Olá, fala a Marta

“Olá, fala a Marta…” A frase é popular, mas só a dizemos porque -  faz hoje 132 anos — aconteceu uma pequena revolução. O Boston Telephon Dispatch, sob a asa do senhor Bell, ouvi dizer que discutível inventor do telefone, foi o primeiro operador a criar uma central telefónica. Eram rapazes que se ocupavam de tudo, do telégrafo e dos telefones. Mas se no telégrafo eram ágeis e imbatíveis, ao telefone mostravam-se irritadiços, sempre prontos a praguejar, já para não falar na tentação de mandar para o Bujumbura quem só queria ir até Luanda.
Tocou uma campainha na cabeça do senhor Bell e ele revolucionou: entrevistou e contratou Emma Nutt, fazendo dela a primeira telefonista do mundo. A voz de Emma, suave,  a sua paciência, uma prodigiosa memória que lhe permitia saber de cor todos os números do directório de Boston, ditaram o futuro: o triunfo das telefonistas, a maravilhosa associação do telefone à voz feminina. O telefone é uma mulher: é por isso que é fácil falar com ele, dar-lhe beijinhos, prometer-lhe ternuras e, claro, mentir-lhe com um bocadinho de vergonha.

 

O tempo e o espaço

As imagens são tão boas que não vou estragar-vos o gosto com sermões. Ora vejam.
Este é um anúncio da Playboy brasileira. O tema merece futuros posts de alguns dos mais ilustres autores aqui do cemitério (caramba, mortos, mas nem tanto).


 

A discrição deste suave anúncio de um gel entusiasma e, vá lá, comove. Não deve haver melhor gel. Manix-gel high power lubrification, se querem saber.

O drama do desemprego

Empregos. Jobs. Mesmo aqui, neste Cemitério de Gente Morta, estamos longe de ser insensíveis ao drama do desemprego, um dos cancros do nosso mundo globalizado. Queremos ajudar. Mas reconhecemos que não é fácil. Cada vez há menos postos de trabalho decentes e, quando aparecem, reunir as condições de candidatura exige recursos filosóficos que não estão ao alcance de qualquer um. Para ser franco, acho mais fácil resolver o paradoxo de Zenão…

As mulheres, os homens #2

A adorável princesa da Sardenha, que tanto veneramos, veio explicar em francês que as mulheres são diferentes dos homens por quererem tudo. Tout. O que, claro, a qualquer homem parece logo rien du tout. Traduzindo, e nem é preciso ser para esperanto, os homens querem ontologicamente a mesma coisa: só que para os homens qualquer coisa, a mais pequenina coisa, é já tudo. O homem é holográfico: basta-lhe a fina abertura do decote e fica logo na veemente excitação de quem já viu a eternidade – um nimbado mamilo e valha-nos Deus e os sonhos de toda a corte celestial!
Mas querem os dois, masculinos e femininos, a mesma coisa – os homens a mais pequena partícula, que acarinham como se fosse tudo, porque é tudo; as mulheres querem tudo com medo que o tudo seja menos do que a soma das mais pequeninas partes.
Vamos lá ser pedagógicos e ouvir cada um — uma mulher, um homem – pedir a mesma coisa. Vão ouvir que cada um, pedindo o mesmo, pede coisas diferentes.

Ladies first, claro, com mil perdões pelo execrável visual do vídeo – não vejam, ouçam só:

Ouviram? Claro que é lindo. Mas perceberam o artifício, a pose, o subtil prazer de tirar mais dor da contemplação da dor do que da própria dor? Ouçam lá agora um homem a querer a mesma coisa:

Claro que já viram a diferença. Até lhe custa começar, de tão fundo vem a voz. Rouca de emoção pela coisa que se quer. Nenhum cuidado com a expressão, toda a atenção vai direitinha para o coração um bocadinho partido da silly girl – ó, a forma como o rapaz aconchega a silly girl entre a língua e o céu da boca!

 A canção foi composta por Tom Waits para um dos meus filmes de culto, o One From the Heart, de Francis Coppola. Infelizmente, não consegui encontrar o momento mais comovente do filme, quando o personagem do Frederic Forrest, que não sabe cantar, do que a namorada sempre se queixava, canta o “You’re my sunshine” no aeroporto para que ela, arrebatada por um cantor, pianista, bailarino (tudo!), não o deixe.

As mulheres, os homens

As mulheres. Falemos então de “as mulheres”. São seres alados, bem sei, mas o que nelas nos tortura é a dúvida. Negam. Bem podem os sentidos delas dizer o contrário. Negam na mesma. O beijo que lhes pomos na boca, os nossos dedos a apertar-lhes onde a carne é macia, soube-lhes melhor que framboesas. Negam. Podia insistir. Não insisto, Kate Winslet é que confessa. A cantar.

Os homens. Falemos então de “os homens”. Seres de coração puro, líricos. Seres sofridos, tanto faz que seja a cappela ou com orquestra e coro. A violência dos trabalhos, a áspera barba, o grosseiro fato de macaco: tudo fragilidades quando se arranha a superfície. Movem-se como ursos: bailarinos inconfessados e insuspeitos. Mesmo num triciclo onde pedalam a sua inocência é já para o amor que pedalam porque é muito só o homem sem amor. Mesmo ou se canta e dança como James Gandolfini.

 

Os extractos são do peculiar “Romances and Cigarettes” realizado por bizarro John Turturro.

Encontrei a Eugénia na ma-schamba

A Ma-Schamba que é um belo de um blog com cambiantes índicos, elogiou a nossa Eugénia. Embora quem a boca da nossa Eugénia beija não beije, Deus lhes valha, a boca de todos os mortos deste cemitério, não quer a gerência deixar de sublinhar a merecida referência e pedir à Ma-Schamba que se sinta veementemente abraçada.

O dedo no Phantom

O Herói é o nome de guerra de um “quase-autor” do É Tudo Gente Morta. Quase autor, quase nómada, tem colaboração bissexta, que eu acolho e, mero intermediário, publico com o maior gosto na minha campa privativa. É meu kamba, meu amigo, e há tão poucos.

 

O dedo no Phantom
Um post do Herói

E eu ia dizer que não a um Cadillac Ride & Drive? Fui lá depois de sair do consulado da fraternité. Os franceses, é sempre outra conversa. Fala-se do que se quer e, no fim, só se falou de cultura. Abençoados attachés.
Já percebeste, meu, que me apanhaste na tua L.A. Saí de Santa Monica e o gps levou-me ao Groove. “Esqueça a snobeira, lá é que é”, disse-me o attaché, a pensar que eu queria o que ele estava a pensar. Quando cheguei, vi que era verdade. Um gado novo. Não te vou dizer fresco porque aqui, ainda estão na catequese e já coalharam (as merdas que eu aprendi convosco, meu).
Fui ao que fui sem saber ao que ia. Queria um test drive da Cadillac a lembrar-me do espada do velho Pinto. No meio do buzz mordeu-me o sotaque patrício*. O brother andava sem pisar, contente e senhor de si. Meti conversa e eram dois lá da banda mais garinas** locais.  
O que é que vocês estão a fazer aqui e komé k é? Ah, eu lá moro em alvalade e os meus kotas…*** Em breve síntese, como diria o redundante Gebo, nosso prof de língua pátria, os ndengues**** estão cá a estudar e têm pais ministros – vá lá, da nomenklatura amiga e democrática. Como me viram amancebado com o Cadillac, gabaram-se: meu, vou mostrar-te o que é um bom mambo*****. Desceram-me até ao parking e enfiaram o ticket na boca do valet. Três minutos depois caíram-me os queixos. O caxico***** aparece com um Phantom, meu. Como a tua ignorância na matéria é lendária, explico-te: são quinhentos mil dólares de carro. Um brinquedo feito pela Rolls Royce, com motor V povoado por 12 cilindros e 48 válvulas. Phantom Drophead Coupé em mãos pouco mais do que adolescentes.
Estes putos estão a formar o espírito para servir a terra que os heróis libertaram das algemas******. Estranhei-lhes a contradição. Estranharam-me a estranheza. “Komé, temos que representar a pátria, é o nível, não vamos dar uma de subserviência.” Sabem falar, meu, e eu subservi logo: em 5 segundos já batíamos as 60 milhas. Só para cheirar, que em L.A. não se brinca. “Mama 25 aos 100, guio-o com um dedo e rasga como um Porsche”.
Não duvidei: um dedo para o Phantom, a mão inteira para segurar a terra amada que me viu nascer.

Glossário
da lavra do esquecido Manuel S. Fonseca
 

*Patrício – designa reconhecimento e pertença entre angolanos negros
** Garina – jovem de sexo feminino
*** Kotas – Mais velhos, pais
****Ndengues – mais novos, crianças
****Ter um bom mambo – ter alguma coisa de valor
*****Caxico – criado, tratamento depreciativo
******Os heróis quebraram as algemas – verso do hino do 4 de Fevereiro, data simbólica do início da luta de libertação de Angola

A outra infância

Há quem invente para os mortos outra vida. A nós, mortos deste cemitério, quando nos acolheram, distribuiram-nos um passado, resquícios de infância, uma ilusória paixão. Ao Vasco, à Eugénia, à saudosa Teresa, ao PN, ao Navarro, à Joana - eu sei, Francisquinho e young master Peter, também a vós, imberbes fantasmas!
Não me pediram reserva. Poderia agora mostrar-vos uma apócrifa versão da Enciclopédia Britânica que me deram logo à entrada, um óleo especial para polir ossos, um bizarro instrumento para (helás! monsieur Antoine) matar dragões. Balanceando em cada mão os ingredientes do kit de acolhimento, do que gostei mais foi desta fotografia, simbolo inofensivo e inocente de uma outra vida. É antiga, tão humana, cheia de riso como um verso. Não é, de certeza, minha.

Aos meus companheiros, que se movem como eu na fina sombra da copa destes ciprestes, peço que sem pudor aqui mostrem as fotos com que, para consolo da humildade das nossas almas, nos recriaram uma infância.

Mon ami Pierrot

A mon ami Pierrot, hoje de happy birthday, dou-lhe o que já é muito dele, que é o melhor que se lhe pode dar:

O primeiro país em que pensei para emigrar foi a Suécia. Um desejo fêmeo, de nortada, de amor com a naturalidade, desportivo, sem complicações, desejo fácil de abastecer, sem dramas? E o Strindberg? Caramba! Estava iludido. O que eu queria era outra coisa, o que a realidade lá no fundo apresentava era outra coisa. Um amor de encontro ao fim da tarde. Isto na Suécia? Bebidas, comidas, nudismo no Verão, amor de corpos bem atestados de volúpia, precisava de ir lá fora praticar a naturalidade. Gosto? Gostas? Gostamos? Ainda são precisas interrogações? Sim, no entrelaçar da troca tudo corria nas maravilhas de quase mil. No dia seguinte iria para o trabalho, animal bem satisfeito, garanhão da Índia, pluri-racial, bem disposto, sem gritos, tinha dado sémen para cruzar com as arianas do Norte, um rafeiro do sul, das fronteiras do Alentejo fora acasalar com uma cadelinha rosada, de peitos quase maduros, pêras ainda no madureiro. Drama? Tragédia? Saudades de uma Ingrid ou de uma Karla que me aparavam o apetite. Era esse o amor que buscava? Era e não era […] Distraído, cada vez sabia menos daquilo que aprendera na Universidade. Uma gaita!”*

E, depois do happy birthday cantado, pergunto: “pierrot o que é que com o raio do raio x vês que que eu aqui não veja?”**

pierrot, est-ce qu’il ya de plus profond que la peau?”***

* Deriva alucinada escrita a pensar em Pierrot por um escritor com o duvidoso nome, provavelemente falso, de Ruben A. (“O Mundo à Minha Procura”, vol III, ed. Assirio e Alvim, pgs 133 e 134).
** Angelina Jolie é uma jovem e promissora actriz norte-americana. De teatro, julgo.
*** Emanuela de Paula, modelo de olhos negros. A mãe é doméstica, a tia doceira. (fotos pilhadas ao soberbo e deus criou a mulher)

O morto desta semana é picuínhas

O José Navarro de Andrade dá-se com um morto misantropo e picuínhas. Pôs-se a conversar com ele uma conversa ilustradíssima e, vai daí, mais traço, menos traço, venha lá comigo, convidou-o para o nosso cemitério. O caro leitor vai reconhecê-lo logo: é muito parecido consigo, mas está só de cuecas e peúgas. Ora atreva-se agora a não o ler aqui.

Nem todos os dias são como os outros


La douleur et la sirène, Auguste Rodin

Li, não sei onde; li, não sei quando:
A indecente beleza de um corpo em sofrimento.”

Pieta, Paula Rego

A linha de horizonte

Aos 15 anos Steven Spielberg queria ser realizador. Precisava de conselhos. Escolheu John Ford, o melhor realizador de sempre (não segundo mim que mim não conta, mas segundo Welles, Bogdanovich, Scorsese), e tentou uma entrevista. A secretária recebeu-o, dizendo-lhe que o  senhor Ford estava a almoçar e que os almoços dele eram homéricos. Spielberg esperou paciente. De repente, um furacão entrou por ali dentro, sem tempo para que a secretária ou o imberbe e implume candidato tivessem oportunidade para lhe dizer o que fosse.  Pelo intercomunicador, a secretária explicou que estava ali um jovem. “Dou-lhe dois minutos. Ele que entre”, rosnou John Ford. Spielberg entrou. Ford mal olhou para ele e apontou para um quadro na parede: “O que vês ali?” Spielberg lançou-se numa explicação profusa. Ford atalhou: “Isso não interessa para nada. Nesta foto o que interessa é a linha de horizonte. Onde é que está?” “Em cima”, respondeu Spielberg. “E nesta?” insistiu Ford. “Em baixo” confirmou Steven. “Isso mesmo. No quadro, o que interessa é a linha de horizionte. Em cima ou em baixo. Nunca ao meio. Nunca se esqueça. Agora pode ir embora e ser realizador”.
O episódio, relatado pelo próprio, está no belíssimo documentário que o realizador Peter Bogdanovich fez em 1971 e a que, em 2006, acrescentou os testemunhos de Spielberg e Scorsese entre outros. Se puderem deliciem-se com esse tributo amoroso. Gostem, por favor, pelo menos tanto como eu.


Desenhos bem escritos

Fez pelo menos uma dúzia de capas da Time e da Newsweek. O NY Times passa a vida a pedir-lhe ilustrações e, o que para mim equivale a um doutoramento, durante 10 anos desenhou, para a revista Playboy, os Playboy Funnies. Nem vou mencionar a New Yorker. Lou Brooks, nascido em 1944, com 20 anos a viver em Manhattan, não é um daqueles emproados e insuportáveis politicamente correctos de festas e cocktails. Basta ser-lhe um expoente da pop culture. Da sua iconografia. Acaba de se retirar para uma quinta perto de San Francisco. Junto às vinhas.
Desenha bem e, escrevendo, dá ao mesmo desenho as voltas que muito bem lhe apetece.

 Mas é só porque escreve muito bem.

Canção de despedida

Esta é a minha canção de despedida favorita. Porque, when the summer comes a-rollin’, tem de ser. I’ve got to ramble. Mas é a minha canção favorita porque, depois de a ouvir, já ninguém se quer ir embora: I never never gonna leave you baby.

A canção não é sequer dos Led Zeppelin. Pilharam-na, com modificações na letra, a uma folk singer berkeleyana, Anne Bredon. Andei à procura, mas não encontrei a Anne a despedir-se. Encontrei a versão da Joan Baez, igualmente pilhada, mas mais próxima do original (o que a mim não me faz gostar mais. O insuportável exibicionismo de Robert Plant vai mais com o meu gosto de despedidas e reencontros).  

ps– Por honra das respectivas reputações, sublinhe-se que em segundos discos, tanto Baez como os Zeppellin acabaram por atribuir correctamente a autoria da canção à autora californiana. Avisei-te: com uma canção destas não há mesmo ninguém que se separe.


Há um morto novo: veio directamente de outro cemitério

O Gonçalo acaba de chegar de Londres donde trouxe um morto. Não sei como é que ele passou a alfândega sem que o descobrissem, mas a verdade é que o morto é hábil na clandestinidade e o Gonçalo na subversão. O morto era de Highgate, agora é nosso. Está aqui, muito bem enterrado, nos nossos Queridos Mortos — para os novatos nestas andanças é, independentemente da ideologia dos falecidos, a coluna da direita. Convido-vos a lerem. Com atenção que, de Hegel a Althusser, o enterro é honoris causa.

Ernst Jünger

Extinto. Nem sequer em vias de extinção. A espécie está definitivamente extinta. Refiro-me aos intelectuais guerreiros. Foram erradicados da face da terra ainda antes de acabar o século passado.
O último, exemplo meritório e controverso, foi o escritor Ernst Jünger. Militar durante a I Grande Guerra, Jünger cantou, sem condescendência, a glória e a brutalidade da ofício bélico, em “In Stahlgewittern”.
Capitão das tropas alemãs na II Guerra, conviveu e terá protegido Picasso e Cocteau, durante a Ocupação, em Paris. Sobre as relações entre os intelectuais ocupados e ocupantes sugiro incursão esclarecedora por aqui e por aqui.
 Foi soldado, botânico, zoólogo, entomologista e poeta. Do mal que lhe conheço a obra, elejo “Eumeswil”, um romance em que a liberdade individual persiste, sem se deixar subsumir, mesmo servindo qualquer forma de poder: “A igualização e o culto das ideias colectivas não excluem o poder do indivíduo. Pelo contrário: nele se concentra o ideal das multidões como no foco de um espelho côncavo”. É o que escreve Jünger. E noutro ponto que por acaso é mais adiante diz: “Não fracassamos pelos nossos sonhos, mas sim por não termos sonhado o suficiente”.
Acusado de simpatias nazis, mas também associado ao atentado contra Hitler, Jünger é o exemplo de um espírito livre, suficientemente equidistante dos poderes para poder garantir a sua an-arquia pessoal: “Cortejar as boas graças: também isto é uma arte. A expressão deve ter sido inventada por alguém que teve a mesma sorte da raposa com as uvas”.
Segue-se introdução hagiográfica em castelhano:


Für Elise

Com péssima caligrafia, mas inspirada mão direita e arpejos da esquerda, Ludwig escreveu “Für Therese”. Queria, julga-se, encantar Theresa Malfatti, uma italiana mais volúvel do que o romântico Beethoven julgava. Ofereceu-lhe a partitura, o que para sermos rigorosos, as fontes históricas não confirmam. Mas confirmam que Therese não tinha Ludwig no devido apreço. Por ser ele caótico, por ser menos handsome e sedutor do que, a crer no seu talento, nós julgamos à distância. Therese, com feminino egoísmo e razoável desdém pela posteridade, rejeitou o surdo compositor que seu pai, médico, tratava, e casou-se com von Drosdick, que era barão. Justiça poética: a caligrafia de Ludwig, de fazer dó, mal lida e em sustenido, vingou-se e riscou da sua vida a insonsa Therese, para fazer nascer inteirinha, como Atena da cabeça de Zeus, a imortal Elise que agora, como Ludwig, gostaríamos de eternamente amar:

Für Elise”, é um solo de piano de Beethoven. Começa com uma irreprimível alegria (“joy”, em inglês, diz melhor o que o alemão tinha na sua surda cabeça), passa por uma atormentada dúvida e termina no mais certo e esgazeado sofrimento. Por tudo isto, que acontece em 3 minutos e 37 segundos, vale a pena amarmos, sem distinção, o obstinado Ludwig, a insípida Therese e a etérea Elise. É o meu classic weepie favorito.

Encontros imediatos de tipo corpóreo


Ó que linda neanderthalensis

Vou tentar dizer isto por palavras minhas; não se admirem, por isso, se a coisa sair rasteira: as mulheres de Neanderthal eram infatigavelmente depravadas – davam para todos. O homo sapiens que andava por perto, sempre que os Neandertahlensis se distraíam, molhavam a pena no tinteiro (não sei se será a expressão mais correcta) e elas não se queixavam.
Pode não parecer, mas o que estou a dizer tem bênção científica. O artigo, “On the Neanderthal Breden”, foi publicado no insuspeito (ou será incontornável?) Scientific American. O seu autor, Michael Shermer, sustenta que, em boa verdade, duas espécies, o Homo Neanderthalensis e o Homo Sapiens conviveram na Eurásia e, mais do que coexistirem como espécies diferentes e isoladas, travaram-se de apertadas e penetrantes razões, fazendo de nós todos o muito mais Neandertais que o nosso genoma atesta: 1 a 4% do genoma dos habitantes da Eurásia são afinal de origem Neandertal.  
Segundo Shermer, encontros imediatos de tipo corpóreo estavam sempre a acontecer (ó beijos abençoados), o que fez das antiquíssimas e húmidas cavernas lugares menos solitários, salpicando as gélidas noites com abrasiva, porventura rápida, felicidade. Aprendi assim que, a querermos ser fundamentalistas da taxinomia, o Neandertal era uma sub-espécie do Sapiens e lhe deveríamos chamar Homo Sapiens Neanderthalensis. O que, convenhamos, torna logo muito mais apetecíveis as suas inteligentemente desavergonhadas fêmeas.

A fêmea ausente

Apresento-vos o Viajante Heróico

Mudava os nomes conforme os filmes. Ficou o conceito que a todos unia, o Herói. O Herói morava nos limites do bairro. Pertencia ao bairro por escolha pessoal que nunca se dignou comunicar. Nenhum de nós, no bairro, se atreveu sequer a interrogá-lo sobre o direito que se arrogou, muito menos a pôr em causa a legitimidade da decisão unilateral. O Herói morava nos limites de tudo: do sexo, da cultura, da raça, do asfalto, da lei – e com esta espero arrancar-lhe um sorriso quando ele me ler, porque ele me vai ler. Ele lê tudo, como já naquele tempo via os filmes todos e era, mais do que o Yul Brynner ou o Charlton Heston, o herói de todos: Sansão, Taras Bulba, Miguel Strogoff, Spartacus, Sandokan.
Ficou em Angola, como Angola dentro dele. Vive onde vive o que não vem ao caso. Temos conversas bissextas. Antes por carta, agora por e-mail. Um extenso telefonema, 300 páginas, o ano passado. Viaja muito, viagens heróicas. Por locais tão insólitos como os bizarros heróis que foi. Convenci-o a deixar-me publicar no Gente Morta algumas impressões do seu aventuroso périplo. Regularmente, espero. Disse-me: “Kamba, se é um cemitério até deixo. Mas poupa-me às vossas flores. Abomino gladíolos.

A Fêmea Ausente
Um post do “Herói”

Aden: o mataco no asfalto 1

Foi antes do twighlight: em Aden, como em Luanda, ainda não são 7 e já é noite. Fiz o que me trouxe cá e saí do sumptuoso escritório do Abdul (tinha que lhe dar algum nome, não é). Rumei à Cratera. É a cidade velha, do porto velho. Lembra filmes dos nossos, mas com lixo contemporâneo. Aden ferve. Aliás, tudo ferve no Yemen. De dia e de noite. O pessoal gosta de sentar no chão, nas escadas, nos passeios, à frente das lojas – gostam do mataco* no asfalto. Só homens, meu, não vás pensar outra coisa. As baronas** recolhem-se, recônditas.

 Durante a estada, todos os dias, curti a baía do Elefante, a água morna, mas na praia a fêmea local é ausente. Será que foi esse o gancho do teu sobrevalorizado Rimbaud? Embora digam que apareceu agora uma foto dele aqui, à porta do Hotel de l’Universe, sentado – em Aden todo mundo senta, não te disse? – ao lado duma duia***, suposta concubina. Não fui à casa que dizem que foi dele. Avisaram-me de que era coisa miserável. Para miséria e musseque já dei.

Quando se chega de carro, entra-se pela ilha. Entrada mentirosa, como diria a minha avó preta – explica aí aos teus avilos**** que tenho uma branca. A ilha afinal não é ilha. É só uma península, nem sequer uma jangada de pedra. E já te estou a mentir de novo. Fiquei uátobo*****, quando vi a festa de pedra que é as cisternas. Dos mil anos arqueológicos e muita pedra. Cabe lá a chuva de um mês. Se chovesse. Interessa é que os abissínios devem ter cavado aquilo à mão, sentados já vês, à espera que ainda estavam que Maomé chegasse. A persistência que emana da obra comoveu-me, e bem sabes que sou mais exaltado do que sensível.

Como estás agora muito dado a cemitérios, conto-te que também farejei o Cemitério Militar Britânico. Tem pinta romanesca desde que o romancista não seja o Pepetela, se é que me faço entender. Um toque de fim. De despedida. De europeus a levar com a catana árabe na mona. Não leves a mal, meu.

Como andas sempre a vangloriar-te do dim-sum do Golden Unicorn, lá da tua New York, fica a saber que comi dim-sum em Aden. Para poupar o dinheiro do povo que a oligarquia custa a todos. Ironia das ironias, o chinês de Aden, o Ching Sing, onde é que havia de ficar? Na que já foi a Stalin Allee. Papar chinês, com mãos e chupar os dedos, ao mesmo tempo que se calca o Stalin, é uma espécie de êxtase geracional. Tardio o êxtase, porque o revisionismo dissipou o encanto da coisa. Hoje a rua chama-se Madram road. Já ninguém se lembra de nada, nem de sonhos, nem de pesadelos. Até os árabes andam de memória envergonhada. Por estas e por outras é que da fervente Aden saí como entrei: não me aqueceu, não me arrefeceu. A cidade é triste e o povo desprezado. Aden é o sul, o poder é o norte. Um separatismo patético anda no ar. Já vi muita coisa: é só poeira.

E basta. Toma nota: consegui “não falar a política”. Fiz só conversa de menino turista. Espero não ter cansado o teu people. Se lhe tomar o gosto, talvez volte.

 

Aden, o mataco no asfalto 2

Glossário por msf

*mataco – o mesmo que rabo, tanto se dá que seja um bom ou um mau rabo.
**barona – fêmea, como diz o Herói.
***duia – rapariga. Uma boa duia vale uma boa semba e juro que não é o que estão a pensar.
****avilos – amigos; podem ser do peito.
*****uatobo – ficar de boca aberta, com cara de parvo.

Primeiro poema do primeiro livro

Foi este o primeiro poema do primeiro livro que Jorge Luis Borges publicou. Em 1922, a abrir “Fervor de Buenos Aires”, após advertência sublinhando ser trivial e fortuita a circunstância de que nós fossemos o leitor do livro e ele o seu redactor, Borges deambulava assim pelas ruas de Buenos Aires:

LAS CALLES

Las calles de Buenos Aires
ya son mi entraña.
No las ávidas calles,
incómodas de turba y ajetreo,
sino las calles desganadas del barrio,
casi invisibles de habituales,
enternecidas de penumbra y de ocaso
y aquellas más afuera
ajenas de árboles piadosos
donde austeras casitas apenas se aventuran,
abrumadas por inmortales distancias,
a perderse en la honda visión
de cielo y llanura.
Son para el solitario una promesa
porque millares de almas singulares las pueblan,
únicas ante Dios y en el tiempo
y sin duda preciosas.
Hacia el Oeste, el Norte y el Sur
se han desplegado –y son también la patria– las calles;
ojalá en los versos que trazo
estén esas banderas.

Pode um poeta, com obra grandiosa, desmesurada, como é a de Borges, adivinhar-se todo no seu primeiro poema? Amanhã pensarei talvez outra coisa, hoje penso que sim. A imortalidade, o tempo, o céu e a planura que o poema dramatiza ou evoca são violinos de Borges, futuramente recorrentes. O mais pequeno pormenor no qual, como na mónada leibniziana, se inscreve ou reproduz todo o universo, essas pequena ruas “enternecidas de penumbra e ocaso”, voltaremos a encontrá-las nos contos fantásticos, nos de aventura, noutros poemas de maturidade. O feliz casamento entre o concreto, as ruas “desganadas del barrio”, e a metafísica - a “funda visão”, as “imortais distâncias”- que as assombra, voltará mil vezes e em mil formas no deslumbramento barroco das “Ficciones” ou na fantasmagoria do “Aleph”. Nas ruas apáticas de um bairro dos arrabaldes pressente-se já a refutação do tempo, tema tão caro nos contos e inquisições: estas ruas solitárias e desoladas são únicas perante Deus e o tempo. No primeiro poema do primeiro livro, Buenos Aires e Borges fundem-se num destino e num cenário labiríntico que milhares de almas singulares virão povoar. Inúmeras e solitárias palavras que a seguir tenha escrito não fizeram mais do que reescrever estes primeiros versos.