O post que se segue é do Herói, um “autor errático” deste cemitério. Angolano, por razões que só a ele dizem respeito é um nómada moderno, de aeroporto em aeroporto, um dia destes sentado num avião, próximo de si. Desta vez, em vez de viajar, pôs-se a trocar memórias comigo. No fim, diz-nos adeus. Gostei muito que me tivesse, como há muito, muito tempo, feito companhia. O texto é da responsabilidade dele, mas fui obrigado a duas breves notas em jeito de posfácio. Já vão ver.
Tínhamos tanto tempo naquele tempo
Um post do Herói
Komé que é, então, meu? Hoje não saio de Luanda e vais tu viajar comigo. No tempo. Vou-te lembrar. Lembra-te lá, meu.
Era tanto o tempo que tínhamos naquele tempo. Dos 10 aos 15 anos, do 1º ao 5º ano do liceu, com excepção de 5 horas de aulas, em geral das 7:30 às 12:30, e apenas durante 8 meses do ano que os outros 4 eram férias, todo o resto do tempo foi meu. De um total anual de 8.760 horas, 7.880 foram gozadas como eu quis, quando quis. Fui senhor e dono de 90% do tempo que me era dado viver. Os anos bissextos? Dou de barato a excrescência desse dia inglório e incerto. Não era rico, era monopolista.
Só me dava, aliás, com monopolistas. Tu eras um deles. A mesma idade, a mesma visão sumptuária da vida: as horas a escorrer vagarosamente, um clima de deuses, a liberdade de ruas, bairros, jardins, barrocas e outras áreas selvagens, praias e duas ilhas. E a confiança de podermos ir a todo o lado. Nunca ouvi a palavra perigo. Tivemos de a inventar.
“És uma menina!” Num tempo em que tínhamos tanto tempo era esse o mais temível e temido dos insultos. Uma vez dito não havia contraprova que o refutasse. Era preciso ir sempre à frente dele, não hesitar face a nenhum desafio, superar cada prova que se punha à nossa nascente virilidade. E, afinal, que meninas que nós éramos, penso enquanto olho para trás, para o luxo asiático das quentes e coloniais horas de África.
À noite, armadilhávamos um quarteirão inteiro com linha preta que atávamos aos candeeiros, postes de sinalização e árvores dos quintais. Era linha de coser roupa e botões, colocada estrategicamente à altura do pescoço de um adulto médio. Depois, sentados à Fellini nos muros das ruas de iluminação débil, assistíamos aos estragos. Sem risos.
De vez em quando, com o salto de susto das vítimas que olhavam a toda à volta sem perceber que tinham caído numa teia invisível e quem ou quê lhes tinha tentado cortar o pescoço, não resistíamos. Nessa altura, depois da gargalhada, era preciso ficar firme. Quem fugisse “era uma menina”.
E “eras uma menina” se não fosses, praticamente a rastejar, tirar o tampão das jantes da frente do carro dos tipos que estavam na cervejaria, meter-lhe lá dentro os burgaus rolados e redondinhos que tínhamos trazido da praia. E ficar para os ver arrancar e parar logo a seguir, apavorados com o estardalhaço, a pensarem que tinham gripado o motor, e parecer que estava tudo bem quando já estavam parados e repetir-se o ruído assassino logo que voltavam a arrancar.
E nenhum de nós foi uma menina na noite de cacimbo em que descobrimos estar destravado o carro do dono do cabaret da Ilha, vizinho recente e que escandalizava as nossas adolescentes mãos nos bolsos por ter as bailarinas lá em casa. Tirámo-lo do estacionamento e empurrámo-lo para o meio do cruzamento onde o deixámos, abandonado, causando a mais nocturna comoção que o bairro viveria esse ano, com perseguições, ardis de Ulisses, cerco, ameaça e salvação de último minuto, à western, com a intervenção dos protectores mais-velhos do bairro. Não fomos meninas, mas lá que estivemos para levar o maior atesto de lamparinas e bassúlas de que há memória, isso estivemos.
E éramos meninas se, subindo a caramanchões, deitando-nos debaixo de escadas, não fossemos espreitar as vizinhas, ou pelo menos as mais relevantes partes delas, para “tirarmos apontamentos” que depois, à noite, dilatariam a solitária imaginação de cada um.
Sabes que nunca mais a vi, a mulatinha de olhos azuis que vinha ao senhor João buscar o terno #1 com a comida para o jantar da família. “És uma menina se não a beijares”. Tenho a certeza de que só a beijaste na face o que tecnicamente é um falhanço aparatoso e faz de ti, retrospectivamente, e apesar do ímpeto, uma rotunda menina. #2
E, com as espingardas de pressão de ar, “és uma menina se não abrires dois dedos em v e deixares, vitória, vitória, eu disparar pelo meio deles”, até tu, meu, arriscares a palma da mão aberta à frente e tirá-la no momento do disparo. Correu tão bem à primeira. À segunda, ferviam umas quatro da tarde, furei-te a mão esquerda com o chumbo. De lado a lado. “Olha, acertaste-me” e, os mais velhos na esplanada da Churrasqueira com ar de parvos, desatámos a correr para o posto médico. Nem um queixume, nem uma lágrima, não éramos meninas, e o enfermeiro, a limpar a espantada ferida, “não é preciso suturar”, sem saber que começávamos naquele dia a suturar a nossa tão rasgada infância.
Passou o tempo em que tínhamos tanto tempo. Foi há tanto tempo. Lembras-te? E de procurarmos na lista até encontrarmos o nome que queríamos? Está lá, é da casa do Senhor Leitão? Sim? Olhe, é só para lhe dizer que foi promovido a Porco. E ríamos como umas meninas. Éramos, afinal, umas meninas. Boas de merecer o céu, claro, apesar de como as más irmos a todo o lado.
Agora, tanto tempo depois, só temos tempo, um fugidio tempo, para a memória do tempo em que tínhamos tempo.
E, sem tempo, venho pedir-te que digas à tua gente morta que os abraço e, em tempo e por causa dele, me despeço de vez do privilégio de aqui vir escrever, mas não do prazer de continuar para sempre leitor de gente tão gentil que às vezes só me apetece mesmo dizer: “são umas meninas”.
Glossário e comentário inopinado
#1 Terno era uma marmita, com 3 secções sobrepostas, em que se transportava a comida que as famílias vinham comprar a restaurantes e a uns antepassados dos take-aways existentes em Luanda, desde que me lembro.
#2 Rematada falsidade, houve, de lábios, contacto intencional e de adolescentemente consentido raspão.