Marai e, num género francamente menos pedante, tudo do Jean Christophe Grangé com quem verdadeiramente aprendi a gostar de policiais. Sendo levemente hiperbólico arrisco-me ainda a escolher <em>Mau Tempo no Canal</em>, o melhor romance português de sempre, e <em>Guerra e Paz</em>, o melhor romance não português de sempre. E agora um <em>medley</em> verdadeiramente idiota: <em>O Livro dos Destinos</em> de Anne Wiazemsky; <em>Os Gémeos de Black Hill</em> de Bruce Chatwin; <em>Pátria</em> de Robert Harris; <em>O Jogador</em> de Dostoievski; <em>A Misteriosa Chama da Rainha Loana</em> de Eco; a série <em>Les Rois Maudits</em> de Maurice Druon; <em>A Estrada</em> de Cormac McCarthy; <em>Em Busca do Unicórnio</em> de Juan Eslava Galán; <em>In Cold Blood</em> de Capote;  <em>Tortilla Flat</em> de Steinbeck; <em>L’Écume des Jours</em> de Vian; <em>O Som e a Fúria</em> de Faulkner; <em>Todas as Manhãs do Mundo</em> de Pascal Quignard. Falta nomear esse grande cliché do Século XX que vocês fingem ignorar porque são uns todos uns valente presunçosos: <em>Cem Anos de Solidão</em>. E quase, quase a acabar, já na categoria de contos, <em>A Terceira Resignação</em> do mesmo Marquez, <em>O Alienista</em> de Machado de Assis e <em>Sete Andares</em> de Dino Buzati.</p>
<p><strong>9. Que livro estás a ler neste momento?</strong></p>
<p>Livro? Sou convicta e irremediavelmente polígamo nessa matéria. <em>Relação de Qualidade</em> de António Coimbra de Matos; <em>Oliver Twist</em> de Dickens; <em>Hitler</em> de Ian Kershaw; <em>Cartas a Lucílio</em> de Séneca; <em>A Leitura Infinita</em> de Tolentino Mendonça e <em>The Photograph</em> de Graham Clarke. Mas à frente da minha cama paira ainda uma ameaçadora Torre de Babel reclamando, numa orgia de letras, línguas e inomináveis posições, o direito ao fim imediato da sua virgindade .</p>
<p> </p>
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		<title>Medley para animar o Ruy (*)</title>
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		<pubDate>Sat, 14 May 2011 18:47:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[  Sabe essas noites que cê sai caminhando, sozinho, de madrugada, com a mão no bolso? Todo vestido bonitinho e sem ter onde cair? Todo vestido bonitinho e sem nenhum lugar pra ir? E você fica pensando, naquela menina… Você fica torcendo e querendo que ela estivesse na sua… Aí, finalmente, você encontra o broto. Que felicidade! Você convida ela: “Eu tenho uma moto meia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_28293" class="wp-caption aligncenter" style="width: 405px"><img class="size-full wp-image-28293" title="diane_arbus-woman-with-veil-on-fifth-avenue-nyc-19682" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/diane_arbus-woman-with-veil-on-fifth-avenue-nyc-19682.jpg" alt="" width="395" height="400" /><p class="wp-caption-text">Diane Arbus. Woman with veil on Fifth Avenue.</p></div>
<p> </p>
<p><span style="color: #3366ff;">Sabe essas noites que cê sai caminhando, sozinho, de madrugada, com a mão no bolso? Todo vestido bonitinho e sem ter onde cair? Todo vestido bonitinho e sem nenhum lugar pra ir? E você fica pensando, naquela menina… Você fica torcendo e querendo que ela estivesse na sua… Aí, finalmente, você encontra o broto. Que felicidade! Você convida ela: “<em>Eu tenho uma moto meia nove que fala. Tem head fone, toca fitas no porta mala e tenho um quarto de gasolina no tanque. Vamo na Churrascaria bem-me-quer?</em>” A coisa agora tem nova direção. E como é Domingo é a vez da suculenta voz de Paulo Picanha acompanhado de Mariozinho e seus Brochetes.</span></p>
<p><span style="color: #ff00ff;">Uma tarde tão bucólica, eu tava melancólica, parada de bobeira, na porta da escola, quando um motoqueiro me deu bola. Subi na Kawasaki, o coração fez tic tic tac… Ali na Churascaria, pedi um Mac queijo, foi quando o carinha me tacou um Mac beijo. E eu correspondi o Mac beijo com um Mac abraço. A coisa esquentou. Um cara tão romântico, e o oceano atlântico, e aquele motor, de mil cilindradas, causa reações inesperadas. O coração fez tic tic tac, eu leio Baduan, não uso sutiã, pra que que eu ia deixar pra amanhã?</span></p>
<p><span style="color: #3366ff;">Ela era uma universitária otária que não sabia se fazia oceanografia ou veterinária. Arquitetura aquela altura era loucura mas em compensação comunicação era uma opção. “<em>Garçom uma cerveja! Só tem chopp. Desce dois, desce mais…</em>” Aí lá pelas tantas, disse para ela: “<em>Você está meio confusa mas fica mais bonita assim sem blusa</em>”. E ela disse para mim: “<em>Amor, pede uma porção de batata frita…” </em>E você:<em> “OK! você venceu batata frita”</em>. Aí, “<em>blá blá blá blá blá blá blá blá blá,Ti ti ti ti ti ti ti ti ti</em>”. Você diz prá ela. “<em>Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, mas realmente eu preferia que você estivesse nua</em>”. Eu não queria falar mas agora vou dizer: ela era boa em línguas mas não sabia beijar.</span></p>
<p><span style="color: #ff00ff;">“<em>Mamãe eu acho que estou… ligeiramente grávida. Mamãe não fique pálida, a coisa não é ruim. Se lembre, um dia você já ficou assim</em>”</span></p>
<p><span style="color: #3366ff;">“<em>Não, não vá dizer que a culpa é minha!</em>”</span></p>
<p>E por sorte ou por azar, eles não passaram no vestibular. Moram juntos até hoje mas resolveram não casar pra não complicar. Esse foi apenas um lance do romance de Aparecida e Abreu. Hoje moram no campo e são dois grandes amigos meus. Vivem na natureza, na santa paz de Deus.</p>
<p> </p>
<p><em>(*) D’après Blitz. Espero que vocês gostem do disco, assistam o show, vejam o filme e leiam o livro.</em></p>
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		<title>Haverá mais do que um Fausto?</title>
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		<pubDate>Thu, 12 May 2011 14:36:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[1 — A lenda de Fausto é por todos amplamente conhecida. As versões da história são múltiplas e nem todas exactamente coincidentes. Na obra de Goethe, a mais celebrizada, o eminente estudioso que não se conforma com as terrenas limitações do saber, do poder e dos carnais prazeres, celebra um famosíssimo «pacto como o Diabo»: [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-large wp-image-28139" title="murnau" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/murnau-500x361.jpg" alt="" width="500" height="361" /></p>
<p>1 — A lenda de Fausto é por todos amplamente conhecida. As versões da história são múltiplas e nem todas exactamente coincidentes. Na obra de Goethe, a mais celebrizada, o eminente estudioso que não se conforma com as terrenas limitações do saber, do poder e dos carnais prazeres, celebra um famosíssimo «pacto como o Diabo»: Fausto contará com a ajuda de Mefistófeles para alcançar, em vida, a glória e felicidade supremas mas compromete-se a entregar-lhe a alma assim que alcançar o êxtase.</p>
<p>Não me alongo com mais jactâncias literárias nem vou sugerir – imperdoável mentira — que li Goethe. Mas a verdade é que, tendo todos nós direito a uma certa dose de bizarrias, sou um fã de Murnau e do seu cinematográfico Fausto, e foi nele que pensei ao assistir à declaração ao país de José Sócrates na noite do acordo com a Troika. Não tanto porque o Primeiro-Ministro me fizesse lembrar Gösta Ekman (no meu imaginário reservo-lhe, como já se verá, o papel de Mefistófeles) mas porque tive uma súbita revelação: Teixeira dos Santos vendeu a alma ao Diabo. Preferia, confesso, tê-lo visto amordaçado ou sob o notório efeito de estupefacientes. Assim, silencioso, avermelhado e a andar pelo seu próprio pé, não consigo encontrar outra razão para que um homem que continuo a considerar e que julgava estar a engolir sapos para preservar uma réstia de honorabilidade do Estado, se tenha prestado a tão indigno papel. Porque uma coisa é preservar a imagem do país, outra coisa é servir de escudo humano a José Sócrates. Talvez esteja a ser injusto. Em boa verdade, espero mesmo estar a ser injusto. Mas uma coisa é certa: Teixeira dos Santos vai ter muito para explicar quando entender tornar públicas as suas memórias recentes.  </p>
<p>2 – E já que estamos em maré de lendas medievais germânicas, tenho de confessar que, acto contínuo, me assaltou outra pavorosa ideia: a de que pudessem existir, não um, mas dois Faustos na política portuguesa. Falo do inescrutável Pedro Passos Coelho. Tenho-o, devo admitir, na qualidade de um homem bom. Cordato, educado, agradável no trato, nunca me constou que tivesse telhados de vidro e acredito, gosto genuinamente de acreditar, que avança para a liderança do país animado de um desejo verdadeiro de bem servir. Infelizmente não tenho, não consigo ter por mais que me esforce, grandes ilusões sobre o aparelho que o guindou a tão altos voos. O mesmo é dizer que não tenho grandes dúvidas de que no PSD medram muitos aprendizes de Mefistófeles. Ora o líder do PSD tomou a opção, legítima, de guardar o seu «governo na cabeça». Com essa estratégia pede-nos um acto de fé. Pede-nos que acreditemos que o melão será bom uma vez aberto. Pede-nos que acreditemos que, na hora da verdade, terá a frieza e o sentido de Estado necessários para escolher os melhores para conduzir os destinos do país.</p>
<p>Dir-se-á que é a única estratégia possível para chegar ao poder. E que uma hostilização prematura dos caciques sociais-democratas nem sequer lhe daria a oportunidade de estar em posição de escolher. Pode bem ser verdade. Mas não deixa de ser uma estratégia arriscada. Porque é impossível adivinhar quantos votos lhe custará a metafísica dúvida que a muitos assalta: e se o homem tiver vocação para Fausto? Eis uma revelação que só vamos ter daqui a mais umas semanas.</p>
<p><em>Publicado na Visão em 12.5.2011</em></p>
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		<title>Quando estão maçados, os Deuses fazem Origami</title>
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		<pubDate>Sun, 01 May 2011 16:37:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Na horizontalidade radical do papel vegetal não passam de peças fósseis. Tudo o mais são “trevas a cobrir o abismo”. E “ventos impetuosos a soprar sobre as águas”. Depois é o principio e o fim de tudo. Cada volta, uma articulação. Cada flexão, um músculo novo. Cada dobra, um tímido estertor. Cada curva, um translúcido [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na horizontalidade radical do papel vegetal não passam de peças fósseis. Tudo o mais são “trevas a cobrir o abismo”. E “ventos impetuosos a soprar sobre as águas”.</p>
<div id="attachment_27726" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-27726" title="xrayorigami9" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/xrayorigami9-500x497.jpg" alt="" width="500" height="497" /><p class="wp-caption-text">Takayuki Hori</p></div>
<p>Depois é o principio e o fim de tudo. Cada volta, uma articulação. Cada flexão, um músculo novo. Cada dobra, um tímido estertor. Cada curva, um translúcido despertar. A argila é papel. O sopro da vida é afinal a delicadeza dos dedos. Os Deuses, quando estão maçados, não fazem crochet. Fazem Origami. De raio X.</p>
<div id="attachment_27727" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-27727" title="xrayorigami1" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/xrayorigami1-500x332.jpg" alt="" width="500" height="332" /><p class="wp-caption-text">Takayuki Hori</p></div>
<div id="attachment_27728" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-27728" title="xrayorigami3" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/xrayorigami3-500x332.jpg" alt="" width="500" height="332" /><p class="wp-caption-text">Takayuki Hori</p></div>
<div id="attachment_27729" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-27729" title="xrayorigami7" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/xrayorigami7-500x332.jpg" alt="" width="500" height="332" /><p class="wp-caption-text">Takayuki Hori</p></div>
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		<title>O abismo ético</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Apr 2011 14:13:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[  Melhor do que eu, muitos leitores estarão lembrados das bandeiras negras que em 1983 se ergueram, um pouco por todo o país, para sinalizar a fome. Tal como hoje, Portugal vivia tempos muitíssimo difíceis. Tal como hoje, o país recorrera, em desespero, à ajuda do FMI. Tal como hoje, o pior estava para vir. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> </p>
<div id="attachment_27561" class="wp-caption aligncenter" style="width: 384px"><img class="size-full wp-image-27561" title="Adams_HalfDome_Yosemite_60" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/Adams_HalfDome_Yosemite_60.jpg" alt="Ansel Adams" width="374" height="480" /><p class="wp-caption-text">Ansel Adams</p></div>
<table style="width: 100%; border-width: 0px;" cellspacing="0" cellpadding="0">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: justify; padding-top: 4px;">Melhor do que eu, muitos leitores estarão lembrados das bandeiras negras que em 1983 se ergueram, um pouco por todo o país, para sinalizar a fome. Tal como hoje, Portugal vivia tempos muitíssimo difíceis. Tal como hoje, o país recorrera, em desespero, à ajuda do FMI. Tal como hoje, o pior estava para vir. Mas as coincidências acabam aqui. Em 1983 o valor global da ajuda que o Fundo disponibilizou chegou ao montante (então) extraordinário de 650 milhões de dólares. Em 2011 estamos a discutir um resgate que pode chegar aos 100 mil milhões de euros!Infelizmente, espantosamente, o diabo nem são os números. Permitam-me uma inconfidência (devidamente autorizada) e já perceberão ao que venho. Estávamos, repito, em 1983. O Ministro das Finanças e do Plano era Ernâni Lopes. António de Almeida era o seu Secretário de Estado do Tesouro. Os dois homens tinham viajado até Washington para uma reunião com o FMI. O regresso a Lisboa implicava uma escala e uma pernoita em Nova Iorque. Ao chegar ao Hotel, o Ministro, seguramente com o ar grave, pausado e sério que punha nessas ocasiões, disse ao seu Secretário de Estado: «<em>António, o momento é de austeridade. Mandei reservar um único quarto para os dois</em>». O susto terá sido muito mas a verdade é que lá ficaram, cada qual na sua caminha bem entendido, a zelar durante o sono pelas depauperadas finanças pátrias.</p>
<p>Mas desenganem-se se julgam que a história acaba aqui. António de Almeida, mal refeito de uma noite espartana, ainda terá sonhado com um merecidíssimo passeio pela 5ª Avenida. Afinal de contas o avião de regresso a Lisboa estava marcado para o final da tarde e não havia reuniões agendadas durante todo o dia. Pura ilusão. O check-out fez-se, pontualmente, ao meio-dia. «<em>Os tempos são de austeridade e a partir dessa hora cobram uma sobretaxa</em>». Bem dito e melhor feito: o resto da tarde foi passado a trabalhar no banco de trás do automóvel que haveria de levar Ministro e Secretário de Estado ao Aeroporto. Devem ter comido umas sandes. Mas este gastronómico pormenor, em verdade vos digo, já sou eu que o invento.</p>
<p>Percebem onde quero chegar? Não julguem que é ao populismo basista que apelo. Não julguem que me vou aqui pôr a reclamar impensáveis sacrifícios nocturnos ao Dr. Teixeira dos Santos. Nem ao futuro Ministro das Finanças de Passos Coelho. Eu próprio, para ser sério, provavelmente não os faria. Mas isso não impede a minha inominável angústia. O facto é que é que, episódios como este, tornam ainda mais esmagadora a consciencialização do real abismo que separa as crises de 1983 e de 2011. O diabo, repito, nem são os números. O diabo são os líderes que vamos eleger para tratar deles. O diabo são os quadros mentais em que se movimentam. O diabo são os valores que os animam e que, colectivamente, vimos caucionando. O diabo é a falência ética em que estamos mergulhados. Nos mundos politico, económico e empresarial. É por aí, não tenham dúvidas, que a crise começou. É por aí que teremos, mais cedo que tarde, de começar a tratar o problema.</p>
<p>PS: “<em>Economia, Moral e Politica</em>” é o título do último livro de Vítor Bento. E imprescindível é dizer pouco.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 10pt;"><em><span style="font-family: Calibri; font-size: small;">Publicado na Visão em 28.4.2011</span></em></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td style="padding-top: 20px;"> </td>
</tr>
</tbody>
</table>
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		<title>Mitos Democráticos para celebrar Abril</title>
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		<pubDate>Mon, 25 Apr 2011 13:05:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[  Sei bem, e não me canso de repeti-lo, que neste blog não se fala de política. Mas proponho, a medo, uma ligeira precisão: entre estas campas não se discutem politiquices. Estou certo que nem o MSF (que aqui no cemitério faz as vezes de anjo da guarda, primeiro censor e grande animador) discordará da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-27357" title="American-Constitution" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/American-Constitution.jpg" alt="" width="500" height="374" /></p>
<p> </p>
<p>Sei bem, e não me canso de repeti-lo, que neste blog não se fala de política. Mas proponho, a medo, uma ligeira precisão: entre estas campas não se discutem politiquices. Estou certo que nem o MSF (que aqui no cemitério faz as vezes de anjo da guarda, primeiro censor e grande animador) discordará da ideia de que podemos debater — entre os poemas da Eugénia, um Caravaggio e um ou outro Raio X — Platão, Aristóteles, Maquiavel, Locke, ou Montesquieu.</p>
<p>Justificado que estou, ou que julgo estar, digo-vos ao que venho. O <em>Economist</em> desta semana (o melhor “<em>newspaper</em>” do planeta) inclui um fantástico “<em>special report</em>” sobre a Democracia na Califórnia. Um peça de ciência política aplicada que, sendo verdadeiramente antológica, seria quase impublicável num país com os tiques de novo-riquismo democrático como o nosso. A leitura – que vivamente recomendo – suscitou-me algumas reflexões avulsas sobre as limitações e os paradoxos da Democracia. Proponho-as em jeito de celebração, politicamente incorrecta mas nem por isso menos empenhada, do 25 de Abril.</p>
<p>1 – A Democracia está, por razões históricas absolutamente compreensíveis, sacralizada em Portugal. Quase 40 anos depois de Abril, a ditadura do «politicamente correcto» estigmatiza todos quantos não vejam na democracia o sistema perfeito e no sistema de maiorias a máxima referência moral. Fora do consenso do «politicamente correcto» estão ainda, 40 anos depois da revolução, todos os que ousam reconhecer-lhe os limites e que desconfiam da razão pura das maiorias. Fora do arco do pensamento aceitável continuam todos os que ousam assumir a escolha democrática, não em nome da sua infalibilidade intrínseca, mas em nome da ausência absoluta de alternativas politicamente aceitáveis. A Democracia, digo eu, é um processo, não é um fim. Como tal pode ser criticado e é susceptível de ser melhorado.</p>
<p>2 – Heresia das heresias. Tenho para mim como cristalinamente óbvio que o povo pode errar, fazer escolhas perniciosas e em consequência delas prejudicar, objectivamente, o bem comum. A legitimidade da democracia não se baseia, nunca se baseou, no mito  da sua infalibilidade. Dando de barato que existe um padrão objectivo para medi-los (é toda outra discussão e não quero nadar para fora de pé), é justo afirmar-se que existirão muitas razões para explicar estes “erros democráticos”. Mas julgo que é não menos pacífico afirmar que uma dessas razões é inerente ao próprio processo democrático: a Democracia não se dá necessariamente bem com a Verdade. O paradoxo ficou muito bem ilustrado com as aventuras e desventuras de Manuela Ferreira Leite à frente dos destinos do PSD. Ninguém ganha eleições a dizer a verdade. Sobretudo quando a verdade é sinónimo de sacrifícios tão inevitáveis quanto violentos.</p>
<p>3 — A ideia democrática e a ideia liberal respondem a duas perguntas políticas diferentes que não ganham em ser confundidas. A primeira responde à pergunta: «quem deve exercer o poder político?» A segunda responde à questão: «quais são os limites do poder político?» À primeira interrogação a teoria democrática responde: um governo eleito por uma maioria de cidadãos. À segunda, a teoria liberal responde: os cidadãos têm direitos prévios à constituição da colectividade política e são precisamente esses direitos inalienáveis que marcam os limites da actuação legítima do Estado (outra e mais complexa questão é a de saber quais são, em concreto, esses limites, i.e. onde acaba a esfera de inviolabilidade que protege cada cidadão; não é este o momento de abordá-la). Assim sendo, numa sociedade de matriz democrático-liberal como são a generalidade das sociedades do mundo Ocidental, a acção política tem de respeitar este duplo critério de legitimidade. Para que uma proposta política seja legítima não basta que tenha o apoio da maioria dos cidadãos ou que emane de um governo eleito de acordo com as regras democráticas. Precisa também passar pelo crivo da legitimidade liberal. Ora convenhamos que não é difícil sustentar (ainda que por vezes sem sucesso) que, por exemplo, o estabelecimento da pena de morte ou a instauração de medidas discriminatórias de base racista, não passam, nem de perto nem de longe, o teste da legitimidade liberal. E que são portanto propostas políticas intrinsecamente ilegítimas ainda que eventualmente emanem de um governo eleito por uma maioria de cidadãos.</p>
<p>4 —  Mais Democracia não significa melhor Democracia. Triste mito. Santa ignorância. Não é por acaso que os «<em>founding fathers</em>» americanos (que, goste-se ou não, são os pais fundadores de todas as modernas democracias liberais) rejeitaram explicitamente esta interpretação populista do ideal democrático. Muito melhor do que a maioria dos líderes de hoje, sabiam – para citar uma expressão feliz de Bruce Ackerman e James Fishkin – que os referendos são um «método indigno para uma democracia moderna». Muito melhor do que os modernos arautos do «directismo» de pacotilha, sabiam entender a importância de casar o valor da igualdade política (em que se baseia a democracia) com as virtudes da reflexão, da ponderação, da deliberação, da negociação e da construção de consensos (em que se baseiam os regimes representativos) sem as quais não haverá nunca, como é penosamente óbvio, edifício democrático que resista. Acontece que o «directismo» é um mito conveniente, alimentado pelo discurso politicamente correcto em voga e sobretudo pela tibieza de muitos dos nossos eleitos que, tendo toda a legitimidade democrática para decidir, se demitem de fazê-lo, e se escondem por detrás da farsa e da miragem referendárias. Acontece que é preciso coragem política para assumir que nas democracias representativas modernas o povo escolhe quem deve decidir e não tem necessariamente de participar no «<em>problem solving</em>» concreto. E coragem política não é propriamente uma característica definidora da maioria dos líderes de hoje. Na Europa como, pelos vistos, na Califórnia.</p>
<p>5 – Finalmente, porque a conversa vai longa, outro mito tão persistente quanto pernicioso dos nossos tempos é a ideia que a Democracia está suficientemente consolidada nos países ocidentais para que exista um real perigo do seu retrocesso. Em Portugal este mito é sofisticado com a ideia conveniente de que «a Europa não permitiria que o país regressasse aos tempos da outra senhora». Ora não há nada mais perigoso para a Democracia do que a ideia de que não é preciso zelar por ela todos os dias (e zelar é também criticar). E se é verdade que é difícil imaginar na Europa do século XXI, uma intentona militar liderada por um general de óculos escuros e bigode farfalhudo, já não será tão descabido discorrer sobre os perigos que o populismo e os excessos de «directismo» democrático podem representar para os regimes demo-liberais modernos. Não havia para aí um filósofo velhinho que falava da sucessão cíclica das formas de governo?</p>
<p> </p>
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		<item>
		<title>Mais filme, mais vida.</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/04/mais-filme-mais-vida/</link>
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		<pubDate>Sun, 24 Apr 2011 12:55:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu também gosto.  ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu <a title="Mais vida no filme da vida" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/04/mais-vida-no-filme-da-vida/">também gosto</a>.<br />
<img class="aligncenter size-full wp-image-27343" title="002" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/002.gif" alt="" width="480" height="286" /></p>
<p> </p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-27344" title="004" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/004.gif" alt="" width="480" height="261" /></p>
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		</item>
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		<title>Kafka Polaroid</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/04/kafka-polaroid/</link>
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		<pubDate>Sun, 24 Apr 2011 10:44:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Jan Banning calcorreou 5 continentes para fazer uma história da burocracia em imagens. As fotografias são todas de formato quadrado, foram captadas exactamente da mesma posição e as secretárias dos burocratas são obsessivamente horizontais. Nenhuma das visitas foi anunciada impedindo assim que os gabinetes fossem arrumados ou preparados. O conjunto, em todo o seu patético [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.janbanning.com/">Jan Banning</a> calcorreou 5 continentes para fazer uma história da burocracia em imagens. As fotografias são todas de formato quadrado, foram captadas exactamente da mesma posição e as secretárias dos burocratas são obsessivamente horizontais. Nenhuma das visitas foi anunciada impedindo assim que os gabinetes fossem arrumados ou preparados. O conjunto, em todo o seu patético esplendor, é uma retrato cruel do poder absurdo do Estado. Kafka teria fotografado assim.</p>
<div id="attachment_27335" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-27335" title="Siberia Bureau 19" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/15Russia-500x504.jpg" alt="Russia 2004. Jan Banning." width="500" height="504" /><p class="wp-caption-text">Russia 2004. Jan Banning.</p></div>
<p style="text-align: center;">
<div id="attachment_27332" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-27332" title="India Bureau Prasad 17" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/1India-500x503.jpg" alt="India 2003. Jan Banning." width="500" height="503" /><p class="wp-caption-text">India 2003. Jan Banning.</p></div>
<div id="attachment_27333" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-27333 " title="Bolivia Bureau 13" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/5Bolivia-500x502.jpg" alt="" width="500" height="502" /><p class="wp-caption-text">Bolivia 2005. Jan Banning. </p></div>
<div id="attachment_27334" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-27334" title="Liberia Bureau 04" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/12Liberia-500x504.jpg" alt="" width="500" height="504" /><p class="wp-caption-text">Liberia 2006. Jan Banning.</p></div>
<div id="attachment_27336" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-27336" title="Yemen Bureau 03" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/21Yemen-500x502.jpg" alt="" width="500" height="502" /><p class="wp-caption-text">Yemen 2006. Jan Banning.</p></div>
]]></content:encoded>
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		<title>Aquilo naquilo, parte II</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/04/aquilo-naquilo-parte-ii/</link>
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		<pubDate>Sat, 09 Apr 2011 16:42:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[  Não me venham dizer que fui eu que comecei. Por uma vez o culpado deixou a sua marca. Cúmplice, vá. Mas parecia mal deixá-lo sem resposta e fui pedir ajuda ao Jorge Amado: Aquilo: “Com justa pertinência designava a formosa e notável potestade conforme a ocasião e a serventia: com as duas mão empunhava le [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> </p>
<div id="attachment_26692" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-26692" title="egon_schiele_095" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/egon_schiele_095-500x734.jpg" alt="" width="500" height="734" /><p class="wp-caption-text">Egon Schiele</p></div>
<p>Não me venham dizer que fui eu que comecei. Por uma vez o <a title="Aquilo naquilo" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/04/aquilo-naquilo/">culpado</a> deixou a sua marca. Cúmplice, vá. Mas parecia mal deixá-lo sem resposta e fui pedir ajuda ao <strong>Jorge Amado</strong>:</p>
<p>Aquilo:</p>
<p>“<em>Com justa pertinência designava a formosa e notável potestade conforme a ocasião e a serventia: com as duas mão empunhava <strong>le grand mât</strong>, fartava-se de mamar <strong>le biberon</strong>, abria-se para receber pela frente e por trás <strong>l’axe du monde</strong></em>”</p>
<p>Naquilo:</p>
<p>“<em>Colhia e voltava a colher o intacto <strong>cabaço</strong>, a desfolhar a cobiçada <strong>flor de virgem</strong>. Cabaço vário e múltiplo, a flor de Aruza, mantendo-se sempre bela, apertada e quente, variava ao sabor da fantasia. Foi farta de pêlos ou quase não os teve, tênue penugem. Abriu-se <strong>refolhuda rosa</strong>, ofertando-se. Escondeu-se nas coxas trancadas, <strong>recatado botão</strong>. O <strong>grelo</strong> se alteava arrogante ou receoso se encobria. Foi a <strong>xoxota</strong> de Bernarda, a de Dalila, a da pequena Cotinha, a da imensa Marieta Quinze arrobas, a <strong>xoxota de chupeta</strong> de Cororoca, tantas e tantas outras, puras e ilibadas. Foi o inviolado <strong>xibiu</strong> de Zezinha do Butiá, um abismo.</em>”</p>
<p> </p>
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		<title>A felicidade é um lugar estranho</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/04/a-felicidade-e-um-lugar-estranho/</link>
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		<pubDate>Sun, 03 Apr 2011 17:20:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[A felicidade é um lugar estranho. Consegue ser peste, ser ódio, ser abismo e ser caverna. A felicidade consegue carcomer e fazer-se dor infinita. A felicidade é traição e sabe fazer-se cancro. Não me interpretem mal. Estão todos felizes, sim senhor. Luminosamente felizes. A tela não me deixa mentir e eu lembro-me tão bem. Afinal [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-26244" title="Hip Hip Hurra, Peder Severin Kroyer, 1888" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/Hip-Hip-Hurra-de-Peder-Severin-Kroyer-1888.bmp" alt="" /></p>
<p>A felicidade é um lugar estranho. Consegue ser peste, ser ódio, ser abismo e ser caverna. A felicidade consegue carcomer e fazer-se dor infinita. A felicidade é traição e sabe fazer-se cancro.</p>
<p>Não me interpretem mal. Estão todos felizes, sim senhor. Luminosamente felizes. A tela não me deixa mentir e eu lembro-me tão bem. Afinal de contas, pintei cada um e pintei todos. Pintei cada cabelo, cada ruga, cada sombra, cada raio de luz. Pintei-os de amor, de genuína admiração, de ternura infinita, de amizade sinceríssima. De certa forma pintei-me também a mim. De onde estão sentados não podem ver-me, escondido pelo cavalete, do outro lado do espelho. Mas naquela tarde de Setembro, pintada a tinta de luz, eu era também, posso jurar-vos, embriagadamente feliz. Só eu sabia, só nós sabíamos que festejávamos um filho que haveria de ser. Felicidade por vir, azulíssima, calada a dois, impossível de esconder. Como se do canto da mesa a todos falasse o seu sorriso de uma doçura tão sua. Como se me denunciassem as pinceladas ágeis, seguras, precisas, elegantes. Como se me denunciasse o vôo branco das mangas da minha camisa.</p>
<p>A felicidade é um lugar estranho. Consegue ser peste, ser ódio, ser abismo e ser caverna. A minha nunca verdadeiramente foi. O filho nunca chegou a sê-lo e ela deixou de existir. A tela, assombrada e assombrosa, carcome cada pedaço da alma macerada a que chamo Eu.</p>
<p> </p>
<p> </p>
<p><em>PS: Março é quando o homem quiser.</em></p>
<p> </p>
<p> </p>
]]></content:encoded>
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		<title>Cada livro um afluente, cada filme um ramal.</title>
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		<pubDate>Sun, 03 Apr 2011 12:36:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[    Roger Casement, nascido britânico, enforcado irlandês, dedicou boa parte da sua vida como cônsul a sonhar com um mundo mais justo e ganhou, já se vê, perigosíssima fama a denunciar atrocidades. Primeiros as cometidas contra os congoloses pelo Rei Leopoldo da Bélgica. Depois as lançadas contra os indios Putumayo do Peru pelos homens de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"> </p>
<div id="attachment_26484" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-26484 " title="geografo_vermeer" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/geografo_vermeer-500x560.jpg" alt="" width="500" height="560" /><p class="wp-caption-text">Johannes Vermeer, O Geógrafo</p></div>
<p> </p>
<p><strong>Roger Casement</strong>, nascido britânico, enforcado irlandês, dedicou boa parte da sua vida como cônsul a sonhar com um mundo mais justo e ganhou, já se vê, perigosíssima fama a denunciar atrocidades. Primeiros as cometidas contra os congoloses pelo Rei Leopoldo da Bélgica. Depois as lançadas contra os indios Putumayo do Peru pelos homens de Júlio César Arana, barão da borracha que se não tivesse sido tão cruelmente real teria sido inventado pelo nosso <strong>Ferreira de Castro</strong>. Terá sido aliás no Congo que Casement terá conhecido, por volta de 1889, o polaco <strong>Józef Teodor Konrad Korzeniowski</strong> que viria a inspirar-se no seu “<em>Congo Report</em>” (bem como, é sabido, na sua própria experiência como comandante de vapor) para escrever o celebérrimo <em>Coração das Trevas</em>. Do Coração, do fundo do coração, já <a title="Apocalypse Now" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/03/apocalypse-now/">nos falou</a>, aliás, o nosso <strong>MSF</strong>. Falou-nos de Conrad e de um <strong>Coppola</strong> que não podia ter sido Coppola sem ter sido primeiro Conrad. Porque se é verdade que <strong>Kurtz</strong> é Kurtz, Coppola é Conrad da mesma forma que Conrad é um pouco de Roger Casement. Ou visto de outra maneira, Coppola é Conrad da mesma forma que Coppola é um pouco de <strong>Herzog </strong>e da mesma forma que <strong>Aguirre</strong> é um pouco de <strong>Marlow</strong>. E com Aguirre, pela espada de um enlouquecido <strong>Klaus Kinski</strong>, voltamos ao principio deste Mundo e ao Peru. Por onde andou, já vos disse, o nosso amigo Roger Casement agora ressuscitado e, mais importante, justamente reabilitado pelo nobilizado <strong>Vargas Llosa</strong> no seu  recentíssimo <em>Sonho do Celta </em>que acabei de ler e que vivamente recomendo. Até porque, já que aqui estamos, valerá a pena dizer que com a viagem de Casement, Amazonas acima, Amazonas abaixo, Llosa descobre o contraponto dramático perfeito para a saga sexo-militar do seu impagável <em>Pantaleão </em>que por ali também andou, em patriótica missão, a recrutar visitadoras. Que é como quem diz, <em>Putas Tristes</em>. E a coisa podia continuar assim, interminavelmente, ciclicamente, rio acima, rio abaixo. Cada livro, um afluente, cada filme um ramal.</p>
<p>Talvez seja por isso que eu gosto de geografia.</p>
<p> </p>
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		<title>Livros estupidamente bonitos IV</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Mar 2011 22:31:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Não sei se gosto mais das ideias (great, to say the least), dos livros, ou das capas de umas e de outros. Mas estes pinguins, emproados nas suas elegantíssimas casacas, têm muito bom gosto. O grau de civilização de um país mede-se por colecções assim. Não me venham com FMI’s.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-25517" title="great ideas 2" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/great-ideas-2.jpg" alt="" width="500" height="468" /></p>
<p>Não sei se gosto mais das ideias (<em>great, to say the least</em>), dos livros, ou das capas de umas e de outros. Mas estes <a href="http://thepenguinblog.typepad.com">pinguins</a>, emproados nas suas elegantíssimas casacas, têm muito bom gosto. O grau de civilização de um país mede-se por colecções assim. Não me venham com FMI’s.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-25519" title="great ideas penguin" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/great-ideas-penguin.jpg" alt="" width="246" height="401" /></p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-25520" title="marcusaurelius" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/marcusaurelius.jpg" alt="" width="389" height="650" /></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Livros estupidamente bonitos III</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/03/25456/</link>
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		<pubDate>Tue, 08 Mar 2011 17:31:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[  Hellen Yentus também deve gostar de cerveja embora isso não conste da sua biografia oficial.  Que de resto não sei se existe. Os livros é que são bonitos como o Diabo! E o site, ah o site tem um grande boneco. Metade roubado ao Hyeronimus Bosch, metade ao Pedro Proença.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> </p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-25457" title="helen yentus" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/helen-yentus.jpg" alt="" width="262" height="400" /></p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-25458" title="helenyentus" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/helenyentus.jpg" alt="" width="369" height="569" /></p>
<p style="text-align: left;">Hellen Yentus também deve gostar de cerveja embora isso não conste da sua biografia oficial.  Que de resto não sei se existe. Os livros é que são bonitos como o Diabo! E o <a href="http://helenyentus.com">site</a>, ah o site tem um grande boneco. Metade roubado ao Hyeronimus Bosch, metade ao Pedro Proença.</p>
<p style="text-align: left;"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-25504" title="helenyentus4" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/helenyentus4-96x150.jpg" alt="" width="96" height="150" /><img class="size-thumbnail wp-image-25459 alignnone" title="helenyentus2" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/helenyentus2-97x150.jpg" alt="" width="97" height="150" /><img class="aligncenter size-thumbnail wp-image-25461" title="helenyentus3" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/helenyentus3-97x150.jpg" alt="" width="97" height="150" /></p>
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		<title>Livros estupidamente bonitos I</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/03/livros-estupidamente-bonitos-i/</link>
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		<pubDate>Tue, 08 Mar 2011 13:04:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Gosto, julgo que gostamos todos neste blog, de livros. Gosto, é óbvio, dos mundos infinitos que são os seus. Inexplorados, inexploráveis e por isso mesmo de um demencial fascínio. Aliás, alguém um dia me disse (e eu aprendi) que só pode aspirar a ter uma boa biblioteca quem desistir da ideia, bibliofilamente absurda, de a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Gosto, julgo que gostamos todos neste blog, de livros. Gosto, é óbvio, dos mundos infinitos que são os seus. Inexplorados, inexploráveis e por isso mesmo de um demencial fascínio. Aliás, alguém um dia me disse (e eu aprendi) que só pode aspirar a ter uma boa biblioteca quem desistir da ideia, bibliofilamente absurda, de a ler por inteiro. Além do mais gosto-lhes das entranhas, dos silêncios, dos gritos, dos choros e de todos os ruídos baixinhos que gritam à noite. Gosto-lhes e melhor não sei dizer. Gosto-lhes.</p>
<p>Mas gosto também, por vezes quase tanto, do que eles próprios gostam de si. Não há nada mais bonito do que um livro que se quer bonito. Não há nada mais bonito do que um livro vaidoso. Cheio de si. Barroco, dourado, minimalista, discreto, ensurdecedor de mil cores. Mas já que aqui estamos, querem saber uma coisa que me atormenta? Pode dizer-se de um livro que é “coquette”? Provocadora? Ou “allumeuse” (lamento mas não há em português palavra que lhe faça justiça)?</p>
<p>Seja como for, neste blog temos falado mais do que são do que do que se parecem. Ou do que se querem parecer. É injusto. Terrivelmente injusto. É tempo de uma reparação mínima. Tão mais maximamente mínima que não consegui, ainda, alcançar essa alquímica fantasia que é a de lhes aprisionar o cheiro. Que isso não vos iniba de lhes juntar, se me fazem a fineza, outros livros vaidosos da vossas bibliotecas. Só há uma regra. Têm de ser estupidamente bonitos.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-25448" title="kulick" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/kulick.jpg" alt="" width="400" height="547" /></p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-25449" title="kulick2" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/kulick2.jpg" alt="" width="400" height="547" /></p>
<p>Gregg Kulick gosta de cerveja, tem um talento dos diabos e um belo <a href="http://kulickdesign.com">site</a>.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>As coisas</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/03/as-coisas/</link>
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		<pubDate>Tue, 08 Mar 2011 12:20:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[  Eu sei que aqui não se fala de política. Mas sei também que se pode, que se deve, falar de sexo. Aproveito portanto a fresta (estou plenamente consciente do valor “assimétrico” da expressão, mas as coisas são o que são) para falar de política de sexo e para vos recomendar a leitura de uma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_25444" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-25444" title="velasquez as meninas" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/velasquez-as-meninas-500x368.jpg" alt="" width="500" height="368" /><p class="wp-caption-text"> As coisas de Velasquez</p></div>
<p> </p>
<p>Eu sei que aqui não se fala de política. Mas sei também que se pode, que se deve, falar de sexo. Aproveito portanto a fresta (estou plenamente consciente do valor “assimétrico” da expressão, mas as coisas são o que são) para falar de política de sexo e para vos recomendar a leitura de uma crónica publicada no jornal Público de hoje: <em><strong>“Faz favor, menina”: linguagem e subalternidade feminina</strong></em>. Por Maria José Casa-Nova.</p>
<p>Não resisto a citar uns excertos:</p>
<p><em>“Incontornavelmente mais importante do que qualquer institucionalização de “Dias de”, é institucionalizar práticas democráticas, construtoras de relações de sociabilidade, familiares e de trabalho não hierarquizadas (…). Um exemplo desta ausência de práticas democráticas é o tratamento linguístico de que uma parte das mulheres é estruturalmente alvo por parte da sociedade (neste caso, portuguesa) e que consiste no tratamento de “menina” com que são frequentemente “presenteadas” nos mais diversos contextos de interacção social. (…) Esta forma de linguagem remete a mulher para um estatuto de menoridade, retirando-lhe a adultez e outorgando-lhe um estado de permanente infantilidade ao qual se associa a necessidade de serem constantemente cuidadas e agidas pelo género masculino. (…) Esta espécie de “violência simbólica” sobre as mulheres é eficaz dada precisamente a adesão das “dominadas” a este processo de dominação (reconhecimento da validade de) e do desconhecimento das relações de poder que estão na sua base.”</em></p>
<p>E pronto, mais não digo. Mas que o Velasquez deve estar à rasca, deve.</p>
<p> </p>
<p> </p>
<p> </p>
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		<title>A infância</title>
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		<pubDate>Sat, 26 Feb 2011 14:37:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
				<category><![CDATA[Queridos Mortos]]></category>

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		<description><![CDATA[Perdoem-me a presunção. Mas tive a mais feliz de todas as infâncias que se querem felizes. O meu Mundo, babilónico, amazónico, labirintico de felicidade, era um Infinito bem no centro de Lisboa. De um lado ressonava esse universo tropical e sombrio, inexplorável de tão verde, que  era o Jardim Botânico da Escola Politécnica que veio a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-large wp-image-25164" title="PrincipeReal" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/PrincipeReal-500x324.jpg" alt="" width="500" height="324" /></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p>Perdoem-me a presunção. Mas tive a mais feliz de todas as infâncias que se querem felizes.</p>
<p>O meu Mundo, babilónico, amazónico, labirintico de felicidade, era um Infinito bem no centro de Lisboa. De um lado ressonava esse universo tropical e sombrio, inexplorável de tão verde, que  era o Jardim Botânico da Escola Politécnica que veio a ser, por artes da República, Faculdade de Ciências. Araucárias, chorões, cedros, cicadácias, um observatório astronómico de onde podia imaginar-se o Tudo. Que de resto era também, mais coisa menos coisa, o tamanho da rua das palmeiras que pintou o jardineiro Daveau. Do outro lado da minha galáxia, mesmo em frente à <em>casa assombrada</em> e assombrosa que foi o útero abobadado onde cresci, espraiava-se, majestático, o Jardim do Princípe Real. O jardim e o famoso “<em>cupressus Lusitanea Miller</em>” que é cipreste e não cedro, e que é a sombra mais sombra de todas as sombras da Europa. Era esse, aliás, o mais Mundo dos meus Mundos. Explorei-o, de fio a pavio, do lago oitavado à casa do jardineiro que se fez casa de chá, do quiosque perdido à esquina aos bancos de sueca, dias sem fim, de uma alegria pegada e pegajosa, protegido no colo protector da minha mãe ou sob o olhar à prova de todos os monstros que era o olhar de menina doce dessa terrena Maria que também me foi Mãe. Mais à frente, logo ao virar da esquina, ficava o limite do mundo que cartografei. A seguir ao Miradouro de São Pedro de Alcântara era a Terra que mergulhava no Nada. Comprávamos um cartucho pardo de milho, a minha mão minúscula na mão sempre quente do meu pai, os pombos faziam as vezes de anjos e eu, que me tornava senhor deles, ficava simultaneamente no fim e no centro de um Mundo que, no tempo doce que era o tempo de então, girava serenamente à minha procura.</p>
<p>O Deus deste meu firmamento, o Júpiter deste meu Olimpo, falta dizê-lo, fazia as vezes de meu avô e já vos contei que não sei de ninguém que mentisse tão fabulosa e tão extravagantemente. Caçávamos todos os elefantes de África, todos os leões, rinocerontes e palancas negras gigantes que assombravam as Terras do Fim do Mundo. Atravessávamos todos os rios, nadámos todos os desertos, guiámos todos os vapores, enfrentámos todos os pavores. Ensinou-me os mistérios do chocolate suiço e os daquele armário envernizado, delirante de gavetas e fundos falsos. Sonhou-me com Paris, com a Roça D. Augusta, apresentou-me o Xá da Pérsia e fez-me, por correspondência, amigo do seu avô que também tinha sido o seu particularíssimo Deus. Mas o que é mais de tudo, amava-me tão completa e tão incondicionalmente que fazia da minha vida um lugar seguro. E do futuro um destino luminoso de tão risonho.</p>
<p>Tive, repito, a mais doce de todas infâncias. Só eu sei porque morreu. Mas um dia destes talvez vos confesse o dia, a hora e o número da frisa no cinema Tivoli onde a vi pela última vez.</p>
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		<title>Deixemo-nos de partes gagas!</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Feb 2011 19:27:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[  1 – A moção pode ser contra a direita, a esquerda, o futebol do Sporting, a desflorestação da selva amazónica ou a invasão do país pelos marcianos. Podem existir derrapagem orçamental, medidas estruturais ou falta delas e o que mais se queira sugerir ou inventar. Pode vir o FMI ou o rancho folclórico da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="mceTemp mceIEcenter">
<p style="text-align: center;"> </p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<div id="attachment_25123" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-25123 " title="Ansel-Adams-11" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/Ansel-Adams-11-300x321.gif" alt="" width="300" height="321" /><p class="wp-caption-text">Ansel Adams</p></div>
<p><br class="spacer_" /></p>
<div class="mceTemp" style="text-align: center;">
<p><br class="spacer_" /></p>
<div id="attachment_25122" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-25122" title="ansel adams 2" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/ansel-adams-2-300x363.jpg" alt="" width="300" height="363" /><p class="wp-caption-text">Ansel Adams</p></div>
<p><br class="spacer_" /></p>
</div>
<div class="mceTemp" style="text-align: justify;"><br class="spacer_" />1 – A moção pode ser contra a direita, a esquerda, o futebol do Sporting, a desflorestação da selva amazónica ou a invasão do país pelos marcianos. Podem existir derrapagem orçamental, medidas estruturais ou falta delas e o que mais se queira sugerir ou inventar. Pode vir o FMI ou o rancho folclórico da baixa Sildávia. A moção pode partir do Bloco, do PCP ou de um repente de um qualquer Paulinho das feiras. Mas será assim tão difícil perceber que é o sonho, perdão, as sondagens que comandam a vida politica? Será assim tão difícil perceber que só das sondagens pode depender o imprescindível apoio do PSD a uma qualquer moção de censura ao governo? Será que é difícil entender que é fundamental que surjam, primeiro, estudos de opinião consistentes sobre uma vitória clara da direita em cenário de antecipação de eleições? Até lá, como diria a minha avó, vamo-nos deixar de partes gagas, está bem?</div>
</div>
<p>2 – Alexandre Soares dos Santos chegou, e bem, n’ “o Sócrates”.  Sem paninhos quentes, acusou o Primeiro Ministro de ser especialista em “truques”.  E a coisa, como todas as coisas bizarras, fez-se notícia. Sem tirar qualquer mérito à frontalidade com que o patrão da Jerónimo Martins decidiu afrontar o governo, retiro do episódio uma pequena lição: o tento na língua dos empresários portugueses é inversamente proporcional à percentagem dos lucros gerados no território nacional. No país das maravilhas que é a nossa ensandecida pátria, o ensurdecedor silêncio de todos os demais, que é o que verdadeiramente faz do desabafo uma notícia, é uma demonstração eloquente do grau do seu aprisionamento ao estado.</p>
<p>3 – Perdoem-me se não resisto e se volto ao tema. Mais de 20% dos jovens até aos 24 anos estão desempregados. São quase um em cada quatro. Quase 100.000. Pode gostar-se ou não do fenómeno Deolinda e da geração que representa. Podemos chamar-lhes geração rasca ou, hipótese que me parece apesar de tudo mais justa, geração “à” rasca. Gostos não se discutem. Mas o que me deixa verdadeiramente pasmado é ver esta discussão feita ao contrario. Ver tanta gente inteligente, à esquerda e à direita, entrincheirada de forma maniqueísta em posições ideologicamente trocadas. Eu sei que o mundo está louco mas neste caso, quer parecer-me, o erro é de mero diagnóstico. E é por precipitação que o debate se faz de pés para o ar. Explico melhor: ao contrario do que muitos querem fazer crer, a causa dos jovens desempregados não é a causa dos que, imobilistas e garantistas, querem uma vida feita de facilidades e um emprego para a vida. É a causa de todos quantos querem (ou deviam querer) precisamente o contrario. Porque é obviamente dos nossos empregos para a vida, da insustentabilidade das garantias que fomos abocanhando, da ortodoxia dos nossos sindicatos (que, é bom recordá-lo, são sindicatos de empregados e não de desempregados) que nascem as vidas sem emprego de que muito justamente podem queixar-se os jovens excluídos do actual sistema. Não será inteligente ofender simultaneamente a esquerda e a direita mas parece-me cristalinamente óbvio que “Parva que sou” é um brilhante manifesto liberal.</p>
<p><em> </em></p>
<p><em>Publicado na Visão em 24.2.2011</em></p>
<p><em>PS: O editorial — por definição inspiradíssimo — do nosso Manuel Hoxha Fonseca é muito claro:</em><em> a política não mora neste cemitério. Se me atrevo a trazer até aqui este texto é porque recebi ordem — não menos categórica — da nossa Eugénia Luxemburg Vasconcelos. Como não sei por qual dos dois tenho mais respeitinho, optei por obedecer a quem me prometesse que nunca, mas mesmo nunca, nos ia trair com um semanário de referência. Ah pois é…</em></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
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		<title>A fase da mão na mama</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Feb 2011 16:44:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Receio bem que seja verdade o que a EV diz aqui. Por uma vez, sem exemplo, não é ela que mente. O Delito é meu. Mas digam lá se o boneco não justifica uma traiçãozinha:]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Receio bem que seja verdade o que a EV diz <a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/02/traidos-e-no-dia-de-sao-valentim/">aqui</a>. Por uma vez, sem exemplo, não é ela que mente. O <a href="http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/2680103.html">Delito</a> é meu. Mas digam lá se o boneco não justifica uma traiçãozinha:</p>
<div id="attachment_24723" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-24723" title="VENUS-E-CUPIDO-de-AGNOLO-BRONZINO" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/VENUS-E-CUPIDO-de-AGNOLO-BRONZINO-500x627.jpg" alt="" width="500" height="627" /><p class="wp-caption-text">Cupido com a mão na dita. Por Bronzino</p></div>
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		<title>Olho em frente e vejo o nada</title>
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		<pubDate>Fri, 11 Feb 2011 23:50:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ Olho em frente e vejo o nada. Um muro imenso feito de tempo. Tempo granítico, concreto, vulcânico. Tempo original, primordial, eterno. Tempo uterino, visceral, sanguíneo. É assim desde que o Mundo é Mundo. Vimos do nada, voltamos ao nada, e é no brevíssimo espaço entre o negro e coisa nenhuma que vivemos, intensamente, a ilusão do tempo. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-24521" title="I_Am_a_Bird_Now" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/I_Am_a_Bird_Now.jpg" alt="" width="500" height="500" /></p>
<p> Olho em frente e vejo o nada. Um muro imenso feito de tempo. Tempo granítico, concreto, vulcânico. Tempo original, primordial, eterno. Tempo uterino, visceral, sanguíneo. É assim desde que o Mundo é Mundo. Vimos do nada, voltamos ao nada, e é no brevíssimo espaço entre o negro e coisa nenhuma que vivemos, intensamente, a ilusão do tempo. Somos, fomos, seremos? Pura ilusão. Não existe, não existiu nunca, ontem, hoje e amanhã. Não somos, nunca fomos, muito menos seremos. Imaginamos o tempo para fingir a vida. Sonhamos o tempo para dar guarida às memórias do que nunca verdadeiramente foi. Olho em frente e vejo o nada. O tempo é um muro inexpugnável no principio e no fim de tudo. Só a morte verdadeiramente é. A morte e o frio. Olho em frente e vejo o nada.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Bacalhau e Democracia *</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Feb 2011 22:07:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ana Bacalhau provavelmente não sabe mas encaixa com toda a legitimidade na novel categoria de “politólogo” que tomou conta do espaço público nos últimos anos. Não tanto porque ganhe a vida a fazer cenários e a alimentar teorias da conspiração mas porque muito fez para recuperar um debate, perigosamente adormecido, que é essencial para pensar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><br class="spacer_" /></p>
<div id="attachment_24547" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-full wp-image-24547" title="migrant Mother, Nipomo, California" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/migrant-Mother-Nipomo-California.jpg" alt="" width="500" height="333" /><p class="wp-caption-text">Migrant Mother. Dorothea Lange</p></div>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p>Ana Bacalhau provavelmente não sabe mas encaixa com toda a legitimidade na novel categoria de “politólogo” que tomou conta do espaço público nos últimos anos. Não tanto porque ganhe a vida a fazer cenários e a alimentar teorias da conspiração mas porque muito fez para recuperar um debate, perigosamente adormecido, que é essencial para pensar e sustentar a ideia democrática.</p>
<p>Bem sei que não colocou a questão exactamente nestes termos, mas é do problema da insuficiência de legitimidade intergeracional da Democracia que fala a sua “<em>geração sem remuneração</em>”. De facto, o nosso regime político assenta na ideia de que os governos podem ser afastados, periodicamente, de forma não violenta e por vontade da maioria dos eleitores. Mas subjacente a esta ideia fundacional está, obviamente, o pressuposto de que os eleitores estão em condições de avaliar todas as consequências da acção dos governantes.</p>
<p>Ora uma das (várias) limitações da ideia democrática é a de que não incorpora uma solução para a legitimação de decisões que produzam efeitos a muito longo prazo e cujas consequências só possam ser avaliadas por gerações distintas daquelas que sufragaram a acção de um determinado governo. E não é difícil perceber que não são poucos os casos em que determinadas decisões políticas geram benefícios imediatos e para uma determinada geração de eleitores sendo que, simultaneamente, acarretam consequências e custos que só serão suportados por uma geração diferente e que nunca será chamada a caucionar a decisão original.</p>
<p>Dir-se-á que esta limitação da arquitectura democrática não é nova e que o regime tem sobrevivido razoavelmente bem à deficiência. E é verdade. Mas também não é menos verdade que, nas últimas décadas, graças em parte a uma crescente sofisticação dos instrumentos financeiros, tem aumentado — e muito — o número e a escala das decisões políticas que acarretam um significativo desajustamento temporal entre os benefícios e os custos que lhes estão implícitos. Das malfadadas SCUT’s, às nebulosas parcerias público-privadas, passando pelos sofisticados esquemas de financiamento a longo prazo das grandes obras públicas o que vemos são o multiplicar de exemplos de antecipação de benefícios e direitos por contrapartida do adiamento — muitas vezes escamoteado — de custos e deveres.</p>
<p>A questão que agora se começa a colocar, à medida que chegam à idade eleitoral os milhares de jovens que são chamados a pagar a factura de uma prosperidade artificial de que os seus pais gozaram, é a de saber até que ponto são sustentáveis as tensões que este fenómeno coloca sobre o nosso sistema político e constitucional. Porque é normal, convenhamos, que esta geração se sinta pouco apegada a um regime que — sem sombra de legitimidade — os traiu e “tramou”. E bem tramados, de resto.</p>
<p>Já bastavam à Democracia todas as demais doenças da modernidade. Mas esta crise da legitimidade intergeracional pode bem ser o grande desafio que tem pela frente.</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p>*<em> Texto publicado na revista <strong>Visão</strong> a 10.02.2011</em></p>
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		<title>Shorts para um mês short</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Feb 2011 23:22:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_24521" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-full wp-image-24521" title="I_Am_a_Bird_Now" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/I_Am_a_Bird_Now.jpg" alt="" width="500" height="500" /><p class="wp-caption-text">Peter Hujar, 1974</p></div>
<p><br class="spacer_" /></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Uns palavrões em forma de assim</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Feb 2011 22:44:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Domingo passado fui à Tate Modern e dei com uma exposição do artista mexicano Gabriel Orozco. Se neste blog pudessem escrever-se uns palavrões em forma de assim, contava-vos qual foi a veneranda entidade que apoiou o evento. Paciência. A curiosidade matou o gato.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><br class="spacer_" /></p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-24237" title="orozco" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/orozco.jpg" alt="" width="300" height="234" /></p>
<p>Domingo passado fui à Tate Modern e dei com uma exposição do artista mexicano Gabriel Orozco. Se neste blog pudessem escrever-se uns palavrões em forma de assim, contava-vos qual foi a veneranda entidade que apoiou o evento. Paciência. A curiosidade matou o <a href="http://www.conaculta.gob.mx/">gato</a>.</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
]]></content:encoded>
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		<title>A Presença dos Ausentes</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2010/12/22852/</link>
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		<pubDate>Wed, 29 Dec 2010 11:55:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Estou exausto. De aqui estar, para sempre fixado a óleo, para sempre suspenso, para sempre bom ladrão, para sempre ao teu lado. “Para dar presença aos ausentes”, dizias que dizia Alberti. Uma porra. A eternidade é tempo de mais e ninguém tem direito a condenar-nos à perpétua prisão de um simples instante. Estou exausto. De [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/12/george-grosz-the-lovesick-man-19161.gif" alt="" title="george-grosz-the-lovesick-man-1916" width="400" height="519" class="aligncenter size-full wp-image-22619" /></p>
<p>Estou exausto. De aqui estar, para sempre fixado a óleo, para sempre suspenso, para sempre bom ladrão, para sempre ao teu lado. “Para dar presença aos ausentes”, dizias que dizia Alberti. Uma porra. A eternidade é tempo de mais e ninguém tem direito a condenar-nos à perpétua prisão de um simples instante.<br />
Estou exausto. De fingir sem fim a presença quando é obviamente de ausência infinita que se faz o teu olhar vazio, o meu mundo latido. Ninguém tem direito a emparedar-nos assim. Transparentes de insignificantes, espessos de arcanos significados.<br />
Estou exausto. De vazio. De não ser o pai sofrido que se adivinha tatuado no sudário translúcido que é o teu desconsolado espírito. De não ser o teu cristíco filho, afogado, horizontal e azul, em mares nunca antes prometidos. De não ser epifania nem aparição mas simples consolo de uma fé em trompe l’oeil que finges ser tua.<br />
Estou exausto. De aqui estar mas sobretudo de lá ter sido. Foram, antes destes que são anos de eterna crucificação, anos longe demais.Como se ontem houvesse amanhã. Como se não fosses Pai e ele não fosse inteiro de ti. Como se eu não fosse absoluta e destemperadamente só. Estou exausto. Amar cansa. E a eterna impossibilidade de ser amado cansa mais ainda.<br />
Não é preciso voltar a citar-te Alberti, pois não? O Pai sempre presente, o Filho eterno ausente, e o Cão sou logo eu.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Ernâni Rodrigues Lopes</title>
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		<pubDate>Wed, 08 Dec 2010 14:56:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
				<category><![CDATA[Queridos Mortos]]></category>

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		<description><![CDATA[Conheci-o na altura em que me conheci a mim mesmo. Mais coisa, menos coisa. Eu era dois palmos de gente, um bibe azul de gola branca e uma gravata muito fininha e pintada de encarnado. De elástico. Porque essas coisas dos nós, os das gravatas mas sobretudo os mais metafóricos, são marca e são privilégio [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-22269" title="Ernani_Lopes" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/12/Ernani_Lopes.jpg" alt="" width="338" height="183" /></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p>Conheci-o na altura em que me conheci a mim mesmo. Mais coisa, menos coisa. Eu era dois palmos de gente, um bibe azul de gola branca e uma gravata muito fininha e pintada de encarnado. De elástico. Porque essas coisas dos nós, os das gravatas mas sobretudo os mais metafóricos, são marca e são privilégio da passagem à idade adulta. Ele, já se vê, era um gigante. Um gigante que só desajeitadamente escondia os afectos por trás daquele ar severo. Mas era, apesar de tudo, um gigante. Era o pai, imagine-se o respeitinho imenso, da minha amiga Sofia. E a minha amiga Sofia era o único amparo que eu tinha naquele recreio de tempo infinito, cheio de pigmeus selvagens a gritar a preto e branco e a chorar em francês. Ele era um dos raríssimos amigos do amigo misterioso que era o meu pai. E todos os Natais que foram verdadeiramente Natais, e que foram todos quantos vivi em casa do eterno herói da minha meninice, foram pontuados pela sua visita fugaz. Faltavam sempre poucos minutos para o jantar. O ritual, tal como o recordo, era solene, brevíssimo, tímido. E a troca de presentes fazia as vezes de embrulho de uma amizade que era de gerações.</p>
<p>Até que veio a revolução. Aquela coisa simultaneamente assustadora e esperançosa, aqueles amanhãs que cantam que eram sobretudo proletários pretextos para eu faltar à escola. E ele, a Sofia e o resto da família rumaram, sem aviso prévio, a um lugar estranho. Uma capital tão estranha de um país tão estranho que acabariam por deixar de sê-lo. E nós lá fomos. Ver o Reno, ver o Mundo que se tinha feito infinitamente mais pequeno, mas sobretudo vê-los a eles. Numa casa branca e enorme, num relvado sem fim e no primeiro de todos os sótãos onde dormi. Lá fora, no incompreensível inverno dos adultos, tudo mudava, tudo girava, tudo era angústia, tudo era futuro. Só no particularíssimo mundo que era o nosso, tudo continuava acolhedoramente na mesma. O gigante de voz pausada e de eterno cachimbo continuava de uma imponência suave. A Sofia continuava a ser a amiga de sempre. E foi de resto assim, que os reencontrei, enormes, amigos, e amigos enormes, anos volvidos, na capital mais cinzenta do país mais cinzento de uma Europa que, mais do que ninguém, ele quis fazer nossa.</p>
<p>Boa parte do resto desta história é verdadeiramente História e eu passei a vivê-la a uma respeitadora e cuidadosa distância. Que é a distância que deve guardar-se de um amigo do pai que se fez pessoa verdadeiramente importante. Não tanto porque ele se sentisse coisa diferente, mas porque os meus olhos espantados de adolescente teimavam em ver o Ministro onde ele sempre quis que estivesse apenas o Homem. A minha sageza era tão pouca, que ao Ministro deixei aliás que se seguisse, no lugar que era o meu espírito, o Professor. Distante, analítico, tremendista, austero. Tudo era gravidade, tudo era cinzento, o mundo parecia não ter solução e até o privilégio imenso das sessões individuais de tutoria eram rituais de uma frugalidade que então me parecia assustadoramente densa.</p>
<p>Quis o destino que lhe fizesse, já a faculdade e o mestrado tinham ficado para trás, aquele telefonema. Precisei de uma ajuda. A paixão era marítima e era comum e ele, generoso, estendeu-me a mão com a simplicidade que sempre foi sua. Dias depois, foi a sua vez de me fazer um pedido. Sabedor (desconfio) do meu militante ateísmo, “<em>gostava que me viesses ouvir, logo à noite, na Igreja das Mercês</em>”. Era Julho, a cidade adormecia sob um céu de chumbo. Mas a resposta só podia ser uma e eu lá rumei, desconfiado, a um lugar onde nunca tinha posto os pés. O tema era o “Futuro da Europa”, o lugar, convenhamos, era insólito e o tempo propício a mais tropicais devaneios. Mas tudo isso foi nada. Porque foi a assistência que verdadeiramente me deixou siderado. Professores? Académicos? Estudantes? Desenganem-se. Naquela noite improvável de Verão, a palestra, metodicamente preparada, laboriosamente estruturada, apaixonadamente esbracejada, longa de duas horas e meia, foi dirigida à mais humilde das plateias que possam imaginar. O Ministro era nenhum, o Professor parecia nunca tê-lo sido e ele era de novo o gigante simples dos afectos escondidos. Uma das mais sólidas referências éticas da minha vida.</p>
<p>Quis o destino que pudesse, para sempre, recordá-lo assim.</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
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		<title>Morreste-me (*)</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Nov 2010 22:44:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[No principio, sabes bem, era o Nada. A minha alma era feliz de trevas, a minha memória era um céu invertido de histórias nenhumas. O amor, o desejo, o medo e a dor eram abismos sem ser nem lugar. E era apenas vento o que soprava dentro de mim. No princípio, sabes bem, era o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-21467" title="a-very-married-woman-300x3761" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/11/a-very-married-woman-300x3761.jpg" alt="" width="300" height="376" /></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p>No principio, sabes bem, era o Nada. A minha alma era feliz de trevas, a minha memória era um céu invertido de histórias nenhumas. O amor, o desejo, o medo e a dor eram abismos sem ser nem lugar. E era apenas vento o que soprava dentro de mim. No princípio, sabes bem, era o Nada. Era o Nada, eu não rezava e e não queria deixar de ser Caos.</p>
<p>Quiseste fazer a luz, quiseste fazer as manhãs e quiseste sonhar comigo todas as tardes do Mundo. Quiseste afogar a minha alma de mar, quiseste fazer a terra inteira no meu coração. Quiseste nascer, quiseste crescer e fazer-te de mim. Quiseste fazer-me de ti. Foste êxodo, foste dilúvio e por breves instantes que me pareceram ser Sempre, quiseste dar luzeiros ao meu firmamento. Ocupaste cada pedaço de mim. Fizeste-me concreto e eu deixei-me ser criação.</p>
<p>Morreste-me. Nesse reflexo enganador que é ainda o teu e que o meu corpo teima em conservar de ti. Morreste-me. Mas eu já esqueci como era não ser.</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p><em>(*) <strong>“Morreste-me”</strong> é um título delicadamente feliz que roubei ao José Luis Peixoto.</em></p>
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		<title>Desencantada esperança</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Oct 2010 23:53:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[1 — Pertenço a uma geração de portugueses que se privatizou. Não fomos chamados a “fazer” a revolução — o que em si mesmo é coisa boa porque um país não se constrói aos solavancos e a Inglaterra, por exemplo, nunca verdadeiramente precisou de fazer uma — nem nunca sentimos a urgência ou o verdadeiro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><br class="spacer_" /></p>
<div id="attachment_20869" class="wp-caption aligncenter" style="width: 460px"><img class="size-full wp-image-20869" title="walker-evans-03" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/walker-evans-03.jpg" alt="" width="450" height="324" /><p class="wp-caption-text">Walker Evans, Truck and Sign. New York. 1930</p></div>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p>1 — Pertenço a uma geração de portugueses que se privatizou. Não fomos chamados a “fazer” a revolução — o que em si mesmo é coisa boa porque um país não se constrói aos solavancos e a Inglaterra, por exemplo, nunca verdadeiramente precisou de fazer uma — nem nunca sentimos a urgência ou o verdadeiro imperativo de dar parte de nós à coisa pública (expressão, de resto, requintadamente hipócrita porque de hipocrisia se fez, obviamente, esta esfarrapada desculpa que sempre legitimou as mais interesseiras de todas as “generosidades”). Mais por comodismo e soberba do que por real impossibilidade, mais por confiar em nós do que por confiar em quem fazia oposta escolha, fomos acreditando que era possível deixar a César o que é de César. Não que não percebêssemos que os partidos já quase só se faziam de gente sem real alternativa ou pinga de cívico interesse. Não que não percebêssemos que se fechavam, cada vez mais, sobre si mesmos, desconfiados de si e do mundo, perdidos numa paranoia intestina já sem qualquer adesão ao real. Não que não adivinhássemos que a política se fazia, a cada ano que passava, mais irreformável de tão voraz, mais suicida de tão impune.</p>
<p>Acontece que, mesmo sem o saber, mesmo sem o verbalizar, ambicionámos fazer de nós um pouco de Itália. Imaginámos um país que podia dispensar a política, que podia desprezar a política, que podia fazer-se apesar da política. Está bem de ver, enganámo-nos. Redonda e estrepitosamente. Temos, nesta crise que é financeira e económica mas que é sobretudo crise de ética e de decência, tanta ou mais responsabilidade que todos os outros. O Portugal que deixarmos aos nossos filhos é também culpa nossa. Percebê-lo é uma questão de honestidade e de sanidade, mas é sobretudo pré-condição essencial para qualquer assomo de uma imprescindível mudança.</p>
<p>2 — A economia não é mais do que uma ciência de agregados. Uma soma impessoal de decisões, todas elas, cada uma à sua maneira, pessoalíssimas. É por sabê-lo que verdadeiramente me preocupo quando me apanho a desejar, para os meus próprios filhos, um futuro que se faça de emigração. Um futuro que não esteja condicionado, muito menos condenado à partida, por um país em que medra a mediocridade, por um país que faz das relações perversas entre interesses públicos e privados todo um paradigma de (sub)desenvolvimento, por um país sem justiça nem real igualdade de oportunidades, por um país, em suma, que lhes seja um peso absurdo. E é por saber esse desejo feito, apesar de tudo, mais de privilegiada desesperança do que de real desespero (que é, infelizmente, o que sentem cada vez mais portugueses), que mais verdadeiramente me preocupo. Por cada português que desiste de uma certa ideia de pátria, há mais um pouco do país que se deixa morrer. Portugal, mais não é do que a soma das nossas desesperanças e dos nossos desencantos. É isso que verdadeiramente preocupa. E é portanto isso que estamos eticamente obrigados a inverter. O tempo, paradoxalmente, reclama esperança. Nem que seja desencantada esperança.</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p><em>Publicado na Visão em 28.10.2010</em></p>
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		<title>Postais de Viena (VI)</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Oct 2010 09:59:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Já vos falei aqui do Kunsthistorisches Museum. Formado a partir das colecções imperiais da casa de Habsburgo, entrou directamente para o meu top ten dos melhores museus em todo o Mundo (vale o que vale, mas cá em casa vale alguma coisa). Dizem os entendidos que o conjunto é desigual porque desigual era o domínio [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Já vos falei aqui do <strong><a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/10/postais-de-viena-iii/">Kunsthistorisches Museum</a></strong>. Formado a partir das colecções imperiais da casa de Habsburgo, entrou directamente para o meu <em>top ten</em> dos melhores museus em todo o Mundo (vale o que vale, mas cá em casa vale alguma coisa). Dizem os entendidos que o conjunto é desigual porque desigual era o domínio austríaco sobre a Europa. Que está pouco representada a pintura italiana de <em>Trecento</em> e <em>Quattrocento</em>, a pintura francesa em geral, mas que em compensação, a pintura barroca de Bolonha, Florença, Nápoles e Veneza, assim como a pintura flamenga dos séculos XVI e XVII estão documentadas com excepcional riqueza. Enfim, esquisitices. Quem vir o que eu vi não consegue deixar de embasbacar-se como, saloio, me embasbaquei.</p>
<p>Particularmente bem representado está um dos grandes pintores da minha meninice, não porque eu seja assim tão velho, mas porque era de Bruegel que o meu pai mais gostava. Está lá o seu diagonal <em>Casamento de camponeses</em> que sempre me impressionou pela solidão verde e silenciosa da noiva que um costume flamengo da época condenava a que assistisse, ao seu próprio noivado, sem comer, sem falar, mas sobretudo sem a libidinosa companhia do seu recém adquirido esposo, companheiro ou assim.</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<div id="attachment_20688" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-20688 " title="bruegel 1" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/bruegel-1-500x342.jpg" alt="" width="500" height="342" /><p class="wp-caption-text">Pieter Bruegel o Velho, Casamento de Camponeses. 1565</p></div>
<p>Estão lá, encomendados pelo banqueiro Niclaes Jongelinck para completar um conjunto de seis retratos (dedicados a cada uma das estações de que, à época, se fazia o ano), os glaciares<em> Caçadores da Neve</em>, regressados de uma magra jornada, cães mais que famélicos, velhos mais que enrugados, rapazes mais que deslizantes, todos verdes de cinzento. E estão lá todas as outras histórias dentro da história de que se fazia a arte miniaturista do velho Bruegel: a menina, em baixo à direita, que obriga a irmã mais nova a alombar com o trenó; os corvos que, aqui e ali, salpicam a neve de preto; o camponês de costas quebradas que arrasta um junta de bois. E todas as outras fantasias que queiram inventar, numa tarde de Inverno, confortavelmente sentados, alma a crepitar de lenha, o dia a fechar-se sobre a aldeia.</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<div id="attachment_20689" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-20689" title="Bruegel 3" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/Bruegel-3-500x368.jpg" alt="" width="500" height="368" /><p class="wp-caption-text">Pieter Bruegel o Velho, Caçadores na Neve. 1565</p></div>
<p>Está lá a impossível <em>Torre de Babel</em>. Imensa, delirante, já levemente inclinada como que a anunciar a bíblica desgraça. Está lá o rei Nimrod, a rebentar de zigurática vaidade, de servidores, de uma orgia de descobertas cabeças. E se o monarca apócrifo parece ainda reinar sobre a minúscula cidade, é já a Torre que o esmaga e que reina com ele. Em breve abater-se-á sobre o porto, sobre as frágeis caravelas de óleo, sobre a jangada inútil e sobre a cabeça das dezenas de homens formiga que enxameiam de obsessivo preciosismo o delírio de Bruegel.</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<div id="attachment_20692" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-20692" title="Bruegel 2" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/Bruegel-2-500x376.jpg" alt="Pieter Bruegel o Velho, A Torre de Babel. 1563" width="500" height="376" /><p class="wp-caption-text">Pieter Bruegel o Velho, A Torre de Babel. 1563</p></div>
<p>Mas de todos os que lá estão, o que mais lá está e o que mais me refez menino do meu pai é o magnético <em>Jogos Infantis</em>. É uma das obras mais enciclopédicas de um dos mais enciclopédicos pintores do século XVI. Garante quem já os contou que são 230 as crianças e 83 os jogos diferentes a que se dedicam. Pim pam pum. Bolas, rodas, aros, tacos, varapaus, cavalos de fingir, saquinhos de areia, máscaras de aterrar e barretes de pasmar. Socos, abraços, cavalitas, gargalhadas, rapazes de cabeça para baixo e raparigas de cabeça tapada. E, cá em baixo, bem ao centro, nem sequer a falta a eterna menina a explorar, á distância periclitante de um galho frágil, os mistérios insondáveis de um cócó de vaca competentemente enrodilhado. Digo eu, porque também me juram que, onde eu vejo excrementos, o velho Bruegel quis pintar um pião. Que se lixe, respondo eu aos livros plenos de sapiência. O fascínio do pintor flamengo é precisamente este. Divirto-me a pintar 230 histórias dentro da história maior que é a parábola sobre a insensatez humana. Cada criança é um nome, uma biografia, uma tragédia, um mundo muito seu. E sou eu, sentado na tarde de Viena, armado dos meus fantasmas e das minhas memórias de gaiato feliz, que os pinto como bem entendo. Pode lá haver divertimento maior? </p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<div id="attachment_20714" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-20714" title="bruegel 4" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/bruegel-4-500x357.jpg" alt="" width="500" height="357" /><p class="wp-caption-text">Pieter Bruegel, o Velho, Jogos infantis. 1560</p></div>
<p><br class="spacer_" /></p>
<div id="attachment_20715" class="wp-caption aligncenter" style="width: 166px"><img class="size-full wp-image-20715" title="bruegel - menina do coco" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/bruegel-menina-do-coco.jpg" alt="" width="156" height="108" /><p class="wp-caption-text">Cócó, digo eu.</p></div>
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		<title>Postais de Viena (V)</title>
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		<pubDate>Sun, 17 Oct 2010 11:39:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A pedido da Joana e da curiosidade dela que também é a minha, mergulho num passado, perdido de dourados, de esboços e fotografias de época. O que devia ainda ser, de facto, já não pode sê-lo. Só de esquissos pretéritos que se pode ir fazendo o presente.  ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/10/postais-de-viena-iv/">pedido</a> da Joana e da curiosidade dela que também é a minha, mergulho num passado, perdido de dourados, de esboços e fotografias de época. O que devia ainda ser, de facto, já não pode sê-lo. Só de esquissos pretéritos que se pode ir fazendo o presente.</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<div id="attachment_20460" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-20460" title="gustav-klimt-jurisprudence" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/gustav-klimt-jurisprudence1-300x450.jpg" alt="" width="300" height="450" /><p class="wp-caption-text">Gustav Klimt, Jurisprudência.</p></div>
<p><br class="spacer_" /></p>
<div id="attachment_20461" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-20461" title="klimt filosofia" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/klimt-filosofia1-300x429.jpg" alt="" width="300" height="429" /><p class="wp-caption-text">Gustav Klimt, Filosofia. Esboço.</p></div>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<div id="attachment_20459" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-20459" title="medicineklimt" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/medicineklimt-300x442.jpg" alt="" width="300" height="442" /><p class="wp-caption-text">Gustav Klimt, Medicina.</p></div>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p style="text-align: center;"> </p>
<p><br class="spacer_" /></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Postais de Viena (IV)</title>
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		<pubDate>Sat, 16 Oct 2010 13:19:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[O magnífico Farm Garden With Crucifix que incendiei aqui, não é a única obra perdida de Gustav Klimt. Nem é provavelmente a mais famosa. A grande controvérsia artística do fin de siècle vienense deu-se a propósito dos seus quadros Filosofia, Medicina e Jurisprudência. A obra tinha sido encomendada para a recém-inaugurada Universidade de Viena mas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O magnífico <em><strong>Farm Garden With Crucifix</strong></em> que incendiei <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/10/postais-de-viena-ii/">aqui</a>, não é a única obra perdida de Gustav Klimt. Nem é provavelmente a mais famosa. A grande controvérsia artística do<em> fin de siècle</em> vienense deu-se a propósito dos seus quadros <strong><em>Filosofia</em></strong>, <strong><em>Medicina</em></strong> e <strong>Jurisprudência</strong>. A obra tinha sido encomendada para a recém-inaugurada Universidade de Viena mas as curvas, sugestivas e generosas, da proposta de Klimt foram recebidas com lúbrico escândalo. “Pornografia”, “perversão”, “afronta artística” e, sabem como é, outros mimos do mesmo calibre. A polémica atingiu proporções tais (a magna questão foi debatida no Parlamento e o Ministério da Cultura austríaco chegou a impedir o envio dos quadros à Exposição Mundial de St. Louis em 1904) que foi ao nariz do próprio Gustav que subiu a mostarda. Mandou a Universidade à fava, recuperou as obras e comprometeu-se a restituir as 30.000 coroas entretanto recebidas a título de adiantamento. 30.000 coroas que, bem entendido, já não tinha. Mais uma vez, foram os <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/10/postais-de-viena-ii/">Lederer</a> que vieram em seu auxílio. E que receberam, na volta do correio, a <strong><em>Filosofia</em></strong>, toda a filosofia, <em>elle</em><em> </em><em>même</em>. A <strong><em>Medicina</em></strong> e a <strong><em>Jurisprudência</em></strong>, ciências reconhecidamente menores, acabaram, depois de mais umas aventuras, por ter o mesmo acarinhado destino. Antes de rumarem, tal como o <em><strong>Jardim do Crucifixo</strong></em>, ao Castelo de Immendorf e ao encontro das chamas.</p>
<p>Para a história desta história só ficaram alguns esboços das três telas. E uma preciosíssima ironia do destino: o <strong><em>Peixe Dourado,</em></strong> assim baptizado por insistência avisada dos amigos do pintor que teria preferido chamar-lhe, no auge da controvérsia da Faculdade… “<strong><em>Aos meus críticos</em></strong>”. Já tenho visto bofetadas menos elegantes.</p>
<div id="attachment_20439" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-20439" title="GustavKlimt-Gold-Fish-1901-02" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/GustavKlimt-Gold-Fish-1901-02.jpg" alt="" width="300" height="839" /><p class="wp-caption-text">Gustav Klimt, Peixe Dourado. 1901/02</p></div>
<p style="text-align: center;"> </p>
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		<title>Postais de Viena (III)</title>
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		<pubDate>Fri, 15 Oct 2010 23:38:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Em Viena, fugidas da distante Betúlia, vivem duas Judites. Duas bíblicas Judites de se perder a cabeça. Holofernes que o diga porque a perdeu, muito bem perdida. Para Cranach, em 1530 e para Klimt, corria já o ano de 1901. A primeira, de decote generoso e empunhando, ameaçadora, a arma ainda erecta, vive, toda vermelhos, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em Viena, fugidas da distante Betúlia, vivem duas Judites. Duas bíblicas Judites de se perder a cabeça. Holofernes que o diga porque a perdeu, muito bem perdida. Para Cranach, em 1530 e para Klimt, corria já o ano de 1901. A primeira, de decote generoso e empunhando, ameaçadora, a arma ainda erecta, vive, toda vermelhos, no magnífico<em> Kunsthistorisches Museum</em>. A segunda, sensualíssima, que ninguém imagina a disferir “<em>com toda a força, dois golpes no pescoço de Holofernes</em>” (Jt 13,6), mora no decadente <em>Belvedere</em>. A primeira é ruiva e é filha de inspiração incógnita. A segunda, morena, tem a boca entreaberta de Adele Bloch-Bauer que Klimt viria a beijar, em tons de dourado êxtase, seis anos mais tarde. Entre as duas, <em>mon coeur balance.</em> Não sei se prefira a que os peitos sugere, se a que o peito revela.</p>
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<div id="attachment_20409" class="wp-caption aligncenter" style="width: 419px"><img class="size-full wp-image-20409" title="Lucas_Cranach" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/Lucas_Cranach.jpg" alt="" width="409" height="599" /><p class="wp-caption-text">Lucas Cranach, Judite com a cabeça de Holofernes. 1530</p></div>
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<div id="attachment_20410" class="wp-caption aligncenter" style="width: 312px"><img class="size-full wp-image-20410 " title="klimt_judith1_400" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/klimt_judith1_400.jpg" alt="Gustav Klimt, Judite I. 1901." width="302" height="600" /><p class="wp-caption-text">Gustav Klimt, Judite I. 1901.</p></div>
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<div id="attachment_20412" class="wp-caption aligncenter" style="width: 410px"><img class="size-full wp-image-20412  " title="adele-bloch-bauer-i" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/adele-bloch-bauer-i.jpg" alt="" width="400" height="410" /><p class="wp-caption-text">Gustav Klimt, Adele Bloch-Bauer I, 1907</p></div>
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		<title>Ai pede, pede. Tá mesmo a pedi-las.</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Oct 2010 22:34:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Tenho um brinquedo novo. E foi a New Yorker que me ensinou a brincar.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho um brinquedo novo. E foi a <em>New Yorker</em> que me ensinou a brincar.</p>
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<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="640" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/rKr-E7J-6pQ?fs=1&amp;hl=en_US" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="640" height="385" src="http://www.youtube.com/v/rKr-E7J-6pQ?fs=1&amp;hl=en_US" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
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		<title>Postais de Viena (II)</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Oct 2010 22:13:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Serena Lederer, née Pulitzer (sim esse) foi outras das muitas mulheres na vida de Gustav Klimt. Não consta que fosse mãe de qualquer dos seus quatorze filhos, nem que tivesse alimentado os seus sonhos dourados de tão pecaminosos. Não consta sequer que chegasse a ser platónica a relação entre ambos. Como foi, já vos disse, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Serena Lederer, <em>née</em> Pulitzer (sim esse) foi outras das muitas mulheres na vida de Gustav Klimt. Não consta que fosse mãe de qualquer dos seus quatorze filhos, nem que tivesse alimentado os seus sonhos dourados de tão pecaminosos. Não consta sequer que chegasse a ser platónica a relação entre ambos. Como foi, <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/10/postais-de-viena-i/">já vos disse</a>, o caso do caso que o pintor manteve com a sacrificial Emilie Floge. Mas Serena foi o ombro amigo (e a carteira recheada) com que Gustav sempre teve a fortuna de poder contar ao longo da vida. E foi porque assim foi que foi de Klimt e do que Klimt foi que se fez a magnífica colecção que os Lederer (Serena e o industrial August) foram juntando, apaixonada e devotamente, durante quarenta longos anos, de 1899 a 1939. Que foi ano de <em>Anschluss</em> e de uma infame “<em>expropriação</em>” que condenaria boa parte dos tesouros de Klimt a um exílio húmido, penoso e forçado, nas caves do Castelo de Immendorf. Exílio trágico, aliás. Que só acabou com o fogo da história que os alemães atearam, ante o avanço das forças soviéticas, nos últimos dias da guerra.</p>
<p>A demência humana não tem limites.E este belíssimo <em><strong>Farm Garden with Crucifix</strong> </em>já não é.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-20359" title="gustav_klimt_farm_garden_crucifix_canvas_print_24" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/gustav_klimt_farm_garden_crucifix_canvas_print_24.jpg" alt="" width="499" height="500" /></p>
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		<title>Postais de Viena (I)</title>
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		<pubDate>Tue, 12 Oct 2010 22:05:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Amaram juntos uma vida inteira. Gastaram Verões sem fim a remar os sonhos de tamanho muito azul do lago Attersee. Ele desenhou-lhe 399 postais. Ilustrados de quotidiano. Os tudo e os nada de que se fazia a vida. Ela sabia-lhe os filhos, as amantes, as misérias. Sabia cada um dos detalhes de cada uma de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Amaram juntos uma vida inteira. Gastaram Verões sem fim a remar os sonhos de tamanho muito azul do lago Attersee. Ele desenhou-lhe 399 postais. Ilustrados de quotidiano. Os tudo e os nada de que se fazia a vida. Ela sabia-lhe os filhos, as amantes, as misérias. Sabia cada um dos detalhes de cada uma de todas as noites. Ofereceu-lhe a família que nunca chegaram a formar e fez-se musa silenciosa para que a liberdade se fizesse, também ela, plena de tão sua. E ele retribuiu em arte o que lhe terá recusado em beijos. Em cada um dos beijos que pintou, lubricamente dourados, em todas as outras bocas do Mundo.</p>
<p>Dela, ele terá sido o único. Mas dele, foi ela certamente a mais mulher de todas as mulheres que eram suas e que eram tantas. Porque só ela, renunciando a ser, se fez verdadeira e unicamente sua. E foi por sabê-la única, foi por saber o amor concreto de tanta renúncia, que quis fosse único o único retrato que dela pintou.</p>
<div id="attachment_20269" class="wp-caption aligncenter" style="width: 410px"><img class="size-full wp-image-20269" title="emilie_floge" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/emilie_floge.jpg" alt="Gustav Klimt. Emilie Floge, 1902" width="400" height="965" /><p class="wp-caption-text">Gustav Klimt. Emilie Floge, 1902</p></div>
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		<title>Um ano</title>
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		<pubDate>Thu, 30 Sep 2010 23:00:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Este blog faz hoje um ano. A minha avó, se fosse viva, dir-me-ia que tem sido “uma pândega”. Que era o que me dizia quando me queria aliciar a ir “lá para fora jogar o futebol”. E é bem verdade. Mas não é toda a verdade. Temo-nos divertido, ai se temos. Mas, aqui e ali, garantem-me, na solidão [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><br class="spacer_" /></p>
<p><img class="aligncenter size-medium wp-image-19643" title="um ano" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/09/um-ano-300x297.jpg" alt="" width="300" height="297" /></p>
<p>Este blog faz hoje um ano. A minha avó, se fosse viva, dir-me-ia que tem sido “<em>uma pândega</em>”. Que era o que me dizia quando me queria aliciar a ir “<em>lá para fora jogar o futebol</em>”. E é bem verdade. Mas não é toda a verdade. Temo-nos divertido, ai se temos. Mas, aqui e ali, garantem-me, na solidão imensa que é um ecrã clandestinamente iluminado a altas horas da madrugada, tem havido uma ou outra lágrimazita marota. Pois é. Isto não é só galhofa. Também nos comovemos. Quando o MSF fala, com uma gentileza que é mesmo só sua, de um passado africano que se foi fazendo de nós todos. Com o “amor que luz” e com a escrita  enevoada de tão brilhante da EV. Com os desenhos luminosos da intermitente TC. Com o entusiasmo franco e transbordante com que a JV pinta o quotidiano. Com a erudição mais sisuda do GPM. Com a generosidade com que o DL  faz da partilha o seu modo de vida. Com o cosmopolitismo despretensioso do VG. Com a precocidade genial do FFD. Com a cinefilia esmagadora do PMS. Com o sarcasmo hilariante e os ares de falso durão do JNA. Com a poesia sempre inesperada — porque nunca anunciada — do RV. Com os surtos de uma civilizadíssima loucura do AEQ. Divertimo-nos, comovemo-nos, celebramos a morte porque gostamos de homenagear a vida.</p>
<p>Este blog faz hoje um ano. Obrigado a todos.</p>
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		<title>Chá à Portuguesa</title>
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		<pubDate>Thu, 30 Sep 2010 19:08:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Norton</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O leitor dirá que o fenómeno “Tea Party” é mais uma bizarria americana que jamais encontrará eco na Europa civilizada. Muito menos no nosso idílico Portugal dos brandos costumes. E não me parece, de facto, que o país esteja particularmente empenhado em discutir o pecado da masturbação, magna questão que, como se sabe, parece obcecar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-large wp-image-19725" title="7_1" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/09/7_1-500x376.jpg" alt="" width="500" height="376" /></p>
<p>O leitor dirá que o fenómeno “Tea Party” é mais uma bizarria americana que jamais encontrará eco na Europa civilizada. Muito menos no nosso idílico Portugal dos brandos costumes. E não me parece, de facto, que o país esteja particularmente empenhado em discutir o pecado da masturbação, magna questão que, como se sabe, parece obcecar Christine O’Donell, a grande vencedora das primárias republicanas do Delaware. Nem tão pouco me parece provável ver, a curto prazo, uma versão lusa da inenarrável Sarah Palin sentada num qualquer cadeirão em Belém ou em S. Bento. Tudo razões para que olhemos o fenómeno com o habitual desdém com que costumamos desprezar as excentricidades políticas da direita radical americana? Não tenho a certeza.</p>
<p>É bom perceber que o movimento “Tea Party” (em bom rigor não se pode falar de um partido organizado) é essencialmente um fruto da crise económica e financeira que se abateu sobre a América e o Mundo. O seu discurso populista, patriótico, fiscalmente ultraconservador, encontra um inegável apelo numa classe média que viu desabar o sonho de uma riqueza aparente, que vive o presente com ansiedade, que desconfia do futuro, que sonha com um passado de prosperidade fictícia e sobretudo que vai perdendo toda a esperança nas lideranças políticas tradicionais. É de resto este o caldo onde sempre medraram as propostas políticas anti-sistémicas e de base populista. Será exagerado olhar para o fenómeno com redobrada preocupação? Não tenho a certeza.</p>
<p>Aqui chegados, perguntará o leitor: e que raio tem isto a ver com a situação portuguesa? A resposta é, parece-me, relativamente óbvia. Em Portugal, o caldo social e político é, provavelmente, mais propício ainda a aventuras como as do “Tea Party”. A crise económica e a crise financeira são mais graves e mais profundas. As respostas que, mais tarde ou mais cedo, lhes serão dadas vão ser mais drásticas e mais dolorosas. As camadas mais desfavorecidas da população estão porventura ainda mais desprotegidas. Mas, e este é talvez o aspeto mais determinante, a irresponsabilidade das lideranças políticas ultrapassa os limites do bom senso e o seu crédito é, cada vez mais, nenhum. A anunciada crise política que o chumbo do orçamento de 2011 pode precipitar é apenas mais uma acha para uma fogueira que chamusca PS e PSD por igual. À arrogância autista do solitário José Sócrates junta-se a inabilidade política de um Pedro Passos Coelho visivelmente mal acompanhado. O país assiste, impávido, de braços caídos, a um triste espetáculo político que lhe hipoteca o futuro. Estará a coisa a ficar pronta para cair de madura? Está Portugal a salvo de se entregar nos braços de um líder populista redentor? Será, apesar de tudo, ofensivo estabelecer paralelos históricos com, por exemplo, a República de Weimar? Não tenho a certeza.</p>
<p>Eis aquilo de que tenho a certeza: não está escrito nas estrelas que a Democracia portuguesa vigorará para todo o sempre. E se eu tiver de apostar, direi que o perigo vem menos de uma intentona de militares cabeludos do que um demagogo capaz de transformar o descrédito e o desespero numa alternativa política que a desmantele.</p>
<p><em>Publicado na Visão a 30.9.2010, escrevi este artigo antes da comunicação ao país do PM. Sabendo o que agora sei, voltava a escrevê-lo.</em></p>
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