
Grandes alegrias trazem lágrimas. Sempre será assim e muito mais assim foi no Natal de 1974. Só vos digo e para vosso sossego: a alegria tem uma ferocidade vaidosa e dramática.
Em 1974, estava em Luanda, cidade sofrida e a caminho da crudelíssima independência. Aos 21 anos sentia-me tão só quanto só se pode estar. A família tinha deixado África e eu, nem pai, nem mãe, estava por minha conta, acompanhado por uma pequneina multidão de amigos cujas cabeças, dia a dia, iam rolando à velocidade da guilhotina na Revolução Francesa. Mortos pela guerra que havia? Nem mortos, nem atropelados. Eram apenas nomes inconsoláveis que, dia a dia, a ponte aérea para Lisboa abatia ao activo. Para nós, e para o que na altura interessava, defuntos irremediáveis e indesculpáveis. E, de repente, dei comigo sozinho, entre o céu e a terra, o mar e tudo.
No meio desse caos furioso e obsessivo, no meio do fogo amigo e do fogo inimigo de cuja ontologia duvidava, começou a crescer, modesto mas abnegado, o Natal, o meu Natal de 74.
Não sei se foi um sussurro, se foi um piscar de olhos, mas esse Natal, que na Europa calha tão bem aparecer como uma lareira no meio do Inverno, surgiu suave, mais tropical do que nunca, e foi o meu primeiro e verdadeiro Natal angolano.
O caloroso acolhimento foi duma família africana, comandada por um patriarca como nunca mais encontrei. Entre irmãos, irmãs e meio-irmãos eram uns seis, mais primas e primos, pai e mãe, como só existem nas grandes sagas familiares. Eu, branco branquíssimo, fui recebido como filho. A geleira, como numa família decente e lindamente mulata se chama a um frigorífico, estava (esteve durantes dois anos) à disposição: “Aqui não se pede, abre-se e tira-se.”
Lembro-me de nos organizarmos e traficarmos. Sei que houve vinho, couves e bacalhau a chegar de Portugal. Se algum dia (e peço perdão) o Menino Jesus me tinha parecido anedótico e um pouco tolo, no Verão angolano de 74 tive a impressão de que o Natal era intemporal, robusto e sem caprichos.
Naquela noite de 24 de Dezembro tive a melhor das ceias. De vez em quando, com a irregularidade de nunca pararem, as soviéticas rajadas das AK iam pondo vírgulas e pontos de interrogação nessa noite de uma estrela. Menos insistentes, com uma delicadeza obsoleta, dois ou três morteiros introduziam a necessária nota de suspense. Coisa pouca e, I promise, nem sequer me estou a fazer interessante. Coisa muita foram as conversas, as promessas, as juras e os choros dessa ceia tão delicada e intensa. Os discursos, meu Deus, o gosto que tínhamos nos nossos discursos, tão vibrantes, tão eufóricos, tão nus. Apontavam-nos uma pistola à cabeça e discursávamos. Mesmo mortos, continuaríamos, engajados (explico se me perguntarem), a discursar, e sempre com alegria feroz, vaidosa e dramática.
Foi, imagino que foi, no meio dos discursos, em pleno Natal de 74, ciciado e susurrante, que dei comigo a pensar: quem sabe se em vez do verdadeiro Cristo ser Marx – como diziam os nossos discursos e a ponta de cada espingarda – quem sabe se, afinal, o verdadeiro Marx não será este Cristo anunciado por uma estrela amarela no céu vermelho de África.
Para ser completamente franco interessa-me bem mais a a pergunta do que qualquer resposta.
