Quando escolhi esta imagem, escolhi-a para mim mesma. O riso é uma afronta, é-o a toalha amarela. Demasiado luminosos, demasiado óbvios, quase vulgares. Ou nada disso, apenas de uma felicidade simples. Queria saber se conseguia escrever sobre essa felicidade, em vez de me deixar levar uma vez mais a pôr a imagem em tons negros. Eles estão lá, claro, todo o fundo é negro e esse negrume vive tão intensamente na imagem como o riso. Podíamos escolhê-lo, mas são a pele dela, o riso aberto e o amarelo que nos prendem.
Reparo que não vejo a mulher inteira, vejo partes dela e talvez seja isso o que me foge. É uma mulher aos bocados. E, quase sem querer, não lhe reconheço a felicidade, que dói de tão nua.
Para lá de pessimismo ou melancolia, há uma certa preguiça neurasténica em escrever sobre o mais negro em nós. Não acredito que as vidas felizes não tenham história, mas não sei se são possíveis de contar… ou antes, claro que são, mas não sei como, a não ser em musicais.
Ignoro se o erro é meu ou dela, ou do narrador que é o fotógrafo desta história… vê-la partida é um contra-senso porque sei que ela é uma. É o meu olhar que se parte. Não o aceito, mas também não consigo aceitar a inteireza da imagem que nos dá. E, no entanto, devia ser assim: total. A felicidade por nada. Mas também devia ser, como diz a Eugénia, uma disciplina, uma higiene diária, como o duche pela manhã. Essa é a felicidade real, a que conquistamos, a que nos mantém sãos … e limpos. É a felicidade de não nos deixarmos levar pela torrente dos dias, pela entropia da idade adulta e pelo cinismo da ingratidão. A felicidade extraída do quotidiano. E é tão importante e tão certa.
Mas anseio uma felicidade além dos pequenos ou grandes prazeres, além do que fazemos por nós. Uma felicidade que pára as horas e nos dá os segundos eternos. Sem quando e sem onde, quase sem mim. Ser tudo certo, de repente. É uma felicidade do “sim”: um sim total e abrupto, sem razões, práticas ou amores que o causem. A rendição a algo que vem de além de nós para o qual nos abrimos e que deixamos entrar. A beatitude aqui e agora, a suprema alegria.
E, não esquecer, um bom duche e toalhas tolas amarelas.


















































