diário um (short que não é)

 

Quando escolhi esta imagem, escolhi-a para mim mesma. O riso é uma afronta, é-o a toalha amarela. Demasiado luminosos, demasiado óbvios, quase vulgares. Ou nada disso, apenas de uma felicidade simples. Queria saber se conseguia escrever sobre essa felicidade, em vez de me deixar levar uma vez mais a pôr a imagem em tons negros. Eles estão lá, claro, todo o fundo é negro e esse negrume vive tão intensamente na imagem como o riso. Podíamos escolhê-lo, mas são a pele dela, o riso aberto e o amarelo que nos prendem.

Reparo que não vejo a mulher inteira, vejo partes dela e talvez seja isso o que me foge. É uma mulher aos bocados. E, quase sem querer, não lhe reconheço a felicidade, que dói de tão nua.

Para lá de pessimismo ou melancolia, há uma certa preguiça neurasténica em escrever sobre o mais negro em nós. Não acredito que as vidas felizes não tenham história, mas não sei se são possíveis de contar… ou antes, claro que são, mas não sei como, a não ser em musicais.

Ignoro se o erro é meu ou dela, ou do narrador que é o fotógrafo desta história… vê-la partida é um contra-senso porque sei que ela é uma. É o meu olhar que se parte. Não o aceito, mas também não consigo aceitar a inteireza da imagem que nos dá. E, no entanto, devia ser assim: total. A felicidade por nada. Mas também devia ser, como diz a Eugénia, uma disciplina, uma higiene diária, como o duche pela manhã. Essa é a felicidade real, a que conquistamos, a que nos mantém sãos … e limpos. É a felicidade de não nos deixarmos levar pela torrente dos dias, pela entropia da idade adulta e pelo cinismo da ingratidão. A felicidade extraída do quotidiano. E é tão importante e tão certa.

Mas anseio uma felicidade além dos pequenos ou grandes prazeres, além do que fazemos por nós. Uma felicidade que pára as horas e nos dá os segundos eternos. Sem quando e sem onde, quase sem mim. Ser tudo certo, de repente. É uma felicidade do “sim”: um sim total e abrupto, sem razões, práticas ou amores que o causem. A rendição a algo que vem de além de nós para o qual nos abrimos e que deixamos entrar. A beatitude aqui e agora, a suprema alegria.

E, não esquecer, um bom duche e toalhas tolas amarelas.

 

 

 

 

Extreme lying down

Descobri hoje uma coisa nova. Foi um dia bom. Não que o que descobri seja muito interessante. É original. Um pouco estúpido talvez, ou só adolescente. Mas é uma coisa nova (para mim) e é desse maravilhamento que falo. Que num mundo tão velho como o nosso, tão cheio de gente e coisas e ideias — e dos fantasmas de gente, de coisas e de ideias de milénios passados — se possa descobrir algo novo.

Porque haveria alguém de fazer isto? Não quer dizer nada. Não tem mensagem conhecida. É um jogo planetário, de regras simples, sem prémios, sem competição, sem objectivos para além do prazer de jogar. Já é uma moda também, mas não faz mal. Tem uma vítima e um dia internacional, 25 de Maio, comemorado em 2011 pela primeira vez. Começou antes do tempo, ainda em 1997 e foi-se espalhando. Devagarinho. Sem outro porquê além da partilha. Não há outra palavra, ainda que esta esteja tão gasta. Apenas comunicar…pôr em comum. Dar. Dar algo de si aos outros. Puro dar, sem interesse ou ganho, para apenas dizer “aqui estou”, “este sou eu”. “Sou único e diferente e sou um de nós”. Originalidade e pertença numa imagem. Fascina-me esta actividade sem sentido:

1º Fazer de prancha e fotografar

2º Pôr a fotografia online (por exemplo aqui ou aqui)

É só isso. E depois o nome: “planking”, “playing dead” ou, o meu preferido, “extreme lying down”.

A beleza da imagem, a estranheza da pose provocam-nos.  Deixamo-nos provocar ou não.

São como um koan de mestre zen, bastante irónico: «Um monge perguntou a Zhaozhou: Um cão tem natureza de buda ou não? Zhaozhou disse: “Wú”.

É peculiarmente sábio… ou talvez apenas divertido.

Os amanhãs que cantam

 

Há neste lindo cemitério muitos e bons conhecedores de Marx e quem o estude seriamente. Eu só sei do marxismo o que fui percebendo pelo contacto à distância com a velha URSS  e seus satélites. Foi com satisfação que vi alguém dar voz ao que eu, no fundo, intuía sobre as conquistas do socialismo “puro e duro”, sem saber como exprimi-lo.

Um simpático professor francês dedicou-se ao estudo dos meus queridos Schtrumpfs (Smurfs é nome americanizado) concluindo que a sociedade “estrunfica” é na verdade um exemplo do modelo soviético, subliminarmente transmitido.

Segundo o Público: «Para o francês, a sociedade dos Estrunfes é “típica de uma utopia soviética”, destacando que “cada um se veste da mesma maneira, tem uma casa igual à do seu vizinho, e exerce a profissão mais adequada às suas habilidades, não sendo conhecidos pelo seu nome mas sim pela sua função na sociedade.” Antoine Buéno escreve ainda que os Estrunfes vivem num mundo em que a iniciativa privada não é estimulada, onde as refeições são feitas em comunidade, numa sala partilhada, e, acima de tudo, têm um único líder, não podendo abandonar o seu pequeno país.»

Estranho? Não mais estranho de que se ter lembrado de tal coisa. Mas dito assim, não podemos deixar de considerar algumas semelhanças. “Je dirais même plus”:  notei sozinha  pois  não vi nas notícias, que o chefe dos Schtrumpfs se veste de encarnado… ou melhor, de vermelho mesmo!

Depois descobri que a teoria já é antiga e tem um nome: “The Theory of Smurfian Communism” exposta num pequeno ensaio, sem data, que apanhei na net, de um aluno de “história do Missouri” (!), que acrescenta muito pontos relevantes, nomeadamente no que toca à questão religiosa «The Smurf’s principle enemies, Gargamel and Azrael, show the Soviet Union’s contempt for religion, especially Judaism. Azrael, in Islamic and Jewish faiths, is known as the angel of death. Azrael is often identified with Gabriel in Jewish writings and Raphael in Islamic tomes.», bem como no que diz respeito às relações conjugais: «Smurfette, the only female on the television show for the first few seasons, is the communal wife described by Marx in The Communist Manifesto. Marx states “The Communists have no need to introduce free love; it has existed almost from time immemorial”» e conclui lapidarmente:  «In 1989, the Smurfs began to travel the world and accept different cultures, just as Gorbachev had done in the final days of the USSR. In 1990 the last new episode of the Smurfs was produced. Nearly two years later, Communism fell in the Soviet Union bringing democracy and President Boris Yeltsin.»

[eu encontrei isto logo em segundos pondo no Google “soviet smurfs”… não diria que é plágio, porque “quem é que se lembra de procurar tal coisa!” mas que o professor francês é capaz de ter de dar algumas justificações, lá isso é.]

Em resumo, queria só partilhar a minha satisfação, não porque os Schtrumpfs sejam comunistas (o Peyo lá no céu da banda desenhada saberá se o são ou não) mas porque, sinceramente,  me parece que tudo isto demonstra que o comunismo é uma coisa muito infantil!

 

A de Junho

 

Gosto muito do mês de Junho. Gosto da noites quentes e dos cheiros das flores que começamos a sentir no ar, pequenos vestígios da beleza à nossa passagem. Gosto das festas. Em Junho tudo se anima, sobretudo a cidade. A minha, Lisboa, mas também muitas outras. Em Junho todos queremos ser felizes… e andamos muito mais perto disso.

** imagem de Christopher Williams

Música Celestial

CANIS MAJOR

The great Overdog,
That heavenly beast
With a star in one eye,
Gives a leap in the east.

He dances upright
All the way to the west,
And never once drops
On his forefeet to rest.

I’m a poor underdog,
But to-night I will bark
With the great Overdog
That romps through the dark.

Robert Frost, 1928


 

Qual é a música das estrelas?

Dois investigadores deram som às cataclismicas explosões das supernovas, atribuindo-lhes notas de piano segundo a distância das respectivas galáxias em relação a este cantinho do universo.

Já podemos ouvir o céu estrelado.


Site de um dos autores http://www.astro.uvic.ca/~alexhp/new/supernova_sonata.html

Romance de Pedro a conduzir um Jaguar #3 — Futilidades no banco de trás

Mas … agora andamos a 20 à hora!? O Pedro deu em não saber guiar? Está todo nervoso porque a noiva vai no carro da frente com o Júlio… já se sabia! É mesmo danado aquele Júlio! Foi propósito, está-se  a ver, faz qualquer coisinha para irritar o Pedro. E como brinde ainda enerva a Lili, bem que a sinto a espumar no banco da frente. Deve estar quase quase a atirar-se ao Pedro. Ela finge que não, mas é doida pelo Júlio…estão bem um para  o outro, e como ele se atracou à Teresa vai de certeza meter-se com o Pedro. É assim que eles se vão picando um ao outro.  Estou-me nas tintas! Quero é sossego…

Nem me atrevo a abrir os olhos. Vou continuar a fingir que durmo antes que me metam nas alhadas deles. Foi de certeza o Manel a sussurrar-lhe ao ouvido esta bela ideia… aquele mefistófeles! Mandou-nos de passeio e baldou-se com a desculpa de que tinha de preparar sei-lá-o-quê-de-última-hora para a festa. Agora a coisa pega fogo e ele a lamber-se com a ideia da trapalhada que armou, para ver à chegada… ainda acabam todos enrolados e não no melhor sentido.  Se bem conheço o Júlio, já anda em cima da Teresa: uma mãozinha aqui, outra ali, “tens uma folha no cabelo”, “olha já viste aquelas árvores, tenho uma igual no jardim” e lá se debruça todo por cima dela. Coitada! Não fez mal nenhum a ninguém para aturar aquela prenda. Ai! Mas este está doido? Agora quer-nos atirar para a estrada? Passou de tartaruga a lebre! Que seca de viagem! Estes aqui ao meu lado também devem estar a fingir… quase que aposto. Ao menos vamo-nos rir os três logo à noite se isto continuar assim. Ainda falta muito?

**capítulo anteriores desta saga aqui e aqui

Os nomes que somos

 

“What’s in a name? That which we call a rose

By any other name would smell as sweet.”

Romeo and Juliet (II, ii, 1–2)

 

Ao contrário do que nos diz o eterno Shakespeare, na sua voz de Julieta-menina, os nomes têm muito em si. Talvez não o  nome da rosa, pois a rosa cheira e é bela por ser bela e por cheirar tão bem e em tantas cores. A rosa talvez nem precise de nome, ou poderia o seu nome ser Julieta e seria igualmente bela.  Mas, para Julieta, Montague ou Capuleto não pode nunca ser igual. Ou pode ?

Somos seres de nomes. Pelos nomes descobrimos o mundo e o trazemos à nossa adâmica medida, co-criadores dos seres agora nomeados. Antes do nome era o silêncio. O silêncio do Verbo que apenas no nosso silêncio encontramos. Podemos renomear-nos, transformar-nos em segundas vidas mais ou menos literais, heterónimos de gozo ou de castigo, o anonimato que nos esconde a vergonha ou nos dá liberdade.

Não temos a placidez da rosa, que não conhece os seus espinhos. O Sem-nome está sempre um passo longe demais, demasiado perto da divindade. Conseguiríamos viver inominados? Conseguimos viver despidos de quase tudo, mas o que somos nós quando não somos o que fazemos, o que escrevemos, o que de nós mostramos? O que somos sem o nome que temos, o que nos deram ou o que para nós reinventamos ?

Podemos ter muitos nomes. Conseguiríamos não ter nenhum?

 

 

 

PURE

Namgyal Lhamo

 

Ela é tibetana, descobri-a por acaso num CD já com uns aninhos, chamado PURE. Uma foto assim a preto e branco, sem adornos, só a cara dela e a voz. Estranha como nos são por vezes as vozes orientais.

Não gosto de tudo o que ouvi, mas gosto muito deste disco, sem misturas, sem disfarces. Gosto sobretudo desta música: Ohm mah hung … lembra-me as planícies desertas da terra dela, o tempo imenso e o vento.

Hoje festeja-se a iluminação de Buda. É um bom dia para a ouvir.

(site oficial www.namgyallhamo.com)

 

Hoje é isto, amanhã não sei…

João Louro, Dead End #9, 2005

A Sem-se-ver fez o favor de nos provocar, e com os nossos queridos livros ainda por cima! Eu confesso que estes inquéritos me provocam sempre angústia, não que desgoste totalmente, mas sinto-me concorrente televisiva com uma branca total na memória, e logo naquela resposta que em casa todos sabemos! Mas hoje é domingo e apeteceu-me.

1 — Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?

Tenho medo de reler os livros que amei, não vá ter eu sucumbido ao tempo e perdido o olhar que na primeira vez me trouxe o encanto. A excepção é a poesia, que se relê sempre.

2 — Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

… pois… suponho que vários, mas um é-me particularmente caro, a minha desistência preferida e (quase) inconfessável: “O Memorial do Convento”.

PS– o “Ulysses” nem sequer tentei ainda, está lá paradinho na estante e eu passo por ele amarrada ao mastro, sem me deixar seduzir pelos seus cantos de sereia insaciável de vítimas.

3 — Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?

O Livro dos livros, a Bíblia… por mais que quisesse pensar noutras opções, nenhuma outra me faz a promessa de “leitura infinita”, no título feliz de Tolentino Mendonça.

4 — Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?

Como disse a Sem-se-ver, todos os clássicos (e os contemporâneos que o virão a ser) que ainda não li.

5– Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?

Pelos vistos nenhum, nada me ocorre.

6– Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?

Sim, claro! Leituras infantis: muita Enyd Blython, os livros da Biliothèque Rose e da Verte da Hachette, a Condessa de Ségur, a Virginia de Castro Almeida, as minhas mais-que-tudo “A fada Oriana” e “A menina do mar”de Sophia de Mello Breyner Andresen, a Nárnia de C.S.Lewis (lido em francês, que a edição portuguesa é muito recente) e mais tarde todo o Tolkien. Muita banda desenhada também: Astérix, Lucky Luke, Tintin, Marsupilami, Gaston Lagaffe, Yoko Tsuno, Alix, sem esquecer a querida e estranha escolha que já aqui revelei.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?

Dobrando um pouco as esquinas da pergunta, escolho aqui um livro que em boa verdade não acabei mas é, dos chatos, o que mais gostaria de ter acabado. É o livro mais insuportavelmente chato para mim, pois tinha tudo para não o ser: a “auto”-biografia de Bill Clinton. Tanto quanto gostei da de Hillary, detestei a de Bill, que não consegue escolher o que interessa e nos aborrece de morte com detalhes infindos e insignificantes. Uma total desilusão!

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.

Decidi há muitos anos que o meu livro preferido é “A ilha de Arturo” da Elsa Morante e é daqueles que não reli pelas razões que no início avancei. “O marinheiro de Gibraltar” da Marguerite Duras é outro (embora tenha quase a certeza que vou continuar a gostar dele quando o reler). A “Harpa de Ervas” do Capote também.  Em miúda apaixonei-me por “La chambre des dames” de Jeanne Bourin e passei a gostar da Idade Média. Como o Manuel: “Moby Dick” e “No Fio da Navalha”, Yeats e Eliot e Pessoa. Cesário Verde também e acrescento “Les Fleurs du Mal”. Herberto Helder queima-me como diz o Zé Navarro de Andrade e hesito, por isso, em inclui-lo aqui. “Orlando” de Virginia Woolf (mas sei que tem a cara de Tilda Swinton), “Confissões” de Santo Agostinho, “A via do peregrino” de Jean-Yves Leloup (sobre os “Relatos de um peregrino russo”),  “O jardim das carícias”, de um autor anónimo do Al-Andalus do século X, a minha amada Lalla e os seus “Cânticos Místicos”. Hoje foi isto, amanhã não sei…

9. Que livro estás a ler neste momento?

As “Baladas Hebraicas” de Else Lasker-Schüler.

 

** A obra do João Louro escolhida veio daqui. Vão lá espreitar!

Party sim… mas, pijama?

Nudez

Há uma grande nudez nos cemitérios. Nem sempre a conseguimos, ela foge, nós fugimos dela.  Já não vivemos sem ela.

Depois de Abril

 

«Lembra-te, Eterno, das tuas bondades, porque elas existem desde a eternidade»
(Salmo 25,v.6)

O tempo passa por nós – ou nós por ele – sem quase darmos conta. Já sou velho e por muito que tenha vivido  — e vivi muito – não dei conta do escorrer da vida. Hoje sou um ser angélico. Indiferente aos moinhos de vento, vivo do prazer de existir e fumo. Parei um mundo inteiro num cigarro, na pura fruição, na largueza e no consolo das bondades do Senhor, sobretudo as mais pequenas. Íntimos e ínfimos momentos de gratidão. A eternidade presente na minha mão.

 

Onde me encontro

Há muitos sítios bonitos no mundo e há sítios que, para além de belos, nos elevam. Na natureza, para sentir o elo com o sagrado, uns preferem o mar, outros a montanha, outros ainda o deserto. Mas há lugares construídos, arquitectados pela mente humana, que moldam a nossa presença neles e nos transportam, não para fora de nós, mas para o nosso interior. “Noli fora…“ dizia Agostinho, “Não vás para fora, permanece em ti mesmo”. Nem sempre é fácil. Por vezes é mesmo muito difícil. Não é de estranhar que desde que começou a pôr pedra sobre pedra o Homem se tenha dedicado a criar espaços sacros, microscósmicos espelhos de uma ordem maior, onde céu e terra se podem unir, dentro de nós.

O José Navarro de Andrade trouxe-nos a magnífica capela de Rothko. Curiosamente, estava eu, ao mesmo tempo, a pensar noutro santuário que tive a sorte de visitar. Na cidade santa entre as santas, Jerusalém, dona de uma paz que não consegue viver senão no nome, de tal maneira já lhe perdeu o hábito, surgiu em 1965 um edifício tão moderno e tão antigo quanto o país em que vive; a expressão visual, monumental, do Livro que faz a religião. Alberga uma colecção de livros encontrados em 1947 nos vestígios de  uma seita perdida no tempo, tal como o reino que a albergava se perdera, judeu-errante pelo mundo, até 1947 também, quando a ONU deu terra ao seu nome: Israel.

A seita, os Essénios, praticava uma forma de judaismo ascético, comunitário, messiânico, assente no dualismo (e na batalha) entre os filhos da luz e os filhos das trevas, em ruptura com a religião oficial que consideravam corrompida, usurpada por uma casta sacerdotal sem direito a exercer o cargo, sem Templo (que era, à época, o fulcro da vida religiosa e sacrificial). Tinham inclusive adoptado um calendário próprio e praticavam ritos como a imersão diária e diz-se que o baptismo (donde viria a inspiração de João, o Baptista, ouve-se por vezes). Pouco se sabe deles ainda, embora se estime que existissem em grande número na Judeia e até na Síria e em Alexandria. Os Essénios tornaram-se importantes no século XX com a descoberta dos manuscritos do Mar Morto, nas caves da montanha sobre Qumran, um dos principais centros da seita. Aí se encontraram, em 1947 e nos anos seguintes, inúmeros escritos (ou 972, para ser precisa) com os textos da bíblia hebraíca, apócrifos e canónicos, bem como os textos próprios da comunidade. Entre todos, sobressaia o mais antigo manuscrito completo do Livro de Isaias, o profeta. O mais antigo escrito da Bíblia encontrado.

A importância histórica e religiosa deste acontecimento é tão grande que lhe foi dedicado um museu. Mas não qualquer museu… o Santuário do Livro.

Por fora, é isto. O branco e o negro. A cúpula e o monólito (sim, esse! Kubrick deve ter cá vindo antes de 2001).  É, segundo os seus autores, os arquitectos Armand Bartos e Frederick Kiesler, ”O primeiro edifício ideológico dos nossos tempos, dedicado ao renascimento do homem.” Entre o Museu do Holocausto e o Santuário do Livro, podemos escolher.

Frente a frente, a luz e as trevas em confronto perpétuo. A cúpula branca acolhe-nos, regada por água, num ritual de purificação, como a imersão diária dos essénios. O monólito negro limita, separa, domina. O sol queima e faz-nos recolher na sombra. Felizmente há uma caverna à nossa espera. O Santuário é interior, subterrâneo.

Descemos e, por dentro, um corredor de penumbra leva-nos lentamente para o centro.

Aí chegados, queremos lá ficar para sempre. Nada mais há a dizer.

 

 

Aquilo naquilo, parte III

 

É único, pela sua origem, mas também dos mais belos testemunhos sobre aquilo naquilo…não podia faltar neste nosso compêndio da nomenclatura do prazer.

Aquilo

“Como a macieira entre as árvores da floresta, assim é o meu amado entre os jovens; gosto de sentar-me à sua sombra, e seu fruto é doce à minha boca. Ele introduziu-me num celeiro, e o estandarte, que levanta sobre mim, é o amor.” (Cântico dos cânticos 2–4)

Naquilo

“És um jardim fechado, minha irmã, minha esposa, uma nascente fechada, uma fonte selada. Teus rebentos são como um bosque de romãs com frutos deliciosos; com ligústica e nardo, nardo e açafrão, canela e cinamomo, com todas as árvores de incenso, mirra e aloés, com os balsámos mais preciosos. És a fonte de meu jardim, uma fonte de água viva, um riacho que corre do Líbano. (Cântico dos cânticos 4, 12–15)

 

Divina Nudez

Lalla c.1320 –c.1370

A actriz indiana Meeta Vasisht na peça Lal Ded

Foi paixão à primeira vista. Depois reli-a nas poucas línguas que temos em comum, traduzi-a, estudei-a. Nunca a compreendi realmente, mas continuo a tentar.

Dela conhecemos cerca de 140 poemas (vakhs) autênticos (talvez um pouco mais, consoante os autores), cânticos místicos entoados para os discípulos e que estes foram devotamente registando. Lalla pertence a um tempo passado, a uma Caxemira de paz, onde loucos de vários deuses, poetas e profetas celebravam a doçura das religiões tolerantes. Lalla é a santa de Caxemira, reclamada como sua  por hindus e muçulmanos. Mas Lalla não se prendeu com as religiões do mundo. A sua devoção é de outra ordem. É de uma poesia inquieta e incandescente.

(Vakh 73)

Shiva, Krishna, Buda,

Ou Brahma, nascido do lótus,

Qualquer que seja o seu nome,

Que Ele me liberte da doença do mundo!

Quer seja Ele, ou Ele, ou Ele.

Lalla, Lad Ded, ou Lalleshwari, como também é conhecida, viveu entre c.1320 e c. 1370 d.C., em Caxemira. Nascida numa familia brâmane, terá provavelmente recebido uma boa educação em casa de seus pais, sendo evidente o seu conhecimento de diversas disciplinas espirituais. Depois de alguns anos de um casamento infeliz, Lalla dedica-se à itinerância, à procura incessante de Deus, que ela conhece sobretudo como Shiva.

Como é normal em relação à vida de qualquer santa personagem, a sua vida está envolta em mito e mistério. A informação mais segura sobre Lalla vem de Lalla, dos seus cânticos. Eles são manifestações da voz interior, parecem espontâneos e ocasionais, mas estudados e organizados permitem que se descubra neles cada pedra e cada passo de uma caminhada espiritual muito profunda.

Ela começa titubeante, insegura:

(Vakh 1)

Sou como a água numa taça de argila que não foi cozida -

Espalho-me e perco-me.

Quando atingirei a minha morada?

 

Depois, como outros grandes místicos, percebe que não basta palmilhar as ruas pois é dentro de si que tem de mergulhar :

(Vakh 21)

O guru deu-me um só ensinamento:

“Inverte a tua busca,

Não dirijas mais o teu olhar para o exterior

E fixa-o no Eu interior.”

Levando este ensinamento no coração,

Nua, comecei a vaguear.

 

Lalla só fala do que sabe por experiência própria, do que é sua prática. Pelo yoga, pelo tantra da mão esquerda, de ritos mais ou menos esotéricos, mais ou menos orgiásticos, quebrando todos os limites, todos os tabus, até mesmo o da ingestão de carne humana, ela vai queimando o ser que ela é ou que julga ser, até se dar  o verdadeiro Encontro:

(Vahk  103)

Atravessei sozinha a vastidão do Vácuo,

Deixando para trás razão e sentido,

Tornei-me confidente do meu secreto Eu;

E, de repente, inesperadamente,

Do lodo, o lótus floriu para mim.

 

O pequeno eu de Lalla reconhece-se como o Eu universal.

(Vakh 129)

Senhor, eu não sabia quem eu era,

Nem Tu, o Supremo Deus de tudo.

Só conhecia este meu corpo.

Não sabia da relação entre nós dois,

Que Tu és eu e eu sou Tu e que ambos somos um, eu não sabia.

Perguntar: Quem és Tu? Quem sou eu?

É agora a grande dúvida.

 

Esta Verdade que alcançou e que lhe permite ver a Realidade sem dualidade, a consciência do Transcendente e Imanente com um só, é uma Realidade para a qual não chegam as palavras e sobra a poesia :

(Vakh 134)

Aqui não há palavras ou pensamento,

Não há não-Transcendente ou Transcendente aqui.

Votos de silêncio e mudras místicas

Não vos abrirão as portas.

Nem Shiva nem Shakti aí residem.

O Algo que permanece é a Verdadde

Para conhecer e alcançar.

 

(Vakh 135)

Não há nem tu nem eu,

Não há postura, nada a contemplar,

Tudo foi esquecido, até mesmo o Criador […]

 

O cântico final de Lalla é o meu predilecto, revelando-a senhora de uma fé onde nada se perde e tudo se aproveita e se transforma, onde se encontra Deus sem fugir do mundo, onde espírito e matéria são uma mesma realidade, uma mesma voz,  uma mesma dança, da qual Shiva é, afinal, o Senhor, pois é dançando que ele cria o mundo… e o destrói outra vez.

(Vakh 138)

Todo e qualquer trabalho meu tornou-se adoração a Deus,

Qualquer palavra minha um mantra,

Toda a experiência ou sensação deste meu corpo tornou-se o tantra do Divino Shiva,

Iluminando o meu caminho para Ele.

 

A infância é um lugar estranho

Estou muito atrasada, bem sei, mas o encargo que o Manuel me entregou – e eu aceitei – levou-me por caminhos que já não palmilhava há muito. “O mais estranho melhor livro” disse ele.

O que é estranheza?  Parece ser a qualidade do que nos é, de alguma forma, alheio. O que contrasta connosco e que, no entanto, conseguimos reconhecer, aceitar… ou pelo menos enquadrar no nosso mundo. Damos-lhe este nome “estranho”, como diríamos “outro”, algo cuja existência é ser pária na nossa realidade, mas que, pelo facto de ter nome, se torna subitamente compreensível.

A medida dessa estranheza é a nossa “normalidade” (por vezes uma “muito própria” normalidade).  Será que lemos assim tantos livros que nos são estranhos?  Julgo que terei desistido da maioria dos que me chegaram às mãos e não se enquadravam em mim. Não me lembro, não terão deixado rasto na memória que seja facilmente recuperável.

Fui procurar nas estantes… sem grande resultado.  Os estranhos não eram bons e os bons não eram estranhos. Sendo uma pessoa de diversos interesses suponho que algumas coisas que li e me são familiares sejam sem-sentido para outros. Mas não quero usar a régua de uma normalidade que não é a minha.

Por isso, sem mais demoras – e com um longo suspiro, dada a estranheza da escolha da qual tudo me afasta: a idade, a ideologia política, as opções éticas e até estéticas, a visão do mundo e, em particular, das mulheres no mundo – aqui vai o mais estranho melhor livro que já li… são vários aliás.

 

A capa do 1º número

Para quem não sabe, isto era a revista da Mocidade Portuguesa Feminina, que a minha avó coleccionou, do 1º número da “Lusitas” ao último número da “Fagulha” (em 1 de Abril de 1974).

O último número

A minha avó coleccionou e encadernou (em livros de 8 cm de lombada), a minha mãe guardou e, como andavam lá por casa e acabei por ler – muito fora de tempo, já depois do 25 de Abril … que esta última capa me parece, aliás, prenunciar.

Li muito, várias vezes e com muito prazer. Como as séries que vemos na Fox, não precisava de esperar pela semana seguinte, ia devorando em avalanche, tão sôfrega que nem reparava no que me era estranho, nas pequenas historietas pias e catequéticas, na versão sacrificial da vida, na noção de um Portugal intercontinental que eu já não conhecia, na moral e bons costumes que a revista anunciava às futuras mulheres portuguesas.  O que era estranho, estranhava. Não ligava –ponto.

Para além disso tudo, havia as histórias. E que histórias!

Cada revista trazia umas tantas que se prolongavam por vários números. Outras, ainda que com os mesmos personagens, contavam episódios separados todas as semanas. E, não consigo dizê-lo de outra forma, a maioria delas enfeitiçou-me. Havia histórias de mistério, histórias de terras distantes, de mundos imaginários, havia histórias da nossa história, histórias de vidas comuns e incomuns, histórias de colégios internos, de meninas rabinas e endiabradas, de meninas boazinhas e modelares, aventuras, exotismo, animais falantes, princesas, fadas, duendes, sereias e crianças que passavam férias sozinhas em velhos casarões cheios de segredos.

Em todas as histórias (descontando uma ou outra excepção) era uma menina ou uma mulher a personagem principal e não estava à espera de príncipes encantados. E isso fazia toda a diferença.

Não consigo explicar o efeito encantatório sem mostrar as imagens e vou, por isso, abusar e mostrar muitas. Imaginem-se uma menina de 8 ou 9 anos com estes desenhos à frente! Como não ficar totalmente rendida?

História da 3 princesas irmãs: Mimosa, Orquídea e Glícinia

 

O Laçarote bem comportado engana, ela é imparável no disparate.

Algum dos meninos sabe quem é esta Sofia?

A aventura perfeita

Amizade e mistério

Ler isto no Portugal pós-revolucionário era muito estranho, mas era “do melhor”.

E para terminar, passando a “bola” a outros e não ao mesmo, peço à Joana e ao Vasco que se revelem, contando-nos os seus “mais estranhos melhores livros”.

 

 

 

Entardecer

Lembro-me sempre daquele dia. Todos alegres, todos  juntos… não voltou a acontecer assim.

Pedira  à nanny para me vestir as meias cor-de-cereja. Tenho sempre meias cor-de-cereja agora porque são a cor dessa felicidade.  A felicidade que há no fim da tarde.  As horas passadas à mesa a contar e ouvir histórias. A luz do sol que não acaba nunca. O calor que vai escorrendo sobre nós e as sombras que nos acolhem. A mãe e as tias. Os tios e os amigos… e o meu pai.  Este é o retrato da minha infância. Tinha 5 anos.  No dia seguinte tornei-me adulta.  Eu não queria, mas aconteceu assim, ninguém teve culpa — talvez — , não foi por mal… mesmo se o amaldiçoei vezes sem conta, mesmo se fiquei fechada num fim de tarde, numa mesa sempre posta mas onde não encontro alimento, nos sorrisos que de alegres passaram a baços, na confiança perdida entre as folhas. Tenho este quadro em casa. Mandei-o fazer de uma fotografia e pintei-o com as cores da memória. Sei que adormeci. Provavelmente deitei a cabeça no colo da mãe e deixei-me embalar pelos risos. Alguém me terá levado para a cama, para o quarto onde já dormia o meu mano. Dormi tranquila, sem saber que no jardim os risos passavam a gritos. Os gritos passaram a punhos e um deles derrubou o meu pai. Quando acordei o dia era noite. Morte imediata ouvi nos sussurros. Foi o pescoço chorou a cozinheira. A mãe tornou-se um espectro. Pouco a pouco os amigos, os tios e as tias desapareceram. A comida sabia sempre a sal e a nanny vestia-me de preto.

Dos risos nasceu o silêncio. E eu nunca mais encontrei o caminho de regresso à minha vida.

50

Em Fukushima ficaram 50 pessoas para trás. 50 pessoas que tentam evitar a maior calamidade, num país já marcado pela destruição. Quilómetros em redor não há mais ninguém. Estão sózinhas numa central nuclear que se desfaz. O mais provável, dizem, é não terem sucesso. Melhor do que ninguém elas sabem o que as espera. Já alguém disse: ”o apocalipse”. E ali estão. Imagino que não durmam há dias, senão talvez umas breves horas, nos limites do corpo, nos novos limites dos corpos que nunca tinham antes ido tão longe. Nada nos prepara para a resposta a dar nestes momentos, a não ser toda a nossa vida. Talvez nunca sonhassem ser heróis, certamente nunca quiseram serestes heróis. Devem ter medo, muita dor, mas também a serenidade de quem já aceitou perder tudo, até a vida, mas não a esperança na vitória. E nós, presos neste drama em directo, na distância segura de um mundo inteiro entre nós, sabemos que está a acontecer um sacrifício humano, que alguém se ofereceu à morte para que outros vivam e sentimos que só pode ter sido por amor.

 

(Texto “reloaded” para corrigir o erro que impedia os comentários)

Livros estupidamente bonitos VI

Mais alguns livros que não se lêem …mas contam histórias.

Livros estupidamente bonitos V

E quando os livros se acabam? Os livros, mesmo os que julgamos eternos, têm, como tudo, um tempo. Não é fácil ser um deus dos livros mortos e decidir-lhes o destino. O pó acumulado não os redime, os leitores que com eles se encantaram já são idos e as gerações que se sucedem não encontram a chave das palavras e das histórias que ali repousam. Que fazer a manuais técnicos de 1923, à enciclopédia de 1945, ao romance famoso de 1896? Livros que se tornam ilegíveis, sem outro interesse senão uma eventual beleza da capa.  Livros obsoletos que já não valem o espaço que ocupam na prateleira, onde outros se perfilam para os substituir.

Estes (não-)livros são estranhos. Talvez sejam sombras dos livros que foram. Continuam ilegíveis na modernidade que os esqueceu mas têm, post-mortem, uma nova vida, uma nova forma, uma outra mensagem.  São livros ressuscitados e estupidamente bonitos.

 

 

* O site do autor é: http://www.alexanderkorzerrobinson.co.uk/

 

Esfinges e outras histórias

Há alguns dias atrás, o Gonçalo trouxe-nos a Esfinge. Sempre me fascinou o mistério deste ser. Apesar disso, a história pareceu-me, logo à primeira e infantil vista, meio pateta. Alguém consegue acreditar que aquele enigma era assim tão indecifrável?  É claro que depois de conhecida a resposta, é fácil, mas…há que admiti-lo, é uma adivinha um bocado simplória, nada que permitisse à Esfinge um número aceitável  de vítimas para se saciar.

Apesar disso, é inegável que o mito tem um apelo mais forte, uma infinita riqueza,  um saber implícito que ressoa em nós e, ao reconhecê-lo, nos impele a ir mais além. Um chamamento à busca, talvez eterna, de Deus, de nós, de respostas e sentido.  Qual é então o verdadeiro enigma da Esfinge? Porque se indignaria Tirésias? Qual é o conhecimento que ele protege, proibido aos não iniciados ?

Édipo deve ter dado a resposta certa, de outra forma nada mais faria sentido na tragédia. O Homem é a resposta. Resta saber qual a pergunta.

Suspeito que a pergunta é a própria Esfinge.  Um corpo quimérico, composto, como nós somos compostos, seres de múltiplas naturezas e interrogações. A aberração que nos interroga é o espelho da nossa própria aberração. Saberemos vê-la?   E, sobretudo, saberemos vivê-la? Na cauda de serpente que assume em certas versões, temos os instintos, as pulsões subterrâneas, a sobrevivência e o sexo;  no corpo de leão, o coração, a força, a vida na terra e a sua fruição; nas asas, a capacidade de voar, de ver mais longe, o intelecto curioso e insaciável; no tronco e face humanas, de mulher,  a alma, uma outra ordem de ser, o pedaço divino que nos dá unidade e sentido, assim saibamos encontrá-la.

O mistério da Esfinge é a própria natureza humana, não a superficial questão da idade, mas a questão maior da nossa possível imortalidade.  A resposta de Édipo, sendo certa, não era a verdadeira.