
Não sei exactamente porquê. Terá sido excesso de sol? Terá sido uma «overdose» de canal parlamento? O que é certo é que a memória tem razões que a própria razão desconhece e hoje acordei, a meio da noite, a recitar um texto genial de Luis Fernando Veríssimo. Talvez estejam lembrados, é a história de Leonor e Ataíde que resolvem «botar» um microfone escondido no elevador do prédio. Querem saber o que dizem os amigos quando entram e saem de sua casa.
«- Vai dar galho, Ataíde…
- Vai nada.
E Ataíde instalou um microfone no elevador. O primeiro teste foi quando convidaram o Júlio e a Rosa para jantar. Ataíde ouviu Júlio dizer para Rosa dentro do elevador, na subida:
- Às onze horas a gente dá o fora.
- Acho que às onze ainda não serviram o jantar. Se eu conheço a Leonor…
- Não importa. Às onze nos mandamos. Amanhã eu tenho academia.
E Ataíde ouviu Júlio dizer para Rosa dentro do elevador, na descida:
- Saco, Rosa. Uma hora da manhã. Não viu eu fazer sinais prà gente ir embora?
- Aquilo era um sinal? Pensei que você estivesse limpando o ouvido.»
Da segunda vez a coisa piora:
«- O Ataíde está meio acabadão, tá não?
- Acho não. Prà idade dele…
- Também, ter de aguentar a Leonor… (…)
- Cachorra!»
Mas Leonor e Ataíde persistem. Leonor e Ataíde insistem.
«Ligam da portaria para anunciar que o Sr. Marcos e a Dona Lia estão subindo. No elevador, Lia diz:
- Se a Leonor servir salmão outra vez, eu me mato.
Depois, Lia não entende a frieza da Leonor com ela durante todo o jantar. Não sabe que Leonor teve de suspender o salmão que serviria. Que substituiu o salmão por um resto de pernil que, graças a Deus, ainda tinha na geladeira. Descendo no elevador, Lia comenta com Marcos:
- A Leonor enlouqueceu. Você viu? Serviu pernil com molho remolado pra peixe.»
Mas à quarta tentativa, tudo azeda de vez.
«Depois de um jantar para os amigos que ainda restavam, os melhores amigos do casal foram os últimos a sair. Marjori e Adão. Amigos chegadíssimos. Amigos de muito tempo. Depois das despedidas, depois de fechada a porta do elevador e de o elevador começar a descer com Marjori e Adão, Ataíde hesitou. (…) O que ouviram foi o fim de uma frase dita pelo Adão:
- …cada vez mais chato.
- Viu só, Ataíde? — disse Leonor. — É sobre você.
- Porquê eu? Tinha mais gente no jantar!
- Sei não… Sei não…
E nunca saberiam mesmo. No dia seguinte, Ataíde tirou o microfone escondido no elevador.»
Eu também estou a ficar deprimido. Sendo impossível desligar o país, não sei se não é, apesar de tudo, de fazer como o Ataíde.
Publicado na Visão em 4.2.2010

Spooooorting!
Agora é que a Papisa me falou ao coração. A Nadia Comaneci foi a minha segunda namorada. Conheci-a em Montreal e apaixonei-me logo. A primeira, mais bonita reconheço, foi a menina que se segue. Se alguma das santinhas do Blog lhe adivinhar o nome prometo que se acabam os Raios X.

Ainda não lhe descobri o nome do meio (estou à espera que o Vasco Luís se vingue) mas disse o primeiro. Papisa-qualquer-coisa. O que é certo é que vou descobrindo musicais afinidades com a nossa segunda ouvinte da noite. Também não disse a frase mas não se fez esquisita e pediu que pusesse o gira-discos a tocar a melhor música de todos os tempos. Eu, que já confessei uma irresistível simpatia pelo Senhor, faço-lhe a vontade.
É verdade que não disse a frase («Primeiro estranha-se, depois entranha-se»). Mas disse o nome (Vasco Luís) e fez o pedido. Aqui.


No dia em que o MSF trouxe um convidado especial para o cemitério ali do lado, quem também ressuscitou mais um bocadinho, e me vai fazer companhia à cabeceira, foi o nosso primeiro inquilino. João Bénard da Costa regressa (será que alguma vez partiu?) pela mão amiga da Lúcia Guedes Vaz que edita o 1º volume de Crónicas: Imagens Proféticas e Outras. Apetece dizer Obrigado. Obrigado, portanto.
O júri reuniu (reunir é força de expressão porque foi uma singela conversa entre o Fonseca e os seus prateados botões) e não tem dúvidas: Foi a insidiosa Nini que nos levou ao colectivo e desenfreado Pecado. Pede-me pois o Grão Mestre deste cemitério (o acima aludido Fonseca) que lhe comunique a pena. É o que faço, acredite, roído de pena:
1 — Casa roubada, trancas à porta. Depois dos pecados, as penitências. Fará a supracitada Nini o obséquio de salvar das labaredas do Inferno, para onde despudoradamente os lançou, os mortos deste cemitério, prescrevendo uma (e só uma) penitência para cada corpinho.
2 — Para efeitos da pena definida em 1) a terrível Nini deve ser considerada membro de pleno direito deste lúgubre talhão. Caber-lhe-á, ora pois tá claro, uma penitência. E de preferência a primeira e a mais penosa de todas.
3 — Também para efeitos do disposto em 1) devem ser incluídos na lista de penitenciados os sinistros Orcama, António Eça e a sua (deles) inspiradora, a maléfica Turmalina.
4 — As penitências a que alude o ponto 1 acima deverão ter a forma agravada nos casos das perniciosas Vasconcelos e da sua cúmplice Conceição que, como é público e notório, tentaram branquear a conduta da ré em indecentes comentários que podem ser lidos mais abaixo.
E disse.
Pl’o Hediondo Fonseca.
PN
Escrivão
PS: O título é, reconheço, um trocadilho fácil e de duvidoso gosto. Mas a ária, quand même, é bonita.

Se é para ser mau, é para ser mau à séria. Não gosto de coisas a meio caminho. Assim tipo mau por fora mas com um coração de ouro lá no fundo, no fundo. Umas furiazinhas, um ataque de mau feitio, uns acessos de inveja verde ou uns espamódicos acessos de lúbrica luxúria são coisa para garotos. Garotos maus, mas garotos. Se posso escolher o original, não me fico pela cópia. Nesta coisa de vilões a que a Teresa me condenou, não faço a coisa por menos. Negro, irredimível, impuro, vingativo, cruel, pestilento, sádico, bestial. Dez chifres e sete cabeças. Em cima dos chifres dez coroas e nomes blasfemos sobre as cabeças. O meu menino mau, tremei, tremei, é mesmo uma Besta.

Já o meu lado heróico, em bom rigor, não existe. Pelo menos em heróicas doses. Mas nem por isso desexiste o herói que eu gostava de ser. Tom Doniphon. Não tanto porque fosse sua (e era, como se viu) a bala que matou the toughest man south of the Picketwire. Mas por ter sido o cowboy mais desesperadamente generoso da história de Shinbone. Talvez mesmo, de todos, o mais generoso a oeste de Pecos. Para não dizer do Oeste tout court. Porque era dele a bala, foi dele a embriagada coragem e deveria ter sido dele a fama. E a bela loira, claro. A bala e a bela. Mas para que a História se cumprisse, para que mudassem de vez os ventos de um Oeste sem Lei, sacrificou a glória e sacrificou o amor. «Hallie’s your girl now. Go back in there and take that nomination. You taught her how to read and write; now give her something to read and write about!» E ele foi, e ele fez, e ele levou-a consigo. E Doniphon ficou para trás e foi a enterrar como um simples homem bom. Nothing’s too good for the man who shot Liberty Valance.
Passa o desgosto, dizia-se no recreio do meu Liceu. Nunca percebi bem porquê. Mas é hora de passá-lo, ainda assim. Aceitas a vasconcélica maldição caro Gonçalo?

Sete Pecados mortais, Hieronymus Bosch
O aviso, apesar de estar publicado desde 1485 (mais coisa, menos coisa) e de estar pendurado aqui mesmo ao lado, no Museu do Prado, não chegou a tempo ao Gente Morta. Cave Cave Deus Videt. Que é como quem diz: ponham-se a pau, rapazes e raparigas, porque ele está de olho em vós. E vós, neste caso, éramos nós. Que andámos aqui, inconscientes, a praticar os mortais interditos pintados por Bosch. Temo o pior. De quem foi a ideia?

Seguramente parece. E pode bem ser que tudo isto seja mesmo verdade. Pode bem ser que Sócrates tenha mesmo uma especial dificuldade em lidar com a liberdade de expressão e que tenha alimentado o sonho de controlar a comunicação social. E se assim for, pode bem ser que, apesar do calendário político, do terrível momento económico e das intermináveis discussões formais e processuais em que o país vai enredar-se, o Primeiro-Ministro fique mesmo politicamente ferido de morte. O que não vale a pena é taparmos o sol com uma peneira e acharmos que a história acaba aí. O que não vale a pena é que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma. O problema, sejamos sérios, não é «apenas» um problema de protagonistas e muito menos é um problema partidário. Desenganem-se pois os que julgam que basta mudar de partido de governo ou de Primeiro-Ministro. O problema nem sequer se resume «só» a um problema com a comunicação social. Muito pelo contrário. O que o caso das escutas põe a nu é um problema generalizado, estrutural e de regime. Não entender isto é meio caminho andado para perpetuar este estado de coisas.
O «polvo» de que fala o jornal Sol está aí e está aí para ficar. O polvo chama-se, é sabido, uma escandalosa e crescente promiscuidade entre os poderes económico e político. O polvo, esse polvo que tanto é rosa como laranja, está montado para servir todos os poderes, quaisquer que sejam os seus protagonistas, qualquer que seja o partido no governo. Por razões que, de resto, são bem fáceis de entender. Desde logo, porque poucos governos (se é que algum) resistem à tentação de não usar em proveito próprio as estruturas de poder que os seus antecessores diligentemente montaram. Por muito que se grite na oposição, por muito grandiloquentes que sejam as proclamações que se façam, o apelo de uma bem oleada máquina de influência é simplesmente grande de mais para que não se tire partido dela quando mudam as marés. Nesta matéria raramente se anda para trás. E cada novo patamar é sinónimo de uma democracia mais frágil, mais aprisionada, menos substantiva. Depois, porque o poder económico que se deixa atrair para este jogo perverso de interesses não tem exactamente uma grande fidelidade ou uma enorme coerência ideológica. Hoje serve-se o PS, amanhã é-se do PSD desde pequenino. Pelo meio, se necessário for, jura-se amor ao PP, ao PC, ao Bloco.
A solução? A solução, chamem-me liberal furioso, é reduzir drasticamente o peso e a influência do Estado na economia. Já não o digo em nome da competitividade. Digo-o porque me parece evidente que se o Estado não chegar a todo o lado, se não decidir sobre tudo, se não for grande cliente, se não empregar meio país, se não usar «golden shares», se a sua infernal máquina burocrática não tiver, na prática, o poder de condenar à morte ou de elevar ao Olimpo empresas «inimigas» ou «amigas», estará quebrado este ciclo vicioso e sinistro que se arrisca a dar cabo do nosso regime democrático. Nesta matéria deixei, infelizmente, de acreditar no Pai Natal e não consigo vislumbrar outro caminho.

Whirlwind of Lovers, William Blake
Este que ali veêm é Minos, o sinistro juiz deste lugar. Dizem-me que arranca confissões dos mortos com uma destreza muito requintada. Não sirvas a quem serviu. Não sou de intrigas mas sei bem que é, também ele, filho da luxúria. E, já que aqui estamos, da taurina bestialidade que lhe deixou em herança a cauda sinistra que gosta de enrolar em jeito de sentença. Uma vez por cada círculo em que mergulhará cada irredimível pecador. A mim, calharam-me dois. Dois e um Vento tenebroso que nunca se cala e nunca se cansa porque é o eterno castigo pela transgressão da carne, que desafia a razão, e a submete, indefesa, à sua vontade. Sua, dele, como verão. Dissoluto? Pobre de mim. O único vício que aqui alimento é uma partidinha de canasta com Semiramis e duas pombas que são da sua criação. Lascivo? Nunca tentei um avanço, um avançozito sequer, em direcção à nasalenta Cleópatra. Libertino? Pois sim. Mas a verdade é que não foi a mim que Menelau acusou de comerciar com a bela Helena que por aqui ainda a asa arrasta. Nem eu tinha arcaboiço para tão homérico desígnio. Eu, aliás, de luxúria, pouco ou nada sei. Estou inocente, alvamente inocente. E se aqui estou, a penar depois de morto, por conta de desenfreados prazeres que não tive a sorte de conhecer em vida, é porque esse pérfido Manuel S (de Alighieri) Fonseca para aqui me atirou. Condenado a cumprir o eterno castigo que deveria ser seu. Seu, digo bem, porque é bom de ver, não era minha a marota mão. Nem tão pouco conheço a coxa de tão imprudente ou tão impudente Beatrice.
O Carnaval português, feito de coxas muito gordas, pele de galinha, criancinhas pintadas de fada e artistas de novela em saldo, deprime-me profundamente. Mais ainda do que a obrigação de me divertir muito, muito, na passagem de ano. Se pudesse mascarar-me de Sócrates por um dia, proibia todos os festejos e declarava um recolher obrigatório de três dias em Ovar, Torres e Loulé. Como não mando nem em minha casa, fujo para o Alto Minho e espero que a coisa passe. Volto já.

O rapaz que viria a ser meu pai calava-se, atónito, à hora certa, para saber as últimas da «bomba antónia» de que falava a rádio de casa dos meus avós. A minha mãe sempre me contou, com visivel emoção, as aventuras e desventuras de um amigo de nome estranho que aportara à sua infância fugido de indescritíveis terrores que insistiam, imagino, em viajar consigo. E isto, claro está, para não falar da mãe que era do Sacha (companheiro de antigas e inomináveis tropelias) que, ainda menina, errava perdida pela Bélgica do pós Guerra até que um milagre,sob a forma de uma tatuagem azul, a restituiu ao que restava da sua família.
O mais certo é que memórias como estas, já de si distantes e muito amaciadas pelo conforto de uma segunda mão, não cheguem nunca aos meus filhos. O que é pena. Porque se assim fôr, ter-se-á perdido, no universo insignifcante que é o meu, o mais eficaz dos antídotos contra o Horror. É apesar de tudo para tentar evitá-lo que guardo, tal como o Vasco, numa prateleira lá de casa, um pessoalíssimo «kit contra o esquecimento» que hei de impingir-lhes quando chegar a hora de os poder chamar homenzinhos:
1 — O Mundo em Guerra, BBC. Provavelmente o melhor documentario de sempre sobre a 2ª Guerra Mundial.
2 — A Segunda Guerra Mundial, Martin Gilbert. Parece que o NYT lhe chamou «Magistral». Eu não faço a coisa por menos.
3 — Se Isto é um Homem, Primo Levi. Não é possível perceber o Holocausto sem ler este livrinho.
Mal não lhes fará.

Aconteceu um dia, em Nova Iorque, na Rua 126. Eram 10 horas de uma manhã do Verão de 1958.
1958? Devia ter dito 1998. Em vez de Dizzy Gillespie, Lester Young, Thelonius Monk, Sonny Rollins, Horace Silver, Art Farmer, Art Blakey, Charlie Mingus, Gerry Mulligan e Count Basie estiveram lá Rakim, Fat Joe, Fab 5 Freddy, Da Brat, Peter Gunz, Shyheim, Yoga Russ, Q-Tip, Cee-Lo, Sticky Fingaz, Debbie Harry, Wyclef, Jermaine Dupri, Luke, Kool Herc e E-40. Que é como quem canta: serviu-se Hip Hop onde antes se ouvira Jazz. Um tributo bonito, apesar de tudo.
Morreu um morto novo, guiado pela voz inspirada do Diogo. Mas atenção! As orações fúnebres não são só salamaleques. E, pelos vistos, o veneno não é monopólio das nossas fúrias. Os realizadores deste «cantinho da Europa» devem estar com o umbigo a arder.
Por uma vez, é Σωκράτης quem está carregado de razão.

José falando de Alberto João aos discípulos. Atentem no dedinho.

Rembrandt, A Lição de Anatomia do Dr. Tulp. 1632
Parece que Portugal está em morte lenta e que o orçamento é a sua declaração de óbito. Mas, ao contrário do que por aí se diz, o putativo cadáver não tem um problema económico irresolúvel. As espantosas quantidade e coincidência dos diagnósticos (e consequentes indicações terapêuticas) que vão surgindo de quase todos os quadrantes ideológicos são a prova disso mesmo. A reforma da administração pública, o abandono da política de grandes investimentos improdutivos e absolutamente supérfluos, a alienação ou encerramento de empresas estatais inviáveis, a reforma da legislação laboral não são, convenhamos, remédios novos nem sequer originais. São apenas algumas das várias medidas de bom senso a que a esmagadora maioria dos economistas portugueses seria capaz de prestar o seu entusiástico apoio. Não é pois de escassez de diagnósticos ou de remédios de que morrerá o paciente.
Observemos então o problema de outra perspectiva. É um anátema, bem sei, comparar os problemas económicos do país aos das empresas. Mas quando nos questionamos sobre a capacidade dos portugueses para implementar, na prática, as reformas económicas de que o país desesperadamente precisa, é interessante perceber que, felizmente, esta capacidade existe no tecido empresarial privado do país. Se é certo que boa parte das grandes empresas do regime vive à sombra tutelar do Estado e espera encontrar neste a resposta para todos os seus problemas, não são poucas as pequenas e médias empresas que dependem, para escapar a mortes bem mais rápidas do que a que se anuncia para a República, exclusivamente de si mesmas, da capacidade dos seus empresários e gestores para tomar medidas difíceis e da dos seus trabalhadores para aceitar sacrifícios. E se durante o ano «horribillis» de 2009 muitas ficaram pelo caminho, outras tantas deram provas de uma resiliência e de uma coragem que muita falta faria noutras paragens.
O que falta então a Portugal para que escape à sua anunciada «morte lenta»? É, bem sei, um «cliché» repetido vezes demais. Mas não deixa por isso de ser verdade. Portugal não tem um problema económico insolúvel. O país não tem escassez de diagnósticos nem de remédios. Portugal não tem, sequer, falta de quem os possa aplicar com eficácia e coragem. Mas Portugal tem, isso sim, um problema político sério. Portugal tem um sistema político doente, fechado sobre si mesmo e à sociedade, autista. Portugal tem uma democracia débil e refém de máquinas partidárias que sacrificam qualquer tentativa de regeneração ou de mudança do status quo à desesperada ânsia de auto-preservação da sua imensa mediocridade. Portugal tem, por via dessa sufocante pulsão uniformizadora da sua partidocracia, uma total incapacidade de atrair ou de gerar elites e lideranças políticas com verdadeira vontade e capacidade reformista. E sem lideranças, «ça va sans dire», não há atracção dos melhores, não há mobilização de energias, não há capacidade de passar dos diagnósticos à acção.
Se alguma coisa nos condenar à morte lenta não será a economia. Será a política. E é bom não esquecer que se o inferno são os outros, a política somos nós.
Publicado na Visão em 4.02.2010

René Magritte, L’Empire des Lumieres.
Ouvir uma, só só mais uma, daquelas histórias com cheiro a África que o meu avô sabia mentir com uma verdade muito sua.
Descer a Rua do Ouro, entrar «numa daquelas lojas que são misto de café, leitaria e casa de pasto», pedir uma cerveja bem fresca que me saberá «pela alma» e dar com o Tiago «sentado a um canto a tomar um copo de água gelada».
Ser Viena e ter um comboio de fingir impossíveis que durasse uma noite inteira.
Férias Grandes. Azuis, Verdes e com uma vista só vista para a Serra d’Arga. Musgo, girinos, granito, corredores sem fim e uma mesa muito, muito comprida com toda a família do Mundo.
Roubar, tão bem roubado que todos o jurassem meu, o título mais perfeito que um homem pode roubar. Croquis et Agaceries d’un Gros Bonhome en Bois.















