
Agora que a corda serpenteou:
O sagrado não reclama cor. O sagrado É COR. Sempre foi.
A preto e branco, a Pornografia ganha o poder da Estética (e aspira à Ética).
As mais antigas Vénus, descobertas na tundra soviética (e, depois, na Europa Central), arqueologicamente registadas no século passado, são feitas em pedras de cor, ou tingidas para o efeito:
rosas, vermelhos, azuis corpulentos. Há 30 mil anos.
Nas grutas de Lascaux, Chauvet ou Altamira, a cor é utilizada para a reprodução do sagrado animista, com um Homo Sapiens em tensão – e em dádiva – dos céus e do solo. Caça, dança, maternidade são celebradas hieraticamente — logo, em plena consciência e fruição do sagrado — através do magenta, dos barros, dos amarelos-espinhos, das tonalidades da terra.

O carvão dá equilíbrio ao figurativo, mas toda a tentativa de sacralização é cromática.
Na civilização grega há um grande respeito pela pureza que toda a ausência de cor inspira, arregimentando o silêncio – no registo da escrita, no trabalho vasiforme 
no banho límpido dos mármores

A de Milo
Mas A OPÇÃO pela cor atravessa toda a pintura medieval. Firma-se nos pré-rafaelitas. Explode no Renascimento.
A violência, como a cor, é indissociável de todo o sagrado, e está na génese do erotismo ANTES de estar na origem da pornografia.
Mais: Até ao final do século XVII, e ao Iluminismo, a representação erótica não é possível per se, ou numa dimensão individual própria, surgindo enclausurada no sagrado — no mínimo, numa aparente aspiração ao sagrado.
Observe-se Caravaggio.

Os corpos crísticos e santificados de Caravaggio têm um princípio de desejo imanente. Uma pulsão de desejo.
O próprio rosto do autor a colar-se a esses corpos 

A ânsia pelos prostitutos com que dormia, reproduzida nos torsos, pernas, mãos, músculos, carne violentada sob o magistério do Novo Testamento
Como se o erotismo na vida pessoal do pintor fosse o princípio estético e, porque não, espiritual, que aproxima o artista do Sagrado.
Esse princípio de desejo aumenta no retrato posterior, concebido por autores dos séculos seguintes, de santos como São Sebastião 


Incluindo, no final, o “Sebastiane” de Derek Jarman

As cordas
Regressando ao erotismo: O erotismo reclama a cor ainda mais do que a pornografia porque o desejo é uma aspiração colorida

Klimt, et pour cause
enquanto o coito, e a pura ardência da genitália, explodem de cor em si mesmos, na função de ser

Ai no corida
Buñuel, que pensou como poucos as relações éticas – no sentido mais largo, civilizacional, do termo – entre sexo e sagrado, recorreu ao preto-e-branco quando chegou a hora de ilustrar o excesso das tentações profanas da religião e, em simultâneo, a hipocrisia dos rituais eclesiásticos.

Viridiana
Abafou, pois, o sagrado com a rispidez cortante do blanco y negro.
Porém, quando quis explorar mais a fundo o território da culpa, penetrando no erotismo do subconsciente, só encontrou uma opção: A COR

Belle de Jour
Há cor, cordas, carmo e erotismo em “Belle de Jour”. Mas, convenhamos, não há nada de pornográfico (isso torna-se agora una cosa mentale, encerrada algures na caixinha do oriental que visita, certo dia, esse santo bordel…) 
Quando, catorze anos depois, Lawrence Kasdan decide reacordar o Morfeu do film noir, prostrado durante boa parte das duas décadas anteriores, decide fazê-lo NUMA INFUSÃO DE COR, incluindo no gesto todo o exagero das leituras psicanalíticas.

A saia vermelha…
A eficácia, essa, é indiscutível: Hurt ataca Turner por trás

e a seguir, esfrega-lhe o o dorso com gelo numa banheira…
A partir dos anos 80, as cordas – e a fantasia da submissão/humilhação – deixam a privacidade das caves S&M, as especificidades do gay underground, as vantagens económicas do cine sexploitation e a “subversão” da pornografia. Acedem ao território do erotismo, mundanizando-se:
. no cinema “comercial”
. na publicidade
-

campanha de Ellen von Unwerth
. na moda
-

a inocência (?) de Amanda Seyfried
A pornografia não requer cor para regurgitar na psique (assim adaptando-se à realidade). A pornografia, no mais descarnado dos simulacros, É a realidade. Ou alguém duvida de que o melhor sexo é sempre pornográfico — SOBRETUDO quando assinado pela caução do amor?
O sexo é a forma mais óbvia, e mais intensa, de poder. Logo, reclama sempre submissão. Sendo ou não mútua. Sendo ou não circunstancial.

The Postman Always Rings Twice, take 2
O cinema de género, como espelho de pulsões primitivas, costuma ser um bom exemplo. Repare-se neste diálogo de “Bound”, dos irmãos Wachowski, vindima de 1996.
Corky (a viscosa Gina Gershon) e Violet (a roliça Jennifer Tilly) flirtam. Corky prepara-se para mostrar a Violet tudo o que uma mulher pode fazer com as mãos numa, digamos, relação lésbica, quando
Violet — Quero pedir desculpa.
Corky — Vá lá, não peças desculpa. Se há coisa que não suporto são mulheres que pedem desculpa por quererem foder.
Violet — Não estou a pedir desculpa por querer foder. Estou a pedir desculpa por ainda não termos fodido. Tens alguma cama que se use?

As cordas
A violência do sexo vai MUITO MAIS LONGE do que a simples paragénese da submissão (seja ela voluntária ou tolhida pela presença e pelo uso das cordas, como nas fotografias de Nobuyoshi Araki).
A “voraphilia” – o desejo, ou o “amor”, de ser devorado e, eventualmente, digerido, por outra criatura – é uma vontade milenar, expressa na iconografia de múltiplas culturas.

Jonas, iluminura
Consiste — dito de uma forma menos crepuscular — na fantasia da masturbação, masculina ou feminina: imaginamos estar a ser comidos por uma boca pulposa que, a seguir, nos digere. É uma sub-categoria interessante da “endosomaphilia” , a excitação de estarmos no interior de alguém, ou de alguém estar no interior de nós.
Em suma, uma amplificação lógica do sexo “comum”.
Joga-se com a ideia de sacrifício – e, de alguma forma, com a ideia sagrada de passagem deste mundo para outro – num conceito popular em culturas orientais como a de Araki. Bastará ler a Ko Ji Ki, a “Crónica das Coisas Antigas”, redigida no Japão em 712 DC. Nela se encontra a história de Kushi-Inada Hime e de um certo dragão de oito cabeças, onde perpassam todos os medos, desejos e aspirações desta parafilia. Como, de resto, se encontram antes, a Ocidente, no mito de Perseu libertando Andrómeda. Ou depois, de forma mais frugal, no mito de São Jorge face ao dragão (para se saber mais e, caso entendido, se fantasiar mais sobre o assunto, consulte-se Louis Pergaud).
É o irreprimível apetite de se devorar. Ou de ser devorado.

“O Sabor da Melancia”, de Tsai-Ming Liang
A violência do sexo não acontece, portanto, nas margens do “equilíbrio social”. Está, antes, na génese de culturas inteiras. Araki não é um artista exógeno à tradição nipónica de representação da sexualidade, onde a dor, o sacrifício e a submissão são elementos centrais.
E assim regressamos ao conflito entre a cor e o preto-e-branco.

I Am Curious (Yellow), Vigot Sjolman, 1967
Historicamente, I Am Curious (Yellow) é a verdadeira entrada da pornografia (anos antes da Garganta, e não se se deixem iludir pela candura da foto) no mainstream da distribuição cinematográfica. Rodado como?
A preto e branco.
(não irei, por agora, à colorida “pornografia” do “Saló” de Pasolini; a sua dimensão política tem outras repercussões, e sugere outro quadro de raciocínio).
Toda a importante fotografia de Mappletthorpe é a preto e branco. Das numerosas imagens de fist-fucking e de uma certa parábola das…cordas 
às imagens nucleares da “série das flores”, eminentemente (e iminentemente) sexuais

CONTRA a pulsão erótica – e explosivamente cromática — de Georgia O’Keefe.

Pelo contrário, o erotismo tende a reclamar a cor para melhor sintetizar
a) a elutriação do espírito
b) a lubrificação do corpo
Recuando outra vez: “Black Narcissus” de Michael Powell, é um bom exemplo.

Nele, existe uma opção consciente e deliberada pela cor como instrumento vital da irrupção do erotismo na arena, não só do desejo, como do SAGRADO.
Quando Powell procurou pensar os trabalhos braçais e a influência do Destino na génese do amor, trabalhou a preto e branco – basta lembrar “I Know Where I’m Going”.

Em “I Know Where I’m Going”, o sexo não entra — Wendy Hiller e Roger Livesey são seres com o apelo sexual de uma amiba.
Aqui, a sexualidade é uma força sem sentido. E, sobretudo, sem nenhuma dimensão telúrica.
Quando Powell quis ilustrar a tomada de consciência do erotismo COMO UMA FORMA DE INTEGRAÇÃO DO SAGRADO no mundo real, pediu a um mestre-fotógrafo, Jack Cardiff, para tirar a paleta e as tintas do armário.
O resto é pecado

e as CORDAS dos sinos.

Indo mais longe, e pensando no erotismo como prenúncio de morte

“The Red Shoes”
Powell recorreu a mais do mesmo: COR.
E acabou às portas da pornografia

“Peeping Tom”
Atreves-te no sexo. Fazes dele o teu banquete. Morrerás por isso.
É aqui que, em última análise, termina a conjugação triangular entre pornografia, erotismo e sagrado: na morte.

“Blow Up”, Michelangelo Antonioni
No final, até mesmo o amor

“Breaking the Waves”, Lars von Trier
surge traçado pela morte, necessitando passar pela sordidez do corpo até chegar

à beatitude do sagrado
***
Atente-se neste diálogo de “The Wings of the Dove” (Iain Softley, 1998), entre Kate Croy (Helena Bonham Carter) e Merton Densher (Linus Roache).
Ambos manipularam — no eterno jogo de poder que toda a sedução implica – Milly Theale (Allison Elliot), uma jovem herdeira norte-americana de saúde frágil, recém-falecida sob a beleza húmida e tumular de Veneza.
Estão deitados, nus, na cama.
Merton — Amo-te.
Kate — E eu a ti (pausa) Em que estás a pensar? (ele não responde) Ainda estás apaixonado por ela.
Merton — Nunca estive apaixonado por ela.
Kate — Enquanto ela foi viva, não.
Merton — (pausa) Desculpa, Kate. Desculpa.

“Ai no Corida”, Nagisa Oshima
A morte é a derradeira corda do desejo.
