Saí esta semana do meu patético eremitismo para ir ver dois filmes: “O Escritor Fantasma”, de Roman sweet thirteen Polanski, e “A Origem”, de Christopher Nolan.
Regressei contente da gruta de algodão doce situada no sétimo círculo do Inferno ao fim das escadas castelhanas de Penrose porque assisti a uma espécie brilhante de tomografia axial computorizada (TAC) ao cérebro dos senhores Nolan e Polanski. Nunca gostei particularmente dos empreendimentos do senhor Nolan, incluindo os celebrados “Memento”, esse sublime relógio suiço onde só se vê o mecanismo interno — a arquitectura da acção — , nunca o mostrador — a beleza da emoção — e o díptico dedicado ao Cavaleiro das Trevas. Nunca compreendi o fascínio da crítica internacional e o entusiasmo da crítica (?) nacional face a “Batman Begins” e “The Dark Knight”, mas depois lembrei-me que os comentadores para-cinéfilos cá da terra escolhem periodicamente um reles industrialista norte-americano com cara de cifrão e traçam-lhe o perfil de artista de portento para melhor criar a ilusão de que o seu juízo estético não jaz inquinado, antes exultando numa cristalina imparcialidade ontológica.
Nos últimos anos, de forma a poderem interromper o café para levantar a chávena e afirmar, sorriso suave, “há cinema de entretenimento de que gosto muito”, os controladores de qualidade fizeram em Portugal o mesmo exercício com, por exemplo, John Mc Tiernan (negligenciando, no entanto, um dos seus melhores filmes, “The 13th Warrior”, por causa de ter nascido deficiente, condição agravada por mutilações na pós-produção), Michael Mann (de quem foram traçados retratos de pura vulgaridade e negação autoral por via das cumplicidades do cineasta com a televisão no seu todo — vade retro — e “Miami Vice” — credo! — em particular, tudo ali por volta de 1984, já após “The Jericho Mile” e o excelente — e autoríssimo — “Thief”) e, claro, o caso mais desagradável, o senhor Clint Eastwood, que a imprensa portuguesa tomou como criativamente néscio, cinematográficamente monocórdico e esteticamente sub-Siegel ou avant-Leone até dar de caras (ia escrever trombas, ainda bem que não o fiz) com a insustentável beleza ardente de “Bird”, em 1988 — o jazz, que pedigree! — quando o homem já tinha dirigido um grande filme 15 (!) anos antes — “High Plains Drifter, 1973″ -, uma fita de uma enorme ternura picaresca — “Bronco Billy”, 1980 — e duas obras-primas: “The Outlaw Josey Wales”, 1976 — que em boa hora roubou a Philip Kaufman — e “Pale Rider”, 1985, um dos grandes westerns da história do cinema (para o qual Manuel Cintra Ferreira, justiça lhe seja feita, chamou dedicada atenção num “Expresso” que ainda tinha, no século passado, aqui e acolá, crítica de cinema).
É pois, para mim, verdade — pelo menos foi-o nas horas que duram minutos e que abraçam anos pela escuridão da gruta do algodão doce — que tanto o senhor Polanski (sem surpresas) como o senhor Nolan (com uma certa dose de imprevisibilidade) nos oferecem agora duas obras visuais, ambas alicerçadas na trave mestra do “avanço inexorável da intriga” tão caro à herança do cinema clássico — leia-se “susceptível de compreensão pela generalidade dos espectadores que aceita assinaturas para além da de Hsou Hsiao Hsien e Bela Tarr nos filmes que deglute” — que são verdadeiros exemplos de inteligência democrática — leia-se agora “a consumir com prazer e a reflectir com gosto por cidadãos não-lobotomizados”.
O senhor Nolan é, arquitectonicamente, mais complexo. Gosta de brincar com as formas, os códigos, os ingredientes, no que é uma característica do seu cinema (o sono que faz reverberações na realidade do agente policial de “Insomnia”, os olhares paralelos da obra de estreia, “Following”, o jogo de Circe em “Memento”, nesse mega-puzzle cujas peças encaixam no sentido contrário ao que era suposto para (re)formarem o quadro final). Em “A Origem”, o jogo é uma espécie de Monopólio onírico a quatro dimensões — três de espaço, uma de tempo — mas a eficácia e, porque não a elegância, das charadas dos filmes anteriores ganha, pela primeira vez, uma ressonância emocional. Não se trata do primeiro love-thriller do milénio, mas pode bem ser um novo degrau no sempre precário equilíbrio entre argúcia dramática e imaginação plástica. Nolan pica o “2001” de Kubrick, o fausto corruptível do “Election” de Johnnie To, a engenharia noir de “Dark City”, a energia cinética de De Palma e o melhor da operacionalidade mística dos irmãos Wachovski para nos entregar o seu filme menos frio, uma história de amor high-tech de 200 milhões de dólares. É um desplante, mas funciona.
Em contrapartida, Polanski é infinitamente mais perverso. Pega num policial político (Robert Harris, o autor de “Pompei” e “Fatherland”), injecta-lhe o sangue dormente de um Hitchcoch criogenizado, passa por Losey, visita três segundos a sala de estar de Pakula, regressa por uns minutos ao cinema negro de Joseph H. Lewis e Fritz Lang (com quem tem mais coisas em comum do que parece) mas, sobretudo, insufla tudo de paranóia, a paranóia de um silêncio acre, como os ventos muito secos, de que só ele conhece o segredo. A forma como as personagens do senhor Polanski saltitam entre o egoísmo e a amoralidade é de uma sageza admirável, e esta história de um primeiro-ministro britânico preso às decisões do passado com ice blondes, viúvas negras e o espectro do seu escritor-fantasma numa casa à beira-mar que parece uma caixa-forte do subsconsciente — e ei-nos regressados ao filme do senhor Nolan — é o melhor que o polaco nos ofereceu em anos.
O que é dizer muito.
- Se tivesse sido atingido pela tormenta surda da orfandade, gostava de ter Johnny como irmão mais velho. Johnny (Paddy Considine) é o Pai Coragem de “In America” de Jim Sheridan, e respira debaixo de água para que a frágil jangada onde estão a mulher, Sarah, e as filhas, Christy e Ariel, não afunde de desídia.
- Cada vez que tivesse dúvidas sobre as matérias claras da integridade, gostaria de ter Frank Serpico como irmão do meio. Serpico (Al Pacino) é um fanático da integridade no filme de Sidney Lumet que lhe transporta o nome, e por ela sacrifica emprego, amor e todos os rastos de futuro. De tanto renunciar a diluir-se na corrupção endémica da NYPD, é baleado por convite dos próprios colegas, que delatou. Mas Serpico está disposto a sofrer até às últimas consequências pelo que acredita — hoje, podemos dizer o mesmo de quem?
- Cada vez que me faltasse a coragem, gostaria de ter o capitão Leith como o irmão que vive no Sahara e nos manda as epístolas que guiam os cegos por entre as dunas. Leith (Richard Burton, apóstolo bebedor), anti-herói de “Bitter Victory”, o mais belo filme de Nicholas Ray no meu cine-teatro mental, sabe que vai morrer por causa da cobardia do seu superior, o Major David Brand (Curd Jurgens, viscoso como uma lesma dos canaviais). Em regresso de missão na Bengasi ocupada, Brand aperta Leith contra as paredes vítreas do deserto, espreme-o para que saia a tinta que o denuncia (a tinta das cartas que Leith escreveu a Jane, a mulher de Brand, por Leith apaixonada), duas vezes o lança contra a morte, mas Leith resiste — “I killed the living, and I saved the dead”, diz, depois de matar um soldado por misericórdia e de tentar resgatar outro que não resiste aos ferimentos — até que Brand o deixa à mercê de um escorpião, na apócrifa cumplicidade entre lagartixas e aracnídeos.
- Cada vez que me esquecesse da compaixão, gostaria de ter Kyle Hadley e Roger Schumann como irmãos mais novos. Ambos têm e terão o rosto de Robert Stack, o Homem Que se Desfaz aos Bocados. Ambos são filhos de uma natureza frágil , sobrinhos de um dinamarquês e enteados de um destino que nada de bom lhes trouxe. Kyle é um playboy alcoólico levado desde puto aos ombros por Mitch Wayne, um geólogo pobretanas (“Written on the Wind”). Conseguiu casar com a mulher de quem Mitch gosta — o sentimento é mútuo — e a irmã Marylee (Dorothy Malone, a Mulher dos Olhos Cansados) anda à caça de Mitch desde que começou a usar saias. Kyle é irmão gémeo de Roger, um às dos aviões, herói da Primeira Guerra algemado ao cockpit, que oferece a mulher em troca de mais vinte minutos no ar, cruzando os pilares que cobiçam os céus do Lousiana. Como Kyle, o Roger de “The Tarnished Angels” , o mais belo filme de Douglas Sirk no meu cine-teatro mental, precisa de ser salvo de si próprio, mas talvez esteja para além da salvação (Sirk filma o Mardi-Gras como o Antonioni de “A Noite” encena a festa de Gherardini, mas fá-lo em silêncio, quatro anos antes).
- Cada vez que me assaltasse o egoísmo (rouba-me de mim todos os dias), gostaria de ter Pat Conroy como o irmão que saiu cedo de casa e volta apenas pelo Natal, nas horas à mesa mais perfeitas de cada ano. Chamam-lhe “Conrack” no filme que traz o nome dele ao peito, é professor do ensino básico (os últimos heróis da era moderna?), branco como um copo de leite andaluz ‚e foi parar a uma aldeiazinha só de negros como o chocolate da Martinica, no delta de um riozito na Carolina do Sul. A administração da Buford School District acha que aquela aldeiazinha é um caso perdido: Ninguém sabe ler, ninguém lava os dentes, ninguém sabe nadar (ali, o rio não é um sulco de vida no relevo das geografias, é a Morte). Conrack — assim chamam a Conroy os miúdos com olhos de ontem e sorriso de amanhã — ensina as crianças do delta a ler, a lavar os dentes, a nadar. Mostra-lhes o que é um quadro, um filme, uma sinfonia. E amanhece.
- Cada vez que me falta a força de vontade, gostaria de ter Frank como aquele irmão nascido um ano depois, nem muito mais nem pouco menos, para saber o mesmo que nós. Frank “Spig” Wead é o papel estático de John Wayne avant la lettre — em “Wings of Eagles”, passa meses de barriga para baixo numa cama de hospital — mas a teimosia com que ultrapassa o acidente que quase o matara, arrancando-o das aterragens na piscina dos oficiais, dos beijos de despedida no alpendre, ao luar pêssego da Flórida, das bebedeiras mortais com os inimigos predilectos, transforma-o num modelo fraternal. É Ford.
- Cada vez que me desaparece o altruísmo (some-se todos os dias), gostaria de ter Josiah Doziah Gray — há nome mais de homem do que este? — como o irmão nascido muitos anos antes, o irmão que julgamos ser tio de visitas frequentes até percebermos que nos abraça como um segundo pai. Josiah Doziah tem o nariz de combate de Joel McCrea, e o seu garbo, e a sua altura, e um passo que nos faz andar atrás dele para beneficiarmos da brisa que corre na sua sombra. Em “Stars in My Crown” — o filme que Ford gostaria de ter feito se não tivesse feito “How Green Was My Valley” — Huw chama-se John, Roddy McDowall é Dean Stockwell e, como o delfim dos Morgan, o filho adoptivo dos Gray é olhos, coração e boca da vida que aí se conta. Como ele, vemos, sentimos e falamos de um padre que é pai e irmão da comunidade saída da Guerra Civil dos EUA: Josiah Doziah dá medicina aos médicos, luz aos mineiros, braços aos fazendeiros e tolerância aos linchadores.
A cena mais justa, justamente, do cinema clássico americano? Josiah Doziah, sob os archotes, a apagar o fogo nos homens do Ku Klux Klan.
O resto é de somenos importância.
No entanto, por respeito a Cleópatra VII (tão terna é a noite) e a seu marido, irmão caçula, à paixoneta de Calígula pela mana Drusila, aos desgraçados de Faulkner e Ellroy, ao ogre J. J. Unsecker, à soprano Jill Clayburgh de “La Luna”, à mamã Angela Lansbury, unhas na ardósia, em “The Manchurian Candidate”, à terna mãezinha Lea Massari de “Le Souffle au Coeur”, à Nastassja, sempre à Nastassja das ostras com o irmão-tigre McDowell, ao wild bunch de “La Caduta degli Dei”, aqui vai uma lista das meninas, todas actrizes, todas nossas contemporâneas, todas acima dos trinta (para não ser acusado de indecências vorazes) das quais, em nenhuma circunstância, poderia ser irmão.
Ficam, vestidas de branco Agosto, para os meus sete manos acima descritos, em singela homenagem à consanguinidade:
…E a mamã da qual, definitivamente, não poderia ser filho, Oedipus Rex, aleluia:
Sete noivas para sete irmãos.
O Senhor Professor Carlos Queiroz, numa entrevista publicada esta manhã e assinada por um jornalista “idiota e execrável”, iluminou, enfim, o falhanço da participação portuguesa no torneio da África do Sul: “Com um porteiro e uma manicure como os que tem a Federação, já muito longe fomos nós no Mundial”.
O seleccionador anunciou também que, em entrevista a publicar na próxima semana e assinada por um jornalista “apalermado e songa” tenciona responsabilizar a Ana Malhoa, o Emplastro e o macaco Adrião do Jardim Zoológico de Lisboa pela eliminação prematura da equipa nacional.
“Os portugueses devem orgulhar-se da sua equipa, que foi ambiciosa e brilhante durante este campeonato do mundo”.
Porque é que o Senhor Professor persiste em ofender a nossa inteligência?
P.S. : No final do jogo, Ronaldo deu aos jornalistas a resposta que eu gostaria de ter dado. Mas o seu ego colossal — Cronos e Mercúrio teriam inveja — nunca lhe permitirá ser capitão de equipa de um país. Ronaldo é o zénite da Geração do Eu. A força colectiva é, para ele, uma dimensão ética, e épica, incompreensível. Nisso, não o podemos culpar. A maturidade, que ele talvez nunca tenha, diz-nos ser um exercício inútil pedir a um homem que anule a sua natureza essencial. E a natureza essencial de Xavi, Iniesta e Fabregas é: ó génio só se manifesta ao serviço do Outro.
Posto isto, o futuro futebolístico de Portugal é negro.
Segue recolha de assinaturas para esfumar de vez o mito Queiroz: 1 — Pedro Marta da Cruz dos Santos (nome completo).
Contrariando a segunda lei da termodinâmica futebolística segundo João Pinto, o Antigo,
segue prognóstico de um optimismo quase irritante (mesmo para mim próprio):
- Apesar de sermos superiormente dirigidos pelo Professor Pardal (Professor, note-se, não no sentido da sabedoria escolástica e da meritocracia académica mas no sentido animista do professor de ginástica cuja formação mais se adequa a ensinar meninas do ciclo preparatório a subirem o espaldar)
– Apesar de termos perdido o nosso jogador em melhor forma — e um dos mais inspirados extremos direitos do futebol mundial na actualidade — devido (segundo rezam as crónicas) à insistência do Professor Pardal em acabar os treinos do team com um golo bonito, celebrado a preceito pelo Nani com um daqueles duplos mortais encarpados que pulverizam os ossos e as articulações
– Apesar de Pepe, o seleccionado que ocupa desde 2008 o posto mais nuclear da estrutura organizacional da equipa (estive ontem a ouvir o Luís Freitas Lobo), ter jogado uns extraordinários 14 minutos nos últimos seis meses e dez dias de competição
– Apesar do corrente terceiro lugar no ranking FIFA, provável erro de estimativa de um contabilista galês cujo pai se lembra de ter visto o Eusébio há 44 anos contra a Coreia do Norte
– Apesar de o Bruno Alves conseguir auto-expulsar-se em qualquer circunstância, mesmo num jogo contra si mesmo no jardim das traseiras lá de casa
– Apesar da Irina
Estou confiante num esplêndido Mundial português.
A primeira razão é não encontrar nenhum ser vivo à face da Terra (à excepção dos marsupilamis e da Ludmila, a minha empregada russa que sorri e diz “Portugal! Lindo! Lindo!” mesmo quando eu protesto que ela podia ter deixado a marquise mais ajeitadinha) com o minímo quântico de esperança num bom desempenho mundialista. Pelo contrário, quando os portugueses entram em êxtase tribal, bradando aos céus a sua cósmica superioridade futebolística (lembram-se do Japão/Coreia do Sul 2002?) para logo enfiarem a cabeça no chão como avestruzes fadistas, nunca vamos a lado nenhum, nem ao café da esquina gritar “aaaah!” pelos remates rente ao poste.
O actual, e devastador, pessimismo do association luso (saudoso Vítor Santos) quanto à colecção Primavera/Verão de Carlos Queiróz, leva-me a apostar num Mundial contra todas as — nulas — expectativas.
Se conseguirmos fazer quatro pontinhos na fase de grupos e não levarmos uma cabazada das recentes face ao Brasil (contra o qual, paradoxalmente, penso que temos óptimas hipóteses de vencer, mais do que no duelo com a Costa sem Marfim — o Drogba não joga), irá calhar-nos em infortúnio a Melhor Equipa do Mundo, Ponto: a Espanha.
E aí, não digam que nunca tiveram, de súbito, vindo do Nada, acima de Tudo, um dia de prazer totalmente inesperado.
Haverá actriz maior do que Lady Jayne Seymour Fonda, “Hanoi Jane”, da Vogue para a Psique, da tragédia para a raiva, chegando, perto e quase, à redenção?
Estava calor, e revi-a ontem em “Klute” (Alan J. Pakula, 1971), a prostituta Bree Daniels, afogada no Sol das últimas casas de tijolo entre Greenwich Village e Madison Avenue, as roupas rectas, nas blusas de lã sem soutien, os penteados vagamente loucos, os olhos remotamente desesperados, e lembrei-me que era esta, assim, nem mais: podia passar uma vida inteira a olhar para Lady Jayne Bree enquanto ela confessa, no gabinete duma psiquiatra, o quanto ser puta a salvou, embora tanto a mate devagarinho.
Jane é o elo perdido entre as soberanas dramáticas dos anos 30 e 40 (Bergman, Crawford, Stanwick, Davis, Magnani), as divas internacionais dos 50 (Taylor, Mangano, Loren) e as libertárias inquietas dos 60 (Christie, Moreau, Bardot). Exceptuando Bardot, o bibelot, é a mais injustiçada de todas, a cabeça de vento na adolescência, alimentada a speeds e cafeína pelas passerelles do Novo Mundo, a menina bem que descobre o suicídio da mãe pelas revistas, a panfletária comunista, a perigosa revolucionária, a tolinha da aeróbica, a camuflagem de guerra de Ted Turner. A sombra do pai foi alta e gigante, o irmão perdeu-se no LSD para acordar já nos 80, e o cérebro de Jane ficou, pequenino, a tentar pensar enquanto só lhe viam o corpete de borracha de “Barbarella” — e ela marimbou-se, e tirou o corpete, e flutuou de pele nua quantas vezes lhe deu na gana.
Só perceberam em “Os Cavalos Também se Abatem” (Sidney Pollack, 1969): a Gloria, que derroca aos pedaços na sala de baile da Grande Depressão, tem um sofrimento palpável, feito de enorme inteligência, dos olhos (os olhos tristes do pai) às mãos trémulas, da forma como se deixa abraçar ao modo como demonstra que tudo na vida é negociável, a começar pela dignidade. A intensidade desse sofrimento e dessa inteligência, e a modernidade de ambas, já tinham sido matéria dramática na Europa uma década antes (pelo menos desde 1959, o ano de Seberg e “A Bout de Souffle”), e o desejo da Mónica de Harriet Anderson poderia levar-nos mais à frente, mais atrás.
Mas “Klute” e Jane, Bree e Jane, são o auge dessa modernidade — quatro anos depois, um tubarão afundaria os sonhos adultos, arrastando-nos de volta à infância, em nome do Progresso.
Compare-se a cena em que Bree se olha ao espelho, o espelho da psiquiatra que a acompanha, e confessa pecados antigos e recentes numa implacável lógica emocional: ela, que é manequim na selva de asfalto, perde-se entre as árvores, amedronta-se com a hipocrisia, renuncia à luta sob a luz do sol; chegada a noite, os mentirosos descansam, e ela aventura-se pelas lianas dos quartos de hotel, tomando o controle: a presa torna-se predador, e os homens que lhe pagam para a possuir são antes possuídos, porque o poder — o poder do disfarce e da simulação — está do lado dela. Os clientes, desarmados, acedem ao jogo.
Quando o dia regressa, Bree volta à fragilidade da indiferença.
Compare-se, pois, e assim, esta cena com o momento, de igual matéria confessional, de igual exposição do espírito, cinco anos antes, no “Persona” de Bergman, mil vezes levado ao céu, mil vezes adulado, quando a Alma de Bibi Andersson desvela a memória à Elizabeth de Liv Ullmann, ambas símbolos e matrizes de um perene “selo de qualidade” interpretativo (e quem avalia os avaliadores de talento?) 
Meryl Streep, nova década depois, numa pequena variação hitchcockiana, “Still of the Night” (Robert Benton, 1982): há um momento, ressonante dos dois anteriores, em que a sua Brooke Reynolds revela ao psiquiatra que a acompanha (Roy Scheider, na circunstância) os temores de uma relação estável com um quotidiano cuja “normalidade” a agride.
Basta rever a cena para perceber que não haveria Meryl Streep sem Jane Fonda.
Basta regressar às cenas gémeas de “Klute” e “Persona” para entender que a inteligência da abordagem de Fonda — na forma como os dedos carregam o peso das escolhas, as hesitações do rosto marcam o prazer escondido, a colocação do corpo sugere a dança fúnebre entre asco e desejo — é uma inteligência dramaticamente superior à de Ullmann e Andersson. Ninguém representou os tons contrastados da sexualidade feminina como Jane Fonda, actriz menos camaleónica mas, finalmente, mais complexa do que a deusa Streep.
Nesse equilíbrio silencioso entre instinto e técnica, da neurose de “The Chapman Report” ao algodão doce de “Barefoot in the Park”, da cómica animalidade de “Cat Ballou” ao desespero de “They Shoot Horses, Don’t They?”, do inconformismo de “Tout va Bien” à veneração quase amorosa pela “Julia” de Vanessa Redgrave, da cirurgia reconstrutiva dos sentimentos em “Coming Home” à teimosia indómita de “Comes a Horseman”, Lady Jayne Seymour Fonda é para onde se deve olhar quando se quer olhar para os anos 70.
A fita.
Como deixei cair a fita?
Como fui capaz de perder a fita verde que a minha mãe me deu quando fiz a comunhão solene, tão orgulhosa do branco do meu vestido e do branco no meu rosto? Como pude descuidar-me e soltar das mãos a fita verde que a mamã usava todos os dias em Ferry Street, a fita que a confirmava como a mulher mais bonita do Ironbound, a rainha da beleza original, de nariz altivo, do espírito sem quebra, das portuguesas que fizeram de Newark o que a cidade é, com as bandeiras escondendo os pecados das townhouses, as sessões de caridade nas antigas igrejas ortodoxas multiplicando o pão dos afro-americanos, levantando o ânimo dos chicanos e dos porto-riquenhos, tirando da droga os filhos dolentes dos operários da siderurgia, dos empregados das cervejeiras, dos porteiros nocturnos das centrais de autocarros?
Porque não agarrei a tempo o verde do mar da avó, junto a Caminha, do prado nas colinas sobre Vila Praia de Âncora, aquele verde das limas que perfumam as histórias do pai quando era menino, nas encostas a sul de Pádua, a roubar cogumelos do tamanho de porcos-espinhos?
O Nicola nunca mais irá passar-me a mão esquerda entre os cabelos, com o sol fraquinho mas tão doce de Hoboken a bater na janela junto à cama, aquecendo-me as maçãs do rosto enquanto ele pega na fita, quase azul pelo contraste das cinco da tarde, e a cruza sobre os meus mamilos, deslizando-a na pelugem loira, quase transparente, detendo-a uns segundos junto ao umbigo para a poisar no lençol enquanto desce os lábios cheios, frutuosos, até ao meu sexo.
Adorava sentir o vento que vinha, ainda fresco, da costa de Staten Island, e pensar nos lábios do Nicola. Mas deixei de sentir o vento, e o Nicola que o vento me trazia. Já não sinto nada.
Será que foi por isso que deixei cair a fita?
Cinema Trindade : começou antes, mas foi com nove anos que me lembro melhor: num espaço de três semanas, estrearam na tela alta e comprida do Trindade dois filmes de que toda a gente falava, até a gente pequena como eu: “A Guerra das Estrelas” e “Encontros Imediatos do Terceiro Grau”. Não imaginam o que é ter nove anos, sentar na plateia, abrir melhor os olhos e ver passar por cima da cabeça uma nave que nunca, mas nunca mais acaba (acho que os americanos lhe chamam epifania). Só fechei a boca quando outra nave se afastou pelo céu estrelado, no genérico final de “Encontros Imediatos”. Já acordar, ainda não acordei.
Morava a quinhentos metros do Trindade, no último andar do prédio mais alto da cidade e, à sexta, a partir dos 13 anos, descia do prédio e da avenida até à sessão da meia-noite, para o templo e o tempo da minha educação exemplar.
Final Cut dos Pink Floyd :Têm álbuns melhores, com e sem Syd Barrett. Mas este vinil-história de guerra, dor e desmembramento familiar caía que nem mel na angústia açucarada dos estremecimentos adolescentes, em que o mundo parece que vai acabar a cada desgosto amoroso, cada nota negativa, cada discussão caseira, cada golo falhado. Cada.
Grutas de Altamira :Fui com os meus pais, era muito miúdo, mas lembro-me de não acreditar que houvesse gente tão antiga a fazer coisas daquelas nas paredes. Para quê? As imagens, essas, ficaram.
A Ofélia de Millais :Foi na primeira vez que fui a Londres, Tate Gallery. Fiquei impressionado com as cores do céu de metade dos quadros de Turner — era como se o mundo fosse acabar no minuto seguinte, e a desgraça fosse bela.
A Ofélia é outra história: se não se tem cuidado — sobretudo nas dores do crescimento -, fica-se apaixonado pela mulher do quadro, suspensa nas águas entre a vida e a morte, a murmurar segredos. São dois fantasmas que, uma vez surgidos, d’ entre les morts, não desaparecem: a ruiva Ofélia de Shakespeare/Millais/Lizzie Siddal e a loira Carlota de Ernest Lehman/Hitchcock/ Kim Novak.
Stalker de Tarkovsky: simplesmente, antes de o ver, não sabia que o cinema podia ser outra coisa. Era, e é.
Há três anos, revi-o com os meus alunos do curso de Guião. O fascínio continua.
Argentina — Holanda, final do Mundial de 78: já dava cabo dos joelhos, entre balizas de madeira, no recreio do Colégio das Escravas do Sagrado Coração de Jesus, em Carlos Malheiro Dias, a dois passos do Estádio das Antas (vade retro). A seguir, a partir do ciclo preparatório, a minha mãe teve a lucidez de me meter no ensino oficial, onde tanto havia meninas bem da Constituição como meninos mal do orfanato, ali, junto ao Augusto Gil.
Mas foi no final da primária, no televisor a preto e branco, de botões creme, do avô Santos que vi pela primeira vez o que era futebol. O nome que fixei foi Kempes, embora também andasse por lá um baixinho esquelético, no centro do campo holandês, que não era mau de todo. Às vezes vejo-o, mais gordo, nas bancadas de Camp Nou.
História sem Heróis de Greg: Muito antes de Tardi, Manara, Schuiten, Moebius, Prado, Bilal, ainda na inesquecível revista Tintin, onde aprendi três ou quatro coisinhas sobre a condição humana, foi com Greg e esta história que percebi: a BD também é para adultos.
Outono em Pequim de Boris Vian: não, não foram os grandes clássicos. Foi o louco, eclético, precoce, prolífico Vian. O prazer saltitante das palavras, o humor exaltado, entre a morbidez sarcástica e uma ternura quase juvenil, o gosto pelas falésias e ravinas da narrativa. Depois li A Espuma dos Dias e os policiais, mas com o Outono, foi tiro e queda.
Paris : Dizem que há dois tipos de pessoas: as que gostam de Londres e as que gostam de Paris ( e os que preferem New Orleans ou New Delhi?). Sempre fui mais Paris, desde a primeira vez, com quinze anos, eu e um amigo meu, sozinhos nas grandes avenidas. Regressei onze vezes desde então. Mas na primeira, recordo-me do que senti no último dia: “Não quero voltar. Fico aqui”.
Quando voltei, era como se tivesse crescido dez centímetros, feito Gulliver, e o mundo português tão pequeno…
Joy Division: apanharam como poucos a gótica melancolia da adolescência. Não convinha ouvir demasiado, muito menos perto de janelas abertas a grande altura, ou junto ao rio.
Um Eléctrico Chamado Desejo/ Há Lodo no Cais: descobrir Brando aos doze anos é perceber para que serve o sexo que temos, e o que temos de sexo.
Bruce Chatwin: ajudou-me a viajar para sítios que não ainda podia visitar. E escrevia tão bem…
Os Malditos de Visconti: incesto, ópera, nazismo, Ingrid Thulin, fratricídio e chamas por todo o lado. Visconti era o maior. Talvez ainda seja. Há algum filme mais perfeito do que Senso?
A Balada de Hill Street e Eu, Claudio: a chegada da televisão às ruas, no primeiro caso, à idade adulta, no segundo. No início dos teens, era uma descoberta todas as semanas.
A banheira de Mrs Brown: Antes que essas cabeças toldadas pela perversidade entrem em acção (the furious guys, not the beautiful girls), a Mrs Brown era uma descendente de saxões com noventa quilos, três filhos e um marido talhante com voz de trovão. Foi a primeira vez que estive fora de Portugal, sozinho, mais do que uma semana. Tinha dezassete anos e passei um mês em Chichester, a noventa quilómetros de Londres, sob o pretexto de um “curso avançado de inglês”. Foi avançado para mim, sobretudo as fugas para Brighton em estimulantes companhias.
Lembro-me como se fosse hoje, a última vez que me sentei na banheira de Mrs Brown a escrever uma carta para Portugal (ainda era o tempo em que se escreviam cartas), aos amigos que me aguardavam no Algarve:
“a Liberdade é isto”.
Ruy de Vasconcelos, o nosso Jardel, aquele que voava entre os centrais, fez-me lembrar uma história verídica, passada nos anos oitenta do futebol de salão nortenho, actividade oficial e federada (antes das modernices do futsal), num pavilhão desportivo dos arredores de Guimarães:
O jogo está perto do fim, o cérebro do meio-campo de uma das equipas ganha a bola e o mais expedito dos atletas do seu time, um tal Rogério de barriga já uns centímetros à frente do resto do corpo torneado, lança-se em louca correria pelo flanco direito, pronto a receber o passe perfeito para salvadora finalização. “Cruza!”, grita, “Cruza!”, para que o Platini de Pevidém lhe entregue o esférico rumo à glória, “Cruza!”, sempre com o pescoço torcido para trás, a fitar o Platini enquanto corre desalmado, “Cruza, caralho!”, e bate com a testa na parede do fundo do pavilhão.
Rogério teve que ser assistido por um adversário, enfermeiro no hospital de Braga.
Esperemos que tal desgraça nunca aconteça ao nosso ponta de lança, predador africano da grande área, Manuel Saviola Fonseca.
Gostava de partilhar a prenda da Amazon que me auto-ofertei, ontem degustada. Esta:
Não é a Cameron, é o filme (há um limite para a dimensão das encomendas por via aérea).
Realizado por este senhor,
“The Box” é um pequeno conto de horror cujos melhores parágrafos são pontuados pelas divagações científicas que, juntamente com a crise do crescimento, fazem a base do cinema, estranho e muito pessoal, de Kelly.
Kelly foi a resposta possível, no limiar do milénio, às preocupações de Cronenberg quanto à fronteira entre tecnologia e carnalidade, quanto à dimensão visceral dos mistérios do cérebro e quanto aos limites do corpo humano. Se Cronenberg é um maluquinho da medicina, da neurologia, dos mecanismos virais, Kelly é um tolinho da física, da aeronáutica e da astronomia.Ambos são loucos por monstros supra-realistas, pela anormalidade feita corpo e consciência, pelos freaks deste mundo e do outro.
“Donnie Darko”, o melhor filme que vi nos anos 2000 (ao lado do “Elephant” de Gus van Sant) sobre o angst da adolescência, falava de coelhos gigantes que previam o futuro e viagens espacio-temporais com uma invulgar sapiência científica (Kelly foi ao ponto de criar e escrever uma “Philosophy of Time Travel”, carregada de termos como “Fourth Dimensional Construct” e “Tangent Universes”), ao som de “Mad World” dos Tears for Fears e de “The Killing Moon” dos Echo and the Bunnymen.
Quase arruinou a carreira depois da desastrosa recepção crítica ao delirante e divertidíssimo folhetim futurista “Southland Tales”, que foi mais retalhado do que o lombo de um bovino sul-americano, acabando numa versão dolorosamente truncada (que me apressei a comprar o ano passado numa edição francesa em Blu-Ray).
Este “The Box” é o reinício, e traz Kelly de volta a todas as possibilidades. Baseado em “Button, Button”, o conto de um jovem de 84 anos chamado Richard Matheson, autor de insignificâncias como o argumento de “The Incredible Shrinking Man” de Jack Arnold, a melhor adaptação de “The Fall of the House of Usher”, para Roger Corman, as histórias originais de alguns dos mais preciosos episódios de “The Twilight Zone”, a novela “I Am Legend” ou os guiões do subestimado “Somewhere in Time” de Jeannot Swarzc e do celebrado “Duel” de Spielberg, “The Box” tem um ponto de partida de uma simplicidade desarmante: um homem, Arlington Steward (Frank Langella, no topo da sua ameaça draculiana), recém-saído da unidade de queimados de um hospital da Virgínia onde fora dado como morto, visita uma familia (Diaz, James Marsden e um filho de treze anos), apresentando-lhes uma caixa de madeira com um botão vermelho gigante: se, nas 24 horas seguintes, o casal decidir carregar no botão, receberá um milhão de dólares — mas alguém que nunca conheceu morrerá nesse momento. Caso decida não carregar, nada acontecerá, e a caixa será devolvida a Arlington Steward para este a propor a um novo casal.
Richard Kelly regressa aqui à aeronáutica e à ciência das impossibilidades de que tanto gosta, com portais de espaço-tempo, viagens não tripuladas a Marte (a personagem de James Marsden é baseada no pai de Kelly, um dos engenheiros da Nasa responsáveis pelo Mars Viking Lander e autor da primeira câmara, incorporada na sonda Viking, a tirar fotos da superfície do planeta vermelho nos anos 70) ou as consequências imprevisíveis do electromagnetismo — e que outro filme norte-americano recente cita o existencialismo?
Sob a capa da ciência-ficção, “The Box” é um pequeno (grande) conto moral sobre o livre arbítrio, tema também central aos outros filmes de Kelly, estupor de apenas 34 anos (faz 35 este sábado. Parabéns).
Os vestidos dos Óscares distraem-me sempre: está na melhor hora de conhecer, na hora que ela entenda como a melhor, os heróis e vilãs de Sua Majestade Eugénia — ou serão heroínas e vilões?
Talvez da Sardenha venha a voz: “Caminha devagar, porque caminhas sobre os meus sonhos”.
Cheguei tarde mas apareci (sorry, Vasco).
O meu herói, o meu único herói, é o Fantasma, filho de Lee Falk, há poucos dias 74 anos, celebrados num 17 de Fevereiro.
Kit Walker, o Fantasma que conheci há mais de três décadas, era o vigésimo primeiro de uma lista de justiceiros iniciada em 1536, quando Christopher Walker, marinheiro de Portsmouth, antigo grumete da nau Santa Maria, delfim de Cristovão Colombo, foi morto por um pirata da Irmandade dos Singh numa caravela naufragada algures no Índico, ao largo da costa do reino de Bengalla. Christopher Jr, único sobrevivente do naufrágio, é salvo por uma tribo de pigmeus, os Bandar, escravizados há séculos pelos Wasaka, adoradores de Uzuki, o Deus Demónio.
Christopher encontra os restos mortais do assassino do seu pai e, levantando o crânio do facínora, jura dedicar a sua vida “à destruição da pirataria, da cobiça, da crueldade e da injustiça em todas as suas formas. Os meus filhos e os filhos deles seguir-me-ão.”
Depois de resgatar os Bandar do jugo dos Wasaka, Christopher inspira-se nos símbolos de Uzuki para criar um vingador mascarado, defensor de fracos e oprimidos, eterno habitante de uma gruta em forma de caveira, de rosto desconhecido e, por isso, mais temível, com fato púrpura a surgir das profundezas da selva para petrificar os adversários, cujo rosto marca para sempre através do anel, representando o crânio da morte, que usa na mão direita, um anel feito dos pregos que fixaram Jesus na cruz, outrora propriedade de Nero, o imperador pirómano.
Sem recurso a poderes mágicos, poções divinas, insondáveis super-forças ou destinos providenciais, Kit, o vigésimo primeiro “Fantasma que Caminha”, faz uso apenas dos seus talentos naturais, de um espírito inquebrantável, transmitido de pais a filhos durante quatro séculos e das ajudas de Guran, chefe dos Bandar, do lobo Devil e do cavalo Hero.
Depois de ser criado na Caverna da Caveira pela mãe, antiga dupla de Rita Hayworth, Kit continua a sua educação nos EUA, onde conhece Diana Palmer — ela tem 12 anos, eu 9, e é paixão à primeira vista. Separam-se até aos 18 anos de ambos, quando um Natal em Clarksville os reúne para sempre (Kit é um bocado lento na formalização das intenções, já que apenas casará com Diana em 1978 — Mandrake e alguns ministros, estranhamente impolutos, comparecem ao copo de água).
De face nunca revelada aos leitores — só os inimigos lhe conhecem o rosto, pouco antes de darem de finados -, o fantasma era tudo o que eu queria ser: forte, justo e, claro, vencedor de corações (16 homens tentaram casar com Diana, mas ela desprezou-os a todos). No traço mítico, muito Stevenson, de Ray Moore, ou na limpidez de Wilson McCoy (entretanto, já históricos como Carmine Infantino ou revelações como Dave Gibbons se enfeitiçaram pelo mascarado), o Fantasma que Caminha foi o meu fato de Carnaval na festa do centro de convívio da única avenida, finda na estação de comboios, de uma terrinha de vento fresco, encostada ao mar, chamada Valadares, onde vivi durante dois anos.
Fiquei em terceiro lugar no concurso da festa, mas nem concorrentes ou júri percebiam porque é que estava enfiado num fato púrpura e de anel de caveira no dedo (pode marcar um homem, eu sei, mas vou recuperando): ninguém sabia quem era o Fantasma. Foi em 1977.
Três anos antes, a um par de quilómetros dali, ainda junto a águas salgadas, numa terrinha ainda mais pequena chamada Lavadores, no tempo em que o meu pai regressava de Londres com o primeiro comboio eléctrico que vi na vida (acho que sempre gostei de comboios por causa desse), deitei-me no beliche de cima do quarto que partilhava com a minha irmã (ela aconchegava-se aos peluches no beliche de baixo), a minha mãe apagou a luz da cozinha, deixando apenas uma luz de presença junto à sala, e e não consegui dormir por causa desta:
Havia um cabide no hall, de sombras recortadas pela luz precária junto à sala. O cabide, olhos fechados, olhos abertos, era igual à Bruxa dos Cornos (sabia eu lá que outras razões nos podiam levar a todos, em namoros certos e difusos, a transportar as mesmas razões em vergonha ou ignorância…). Corrijo: o cabide não era igual à Bruxa Maléfica de “A Bela Adormecida” de Marc Davis (o animador que criará depois essa meia-irmã dickensiana da fada má, a Cruella De Vil de “os 101 Dálmatas), de Walt Disney, Perrault e, em certa medida, de Tchaikovsky e dos irmãos Grimm. Aquele cabide ERA a Bruxa Maléfica.
Com a cabeça debaixo da almofada,o Cabide ganhava as formas e as chamas da Bruxa, convocava os corvos negros, abria os braços para tudo cobrir de escuridão e aproximava-se de mim, passo a passo com os cascos de Lúcifer, os olhos amarelos a brilhar no manto preto, pronta a devorar-me braços, língua e crânio (nessa altura, ainda não tinha ouvido falar daquele senhor austríaco que gostava de histéricas e epilépticas).
Umas horas antes, tinha-a visto no Cinema Vale Formoso — ficava junto à Constituição, na capital dos homens Bês - a amaldiçoar o baptizado da princesa Aurora, lançando-a, feitiço abaixo, escadas acima, pela torre do Castelo sem Nome onde, 16 anos depois, Aurora irá tocar na roda que roda, picando a mão e sangrando — primeiro sangue, primeiro sexo — para adormecer o reino em trevas de séculos, à espera do beijo de amor e do amor de beijo que a redima.
Tirava eu a cabeça do travesseiro e o cabide lá estava, imóvel mas prestes a atacar, os ramos de uma árvore com olhos grandes para te comer, avozinha.
Tinha seis anos, e nunca senti, antes ou depois, tanto medo como no beliche da casa pequena, luz trémula, Lavadores, a norte instante do sol nascente.
Os grandes edifícios humanos são todos sobre um crime. Os arranha-céus são sobre o crime dos que caíram das suas vigas, dos que se atiraram das suas janelas, dos que dão um tiro nos cornos cá em baixo porque as gravatas lá em cima cancelaram as hipotecas. As pontes são sobre o crime das mãos a cheirar a maços de cem dólares, das mulheres que bateram com o corpo na água, até aí tão graciosa, depois de o distenderem em câmara lenta durante um segundo, o segundo em que recapitulam a vida miserável que os pais ou o marido lhes ofereceram antes de se deixarem cair na escuridão do rio. As catedrais são sobre o crime de crucificar o único homem que acreditou em nós, Senhor, antes de queimarem com tochas os pecados que nos aquecem vivos e um minuto depois de molharem as testas dos recém-nascidos para que não vivam mortos.
Francisco Xavier, este, o vosso, sabia desses crimes. Também conhecia outras trivialidades: que o sexo é a única forma de adiar a morte e que o amor é a única forma de lhe escapar, pelo menos até à hora em Que, Senhor.
Há uma semana que andava escondido em aviões, dissimulado nos hotéis, desaparecido pelas cidades-tifo da América, um mês depois dos labirintos de Atenas que cheiravam todos a mar mitra ou a mel mofo, das bibliotecas aquáticas de Vaitheeswaram, das ravinas ortodoxas e dos círculos hindus, das igrejas e dos templos, dos mistagogos e dos bramanes, dos bispos e dos babalorixás, dos diáconos, presbíteros, clérigos, padres e homens-bata com mais sangue no tecido e nas mãos, rais te partam, Senhor, que os anos passam e só me deixas o sal na boca, a poeira das viagens sem epílogo, os dedos gretados, os pés em sombra por saber cada vez menos e depois me levas tudo, mulher, pais que não são mas amava como se fossem, o gosto pela comida, o olfacto dos líquidos, a beleza indiferente das flores, a preguiça que vem com o que alguns chamam de felicidade — palavra que aprendi a odiar sem uma onça de cinismo e como nenhum outro som inciso à face da Terra -, o vazio exacto do fantasma que me atravessa a cabeça como vara de aço dentada, cinco vezes ao dia, cinco vezes a mesma dor de corno por andar mais perdido do que na madrugada do início, oito anos antes, quando percebi que o nome aos pulos no fim dos lábios não era meu, e que o nome verdadeiro estava perdido na gaveta das meias de um bêbado grotescamente invisível, de feitos lendários, apelido ubíquo e juízo mais aleatório do que um magistrado de calças coçadas e dentes comidos pelo gin com medo de trovões e apreço por cachopas sem idade para votar no partido que o fez deslizar na sua própria merda para o cadeirão de um tribunal da escória mais pura e sul-americana. Senhor.
Saiu da Morgan, a olhar um momento para o novo fim de linha, a linha que tinha traçado mentalmente e conferido em demasiados guardanapos do “Smalls”, até perceber que Sandeep já não aparecia e o dono do estaminé, um esboço de beatnick com barbas miríficas e hálito tão desagradável como os neo-cons, o ter posto delicadamente dali para fora.
O fim da linha era agora uma frase, que retirara, na tradução inglesa, de um dos sete salmos penitenciais do Livro das Horas de Catarina de Cleves, o salmo 131, que sabia chamar-se, comummente, De Profundis:
My soul waiteth for the Lord more than they that watch for the morning: I say, more than they that watch for the morning.
Esmagou a frase e as mais vívidas encarnações do Senhor nela guardadas, e atirou-as para o lixo.
Resolveu caminhar um pouco: para um homem perdido, havia poucas cidades melhores do que Nova Iorque. Desceu a Madison sem reparar nos publicitários brancos, apressados, com 5O Cent a sair-lhes dos i-phones, nas mulheres negras e orientais, mestres em nada-fazer, de Mizrahi nos pés, botox nas têmporas e vinho branco australiano nas veias enquanto os cães lhes tapam discretamente os joelhos, única prova da sua verdadeira idade geológica, nas crianças de mil cores e rostos, ora de acúcar, ora apimentados, como um anúncio da Diesel com duas vassouradas sebentas de realidade social, quando percebeu que já tinha percorrido sete quarteirões, da East 36th à East 29th Street.
Olhou em frente: “Little Church Around the Corner”, dizia o letreiro, estranhamente epicurista, junto à igrejazinha.
“Outra não…”. Mas tinha-se levantado às 04h30, o sol, indiferente às parvoíces terrenas, estava preste a recolher-se entre a Pennsylvania Station e o Garden, a perna esquerda ainda lhe doía da pancada que deu na banheira armadilhada do Chelsea Hotel, e resolveu entrar: pelo letreiro, faltavam quinze minutos para o encerramento.
Apesar do nome, a “Little Church Around the Corner” tinha mais ídolos, referências, capelinhas e homenagens do que o Giants Stadium: mosaicos venezianos do arcanjo Gabriel, chancelas revivalistas do gótico vitoriano, parapeitos com pelicanos a amamentarem as suas crias, púlpitos de bronze, painéis flamengos do século XVI revestindo as paredes do confessionário, um columbário para as cinzas dos paroquianos, um ícone, de Vladislav Andrejev, representando a Anastasis, vitrais sobre a igualdade racial, uma janela a figurar o actor Edwin Booth (irmão de um senhor de má fama chamado John Wilkes Booth ) encenando uma cena de “Hamlet”, uma capela a José de Arimateia, uma estatueta da Igreja Episcopal ao Bom Pastor, medalhões com referências à folha de palmeira dos persas, à flor de lótus dos egípcios, ao jarro de água dos islâmicos, à “cruz de fylfot” dos budistas (também celebrizada por “suástica”), à árvore da vida dos hindus, ao golfinho dos romanos e à nuvem celestial dos chineses — tudo aquilo era agora para Francisco, para este Francisco, um bricabraque de “recuerdos” espirituais.
Na igreja deserta de almas para acudir, só um pequenino vitral, no canto oeste, lhe chamou a atenção. Originalmente desenhado para uma igreja belga do século XIV, depois destruída nas Guerras Napoleónicas, mostrava Sainte-Foi, a cristã virgem da Aquitânia, perseguida e torturada até à morte pelos romanos ao recusar os rituais pagãos.
Na simplicidade do desenho, quase se podia sentir a graça da menina.
Já dera meia-volta para sair quando, ao fundo do seu olhar, reparou na capela junto ao baptistério.
Atravessou o septo, aproximou-se e entrou.
Ao lado do pequeno altar, uma réplica de “A Virgem e o Menino”, de Botticelli.
Pára, olhando para o quadro. Fixa-se por um momento na face da Virgem Maria: de uma estarrecedora serenidade, não parece o rosto de uma rapariga de quinze anos, a idade em que Maria teve o Menino. Olha-a bem, inclinada sobre a criança, que parece dizer qualquer coisa à mãe, e sente que aquele rosto tranquilo lhe é profundamente familiar, como se pertencesse à única passageira de uma barca que navega dentro de si há dezenas de anos, o rosto nas fotografias que Catarina recebera de Malange.
Ouve um sussurro.
Olha em volta, ilibando o susto pelo cansaço. Volta a ouvir, e percebe que o sussurro vem do quadro.
Aproxima-se mais, quase tocando a tela com a maçã do rosto: perante um quadro, deixa de tentar ver para tentar ouvir, quando repara que o sussurro vem do Menino.
Encosta o ouvido à boca rosa da criança, deixando assim a sua face a par com a face da Virgem Maria, quase se tocando, pele em pele, na mais primorosa das transubstanciações.
E consegue ouvir:
“Diz-lhe que estás viva, e que o teu nome é o nome dele”
Ora aqui está uma forma de destruir em três tempos um dos mais estimáveis capítulos da história da humanidade — a música clássica — ressuscitando pelo caminho a vilania, made in Kubrick & Anthony Burgess, de que o Vasco falava mais abaixo.
Geoff Numberg, um linguista, relembra aqui o debate sobre a beleza e o romantismo das palavras. Na velha batalha entre a oportunidade, a actualidade, a História, a força semântica, a robustez etimológica, o significado e o significante , na agreste ou harmoniosa musicalidade do que usamos quando usamos da palavra, Numberg parte de “cellar door” — para muitos, incluindo Tolkien e C.S. Lewis, as mais belas palavras da língua inglesa — e recorda a predilecção da maioria por “cellophane” nos anos 40.
E na língua portuguesa, qual é a palavra mais bela?
Eu, por exemplo, gosto de “luz”. Talvez porque, cada vez que a escrevo, me afasto da sua ausência.



























































