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	<title>É tudo gente morta &#187; Manuel S. Fonseca</title>
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		<title>Às vezes despedimo-nos tão cedo</title>
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		<pubDate>Sun, 03 Jul 2011 22:16:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O Gente Morta é melhor que deus, melhor que o diabo. A nenhum dos dois lembraria fazer dum cemitério um lugar de festa, a nenhum deles lembraria juntar queridos mortos e infames. A nenhum, deus ou diabo, tão obstinados e eficazes a pescar almas, passaria pela cabeça consolarem-se com o descarado onanismo de escrever por [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-30277" title="090528-N-5586R-203SAN DIEGO (May 28, 2009) Sailors aboard to the aircraft carrier USS Ronald Reagan (CVN 76) manning the rails wave to family members as they leave their home port of San Diego for a deployment to the western Pacific Ocean. (U.S. Navy photo by Mass Communication Specialist Seaman Apprentice Amanda L. Ray/Released)" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/07/waving-sailor.jpg" alt="" width="221" height="334" /></p>
<p style="text-align: justify;">O Gente Morta é melhor que deus, melhor que o diabo. A nenhum dos dois lembraria fazer dum cemitério um lugar de festa, a nenhum deles lembraria juntar queridos mortos e infames. A nenhum, deus ou diabo, tão obstinados e eficazes a pescar almas, passaria pela cabeça consolarem-se com o descarado onanismo de escrever por escrever, graciosamente.</p>
<p style="text-align: justify;">O Gente Morta abre covas a rir-se, enterra pessoas sem vergonha e a bater palmas, faz raios X de nus e vestidos, converte o telefonema dum sobrinho numa short-story. É um blog sem sentido nenhum. E, por nenhum sentido ter, é o melhor blog do mundo. Um tipo, para deixar o Gente Morta, é preciso estar doido.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi o que, <strong>que estou doido</strong>, confirmou a minha junta médica, autorizando-me a sair com atestado. Saio hoje, deixando este cemitério, a única linda razão que me fazia estar na blogosfera.</p>
<p style="text-align: justify;">Sei bem que nunca mais me vou divertir tanto, seja qual for o manicómio para onde agora vá. Sei bem que não encontrarei gente mais luminosa do que os 13 autores que faziam o favor de deixar-me acompanhá-los.</p>
<p style="text-align: justify;">Estava aqui tão bem morto e vou agora arranjar chatices em ruas de carne e osso. Mas tem de ser: até a um morto se permite a peregrina ideia de licença sabática para uma vida sem vencimento.</p>
<p style="text-align: justify;">Aos leitores do blog agradeço a gentileza de, até a mim, me terem lido. Asseguro-vos que, a partir de agora, vão ter-me como um rival furioso e invejoso nas caixas de comentários. Lutarei convosco pelo amor e aprovação dos maravilhosos autores que vão continuar o Gente Morta. À Turmalina, Luciana e Mr. Orcama, os mais historicamente fiéis e persistentes leitores e comentadores, praticamente cadáveres como os autores, protesto os mais vivos obrigados.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes que a porta se feche, abraço com descabelada efusão os mortos-autores, meus companheiros de dois anos. Admiro-vos. A dois, aqueles com quem abri os portões do cemitério, a Eugénia e o Pedro N, estampo-lhes na cara dois beijos choramingas e de fungada ranhosice. Adoro-vos.</p>
<p style="text-align: justify;">Então adeus.</p>
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		<title>Quem vai à guerra dá e leva</title>
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		<pubDate>Sun, 03 Jul 2011 22:14:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[      Trocar umas galhetas, uns bons sopapos, era a atabalhoada arte da minha infância. Em Luanda, a caminho da escola, já se sabia que “quem vai à guerra dá e leva”. Os mais velhos do bairro, tipos com a vetusta idade de 17 a 20 anos, ensinavam-nos uns truques aprimorados.   Capanga, era [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div><strong><strong> </strong></strong></div>
<div><strong><strong> </strong></strong></div>
<div><strong><strong> </strong></strong></div>
<p><strong><strong></strong></strong>Trocar umas galhetas, uns bons sopapos, era a atabalhoada arte da minha infância. Em Luanda, a caminho da escola, já se sabia que “quem vai à guerra dá e leva”. Os mais velhos do bairro, tipos com a vetusta idade de 17 a 20 anos, ensinavam-nos uns truques aprimorados.</p>
<div id="attachment_30270" class="wp-caption aligncenter" style="width: 491px"><img class="size-full wp-image-30270" title="bassula" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/07/bassula1.jpg" alt="" width="481" height="367" /><p class="wp-caption-text">a arte da bassúla</p></div>
<p> </p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capanga,</em> era fazer com o braço a rija prisão do pescoço do adversário, cortando-lhe o pio e pondo-o a cuspir fininho por uns minutos. <em>Bassúla,</em> era meter a perna direita atrás do asqueroso inimigo e, com forte empurrão no peito, fazê-lo malhar de costas na poeira rubra, para gáudio da turma no recreio.</p>
<p style="text-align: justify;">Brad Pitt, pai de “Tree of Life”, sabe destes arrebatamentos infantis e das funestas consequências metafísicas de só se levar sem se dar. Ensina aos filhos a nobreza do pugilato, ou seja, como enfiar um sonoro murro nos queixos de putativos contendores. O meu pai, pacifista e tendo por <em>hobby</em> a carpintaria, tentou ensinar-me a usar um serrote, a plaina, o esquadro e um torno, esperando converter-me no Harrison Ford do “Witness”. Atraía-me vocação mais inglória e canalha: resultado, socorri-me do cinema para sobreviver na aguerrida selva da meninice.</p>
<p style="text-align: justify;">Por sorte, coincidiu-me a infância com a idade de ouro do peplum, filmes pintados a socos e golpes de Hércules, Maciste, David (tive uma fisga!), Golias e Spartacus, protagonizados por expoentes da representação como Jacques Sernas, Steeve Reeves, o marmóreo Charlton Heston.</p>
<p style="text-align: justify;">Iniciávamo-nos com os gregos e algum direito romano: uma base sólida. Mas o alargamento de horizontes veio-nos da América. E foi nos <em>westerns</em> (tive uma espingarda!) que aprendemos a usar os punhos com liberalidade e clarividência.</p>
<p style="text-align: justify;">Exaltante, nas sessões de pancadaria dos filmes de <em>cow-boys,</em> era a sua democracia. Toda gente molhava a sopa, toda a gente comia pela medida grossa. Havia um clima de festa naquelas abruptas trocas físicas. Lembro-me de John Wayne, em “McClintock”, filme de 1963. Há um brutamontes de espingarda na mão a dar cabo do juízo de todo o mundo, inclusive dos índios. Wayne, com paciência de Job, a mostrar-lhe o caminho da harmonia universal e o brutamontes, nada! Continua a escovar a alma de quem já não pode, mas tem de o ouvir. Wayne, com habilidade quase feminina, tira-lhe a arma e, como a culpa não deve morrer solteira, espeta-lhe o que então chamávamos um murro no céu-da-boca. Para espanto dos índios, meia centena de <em>cow-boys</em> desatam aos socos e acabam, aos baldões pela ravina arenosa, no lago de lama que os espera lá em baixo. A música vem gloriosa, na banda sonora, cumular de alegria toda a cena.</p>
<p style="text-align: justify;">Nem em noites eleitorais há o mesmo júbilo. E o meu pai, no céu que tanto merece, bem sabe que ainda hoje sou capaz de serrar, com rigor irrepreensível, a primeira tábua que me ponham à frente.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="background-color: #ffff00;">Gosto tanto da algazarra da sequência do vídeo junto que, agora que saio do Gente Morta, não quis deixar de publicar extemporaneamente esta crónica do Expresso. Porque é assim que vou lembrar sempre este blogue que me acolheu: em festa.</span></em></p>
<p style="text-align: justify;"> <object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/ifRKu1W1fXQ?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/ifRKu1W1fXQ?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
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		<title>A cansada e absoluta imobilidade</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/06/a-cansada-e-absoluta-imobilidade/</link>
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		<pubDate>Wed, 29 Jun 2011 22:15:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[A vida vai depressa, o cinema vai a 24 imagens por segundo. A mesmíssima velocidade. Ao som e fúria de cada dia – um apartamento que explode, a histeria duma ama numa creche, o pandemónio do e.coli ou a violência no Iémen – o cinema responde imitando a vida: som Dolby a rebentar pelos quatro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A vida vai depressa, o cinema vai a 24 imagens por segundo. A mesmíssima velocidade. Ao som e fúria de cada dia – um apartamento que explode, a histeria duma ama numa creche, o pandemónio do e.coli ou a violência no Iémen – o cinema responde imitando a vida: som Dolby a rebentar pelos quatro cantos da sala e 3D a meter-nos meteoritos pelos olhos dentro. Afinal, a palavra mágica para se fazer cinema é “acção”.<br />
Desminto-me, apesar de saber que não é mentira. A velocidade da vida é um cliché com que nos roubaram a preguiça, nos roubaram o andar consolado dum tipo a roçar-se pelas esquinas, a delícia do <em>dolce fare niente</em>, o estoicismo de uma sesta em frente ao mar. Por isso, nos melhores filmes, dando o que a vida tira, o cinema pára.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-thumbnail wp-image-30131 aligncenter" title="Cooper_Gary_3" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/Cooper_Gary_3-107x150.jpg" alt="" width="107" height="150" /></p>
<p>Vejam: Gary Cooper nunca se mexeu. A pureza, a pele infantil que lhe recobre o corpo enorme, sustenta-se na sua lentidão. Em “Sergeant York”, ou herói de Capra ou de Hemingway, o vagar de Cooper é sempre o mesmo: quieto e calado. E é devagar que, no mais belo dos americanos, vemos desenhar-se o essencial: a humaníssima natureza que perdemos, a bondade da inacção, a irrazoável confiança no devir.</p>
<p><img class="aligncenter size-large wp-image-30133" title="sjff_01_img0547" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/sjff_01_img05471-500x379.jpg" alt="" width="500" height="379" /> </p>
<p style="text-align: justify;">Há uma galeria de heróis destes. São heróis solitários, de irrepreensível consciência moral. E são lentos. Ao lado de Gary Cooper, está Henry Fonda. Alto como ele, como ele desajeitado, tímido e taciturno. Até o corpo lhe pesa e Fonda alivia-se: no seu “Young Mr. Lincoln” e em “My Darling Clementine”, ambos do lentíssimo Ford, o actor deita-se debaixo de uma árvore ou senta-se num alpendre, sempre de pernas esticadas e mais altas do que o corpo, construindo irresistíveis ícones de elogio à calma contemplação das coisas e à sábia ignorância de si mesmo.</p>
<p style="text-align: center;"> <img class="size-thumbnail wp-image-30134 aligncenter" title="imagesCA00KMGS" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/imagesCA00KMGS-150x85.jpg" alt="" width="150" height="85" /></p>
<p style="text-align: justify;">É lendária a lentidão de John Wayne na abertura e fecho de “The Searchers” e até o prodigiosamente veloz Howard Hawks se rendeu ao ocioso Bogart em “To Have and Have Not” e “Big Sleep”. Criaram uma tradição, assegurada até há pouco por Clint Eastwood e Gene Hackman, actores grandes, fisicamente descoordenados e lentos.<br />
Robert Mitchum elevou esta arte a um patamar sublime: a cansada e absoluta imobilidade. Estilizando a lentidão, ao ponto de a tornar espessa e poética, Mitchum edificou uma improvável carreira de obras-primas. Invoco “The Lusty Men”, de Nick Ray, onde ele é a resignada solidão na solidão do filme. <img class="aligncenter size-full wp-image-30135" title="The_Lusty_Men(4)" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/The_Lusty_Men4.jpg" alt="" width="482" height="360" /></p>
<p style="text-align: justify;">Qual é o segredo destes actores que tiram devastador sentido e significado da aparente indiferença da sua expressão? E qual o segredo de fazerem mover o mundo mantendo-se imóveis?<br />
Segredo de homens. Só duas mulheres, Ingrid Bergman e Greta Garbo, se aconchegam à bondade da inacção, à lenta solidão de um “quero estar sozinha”.  Deus me guarde de pensar que eram homens.</p>
<p style="text-align: justify;"> <object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/SvHqUnRzh0s?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/SvHqUnRzh0s?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p><span style="background-color: #ffff00;"><em>Publicado no Atual do “Expresso” a 25/6. Sábado que vem, conta-se a história de um bom par de estaladas.</em></span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Freud e Jung revistos por Keira Knightley</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Jun 2011 22:32:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Os dois últimos filmes de David Cronenberg são extraordinários. Valem por si, mesmo que não soubessemos que eram assinado por ele. Eu, que gosto do que gosto e detesto vir a gostar mais de qualquer coisa futura do que de uma coisa de que já gostei, receio que o próximo seja ainda melhor. É um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Os dois últimos filmes de David Cronenberg são extraordinários. Valem por si, mesmo que não soubessemos que eram assinado por ele.<br />
Eu, que gosto do que gosto e detesto vir a gostar mais de qualquer coisa futura do que de uma coisa de que já gostei, receio que o próximo seja ainda melhor. É um filme sobre 8 decepções, as 8 decepções que sustentam a relação entre Sigmund Freud e Carl Jung, dois famosos malabaristas de um pouco mais do primeiro terço do século passado (Jung deixou-se andar, a fingir-se vivo, até aos anos 6o, mas isso mal interessa, por volta da 2ª Guerra o caso deles estava arrumado).</p>
<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-large wp-image-30085" title="dangerousmethod2a" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/dangerousmethod2a-500x327.jpg" alt="" width="500" height="327" /></p>
<p style="text-align: justify;">Este rosto, este corpo tenso que quase não se ajusta ao sofá, terão parte da culpa. Chama-se Keira Knightley e juro que nunca a tinha visto: só sei que dá corpo (a linda boca, os pequeninos seios, o tão esquinado recorte de ombros e, digamos, ancas) a uma das mais soberbas decepções que dividirá os dois irmãos fundadores de desavindas psicologias. David Cronenberg filmou tudo, e aparentemente filmou tudo com a confiança da linearidade, if you know what I mean. Para já, o trailer não me desmente.</p>
<p style="text-align: justify;"><object width="480" height="295"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/664eq7BXQcM?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/664eq7BXQcM?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="295" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
]]></content:encoded>
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		<title>O século de Camões</title>
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		<pubDate>Sat, 25 Jun 2011 21:46:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[  … saiba o mundo de Amor o desconcerto, que já coa Razão se fez amigo, só por não deixar culpa sem castigo. Se o século XVI não foi português, nenhum outro virá a sê-lo. As caravelas lusíadas atravessavam os mares. Cabral chegava ao Brasil, o Gama à Índia. E Colombo e Magalhães, um tocando [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"> <img class="aligncenter size-full wp-image-30041" title="364px-Camoes_-_retrato_de_goa_2b" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/364px-Camoes_-_retrato_de_goa_2b.jpg" alt="" width="291" height="479" /></p>
<p style="text-align: right;"><em>…<br />
</em><em>saiba o mundo de Amor o desconcerto,<br />
</em><em>que já coa Razão se fez amigo,<br />
</em><em>só por não deixar culpa sem castigo.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Se o século XVI não foi português, nenhum outro virá a sê-lo. As caravelas lusíadas atravessavam os mares. Cabral chegava ao Brasil, o Gama à Índia. E Colombo e Magalhães, um tocando a América, o outro circum-navegando o mundo, foram trânsfugas que a Coroa portuguesa sentou no colo de Espanha. A ousadia não tinha limites: Albuquerque pôs o Oriente a ferro e fogo, estabelecendo um Império. O escuro e hirsuto português comerciou com o Japão, aliou-se ao etíope, bordou de fortes e feitorias a costa de África, fortificou-se em Tuen Mun com ambição de conquistar a China do que o dissuadiu o terrível poder dos Ming e, num tratado desmesurado, dividiu com Castela, ao meio, o mundo por achar.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi nesse mundo novo, de especiarias e ouro, que nasceu e viveu Luis de Camões. No século em que pela primeira vez olhos europeus viram o Grand Canyon, a baía da Guanabara e toda a extensão do Amazonas, também os dele viram Ceuta, a Índia, a China, a costa de Moçambique, três oceanos, o pequeno mar que, depois de Gibraltar, separa e junta a Cristandade e o Islão, homens e mulheres de múltiplas raças, estranhas crenças. </p>
<p style="text-align: justify;">E é este Luis de Camões, de vivência universalista, que, a par das viagens, explorações e conquistas, ou também como expressão delas, faz do século XVI um século português. Mais claramente do que qualquer outra voz do século, Camões sente e pensa esse mundo novo numa poesia de admirável expressão épica e lírica.</p>
<p style="text-align: justify;">Camões partilhou literariamente o seu tempo com Garcilaso de la Vega, Juan de la Cruz, Teresa d’Ávila, Christopher Marlowe, Gongora, Miguel de Cervantes, Pierre de Ronsard, Torquato Tasso. Parcialmente contemporâneos, John Donne e Shakespeare pertencem, no essencial das obras respectivas, já ao século seguinte. Comparada com as dos expoentes literários do século, a obra de Camões iguala-as no plano da emoção e apresenta, porventura, um superior fulgor filosófico. </p>
<p style="text-align: justify;">Habitantes desse século foram também, e por ordem de nascimento, Copérnico, Kepler e Ticho Brahe. Coube-lhes fundamentar uma ordem nova, deslocando o centro do universo conhecido, da Terra, que ajudaram a pôr em movimento, para o Sol. A missão de Lutero, outro contemporâneo, foi a de fragmentar a centralidade de Roma e a infalível entronização papal, enquanto Erasmo sublinhava a soberania da vontade e <em>libero arbitrio</em> como essenciais à condição humana. Também Maquiavel torna perceptível, pela primeira vez, a dinâmica em que radica o Estado, os mecanismos empíricos do governo das nações. Nem o Tempo escapou a essa onda avassaladora do novo: é neste século que se fixa o calendário gregoriano, acertando-se de vez o instável equinócio e corrigindo-se a medição do ano solar.</p>
<p style="text-align: justify;"> Não sabemos, de quase nada sabermos biograficamente dele, se de Copérnico a Maquiavel tudo isto foi de conhecimento directo de Camões. Mas sabemos que o ar intelectual deste tempo foi também o do poeta. O mundo que “Os Lusíadas” retrata, “<em>com saber só de experiências feito</em>”, é um mundo de triunfo do empirismo subjacente à revolução científica que os quinhentistas Francis Bacon e Giordano Bruno conceptualizaram. E em “Os Lusíadas”, os mares por onde navega a armada do Gama são os mares que o planisfério de Gerardus Mercator revolucionariamente então representou.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem renegar um saber clássico, conhecedor de Aristóteles e Platão, infiltrado de neo-platonismo, o movimento do amor para a razão faz da poesia de Camões uma esplêndida interrogação da condição humana em termos que talvez não tenha paralelo nas figuras maiores da literatura do século: “<em>Quem será que não julgue por celeste / a causa donde vem tamanho efeito, / que faz num coração / que venha o apetite a ser razão.</em>”.</p>
<p style="text-align: justify;">A sensualidade camoniana tem, por certo, correspondência na erótica de Donne e no lirismo amoroso de Ronsard. Prescientes do dualismo que Descartes afirmará triunfante no século seguinte, os poetas proclamam a soberania do corpo, dando luminosa e às vezes urgente expressão a uma carnalidade que os distingue do ascetismo místico, por arrebatador que seja, dos avilenses Juan de la Cruz e Teresa de Jesus. Do mérito e superioridade da experiência física e plenamente erótica do amor, Camões deixou testemunho liminar: “<em>Melhor é experimentá-lo que julgá-lo, / Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.”</em></p>
<p style="text-align: justify;">A liberdade erótica tem a sua expressão suprema na imaginária Ilha de Vénus, do Canto IX, povoada de Ninfas que “<em>Nuas lavar se deixam na água pura</em>”. Como prémio terreno para os heróicos trabalhos dos lusitanos “<em>Em cristalinos paços singulares / … / Os esperam as Ninfas amorosas, / De amor feridas, para lhe entregarem / Quanto delas os olhos cobiçarem</em>.” E não se nega aos sentidos o que os olhos cobiçam:<em> “Acende-se o desejo, que se ceva / Nas alvas carnes, súbito mostradas</em>”.</p>
<p style="text-align: justify;">A par dessa exposta sexualidade, a poética camoniana exprime, ao mesmo tempo, uma consciência reflexiva e intelectualizada do “eu” que parece adivinhar o <em>cogito</em> cartesiano: “<em>Que, como um acidente em seu sujeito / Assim coa alma minha se conforma / Está no pensamento como ideia / E o vivo e puro amor de que sou feito / Como a matéria simples busca forma</em>”.</p>
<p style="text-align: justify;">Rendendo-se consoladamente à palpável realidade de um impetuoso erotismo, Camões não deixa de ser herdeiro da tradição neo-platónica e, com ela, de uma cosmologia sustentada num mundo superior que não se reduz à realidade sensível. Por isso, se no épico as Ninfas vão <em>“Nuas por entre o mato, aos olhos dando / O que às mãos cobiçosas vão negando”</em>, o Camões lírico há-de cantar (ou já teria cantado) o quão cedo desses olhos a Alma gentil se parte descontente.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Camões, o Amor assume ainda a forma de superior conhecimento do mundo, nele se fundindo o conhecimento de si e do outro que é transformar-se o amador na coisa amada: “<em>Não tenho logo mais que desejar, / Pois em mim tenho a parte desejada</em>”. Essa oscilação entre a clara e distinta objectivação da experiência e uma subjectivíssima fusão cujo conhecimento é inalcançável para a mente humana, dá lugar à, tão lúcida como angustiada, meditação camoniana sobre a condição humana que estes versos exprimem: “<em>Que dias há que na alma me tem posto / Um não sei quê, que nasce não sei onde, / Vem não sei como, e dói não sei porquê.</em>”</p>
<p style="text-align: justify;">Se o século XVI foi português, só terá sido por nunca, como nestes versos, a poesia escrita em língua portuguesa ter estado tão adiante do que racionalmente noutras línguas do seu tempo se escrevia: “<em>Morrendo estou na vida, em morte vivo; / vejo sem olhos, e sem língua falo; / e juntamente passo glória e pena.</em>”  </p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-thumbnail wp-image-30042" title="CAMES_~1" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/CAMES_1-150x112.jpg" alt="" width="105" height="78" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="background-color: #ffff00;"><em>Este texto foi uma encomenda. Escrevi-o com muito gosto e com um descaramento que se baseia numa ideia simples: os poetas, os pintores, os romancistas devem ser falados, interpretados e comentados pelos seus leitores, mesmo por aqueles que só como amadores os comentem. Os amadores nunca dispensarão os especialistas. Mal do especialista que, magnânimo, não deixe, como crianças, sentarem-se os amadores aos pés do artista. </em></span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Nada explica tudo</title>
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		<pubDate>Fri, 24 Jun 2011 21:37:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ Nada explica tudo o que não é exactamente a mesma coisa que dizer que não há nada que explique tudo. Talvez seja mais verdadeiro dizer-se que só nada explica tudo…]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_29994" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-full wp-image-29994" title="sem nome" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/sem-nome.png" alt="" width="500" height="604" /><p class="wp-caption-text">Foto: Julio Bittencourt</p></div>
<p style="text-align: center;"> <strong>Nada explica tudo</strong><br />
o que não é exactamente a mesma coisa que dizer que não há nada que explique tudo.<br />
Talvez seja mais verdadeiro dizer-se que só nada explica tudo…</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Uma mão nas nuvens, um olho na paisagem</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Jun 2011 21:50:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ O  Travel Almanac é uma nova revista de viagens com um conceito muito eyebrow. Tanto que no seu número de estreia (têm 2 por ano, que não estão para se cansar) a entrevista de capa é ao David Lynch. Para o 2º número o entrevistado principal será um dos autores do “Gente Morta”. Mandaram cá [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_29940" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-29940" title="12674009724QBemTT" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/12674009724QBemTT-500x394.jpg" alt="" width="500" height="394" /><p class="wp-caption-text">um rio cá em baixo no que aos meus olhos pareciam mil metros de altura</p></div>
<p style="text-align: justify;"> O<em>  <a href="http://www.magnation.com/The-Travel-Almanac-3217.php">Travel Almanac</a> </em>é uma nova revista de viagens com um conceito muito <em>eyebrow</em>. Tanto que no seu número de estreia (têm 2 por ano, que não estão para se cansar) a entrevista de capa é ao David Lynch. Para o 2º número o entrevistado principal será um dos autores do “Gente Morta”. Mandaram cá a Rikio Hossback. Por mero acaso entregou-me ela as perguntas a que respondo abaixo, mas com a condição (frisou bem) de que as passe aos outros mortos deste cemitério. Vão depois – eles – escolher a entrevista que lhes interessar para publicação. Avisa-se a navegação de que se trata de uma revista alemã. Coisa de seriedade <em>irreprochable</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><em> </em><em>Mr. Fonesca, qual é a sua mais antiga memória de viagem?<br />
</em>    — Fonseca.<br />
<em>Como?<br />
</em>    — O nome. É Fonseca. Mas, bora lá, às lembranças. Aos 5 anos, de comboio. Uma viagem longa e surpresas irrequietas. Levantava-me, sentava-me, espreitava à janela que nesse tempo ainda se podiam abrir. De repente, a velocidade reduziu-se e o comboio entrou, majestoso, numa ponte, um rio cá em baixo no que aos meus olhos pareciam mil metros de altura. Mas a impressão que mais perdurou colou-se-me ao céu-da-boca: o sabor das cerejas que comemos, a minha mãe, a minha irmã e eu, no pequeno compartimento que ocupávamos. Ainda hoje os comboios me sabem a cerejas.<br />
<em>Um impacto irrepetível, o da primeira viagem, claro!<br />
</em>    — Não a quero contrariar, mas poucos dias depois viajei num transatlântico para outro continente. A minha mãe tinha de cuidar dos miúdos que nós éramos, a minha irmã e eu, e levou-nos a toque de caixa para o camarote. Só no dia seguinte subi ao convés. O mundo tinha desaparecido. Flutuávamos num oscilante lençol azul e verde com outro de seda azul celeste a fazer de tecto. Foi um sonho, é um sonho, de que nem o mais abrutalhado Freud será capaz de me tirar: estou só eu numa cadeira de balouço feita de mar e céu.<br />
<em>Associa sempre as viagens a pessoas?<br />
</em>    — Ou à ausência de pessoas. As grandes viagens, entre continentes, as de barco ou de avião, nunca as fiz com o meu pai. Viajei com ele de carro, em Angola, e depois em Portugal. A família viajou, de barco e de avião, mas por qualquer razão ou última hora acabei por não ir com eles. Mesmo a minha primeira viagem de avião foi para ir, sozinho, ver a minha irmã ao Lubango. Ia à janela do Friendship (ou talvez um Dakota) com uma mão nas nuvens e um olho na planície, no planalto e, a chegar, na belíssima e dramática paisagem de serras e atormentadas fendas do Lubango.<br />
<em>Tudo muda quando se passa a viajar profissional. Já nem se olha lá para fora!<br />
</em>    — Desculpe, mas olhe que não acerta uma. Não sei viajar profissional com o portátil em cima das pernas ou lá o que é, e a aproveitar a maçada de voos transatlânticos. Nos aviões pode sempre ver-se o Pólo Norte ou o sol a nascer no Sahara, como nunca se sabe quando nos cruzamos com um disco voador. Já vi os dois primeiros, não perco a esperança de ver o último.</p>
<div id="attachment_29941" class="wp-caption aligncenter" style="width: 122px"><img class="size-thumbnail wp-image-29941" title="SAM_0411" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/SAM_0411-112x150.jpg" alt="" width="112" height="150" /><p class="wp-caption-text">O humilde Claremont</p></div>
<p style="text-align: justify;"><em>Prefere os hotéis de luxo ou os familiares?<br />
</em>    — Todos. Mas enternecem-me os hotéis de primeira vez numa cidade. O humilde Claremont Hotel, em Westwood, a dois passos da sinfónica Wilshire Boulevard. Foi a estreia em Los Angeles, há 25 anos. O setecentista Hotel des Tuileries na rua da Saint Hyacinthe, em Paris, ao lado do qual, nos anos 80, havia uma tasca de barril à porta e se comia um bom boudin. O Halcyon, escondido em Holland Park, o La Residenza a dois passos da Via Veneto. Claro que como a carne é fraca e se corrompe com facilidade (e felicidade), hoje prefiro o W, o Shutters ou, em NY, o Plaza, o Ritz em Madrid ou Lisboa, o Crillon. Mas há uma pensão de Porto Amboim que jamais esquecerei.<br />
<em>O dinheiro é importante quando se viaja?<br />
</em>    — Boa! Na mouche. First class: desbunda ou nada. As viagens familiares, por rejeição de ma femme a essa impossibilidade tecnológica que é o avião, exigem o lento e longo tempo quase oitocentista do comboio. Dinheiro e tempo, já vê, caso contrário, prefiro ficar em casa a ler ou a escrever<br />
<em>Escreve?<br />
</em>    — Sim. Num cemitério.<br />
<em>Perdão?<br />
</em>    — Está perdoada.<br />
<em>Num hotel, por ordem de importância, o que é que mais valoriza?<br />
</em>    — A cama, o restaurante, um piano. Uma esplanada sobre o Pacífico como o Shutters. Um lindo pátio como o da York House, nas Janelas Verdes, se não puder ser mais nada. Em Sorrento fiquei num que tinha um laranjal e a piscina no meio da fruta e daquele perfume todo. Os donos eram um casal de professores de história.<br />
<em>Imagino que tenha episódios pitorescos…<br />
</em>    — Nenhuns. Mas em Sorrento, não sei se dada a proximidade da viciosa Pompeia, uma amiga nossa, no quarto ao lado, fazia meditação nua (ou melhor, nua fazia meditação), estendida na cama e com duas rodelas de pepino nos olhos. A empregada entrou intempestiva e ouviu o maior berro da vida dela saído de uma boca que expelia também rodelas de pepino. Ninguém mais lhe voltou a limpar o quarto: <em>la signora io non la tocco</em>, foi a desculpa generalizada.<br />
<em>Do passado, em viagens, de que é que tem mais saudades?<br />
</em>    — Do verdadeiro valor do passaporte. E dos câmbios. As liras eram um delicioso pavor. Em Roma, num dia de greve, não só fui miseravelmente enganado no troco como, ao emprestar a caneta ao motorista para fazer o recibo, fiquei sem uma Montblanc. Só voltei a ter outra quando uma alma gentil me ofereceu, generosa e piedosamente, uma nova.<br />
<em>Já perdeu as malas?<br />
</em>    — Duas vezes. Uma em Berlim, outra em New Orleans. Tenho um fatinho fatela dos Brook Brothers, oferta da British Airways.<br />
<em>Ameaças de acidente?<br />
</em>    — Em L.A., tivemos de voltar duas vezes para trás. As luzes do Boeing apagavam-se a meio da pista. À terceira, trocaram o avião. Dormi com um justo toda a noite até Nova Iorque.<br />
<em>Pior: já viajou ao lado de pessoas famosas?<br />
</em>    — Ah, sim. Do José Navarro e do Pedro Norton.<br />
<em>Perdão?<br />
</em>    — Se for ao La Chunga logo lhe explicam. Mas se está a falar de aviões, lembro-me de uma grande entrada. <em>Quero um bloody mary</em>, gritou a Melanie Grifitth, ainda não se tinha sentado. E depois dormiu as 10 horas de voo. Doutra vez, discretíssima tanto quanto em si cabe de discreta, a Elizabeth Hurley. E também com o Pierce Brosnan quando era James Bond.<br />
<em>E nos hotéis?<br />
</em>    — Pequeno almoço na mesa ao lado do Gene Hackman três dias seguidos. Éramos sempre e sozinhos os últimos e ele tinha um sereníssimo jornal à frente dos olhos. Era para não me ver. No Lancaster, em Paris, que é o favorito do David Lynch, tive a mais amena conversa que se pode ter com Mr. Coppola e um puto chamado George Lucas. As sobremesas eram fantásticas. Já comi um hamburger com o Danny Glover e lambi um gelado ao lado da Valeria Golino. E quem ficou tu cá, tu lá com o Mr. Big do Sex and the City foi o Zeff Navarro no Dan Tana’s, esse landmark de West Hollywood.</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="background-color: #ffff00;"><em>E, agora, ai dos mortos que não respondam ao Travel Almanac! A estas perguntas ou a outras alternativas que a Rikio não se importa que lhe dêem música: ela dança mesmo muito bem. Quem é que avança já?</em></span></p>
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		<title>O filme do resto das nossas vidas</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Jun 2011 09:32:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[  um filme perdidamente adolescente   Aos 15 anos, gostava tanto do meu bairro, dos amigos, da família, que só me apetecia fugir. A pasmaceira de tanta felicidade desarranja uma cabeça adolescente e a ideia de “fugir de casa” parecia uma tragédia tentadora. Num festival de reposições, em 68, vi o “Rebel Without a Cause” [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div><strong> </strong></div>
<p><strong></p>
<div class="mceTemp mceIEcenter" style="text-align: justify;">
<dl id="attachment_29918" class="wp-caption aligncenter" style="width: 410px;">
<dt class="wp-caption-dt"><img class="size-full wp-image-29918" title="rebelwithoutacause" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/rebelwithoutacause.jpg" alt="" width="400" height="400" /></dt>
<dd class="wp-caption-dd">um filme perdidamente adolescente</dd>
</dl>
</div>
<p> </p>
<p></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Aos 15 anos, gostava tanto do meu bairro, dos amigos, da família, que só me apetecia fugir. A pasmaceira de tanta felicidade desarranja uma cabeça adolescente e a ideia de “fugir de casa” parecia uma tragédia tentadora. Num festival de reposições, em 68, vi o “Rebel Without a Cause” e fugi para dentro desse filme perdidamente adolescente. Foi onde primeiro vi um planetário e todas as estrelas que nele se podem acender.<br />
Pode viver-se num filme? Eu vivi. Juntei-me ao James Dean e à Nathalie Wood: arranjei um blusão vermelho, entrei em loucas corridas de automóveis, mas parei antes de comprar uma ponta e mola.</p>
<p style="text-align: justify;">Imagino que José Sócrates, até por recentes e filosóficas notícias, gostasse, para já, de viver no “The Last Hurrah”, agónico filme de John Ford em que um cansado Spencer Tracy perde as eleições. Tracy, antes vitorioso três vezes, não fora um presidente angélico e propriamente impoluto, mas a derrota traz-lhe a serenidade por que ansiava.</p>
<p style="text-align: justify;">Bem sei que Passos Coelho, nos sonhos das últimas noites, se acha um Jimmy Stewart e vê-se a caminhar para São Bento como “Mr. Smith goes to Washington”. Mas Passos Coelho deleita-se no sonho e acorda para o pesadelo. Nada ressuscitará o tempo de crença e idealismo com que Capra pintava os seus filmes e que tinha em Jimmy Stewart ou Gary Cooper os zés-ninguém a que bastava a candura de escuteiros e uma visceral incorrupção para fazer triunfar a democracia e ainda beijar, no fim, a boca saudável de Jean Arthur ou a boca para outras batalhas de Barbara Stanwick.<br />
Passos Coelho sai a porta da rua e logo descobre que a serventia do país está mais perto do “Apocalypse Now”: o barco que dirige vai, com missão assassina, subir um rio infestado de perigos. Que não o impressione o cheiro de napalm pela manhã.</p>
<p style="text-align: justify;">Patriota e sentimental como sou, queria que Portugal, a viver num filme, vivesse no “Meet Me in Saint Louis”. Minnelli filmou-o em 1944, sofria a América o esforço de guerra, os caixões dos rapazes a voltarem para casa aos milhares. Para resistir à angústia das batalhas da Europa e do Pacífico, Minnelli levou a América, numa viagem de deslumbrante nostalgia, a tempos em que “os dias eram luminosos, o ar era doce e o cheiro de madressilva nos entontecia”. Tempos em que uma família, de indestrutível unidade, preferia a calorosa harmonia da sua casa, em Saint Louis, à ambição e desafogo de uma promoção em Nova Iorque.<br />
Mas não é à pasmosa beleza de Minnelli que chegámos. A Europa, os emergentes, a longa fila de povos sacrificáveis que quase integramos, vivemos todos, já, num globalizante e humanóide “Blade Runner”. Um tempo de in-identidade, de mutação caótica, de inquieta solidão.  Nem madressilva, nem napalm, em tempos que não se cheiram, só um replicante olhar conta.</p>
<p style="text-align: center;"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/GD-lFCsYOPs?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/GD-lFCsYOPs?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object><br />
<strong> </strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>liberty is too precious a thing to be buried in books<br />
</strong><span style="background-color: #ffff00;"><em>ps-publicado no “Expresso” de 18.06. O próximo folhetim, este sábado, é um cansado elogio à preguiça.</em></span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Era o liceu</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Jun 2011 23:53:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Foi este o meu liceu. Por ser o meu, mas mesmo que não o fosse, é o mais belo liceu que conheço. Tem uns braços abertos sempre a dizerem-me “sê grande” (a mim, tão pequeno), duas sucessivas escadarias (da avenida Brito Godins até lá acima, eram uns bons três metros de desnível) sempre a dizerem-me [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-large wp-image-29907" title="1_Liceu_Nacional_Salvador_Correia_anos_50" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/1_Liceu_Nacional_Salvador_Correia_anos_50-500x336.jpg" alt="" width="500" height="336" /></p>
<p style="text-align: justify;">Foi este o meu liceu. Por ser o meu, mas mesmo que não o fosse, é o mais belo liceu que conheço. Tem uns braços abertos sempre a dizerem-me “sê grande” (a mim, tão pequeno), duas sucessivas escadarias (da avenida Brito Godins até lá acima, eram uns bons três metros de desnível) sempre a dizerem-me “sobe mais um degrau”. Era imponente e carinhoso. Foi clássico e moderno. Liceu de rapazes e de raparigas, liceu de corpo e alma. Ficou-me com o raio do coração.</p>
<p> <img class="aligncenter size-large wp-image-29908" title="Praxe_da_Carecada_1960" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/Praxe_da_Carecada_1960-500x282.jpg" alt="" width="500" height="282" /></p>
<p style="text-align: justify;">Este foi o meu primeiro dia. Serei eu? Sou, de certeza, eu. Era a praxe, a única praxe, fazer-se uma careca de frade a cada caloiro. Como se entrássemos no mosteiro. Ou seja, antes de entrarmos no mosteiro, era, o nosso último canto profano, mais gentil do que grosseiro, a nossa macia carmina burana. Depois entrávamos: para saber, para uma devoção, a de sermos muito melhores. Era o liceu.</p>
<p> <img class="aligncenter size-large wp-image-29909" title="13_Alunos_anos_60" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/13_Alunos_anos_60-500x341.jpg" alt="" width="500" height="341" /></p>
<p style="text-align: justify;">E sei bem que estou nesta fotografia. Mas onde?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>ps — no campanário do liceu — façam o favor de olhar para a primeira foto, à esquerda - havia um ninho de corvos. 7 anos lá estive, 7 anos lá estiveram, outros 7 tinham antes estado, mais 7 depois lá ficaram. Ou como escreveu Pessoa escrevendo Poe: <em><span style="font-family: Bookman Old Style;">Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!»</span>  /<span style="font-family: Bookman Old Style;">Disse o corvo, «Nunca mais».</span></em></strong></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
]]></content:encoded>
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		<title>Pode chorar-se numa comédia?</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Jun 2011 23:32:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma comédia que nos faça chorar continua a ser uma comédia? Ruggles of Red Gap, um filme de 1935, assinado pelo genial Leo McCarey, que filmou Laurel e Hardy e os irmãos Marx, é a melhor e mais inteligente comédia que conheço. Charles Laughton faz um mordomo inglês que um aristocrata perde ao jogo para um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_29808" class="wp-caption aligncenter" style="width: 367px"><img class="size-full wp-image-29808" title="RugglesofRedGap-357" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/RugglesofRedGap-357.jpg" alt="" width="357" height="245" /><p class="wp-caption-text">Leo McCarey com ZaSu Pitts e Charles Laughton</p></div>
<p style="text-align: justify;">Uma comédia que nos faça chorar continua a ser uma comédia? <em>Ruggles of Red Gap</em>, um filme de 1935, assinado pelo genial Leo McCarey, que filmou Laurel e Hardy e os irmãos Marx, é a melhor e mais inteligente comédia que conheço. Charles Laughton faz um mordomo inglês que um aristocrata <strong>perde ao jogo</strong> para um milionário americano genuinamente provinciano.<br />
Ruggles, o mordomo, é mais rígido do que um pau de vassoura, como rígida é a etiqueta que venera e a estratificação social a que se submete.</p>
<p><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/aaGTam2DY_A?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/aaGTam2DY_A?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p style="text-align: justify;">Como é evidente, a vida em Red Gap, ao lado do poço de espontaneidade que é o milionário americano, revela um mundo novo ao emproado e submisso criado inglês. E quando já estamos perto do fim do filme, é nesta cena, que eu, se estiver no escuro da sala de cinema, choro sempre<strong><span style="color: #ff0000;"><span style="font-size: x-large;"> *</span>.</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><object width="480" height="295"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/yHIjrZCAYp0?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/yHIjrZCAYp0?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="295" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p style="text-align: justify;">Claro que o pasmoso e tão bem escrito discurso de Lincoln ajuda muito. Dito no campo onde quatro meses antes a batalha de Gettysburg tinha ceifado 7.500 vidas, o discurso converteu-se numa referência da cultura democrática americana.<br />
Mas a profunda humanidade que nesta cena nos comove vem muito da inversão de papéis a que assistimos e na adopção, pelo conservador e convencional mordomo, de uma liberdade individual que nunca imaginara ou sonhara.<br />
Já agora, que os nossos mortos  não tenham também sido em vão e que  “this nation, under God, shall have a new birth of freedom—and that government of the people, by the people, for the people, shall not perish from the earth.”</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-large;"><strong><span style="color: #ff0000;">* </span></strong></span><em>É mentira. Até a ver isto no youtube acabo numa choradeira. Uma vergonha.</em></p>
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		<title>Ligeiramente menos “extreme”</title>
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		<pubDate>Sun, 19 Jun 2011 16:11:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Lembrei-me ao ver o que a Marta nos trouxe. Num estilo muito menos atlético, e com outra posição de braços, era exactamente isto o que fazíamos em cada esquina onde, adolescentes, encontrássemos um sinal de trânsito.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-29792" title="Untitled18" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/Untitled181.jpg" alt="" width="300" height="225" /></p>
<p style="text-align: justify;">Lembrei-me ao ver o que a <a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/06/extreme-lying-down/">Marta nos trouxe.</a> Num estilo muito menos atlético, e com outra posição de braços, era exactamente isto o que fazíamos em cada esquina onde, adolescentes, encontrássemos um sinal de trânsito.</p>
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		<title>Uma declaração de independência</title>
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		<pubDate>Fri, 17 Jun 2011 18:52:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[  A danada inveja acontece-me, no cinema, sempre que, numa explosão de felicidade, as personagens se libertam do filme e ameaçam, eufóricas, ficar a gozar uma comunhão de que, na sala, já somos indesejáveis voyeurs. Como se as personagens dissessem ao espectador: “Agora é privado, não desejamos que estejas aqui. Vai-te embora, não arruínes o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_29735" class="wp-caption aligncenter" style="width: 410px"><img class="size-full wp-image-29735" title="1144-3" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/1144-31.jpg" alt="" width="400" height="250" /><p class="wp-caption-text">Ostentam cicatrizes conquistadas em portos e alto mar</p></div>
<p style="text-align: center;"> </p>
<p style="text-align: justify;">A danada inveja acontece-me, no cinema, sempre que, numa explosão de felicidade, as personagens se libertam do filme e ameaçam, eufóricas, ficar a gozar uma comunhão de que, na sala, já somos indesejáveis <em>voyeurs</em>. Como se as personagens dissessem ao espectador: “Agora é privado, não desejamos que estejas aqui. Vai-te embora, não arruínes o encanto.”</p>
<p style="text-align: justify;">Exemplo? No “Deer Hunter”, a cena do bar, com De Niro e Christopher Walken a jogarem snooker, quando a juke box debita o “Can’t take my eyes off of you”. De Niro, Walken e os quatro amigos, numa coreografia de jovens machos em noite sabática, jogam, bebem, cantam cada um para seu lado, até que o refrão os junta num coro de “i love you baby to warm a lonely night”. A amizade e a confiança deles queriam ficar ali, guardadas para sempre. Ficariam se o filme não os tivesse destinado ao Vietnam que lhes secará a voz na garganta.</p>
<p style="text-align: justify;">Spielberg, no “Jaws”, também foi ultrapassado pelas personagens. Num barco, três homens diferentes, o chefe de polícia Roy Scheider, o lobo do mar Robert Shaw e o académico Richard Dreyfuss, entretêm a noite de espera pelo tubarão que vão matar. Ostentam cicatrizes conquistadas em lutas de portos e alto mar, com impecável mise-en-scène de Spielberg. E a cena é ainda trabalho de actor, a voz extraordinária e cava de Robert Shaw, o riso tão bonito, solto e cómico de Dreyfuss, o olhar cândido de Roy Scheider. Mas, num de repente muito devagarinho, entram em comunhão mística e desatam a cantar em coro “<em>show me the way to go home</em>”. Cantam, gritam, desafinam: “<em>i’m tired and i want to go to bed.</em>” Já saíram do filme, são cem por cento personagens, vencedoras dos actores que lhe deram vida. Em coro, “<em>i had a little drink about an hour ago</em>”, esqueceram-se do mar, da noite, do tubarão, a mesa tão boa para o ritmo batido palas mãos, a linha de horizonte oscilando ao ritmo das ondas. Até que uma pancada mais forte, rufo da artilharia inimiga, os traz de volta ao filme, aos dentes assassinos, olhos sem vida do tubarão. O filme volta a ser de Spielberg, fim da fantasia dentro da fantasia.</p>
<p style="text-align: justify;">A inveja que tenho dessa alegria selvagem. Menos boa, mas ainda boa, há uma cena em “My Best Friend’s Wedding”. É um almoço de família num restaurante cheio e há uma história de amor por explicar. Rupert Everett, que bem sabe ser a história inexplicável, canta-a. O contágio é imediato, a mesa dele e as outras mesas, o piano da sala, cantam em coro “<em>i say a little prayer for you</em>”. Sabemos, pela expressão de Julia Roberts, que é tudo encenado, mas é um restaurante inteiro a cantar e eu tenho por hábito comover-me com um restaurante inteiro a cantar. Já não é filme, é a verdade das personagens, a sua cantada declaração de independência.</p>
<p style="text-align: center;"><span style="background-color: #33cccc;"><em>Ah, a cena do bar no The Deer Hunter <a href="http://www.youtube.com/watch?v=2HWEBE0F1FQ">tem de ser vista aqui</a>.</em></span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="background-color: #33cccc;"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/lUyFZUKo6u8?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/lUyFZUKo6u8?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="background-color: #ffff00;"><em>Publicado no Atual do “Expresso” a 10 de Junho. Se pudesse fugir para dentro de um filme, mesmo para dentro, não fugia? Veja, amanhã, para que filme fugiria Passos Coelho. Na página do costume, no Expresso”.</em></span></p>
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		<title>Ai, o escândalo</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Jun 2011 11:02:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Caminhavam pelo descuido da ociosa tarde. À volta delas, a cidade ardia em trânsito, transportes, homens e outras mulheres vergados ao peso da competitividade, por conta de outrem como assinavam nos recibos verdes. - Sabes que ela, um dia, entrou nua na sala? – Estás a brincar? – Não estou, não. – Ai o escândalo, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-29676" title="Christopher-Williams-Kodak-Three-Pont-Reflection-Guide-1968-___-Miko-Laughing-500x405" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/Christopher-Williams-Kodak-Three-Pont-Reflection-Guide-1968-___-Miko-Laughing-500x405.jpg" alt="" width="400" height="324" /></p>
<p style="text-align: justify;">Caminhavam pelo descuido da ociosa tarde. À volta delas, a cidade ardia em trânsito, transportes, homens e outras mulheres vergados ao peso da competitividade, por conta de outrem como assinavam nos recibos verdes.</p>
<p style="text-align: justify;">- Sabes que ela, um dia, entrou nua na sala?<br />
– Estás a brincar?<br />
– Não estou, não.<br />
– Ai o escândalo, que vergonha.<br />
– Pois não, não houve escândalo nenhum. Estava ele, os amigos dele, as mulheres dos amigos e foi como se tivesse entrado o menino Jesus.</p>
<p style="text-align: justify;">As quentíssimas quatro horas da tarde desenhavam um rio nítido. Sentaram-se as duas na esplanada. Pediram a graça de um chá frio.</p>
<p style="text-align: justify;">- Queres uns scones?<br />
– Menina, só tenho sede. Mas olha e ele não sabe? Dizem que ela se enrola com outros gajos.<br />
– E ele?<br />
– Ele? Com outros gajos?<br />
– Ó filha, só tu para me fazeres rir. Já traçou metade da população feminina da cidade. E sabes que é que ele diz? É por amor! diz ele com aquele sorriso que dá logo vontade de matá-lo.<br />
– Odeio esse tipo de promiscuidade.<br />
– Ele também. Só o vi torcer o nariz num jantar quando o alarve do Arménio se saiu com esta: ‘O que é preciso é um gajo vir-se, nem que seja entre as pernas de uma cadeira’.<br />
– Ordinarão.<br />
– Foi o que ele disse. E voltou a jurar que com ele era sempre por amor. Mas que era impossível não se amar várias pessoas ao mesmo tempo.<br />
– Um vadio. Nem a ela a deve amar, não achas.<br />
– Não, não acho. Tomara eu que alguém me amasse como ele a ama a ela. Só de ver já acho que é melhor do que sexo.</p>
<p style="text-align: justify;">O empregado pousou os chás na mesa e uma brisa fez círculos à volta do dourado vidro dos copos. No meio azul do rio três barcos à vela espreitavam a solidão.</p>
<p style="text-align: justify;">- Olha, desculpa lá, se ele a ama porque é que a deixa andar com outros? Ou não sabe?<br />
– Não é bem não saber. Ele é engenheiro, mas tem a mania da filosofia: diz que há coisas que não são da área do conhecimento. <br />
- Filósofo, agora. É mas é corno, desculpa lá.<br />
– Ó querida, até ele se ria se te ouvisse. Um dia disse-nos que há coisas que já só se encontram no Camilo e no Eça, testas altas, esplêndidas. Hoje, disse ele, já não há testas para cornos!</p>
<p style="text-align: justify;">A outra margem, difusa, desfazia-se contra a lenta vaga de calor, o perdido brado de uma invisível gaivota. As amigas recostavam-se no abraço das cadeiras, abriam agora um pouco mais as pernas à frescura do ar.</p>
<p style="text-align: justify;">- Mas estavas lá quando ela entrou nua na sala?<br />
– Não, mas a semana passada sim.<br />
– Outra vez nua? Mas será que essa mulher chegará algum dia a vestir-se.<br />
– Não seja parva, amor. Estávamos a rir-nos, uma coisa contagiosa. Ela veio do banho, uma toalha amarela enrolada à cabeça, outra à volta do tronco, amarela também. Mais luminosa do que um girassol de Van Gogh.<br />
– Bolas, contigo é tudo kóltura…<br />
– Espera, parva. O que foi, perguntou ela e só tínhamos olhos para as tolhas. Ele disse e ela sorriu. Saiu e dez minutos depois o sorriso dela ainda estava nos olhos dele. Vi eu. Falava connosco, bebia, levantava-se, sentava-se, mas nos olhos dele só estava o sorriso dela, a fiada imaculada de dentes, a boca tão encarnada bonita dela.<br />
– …<br />
– Matava por ficar assim, presa, guardada, nos olhos de alta segurança dele.</p>
<p style="text-align: justify;">Puxaram um pouco mais acima as já curtas saias. As pernas eram o esplendoroso espelho da curva do sol que o tímido vento vinha lamber. Fecharam as duas um pouco os olhos para melhor ouvirem o silêncio das quatro da tarde.</p>
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		<title>A cadeira de que mais gosto</title>
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		<pubDate>Wed, 15 Jun 2011 23:29:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Tenho às vezes uma ideia muito pomposa de “arte”. É uma vergonha. E arrependo-me. Por exemplo, e é só um exemplo: não há nada mais familiar do que esta melodia. É tão simples como ir da cozinha à sala e sentar-se um tipo na cadeira de que mais gosta. Dizer: olha, hoje à hora de almoço estava [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-large wp-image-29656" title="old" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/old-500x337.jpg" alt="" width="500" height="337" /></p>
<p style="text-align: justify;">Tenho às vezes uma ideia muito pomposa de “arte”. É uma vergonha. E arrependo-me. Por exemplo, e é só um exemplo: não há nada mais familiar do que esta melodia. É tão simples como ir da cozinha à sala e sentar-se um tipo na cadeira de que mais gosta. Dizer: olha, hoje à hora de almoço estava com pressa e não pude vir pela marginal, a ver o rio, como gosto. E o que é que comeste? Sardinhas, mas ainda nãs as apanhei como gosto. Ó, mas as batatas cozidas que boas que eram. Ah, parece que há lá fora um eclipse. Julgas que tiro o rabo da cadeira? Não estás bem a ver o que me está a apetecer estar aqui a pastar…<br />
E essa merda é que arte? É, essa merda é que é arte.</p>
<p style="text-align: justify;"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/Ohtikwa64xo?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/Ohtikwa64xo?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
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		<title>O unicórnio</title>
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		<pubDate>Wed, 15 Jun 2011 11:03:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Não sei quem é que disse, mas alguém disse: Talking about morality if there are no moral facts is like talking about unicorns if there aren’t any unicorns.   Tenho-me desunhado mais à procura de factos morais do que de trevos de 4 folhas. Não se apanha nem um. Vá lá que hoje vi um unicórnio.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-29629" title="d'orsay1" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/dorsay1.jpg" alt="" width="400" height="381" /></p>
<p style="text-align: justify;">Não sei quem é que disse, mas alguém disse:</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: large;"><strong>Talking about morality if there are no moral facts is like talking about unicorns if there aren’t any unicorns.   </strong></span></p>
<p style="text-align: justify;">Tenho-me desunhado mais à procura de factos morais do que de trevos de 4 folhas. Não se apanha nem um. Vá lá que hoje vi um unicórnio.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Um dia ainda alguém nos fuma</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Jun 2011 22:05:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Podia ser basco, era de San Francisco, nascido em Nova Iorque. Em San Francisco não era de um sítio qualquer. Era do Mission District o mais parecido com um bairro de Lisboa, um popular quartier parisien, que me foi dado ver, a meio dos anos 80, quando em San Francisco me estreei. Ross, porque é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-medium wp-image-29568" title="image" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/image-300x234.png" alt="" width="300" height="234" /></p>
<p style="text-align: justify;">Podia ser basco, era de San Francisco, nascido em Nova Iorque. Em San Francisco não era de um sítio qualquer. Era do Mission District o mais parecido com um bairro de Lisboa, um popular quartier parisien, que me foi dado ver, a meio dos anos 80, quando em San Francisco me estreei.<br />
Ross, porque é de John Ross que falo, nasceu no século em que nasci, passado, em 38. Judeu, comunista, beatnick, desandou de uma América que recriminava para ir viver no atrasado México. Ia escrever romances, acabou a plantar a maconha de que retirou fama e proveito. Fumou, tripou, mocas e o raio que os parta, partindo-se a ele também. Fez isto tudo antes que John Kennedy se decidisse invadir a Baía dos Porcos.<br />
Pouco depois morreu-lhe um filho, três semanas depois de nascer. Voltou à América, <em>let’s go</em>, direitinho a San Francisco, às flores, malmequeres, begónias, jacintos e todas as outras estúpidas e murchas flores que em 64 se usavam em Haight-Ashbury, descobrindo que era hippie, antes dos hippies o serem. Fez da Mission <em>su casa</em>. A Mission fez dele, bigode, a firme e branca barbicha, boina, lenço palestiniano ao pescoço, o seu ícone. Tenho a certeza de o ter visto um dia, todos os dias que lá passei.<br />
Em suma, Ross nos momentos mais lúcidos foi troskysta e, lúcido ou pedrado, activista político em toda a América Latina. Chegou a vir a manifestações ao País Basco de Franco, especulo que a uma, em 73, na Praça do Chile de Lisboa, contra o malfadado e sempre bem fardado capitão Maltês. Em 94, de leitor de Kerouac passa a escritor em defesa da revolta zapatista. <em>Murder by capitalism</em> é a sua obra mais conhecida, oscilando (que é como eu gosto) entre os factos e a fantasia, o que não admira se atendermos a que foi escrito numa altura em que passava a maior parte do tempo num cemitério, o Humboldt, a fumar charros.<br />
O episódio mais patético da sua vida terá sido a presença no Iraque de Saddam, funcionando, com mais meia centena de activistas ocidentais, como “escudos humanos” contra a invasão americana. Talvez fosse ridículo, mas foi sempre bem-humorado e herdeiro, julgo que sem o saber, de Quevedo, o engenhoso pícaro.<br />
John Ross, como quase todos nós, não passará à história. Morreu no começo deste ano. Dele nada sabia e nada continuo a saber (estas notas são mal copiadas), não fora o bizarro testamento que deixou. Ordenou ser cremado. As cinzas deveriam ser, e certamente foram, espalhadas ao longo do percurso do autocarro da linha 14 que atravessa a Mission. Mas uma parte teria de ser, e foi, reservada para se fumar nos charros oferecidos a quem viesse ao seu funeral.<br />
Lembrei-me de Keith Richards, o rolling stone que distraidamente fumou o pai. E fiquei a pensar que aos nossos mortos, mesmo aos nossos queridos mortos, já é tempo de deixarmos de os enterrar. Passemos mas é a fumá-los.</p>
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		<title>Fast Times muito devagarinho</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Jun 2011 16:24:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Em certos comentários, de certos autores deste blog, a  este post, pôs-se em causa a real existência da atribulada e pouco virtuosa história da Princesa Caraboo, alegando-se a tendência esquizo do autor do post para uma descabelada fantasia e um compulsivo tratamento falsário de tudo o que seja factos. Pois embora o tal post seja todinho verdade, não deixa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-large wp-image-29561" title="01_phoebe-cates_01" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/01_phoebe-cates_012-500x281.jpg" alt="" width="500" height="281" /></p>
<p style="text-align: justify;">Em certos comentários, de certos autores deste blog, a  <a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/06/a-princesa-caraboo/#comments">este post</a>, pôs-se em causa a real existência da atribulada e pouco virtuosa história da Princesa Caraboo, alegando-se a tendência esquizo do autor do post para uma descabelada fantasia e um compulsivo tratamento falsário de tudo o que seja factos. Pois embora o tal post seja todinho verdade, não deixa de ser muito pouco canónica a forma como o autor chegou à fala com a desgraçada Princesa.</p>
<p style="text-align: justify;">Como o autor do supracitado post sou eu e não é o Jardel, antigo ponta de lança do FCP, tomo a liberdade de me deixar de literaturas e usar a primeira pessoa do indicativo. Só descobri a Princess Caraboo por causa da Phoebe Cates, a actriz que a interpretou no cinema. A Phoebe era uma jovem de esplêndidos 20 anos (um nadinha mais) quando fez o <em>Fast Times in Ridgemont High</em>, um filme que eu, tinha então a idade dela (vá lá, um nadinha mais), meti no ciclo Coppola em Contexto que o João Bénard, benevolente e a ver no que aquilo dava, me deixou fazer na Cinemateca e na Gulbenkian. Eu fiz o ciclo e ela fazia uma coisa no filme pela qual há-de ganhar o céu: saía da piscina com mais curvas do que o Mónaco metidas num bikini vermelho e, de repente, num daqueles repentes de exasperante lentidão, tirava, de frente para a câmara, o vermelhíssima parte de cima do bikini. Foi nesse dia, nesse preciso segundo, que eu descobri que <strong>não respirar é bom</strong>. Descobri eu e a sala toda, passando a valorizar o <em>Fast Times </em>com um prestígio crítico inabalável, apesar de também, nesse filme, ter começado a carreira de Sean Penn.</p>
<p style="text-align: justify;">Fui matar saudades da cena e saiu-me a Caraboo. Há mesmo bens que vêm por bem.</p>
<p style="text-align: justify;"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/PqMIfeTc-CM?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/PqMIfeTc-CM?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
]]></content:encoded>
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		<title>A Princesa Caraboo</title>
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		<pubDate>Sun, 12 Jun 2011 01:26:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[História Particular da Infâmia]]></category>

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		<description><![CDATA[Julgo que das colinas de Almondsbury não se chega a ver o mar. Mas foi do mar que ela chegou. Tão vestida como os resquícios de Inverno ainda exigiam, tão despida como o doce augúrio de Primavera autorizava. O que a vestia e o que a despia tinha a estranheza da “peregrina formosura” de um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-full wp-image-29523" title="caraboo" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/caraboo.jpg" alt="" width="204" height="260" /></p>
<p style="text-align: justify;">Julgo que das colinas de Almondsbury não se chega a ver o mar. Mas foi do mar que ela chegou. Tão vestida como os resquícios de Inverno ainda exigiam, tão despida como o doce augúrio de Primavera autorizava. O que a vestia e o que a despia tinha a estranheza da “peregrina formosura” de um soneto camoniano. “<em>Vem de longe, talvez deva ir para longe</em>”, foi o que pensou, bem acima do seu chinelo, o sapateiro inglês que primeiro a viu.<br />
Corria o século XIX, o temperado ano de 1817, e um mês antes vozes iradas e pernambucanas tinham-se levantado, do outro lado do Atlântico, contra o execrável domínio português. Se era português, uma algaraviada moura, ou papua o que donzela falava foi o que pareceu indecifrável ao plácido remendão. Chamou a mulher e entregou-lhe aqueles aparentes, descalços e visivelmente opulentos 20 anos, oscilando entre a mendicidade e a realeza.<br />
Mas triste continuava quem de longe quis ventura: a mulher percebeu, da outra e estranha, o que o marido já percebera, o mesmo exacto nada. Foram juntos e entregaram-na às autoridades, mais precisamente ao <em>Overseer of the Poor</em>, cargo que, na sequência das Guerras Napoleónicas, fora criado para punir, mais do que prevenir (ó meu triste e incompreendido Foucault!), a deambulante pobreza e vagabundagem.<br />
Só que para a autoridade do pobre Mr. Hill, o único habitante de todo o condado de Gloucestshire a usar lunetas, e tanto subindo-as como deixando-as deslizar até à ponta do nariz, era menos do que chinês o que aos ouvidos lhe chegava da boca da nervosa e terrivelmente fatigada rapariga. Uma bela e definida boca, informe-se, contrastando no seu naturalismo com o artifício do turbante escuro em que se recolhia o cabelo negro e espesso da jovem.</p>
<p style="text-align: justify;">Lembrou-se a pequena e agitada multidão, entretanto junta, que não só Mr. Worral (proprietário da mansão que encimava a aldeia, como alguém que graciosamente se põe em bicos de pés para corroborar uma esquecida hierarquia) – não só, dizia, Mr. Worral era um magistrado competente, como era casado com Mrs. Worral, americana viajada e que tinha, como dama de companhia, uma descendente de Safo. A criada grega, como plebeia e invejosamente a tratavam, falava várias línguas. Entregaram, por isso, a moça desnuda à prova do poliglotismo da grega. Do latinório levado da breca que se seguiu resultou mais esquiva, enleada e abismada perplexidade. Sei eu o que se passou? Sabe a mediterrânica Eugénia de Vasconcellos, sabe o açoriano Pedro Norton? Digo-vos: nem o cearense Ruy Vasconcelos.<br />
Mr. Worral, da escura desconfiança, depressa passou ao claro e vulcânico lume da esperança. Quis ver-lhe as mãos, as palmas, as unhas, falanges, falanginhas e falangetas, as polpas que imprimem. Tinha-as, palmas, nódulos e polpas, macias como as de uma, do canto nono, ninfa. É-me simpática a ligeira secura em que se afogou por segundos a garganta curta de Mr. Worral.<br />
A aldeia tomou conta da misteriosa e incomunicada jovem. Por gestos dela e gestos deles foram desbravando o desconcerto que era o mundo que por acidente os juntara. Ela. Só comia vegetais, só bebia água e chá. Não parecia saber a função de uma cama, mas rezava, de joelhos, uma mão sobre os olhos durante a ininteligível oração. A que deuses? Será que a demónios? Pensavam eles.</p>
<p style="text-align: justify;">Os Worrall, e em particular o pigarreante Mr. Worral, ferviam de curiosidade: donde vinha e quem era aquela mulher exótica com traços tão europeus? Ao fim de dez dias, tirando esse vem não sei como e aquele dói não sei porquê que a todos nos faz irmãos, só tinham uma palavra em comum – “ananás”. Gritara-a a jovem, dedo em riste, apontando para o desenho de um que ilustrava uma parede da estalagem, o que mais alicerçou a ideia de longe exótica origem, onde se comem <em>crudas las carnes</em> e se bebe <em>viva la sangre</em>.<br />
Durante dez dias, espalhada a notícia, foram chegando viajantes. E foi já em Bristol, nos escritórios de Mr. Worral, que Manuel Enes, nascido em 1785, marinheiro português, ribatejano, pai de Vale Paraíso, mãe de Pontével, teve o engenho e a bem-aventurança de acabar com o sofrimento dela e a ignorância deles.<br />
Manuel falou com ela. Os ingleses ouviram de ambos a bárbara fala, frases curtas, risos rápidos, a concordância gestual. No fim, o mistério teve um honesto desfecho. Ela, disse ele, era Caraboo, princesa da ilha de Javasu algures no Índico. Tinham-na raptado os pérfidos piratas da pérfida Albion. Após tormentosa viagem – e sê-lo-ia sempre por mais que os piratas se arrogassem o mais puro código cavalheiresco – à vista de terra que o Bristol Channel lhe concedia, furtando-se à vigilância dos perna de pau, lançara-se ao mar e nadara para terra.<br />
O desembaraço da competente língua do português envergonhou a reclamada ductilidade das papilas gustativas da grega (não me digam que já se tinham esquecido da criada?!). Enes foi cumulado de prendas e jantares supinos. E partiu.</p>
<p style="text-align: justify;">A princesa viveu então dias de glória. Tudo lhe era permitido: danças exóticas, banhar-se nua no lago. Começou mesmo a escrever na sua língua nativa. Mr. Worral mandou essas delícias textuais para análise em Oxford. Não demorou, para encanto de todos, que a resposta chegasse confirmando-se ser “humbug” a língua escrita por Caraboo.<br />
<em>Humbug, my ass,</em> e façam o favor de se catar em Oxford: dias depois, já a Princesa se convertera numa figura nacional, tudo se descobriu. Uma senhora de Bristol reconheceu em Caraboo a jovem que alojara há pouco tempo e que tinha o hábito de falar às suas filhas com uma linguagem inventada. Um divertido mariolas veio também dizer que numa estalagem próxima comera com Caraboo um tenro bife regado a rum. Caraboo era, de facto, Mary Wilcocks, nascida de família pobre em Witheridge, Devon.<br />
Os Worral, Mr e Mrs, mais a criada grega, caíram-lhes os parentes na lama, uma venenosa humilhação a enlamear-lhes a fímbria dos helénicos mantos.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais do que contar os prodigiosos feitos que se seguiram e que precederam esta história infame, há um mistério a elucidar: quem era Manuel Enes, como é que apareceu nesta história, porque raio deu ele crédito e combustível a Mary que, crê-se, nunca vira mais nova? Mais do que procurar vantagens, ter-se-á Manuel animado com o insólito da situação, a doçura do fingimento e do embuste? Terá regressado ao Ribatejo ou partido definitivamente para as Índias, essa terra que o poeta disse “<em>mãe de vilões ruins e madrasta de homens honrados</em>”?  Se morreu, o que provavelmente fez há mais de século e meio, nem as Juntas de Freguesia, nem as igrejas de Vale Paraíso ou Pontével lhe guardam certidões desse tão certo óbito.</p>
<p><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/rZhSGyKYcSc?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/rZhSGyKYcSc?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
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		<title>DSK e o rei</title>
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		<pubDate>Wed, 08 Jun 2011 08:09:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O filósofo alemão Peter Sloterdijk perorou alegremente, e com vasto foguetório simbólico, sobre o caso Strauss-Kahn, em entrevista à Le Point. O filósofo invoca a existência de um inconsciente colectivo monárquico francês que continuaria a valorizar os poderes miraculosos do esperma do rei. Contrasta-o depois com o falso igualitarismo norte-americano, cuja perversão é para ele [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-full wp-image-29388" title="m-LOUIS_XIV" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/m-LOUIS_XIV.jpg" alt="" width="352" height="500" /></p>
<p style="text-align: justify;">O filósofo alemão Peter Sloterdijk perorou alegremente, e com vasto foguetório simbólico, sobre o caso Strauss-Kahn, em <a href="http://www.lepoint.fr/grands-entretiens/sloterdijk-dsk-le-sexe-et-l-imaginaire-francais-02-06-2011-1337673_326.php">entrevista à Le Point</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">O filósofo invoca a existência de um inconsciente colectivo monárquico francês que continuaria a valorizar os poderes miraculosos do esperma do rei. Contrasta-o depois com o falso igualitarismo norte-americano, cuja perversão é para ele bem evidente no modo como DSK foi objecto de uma clara desigualdade de tratamento fundada na sua celebridade: no essencial foi tratado pela contemporânea capa de costumes feminista como um “celerado” o seria pelos jacobinos iluministas.</p>
<p style="text-align: justify;">A entrevista corre solta, irreverente e diletante, mas há um ponto de fundo que exige reflexão, e cito: “… o paradoxo fundamental da modernidade é o de querer democratizar o privilégio.”</p>
<p style="text-align: justify;">Uma angústia: e nós, portugueses, que raio de inconsciente sexual colectivo é que temos: também temos, à francesa, o segredo do esperma real, ou erguemos o estandarte da banalidade democrática em que não há ungidos, nem preferidos?</p>
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		<title>A porta do paraíso</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Jun 2011 22:16:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[  Se aos 20 anos, no escuro do cinema, quisesse deslizar a mão acima do joelho, por baixo da tua saia, não te levaria a ver, de Terrence Malick, “Tree of Life”. É um filme complicado e simples. Filma a infância de três miúdos, pai e mãe, no Texas dos anos 50. Filma-lhes o medo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> <img class="aligncenter size-full wp-image-29365" title="tree-of-life-movie-image-brad-pitt-05" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/tree-of-life-movie-image-brad-pitt-05.jpg" alt="" width="600" height="400" /></p>
<p style="text-align: justify;">Se aos 20 anos, no escuro do cinema, quisesse deslizar a mão acima do joelho, por baixo da tua saia, não te levaria a ver, de Terrence Malick, “Tree of Life”.</p>
<p style="text-align: justify;">É um filme complicado e simples. Filma a infância de três miúdos, pai e mãe, no Texas dos anos 50. Filma-lhes o medo e a alegria, vida e morte. Nos filmes habituámo-nos a que a vida faça sentido. Neste, o sentido das personagens não cabe nem se resolve na vida deles. Mas é um filme belo e simples como a mão sobre a redonda doçura de um joelho.</p>
<p style="text-align: justify;">“Tree of Life” tem sede e fome de sentido: sede cósmica; fome metafísica. Não lhe basta filmar uma família. Filma – como o Kubrick de “2001”, dirão e mentem – a origem delirante de céu e terra, a luz bruxuleante, quase nada, onde começámos (que é o nada? o que é começar?) até à obscena explosão de vida a que chamamos natureza. É um turbilhão exaltante, mas já não é tão simples: tiro a mão, retrais o joelho.</p>
<p style="text-align: justify;">Repito: a matéria de “Tree of Life” é o <strong>sentido</strong>. A de “Apocalypse Now”, lembram-se, era o rio; a de “Eyes Wide Shut” a impotência. Malick filma o infilmável: o sentido da vida, da dor, da felicidade. Aceitemos a ilusão de que o centro do filme é Jack, o irmão mais velho. Jack diz palavras terríveis à <strong>ausência de sentido</strong>. Trata-a por Tu maiúsculo e, quando procura a graça, sufocado de fé como Job na Bíblia, diz-lhe “Quem somos nós para Ti?” Mas o que deveria perguntar é “Sem Ti, o que é que nós somos para nós?” O silêncio desse invisível Tu, Deus talvez, é pavoroso e o vazio deste “pedaço” de filme é de uma espantada complicação.</p>
<p style="text-align: justify;">“Tree of Life” não conta uma história. Malick começa a filmar as suas personagens onde “East of Eden” ou “Rebel Without a Cause” as deixaram nos anos 50. Elia Kazan e Nicholas Ray já tinham contado as histórias de amor e ódio ao pai, desejo da mãe, mortais ciúmes de um irmão. Malick filma sobre as ruínas e fragmentos desses “clássicos”: exibe o cruel tiro dum irmão no dedo doutro irmão, mostra o nariz do rapaz que cheira e acaricia a <em>lingerie</em> da vizinha. Filma o perplexo Sean Penn como se o presente dele fosse uma mão e o passado lhe escorresse pelos dedos entreabertos. Presente que o passado infecta de sentido.</p>
<p style="text-align: justify;">“Tree of Life” precisa da cara amargurada do pretensioso Sean Penn para nela desaguarem as cenas familiares dos anos 50, troços de <em>home movie</em> em que até a felicidade é filmada com a aura da infelicidade. Mas a glória de “Tree of Life” é a cara de Brad Pitt, pasmosa criação de pai abraâmico, e é a cara de Hunter McCraken, o miúdo que, no belíssimo desenho da infância de Jack, desenha a nostalgia da inocência e a patética vontade do paraíso. Ou não fosse a porta do cinema a porta do paraíso a que se acolhe uma mão, a lisa pele de um joelho.</p>
<p style="text-align: center;"><em><object width="480" height="295"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/WXRYA1dxP_0?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/WXRYA1dxP_0?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="295" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></em></p>
<p style="text-align: center;"><span style="background-color: #ffff00;"><em>Publicado no Atual do “Expresso” a 3 de Junho. Na próxima 6ª, lá estarei: junto-me a um bando de actores para fazermos karaoké</em></span></p>
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		<title>Apelo ilegal ao voto</title>
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		<pubDate>Sat, 04 Jun 2011 16:02:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Bem sei que a hora é de reflexão e lailailai como se diz na Sardenha. Mas mesmo com o meu fatinho de primeira comunhão, venho aqui fazer apelo ao voto e tentar influenciar a sábia e dominical decisão dos leitores deste cemitério com idade de eleitores (serão poucos, sabido que em particular os nossos comentadores têm [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-full wp-image-29330" title="chesterton" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/chesterton.jpg" alt="" width="199" height="254" /></p>
<p style="text-align: justify;">Bem sei que a hora é de reflexão e lailailai como se diz na Sardenha. Mas mesmo com o meu fatinho de primeira comunhão, venho aqui fazer apelo ao voto e tentar influenciar a sábia e dominical decisão dos leitores deste cemitério com idade de eleitores (serão poucos, sabido que em particular os nossos comentadores têm linda idade adolescente).</p>
<p style="text-align: justify;">No momento de votar, lembrem-se deste diálogo de C. K. Chesterton: “O que é que preferes? Um anti-semita ou um filo-semita?” “Olha, antes um anti-semita, ao menos sei que não me está a mentir!”</p>
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		<title>O elogio do mal</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Jun 2011 08:23:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ao contrário de Lars von Trier não compreendo Hitler. Parece-me metade duma moeda. Ele é a cara, Estaline a coroa. O cortejo de horrores deles esmagou um século. Mas gosto de vilões. E hoje louvo esses injustiçados que são o bife da melhor ficção. Como se fosse dia de Eva, maçã e serpente. Dia da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><img class="aligncenter size-medium wp-image-29295" title="hitler" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/hitler-300x224.jpg" alt="" width="300" height="224" /></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Ao contrário de Lars von Trier não compreendo Hitler. Parece-me metade duma moeda. Ele é a cara, Estaline a coroa. O cortejo de horrores deles esmagou um século.<br />
Mas gosto de vilões. E hoje louvo esses injustiçados que são o bife da melhor ficção. Como se fosse dia de Eva, maçã e serpente. Dia da Moby Dick, a baleia branca, senhora assassina dos mares. Dia de Lady Macbeth que invoca espíritos para que não a corrompa a menor réstia de piedade.ó mulheres?</p>
<p style="text-align: justify;">Homens, também. Harry Powell (o cansado Robert Mitchum), que mata viúvas para maior glória de Deus e, no <em>Night of the Hunter</em>, persegue implacável, rio abaixo, um par de crianças inocentes.<br />
Pior do que Mitchum só Lee Marvin. Mau como as cobras? Dizer isso ou dizer nada é quase a mesma coisa. Moralizo dizendo que é cínico e sem escrúpulos. Não lhe estou a fazer justiça. Os maus de Marvin são muito físicos: gostam de fazer doer, magoar alguém na carne, desfigurar em <em>Big Heat</em> a cara da narcísica Gloria Grahame vazando-lhe em cima o café a ferver da cafeteira ao lume, para que jamais se volte a ver ao espelho. Só há uma forma de nos livrarmos de tanto mal, ámen: é matá-lo. E Marvin morre como um canalha em <em>Big Heat</em> e em <em>Liberty Valance</em>. Em <em>Man Hunt</em>, Fritz Lang também tentou matar Hitler: falhou o tiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o mal de que mais gosto e sempre gostarei é o de Emma. Emma Small, a outra mulher de <em>Johnny Guitar</em>, western em que duas mulheres, ela e Vienna, são as protagonistas em duelo.<br />
Emma (Mercedes McCambridge) é o mais feliz rosto do ódio. Nervosa, agitada, com voz estrídula e na boca um riso, esgar quase sorriso, do prazer de tanto odiar. Em <em>Johnny Guitar</em>, Emma só tem um objectivo: destruir Vienna (Joan Crawford), a dona do saloon. Quer acusá-la de assaltos que sabe que Vienna não fez e manobrar os homens para a enforcarem. Vinda da escuríssima noite, chega de negro e, na mais horrível e doce cena do filme – está Vienna de branco ao piano – Emma tem uma luciferina luz a dançar-lhe nos olhos: “<em><strong>No, I’m not satisfied</strong></em>”, grita. Nunca, nunca estará satisfeita. A não ser quando, fogo posto, as chamas irrompem e consomem o salão. É então que Emma sai de novo para a noite escura, às arrecuas, para ver melhor cada milímetro de destruição e se voltar, já em muito grande plano, oferecendo-nos o rosto afogueado, olhos em brasa, o tão perfeito e feliz sorriso desenhado nos pérfidos lábios.</p>
<p style="text-align: justify;">O mal é o intenso brilho desse rosto, o frémito que lhe faz estremecer o corpo, lhe faz estremecer a íntima e láctea carne que as negras roupas tapam. Assusta que seja tão bonito o mal. Assusta mais porque poderia ser o sacudido riso, o frémito de cada um de nós. E é belo.<br />
Hitler está preso à histeria da pompa e parada fascista, Estaline ao atroz e indigente realismo socialista: não há estética que os resgate.</p>
<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-full wp-image-29297" title="Johnny-Guitar-4" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/Johnny-Guitar-41.jpg" alt="" width="500" height="375" /></p>
<p><span style="background-color: #ffff00;"><em>Publicado no Atual do “Expresso” em 28 de Maio. Parte do tema já passara aqui pelo cemitério. No “Expresso” desta semana agarro-me aos ramos da árvore de Malick. A ver se sobrevivo. </em></span></p>
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		<title>Ricardo Reis leitor de Pierre Louÿs</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Jun 2011 23:43:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Organizada por Jean-François Revel, com primeira edição em 1984, na Robert Laffont, “Une Anthologie de la Poésie Francaise”é a mais apaixonada recolha poética que conheço. Quase todos os poemas que lá estão são obras-primas. E os que o não são, são ainda assim poemas admiráveis rasgados por uma emoção lírica e por uma sensibilidade de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-medium wp-image-29248" title="Eros" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/Eros-300x568.jpg" alt="" width="300" height="568" /></p>
<p style="text-align: justify;">Organizada por Jean-François Revel, com primeira edição em 1984, na Robert Laffont, “<em>Une Anthologie de la Poésie Francaise</em>”é a mais apaixonada recolha poética que conheço. Quase todos os poemas que lá estão são obras-primas. E os que o não são, são ainda assim poemas admiráveis rasgados por uma emoção lírica e por uma sensibilidade de pele, em primeiro grau. O único critério foi a escolha estética do autor, sem cuidar de escolas, movimentos, didactismos ou representatividades particulares.</p>
<p style="text-align: justify;">Por capricho do alfabeto, exactamente a meio do livro, está “Psyché”, de Pierre Louÿs. É um poema de calma volúpia e recordação. Leiam:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Psyché, ma soeur, écoute immobile, et frissonne…<br />
Le bonheur vient, nous touche et nous parle à genoux<br />
Pressons nos mains. Sois grave. Écoute encor…Personne<br />
N’est plus heureux ce soir, n’est plus divin que nous.</em></p>
<p><em>Une immense tendresse attire à travers l’ombre</em><br />
<em>Nos yeux presque fermés. Que reste-t-il encor</em><br />
<em>Du baiser qui s’apaise et du soupir qui sombre?</em><br />
<em>La vie a retourné notre sablier d’or.</em></p>
<p><em>C’est notre heure éternelle, éternellement grande,</em><br />
<em>L’heure qui va survivre à l’éphémère amour</em><br />
<em>Comme un voile embaumé de rose et de lavande</em><br />
<em>Conserve après cent ans la jeunesse d’un jour.</em></p>
<p><em>Plus tard, ô ma beauté, quand des nuits étrangères</em><br />
<em>Auront passé sur vous qui ne m’attendrez plus,</em><br />
<em>Quand d’autres, s’il se peut, amie aux mains légères,</em><br />
<em>Jaloux de mon prénom, toucheront vos pieds nus,</em></p>
<p><em>Rappelez-vous qu’un soir nous vécûmes ensemble</em><br />
<em>L’heure unique où les dieux accordent, un instant,</em><br />
<em>À la tête qui penche, à l’épaule qui tremble,</em><br />
<em>L’esprit pur de la vie en fuite avec le temps.</em></p>
<p><em>Rappelez-vous qu’un soir, couchés sur notre couche,</em><br />
<em>En caressant nos doigts frémissants de s’unir,</em><br />
<em>Nous avons échangé de la bouche à la bouche</em><br />
<em>La perle impérissable où dort le Souvenir.</em></p>
<p style="text-align: justify;">O poema entrou-me dócil nas veias. Minutos depois soube que da última quadra, <em>imperecível pérola de boca a boca trocada</em>, os versos eram, como se diz de filmes e livros, versos da minha vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Sentia-os tão familiares e a todo o poema. De repente, pensei em Pessoa e lembrei-me das Odes de Ricardo Reis. Era tarde, a ler já na cama, e em vez da acareação que exigia sonâmbula pesquisa, voltei ao poema. Dormi com ele. Mas hoje, não resisti. Sabia que Psyché era «<em>sœur immobile</em>» de Lídia, prima dessa Neera a quem Reis diz, «…<em> passeemos juntos só para nos lembrarmos disto</em>”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas que interessaria encontrar semelhanças, o mesmo timbre, a mesma religião neo-pagã, se Fernando Pessoa, o mistificador de Reis, nunca tivesse lido o poema. E é essa a questão: teria Pessoa, nos anos 10 e 20 do século passado, ao criar os poéticos heterónimos, lido o poema que Louÿs terá escrito no final do século XIX, 20 a 30 anos antes? Fui <a href="http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/bdigital/index/index.htm">aqui, a este louvável local</a> onde a Casa Pessoa disponibiliza toda a biblioteca do escritor, e consultei a lista dos autores que Pessoa tinha em casa. Pierre Louÿs não consta. Ora bolas, falso alarme, caso encerrado.</p>
<p style="text-align: justify;">Gosto de perder, não me importo, salvo comigo mesmo. Fui ver títulos. Apareceu-me um <a href="http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/bdigital/8-48">“<em>L’Amour dans la Poésie Français</em>e”</a>, assinado por Gabriel Boissy e Dominique Folacci, com subtítulo prometedor: “<em>Essai suivi d’un recueil de les Plus Beaux Poèmes d’Amour</em>”. Uma edição de Arthéme Fayard, sem data. E a parte vencida de mim logo disse, entre dentes e ressentida: Bingo. Online, percorri o livro página a página. No ensaio, uma breve referência a Louÿs. Demasiado curta, pareceu-me. Segui para os poemas. Passei a Idade Média, a Renascença, o Classicismo. Pensei, e mesmo que haja um poema de Louÿs porque raio haveria de ser “Psyché”? Outra vez bingo! Estava Louÿs e o único poema dele era o que acima leu quem até aqui continuou a ler.  </p>
<p style="text-align: justify;">Agora sim, já podia ir reler as odes ricardianas. Bastaria que se sentasse Lídia:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.<br />
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.<br />
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos<br />
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.<br />
(Enlacemos as mãos).</em></p>
<p><em>Depois pensemos, crianças adultas, que a vida</em><br />
<em>Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,</em><br />
<em>Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,</em><br />
<em>Mais longe que os deuses.</em></p>
<p><em>Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.</em><br />
<em>Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.</em><br />
<em>Mais vale saber passar silenciosamente</em><br />
<em>E sem desassossegos grandes.</em></p>
<p><em>Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,</em><br />
<em>Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,</em><br />
<em>Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,</em><br />
<em>E sempre iria ter ao mar.</em></p>
<p><em>Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,<br />
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,<br />
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro<br />
Ouvindo correr o rio e vendo-o.</em></p>
<p><em>Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as</em><br />
<em>No colo, e que o seu perfume suavize o momento —</em><br />
<em>Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,</em><br />
<em>Pagãos inocentes da decadência.</em></p>
<p><em>Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois</em><br />
<em>Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,</em><br />
<em>Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos</em><br />
<em>Nem fomos mais do que crianças.</em></p>
<p><em>E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,</em><br />
<em>Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.</em><br />
<em>Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,</em><br />
<em>Pagã triste e com flores no regaço.</em></p>
<p style="text-align: justify;">O poema de Reis ecoa o mesmo tranquilo paganismo que de “Psyché” se evola. As mãos que o poeta com Lídia enlaça, rimam com esse grave “<em>pressons nos mains</em>” que a felicidade do segundo verso de Louÿs exige. E essa vida que passa e não fica, que “<em>Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado, Mais longe que os deuses</em>”, que outra coisa é se não a Hora de Louÿs, <em>“…</em><em> notre heure éternelle, éternellement grande, L’heure qui va survivre à l’éphémère amour</em>”?</p>
<p style="text-align: justify;">Reis segue Louÿs no mesmo culto do instante que, por consentimento dos deuses, se converte em “<em>esprit pur de la vie en fuite avec le temps</em>”. Na imitação ricardiana essa fuga com o tempo é o “<em>momento em que sossegadamente não cremos em nada, Pagãos inocentes da decadência</em>”.</p>
<p style="text-align: justify;">Há uma sombra de ternura que nimba os dois poemas: “<em>Une immense tendresse attire à travers l’ombre Nos yeux presque fermés</em>”, em Louÿs; e que em Ricardo Reis se diria que “<em>Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova, Porque nunca enlaçamos as mãos</em>.”</p>
<p style="text-align: justify;">E as quadras finais dos dois poemas confirmam todas as rimas anteriores, propondo-se como variações sobre o mesmo mote: o “<em>Souvenir</em>” que se esconde na “<em>perle imperissable</em>” de Louÿs, a “<em>suave memória de ti, pagã triste e com flores no regaço</em>“ de Reis. Em ambos ma mesma altiva indiferença perante a morte e o tempo; em ambos o mesmo exaltado amor ao instante em que, holograficamente, resumem a eternidade.</p>
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		<title>As Flores do Mal, as minhas</title>
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		<pubDate>Tue, 31 May 2011 23:04:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Fez há um minuto 154 anos que Baudelaire publicou Les Fleurs du Mal. Julguei que tinha uma velha edição da Gallimard, capa branca. Já dei volta a tudo e nada. Dou-a, sequelas do colonialismo, por perdida. Terá ficado entre o Lobito e Luanda nos idos de 70. E também não encontrei, dumas maravilhosas edições portuguesas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_29215" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-29215" title="5414769399_cba8ba343e" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/5414769399_cba8ba343e-300x493.jpg" alt="" width="300" height="493" /><p class="wp-caption-text">Onde é que páras que não te encontro?</p></div>
<p style="text-align: justify;">Fez há um minuto 154 anos que Baudelaire publicou <em>Les Fleurs du Mal</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Julguei que tinha uma velha edição da Gallimard, capa branca. Já dei volta a tudo e nada. Dou-a, sequelas do colonialismo, por perdida. Terá ficado entre o Lobito e Luanda nos idos de 70. E também não encontrei, dumas maravilhosas edições portuguesas desse tempo, uns livros pequenos, rectangulares ao alto, os Livro B, os de Baudelaire <em>Paraísos Artificiais</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">O que me custa não é tê-los perdido – ainda por cima nesse tempo de espectador activo e maravilhado de ver uma independência nascer e um suave império morrer mesmo à frente dos meus olhos. O que me custa é terem passado 35 anos sem que o <em>spleen</em> de ambos, livros da minha juventude, me tivesse reclamado. Nunca mais ter voltado a lê-los é um remorso que me pesa e corrói.</p>
<p style="text-align: justify;">Voltam, mil anos depois, as recordações deles e vontade ou atrevimento de neles escolher este <em>Spleen</em> como o único poema que hoje, primeiro dia de Junho, quero ler ou ouvir:</p>
<p style="text-align: justify;">J’ai plus de souvenirs que si j’avais mille ans.</p>
<p>Un gros meuble à tiroirs encombré de bilans,<br />
De vers, de billets doux, de procès, de romances,<br />
Avec de lourds cheveux roulés dans des quittances,<br />
Cache moins de secrets que mon triste cerveau.<br />
C’est une pyramide, un immense caveau,<br />
Qui contient plus de morts que la fosse commune.<br />
– Je suis un cimetière abhorré de la lune,<br />
Où comme des remords se traînent de longs vers<br />
Qui s’acharnent toujours sur mes morts les plus chers.<br />
Je suis un vieux boudoir plein de roses fanées,<br />
Où gît tout un fouillis de modes surannées,<br />
Où les pastels plaintifs et les pâles Boucher,<br />
Seuls, respirent l’odeur d’un flacon débouché.</p>
<p>Rien n’égale en longueur les boiteuses journées,<br />
Quand sous les lourds flocons des neigeuses années<br />
L’ennui, fruit de la morne incuriosité,<br />
Prend les proportions de l’immortalité.<br />
– Désormais tu n’es plus, ô matière vivante !<br />
Qu’un granit entouré d’une vague épouvante,<br />
Assoupi dans le fond d’un Saharah brumeux ;<br />
Un vieux sphinx ignoré du monde insoucieux,<br />
Oublié sur la carte, et dont l’humeur farouche<br />
Ne chante qu’aux rayons du soleil qui se couche.</p>
<p><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/6cdqzMoKvBo?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/6cdqzMoKvBo?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
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		<title>A invencível armada</title>
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		<pubDate>Mon, 30 May 2011 21:36:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Há 423 anos, quem de Lisboa tivesse vista panorâmica sobre o Tejo teria contemplado, a sair de Belém, naquele movimento majestoso que antecipa a glória, o último galeão da Grande y Felícisima Armada. Sob o comando do duque de Medina-Sidónia, segunda escolha, 151 barcos, tripulados por 8 mil marinheiros e embarcando 18 mil soldados, tinham [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-large wp-image-29124" title="ortiz invencible lisboa" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/ortiz-invencible-lisboa-500x375.jpg" alt="" width="500" height="375" /></p>
<p style="text-align: justify;">Há 423 anos, quem de Lisboa tivesse vista panorâmica sobre o Tejo teria contemplado, a sair de Belém, naquele movimento majestoso que antecipa a glória, o último galeão da Grande y Felícisima Armada.<br />
Sob o comando do duque de Medina-Sidónia, segunda escolha, 151 barcos, tripulados por 8 mil marinheiros e embarcando 18 mil soldados, tinham sido reunidos em Lisboa por ordem de Filipe, rei de Espanha e de Portugal.<br />
Nesse ano de 1588, os ingleses cravavam punhais no flanco holandês de Espanha, pondo gasolina, ainda que não soubessem o que gasolina fosse ou viria a ser, na fogueira que as “províncias unidas” dos Países Baixos já traziam incendiada. Para não falar da epilepsia dos mares com que, a corsários, pernas de pau, caveiras e bandeiras negras, os ingleses deram em contaminar o honesto comércio que ligava Espanha aos territórios que, pela graça de pólvora, livro e cruz, se lhes tinham rendido como colónias.<br />
A 28 de Maio, um a um, os barcos começaram a subir o rio em direcção à foz, virando à direita, já no oceano, apontados a norte. Durante dois dias a azáfama foi intensa e o povo viveu-a, grato e excitado. 43 barcos eram portugueses e 3 mil soldados também. Iam, invencíveis, destronar Elizabeth, a primeira Elizabeth, rainha de Inglaterra.<br />
Já cansados da comoção de dois ininterruptos dias, os populares viram partir, quase indiferentes, o último galeão, quatro mastros viris engalanados, quarenta bocas de fogo, o dobro do que teria o mais guerreiro barco da torpe rainha inglesa. Partiam para a glória, com a certeza da vitória. Perderam.<br />
Se tivessem ganho, não existiria Portugal e sabe Deus a que taxas de juro estaria hoje a Inglaterra a pedir resgate à Grande Ibéria.</p>
<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-medium wp-image-29126" title="ca_da_armada_invencible autum rijksmuseum" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/ca_da_armada_invencible-autum-rijksmuseum1-300x147.jpg" alt="" width="300" height="147" /></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
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		<title>O Malick roubou duas cenas à minha rica vida</title>
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		<pubDate>Sun, 29 May 2011 23:08:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[o pasmoso irmão mais velho Vi, em ante-estreia, o filme de Terrence Malick. Hei-de ir ver outra vez. Chama-se “A Árvore da Vida” e ter ou não ganho a Palma de Ouro de Cannes é o lado para que durmo melhor. A verdade é que, contra os meus princípios (que comunguei nos bons tempos com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="mceTemp mceIEcenter" style="text-align: justify;">
<dl id="attachment_29116" class="wp-caption aligncenter" style="width: 480px;">
<dt class="wp-caption-dt"><span style="background-color: #ffff00;"><img class="size-full wp-image-29116" title="1303439178_470x353_movie-the-tree-of-life-wallpaper" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/1303439178_470x353_movie-the-tree-of-life-wallpaper.jpg" alt="" width="470" height="353" /></span></dt>
<dd class="wp-caption-dd"><span style="background-color: #ffff00;">o pasmoso irmão mais velho</span></dd>
</dl>
<p>Vi, em ante-estreia, o filme de Terrence Malick. Hei-de ir ver outra vez. Chama-se “A Árvore da Vida” e ter ou não ganho a Palma de Ouro de Cannes é o lado para que durmo melhor.<br />
A verdade é que, contra os meus princípios (que comunguei nos bons tempos com o bem recordado João César da “Casa Amarela”), não dormi no filme. Gostei muito, mesmo muito, até do que não gostei nada. A ponto de me apetecer escrever, e escrito está há vários dias. A seu tempo, depois do próximo fim-de-semana, há-de ser prosa fúnebre, no nosso ajardinado cemitério.<br />
Mas para este post o que interessa é ter descoberto no filme de Malick dois episódios que são meus, roubadinhos pelo Malick à minha rica vida.<br />
De repente, no filme, surge uma carrinha de caixa aberta com dois depósitos atrás. Lê-se na carroceria: <strong>City of Waco D.D.T.</strong> Não minto, está no trailer! E exactamente como eu <a href="http://www.etudogentemorta.com/2009/11/quando-eu-era-pequenino-2/">aqui vos contei um dia</a> saem nuvens de fumo desses depósitos e os miúdos do bairro mergulham nesse cheiro a vitória que massacrava moscas, mosquitos e toda a espécie de inconvenientes insectos. Sei que hoje é proibido, mas o facto de Malick ter cheirado, inalado, engolido o mesmo Dicloro-Difenil-Tricloroetano em que me envenenei e inocentemente viciei, faz-me pensar que o que perco em singularidade, ganho em boa e genial companhia.<br />
Já me chegava para gostar do filme, eis senão quando o mais velho dos três irmãos que protagonizam o filme, se mete num bosque com o maninho mais novo, de espingarda de chumbos (uma velhíssima pressão de ar) na mão. Dispara para tudo o que não mexe até desafiar o irmão que nele confia cegamente: “<em>pões o dedo à frente do cano?</em>” Ele põe o dedo tenrinho e o mais velho dispara sem piedade, tal e qual como, <a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/04/tinhamos-tanto-tempo-naquele-tempo/">quase no fim deste post</a>, relatei o tiro e o chumbo que me furou a mão esquerda.<br />
Descobri, agora, numa sala de cinema, que a infância dos meus coloniais anos 60 de Luanda copiava alegremente a tristeza com que Malick retratou os anos 50 do Texas da sua infância. Poéticos ambos (ó yé!). Líricos e cómicos os meus, de apertada elegia os dele. </p>
</div>
<p style="text-align: justify;"><span style="background-color: #ffff00;"><em>Ps – quem eu sei que já escreveu seriamente sobre o filme, como sempre ele escreve, foi o PMS. Porque raio é que não replica ele aqui o que anda a tão bem escrever sobre cinema na “Sábado”?</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="background-color: #ffff00;"><em> </em></span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="background-color: #ffff00;"><em><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/XW4cMNue4m8?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/XW4cMNue4m8?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></em></span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Biblioteca itinerante #2</title>
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		<pubDate>Sun, 29 May 2011 16:45:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[O desafio foi do PN. Propôs que desfiássemos a nossa Biblioteca Itinerante. Com uma séria advertência: não queria cá literatura de viagem, queria literatura para viagem. Com a sorna manha que é meu timbre obedeço-lhe. Mas desobedeço-lhe também ao escolher, logo para abrir, um livro que baralha qualquer GPS e para que não há bússola [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-full wp-image-29098" title="y1pyw3EHcXxzx1o8un_8fmN3J42N8HQR4RWlGT_V4si7CS-GsEi1oOdrlOoew27UGdCHlMMQl4JX1c" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/y1pyw3EHcXxzx1o8un_8fmN3J42N8HQR4RWlGT_V4si7CS-GsEi1oOdrlOoew27UGdCHlMMQl4JX1c.jpg" alt="" width="455" height="340" /></p>
<p style="text-align: justify;">O desafio foi do PN. Propôs que desfiássemos a nossa <a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/05/biblioteca-itinerante/">Biblioteca Itinerante</a>. Com uma séria advertência: não queria cá literatura de viagem, queria literatura para viagem.<br />
Com a sorna manha que é meu timbre obedeço-lhe. Mas desobedeço-lhe também ao escolher, logo para abrir, um livro que baralha qualquer GPS e para que não há bússola que nos valha. É o <em>Dictionary of Imaginary Places </em>assinado por <em>Alberto Manguel</em> e <em>Gianni Guadalupe</em>. Gostava, por exemplo, de viajar com as nossas quatro autoras a alguns dos prodigiosos lugares descritos com minúcia e obsessão por Manguel e Guadalupe. Estou a ver-me entrar com a Eugénia e a Teresa no “Castelo Sem Nome” que Diderot ergueu, solitário, algures na costa francesa. A assombrosa porta abre-se lenta e lemos no frontão um presságio de eternidade: “Pertenço a todos e a ninguém; antes de entrares aqui, gentil viajante, já estás aqui e aqui continuarás quando julgares sair.”<br />
Com a Joana e a Marta, visitaria a ilha de Cyril e beberíamos gin com o capitão Kidd. Só se sabe que lá chegámos quando se vê do mar (qual?) sair um fogo do vulcão ou do céu cair densa chuva de estrelas cadentes. É tanto o fogo e a lava que só conseguimos andar guiados pelas lanternas dos únicos habitantes, crianças que vivem e morrem sem nunca envelhecer.<br />
O meu segundo livro é <em>The Atlas of Literature</em>, editado por <em>Malcolm Bradbury</em>. A geografia pode ser a mesma, coordenadas e azimutes coincidentes, mas nem Montaigne entraria sem uma dor de alma nos cafés existencialistas de Paris, nem Sartre dormiria descansado no castelo onde pernoitava Michel Seigneur de Montaigne, Chevalier de l’Ordre du Roy et Gentil-homme ordinnaire de la Chambre. Este Atlas empurra o viajante. É um tipo de empurrão muito raro, a dois tempos: um empurrão no espaço, outro empurrão no tempo. Weimar sim, mas a dos Românticos alemães. A Londres de Shakespeare, mas logo a seguir, outro mundo, a de Dickens. E o Yorkshire selvagem das Brontë terá alguma coisa a ver, um oceano pelo meio, com a Nova Inglaterra de Emerson e Hawthorne?<br />
Com uma risonha, luminosa epígrafe – Pour la Grande Petite Jolie Belle Beauté – <em>Philippe Sollers</em> começa o terceiro livro da minha Biblioteca: o <em>Dictionnaire Amoureux de Venise</em>. Sollers ama Veneza. Com um amor viril e seguro de si: está ali para durar e não há, do corpo de Veneza e da alma de Veneza, uma réstia que ele não visite, que ele não faça chorar de glória. Cruelmente amoroso, faz tudo isso por ordem alfabética, do A da Accademia, com o dedo direitinho logo a tocar a convulsa e materna nudez da “Tempestade” de Giorgione, ao Z de Zattere, o cais em que lua e sol se mostram juntos em perfeita simetria.<br />
Que outros livros, ou parte deles, um conto que seja, me fazem ou fariam viajar? Dou só quatro exemplos, tão humildes de brevidade que nem chegam a ser romances. E para que teriam de ser romances se num parágrafo já inventam um mundo!<br />
A <em>Léah</em>, de José Rodrigues Migués, que me obrigaria a dormir numa <em>chambre à louer</em> de qualquer decadente pensão de Bruxelas com cheiro a fritos e uma brasserie na esquina mais próxima.<br />
Outra vez a Bruxelas, num quarto sobre a Gare du Nord, só por causa de <em>Polícia</em>, conto de <em>Os Passos em Volta</em>, de <em>Herberto Helder</em>. Desde que chovesse, chovesse sempre.<br />
Hei-de ir a Paraíba. Gostava de ir lá, a essa extrema ponta ocidental da América, conhecer <em>Dona Rolinha, </em>do conto homónimo de <em>Agostinho da Silva</em>, essa mulher certa e perseverante no desprezo ao trabalho como forma de subsistência. Há-de estar em João Pessoa, a Dona Rolinha que uma vida inteira esperou o regresso do seu militar a que se prometera em casamento, se casamento fosse de ambos a desistência de “ganhar a vida”, voto de pobreza dos dois (quem sabe, de castidade!), e a oportunidade de ser freira sim, mas fora de um convento.<br />
Gostava de subir o Hudson até às montanhas Kaatskills, “ramo desmembrado da grande cordilheira dos Apalaches”. Lá estaria Rip Van Winkle, rival de Dona Rolinha “na invencível aversão a toda a espécie de trabalho profícuo” e como ela sempre solícito na ajuda a um vizinho necessitado, a um viandante perdido. É ele que, portentosa criação de <em>Washington Irving</em>, depois de beber uma bela garrafa de genebra se vai descobrir <em>O Homem que Dormiu Vinte Anos</em>. Ao contrário de Ulisses, nem o seu cão o espera, nem uma impertinente Penépole tece a malha que lhe aqueça a velhice.<br />
E se a leitura fosse como a garrafa de genebra de Rip Van Winkler e a cada livro saltássemos, num sono ou sonho, vinte anos?</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Todos os nomes são falsos</title>
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		<pubDate>Sat, 28 May 2011 18:20:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Que bela ideia Eugénia este seu post. Eu também não sei quando me comecei a chamar Manuel S. Fonseca, que evidentemente não é o meu nome verdadeiro — como Eugénia não é o seu, ou Norton o do Pedro. Todos sabem que António não pode ser Eça e haver três Vasconcelos e duas (ou talvez [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-large wp-image-29086" title="espectros" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/espectros-500x350.jpg" alt="" width="500" height="350" /></p>
<p style="text-align: justify;">Que bela ideia Eugénia <a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/05/diga/">este seu post</a>.<br />
Eu também não sei quando me comecei a chamar Manuel S. Fonseca, que evidentemente não é o meu nome verdadeiro — como Eugénia não é o seu, ou Norton o do Pedro. Todos sabem que António não pode ser Eça e haver três Vasconcelos e duas (ou talvez não)  Martas, bem mostra a total ficção que é a autoria deste cemitério. Podíamos ser Ulisses, Aquiles, Quixotes, Ofélias e Beatrices, mas seria uma forma demasiado fácil de logo nos ser detectada a pseudonimia. O gigantesco e heróico risco que corremos ao termos escolhido nomes como Teresa Conceição, Navarro, Francisco ou Vasco e haver até um original Leote e mesmo um inusitado Pistacchini (escandalosa e óbvia heteronímia), é o de poder haver uns espectros a caminhar nas ruas do mundo superior que ostentem igual graça e quererem essas ansiosas sombras mergulhar as identidades neste nosso diabético anonimato. Já imaginou, (i)mortal Eugénia, se esses seres civis e reais nos encontram e se põem a respirar dentro dos nossos nomes, convertendo-se no hálito das nossas bocas, no rubro sangue dos nossos quietos ventrículos?</p>
<p style="text-align: justify;">ps — há mesmo quem sustente que todos os autores de um cemitério como este só podem ser um e o mesmo autor, a osteoporética fusão de muitos e diversos ossos que o tempo deixou limpos como mármore. A ser assim, é a Eugénia que me escreve neste post, ou levantou-se uma sonâmbula Joana no seu sono, acordando com estrondo o Ruy? Ou foram os dedos da Marta contra as teclas que fingiram ser Eça e os pés do Navarro a calçarem os sapatos do Vasco? A Teresa, está visto, desenha-se em PN que se fotografa em Leote num guião de PMS. Um Pistacchini nos abençoe enquanto Feijó nos descobre a matemática essência. </p>
]]></content:encoded>
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		<title>A água tudo lava</title>
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		<pubDate>Sat, 28 May 2011 10:37:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[a Gene Tirney de Ford Vou meter-me na cama de Gene Tierney tentando convencê-la com as piores razões. A preto e branco, nos anos 40, Tierney deu o corpo e a alma a “Laura” e foi a terna amante de “The Ghost and Mrs. Muir”. Pensam que as mil cores 3D de “Avatar” são deslumbrantes? [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="mceTemp mceIEcenter" style="text-align: justify;">
<dl id="attachment_29025" class="wp-caption aligncenter" style="width: 460px;">
<dt class="wp-caption-dt"><span style="background-color: #ffff00;"><img class="size-full wp-image-29025" title="tobacco-road" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/tobacco-road.png" alt="" width="450" height="337" /></span></dt>
<dd class="wp-caption-dd"><span style="background-color: #ffff00;">a Gene Tirney de Ford</span></dd>
</dl>
</div>
<p style="text-align: justify;">Vou meter-me na cama de Gene Tierney tentando convencê-la com as piores razões.<br />
A preto e branco, nos anos 40, Tierney deu o corpo e a alma a “Laura” e foi a terna amante de “The Ghost and Mrs. Muir<em>”</em>. Pensam que as mil cores 3D de “Avatar” são deslumbrantes? Vejam o preto e branco de mil cinzentos, vejam a brancura cega da fotografia daqueles filmes e falem-me, depois, de visões e deslumbramentos.</p>
<p style="text-align: justify;">A Gene Tierney que arrasto pelos cabelos não é a desses filmes, nem é ao <em>glamour</em> calculado ou à complexidade psicológica de <em>femme fatale</em> que a quero ir raptar.<br />
Roubo-a a “Tobacco Road<em>”</em>, de John Ford. Contas mal feitas, tem três cenas no filme, diz uma só fala, anda descalça e mal vestida. Mas mexe-se e começam os sarilhos. Se virem como se mexe, percebem porquê.<br />
Situo-vos. Uma família falida: os pais, a filha que é ela e um irmão louco. O cenário é uma casa a cair, árvores nuas, folhas murchas que o vento sopra, poeira que tudo invade. Minto: o cenário é a cara da miséria e a barriga da fome.</p>
<p style="text-align: justify;">Chega o cunhado de Tierney. Queixa-se aos sogros do comportamento da outra filha com que o casaram. Ao ombro traz um saco de nabos. Para o cavernoso apetite deles, um saco de nabos é um repasto <em>gourmet</em>. O cunhado, o compacto Ward Bond, sabe e guarda-o como dragão desconfiado. Mas a fome inspira a Gene uma <span style="background-color: #ffffff;">sexualidade</span> predadora: senta-se no chão e de costas inicia um movimento de réptil na direcção de Bond e dos suculentos nabos, faiscando olhares que esclarecem as baixas intenções dela. O físico de Bond falece e os murmúrios que se lhe ouvem atestam a fraqueza da carne.<br />
É a melhor cena de sedução duma mulher serpente. Gene rasteja pela obscena poeira, oferecendo à vítima o espectáculo das suas costas e do que, no fim delas, é o seu majestoso e redondo trono. Tudo por um saco de nabos.</p>
<p style="text-align: justify;">O trajo de Tierney resume-se a um vestido de chita amarrotado e sujo, como ternamente suja e tisnada traz a perfeição da apetecida e macia carne das pernas. O erotismo de Ford, o de “Quiet Man<em>”</em> cujo beijo Spielberg replicou em “E.T.<em>”</em>, costuma ter ardor romântico. Mas com Tierney, Ford foi buñueliano e tão perverso como o anarquista espanhol. Penso em “Los Olvidados<em>” </em>e “La Joven<em>”</em>, filmes em que a sujidade dá à pele e aos corpos a mancha de humanidade que faz do sexo o verdadeiro sal da terra.<br />
No fim do filme, o cunhado regressa à quinta chorando a fuga da mulher. Os sogros dão-lhe em casamento Gene Tierney, a última filha. Sim, diz ela – é a única coisa que diz no filme – e corre para o mais glorioso plano desse Ford: mergulha as mãos na água e lava-se pela primeira vez, a pele a libertar-se do pó, gotas a deslizarem límpidas por um rosto que antevê a consumação da felicidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Não há nada que a água não lave.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="background-color: #ffff00;">Publicado no Atual do “Expresso” de 21 de Maio. Hoje, tenho um breve encontro com Hitler.</span></em></p>
<div><em><span style="background-color: #ffff00;"> </span></em></div>
<div><em><span style="background-color: #ffff00;"> </span></em></div>
<div><em><span style="background-color: #ffff00;"></span></em></div>
<p><em><span style="background-color: #ffff00;"></p>
<div id="attachment_29026" class="wp-caption aligncenter" style="width: 349px"><img class="size-full wp-image-29026" title="genetierney" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/genetierney.jpg" alt="" width="339" height="425" /><p class="wp-caption-text">a outra Gene Tirney</p></div>
<p> </p>
<p></span></em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Vivian Maier</title>
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		<pubDate>Mon, 23 May 2011 10:53:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[  Desta vez não vou inventar. Não é preciso. Vivian Maier morreu em 2007. Ganhou a sua vida como nanny. Desde 1951, em Nova Iorque e Chicago. Cuidava das crianças dos outros e trazia uma Rolleifelex sempre ao pescoço. Fotografou pessoas. Pessoas na rua. Gostava de lhe ter perguntado porquê. Já a estou a ouvir: [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> <img class="aligncenter size-large wp-image-28843" title="vivian_16" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/vivian_161-500x499.jpg" alt="" width="500" height="499" /></p>
<p style="text-align: justify;">Desta vez não vou inventar. Não é preciso. Vivian Maier morreu em 2007. Ganhou a sua vida como nanny. Desde 1951, em Nova Iorque e Chicago. Cuidava das crianças dos outros e trazia uma Rolleifelex sempre ao pescoço. Fotografou pessoas. Pessoas na rua. Gostava de lhe ter perguntado porquê. Já a estou a ouvir: “Manel, porque é que o menino respira? Não é para não morrer sufocado?” A mim, nunca ninguém me viu respirar, a ela nunca ninguém lhe viu as fotografias. Ninguém as viu em 83 anos de vida dela, Vivian Maier, de mãe francesa e pai austro-hungaro.</p>
<p style="text-align: justify;">Há 4 anos, um agente imobilário, o Senhor John Maloof, decidiu escrever um livro sobre o bairro onde vive. Num leilão comprou uma caixa de negativos. Descobriu, depois, que não eram do seu bairro. Mas ficou de boca aberta com as imagens. Mostrou-as e outras bocas se foram juntando, abertas, à dele. Uma fila de bocas abertas e de olhos comovidos. </p>
<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-large wp-image-28844" title="Untitled, Undated, New York, NY" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/vivian_17-500x499.jpg" alt="" width="500" height="499" /></p>
<p style="text-align: justify;">Li tudo isto na <a href="http://motherjones.com/media/2011/04/vivian-maier-john-maloof">Mother Jones</a>. Fiquei a saber que o Senhor Maloof ficou de tal modo apaixonado que foi a leilão comprar não só os 90 mil negativos que Vivian fez, mas malas com as roupas e os papéis dela. Tem a vida dela em casa. E deixa-nos sentar um bocadinho na <a href="http://www.vivianmaier.com/">sala de visitas</a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-large wp-image-28847" title="56-655" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/56-655-500x500.jpg" alt="" width="500" height="500" /></p>
<p style="text-align: justify;"> Na miséria, Vivian viveu os últimos anos da sua vida sustentada por três pessoas de quem tinha sido a ama. Nenhuma delas sabia da sua paixão pela fotografia. Agora, já se organizam exposições em Chicago, na Noruega e na Dinamarca: “Viva Vivan” era a promoção nos autocarros de Copenhaga. A próxima vai ser em Londres.</p>
<div id="attachment_28848" class="wp-caption aligncenter" style="width: 468px"><img class="size-full wp-image-28848" title="10291" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/10291.jpg" alt="" width="458" height="458" /><p class="wp-caption-text">Vivian Maier ela mesma</p></div>
<p>Tinha um rosto severo. O olhar, se sempre o seu olhar olhava como nas fotografias olha, era de uma ternura discreta. Está em produção um documentário:</p>
<p style="text-align: center;"><iframe src="http://player.vimeo.com/video/23604952" width="480" height="272" frameborder="0"></iframe></p>
]]></content:encoded>
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		<title>As Minhas 3 Mentiras Neste Blog</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/05/as-minhas-3-mentiras-neste-blog/</link>
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		<pubDate>Sun, 22 May 2011 22:22:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[_ Estou a precisar de me confessar para fechar um ciclo e começar outro. Menti-vos. Três vezes. Não sei como é que o Diogo adivinhou que foram três mentiras, mas é que foram mesmo. Explico-me. Não me basta a geografia que existe. O Cabo da Roca ou o Cabo da Boa Esperança, Petrópolis ou Sintra, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-28799" title="lie_to_me_tshirt-p235179761506394450t5tr_400" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/lie_to_me_tshirt-p235179761506394450t5tr_400.jpg" alt="" width="320" height="320" /><span id="__caret">_</span></p>
<p>Estou a precisar de me confessar para fechar um ciclo e começar outro. Menti-vos. Três vezes. Não sei como é que o <a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/05/as-tres-grandes-mentiras/">Diogo adivinhou</a> que foram três mentiras, mas é que foram mesmo. Explico-me.</p>
<p>Não me basta a geografia que existe. O Cabo da Roca ou o Cabo da Boa Esperança, Petrópolis ou Sintra, a floresta do Maiombe ou os mangais da Ilha dos Padres. Comprei por isso, um dia, uma Enciclopédia que me serve de almofada: o <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/03/lindos-livros-2/">Dictionnary of Imaginary Places</a>. Num livro de quase 500 páginas, leio sobre terras, costumes, artefactos, formas de acasalamento imaginadas, a que nenhum limite corta a extensão.</p>
<p>Não me bastam os livros que se publicam. Os já publicados ou a publicar. Fascinam-me livros imaginários, a invenção de livros que os autores já existentes tenham afinal publicado sem que ninguém, a começar por eles, soubesse. <strong>E vamos à primeira mentira</strong>: Atrevi-me eu próprio a revelar, num post, <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/10/um-inedito-de-william-faulkner/">um  conto inedito de William Faulkner</a>. Uma falsidade em que ninguém acreditou e que os meus companheiros de cemitério me perdoaram como se perdoa uma travessura de marmelada ou caramelos espanhóis.</p>
<p>Não me bastam os conflitos do mundo literário e filosófico que existe. A polémica de Assis com Eça à conta do “Primo Basílio”, a esgrima de Popper com um Wittgenstein de tenaz na mão. Gostava que nos bastidores da filosofia e da literatura houvesse figuras infames como o herói de “F for Fake”. <strong>O que me leva à segunda mentira</strong>: Adicto, não me contive e deu-me para <a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/05/louis-herbert-mayall">inventar Louis Herbert Mayall</a>, um filósofo e escritor que ao mérito de não existir junta o mérito de nunca ter escrito uma linha.</p>
<p>Mas, se tudo isto vos confesso, é só para confessar o pecado maior que executei com premeditação de Agosto de 2010 a Março de 2011. <strong>É a terceira mentira</strong>: Inventei um dos “quase autores” deste blog, escrevendo 8 posts do Herói. Sei bem que todos os autores do blog sabiam disso e fingiam que não sabiam só para me darem uma alegria pequenina. “Vá, vá lá, vamos comentar-te como se fosse verdade, como se houvesse Herói. Sabemos bem que és tu, mas faz-te tão bem como se andasses a tomar placebos. Vá lá, engole mais 5 comprimidos.”</p>
<p>Agora, que o médico me deu alta, agradeço aos meus fellowbloggers e confesso o que já sabiam. Não há mesmo Herói, mas inventá-lo foi do que mais me aliviou (ó se percebo quem escreve blogs anónimos!). E já agora, os dois posts dele que mais gozo me deram foram aqueles em que <strong>ele me levou</strong> aos dias e noites de 6 meses de Yellowknife e aos sonhos comprados de Ulan-Bator na Mongólia. Há viagens e lugares que nunca se esquecem. Talvez lá volte.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-28800" title="Seinfeld_Its_Not_A_Lie_If_You_Believe_It-T" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/Seinfeld_Its_Not_A_Lie_If_You_Believe_It-T.jpg" alt="" width="400" height="323" /><span id="__caret">_</span></p>
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		<title>Louis Herbert Mayall</title>
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		<pubDate>Sat, 21 May 2011 23:14:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[História Particular da Infâmia]]></category>
		<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[_ Chamemos-lhe coincidência. Foi em 1986 e o hasard juntou-nos na recepção da Guest House da UCLA. Era a primeira vez dos dois na cidade e protegemo-nos da imensidão de Los Angeles jantando juntos. Eu vinha por Francis Coppola a preparar ciclo e catálogo que faria um ano depois, na Cinemateca e na Gulbenkian; ela [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="mceTemp mceIEcenter">
<div id="attachment_28727" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-28727" title="Colonial picture of elephant " src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/Colonial-picture-of-elephant-tusks-in-Bandundu-DRC1-300x235.jpg" alt="" width="300" height="235" /><p class="wp-caption-text">LHM, à direita, sem gravata</p></div>
</div>
<p><span id="__caret">_</span><br />
<span style="font-family: Times New Roman; font-size: small;"> </span><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: medium;">Chamemos-lhe coincidência. Foi em 1986 e o <em style="mso-bidi-font-style: normal;">hasard</em> juntou-nos na recepção da Guest House da UCLA. Era a primeira vez dos dois na cidade e protegemo-nos da imensidão de Los Angeles jantando juntos. Eu vinha por Francis Coppola a preparar ciclo e catálogo que faria um ano depois, na Cinemateca e na Gulbenkian; ela da Alemanha para uma investigação sobre o Shubert Theatre da Century City. Abancámos no entretanto extinto Alice’s de Westwood e foi assim que soube de Louis Herbert Mayall. Para Kristin, a coisa começara como um hobby revitalizador das rotinas de bibliotecária, mas baralhava agora a sua organização germânica como obsidiante pesquisa alternativa.<br />
Louis Herbert Mayall fora, contou-me Kristin, um pensador e escritor maldito. Nascido em 1880, no seio de família abastada de Indiana, Mayall teve educação requintada e rebelde. Um comportamento heterodoxo para os padrões sociais e morais da época acabou por determinar a sua expulsão da Universidade de Indiana. Graduou-se na Columbia University, em Filosofia, tendo sido aluno de <a href="http://dewey.pragmatism.org/"><span style="color: #0000ff;">John Dewey</span></a>, de quem ficou discípulo e amigo para quase toda a vida.<br />
Ao contrário de Dewey, Louis H. Mayall não tinha vocação pedagógica e era, de natureza, um assistemático. De novo ao contrário de Dewey, a quem, de universidade em universidade, as origens humildes moldaram uma carreira persistente e ascendente, Mayall reunia os meios sumptuários que lhe permitiam cultivar as flores do mal num périplo físico e mental de negligente hedonismo.<br />
Com inteligência de excepção, Louis era dotado de uma capacidade de escrita fulgurante e mimética. Em 1934, Dewey publicou “<a href="http://www.amazon.com/Art-as-Experience-John-Dewey/dp/0399531971/ref=sr_1_1?ie=UTF8&amp;qid=1306017065&amp;sr=8-1"><span style="color: #0000ff;">Art as Experience</span></a>”. Um mês depois, Mayall veio em segredo a casa do filósofo e entregou a Roberta, a segunda mulher, um manuscrito de 15 páginas, combinando com ela que fosse ocultada a origem do misterioso ensaio. (Louis, <em>ça va de soi</em>, tinha uma certa maneira com as mulheres: ao contrário de outros homens, ganhava-lhes tanto mais confiança quanto mais era fidelíssimo amigo dos maridos.) Nesse curto texto, postumamente titulado “Art: Misery and Solitude” Mayall, num estilo petulo-diletante, nega a ideia de experiência e partilha social da arte sustentada por Dewey e fulmina-lhe a função teleológica de celebração de vida e civilização. De raspão, Philip N. Zeltner, no seu “<a href="http://books.google.pt/books?id=nZUFxh9AyscC&amp;pg=PA2&amp;lpg=PA2&amp;dq=John+Dewey's+Aesthetic+Philosophy&amp;source=bl&amp;ots=YpjSV9NAYS&amp;sig=YFPpLS8Tb60a7RVrpLQFSCaaPMQ&amp;hl=pt-PT&amp;ei=UD7YTfSgJoyzhAey_tW8Bg&amp;sa=X&amp;oi=book_result&amp;ct=result&amp;resnum=3&amp;ved=0CDMQ6AEwAg#v=onepage&amp;q&amp;f=false"><span style="color: #0000ff;">John <span style="mso-spacerun: yes;"> </span>Dewey’s Aesthetic Philosophy</span></a>”, desvela o episódio, o conluio de um vago discípulo com Roberta, e a surpresa, primeiro irritada, depois bem humorada, do professor.<br />
Só que Louis Herbert era camaleónico e um mês depois, desta vez através do Professor <a href="http://www.barnesfoundation.org/h_bio.html"><span style="color: #0000ff;">A. C. Barnes</span></a> que patrocinara a escrita da obra, põe nas mãos de Dewey um ensaio de “irónica perversidade” reflexo das “ironic perversities” que o próprio Dewey invocava na primeira linha do primeiro capítulo (The Live Creature) de “Art as Experience”. Em tantas páginas quanto os dedos de uma mão, Mayall devasta a tese do seu professor, segundo a qual a compreensão do sentido da obra de arte exige uma espera que passa pelo esquecimento da obra e um posterior regresso à mesma, um “we must arrive at the theory of art by means of a detour”.<br />
Dewey não gostou da crítica e escavou na areia da praça a este segundo ferro. E pior ficou quando soube que a autoria dos dois textos era do seu diletante discípulo. Parece que, porque não há forma de o confirmar. A proximidade temporal e a cultura biográfica da época barraram qualquer referência ao caso: um biógrafo de 1939, Sidney Hook, omite-o em “<a href="http://www.amazon.com/JOHN-DEWEY-Intellectual-Sidney-Hook/dp/1605203858/ref=sr_1_1?ie=UTF8&amp;qid=1306017678&amp;sr=8-1-spell"><span style="color: #0000ff;">John Dewey, an Intellectual Portrait</span></a>”. E desenganem-se os que esperavam um mundo mais transparente e informado com o triunfo do feminismo: omite-o também, em 2001, Charlene Haddock Seigfried, no “<a href="http://www.amazon.com/Feminist-Interpretations-Dewey-Re-Reading-Canon/dp/0271021608/ref=sr_1_1?s=books&amp;ie=UTF8&amp;qid=1306017813&amp;sr=1-1"><span style="color: #0000ff;">Feminist Interpretations of Dewey</span></a>”.<br />
Preciso de fazer breve a história que já vai longa. Até aqui, quase tudo foi o que me contou a alemã acidental que comigo partilhou um jantar e não voltei a ver. Nas minhas escassas e ocasionais buscas posteriores, nada me assegura que Dewey não tenha perdoado Mayall. Roberta e o Dr. Barnes terão sabido aplacar a filosófica indignação desencadeada pela elegante displicência de um discípulo niilista. Mas Louis Herbert Mayall foi mais longe. Amigo de filósofos, foi também íntimo de escritores, em particular de Hemingway e Fitzgerald. Mayall descobriu Hemingway quando, em 1930, leu na Fortune um artigo dele: “Bullfighting, sport and industry”. Nos Hemingway Papers, consta um postal de Mayall, de 1931, felicitando o escritor pelo nascimento do terceiro filho, Gregory Hancock Hemingway, com uma citação de Whitman: “… the delicious singing of the mother.”<br />
O entusiasmo de Mayall não teve limites quando, em viagem por África, soube da presença de Ernest nas caçadas que dariam origem a “Nas Verdes Colinas de África”. Louis estava na África do Sul envolvido em negócios de marfim. Arranjou maneira de chegar ao Tanganica e juntou-se, por uma semana, ao grupo. Outra extraordinária coincidência é haver duas raras fotos de Mayall (que junto) e ambas serem dessa sua viagem. Na foto de grupo, Hemingway está à direita, ao lado dele Percival, o caçador que o acompanhava, encoberto pelo torcido corno está Louis H. Mayall, e à esquerda Karl o fellow hunter de Percival.</span></p>
<p><span style="font-family: Times New Roman; font-size: small;"> <img class="aligncenter size-medium wp-image-28712" title="Hemingway with Philip Percival in Africa" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/Hemingway-with-Philip-Percival-in-Africa-300x203.jpg" alt="" width="300" height="203" /><span id="__caret">_</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 10pt;"><span style="font-size: medium;"><span style="font-family: book antiqua,palatino;">Do entusiasmo de Mayall não há o mais insignificante ou subtil eco na obra de Hemingway. A biografia “hugely exasperanting” de <a href="http://www.amazon.com/Ernest-Hemingway-Story-Carlos-Baker/dp/B001BS423G/ref=sr_1_2?s=books&amp;ie=UTF8&amp;qid=1306017960&amp;sr=1-2"><span style="color: #0000ff;">Carlos Baker</span></a> não tem sinais de Mayall, nem a contabilidade hostil de <a href="http://www.amazon.com/Hemingway-Biography-Jeffrey-Meyers/dp/0306808900/ref=sr_1_1?s=books&amp;ie=UTF8&amp;qid=1306018042&amp;sr=1-1"><span style="color: #0000ff;">JeffreyMeyers</span></a> se lhe refere. E é preciso muito boa vontade para, nas sombras que Michael Reynold convoca no seu “<a href="http://www.amazon.com/Hemingway-1930s-Michael-S-Reynolds/dp/0393317781/ref=sr_1_3?s=books&amp;ie=UTF8&amp;qid=1306018132&amp;sr=1-3"><span style="color: #0000ff;">Hemingway: The1930s</span></a>”, se vislumbrar a silhueta de Louis Herbert.<br />
A que se deve o apagamento? No seu estilo diletante, Mayall , em 1935, terá feito chegar ao escritor e à Scribner’s Magazine um verde texto sobre as colinas de África com ecos das notas que Hemingway, com viril confiança, lhe mostrara no Tanganica. E, mimético, fê-lo quando a revista se preparava para publicar em folhetins o que depois seria o livro de Hemingway. O escândalo do escritor e dos editores da revista chamuscou Mayall, cujo texto nunca foi, obviamente, publicado. Mas está na UCLA, e foi essa a razão clandestina que trouxe Kristin a Los Angeles estudar uma cadeia de teatros cuja origem e lenda está na Broadway.<br />
A irreverência de Louis H. Mayall parece-me despida de má fé. Não lhe subjaz nenhuma ideia de plágio, nem qualquer tentativa de aproveitamento, material ou intelectual, que seria estranha à sua forma hedónica de encarar a vida intelectual. Porquê, então, terem enterrado o seu nome nas profundas do inferno?<br />
A chave do esquecimento não é a heterodoxia do intelectual ou mesmo a agitada vida sexual, que envolveu pelo menos três abafadas histórias de adultérios, uma das quais com a mulher de outro escritor famoso.<br />
A chave do esquecimento foi a 2ª Guerra, a WWII. Amigo do influente historiador Charles Austin Beard, Mayall apoiou-o numa convicta e militante oposição ao envolvimento dos EUA na Guerra. Beard e Mayall, antigos apoiantes do New Deal, eriçaram-se <a href="http://www.amazon.com/President-Roosevelt-Coming-War-1941/dp/B001QHGFNW/ref=sr_1_3?ie=UTF8&amp;qid=1306018407&amp;sr=8-3"><span style="color: #0000ff;">contra Roosevelt</span></a> e mostraram-lhe todos os bigodes que (não) tinham. Defenderam à outrance o isolacionismo da grande nação americana. Mas a big band da História abafou-lhes o solo lírico e cada um deles pagou duramente a dissensão.<br />
<span style="line-height: 115%; mso-ascii-theme-font: minor-latin; mso-fareast-font-family: Calibri; mso-fareast-theme-font: minor-latin; mso-hansi-theme-font: minor-latin; mso-bidi-font-family: &quot;Times New Roman&quot;; mso-bidi-theme-font: minor-bidi; mso-fareast-language: EN-US; mso-ansi-language: PT; mso-bidi-language: AR-SA;">Beard tinha uma obra e uma carreira. Foi vencido. A graça e a aceitação de Mayall sustentavam-se no seu risonho descompromisso que desgraçou ao anunciar-se como profeta. Foi apagado.<br />
</span></span><span style="font-family: book antiqua,palatino;"><span style="line-height: 115%; mso-ascii-theme-font: minor-latin; mso-fareast-font-family: Calibri; mso-fareast-theme-font: minor-latin; mso-hansi-theme-font: minor-latin; mso-bidi-font-family: &quot;Times New Roman&quot;; mso-bidi-theme-font: minor-bidi; mso-fareast-language: EN-US; mso-ansi-language: PT; mso-bidi-language: AR-SA;">Louis Herbert Mayall morreu a 27 de Julho de 1953. Em Honolulu. Nunca publicou.<br />
</span></span></span></p>
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		<title>Duas pessoas sentam-se</title>
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		<pubDate>Sat, 21 May 2011 00:15:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Imaginemos: duas pessoas sentam-se. Uma em frente à outra. Mas a relação delas “omite o diálogo” para usar a expressão de um escritor argentino e cego. Duas pessoas sentam-se. Põem, uma em frente à outra, dois primitivos silêncios. Ruminam um mundo não espacial, instauram entre elas um vestíbulo de silêncio. Um mundo que não pudesse [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-large wp-image-28666" title="Picasso_Blind_Mans_Meal" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/Picasso_Blind_Mans_Meal-500x523.jpg" alt="" width="500" height="523" /></p>
<p style="text-align: justify;">Imaginemos: duas pessoas sentam-se. Uma em frente à outra. Mas a relação delas “omite o diálogo” para usar a expressão de um escritor argentino e cego.</p>
<p style="text-align: justify;">Duas pessoas sentam-se. Põem, uma em frente à outra, dois primitivos silêncios. Ruminam um mundo não espacial, instauram entre elas um vestíbulo de silêncio.</p>
<p style="text-align: justify;">Um mundo que não pudesse ser falado – ou que não pudesse ser escrito – teria, ainda assim, alguma forma de existência?</p>
<p style="text-align: justify;">Duas pessoas sentam-se. São, uma em frente à outra, duas bocas enlouquecidas pelo silêncio. Duas bocas sentadas, sem extensão ou volume, sem tu nem eu, sem o estremecimento de uma brisa de existência. Não existirmos faz-se de silêncio.</p>
<p style="text-align: justify;">A um mundo não basta ser percepcionado. Tem de ser dito. Falo ou falas e o mundo espacial ganha forma, tigres, as efusivas madressilvas de Borges, a alegria de um rio. O erro de Berkeley foi pensar que ser é ser percepcionado. Qualquer cego sabe que ser é ser dito.</p>
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		<title>O reles e parvo dia a dia</title>
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		<pubDate>Thu, 19 May 2011 08:03:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Dou sempre um salto quando o reles e parvo dia-a-dia aparece no meio de um filme. Lá para metade do “E.T.” de Spielberg, quando já acreditamos em tudo, em extra-terrestres e que há um anjo em cada um de nós, o esverdeado ser de outros mundos dirige-se ao frigorífico. Abre-o e tira uma cerveja. Bebe-a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-full wp-image-28583" title="last-tango-in-paris" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/last-tango-in-paris.jpg" alt="" width="630" height="269" /></p>
<p style="text-align: justify;">Dou sempre um salto quando o reles e parvo dia-a-dia aparece no meio de um filme. Lá para metade do “E.T.” de Spielberg, quando já acreditamos em tudo, em extra-terrestres e que há um anjo em cada um de nós, o esverdeado ser de outros mundos dirige-se ao frigorífico. Abre-o e tira uma cerveja. Bebe-a e arrota. É uma pincelada de quotidiano que faz o espectador feliz.</p>
<p style="text-align: justify;">Há momentos desses que ganharam a honra do mito. Do “Last Tango in Paris” podemos esquecer tudo: a propícia carne de Maria Schneider, o peso do peito dela que parece pedir a nossa ajuda para se sustentar. Podemos esquecer até o cabotinismo da personagem de Marlon Brando, mas nunca esqueceremos o prosaico e útil pacote de margarina que irrompe quando, e poupo-vos a pormenores, a seca angústia dos dois, dele mais precisava.</p>
<p style="text-align: justify;">O intrépido arroto de “E.T.” e os 100 gramas de margarina de “Last Tango in Paris” fazem a felicidade do espectador. Entregue ao filme e à fantasia, desarmado já de qualquer desconfiança ou descrença, o espectador vê nessa irrupção do quotidiano um sinal cúmplice do realizador. Quando Coppola, no primeiro “The Godfather”, põe os mafiosos a cortar o alho com uma lâmina de barba para cozinharem a seguir <em>spaghetti</em>, está a dizer ao espectador que o considera adulto suficiente para aguentar que uns segundos de comezinho quotidiano intervalem o épico siciliano.</p>
<p style="text-align: justify;">Há um século, era eu crítico de cinema, armávamos ao pingarelho chamando à coisa “notações do real”. <em>Bullshit</em>. Eram só um arroto, dois dedos enfiados na margarina e alho picadinho, assinados por Spielberg, Bertolucci e Coppola.</p>
<p style="text-align: justify;">Volto a Spielberg. Por ser um cultor das regras de género que os “Indiana Jones” e os seus “sci-fi” confirmam, o recurso a essas invasões do dia-a-dia atingem nele requintes de surpresa e malvadez. Lembro “Munich”. Começa com o morticínio dos atletas judeus, no Setembro Negro. A seguir, um grupo de israelitas aceita uma missão clandestina de extermínio. Vão, como criminosos, matar outros criminosos. Por mais baseado em factos reais que “Munich” seja, é um filme em que Spielberg respeita rabinicamente as regras do thriller. Até surgir um manga-de-alpaca da Mossad com uma última advertência para aqueles homens que vão mergulhar no coração do mal: “I want receipts”. Façam o que quiserem, mas tragam as facturas. “I want receipts. Vocês não estão a trabalhar para o Barão de Rothschild, mas para Israel, um pequeno país.”</p>
<p style="text-align: justify;">Imagino um thriller português sobre o leproso colapso da segunda década do século XXI, os anéis a irem-se, dedos que se arrancam, braços que se decepam e Teixeira dos Santos aos gritos para José Sócrates: “Faça o que quiser, gaste como quiser, mas traga-me facturas.” E em inglês, vigoroso, para que não restem dúvidas: “I want receipts!” O reles e parvo dia-a-dia.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="background-color: #ffff00;">Publicado no Atual do Expresso a 15 de Maio. Este sábado reincido: gotas de água num rosto a preto e branco.</span></em></p>
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		<title>Pode filmar-se a poesia?</title>
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		<pubDate>Mon, 16 May 2011 22:25:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Não sei se pode ou não filmar-se a poesia. Deixem-me tentar. Invento que, em “Atonement”, a acesa boca de Keira Knightley, em que logo apetece humedecer a nossa, é apenas a tradução em filme deste resignado verso de e. e. cummings: “… se os teus lábios, que outrora amei, tiverem de tocar noutros.” A boca [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-large wp-image-28414" title="woodsplengrs" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/woodsplengrs-500x281.jpg" alt="" width="500" height="281" /></p>
<p style="text-align: justify;">Não sei se pode ou não filmar-se a poesia. Deixem-me tentar.<br />
Invento que, em “Atonement”, a acesa boca de Keira Knightley, em que logo apetece humedecer a nossa, é apenas a tradução em filme deste resignado verso de e. e. cummings: <em>“… se os teus lábios, que outrora amei, tiverem de tocar noutros.”</em> A boca de Keira e o verso de cummings anunciam a separação dos amantes, antecipando a dor que há-de vir.</p>
<p style="text-align: justify;">Poesia e cinema coincidem ao incendiarem de imagens cada cérebro que tocam. Na poesia, o verbo é tão actor como Nathalie Wood em “Splendor in the Grass”. No poema, as palavras levantam-se como a câmara que sobe para ver o mundo do alto do céu no fim de “Perfect World”, de Clint Eastwood.</p>
<p style="text-align: justify;">Pergunto: que cineasta poderia ter filmado a explosão verbal de Herberto Helder, o nosso maior poeta? Cukor tinha a elegância, mas não a viril vocação animal. Talvez Preminger, o Preminger de “Bonjour Tristesse”, se conquistado pelo romantismo doentio de Godard.</p>
<p style="text-align: justify;">Imagino que todos os poemas foram já filmados. Mesmo os de Herberto. Fui ler:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>“Havia um homem que<br />
corria pelo orvalho dentro.<br />
O orvalho da muita manhã.<br />
Corria de noite, como no meio da alegria,<br />
Pelo orvalho parado da noite.”</em></p>
<p style="text-align: justify;">Já vi estes versos no cinema: homens a correr “pelo orvalho parado da noite”. Em filmes de guerra de Samuel Fuller, no “Target”, de Arthur Penn, em que Gene Hackman é espião em Berlim. Também num velho filme de Fritz Lang, “Man Hunt”, irrompe a exacta imagem do verso de Herberto. É um filme de perseguição, presas humanas e nevoeiro espesso. Diga-se: no cinema contemporâneo, só um actor, Matt Damon, tem fôlego para correr pelo orvalho dentro, atravessando as portas da morte e renascendo de todas as perseguições.</p>
<p style="text-align: justify;">Herberto foi ainda mais narrativo nos contos de “Os Passos em Volta”. “Polícia” é a história de um clandestino que sobrevive de expedientes e foge à extradição numa insuportável Bruxelas. Encontra Annemarie, “<em>a criatura mais só da terra</em>”, num sítio onde “<em>as putas e os chuis eram mais do que as mães</em>”. Leio e penso: já vi!</p>
<p style="text-align: justify;">Mas onde é que já vi dois amantes nus a atravessar, a cobertores e café, a chuva de uma noite fria? Foi num dos filmes de longas conversas de Eric Rohmer? Não, foi no “They Live by Night” de Nicholas Ray: tenho a certeza de que Farley Granger leu e se inspirou no herói clandestino de Herberto. E invento: num filme ideal, Juliette Binoche seria Annemarie, uma francesa de Lyon.</p>
<p style="text-align: justify;">O filme ideal, o que juntaria a Binoche e Matt Damon, escreveu-o Herberto, antes que os dois nascessem, no poema destes primeiros versos:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>“As mulheres têm uma<br />
assombrada roseira<br />
fria espalhada no ventre.<br />
Uma quente roseira às vezes, uma planta<br />
de treva.”</em></p>
<p style="text-align: justify;">O cinema arde quando é dito assim.</p>
<p><span style="background-color: #ffff00;"><em>Publicado no Expresso a 7 de Maio de 2011</em></span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Um inquérito da Sem-se-ver</title>
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		<pubDate>Sun, 15 May 2011 01:17:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O Zé foi quem primeiro se chegou à frente e tão bem respondeu ao desafio da sem-se-ver. Por ser de livros, não resisto. Respondo. 1 — Existe um livro que lerias e relerias várias vezes? Existe. Existem. Lidos e relidos. As Obras Completas de Borges, meu circuito de manutenção. “Os Passos em Volta” do Herberto. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"> </span></div>
<div id="attachment_28311" class="wp-caption aligncenter" style="width: 304px"><img class="size-full wp-image-28311" title="herbeto" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/hebeto.jpg" alt="" width="294" height="400" /><p class="wp-caption-text">Tinha-a dado. Voltei a tê-la. A primeira edição em dois volumes da Poesia Toda</p></div>
<div style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/05/interrogatorio-sem-holofotes-na-cara/">O Zé foi quem primeiro se chegou à frente</a> e tão bem respondeu ao <a href="http://sem-se-ver.blogspot.com/2011/05/olho-desafio.html">desafio da sem-se-ver</a>. Por ser de livros, não resisto. Respondo.</span><br />
<span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"> </span></div>
<div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><strong>1 — Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?</strong><br />
Existe. Existem. Lidos e relidos. As Obras Completas de Borges, meu circuito de manutenção. “Os Passos em Volta” do Herberto. O “Debaixo do Vulcão” do Lowry que me desaparecia sempre, quando acabava de o ler e me obrigava a comprar novo exemplar na Feira do Livro seguinte. Recebi mesmo a medalha de comprador frequente do editor. (E depois digam que não há bruxas!)</span></div>
<div style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><strong>3 — Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?</strong></span><br />
<span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"> Se me metessem numa cela em isolamento, por anos e anos, pedia o Quixote e a Bíblia. Job bem precisava do amparo de Sancho Pança – imagino-os a mergulhar numa amizade viril que nunca chega a ser sexual, como a de Bogart e Rains no fim de Casablanca. E o Quixote foi o discípulo que Jesus nunca teve.</span></div>
<div style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><strong>4 — Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?<br />
</strong> <span style="mso-bidi-font-family: Arial;">“Gödel, Escher e Bach” de </span>Douglas Hofstadter. Motivo: ignorância matemática, lógica e computacional. O livro está ali, ao lado, de olhar acusador e trocista. É o meu banho de humildade. E se ali continuar, um dia começarei a beber sem remissão.</span></div>
<div style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><strong>5– Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?</strong></span><br />
<span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"> O fim de um livro que a bem dizer talvez nem exista: “As Palmeiras Bravas” do Faulkner. Prefiro esse fim a tudo e a nada. Dói que se farta. Borges traduziu-o para espanhol, Sena para português.</span><br />
<span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"> E o mais bonito começo é o da “Reivindicação do Conde Julião” de Juan Goytisolo: ‘tierra ingrata, entre todas espuria y mezquina, jamás volveré a ti.’ </span></div>
<div style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"> <strong>6– Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?</strong><br />
Sim. Numa árvore tropical. Subia à mangueira do meu quintal que tinha um ramo robusto no ângulo certo com o tronco. Quase um sofá. Isto é verdade, horas e horas de verdade que me fizeram uma coluna direitinha, três metros acima da rasteira realidade. Tinha pouco dinheiro e lia o que me caía nas mãos: os cinco, os cow-boys e navajos do Zane Grey, a Rosa do Adro que me faz parolo para o resto da vida, o Júlio Dinis e às escondidas uns livros do Vilhena que tinham ilustrações de lindas maminhas a preto e branco. O que contritamente (falso, falso) chorei quando a minha mãe descobriu.</span></div>
<div style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><strong>7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?</strong></span><br />
<span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"> Um romance do Georges Steiner (“O Transporte Para San Cristóbal de A. H.”), um autor que tem tanto de excelência no ensaio como de prisão de ventre narrativa na ficção. Li tudo: precisava de ter a certeza.</span></div>
<div style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"> <strong>8. Indica alguns dos teus livros preferidos.</strong><br />
O que agora arbitrariamente me vem à cabeça: o meu Conrad (Heart of Darkness e Lord Jim), o Melville de todos (Moby Dick e o Bartleby preciosamente traduzido pelo Gil de Carvalho), o Herberto que devia ser dos portugueses (A Vocação Animal), Sena (As Evidências e Os Sinais de Fogo), Raul Brandão (El-rei Junot). Estes poetas e os livros deles: François Villon, Ronsard, Yeats, Larkin, Eliot, Pessoa, Ruy Belo, Christina Rossetti, e e cummings, Whitman, René Char, Drummond, Ezra Pound. Também Joyce (Dubliners é tão saboroso), Tolstoi (Guerra e Paz) Stendhal (O Vermelho e o Negro), Dostoievski claro, o D.H. Lawrence (Filhos e Amantes e Mulheres Apaixonadas), o Somerset Maugham (Fio da Navalha e Histórias dos Mares do Sul), Salinger, Roth, Bellow (Ravelstein), Ernst Jünger (Eumeswill), Philippe Sollers (Estranha Solidão), Blaise Cendrars (Moravagine), Flaubert (Salambô), Klossowski (Roberte Nessa Noite), Raymond Queneau (As Obras Completas de Sally Mara que dá mais tesão do que o Sade), Scott Fitzgerald (Terna É a Noite e um conto fulminante, The Crack Up). E já me esquecia da Edna<strong style="mso-bidi-font-weight: normal;"> </strong>St.<strong style="mso-bidi-font-weight: normal;"> </strong><span style="font-weight: normal; mso-bidi-font-weight: bold;">Vincent Millay.</span><br />
<strong>9. Que livro estás a ler neste momento? </strong><br />
Releio devagar o “O Amor e o Ocidente” de Denis de Rougement. Leio “O Ensino do Português” de Maria do Carmo Vieira, “The Complete Dramatic Works” do Becket que a minha filha me trouxe da Irlanda (estou bem arranjado), “Violência” de Slavoj Zizek e, à maluca, “L’ Évangile de Nietzsche” de Philippe Sollers.</span></div>
<div style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><strong>10. Indica dez amigos para o Meme Literário: </strong><span style="color: #215670;"><br />
</span>Um amigo que, de tanto amor ao livro, vale por dez: o Pedro Norton. Agora faça-me a triste desfeita de não responder!</span></div>
]]></content:encoded>
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		<title>A origem da radiosa dívida</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/05/a-origem-da-radiosa-divida/</link>
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		<pubDate>Sat, 14 May 2011 23:53:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[O FMI, a CE e o BCE acabam de emitir uma nota estranhando o facto de haver pelo menos um blog em Portugal que não está neste momento apostado em tentar convencer os seus já convencidos leitores de que a radiosa dívida pública portuguesa (93% do PIB olé, 93% do PIB olé)se deve: a) a sequelas do salazarismo; b) ao momento [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-full wp-image-28303" title="Troika em Portugal" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/Troika-em-Portugal.jpg" alt="" width="320" height="238" /></p>
<p style="text-align: justify;">O FMI, a CE e o BCE acabam de emitir uma nota estranhando o facto de haver pelo menos um blog em Portugal que não está neste momento apostado em tentar convencer os seus já convencidos leitores de que a radiosa dívida pública portuguesa (93% do PIB olé, 93% do PIB olé)se deve:</p>
<p style="text-align: justify;">a) a sequelas do salazarismo;</p>
<p style="text-align: justify;">b) ao momento em que Vasco Gonçalves, em Almada, acabou um comicio a lançar alfaces às massas, iniciando assim o descalabro da agricultura portuguesa;</p>
<p style="text-align: justify;">c) à entrada a cavalo na CEE;</p>
<p style="text-align: justify;">d) à adesão, já de iate, ao Euro;</p>
<p style="text-align: justify;">e) às políticas cavaquistas do asfalto para desfile das boas marcas alemãs;</p>
<p style="text-align: justify;">f) ao ronronante e interminável falatório de Gutierres;</p>
<p style="text-align: justify;">g) à engenhosa engenharia orçamental e não-deficitária de Manuela Ferreira Leite;</p>
<p style="text-align: justify;">h) ao fulgurante, e mais breve do que pepino, reinado de Santana Lopes;</p>
<p style="text-align: justify;">i) a Georges Bush e a Barack Obama, óbvios irmãos gémeos, pai e mãe da crise internacional;</p>
<p style="text-align: justify;">j) a Alberto João Jardim que não mata, mas mói;</p>
<p style="text-align: justify;">l) eventualmente um bocadinho de nada, vá lá, um certo desleixo e uma pequenina megalomania de José Sócrates (93% do PIB olé!).</p>
<p><em>ps — Posto o que o triumviratum já pode ir dormir descansado.</em></p>
<p> </p>
<p> </p>
]]></content:encoded>
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		<title>Como é que se põe Portugal a dançar</title>
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		<pubDate>Sat, 14 May 2011 10:53:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[_ Dançar. Se dançarmos, safamo-nos. A América dançou. Dançou e pôs o mundo inteiro a dançar. A América salvou-se. Foi, se bem se lembram, em 1929. Aconteceu o crash. Os muito precipitados atiraram-se de 30 andares, suicidando-se. Mas nesses anos em que o cinema passou de silencioso a falado, do mudo ao som, os mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-28229" title="cyd-fred4" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/cyd-fred41.jpg" alt="" width="400" height="320" /><span id="__caret">_</span></p>
<p>Dançar. Se dançarmos, safamo-nos. A América dançou. Dançou e pôs o mundo inteiro a dançar. A América salvou-se.<br />
Foi, se bem se lembram, em 1929. Aconteceu o crash. Os muito precipitados atiraram-se de 30 andares, suicidando-se. Mas nesses anos em que o cinema passou de silencioso a falado, do mudo ao som, os mais sensatos inventaram um novo género, o cinema musical, e a América inteira dançou.</p>
<p>Foi primeiro o “Jazz Singer”, e vieram depois filmes com bailarinas semi-nuas, as coreografias sexualizadas de Busby Berkeley em que era possível uma homem mergulhar na engenharia de um túnel de pernas abertas de mulheres. Escapismo, foi o que lhe chamaram. Mas o escapismo foi retemperador: recompôs famílias e deu outra solidez à produção. A América salvou-se a cantar e a dançar.</p>
<p>Angola também. Eu vi, se me autorizam uma nota mais pessoal e menos cinematográfica. Depois da independência, em plena guerra civil, à noite, quase todas as noites, a cidade dançava. Tinham morto um comandante heróico? Compunha-se uma canção, “Valódia”, qualquer coisa entre uma balada e um bolero. O cantor em solo lançava um langoroso “Abaixo!” e o coro feminino e mezzo soprano respondia no doce e dengoso sotaque angolano “O Imperialiiiismo”. Patrióticos, os corpos colavam-se, e uma semba, esse movimento que faz a felicidade da ansiosa carne, encaixava quadris nos quadris, protestando o seu horror ao vazio. E foi assim que Angola se salvou.</p>
<p>O FMI não é mais nervoso e enérgico do que Gene Kelly. Já viram o “Singin’ in the Rain”? Também ele quer emprego, pleno emprego. “Gotta dance, gotta dance”, bate a todas as portas e todas as portas se fecham.  Menos a do cabaret onde vai encontrar o metro e meio de pernas de Cyd Charisse. Não é possível que alguém no seu perfeito juízo não se comova com o impacto metafísico de tamanha majestade. Mesmo ao FMI resta uma afrodisíaca centelha de transcendência.</p>
<p>Digo sempre e sempre direi: se um dia formos invadidos por apocalípticos extra-terrestres (e seremos) deveríamos mostrar-lhes, em defesa da nossa pobre humanidade, os filmes musicais americanos dos anos 30 aos 50. Devíamos mostrar-lhes Fred Astaire a dançar com Cyd Charisse (ó doce obsessão) o “Dancin’ in the Dark” no “Band Wagon”, o mais luxurioso filme de Minelli. É um manual de sedução e galanteria, de insinuação e da enorme e gozada tensão que preludia o bom sexo. Aposto com quem queira apostar: um musical, basta que os <em>aliens</em> vejam um musical, e a humanidade salva-se.</p>
<p>Bem sei que temos de ser formigas. Mas talvez não nos faça mal um dia de cigarra por semana!<br />
Digam-me como é que se põe Portugal a dançar?</p>
<p><object width="480" height="295"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/1mnIRdk0HNM?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/1mnIRdk0HNM?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="295" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p><span style="background-color: #ffff00;"><em>Publicado no “Expresso”</em></span></p>
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		<title>O que é isso que tens na mão?</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/05/o-que-e-isso-que-tens-na-mao/</link>
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		<pubDate>Sun, 01 May 2011 19:05:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Anda aí, por todo o lado, não há nenhum mal que esteja aqui também. É um vídeo reaccionaríssimo, nimbado pela triste ideia de que o caminho da humanidade não é cumulativo, progressivo e desobscurantista. Trôpega e míope cambada de nostálgicos.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Anda aí, por todo o lado, não há nenhum mal que esteja aqui também. É um vídeo reaccionaríssimo, nimbado pela triste ideia de que o caminho da humanidade não é cumulativo, progressivo e desobscurantista. Trôpega e míope cambada de nostálgicos.</p>
<p style="text-align: center;"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/XwoW9hnB4vY?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/XwoW9hnB4vY?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
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		<title>Romance de Pedro a conduzir um Jaguar</title>
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		<pubDate>Sun, 01 May 2011 12:22:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Manuel S. Fonseca</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Dividimo-nos pelos dois carros. Foi o Júlio, detesto o Júlio, que gritou o critério: separamos os casais para não ser sempre a mesma seca. O Jú… a Teresa, nem sei por onde começar e tento que a Lili, ao meu lado, não me sinta atrapalhada a condução do Jaguar. Agora, no carro da frente, no banco [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-27715" title="sem nome" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/sem-nome.png" alt="" width="500" height="351" /></p>
<p style="text-align: justify;">Dividimo-nos pelos dois carros. Foi o Júlio, detesto o Júlio, que gritou o critério: <em>separamos os casais para não ser sempre a mesma seca</em>. O Jú… a Teresa, nem sei por onde começar e tento que a Lili, ao meu lado, não me sinta atrapalhada a condução do Jaguar.</p>
<p style="text-align: justify;">Agora, no carro da frente, no banco de trás, a Teresa vai ao lado do Júlio. Aumento a distância para deixar de lhes ver os ombros, os dela nus e uma tímida alça. Detesto o Júlio. Tenho-lhe um pó pesado, maciço. Agora que a cabeça dele no carro da frente é um só um ponto negro, se pudesse soprava-a.</p>
<p style="text-align: justify;">Também a nuca da Teresa é um risco magro. Basta para que me lembre com dorida ternura os três anos que levamos de beijos e cama, de viver juntos e não viver juntos. É a minha namorada. Mas mesmo quando a apresento, <em>a Teresa, a minha namorada</em>, digo-o com uma reserva talhada por um fio de medo. Nunca tenho a certeza. Sim, fica muitas vezes em minha casa e eu na dela. Só que embora eu queira ser todo dela, nunca a sinto toda minha.</p>
<p style="text-align: justify;">E agora as cabeças deles, dois pontinhos de alfinete, estão, estarão, encostadas uma à outra. A esta distância é difícil dizer. Se acelerar um pouco apanho o velho Packard Convertible de 1951 e posso vê-los. Mas tenho medo do que será o silêncio de Lili ao meu lado, de não lhe ver o trejeito trocista nos lábios, que ela cruze mais as pernas a mostrar o esplendor das coxas mulatas para que não posso olhar. <em>Pedro, vai tão devagar que daqui a nada adormece</em>. Foi o que ela acabou de dizer.</p>
<p>E estão mesmo, cabelos misturados, encostadas uma à outra. As cabeças. Talvez tenha sido só um momento, um riso sacudido, estarem a cantar as canções nostálgicas em que o Ruy ao lado da prima, a Eugénia, mistura Brel com Cinquetti, Angela Maria com Tony de Matos. Cantam Non Ho l’Età e encostam as cabeças, só isso, não fora a inexplicável mão, o braço do Júlio estender-se, vir por trás da cabeça de Teresa e afundar-se a seguir numa intimidade que a pele bege do banco tapa.</p>
<p><em>Pedro, está aqui, está a passar por cima do Packard</em>. Foi com uma agulha de ironia que a Lili me disse isto, esta cabra que de ironia nunca teve um pingo. Já teve um caso, dois, com o Júlio. Tem, aliás, os que quer, só tem casos num vai-vem de pernas que nem as asas de um moinho holandês. Uma básica. A Teresa não. O que dói na Teresa é ela ser tão ela, de uma soberania irredutível. E que merdas é que estou a dizer, quer dizer, a pensar. Que merda é que é uma soberania irredutível. E sei que sim, que sei. Ela é ela e não perde nada dela, por mais que alguém julgue passar por ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas para onde é que foi a alça que estava no ombro de Teresa? Agora os dois ombros são um traço despido e branco a riscar a amarela vibração das giestas que o Packard atravessa. A Joana, o Vasco e a Marta, atrás de mim, agitam-se como se tivessem acordado. Desvio o retrovisor para que não me vejam, nem os veja eu também.</p>
<p>A indiferente suavidade do Jaguar deixa-se ficar para trás. Também eu tenho ficado para trás. Já pensei propor-lhe que casássemos. Nunca consegui por medo do meu medo dela, por medo da imprevisível reacção dela. Que me abraçasse com uma humilhante gentileza e um <em>Pedro, esqueça que me disse o que me disse</em>. Que soltasse um riso musical, <em>não me leva antes a Nova Iorque</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo a esta distância sei que foi um sutiã branco que vi agora voar no largo vidro traseiro do Packard. Foda-se, num Packard, o meu carro favorito. Só uma cabeça, a morena cabeça de Teresa, o cabelo curto atirado para trás ainda a ver-se pelo vidro e a outra cabeça a desaparecer no fosso invisível, metafísico, no Grand Canyon que é o banco de trás de um Packard. Não é impressão minha que o Packard tenha mesmo feito um zigue-zague feliz, amorosa rubrica na fita negra de alcatrão.</p>
<p style="text-align: justify;">O Jaguar respira ofegante e Lili entalou a encantadora mão a meio das pernas. Bem gostaria de fechar os olhos. Tenho um consolo. Ainda bem que o Manel não veio. Era mesmo o que me faltava, os <em>eu não te d</em>izia, dele. Ah, mas se ele tivesse vindo, iria agora no banco de trás do Packard, separando o que nem no pior pesadelo eu imaginava que se pudesse juntar. O cabrão bem podia ter vindo. Grandessíssimo cabrão.</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="background-color: #ffff00;"><em>O relato acima é pura ficção. Qualquer semelhança com a realidade seria uma lamentável coincidência e um indesculpável plágio da treta da realidade. Os nomes das personagens são inventados, numa mistura de esperanto, kimbundo e português não se encontrando por isso em nenhuma língua conhecida. Os automóveis foram cedidos pelo nosso patrocinador. </em></span></p>
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