
Liz Deschenes, “Black Mirror #1″, 2010
Pedro Correia do Delito de Opinião teve a gentileza de me convidar para publicar um texto em tão seleto blog.O resultado foi este, que por lá saiu oportunamente no dia 4 de Dezembro. Resta dizer que todos os fato aqui apresentados são recolhidos, os verdadeiros, e extrapolados, os imaginados, a partir da magnífica biografia de Sá Carneiro, escrita por Miguel Pinheiro. Este livro e “Os Meninos de Ouro” de Agustina, formam um díptico essencial para entender a vida real e idealizada dessa personagem que foi Francisco Sá Carneiro.
Vieram só mais tarde ao conhecimento público as minúcias de uma decisão que tão funestas consequências teve no futuro dos seus interlocutores.
Foi ainda na placa do aeroporto da Portela, mal desembarcaram, extenuados, no regresso de um comício no Porto em que tudo foi desconsolação, eram quase 4 horas da madrugada já do dia 5 de Dezembro, que Francisco Sá Carneiro apartou Amaro da Costa da restante comitiva e dando ambos uns passos para dentro de uma chuva miúda a fustigá-los, entenderam-se nos passos seguintes e combinaram o modo de os anunciar, de forma a produzir o efeito e as consequências previstas naquela breve mas decisiva conferência.
A eleição estava perdida, Eanes ia ser Presidente logo à 1ª volta, e a Sá Carneiro e a Amaro da Costa não havia alternativa senão proceder como haviam prometido.
De modo que na manhã do dia 9 de Dezembro, enquanto Conceição lhe vem entregar as notas dactilografadas, contornando a longa e silenciosa mesa à volta da qual se reúne o estado maior da AD, Sá Carneiro olha em redor e compreende num relâmpago que mais uma vez vai ficar isolado. As delícias do poder turvam os princípios e acomodam os homens às exigências do taticismo.
Por uma vez a intervenção de Sá Carneiro foi curta. As suas piores expectativas tinham-se realizado; eleito à primeira volta e de um modo tão esmagador, Eanes, apoiado no Concelho da Revolução e instigado pelo PCP, sentir-se-ia legitimado para criar toda a espécie de dificuldades ao programa da AD, condenando o governo ao fracasso. Por outro lado seria um tremendo erro estratégico deixar que Soares polarizasse a seu favor, sem concorrência, toda a oposição ao eanismo, entalando a AD entre duas posições claras. Por fim, como era um homem de palavra, só lhe restava fazer o que havia prometido – demitir-se.
A ninguém passou despercebido que Sá Carneiro falara em nome pessoal, assim obrigando cada um dos presentes a comprometer-se.
Seguindo o protocolo, a segunda intervenção foi de Freitas do Amaral. Lacónico: também se demitia, fazendo seus os argumentos de Sá Carneiro. Afinal, fora esse o plano traçado no fugaz mas empolgado almoço no Tavares na quinta feira anterior, sabendo ambos que não iriam ser acompanhados pelos seus partidos.
Balsemão também se demitia, ou melhor, desprendia-se. Embora as suas palavras expusessem apenas considerações políticas, ele não tinha qualquer ilusão: permanecer no governo constituiria uma armadilha capaz de lhe estragar seriamente a vida. Já não eram à boca pequena os rumores de que Sá Carneiro, agastado com as impertinências de Marcelo Rebelo de Sousa à cabeça do Expresso, desejava criar um novo jornal; públicos e notórios eram os encontros, almoços e planos com Victor Cunha Rego. Regressando ao Expresso, Balsemão resolvia vários problemas numa penada: assegurava a direcção do jornal, podendo subalternizar o incómodo Marcelo; combateria de mão própria qualquer veleidade de concorrência, como já fizera com “O Jornal”; converter-se-ia na indiscutível reserva moral do PPD, pois seria o único fundador a permanecer ligado ao partido, após a cisão de Magalhães Mota e o rompimento de Sá Carneiro.
Para surpresa geral, Amaro da Costa em vez de se estender numa das suas proverbiais diatribes, foi sintético: também se ia embora.
Já se enovelava junto ao teto o fumo dos incessantes cigarros que à época eram habituais na política, quando Eurico de Melo pediu a palavra. Os olhos por norma frenéticos de Sá Carneiro fixaram-se nele. Pela memória de ambos passou a conversa íntima que tiveram “naquela” noite em Santo Tirso. Foram enigmáticas, como convém às profecias, as sentenças de Sá Carneiro, mas Eurico fiava-se no que delas entendeu para arriscar o que ia dizer.
Começou por elogiar a estirpe do Doutor Sá Carneiro, exaltar a audácia da AD e reclamar as proezas do governo. Por isso, tinha que fazer um apelo ao bom senso. Abandonar a governação numa hora destas era dar rédea livre a Eanes para enfiar o PS no poder e destruir o que tão porfiadamente havíamos conquistado. O povo sentir-se-ia traído pelo PPD e os nossos inimigos não desperdiçariam tamanha oportunidade para nos vilipendiar. Fora do governo, o partido corria o risco de soçobrar e de ficar para sempre na oposição. Por outro lado, assumindo as nossas responsabilidades, seria possível trazer Eanes para o nosso lado, pois o general estava sobretudo empenhado em rachar o PS. Fazer a revisão constitucional até 83 estava bem ao nosso alcance e as próximas eleições seriam um passeio.
Na sala pronunciou-se um silêncio espesso.
Logo a seguir, levantou-se a voz de Cavaco Silva, um daqueles tecnocratas vagamente despolitizados que Sá Carneiro tanto apreciava. Entre todos os presentes na sala, tudo gente de militância pesada, havia alguns que não sabiam quem na verdade era ele.
Tremeluzente e com uma espuma branca a formar-se nas comissuras dos lábios à medida que ia falando, Cavaco, em tom alarmista porém seguro, afirmou que a situação do país era calamitosa. O descontrolo orçamental do governo, ignorando o choque petrolífero de 79 justificava-se pela necessidade de ganhar as eleições, mas agora havia que implementar (foi mesmo assim que ele disse) uma política de grande aperto financeiro. Se não fosse o PSD a fazê-lo, Eanes obrigaria à formação de um governo de “bloco central” que teria de executar uma gestão a mando do FMI. Se a AD se demitisse agora, ficaria com o ónus da culpa e nenhum proveito. Abandonar o governo, portanto, era impensável e suicidário.
As opções estavam desenhadas: ou os restantes intervenientes queriam continuar o poder sob a égide de Eurico de Melo e de Cavaco Silva, ou abandonavam-se à sorte da oposição, seguindo Sá Carneiro. Um a um os presentes escolheram os novos senhores.
O que a seguir sucedeu e que de todos é conhecido, pois pertence à História, decorreu das decisões aqui tomadas.
Para surpresa geral, Cavaco e Eanes entenderam-se na perfeição, pois eram patentes as afinidades electivas que os uniam: o ascetismo dos magros, o pragmatismo dos que abominam as controvérsias da política e aquela espécie de frigidez autoritária que tanto calha aos portugueses. Após uns anos economicamente duros, Portugal conseguia superar a crise sem precisar dos préstimos do FMI e aprontou-se a integrar a CEE com mérito e distinção. Este entendimento emocional e intelectual entre os dois, permitiu que fosse executada uma profunda revisão constitucional, para horror do PCP e com o fraccionado PS a resmungar e a reboque.
O primeiro sinal dos novos tempos económicos foi a criação de um banco no Porto, cujo Presidente era Adelino Amaro da Costa.
Nas eleições de 1983 a renovada AD, liderada por Cavaco Silva e Lucas Pires, obteve nova maioria absoluta. Facilitou tamanha vitória o fato de o eleitorado do PS ter sido disputado pelo novo partido de Eanes o PRD.
Sá Carneiro fundou o “Semanário” com Víctor Cunha Rego, mas nunca conseguiu beliscar a reputação e a força do “Expresso”. Em 1983 disputa as eleições com o seu novo Partido Liberal, ornamentado pelas figuras de Freitas do Amaral, Santana Lopes e Helena Roseta, mas previsivelmente os resultados foram assaz decepcionantes. A prosperidade económica estava ao virar da esquina, as grandes ruturas políticas já não faziam sentido e Sá Carneiro aparecia como um homem truculento e instável. Para mais, a ele colou-se a imagem de um governante despesista cuja ambição de poder quase nos ia levando ao abismo. Há quem afirme que pela cabeça de Sá Carneiro terá passado a ideia de se candidatar às presidenciais de 1986, mas a sua esposa Snu demoveu-o de tal veleidade.
Fustigado pelas doenças que sempre o torturaram, Sá Carneiro morreu jovem, mas ainda a tempo de ver Mário Soares tornar-se Presidente da República.
O ponto culminante da sua biografia foi ter sido Primeiro Ministro durante 1 ano.