The End

Há pessoas que nascem para morrer novas. Há blogs que nascem para morrer garotos. E todos nós, ponho-me eu para aqui a achar, sempre soubemos que seria assim. Dois aninhos por fazer.  Bem vistas as coisas, não é uma tragédia. Morremos, é certo. Mas morremos de felicidade. Pura, juvenil, inesperada. Que é cor das amizades e o feitio das cumplicidades que nesta campa, tal como no fado, nasceram a par. E a lenda, simples, singela, de nós todos - atrevemo-nos a esperar — talvez  também reze um dia:

 Quando os incautos passavam

 junto à linda sepultura,

toda a gente afirma e jura

 que os textos coravam

 e o tempo parava para ninguém lhes tocar

 

 Obrigado a todos, autores e leitores, pelos tempos felizes que se viveram aqui.

 É Tudo Gente Morta.

O preço da discórdia

Li, há uns anos valentes, um livro que mudou radicalmente a forma como via mas sobretudo como “sentia” a segunda grande guerra. É bem verdade que não foi o primeiro nem o último. O tema sempre me suscitou curiosidade e os livros, históricos, biográficos, romanceados, há muito que se acotovelam na desordem aparente que é a minha biblioteca. Também é verdade que nunca é inteiramente possível “experimentar” a segunda guerra mundial como objecto de simples reflexāo intelectual. Ainda hoje guardo na memória o olhar angustiado de um rapazinho que um dia teve a minha idade e que sobreviveu no genérico, cem vezes repetido, do fabuloso documentário com que a BBC assombrava as minhas tardes de meninice ao Domingo. Mas foi com “Se isto é um homem” de Primo Levi que o conflito de 39 — 45 tomou para mim uma dimensão verdadeiramente humana. A escala não é a das grandes batalhas, a tragédia não é a das grandes opções políticas e geo-estratégicas. Os personagens não são os heróis míticos nem os génios amorais que escreveram as linhas maiores da História. A miséria, muito pelo contrário, tem tamanho de homem, a angústia cabe no peito de um rapazinho, a batalha mais impressiva é a que opõe um pai e um filho e o seu objectivo é a conquista de um simples pedaço de pão. Algures, num comboio sobrelotado a caminho de um campo de extermínio.

Tudo isto, embora nada pareça, vem a propósito da crise grega. Que, é bom não esquecê-lo, não é essencialmente grega e muito menos é sobre dívida soberana, agências de notação financeira, ou mais uma dúzia de conceitos relativamente abstractos. A crise dita grega é a crise de um dos projectos de paz mais fabulosos da história da humanidade. Filho dos horrores dilacerantes e muito concretos da segunda grande guerra e de um par de estadistas que os vivenciaram.

E assim regressamos a Primo Levi. Tenho para mim, é uma tese que vale o que vale, que a crise da Europa é a crise do desaparecimento dos últimos líderes que viveram, experimentaram, sofreram, directamente, o horror da segunda grande guerra. É a crise do desaparecimento de uma geração de líderes, mas também de cidadãos em geral, que conheceu o terrível preço de uma alternativa ao projecto de unificação europeia. Para quem os custos que agora paralisam e parecem condenar a Europa mais não seriam do que risíveis minudências quando comparados com a tragédia da simples ameaça, por mais ténue que possa julgar-se, de um conflito continental. A crise da Europa, que só metaforicamente é grega, é pois uma crise de memória. Memória viva, memória vivida, que não tem a Sra. Merkel, o Sr. Sarkozy, o Sr. Barroso, mas que também não têm os milhares de gregos, espanhóis e portugueses que protestam na ruas, como não a têm os milhões de eleitores e contribuintes alemães ou finlandeses.

Tenho uma certa tendência para o pessimismo. Dêem-me pois o devido desconto. Mas, feito o aviso, estou absolutamente convencido de que o que andamos a discutir na Europa é a viabilidade de legar aos nossos filhos os anos de paz que herdámos dos nossos pais. Postas as coisas assim, concordarão que o preço a pagar — apareça ele sob a forma de sacrifícios financeiros ou de cedências de soberania — será sempre pequeno demais.

Publicado na Visão em 30.06.2011

Uma coisa assim mais eyebrow

 

Não é o Fiat do meu pai mas vai ali a minha avó.

 

 

 

Deixe-me ser franca Sr. Norton: Não estou nada convencida que valha a pena entrevistá-lo. São cunhas do Sr. Fonseca. Ainda assim faz questão de dizer alguma coisa?

- Gostava imenso. E acha que pode pôr uma fotografia minha?

Despeje, vá. Não tenho o dia todo.

- Olhe viajei na selva. Na selva virgem.

Na selva?

É verdade. Fica ali ao fim da Rua da Escola Politécnica, antes do Mundo começar a caminhar para o Fim do Mundo. Eu devia ter três, talvez quatro anos. Tudo aquilo era imenso, tropicalíssimo, sufocante de verde. Tinham-me jurado que existia um lago no centro da selva. Uma coisa oitavada com uma gruta por baixo. De uma frescura intensa. E eu fui. Já lhe disse que usava botas ortopédicas? Imagina a dificuldade de atravessar a selva de botas ortopédicas? Pois é. Montámos o primeiro acampamento ao pé da casa do jardineiro. Romântica. De madeira. À sombra infinita de uma árvore de borracha. Daquelas que nos sussurram lendas primordiais ao ouvido, nas noites de verão. A partir daí continuei sozinho. A Maria distraiu-se e eu achei melhor deixar mulheres e crianças para trás. A minha irmã também se ficou, o meu irmão ainda não era, e o valente lá de casa era só eu. Durante uns tempos ainda vi o cume abobadado do castelo do meu avô, depois, aos poucos, o verde fechou-se, apareceram patos e fracas do tamanho de ursos, formigas gigantes e um bichos de conta que não me cabiam nos punhos. Palavra de honra! Agora pare lá a merda do gravador. Off the record ou lá como se diz. Comecei a ficar à rasca. Sabe como é? Um homem não é de ferro e o terror começou a instalar-se na minha alma de menino armado aos cucos. Não consigo precisar-lhe quantos dias andei assim. Eu e os meus pés chatos. O tempo não se mede em meses, muito menos em dias no coração angustiado de quem nos perde. Para a Maria foram anos, confessou-me ela depois. E eu só cheguei ao lago muitos anos depois.

Muito bem. Apresente os meus cumprimentos ao Sr. Fonseca.

Espere lá, espere lá! Ligue lá essa coisa outra vez. Quero falar-lhe do meu pai. Pode fazer-me aquela perguntas sobre as pessoas a que associo as viagens?

Sr. Norton, associa sempre viagens a pessoas?

Ora ainda bem que me faz essa pergunta. Queria falar-lhe do meu pai. Tinha um Fiat 125 que comprou ao meu bisavô. Começou por ser grenat. Ou grená como agora se escreve. Estofos cor de caca, escaldavam que se fartava no Verão. Depois pintou-o de verde escuro e até parece que passou a andar mais depressa. Mas do que eu queria falar-lhe era das viagens para Ponte de Lima. Nós éramos 5, com a Lucília ficávamos seis e não havia ano em que não sobrasse lugar para mais um primo. Partíamos invariavelmente de manhãzinha, no início de Julho. Um calor dos diabos e os estofos, já se vê, a merda dos estofos a dar-lhe. A auto-estrada, a bem dizer, era só uma amostra para enganar incautos. Ainda não nos tínhamos feito à dita e ela acabava num perigosíssimo repente. Ali para Vila Franca. Naquela época a ponte ainda era Marechal Carmona e tinha umas portagens todas giras, de tijolo. Mas para o efeito tanto faz porque seguíamos em frente. Cruzávamo-nos com o Zé na Azambuja e depois, ala que se faz tarde, Venda das Raparigas. O almoço normalmente ficava para Coimbra, já a larica era muita. Não consigo dizer-lhe o que comíamos porque o que nos impressionava eram os trolleys. Sabe o que são trolleys? Assim como os eléctricos do Zé (eu era mais o 24) mas com uns senhores pneus. Antes do Porto era certinho que alguém já tinha vomitado mas o meu pai tinha um jeitão para travar a fundo e a minha mãe levava sempre uma muda. Depois era Braga, a noite caía, parávamos religiosamente para fazer xixi ao pé de uma carantonha de granito e voltávamos a sair do carro para tentar abraçar o maior eucalipto de Portugal. Corvos, Anais (são nomes de freguesias, não olhe para mim com essa cara) e finalmente Queijada. Só primos eram trinta, os avós e os tios também se perfilavam no topo da escadaria e começavam oficialmente, ano após anos, as melhores férias grandes do Mundo.

Olhe Sr. Norton, não vá levar a mal, mas responde outro dia às perguntas sobre os hotéis, está bem? A nossa revista é assim uma coisa mais eyebrow, sabe como é? Cumprimentos ao Sr. Fonseca.

 

 

Biblioteca Itinerante

Detalhe de O Astrónomo, Vermeer

 

A ideia nasceu numa conversa com a Marta e o Ruy, algures ali em baixo. Se é que isto da net tem cima e baixo, capa e contracapa, verso e reverso. Seja como for,  a ideia é construir a Biblioteca Itinerante do ETGM. Não se trata, em rigor, de compilar literatura de viagens. Trata-se de edificar uma livraria para viagens. O desafio é verdadeiramente planetário. Ou, com jeitinho, um pouco mais do que isso. É, literal e literariamente, o Mundo à Nossa Procura. E eu só me atrevo a começar — e é só de um princípio que se trata — porque a Marta e o Ruy prometem (não prometem?) seguir-me.

 

Lituma nos Andes, Mario Vargas Llosa

Terra do Fogo, Francisco Coloane

Na Patagónia, Bruce Chatwin

Latinoamericana e Diários da Bolívia, Ernesto Che Guevara

The White Tiger, Aravind Adiga

Um estranho em Goa, José Eduardo Agualusa

Plain tales from the hills, Rudyard Kipling

Por amor da Índia, Catherine Clément

Uma ideia da Índia, Alberto Moravia

Ébano, Travels with Herodutus, Imperium e The Emperor, Ryszard Kapuscinski (provavelmente o melhor jornalista-viajante contemporâneo)

Odisseia, Homero

O (des)caminho para Santiago, Cees Nooteboom

Istanbul, Orhan Pamuk

A book of traveller’s tales, Eric Newby

South, Ernest Shackleton

As ilhas desconhecidas, Raul Brandão

Isto em terra anda perigoso

Ontem passei o dia do lado de lá do mar. Dizem-me que isto em terra anda perigoso.

AudiMedCup I, Maio de 2011

AudiMedCup II, Maio de 2011.

AudiMedCup III, Maio de 2011.

AudiMedCup IV, Maio de 2011

 

A minha estante

Eu, livros é só com bonecos.

 

1 — Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?

Lamento a falta de originalidade mas a minha escolha vai mesmo para esse alucinogénico Manual dos Maus Costumes de Jahvé, El, Elohim, Adonai, Chadai ou, tout simplement, Deus. Para os mais íntimos. O que está longe de ser o meu caso.

 

2 — Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

Ui há tantos. E com a idade há cada vez mais. Para não procurar mais longe, fico-me já pelo Levítico. Chato como a potassa e eu detesto que me dêem muitas ordens. Mas se querem saber tudo, também desisti enquanto buscava o Tempo Perdido. E ainda há o Atlas Shrugged da Ayn Rand. Mas a esse prometo voltar, quanto mais não seja pelo meu amigo Carneiro. Pronto, está bem, o Moby Dick também. Tratem-me por Ismael mas a verdade é uma coisa muito bonita. E já que estamos nisto, fiquem sabendo que a Madame Bovary me ia matando de neura, que não percebi patavina do Silmarillion de J.R.R. Tolkien e que não leio Saramago por puro preconceito.

 

3 — Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?

Um só unzinho? E não vale dizer outra vez a Bíblia? A Divina Comédia. É quase tão deliciosamente delirante e também vem com bonecos do Gustave Doré.

 

4 — Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?

Para além da Obra Reunida de Juan Rulfo? Tudo o que possam imaginar talvez com excepção de Richard Bach.

 

5– Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?

Nenhum. Mas isso diz mais de mim do que dos livros.

 

6– Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?

A minha infância, como todas as infâncias fez-se de livros enfiados pela garganta abaixo e de livres escolhas. O Malhadinhas, o Phèdre de Racine e as Contemplations de Victor Hugo conquistaram um lugar eterno no Olimpo das minhas implicações. Safou-se o Molière e foi um pau. Do bright side of the force ficou a Bibliotheque Verte (com destaque para o Philipe Ebly); Os Sete porque sempre achei que Os Cinco era coisa de maricas; um livro alemão sobre caça do meu avô que cheirava bem que se fartava; La Bête est Morte, um livro de quadradinhos com um lobo com ares de Adolf Hitler na capa que a minha mãe recebeu em 1951; uma colecção interminável de Disney Especial; uma revistas pornográficas do meu tio que, se não eram do tempo em que os animais falavam, pelo menos eram ainda de uma época em que se podia usar pintelheira à vontade; e mais umas coisas edificantes do mesmo género. Estavam à espera de quê? Que eu tivesse lido a Odisseia aos sete aninhos?

 

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.

Tudo do Ruben A. mas O Mundo à Minha Procura mais do que tudo. Tudo do Philip Roth, do Vargas Llosa, do Jorge Amado, do Sandor Marai e, num género francamente menos pedante, tudo do Jean Christophe Grangé com quem verdadeiramente aprendi a gostar de policiais. Sendo levemente hiperbólico arrisco-me ainda a escolher Mau Tempo no Canal, o melhor romance português de sempre, e Guerra e Paz, o melhor romance não português de sempre. E agora um medley verdadeiramente idiota: O Livro dos Destinos de Anne Wiazemsky; Os Gémeos de Black Hill de Bruce Chatwin; Pátria de Robert Harris; O Jogador de Dostoievski; A Misteriosa Chama da Rainha Loana de Eco; a série Les Rois Maudits de Maurice Druon; A Estrada de Cormac McCarthy; Em Busca do Unicórnio de Juan Eslava Galán; In Cold Blood de Capote;  Tortilla Flat de Steinbeck; L’Écume des Jours de Vian; O Som e a Fúria de Faulkner; Todas as Manhãs do Mundo de Pascal Quignard. Falta nomear esse grande cliché do Século XX que vocês fingem ignorar porque são uns todos uns valente presunçosos: Cem Anos de Solidão. E quase, quase a acabar, já na categoria de contos, A Terceira Resignação do mesmo Marquez, O Alienista de Machado de Assis e Sete Andares de Dino Buzati.

9. Que livro estás a ler neste momento?

Livro? Sou convicta e irremediavelmente polígamo nessa matéria. Relação de Qualidade de António Coimbra de Matos; Oliver Twist de Dickens; Hitler de Ian Kershaw; Cartas a Lucílio de Séneca; A Leitura Infinita de Tolentino Mendonça e The Photograph de Graham Clarke. Mas à frente da minha cama paira ainda uma ameaçadora Torre de Babel reclamando, numa orgia de letras, línguas e inomináveis posições, o direito ao fim imediato da sua virgindade .

 

Medley para animar o Ruy (*)

Diane Arbus. Woman with veil on Fifth Avenue.

 

Sabe essas noites que cê sai caminhando, sozinho, de madrugada, com a mão no bolso? Todo vestido bonitinho e sem ter onde cair? Todo vestido bonitinho e sem nenhum lugar pra ir? E você fica pensando, naquela menina… Você fica torcendo e querendo que ela estivesse na sua… Aí, finalmente, você encontra o broto. Que felicidade! Você convida ela: “Eu tenho uma moto meia nove que fala. Tem head fone, toca fitas no porta mala e tenho um quarto de gasolina no tanque. Vamo na Churrascaria bem-me-quer?” A coisa agora tem nova direção. E como é Domingo é a vez da suculenta voz de Paulo Picanha acompanhado de Mariozinho e seus Brochetes.

Uma tarde tão bucólica, eu tava melancólica, parada de bobeira, na porta da escola, quando um motoqueiro me deu bola. Subi na Kawasaki, o coração fez tic tic tac… Ali na Churascaria, pedi um Mac queijo, foi quando o carinha me tacou um Mac beijo. E eu correspondi o Mac beijo com um Mac abraço. A coisa esquentou. Um cara tão romântico, e o oceano atlântico, e aquele motor, de mil cilindradas, causa reações inesperadas. O coração fez tic tic tac, eu leio Baduan, não uso sutiã, pra que que eu ia deixar pra amanhã?

Ela era uma universitária otária que não sabia se fazia oceanografia ou veterinária. Arquitetura aquela altura era loucura mas em compensação comunicação era uma opção. “Garçom uma cerveja! Só tem chopp. Desce dois, desce mais…” Aí lá pelas tantas, disse para ela: “Você está meio confusa mas fica mais bonita assim sem blusa”. E ela disse para mim: “Amor, pede uma porção de batata frita…” E você: “OK! você venceu batata frita”. Aí, “blá blá blá blá blá blá blá blá blá,Ti ti ti ti ti ti ti ti ti”. Você diz prá ela. “Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, mas realmente eu preferia que você estivesse nua”. Eu não queria falar mas agora vou dizer: ela era boa em línguas mas não sabia beijar.

Mamãe eu acho que estou… ligeiramente grávida. Mamãe não fique pálida, a coisa não é ruim. Se lembre, um dia você já ficou assim

Não, não vá dizer que a culpa é minha!

E por sorte ou por azar, eles não passaram no vestibular. Moram juntos até hoje mas resolveram não casar pra não complicar. Esse foi apenas um lance do romance de Aparecida e Abreu. Hoje moram no campo e são dois grandes amigos meus. Vivem na natureza, na santa paz de Deus.

 

(*) D’après Blitz. Espero que vocês gostem do disco, assistam o show, vejam o filme e leiam o livro.

Haverá mais do que um Fausto?

1 — A lenda de Fausto é por todos amplamente conhecida. As versões da história são múltiplas e nem todas exactamente coincidentes. Na obra de Goethe, a mais celebrizada, o eminente estudioso que não se conforma com as terrenas limitações do saber, do poder e dos carnais prazeres, celebra um famosíssimo «pacto como o Diabo»: Fausto contará com a ajuda de Mefistófeles para alcançar, em vida, a glória e felicidade supremas mas compromete-se a entregar-lhe a alma assim que alcançar o êxtase.

Não me alongo com mais jactâncias literárias nem vou sugerir – imperdoável mentira — que li Goethe. Mas a verdade é que, tendo todos nós direito a uma certa dose de bizarrias, sou um fã de Murnau e do seu cinematográfico Fausto, e foi nele que pensei ao assistir à declaração ao país de José Sócrates na noite do acordo com a Troika. Não tanto porque o Primeiro-Ministro me fizesse lembrar Gösta Ekman (no meu imaginário reservo-lhe, como já se verá, o papel de Mefistófeles) mas porque tive uma súbita revelação: Teixeira dos Santos vendeu a alma ao Diabo. Preferia, confesso, tê-lo visto amordaçado ou sob o notório efeito de estupefacientes. Assim, silencioso, avermelhado e a andar pelo seu próprio pé, não consigo encontrar outra razão para que um homem que continuo a considerar e que julgava estar a engolir sapos para preservar uma réstia de honorabilidade do Estado, se tenha prestado a tão indigno papel. Porque uma coisa é preservar a imagem do país, outra coisa é servir de escudo humano a José Sócrates. Talvez esteja a ser injusto. Em boa verdade, espero mesmo estar a ser injusto. Mas uma coisa é certa: Teixeira dos Santos vai ter muito para explicar quando entender tornar públicas as suas memórias recentes.  

2 – E já que estamos em maré de lendas medievais germânicas, tenho de confessar que, acto contínuo, me assaltou outra pavorosa ideia: a de que pudessem existir, não um, mas dois Faustos na política portuguesa. Falo do inescrutável Pedro Passos Coelho. Tenho-o, devo admitir, na qualidade de um homem bom. Cordato, educado, agradável no trato, nunca me constou que tivesse telhados de vidro e acredito, gosto genuinamente de acreditar, que avança para a liderança do país animado de um desejo verdadeiro de bem servir. Infelizmente não tenho, não consigo ter por mais que me esforce, grandes ilusões sobre o aparelho que o guindou a tão altos voos. O mesmo é dizer que não tenho grandes dúvidas de que no PSD medram muitos aprendizes de Mefistófeles. Ora o líder do PSD tomou a opção, legítima, de guardar o seu «governo na cabeça». Com essa estratégia pede-nos um acto de fé. Pede-nos que acreditemos que o melão será bom uma vez aberto. Pede-nos que acreditemos que, na hora da verdade, terá a frieza e o sentido de Estado necessários para escolher os melhores para conduzir os destinos do país.

Dir-se-á que é a única estratégia possível para chegar ao poder. E que uma hostilização prematura dos caciques sociais-democratas nem sequer lhe daria a oportunidade de estar em posição de escolher. Pode bem ser verdade. Mas não deixa de ser uma estratégia arriscada. Porque é impossível adivinhar quantos votos lhe custará a metafísica dúvida que a muitos assalta: e se o homem tiver vocação para Fausto? Eis uma revelação que só vamos ter daqui a mais umas semanas.

Publicado na Visão em 12.5.2011

Quando estão maçados, os Deuses fazem Origami

Na horizontalidade radical do papel vegetal não passam de peças fósseis. Tudo o mais são “trevas a cobrir o abismo”. E “ventos impetuosos a soprar sobre as águas”.

Takayuki Hori

Depois é o principio e o fim de tudo. Cada volta, uma articulação. Cada flexão, um músculo novo. Cada dobra, um tímido estertor. Cada curva, um translúcido despertar. A argila é papel. O sopro da vida é afinal a delicadeza dos dedos. Os Deuses, quando estão maçados, não fazem crochet. Fazem Origami. De raio X.

Takayuki Hori

Takayuki Hori

Takayuki Hori

O abismo ético

 

Ansel Adams

Ansel Adams

Melhor do que eu, muitos leitores estarão lembrados das bandeiras negras que em 1983 se ergueram, um pouco por todo o país, para sinalizar a fome. Tal como hoje, Portugal vivia tempos muitíssimo difíceis. Tal como hoje, o país recorrera, em desespero, à ajuda do FMI. Tal como hoje, o pior estava para vir. Mas as coincidências acabam aqui. Em 1983 o valor global da ajuda que o Fundo disponibilizou chegou ao montante (então) extraordinário de 650 milhões de dólares. Em 2011 estamos a discutir um resgate que pode chegar aos 100 mil milhões de euros!Infelizmente, espantosamente, o diabo nem são os números. Permitam-me uma inconfidência (devidamente autorizada) e já perceberão ao que venho. Estávamos, repito, em 1983. O Ministro das Finanças e do Plano era Ernâni Lopes. António de Almeida era o seu Secretário de Estado do Tesouro. Os dois homens tinham viajado até Washington para uma reunião com o FMI. O regresso a Lisboa implicava uma escala e uma pernoita em Nova Iorque. Ao chegar ao Hotel, o Ministro, seguramente com o ar grave, pausado e sério que punha nessas ocasiões, disse ao seu Secretário de Estado: «António, o momento é de austeridade. Mandei reservar um único quarto para os dois». O susto terá sido muito mas a verdade é que lá ficaram, cada qual na sua caminha bem entendido, a zelar durante o sono pelas depauperadas finanças pátrias.

Mas desenganem-se se julgam que a história acaba aqui. António de Almeida, mal refeito de uma noite espartana, ainda terá sonhado com um merecidíssimo passeio pela 5ª Avenida. Afinal de contas o avião de regresso a Lisboa estava marcado para o final da tarde e não havia reuniões agendadas durante todo o dia. Pura ilusão. O check-out fez-se, pontualmente, ao meio-dia. «Os tempos são de austeridade e a partir dessa hora cobram uma sobretaxa». Bem dito e melhor feito: o resto da tarde foi passado a trabalhar no banco de trás do automóvel que haveria de levar Ministro e Secretário de Estado ao Aeroporto. Devem ter comido umas sandes. Mas este gastronómico pormenor, em verdade vos digo, já sou eu que o invento.

Percebem onde quero chegar? Não julguem que é ao populismo basista que apelo. Não julguem que me vou aqui pôr a reclamar impensáveis sacrifícios nocturnos ao Dr. Teixeira dos Santos. Nem ao futuro Ministro das Finanças de Passos Coelho. Eu próprio, para ser sério, provavelmente não os faria. Mas isso não impede a minha inominável angústia. O facto é que é que, episódios como este, tornam ainda mais esmagadora a consciencialização do real abismo que separa as crises de 1983 e de 2011. O diabo, repito, nem são os números. O diabo são os líderes que vamos eleger para tratar deles. O diabo são os quadros mentais em que se movimentam. O diabo são os valores que os animam e que, colectivamente, vimos caucionando. O diabo é a falência ética em que estamos mergulhados. Nos mundos politico, económico e empresarial. É por aí, não tenham dúvidas, que a crise começou. É por aí que teremos, mais cedo que tarde, de começar a tratar o problema.

PS: “Economia, Moral e Politica” é o título do último livro de Vítor Bento. E imprescindível é dizer pouco.

Publicado na Visão em 28.4.2011

 
Mitos Democráticos para celebrar Abril

 

Sei bem, e não me canso de repeti-lo, que neste blog não se fala de política. Mas proponho, a medo, uma ligeira precisão: entre estas campas não se discutem politiquices. Estou certo que nem o MSF (que aqui no cemitério faz as vezes de anjo da guarda, primeiro censor e grande animador) discordará da ideia de que podemos debater — entre os poemas da Eugénia, um Caravaggio e um ou outro Raio X — Platão, Aristóteles, Maquiavel, Locke, ou Montesquieu.

Justificado que estou, ou que julgo estar, digo-vos ao que venho. O Economist desta semana (o melhor “newspaper” do planeta) inclui um fantástico “special report” sobre a Democracia na Califórnia. Um peça de ciência política aplicada que, sendo verdadeiramente antológica, seria quase impublicável num país com os tiques de novo-riquismo democrático como o nosso. A leitura – que vivamente recomendo – suscitou-me algumas reflexões avulsas sobre as limitações e os paradoxos da Democracia. Proponho-as em jeito de celebração, politicamente incorrecta mas nem por isso menos empenhada, do 25 de Abril.

1 – A Democracia está, por razões históricas absolutamente compreensíveis, sacralizada em Portugal. Quase 40 anos depois de Abril, a ditadura do «politicamente correcto» estigmatiza todos quantos não vejam na democracia o sistema perfeito e no sistema de maiorias a máxima referência moral. Fora do consenso do «politicamente correcto» estão ainda, 40 anos depois da revolução, todos os que ousam reconhecer-lhe os limites e que desconfiam da razão pura das maiorias. Fora do arco do pensamento aceitável continuam todos os que ousam assumir a escolha democrática, não em nome da sua infalibilidade intrínseca, mas em nome da ausência absoluta de alternativas politicamente aceitáveis. A Democracia, digo eu, é um processo, não é um fim. Como tal pode ser criticado e é susceptível de ser melhorado.

2 – Heresia das heresias. Tenho para mim como cristalinamente óbvio que o povo pode errar, fazer escolhas perniciosas e em consequência delas prejudicar, objectivamente, o bem comum. A legitimidade da democracia não se baseia, nunca se baseou, no mito  da sua infalibilidade. Dando de barato que existe um padrão objectivo para medi-los (é toda outra discussão e não quero nadar para fora de pé), é justo afirmar-se que existirão muitas razões para explicar estes “erros democráticos”. Mas julgo que é não menos pacífico afirmar que uma dessas razões é inerente ao próprio processo democrático: a Democracia não se dá necessariamente bem com a Verdade. O paradoxo ficou muito bem ilustrado com as aventuras e desventuras de Manuela Ferreira Leite à frente dos destinos do PSD. Ninguém ganha eleições a dizer a verdade. Sobretudo quando a verdade é sinónimo de sacrifícios tão inevitáveis quanto violentos.

3 — A ideia democrática e a ideia liberal respondem a duas perguntas políticas diferentes que não ganham em ser confundidas. A primeira responde à pergunta: «quem deve exercer o poder político?» A segunda responde à questão: «quais são os limites do poder político?» À primeira interrogação a teoria democrática responde: um governo eleito por uma maioria de cidadãos. À segunda, a teoria liberal responde: os cidadãos têm direitos prévios à constituição da colectividade política e são precisamente esses direitos inalienáveis que marcam os limites da actuação legítima do Estado (outra e mais complexa questão é a de saber quais são, em concreto, esses limites, i.e. onde acaba a esfera de inviolabilidade que protege cada cidadão; não é este o momento de abordá-la). Assim sendo, numa sociedade de matriz democrático-liberal como são a generalidade das sociedades do mundo Ocidental, a acção política tem de respeitar este duplo critério de legitimidade. Para que uma proposta política seja legítima não basta que tenha o apoio da maioria dos cidadãos ou que emane de um governo eleito de acordo com as regras democráticas. Precisa também passar pelo crivo da legitimidade liberal. Ora convenhamos que não é difícil sustentar (ainda que por vezes sem sucesso) que, por exemplo, o estabelecimento da pena de morte ou a instauração de medidas discriminatórias de base racista, não passam, nem de perto nem de longe, o teste da legitimidade liberal. E que são portanto propostas políticas intrinsecamente ilegítimas ainda que eventualmente emanem de um governo eleito por uma maioria de cidadãos.

4 —  Mais Democracia não significa melhor Democracia. Triste mito. Santa ignorância. Não é por acaso que os «founding fathers» americanos (que, goste-se ou não, são os pais fundadores de todas as modernas democracias liberais) rejeitaram explicitamente esta interpretação populista do ideal democrático. Muito melhor do que a maioria dos líderes de hoje, sabiam – para citar uma expressão feliz de Bruce Ackerman e James Fishkin – que os referendos são um «método indigno para uma democracia moderna». Muito melhor do que os modernos arautos do «directismo» de pacotilha, sabiam entender a importância de casar o valor da igualdade política (em que se baseia a democracia) com as virtudes da reflexão, da ponderação, da deliberação, da negociação e da construção de consensos (em que se baseiam os regimes representativos) sem as quais não haverá nunca, como é penosamente óbvio, edifício democrático que resista. Acontece que o «directismo» é um mito conveniente, alimentado pelo discurso politicamente correcto em voga e sobretudo pela tibieza de muitos dos nossos eleitos que, tendo toda a legitimidade democrática para decidir, se demitem de fazê-lo, e se escondem por detrás da farsa e da miragem referendárias. Acontece que é preciso coragem política para assumir que nas democracias representativas modernas o povo escolhe quem deve decidir e não tem necessariamente de participar no «problem solving» concreto. E coragem política não é propriamente uma característica definidora da maioria dos líderes de hoje. Na Europa como, pelos vistos, na Califórnia.

5 – Finalmente, porque a conversa vai longa, outro mito tão persistente quanto pernicioso dos nossos tempos é a ideia que a Democracia está suficientemente consolidada nos países ocidentais para que exista um real perigo do seu retrocesso. Em Portugal este mito é sofisticado com a ideia conveniente de que «a Europa não permitiria que o país regressasse aos tempos da outra senhora». Ora não há nada mais perigoso para a Democracia do que a ideia de que não é preciso zelar por ela todos os dias (e zelar é também criticar). E se é verdade que é difícil imaginar na Europa do século XXI, uma intentona militar liderada por um general de óculos escuros e bigode farfalhudo, já não será tão descabido discorrer sobre os perigos que o populismo e os excessos de «directismo» democrático podem representar para os regimes demo-liberais modernos. Não havia para aí um filósofo velhinho que falava da sucessão cíclica das formas de governo?

 

Mais filme, mais vida.

Eu também gosto.

 

Kafka Polaroid

Jan Banning calcorreou 5 continentes para fazer uma história da burocracia em imagens. As fotografias são todas de formato quadrado, foram captadas exactamente da mesma posição e as secretárias dos burocratas são obsessivamente horizontais. Nenhuma das visitas foi anunciada impedindo assim que os gabinetes fossem arrumados ou preparados. O conjunto, em todo o seu patético esplendor, é uma retrato cruel do poder absurdo do Estado. Kafka teria fotografado assim.

Russia 2004. Jan Banning.

Russia 2004. Jan Banning.

India 2003. Jan Banning.

India 2003. Jan Banning.

Bolivia 2005. Jan Banning.

Liberia 2006. Jan Banning.

Yemen 2006. Jan Banning.

Aquilo naquilo, parte II

 

Egon Schiele

Não me venham dizer que fui eu que comecei. Por uma vez o culpado deixou a sua marca. Cúmplice, vá. Mas parecia mal deixá-lo sem resposta e fui pedir ajuda ao Jorge Amado:

Aquilo:

Com justa pertinência designava a formosa e notável potestade conforme a ocasião e a serventia: com as duas mão empunhava le grand mât, fartava-se de mamar le biberon, abria-se para receber pela frente e por trás l’axe du monde

Naquilo:

Colhia e voltava a colher o intacto cabaço, a desfolhar a cobiçada flor de virgem. Cabaço vário e múltiplo, a flor de Aruza, mantendo-se sempre bela, apertada e quente, variava ao sabor da fantasia. Foi farta de pêlos ou quase não os teve, tênue penugem. Abriu-se refolhuda rosa, ofertando-se. Escondeu-se nas coxas trancadas, recatado botão. O grelo se alteava arrogante ou receoso se encobria. Foi a xoxota de Bernarda, a de Dalila, a da pequena Cotinha, a da imensa Marieta Quinze arrobas, a xoxota de chupeta de Cororoca, tantas e tantas outras, puras e ilibadas. Foi o inviolado xibiu de Zezinha do Butiá, um abismo.

 

A felicidade é um lugar estranho

A felicidade é um lugar estranho. Consegue ser peste, ser ódio, ser abismo e ser caverna. A felicidade consegue carcomer e fazer-se dor infinita. A felicidade é traição e sabe fazer-se cancro.

Não me interpretem mal. Estão todos felizes, sim senhor. Luminosamente felizes. A tela não me deixa mentir e eu lembro-me tão bem. Afinal de contas, pintei cada um e pintei todos. Pintei cada cabelo, cada ruga, cada sombra, cada raio de luz. Pintei-os de amor, de genuína admiração, de ternura infinita, de amizade sinceríssima. De certa forma pintei-me também a mim. De onde estão sentados não podem ver-me, escondido pelo cavalete, do outro lado do espelho. Mas naquela tarde de Setembro, pintada a tinta de luz, eu era também, posso jurar-vos, embriagadamente feliz. Só eu sabia, só nós sabíamos que festejávamos um filho que haveria de ser. Felicidade por vir, azulíssima, calada a dois, impossível de esconder. Como se do canto da mesa a todos falasse o seu sorriso de uma doçura tão sua. Como se me denunciassem as pinceladas ágeis, seguras, precisas, elegantes. Como se me denunciasse o vôo branco das mangas da minha camisa.

A felicidade é um lugar estranho. Consegue ser peste, ser ódio, ser abismo e ser caverna. A minha nunca verdadeiramente foi. O filho nunca chegou a sê-lo e ela deixou de existir. A tela, assombrada e assombrosa, carcome cada pedaço da alma macerada a que chamo Eu.

 

 

PS: Março é quando o homem quiser.

 

 

Cada livro um afluente, cada filme um ramal.

 

Johannes Vermeer, O Geógrafo

 

Roger Casement, nascido britânico, enforcado irlandês, dedicou boa parte da sua vida como cônsul a sonhar com um mundo mais justo e ganhou, já se vê, perigosíssima fama a denunciar atrocidades. Primeiros as cometidas contra os congoloses pelo Rei Leopoldo da Bélgica. Depois as lançadas contra os indios Putumayo do Peru pelos homens de Júlio César Arana, barão da borracha que se não tivesse sido tão cruelmente real teria sido inventado pelo nosso Ferreira de Castro. Terá sido aliás no Congo que Casement terá conhecido, por volta de 1889, o polaco Józef Teodor Konrad Korzeniowski que viria a inspirar-se no seu “Congo Report” (bem como, é sabido, na sua própria experiência como comandante de vapor) para escrever o celebérrimo Coração das Trevas. Do Coração, do fundo do coração, já nos falou, aliás, o nosso MSF. Falou-nos de Conrad e de um Coppola que não podia ter sido Coppola sem ter sido primeiro Conrad. Porque se é verdade que Kurtz é Kurtz, Coppola é Conrad da mesma forma que Conrad é um pouco de Roger Casement. Ou visto de outra maneira, Coppola é Conrad da mesma forma que Coppola é um pouco de Herzog e da mesma forma que Aguirre é um pouco de Marlow. E com Aguirre, pela espada de um enlouquecido Klaus Kinski, voltamos ao principio deste Mundo e ao Peru. Por onde andou, já vos disse, o nosso amigo Roger Casement agora ressuscitado e, mais importante, justamente reabilitado pelo nobilizado Vargas Llosa no seu  recentíssimo Sonho do Celta que acabei de ler e que vivamente recomendo. Até porque, já que aqui estamos, valerá a pena dizer que com a viagem de Casement, Amazonas acima, Amazonas abaixo, Llosa descobre o contraponto dramático perfeito para a saga sexo-militar do seu impagável Pantaleão que por ali também andou, em patriótica missão, a recrutar visitadoras. Que é como quem diz, Putas Tristes. E a coisa podia continuar assim, interminavelmente, ciclicamente, rio acima, rio abaixo. Cada livro, um afluente, cada filme um ramal.

Talvez seja por isso que eu gosto de geografia.

 

Livros estupidamente bonitos IV

Não sei se gosto mais das ideias (great, to say the least), dos livros, ou das capas de umas e de outros. Mas estes pinguins, emproados nas suas elegantíssimas casacas, têm muito bom gosto. O grau de civilização de um país mede-se por colecções assim. Não me venham com FMI’s.

Livros estupidamente bonitos III

 

Hellen Yentus também deve gostar de cerveja embora isso não conste da sua biografia oficial.  Que de resto não sei se existe. Os livros é que são bonitos como o Diabo! E o site, ah o site tem um grande boneco. Metade roubado ao Hyeronimus Bosch, metade ao Pedro Proença.

Livros estupidamente bonitos I

Gosto, julgo que gostamos todos neste blog, de livros. Gosto, é óbvio, dos mundos infinitos que são os seus. Inexplorados, inexploráveis e por isso mesmo de um demencial fascínio. Aliás, alguém um dia me disse (e eu aprendi) que só pode aspirar a ter uma boa biblioteca quem desistir da ideia, bibliofilamente absurda, de a ler por inteiro. Além do mais gosto-lhes das entranhas, dos silêncios, dos gritos, dos choros e de todos os ruídos baixinhos que gritam à noite. Gosto-lhes e melhor não sei dizer. Gosto-lhes.

Mas gosto também, por vezes quase tanto, do que eles próprios gostam de si. Não há nada mais bonito do que um livro que se quer bonito. Não há nada mais bonito do que um livro vaidoso. Cheio de si. Barroco, dourado, minimalista, discreto, ensurdecedor de mil cores. Mas já que aqui estamos, querem saber uma coisa que me atormenta? Pode dizer-se de um livro que é “coquette”? Provocadora? Ou “allumeuse” (lamento mas não há em português palavra que lhe faça justiça)?

Seja como for, neste blog temos falado mais do que são do que do que se parecem. Ou do que se querem parecer. É injusto. Terrivelmente injusto. É tempo de uma reparação mínima. Tão mais maximamente mínima que não consegui, ainda, alcançar essa alquímica fantasia que é a de lhes aprisionar o cheiro. Que isso não vos iniba de lhes juntar, se me fazem a fineza, outros livros vaidosos da vossas bibliotecas. Só há uma regra. Têm de ser estupidamente bonitos.

Gregg Kulick gosta de cerveja, tem um talento dos diabos e um belo site.

As coisas

As coisas de Velasquez

 

Eu sei que aqui não se fala de política. Mas sei também que se pode, que se deve, falar de sexo. Aproveito portanto a fresta (estou plenamente consciente do valor “assimétrico” da expressão, mas as coisas são o que são) para falar de política de sexo e para vos recomendar a leitura de uma crónica publicada no jornal Público de hoje: “Faz favor, menina”: linguagem e subalternidade feminina. Por Maria José Casa-Nova.

Não resisto a citar uns excertos:

“Incontornavelmente mais importante do que qualquer institucionalização de “Dias de”, é institucionalizar práticas democráticas, construtoras de relações de sociabilidade, familiares e de trabalho não hierarquizadas (…). Um exemplo desta ausência de práticas democráticas é o tratamento linguístico de que uma parte das mulheres é estruturalmente alvo por parte da sociedade (neste caso, portuguesa) e que consiste no tratamento de “menina” com que são frequentemente “presenteadas” nos mais diversos contextos de interacção social. (…) Esta forma de linguagem remete a mulher para um estatuto de menoridade, retirando-lhe a adultez e outorgando-lhe um estado de permanente infantilidade ao qual se associa a necessidade de serem constantemente cuidadas e agidas pelo género masculino. (…) Esta espécie de “violência simbólica” sobre as mulheres é eficaz dada precisamente a adesão das “dominadas” a este processo de dominação (reconhecimento da validade de) e do desconhecimento das relações de poder que estão na sua base.”

E pronto, mais não digo. Mas que o Velasquez deve estar à rasca, deve.