De que é gostamos quando gostamos?

Há coisas de que, sem esforço, gostamos. Por unanimidade e aclamação. Gostamos mesmo. Do lindo sol, do sabor fresco da cerveja ao pé do mar, da espumosa exuberância do champagne, de deitarmos a cabeça entre as amadas coxas. Vivemos para isso, a pensar nisso. Sabemos que é aqui e nesse aqui que reside a felicidade.
Então, porque é que nos comove tanto que se cante assim, mesmo quando o que assim se canta é a nostalgia de um tempo só de heroísmo e sacrifício?!

Ou porque é que tanto nos exalta e alvoroça o ritmo das botas que marcham, a imponência dos exércitos em parada, da patriótica multidão unida em torno de coisa quase nenhuma?!


Augusto, prazer em conhecê-lo!

Para além do tão envolvente e angustiante post abaixo, aqui ao lado o Ruy Vasconcelos apresenta-nos um “Midas de frases curtas”, um conversador que vale a conversa inteira e nunca acabada. É o nosso mais recente “querido morto”. Andou por aí, na “madrugada sonolenta, de bolero em bolero” e, agora, está “com a vida que pediu a Deus”.

11 de Março

Faz hoje 35 anos. No dia 11 de Março de 1975, Portugal, que então vivia tudo sem espanto, assistiu a um golpe de estado que nacionalizou quase todos os grandes grupos económicos. Banca, seguros, transportes e o diabo a quatro que é o que mais e melhor move o êmbolo do capital. Escapou o SLB!
Passo a vida a ouvir elogios a ardentes e vibrantes visionários. Acabo invariavelmente, e dez anos depois, a descobrir o obscuro estampanço das luminárias.
Decidi jogar à defesa: visionários são os que, 30 anos depois, descobrimos que tinham razão. É, por isso, de elementar justiça saudar os visionários do 11 de Março. Se não fosse o que, então, passou por incompreendido assalto, expliquem-me o que é que hoje, a 11 de Março de 2010, o Estado teria para vender e dar gás ao PEC?
Aquela malta que se vê na foto acima, no Terreiro do Paço, sabia que estava a trabalhar para o futuro! Haja alguém que reconheça, retrospectivamente, a centelha de futuro (e de inominável liberalismo) que atravessou a mente dos nossos truculentos revolucionários de 75. O ministro Teixeira dos Santos, devoto e obrigado, antes de todos.

Stairway to heaven

Começa como uma balada. Acaba em apocalíptico hard-rock. Primeiro romance, depois matança. Mas é uma grandessíssima canção de uns ingleses marados que davam pelo nome de Led Zeppelin. Robert Plant cantava com voz e cabelos, Jimmy Page desunhava-se no (talvez) mais mítico solo de guitarra da história do rock. À canção, tocaram-na de todas as maneiras e feitios. Ninguém melhor do que os autores. Mas gosto muito do “tribute” irónico, desconstrutivo, desarmante, que Frank Zappa lhe dedicou. De Zeppelin a Zappa, estamos a falar de gente séria, com escadinha para o paraíso.

Dois livros, duas capas

Lá vem, outra vez, outra vez! a declaração de interesses… A editora e eu, eu e a editora, blá, blá, blá… Mas o que é que querem, não resisto a mostrar capas e livros novos.
Já tinha dito que a Guerra e Paz publicou até hoje 3 livros de Agustina? Já e repito: As Meninas com Paula Rego, Fama e Segredo da História de Portugal, o autobiográfico Livro de Agustina.
Já tinha dito que, muito em breve, a Guerra e Paz terá também 3 livros publicados de Jorge de Sena? Não? Digo agora: nos próximos dois meses, à Correspondência de Sena com Sophia, agora reimpresso com 9 cartas inéditas, a Guerra e Paz vai juntar dois novos livros, Dedicácias, contendo os mais violentos poemas de escárnio e maldizer do poeta, e a Correspondência que trocou com Raul Leal.
Mas hoje, as capas e os novos livros que mostro são os de nova aposta: a publicação sistemática de novos romancistas portugueses.
Todos os dias, a toda hora penso que esta vida não pode ser a minha vida” lê-se no romance de estreia de Cristina Boavida, a que ela chamou “Só No Escuro Podes Ver as Estrelas”. A editora deu-lhe esta linda capa:

 

“- Ora até que enfim – silvou baixinho Damião S. Sampaio, ajeitando melhor os fundilhos à cadeira de trabalho.” foi a forma que António Eça de Queiroz encontrou para começar o seu primeiríssimo romance, titulado com toda a propriedade “O Romance Ilegal do Sr. Rodolfo” que a editora revestiu com capa celestial:

 

 Primeiros romances. Estou firmemente convencido que a Cristina e o António vão escrever muitos mais.

Hoje à noite, em Milão

Faz hoje 168 anos, ia uma louca e vertiginosa azáfama em muitas casas milanesas. Senhoras armavam cabelos, criadas passavam-lhes os longos vestidos, lustravam-se os generosos centímetros de doce seio que brilhariam depois no insensato decote. À noite, “ah, logo à noite”, estrear-se-ia no Scala a terceira ópera de… de…, “ai como é que ele se chama..?”, “Olha, Verdi, sei que é Verdi!”.
Livremente inspirada nos incidentes bíblicos, a cuja fantasia presto devoção, Nabucco, terceira ópera de Verdi, segue os sofrimentos e peregrinação do povo judeu, desde o ataque até à escravização e exílio. Tudo sob a feroz e férrea acção de Nabucodonosor (“Não sou rei! Sou Deus!”).
A noite foi gloriosa e o público pediu encore do “Immenso Jehovah”. Mas colado às paredes, caminhando pelas vielas mais escusas, um compositor alemão, Otto Nicolai, que recusara o libreto, a ele primeiro oferecido, ruminava impropérios: “Como é que podem gostar disto, o homem compõe como um louco, nem profissional é. Que história, só de raiva, sangue e matança!
E era e começava assim:

E era e acabava assim:

É delito e agradecemos

O nosso blog é como aquelas criancinhas de que as mães e as amigas das mães dizem “ai tão perfeitinho”.  Foi o Francisco que o fez e muito bem feito. Mas o Francisco avisou logo que ainda faltava uma coisa — os links. E faltam. Ainda.
Agora, por acaso, disseram-me ao ouvido que o Delito de Opinião, um blog a sério e muito bom, gostou duma roupinha lavada com que nos andámos a passear no fim de semana e fez-nos link aqui. E nós gostámos, gostamos e agradecemos.


Mil e uma noites

A vida não tem gracinha nenhuma. Não me venham cantar a virtude da verdade; nem façam hinos à prosaica realidade. A vida, a prosaica realidade, está todos os dias na Imprensa e faz primeiras páginas infames. Torce-se o jornal e escorre sangue.
O que exalta e nos exalta é a ficção; só a mentira tem imaginação para proclamar o sublime. Experimentem. Viajem por montes e planícies, entrem nos bares mais escusos das mais escuras noites, e nada: chato, flat, plat, só lá encontram a lisa realidade e nem um cavaleiro andante. A vida é primeiro, às vezes segundo acto que nunca chega a terceiro. Tão pouco para uma boa comédia, coisa nenhuma para uma realíssima tragédia.
Don Quixote e Sancho Pança, sim! Nas intermináveis páginas do livro onde existem, nas múltiplas e intraduzíveis línguas em que já foi escrito, proclamam incansáveis a superioridade de um idealismo que resiste ao ridículo.
Os verdadeiros heróis são de papel. Ninguém, nenhuma polícia, nem mesmo o cortejo de um milhão de detectives de carne e osso, se aproximará, debilmente que seja, da rigorosa capacidade dedutiva do britânico Sherlock Holmes ou de Hercule Poirot, de imprestável nacionalidade belga.
Dizem-me que há seres dúplices, manéis de dia, marias à noite, mas na vida topam-se à légua. Só uma imaginação poética e em transe mediúnico teria criado o corpo desdobrável e prodigioso que é, ao mesmo tempo, Dr. Jekyl e Mr. Hyde. Querem provas: leiam o livro, vejam os filmes.
E digo-vos: mesmo nos momentos mais trágicos, quando só a sobrevivência conta, a honesta e nostálgica ficção canta mais alto. Durante a II Grande Guerra, de um lado e do outro da trincheira, a mesma mulher (“husky, sensuous, nostalgic”), Lili Marleen, assombrava os corações dos soldados alemães e dos soldados aliados. Era só um nome, duas palavras a fechar uma estrofe. Nunca ninguém a viu, a essa rapariga lírica e erecta debaixo de um desmaiado candeeiro. Mas todos, soldados, alemães e aliados, agachados ou erectos, a cantaram e perdidamente a amaram.
Não há um recanto da nossa vida, em que a ficção não se intrometa e, despudorada, triunfe. O incauto Édipo dos pés furados mete-se entre o filho que somos e os pais que temos. Lolita, a decotada ninfa, atormenta-nos a maturidade. Othello vem todas as noites instilar um obtuso ciúme na almofada em que afundamos as nossas insónias.
Donde vem este exército de fantasmas, esta legião de incorpóreas entidades? Às vezes, acredito que cada um de nós é como um rei de mil e uma noites a quem, de madrugada em madrugada, a eloquente Xerazade surpreende com lendas e histórias, com poemas e canções. Com tão boa ficção, que préstimo pode ter a vida, a não ser o de, na madrugada do dia seguinte, nos ser revelado o fim da história que ontem à noite nos começaram a contar?

O tio da América

 

Para os anti-americanos primários vai ser um festim. Sem ofensa, como vão já compreender.
Aqui há tempos, um grupo de paleontólogos da Universidade do Oregon descobriu os mais antigos vestígios de presença humana já encontrados na América. Em relação ao que se sabia, estes “novos” sinais fazem recuar 1.200 anos o relógio da actividade humana no continente em que, não sabendo para onde ia, não sabendo onde estava e já mal sabendo donde vinha,  Colombo tropeçou. Ou seja, os nova-iorquinos, o pessoal de Washington e San Francisco, Obama e Ms. Clinton, sabem agora que há 12.300 anos tinham já uns patuscos tios americanos.
Infelizmente, a herança que receberam, perene embora, não é a mais palatável, não se presumindo que as partilhas venham a desencadear disputas coléricas e fratricidas. Não sou de me pôr a adivinhar, mas cheira-me que ninguém vai querer meter a mão neste património.
Ainda não falei, vou falar: o que os cientistas encontraram foi tão só o esforçado resultado da defecação desses antepassados yankees. Encontraram, pois, excrementos.
Os coprólitos – assim se chama em linguagem de gente aos excrementos fossilizados – foram laboriosa e laboratorialmente analisados, provando-se (sic) serem genuínos. Ao ADN humano aparecem associados uns remanescents genéticos de coiotes e lobos, deduzindo os paleontólogos que, das duas uma, ou esses americanos primitivos tinham feito deles um ululante repasto ou os dissolutos animais decidiram intervir no curso da História, alvejando com uma realíssima mijinha a idiossincrática retro-manifestação dos mais antigos habitantes do Oregon.
Está claro, a esta perfumada herança genética os anti-americanos primários (mesmo alguns secundários) vão chamar um figo. Dirão que a coisa – em particular “aquela coisa” – afinal não começou com Bush e que os antecedentes já vêm de longe. Dirão que a política “neo-con” foi bem adubada por estes “pais fundadores” ou que o cheiro que ressuma da ocupação americana do Iraque é, afinal, milenar.
Sem renegar a minha babada admiração pela América (o que lutei pelas primeiras jeans e pela primordial coca-cola), mesmo eu tenho de reconhecer que aquele resquício dos tempos é inestético e mal-cheiroso e, sobretudo, que o mais humilde gesto humano – que nada, hoje, parece impelir-nos a travar – pode no futuro, por ominosa denúncia genética e datação a radiocarbono, ganhar dura notoriedade que envergonhe os nossos vindouros.
Sejamos humildes e façamos, no nosso dia-a-dia, o que temos a fazer. Com a consciência, porém, de que o resultado não escapará ao apertado crivo dos nossos tetranetos. Olfacto incluído.

quando eu era pequenino, 10

Grandes alegrias trazem lágrimas. Sempre será assim e muito mais assim foi no Natal de 1974. Só vos digo e para vosso sossego: a alegria tem uma ferocidade vaidosa e dramática.
Em 1974, estava em Luanda, cidade sofrida e a caminho da crudelíssima independência. Aos 21 anos sentia-me tão só quanto só se pode estar. A família tinha deixado África e eu, nem pai, nem mãe, estava por minha conta, acompanhado por uma pequneina multidão de amigos cujas cabeças, dia a dia, iam rolando à velocidade da guilhotina na Revolução Francesa. Mortos pela guerra que havia? Nem mortos, nem atropelados. Eram apenas nomes inconsoláveis que, dia a dia, a ponte aérea para Lisboa abatia ao activo. Para nós, e para o que na altura interessava, defuntos irremediáveis e indesculpáveis. E, de repente, dei comigo sozinho, entre o céu e a terra, o mar e tudo. 
No meio desse caos furioso e obsessivo, no meio do fogo amigo e do fogo inimigo de cuja ontologia duvidava, começou a crescer, modesto mas abnegado, o Natal, o meu Natal de 74.
Não sei se foi um sussurro, se foi um piscar de olhos, mas esse Natal, que na Europa calha tão bem aparecer como uma lareira no meio do Inverno, surgiu suave, mais tropical do que nunca, e foi o meu primeiro e verdadeiro Natal angolano.
O caloroso acolhimento foi duma família africana, comandada por um patriarca como nunca mais encontrei. Entre irmãos, irmãs e meio-irmãos eram uns seis, mais primas e primos, pai e mãe, como só existem nas grandes sagas familiares. Eu, branco branquíssimo, fui recebido como filho. A geleira, como numa família decente e lindamente mulata se chama a um frigorífico, estava (esteve durantes dois anos) à disposição: “Aqui não se pede, abre-se e tira-se.
Lembro-me de nos organizarmos e traficarmos. Sei que houve vinho, couves e bacalhau a chegar de Portugal. Se algum dia (e peço perdão) o Menino Jesus me tinha parecido anedótico e um pouco tolo, no Verão angolano de 74 tive a impressão de que o Natal era intemporal, robusto e sem caprichos.
Naquela noite de 24 de Dezembro tive a melhor das ceias. De vez em quando, com a irregularidade de nunca pararem, as soviéticas rajadas das AK iam pondo vírgulas e pontos de interrogação nessa noite de uma estrela. Menos insistentes, com uma delicadeza obsoleta, dois ou três morteiros introduziam a necessária nota de suspense. Coisa pouca e, I promise, nem sequer me estou a fazer interessante. Coisa muita foram as conversas, as promessas, as juras e os choros dessa ceia tão delicada e intensa. Os discursos, meu Deus, o gosto que tínhamos nos nossos discursos, tão vibrantes, tão eufóricos, tão nus. Apontavam-nos uma pistola à cabeça e discursávamos. Mesmo mortos, continuaríamos, engajados (explico se me perguntarem), a discursar, e sempre com alegria feroz, vaidosa e dramática.
Foi, imagino que foi, no meio dos discursos, em pleno Natal de 74, ciciado e susurrante, que dei comigo a pensar: quem sabe se em vez do verdadeiro Cristo ser Marx – como diziam os nossos discursos e a ponta de cada espingarda –  quem sabe se, afinal, o verdadeiro Marx não será este Cristo anunciado por uma estrela amarela no céu vermelho de África.
Para ser completamente franco interessa-me bem mais a a pergunta do que qualquer resposta.

O mais doce começo quando, Amada…

É contigo que estou a falar. Não me interessa nada a literatura do MSF (quem é que se vai esfolar a ler Goytisolo), o rubicundo começo camiliano do JNA, o homem solteiro de Joana d’ Austen. Quero ler-te, quero que me leias, o mais doce dos começos quando, Amada, me disseste:

Beija-me com beijos da tua boca!
Teus amores são melhores do que o vinho,
o odor dos teus perfumes é suave,
teu nome é como um óleo escorrendo,
e as donzelas se enamoram de ti…

E logo eu (seria eu ou não eu?), Amado, te respondi:

Minha amada eu te comparo
À égua atrelada ao carro do Faraó!
Que beleza tuas faces entre os brincos,
Far-te-emos pingentes de ouro
Cravejados de prata.

É este o começo – tu sabes – , o mais doce dos começos.

seis palavras, uma tragédia

Tinha dito aqui, após aturada e científica investigação, que os falantes de língua inglesa utilizam hoje cinco vezes mais palavras do que as utilizadas por Shakespeare para escrever o sombrio Hamlet. O aperto lexical não obstou, é claro, (e como diria qualquer presidente da república) à grandeza imortal de Shakespeare. Aliás, fazendo justiça ao homem de Stratford Upon Avon deve dizer-se que foi ele o primeiro a usar, na escrita, pelo menos as seguintes palavras: bog, bump, assassination, hurry, lovely e dwindle.
Com o que nelas há de pantanoso, de choque e confronto, de sangue a correr, de descontrolado alvoroço e amoroso intermezzo, de final dissipação, será que alguém precisa de mais do que seis palavras para escrever uma tragédia?

Uma solidão de Joana D’Arc

Das pontes que sobrevoam o Sena, a Alexandre III é a minha favorita. Não admira: beirão e camponês, com duas décadas de trópicos, para mim tudo o que brilha é ouro.
Não foi em Paris, foi em Lisboa que, há 2 anos, soube o que acontecera. Não tive a mínima dúvida: à lenda dos 107 metros de comprimento desta ponte dourada que homenageia o czar de que herdou o nome, acabava de se acrescentar o mistério e a certeza da morte de uma princesa africana.
Katoucha Niane, nascida em Conacry, brilhou, a ébano, seda e prata, nos desfiles de moda dos anos 80. E mesmo eu, que sou resolutamente um rapaz sem virtudes, arrogo-me a capacidade e a imodéstia de lhe admirar a beleza. Katoucha tinha uma beleza prodigiosa. Real. Foi a musa inspiradora de Yves Saint-Laurent. Desaparecida no primeiro dia de Fevereiro, o seu corpo lindo e longilíneo apareceu a flutuar nas águas do Sena, no que deveria ter sido, não fora ser o ano bissexto, o último dia desse mês cinzento e frio.
A que propósito vem a lembrança desse dia já esquecido e gélido? Há um patético na ocorrência que toca a minha, e julgo que a vossa, masculinidade. Katoucha – essa mulher deslumbrante que aos 9 anos fora vítima de excisão – vivia sozinha num barco de luxo, ancorado num cais junto à ponte que, à noite, é iluminada por 14 candelabros de bronze. Terá, por acidente, caído ao leito gelado do rio que dá a Paris margem esquerda e margem direita. Não havia ninguém com ela, ninguém no rio, ninguém na ponte Alexandre III.
A solidão de Katoucha é o clamoroso anúncio do fracasso de todos os homens. Além de bela, era uma mulher inteligente, com personalidade forte. E deitava-se sozinha, num barco sumptuoso, em cima da palpitante cama de água que é o Sena.
Quero crer que vivemos um tempo de arrefecimento afectivo global. Em Paris, milhões de homens atarefados em jogos improváveis e, como diria o cronista Nelson Rodrigues se fosse vivo, “ela ali, erecta, numa solidão de Joana d’Arc”. Cabe-nos a todos, homens, uma fatia de culpa pela solidão que afogou esta mulher.
Katoucha habitava sobre as águas, ela que nem sabia nadar.

O mais silencioso dos quadros

Se me disserem que é azul, eu digo que mentem. Há um silêncio roxo ou púrpura que esmaga a cantora (ou é uma noiva?) geométrica e branca. Ao fundo, o pianista dissonante poderia ser, como Kandinsky que o pintou, um notário.
Não tenho a certeza de gostar de Kandinsky. E ele ralado… Seja como for, as “Composições” de Kandinsky – ao contrário desta “Cantora” de 1903 – são, quanto mais abstractas, mais vibrantes e tão musicais como ele achava que toda a pintura deveria ser.

A cor é como as teclas, os olhos são as harmonias, a alma é um piano de múltiplas cordas”. Palpita-me que Kandinsky terá dito isto alguns anos depois de ter pintado “A Cantora”, o mais silencioso dos quadros. Um silêncio em roxo e púrpura. Igual, e também foi o russo pintor que o disse, “ao silêncio do corpo depois da morte”.

ps– publicado há que tempos aqui, neste blog tão bom de pintura

Moisés ouviu vozes

Educa muito ler os jornais. Ou as revistas da « especialidade ». Eis o que li: um investigador israelita afirmou que a revelação divina dos «Dez Mandamentos», no Monte Sinai, foi o insólito resultado de Moisés ter, na altura, consumido alucinogéneos. Deus não foi tido nem achado ou, para dizer as coisas de maneira que até a miudagem do bullying entenda, Moisés estava com uma pedra de todo o tamanho. Não admira que ouvisse vozes, não admira que tivesse visões.
O «estudo» (que os rabis se apressaram a designar com nomes, passe a ironia, pouco católicos) publicou-se na revista «Time and Mind». O autor, Benny Shanon, recusa, liminar, ter-se tratado de um acontecimento metafísico e sobrenatural, sustentando que Moisés, assim como o povo eleito que o seguia, consumia psicotrópicos com adicta regularidade.
Shanon, que asseguro com total confiança não ter a mínima ligação ao Hamas (nem parentesco com Bin Laden), investigou, declarando que o povo errante de Israel estava sob o efeito de estupefacientes. E foi nesse lindo estado que Moisés subiu aos picos do Monte Sinai. Perguntam-me: então, a voz que ribombava como um trovão, a sarça-ardente, a montanha fumegante? A resposta é simples : a culpa é da «peganum harmala», essa flor branca de cinco pétalas pontiagudas, cujas sementes Moisés deve ter mascado (?) antes de rebentar em soluços e visões. (Não se masca, bebe-se como um chá, mas já lá vamos).
A teoria de Shanon, especialista de psicologia cognitiva, é tudo menos inócua. Não parece ilícito concluirmos que a ética da civilização em que bebemos o leite materno – do «não matarás» ao «não furtarás», do «honrarás pai e mãe» ao «não desejarás a mulher do próximo» – se funda em duas tábuas com Dez Mandamentos que correm o risco de mais não ser, afinal, do que versículos de um profeta que estava, ao redigi-los, no mesmíssimo estupor de Allen Ginsberg quando desembestou a escrever o interminável «Uivo». Com a ressalva, valha-nos Deus, de que Moisés escrevia bem melhor.
Seja como for, vamos admitir (nem que seja por guloso exercício intelectual) que Moisés tivesse tomado ainda mais uma chávena (a forma canónica de consumo) da «peganum harmala». Mais uma chávena, outros mandamentos e, se calhar, avaliaríamos o mundo com a moral de um Jack, o Estripador. Mais uma chávena e hoje veríamos com outros olhos os «off-shores», com outros ouvidos as escutas e, em particular, a reluzente mulher do próximo.
Dizem-me que a mulher do próximo já e sempre a vimos com outros olhos. Pois sim, mas escusávamos de ter a carrada de complexos de culpa que, entre cada chávena, ao olhá-la tanto nos aflige.

Um bom começo

Todas as famílias felizes são iguais. Cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Se eu fosse autor destas duas frases, a minha crónica terminaria aqui. Mas não, não sou. A feliz conjugação saiu armada e imortal da imaginação de um russo, anárquico e prodigioso. É assim que começa “Anna Karenina”, um dos romances maiores (são todos) de Leão Tolstoi.
Parafraseando o que em tempos disseram os nossos Correios, numa campanha ganhadora aliás, começar bem é meio caminho andado.
Há, na história da literatura, alguns começos extraordinários. D. H. Lawrence abria o seu controverso “O Amante de Lady Chatterley” com uma frase severa: “A nossa época é essencialmente trágica, por isso nos recusamos a levá-la a sério”. O livro encabeçado por esta frase, relatando no miolo a fusão tórrida de um guarda-florestal com uma aristocrata, foi levado tão a sério que, publicado pela primeira vez, em 1928, na católica Florença, só em 1960 teve impressão autorizada no liberal Reino Unido. Claro que o facto da dita fusão ser, na prosa de Lawrence, reduzida a uma palavra inglesa com quatro letras explica em parte a trágica proibição.
Nas leituras adolescentes, as minhas, claro, um dos começos que mais me impressionou foi o da “Reivindicação do Conde Julião”, romance assinado por Juan Goytisolo. Em minúsculas – o estilo é o homem – Goytisolo punha na boca do seu narrador, que do alto de uma colina em Tânger se dirigia à Espanha de Franco, esta amargura anti-patriótica: “terra ingrata, espúria e mesquinha entre todas, jamais voltarei a ti”. À direita e à esquerda, poucos lhe pouparam a traição delirante que a invectiva supunha. A mim, esta maldição forçou-me a devorar cada página. Duma vez por todas, passei a corar sempre que lia a palavra patriotismo.
Conheci-a há oito anos. Era minha aluna”. Esta é, para mim, a melhor abertura de um romance de Philip Roth. “O Animal Moribundo”, um belo romance, não será o melhor do escritor. Mas o arranque anuncia uma glorificação do sexo que, à medida que viramos as páginas, nos leva a crer que a “verdade do orgasmo” talvez seja a única verdade capaz de suspender a morte. Ou precipitá-la?
O meu romance português preferido, “El-Rei Junot”, que Raul Brandão escreveu em 1912, tem um arranque que rima com o tema pungente da invasão francesa: “A história é dor, a verdadeira história é a dos gritos”. Mais do que um romance histórico, “Junot” é o trabalho de um artista que pinta a tragédia humana com uma combinação improvável de farsa, grotesco, comicidade e metafísica.
Não sei se acabe com Jane Austen ou com James Joyce. Des-hesito! No mais ilegível dos seus romances, “Finnegans Wake”, a primeira frase do irlandês contem todos os mistérios do mundo: “riverrun, past Eve and Adam’s, from swerve of shore to bend of bay…”, o que em português tentativamente dá “riocorrente, depois de Eva e Adão, do desvio da praia à dobra da baía…”. E poucas vezes a escrita terá fluído como este rio, ancestral e a abrir-se sobre um mar de sibilantes para a redonda, doce e acolhedora aliteração de uma baía (“from swerve of shore to bend of bay”).
Mas para acabar, e acabar com a des-hesitação, escolho a epítome do amor romântico que é “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen. “É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro na posse de uma boa fortuna deve estar à procura de uma esposa.” Porque é que nada neste nosso mundo é já tão seguro e certo como os padrões desse mundo de reconhecimento e segurança? 

O português é defunto

Dali: criança geopolítica observa o nascimento do Homem Novo.

O português é defunto e saudosista. Ou, para ser justo, até porque já confessei e confirmo: eu sou defunto e saudosista. Pelo passado, pelo admirável passado, somos capazes de fazer mais do que promete a força humana. Eu também. Recusamo-nos – recuso-me – a ser apóstolo das novas gerações. Quase tudo o que interessa é o passado e os seus pobres diabos. Na literatura como na pintura. No futebol, como (hèlas!) no amor. Na ciência como na tecnologia.
Se este post fosse um quizz, impunha-se agora a pergunta: verdadeiro ou falso?
Afinal somos também, com mais ou menos mérito, os gloriosos e loucos herdeiros do poeta que cantou a mudança.  Em catorze versos, Camões quis preparar-nos para um mundo tão composto de mudança – “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” – que bem nos avisou estar, a mudança de cada dia, tão mudada que “não se muda já como soía”.
Só que o mundo já não cabe num soneto. Ou cabe?! Sugiro uma primeira e modesta experiência: saiam à rua e comprem um jornal. Não digo o “Público”, talvez nem o “Expresso”. Mas, por exemplo, o “New York Times”. Numa só semana, o “NYTimes” soma mais informação do que a que seria possível a um europeu recolher durante toda a sua vida se vivesse no século XVIII. Pura e comprovada estatística.
Dizem, e para que não seja só a cabeça de Camões a rolar, que a língua inglesa actual incorpora 5 (cinco) vezes mais palavras do que as utilizadas por Shakespeare. O facto não restaura o velho e decrépito império. A verdade é – linda estatística! – que a China, nos próximos anos, vai transformar-se no país do mundo com mais falantes de língua inglesa. God save the Queen.
Mas há mais: a velocidade. A velocidade da mudança. Continuei, displicente e distraído, a ver as estatísticas. Pediram segredo mas, aturdido, conto na mesma. Entre o seu musical arranque e a obtenção de um auditório de 50 milhões de ouvintes, a rádio teve a paciência de esperar 38 anos. A televisão, muito mais messalina, acomodou idêntica promiscuidade em 13. A internet, abrindo a banda, consumou os 50 milhões em quatro breves anos.
Hoje, na televisão, Medina Restelo Carrreira pediu melhor escola lamentando que a dialogante nova ministra tivesse implodido a avaliação dos professores. Só que a mudança já avaliou a própria escola. Se aceitarmos a hipótese – outra vez o raio da estatística! – de que os 10 empregos que vão ter maior procura no ano que vem ainda nem sequer existiam há 5 ou 6 anos, teremos de concluir que professores e escolas deveriam estar a formar alunos para empregos que ainda não existem e para dominar tecnologias por inventar. Parafraseando o que disse Einstein, justificando a resistência in illo tempore à sua teoria da relatividade, devíamos era estar a prepará-los para problemas que ainda nem sabemos formular.
Com um futuro destes, tão veloz e suicida, nem vale a pena ter passado. Verdadeiro ou falso? Já não sei se respondo por mim, mas anda-me o passado a pedir mais um bocadinho de futuro.

Nove meses antes de morrer

Nove meses se demora a nascer, nove meses era o que faltava para Marilyn morrer. Numa manhã de Nova Iorque (ou terá sido L.A?) foi visitar o poeta Carl Sandburg já cabelos brancos. Também lá estava, era a casa dele, o seu amigo fotógrafo, Len Steckler.
Marilyn chegou tarde e desculpou-se: “… um horror de tempo no cabeleireiro a ver se conseguia uma cabeleira igual à do Carl.
Steckeler fotografou e as 4 imagens ficaram escondidas até agora, quase meio-século. Que bem que ficam os óculos a Marilyn.

the stuff this blog is made of

Já bem basta a declaração de interesses dois posts abaixo, ali no guerra é guerra. Mas arrisco e digo-vos que aqui também não vos prometo paz. É de ir lá a correr i ler. Para que saibam the stuff that this blog is made of.

Guerra é guerra

Sei bem que não devia, e declaração de interesses e coisa e tal. Mas a verdade é que a Guerra e Paz anda em tais trabalhos de renovação e restauro, dirigidos com pulso de guerra e coração de paz pela nova coordenadora editorial, a Maria Teresa Loureiro, que eu, accionista, frio Scrooge de bolsos a abarrotar, não resisto a comover-me e deliciar-me com as últimas lindas edições. Querem ver: 
Queríamos tanto ter este fabuloso texto da Agustina (tanta fama, tanto segredo) num livrinho que coubesse na palma da mão. Cabe! E couberam lá dentro 12 ilustrações de Lucy Pepper, as ilustrações mais perto da verdade de Agustina que algum dia vi.

 

Ficou bonito o livro de Thomas S. Kuhn (S, o S do nome foi decisivo). Agora já ninguém tem razão para andar aí de paradigma desfraldado sem saber do que anda a falar.

 

Este livro do Coronel Sousa e Castro não é de secta, é de natio. Tem uma leitura universal dos factos de Abril e de antes de Abril, dos factos de Novembro e depois de Novembro. Não ajusta contas, acerta datas o que é sempre a melhor maneira de nos reconciliarmos com a História.

 

Pessoa, o desdobrável Fernando, ele-mesmo e os outros todos dele, saiu em viagem nunca saindo em viagem. O livro é pequenino e contrasta poemas com as fotos que ele nunca faria, a cores que ele nunca usaria – só os outros, os outros dele.

 

Dos mortos, fez-se regressar W.M. Thackeray num livro que calha muito bem a este blog de benigno snobismo. Parece que não, mas, superiormente escrito, é um livro de auto-ajuda: ensina-nos o que devemos engolir em sociedade – basicamente tudo – umas vezes com um sorriso glorioso, outras vezes, hèlas, nem nada que se pareça.  

E já nas livrarias está a versão praticamente completa (mais nove cartas e postais inéditos) da Correspondência trocada entre Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena. Nunca Portugal, o Portugal dos anos 50, 60 e 70 foi tão bem escrito, tão desencantadamente amado, com tanta raiva de ser pátria mesquinha.

São seis exemplos do restauro (histórico, científico e literário) em que anda a Guerra e Paz. Agora que já não coro a falar disto, prometo contar mais novidades e mostrar capas já para a semana.
Ah, o que não se parece nada com um post scriptum, a Tânia, na edição, e o Ilídio na produção, têm feito uma linha de meio-campo que é culpada disto tudo.