Mimesis


– O que te disse ela quando te viu entrar?
– “I’m bored to death”. Morreu 3 semanas depois, corroída pela leucemia. O invólucro ficou intacto e tolerou bem o lustro da maquilhagem fúnebre.
Susan quis sorrir mas ficaram-lhe lábios de Mona Lisa. Estendeu-se de costas com as mãos atrás da cabeça e divagou o olhar. Uma pessoa só vai para a cama por doença, sono ou sexo, de resto deita-se por cima dos lençóis.
O interesse de uma fotografia não está naquilo que mostra mas naquilo que quer mostrar. É um ato de vontade, uma decisão. Se torceres o tempo e trocares os termos, pondo a causa no lugar da consequência e o objecto onde estava o sujeito, dirás que uma fotografia mostra aquilo que quer. Mas repara que estás a dizer a mesma coisa – a fotografia é uma realidade, não é o real. Terás sempre que distinguir entre a natureza das coisas e aquilo que conseguimos ver e saber dessa natureza – e dessas coisas.
– Não é preciso inventar histórias, Susan, elas estão à nossa frente, à espera de serem colhidas.

 Candy, doce Candy, querida Candy Darling.
O teu momento era alcançares uma imitação tão imperfeita que se visse logo nela a arte de imitar. Imagine-se a réplica de um quadro de Cézanne melhor do que o próprio Cézanne, precisamente por não copiar o original ao imitá-lo. A verdadeira arte do falsário é subverter toda a autenticidade, criar dúvidas sobre a ideia de originalidade, provocar hesitações diante do que se diz verdadeiro.
Nunca deixavam de ter perseguir com duas frases:

Não és isso!                                                
                                                                           ou                                               
                                                                                                                                  Que exagero!Candy teve o privilégio de nascer James, assim descobrindo desde muito cedo a sua vocação para se libertar das imposições da natureza; não quis ser rapaz e fez-se mulher. Cresceu em Long Island o que lhe permitiu imaginar e simular o glamour de The Hamptons, embora vivesse na parte popular – eufemismo de pobre – da ilha. Numa das noites de “Glamour, Glory and Gold” foi vista pelo mago Warhol e assim emergiu das caves da hora do lobo da Village para A Fábrica. Só quem quer muito ser uma star se poderá transformar numa Superstar e se não há seda seja com chita, e do espumante se faça champagne; é uma forma de permanecer perpetuamente num estado sublime, sem concessões ao trivial.
Paródia (“não és isso!”) ou culto (“que exagero!”)?
Tudo.
O supremo triunfo, Candy, alcançaste-o quando já abandonavas a superfície da terra e no teu cortejo fúnebre se destacou por entre a multidão Gloria Swanson, saudando o teu caixão.


– Tu és difícil, Peter – proferiu Susan – “a fotografia converte o mundo todo num cemitério” e “os fotógrafos são os anjos que registam a morte”.
– Quando se mente é difícil acertar. – Retorquiu Peter sentado nu numa cadeira, corpo a três quartos e olhar de frente – Sabes que mais? Eu vou morrer de SIDA em 1987 e tu vais morrer de cancro em 2004, cada um de nós vai morrer com mais 20 anos que o outro: a Candy com 30, eu com 53 e tu com 71.
Haverá algum sentido escondido nisto?

STANISLAV PETROV — o homem que teve 12 minutos para salvar a Humanidade.


Antes de me julgarem imploro-vos que me oiçam. Bem sei que é grave dar como morto nesta coluna um ser humano ainda vivo. Mas tenho boas razões para o nomear e espero que no fim do que vos vou contar, me ilibam de qualquer culpa.

Gostam de nos convencer que a vida é feita de decisões, mas não é bem verdade. A maior parte das decisões que tomamos são minúsculas e servem para deixar as coisas como estão. Apesar de as amaldiçoarmos, as rotinas são imprescindíveis à nossa sobrevivência. Percebemos isso muito bem quando, por exemplo, chegamos a uma cidade desconhecida sem mapa – estou longe do centro? Para que lado sigo? Onde irá dar esta rua? É a velha história dos náufragos numa ilha deserta que só ao fim de semanas percebem que do outro lado da floresta de coqueiros havia um resort
Das decisões maiores que somos levados a tomar, o mais das vezes empurrados pelas circunstâncias, uma boa porção são como que “negativas”. Travar o carro a tempo evitando atropelar a velhinha, permitiu que a nossa vida não sofresse um desvio brutal; mas precisamente porque nada aconteceu, depressa nos esquecemos da enormidade do que poderia ter acontecido.
Decisões monumentosas, de vida ou de morte, com azar passaremos por elas menos do que uma mão cheia de vezes no curso de uma vida. Por outro lado, quanto maiores podem ser as repercussões daquilo que decidimos, maior é a sua abstração e, em consequência, maior a nossa distância emocional. Deve ser tremendo para um general ordenar o bombardeamento de uma cidade, mas seria pior pôr-lhe uma faca nas mãos e mandar: “mata aquele homem”.
Isto escrito assim no recato de um ecrã luminoso é assaz pedestre, mas peço-vos a indulgência de sentirem, mas do que racionalizarem, o dilema.

Em Setembro de 1983, as relações entre os EUA e a URSS atingiram um nadir só comparável à crise dos misseis de 1962. No dia 1 desse mês caças soviéticos haviam destruído em pleno voo um avião de passageiros sul coreano que entrara no secretíssimo espaço aéreo do Kamchatka, sem como nem porquê – o que ainda hoje está por saber. A Guerra Fria gelara.
Na noite de 20 de Setembro de 1983, foi contrariado e bocejante que o tenente coronel Stanislav Petrov, em vez de ir para casa, se viu obrigado a preencher a falta de um camarada que deu baixa por doença. A sua missão era simples e aborrecida: comandar a monitorização e rastreio do sistema com o nome de código OKO, num bunker subterrâneo em Sepurkhov-15, lugarejo nos arrabaldes de Moscovo. À sua frente e dos homens que ele supervisionava, cintilavam ecrãs com imagens de satélite dos silos de mísseis norte americanos.
Pouco passava da meia noite quando as sirenes romperam num uivo e os ecrãs a piscar a vermelha palavra Запуск. Primeiro um, depois outro, mais três, cinco mísseis americanos tinham sido lançados. Em 12 minutos as principais cidades russas iam ser aniquiladas pelo fogo nuclear. As instruções de como o tenente coronel Petrov deveria proceder eram claras: premir o grosso botão encastrado na sua secretária dando o alerta ao Estado Maior do Exército Vermelho de modo a que fosse desencadeada resposta imediata: uma chuva de mísseis sobre os Estados Unidos.
Penetre agora o leitor na pele de Stanislav Petrov; o barulho aterrador, o halo vermelho intermitente a flamejar na sala, as caras angustiadas dos subordinados à espera de um gesto seu, o tempo a latejar no peito – que fazer?
Passaram 12 segundos enquanto leu este parágrafo.
Em que pensou Petrov? Decerto que não na Humanidade, esse mero conceito, indiscriminado, incontável e difuso, de todo inócuo numa aflição. Talvez vislumbrasse os corpos calcinados dos filhos, as searas da sua Rússia em cinzas, as eternas florestas da Sibéria carbonizadas. Nunca mais poder beber um trago de vodka com os amigos – coisas assim, pequenas, domésticas, decisivas.
Mais 15 segundos.
Petrov olhou para os radares, reparando que o raio verde não assinalava pontos luminosos nas suas rápidas voltas – mas podiam ter sido avariados. Perscrutou as imagens de satélite e nelas não se distinguia nenhuma actividade extraordinária em volta dos silos, cujas tampas pareciam fechadas – mas os americanos poderiam ter sabotado essas imagens.
Já decorreu quase um minuto desde o início da crise.
Discorreu: se quisessem lançar um ataque, teriam ejectado apenas meia dúzia de mísseis? Não seria mais lógico que o primeiro golpe fosse desferido com toda a força do arsenal nuclear, para ganhar uma vantagem decisiva logo na jogada inicial? Concluiu que se tratava de um falso alarme. E decidiu esperar se mais algum sistema confirmava o rebate do computador que governava o OKO.
Agora já não havia tempo para retaliar. A única sensação que Petrov recorda destes momentos é o frio húmido que lhe cobriu o corpo.
Contou o tempo e ao fim de 12 minutos o bunker não estremeceu, nenhum clarão assombrou Moscovo, a sirene silenciou e os monitores extinguiram o vermelho.

Depois de reportar o incidente aos seus superiores o tenente coronel foi sujeito a um minucioso interrogatório. Não o puniram por ter desobedecido a ordens tão claras, nem o premiaram, porque isso obrigaria a reconhecer a existência de falhas no sistema militar soviético. Stanislav Petrov foi transferido para um posto menos crítico, teve uma grave depressão nervosa e reformou-se prematuramente. Só 25 anos depois o mundo soube o que se passou naquela noite.
Petrov ainda vive. E a Humanidade também.

O imenso adeus


Não, não fui.
Aquela casa já perdeu a alegria e ando sem vagares para despedidas e velórios, para além de que sou refratário a chorar em público. Vi pois pela televisão o derradeiro ato de justiça poética de Liedson, salvando o Sporting in extremis de mais um vexame; dois golos, o primeiro oferecendo a vitória, o último, já caía o pano, resgatando a equipa da derrota.
Prefiro aconchegar Liedson na memória, ao lado de outros gigantes lendários que me dedicaram tantos instantes de esplendor: o silencioso Yazalde, capaz de disparar para o golo debaixo de qualquer circunstância; o adorável nhéu, Manuel Fernandes, mais a sua devastadora dupla com Jordão; Yordanov, a suprir a falta de habilidade com um vigor sobrehumano; o experimentado Acosta que se encostava sem vergonha contra o defesa, de tal modo o embaraçando, até de repente rodopiar e fugir direito à baliza; o instável Jardel que enfiava bolas nas redes quase sem querer.
Mas Liedson foi o único que me deu a contemplar um verdadeiro milagre, desses que devia merecer ratificação papal.
No gélido crepúsculo do dia 28 de Janeiro de 2006 o Sporting apresentava-se na Luz, uma equipazinha a jeito de ser subjugada pelo impante (as usual) Benfica. Aos 27’ o penalty protocolar deveria ter repousado os encarnados e o placar. Pois nada. Na segunda parte, à enésima pancada que Liedson sofreu na área, o árbitro, com os olhos momentaneamente desimpedidos das cataratas que até então os turvavam, viu-se compelido por um resto de decência a indicar a grande penalidade – empate!
Enfim livre, o gafanhoto abriu as asas. Aos 73’, ainda hoje não se sabe bem como conseguiu torcer Luizão daquela maneira e de um ângulo impossível de tão agudo biqueirar para o golo, dizem que através do corpo do guarda redes. Por fim, aos 82’ pegou a bola num balão que lha pôs aos pés junto à linha de meio campo, fugiu pela pradaria fora, ainda teve sossego para contornar com preciosismo o keeper e com a “dranguilidade” proclamada por Paulo Bento fechou a história destes 1–3.
Tudo isto foi génio, o milagre veio depois: nessa noite nevou. Em Lisboa.

A vida é uma festa

Charlie White, “Cocktail Party”, 2000

Ao contrário dos outros homens Dean Martin não tinha medo de si próprio.
É sabido que essa ausência do medo e da medida que ele nos dá, é uma força terrível, capaz, por exemplo, de permitir que um homem se sinta livre para disparar a eito sobre os transeuntes de um centro comercial. Os especialistas que nessa noite serão chamados à televisão para atribuírem explicações à tragédia, irão recorrer às fantasias mais populares, aquelas que confortam os espíritos ansiosos, evocando um indubitável problema no super-ego do furioso, ou convocando entidades mitológicas como a Sociedade, que é, como se sabe, a deusa da culpa.
O mais certo será, portanto, que ninguém conclua por dizer: aquilo foi alguém que perdeu o medo. Seria demasiado simples, demasiado próximo de nós, demasiado temível.
Ora Dean Martin não era assim. Por mais bêbado que estivesse, por mais embotado que ficasse ao fim de uma noite contínua de poker, nele se preservava um fundo de compostura que lhe permitia nunca descambar numa situação aviltante. Achavam-no engraçado, não o viam como desesperado. Nos círculos boémios de Las Vegas, nas cocktail parties da sociedade diletante e desafogada dos anos 70, nas pândegas entre rapazes de cadastro, Dean Martin era aquele que destoava sem contrastar, que estava sempre bem, sem pertencer, um alien afável e sem perigo. Já o conheciam.
Como desde muito cedo manifestou uma inclinação natural para o vício e fez dele um modo de vida, nada em Dean Martin parecia pervertido, apenas estouvado. O jogo, o tabaco e decerto outras substâncias menos legais, as más companhias, o music hall, as mulheres desinteressadas e, sobretudo, o álcool, todo o álcool huamanamente possível, tudo isso foi a vida que Dean Martin habitou e, por mais esquisito que seja ao senso comum, nada disso contribuiu decisivamente para a sua morte – faleceu aos 78 anos, bem mais velho do que muitos parcimoniosos.
Aos 15 anos Dino Paul Crocetti mudou de nome para Kid Crochet, bem mais ajustado à carreira de boxeur que pretendia; aos vinte e tais apresentava-se como Dini Martini de modo a tornar credível a sua actividade como croupier num casino ilegal. Só se converteu no eufónico Dean Martin, quando começou a ser reconhecido como crooner, no inicio da década de 40.
Um nome é apenas uma pele, capaz de se regenerar quando, por exemplo, é queimada, foi por isso de nome em nome que Dean Martin chegou àquilo que sempre quis ser: um homem em equilíbrio entre a intensidade e a nonchalance.
Esta trajectória permitiu a Dean Martin assumir a sua própria personagem com desprendimento, num rasgo que noutros seria de coragem e de temeridade. Foi assim que aceitou entrar nos filmes, Rio Bravo e Kiss Me, Stupid desempenhando dois papéis tão perfeitos para ele que só puderam ter sido desenhados à sua imagem – a de um alcoólico desamparado, sem credibilidade, amesquinhado, mas posto perante uma última hipótese de regeneração. Não deve ter havido figuras mais verdadeiras e mais opacas em toda a história do cinema.
Um homem sem medo de si, portanto, de se mostrar tal como não era mas fazia crer. Um estranho, refugiado numa vida estranha.

A refletir

Olafur Eliasson, “Spiegeltunnel”, 2009

Refletindo, portanto, porque a isso a lei nos convida, a primeira ilação, quase imediata, está em verificar que a vida das instituições é frágil e o sr. Hobbes tinha demasiada razão para demitirmos as suas cautelas da actualidade.
Logo a seguir a esta constatação, outra desponta de um modo claro, desenganando os literatos e demais impacientes que imaginam o Fim sempre em forma de apocalipse, com enxofres, desabamentos, mortandades, fragores e outras situações épicas assim. Não senhores, às vezes, o mais das vezes, o Fim é um movimento lento, uma decomposição, é esquivo, pois quando reparamos já aconteceu antes, sem termos dado por isso.
Não nasceram do ar tais reflexões, já que vêm a propósito das eleições presidenciais, creio que em consequência da evacuação ou fuga ou renúncia, de José Eduardo Bettencourt do cargo de Presidente do Sporting. Ele que fora ungido, mais do que eleito, com uns coreanos 90% dos votos expressos, imensamente legitimado para levar o mandato a seu bel prazer, de mãos livres para decidir todas as medidas urgentes e necessárias de forma a completar o projecto que havia iniciado quase uma década antes e regenerar, de uma vez por todas, as ambições do Sporting. Pois nada de nada e agora aqui estão os candidatos perfilados a suplicarem o voto, reclamando cada um trazer consigo a solução cabal, capaz de recolocar o Clube no caminho da luz e da abundância.
Mas, digo eu sem comprometer mais ninguém nas minhas palavras, nenhum deles me convence. Vejamo-los.
Um deles, o mais seco de todos, ninguém nega que sabe de cálculos e finanças em abstracto, é um emérito professor dessas artes, mas ninguém o viu no exercício diário e persistente de aplicar os altos pensamentos ao fecho de contas do ano, às previsões de P&L, aos balancetes do mês. Além disso, tão árida é a sua pose, etérea a sua atitude, tão avesso à explicação o seu comportamento, que não o vemos lidar com as massas populares, por norma ululantes, com as contingências do jogo, tão incongruentes que são, ou com os desaires injustos e inesperados mas constantes. Para além disso, já não é possível deixar de reparar nas companhias de muito má nota que há anos rodeiam a sua proba figura. O que intriga.
E é este o melhor dos pretendentes, pois o seu mais chegado opositor, aquele com ar de morgado bem nutrido e resguardado dos azares da vida, continuou a mostrar-se como um profícuo diletante, rebentando em generalidades. Tem boa voz para entusiasmar a bancada pois tem, mas recolhido ao gabinete onde lhe pedem para planear, decidir, resolver, continuará a emular por uma pena o Conselheiro Gama Torres de “O Conde d’Abranhos”:
Colocando-se no meio da casa, as pernas afastadas, o ventre saliente, as mãos atrás das costas, fitava o soalho e bamboleando o seu crânio fecundo murmurava surdamente:  
– Ele há muitas questões! … Há questões terríveis. Há a prostituição… o pauperismo… Ele há muitas questões…
Mas, repito-o, era um avaro intelectual que não gostava de fazer a esmola de uma ideia. Não o censuro, pois é sabido que ele dava todo o seu tempo e todo o seu génio às grandes questões sociais. Elas preocupavam-no tanto que era usual – sempre que diante dele se falava de assuntos políticos – ouvi-lo murmurar soturnamente:
– Ele há muitas questões! Questões terríveis: o pauperismo, a prostituição! São grandes questões! Questões terríveis!..
.”
Na cauda deste curto pelotão de candidatos vem o pior deles, aquele que, ainda mais genérico do que o anterior, diz que não quer o que quer e não é o que está a ser. O que reclama ser contra aquilo a que se candidata, como se quisesse ser presidente de um clube desportivo detestando o desporto e nele só ver os meandros, dirigir uma equipa de futebol odiando o futebol, as caneladas, a grosseria dos jogadores, a má fé dos árbitros, dizendo que nisto não se mete metendo-se contra todos os outros.
Como se salvará o Sporting?

Natal é quando um homem quiser #3

Junto envio mais um terceto de presentes internos, cada vez mais a recordar o Natal passado.

Há nalguma burguesia do Porto uns modos britânicos que lhe dão um polimento em tudo semelhante ao dos gentlemen. Porque tanto a boa como a má fortuna desta gente provém das artes do comércio, para as quais nada conta o azul do sangue, o que nela resplandece é um sentimento de probidade sem dissimulação, de generosidade sem ostentação e de franqueza sem importunidade – sempre me pareceu admirável a forma decente como no Porto se utiliza com familiaridade a interjeição “foda-se” e o seu correlativo verbo. Grande é o contraste entre as pessoas de bem tripeiras e os empertigados queques lisboetas, que só eles para confundir os soezes jeitos da fidalguia lusa com qualquer espécie de nobreza. Tudo isto eu sabia de ter lido, mas no outro dia pude experimentar, numa refastelada ceia com o António, o nosso António Eça de Queiroz, precisamente no António de Leça, um dos 10 melhores restaurantes de 2ª do mundo (sendo que os outros 9 também são portugueses).
Tive dificuldade em escolher os quadros que haveria de oferecer ao António, porque os contemporâneos parecem pouco dados à modéstia e ao comedimento em forma de crosta debaixo da qual pulsam ferventes paixões, que acima quis descrever. Até que dei com Sandi Slone, uma pintora de telas vastas, onde a tinta se espalha em amplas ondas, desafogadas planícies. Sem cair nas armadilhas da elegância (que é satisfatória para conceber centros de mesa, mas inconveniente aos propósitos da arte), Sandi Slone procura no classicismo os temas para as suas formas.

Sandi Slone, “Elysium”, 2010

Sandi Slone, “Two Muses (Erato), 2007–2010

O único de nós que trabalha para salvar a humanidade, vi-o primeiro na foto marmórea que ilustra a sua página no Facebook. Estranhei a pose, visto que supunha os cientistas terem o aspeto de Christopher Lloyd. A surpresa maior veio quando ele se materializou em carne e osso no primeiro jantar do nosso blog; o Francisco, o emérito investigador do MIT, o pragmático que resolvia sem esforço todos os misteriosos problemas do blog, como se as nossas catástrofes informáticas fossem para ele meros casos de intendência, O PhD (in progress) de biotecnologia, autor de um paper com o inimaginável título “Electric field and tip-surface interaction dependence in nanopattern deposition by electropulsed scanning probe microscopy”, pois este vulto era… normal. Mais grave: era – autorizo-me a dizê-lo do alto do meu meio século – um chavalo. Tanto conhecimento em tão pouco tempo, a velocidade com que ele vai na vida, embora sem aparente sobressalto existencial, é de molde a derreter de inveja o mais rodado.
Pertencendo à emergente geração de talentos chineses que estão a ocupar de enxurrada a ribalta (das artes e, dizem, das ciências), Lu Yang apelida o seu trabalho de bio-cibernético. Se for possível, considerem esclarecedora a seguinte explicação: “Her works are often sadistic/masochistic biological or bionic control systems. And each organism or had-been organism is, in turn, a complex organic system in itself, a custom function in programming language. Each work is a complete cybernetic algorithm, with the artist being the programmer who alone determines the life or death, happiness or pain of the subjects.” Assim, de repente, nada poderia ter mais a ver com o Francisco, apesar de, se lhe perguntassem, me pareceria que optasse por escolhas mais desanuviadas.

Lu Yang, “Dictator E”, 2010


O verso “fogo que arde sem se ver” é a Marta. A plácida Marta, sem irrupções, mas se pudéssemos (se ela deixasse…) encostar o ouvido à  pele onde tem um nome escrito, escutaríamos como feroz lhe bate o tambor, sem desfalecimento. Em certas mulheres é assim: tudo se pressente e adivinha mais do que se vê.
Foi logo à primeira que vi a Marta neste quadro de Marlene Dumas, os olhos e os lábios realistas e o resto a vermelho, tão escondido e revelado ao mesmo tempo.

Marlene Dumas, “Julie-die Vrou”, 1985

 

Natal é quando um homem quiser #2

Prosseguindo a umbiguista e serôdia distribuição e presentes natalícios, vai aos três de cada, como os ovos moles, para que não vos faça mal ao fígado.

Ela sabe que ao bater os tacões dos sapatinhos vermelhos toc toc toc regressa a casa. Por isso, desprendida, faz como na canção de Sérgio Godinho (já alguma vez disse que é a mais bela canção portuguesa de sempre?): abre a janela e voa. Está sempre lá longe, ou melhor lá em cima, no teto do mundo, à procura do ocaso mais longínquo. E de repente entrevi que Teresa Conceição pode ser o nome português de Lisa Oppenheim.
Em 2006 esta fotógrafa exibiu uma série de trabalhos onde justapunha a um pôr do sol nova iorquino as fotos de pores do sol tiradas pelos soldados americanos no Iraque, que recolheu na net. À exposição Lisa deu-lhe o nome que Teresa podia ter dado: “the sun is always setting somewehere else”.
                                                                          
 




Só conheço um dos Diogos Leote. Haverá outro, o jurista afiado e previdente – temível, portanto. Mas o Leote daqui é um Brummell sem sobranceria, um Reth Butler sem a insolência, que voga numa nuvem musical dos anos 80, apenas por gosto, sem a mácula da nostalgia, e aprecia encontrar uma mulher de branco a fumar no quarto, quando acorda de manhã. Não está nada mal pensado…
Por mim, acho que Robert Longo é capaz de pôr um Diogo dentro do outro, sem perder nenhum, até porque são ambos indispensáveis.

Robert Longo, “Men in the cities”, 1980’s

Robert Longo, “Men in the cities”, 1980’s

Estranho sempre que o Pedro Marta Santos nunca apareça coberto de pó. Eis um pobre sofredor de mitomania fordiana que nas horas vagas deve deambular a cavalo por essas arribas. Fora isso vive no escuro, alumiado pelo foco do projector. Há doenças bem piores, por exemplo, a de nunca se conseguir alcançar tamanha paixão pelo celulóide, mesmo que convertido em pixels. Ainda um dia – já lho prometi – hei de lhe provar o grito de Bazin com uma ligeira alteração: “abaixo Ford! Viva Hawks!”. Mas desconfio que o Pedro vire a mesa nas calmas. Por isso ofereço-lhe um dois em um: la femme & the landscape.

Cindy Sherman, “Untitled film still #43″, 1979


O Natal é quando um homem quiser

Cada um dá o que pode. Ora ainda 2011 vai só aqui e passadas as festas até aos Reis, mais não posso corresponder à sugestão do Manuel de trocarmos publicamente presentes íntimos, de nós para nós com os leitores a fazerem de plateia, senão com ir à minha pinacoteca pessoal e retirar das paredes os quadros que me parecem mais apropriados àquele a quem se destina a oferta. Vamos lá então:

Tudo nele é razão e aqui onde jazemos cabe-lhe o árduo ministério do No Nonsense, cada vez mais obtuso nos tempos que correm, diga-se. Mas, ao contrário do que é popular julgar-se, um método só vigora se tiver cor e diversão e mesmo que esteja parado, a ilusão de movimento. Que melhor se adequaria ao Pedro Norton senão um clássico moderno como Mondrian? E que outro nome poderia ter senão “Composição com vermelho, azul e amarelo” — não se trata de ser óbvio, mas  rigoroso com os factos.

Piet Mondiran, 1930

Joaníssima Vasconcelíssima é um farol pois sabemos que  só com os pés bem firmes no chão se pode iluminar à roda com tanta velocidade. Tudo nela, da efusão à firmeza, me lembra os quadros de Cy Tombly, na energia desprendida mas sem desperdício, no aparente descuido do rasto de tinta que resulta, afinal, num gesto determinado. E do palimpsesto, do escrever e rescrever e tornar a dizer, camada por camada, sem medo de não acertar e exibindo o cada vez mais próximo acerto.

Cy Tombly, “The Rose”, 2008

O multitudinário Vasco, que ninguém o vê, estava aqui? Não já vai ali!, há anos que não deve parar mais de um mês no mesmo fuso horário. É a mais cósmica carcassa deste cemitério e só cabe numa cova do tamanho do planeta. A primeira vez que vi os trabalhos de Xinjian Lu e a sua magnífica série “city DNA” quase disse: “o Vasco, deve estar agora aqui.”

Lu Xinjian, "The Triumph of New York", 2009

Lu Xinjian, “The Triumph of New York”, 2009





Lu Xinjian, “Bruxelas”, 2010


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Estou só a acabar de embrulhar os presentes que faltam. Volto daqui a um bocado.

Derrotando Ebenezer Scrooge
Michael de Brito, “Setting the Table”, 2006

Fui gratificado com um Natal de Normam Rockwell como sempre imaginei e desejei, embora só recentemente tenha alcançado. Quarenta pessoas numa casa rodeada do frio estaladiço dos remotos ermos alentejanos; conversas interrompidas por outras conversas em rede; lareiras em labaredas e rabos gelados, com a pilha de casacos nas cadeiras da entrada, qual é de quem?; ralhos constantes contra os miúdos a praticarem correrias e turbulências nos corredores, a entrarem em casa enlameados e o cão a ladrar por eles a pedir atenção e a manifestar autoridade; a estafa da cozinha partilhada mais ou menos por todos em ordem unida, noitadas a provar álcoois raros e o jantar e o almoço pantagruélicos, quase burlescos se não ofensivos ao estado geral da nação, com tardes prostradas a ver filmes na televisão enquanto chove e não chove lá fora.
Claro que foi sôfrega a cerimónia dos presentes, com as crianças inflamadas pela alegria súbita e instantânea de não haver surpresas desagradáveis, ao confirmarem a realização dos pedidos insinuados em conversas dilatórias na semana anterior. Não houve peúgas de tias sem imaginação, nem prendas utilitárias das que deixam um rasto de insatisfação em nome da prudência; todos os embrulhos revelavam objectos inúteis e propícios ao prazer imediato, que é a finalidade suprema de um presente de Natal.
Isto contado é trivial porque corresponde ao que se se espera, mas os natais são como os anúncios da coca-cola, sempre mais imaginados do que concretizados, ou como as fotos dos quartos de hotel, bem mais estreitos e soturnos do que o sugerido.
Mas foi assim mesmo. Sem um pingo de má consciência, como se não houvesse amanhã. Se calhar nem há, mais vale agora que nunca. E quando ao princípio da noite de 26 fui à vila comprar tabaco, o mundo interrompera-se, ninguém na rua a sofrer os zero graus; tive que deixar o motor a trabalhar pois pela primeira vez o sinal de gelo acendera-se no tablier do automóvel. 

 

VIVA O NATAL

              

O Inverno!

Ben Ruggiero, “Exposure: gesture” (da série “After icebergs with a painter”), 2010

Como dizer o inverno se gosto tão pouco dele? E como dizê-lo sem tropeçar nas facilidades que o inverno manifesta com tanta evidência? Nós meridionais, já sabemos que o inverno mata, ou talvez (nos) enlouqueça, por ser propício a indesejados silêncios; fora as longas noites de trevas que tanto tememos. Além disso, ao contrário das outras estações, o inverno é inodoro e quase incolor, e à semelhança do verão experimenta-se sobretudo na pele – uma lâmina.
Procurei e encontrei quem o dissesse por dentro, de um modo mais tácito que interrogativo, menos surpreendente do que meramente vivido as a matter of fact.

Jussi Puikkonen, “North side”, 2010

Jussi Puikkonen, fotógrafo mundano e trendy, realizou em Julho deste ano em Amesterdão, onde vive, a exposição “North Side”. A distância apura a memória e Puikkonen exibe acontecimentos fotográficos, que embora não sendo singulares ou nativos à sua Finlândia natal, deles se desprende uma imagem que só tão norte e das pessoas que lá vivem poderíamos conseguir.

Elina Brotherus, “The Lake”, 2007

Também finlandesa (eles lá sabem…) Elina Brotherus vem trabalhando em temas como a melancolia, a contemplação, a paisagem. Todos juntos ou em separado. De imediato vemos a solidão, mas como a pose da figura humana é mais expetante do que preocupada, implanta-se a sensação de que o desconforto é passageiro.

Peter Doig, “White canoe”, 1990

Peter Doig é um dos mais importantes pseudo-figurativos (uma categoria inventada agora mesmo) contemporâneos. Se vos disser que nasceu na Escócia e cresceu no Canadá, responder-me-ão: está mesmo a ver-se…

Carrie Gundersdorf foi caminhando cada vez mais para norte ao longo da vida. Quando mais acima disse que o inverno era incolor, estava obviamente enganado…

Carrie Gundersdorf, “Aurora Borealis”, 2008


Ainda a falar disso?

Panayiotis Lamprou, “Portrait of My british wife”, 2010


Sou forçado a confessar que acerca da pornografia publiquei o mais canhestro dos posts, pois de tal modo pretendi alinhar o tom das frases com a radicalidade do objeto que a prosa saiu por demais ambígua e de todo contrária à posição (salvo seja…) do autor. Foi como se o lado direito do meu cérebro tivesse sabotado o lóbulo esquerdo.
Às minhas palavras replicou o Pedro Marta Santos que compreendeu perfeitamente o que estava a ler, embora o escritor quisesse ter dito o exato contrário do que se percebia. Pelo que discordo de quase tudo o que PMS diz, embora ele tenha sido logrado a julgar que estava de acordo comigo.
Não vale a pena prolongar o imbróglio. Todos tiveram razão menos eu.
Valerá, isso sim, adensar a questão. E com exemplos. E excelentes exemplos de como aquilo a que chamamos pornografia tem um significado gasoso, um sentido esquivo, uma ponderação estética e moral mais inclinada para a controvérsia do que para o consenso.


Não é estulto afirmar que o Taylor Wessing Portait Prize, atribuído pela formidável National Portrait Gallery de Londres está para o retrato fotográfico como os Turner da Tate para a pintura – uma grande consagração, um grande momento de apreciação e conversation sobre o estado da arte.
Em 2010 houve entre os finalistas um retrato particularmente polémico, que pendurei à entrada deste post só para destrunfar. O The Guardian resumiu: “It begs the vexed question, when does art become voyeurism or, indeed, pornography?
Mas porque razão o problema se levanta com mais uma exibição de uma vagina? Precisamente pela sua candura, pelo modo displicente como a mulher do fotógrafo, por uma tarde de verão, abre as pernas sem qualquer propósito, depois de ter almoçado sob o caramanchão. Não há no olhar “garbiano” dela um convite, uma revelação, nem na exposição anatómica do corpo uma frieza clínica. Há apenas “aquilo”, tão à mostra como a frigideira, o azul da porta grega ou as estrias de luz. E pela impossível naturalidade da atitude, pela circunstância humildemente doméstica da cena, o retrato aproxima-se bem mais do que poderemos considerar pornografia do que aquilo que habitualmente designamos por erotismo.

PS:

… E mudando muito de conversa:  a foto do grego Panayiotis Lamprou ficou em segundo lugar. O primeiro prémio foi entregue ao retrato de David Chancellor exposto a seguir, pertencente à série “Hunters”.  Por mim, fico impressionadíssimo com a majestade desta fotografia e com a desesperada, quase épica, tranquilidade da série, que pode ver aqui.


David Chancellor, “Teenage huntress with buck (South Africa)”, 2010


Naturezas matadas

Desde muito cedo que as naturezas mortas cederam ao decorativismo e à fortuna. Os flamengos e neerlandeses serviram-se do género para introduzir a muita cor das flores nas suas vidas frias. Os Senhores britânicos penduravam-nas nas paredes dos manors para celebrar as proezas venatórias a que se dedicavam no outono. E os franceses foram tão franceses quanto se podia esperar, exacerbando o estilo enfatuado e redundante da natureza morta de modo que se tornou uma pintura bourgeoise, ou seja, pirosa e de entendimento simples.
Mas não tem que ser assim e se duvidam eu aposto que é possível superar a deliquescência do género.

3:

Foi no já longínquo ano de 1602 que Cotán apresentou a natureza morta supra, mesmo antes de desaparecer do mundo para integrar a ordem cartuxa. O que encanta no quadro é o fato de todo o naturalismo ser preterido a favor da composição. Para que o resultado correspondesse à harmonia das formas e da luz perseguida pelo pintor, ele foi ao ponto de pendurar o marmelo e a couve em cordas o que é, convenhamos, uma disposição inútil e até ridícula do ponto de vista da vida prática. Mas isso o que importava a um devoto como Juan Sanchez Cotán?
Visto cá de longe, é admirável como num tempo em que a modernidade ainda não passava de uma débil luzinha, já houvesse alguém a sobrepor as regras da razão à suposta ordem natural das coisas. Nenhuma arte haverá em reproduzir um melão e a as suas pevides com toda a fidelidade possível, apenas uma efémera demonstração de destreza manual. A arte verdadeira manifesta-se pelo modo como se concebe a luz, – e que estranha é a luz deste quadro que obriga o pepino a estender duas sombras – como gravitam os volumes entre si e como se correlacionam tais formas na superfície lisa e negra da tela parecendo que dela saltam. Terá sido isto que motivou Cotán e será isto que aproxima este quadro do sublime.
Não teve descendência tal programa, pois em menos de um século os furores da Contra Reforma aniquilaram o racionalismo predicado na pintura de Cotán na própria Espanha onde ele emergiu.

4:

Em 2008 o israelita Ori Gerscht regressou ao momento de Cotán e há-de ter pensado que nada foi bem assim. Ou melhor, o racionalismo ambicionado pelo toledano, se muitíssimas qualidades ofereceu ao mundo, também dele evoluiu uma linha negra que foi capaz de trazer muitas desgraças aos homens.
Se ali naquele quadro estava a génese, a origem de tudo o que veio a suceder, então seria ali que Ori Gerscht teria que inscrever a sua declaração. E a mensagem era simples porém irreversível: introduzir a desordem, um fragmento de caos, demonstrar a capacidade destrutiva que existe na energia dirigida, mostrar que a morte acontece porque é um estado provocado e não é apenas um resultado da entropia.
Não importa olhar para a natureza de pois de morta, o que interessa ver é a morte da natureza. Uma outra forma de subir as escadas para o sublime, agora entendido como o que está para além da pose natural das coisas.

X X X

Young-Hae Chang, “Heavy Industries”, 2007

                                                                                                                    -  reaktion auf Pieter Marder Heilige

A pornografia não é elegante, a pornografia não é bonita, nem agradável. A partir do momento em que podemos associar alguma espécie de estética à pornografia, ela já não é pornografia mas o seu irmão Abel, o erotismo.
Por isso toda a arte, toda a literatura, todo o cinema não conseguem ser pornográficos, a não ser os livros, os poemas e os filmes pornográficos que são ordinários, incultos, canhestros e desengraçados. Porque a pornografia é bruta e feia, mas não dessa brutalidade e hediondez que até podemos achar que sim, se olharmos melhor — ela é mesmo malfeita, mal cheirosa e bestial. 
A pornografia não tem graça. Aliás, o riso é o pior inimigo da pornografia, porque a pornografia é tão patética, ridícula e estúpida que se desfaz com um simples gargalhada. E se for só um efeito temporário, do género de perder a tesão quando ela se ri mas depois voltar à carga, então só foi pornografia a fingir, porque a pornografia não dá vontade nenhuma de rir. Sim, ele agitou a faca diante dos olhos dela, queimou-lhe as mamas com cigarros esbraseados, mas ela gritou socorro acudam, em vez de dizer limão que era a palavra combinada para interromperem a brincadeira. Isto foi quase pornografia, mas ainda não passa de um simulacro.
Não há pintura ou lá o que é, pornográfica. Jeff Koons é uma fraude, utilizou os elementos da pornografia como se fossem temperos, e se primeiro chocou – levemente – os colecionadores, depressa acabámos por encontrar as peças da Cicciolina nos compridos apartamentos de Park Avenue e nos Guggenheims  espalhados por aí.
O lado mais sensato da pornografia é o negócio - moribundo — das revistas e do vídeo, que é só para ganhar dinheiro sem a mínima desculpa ou concessão à moral cristã e anti-capitalista. E quando os pornógrafos se juntam fora das horas de trabalho é para firmar contratos ou contar à mesa anedotas das rodagens e dizer mal de sítios como o yuvutu que lhes estão a complicar o pagamento da hipoteca da casa.
Todos os artistas, digamos assim, que se aproximaram da pornografia, morreram ou esvaíram-se muito cedo. E poucos os admiraram por isso apesar de bastantes lamentarem a curta duração da sua obra.
A pornografia está muito a norte dessa coisa do afeto que chamam de desejo, abominada pelos teólogos e abençoada pelos outros –ólogos atuais. A pornografia é desdenhável e irredutível, é Satanás caído e Caim irrecuperável. É inatingível, é o ato imaculado de foder por foder e pronto.
O resto é erotismo, o macio e perigoso erotismo que cada um pode fazer em casa.

Ainda vivem as naturezas mortas

Poderíamos ter colhido a designação espanhola surgida no siglo de oro – assaz comestível por sinal – de bodegones, mas calhou melhor ao nosso espírito fatalista traduzir à letra nature morte, negligenciando a tentativa de Diderot de chamar ao género natures inanimées.
Especulando, dir-se-ia que o filósofo quis obstar à morbidez da expressão aproximando-se da palavra flamenga stilleven, donde resultou a still life anglo-saxónica. Especulando ainda mais: onde nós já damos como defunto o que está inanimado, os protestantes hesitam em passar o óbito, como se restasse alguma esperança, pois still life é em sentido literal “vida parada”, mas também pode ser relido como “ainda vida”. Serão mais otimistas que nós?
As Naturezas Mortas, só não eram exercícios absolutamente formais, tendentes a exibir o virtuosismo do autor ou a declarar uma nova visão estética (o caso patente de Cezanne), quando declaravam uma dimensão moral. Neste caso recebiam o nome de Vanitas e incluíam com frequência caveiras, para sublinhar bem o ponto.
Tudo isto é nos nossos dias ocioso e obsoleto, visto que a arte contemporânea move-se por outras preocupações – certo? Pois não é bem assim. O caráter arcaizante, rígido e taciturno, quase frívolo, do género acabou por lhe atribuir algum potencial que um bom punhado de artistas actuais tem vindo a explorar. E o que resulta, se procurarmos bem, consegue ser tão inesperado quanto luminoso, para não utilizar a estafada palavra “sintomático”.
Vamos ver:

1:

Lucien Freud, “Still Life With Aloe”, 1949

É preciso saber para reconhecer, doutro modo só um olhar muito experimentado é capaz de adivinhar às cegas que o autor desta “Natureza Morta com Aloé” tem o nome de Lucien Freud. A estrela do neto de Sigmund só começou a expandir-se por volta dos anos 80, quando a pintura figurativa voltou a despertar. Este quadro é de 1949 e com ele ficamos saber que Freud nem sempre foi cru e descarnado a pintar corpos, nem sempre as suas composições se afundavam ou apenas resistiam à escuridão, nem sempre havemos de ficar prostrados perante a solidão.
Vendo bem, e tirando a parte nada despicienda da luz, está cá tudo que acabei de negar no parágrafo anterior. Devia ter observado melhor aquele peixe, aquele olho negro e hirto que nos acusa não sabemos de quê. Foi decerto este arenque (?) que evoluiu darwinianamente para os desconsolados humanos que hoje se expõem na pintura de Lucien Freud.

2:

Quem quiser saber mais acerca da conspícua vida social de Sam Taylor-Wood não precisará de esgravatar muito a net. Também a sua obra artística não se esquiva a uma certa mundanidade.  E se a isto juntarmos um nomadismo nos géneros, pois Taylor-Wood tanto produz fotografia, como instalações vídeo, como filmes de distribuição comercial, temos que havemos de encontrá-la nos propósitos mais inesperados: já foi finalista do vanguardíssimo prémio Turner, já retratou David Beckham.
A sua Natureza Morta de 2001, é uma peça fulminante, sobretudo pela extrema simplicidade. Tem 3 minutos o que demorou meses a sobrevir e o efeito é tudo o que uma Vanitas desejaria alcançar. Mais do que uma natureza morta, Sam Taylor-Wood entrega-nos uma natureza a morrer até ao fim.
Só não entendo o que está ali a fazer uma bic…

Vae victis

Liz Deschenes, “Black Mirror #1″, 2010

Pedro Correia do Delito de Opinião teve a gentileza de me convidar para publicar um texto em tão  seleto blog.O resultado foi este, que por lá saiu oportunamente no dia 4 de Dezembro. Resta dizer que todos os fato aqui apresentados são recolhidos, os verdadeiros, e extrapolados, os imaginados, a partir da magnífica biografia de Sá Carneiro, escrita por Miguel Pinheiro. Este livro e “Os Meninos de Ouro” de Agustina, formam um díptico essencial para entender a vida real e idealizada dessa personagem que foi Francisco Sá Carneiro.

 

Vieram só mais tarde ao conhecimento público as minúcias de uma decisão que tão funestas consequências teve no futuro dos seus interlocutores.
Foi ainda na placa do aeroporto da Portela, mal desembarcaram, extenuados, no regresso de um comício no Porto em que tudo foi desconsolação, eram quase 4 horas da madrugada já do dia 5 de Dezembro, que Francisco Sá Carneiro apartou Amaro da Costa da restante comitiva e dando ambos uns passos para dentro de uma chuva miúda a fustigá-los, entenderam-se nos passos seguintes e combinaram o modo de os anunciar, de forma a produzir o efeito e as consequências previstas naquela breve mas decisiva conferência.
A eleição estava perdida, Eanes ia ser Presidente logo à 1ª volta, e a Sá Carneiro e a Amaro da Costa não havia alternativa senão proceder como haviam prometido.
De modo que na manhã do dia 9 de Dezembro, enquanto Conceição lhe vem entregar as notas dactilografadas, contornando a longa e silenciosa mesa à volta da qual se reúne o estado maior da AD, Sá Carneiro olha em redor e compreende num relâmpago que mais uma vez vai ficar isolado. As delícias do poder turvam os princípios e acomodam os homens às exigências do taticismo.
Por uma vez a intervenção de Sá Carneiro foi curta. As suas piores expectativas tinham-se realizado; eleito à primeira volta e de um modo tão esmagador, Eanes, apoiado no Concelho da Revolução e instigado pelo PCP, sentir-se-ia legitimado para criar toda a espécie de dificuldades ao programa da AD, condenando o governo ao fracasso. Por outro lado seria um tremendo erro estratégico deixar que Soares polarizasse a seu favor, sem concorrência, toda a oposição ao eanismo, entalando a AD entre duas posições claras. Por fim, como era um homem de palavra, só lhe restava fazer o que havia prometido – demitir-se.
A ninguém passou despercebido que Sá Carneiro falara em nome pessoal, assim obrigando cada um dos presentes a comprometer-se.
Seguindo o protocolo, a segunda intervenção foi de Freitas do Amaral. Lacónico: também se demitia, fazendo seus os argumentos de Sá Carneiro. Afinal, fora esse o plano traçado no fugaz mas empolgado almoço no Tavares na quinta feira anterior, sabendo ambos que não iriam ser acompanhados pelos seus partidos.
Balsemão também se demitia, ou melhor, desprendia-se. Embora as suas palavras expusessem apenas considerações políticas, ele não tinha qualquer ilusão: permanecer no governo constituiria uma armadilha capaz de lhe estragar seriamente a vida. Já não eram à boca pequena os rumores de que Sá Carneiro, agastado com as impertinências de Marcelo Rebelo de Sousa à cabeça do Expresso, desejava criar um novo jornal; públicos e notórios eram os encontros, almoços e planos com Victor Cunha Rego. Regressando ao Expresso, Balsemão resolvia vários problemas numa penada: assegurava a direcção do jornal, podendo subalternizar o incómodo Marcelo; combateria de mão própria qualquer veleidade de concorrência, como já fizera com “O Jornal”; converter-se-ia na indiscutível reserva moral do PPD, pois seria o único fundador a permanecer ligado ao partido, após a cisão de Magalhães Mota e o rompimento de Sá Carneiro.
Para surpresa geral, Amaro da Costa em vez de se estender numa das suas proverbiais diatribes, foi sintético: também se ia embora.
Já se enovelava junto ao teto o fumo dos incessantes cigarros que à época eram habituais na política, quando Eurico de Melo pediu a palavra. Os olhos por norma frenéticos de Sá Carneiro fixaram-se nele. Pela memória de ambos passou a conversa íntima que tiveram “naquela” noite em Santo Tirso. Foram enigmáticas, como convém às profecias, as sentenças de Sá Carneiro, mas Eurico fiava-se no que delas entendeu para arriscar o que ia dizer.
Começou por elogiar a estirpe do Doutor Sá Carneiro, exaltar a audácia da AD e reclamar as proezas do governo. Por isso, tinha que fazer um apelo ao bom senso. Abandonar a governação numa hora destas era dar rédea livre a Eanes para enfiar o PS no poder e destruir o que tão porfiadamente havíamos conquistado. O povo sentir-se-ia traído pelo PPD e os nossos inimigos não desperdiçariam tamanha oportunidade para nos vilipendiar. Fora do governo, o partido corria o risco de soçobrar e de ficar para sempre na oposição. Por outro lado, assumindo as nossas responsabilidades, seria possível trazer Eanes para o nosso lado, pois o general estava sobretudo empenhado em rachar o PS. Fazer a revisão constitucional até 83 estava bem ao nosso alcance e as próximas eleições seriam um passeio.
Na sala pronunciou-se um silêncio espesso.
Logo a seguir, levantou-se a voz de Cavaco Silva, um daqueles tecnocratas vagamente despolitizados que Sá Carneiro tanto apreciava. Entre todos os presentes na sala, tudo gente de militância pesada, havia alguns que não sabiam quem na verdade era ele.
Tremeluzente e com uma espuma branca a formar-se nas comissuras dos lábios à medida que ia falando, Cavaco, em tom alarmista porém seguro, afirmou que a situação do país era calamitosa. O descontrolo orçamental do governo, ignorando o choque petrolífero de 79 justificava-se pela necessidade de ganhar as eleições, mas agora havia que implementar (foi mesmo assim que ele disse) uma política de grande aperto financeiro. Se não fosse o PSD a fazê-lo, Eanes obrigaria à formação de um governo de “bloco central” que teria de executar uma gestão a mando do FMI. Se a AD se demitisse agora, ficaria com o ónus da culpa e nenhum proveito. Abandonar o governo, portanto, era impensável e suicidário.
As opções estavam desenhadas: ou os restantes intervenientes queriam continuar o poder sob a égide de Eurico de Melo e de Cavaco Silva, ou abandonavam-se à sorte da oposição, seguindo Sá Carneiro. Um a um os presentes escolheram os novos senhores.
O que a seguir sucedeu e que de todos é conhecido, pois pertence à História, decorreu das decisões aqui tomadas.
Para surpresa geral, Cavaco e Eanes entenderam-se na perfeição, pois eram patentes as afinidades electivas que os uniam: o ascetismo dos magros, o pragmatismo dos que abominam as controvérsias da política e aquela espécie de frigidez autoritária que tanto calha aos portugueses. Após uns anos economicamente duros, Portugal conseguia superar a crise sem precisar dos préstimos do FMI e aprontou-se a integrar a CEE com mérito e distinção. Este entendimento emocional e intelectual entre os dois, permitiu que fosse executada uma profunda revisão constitucional, para horror do PCP e com o fraccionado PS a resmungar e a reboque.
O primeiro sinal dos novos tempos económicos foi a criação de um banco no Porto, cujo  Presidente era Adelino Amaro da Costa.
Nas eleições de 1983 a renovada AD, liderada por Cavaco Silva e Lucas Pires, obteve nova maioria absoluta. Facilitou tamanha vitória o fato de o eleitorado do PS ter sido disputado pelo novo partido de Eanes o PRD.
Sá Carneiro fundou o “Semanário” com Víctor Cunha Rego, mas nunca conseguiu beliscar a reputação e a força do “Expresso”. Em 1983 disputa as eleições com o seu novo Partido Liberal, ornamentado pelas figuras de Freitas do Amaral, Santana Lopes e Helena Roseta, mas previsivelmente os resultados foram assaz decepcionantes. A prosperidade económica estava ao virar da esquina, as grandes ruturas políticas já não faziam sentido e Sá Carneiro aparecia como um homem truculento e instável. Para mais, a ele colou-se a imagem de um governante despesista cuja ambição de poder quase nos ia levando ao abismo. Há quem afirme que pela cabeça de Sá Carneiro terá passado a ideia de se candidatar às presidenciais de 1986, mas a sua esposa Snu demoveu-o de tal veleidade.
Fustigado pelas doenças que sempre o torturaram, Sá Carneiro morreu jovem, mas ainda a tempo de ver Mário Soares tornar-se Presidente da República.
O ponto culminante da sua biografia foi ter sido Primeiro Ministro durante 1 ano.

NÃO!!


Está a partir de hoje à venda em Portugal o mais perigoso engenho da história recente da humanidade.
Quando apareceu o iPod desdenhei-o. Sem desprimor para os méritos industriais da geringonça, que manifestamente ia salvar o mercado discográfico da dissolução, o que era ótimo além de urgente, não me pareceu que o objecto serviria os meus interesses. Como sou um perfeito quadrado musical, tendo reduzido o meu espetro de gostos tão somente ao jazz, com breves incursões na clássica, para nada queria descarregar uns temazitos avulsos à moda das hit parades.
É certo que o retalho fonográfico do jazz em Portugal é nulo, e mais de 90% das minhas listas ou eram desconhecidas pelos caixeiros da FNAC ou sim, podiam encomendar, mas de momento não havia em armazém – pois. Um dia em Londres assustei-me deveras com o panorama, pois quer ao balcão do Ray’s, supostamente a melhor discoteca de jazz da Europa, quer no desértico último andar do His Master’s Voice, onde fui atendido por um verdadeiro especialista que pouco faltou para chorar no meu lusitano ombro, do rol de cerca de 30 CDs que apresentei para compra não consegui trazer mais do que 5 peças.
A Amazon salvava o dia e após uma horrorosa experiência em que o Estado português me roubou em taxas o equivalente ao valor da compra, passei a desbravar a Amazon.co.uk, de stock mais limitado, mas livre do risco de ser assaltado.
Até que.
Até que, lembro-me como se fosse hoje, procurei “A Hundred Jumping Devils” de Rob Redey (não interessa saber quem é) – pois nada. Foi então que me lembrei de vasculhar o iTunes, descarregado apenas para aplacar a paixão da minha filha por um ectoplasma de nome Justin Bieber.
 Olha…
 Ai é assim? Então vê lá se tens o inacessível “Crystals” de Sam Rivers (também não interessa…) – bingo!
Nesse momento juro que senti uma bactéria a invadir-me a alma – estava perdido.
Dois outros terríveis factores tornaram compulsivo o meu ódio ao iTunes. Um foi o livro “The Rest Is Noise” que estendeu a meus pés um novo continente musical; foram noites insones a meio da semana a ouvir excertos e a baixar obras e obras de música contemporânea. Outro foi um perverso sujeito que dá pelo nome de Diogo Leote, o qual me fez recordar velhos tempos e me compeliu a construir a discografia que nunca tivera dos meus beloved eighties – maldito seja.
Lamento anunciar que fiquei agarrado: todas as semanas, e ao abrigo de um sonso pretexto profissional que me protege de cóleras domésticas, lá vai mais um parzinho de novidades a entrarem na minha vida pelo fio do telefone.

Leitor, aprenda com a minha funesta experiência; acha mesmo que precisa de ter, instantaneamente e em simultâneo, debaixo dos seus dedos, a New Yorker, o Libération, a Wired, o El País, o Açoreano Ocidental, o Yomiuri Shimbun, a iHola!? Tem tempo e vida para isso? Acha que pode? É o que quer da existência? Para que precisa de um iPad senão para se desgraçar? Vade Retro.

Ver de ouvidos bem abertos

A proverbial frigidez de Stanley Kubrick gerou não poucos equívocos, levando a que fossem exaltadas algumas obras suas particularmente desvitalizadas, como Full Metal Jacket e Eyes Wide Shut, ambos exercícios de estilo sobe matérias que reclamam sujidade no lugar da geometria, confusão em vez de magistério e um sentido pulsional da vida, uma espécie de vontade de energia, da qual Kubrick, o misantropo Kubrick, sempre se arredou e evitou.
Não, a guerra não é aquele exercício de ginástica reduzido às formas da guerra que nos apresenta em Full Metal Jacket. Mesmo que dela se quisesse ter uma visão descomprometida com os horrores da guerra (Saving Private Ryan), dos delírios da razão na guerra (Apocalypse Now) ou da exaltação dos orgulhos e da ética da guerra (qualquer filme de John Ford…), ou até mesmo do tédio da guerra (Generation KIll), em nenhuma circunstância atingiríamos um módico de verdade elaborando sobre ela um puro relatório dos seus costumes e procedimentos formais. Para descrevê-los, e sem obliterar a dor, os dilemas do dever, e a estranha mistura entre inteligência e ferocidade a que a guerra obriga, nada destronará os supinos In Wich We Serve de Noel Coward e Air Force de Hawks, sintomaticamente todas obras de propaganda. Se não era nada disto, também Full Metal Jacket não é nada disso.
Eyes Wide Shut é ainda pior, pois encerra um propósito descritivo feito por alguém que aparenta nunca ter vivido, sequer tocado, o objecto que relata. Se Kubrick desejava demonstrar de um modo ínvio a sua repulsa pelo sexo puramente carnal, vivido como um fim em si própria, já cá tínhamos The Last Tango in Paris, que ainda hoje tem muito para dizer quando o despimos da ganga psicanalítica. Se era para avivar o traço que une o sexo à culpa, já havia o fantasmagórico Repulsa, obra insuperável de Polansky. Se a intenção seria, como parece que se entrevê lá ao fundo do sentido do filme, denunciar o hedonismo e os seus requintes, assimilando sexo, dinheiro e poder até à vertigem final, então melhor será encaminhar os olhos na direção de Silence of the Lambs, Duel in the Sun, qualquer fotograma com Ava Gardner e, sim, Rear Window. Eyes Wide Shut é um filme sem pele nem tato.

Quero com isto dizer que há filmes de Kubrick que tenho como sublimes. Por exemplo Barry Lyndon. Cada um é como cada qual, pelo que coloco Barry Lyndon um nadinha acima de Dr. Strangelove e de The Shinning, deixando meia linha abaixo (mas sempre tudo muito lá em cima) Lolita e 2001. E não, não me esqueci de A Clockwork Orange, apenas o omiti.
Não é dispiciendo que Barry Lyndon decorra num tempo histórico bem definido, o longo, complexo e dramático reinado de Jorge III, a quem aconteceu tudo e mais alguma coisa. Estamos na transição do neoclassicismo para o romantismo, quando já se renegava com horror as convulsões do barroco, mas ainda não se haviam adoptado os fervores da modernidade ou dela se desconfiavam as temeridades. O modo preciso e minucioso de filmar de Kubrick, a sua sempre manifesta vontade de construir uma obra como se resultasse de um algoritmo mágico, encontra nesta época a sua ecologia.
Um filme é para ser apreciado de cabo a rabo, mas depois podemos eleger certos momentos para guardar no baú dos tesouros.
Esta cena, como um dia mostrou o meu amigo Scorsese, é o apogeu do programa cinematográfico de Kubrick. A narrativa é dirigida pelo enigmático Trio de Piano Opus 100 de Schubert (enigmático porque em vez do dedilhar esvoaçante que é apanágio do compositor, o tempo é aqui sincopado com mão pesada e notas claras). Isto dilata sobremaneira o tempo dramático, transportando-o para uma dimensão rara em cinema, pois tudo o que é visual, os planos e a montagem, organiza-se em função do elemento sonoro. Os gestos dos protagonistas submetem-se, também eles, ao ritmo musical, embora tentem simular uma suposta naturalidade. E apesar de os atores nunca proferirem palavra, a veemente marcação dos seus passos e o modo meticuloso como a câmara os segue, asseguram que a cena foi toda escrita. Quer dizer: não há palavras nem texto, mas haverá decerto um poderoso verbo a pôr as coisas em marcha. Porque o cinema, tal como todas as criações, resulta do verbo que o enunciou e que nele ganha forma; no caso de Kubrick é o próprio racionalismo que se torna palpável, perdão, visível e audível.

Viva o Vitórrria!

Como nisto infelizmente não estamos em Inglaterra, verifica-se ser deveras insuficiente o amor que é votado aos pequenos clubes da terra pelo seu povo. Um adepto do Preston ou dos Middlesborough não partilha a devoção com nenhum outro emblema e é extreme na defesa das suas cores, sem lhe importar vitória ou derrota.
Em Portugal não é assim e todos parecem projetar nos clubes a grandeza que as suas vidas não têm. Talvez seja também por isso que o futebol nacional é um campo de acrimónias, zaragatas, trafulhices e desilusões, mais do que alegrias e fair play.
Todavia, há clubes pequenos com história e, sobretudo, caráter. O Atlético, sucessor do temível Carcavelinhos, cujos adeptos de fato-macaco atiravam a infame sandes à cabeça dos rivais que os visitavam, a qual era nada menos do que um calhau embrulhado; o Oriental, resultante da união entre o Fósforos, o Chelas e o Marvilense, antes figadais inimigos, e o seu grito de guerra “vá lá rapazes que está um boi a assar!”, descrito por Assis Pacheco numa das suas maravilhosas pequenas crónicas sobre o futebol menor; o singular Barreirense, o clube mais incómodo ao antigo regime, em cujo campo a guarda tinha ordens para se posicionar de frente para a bancada à coca de bandeiras demasiado vermelhas e onde o público era compelido à moderação verbal por força do chanfalho, tendo assim acrescentado à língua portuguesa o insulto “camurço”, contração de camelo com urso, que por ser neologismo não era passível de admoestação; todos estes clubes pequenos de tamanho, tinham uma índole operária e bairrista que os tornavam indomáveis, íntegros e de certo modo invejáveis, no entusiasmo genuíno dos seus adeptos.
Estes pertencem à Lisboa metropolitana, mas do Norte tenho ouvido falar na indómita “alma salgueiral” do estiolado Salgueiros e nunca me passou despercebido o taco de criquete que o vetusto Leixões traz ao peito.
O novo futebol, amparado nas finanças municipais, nos presidentes com recursos tão obscuros quanto inesgotáveis, nas SADs bancárias, submergiu os clubes populares e miúdos. Todos? Não, resiste o Vitórrria da terrra da sarrrdinha e do carrrapau de Setúbal.
E faz agora 100 anos.
No início dos anos 70 era ao Bonfim que fazíamos, eu e meu Pai, a única incursão futebolística fora de Alvalade. Nem sempre saboreávamos os barquinhos de doce amargo de laranja, que era a nossa celebração quando as coisas nos corriam bem, pois ao longo de uma década, entregue às mãos, primeiro de Fernando Vaz, a seguir de Pedroto, o Vitória tendia a atormentar senão despedaçar quem se pusesse diante dele. Altamente perigosos eram os 3 célebres angolanos: José Maria, um pretalhão com pólvora no pé, que fazia remates de arrebentar as redes, o seu irmão Conceição, senhor de um peitaça formidável a impor o respeito lá atrás e o fulminante JJ, Jacinto João, homem para fintar uma equipa inteira em cima de um guardanapo – quem nunca o viu jogar não sabe o que perdeu.
Mas a ínclita galeria de vitorianos inclui, assim e repente, os eternamente listados de verde e branco José Mendes, Pedras, Vagner e Tomé (que na noite de 24 de Abril de 1974, a menos de 1 minuto do fim do jogo contra o Magdeburgo, bem podia ter levado o Sporting à final da Taça das Taças); Guerreiro, o guarda redes Vital, Octávio, Jaime Graça, Mourinho, o pai do actual homónimo e, o trágico Victor Baptista.
A última vez que frequentei o Bonfim foi na primavera já distante de 2002, donde esperava sair campeão, só que não contei com a tosquice de César Partes a falhar o remate à boca da baliza na última jogada, incapaz de deslindar o 2–2. Afinal o Sporting conquistaria o campeonato no dia seguinte, por procuração e no sofá, graças à derrota do Boavista na Luz. Bem dizia a peixeira ao meu lado: “há des ganhar, há des, mas não cá em casa, ó cara de boga”.

Arriba Berlanga!

É muito desconhecido entre nós o cinema espanhol. Aqueles que já começam a não ser jovens podem lembrar-se de um par de obras de Almodôvar; os mais velhos hão de recordar, senão os filmes, pelo menos certas sequências mais sulfúricas de Buñuel; os frequent flyers são capazes de jurar que já se expuseram às longas horas exigidas pelo raríssimo Victor Erice.
Além disto, quase nada. E é pena, porque ganharíamos bastante em estimar os trabalhos de um cineasta como Berlanga (Luís García). Morreu no Sábado passado, 13 de Novembro, aos 89 anos, mas não sem antes declarar com o seu habitual pico tremendista que “el dolor me jode, pêro morirme me jode más” – um belo epitáfio. A Espanha superlativou-o.
Sou bem capaz de arriscar pôr El Verdugo (1963) entre as minhas 10 comédias prediletas, no enfiamento de The Ladykillers (1955) e I Soliti Ignoti (1958). Em comum, todos estes filmes repassam um humor negro de negro, que se desprende dos desaires sucedidos aos pobres diabos que tentam fugir da sua condição por esconsos e ínvios atalhos. Mas há algo mais que é o essencial da comédia: o olhar da câmara está ao lado e do lado das suas patéticas personagens, ou seja: nós rimo-nos das suas peripécias, sempre com a sensação de que “podia ser eu”; nunca nos rimos deles, mas com eles.
Se dispuser o leitor de 11 minutinhos, faça o favor de saborear este prodigioso excerto de El Verdugo.
Se ainda desejar algum enquadramento aqui vai:
Enredo: José Luís tem dificuldade em encontrar namorada, porque todas fogem dele quando sabem que é cangalheiro de profissão; o mesmo sucede a Carmen, por ser filha do carrasco da prisão. Casam-se e vão viver com o pai dela, Amadeo. Ora a casa é uma benesse do Estado, pelo que, estando Amadeo à beira da reforma, irão ser despejados, a não ser que José Luís assuma o lugar do sogro. Assim faz, fiando os escrúpulos nas palavras de Amadeo “à última hora chega um indulto e ninguém costuma ser executado”. Até que chega o dia em que José Luís é mesmo obrigado a cumprir a sua função. E é aqui que entra o trecho.
Notas: El Verdugo é filmado num preto e branco franquista. Os homens vestem-se de negro de alto contraste aos quais é imprescindível o bigode, a barriga e alguma calvície prematura. Todos falam com a previsível voz áspera do castelhano e de certeza que o ar tem o cheiro acre dos Ducados, quando não fica espesso daqueles perfumes sevilhanos que anestesiavam a pituitária com a sua doçura pungente.