
Pedro Letria, “Foundation”, 2011

Sarah Cooper & Nina Gorfer, “Workers line” (Dubai). 2010

Augusto Cabrita, “Lisnave”, circa 1970

Augusto Cabrita, “Campo de Sta. Bárbara” (Barreiro), s.d.

Pedro Letria, “Foundation”, 2011

Sarah Cooper & Nina Gorfer, “Workers line” (Dubai). 2010

Augusto Cabrita, “Lisnave”, circa 1970

Augusto Cabrita, “Campo de Sta. Bárbara” (Barreiro), s.d.

Yves Klein, IKB 79, 1959
Ingmar Bergman tinha uma explicação simples para o cinema de Hithcock.
A câmara do inglês reputava-se como a mais quieta de Hollywood e só se mexia quando obrigada, uma panorâmica ou outra, raríssimos – não me lembro agora de nenhum – travellings. A agitação dramática e a actividade narrativa resultavam sobretudo da montagem, que podia ser vertiginosa, como no caso da cena do chuveiro de Psycho, na qual foram precisos 78 planos para recebermos 45 segundos de puro susto, ou então nula, como em Rope, um filme feito numa tomada, apenas interrompida de 20 em 20 minutos, para mudar a película no magazin. Sim, aqui há movimentos de câmara, pois era necessário deambular atrás dos atores, mas repare-se que estes raro saem da sala e dentro dela conversam mais do que mexem. Há também um bizarro movimento de câmara em Vertigo que a todos espantou tecnicamente, mas era um efeito combinado de lente e zoom, com o corpo da câmara assente em seu recato no tripé.
Com o barroquismo próprio dos jovens, Truffaut vislumbrou metafísicas no estilo de Hitchcock, na sua monumental entrevista de 1962 que durou vários dias e resultou em 12 horas de conversa. Dava jeito ao intrépido francês mostrar que o grande entertainer era um artista tão vasto como Michelangelo, no seu combate por uma politique des auteurs com o objectivo de acomodar o cinema como uma das Belas Artes.
Pois nada disso, afirmava Bergman no seu purismo calvinista. Hitchcock filmava assim apenas porque era gordo. Um homem de tal modo corpulento, não tinha nem físico nem vagar para perseguir a câmara, instigar os atores com pormenores ou para irromper no plateau. Sentava-se, então, na cadeira de lona do realizador e a câmara que remédio tinha senão ficar ali ao lado dele. Tudo em Hitchcock nos diz que seria incapaz de um número como o de John Ford que um dia foi entrando pelo rio adentro até dizer que queria a câmara aqui, quando a água já lhe dava pela cintura.
O próprio Hitchcock sempre corroborou a explicação de Bergman ao afirmar que construía os filmes sentado à secretária, diante do argumento, imaginando-os por inteiro, plano por plano, do princípio até ao fim. Se necessário rabiscava um story board para algumas sequências mais complicadas. A rodagem era para ele um frete e só lá ia para que não viesse outro estragar o que havia concebido.
Desta razão de Bergman poderemos recolher duas úteis lições.
A primeira já a conhecemos desde o séc. XIV e talvez por isso a esqueçamos tão amiúde. É a lex parsimoniae, popularmente conhecida pela “navalha de Occam” que nos recomenda escolhermos a explicação mais simples entre as que se nos apresentam para resolver um problema – pardon messieur Truffaut.
A segunda provém do saudável empirismo de Ingmar Bergman, e convida-nos a perceber que na verdade as coisas são influenciadas sobretudo pelas contingências, pelos percalços por ocasiões e por pequenos acidentes materiais – “olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates”. Se Hitchock fosse ágil como Billy Wilder os seus filmes eram semelhantes aos de Billy Wilder.
Bergman foi um que pouco se enganou – basta ver-lhe os filmes.

Não houve pintor mais nervoso que Goya. Coube-lhe viver uma época assaz turbulenta e tudo nele foi urgência em capturar os factos para que ficassem. Há de tudo na pintura de Goya: documentarismo (“Los desastres de la guerra”), retrato cortesão (“A família de Carlos IV”) e militância, mas em nenhum momento mostrou complacência nem deixou de expressar a sua visão naquilo que olhava.
No dia 2 de Maio de 1808 os mamelucos atacaram nas Puertas del Sol o povo que se manifestava contra o usurpador José Bonaparte; no dia seguinte os principais cabecilhas da sublevação foram sumariamente fuzilados pelos franceses. Ambos os assuntos foram pintados por Goya, mas a execução tornou-se um ícone da luta pela liberdade.
À primeira impressão intimida o tamanho da tela e à primeira vista impressiona a velocidade com que ela foi feito, sem detalhe realista e reduzindo a esboço tudo o que não seja os rostos dos fuzilados. E nestes se estampa a mistura de pavor e determinação que devem ter as caras dos que vão morrer injustiçados. O alvoroço é iluminado por uma lanterna, a mesma que Picasso recuperou para o seu “Guernica”.

A pintura de Manet parece plácida, além de parisiense. Nos seus quadros os rostos são de uma invariável impassibilidade; podemos ver melancolia na barwoman dos Follies Bergère, submissão nos olhos de Olympia ou altivez nos do modelo de “Déjeuner sur l’herbe”, mas se nos chegarmos perto, aquilo que Manet nos oferece são almas imperturbáveis.
O mau estar que se desprende da “Execução de Maximiliano” vem dessa ausência de emoção, em total contraste com o momento goyesco.
Manet pintou o quadro no seguimento do diálogo que vinha mantendo com Goya desde a sua “Olympia”, na qual replicava a insolência quer da “Maja desnuda”, quer da “Odalisca” - mulheres que não se furtam a defrontar-nos com a sua nudez. Pintou-o ainda por convicção política, para verberar em público a estúpida aventura de Napoleão III ao instalar Maximiliano de Habsburgo como imperador do México, um desígnio cujo final funesto foi o que se vê.
Às mãos de Manet o fuzilamento é descrito mais do que vivido. Para tal efeito subverte por completo o propósito de Goya: agora são os emotivos que estão em esboço, os generais e o pouco povo que assiste à cena, aparentemente mais preocupado com o estrondo do fogo do que com a execução dos ilustres. O lívido Maximiliano fica hirto e um soldado engatilha calmamente a espingarda de costas para a cena - tudo decorre as a matter of fact.

Yue Minjun, “Execution”, 1995
Todos os quadros de Yue Minjin são composições a partir de figuras que mostram uma boca escancarada num riso entre o escárnio e o medo (“estou a rir mas é nervos!” como dizia uma tia minha). Essas figuras são multiplicações da mesma imagem: o retrato do próprio pintor.
Há quem designe o estilo de Yue Minjin como “realismo cínico” e na verdade tudo isto é muito inquietante.
A “Execução” é, até hoje, a obra culminante de Yue Minjin. O muro que em Monet dir-se-ia separar o acontecimento político da vida quotidiana, é agora claramente o muro da Cidade Imperial no centro de Pequim; ou seja, a cena decorre na praça de Tiananmen. Isto torna as gargalhadas sinistras e a brincadeira abjeta. Mas o segundo grau revela-se de imediato: o que temos é uma violenta irrisão do sossego com que o mundo esqueceu o massacre de Tiananmen. Trazer os acontecimentos de novo a lume deste modo, com uns envergonhados por estarem em cuecas e outros a fingir que dão tiros, enquanto um dele se vira para nós, já não para carregar o fuzil, mas para nos desafiar com a sua medonha gargalhada, afronta e incendeia a nossa memória e, mesmo, a nossa passividade.

João Hogan, “Paisagem”, 1973
Por não seres romano mas da linhagem dos Pontii, família grada entre as recalcitrantes tribos do Samnium apenas vergadas pela crueza de Sula, sendo provável que ainda tenhas ouvido os teus avós falarem oscano, já então a moribunda língua dos antepassados, decerto não alimentarias uma ambição desmedida, que fosse para além do teu título de eques, da ordem dos equites, sabendo que os primeiros lugares do Império te estavam vedados pelo sangue e por ele eram exclusivos dos Patrícios.
Grande entre os pequenos e pequeno entre os grandes, pode ter sucedido que um sentimento de inferioridade fosse acompanhando a tua vida, e nunca obtivesses resposta à dúvida que sempre te foi atormentando, desde a hora em que o Senado te investiu como perfeito da Judeia, um cargo ingrato num província remota e amarga, até ao dia em que os teus pés voltaram a calcar as pedras do cais de Ostia, de regresso a Roma.
Essa grande dúvida foi a de perceberes se era uma honra ou uma provação, se a magnífica atenção de Tibério recaiu sobre ti e tivesse visto em ti um fidelíssimo administrador do Império, cujo brio e acerto eram propícios ao governo de uma província tão difícil; ou se o tristissimus hominum apenas assinou enfastiado um decreto entre tantos a que dava provimento, despachando-te para um posto inferior e periférico, submetido ao governador da Síria, por não te ver digno de maior política – a prefeitura na complicada Judeia era o princípio de uma auspiciosa carreira ou tão somente o máximo a que poderias aspirar?
Não surpreenderia que logo à vista de Cesareia, ainda antes de desembarcares, fosse de horror a impressão em ti causada por aquela terra inóspita e fétida, onde uma gente encardida berrava num linguajar sibilante contra impávidos burros. Não precisarias de ser muito arguto para desde logo reparares na ausência de jardins ou de qualquer outra espécie de frescura, dado ser aquela terra de pastores, que desdenhavam a persistência agrícola, o trato comercial e as delicadezas urbanas e cuja curiosidade não ia além das ovelhas. Mal sabias tu que a branda Cesareia, temperada pelas brisas do Mediterrâneo, haveria de ser a cidade mais aprazível de todo o território que te coube em sorte dirigr.
Instalado na tua áurea qualidade de perfeito, em teu redor desde logo se impôs um círculo de saduceus, ávidos de colaboração e predispostos a receberem como inerentes à sua classe todos os privilégios que lhes queiras outorgar. Mesmo que os acaricies nunca te tratarão com deferência, pois presumem-se de estirpe no mínimo igual à dos romanos. Apesar dos seus costumes sórdidos, próprios de descendentes de escravos, presumem-se requintados e mundanos e depressa achá-los-ás ridículos, com as suas intrigas palacianas urdidas entre paredes de adobe, com os seus ressentimentos tribais, deflagrados por nada maior do que um punhado de cabras e com o seu desprezo pela higiene, estimulado por um obsceno pudor teológico.
Atrás dos saduceus entrevirás os fariseus. Estes somente te pedirão indiferença e em breve compreenderás que a indiferença, com este povo turbulento, é uma vantagem e não um prejuízo. Todavia, apesar de não mais ambicionarem do que passar os dias a insultarem-se no seu templo grosseiro, que eles chamam de Santo, dedicado a um deus ausente e lamentado precisamente por não se manifestar, os fariseus não cessarão de te importunar com as suas questiúnculas e de provocar a tua lei com os seus dogmas. Atreitos a indignações teatrais e a discussões intermináveis, hão de ser a casta mais aborrecida com que irás lidar.
Por fim, longe da tua vista ficarão os zelotas – cuidado com eles! No seu estreito pensamento de seita radical e desprovida de mundo, só brilha a recordação da suposta glória passada de Israel e tudo o que façam é sedicioso e dirigido contra ti. Se lhes deres o que te pedem, açoites e extorsão, a sua popularidade redobrará, se os tratares com complacência, irão pôr em perigo a tua autoridade. Sobre eles terá de rolar o ferro de Roma em todo o seu esplendor, para espanto e exemplo dos demais.
Mas o teu primeiro súbdito será o velhaco Herodes, rei dos judeus ao qual todos devem respeito embora escassa obediência.
Antipas é impotente para decidir o rumo de qualquer negócio, atordoado pela cacofonia de conselhos concorrentes que a todos escuta com pretensa equidade. No entanto, não hesitou em oferecer numa bandeja de prata a cabeça de um tal João, que andava a sublevar os povos das margens do Jordão com banhos naquelas águas sujas, quando Salomé, uma trigueira e opulenta concubina, uma noite o entreteve com requebros soezes, despindo-se ao ritmo de uma fastidiosa e interminável música. A estridência dos sons e os meneios da meretriz prostraram o lúbrico Herodes e dispuseram-no a ceder à exigência dela. A verdade é que ao pedir a cabeça do rebelde, Salomé pôs cobro à revolta e demonstrou ter mais poder que potentados, mais armas que generais e mais persuasão que embaixadores.
A iniquidade desta gente que se diz eleita por deus não cessará de te espantar.

Depressa saberás que o festival da Páscoa é a mais perigosa das épocas, exigindo de ti muitas cautelas e trabalhos. A excitação dos israelitas estará ao rubro pois temem que se não provocarem uma hecatombe na população ovina da Judeia, o deus deles os abandone de vez e deixe de os apontar como o seu povo predilecto.
Perdidos nesta terra ingrata, rodeados de inimigos com quem partilham as estradas, com um passado repleto de vergonhas e um futuro indiscernível, acreditam numa esquiva divindade, informe, incorpórea e assaz volúvel, que viria, não sabiam quando nem como, redimi-los das tribulações que suportavam. Estas incertezas, exploravam-nas os profetas, havendo um em cada esquina de Jerusalém, que não se inibiam de proclamar invocações e augúrios tremendos que punham o povo pasmado de terror.
Pobres bárbaros, incapazes interpretarem nas vísceras dos pássaros o destino que os deuses nos reservam, em vez de desesperarem por um dito messias que lhes indique o caminho da salvação.
Mais tarde, quando estiveres a cravar uma adaga no teu próprio peito para resgatares a honra comprometida por Calígula, um inexplicável capricho da memória fará com que no derradeiro alento, de toda a tua vida apenas recordes um episódio entre os tantos que sofreste, precisamente passado em Jerusalém, nesses dias agitados da páscoa.
Naquele ano, logo ao raiar da manhã ergueu-se um burburinho medonho à tua porta. Uma turba de sacerdotes e dignitários, com vestes desalinhadas e olhos insones, reclamava a tua presença. Porque a norma religiosa os interditava de pisarem o soalho do teu palácio, tiveste que descer a eles. Protestavam por justiça e no meio do magote isolava-se uma esquálida figura, desgrenhada dos maus tratos que toda a noite padecera, de aspeto taciturno e olhar prostrado, alheio ao libelo que sobre ele pendia. O homem havia afrontado a religião de um modo contumaz – exigiam que decretasses a sua execução.
Na verdade os poltrões mais não faziam do que estender-te uma cilada política, como de costume um pouco grosseira. Os fariseus queriam ver o homem morto mas não queriam matá-lo. E queriam-no morto, não por causa dos seus crimes, mas como moeda de troca por algo mais valioso – nunca saberás se eles perceberam que tu havias entendido o manejo desde o primeiro instante.
Nenhum dos titulares que ali se mostrava desconhecia a tua relutância em te envolveres nos intricados enredos teológicos, mas deste curso à farsa procedendo a um interrogatório breve e meramente retórico. Às tuas perguntas, o Jesus da Galileia nascido na Nazaré, assim se chamava o réu, retorquiu com enigmas, tal como esperavas e era o habitual naqueles processos onde predominavam os delírios espirituais e a razão não era substantiva. Em vez de te exasperares, lançaste a questão final, não para cabal esclarecimento mas para exibires a tua argúcia e vincares o teu cinismo:
– O que é a verdade?
Ao que o acusado disse nada.
Concluíste o pretenso julgamento simulando ingenuidade e recusando proferir qualquer sentença – não havia motivo para condenar o homem. Para ainda mais exasperares a corja ululante, evocaste um detalhe processual: se este Jesus era galileu, então estava sob a alçada de Herodes – ele que decidisse.
Assim encerraste o primeiro ato da impostura, elevando a parada a teu favor. A tua inteligência divertia-se com estas maquinações.
Tu sabias o que na realidade pretendiam os saduceus e os filisteus ao porem diante de ti aquele pobre homem como mero peão do seu jogo, cobardemente evitando enunciar o nome e a questão que deveras os inquietava.
Eles não ignoravam a tua prudência nem o carácter discricionário dos teus poderes, por isso mesmo iam tentando conduzir-te com falácias e ardis a tomares uma deliberação que não ousavam pronunciar.
Todas sabiam que Herodes seria incapaz de sentenciar o quer que fosse, não por destreza em esquivar-se de sarilhos, mas por lhe tremerem as mãos e estontear o coração na hora de tomar decisões.

Não era passada uma hora e de novo se puseram a bradar à tua soleira. Que o vil Jesus deixara Herodes perplexo com o seu obstinado silêncio e o rei to enviava de volta para que a lei fosse aplicada.
Era agora a tua vez de usufruíres da tua superioridade. No puro gozo de ofenderes os pruridos religiosos dos fariseus e só para retardar o desfecho que eles queriam rápido, propuseste castigar com rigor o Jesus e depois libertá-lo, o que te parecia suficiente justiça – muito te encantou o esgar de angústia que perpassou pelos rostos abjectos dos piedosos acusadores.
A fraude atingira o seu apogeu, era chegado o momento de lançares o repto final: irias dar-lhes o que queriam sem nada lhes dares; irias destituir os príncipes do seu poder, comprometendo-os sem te comprometeres; irias executar uma sentença sem a ter proferido – o povo que escolhesse quem deveria morrer naquele dia.
Então declamaste o nome nunca dito mas sempre presente em toda esta conspiração – Bar-Abbas. O sedicioso e feroz zelota que todos temiam, o campeão da populaça contra os grandes, os que pactuavam com Roma, o assassino de publicanos, o estrénuo defensor da fé, inimigo mortal da cupidez dos fariseus – Bar-Abbas. Aquele de quem todos se queriam ver livres e aplacar a cólera incendiária que tornava imprevisíveis os humores populares – Bar-Abbas. O facínora que na prisão seria um mártir, uma fonte de complicações, um constante sobressalto, mas na rua poderia ser assassinado no sossego de uma esquina – Bar-Abbas.
Três vezes perguntaste à multidão: Bar-Abbas ou Jesus? E por três vezes a rua aclamou o nome de Bar-Abbas.
Num gesto premeditado mandaste vir uma bacia de água e lavaste nela as tuas mãos – o efeito foi extraordinário.
Mais uma vez a Águia de Roma revelou o seu poderio.
Depois de te refrescares, ao princípio da tarde desceste de surpresa ao pátio da caserna onde um centurião mal pronto e — pareceu-te — um pouco embriagado, te foi explicando que os legionários vergastaram durante horas o pobre homem, aliviando nas suas costas a ansiedade que neles foi gerada pelas tensões da páscoa. O Jesus estava ali a um canto, de mãos atadas a uma cana rachada, coberto por uma túnica jocosa onde se ia coagulando o sangue da contínua chaga que era o seu dorso e com uma coroa de espinhos cravada na fronte. Embora a sua aparência fosse bastante ridícula, pois era este o propósito humilhante daquele entrudo, o desgraçado mantinha uma pose que não dirias insubmissa porque não era altiva, mas desligada, quase serena, como se estivesse em paz com a crueldade de que fora vítima – um cordeiro pronto para o sacrifício.
Num bocado de pele escrevinhaste INRI e mandaste-a afixar na cruz onde o homem haveria de ser retesado até à morte.
Não foi sereno nenhum dos dias que passaste na abominável Judeia, onde tudo é tão calculado quanto efémero. Para o Império acabar de vez com este insignificante assunto bastaria reduzir a escombros o templo dos judeus, deixando em cinzas o que sobrasse. Esmagada a cabeça, o povo dispersaria os seus membros e, tal como Cartago, acabaria por desaparecer da face da terra. Sem adeptos concretos nenhum deus abstrato subsiste e assim se dissiparia também a infame religião de israel – sem que dela ficasse rasto.
Não há sombra que obscureça a glória eterna de Júpiter e de Roma.

Annibale Carracci, “Hércules estrangulando as serpentes”, 1600
É difícil concedermos que seja assim, mas se quisermos ser honestos e desimpedidos com os factos, a verdade obriga a reconhecermos que as coisas mais marcantes (importantes?) que lemos (ou vimos, ou ouvimos), as que mais nos influenciaram – e geralmente para o Mal, pois o Bem não se dá por ele a entrar – raríssimas vezes são as que desejaríamos, as que prevíramos, as que nos aconselharam como fundamentais, as que mais nos comoveram e até apaixonaram ao atingirmos a última linha.
Não, a maior parte das vezes é a semente daninha de uma infestante, caída entre pedras, que vai crescendo na sombra, alastrando as raízes debaixo de terra e sem nada estragar nem se denunciar, um dia reparamos que foi essa erva nefasta que sempre lá esteve e nos cravou os seus filamentos de um modo tão fundo a ponto de agora sermos o que somos por obra dela.
Resguardei-me todos estes anos de admitir o que sou hoje forçado a reconhecer, que o “mais estranho melhor livro” que li foi Vipère au poing (traduzido como “De víbora na mão”) de Hervé Bazin.
“Estranho” porque está longíssimo de qualquer galarim; timidamente o tentaram elevar ao céu da literatura mas debalde o fizeram, pois o romance foi publicado, com enorme popularidade, em 1948 ou seja, no centro daquele buraco negro do séc. XX europeu que vai do final da guerra em 45 até aos primeiros sinais de regresso à vida na Alemanha simbolicamente marcados pela vitória no campeonato mundial de futebol em 1954 na Suíça. Anos de profundo silêncio e nulos de história – reconstruía-se.
Não é bizarria minha esta datação, a patente foi registada por Fassbinder em Die Ehe der Maria Braun (O Casamento de Maria Braun) sobretudo no apoteótico (embora em forma de anti-climax) plano-sequência final em que a câmara vagueia pela casa vazia, enquanto ouvimos o relato radiofónico desse jogo de futebol, uma das mais impressionantes finais de um mundial.
Além da má época em que o livro foi escrito, o seu autor foi prolífico, bem acolhido pelos leitores, academizado, estimado mesmo, mas remetido para o rodapé das lettres françaises alguns segundos após o seu funeral.
Vipère au Poing poderia ter sido “O Leopardo” francês, mas faltou-lhe o sentido de oportunidade, o filme e a frase lapidar. Não conheço mais ninguém que o tenha lido, muito menos comentado, nunca ouvi falar dele nem do seu autor, como se o livro tivesse vindo parar às minhas mãos vindo do nada, trazido por um demónio e ao nada voltasse sem outro rasto na terra que não em mim.
“O melhor” porque a minha testosterona devia estar emboscada à espera desta oportunidade para soltar as suas iniquidades dentro dos meus 14 anos. Quando acabei de o ler, mais ou menos às escondidas, entre “Jubiabá” e a então célebre e inconveniente antologia de poesia erótica de Natália Correia, toda a inocência se havia dissipado, o plúmbeo mal-estar da puberdade condensou-se como as nuvens num quadro de Turner e o flanco ficou aberto para todas as torpezas intelectuais que lá vinham e só estavam à espera que o 25 de Abril lhes franqueasse a porta e as pusesse na moda: Wilhelm Reich, Arrabal, Lautréamont, a pior tresleitura possível de Pasolini&Godard&Bergman, Mao ainda Tsé Tung, mais tarde Zedong, Albert Ayler, Marcuse, as graçolas de André Breton e para sobremesa os horripilantes Yes ou os petulantes Van Der Graff Generator, senão coisas piores como Magma ou Tangerine Dream, todas pedirem pastilhas coloridas.
Eles também estavam a pedi-la…
E omito deliberadamente o mais difícil: as longínquas miúdas, nascidas para nos atormentar com a indiferença, os risinhos entre elas a gozarem, as esquivas medrosas em nome do pai e só ariscas com os das motos.
Pode um livro mudar tudo na vida de uma pessoa? Este pôde. Seria caso para tanto? Certamente que não noutras circunstâncias, calharam-nos estas, eu tenrinho e Vipère au Poing maduro.
Um ano depois da morte de Hervé Bazin a sua filha Catherine edita o fugaz ajuste de contas intitulado La Fille Indigne descrevendo-o com tintas tão negras quanto as que ele usou para falar da víbora – a história reproduz-se.
Ao cabo desta prosa não disse nada sobre o livro. Foi de propósito, não consigo falar sobre o que não posso dizer.
PS– Um, dó, li, tá, quem está livre está. Fica a Teresa, portanto.

Alberto Burri, “Nero cretto”, 1974
ATO I
Em 1967 a Força Aérea Alemã construiu uma base aérea em Beja, tendo operado nela até 1993. A partir dessa data passou a ser utilizada apenas pela Força Aérea Portuguesa, nela sediando 3 esquadras, os “Lobos”, os “Caracóis” e os “Zangãos” (informação de 2009).
Foi considerado que a Base Aérea de Beja poderia converter-se num proveitoso aeroporto comercial.
Assim foi constituída em 2000 a Empresa de Desenvolvimento do Aeroporto de Beja (EDAB) com o fito de transformar (parcialmente) o aeródromo em aeroporto civil.
Em 2009 as obras estavam em fase de conclusão: um terminal pronto a entrar em funcionamento com todos os equipamentos necessários – um terminal completo: balcões de check-in, tapetes rolantes de bagagens, pórticos de detetores de metais, etc….
Em 2010 o Tribunal de Contas procede a uma auditoria à EDAB e conclui que:
1) A construção foi adjudicada por €24,2 milhões mas custou €26,5 milhões;
2) Entre 2002 e 2009 acumulou €4 milhões de custos de estrutura / funcionamento devido aos atrasos do início de operacionaldiade;
3) Para começar a funcionar e para cobrir os previsíveis défices de exploração seria necessário investir mais €39 milhões.
4) A EDAB “empresa pública, constituída sob a forma de sociedade anónima, nunca apresentou qualquer plano de negócios, acumula prejuízos há quase dez anos e opera num quadro de total incerteza de viabilidade económica e financeira” dado “não existirem ainda as necessárias acessibilidades, os empreendimentos turísticos não serem visíveis e as áreas de potenciais negócio se encontrarem por definir”.
O aeroporto ainda não está certificado.
ATO II
Ontem, dia 13 de Abril de 2011 o aeroporto funcionou pela primeira vez.
Recebeu um voo da TACV (companhia aérea de Cabo Verde), promovido pela Câmara Municipal de Ferreira do Alentejo, que pôs à venda não só um pacote turístico, como bilhetes ao custo promocional de €300, quando o preço normal fica entre €600 e €500.
Porquê esta entidade? Porque está geminada “com o município de São Filipe, na ilha do Fogo”, afirmou o Presidente da autarquia.
Embarcaram 70 pessoas – metade da lotação do avião.
30 passageiros eram cabo verdianos que aproveitaram o preço em conta da viagem.
40 passageiros integraram uma missão empresarial e institucional.
O Presidente da Câmara de Beja colocou autocarros à disposição do povo para ir ver o avião.
O responsável pelo terminal civil afirmou:
“Foi um dia feliz para a cidade de Beja e para o aeroporto.”
“Entidades de várias áreas que querem investir no aeroporto.”
Em Maio vai haver “voos trabalhados entre a ANA, a Força Aérea e o Instituto Nacional de Aviação Civil.”
“Estamos convictos de que [o aeroporto] terá futuro e vamos trabalhar nesse sentido.”
“Temos perspectivas de outros destinos para o Verão de 2012.”
Entre Maio e Outubro estão previstos 20 voos charter entre Londres e Beja – 1 por semana.
Entretanto o Financial Times de ontem tranquilizava os seus leitores acerca da situação económica portuguesa: “It’s terrible for Portugal but not for the Euro”.
Aos anos que isto foi, quando aquilo era visto assim, sem mais nem menos. Era lá nas bordas do Nilo.



Muito mais para leste, onde os olhos ficam em bico, naquilo fazia-se com asseio e distinção. Eram bons modos os dos antigos.




Se me perguntassem qual era o lugar mais belo feito pelo homem do séc. XX, depois de hesitar responderia a Capela Rothko, onde tudo é perfeito e onde se precipitou o melhor da conturbada modernidade.
No meio do nada, ou seja em Houston, o casal Jean, mais tarde John, e Dominique de Menil, franceses, católicos, refugiados no Texas da invasão nazi, milionários, filantropos e patronos das artes, convidaram o pintor Mark Rothko a dar corpo a um espaço de meditação obrigatoriamente religioso mas ecuménico, onde indivíduos ou pequenas congregações pudessem dar graças ao seu deus, pedir-lhe paz e agradecer-lhe dons.
Rothko pintou 14 telas, entre as quais 3 trípticos, obras densas, quase monocromáticas, concebidas na fase terminal — e desesperada — da vida do pintor. Delas, só pelas fotografias, adivinha-se o fervor, o enlevo e a placidez, sensações contraditórias mas sempre possíveis vindas de quem vêm.

À volta dos quadros de Rothko, e com alguns acidentes conceptuais à mistura, ergue-se a capela em forma octogonal e revestida a brique. Uma forma depurada, quase severa, sem o menor adorno, fazendo parte da natureza, a inspirar despojamento e simplicidade. Não deixa de surpreender que o traço deste corpo sólido tenha saído da mão de Philip Johnson, um dos campeões da arquitectura contemporânea, que deixou alguns dos mais imponentes corporate buildings do séc. XX, majestosas catedrais de aço e vidro: o Seagram em Nova Iorque, o IDS em Minneapolis, o PPG Place em Pittsburgh (o meu favorito) e a vertiginosa Puerta de Europa em Madrid.
Anexo à capela está um jardim, nele há um lago comprido, dentro do qual se eleva o “obelisco quebrado” de Barnett Newman, uma escultura d’aço em memória de Martin Luther King.
Inspirado por tudo isto Morton Feldman escreveu uma das suas mais puras obras musicais, a “Rothko Chapel”, precisamente.
Tanta beleza junta e concordante – neste lugar o céu deve tocar na terra.

Agora que a Senhora D. Agustina Bessa-Luís feneceu para a literatura e somente o ingrato corpo ainda se mantêm trabalhando, será talvez de olhar em redor o ver o que fica – tão pouco!
Mas se em má hora se prepara Agustina para nos abandonar à nossa sorte, ainda assim devemos ficar gratos ao destino – não gosto nada desta palavra, mas ela gosta – por ser de toque a pedra de remate da casa de palavras que ela vinha acabando.
“A Ronda da Noite” é um romance quase fabuloso, porque quase toca na fábula, de tal modo se enrodilha o seu enredo no tempo e nas personagens e não no surpreendia nada que ao virar da folha começassem os bichos a falar.
O romance tem um ritmo descompassado, cheio de elipses furtivas, deixando-nos perplexos, a páginas tantas sem sabermos muito bem a que década pertencem os episódios romanescos. Isto, que noutras mãos estaria à beira do desconchavo, saído dos pálidos dedos de Agustina é um jogo do gato e do rato com o leitor. Que se trata de uma deliberação em vez de falta de norte narrativo, pode ser afirmado, não é por causa da autoridade do nome, é porque de vez em quando a autora levanta uma cortina e mostra-nos a mecânica das coisas. Depois deixa-a cair e recomeça a iludir-nos.
Imperial ao centro do romance ergue-se o quadro “A ronda da noite” e tão singular e absorvente é a sua presença que as personagens, os Nabasco, só aparecem porque se intrometem no seu raio de ação.A tela é um monstro, do tamanho do original, se não maior, que só cabe em parede de casa grande e tão fiel é à matriz que a certa altura se levanta a tese de que foi executado pelo próprio Rembrandt. Para melhor nos fazer andar à roda, o quadro vai recebendo várias teorias interpretativas ao longo do romance, e todas parecem mais dirigidas aos Nabasco que à obra do holandês.
O caráter obsessivo que invade “A ronda da noite”, tanto pela figura de Martinho como pelo punho da narradora quando se detém a olhar para a pintura, os fios soltos e as pistas falsas que o suposto enredo vai largando, os túneis temporais atravessados sem aviso, a cópia de pormenores irrelevantes praticados pelos protagonistas, tudo isto não seriam já sinais, ou premonições do mal que vai corroendo Agustina?
A prolífica obra de Bessa-Luís é (como todas…) uma serra com os seus cumes, vales sombrios e matagais; nos primeiros o ar é mais leve e vê-se tudo à volta, nos segundos e terceiros só lá vai quem quer e quem precisa de desbravar mato, sabendo-se que a safra não será de proveito imediato. “A ronda da noite” assenta bem lá no alto.
Deixei-me levar – mais uma partida que Agustina me prega. A ideia inicial deste post era revelar o nome que me parece receber em suas mãos o facho literário da Mulher do Norte. Mas como já vai longo, contarei noutra ocasião o segredo da elusiva Teresa Veiga.
Introdução
Se nem tudo que reluz é oiro, também nem sempre o oiro é querido. Há obras que é impossível desconsiderar e são forçosamente admiráveis. Todavia entre a admiração e o amor vai um salto que pode ser de pulga mas tem o comprimento da sensibilidade de cada um. O que vos proponho é que detestem comigo alguma arte que embora genial e magnífica, não deixe de causar repulsa.
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As línguas ibéricas às vezes têm coisas bárbaras, como por exemplo, designarem com a mesma palavra a carne-animada-humana e a carne-animal-comestível, ao contrário da flesh/meat inglesa ou da chair/viande francesa. Talvez não seja um acaso mas o modo de ser próprio de quem com tanta força abraçou a Contra Reforma e a sua Inquisição, para a qual a matéria, sobretudo a carnal, era um contratempo, uma provocação, um obstáculo à espiritualidade.
Expoente desta atitude foi Francisco de Zurbarán. O domínio da luz? Perfeito. E uma perfeita ironia dir-se-á, porque é sabido que de tanto ouvir os seus mestres elogiar o exasperado dramatismo da composição luminosa de Caravaggio e sem nunca ter visto – talvez uma reprodução – qualquer obra do infame milanês, conseguiu tão bem como ele, por razões diametralmente opostas, iluminar as figuras retiradas das trevas. Mas se em Caravaggio a tensão da luz é uma vitória da vida e do prazer, em Zurbarán é a prova de que a existência terrena é um terrível negrume contra o qual só pode vibrar a claridade de um pequeno instante de contemplação.

Zurbarán, “S. Francisco ajoelhado”, 1635–39
Admirem-se estas visões de S. Francisco, não o suave e prazenteiro santo que pregava aos animais, mas o glauco asceta rojando na pobreza. Não há aqui uma centelha de felicidade, apenas sofrimento material, ansiando a libertação da morte. Os olhos (os célebres “espelhos da alma”) escondem-se de nós, suplicam para cima ou pendem sobre a caveira.
Não deve ter havido outro pintor como Zurbarán que pusesse tanto peso e tanta escassez de ornamento nos panos que vestem o corpo. E será este o ponto mais alto da sua arte, conseguir de um modo tão despojado revelar a emoção numa prega de tecido grosseiro, dar sentido filosófico aos remendos, produzir enorme efeito trágico num modestíssimo hábito fradesco.
Zurbarán foi contemporâneo de Velasquez, apenas um ano mais velho. Maior não podia ser a diferença; se em Diego tudo é delicado, gentil e contidamente elegante, em Francisco, imperam a crueza e uma severidade que hoje apodaríamos de sado-masoquista. Velasquez era um cortesão, ao passo que Zurbarán quase só recebia encomendas monásticas, de ordens poderosas, mas de estrita ortodoxia na representação da vida.
Os românticos impressionavam-se muitíssimo com Zurbaran: “uma sombria e trágica rigidez”. Eles bem sabiam que se falhassem, o mundo voltaria ser assim horrendo.

Zurbarán, “Meditação de S. Francisco”, 1632

Don Eddy, “Untitled (Volkswagen)”, 1971
Se não tivéssemos pressa tínhamos ido a pé. Foi por isso que apressadamente pensámos que era um táxi como os outros, esquecendo com a impaciência que não há dois táxis iguais.
Nova Orleães tem muito que ver na primeira visita, Bourbon Street para baixo e para cima sempre eufórica, até percebermos, à segunda ou à terceira, que a cidade acaba em Bourbon Street. Depois aborrece.
Já não me recordo muito bem, mas houve uma senhora nórdica que nos pediu boleia porque ia para o mesmo hotel; a festa estava uma lástima e o dia seguinte iria ser muito trabalhoso. Por deferência e para os deixar mais à vontade, ocupei o lugar do morto. Lá fomos.
Embora entorpecido pelo cansaço, o silêncio no interior do automóvel permitiu-me reparar nalguns pormenores. Primeiro, que o motorista era jovem, caucasiano, com o aspecto simplificado dos tardo-hippies, um produto típico da decadente Nova Orleães. Ora um taxista de etnia branca nos EUA é não só uma raridade como um contratempo: o que eu aprendi sobre zoroastrismo com os persas de Los Angeles, como cozinhar o hummus perfeito com os sírios de Nova Iorque ou sobre a geo-estratégia do corno de África com um eritreu em Las Vegas. A bem da verdade, não posso omitir que também adquiri alguns conhecimentos mais elaborados sobre a vida privada dos futebolistas com alguns beirões em Lisboa.
Portanto a viagem anunciava-se monótona, a não ser o segundo pormenor que me prendeu a atenção: sobre o tablier do carro havia uma pilha de livros fininhos – pareciam de poesia.
“Tantos livros”, lancei a fazer conversa, “são de poesia” respondeu-me o motorista com precaução, não fosse a bizarria espantar os clientes. Armei-me em bom e revelei o meu apreço por Gingsberg (pareceu-me apropriado), Whitman (“I sing the body electric”) ou Elliot ((“We are the hollow man”) – fui mesmo petulante ao ponto de citar estes versos. Nisto do banco de trás o meu companheiro desatou a declamar um poema de Larkin. A executiva nórdica estava atónita, não sei se apavorada, e o taxista enlevado.
A pergunta do costume: “where are you from?” E dada a resposta, o rapaz referiu Pessoa. Disse-lhe que continuava a haver bons poetas contemporâneos em Portugal, Herberto Helder, por exemplo. Neste ponto o motorista exprimiu aquela peculiar alegria que só um súbito sentimento de ignorância pode proporcionar: queria conhecer Herberto Helder; estava traduzido em inglês? Não importa; que eu escrevesse o nome e a editora num papel – e ficou parado num sinal verde à procura do lápis no porta luvas – que ele se desenvencilharia para dar com os livros.
Só não ficámos amigos porque a viagem terminou pouco depois.
Entusiasmada, a nórdica despediu-se entregando-nos o seu cartão de vista.
Não é forçoso andar com um livro sempre na mão, pode ser no automóvel.

Ângelo de Sousa, “Sem título (10 quadros para o ano 2000)”, 1986
Sempre quis ter um quadro de Angelo de Sousa. Não fui eu que pedi, foi a pintura dele que me chamou.
Quando vejo uma tela dele, vejo logo que é dele e fica tudo mais claro e simples em redor – deve ser do branco e das cores limpas. Pressinto também uma emboscada: a de acreditar que estou diante de um exercício de pureza, de uma procura do que é essencial ou ainda – o que seria mais ingénuo – de ouvir a música de Mondrian no equilíbrio das formas.
“Pureza”, “essência”, “Mondrian”, “equilíbrio”– nada disso acontece nesta pintura. Há uma alegria sem sombras, sim, donde o poder que ela tem sobre a nossa atenção, capaz de franquear a nossa disponibilidade. Haverá alguma ironia sem sarcasmo, porque as tais formas grandes que enchem o espaço da tela não partem de nenhum centro de gravidade, nem se acomodam entre si com as inocências da harmonia. É tudo muito liso e direito e no entanto parece que se move como um glaciar. Apenas não sabemos para onde quer ir.
Mas aquilo que mais afasta Ângelo de Sousa do formalismo é o desprendimento, o qual, como se sabe, não quer dizer descuido. Depois de verem o que ele faz, oiçam-no: “Não quero salvar ninguém. Se for preciso empurrar, empurro, faço o melhor possível. Mas não tenho a ideia de que vou salvar o mundo, não tenho ideias de apóstolo.”

Ângelo de Sousa, “1-II-5-g”, s.d.

Quando o funeral de Eça de Queiroz entrou no Rossio, lá estava ele à esquina da Rua Augusta, de gravata bem vermelha, num garrido insulto ao pesar exibido compungidamente por todas as solenidades.
Ele era Fialho de Almeida, auto-arvorado em nemesis de Eça pela raiva que lhe tinha. Esta figura, menoríssimo escritor, pois o que lhe sobrava em verve e recorte estilístico faltava-lhe em ânimo literário, quem mais fez por não a esquecer foi Raul Brandão, sempre piedosamente enternecido pelos rancores, pelo ressentimento eivado de ciúme (donde o ódio a Eça), pelo vitríolo verbal que derramava sobre “a sociedade” – “o nervo” de Fialho de Almeida.
A vida e a obra ou não-obra de Fialho de Almeida é de muito proveito e exemplo aos dias de hoje.
Nasceu remediado, filho de um áspero mestre de escola de Vilar de Frades, na Vidigueira, mas cresceu pobre, interno num colégio e depois ajudante de boticário já em Lisboa, acabando por se formar a pulso em medicina, aos 38 anos.
Ou não lhe valeu de nada o canudo ou Fialho o terá desprezado em nome das letras e, sobretudo, a favor de uma vida insalubre de boémia e carrascão, as tardes no Martinho, as noites arrastadas até de madrugada pelas ruas mais ordinárias da cidade, com um bando de compinchas de igual nota à arreta. De vez em quando iam ao teatro, lá para cima para o galinheiro, donde lançavam chufas sobre os comediantes e os autores até que a guarda viesse expulsa-los de chanfalho em riste.
O mau vinho, a má vida, o mau carácter garantiram a Fialho de Almeida o estatuto de má rês das letras de Lisboa, “um misto de cavador e boémio”, como resume Brandão, espumando contra os êxitos alheios, merecidos ou comprados, sempre encarniçado contra alguém por qualquer motivo e nunca deixando de exibir um acirrado despeito social, não de revolucionário mas de revoltado. E o que deu isto? Deu em panfletos, artigos e peças mordazes, sobre tudo opinando, de espírito agudo e prosa letal, capazes de fazer rir, chorar e ranger os dentes, manipulando com maestria as emoções do leitor.
Tendo escrito um grosso punhado de generalidades genialmente bem escritas, Fialho de Almeida nunca escreveu o livro que prometia conseguir e nunca alcançou. Ficaram “Os Gatos”, um par de contos, nenhum romance.
Assim sobreviveu o escritor até casar com uma menina lá da terra de algumas posses latifundiárias da qual enviuvou dez meses depois. A seguir o medo da miséria levou-o a enterrar-se de volta em Vilar de Frades e em Cuba do Alentejo a tratar das propriedades e de um irmão epilético (“profundamente doente”, como à época se julgava) e virou conservador, mas não menos acrimonioso.
O Alentejo donde Fialho emergiu era por ele odiado com palavras tão azedas como as de Brandão quando, tempos depois da morte do amigo, foi em romaria a Cuba, visitar a casa em que vivera:
“Não passa ninguém nas ruas, que exalam uma tristeza mesquinha e fétida. (…) Sinto-me perto do inferno em que [Fialho] viveu. Saio com a impressão de que todas as almas banais do mundo se juntaram aqui nesta pequena terra concentrada, pesando sobre ele a asfixia e a morte.”
Um exagero de Brandão, influenciado pela amargura de Fialho? Talvez não, pois até Manuel da Fonseca, o mais alentejano de todos os alentejanos que houve, deixou um dia cair este epigrama fulminante: “isto por cá é de enredos teimosos e ódios lentos”.
Fialho de Almeida morreu faz este ano 100 anos redondos. Um exemplo consumado de talento inútil e de qualidades desperdiçadas, ou de como desfazer é não fazer.

Benjamim-Constant, “Les nuits arabes”, s.d.
Sempre preferimos imaginar os árabes a entendê-los.
Talvez seja assim porque em tudo eles nos parecem incompreensíveis. E tanto mais o são quanto mais nos intrigamos com o facto de estando os árabes logo ali defronte de nós; vivendo numa geografia que embora alheia à nossa não é imprevisível; sendo seguidores de um Livro tão semelhante ao que nos formou; pois apesar da proximidade e da contingência, da longa vizinhança que com eles temos, o que sempre vemos é por onde nos separamos, aquilo que mais se nota é a desinteligência que com eles mantemos, quase nada supera desentendimentos e agravos, a história é por norma evocada para explicar o rosário de incompatibilidades por reparar.
Quando os europeus começaram a desembarcar no norte de África como senhores e não apenas como visitantes a partir de 1830, franceses sobretudo, mas ingleses também, olhavam para os árabes com a desarmada ingenuidade dos colonizadores; o que lhes parecia impróprio era para ser civilizado e o que se lhes afigurava como bizarro era colecionado como objeto pitoresco, para um estudo de antropologia. Entre estes exploradores, vinham artistas, para os quais as viagens eram curtos passeios, dada a inclemência do clima, assumidos como expedições para recolha de situações exóticas e tipos extravagantes.

Jean Lecompte du Nouÿ, “Les portes du serrail”, 1876
O que uns viram no Egipto (Lean-Léon Gérôme) não destoava do que outros encontraram em Marrocos (Benjamin-Constant). E como para os artistas aquilo que se vê serve apenas para excitar a fantasia acerca do que não se mostra, o que mais os impressionou foram as pesadas portas que trancavam os serralhos. Para mais, portas guardadas por homens implacáveis, a quem tinham sido retiradas fisiologicamente as paixões, capazes por isso de serem impiedosos com forasteiros indiscretos e relapsos a qualquer sinal de complacência perante os infiéis.

Ingres, “Le bain turc”, 1862
O que se passava portas adentro, era pois totalmente inacessível aos europeus, pelo que se permitiam delirar com o que acontecia detrás daquelas grossíssimas paredes, onde resguardadas da vista, com a total liberdade de quem se sabe imperturbável, mulheres se refrescavam e perfumavam todo o dia, à espera da noite, na esperança de serem as escolhidas para contentarem de carícias e deleites os seus poderosos amos.

Theodore Chasseriau, “Le harem”, 1851–52
Os pobres pintores franceses, gerados nas terras húmidas do cristianismo setentrional, encontraram no levante – onde é sempre meio dia, o sol vertical, uma languidez, a sesta – ocasião para se desagrilhoarem do puritanismo e executarem imagens tão sensuais e de tal carnalidade, que hoje diríamos só ser possível terem escapado ao escândalo porque se limitavam a revelar os sonhos lúbricos que às escondidas afectavam tout le monde civilisé. Ah sim, e porque traziam tranquilidade aos espíritos por saberem que as coisas não são assim entre nós.

Claro que este mundo árabe de prostração diurna e exacerbados prazeres nocturnos, para mais feito de mulheres, esses seres só de emoções e escassa razão, como era seguro serem no séc. XIX, e vigiadas por taciturnos castrados, refervilhava de intrigas, invejas e maldades. Onde não havia sombra de castidade e o ócio era perpétuo, a norma teria que ser a imoralidade e o crime um acidente do destino. Haveria de valer pouco a vida feminina de tão submetida que era aos caprichos e apetites do ventre, um órgão destituído de moral.

Assim adivinhavam ver os europeus que nada conseguiam vislumbrar do interior das casas sem janelas, todas de paredes cegas ao longo de ruas estreias e fétidas.
Nem um deste quadros resultou da observação daquilo que retratam – são pura invenção. Ou melhor suposição.
Mas uma suposição com propósitos e convencimento de dedução, segundo as melhores regras do positivismo do século XIX. O que fizeram estes artistas foi, depois de lerem o programa filosófico de Compte, entrar num êxtase racionalista e aplicar à pintura o que achavam ser as puras e claras regras científicas. Aquelas terras do pó, antes vistas como misteriosas eram agora desvendáveis pela inteligência, diziam os positivistas, para quem o mundo não tinha sombras que não pudessem ser esbatidas.
Donde estes quadros que hoje sabemos falarem bem mais daqueles que os pintaram do que dos objectos que ilustram. Designa-se como académica esta pintura, o que é um bom nome para tanta altivez disfarçada de curiosidade, para tamanho conformismo convencido de espirituoso.

John Frederick Lewis, “The harem”, 1850
Os árabes — nunca havemos de os compreender.

Nos verões setentrionais de noite ainda faz dia.
Os homens permitem-se beber até mais tarde sem culpa mas sem escândalo, ficam eufóricos, desabotoam o casaco e o siso, mas ainda assim não ousam desatar o nó da gravata ou porem-se em mangas de camisa. A regra evangélica é exata e a compostura é para mantar sob qualquer circunstância, mesmo que a akvavit vá toldando o espírito devagar, cálice a cálice.
Com as horas fora do sítio, deixam-se todos ficar à mesa, apesar de as criadas simples da Jutlândia já terem levantado os pratos. As mulheres incapazes de se porem de pé de tão complicados os vestidos de linho, que à época eram considerados leves, crianças e tudo, participam nas libações que prosseguem até o sol se pôr deveras, nos princípios de Julho lá para as dez.
Há tantas horas para dormir no inverno que seria pecado desperdiçar o verão com o sono.
Esta gente conversa pouco: por uma questão de princípio detestam frivolidades e recusam-se discuti-las, por outro lado, com este tempo tão suave não apetece nada uma ressaca de Kierkegaard. Para mais, os tios têm opiniões tão díspares e contraditórias que o álcool poderia ampliar discórdias, rachar a pedra da família – melhor ficar calado. Sobretudo o tio Emile, famoso pelas suas intransigências que descambam em cóleras e terminam em frases apopléticas e relações cortadas irremediavelmente. O menino lembre-se que vai para pastor, vai ter a Dinamarca a observá-lo, dizia-lhe a mãe. O mesmo que nada, foi assim toda a vida, mas pior ficou depois da viagem a Espanha que tanto o impressionou. As procissões à luz de archotes, as penitências sanguinárias, o fedor a ervas nas missas, a convulsiva mistura de luxo e povo nas igrejas, toda esta idolatria banhada em suor e pó; que saudade teve Emile das alvuras do inverno – a pureza.
Beber à vida, um brinde à morte que chegue tarde, beber à natureza, à beleza das mulheres, berber à saúde das crianças, que por muito tempo não se conspurquem com as maldades da vida, uma saúde à vida de novo. E por aí fora, às gargalhadas.
Num assomo de excitação a pequena Estefânia chegou mesmo a pôr a perna em cima do banco mas, no estado em que já todos estavam, ninguém levou a mal. A tia Amelie condescendeu ao ponto de ampará-la para que visse melhor as alegrias dos tios barbudos e ruidosos.
À cabeceira, a prima triste, viúva com menos de 12 meses, refreava tamanhas expansões, erguendo o copo baixinho e entretendo-se a reparar nos pormenores, por exemplo que a meia de Estefânia tinha a côr de framboesa igual à do frasco rubro diante dela. Naquele ano bastava-lhe um sorriso para não ser infeliz.
Comam e bebam depressa, piores tempos virão.

Peter Garfield, “Harsh reality III”, 2000
Por esta hora estarão os desfilantes da tarde de Sábado a sentir aquele misto de alívio e melancolia que costuma prevalecer depois das manifestações.
Alívio porque desabafaram as mágoas, fizeram-se ouvir, deram exposição pública aos seus desagravos. A confissão sempre foi uma forma de trazer paz ao espírito; quando acompanhada pela sensação de ter sido acarinhada, ainda mais conforto recebe a alma.
Melancolia porque já perceberam que ao acordarem na segunda-feira tudo estará na mesma. O protesto é um ato de profunda inutilidade porque não tem consequências para além da sua própria expressão. Pior que o protesto só mesmo a abjeta ideia do “direito à indignação”: como posso reivindicar um estado de espírito como um direito? De que modo conseguiria a PIDE, para usar um exemplo radical, impedir que me indigne?
“E o povo, pá? E o povo, pá? // Quer mais dinheiro para comprar um carro novo.”
Nenhum outro par de versos define tão bem a situação social portuguesa contemporânea. O povo (categoria que Marx, que não era nada parvo, execrava, por não ter qualquer significado enquanto classe social) é hoje abreviatura de “classe média”. Ora foi esta classe média que desfilou hoje Avenida abaixo, sem programa, sem ideologia, sem plano e sem perspectivas. Acabou de descobrir que está empobrecida e não quer acreditar que vai empobrecer ainda mais.
Podemos congratular-nos por não terem trazido as panelas, como no Chile em 1973 e por, ao contrário do que sucede com estas manifestações de “jovens” em latitudes mais civilizadas, as vitrines das lojas de luxo que bordejam a Avenida terem permanecido intactas após a manifestação.
Há dois problemas muito graves em Portugal: o desemprego e a falta de emprego.
O desemprego está a liquidar os subitamente desqualificados e os que têm idade superior a 50 anos.
A falta de emprego mata à nascença as hipóteses dos que têm menos de 30 anos.
Porque é que há desemprego? Porque uma economia baseada em mão de obra barata viu-se ultrapassada pela mão de obra ainda mais barata da Ásia. Os chineses estão a fazer aos portugueses aquilo que os portugueses fizeram a Birmingham nos anos 60.
Porque é que há falta de emprego? Porque a economia portuguesa não cresce há mais de 10 anos; pura e simplesmente é incapaz de absorver todos os que procuram emprego compatível com os seus certificados de habilitações.
Quais são as perspectivas? Nenhumas, enquanto os impostos forem altíssimos para as empresas e para o consumo, enquanto os tribunais não funcionarem (experimentem cobrar uma dívida judicialmente e logo verão) enquanto a iniciativa não for estimulada e premiada.
Nestes dias proclamou-se como verdadeira uma enorme mistificação. A saber: “esta é a geração mais qualificada de sempre em Portugal”.
Em comparação com miserável Portugal salazarista? Sem dúvida.
Em comparação com qualquer outro país Europeu? Claro que não.
É seguro que há uma franja de elite em Portugal, muito maior do que alguma vez existiu. Esses ocuparão os lugares disponíveis no mercado nacional ou emigrarão. No fundo, esteve o estado a gastar avultados recursos para fornecer gratuitamente os mercados de trabalho estrangeiros – rico serviço…
Mas também é seguro que existe, diria que uma horda, de licenciados e mestrandos cujos certificados de habilitações têm valor equivalente a papel higiénico em qualquer mercado de trabalho.
Sociólogos, antropólogos, animadores culturais, politólogos e especialistas em relações internacionais, designers de moda e de multimédia, peritos em estudos portugueses, ambientalistas, licenciados em relações empresariais, licenciados em artes do espectáculo, em educação social (“O Educador Social irá adquirir um conjunto de competências que lhe permitem a realização de funções profissionais na área da educação social, seja directamente em contacto com crianças, jovens ou adultos, seja nas fases de planeamento e intervenção da acção sócio-educativa.”), e outros tantos da mesma estirpe – nunca mais haverá emprego para estas aptidões…
Pode um novo governo melhorar “isto”? Não.
Façam o breve exercício de calçar os sapatos do Sr Passos Coelho e hão de constatar que só um alienado quereria assumir neste momento a governação, já que:
1) Não há outra forma de saldar a dívida pública senão a que tem sido seguida;
2) Não há outra questão a resolver de imediato senão a dívida pública;
3) Saldar a dívida pública continuará a atrofiar o crescimento;
4) Quem nos tutela não quer e não deixa que a gestão do Estado fique interrompida durante os mais de três meses que dura a mudança eleitoral de governo;
5) Quem nos tutela não permitirá qualquer desvio à linha que traçou para Portugal e não dirá a qualquer novo governo nada que não tenha já dito a este;
6) O PSD é um partido organicamente semelhante ao PS, ou seja, repleto de carreiristas políticos cujo obetivo é a mera conquista dos lugares de poder.
Nota final: tal como toda a gente também não sei qual será a solução.
Dois presentes para quem está em dia de recebê-los.
I
Às vezes há coisas que lembram pessoas. Confiando no primeiro instinto, ou nas primeiras impressões, para não ser tão impulsivo, quando passei por aqui, lembrei-me logo de ti. Mas como posso lembrar-me de quem nunca vi? Digamos, então, que este trabalho do indiano Manish Nai, desencadeou um processo de analogia em que às cores e à textura, associei de imediato a imagem que tenho de ti. Se tivesse que explicar porquê, diria porque é quente, terroso, áspero e liso e tem uma harmonia suspeita, pronta a sair do lugar — tudo como o sertão (dizem) e a gente que lá mora.
Este quadro obviamente não tem título – como poderia ter se o artista não te conhece? É fabricado com juta e papel manteiga; deve ser agradável tocar nele, tem ar de ser muito carnal.

Manish Nai, “Untitled”, 2009
II
Teresa Ascencao, ou de como a grafia de um nome pode ser todo um programa. Nasceu de pais açoreanos em S. Paulo, e foi com eles para Toronto em criança. A dita diáspora lusitana numa cápsula. Sei que vais gostar dela e que faz o teu género, embora não o meu. Fico-me pela beleza visual dos objectos ao passo que decerto vais querer ficar com tudo.
Vê tudo aqui: http://euphoricfemme.com/

nº 44

nº 221

Em Portugal a revolução falava francês e foi toda aprendida nos livros da 10/18.
Do lado de lá a coisa passou-se assim: em 1968, ainda inebriado pelos fumos do Maio, o editor Christian Bourgois (“Etre éditeur consiste à publier des livres que les gens n’ont pas envie de lire”) propôs-se ilustrar as massas (estudantis, urbanas, pequeno-burguesas, logo de contumaz de vocação anti-capitalista) com a collection de poche 10/18, na qual publicou tudo o que achava relevante na eufórico campo das ciências sociais, desde teses universitárias até aos clássicos da literatura moderna, passando por textos militantes e intervenções em colóquios. A festa durou cerca de 1000 volumes até 1979.
Por cá foi mais simples: até de noite as capas da 10/18 pareciam refulgir nos escaparates da 111 e ao jovem aprendiz de feiticeiro que eu era (16 aninhos, senhores!) foi imprescindível adquirir todo e qualquer título da colecção à medida da mesada – nem que fosse só para usufruir da clareza colorida daquelas capas a prometerem mudar o mundo. Ao lado deste voluminhos gordos, de boa e bem colada lombada, que não se desvaneciam em folhas esvoaçantes nem à décima espalmadela para melhor os sublinhar, as edições portuguesas faziam sorumbática figura, tesos e mornos na sua empertigada e feia sobranceria.
Ainda hoje – estou agora a olhar para eles – tenho para ali um punhado de 10/18s que acabei por nunca ler, olhem como são viçosos e apetitosos por fora, embora de miolo repassado pelos zigzags da história. Tão bonitos que faz pena esquecê-los.

nº1123

nº184–185

nº327–330

nº685

nº 446 da nova série (1985). Ainda tão sugestivo…

fotografia de Murray Garrett
Noutro dia poderei explicar por que razão Tróia foi o melhor festival de cinema do mundo durante um par de anos, no início da década de 90.
Para dar importância ao pequeno grupo que se juntava no desolado aldeamento turístico naqueles primeiros dias de Junho, a organização enchia o peito e convidava uma glória de Hollywood a passar por lá. Numa das vezes calhou sermos honrados com a presença de Jane Russell. Arvorando a minha equívoca condição de crítico e vendo nisto um belo pretexto para justificar a estadia na remota península durante uma semana, pressurosamente me candidatei a entrevistar a senhora.
Se Marylin Monroe entrou no estrelato a sair do plano, ondulando as ancas apertadas no fatinho azul bebé em “Niagara”, já Russell debutou de modo bem mais funesto. Na primeira cena do seu primeiro filme, vai logo ao destrunfo numa sequência em que é violada num palheiro às garras de Howard Hughes por interposto Billy the Kid. Ter conspurcada a casta imagem das palhinhas natalícias e no topo disso ainda ter aprofundado um decote do tamanho da fossa das Marianas, deixou a censura de olhos em bico e Jane Russell nos píncaros da fama.
Era com estas coisas inteligentíssimas que eu pretendia comovê-la, mostrar-lhe que a sua arte não tinha sido em vão, pois nesta ponta perdida do planeta havia alguém que se interessava, conhecia-lhe os percalços e os êxitos com pormenor e queria ter dela alguma revelação singular, um insight inédito, qualquer coisa que tivesse ficado por dizer e pudesse agora ser confessado.
É capaz de ser das brisas do Sado que tornam tudo mais ameno, pois Jane Russell foi aturando a minha pirotecnia cinéfila sem dar mostras de impaciência ou presunção. Mas a dado passo, tendo talvez percebido que diante dela estava não mais do que um inocente, agarrou-me na mão – sim, deu-me a mão! – e disse:
– You know, I was just a valley girl. E que depois de um dia de trabalho nos estúdios só desejava voltar para a quinta onde morava, fazer as compras na mercearia da esquina e passar o serão em família.
E de repente a estrela de cinema converteu-se numa gentil avózinha a dizer que as coisas são muito mais simples do que parecem e a água é mais importante do que o champagne.
Por fim, quase no Carnaval, chegam os derradeiros presentes de Natal. Nunca é tarde demais para que não se fique de mãos a abanar.
A Eugénia dedicou-se a uma existência incorpórea, só de palavras. E estas aparecem não sei se em forma de cascata escondida numa floresta tropical, onde se chega ao fim de uma caminhada íngreme e nela mergulhamos a saborear o refresco; ou se em forma de géiser, uma irrupção escaldante, da terra para o céu. São mistérios, tal como numa história, sem rosto nem mãos, apenas com aquilo que se pode imaginar.
Pois para ela reservei estas fotografias da controversa grega Polixeni Papapetrou. São histórias, senhora, são histórias, sem sabermos para onde nos levam, caminhando por dentro delas. Há qualquer cosia de perigoso nestas fotos, não sei bem o quê: A infância pouco infantil (a modelo de Polixeni é sempre a sua filha)? A distância dada àquilo que designamos por amor?

Polixeni Papapetrou, “A memory for tomorrow”, 2008

Polixeni Papapetrou, “The provider”, 2009
Será que a metafísica existe? O Gonçalo diz que sim e faz incansável prova da sua afirmação. Desgostam-lhe os modernos e as pragmáticas com que eles tomaram o mundo. Poderia ter sido doutra maneira, houve ali um momento, um instante em que tudo poderia ter sido diferente? O Gonçalo diz que sim, acredita que sim.
Entrego-lhe assim, os trabalhos da dupla Komar & Melamid (Vitaly Komar e Alexander Melamid) dois artistas que após a sua primeira exposição foram pressurosamente expulsos da União dos Artistas de Moscovo, por “distorcerem a realidade soviética” – a consagração, portanto. Criar uma espécie de pop soviético, mesclando o realismo socialista com uma espécie de surrealismo, acabando por resultar num pré-rafaelismo rubro, foi uma receita eficaz para a desgraça institucional. Todo o trabalho de Komar e de Melamid é trespassado por uma ironia não muito fina, mas assaz divertida e eficaz. Uma metafísica sem sentido de humor é pouco metafísica.

Komar & Melamid, “Lenin lived, Lenin lives, Lenin will live”, 1981–82

Komar & Melamid, “The origins of socialist realism”, 1980
Permite que te chame a atenção, Manuel, para o fato de o centro deste quadro não estar vazio. Está repleto de branco e o branco é a soma de todas as cores.
Numa fase da sua vida Sam Francis pintava muito assim, ocupava-se com manchas periféricas, pingadas, deixando o centro livre para nós. Uma forma centrífuga de conceber a harmonia. E depois as cores são suaves, e porque suspensas na brancura, tudo nelas tende para a harmonia, mesmo confusa. Além disso, we will always have Santa Monica.

Sam Francis, “Blue balls 2″, 1961

Sam Francis, “Santa Monica 1″, 1972