Às vezes despedimo-nos tão cedo

O Gente Morta é melhor que deus, melhor que o diabo. A nenhum dos dois lembraria fazer dum cemitério um lugar de festa, a nenhum deles lembraria juntar queridos mortos e infames. A nenhum, deus ou diabo, tão obstinados e eficazes a pescar almas, passaria pela cabeça consolarem-se com o descarado onanismo de escrever por escrever, graciosamente.

O Gente Morta abre covas a rir-se, enterra pessoas sem vergonha e a bater palmas, faz raios X de nus e vestidos, converte o telefonema dum sobrinho numa short-story. É um blog sem sentido nenhum. E, por nenhum sentido ter, é o melhor blog do mundo. Um tipo, para deixar o Gente Morta, é preciso estar doido.

Foi o que, que estou doido, confirmou a minha junta médica, autorizando-me a sair com atestado. Saio hoje, deixando este cemitério, a única linda razão que me fazia estar na blogosfera.

Sei bem que nunca mais me vou divertir tanto, seja qual for o manicómio para onde agora vá. Sei bem que não encontrarei gente mais luminosa do que os 13 autores que faziam o favor de deixar-me acompanhá-los.

Estava aqui tão bem morto e vou agora arranjar chatices em ruas de carne e osso. Mas tem de ser: até a um morto se permite a peregrina ideia de licença sabática para uma vida sem vencimento.

Aos leitores do blog agradeço a gentileza de, até a mim, me terem lido. Asseguro-vos que, a partir de agora, vão ter-me como um rival furioso e invejoso nas caixas de comentários. Lutarei convosco pelo amor e aprovação dos maravilhosos autores que vão continuar o Gente Morta. À Turmalina, Luciana e Mr. Orcama, os mais historicamente fiéis e persistentes leitores e comentadores, praticamente cadáveres como os autores, protesto os mais vivos obrigados.

Antes que a porta se feche, abraço com descabelada efusão os mortos-autores, meus companheiros de dois anos. Admiro-vos. A dois, aqueles com quem abri os portões do cemitério, a Eugénia e o Pedro N, estampo-lhes na cara dois beijos choramingas e de fungada ranhosice. Adoro-vos.

Então adeus.

Quem vai à guerra dá e leva
 
 
 

Trocar umas galhetas, uns bons sopapos, era a atabalhoada arte da minha infância. Em Luanda, a caminho da escola, já se sabia que “quem vai à guerra dá e leva”. Os mais velhos do bairro, tipos com a vetusta idade de 17 a 20 anos, ensinavam-nos uns truques aprimorados.

a arte da bassúla

 

Capanga, era fazer com o braço a rija prisão do pescoço do adversário, cortando-lhe o pio e pondo-o a cuspir fininho por uns minutos. Bassúla, era meter a perna direita atrás do asqueroso inimigo e, com forte empurrão no peito, fazê-lo malhar de costas na poeira rubra, para gáudio da turma no recreio.

Brad Pitt, pai de “Tree of Life”, sabe destes arrebatamentos infantis e das funestas consequências metafísicas de só se levar sem se dar. Ensina aos filhos a nobreza do pugilato, ou seja, como enfiar um sonoro murro nos queixos de putativos contendores. O meu pai, pacifista e tendo por hobby a carpintaria, tentou ensinar-me a usar um serrote, a plaina, o esquadro e um torno, esperando converter-me no Harrison Ford do “Witness”. Atraía-me vocação mais inglória e canalha: resultado, socorri-me do cinema para sobreviver na aguerrida selva da meninice.

Por sorte, coincidiu-me a infância com a idade de ouro do peplum, filmes pintados a socos e golpes de Hércules, Maciste, David (tive uma fisga!), Golias e Spartacus, protagonizados por expoentes da representação como Jacques Sernas, Steeve Reeves, o marmóreo Charlton Heston.

Iniciávamo-nos com os gregos e algum direito romano: uma base sólida. Mas o alargamento de horizontes veio-nos da América. E foi nos westerns (tive uma espingarda!) que aprendemos a usar os punhos com liberalidade e clarividência.

Exaltante, nas sessões de pancadaria dos filmes de cow-boys, era a sua democracia. Toda gente molhava a sopa, toda a gente comia pela medida grossa. Havia um clima de festa naquelas abruptas trocas físicas. Lembro-me de John Wayne, em “McClintock”, filme de 1963. Há um brutamontes de espingarda na mão a dar cabo do juízo de todo o mundo, inclusive dos índios. Wayne, com paciência de Job, a mostrar-lhe o caminho da harmonia universal e o brutamontes, nada! Continua a escovar a alma de quem já não pode, mas tem de o ouvir. Wayne, com habilidade quase feminina, tira-lhe a arma e, como a culpa não deve morrer solteira, espeta-lhe o que então chamávamos um murro no céu-da-boca. Para espanto dos índios, meia centena de cow-boys desatam aos socos e acabam, aos baldões pela ravina arenosa, no lago de lama que os espera lá em baixo. A música vem gloriosa, na banda sonora, cumular de alegria toda a cena.

Nem em noites eleitorais há o mesmo júbilo. E o meu pai, no céu que tanto merece, bem sabe que ainda hoje sou capaz de serrar, com rigor irrepreensível, a primeira tábua que me ponham à frente.

Gosto tanto da algazarra da sequência do vídeo junto que, agora que saio do Gente Morta, não quis deixar de publicar extemporaneamente esta crónica do Expresso. Porque é assim que vou lembrar sempre este blogue que me acolheu: em festa.

 

A cansada e absoluta imobilidade

A vida vai depressa, o cinema vai a 24 imagens por segundo. A mesmíssima velocidade. Ao som e fúria de cada dia – um apartamento que explode, a histeria duma ama numa creche, o pandemónio do e.coli ou a violência no Iémen – o cinema responde imitando a vida: som Dolby a rebentar pelos quatro cantos da sala e 3D a meter-nos meteoritos pelos olhos dentro. Afinal, a palavra mágica para se fazer cinema é “acção”.
Desminto-me, apesar de saber que não é mentira. A velocidade da vida é um cliché com que nos roubaram a preguiça, nos roubaram o andar consolado dum tipo a roçar-se pelas esquinas, a delícia do dolce fare niente, o estoicismo de uma sesta em frente ao mar. Por isso, nos melhores filmes, dando o que a vida tira, o cinema pára.

Vejam: Gary Cooper nunca se mexeu. A pureza, a pele infantil que lhe recobre o corpo enorme, sustenta-se na sua lentidão. Em “Sergeant York”, ou herói de Capra ou de Hemingway, o vagar de Cooper é sempre o mesmo: quieto e calado. E é devagar que, no mais belo dos americanos, vemos desenhar-se o essencial: a humaníssima natureza que perdemos, a bondade da inacção, a irrazoável confiança no devir.

 

Há uma galeria de heróis destes. São heróis solitários, de irrepreensível consciência moral. E são lentos. Ao lado de Gary Cooper, está Henry Fonda. Alto como ele, como ele desajeitado, tímido e taciturno. Até o corpo lhe pesa e Fonda alivia-se: no seu “Young Mr. Lincoln” e em “My Darling Clementine”, ambos do lentíssimo Ford, o actor deita-se debaixo de uma árvore ou senta-se num alpendre, sempre de pernas esticadas e mais altas do que o corpo, construindo irresistíveis ícones de elogio à calma contemplação das coisas e à sábia ignorância de si mesmo.

 

É lendária a lentidão de John Wayne na abertura e fecho de “The Searchers” e até o prodigiosamente veloz Howard Hawks se rendeu ao ocioso Bogart em “To Have and Have Not” e “Big Sleep”. Criaram uma tradição, assegurada até há pouco por Clint Eastwood e Gene Hackman, actores grandes, fisicamente descoordenados e lentos.
Robert Mitchum elevou esta arte a um patamar sublime: a cansada e absoluta imobilidade. Estilizando a lentidão, ao ponto de a tornar espessa e poética, Mitchum edificou uma improvável carreira de obras-primas. Invoco “The Lusty Men”, de Nick Ray, onde ele é a resignada solidão na solidão do filme. 

Qual é o segredo destes actores que tiram devastador sentido e significado da aparente indiferença da sua expressão? E qual o segredo de fazerem mover o mundo mantendo-se imóveis?
Segredo de homens. Só duas mulheres, Ingrid Bergman e Greta Garbo, se aconchegam à bondade da inacção, à lenta solidão de um “quero estar sozinha”.  Deus me guarde de pensar que eram homens.

 

Publicado no Atual do “Expresso” a 25/6. Sábado que vem, conta-se a história de um bom par de estaladas.

Freud e Jung revistos por Keira Knightley

Os dois últimos filmes de David Cronenberg são extraordinários. Valem por si, mesmo que não soubessemos que eram assinado por ele.
Eu, que gosto do que gosto e detesto vir a gostar mais de qualquer coisa futura do que de uma coisa de que já gostei, receio que o próximo seja ainda melhor. É um filme sobre 8 decepções, as 8 decepções que sustentam a relação entre Sigmund Freud e Carl Jung, dois famosos malabaristas de um pouco mais do primeiro terço do século passado (Jung deixou-se andar, a fingir-se vivo, até aos anos 6o, mas isso mal interessa, por volta da 2ª Guerra o caso deles estava arrumado).

Este rosto, este corpo tenso que quase não se ajusta ao sofá, terão parte da culpa. Chama-se Keira Knightley e juro que nunca a tinha visto: só sei que dá corpo (a linda boca, os pequeninos seios, o tão esquinado recorte de ombros e, digamos, ancas) a uma das mais soberbas decepções que dividirá os dois irmãos fundadores de desavindas psicologias. David Cronenberg filmou tudo, e aparentemente filmou tudo com a confiança da linearidade, if you know what I mean. Para já, o trailer não me desmente.

O século de Camões

 


saiba o mundo de Amor o desconcerto,
que já coa Razão se fez amigo,
só por não deixar culpa sem castigo.

Se o século XVI não foi português, nenhum outro virá a sê-lo. As caravelas lusíadas atravessavam os mares. Cabral chegava ao Brasil, o Gama à Índia. E Colombo e Magalhães, um tocando a América, o outro circum-navegando o mundo, foram trânsfugas que a Coroa portuguesa sentou no colo de Espanha. A ousadia não tinha limites: Albuquerque pôs o Oriente a ferro e fogo, estabelecendo um Império. O escuro e hirsuto português comerciou com o Japão, aliou-se ao etíope, bordou de fortes e feitorias a costa de África, fortificou-se em Tuen Mun com ambição de conquistar a China do que o dissuadiu o terrível poder dos Ming e, num tratado desmesurado, dividiu com Castela, ao meio, o mundo por achar.

Foi nesse mundo novo, de especiarias e ouro, que nasceu e viveu Luis de Camões. No século em que pela primeira vez olhos europeus viram o Grand Canyon, a baía da Guanabara e toda a extensão do Amazonas, também os dele viram Ceuta, a Índia, a China, a costa de Moçambique, três oceanos, o pequeno mar que, depois de Gibraltar, separa e junta a Cristandade e o Islão, homens e mulheres de múltiplas raças, estranhas crenças. 

E é este Luis de Camões, de vivência universalista, que, a par das viagens, explorações e conquistas, ou também como expressão delas, faz do século XVI um século português. Mais claramente do que qualquer outra voz do século, Camões sente e pensa esse mundo novo numa poesia de admirável expressão épica e lírica.

Camões partilhou literariamente o seu tempo com Garcilaso de la Vega, Juan de la Cruz, Teresa d’Ávila, Christopher Marlowe, Gongora, Miguel de Cervantes, Pierre de Ronsard, Torquato Tasso. Parcialmente contemporâneos, John Donne e Shakespeare pertencem, no essencial das obras respectivas, já ao século seguinte. Comparada com as dos expoentes literários do século, a obra de Camões iguala-as no plano da emoção e apresenta, porventura, um superior fulgor filosófico. 

Habitantes desse século foram também, e por ordem de nascimento, Copérnico, Kepler e Ticho Brahe. Coube-lhes fundamentar uma ordem nova, deslocando o centro do universo conhecido, da Terra, que ajudaram a pôr em movimento, para o Sol. A missão de Lutero, outro contemporâneo, foi a de fragmentar a centralidade de Roma e a infalível entronização papal, enquanto Erasmo sublinhava a soberania da vontade e libero arbitrio como essenciais à condição humana. Também Maquiavel torna perceptível, pela primeira vez, a dinâmica em que radica o Estado, os mecanismos empíricos do governo das nações. Nem o Tempo escapou a essa onda avassaladora do novo: é neste século que se fixa o calendário gregoriano, acertando-se de vez o instável equinócio e corrigindo-se a medição do ano solar.

 Não sabemos, de quase nada sabermos biograficamente dele, se de Copérnico a Maquiavel tudo isto foi de conhecimento directo de Camões. Mas sabemos que o ar intelectual deste tempo foi também o do poeta. O mundo que “Os Lusíadas” retrata, “com saber só de experiências feito”, é um mundo de triunfo do empirismo subjacente à revolução científica que os quinhentistas Francis Bacon e Giordano Bruno conceptualizaram. E em “Os Lusíadas”, os mares por onde navega a armada do Gama são os mares que o planisfério de Gerardus Mercator revolucionariamente então representou.

Sem renegar um saber clássico, conhecedor de Aristóteles e Platão, infiltrado de neo-platonismo, o movimento do amor para a razão faz da poesia de Camões uma esplêndida interrogação da condição humana em termos que talvez não tenha paralelo nas figuras maiores da literatura do século: “Quem será que não julgue por celeste / a causa donde vem tamanho efeito, / que faz num coração / que venha o apetite a ser razão.”.

A sensualidade camoniana tem, por certo, correspondência na erótica de Donne e no lirismo amoroso de Ronsard. Prescientes do dualismo que Descartes afirmará triunfante no século seguinte, os poetas proclamam a soberania do corpo, dando luminosa e às vezes urgente expressão a uma carnalidade que os distingue do ascetismo místico, por arrebatador que seja, dos avilenses Juan de la Cruz e Teresa de Jesus. Do mérito e superioridade da experiência física e plenamente erótica do amor, Camões deixou testemunho liminar: “Melhor é experimentá-lo que julgá-lo, / Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.”

A liberdade erótica tem a sua expressão suprema na imaginária Ilha de Vénus, do Canto IX, povoada de Ninfas que “Nuas lavar se deixam na água pura”. Como prémio terreno para os heróicos trabalhos dos lusitanos “Em cristalinos paços singulares / … / Os esperam as Ninfas amorosas, / De amor feridas, para lhe entregarem / Quanto delas os olhos cobiçarem.” E não se nega aos sentidos o que os olhos cobiçam: “Acende-se o desejo, que se ceva / Nas alvas carnes, súbito mostradas”.

A par dessa exposta sexualidade, a poética camoniana exprime, ao mesmo tempo, uma consciência reflexiva e intelectualizada do “eu” que parece adivinhar o cogito cartesiano: “Que, como um acidente em seu sujeito / Assim coa alma minha se conforma / Está no pensamento como ideia / E o vivo e puro amor de que sou feito / Como a matéria simples busca forma”.

Rendendo-se consoladamente à palpável realidade de um impetuoso erotismo, Camões não deixa de ser herdeiro da tradição neo-platónica e, com ela, de uma cosmologia sustentada num mundo superior que não se reduz à realidade sensível. Por isso, se no épico as Ninfas vão “Nuas por entre o mato, aos olhos dando / O que às mãos cobiçosas vão negando”, o Camões lírico há-de cantar (ou já teria cantado) o quão cedo desses olhos a Alma gentil se parte descontente.

Em Camões, o Amor assume ainda a forma de superior conhecimento do mundo, nele se fundindo o conhecimento de si e do outro que é transformar-se o amador na coisa amada: “Não tenho logo mais que desejar, / Pois em mim tenho a parte desejada”. Essa oscilação entre a clara e distinta objectivação da experiência e uma subjectivíssima fusão cujo conhecimento é inalcançável para a mente humana, dá lugar à, tão lúcida como angustiada, meditação camoniana sobre a condição humana que estes versos exprimem: “Que dias há que na alma me tem posto / Um não sei quê, que nasce não sei onde, / Vem não sei como, e dói não sei porquê.

Se o século XVI foi português, só terá sido por nunca, como nestes versos, a poesia escrita em língua portuguesa ter estado tão adiante do que racionalmente noutras línguas do seu tempo se escrevia: “Morrendo estou na vida, em morte vivo; / vejo sem olhos, e sem língua falo; / e juntamente passo glória e pena.”  

Este texto foi uma encomenda. Escrevi-o com muito gosto e com um descaramento que se baseia numa ideia simples: os poetas, os pintores, os romancistas devem ser falados, interpretados e comentados pelos seus leitores, mesmo por aqueles que só como amadores os comentem. Os amadores nunca dispensarão os especialistas. Mal do especialista que, magnânimo, não deixe, como crianças, sentarem-se os amadores aos pés do artista.

Nada explica tudo

Foto: Julio Bittencourt

 Nada explica tudo
o que não é exactamente a mesma coisa que dizer que não há nada que explique tudo.
Talvez seja mais verdadeiro dizer-se que só nada explica tudo…

Uma mão nas nuvens, um olho na paisagem

um rio cá em baixo no que aos meus olhos pareciam mil metros de altura

 O  Travel Almanac é uma nova revista de viagens com um conceito muito eyebrow. Tanto que no seu número de estreia (têm 2 por ano, que não estão para se cansar) a entrevista de capa é ao David Lynch. Para o 2º número o entrevistado principal será um dos autores do “Gente Morta”. Mandaram cá a Rikio Hossback. Por mero acaso entregou-me ela as perguntas a que respondo abaixo, mas com a condição (frisou bem) de que as passe aos outros mortos deste cemitério. Vão depois – eles – escolher a entrevista que lhes interessar para publicação. Avisa-se a navegação de que se trata de uma revista alemã. Coisa de seriedade irreprochable.

 Mr. Fonesca, qual é a sua mais antiga memória de viagem?
    — Fonseca.
Como?
    — O nome. É Fonseca. Mas, bora lá, às lembranças. Aos 5 anos, de comboio. Uma viagem longa e surpresas irrequietas. Levantava-me, sentava-me, espreitava à janela que nesse tempo ainda se podiam abrir. De repente, a velocidade reduziu-se e o comboio entrou, majestoso, numa ponte, um rio cá em baixo no que aos meus olhos pareciam mil metros de altura. Mas a impressão que mais perdurou colou-se-me ao céu-da-boca: o sabor das cerejas que comemos, a minha mãe, a minha irmã e eu, no pequeno compartimento que ocupávamos. Ainda hoje os comboios me sabem a cerejas.
Um impacto irrepetível, o da primeira viagem, claro!
    — Não a quero contrariar, mas poucos dias depois viajei num transatlântico para outro continente. A minha mãe tinha de cuidar dos miúdos que nós éramos, a minha irmã e eu, e levou-nos a toque de caixa para o camarote. Só no dia seguinte subi ao convés. O mundo tinha desaparecido. Flutuávamos num oscilante lençol azul e verde com outro de seda azul celeste a fazer de tecto. Foi um sonho, é um sonho, de que nem o mais abrutalhado Freud será capaz de me tirar: estou só eu numa cadeira de balouço feita de mar e céu.
Associa sempre as viagens a pessoas?
    — Ou à ausência de pessoas. As grandes viagens, entre continentes, as de barco ou de avião, nunca as fiz com o meu pai. Viajei com ele de carro, em Angola, e depois em Portugal. A família viajou, de barco e de avião, mas por qualquer razão ou última hora acabei por não ir com eles. Mesmo a minha primeira viagem de avião foi para ir, sozinho, ver a minha irmã ao Lubango. Ia à janela do Friendship (ou talvez um Dakota) com uma mão nas nuvens e um olho na planície, no planalto e, a chegar, na belíssima e dramática paisagem de serras e atormentadas fendas do Lubango.
Tudo muda quando se passa a viajar profissional. Já nem se olha lá para fora!
    — Desculpe, mas olhe que não acerta uma. Não sei viajar profissional com o portátil em cima das pernas ou lá o que é, e a aproveitar a maçada de voos transatlânticos. Nos aviões pode sempre ver-se o Pólo Norte ou o sol a nascer no Sahara, como nunca se sabe quando nos cruzamos com um disco voador. Já vi os dois primeiros, não perco a esperança de ver o último.

O humilde Claremont

Prefere os hotéis de luxo ou os familiares?
    — Todos. Mas enternecem-me os hotéis de primeira vez numa cidade. O humilde Claremont Hotel, em Westwood, a dois passos da sinfónica Wilshire Boulevard. Foi a estreia em Los Angeles, há 25 anos. O setecentista Hotel des Tuileries na rua da Saint Hyacinthe, em Paris, ao lado do qual, nos anos 80, havia uma tasca de barril à porta e se comia um bom boudin. O Halcyon, escondido em Holland Park, o La Residenza a dois passos da Via Veneto. Claro que como a carne é fraca e se corrompe com facilidade (e felicidade), hoje prefiro o W, o Shutters ou, em NY, o Plaza, o Ritz em Madrid ou Lisboa, o Crillon. Mas há uma pensão de Porto Amboim que jamais esquecerei.
O dinheiro é importante quando se viaja?
    — Boa! Na mouche. First class: desbunda ou nada. As viagens familiares, por rejeição de ma femme a essa impossibilidade tecnológica que é o avião, exigem o lento e longo tempo quase oitocentista do comboio. Dinheiro e tempo, já vê, caso contrário, prefiro ficar em casa a ler ou a escrever
Escreve?
    — Sim. Num cemitério.
Perdão?
    — Está perdoada.
Num hotel, por ordem de importância, o que é que mais valoriza?
    — A cama, o restaurante, um piano. Uma esplanada sobre o Pacífico como o Shutters. Um lindo pátio como o da York House, nas Janelas Verdes, se não puder ser mais nada. Em Sorrento fiquei num que tinha um laranjal e a piscina no meio da fruta e daquele perfume todo. Os donos eram um casal de professores de história.
Imagino que tenha episódios pitorescos…
    — Nenhuns. Mas em Sorrento, não sei se dada a proximidade da viciosa Pompeia, uma amiga nossa, no quarto ao lado, fazia meditação nua (ou melhor, nua fazia meditação), estendida na cama e com duas rodelas de pepino nos olhos. A empregada entrou intempestiva e ouviu o maior berro da vida dela saído de uma boca que expelia também rodelas de pepino. Ninguém mais lhe voltou a limpar o quarto: la signora io non la tocco, foi a desculpa generalizada.
Do passado, em viagens, de que é que tem mais saudades?
    — Do verdadeiro valor do passaporte. E dos câmbios. As liras eram um delicioso pavor. Em Roma, num dia de greve, não só fui miseravelmente enganado no troco como, ao emprestar a caneta ao motorista para fazer o recibo, fiquei sem uma Montblanc. Só voltei a ter outra quando uma alma gentil me ofereceu, generosa e piedosamente, uma nova.
Já perdeu as malas?
    — Duas vezes. Uma em Berlim, outra em New Orleans. Tenho um fatinho fatela dos Brook Brothers, oferta da British Airways.
Ameaças de acidente?
    — Em L.A., tivemos de voltar duas vezes para trás. As luzes do Boeing apagavam-se a meio da pista. À terceira, trocaram o avião. Dormi com um justo toda a noite até Nova Iorque.
Pior: já viajou ao lado de pessoas famosas?
    — Ah, sim. Do José Navarro e do Pedro Norton.
Perdão?
    — Se for ao La Chunga logo lhe explicam. Mas se está a falar de aviões, lembro-me de uma grande entrada. Quero um bloody mary, gritou a Melanie Grifitth, ainda não se tinha sentado. E depois dormiu as 10 horas de voo. Doutra vez, discretíssima tanto quanto em si cabe de discreta, a Elizabeth Hurley. E também com o Pierce Brosnan quando era James Bond.
E nos hotéis?
    — Pequeno almoço na mesa ao lado do Gene Hackman três dias seguidos. Éramos sempre e sozinhos os últimos e ele tinha um sereníssimo jornal à frente dos olhos. Era para não me ver. No Lancaster, em Paris, que é o favorito do David Lynch, tive a mais amena conversa que se pode ter com Mr. Coppola e um puto chamado George Lucas. As sobremesas eram fantásticas. Já comi um hamburger com o Danny Glover e lambi um gelado ao lado da Valeria Golino. E quem ficou tu cá, tu lá com o Mr. Big do Sex and the City foi o Zeff Navarro no Dan Tana’s, esse landmark de West Hollywood.

E, agora, ai dos mortos que não respondam ao Travel Almanac! A estas perguntas ou a outras alternativas que a Rikio não se importa que lhe dêem música: ela dança mesmo muito bem. Quem é que avança já?

O filme do resto das nossas vidas
 

um filme perdidamente adolescente

 

Aos 15 anos, gostava tanto do meu bairro, dos amigos, da família, que só me apetecia fugir. A pasmaceira de tanta felicidade desarranja uma cabeça adolescente e a ideia de “fugir de casa” parecia uma tragédia tentadora. Num festival de reposições, em 68, vi o “Rebel Without a Cause” e fugi para dentro desse filme perdidamente adolescente. Foi onde primeiro vi um planetário e todas as estrelas que nele se podem acender.
Pode viver-se num filme? Eu vivi. Juntei-me ao James Dean e à Nathalie Wood: arranjei um blusão vermelho, entrei em loucas corridas de automóveis, mas parei antes de comprar uma ponta e mola.

Imagino que José Sócrates, até por recentes e filosóficas notícias, gostasse, para já, de viver no “The Last Hurrah”, agónico filme de John Ford em que um cansado Spencer Tracy perde as eleições. Tracy, antes vitorioso três vezes, não fora um presidente angélico e propriamente impoluto, mas a derrota traz-lhe a serenidade por que ansiava.

Bem sei que Passos Coelho, nos sonhos das últimas noites, se acha um Jimmy Stewart e vê-se a caminhar para São Bento como “Mr. Smith goes to Washington”. Mas Passos Coelho deleita-se no sonho e acorda para o pesadelo. Nada ressuscitará o tempo de crença e idealismo com que Capra pintava os seus filmes e que tinha em Jimmy Stewart ou Gary Cooper os zés-ninguém a que bastava a candura de escuteiros e uma visceral incorrupção para fazer triunfar a democracia e ainda beijar, no fim, a boca saudável de Jean Arthur ou a boca para outras batalhas de Barbara Stanwick.
Passos Coelho sai a porta da rua e logo descobre que a serventia do país está mais perto do “Apocalypse Now”: o barco que dirige vai, com missão assassina, subir um rio infestado de perigos. Que não o impressione o cheiro de napalm pela manhã.

Patriota e sentimental como sou, queria que Portugal, a viver num filme, vivesse no “Meet Me in Saint Louis”. Minnelli filmou-o em 1944, sofria a América o esforço de guerra, os caixões dos rapazes a voltarem para casa aos milhares. Para resistir à angústia das batalhas da Europa e do Pacífico, Minnelli levou a América, numa viagem de deslumbrante nostalgia, a tempos em que “os dias eram luminosos, o ar era doce e o cheiro de madressilva nos entontecia”. Tempos em que uma família, de indestrutível unidade, preferia a calorosa harmonia da sua casa, em Saint Louis, à ambição e desafogo de uma promoção em Nova Iorque.
Mas não é à pasmosa beleza de Minnelli que chegámos. A Europa, os emergentes, a longa fila de povos sacrificáveis que quase integramos, vivemos todos, já, num globalizante e humanóide “Blade Runner”. Um tempo de in-identidade, de mutação caótica, de inquieta solidão.  Nem madressilva, nem napalm, em tempos que não se cheiram, só um replicante olhar conta.


 

liberty is too precious a thing to be buried in books
ps-publicado no “Expresso” de 18.06. O próximo folhetim, este sábado, é um cansado elogio à preguiça.

Era o liceu

Foi este o meu liceu. Por ser o meu, mas mesmo que não o fosse, é o mais belo liceu que conheço. Tem uns braços abertos sempre a dizerem-me “sê grande” (a mim, tão pequeno), duas sucessivas escadarias (da avenida Brito Godins até lá acima, eram uns bons três metros de desnível) sempre a dizerem-me “sobe mais um degrau”. Era imponente e carinhoso. Foi clássico e moderno. Liceu de rapazes e de raparigas, liceu de corpo e alma. Ficou-me com o raio do coração.

 

Este foi o meu primeiro dia. Serei eu? Sou, de certeza, eu. Era a praxe, a única praxe, fazer-se uma careca de frade a cada caloiro. Como se entrássemos no mosteiro. Ou seja, antes de entrarmos no mosteiro, era, o nosso último canto profano, mais gentil do que grosseiro, a nossa macia carmina burana. Depois entrávamos: para saber, para uma devoção, a de sermos muito melhores. Era o liceu.

 

E sei bem que estou nesta fotografia. Mas onde?

ps — no campanário do liceu — façam o favor de olhar para a primeira foto, à esquerda - havia um ninho de corvos. 7 anos lá estive, 7 anos lá estiveram, outros 7 tinham antes estado, mais 7 depois lá ficaram. Ou como escreveu Pessoa escrevendo Poe: Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!»  /Disse o corvo, «Nunca mais».

 

Pode chorar-se numa comédia?

Leo McCarey com ZaSu Pitts e Charles Laughton

Uma comédia que nos faça chorar continua a ser uma comédia? Ruggles of Red Gap, um filme de 1935, assinado pelo genial Leo McCarey, que filmou Laurel e Hardy e os irmãos Marx, é a melhor e mais inteligente comédia que conheço. Charles Laughton faz um mordomo inglês que um aristocrata perde ao jogo para um milionário americano genuinamente provinciano.
Ruggles, o mordomo, é mais rígido do que um pau de vassoura, como rígida é a etiqueta que venera e a estratificação social a que se submete.

Como é evidente, a vida em Red Gap, ao lado do poço de espontaneidade que é o milionário americano, revela um mundo novo ao emproado e submisso criado inglês. E quando já estamos perto do fim do filme, é nesta cena, que eu, se estiver no escuro da sala de cinema, choro sempre *.

Claro que o pasmoso e tão bem escrito discurso de Lincoln ajuda muito. Dito no campo onde quatro meses antes a batalha de Gettysburg tinha ceifado 7.500 vidas, o discurso converteu-se numa referência da cultura democrática americana.
Mas a profunda humanidade que nesta cena nos comove vem muito da inversão de papéis a que assistimos e na adopção, pelo conservador e convencional mordomo, de uma liberdade individual que nunca imaginara ou sonhara.
Já agora, que os nossos mortos  não tenham também sido em vão e que  “this nation, under God, shall have a new birth of freedom—and that government of the people, by the people, for the people, shall not perish from the earth.”

* É mentira. Até a ver isto no youtube acabo numa choradeira. Uma vergonha.

Ligeiramente menos “extreme”

Lembrei-me ao ver o que a Marta nos trouxe. Num estilo muito menos atlético, e com outra posição de braços, era exactamente isto o que fazíamos em cada esquina onde, adolescentes, encontrássemos um sinal de trânsito.

Uma declaração de independência

Ostentam cicatrizes conquistadas em portos e alto mar

 

A danada inveja acontece-me, no cinema, sempre que, numa explosão de felicidade, as personagens se libertam do filme e ameaçam, eufóricas, ficar a gozar uma comunhão de que, na sala, já somos indesejáveis voyeurs. Como se as personagens dissessem ao espectador: “Agora é privado, não desejamos que estejas aqui. Vai-te embora, não arruínes o encanto.”

Exemplo? No “Deer Hunter”, a cena do bar, com De Niro e Christopher Walken a jogarem snooker, quando a juke box debita o “Can’t take my eyes off of you”. De Niro, Walken e os quatro amigos, numa coreografia de jovens machos em noite sabática, jogam, bebem, cantam cada um para seu lado, até que o refrão os junta num coro de “i love you baby to warm a lonely night”. A amizade e a confiança deles queriam ficar ali, guardadas para sempre. Ficariam se o filme não os tivesse destinado ao Vietnam que lhes secará a voz na garganta.

Spielberg, no “Jaws”, também foi ultrapassado pelas personagens. Num barco, três homens diferentes, o chefe de polícia Roy Scheider, o lobo do mar Robert Shaw e o académico Richard Dreyfuss, entretêm a noite de espera pelo tubarão que vão matar. Ostentam cicatrizes conquistadas em lutas de portos e alto mar, com impecável mise-en-scène de Spielberg. E a cena é ainda trabalho de actor, a voz extraordinária e cava de Robert Shaw, o riso tão bonito, solto e cómico de Dreyfuss, o olhar cândido de Roy Scheider. Mas, num de repente muito devagarinho, entram em comunhão mística e desatam a cantar em coro “show me the way to go home”. Cantam, gritam, desafinam: “i’m tired and i want to go to bed.” Já saíram do filme, são cem por cento personagens, vencedoras dos actores que lhe deram vida. Em coro, “i had a little drink about an hour ago”, esqueceram-se do mar, da noite, do tubarão, a mesa tão boa para o ritmo batido palas mãos, a linha de horizonte oscilando ao ritmo das ondas. Até que uma pancada mais forte, rufo da artilharia inimiga, os traz de volta ao filme, aos dentes assassinos, olhos sem vida do tubarão. O filme volta a ser de Spielberg, fim da fantasia dentro da fantasia.

A inveja que tenho dessa alegria selvagem. Menos boa, mas ainda boa, há uma cena em “My Best Friend’s Wedding”. É um almoço de família num restaurante cheio e há uma história de amor por explicar. Rupert Everett, que bem sabe ser a história inexplicável, canta-a. O contágio é imediato, a mesa dele e as outras mesas, o piano da sala, cantam em coro “i say a little prayer for you”. Sabemos, pela expressão de Julia Roberts, que é tudo encenado, mas é um restaurante inteiro a cantar e eu tenho por hábito comover-me com um restaurante inteiro a cantar. Já não é filme, é a verdade das personagens, a sua cantada declaração de independência.

Ah, a cena do bar no The Deer Hunter tem de ser vista aqui.

Publicado no Atual do “Expresso” a 10 de Junho. Se pudesse fugir para dentro de um filme, mesmo para dentro, não fugia? Veja, amanhã, para que filme fugiria Passos Coelho. Na página do costume, no Expresso”.

Ai, o escândalo

Caminhavam pelo descuido da ociosa tarde. À volta delas, a cidade ardia em trânsito, transportes, homens e outras mulheres vergados ao peso da competitividade, por conta de outrem como assinavam nos recibos verdes.

- Sabes que ela, um dia, entrou nua na sala?
– Estás a brincar?
– Não estou, não.
– Ai o escândalo, que vergonha.
– Pois não, não houve escândalo nenhum. Estava ele, os amigos dele, as mulheres dos amigos e foi como se tivesse entrado o menino Jesus.

As quentíssimas quatro horas da tarde desenhavam um rio nítido. Sentaram-se as duas na esplanada. Pediram a graça de um chá frio.

- Queres uns scones?
– Menina, só tenho sede. Mas olha e ele não sabe? Dizem que ela se enrola com outros gajos.
– E ele?
– Ele? Com outros gajos?
– Ó filha, só tu para me fazeres rir. Já traçou metade da população feminina da cidade. E sabes que é que ele diz? É por amor! diz ele com aquele sorriso que dá logo vontade de matá-lo.
– Odeio esse tipo de promiscuidade.
– Ele também. Só o vi torcer o nariz num jantar quando o alarve do Arménio se saiu com esta: ‘O que é preciso é um gajo vir-se, nem que seja entre as pernas de uma cadeira’.
– Ordinarão.
– Foi o que ele disse. E voltou a jurar que com ele era sempre por amor. Mas que era impossível não se amar várias pessoas ao mesmo tempo.
– Um vadio. Nem a ela a deve amar, não achas.
– Não, não acho. Tomara eu que alguém me amasse como ele a ama a ela. Só de ver já acho que é melhor do que sexo.

O empregado pousou os chás na mesa e uma brisa fez círculos à volta do dourado vidro dos copos. No meio azul do rio três barcos à vela espreitavam a solidão.

- Olha, desculpa lá, se ele a ama porque é que a deixa andar com outros? Ou não sabe?
– Não é bem não saber. Ele é engenheiro, mas tem a mania da filosofia: diz que há coisas que não são da área do conhecimento. 
- Filósofo, agora. É mas é corno, desculpa lá.
– Ó querida, até ele se ria se te ouvisse. Um dia disse-nos que há coisas que já só se encontram no Camilo e no Eça, testas altas, esplêndidas. Hoje, disse ele, já não há testas para cornos!

A outra margem, difusa, desfazia-se contra a lenta vaga de calor, o perdido brado de uma invisível gaivota. As amigas recostavam-se no abraço das cadeiras, abriam agora um pouco mais as pernas à frescura do ar.

- Mas estavas lá quando ela entrou nua na sala?
– Não, mas a semana passada sim.
– Outra vez nua? Mas será que essa mulher chegará algum dia a vestir-se.
– Não seja parva, amor. Estávamos a rir-nos, uma coisa contagiosa. Ela veio do banho, uma toalha amarela enrolada à cabeça, outra à volta do tronco, amarela também. Mais luminosa do que um girassol de Van Gogh.
– Bolas, contigo é tudo kóltura…
– Espera, parva. O que foi, perguntou ela e só tínhamos olhos para as tolhas. Ele disse e ela sorriu. Saiu e dez minutos depois o sorriso dela ainda estava nos olhos dele. Vi eu. Falava connosco, bebia, levantava-se, sentava-se, mas nos olhos dele só estava o sorriso dela, a fiada imaculada de dentes, a boca tão encarnada bonita dela.
– …
– Matava por ficar assim, presa, guardada, nos olhos de alta segurança dele.

Puxaram um pouco mais acima as já curtas saias. As pernas eram o esplendoroso espelho da curva do sol que o tímido vento vinha lamber. Fecharam as duas um pouco os olhos para melhor ouvirem o silêncio das quatro da tarde.

A cadeira de que mais gosto

Tenho às vezes uma ideia muito pomposa de “arte”. É uma vergonha. E arrependo-me. Por exemplo, e é só um exemplo: não há nada mais familiar do que esta melodia. É tão simples como ir da cozinha à sala e sentar-se um tipo na cadeira de que mais gosta. Dizer: olha, hoje à hora de almoço estava com pressa e não pude vir pela marginal, a ver o rio, como gosto. E o que é que comeste? Sardinhas, mas ainda nãs as apanhei como gosto. Ó, mas as batatas cozidas que boas que eram. Ah, parece que há lá fora um eclipse. Julgas que tiro o rabo da cadeira? Não estás bem a ver o que me está a apetecer estar aqui a pastar…
E essa merda é que arte? É, essa merda é que é arte.

O unicórnio

Não sei quem é que disse, mas alguém disse:

Talking about morality if there are no moral facts is like talking about unicorns if there aren’t any unicorns.  

Tenho-me desunhado mais à procura de factos morais do que de trevos de 4 folhas. Não se apanha nem um. Vá lá que hoje vi um unicórnio.

Um dia ainda alguém nos fuma

Podia ser basco, era de San Francisco, nascido em Nova Iorque. Em San Francisco não era de um sítio qualquer. Era do Mission District o mais parecido com um bairro de Lisboa, um popular quartier parisien, que me foi dado ver, a meio dos anos 80, quando em San Francisco me estreei.
Ross, porque é de John Ross que falo, nasceu no século em que nasci, passado, em 38. Judeu, comunista, beatnick, desandou de uma América que recriminava para ir viver no atrasado México. Ia escrever romances, acabou a plantar a maconha de que retirou fama e proveito. Fumou, tripou, mocas e o raio que os parta, partindo-se a ele também. Fez isto tudo antes que John Kennedy se decidisse invadir a Baía dos Porcos.
Pouco depois morreu-lhe um filho, três semanas depois de nascer. Voltou à América, let’s go, direitinho a San Francisco, às flores, malmequeres, begónias, jacintos e todas as outras estúpidas e murchas flores que em 64 se usavam em Haight-Ashbury, descobrindo que era hippie, antes dos hippies o serem. Fez da Mission su casa. A Mission fez dele, bigode, a firme e branca barbicha, boina, lenço palestiniano ao pescoço, o seu ícone. Tenho a certeza de o ter visto um dia, todos os dias que lá passei.
Em suma, Ross nos momentos mais lúcidos foi troskysta e, lúcido ou pedrado, activista político em toda a América Latina. Chegou a vir a manifestações ao País Basco de Franco, especulo que a uma, em 73, na Praça do Chile de Lisboa, contra o malfadado e sempre bem fardado capitão Maltês. Em 94, de leitor de Kerouac passa a escritor em defesa da revolta zapatista. Murder by capitalism é a sua obra mais conhecida, oscilando (que é como eu gosto) entre os factos e a fantasia, o que não admira se atendermos a que foi escrito numa altura em que passava a maior parte do tempo num cemitério, o Humboldt, a fumar charros.
O episódio mais patético da sua vida terá sido a presença no Iraque de Saddam, funcionando, com mais meia centena de activistas ocidentais, como “escudos humanos” contra a invasão americana. Talvez fosse ridículo, mas foi sempre bem-humorado e herdeiro, julgo que sem o saber, de Quevedo, o engenhoso pícaro.
John Ross, como quase todos nós, não passará à história. Morreu no começo deste ano. Dele nada sabia e nada continuo a saber (estas notas são mal copiadas), não fora o bizarro testamento que deixou. Ordenou ser cremado. As cinzas deveriam ser, e certamente foram, espalhadas ao longo do percurso do autocarro da linha 14 que atravessa a Mission. Mas uma parte teria de ser, e foi, reservada para se fumar nos charros oferecidos a quem viesse ao seu funeral.
Lembrei-me de Keith Richards, o rolling stone que distraidamente fumou o pai. E fiquei a pensar que aos nossos mortos, mesmo aos nossos queridos mortos, já é tempo de deixarmos de os enterrar. Passemos mas é a fumá-los.

Fast Times muito devagarinho

Em certos comentários, de certos autores deste blog, a  este post, pôs-se em causa a real existência da atribulada e pouco virtuosa história da Princesa Caraboo, alegando-se a tendência esquizo do autor do post para uma descabelada fantasia e um compulsivo tratamento falsário de tudo o que seja factos. Pois embora o tal post seja todinho verdade, não deixa de ser muito pouco canónica a forma como o autor chegou à fala com a desgraçada Princesa.

Como o autor do supracitado post sou eu e não é o Jardel, antigo ponta de lança do FCP, tomo a liberdade de me deixar de literaturas e usar a primeira pessoa do indicativo. Só descobri a Princess Caraboo por causa da Phoebe Cates, a actriz que a interpretou no cinema. A Phoebe era uma jovem de esplêndidos 20 anos (um nadinha mais) quando fez o Fast Times in Ridgemont High, um filme que eu, tinha então a idade dela (vá lá, um nadinha mais), meti no ciclo Coppola em Contexto que o João Bénard, benevolente e a ver no que aquilo dava, me deixou fazer na Cinemateca e na Gulbenkian. Eu fiz o ciclo e ela fazia uma coisa no filme pela qual há-de ganhar o céu: saía da piscina com mais curvas do que o Mónaco metidas num bikini vermelho e, de repente, num daqueles repentes de exasperante lentidão, tirava, de frente para a câmara, o vermelhíssima parte de cima do bikini. Foi nesse dia, nesse preciso segundo, que eu descobri que não respirar é bom. Descobri eu e a sala toda, passando a valorizar o Fast Times com um prestígio crítico inabalável, apesar de também, nesse filme, ter começado a carreira de Sean Penn.

Fui matar saudades da cena e saiu-me a Caraboo. Há mesmo bens que vêm por bem.

http://www.youtube.com/watch?v=PqMIfeTc-CM&feature=related

A Princesa Caraboo

Julgo que das colinas de Almondsbury não se chega a ver o mar. Mas foi do mar que ela chegou. Tão vestida como os resquícios de Inverno ainda exigiam, tão despida como o doce augúrio de Primavera autorizava. O que a vestia e o que a despia tinha a estranheza da “peregrina formosura” de um soneto camoniano. “Vem de longe, talvez deva ir para longe”, foi o que pensou, bem acima do seu chinelo, o sapateiro inglês que primeiro a viu.
Corria o século XIX, o temperado ano de 1817, e um mês antes vozes iradas e pernambucanas tinham-se levantado, do outro lado do Atlântico, contra o execrável domínio português. Se era português, uma algaraviada moura, ou papua o que donzela falava foi o que pareceu indecifrável ao plácido remendão. Chamou a mulher e entregou-lhe aqueles aparentes, descalços e visivelmente opulentos 20 anos, oscilando entre a mendicidade e a realeza.
Mas triste continuava quem de longe quis ventura: a mulher percebeu, da outra e estranha, o que o marido já percebera, o mesmo exacto nada. Foram juntos e entregaram-na às autoridades, mais precisamente ao Overseer of the Poor, cargo que, na sequência das Guerras Napoleónicas, fora criado para punir, mais do que prevenir (ó meu triste e incompreendido Foucault!), a deambulante pobreza e vagabundagem.
Só que para a autoridade do pobre Mr. Hill, o único habitante de todo o condado de Gloucestshire a usar lunetas, e tanto subindo-as como deixando-as deslizar até à ponta do nariz, era menos do que chinês o que aos ouvidos lhe chegava da boca da nervosa e terrivelmente fatigada rapariga. Uma bela e definida boca, informe-se, contrastando no seu naturalismo com o artifício do turbante escuro em que se recolhia o cabelo negro e espesso da jovem.

Lembrou-se a pequena e agitada multidão, entretanto junta, que não só Mr. Worral (proprietário da mansão que encimava a aldeia, como alguém que graciosamente se põe em bicos de pés para corroborar uma esquecida hierarquia) – não só, dizia, Mr. Worral era um magistrado competente, como era casado com Mrs. Worral, americana viajada e que tinha, como dama de companhia, uma descendente de Safo. A criada grega, como plebeia e invejosamente a tratavam, falava várias línguas. Entregaram, por isso, a moça desnuda à prova do poliglotismo da grega. Do latinório levado da breca que se seguiu resultou mais esquiva, enleada e abismada perplexidade. Sei eu o que se passou? Sabe a mediterrânica Eugénia de Vasconcellos, sabe o açoriano Pedro Norton? Digo-vos: nem o cearense Ruy Vasconcelos.
Mr. Worral, da escura desconfiança, depressa passou ao claro e vulcânico lume da esperança. Quis ver-lhe as mãos, as palmas, as unhas, falanges, falanginhas e falangetas, as polpas que imprimem. Tinha-as, palmas, nódulos e polpas, macias como as de uma, do canto nono, ninfa. É-me simpática a ligeira secura em que se afogou por segundos a garganta curta de Mr. Worral.
A aldeia tomou conta da misteriosa e incomunicada jovem. Por gestos dela e gestos deles foram desbravando o desconcerto que era o mundo que por acidente os juntara. Ela. Só comia vegetais, só bebia água e chá. Não parecia saber a função de uma cama, mas rezava, de joelhos, uma mão sobre os olhos durante a ininteligível oração. A que deuses? Será que a demónios? Pensavam eles.

Os Worrall, e em particular o pigarreante Mr. Worral, ferviam de curiosidade: donde vinha e quem era aquela mulher exótica com traços tão europeus? Ao fim de dez dias, tirando esse vem não sei como e aquele dói não sei porquê que a todos nos faz irmãos, só tinham uma palavra em comum – “ananás”. Gritara-a a jovem, dedo em riste, apontando para o desenho de um que ilustrava uma parede da estalagem, o que mais alicerçou a ideia de longe exótica origem, onde se comem crudas las carnes e se bebe viva la sangre.
Durante dez dias, espalhada a notícia, foram chegando viajantes. E foi já em Bristol, nos escritórios de Mr. Worral, que Manuel Enes, nascido em 1785, marinheiro português, ribatejano, pai de Vale Paraíso, mãe de Pontével, teve o engenho e a bem-aventurança de acabar com o sofrimento dela e a ignorância deles.
Manuel falou com ela. Os ingleses ouviram de ambos a bárbara fala, frases curtas, risos rápidos, a concordância gestual. No fim, o mistério teve um honesto desfecho. Ela, disse ele, era Caraboo, princesa da ilha de Javasu algures no Índico. Tinham-na raptado os pérfidos piratas da pérfida Albion. Após tormentosa viagem – e sê-lo-ia sempre por mais que os piratas se arrogassem o mais puro código cavalheiresco – à vista de terra que o Bristol Channel lhe concedia, furtando-se à vigilância dos perna de pau, lançara-se ao mar e nadara para terra.
O desembaraço da competente língua do português envergonhou a reclamada ductilidade das papilas gustativas da grega (não me digam que já se tinham esquecido da criada?!). Enes foi cumulado de prendas e jantares supinos. E partiu.

A princesa viveu então dias de glória. Tudo lhe era permitido: danças exóticas, banhar-se nua no lago. Começou mesmo a escrever na sua língua nativa. Mr. Worral mandou essas delícias textuais para análise em Oxford. Não demorou, para encanto de todos, que a resposta chegasse confirmando-se ser “humbug” a língua escrita por Caraboo.
Humbug, my ass, e façam o favor de se catar em Oxford: dias depois, já a Princesa se convertera numa figura nacional, tudo se descobriu. Uma senhora de Bristol reconheceu em Caraboo a jovem que alojara há pouco tempo e que tinha o hábito de falar às suas filhas com uma linguagem inventada. Um divertido mariolas veio também dizer que numa estalagem próxima comera com Caraboo um tenro bife regado a rum. Caraboo era, de facto, Mary Wilcocks, nascida de família pobre em Witheridge, Devon.
Os Worral, Mr e Mrs, mais a criada grega, caíram-lhes os parentes na lama, uma venenosa humilhação a enlamear-lhes a fímbria dos helénicos mantos.

Mais do que contar os prodigiosos feitos que se seguiram e que precederam esta história infame, há um mistério a elucidar: quem era Manuel Enes, como é que apareceu nesta história, porque raio deu ele crédito e combustível a Mary que, crê-se, nunca vira mais nova? Mais do que procurar vantagens, ter-se-á Manuel animado com o insólito da situação, a doçura do fingimento e do embuste? Terá regressado ao Ribatejo ou partido definitivamente para as Índias, essa terra que o poeta disse “mãe de vilões ruins e madrasta de homens honrados”?  Se morreu, o que provavelmente fez há mais de século e meio, nem as Juntas de Freguesia, nem as igrejas de Vale Paraíso ou Pontével lhe guardam certidões desse tão certo óbito.

DSK e o rei

O filósofo alemão Peter Sloterdijk perorou alegremente, e com vasto foguetório simbólico, sobre o caso Strauss-Kahn, em entrevista à Le Point.

O filósofo invoca a existência de um inconsciente colectivo monárquico francês que continuaria a valorizar os poderes miraculosos do esperma do rei. Contrasta-o depois com o falso igualitarismo norte-americano, cuja perversão é para ele bem evidente no modo como DSK foi objecto de uma clara desigualdade de tratamento fundada na sua celebridade: no essencial foi tratado pela contemporânea capa de costumes feminista como um “celerado” o seria pelos jacobinos iluministas.

A entrevista corre solta, irreverente e diletante, mas há um ponto de fundo que exige reflexão, e cito: “… o paradoxo fundamental da modernidade é o de querer democratizar o privilégio.”

Uma angústia: e nós, portugueses, que raio de inconsciente sexual colectivo é que temos: também temos, à francesa, o segredo do esperma real, ou erguemos o estandarte da banalidade democrática em que não há ungidos, nem preferidos?

A porta do paraíso

 

Se aos 20 anos, no escuro do cinema, quisesse deslizar a mão acima do joelho, por baixo da tua saia, não te levaria a ver, de Terrence Malick, “Tree of Life”.

É um filme complicado e simples. Filma a infância de três miúdos, pai e mãe, no Texas dos anos 50. Filma-lhes o medo e a alegria, vida e morte. Nos filmes habituámo-nos a que a vida faça sentido. Neste, o sentido das personagens não cabe nem se resolve na vida deles. Mas é um filme belo e simples como a mão sobre a redonda doçura de um joelho.

“Tree of Life” tem sede e fome de sentido: sede cósmica; fome metafísica. Não lhe basta filmar uma família. Filma – como o Kubrick de “2001”, dirão e mentem – a origem delirante de céu e terra, a luz bruxuleante, quase nada, onde começámos (que é o nada? o que é começar?) até à obscena explosão de vida a que chamamos natureza. É um turbilhão exaltante, mas já não é tão simples: tiro a mão, retrais o joelho.

Repito: a matéria de “Tree of Life” é o sentido. A de “Apocalypse Now”, lembram-se, era o rio; a de “Eyes Wide Shut” a impotência. Malick filma o infilmável: o sentido da vida, da dor, da felicidade. Aceitemos a ilusão de que o centro do filme é Jack, o irmão mais velho. Jack diz palavras terríveis à ausência de sentido. Trata-a por Tu maiúsculo e, quando procura a graça, sufocado de fé como Job na Bíblia, diz-lhe “Quem somos nós para Ti?” Mas o que deveria perguntar é “Sem Ti, o que é que nós somos para nós?” O silêncio desse invisível Tu, Deus talvez, é pavoroso e o vazio deste “pedaço” de filme é de uma espantada complicação.

“Tree of Life” não conta uma história. Malick começa a filmar as suas personagens onde “East of Eden” ou “Rebel Without a Cause” as deixaram nos anos 50. Elia Kazan e Nicholas Ray já tinham contado as histórias de amor e ódio ao pai, desejo da mãe, mortais ciúmes de um irmão. Malick filma sobre as ruínas e fragmentos desses “clássicos”: exibe o cruel tiro dum irmão no dedo doutro irmão, mostra o nariz do rapaz que cheira e acaricia a lingerie da vizinha. Filma o perplexo Sean Penn como se o presente dele fosse uma mão e o passado lhe escorresse pelos dedos entreabertos. Presente que o passado infecta de sentido.

“Tree of Life” precisa da cara amargurada do pretensioso Sean Penn para nela desaguarem as cenas familiares dos anos 50, troços de home movie em que até a felicidade é filmada com a aura da infelicidade. Mas a glória de “Tree of Life” é a cara de Brad Pitt, pasmosa criação de pai abraâmico, e é a cara de Hunter McCraken, o miúdo que, no belíssimo desenho da infância de Jack, desenha a nostalgia da inocência e a patética vontade do paraíso. Ou não fosse a porta do cinema a porta do paraíso a que se acolhe uma mão, a lisa pele de um joelho.

Publicado no Atual do “Expresso” a 3 de Junho. Na próxima 6ª, lá estarei: junto-me a um bando de actores para fazermos karaoké