Apelo ilegal ao voto

Bem sei que a hora é de reflexão e lailailai como se diz na Sardenha. Mas mesmo com o meu fatinho de primeira comunhão, venho aqui fazer apelo ao voto e tentar influenciar a sábia e dominical decisão dos leitores deste cemitério com idade de eleitores (serão poucos, sabido que em particular os nossos comentadores têm linda idade adolescente).

No momento de votar, lembrem-se deste diálogo de C. K. Chesterton: “O que é que preferes? Um anti-semita ou um filo-semita?” “Olha, antes um anti-semita, ao menos sei que não me está a mentir!”

O elogio do mal

Ao contrário de Lars von Trier não compreendo Hitler. Parece-me metade duma moeda. Ele é a cara, Estaline a coroa. O cortejo de horrores deles esmagou um século.
Mas gosto de vilões. E hoje louvo esses injustiçados que são o bife da melhor ficção. Como se fosse dia de Eva, maçã e serpente. Dia da Moby Dick, a baleia branca, senhora assassina dos mares. Dia de Lady Macbeth que invoca espíritos para que não a corrompa a menor réstia de piedade.ó mulheres?

Homens, também. Harry Powell (o cansado Robert Mitchum), que mata viúvas para maior glória de Deus e, no Night of the Hunter, persegue implacável, rio abaixo, um par de crianças inocentes.
Pior do que Mitchum só Lee Marvin. Mau como as cobras? Dizer isso ou dizer nada é quase a mesma coisa. Moralizo dizendo que é cínico e sem escrúpulos. Não lhe estou a fazer justiça. Os maus de Marvin são muito físicos: gostam de fazer doer, magoar alguém na carne, desfigurar em Big Heat a cara da narcísica Gloria Grahame vazando-lhe em cima o café a ferver da cafeteira ao lume, para que jamais se volte a ver ao espelho. Só há uma forma de nos livrarmos de tanto mal, ámen: é matá-lo. E Marvin morre como um canalha em Big Heat e em Liberty Valance. Em Man Hunt, Fritz Lang também tentou matar Hitler: falhou o tiro.

Mas o mal de que mais gosto e sempre gostarei é o de Emma. Emma Small, a outra mulher de Johnny Guitar, western em que duas mulheres, ela e Vienna, são as protagonistas em duelo.
Emma (Mercedes McCambridge) é o mais feliz rosto do ódio. Nervosa, agitada, com voz estrídula e na boca um riso, esgar quase sorriso, do prazer de tanto odiar. Em Johnny Guitar, Emma só tem um objectivo: destruir Vienna (Joan Crawford), a dona do saloon. Quer acusá-la de assaltos que sabe que Vienna não fez e manobrar os homens para a enforcarem. Vinda da escuríssima noite, chega de negro e, na mais horrível e doce cena do filme – está Vienna de branco ao piano – Emma tem uma luciferina luz a dançar-lhe nos olhos: “No, I’m not satisfied”, grita. Nunca, nunca estará satisfeita. A não ser quando, fogo posto, as chamas irrompem e consomem o salão. É então que Emma sai de novo para a noite escura, às arrecuas, para ver melhor cada milímetro de destruição e se voltar, já em muito grande plano, oferecendo-nos o rosto afogueado, olhos em brasa, o tão perfeito e feliz sorriso desenhado nos pérfidos lábios.

O mal é o intenso brilho desse rosto, o frémito que lhe faz estremecer o corpo, lhe faz estremecer a íntima e láctea carne que as negras roupas tapam. Assusta que seja tão bonito o mal. Assusta mais porque poderia ser o sacudido riso, o frémito de cada um de nós. E é belo.
Hitler está preso à histeria da pompa e parada fascista, Estaline ao atroz e indigente realismo socialista: não há estética que os resgate.

Publicado no Atual do “Expresso” em 28 de Maio. Parte do tema já passara aqui pelo cemitério. No “Expresso” desta semana agarro-me aos ramos da árvore de Malick. A ver se sobrevivo. 

Ricardo Reis leitor de Pierre Louÿs

Organizada por Jean-François Revel, com primeira edição em 1984, na Robert Laffont, “Une Anthologie de la Poésie Francaise”é a mais apaixonada recolha poética que conheço. Quase todos os poemas que lá estão são obras-primas. E os que o não são, são ainda assim poemas admiráveis rasgados por uma emoção lírica e por uma sensibilidade de pele, em primeiro grau. O único critério foi a escolha estética do autor, sem cuidar de escolas, movimentos, didactismos ou representatividades particulares.

Por capricho do alfabeto, exactamente a meio do livro, está “Psyché”, de Pierre Louÿs. É um poema de calma volúpia e recordação. Leiam:

Psyché, ma soeur, écoute immobile, et frissonne…
Le bonheur vient, nous touche et nous parle à genoux
Pressons nos mains. Sois grave. Écoute encor…Personne
N’est plus heureux ce soir, n’est plus divin que nous.

Une immense tendresse attire à travers l’ombre
Nos yeux presque fermés. Que reste-t-il encor
Du baiser qui s’apaise et du soupir qui sombre?
La vie a retourné notre sablier d’or.

C’est notre heure éternelle, éternellement grande,
L’heure qui va survivre à l’éphémère amour
Comme un voile embaumé de rose et de lavande
Conserve après cent ans la jeunesse d’un jour.

Plus tard, ô ma beauté, quand des nuits étrangères
Auront passé sur vous qui ne m’attendrez plus,
Quand d’autres, s’il se peut, amie aux mains légères,
Jaloux de mon prénom, toucheront vos pieds nus,

Rappelez-vous qu’un soir nous vécûmes ensemble
L’heure unique où les dieux accordent, un instant,
À la tête qui penche, à l’épaule qui tremble,
L’esprit pur de la vie en fuite avec le temps.

Rappelez-vous qu’un soir, couchés sur notre couche,
En caressant nos doigts frémissants de s’unir,
Nous avons échangé de la bouche à la bouche
La perle impérissable où dort le Souvenir.

O poema entrou-me dócil nas veias. Minutos depois soube que da última quadra, imperecível pérola de boca a boca trocada, os versos eram, como se diz de filmes e livros, versos da minha vida.

Sentia-os tão familiares e a todo o poema. De repente, pensei em Pessoa e lembrei-me das Odes de Ricardo Reis. Era tarde, a ler já na cama, e em vez da acareação que exigia sonâmbula pesquisa, voltei ao poema. Dormi com ele. Mas hoje, não resisti. Sabia que Psyché era «sœur immobile» de Lídia, prima dessa Neera a quem Reis diz, «… passeemos juntos só para nos lembrarmos disto”.

Mas que interessaria encontrar semelhanças, o mesmo timbre, a mesma religião neo-pagã, se Fernando Pessoa, o mistificador de Reis, nunca tivesse lido o poema. E é essa a questão: teria Pessoa, nos anos 10 e 20 do século passado, ao criar os poéticos heterónimos, lido o poema que Louÿs terá escrito no final do século XIX, 20 a 30 anos antes? Fui aqui, a este louvável local onde a Casa Pessoa disponibiliza toda a biblioteca do escritor, e consultei a lista dos autores que Pessoa tinha em casa. Pierre Louÿs não consta. Ora bolas, falso alarme, caso encerrado.

Gosto de perder, não me importo, salvo comigo mesmo. Fui ver títulos. Apareceu-me um L’Amour dans la Poésie Française”, assinado por Gabriel Boissy e Dominique Folacci, com subtítulo prometedor: “Essai suivi d’un recueil de les Plus Beaux Poèmes d’Amour”. Uma edição de Arthéme Fayard, sem data. E a parte vencida de mim logo disse, entre dentes e ressentida: Bingo. Online, percorri o livro página a página. No ensaio, uma breve referência a Louÿs. Demasiado curta, pareceu-me. Segui para os poemas. Passei a Idade Média, a Renascença, o Classicismo. Pensei, e mesmo que haja um poema de Louÿs porque raio haveria de ser “Psyché”? Outra vez bingo! Estava Louÿs e o único poema dele era o que acima leu quem até aqui continuou a ler.  

Agora sim, já podia ir reler as odes ricardianas. Bastaria que se sentasse Lídia:

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

O poema de Reis ecoa o mesmo tranquilo paganismo que de “Psyché” se evola. As mãos que o poeta com Lídia enlaça, rimam com esse grave “pressons nos mains” que a felicidade do segundo verso de Louÿs exige. E essa vida que passa e não fica, que “Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado, Mais longe que os deuses”, que outra coisa é se não a Hora de Louÿs, “… notre heure éternelle, éternellement grande, L’heure qui va survivre à l’éphémère amour”?

Reis segue Louÿs no mesmo culto do instante que, por consentimento dos deuses, se converte em “esprit pur de la vie en fuite avec le temps”. Na imitação ricardiana essa fuga com o tempo é o “momento em que sossegadamente não cremos em nada, Pagãos inocentes da decadência”.

Há uma sombra de ternura que nimba os dois poemas: “Une immense tendresse attire à travers l’ombre Nos yeux presque fermés”, em Louÿs; e que em Ricardo Reis se diria que “Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova, Porque nunca enlaçamos as mãos.”

E as quadras finais dos dois poemas confirmam todas as rimas anteriores, propondo-se como variações sobre o mesmo mote: o “Souvenir” que se esconde na “perle imperissable” de Louÿs, a “suave memória de ti, pagã triste e com flores no regaço“ de Reis. Em ambos ma mesma altiva indiferença perante a morte e o tempo; em ambos o mesmo exaltado amor ao instante em que, holograficamente, resumem a eternidade.

As Flores do Mal, as minhas

Onde é que páras que não te encontro?

Fez há um minuto 154 anos que Baudelaire publicou Les Fleurs du Mal.

Julguei que tinha uma velha edição da Gallimard, capa branca. Já dei volta a tudo e nada. Dou-a, sequelas do colonialismo, por perdida. Terá ficado entre o Lobito e Luanda nos idos de 70. E também não encontrei, dumas maravilhosas edições portuguesas desse tempo, uns livros pequenos, rectangulares ao alto, os Livro B, os de Baudelaire Paraísos Artificiais.

O que me custa não é tê-los perdido – ainda por cima nesse tempo de espectador activo e maravilhado de ver uma independência nascer e um suave império morrer mesmo à frente dos meus olhos. O que me custa é terem passado 35 anos sem que o spleen de ambos, livros da minha juventude, me tivesse reclamado. Nunca mais ter voltado a lê-los é um remorso que me pesa e corrói.

Voltam, mil anos depois, as recordações deles e vontade ou atrevimento de neles escolher este Spleen como o único poema que hoje, primeiro dia de Junho, quero ler ou ouvir:

J’ai plus de souvenirs que si j’avais mille ans.

Un gros meuble à tiroirs encombré de bilans,
De vers, de billets doux, de procès, de romances,
Avec de lourds cheveux roulés dans des quittances,
Cache moins de secrets que mon triste cerveau.
C’est une pyramide, un immense caveau,
Qui contient plus de morts que la fosse commune.
– Je suis un cimetière abhorré de la lune,
Où comme des remords se traînent de longs vers
Qui s’acharnent toujours sur mes morts les plus chers.
Je suis un vieux boudoir plein de roses fanées,
Où gît tout un fouillis de modes surannées,
Où les pastels plaintifs et les pâles Boucher,
Seuls, respirent l’odeur d’un flacon débouché.

Rien n’égale en longueur les boiteuses journées,
Quand sous les lourds flocons des neigeuses années
L’ennui, fruit de la morne incuriosité,
Prend les proportions de l’immortalité.
– Désormais tu n’es plus, ô matière vivante !
Qu’un granit entouré d’une vague épouvante,
Assoupi dans le fond d’un Saharah brumeux ;
Un vieux sphinx ignoré du monde insoucieux,
Oublié sur la carte, et dont l’humeur farouche
Ne chante qu’aux rayons du soleil qui se couche.

A invencível armada

Há 423 anos, quem de Lisboa tivesse vista panorâmica sobre o Tejo teria contemplado, a sair de Belém, naquele movimento majestoso que antecipa a glória, o último galeão da Grande y Felícisima Armada.
Sob o comando do duque de Medina-Sidónia, segunda escolha, 151 barcos, tripulados por 8 mil marinheiros e embarcando 18 mil soldados, tinham sido reunidos em Lisboa por ordem de Filipe, rei de Espanha e de Portugal.
Nesse ano de 1588, os ingleses cravavam punhais no flanco holandês de Espanha, pondo gasolina, ainda que não soubessem o que gasolina fosse ou viria a ser, na fogueira que as “províncias unidas” dos Países Baixos já traziam incendiada. Para não falar da epilepsia dos mares com que, a corsários, pernas de pau, caveiras e bandeiras negras, os ingleses deram em contaminar o honesto comércio que ligava Espanha aos territórios que, pela graça de pólvora, livro e cruz, se lhes tinham rendido como colónias.
A 28 de Maio, um a um, os barcos começaram a subir o rio em direcção à foz, virando à direita, já no oceano, apontados a norte. Durante dois dias a azáfama foi intensa e o povo viveu-a, grato e excitado. 43 barcos eram portugueses e 3 mil soldados também. Iam, invencíveis, destronar Elizabeth, a primeira Elizabeth, rainha de Inglaterra.
Já cansados da comoção de dois ininterruptos dias, os populares viram partir, quase indiferentes, o último galeão, quatro mastros viris engalanados, quarenta bocas de fogo, o dobro do que teria o mais guerreiro barco da torpe rainha inglesa. Partiam para a glória, com a certeza da vitória. Perderam.
Se tivessem ganho, não existiria Portugal e sabe Deus a que taxas de juro estaria hoje a Inglaterra a pedir resgate à Grande Ibéria.

 

O Malick roubou duas cenas à minha rica vida
o pasmoso irmão mais velho

Vi, em ante-estreia, o filme de Terrence Malick. Hei-de ir ver outra vez. Chama-se “A Árvore da Vida” e ter ou não ganho a Palma de Ouro de Cannes é o lado para que durmo melhor.
A verdade é que, contra os meus princípios (que comunguei nos bons tempos com o bem recordado João César da “Casa Amarela”), não dormi no filme. Gostei muito, mesmo muito, até do que não gostei nada. A ponto de me apetecer escrever, e escrito está há vários dias. A seu tempo, depois do próximo fim-de-semana, há-de ser prosa fúnebre, no nosso ajardinado cemitério.
Mas para este post o que interessa é ter descoberto no filme de Malick dois episódios que são meus, roubadinhos pelo Malick à minha rica vida.
De repente, no filme, surge uma carrinha de caixa aberta com dois depósitos atrás. Lê-se na carroceria: City of Waco D.D.T. Não minto, está no trailer! E exactamente como eu aqui vos contei um dia saem nuvens de fumo desses depósitos e os miúdos do bairro mergulham nesse cheiro a vitória que massacrava moscas, mosquitos e toda a espécie de inconvenientes insectos. Sei que hoje é proibido, mas o facto de Malick ter cheirado, inalado, engolido o mesmo Dicloro-Difenil-Tricloroetano em que me envenenei e inocentemente viciei, faz-me pensar que o que perco em singularidade, ganho em boa e genial companhia.
Já me chegava para gostar do filme, eis senão quando o mais velho dos três irmãos que protagonizam o filme, se mete num bosque com o maninho mais novo, de espingarda de chumbos (uma velhíssima pressão de ar) na mão. Dispara para tudo o que não mexe até desafiar o irmão que nele confia cegamente: “pões o dedo à frente do cano?” Ele põe o dedo tenrinho e o mais velho dispara sem piedade, tal e qual como, quase no fim deste post, relatei o tiro e o chumbo que me furou a mão esquerda.
Descobri, agora, numa sala de cinema, que a infância dos meus coloniais anos 60 de Luanda copiava alegremente a tristeza com que Malick retratou os anos 50 do Texas da sua infância. Poéticos ambos (ó yé!). Líricos e cómicos os meus, de apertada elegia os dele. 

Ps – quem eu sei que já escreveu seriamente sobre o filme, como sempre ele escreve, foi o PMS. Porque raio é que não replica ele aqui o que anda a tão bem escrever sobre cinema na “Sábado”?

 

Biblioteca itinerante #2

O desafio foi do PN. Propôs que desfiássemos a nossa Biblioteca Itinerante. Com uma séria advertência: não queria cá literatura de viagem, queria literatura para viagem.
Com a sorna manha que é meu timbre obedeço-lhe. Mas desobedeço-lhe também ao escolher, logo para abrir, um livro que baralha qualquer GPS e para que não há bússola que nos valha. É o Dictionary of Imaginary Places assinado por Alberto Manguel e Gianni Guadalupe. Gostava, por exemplo, de viajar com as nossas quatro autoras a alguns dos prodigiosos lugares descritos com minúcia e obsessão por Manguel e Guadalupe. Estou a ver-me entrar com a Eugénia e a Teresa no “Castelo Sem Nome” que Diderot ergueu, solitário, algures na costa francesa. A assombrosa porta abre-se lenta e lemos no frontão um presságio de eternidade: “Pertenço a todos e a ninguém; antes de entrares aqui, gentil viajante, já estás aqui e aqui continuarás quando julgares sair.”
Com a Joana e a Marta, visitaria a ilha de Cyril e beberíamos gin com o capitão Kidd. Só se sabe que lá chegámos quando se vê do mar (qual?) sair um fogo do vulcão ou do céu cair densa chuva de estrelas cadentes. É tanto o fogo e a lava que só conseguimos andar guiados pelas lanternas dos únicos habitantes, crianças que vivem e morrem sem nunca envelhecer.
O meu segundo livro é The Atlas of Literature, editado por Malcolm Bradbury. A geografia pode ser a mesma, coordenadas e azimutes coincidentes, mas nem Montaigne entraria sem uma dor de alma nos cafés existencialistas de Paris, nem Sartre dormiria descansado no castelo onde pernoitava Michel Seigneur de Montaigne, Chevalier de l’Ordre du Roy et Gentil-homme ordinnaire de la Chambre. Este Atlas empurra o viajante. É um tipo de empurrão muito raro, a dois tempos: um empurrão no espaço, outro empurrão no tempo. Weimar sim, mas a dos Românticos alemães. A Londres de Shakespeare, mas logo a seguir, outro mundo, a de Dickens. E o Yorkshire selvagem das Brontë terá alguma coisa a ver, um oceano pelo meio, com a Nova Inglaterra de Emerson e Hawthorne?
Com uma risonha, luminosa epígrafe – Pour la Grande Petite Jolie Belle Beauté – Philippe Sollers começa o terceiro livro da minha Biblioteca: o Dictionnaire Amoureux de Venise. Sollers ama Veneza. Com um amor viril e seguro de si: está ali para durar e não há, do corpo de Veneza e da alma de Veneza, uma réstia que ele não visite, que ele não faça chorar de glória. Cruelmente amoroso, faz tudo isso por ordem alfabética, do A da Accademia, com o dedo direitinho logo a tocar a convulsa e materna nudez da “Tempestade” de Giorgione, ao Z de Zattere, o cais em que lua e sol se mostram juntos em perfeita simetria.
Que outros livros, ou parte deles, um conto que seja, me fazem ou fariam viajar? Dou só quatro exemplos, tão humildes de brevidade que nem chegam a ser romances. E para que teriam de ser romances se num parágrafo já inventam um mundo!
A Léah, de José Rodrigues Migués, que me obrigaria a dormir numa chambre à louer de qualquer decadente pensão de Bruxelas com cheiro a fritos e uma brasserie na esquina mais próxima.
Outra vez a Bruxelas, num quarto sobre a Gare du Nord, só por causa de Polícia, conto de Os Passos em Volta, de Herberto Helder. Desde que chovesse, chovesse sempre.
Hei-de ir a Paraíba. Gostava de ir lá, a essa extrema ponta ocidental da América, conhecer Dona Rolinha, do conto homónimo de Agostinho da Silva, essa mulher certa e perseverante no desprezo ao trabalho como forma de subsistência. Há-de estar em João Pessoa, a Dona Rolinha que uma vida inteira esperou o regresso do seu militar a que se prometera em casamento, se casamento fosse de ambos a desistência de “ganhar a vida”, voto de pobreza dos dois (quem sabe, de castidade!), e a oportunidade de ser freira sim, mas fora de um convento.
Gostava de subir o Hudson até às montanhas Kaatskills, “ramo desmembrado da grande cordilheira dos Apalaches”. Lá estaria Rip Van Winkle, rival de Dona Rolinha “na invencível aversão a toda a espécie de trabalho profícuo” e como ela sempre solícito na ajuda a um vizinho necessitado, a um viandante perdido. É ele que, portentosa criação de Washington Irving, depois de beber uma bela garrafa de genebra se vai descobrir O Homem que Dormiu Vinte Anos. Ao contrário de Ulisses, nem o seu cão o espera, nem uma impertinente Penépole tece a malha que lhe aqueça a velhice.
E se a leitura fosse como a garrafa de genebra de Rip Van Winkler e a cada livro saltássemos, num sono ou sonho, vinte anos?

Todos os nomes são falsos

Que bela ideia Eugénia este seu post.
Eu também não sei quando me comecei a chamar Manuel S. Fonseca, que evidentemente não é o meu nome verdadeiro — como Eugénia não é o seu, ou Norton o do Pedro. Todos sabem que António não pode ser Eça e haver três Vasconcelos e duas (ou talvez não)  Martas, bem mostra a total ficção que é a autoria deste cemitério. Podíamos ser Ulisses, Aquiles, Quixotes, Ofélias e Beatrices, mas seria uma forma demasiado fácil de logo nos ser detectada a pseudonimia. O gigantesco e heróico risco que corremos ao termos escolhido nomes como Teresa Conceição, Navarro, Francisco ou Vasco e haver até um original Leote e mesmo um inusitado Pistacchini (escandalosa e óbvia heteronímia), é o de poder haver uns espectros a caminhar nas ruas do mundo superior que ostentem igual graça e quererem essas ansiosas sombras mergulhar as identidades neste nosso diabético anonimato. Já imaginou, (i)mortal Eugénia, se esses seres civis e reais nos encontram e se põem a respirar dentro dos nossos nomes, convertendo-se no hálito das nossas bocas, no rubro sangue dos nossos quietos ventrículos?

ps — há mesmo quem sustente que todos os autores de um cemitério como este só podem ser um e o mesmo autor, a osteoporética fusão de muitos e diversos ossos que o tempo deixou limpos como mármore. A ser assim, é a Eugénia que me escreve neste post, ou levantou-se uma sonâmbula Joana no seu sono, acordando com estrondo o Ruy? Ou foram os dedos da Marta contra as teclas que fingiram ser Eça e os pés do Navarro a calçarem os sapatos do Vasco? A Teresa, está visto, desenha-se em PN que se fotografa em Leote num guião de PMS. Um Pistacchini nos abençoe enquanto Feijó nos descobre a matemática essência. 

A água tudo lava
a Gene Tirney de Ford

Vou meter-me na cama de Gene Tierney tentando convencê-la com as piores razões.
A preto e branco, nos anos 40, Tierney deu o corpo e a alma a “Laura” e foi a terna amante de “The Ghost and Mrs. Muir. Pensam que as mil cores 3D de “Avatar” são deslumbrantes? Vejam o preto e branco de mil cinzentos, vejam a brancura cega da fotografia daqueles filmes e falem-me, depois, de visões e deslumbramentos.

A Gene Tierney que arrasto pelos cabelos não é a desses filmes, nem é ao glamour calculado ou à complexidade psicológica de femme fatale que a quero ir raptar.
Roubo-a a “Tobacco Road, de John Ford. Contas mal feitas, tem três cenas no filme, diz uma só fala, anda descalça e mal vestida. Mas mexe-se e começam os sarilhos. Se virem como se mexe, percebem porquê.
Situo-vos. Uma família falida: os pais, a filha que é ela e um irmão louco. O cenário é uma casa a cair, árvores nuas, folhas murchas que o vento sopra, poeira que tudo invade. Minto: o cenário é a cara da miséria e a barriga da fome.

Chega o cunhado de Tierney. Queixa-se aos sogros do comportamento da outra filha com que o casaram. Ao ombro traz um saco de nabos. Para o cavernoso apetite deles, um saco de nabos é um repasto gourmet. O cunhado, o compacto Ward Bond, sabe e guarda-o como dragão desconfiado. Mas a fome inspira a Gene uma sexualidade predadora: senta-se no chão e de costas inicia um movimento de réptil na direcção de Bond e dos suculentos nabos, faiscando olhares que esclarecem as baixas intenções dela. O físico de Bond falece e os murmúrios que se lhe ouvem atestam a fraqueza da carne.
É a melhor cena de sedução duma mulher serpente. Gene rasteja pela obscena poeira, oferecendo à vítima o espectáculo das suas costas e do que, no fim delas, é o seu majestoso e redondo trono. Tudo por um saco de nabos.

O trajo de Tierney resume-se a um vestido de chita amarrotado e sujo, como ternamente suja e tisnada traz a perfeição da apetecida e macia carne das pernas. O erotismo de Ford, o de “Quiet Man cujo beijo Spielberg replicou em “E.T., costuma ter ardor romântico. Mas com Tierney, Ford foi buñueliano e tão perverso como o anarquista espanhol. Penso em “Los Olvidadose “La Joven, filmes em que a sujidade dá à pele e aos corpos a mancha de humanidade que faz do sexo o verdadeiro sal da terra.
No fim do filme, o cunhado regressa à quinta chorando a fuga da mulher. Os sogros dão-lhe em casamento Gene Tierney, a última filha. Sim, diz ela – é a única coisa que diz no filme – e corre para o mais glorioso plano desse Ford: mergulha as mãos na água e lava-se pela primeira vez, a pele a libertar-se do pó, gotas a deslizarem límpidas por um rosto que antevê a consumação da felicidade.

Não há nada que a água não lave.

Publicado no Atual do “Expresso” de 21 de Maio. Hoje, tenho um breve encontro com Hitler.

 
 

a outra Gene Tirney

 

Vivian Maier

 

Desta vez não vou inventar. Não é preciso. Vivian Maier morreu em 2007. Ganhou a sua vida como nanny. Desde 1951, em Nova Iorque e Chicago. Cuidava das crianças dos outros e trazia uma Rolleifelex sempre ao pescoço. Fotografou pessoas. Pessoas na rua. Gostava de lhe ter perguntado porquê. Já a estou a ouvir: “Manel, porque é que o menino respira? Não é para não morrer sufocado?” A mim, nunca ninguém me viu respirar, a ela nunca ninguém lhe viu as fotografias. Ninguém as viu em 83 anos de vida dela, Vivian Maier, de mãe francesa e pai austro-hungaro.

Há 4 anos, um agente imobilário, o Senhor John Maloof, decidiu escrever um livro sobre o bairro onde vive. Num leilão comprou uma caixa de negativos. Descobriu, depois, que não eram do seu bairro. Mas ficou de boca aberta com as imagens. Mostrou-as e outras bocas se foram juntando, abertas, à dele. Uma fila de bocas abertas e de olhos comovidos. 

Li tudo isto na Mother Jones. Fiquei a saber que o Senhor Maloof ficou de tal modo apaixonado que foi a leilão comprar não só os 90 mil negativos que Vivian fez, mas malas com as roupas e os papéis dela. Tem a vida dela em casa. E deixa-nos sentar um bocadinho na sala de visitas.

 Na miséria, Vivian viveu os últimos anos da sua vida sustentada por três pessoas de quem tinha sido a ama. Nenhuma delas sabia da sua paixão pela fotografia. Agora, já se organizam exposições em Chicago, na Noruega e na Dinamarca: “Viva Vivan” era a promoção nos autocarros de Copenhaga. A próxima vai ser em Londres.

Vivian Maier ela mesma

Tinha um rosto severo. O olhar, se sempre o seu olhar olhava como nas fotografias olha, era de uma ternura discreta. Está em produção um documentário:

As Minhas 3 Mentiras Neste Blog

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Estou a precisar de me confessar para fechar um ciclo e começar outro. Menti-vos. Três vezes. Não sei como é que o Diogo adivinhou que foram três mentiras, mas é que foram mesmo. Explico-me.

Não me basta a geografia que existe. O Cabo da Roca ou o Cabo da Boa Esperança, Petrópolis ou Sintra, a floresta do Maiombe ou os mangais da Ilha dos Padres. Comprei por isso, um dia, uma Enciclopédia que me serve de almofada: o Dictionnary of Imaginary Places. Num livro de quase 500 páginas, leio sobre terras, costumes, artefactos, formas de acasalamento imaginadas, a que nenhum limite corta a extensão.

Não me bastam os livros que se publicam. Os já publicados ou a publicar. Fascinam-me livros imaginários, a invenção de livros que os autores já existentes tenham afinal publicado sem que ninguém, a começar por eles, soubesse. E vamos à primeira mentira: Atrevi-me eu próprio a revelar, num post, um  conto inedito de William Faulkner. Uma falsidade em que ninguém acreditou e que os meus companheiros de cemitério me perdoaram como se perdoa uma travessura de marmelada ou caramelos espanhóis.

Não me bastam os conflitos do mundo literário e filosófico que existe. A polémica de Assis com Eça à conta do “Primo Basílio”, a esgrima de Popper com um Wittgenstein de tenaz na mão. Gostava que nos bastidores da filosofia e da literatura houvesse figuras infames como o herói de “F for Fake”. O que me leva à segunda mentira: Adicto, não me contive e deu-me para inventar Louis Herbert Mayall, um filósofo e escritor que ao mérito de não existir junta o mérito de nunca ter escrito uma linha.

Mas, se tudo isto vos confesso, é só para confessar o pecado maior que executei com premeditação de Agosto de 2010 a Março de 2011. É a terceira mentira: Inventei um dos “quase autores” deste blog, escrevendo 8 posts do Herói. Sei bem que todos os autores do blog sabiam disso e fingiam que não sabiam só para me darem uma alegria pequenina. “Vá, vá lá, vamos comentar-te como se fosse verdade, como se houvesse Herói. Sabemos bem que és tu, mas faz-te tão bem como se andasses a tomar placebos. Vá lá, engole mais 5 comprimidos.”

Agora, que o médico me deu alta, agradeço aos meus fellowbloggers e confesso o que já sabiam. Não há mesmo Herói, mas inventá-lo foi do que mais me aliviou (ó se percebo quem escreve blogs anónimos!). E já agora, os dois posts dele que mais gozo me deram foram aqueles em que ele me levou aos dias e noites de 6 meses de Yellowknife e aos sonhos comprados de Ulan-Bator na Mongólia. Há viagens e lugares que nunca se esquecem. Talvez lá volte.

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Louis Herbert Mayall

LHM, à direita, sem gravata

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Chamemos-lhe coincidência. Foi em 1986 e o hasard juntou-nos na recepção da Guest House da UCLA. Era a primeira vez dos dois na cidade e protegemo-nos da imensidão de Los Angeles jantando juntos. Eu vinha por Francis Coppola a preparar ciclo e catálogo que faria um ano depois, na Cinemateca e na Gulbenkian; ela da Alemanha para uma investigação sobre o Shubert Theatre da Century City. Abancámos no entretanto extinto Alice’s de Westwood e foi assim que soube de Louis Herbert Mayall. Para Kristin, a coisa começara como um hobby revitalizador das rotinas de bibliotecária, mas baralhava agora a sua organização germânica como obsidiante pesquisa alternativa.
Louis Herbert Mayall fora, contou-me Kristin, um pensador e escritor maldito. Nascido em 1880, no seio de família abastada de Indiana, Mayall teve educação requintada e rebelde. Um comportamento heterodoxo para os padrões sociais e morais da época acabou por determinar a sua expulsão da Universidade de Indiana. Graduou-se na Columbia University, em Filosofia, tendo sido aluno de John Dewey, de quem ficou discípulo e amigo para quase toda a vida.
Ao contrário de Dewey, Louis H. Mayall não tinha vocação pedagógica e era, de natureza, um assistemático. De novo ao contrário de Dewey, a quem, de universidade em universidade, as origens humildes moldaram uma carreira persistente e ascendente, Mayall reunia os meios sumptuários que lhe permitiam cultivar as flores do mal num périplo físico e mental de negligente hedonismo.
Com inteligência de excepção, Louis era dotado de uma capacidade de escrita fulgurante e mimética. Em 1934, Dewey publicou “Art as Experience”. Um mês depois, Mayall veio em segredo a casa do filósofo e entregou a Roberta, a segunda mulher, um manuscrito de 15 páginas, combinando com ela que fosse ocultada a origem do misterioso ensaio. (Louis, ça va de soi, tinha uma certa maneira com as mulheres: ao contrário de outros homens, ganhava-lhes tanto mais confiança quanto mais era fidelíssimo amigo dos maridos.) Nesse curto texto, postumamente titulado “Art: Misery and Solitude” Mayall, num estilo petulo-diletante, nega a ideia de experiência e partilha social da arte sustentada por Dewey e fulmina-lhe a função teleológica de celebração de vida e civilização. De raspão, Philip N. Zeltner, no seu “John Dewey’s Aesthetic Philosophy”, desvela o episódio, o conluio de um vago discípulo com Roberta, e a surpresa, primeiro irritada, depois bem humorada, do professor.
Só que Louis Herbert era camaleónico e um mês depois, desta vez através do Professor A. C. Barnes que patrocinara a escrita da obra, põe nas mãos de Dewey um ensaio de “irónica perversidade” reflexo das “ironic perversities” que o próprio Dewey invocava na primeira linha do primeiro capítulo (The Live Creature) de “Art as Experience”. Em tantas páginas quanto os dedos de uma mão, Mayall devasta a tese do seu professor, segundo a qual a compreensão do sentido da obra de arte exige uma espera que passa pelo esquecimento da obra e um posterior regresso à mesma, um “we must arrive at the theory of art by means of a detour”.
Dewey não gostou da crítica e escavou na areia da praça a este segundo ferro. E pior ficou quando soube que a autoria dos dois textos era do seu diletante discípulo. Parece que, porque não há forma de o confirmar. A proximidade temporal e a cultura biográfica da época barraram qualquer referência ao caso: um biógrafo de 1939, Sidney Hook, omite-o em “John Dewey, an Intellectual Portrait”. E desenganem-se os que esperavam um mundo mais transparente e informado com o triunfo do feminismo: omite-o também, em 2001, Charlene Haddock Seigfried, no “Feminist Interpretations of Dewey”.
Preciso de fazer breve a história que já vai longa. Até aqui, quase tudo foi o que me contou a alemã acidental que comigo partilhou um jantar e não voltei a ver. Nas minhas escassas e ocasionais buscas posteriores, nada me assegura que Dewey não tenha perdoado Mayall. Roberta e o Dr. Barnes terão sabido aplacar a filosófica indignação desencadeada pela elegante displicência de um discípulo niilista. Mas Louis Herbert Mayall foi mais longe. Amigo de filósofos, foi também íntimo de escritores, em particular de Hemingway e Fitzgerald. Mayall descobriu Hemingway quando, em 1930, leu na Fortune um artigo dele: “Bullfighting, sport and industry”. Nos Hemingway Papers, consta um postal de Mayall, de 1931, felicitando o escritor pelo nascimento do terceiro filho, Gregory Hancock Hemingway, com uma citação de Whitman: “… the delicious singing of the mother.”
O entusiasmo de Mayall não teve limites quando, em viagem por África, soube da presença de Ernest nas caçadas que dariam origem a “Nas Verdes Colinas de África”. Louis estava na África do Sul envolvido em negócios de marfim. Arranjou maneira de chegar ao Tanganica e juntou-se, por uma semana, ao grupo. Outra extraordinária coincidência é haver duas raras fotos de Mayall (que junto) e ambas serem dessa sua viagem. Na foto de grupo, Hemingway está à direita, ao lado dele Percival, o caçador que o acompanhava, encoberto pelo torcido corno está Louis H. Mayall, e à esquerda Karl o fellow hunter de Percival.

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Do entusiasmo de Mayall não há o mais insignificante ou subtil eco na obra de Hemingway. A biografia “hugely exasperanting” de Carlos Baker não tem sinais de Mayall, nem a contabilidade hostil de JeffreyMeyers se lhe refere. E é preciso muito boa vontade para, nas sombras que Michael Reynold convoca no seu “Hemingway: The1930s”, se vislumbrar a silhueta de Louis Herbert.
A que se deve o apagamento? No seu estilo diletante, Mayall , em 1935, terá feito chegar ao escritor e à Scribner’s Magazine um verde texto sobre as colinas de África com ecos das notas que Hemingway, com viril confiança, lhe mostrara no Tanganica. E, mimético, fê-lo quando a revista se preparava para publicar em folhetins o que depois seria o livro de Hemingway. O escândalo do escritor e dos editores da revista chamuscou Mayall, cujo texto nunca foi, obviamente, publicado. Mas está na UCLA, e foi essa a razão clandestina que trouxe Kristin a Los Angeles estudar uma cadeia de teatros cuja origem e lenda está na Broadway.
A irreverência de Louis H. Mayall parece-me despida de má fé. Não lhe subjaz nenhuma ideia de plágio, nem qualquer tentativa de aproveitamento, material ou intelectual, que seria estranha à sua forma hedónica de encarar a vida intelectual. Porquê, então, terem enterrado o seu nome nas profundas do inferno?
A chave do esquecimento não é a heterodoxia do intelectual ou mesmo a agitada vida sexual, que envolveu pelo menos três abafadas histórias de adultérios, uma das quais com a mulher de outro escritor famoso.
A chave do esquecimento foi a 2ª Guerra, a WWII. Amigo do influente historiador Charles Austin Beard, Mayall apoiou-o numa convicta e militante oposição ao envolvimento dos EUA na Guerra. Beard e Mayall, antigos apoiantes do New Deal, eriçaram-se contra Roosevelt e mostraram-lhe todos os bigodes que (não) tinham. Defenderam à outrance o isolacionismo da grande nação americana. Mas a big band da História abafou-lhes o solo lírico e cada um deles pagou duramente a dissensão.
Beard tinha uma obra e uma carreira. Foi vencido. A graça e a aceitação de Mayall sustentavam-se no seu risonho descompromisso que desgraçou ao anunciar-se como profeta. Foi apagado.
Louis Herbert Mayall morreu a 27 de Julho de 1953. Em Honolulu. Nunca publicou.

Duas pessoas sentam-se

Imaginemos: duas pessoas sentam-se. Uma em frente à outra. Mas a relação delas “omite o diálogo” para usar a expressão de um escritor argentino e cego.

Duas pessoas sentam-se. Põem, uma em frente à outra, dois primitivos silêncios. Ruminam um mundo não espacial, instauram entre elas um vestíbulo de silêncio.

Um mundo que não pudesse ser falado – ou que não pudesse ser escrito – teria, ainda assim, alguma forma de existência?

Duas pessoas sentam-se. São, uma em frente à outra, duas bocas enlouquecidas pelo silêncio. Duas bocas sentadas, sem extensão ou volume, sem tu nem eu, sem o estremecimento de uma brisa de existência. Não existirmos faz-se de silêncio.

A um mundo não basta ser percepcionado. Tem de ser dito. Falo ou falas e o mundo espacial ganha forma, tigres, as efusivas madressilvas de Borges, a alegria de um rio. O erro de Berkeley foi pensar que ser é ser percepcionado. Qualquer cego sabe que ser é ser dito.

O reles e parvo dia a dia

Dou sempre um salto quando o reles e parvo dia-a-dia aparece no meio de um filme. Lá para metade do “E.T.” de Spielberg, quando já acreditamos em tudo, em extra-terrestres e que há um anjo em cada um de nós, o esverdeado ser de outros mundos dirige-se ao frigorífico. Abre-o e tira uma cerveja. Bebe-a e arrota. É uma pincelada de quotidiano que faz o espectador feliz.

Há momentos desses que ganharam a honra do mito. Do “Last Tango in Paris” podemos esquecer tudo: a propícia carne de Maria Schneider, o peso do peito dela que parece pedir a nossa ajuda para se sustentar. Podemos esquecer até o cabotinismo da personagem de Marlon Brando, mas nunca esqueceremos o prosaico e útil pacote de margarina que irrompe quando, e poupo-vos a pormenores, a seca angústia dos dois, dele mais precisava.

O intrépido arroto de “E.T.” e os 100 gramas de margarina de “Last Tango in Paris” fazem a felicidade do espectador. Entregue ao filme e à fantasia, desarmado já de qualquer desconfiança ou descrença, o espectador vê nessa irrupção do quotidiano um sinal cúmplice do realizador. Quando Coppola, no primeiro “The Godfather”, põe os mafiosos a cortar o alho com uma lâmina de barba para cozinharem a seguir spaghetti, está a dizer ao espectador que o considera adulto suficiente para aguentar que uns segundos de comezinho quotidiano intervalem o épico siciliano.

Há um século, era eu crítico de cinema, armávamos ao pingarelho chamando à coisa “notações do real”. Bullshit. Eram só um arroto, dois dedos enfiados na margarina e alho picadinho, assinados por Spielberg, Bertolucci e Coppola.

Volto a Spielberg. Por ser um cultor das regras de género que os “Indiana Jones” e os seus “sci-fi” confirmam, o recurso a essas invasões do dia-a-dia atingem nele requintes de surpresa e malvadez. Lembro “Munich”. Começa com o morticínio dos atletas judeus, no Setembro Negro. A seguir, um grupo de israelitas aceita uma missão clandestina de extermínio. Vão, como criminosos, matar outros criminosos. Por mais baseado em factos reais que “Munich” seja, é um filme em que Spielberg respeita rabinicamente as regras do thriller. Até surgir um manga-de-alpaca da Mossad com uma última advertência para aqueles homens que vão mergulhar no coração do mal: “I want receipts”. Façam o que quiserem, mas tragam as facturas. “I want receipts. Vocês não estão a trabalhar para o Barão de Rothschild, mas para Israel, um pequeno país.”

Imagino um thriller português sobre o leproso colapso da segunda década do século XXI, os anéis a irem-se, dedos que se arrancam, braços que se decepam e Teixeira dos Santos aos gritos para José Sócrates: “Faça o que quiser, gaste como quiser, mas traga-me facturas.” E em inglês, vigoroso, para que não restem dúvidas: “I want receipts!” O reles e parvo dia-a-dia.

Publicado no Atual do Expresso a 15 de Maio. Este sábado reincido: gotas de água num rosto a preto e branco.

Pode filmar-se a poesia?

Não sei se pode ou não filmar-se a poesia. Deixem-me tentar.
Invento que, em “Atonement”, a acesa boca de Keira Knightley, em que logo apetece humedecer a nossa, é apenas a tradução em filme deste resignado verso de e. e. cummings: “… se os teus lábios, que outrora amei, tiverem de tocar noutros.” A boca de Keira e o verso de cummings anunciam a separação dos amantes, antecipando a dor que há-de vir.

Poesia e cinema coincidem ao incendiarem de imagens cada cérebro que tocam. Na poesia, o verbo é tão actor como Nathalie Wood em “Splendor in the Grass”. No poema, as palavras levantam-se como a câmara que sobe para ver o mundo do alto do céu no fim de “Perfect World”, de Clint Eastwood.

Pergunto: que cineasta poderia ter filmado a explosão verbal de Herberto Helder, o nosso maior poeta? Cukor tinha a elegância, mas não a viril vocação animal. Talvez Preminger, o Preminger de “Bonjour Tristesse”, se conquistado pelo romantismo doentio de Godard.

Imagino que todos os poemas foram já filmados. Mesmo os de Herberto. Fui ler:

“Havia um homem que
corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
Pelo orvalho parado da noite.”

Já vi estes versos no cinema: homens a correr “pelo orvalho parado da noite”. Em filmes de guerra de Samuel Fuller, no “Target”, de Arthur Penn, em que Gene Hackman é espião em Berlim. Também num velho filme de Fritz Lang, “Man Hunt”, irrompe a exacta imagem do verso de Herberto. É um filme de perseguição, presas humanas e nevoeiro espesso. Diga-se: no cinema contemporâneo, só um actor, Matt Damon, tem fôlego para correr pelo orvalho dentro, atravessando as portas da morte e renascendo de todas as perseguições.

Herberto foi ainda mais narrativo nos contos de “Os Passos em Volta”. “Polícia” é a história de um clandestino que sobrevive de expedientes e foge à extradição numa insuportável Bruxelas. Encontra Annemarie, “a criatura mais só da terra”, num sítio onde “as putas e os chuis eram mais do que as mães”. Leio e penso: já vi!

Mas onde é que já vi dois amantes nus a atravessar, a cobertores e café, a chuva de uma noite fria? Foi num dos filmes de longas conversas de Eric Rohmer? Não, foi no “They Live by Night” de Nicholas Ray: tenho a certeza de que Farley Granger leu e se inspirou no herói clandestino de Herberto. E invento: num filme ideal, Juliette Binoche seria Annemarie, uma francesa de Lyon.

O filme ideal, o que juntaria a Binoche e Matt Damon, escreveu-o Herberto, antes que os dois nascessem, no poema destes primeiros versos:

“As mulheres têm uma
assombrada roseira
fria espalhada no ventre.
Uma quente roseira às vezes, uma planta
de treva.”

O cinema arde quando é dito assim.

Publicado no Expresso a 7 de Maio de 2011

Um inquérito da Sem-se-ver

Tinha-a dado. Voltei a tê-la. A primeira edição em dois volumes da Poesia Toda

O Zé foi quem primeiro se chegou à frente e tão bem respondeu ao desafio da sem-se-ver. Por ser de livros, não resisto. Respondo.
1 — Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Existe. Existem. Lidos e relidos. As Obras Completas de Borges, meu circuito de manutenção. “Os Passos em Volta” do Herberto. O “Debaixo do Vulcão” do Lowry que me desaparecia sempre, quando acabava de o ler e me obrigava a comprar novo exemplar na Feira do Livro seguinte. Recebi mesmo a medalha de comprador frequente do editor. (E depois digam que não há bruxas!)
3 — Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Se me metessem numa cela em isolamento, por anos e anos, pedia o Quixote e a Bíblia. Job bem precisava do amparo de Sancho Pança – imagino-os a mergulhar numa amizade viril que nunca chega a ser sexual, como a de Bogart e Rains no fim de Casablanca. E o Quixote foi o discípulo que Jesus nunca teve.
4 — Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
“Gödel, Escher e Bach” de Douglas Hofstadter. Motivo: ignorância matemática, lógica e computacional. O livro está ali, ao lado, de olhar acusador e trocista. É o meu banho de humildade. E se ali continuar, um dia começarei a beber sem remissão.
5– Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?
O fim de um livro que a bem dizer talvez nem exista: “As Palmeiras Bravas” do Faulkner. Prefiro esse fim a tudo e a nada. Dói que se farta. Borges traduziu-o para espanhol, Sena para português.
E o mais bonito começo é o da “Reivindicação do Conde Julião” de Juan Goytisolo: ‘tierra ingrata, entre todas espuria y mezquina, jamás volveré a ti.’
6– Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Sim. Numa árvore tropical. Subia à mangueira do meu quintal que tinha um ramo robusto no ângulo certo com o tronco. Quase um sofá. Isto é verdade, horas e horas de verdade que me fizeram uma coluna direitinha, três metros acima da rasteira realidade. Tinha pouco dinheiro e lia o que me caía nas mãos: os cinco, os cow-boys e navajos do Zane Grey, a Rosa do Adro que me faz parolo para o resto da vida, o Júlio Dinis e às escondidas uns livros do Vilhena que tinham ilustrações de lindas maminhas a preto e branco. O que contritamente (falso, falso) chorei quando a minha mãe descobriu.
7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Um romance do Georges Steiner (“O Transporte Para San Cristóbal de A. H.”), um autor que tem tanto de excelência no ensaio como de prisão de ventre narrativa na ficção. Li tudo: precisava de ter a certeza.
8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
O que agora arbitrariamente me vem à cabeça: o meu Conrad (Heart of Darkness e Lord Jim), o Melville de todos (Moby Dick e o Bartleby preciosamente traduzido pelo Gil de Carvalho), o Herberto que devia ser dos portugueses (A Vocação Animal), Sena (As Evidências e Os Sinais de Fogo), Raul Brandão (El-rei Junot). Estes poetas e os livros deles: François Villon, Ronsard, Yeats, Larkin, Eliot, Pessoa, Ruy Belo, Christina Rossetti, e e cummings, Whitman, René Char, Drummond, Ezra Pound. Também Joyce (Dubliners é tão saboroso), Tolstoi (Guerra e Paz) Stendhal (O Vermelho e o Negro), Dostoievski claro, o D.H. Lawrence (Filhos e Amantes e Mulheres Apaixonadas), o Somerset Maugham (Fio da Navalha e Histórias dos Mares do Sul), Salinger, Roth, Bellow (Ravelstein), Ernst Jünger (Eumeswill), Philippe Sollers (Estranha Solidão), Blaise Cendrars (Moravagine), Flaubert (Salambô), Klossowski (Roberte Nessa Noite), Raymond Queneau (As Obras Completas de Sally Mara que dá mais tesão do que o Sade), Scott Fitzgerald (Terna É a Noite e um conto fulminante, The Crack Up). E já me esquecia da Edna St. Vincent Millay.
9. Que livro estás a ler neste momento?
Releio devagar o “O Amor e o Ocidente” de Denis de Rougement. Leio “O Ensino do Português” de Maria do Carmo Vieira, “The Complete Dramatic Works” do Becket que a minha filha me trouxe da Irlanda (estou bem arranjado), “Violência” de Slavoj Zizek e, à maluca, “L’ Évangile de Nietzsche” de Philippe Sollers.
10. Indica dez amigos para o Meme Literário:
Um amigo que, de tanto amor ao livro, vale por dez: o Pedro Norton. Agora faça-me a triste desfeita de não responder!
A origem da radiosa dívida

O FMI, a CE e o BCE acabam de emitir uma nota estranhando o facto de haver pelo menos um blog em Portugal que não está neste momento apostado em tentar convencer os seus já convencidos leitores de que a radiosa dívida pública portuguesa (93% do PIB olé, 93% do PIB olé)se deve:

a) a sequelas do salazarismo;

b) ao momento em que Vasco Gonçalves, em Almada, acabou um comicio a lançar alfaces às massas, iniciando assim o descalabro da agricultura portuguesa;

c) à entrada a cavalo na CEE;

d) à adesão, já de iate, ao Euro;

e) às políticas cavaquistas do asfalto para desfile das boas marcas alemãs;

f) ao ronronante e interminável falatório de Gutierres;

g) à engenhosa engenharia orçamental e não-deficitária de Manuela Ferreira Leite;

h) ao fulgurante, e mais breve do que pepino, reinado de Santana Lopes;

i) a Georges Bush e a Barack Obama, óbvios irmãos gémeos, pai e mãe da crise internacional;

j) a Alberto João Jardim que não mata, mas mói;

l) eventualmente um bocadinho de nada, vá lá, um certo desleixo e uma pequenina megalomania de José Sócrates (93% do PIB olé!).

ps — Posto o que o triumviratum já pode ir dormir descansado.

 

 

Como é que se põe Portugal a dançar

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Dançar. Se dançarmos, safamo-nos. A América dançou. Dançou e pôs o mundo inteiro a dançar. A América salvou-se.
Foi, se bem se lembram, em 1929. Aconteceu o crash. Os muito precipitados atiraram-se de 30 andares, suicidando-se. Mas nesses anos em que o cinema passou de silencioso a falado, do mudo ao som, os mais sensatos inventaram um novo género, o cinema musical, e a América inteira dançou.

Foi primeiro o “Jazz Singer”, e vieram depois filmes com bailarinas semi-nuas, as coreografias sexualizadas de Busby Berkeley em que era possível uma homem mergulhar na engenharia de um túnel de pernas abertas de mulheres. Escapismo, foi o que lhe chamaram. Mas o escapismo foi retemperador: recompôs famílias e deu outra solidez à produção. A América salvou-se a cantar e a dançar.

Angola também. Eu vi, se me autorizam uma nota mais pessoal e menos cinematográfica. Depois da independência, em plena guerra civil, à noite, quase todas as noites, a cidade dançava. Tinham morto um comandante heróico? Compunha-se uma canção, “Valódia”, qualquer coisa entre uma balada e um bolero. O cantor em solo lançava um langoroso “Abaixo!” e o coro feminino e mezzo soprano respondia no doce e dengoso sotaque angolano “O Imperialiiiismo”. Patrióticos, os corpos colavam-se, e uma semba, esse movimento que faz a felicidade da ansiosa carne, encaixava quadris nos quadris, protestando o seu horror ao vazio. E foi assim que Angola se salvou.

O FMI não é mais nervoso e enérgico do que Gene Kelly. Já viram o “Singin’ in the Rain”? Também ele quer emprego, pleno emprego. “Gotta dance, gotta dance”, bate a todas as portas e todas as portas se fecham.  Menos a do cabaret onde vai encontrar o metro e meio de pernas de Cyd Charisse. Não é possível que alguém no seu perfeito juízo não se comova com o impacto metafísico de tamanha majestade. Mesmo ao FMI resta uma afrodisíaca centelha de transcendência.

Digo sempre e sempre direi: se um dia formos invadidos por apocalípticos extra-terrestres (e seremos) deveríamos mostrar-lhes, em defesa da nossa pobre humanidade, os filmes musicais americanos dos anos 30 aos 50. Devíamos mostrar-lhes Fred Astaire a dançar com Cyd Charisse (ó doce obsessão) o “Dancin’ in the Dark” no “Band Wagon”, o mais luxurioso filme de Minelli. É um manual de sedução e galanteria, de insinuação e da enorme e gozada tensão que preludia o bom sexo. Aposto com quem queira apostar: um musical, basta que os aliens vejam um musical, e a humanidade salva-se.

Bem sei que temos de ser formigas. Mas talvez não nos faça mal um dia de cigarra por semana!
Digam-me como é que se põe Portugal a dançar?

Publicado no “Expresso”

O que é isso que tens na mão?

Anda aí, por todo o lado, não há nenhum mal que esteja aqui também. É um vídeo reaccionaríssimo, nimbado pela triste ideia de que o caminho da humanidade não é cumulativo, progressivo e desobscurantista. Trôpega e míope cambada de nostálgicos.

Romance de Pedro a conduzir um Jaguar

Dividimo-nos pelos dois carros. Foi o Júlio, detesto o Júlio, que gritou o critério: separamos os casais para não ser sempre a mesma seca. O Jú… a Teresa, nem sei por onde começar e tento que a Lili, ao meu lado, não me sinta atrapalhada a condução do Jaguar.

Agora, no carro da frente, no banco de trás, a Teresa vai ao lado do Júlio. Aumento a distância para deixar de lhes ver os ombros, os dela nus e uma tímida alça. Detesto o Júlio. Tenho-lhe um pó pesado, maciço. Agora que a cabeça dele no carro da frente é um só um ponto negro, se pudesse soprava-a.

Também a nuca da Teresa é um risco magro. Basta para que me lembre com dorida ternura os três anos que levamos de beijos e cama, de viver juntos e não viver juntos. É a minha namorada. Mas mesmo quando a apresento, a Teresa, a minha namorada, digo-o com uma reserva talhada por um fio de medo. Nunca tenho a certeza. Sim, fica muitas vezes em minha casa e eu na dela. Só que embora eu queira ser todo dela, nunca a sinto toda minha.

E agora as cabeças deles, dois pontinhos de alfinete, estão, estarão, encostadas uma à outra. A esta distância é difícil dizer. Se acelerar um pouco apanho o velho Packard Convertible de 1951 e posso vê-los. Mas tenho medo do que será o silêncio de Lili ao meu lado, de não lhe ver o trejeito trocista nos lábios, que ela cruze mais as pernas a mostrar o esplendor das coxas mulatas para que não posso olhar. Pedro, vai tão devagar que daqui a nada adormece. Foi o que ela acabou de dizer.

E estão mesmo, cabelos misturados, encostadas uma à outra. As cabeças. Talvez tenha sido só um momento, um riso sacudido, estarem a cantar as canções nostálgicas em que o Ruy ao lado da prima, a Eugénia, mistura Brel com Cinquetti, Angela Maria com Tony de Matos. Cantam Non Ho l’Età e encostam as cabeças, só isso, não fora a inexplicável mão, o braço do Júlio estender-se, vir por trás da cabeça de Teresa e afundar-se a seguir numa intimidade que a pele bege do banco tapa.

Pedro, está aqui, está a passar por cima do Packard. Foi com uma agulha de ironia que a Lili me disse isto, esta cabra que de ironia nunca teve um pingo. Já teve um caso, dois, com o Júlio. Tem, aliás, os que quer, só tem casos num vai-vem de pernas que nem as asas de um moinho holandês. Uma básica. A Teresa não. O que dói na Teresa é ela ser tão ela, de uma soberania irredutível. E que merdas é que estou a dizer, quer dizer, a pensar. Que merda é que é uma soberania irredutível. E sei que sim, que sei. Ela é ela e não perde nada dela, por mais que alguém julgue passar por ela.

Mas para onde é que foi a alça que estava no ombro de Teresa? Agora os dois ombros são um traço despido e branco a riscar a amarela vibração das giestas que o Packard atravessa. A Joana, o Vasco e a Marta, atrás de mim, agitam-se como se tivessem acordado. Desvio o retrovisor para que não me vejam, nem os veja eu também.

A indiferente suavidade do Jaguar deixa-se ficar para trás. Também eu tenho ficado para trás. Já pensei propor-lhe que casássemos. Nunca consegui por medo do meu medo dela, por medo da imprevisível reacção dela. Que me abraçasse com uma humilhante gentileza e um Pedro, esqueça que me disse o que me disse. Que soltasse um riso musical, não me leva antes a Nova Iorque.

Mesmo a esta distância sei que foi um sutiã branco que vi agora voar no largo vidro traseiro do Packard. Foda-se, num Packard, o meu carro favorito. Só uma cabeça, a morena cabeça de Teresa, o cabelo curto atirado para trás ainda a ver-se pelo vidro e a outra cabeça a desaparecer no fosso invisível, metafísico, no Grand Canyon que é o banco de trás de um Packard. Não é impressão minha que o Packard tenha mesmo feito um zigue-zague feliz, amorosa rubrica na fita negra de alcatrão.

O Jaguar respira ofegante e Lili entalou a encantadora mão a meio das pernas. Bem gostaria de fechar os olhos. Tenho um consolo. Ainda bem que o Manel não veio. Era mesmo o que me faltava, os eu não te dizia, dele. Ah, mas se ele tivesse vindo, iria agora no banco de trás do Packard, separando o que nem no pior pesadelo eu imaginava que se pudesse juntar. O cabrão bem podia ter vindo. Grandessíssimo cabrão.

O relato acima é pura ficção. Qualquer semelhança com a realidade seria uma lamentável coincidência e um indesculpável plágio da treta da realidade. Os nomes das personagens são inventados, numa mistura de esperanto, kimbundo e português não se encontrando por isso em nenhuma língua conhecida. Os automóveis foram cedidos pelo nosso patrocinador.