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	<title>É tudo gente morta &#187; José Navarro de Andrade</title>
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		<title>Quantas voltas tem o mundo?</title>
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		<pubDate>Sat, 25 Jun 2011 18:49:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Apresentou-se como Rikio Hossback, redator do Travel Almanac. Vinha credenciado pelo sr. Pedro Norton, a mando do sr. Manuel Fonseca — as mais finas referências, portanto. Queria coisas, vá lá que não era vendedor. Foi brusco de entrada, julgando que assim me desarmava e que eu já tinha o discurso na ponta da língua. Tinha-o era [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-medium wp-image-30033" title="lisboa" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/lisboa2010-1071-300x450.jpg" alt="" width="300" height="450" /><br />
Apresentou-se como Rikio Hossback, redator do <strong><em>Travel Almanac</em></strong>. Vinha credenciado pelo sr. Pedro Norton, a mando do sr. Manuel Fonseca — as mais finas referências, portanto. Queria coisas, vá lá que não era vendedor.<br />
Foi brusco de entrada, julgando que assim me desarmava e que eu já tinha o discurso na ponta da língua. Tinha-o era tomado de ponta, sem paciência para perguntas teutónicas.<br />
<strong><em>Então? — </em></strong>disse.<br />
Então o quê? — retorqui — Faça o favor de dizer ao que vem.<br />
<strong><em>Era umas perguntinhas sobre viagens, hotéis, experiências dessas…</em></strong><br />
Não me apetecem inquéritos. Quero que lhe conte tudo como deve ser?<br />
<strong><em>Se fizer o favor.</em></strong><br />
Serei económico. Relatarei apenas os transes decisivos.<br />
<strong><em>Seja.</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">A primeira grande viagem de que tenho memória foi no elétrico nº 2, a riscar Lisboa ao meio, do Lumiar ao Martim Moniz. Ir à Baixa tinha o prémio de andar nas escadas rolantes do Grandella – um <em>frisson</em> impagável. Valia bem a pena as enormes e variadas horas truc truc por ali fora: Alameda das Linhas de Torrres, Campo Grande, Av. Da República, Estefânia, Campo Santana, S. Lázaro e enfim o descampado do Martim Moniz no sopé do castelo. Demorava mais a percorrer do que a contar; parecia um tarde inteira e quase dava pena desembarcar, tão entretida era a jornada. Muito mais tarde, li num conto de José Rodrigues Miguéis, acho que “Saudades para a Dona Genciana” (agora não tenho como confirmar), uma evocação lírica dos elétricos de Lisboa, em tudo igual ao que eu vivia a bordo do nº 2.</p>
<p style="text-align: justify;">A segunda grande viagem, continuava eu a ser criança, era muito mais temerária. Minha mãe acordava-me de madrugada e íamos até ao Areeiro apanhar a camioneta para o Vale. Uma aventura infindável, ao longo de uns extensíssimos 50 kms, que obrigava a xixis preparatórios e farnel para o meio da manhã. Uma a uma, com método e minúcia, a camioneta dava conhecer todas as povoações, lugares e vilas entre Lisboa e Vila Franca, em todas resfolegando e vibrando as vidraças como numa derradeira etapa. Desembarcava-se na indolente Azambuja e havia ainda que esperar a carreira para Alcoentre, a qual evoluía agora com peripécias mais rústicas e informais. Era gloriosa a entrada no Vale: os miúdos a empoleirarem-se nas escadas traseiras de acesso ao tejadilho, as mulheres a virem à porta, os homens afastando-se do monstro para a berma, o revisor a saltar de repente em andamento para perseguir os tais miúdos. Poucas vezes consegui noutras viagens repetir tão plena sensação de “enfim chegámos”.</p>
<p style="text-align: justify;">A terceira grande viagem foi assaz burguesa. No princípio dos anos 70, mesmo antes da crise petrolífera, a pequena burguesia portuguesa constatou que lhe sobravam algumas economias. Começavam assim os <em>charters</em> para Londres da Abreu, na famigerada Court Line. Essa minha primeira viagem de avião desiludiu: a terra lá em baixa passava devagar e não à velocidade estonteante prometida pelos 800km/h da aeronave. Em Londres confirmaram-se todas as lendas urbanas: os homens tinham cabelos compridos, as miúdas andavam de mini saia com imprevidência, os polícias eram gentis (eu vi uma <em>hippie</em> a beijar um <em>bobby</em>!), havia ajuntamentos de pessoas sem horror das autoridades, podia-se cantar e gritar nas ruas sem desacato e estava em cartaz o escandaloso “The Clockwork Orange”, que não me foi permitido ver. Aos 12 anos estivera no mundo – e era grande.</p>
<div class="mceTemp mceIEcenter" style="text-align: justify;">
<dl id="attachment_30035" class="wp-caption aligncenter" style="width: 410px;">
<dt class="wp-caption-dt"><img class="size-full wp-image-30035 " title="dash snow,Untitled (Hell) 2005" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/dash-snowUntitled-Hell-2005.png" alt="" width="400" height="400" /></dt>
<dd class="wp-caption-dd">Dash Snow, “Untitled (Hell)”, 2005</dd>
</dl>
<p>Algumas tribos africanas mais avisadas, agarram nos rapazes, circuncisam-nos e largam-nos na floresta. Eles que voltem semanas depois, sobrevividos e já adultos. Nos anos 80, os jovens europeus, sem que percebessem, passavam por um ritual idêntico – chamava-se inter rail e foi a minha quarta viagem. De mochila às costas parti, com os meus pais a acenarem adeuses em St. Apolónia, um pouco preocupados. Estive um mês sem dar novas, nesses tempos sem telemóveis, nem trocos dispensáveis, nem vagar para informes. No regresso, fui lacónico nos relatos, para não os afligir, descrevendo apenas os episódios mais inofensivos: a parcimoniosa Hungria socialista, onde me impressionara um estendal urbano de cuecas como só as velhas mais soezas usavam em Portugal; a familiar Grécia, tão igual a nós, pois tudo recordava o passado glorioso e nada se mostrava interessante no presente; a circunspecta Viena de Áustria, sem migalha de paciência para mochileiros. Tudo o mais que vivi, ainda hoje creio ser extemporâneo relatar; deixemos correr mais umas décadas. O saldo logístico desse primeiro inter rail foi decente: um número igual de dormidas ao relento e em catres de albergue e zero sobras das 10 latas de atum com que me tinha aviado. Conheci quem fizesse pior.</p></div>
<p style="text-align: justify;">A quinta viagem foi ao luxo. Na companhia de um senhor muito conhecido de todos vós, éramos dois executivos a caminho de Los Angeles com mordomias adequadas à nossa posição empresarial. Hoje será capaz de parecer irresponsável o que à época era banal e mesmo necessário para que os portuguesitos não desembarcassem em Hollywood com ares de remediados, mas de igual para igual com o resto do mundo. Ainda guardo os pijamas de bom algodão egípcio da First da British e em melhor cofre preservo as belas memórias de andar por Los Angeles como se lhe pertencesse. Já que podíamos, fazíamos vida de filme.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Não houve mais nada?</em></strong><br />
Houve muito mais, mas estas sobram para chegar onde estou. Só me resta declarar que ao contrário doutros cavalheiros, nunca me comoveu o que se passava portas adentro do La Chunga de Cannes.<em> Been there, done that</em>, digo eu armado aos cucos. Para que saibam, aquilo é hoje um restaurante de grandes janelas, com os interiores à mostra. Já não se guardam segredos.</p>
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		<title>VERÃO!! (noturno)</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Jun 2011 12:38:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[  Para onde irá o Verão de noite?  ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_29878" class="wp-caption aligncenter" style="width: 478px"><img class="size-full wp-image-29878" title="EDGAR martins_accidental_theorist1" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/EDGAR-martins_accidental_theorist1.jpg" alt="" width="468" height="386" /><p class="wp-caption-text">Edgar Martins, “Untitled” (da série “Accidental theorist”), 2008</p></div>
<p> </p>
<p>Para onde irá o Verão de noite?</p>
<p> </p>
<div id="attachment_29879" class="wp-caption aligncenter" style="width: 410px"><img class="size-full wp-image-29879" title="Edgar_Martins " src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/Edgar_Martins-sem-tit-acidental-turist-2008.jpg" alt="" width="400" height="315" /><p class="wp-caption-text">Edgar Martins, idem</p></div>
<div id="attachment_29880" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-29880" title="54portobello" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/54portobello-500x399.jpg" alt="" width="500" height="399" /><p class="wp-caption-text">Patrícia Almeida, “Albufeira” (da série “Portobello”), 2009</p></div>
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		<title>O VERÃO!!</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Jun 2011 12:20:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[O Verão oferece um resumo de todos os perigos e sugestões. O que nos traz a onda? Até onde pode chegar a pele? Vou ou não vou lá ter, depois de fumar? Ela desliza e cai, ou tenho que despi-la? Espera-se tudo do Verão e ele, coitado, raro responde aos ardores. Mas enquanto dura é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_29870" class="wp-caption aligncenter" style="width: 495px"><img class="size-full wp-image-29870" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/augusto-alves-sem-saída.jpg" alt="" width="485" height="326" /><p class="wp-caption-text">Augusto Alves da Silva, da exposição “Sem saída: ensaio sobre o optimismo” (Serralves), 2009</p></div>
<p>O Verão oferece um resumo de todos os perigos e sugestões. O que nos traz a onda? Até onde pode chegar a pele? Vou ou não vou lá ter, depois de fumar? Ela desliza e cai, ou tenho que despi-la?<br />
Espera-se tudo do Verão e ele, coitado, raro responde aos ardores. Mas enquanto dura é bom, mesmo que o otimismo inicial acabe por não ter saída.</p>
<div id="attachment_29872" class="wp-caption aligncenter" style="width: 308px"><img class="size-full wp-image-29872" title="augusto alves da silva" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/augusto-alves-da-silva1.jpg" alt="" width="298" height="224" /><p class="wp-caption-text">Augusto Alves da Silva, idem</p></div>
<div id="attachment_29873" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-29873" title="Augusto-Alves-Da-Silva-" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/Augusto-Alves-Da-Silva-2-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /><p class="wp-caption-text">Augusto Alves da Silva, idem</p></div>
<div id="attachment_29874" class="wp-caption aligncenter" style="width: 410px"><img class="size-full wp-image-29874" title="Um cigarro(2008" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/augusto-alves-silva-Um-cigarro2008-Augusto-Alves-Silva.jpg" alt="" width="400" height="300" /><p class="wp-caption-text">Augusto Alves da Silva, “Um cigarro”, 2008</p></div>
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		<title>pouco</title>
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		<pubDate>Sun, 19 Jun 2011 11:50:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Fez-me prometer que não diria nada. Matava-se, se eu falasse; iria carregar na consciência a morte dela o resto da vida. Pedi-lhe por favor que desencostasse o braço do meu pescoço, estava a magoar-me, a parede era dura. Ela apertou ainda mais – “promete!”, exigiu. É costume recomendar nestas situações o contacto visual. Mas se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-large wp-image-29717" title="williams_imageprimacy_compressed_640" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/2006.31_williams_imageprimacy_compressed_640-500x405.jpg" alt="" width="500" height="405" /><br />
Fez-me prometer que não diria nada. Matava-se, se eu falasse; iria carregar na consciência a morte dela o resto da vida. Pedi-lhe por favor que desencostasse o braço do meu pescoço, estava a magoar-me, a parede era dura. Ela apertou ainda mais – “promete!”, exigiu.<br />
É costume recomendar nestas situações o contacto visual. Mas se exige uma tremenda coragem fitar um tigre nos olhos, não menor será a necessária para fingir de morto diante de um urso. Do gato ao tigre os felinos são todos iguais em temperamento, só o volume lhes permite resultados diferentes.<br />
Seria já a cartilagem tiróide que estalava dentro de mim? Isto não tem como resolver senão esperar.<br />
Na manhã seguinte ria-se como se não tivesse sido nada.<br />
Em boa verdade sou obrigado a confessar que dela só me interessava o que a luz lhe fazia, a suave modulação de cambiantes entre a perfeita pele caucasiana e a toalha gema de ovo de turco de Torrres e perceber como esta frágil relação se comportava em contraste com o negro absoluto do fundo. Ela, para dormir, não tolerava uma frincha de luz.<br />
Pus lá o pantone a comprovar as minhas pequenas intenções.</p>
<div id="attachment_29718" class="wp-caption aligncenter" style="width: 410px"><img class="size-full wp-image-29718" title="renault7" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/renault7.jpg" alt="" width="400" height="311" /><p class="wp-caption-text">Christopher Williams, Body Type &amp; Seating: 4-dr sedan — 4 to 5 persons. Engine Type: 14/52 Weight: 1397 lbs. Price: $1495,00 USD (original) CHASSIS DATA: Wheelbase: 89 in. Overall length: 155 in. Height: 57 in. Width: 60 in. Front thread: 49 in. Rear thread: 48 in. Standard Tires: 5.50x15 PRODUCTION DATA: Sales: 18,432 sold in U.S. in 1964 (all types). Manufacturer: Regie Nationale des Usines Renault, Billancourt, France. Distributor: Renault Inc., New York, NY., U.S.A. Serial number: R-10950059799 Engine Number: Type 670–05 # 191563 California License Plate number: UOU 087 Vehicle ID Number: 0059799 (For R.R.V.) Los Angeles, California January 15, 2000</p></div>
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		<title>Oeste de novo selvagem</title>
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		<pubDate>Fri, 17 Jun 2011 16:07:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Será que Larry McMurtry conhece Mark Ruwedel? Venho então apresentá-los porque ambos concordam em murmurar-nos a memória do Oeste. Como se sabe, o oeste americano só existiu enquanto imaginação, porque aquilo foi uma coisa bárbara de violência, brutal de esforço, ingrata de proveito e muito pouco recomendável para a saúde e para a moral. Ou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_29724" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-full wp-image-29724" title="Mark_Ruwedel_California_Eastern_12_2001_3082_41" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/Mark_Ruwedel_California_Eastern_12_2001_3082_41.jpg" alt="" width="500" height="394" /><p class="wp-caption-text">Mark Ruwedel, “California Eastern #12″, 2001</p></div>
<p style="text-align: justify;">Será que Larry McMurtry conhece Mark Ruwedel? Venho então apresentá-los porque ambos concordam em murmurar-nos a memória do Oeste.<br />
Como se sabe, o oeste americano só existiu enquanto imaginação, porque aquilo foi uma coisa bárbara de violência, brutal de esforço, ingrata de proveito e muito pouco recomendável para a saúde e para a moral. Ou seja: o património ideal para uma gesta heróica e um épico de proporções sobre humanas. O Oeste foi a melhor ficção do séc. XX acerca do séc. XIX, resgatando o que de mais grandioso, puro e generoso ficou desse passado – permite-nos o orgulho de sermos o que somos.<br />
Passada a fase eufórica e quando se teve que reconhecer as mãos sujas, os mais prudentes, em vez de desmanchar a glória numa punição, tiveram tanto juízo como arte em transformar o Oeste na nostalgia do Oeste perdido que nunca houve. Foram-se os dedos? Que fique a memória dos anéis.<br />
No topo de tais nostálgicos, bastante realistas para não serem sentimentais, suficientemente seguros para prescindirem do cinismo, colocaria Larry McMurtry. É um belíssimo escritor, embora de prestígio enevoado pelo estigma de autor de <em>paperback</em>, e um notável alfarrabista, sustentando, por puro prazer, um gigantesco armazém de livros raros na terreola onde vive: Archer City, um remoto canto do Norte do Texas. Mas talvez seja mais conhecido pelos argumentos de cinema que assinou: <em><strong>Hud</strong></em> (o melhor filme de Paul Newman?), <em><strong>Terms of Edearment</strong></em>, <strong><em>The Last Picture Show</em></strong> e a sequela <strong><em>Texasville</em></strong> e a adaptação de um conto original de Annie Proulx que resultou em <strong><em>Brokeback Mountain</em></strong>.<br />
Parece absurdo dizer isto de um escritor cinematográfico, mas a melhor imagem do <em>pathos</em> que rescende da escrita de McMurtry, palpitei-a em Mark Ruwedel. Aliás, foi ao contemplar as fotografias de Rwedel que automaticamente – <em>c’est mon côté surréaliste</em> – recordei as emoções de McMurtry.<br />
Desde 1994 que Ruwedel se dedica a percorrer – e a fotografar – os trilhos onde outrora se alongavam os carris das linhas de caminho de ferro que atravessavam o Grande Oeste. Foi a sua construção a epopeia máxima da conquista do território, por entre perigos, tiroteios, doenças, negócios, traições, emboscadas, trabalhos forçados, fortunas rápidas e um bom punhado de massacres. À série deu o nome de <em>“Westward the Course of Empire”</em>.<br />
Aquilo que resta é uma cicatriz inscrita na terra, mas observando com atenção, consegue-se ouvir o vento.</p>
<div id="attachment_29725" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-29725" title="Mark_Ruwedel_Central_Pacific_7_1994_2432_41" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/Mark_Ruwedel_Central_Pacific_7_1994_2432_41-300x234.jpg" alt="" width="300" height="234" /><p class="wp-caption-text">Central Pacific #7, 1994</p></div>
<div id="attachment_29726" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-29726" title="Mark_Ruwedel_Tonopah_and_Tidewater_23_2002_3085_41" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/Mark_Ruwedel_Tonopah_and_Tidewater_23_2002_3085_41-300x234.jpg" alt="" width="300" height="234" /><p class="wp-caption-text">Tonopah and Tidewater #23, 2002</p></div>
<div id="attachment_29727" class="wp-caption aligncenter" style="width: 460px"><img class="size-full wp-image-29727  " title="Mark_Ruwedel_San_Diego_and_Arizona_Eastern_7_2003_2422_41" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/Mark_Ruwedel_San_Diego_and_Arizona_Eastern_7_2003_2422_41.jpg" alt="" width="450" height="355" /><p class="wp-caption-text">San Diego and Arizona Eastern #7, 2003</p></div>
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		<title>Numa dada noite em Zurique</title>
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		<pubDate>Sun, 12 Jun 2011 23:06:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Este exercício consiste em colocar a insuspeita cidade de Zurique no centro do mundo, durante um conciso período de tempo. A Zurique escolhida vai ser aquela que vigorava no preciso dia 14 de Julho de 1916. Qualquer outra Zurique, passada ou futura, é irrelevante para o exame em causa. Para atribuir maior eficácia ao exercício, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_29546" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-29546" title="jean-arp-configuração" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/jean-arp-configuração-300x392.jpg" alt="" width="300" height="392" /><p class="wp-caption-text">Jean Arp, “Configuração”</p></div>
<p style="text-align: justify;">Este exercício consiste em colocar a insuspeita cidade de Zurique no centro do mundo, durante um conciso período de tempo. A Zurique escolhida vai ser aquela que vigorava no preciso dia 14 de Julho de 1916. Qualquer outra Zurique, passada ou futura, é irrelevante para o exame em causa.<br />
Para atribuir maior eficácia ao exercício, e, seja confessado, para ampliar sobremaneira o seu dramatismo, vai-se mesmo negligenciar a maior parte da cidade e concentrar a observação apenas numa rua: a Spiegelgasse.<br />
Como se sabe, à volta de Zurique fica a Suíça e em 1916, esta estava rodeada de guerra.<br />
No nº 1 da Spiegelgasse era sito o Cabaret Voltaire, que embora não tivesse fama de prostíbulo, uns diziam que de noite nele aconteciam coisas bizarras, outros infames e talvez só uns poucos seriam capazes de as considerar artísticas.<br />
Foi, então, na noite de 14 de Julho de 1916 que Hugo Ball subiu a uma mesa – o que em si não constituiu escândalo – e antes de começar a ler um Manifesto, explicou que o movimento se chamava Dada, palavra encontrada por um processo escrupulosamente aleatório, pois abriu-se um dicionário ao calhas, cravou-se nele uma faca e verificou-se que a lâmina entrara no papel junto à palavra “Dada”.<br />
“Dada é uma nova tendência na arte”, assim começava o texto, ao que parece escrito pelo inquieto Tristan Tzara, o nom de guerre de um romeno de melena descaída sobre o olho direito.<br />
Do texto lido por Ball constavam enormidades assim: “Eu leio versos sem outro objectivo que dispensar a linguagem convencional.” Ou, mais acintoso ainda: ”Dada mhm dada da. O que importa é a ligação e, antes do mais, que ela seja interrompida.” Ou então: “Cada coisa tem a sua palavra, mas a palavra tornou-se uma coisa em si mesma.”<br />
E terminou proclamando: “A palavra, senhores, é uma questão pública de primeira ordem”.<br />
Quando Hugo Ball desbancou do poleiro onde se elevara, o Positivismo tinha sido erradicado das artes e da poesia.</p>
<div id="attachment_29548" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-29548" title="Hugo_ball" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/Hugo_ball_karawane-300x459.png" alt="" width="300" height="459" /><p class="wp-caption-text">Hugo Ball, “Karawane” (poema)</p></div>
<p style="text-align: justify;">O programa positivista, até então dominante na cultura ocidental, impunha que o método científico, na sua absoluta perfeição, fosse aplicado e informasse na substância qualquer actividade humana, nomeadamente as Artes. O Positivismo, tal como se afirmava no séc. XIX, era a etapa terminal da filosofia e da inteligência humana e sob a sua égide entraríamos numa geração de conhecimento absoluto, total e pleno, com um completo domínio da Natureza. Eis a Razão e o racionalismo em todo o seu esplendor epistemológico e gnoseológico, para utilizar (à boa maneira de Dada) palavras que rolam na língua.<br />
O que fez Dada foi arrasar com esta pretensão e inocular as palavras e os gestos artísticos de irracionalidade, de contingências, de elementos implausíveis, improváveis e inexplicáveis. Porquê tamanha devastação? Porque entenderam Ball, Tzara, Jean Arp, Hans Richter, Emmy Hennings e outros meliantes de igual calibre, que o racionalismo era exíguo e imcompleto – qualquer coisa nos escaparia sempre. O génio deles foi intuir que a Arte e a Poesia são impermeáveis ao método científico porque em nada se assemelham à Natureza.<br />
Isto que fez Dada foi definitivo nas Artes e na Poesia, mas ficou a Humanidade liberta dos avatares totalitários da Razão?<br />
Talvez naquela noite o inquilino do nº 54 da sempiterna Spiegelgasse não se mostrasse mais irritado do que o habitual com o tumulto da Cabaret Voltaire, do qual costumava queixar-se. Era possível que dormisse mal, pois os dias passava-os escrevendo compulsivamente um livro que almejava ser a análise definitiva da relação entre os Estados, intitulado “Imperialismo, o estado supremo do capitalismo”, que só viria a terminar dali a 2 anos. Aquele calvo e taciturno russo, que mal cumprimentava os vizinhos, empenhava todas as suas energias a racionalizar a Política, talvez prevendo que o seu trabalho viria a influenciar sobremaneira o que mais tarde se apelidaria de ciências sociais.<br />
Enquanto Dada punha limites ao racionalismo, precisamente ao mesmo tempo e no mesmo lugar do planeta, Valdimir Ilitch Ulianov, conhecido entre os seus militantes por Lenin, esforçava-se por alargá-lo a toda a esfera da actividade humana.<br />
Até hoje, os mundos que ali se dividiram, nesse exata noite, nunca mais se juntaram.<br />
<img class="aligncenter size-full wp-image-29550" title="Lenin" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/Lenin.jpg" alt="" width="109" height="134" /></p>
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		<title>Às voltas</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Jun 2011 16:16:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[                                                                                                                                                                                                                                                                             Está-se mesmo a ver: elas são circulares. Querendo, dá-se um passo em frente para dizer: as mulheres, as pinturas das mulheres, são circulares. Círculos?, circunferências?, mulheres?, oh lala… [com sotaque francês no original] Está-se mesmo a ver onde é que isto iria parar apenas com um punhado de sintagmas freudianos: que divagações [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_29500" class="wp-caption alignleft" style="width: 370px"><img class="size-full wp-image-29500 " title="sofia areal" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/sofia-areal.jpg" alt="" width="360" height="361" /><p class="wp-caption-text">Sofia Areal (da exposição “SIM”), s.d.</p></div>
<p style="text-align: justify;">                                                           </p>
<div id="attachment_29505" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-29505" title="ana vidigal bolas azuis" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/ana-vidigal-bolas-azuis3-300x373.jpg" alt="" width="300" height="373" /><p class="wp-caption-text">Ana Vidigal, “Bolas azuis”(?), 2011 (?)</p></div>
<p style="text-align: justify;">                                                                                                                                                                                                              </p>
<div class="mceTemp" style="text-align: justify;"> <br />
Está-se mesmo a ver: elas são circulares. Querendo, dá-se um passo em frente para dizer: as mulheres, as pinturas das mulheres, são circulares.<br />
Círculos?, circunferências?, mulheres?, <em>oh lala…</em> [com sotaque francês no original] Está-se mesmo a ver onde é que isto iria parar apenas com um punhado de sintagmas freudianos: que divagações vaginais, que sugestivas comparações com a forma perfeita do círculo e a origem feminina da vida, que metáforas e metástases inteligentes se desenvolveriam acerca da harmonia do uno feminino e a sua serena interioridade <em>vis a vis</em> a desordem do múltiplo masculino, todo exterior; multiplicar analogias e interpretações, sobre a circularidade, a antiga forma redonda do mundo e das coisas que ele arrasta, na ordem natural feminina.<br />
Eis o momento de fugir a sete pés dos <em>gender studies</em>, ou não chegaremos a lado nenhum por habitar.<br />
– Então porque as juntaste?<br />
– Porque a familiaridade que lhes vi ao princípio foi-se transformando em distância quanto mais as vejo. E foi este trajecto o que mais gostei de fazer.<br />
Além das linhas e de tudo mais que neles é curvo, os quadros de Sofia aproximam-se ainda dos de Ana pela espessura. No liso e espelhado ecrã em que estamos agora a olhar para eles, é difícil perceber que há camadas rugosas por debaixo daquilo que aparece à superfície; pastas de tinta em Sofia, presumo, colagens de papel em Ana. Em ambos os casos o que vemos é um resultado, é o que vem ao de cimo e a fábrica subentende-se, poderia apalpar-se mas não se pode nada, porque é proibido tocar nas obras.<br />
Daqui em diante tudo se afasta entre Sofia e Ana, cada qual apontando à sua estrela e de rota batida ao longo de cartografia própria.<br />
Sofia traça circunferências com um gesto de mão, alavancada pelo braço, provavelmente auxiliada por um instrumento que lhe permita não ofender a retidão matemática. Ana desenha, recorta e cola círculos bem formados. Sofia é contorno, é linha, Ana é superfície, é espaço. Sofia sobrepõe órbitas, rastos da passagem do pincel; Ana acumula densidades, formas gravitacionais suspensas na composição. Sofia passou por ali, Ana ficou lá.<br />
A suposta perfeição do círculo estragou as contas do conhecimento durante milénios. Além disso entre a circunferência e o círculo, são complementares mas diferentes as solicitações matemáticas e os resultados do entendimento. Fazer arte é também a intuição dos problemas que provavelmente nunca acudiram aos artistas quando trabalhavam na sua pintura.<br />
Entre Sofia e Ana há dois maravilhosos – não sei se é a palavra adequada – corpos celestes que fazem uma tangente, mas seguem trajetórias diversas. Gosto muito da turbulência que este contacto provoca – mas já passou.</p>
<div id="attachment_29515" class="wp-caption alignleft" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-29515" title="Claridade (reduzido)" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/Claridade-reduzido-500x472.jpg" alt="" width="500" height="472" /><p class="wp-caption-text">Ana Vidigal, “Claridade”, 2011</p></div>
<p>                                                          </p>
<div id="attachment_29517" class="wp-caption alignright" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-29517" title="sim-sofia areal 1" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/sim-sofia-areal-12-500x495.jpg" alt="" width="500" height="495" /><p class="wp-caption-text">Sofia Areal</p></div>
<p>                                                                                </p></div>
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		<title>Legislativas 2011 (durante)</title>
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		<pubDate>Sat, 04 Jun 2011 23:17:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[  De quem o presidente tinha mais medo era do arquiteto. Sobre a mesa de reuniões da junta desenrolava plantas do largo e no decorrer da apresentação chegou a insinuar que haveria de trazer uma maqueta para a sessão pública. Um laguinho sem bordas, à Siza, rodeando o pelourinho e a seguir, do meio para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_29307" class="wp-caption aligncenter" style="width: 685px"><img class="size-full wp-image-29307" title="wang quinsong" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/wang_qingsong_followme-2003.jpg" alt="" width="675" height="270" /><p class="wp-caption-text">Wang Qinsong, “Follow me”, 2003</p></div>
<p style="text-align: center;"> </p>
<p style="text-align: justify;">De quem o presidente tinha mais medo era do arquiteto. Sobre a mesa de reuniões da junta desenrolava plantas do largo e no decorrer da apresentação chegou a insinuar que haveria de trazer uma maqueta para a sessão pública.<br />
Um laguinho sem bordas, à Siza, rodeando o pelourinho e a seguir, do meio para fora, umas veredas pavimentadas com granito cinza para dar seriedade e absorver a luz; o resto seriam canteiros de flores de geometria e espécie variáveis, a fingir que foram semeados ao calhas, disseminando explosões de cor, entremeados com um relvado de pêlo curto. Como se via, tudo rasteiro, nada de árvores que bloqueassem a vista sobre a fachada do que chamavam palácio, muto decrépito mas pronto, tal qual pedira o presidente. Tudo à volta, bancos para os velhos gozarem o sol e o fresco, conforme.<br />
Enquanto esclarecia o projeto percebia-se o esforço do arquiteto para ser condescendente, proferindo a palavra “parede” em vez de “alçado” ou evitando “sacada” no lugar de “varanda”. Sentiu-se corajoso por falar assim, sabendo do risco que corria se estivesse um pedreiro ou um construtor na sala e não o levasse a sério.<br />
O que via o presidente era o entusiasmo, os perdigotos aspergidos em grande cadência sobre a assembleia, o olhar coruscante, as punhadas no ar, na direção da janela que sobrepujava o largo de terra batida, regado 3 vezes ao dia pelo cantoneiro da junta, de modo a não levantar aquela poeirada. Um entusiasmo incapaz de esconder o despeito recalcado em determinação, por muitos anos de convívio com tais labregos.<br />
Aos elementos da assembleia de freguesia, subjugados pela eloquência do arquiteto, tolheu-os um silêncio espesso. Tão óbvia lhes parecia a réplica, mas as palavras faziam-se penhas de basalto, enroscadas e brutas, sem a luz de um argumento que as guiasse da cabeça à boca. Nenhum se atreveu.<br />
E lá tinha o presidente que se levantar depois de pedir licença à mesa, muito presa ao cargo: o largo sempre foi assim. Há para aí uns retratos velhos e o doutor no outro dia trouxe umas gravuras antigas que mostram que o largo sempre foi assim. Assim é que ele é castiço.<br />
Relatando no dia seguinte ao presidente da câmara tamanho transe, o ânimo do arquiteto desfazia-se, a barba negra ainda eriçada: Um ano de trabalho de campo para o lixo! E este presidente maior que o outro, sem abjurar o suave sorriso que era seu timbre, encolhia os ombros e puxava pelos plurais: aquela malta da extrema do concelho “são como são”. Mais fica, os fundos para trás é que não voltam.<br />
Que ainda por cima tinha sido a única freguesia arrebanhada pela oposição – não disse, mas foi evidente que pensou. Depois queixem-se – porém o arquiteto permaneceu  inconsolável.</p>
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		<title>Legislativas 2011 (horas antes)</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Jun 2011 23:34:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A arte não serve para nada. Só depois de darmos como clara e assente esta asserção é que poderemos começar a descobrir algum sentido na arte. O artista limita-se a criar realidades, é uma espécie de pequeno deus; aos outros cabe-lhes interpretar essas realidades, do modo que lhes parecer mais plausível. Ou conveniente. A pertinência [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_29150" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-29150 " title="jloureiro04" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/jloureiro04-500x569.jpg" alt="" width="500" height="569" /><p class="wp-caption-text">José Loureiro, “Sem título”, 2008</p></div>
<p style="text-align: justify;">A arte não serve para nada. Só depois de darmos como clara e assente esta asserção é que poderemos começar a descobrir algum sentido na arte. O artista limita-se a criar realidades, é uma espécie de pequeno deus; aos outros cabe-lhes interpretar essas realidades, do modo que lhes parecer mais plausível. Ou conveniente.<br />
A pertinência do que nos pode ocorrer ao olharmos para uma obra de arte é um pouco difusa. Será apropriada esta ideia que me ocorreu? Por exemplo: poderei ver na pintura de José Loureiro o perfeito retrato das abissais dúvidas políticas que me dilaceram a horas das eleições?</p>
<p>As coisas mais simples começam a tremer; os contornos vibram para fora do lugar; as linhas não se desfazem, continuam a ser linhas, mas não assentam; o desenho desajusta-se da margem tela – assim estou sem saber onde me sentar, em que votar.</p>
<div id="attachment_29146" class="wp-caption aligncenter" style="width: 283px"><img class="size-full wp-image-29146 " title="joseloureiro2007" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/joseloureirocadeiras-amestradas2007.jpg" alt="" width="273" height="364" /><p class="wp-caption-text">José Loureiro, “Cadeiras amestradas”, 2007</p></div>
<div id="attachment_29147" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-29147" title="jloureiro c1" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/jloureiro-c1-300x233.jpg" alt="" width="300" height="233" /><p class="wp-caption-text">José Loureiro, “Sem título”, 2004</p></div>
<div id="attachment_29148" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-29148" title="jloureiro" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/jloureiro-300x233.jpg" alt="" width="300" height="233" /><p class="wp-caption-text">José Loureiro, “Sem título”, 2004</p></div>
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		<title>Legislativas 2011 (dois dias antes)</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Jun 2011 23:53:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A arte não serve para nada, não é para isso que ela serve. Mas às vezes podemos dizer que nos tira as palavras da boca. Como a arte diz com proposições e asserções, embora nunca com frases, porque não fala, acabamos por verificar que numa expressão errada se encontra muito acerto. Por exemplo: se quiséssemos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">
<div id="attachment_29235" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-29235" title="Lac de Dixence" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/boris-becker-lac-de-dixence-2003-500x299.jpg" alt="" width="500" height="299" /><p class="wp-caption-text">Boris Becker, “Lac de Dixence”, 2003</p></div>
<p>A arte não serve para nada, não é para isso que ela serve. Mas às vezes podemos dizer que nos tira as palavras da boca. Como a arte diz com proposições e asserções, embora nunca com frases, porque não fala, acabamos por verificar que numa expressão errada se encontra muito acerto.<br />
Por exemplo: se quiséssemos encontrar uma imagem justa, <em>juste une image</em>, para mostrar como está Portugal, que melhor haveria senão a foto de Boris Becker?<br />
Outro exemplo: se quiséssemos descrever o<em> pathos</em> que atravessa a nossa vida portuguesa, sentido por todos e cada um de nós, a instalação de Do Ho Suh não serviria muito bem?</p>
<div id="attachment_29236" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-29236" title="do ho suh,2010" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/do-ho-suhfloor2010-500x395.jpg" alt="" width="500" height="395" /><p class="wp-caption-text">Do Ho Suh, “Floor”, 2010</p></div>
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		<title>Itinerante na biblioteca</title>
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		<pubDate>Tue, 31 May 2011 21:30:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Michael Brophy, “Memory trip #4″, 2006 - livros de viagem? Não. Livros para viagem? Também não. Deturpei o desafio do PN Os livros são um magnífico meio de transporte. É disso que eu gosto mais neles, quando o enredo (que às vezes faz falta) e as personagens (habitualmente úteis), parecem depender e desprender-se de um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="mceTemp mceIEcenter" style="text-align: right;">
<dl id="attachment_29184" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px;">
<dt class="wp-caption-dt"><img class="size-large wp-image-29184" title="michael brophy,2006" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/michael-brophy-memory-trip42006-500x438.jpg" alt="" width="500" height="438" /></dt>
<dd class="wp-caption-dd">Michael Brophy, “Memory trip #4″, 2006</dd>
</dl>
</div>
<h5 style="text-align: justify;">- <em>livros de viagem? Não. Livros para viagem? Também não. Deturpei o desafio do</em><a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/05/biblioteca-itinerante/"> PN</a></h5>
<p>Os livros são um magnífico meio de transporte. É disso que eu gosto mais neles, quando o enredo (que às vezes faz falta) e as personagens (habitualmente úteis), parecem depender e desprender-se de um lugar.<br />
Para que a sensação de viagem resulte, o livro tem que ser discreto e sonso: nós estamos entretidos a ler os mexericos que as vestais de Jane Austen trocam entre si, quando de repente começamos a ver os prados rolantes do Hampshire debaixo daquela chuva miudinha que afasta os amantes dos prazeres da sombra.<br />
Ao contrário das “-gias” a geografia não empobrece o prazer da leitura, decorre dele e alarga-o, sem o inconveniente das explicações nem a afronta da interpretação.<br />
O que mais e mais imediatamente me impressionou em Mau Tempo no Canal, foi a sensação de ter lá vivido nos Açores. Durante uns tempos, por <em>blague</em>, jurava conhecer o arquipélago por ter lido o livro, o que na realidade foi confirmado quando visitei a Horta. Aquelas ruas melancólicas, o que é natural nas cidades insulares, ainda apresentavam claros sinais da guerra mesquinha e surda entre Dulmos e Garcias que, decerto, ainda hoje corre sob outras formas. O próprio Norberto não sabia onde arrumá-lo: se nas páginas de Nemésio se no Moby Dick.<br />
Um livro – e também um filme – que não dê vontade de ir lá, não me interessa. Quase sem exceção — só o cego Borges me demove.<br />
Já sequei sob o sol estremenho com o patife Pascual Duarte; com Buzatti já senti como é ermo e lento o início da Ásia; já frequentei os mares do Sul com Corto Maltese; já afugentei mosquitos e fugi de serpentes nos pauis do Caribe durante 100 Anos de Solidão; já veraneei com tristeza solar na Cotê d’Azur de Françoise Sagan; há bairros de Los Angeles onde só entrei com James Ellroy; gosto mais de conversar noite dentro, fumando tabaco de onça e picando linguiça, no Alentejo de Manuel da Fonseca do que no de Monica Ali. E sempre que sofro esperas em aeroportos temo que me apareça finalmente Godot.<br />
Nenhum destes livros estará entre os que diga favoritos, mas todos tiveram a gentileza de me levar consigo, enquanto os tive na mão. Nem sei como lhes possa agradecer.</p>
<div class="mceTemp mceIEcenter" style="text-align: justify;">
<dl id="attachment_29185" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px;">
<dt class="wp-caption-dt"><img class="size-large wp-image-29185" title="pablo fernando, shanghai's visual interruptions" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/pablo-fernando-shanghais-visual-interruptions-500x375.jpg" alt="" width="500" height="375" /></dt>
<dd class="wp-caption-dd">Pablo Fernando, “Shanghai’s visual interruption”, s.d.</dd>
</dl>
</div>
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		<title>Rotação terrestre</title>
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		<pubDate>Fri, 27 May 2011 07:37:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Se fechar os olhos consigo, com dificuldade, imaginar-vos na primeira hora da manhã, a acordarem, a cama desalinhada pelo sono, estremunhados face ao espelho da casa de banho, com um dia pela frente ainda por decidir. Lá muito mais à frente, calculo que o Vasco já tenha acabado de almoçar em Beijing, um dia adiante [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">
<div id="attachment_29009" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-29009 " title="ed ruscha, 1985" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/ed-ruscha-wen-out-for-cigrets-1985-500x490.jpg" alt="" width="500" height="490" /><p class="wp-caption-text">Ed Ruscha, “wen out for cigrets”, 1985</p></div>
<p>Se fechar os olhos consigo, com dificuldade, imaginar-vos na primeira hora da manhã, a acordarem, a cama desalinhada pelo sono, estremunhados face ao espelho da casa de banho, com um dia pela frente ainda por decidir.<br />
Lá muito mais à frente, calculo que o Vasco já tenha acabado de almoçar em Beijing, um dia adiante de mim, à distância de três quartos de planeta.<br />
Aqui eles deixam as luzes dos edifícios acesas toda a noite, vigilantes nesta derradeira cidade antes do imenso e negro Pacífico.<br />
A esfera do tempo é muito difícil de conceber. Ou melhor, de representar de um modo vivido. Se fechar os olhos imagino-vos, mas não sinto o vosso tempo. Cada um prisioneiro na sua hora.<br />
Cabeceio de sono e vou-me deitar.</p>
<div id="attachment_29010" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-29010" title="seely" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/seely_losangeles-500x400.jpg" alt="" width="500" height="400" /><p class="wp-caption-text">Christina Seely, “Metropolis 35º 56′ N 118º 24′ W”, 2005–2009</p></div>
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		<title>Onde os anjos não têm asas</title>
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		<pubDate>Wed, 25 May 2011 06:44:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Cada necessidade é respondida com uma floresta de marcas. Há prateleiras de pasta de dentes capazes de dar várias voltas ao mundo, anéis de Júpiter de comida saudável, lagos de água pura gaseificada — tudo trabalha intensamente para para o que conforto tenha medida humana. Os europeus, para quem a abundância sempre foi um equinócio [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">
<div id="attachment_28912" class="wp-caption alignleft" style="width: 370px"><img class="size-full wp-image-28912 " title="baldessari The overlap series, Jogger with cosmic event, 20001" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/baldessari-The-overlap-series-Jogger-with-cosmic-event-20001.jpg" alt="" width="360" height="534" /><p class="wp-caption-text">John Baldessari, “The overlap series: jogger (with cosmic event)”, 2000</p></div>
<p>Cada necessidade é respondida com uma floresta de marcas. Há prateleiras de pasta de dentes capazes de dar várias voltas ao mundo, anéis de Júpiter de comida saudável, lagos de água pura gaseificada — tudo trabalha intensamente para para o que conforto tenha medida humana. Os europeus, para quem a abundância sempre foi um equinócio entre duas pragas e nunca passou por todos de mão em mão, estranham a tranquilidade deste fulgor, como se ele fosse incorruptível. Aqui só Allen Ginsberg, meio século antes, quando a América sacudiu os derradeiros vestígios da grande guerra,  se deixou tomar por algum alvoroço ao descobrir que a saciedade se convertera num estado natural:<br />
“What peaches and what penumbras! Whole families shopping at night! Aisles<br />
full of husbands! Wives in the avocados, babies in the tomatoes! — and you,<br />
Garcia Lorca, what were you doing down by the watermelons?”<br />
Los Angeles é o mais completo <em>alter ego</em> contemporâneo da Roma Imperial. Uma cidade ilimitada, onde o sol nasce, corre o céu e se põe, sem lhe ver os confins; uma cidade de sereníssimos patrícios, que depositam uma cortesia estóica em todos os gestos e há muito abdicaram do sofrimento (e que para se sentirem vivos inventaram formas artificiais de dor).<br />
Mas o grande segredo do império de Los Angeles esconde-se à vista de todos: é multidão de latinos, todos igualmente pequenos e trigueiros, tão ubíquos quanto intangíveis, com as suas eternas camisas brancas e ténis pretos, que arrumam os carros, levantam as mesas, fazem as camas, manicuram os relvados, dobram a roupa, milhões de mãos atarefadas e silenciosas que tratam de tudo para que a face urbana de Los Angeles pareça uma dádiva da natureza, sem esforço.<br />
E no entanto, se encostarmos o ouvido à terra, o único rumor que se escuta em Los Angeles é o da eletricidade, que de noite, vista de um avião, pontilha a terra de uma luz infinita de horizonte a horizonte. A luz que nasce do chão.<img class="size-full wp-image-28915" title="donna anderson kam" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/donna-anderson-kam-911.jpg" alt="" width="500" height="667" /></p>
<div class="mceTemp mceIEcenter">
<dl id="attachment_28915" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px;">
<dd class="wp-caption-dd">Donna Anderson Kam, “911”, 2010</dd>
</dl>
</div>
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		<title>Do banal</title>
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		<pubDate>Thu, 19 May 2011 22:19:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[- nota de rodapé ao artigo/post de M.S. Fonseca “O reles e parvo dia a dia” A banalidade é o mais díficil. Digo a banalidade tal como ela é. Sabe-se que de nada se pode dizer tal como é, porque as coisas são o que delas captamos e pelo modo como o fazemos. Por isso, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h5 style="text-align: right;"><em>- nota de rodapé ao artigo/post de M.S. Fonseca “O reles e parvo dia a dia”</em></h5>
<div id="attachment_28594" class="wp-caption aligncenter" style="width: 458px"><img class="size-full wp-image-28594" title="aguadeiro de sevilha 1618-22" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/aguadeiro-de-sevilha-1618-22.jpg" alt="" width="448" height="599" /><p class="wp-caption-text">Velasquez, “O aguadeiro de Sevilha”, 1618–22</p></div>
<div id="attachment_28596" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-28596" title="Van Gogh" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/Van-Goghs-Room-at-Arles-500x380.jpg" alt="" width="500" height="380" /><p class="wp-caption-text">Vincent van Gogh, “Quarto em Arles” 1889</p></div>
<div id="attachment_28597" class="wp-caption aligncenter" style="width: 461px"><img class="size-full wp-image-28597" title="thomas ruff" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/thomos-ruff-carole-1988.jpg" alt="" width="451" height="600" /><p class="wp-caption-text">Tomas Ruff, “Carole”, 1989</p></div>
<p style="text-align: justify;">A banalidade é o mais díficil.<br />
Digo a banalidade tal como ela é. Sabe-se que de nada se pode dizer tal como é, porque as coisas são o que delas captamos e pelo modo como o fazemos. Por isso, a banalidade enquanto banalidade, na sua banalidade mais banal, é difícil de ser dita sem redundância.<br />
Mas alguns conseguem mostrá-la como se fosse uma evidência, como se fosse possível. Conseguem dir-se-ia que descrevê-la, sem lhe inocular o drama, o sentimento, a eventual angústia, a ambicionada segurança ou a provável desolação – sem adjetivos. A banalidade sem sugerir nela o grão do sublime, como se apenas vislumbrada sem propósito.<br />
Alcançar isto é a marca mais intensa e sublime do génio da arte. É conseguir desencadear tudo na cabeça do recetor, sem ter posto nada no emissor.<br />
Ozu comove-nos com um estendal de roupa ao sol. É apenas a imagem de um estendal de roupa ao sol, sem parcialidade, sublinhados, inclinações, filmado do mesmo modo com que Ozu filmava tudo. Mas esse estendal de roupa a secar ao sol, por si só, por ser o que é, deflagra uma catarata de emoções. Ou não… (é o risco maior da banalidade: o poder não ser).<br />
E se alguém chora ao ver essa imagem e vem outro e pergunta “porque choras?”, uma pessoa não sabe o que responder.<br />
O que podem interessar bilhas cheias de água nas caniculares ruas de Sevilha? Ou o quarto desarrumado como tantos, de Vincent? Ou a cara de Carole, em tudo tão igual e diferente dos outros milhões de rostos que povoam o mundo?<br />
Porque sentimos nisto o sentido da vida?</p>
<div id="attachment_28593" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-28593 " title="Yasujiro Ozu" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/Yasugiro-Ozu-flores-do-equinócio-500x333.jpg" alt="" width="500" height="333" /><p class="wp-caption-text">Yasujiro Ozu, “Flores do equinócio”, 1958</p></div>
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		<title>By the book</title>
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		<pubDate>Tue, 17 May 2011 18:13:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[                                                                        No Portugal de hoje o anti-americanismo é o traço mais persistente e subtil da herança cultural salazarista. O Primeiro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_28453" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-28453 " title="algemado raj rajaratnam insdie information" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/algemado-raj-rajaratnam-insdie-information-300x213.jpg" alt="" width="300" height="213" /><p class="wp-caption-text">Raj Rajaratnam, por inside information na bolsa</p></div>
<div id="attachment_28454" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-28454" title="algemado brandon davis socialite de Hllwd" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/algemado-brandon-davis-socialite-de-Hllwd-300x350.jpg" alt="" width="300" height="350" /><p class="wp-caption-text">Brandon Davis, socialite de Hollywood</p></div>
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<div id="attachment_28456" class="wp-caption alignleft" style="width: 234px"><img class="size-full wp-image-28456" title="algfemado timothy McVeigh" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/algfemado-timothy-McVeigh.jpg" alt="" width="224" height="224" /><p class="wp-caption-text">Timothy McVeigh</p></div>
<div id="attachment_28458" class="wp-caption alignright" style="width: 276px"><img class="size-full wp-image-28458" title="algemada paris hilton" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/algemada-paris-hilton.jpg" alt="" width="266" height="190" /><p class="wp-caption-text">Paris Hilton</p></div>
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<div id="attachment_28460" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-28460" title="alegmado senador tom duane manif ilegal" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/alegmado-senador-tom-duane-manif-ilegal-300x400.jpg" alt="" width="300" height="400" /><p class="wp-caption-text">Senador Tom Duane, durante um ato de desobediência cívica</p></div>
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<div id="attachment_28462" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-28462 " title="Bernard Madoff" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/algemado-bernie-madoff-arrested-300x200.jpg" alt="" width="300" height="200" /><p class="wp-caption-text">Bernard Madoff, banqueiro</p></div>
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<p style="text-align: justify;">No Portugal de hoje o anti-americanismo é o traço mais persistente e subtil da herança cultural salazarista.<br />
O Primeiro de Santa Comba Dão detestava tudo na América dos ainda por cima católicos Kennedy: a informalidade em mangas de camisa dos poderosos; a Coca Cola; o liberalismo dos costumes; a música barulhenta (e de pretos!); o dinheiro sem culpa; os piquetes de greve  com tacos de <em>baseball</em>; os beijos impúdicos nos bancos detrás dos grandes Cadillacs; a mania das grandezas mesmo à grande; as festivas campanhas eleitorais, dominadas por <em>confettis</em> e senhoras ostentando cartolas ridículas rebrilhando com estrelinhas patrióticas; a competitividade, à qual é imprescindível o adjetivo “desenfreada”; a desnecessária fartura de comida e coisas, sem um mínimo de frugalidade. E o tremendo <em>chewing gum</em>. Mas sobretudo, mesmo no mais baixo povoléu rural, a despreocupação, a falta de timidez, a ausência de medo do futuro. Isto só podia ser gente  imprevidente e insensata — estúpida, portanto, de uma estupidez  constitucional.<br />
A propósito da prisão do Sr. Dominique Strauss-Kahn topei uma frase que ilustra de um modo lapidar o <em>ethos</em> lusitano: “se o caso não foi abafado é porque foi tramóia”. É maneira de se ter  sempre razão.</p>
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		<title>Pijama sim… mas, party?</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/05/pijama-sim-mas-party/</link>
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		<pubDate>Sat, 14 May 2011 14:23:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Isto tem vindo a piorar e não tem medicina apropriada. Quando trinam campainhas anunciando  pajama party, o meu íntimo Pavlov já não segrega sugestões de Hugh Heffner mas do Norman Rockwell supra. São assim as minhas manhãs dominicais, uma indolente pijama party enquanto elas saíram aprumadíssima para a missa. Se quiserem passar por cá, tragam café.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_28265" class="wp-caption aligncenter" style="width: 476px"><img class="size-full wp-image-28265" title="norman-rockwell-sunday-morning" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/norman-rockwell-sunday-morning1.jpg" alt="" width="466" height="500" /><p class="wp-caption-text">Norman Rockwell, “Sunday morning”</p></div>
<p>Isto tem vindo a piorar e não tem medicina apropriada. Quando trinam campainhas anunciando  <em>pajama party</em>, o meu íntimo Pavlov já não segrega sugestões de Hugh Heffner mas do Norman Rockwell supra.<br />
São assim as minhas manhãs dominicais, uma indolente pijama<em> party </em>enquanto elas saíram aprumadíssima para a missa. Se quiserem passar por cá, tragam café.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Reparação a ONÉSIMO TEOTÓNIO DE ALMEIDA</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/05/reparacao-a-onesimo-teotonio-de-almeida/</link>
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		<pubDate>Sun, 08 May 2011 00:20:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Fui infame, declarei falso testemunho e só não devo ter ofendido Onésimo Teotónio de Almeida porque ele demonstrou bonomia e bom carácter na interpelação que me fez. Valha-me a paciência dos outros para os meus dislates. O caso é o seguinte: No meu post “Interrogatório (sem holofotes na cara)”, no passo em que alinho os meus [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_28014" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-28014" title="Egas Moniz na Estacao S_ Bento" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/Egas-Moniz-na-Estacao-S_-Bento1-500x293.png" alt="" width="500" height="293" /><p class="wp-caption-text">“Egas Moniz, o Aio”, painel de azulejos na estação de S. Bento no Porto</p></div>
<p style="text-align: justify;">Fui infame, declarei falso testemunho e só não devo ter ofendido <strong>Onésimo Teotónio de Almeida </strong>porque ele demonstrou bonomia e bom carácter na interpelação que me fez. Valha-me a paciência dos outros para os meus dislates.<br />
O caso é o seguinte:<br />
No meu<em> post </em>“Interrogatório (sem holofotes na cara)”, no passo em que alinho os meus livros favoritos, apenso a “Mau Tempo no Canal” a seguinte frase: “nem Onésimo Teotónio Almeida, cujo gosto literário costuma ser infalível, conseguiu fazer-me duvidar dele.” (escusam de ir lá ver, a parvoíce já foi retirada). Ao que o visado teve a caridade de responder: “Fico com curiosidade de saber que mal fiz eu ao meu querido Nemésio…”<br />
Foi mais ou menos neste instante que me caiu um meteoro na cabeça: as minhas débeis sinapses haviam-me traído e fizeram-me confundir Onésimo Teotónio de Almeida com outra pessoa que há alguns anos, nas páginas do JL, escrevera uma crónica, aliás bem sustentada e inteligente, relatando a sua desilusão ao ler “Mau tempo no canal”.<br />
Cometi o monstruoso erro que nos outros tanto me irrita: dizer as coisas de memória, sem desconfiar quão traiçoeira e fantasiosa pode ela ser. E tanto mais desastrada foi a minha falta que logo incidiu sobre aquele que, sendo açoriano e literato como Nemésio , melhor o entendeu, tão finamente o analisou e tanto tem feito para o divulgar. De toda a gente que há no mundo, haveria precisamente de me meter com Onésimo…<br />
Sinceramente – desculpe.</p>
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		<title>Interrogatório (sem holofotes na cara)</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/05/interrogatorio-sem-holofotes-na-cara/</link>
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		<pubDate>Fri, 06 May 2011 00:44:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[A nossa compagne de route “sem-se-ver” que tantas vezes nos afaga com os seus comentários, entrou no outro dia pela porta dos fundos a propor que alguém respondesse a este inquérito, a passar de mão em mão, por aí na bloga. É uma frivoleira, ou seja, um divertimento — cheguei-me à frente. 1 — Existe [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_27904" class="wp-caption aligncenter" style="width: 560px"><img class="size-full wp-image-27904" title="matej kren bookcell" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/matej-kren-bookcell.jpg" alt="" width="550" height="385" /><p class="wp-caption-text">Matej Kren, “Bookcell”, CAM da Gulbenkian, 2006</p></div>
<p style="text-align: justify;">A nossa <em>compagne de route </em>“<strong>sem-se-ver</strong>” que tantas vezes nos afaga com os seus comentários, entrou no outro dia pela porta dos fundos a propor que alguém respondesse a este inquérito, a passar de mão em mão, por aí na bloga. É uma frivoleira, ou seja, um divertimento — cheguei-me à frente.</p>
<p><strong>1 — Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?</strong><br />
Porquê o condicional? Há sempre um livro para reler. Aliás – é um lugar comum – a verdadeira leitura é a releitura. Um exemplo? Os contos de Graham Greene, sobretudo “May I borrow your Husband?”, sempre que lá volto está diferente. Ou “O vale de Josafat” de Raul Brandão, um autor que aprecio muito pouco à exceção destas memórias onde está tudo o que foi a nossa 1ª República – por isso é que nunca paro de regressara a ele: de cada vez percebo um bocadinho mais.</p>
<p><strong>2 — Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?</strong><br />
“Poesia toda” de Herberto Hélder. Refiro-me à edição legítima, a de capa em forma de embrulho, antes das sucessivas “Poesias que já não são todas” cada vez mais reduzidas, publicadas ano sim ano não pelo Natal, sabe-se lá se por que rasos motivos.<br />
Nunca o consegui acabar porque queima. Leio um troço e as palavras incendeiam-se, a cabeça entra em sobreaquecimento e sou forçado a interromper. E depois volto e torno ser derrotado. Sei que nunca vencerei esta luta, o livro é maior do que eu, mas hei de levá-la até ao fim.</p>
<p><strong>3 — Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?<br />
</strong>Além de servirem para ler, os livros são objectos decorativos muito lindos. Uma sala com uma parede forrada a estantes repletas de lombadas tem logo outra gravidade, ganha um ar de<em> scriptorum</em>, ressuma inteligência. Ora, se um pobre diabo como eu, que já comprou tantos livros e continua a comprar mais, tivesse que ficar reduzido a um voluminho, então haveria de ser um daqueles sublimes álbuns de Franco Maria Ricci (FMR ou éfemerre para os<em> habitués</em>) que parecem incunábulos e dão vistas largas, primorosos sobre a <em>coffee table</em> da sala.</p>
<p><strong>4 — Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?</strong><br />
Ui, o que para aí anda escondido ou mesmo à mostra sem eu saber. Mas quantas vezes descubro um clássico como se tivesse sido publicado agora e acabo a lamentar a minha ignorância por não me ter chegado a ele uns anos antes? Que mais hei de encontrar por abrir  e que esteja tão diante de mim como a  carta sobre a lareira de Poe?</p>
<p><strong>5– Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?</strong><br />
“Trabalhos e Paixões de Benito Prada” (agora é que vem o nome do autor:) de Assis Pacheco. Ele acaba por disparar ou não? A História diz que não mas no livro sabe-se lá…</p>
<p><strong>6– Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?</strong><br />
À bruta; não havia muito mais para fazer além de ver a Pipi e o Franjinhas na escassa TV, nesses tempos em que o Sporting era campeão de 3 em 3 anos. Eram <em>palettes</em> de banda desenhada: Tio Patinhas, a revista “Tintin” do Dinis Machado (orgulho-me de ainda os ter todos) e depois, por bizarria, os Peanuts, aos 12, anos em inglês, ia do Lumiar à Bertrand do Chiado comprá-los, sozinho de autocarro,uma jornada hoje impossível.</p>
<p><strong>7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?</strong><br />
Os diários de Enver Hoxha, publicados depois de a Albânia romper com a RP China. Porque teve que ser. (Isto na altura fazia sentido, hoje nenhum).</p>
<p><strong>8. Indica alguns dos teus livros preferidos.</strong><br />
Hoje, às 23h30, de memória e tal como vêm, são:<br />
Jorge Luís Borges – “Obras completas”, para resolver o assunto numa penada.<br />
“Amor de perdição” de Camilo. Este entrou e nunca mais saiu.<br />
“The long goodbye” Raymond Chandler.<br />
“Vom Krieg” (“On War”, li em inglês) de Clausevitz. Muito prático e útil.<br />
“Underworld” Don DeLillo.<br />
“Mau tempo no canal” de Vitorino Nemésio.<br />
“Art as experience” de John Dewey. Uma chave.<br />
“The whole equation” de David Thomson. A melhor história do cinema (americano) embora não seja bem isso (se o lerem percebem o que quero dizer).<br />
“Grande sertão: veredas” de João Guimarães Rosa. Qual Joyce, qual quê…<br />
“A toca do lobo”; “Uma noite na toca do lobo”; “O jardim das oliveiras”; “Nó cego” de Tomaz de Figueiredo. O mais anacrónico, irascível, reaccionário, gramatical, saudosista, eloquente, amargo, olvidado, escritor português do séc. XX.<br />
São 10 e faltam tantos. Daqui a uma hora seriam outros de certeza.</p>
<p><strong>9. Que livro estás a ler neste momento?</strong><br />
Como de costume um punhado que vou rodando conforme a disposição:<br />
“Ricos e pobres no Alentejo” de José Cutileiro (Feira do Livro 2011). Supostamente uma tese de antropologia, na verdade uma descrição fulgurante (e tão bem escrita!) do Alentejo dos anos 60.<br />
“A heartbreaking work of staggering genius” de Dave Eggers. Romance, ainda não sei, mas até agora vai bem.<br />
“It’s not TV: HBO in the post-television era” editado por Marc Leverette. É trabalho.</p>
<p><strong>10 -</strong><br />
É suposto passar a tocha antes que derreta na mão. Ó rapazes, não haverá aí ninguém que pegue nesta graça?</p>
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		<title>Mortificações</title>
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		<pubDate>Wed, 04 May 2011 23:54:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Duas velhas que se tratam por mana, “mana isto”, mana aquilo” e depois zangam-se. Nenhuma se cala a reivindicar a derradeira palavra. E depois nada. Vão dormir, cada uma no seu quarto, que o sono consome as teimas. Os maridos já os levou a ceifeira, já criados e saídos de casa os filhos, os tostões [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_27849" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-27849" title="eggleston troubled_waters_1980" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/eggleston-troubled_waters_1980-500x323.jpg" alt="" width="500" height="323" /><p class="wp-caption-text">William Eggleston, in “Troubled waters”, 1980</p></div>
<div id="attachment_27852" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-27852" title="10d70v2_h" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/10d70v2_h1-500x333.jpg" alt="" width="500" height="333" /><p class="wp-caption-text">William Eggleston, in “10 D.70.V2”, 1996</p></div>
<p>Duas velhas que se tratam por mana, “mana isto”, mana aquilo” e depois zangam-se. Nenhuma se cala a reivindicar a derradeira palavra. E depois nada. Vão dormir, cada uma no seu quarto, que o sono consome as teimas.<br />
Os maridos já os levou a ceifeira, já criados e saídos de casa os filhos, os tostões contados, sobra-lhe o tempo para roçarem os dias assim.<br />
Lá tornam de manhã ao mesmo, esquecidas à janela a bisbilhotar quem passa, “mana viste”, “mana ouviste”.</p>
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		<title>Adorável Bergman</title>
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		<pubDate>Mon, 02 May 2011 21:27:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Portugal teve azar com Ingmar Bergman. Quando os seus filmes começaram a poder ser vistos sem constrangimentos, a partir de 1974, declinava o realizador a sua fase mais taciturna. Era talvez o ar dos tempos, dos anos 70. Como todas as imagens, esta que dele se formou também não é falsa (não há imagens falsas, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Portugal teve azar com Ingmar Bergman. Quando os seus filmes começaram a poder ser vistos sem constrangimentos, a partir de 1974, declinava o realizador a sua fase mais taciturna. Era talvez o ar dos tempos, dos anos 70.<br />
Como todas as imagens, esta que dele se formou também não é falsa (não há imagens falsas, há é visões falsas das imagens) e se nos detivermos só nela, de Bergman molda-se a impressão de um homem atormentado, amaro, desesperado com as noites longas do norte e repugnado com os fervores do sul, desconsolado com os afetos submergidos pela ética e, sobretudo, irritado com um deus espetador do sofrimento humano.<br />
Mas houve outros Bergmans antes deste. Um era o ansioso amante que filmava para conquistar as mulheres. Com a câmara perscrutava os rostos femininos, encostava-se a eles com enorme proximidade, quase incómoda para as actrizes, que era como o tímido Ingmar lhes pedia que o amassem. Nenhum outro realizador tentou tanto seduzir as mulheres com o cinema – nem Luis Malle. Harriet Andersson (que deixou tontos de luxúria os poucos portugueses que iam a Paris ver os filmes interditos em Portugal), Bibi Andersson, Liv Ullmann, todas partilharam com Bergman a cama antes de lhe oferecerem a imagem.<br />
O outro Bergman, decorrente deste era o realizador de comédias românicas. Nelas o desejo, um conceito depois tão na moda, não passava do parente pobre do sexo. E com uma liberdade protestante que parecia obscena aos nossos beatos costumes – por isso estes filmes nos passaram ao largo em seu tempo – todas as personagens sabiam ao que iam, só não sabiam o que haveriam de conseguir.<br />
Comédias por certo imorais, ou seja, corrosivas para decência e contumazes às probidades em vigor. São de um humor talvez demasiado em filigrana para os nossos dias, mas ainda assim suecamente espirituosos, como o exemplo que aqui fica.</p>
<p><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/B3vxYDF3n0U?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/B3vxYDF3n0U?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
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		<title>Operários</title>
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		<pubDate>Sun, 01 May 2011 02:24:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[    ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="mceTemp mceIEcenter">
<div id="attachment_27683" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-27683" title="lep2010004g01021" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/lep2010004g01021-500x333.jpg" alt="" width="500" height="333" /><p class="wp-caption-text">Pedro Letria, “Foundation”, 2011</p></div>
</div>
<div class="mceTemp mceIEcenter"> </div>
<div id="attachment_27682" class="wp-caption aligncenter" style="width: 430px"><img class="size-full wp-image-27682" title="sarah cooper nina gorfer workers line 2010" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/sarah-cooper-nina-gorfer-workers-line-2010.jpg" alt="" width="420" height="280" /><p class="wp-caption-text">Sarah Cooper &amp; Nina Gorfer, “Workers line” (Dubai). 2010</p></div>
<p>  </p>
<div id="attachment_27693" class="wp-caption aligncenter" style="width: 621px"><img class="size-full wp-image-27693     " title="LISNAV~1" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/LISNAV11.jpg" alt="" width="611" height="405" /><p class="wp-caption-text">Augusto Cabrita, “Lisnave”, circa 1970</p></div>
<div id="attachment_27685" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-27685" title="campodestabrbara" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/campodestabrbara1-500x377.jpg" alt="" width="500" height="377" /><p class="wp-caption-text">Augusto Cabrita, “Campo de Sta. Bárbara” (Barreiro), s.d.</p></div>
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		<title>Keep it simple, stupid</title>
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		<pubDate>Sun, 01 May 2011 01:17:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ingmar Bergman tinha uma explicação simples para o cinema de Hithcock. A câmara do inglês reputava-se como a mais quieta de Hollywood e só se mexia quando obrigada, uma panorâmica ou outra, raríssimos – não me lembro agora de nenhum – travellings. A agitação dramática e a actividade narrativa resultavam sobretudo da montagem, que podia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_27676" class="wp-caption aligncenter" style="width: 416px"><img class="size-full wp-image-27676" title="ikb79, 1959" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/ikb79-1959.jpg" alt="" width="406" height="475" /><p class="wp-caption-text">Yves Klein, IKB 79, 1959</p></div>
<p style="text-align: justify;">Ingmar Bergman tinha uma explicação simples para o cinema de Hithcock.<br />
A câmara do inglês reputava-se como a mais quieta de Hollywood e só se mexia quando obrigada, uma panorâmica ou outra, raríssimos – não me lembro agora de nenhum – <em>travellings</em>. A agitação dramática e a actividade narrativa resultavam sobretudo da montagem, que podia ser vertiginosa, como no caso da cena do chuveiro de<strong> Psycho</strong>, na qual foram precisos 78 planos para recebermos 45 segundos de puro susto, ou então nula, como em <strong>Rope</strong>, um filme feito numa tomada, apenas interrompida de 20 em 20 minutos, para mudar a película no <strong>magazin</strong>. Sim, aqui há movimentos de câmara, pois era necessário deambular atrás dos atores, mas repare-se que estes raro saem da sala e dentro dela conversam mais do que mexem. Há também um bizarro movimento de câmara em <strong>Vertigo</strong> que a todos espantou tecnicamente, mas era um efeito combinado de lente e <strong>zoom</strong>, com o corpo da câmara assente em seu recato no tripé.<br />
Com o barroquismo próprio dos jovens, Truffaut vislumbrou metafísicas no estilo de Hitchcock, na sua monumental entrevista de 1962 que durou vários dias e resultou em 12 horas de conversa. Dava jeito ao intrépido francês mostrar que o grande <em>entertainer</em> era um artista tão vasto como Michelangelo, no seu combate por uma<em> politique des auteurs </em>com o objectivo de acomodar o cinema como uma das Belas Artes.<br />
Pois nada disso, afirmava Bergman no seu purismo calvinista. Hitchcock filmava assim apenas porque era gordo. Um homem de tal modo corpulento, não tinha nem físico nem vagar para perseguir a câmara, instigar os atores com pormenores ou para irromper no <em>plateau</em>. Sentava-se, então, na cadeira de lona do realizador e a câmara que remédio tinha senão ficar ali ao lado dele. Tudo em Hitchcock nos diz que seria incapaz de um número como o de John Ford que um dia foi entrando pelo rio adentro até dizer que queria a câmara aqui, quando a água já lhe dava pela cintura.<br />
O próprio Hitchcock sempre corroborou a explicação de Bergman ao afirmar que construía os filmes sentado à secretária, diante do argumento, imaginando-os por inteiro, plano por plano, do princípio até ao fim. Se necessário rabiscava um <em>story board </em>para algumas sequências mais complicadas. A rodagem era para ele um frete e só lá ia para que não viesse outro estragar o que havia concebido.<br />
Desta razão de Bergman poderemos recolher duas úteis lições.<br />
A primeira já a conhecemos desde o séc. XIV e talvez por isso a esqueçamos tão amiúde. É a <em>lex parsimoniae</em>, popularmente conhecida pela “navalha de Occam” que nos recomenda escolhermos a explicação mais simples entre as que se nos apresentam para resolver um problema – <em>pardon messieur </em>Truffaut.<br />
A segunda provém do saudável empirismo de Ingmar Bergman, e convida-nos a perceber que na verdade as coisas são influenciadas sobretudo pelas contingências, pelos percalços por ocasiões e por pequenos acidentes materiais – “olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates”. Se Hitchock fosse ágil como Billy Wilder os seus filmes eram semelhantes aos de Billy Wilder.<br />
Bergman foi um que pouco se enganou – basta ver-lhe os filmes.</p>
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		<title>Viva a liberdade!</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Apr 2011 23:01:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Goya, “Los fuzilamentos del 3 de mayo”, 1818 Não houve pintor mais nervoso que Goya. Coube-lhe viver uma época assaz turbulenta e tudo nele foi urgência em capturar os factos para que ficassem. Há de tudo na pintura de Goya: documentarismo (“Los desastres de la guerra”), retrato cortesão (“A família de Carlos IV”) e militância, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="mceTemp mceIEcenter" style="text-align: justify;">
<dl id="attachment_27228" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px;">
<dt class="wp-caption-dt"><img class="size-large wp-image-27228" title="Goya,3 de mayo" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/Goya-el-3-de-mayo-1818-500x378.jpg" alt="" width="580" height="441" /></dt>
<dd class="wp-caption-dd">Goya, “Los fuzilamentos del 3 de mayo”, 1818</dd>
</dl>
</div>
<p style="text-align: justify;">Não houve pintor mais nervoso que Goya. Coube-lhe viver uma época assaz turbulenta e tudo nele foi urgência em capturar os factos para que <strong>ficassem</strong>. Há de tudo na pintura de Goya: documentarismo (“<em>Los desastres de la guerra</em>”), retrato cortesão (“A família de Carlos IV”) e militância, mas em nenhum momento mostrou complacência nem deixou de expressar a sua visão naquilo que olhava.<br />
No dia 2 de Maio de 1808 os mamelucos atacaram nas Puertas del Sol o povo que se manifestava contra o usurpador José Bonaparte; no dia seguinte os principais cabecilhas da sublevação foram sumariamente fuzilados pelos franceses. Ambos os assuntos foram pintados por Goya, mas a execução tornou-se um ícone da luta pela liberdade.<br />
À primeira impressão intimida o tamanho da tela e à primeira vista impressiona a velocidade com que ela foi feito, sem detalhe realista e reduzindo a esboço tudo o que não seja os rostos dos fuzilados. E nestes se estampa a mistura de pavor e determinação que devem ter as caras dos que vão morrer injustiçados. O alvoroço é iluminado por uma lanterna, a mesma que Picasso recuperou para o seu “Guernica”.</p>
<div class="mceTemp mceIEcenter" style="text-align: justify;">
<dl id="attachment_27234" class="wp-caption aligncenter" style="width: 634px;">
<dt class="wp-caption-dt"><img class="size-full wp-image-27234 " title="manet, 1867" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/manet-execution-of-emperor-maximilian-1867.jpg" alt="" width="624" height="524" /></dt>
<dd class="wp-caption-dd">Manet, “Execução do Imperador Maximiliano”, 1867</dd>
</dl>
<p>A pintura de Manet parece plácida, além de parisiense. Nos seus quadros os rostos são de uma invariável impassibilidade; podemos ver melancolia na <em>barwoman</em> dos Follies Bergère, submissão nos olhos de Olympia ou altivez nos do modelo de “<em>Déjeuner sur l’herbe</em>”, mas se nos chegarmos perto, aquilo que Manet nos oferece são almas imperturbáveis.<br />
O mau estar que se desprende da “Execução de Maximiliano” vem dessa ausência de emoção, em total contraste com o momento goyesco.<br />
Manet pintou o quadro no seguimento do diálogo que vinha mantendo com Goya desde a sua “Olympia”, na qual replicava a insolência quer da “Maja desnuda”, quer da “Odalisca” - mulheres que não se furtam a defrontar-nos com a sua nudez. Pintou-o ainda por convicção política, para verberar em público a estúpida aventura de Napoleão III ao instalar Maximiliano de Habsburgo como imperador do México, um desígnio cujo final funesto foi o que se vê.<br />
Às mãos de Manet o fuzilamento é descrito mais do que vivido. Para tal efeito subverte por completo o propósito de Goya: agora são os emotivos que estão em esboço, os generais e o pouco povo que assiste à cena, aparentemente mais preocupado com o estrondo do fogo do que com a execução dos ilustres. O lívido Maximiliano fica hirto e um soldado engatilha calmamente a espingarda de costas para a cena - tudo decorre <em>as a matter of fact</em>.</div>
<div id="attachment_27231" class="wp-caption aligncenter" style="width: 620px"><img class="size-large wp-image-27231" title="Yue_Minjun-Execution" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/Yue_Minjun-Execution-1995-500x253.jpg" alt="" width="610" height="344" /><p class="wp-caption-text">Yue Minjun, “Execution”, 1995</p></div>
<p>Todos os quadros de Yue Minjin são composições a partir de figuras que mostram uma boca escancarada num riso entre o escárnio e o medo (“estou a rir mas é nervos!” como dizia uma tia minha). Essas figuras são multiplicações da mesma imagem: o retrato do próprio pintor.<br />
Há quem designe o estilo de Yue Minjin como “realismo cínico” e na verdade tudo isto é muito inquietante.<br />
A “Execução” é, até hoje, a obra culminante de Yue Minjin. O muro que em Monet dir-se-ia separar o acontecimento político da vida quotidiana, é agora claramente o muro da Cidade Imperial no centro de Pequim; ou seja, a cena decorre na praça de Tiananmen. Isto torna as gargalhadas sinistras e a brincadeira abjeta. Mas o segundo grau revela-se de imediato: o que temos é uma violenta irrisão do sossego com que o mundo esqueceu o massacre de Tiananmen. Trazer os acontecimentos de novo a lume deste modo, com uns envergonhados por estarem em cuecas e outros a fingir que dão tiros, enquanto um dele se vira para nós, já não para carregar o fuzil, mas para nos desafiar com a sua medonha gargalhada, afronta e incendeia a nossa memória e, mesmo, a nossa passividade.</p>
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		<title>Pontius Pilatus</title>
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		<pubDate>Wed, 20 Apr 2011 23:30:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[Queridos Mortos]]></category>

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		<description><![CDATA[Por não seres romano mas da linhagem dos Pontii, família grada entre as recalcitrantes tribos do Samnium apenas vergadas pela crueza de Sula, sendo provável que ainda tenhas ouvido os teus avós falarem oscano, já então a moribunda língua dos antepassados, decerto não alimentarias uma ambição desmedida, que fosse para além do teu título de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_27095" class="wp-caption aligncenter" style="width: 516px"><img class="size-full wp-image-27095  " title="joão hogan, paisagem, 1973" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/joão-hogan-paisagem-1973.jpg" alt="" width="506" height="376" /><p class="wp-caption-text">João Hogan, “Paisagem”, 1973</p></div>
<p style="text-align: justify;">Por não seres romano mas da linhagem dos Pontii, família grada entre as recalcitrantes tribos do Samnium apenas vergadas pela crueza de Sula, sendo provável que ainda tenhas ouvido os teus avós falarem oscano, já então a moribunda língua dos antepassados, decerto não alimentarias uma ambição desmedida, que fosse para além do teu título de <em>eques</em>, da ordem dos <em>equites</em>, sabendo que os primeiros lugares do Império te estavam vedados pelo sangue e por ele eram exclusivos dos Patrícios.<br />
Grande entre os pequenos e pequeno entre os grandes, pode ter sucedido que um sentimento de inferioridade fosse acompanhando a tua vida, e nunca obtivesses resposta à dúvida que sempre te foi atormentando, desde a hora em que o Senado te investiu como perfeito da Judeia, um cargo ingrato num província remota e amarga, até ao dia em que os teus pés voltaram a calcar as pedras do cais de Ostia, de regresso a Roma.<br />
Essa grande dúvida foi a de perceberes se era uma honra ou uma provação, se a magnífica atenção de Tibério recaiu sobre ti e tivesse visto em ti um fidelíssimo administrador do Império, cujo brio e acerto eram propícios ao governo de uma província tão difícil; ou se o <em>tristissimus hominum </em>apenas assinou enfastiado um decreto entre tantos a que dava provimento, despachando-te para um posto inferior e periférico, submetido ao governador da Síria, por não te ver digno de maior política – a prefeitura na complicada Judeia era o princípio de uma auspiciosa carreira ou tão somente o máximo a que poderias aspirar?<br />
Não surpreenderia que logo à vista de Cesareia, ainda antes de desembarcares, fosse de horror a impressão em ti causada por aquela terra inóspita e fétida, onde uma gente encardida berrava num linguajar sibilante contra impávidos burros. Não precisarias de ser muito arguto para desde logo reparares na ausência de jardins ou de qualquer outra espécie de frescura, dado ser aquela terra de pastores, que desdenhavam a persistência agrícola, o trato comercial e as delicadezas urbanas e cuja curiosidade não ia além das ovelhas. Mal sabias tu que a branda Cesareia, temperada pelas brisas do Mediterrâneo, haveria de ser a cidade mais aprazível de todo o território que te coube em sorte dirigr.<br />
Instalado na tua áurea qualidade de perfeito, em teu redor desde logo se impôs um círculo de saduceus, ávidos de colaboração e predispostos a receberem como inerentes à sua classe todos os privilégios que lhes queiras outorgar. Mesmo que os acaricies nunca te tratarão com deferência, pois presumem-se de estirpe no mínimo igual à dos romanos. Apesar dos seus costumes sórdidos, próprios de descendentes de escravos, presumem-se requintados e mundanos e depressa achá-los-ás ridículos, com as suas intrigas palacianas urdidas entre paredes de adobe, com os seus ressentimentos tribais, deflagrados por nada maior do que um punhado de cabras e com o seu desprezo pela higiene, estimulado por um obsceno pudor teológico.<br />
Atrás dos saduceus entrevirás os fariseus. Estes somente te pedirão indiferença e em breve compreenderás que a indiferença, com este povo turbulento, é uma vantagem e não um prejuízo. Todavia, apesar de não mais ambicionarem do que passar os dias a insultarem-se no seu templo grosseiro, que eles chamam de Santo, dedicado a um deus ausente e lamentado precisamente por não se manifestar, os fariseus não cessarão de te importunar com as suas questiúnculas e de provocar a tua lei com os seus dogmas. Atreitos a indignações teatrais e a discussões intermináveis, hão de ser a casta mais aborrecida com que irás lidar.<br />
Por fim, longe da tua vista ficarão os zelotas – cuidado com eles! No seu estreito pensamento de seita radical e desprovida de mundo, só brilha a recordação da suposta glória passada de Israel e tudo o que façam é sedicioso e dirigido contra ti. Se lhes deres o que te pedem, açoites e extorsão, a sua popularidade redobrará, se os tratares com complacência, irão pôr em perigo a tua autoridade. Sobre eles terá de rolar o ferro de Roma em todo o seu esplendor, para espanto e exemplo dos demais.<br />
Mas o teu primeiro súbdito será o velhaco Herodes, rei dos judeus ao qual todos devem respeito embora escassa obediência.<br />
Antipas é impotente para decidir o rumo de qualquer negócio, atordoado pela cacofonia de conselhos concorrentes que a todos escuta com pretensa equidade. No entanto, não hesitou em oferecer numa bandeja de prata a cabeça de um tal João, que andava a sublevar os povos das margens do Jordão com banhos naquelas águas sujas, quando Salomé, uma trigueira e opulenta concubina, uma noite o entreteve com requebros soezes, despindo-se ao ritmo de uma fastidiosa e interminável música. A estridência dos sons e os meneios da meretriz prostraram o lúbrico  Herodes e dispuseram-no a ceder à exigência dela. A verdade é que ao pedir a cabeça do rebelde, Salomé pôs cobro à revolta e demonstrou ter mais poder que potentados, mais armas que generais e mais persuasão que embaixadores.<br />
A iniquidade desta gente que se diz eleita por deus não cessará de te espantar.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" title="Nikolay-Gay-Quod-Est-Veritas-Christ-and-Pilate" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/Nikolay-Gay-Quod-Est-Veritas-Christ-and-Pilate.jpg" alt="" width="400" height="556" /></p>
<p>Depressa saberás que o festival da Páscoa é a mais perigosa das épocas, exigindo de ti muitas cautelas e trabalhos. A excitação dos israelitas estará ao rubro pois temem que se não provocarem uma hecatombe na população ovina da Judeia, o deus deles os abandone de vez e deixe de os apontar como o seu povo predilecto.<br />
Perdidos nesta terra ingrata, rodeados de inimigos com quem partilham as estradas, com um passado repleto de vergonhas e um futuro indiscernível, acreditam numa esquiva divindade, informe, incorpórea e assaz volúvel, que viria, não sabiam quando nem como, redimi-los das tribulações que suportavam. Estas incertezas, exploravam-nas os profetas, havendo um em cada esquina de Jerusalém, que não se inibiam de proclamar invocações e augúrios tremendos que punham o povo pasmado de terror.<br />
Pobres bárbaros, incapazes interpretarem nas vísceras dos pássaros o destino que os deuses nos reservam, em vez de desesperarem por um dito messias que lhes indique o caminho da salvação.</p>
<p>Mais tarde, quando estiveres a cravar uma adaga no teu próprio peito para resgatares a honra comprometida por Calígula, um inexplicável capricho da memória fará com que no derradeiro alento, de toda a tua vida apenas recordes um episódio entre os tantos que sofreste, precisamente passado em Jerusalém, nesses dias agitados da páscoa.</p>
<p>Naquele ano, logo ao raiar da manhã ergueu-se um burburinho medonho à tua porta. Uma turba de sacerdotes e dignitários, com vestes desalinhadas e olhos insones, reclamava a tua presença. Porque a norma religiosa os interditava de pisarem o soalho do teu palácio, tiveste que descer a eles. Protestavam por justiça e no meio do magote isolava-se uma esquálida figura, desgrenhada dos maus tratos que toda a noite padecera, de aspeto taciturno e olhar prostrado, alheio ao libelo que sobre ele pendia. O homem havia afrontado a religião de um modo contumaz – exigiam que decretasses a sua execução.<br />
Na verdade os poltrões mais não faziam do que estender-te uma cilada política, como de costume um pouco grosseira. Os fariseus queriam ver o homem morto mas não queriam matá-lo. E queriam-no morto, não por causa dos seus crimes, mas como moeda de troca por algo mais valioso – nunca saberás se eles perceberam que tu havias entendido o manejo desde o primeiro instante.<br />
Nenhum dos titulares que ali se mostrava desconhecia a tua relutância em te envolveres nos intricados enredos teológicos, mas deste curso à farsa procedendo a um interrogatório breve e meramente retórico. Às tuas perguntas, o Jesus da Galileia nascido na Nazaré, assim se chamava o réu, retorquiu com enigmas, tal como esperavas e era o habitual naqueles processos onde predominavam os delírios espirituais e a razão não era substantiva. Em vez de te exasperares, lançaste a questão final, não para cabal esclarecimento mas para exibires a tua argúcia e vincares o teu cinismo:<br />
– O que é a verdade?<br />
Ao que o acusado disse nada.<br />
Concluíste o pretenso julgamento simulando ingenuidade e recusando proferir qualquer sentença – não havia motivo para condenar o homem. Para ainda mais exasperares a corja ululante, evocaste um detalhe processual: se este Jesus era galileu, então estava sob a alçada de Herodes – ele que decidisse.<br />
Assim encerraste o primeiro ato da impostura, elevando a parada a teu favor. A tua inteligência divertia-se com estas maquinações.<br />
Tu sabias o que na realidade pretendiam os saduceus e os filisteus ao porem diante de ti aquele pobre homem como mero peão do seu jogo, cobardemente evitando enunciar o nome e a questão que deveras os inquietava.<br />
Eles não ignoravam a tua prudência nem o carácter discricionário dos teus poderes, por isso mesmo iam tentando conduzir-te com falácias e ardis a tomares uma deliberação que não ousavam pronunciar.<br />
Todas sabiam que Herodes seria incapaz de sentenciar o quer que fosse, não por destreza em esquivar-se de sarilhos, mas por lhe tremerem as mãos e estontear o coração na hora de tomar decisões.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" title="The-Execution-of-Christ2" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/The-Execution-of-Christ2-500x353.jpg" alt="" width="500" height="353" /></p>
<p>Não era passada uma hora e de novo se puseram a bradar à tua soleira. Que o vil Jesus deixara Herodes perplexo com o seu obstinado silêncio e o rei to enviava de volta para que a lei fosse aplicada.<br />
Era agora a tua vez de usufruíres da tua superioridade. No puro gozo de ofenderes os pruridos religiosos dos fariseus e só para retardar o desfecho que eles queriam rápido, propuseste castigar com rigor o Jesus e depois libertá-lo, o que te parecia suficiente justiça – muito te encantou o esgar de angústia que perpassou pelos rostos abjectos dos piedosos acusadores.<br />
A fraude atingira o seu apogeu, era chegado o momento de lançares o repto final: irias dar-lhes o que queriam sem nada lhes dares; irias destituir os príncipes do seu poder, comprometendo-os sem te comprometeres; irias executar uma sentença sem a ter proferido – o povo que escolhesse quem deveria morrer naquele dia.<br />
Então declamaste o nome nunca dito mas sempre presente em toda esta conspiração – Bar-Abbas. O sedicioso e feroz zelota que todos temiam, o campeão da populaça contra os grandes, os que pactuavam com Roma, o assassino de publicanos, o estrénuo defensor da fé, inimigo mortal da cupidez dos fariseus – Bar-Abbas. Aquele de quem todos se queriam ver livres e aplacar a cólera incendiária que tornava imprevisíveis os humores populares – Bar-Abbas. O facínora que na prisão seria um mártir, uma fonte de complicações, um constante sobressalto, mas na rua poderia ser assassinado no sossego de uma esquina – Bar-Abbas.<br />
Três vezes perguntaste à multidão: Bar-Abbas ou Jesus? E por três vezes a rua aclamou o nome de Bar-Abbas.<br />
Num gesto premeditado mandaste vir uma bacia de água e lavaste nela as tuas mãos – o efeito foi extraordinário.<br />
Mais uma vez a Águia de Roma revelou o seu poderio.<br />
Depois de te refrescares, ao princípio da tarde desceste de surpresa ao pátio da caserna onde um centurião mal pronto e — pareceu-te — um pouco embriagado, te foi explicando que os legionários vergastaram durante horas o pobre homem, aliviando nas suas costas a ansiedade que neles foi gerada pelas tensões da páscoa. O Jesus estava ali a um canto, de mãos atadas a uma cana rachada, coberto por uma túnica jocosa onde se ia coagulando o sangue da contínua chaga que era o seu dorso e com uma coroa de espinhos cravada na fronte. Embora a sua aparência fosse bastante ridícula, pois era este o propósito humilhante daquele entrudo, o desgraçado mantinha uma pose que não dirias insubmissa porque não era altiva, mas desligada, quase serena, como se estivesse em paz com a crueldade de que fora vítima – um cordeiro pronto para o sacrifício.<br />
Num bocado de pele escrevinhaste INRI e mandaste-a afixar na cruz onde o homem haveria de ser retesado até à morte.</p>
<p>Não foi sereno nenhum dos dias que passaste na abominável Judeia, onde tudo é tão calculado quanto efémero. Para o Império acabar de vez com este insignificante assunto bastaria reduzir a escombros o templo dos judeus, deixando em cinzas o que sobrasse. Esmagada a cabeça, o povo dispersaria os seus membros e, tal como Cartago, acabaria por desaparecer da face da terra. Sem adeptos concretos nenhum deus abstrato subsiste e assim se dissiparia também a infame religião de israel – sem que dela ficasse rasto.<br />
Não há sombra que obscureça a glória eterna de Júpiter e de Roma.</p>
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		<title>Melhor, pior e outras estranhas desgraças livrescas</title>
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		<pubDate>Sun, 17 Apr 2011 03:09:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[É difícil concedermos que seja assim, mas se quisermos ser honestos e desimpedidos com os factos, a verdade obriga a reconhecermos que as coisas mais marcantes (importantes?) que lemos (ou vimos, ou ouvimos), as que mais nos influenciaram – e geralmente para o Mal, pois o Bem não se dá por ele a entrar – [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_27010" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-27010" title="39-19-10/34" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/annibale-carracci-hercules-strangling-the-serpent-1600-500x558.jpg" alt="" width="500" height="558" /><p class="wp-caption-text">Annibale Carracci, “Hércules estrangulando as serpentes”, 1600</p></div>
<p style="text-align: justify;">É difícil concedermos que seja assim, mas se quisermos ser honestos e desimpedidos com os factos, a verdade obriga a reconhecermos que as coisas mais marcantes (importantes?) que lemos (ou vimos, ou ouvimos), as que mais nos influenciaram – e geralmente para o Mal, pois o Bem não se dá por ele a entrar – raríssimas vezes são as que desejaríamos, as que prevíramos, as que nos aconselharam como fundamentais, as que mais nos comoveram e até apaixonaram ao atingirmos a última linha.<br />
Não, a maior parte das vezes é a semente daninha de uma infestante, caída entre pedras, que vai crescendo na sombra, alastrando as raízes debaixo de terra e sem nada estragar nem se denunciar, um dia reparamos que foi essa erva nefasta que sempre lá esteve e nos cravou os seus filamentos de um modo tão fundo a ponto de agora sermos o que somos por obra dela.<br />
Resguardei-me todos estes anos de admitir o que sou hoje forçado a reconhecer, que o “mais estranho melhor livro” que li foi <strong>Vipère au poing</strong> (traduzido como “De víbora na mão”) de Hervé Bazin.<br />
“Estranho” porque está longíssimo de qualquer galarim; timidamente o tentaram elevar ao céu da literatura mas debalde o fizeram, pois o romance foi publicado, com enorme popularidade, em 1948 ou seja, no centro daquele buraco negro do séc. XX europeu que vai do final da guerra em 45 até aos primeiros sinais de regresso à vida na Alemanha {refCit}simbolicamente{/refCit} marcados pela vitória no campeonato mundial de futebol em 1954 na Suíça. Anos de profundo silêncio e nulos de história – reconstruía-se.<br />
{textCit}Não é bizarria minha esta datação, a patente foi registada por Fassbinder em <strong>Die Ehe der Maria Braun </strong>(O Casamento de Maria Braun) sobretudo no apoteótico (embora em forma de anti-climax) plano-sequência final em que a câmara vagueia pela casa vazia, enquanto ouvimos o relato radiofónico desse jogo de futebol, uma das mais impressionantes finais de um mundial.{/textCit}<br />
Além da má época em que o livro foi escrito, o seu autor foi prolífico, bem acolhido pelos leitores, academizado, estimado mesmo, mas remetido para o rodapé das <em>lettres françaises </em>alguns segundos após o seu funeral.<br />
<strong>Vipère au Poing </strong>poderia ter sido “O Leopardo” francês, mas faltou-lhe o sentido de oportunidade, o filme e a frase lapidar. Não conheço mais ninguém que o tenha lido, muito menos comentado, nunca ouvi falar dele nem do seu autor, como se o livro tivesse vindo parar às minhas mãos vindo do nada, trazido por um demónio e ao nada voltasse sem outro rasto na terra que não em mim.<br />
“O melhor” porque a minha testosterona devia estar emboscada à espera desta oportunidade para soltar as suas iniquidades dentro dos meus 14 anos. Quando acabei de o ler, mais ou menos às escondidas, entre “Jubiabá” e a então célebre e inconveniente antologia de poesia erótica de Natália Correia, toda a inocência se havia dissipado, o plúmbeo mal-estar da puberdade condensou-se como as nuvens num quadro de Turner e o flanco ficou aberto para todas as torpezas intelectuais que lá vinham e só estavam à espera que o 25 de Abril lhes franqueasse a porta e as pusesse na moda: Wilhelm Reich, Arrabal, Lautréamont, a pior {refCit}tresleitura{/refCit} possível de Pasolini&amp;Godard&amp;Bergman, Mao ainda Tsé Tung, mais tarde Zedong, Albert Ayler, Marcuse, as graçolas de André Breton e para sobremesa os horripilantes Yes ou os petulantes Van Der Graff Generator, senão coisas piores como Magma ou Tangerine Dream, todas pedirem pastilhas coloridas.<br />
{textCit}Eles também estavam a pedi-la…{/textCit}<br />
E omito deliberadamente o mais difícil: as longínquas miúdas, nascidas para nos atormentar com a indiferença, os risinhos entre elas a gozarem, as esquivas medrosas em nome do pai e só ariscas com os das motos.<br />
Pode um livro mudar tudo na vida de uma pessoa? Este pôde. Seria caso para tanto? Certamente que não noutras circunstâncias, calharam-nos estas, eu tenrinho e <strong>Vipère au Poing </strong>maduro.<br />
Um ano depois da morte de Hervé Bazin a sua filha Catherine edita o fugaz ajuste de contas intitulado <strong>La Fille Indigne </strong>descrevendo-o com tintas tão negras quanto as que ele usou para falar da víbora – a história reproduz-se.<br />
Ao cabo desta prosa não disse nada sobre o livro. Foi de propósito, não consigo falar sobre o que não posso dizer.</p>
<p style="text-align: justify;">PS– Um, dó, li, tá, quem está livre está. Fica a Teresa, portanto. </p>
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		<title>Qual é o verdadeiro tamanho do nosso problema?</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Apr 2011 17:38:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[ATO I Em 1967 a Força Aérea Alemã construiu uma base aérea em Beja, tendo operado nela até 1993. A partir dessa data passou a ser utilizada apenas pela Força Aérea Portuguesa, nela sediando 3 esquadras, os “Lobos”, os “Caracóis” e os “Zangãos” (informação de 2009). Foi considerado que a Base Aérea de Beja poderia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">
<div id="attachment_26927" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-26927" title="burri_-_nero_cretto_1974" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/burri_-_nero_cretto_19741-500x562.jpg" alt="" width="500" height="562" /><p class="wp-caption-text">Alberto Burri, “Nero cretto”, 1974</p></div>
<p style="text-align: justify;">
<strong>ATO I</strong></p>
<p>Em 1967 a Força Aérea Alemã construiu uma base aérea em Beja, tendo operado nela até 1993. A partir dessa data passou a ser utilizada apenas pela Força Aérea Portuguesa, nela sediando 3 esquadras, os “Lobos”, os “Caracóis” e os “Zangãos” (informação de 2009).</p>
<p>Foi considerado que a Base Aérea de Beja poderia converter-se num proveitoso aeroporto comercial.</p>
<p>Assim foi constituída em 2000 a Empresa de Desenvolvimento do Aeroporto de Beja (EDAB) com o fito de transformar (parcialmente) o aeródromo em aeroporto civil.</p>
<p>Em 2009 as obras estavam em fase de conclusão: um terminal pronto a entrar em funcionamento com todos os equipamentos necessários – um terminal completo: balcões de <em>check-in</em>, tapetes rolantes de bagagens, pórticos de detetores de metais, etc….</p>
<p>Em 2010 o Tribunal de Contas procede a uma auditoria à EDAB e conclui que:<br />
1)         A construção foi adjudicada por €24,2 milhões mas custou €26,5 milhões;<br />
2)         Entre 2002 e 2009 acumulou €4 milhões de custos de estrutura / funcionamento   devido aos atrasos do início de operacionaldiade;<br />
3)         Para começar a funcionar e para cobrir os previsíveis défices de exploração seria necessário investir mais €39 milhões.<br />
4)         A EDAB “<em>empresa pública, constituída sob a forma de sociedade anónima, nunca apresentou qualquer plano de negócios, acumula prejuízos há quase dez anos e opera num quadro de total incerteza de viabilidade económica e financeira</em>” dado “<em>não existirem ainda as necessárias acessibilidades, os empreendimentos turísticos não serem visíveis e as áreas de potenciais negócio se encontrarem por definir</em>”.</p>
<p style="text-align: justify;">O aeroporto ainda não está certificado.</p>
<p><strong>ATO II</strong></p>
<p>Ontem, dia 13 de Abril de 2011 o aeroporto funcionou pela primeira vez.</p>
<p>Recebeu um voo da TACV (companhia aérea de Cabo Verde), promovido pela Câmara Municipal de Ferreira do Alentejo, que pôs à venda não só um pacote turístico, como bilhetes ao custo promocional de €300, quando o preço normal fica entre €600 e €500.</p>
<p style="text-align: justify;">Porquê esta entidade? Porque está geminada “<em>com o município de São Filipe, na ilha do Fogo</em>”, afirmou o Presidente da autarquia.</p>
<p style="text-align: justify;">Embarcaram 70 pessoas – metade da lotação do avião.<br />
30 passageiros eram cabo verdianos que aproveitaram o preço em conta da viagem.<br />
40 passageiros integraram uma missão empresarial e institucional.</p>
<p style="text-align: justify;">O Presidente da Câmara de Beja colocou autocarros à disposição do povo para ir ver o avião.</p>
<p>O responsável pelo terminal civil afirmou:<br />
“<em>Foi um dia feliz para a cidade de Beja e para o aeroporto.</em>”<br />
“<em>Entidades de várias áreas que querem investir no aeroporto</em>.”<br />
Em Maio vai haver “<em>voos trabalhados entre a ANA, a Força Aérea e o Instituto Nacional de Aviação Civil.</em>”<br />
“<em>Estamos convictos de que</em> [o aeroporto] <em>terá futuro e vamos trabalhar nesse sentido</em>.”<br />
“<em>Temos perspectivas de outros destinos para o Verão de 2012.</em>”</p>
<p>Entre Maio e Outubro estão previstos 20 voos <em>charter</em> entre Londres e Beja – 1 por semana.</p>
<p>Entretanto o Financial Times de ontem tranquilizava os seus leitores acerca da situação económica portuguesa: “<em>It’s terrible for Portugal but not for the Euro</em>”.</p>
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		<title>Aquilo naquilo, parte IV (coevos)</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/04/aquilo-naquilo-parte-iv-coevos/</link>
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		<pubDate>Sun, 10 Apr 2011 02:25:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Aos anos que isto foi, quando aquilo era visto assim, sem mais nem menos. Era lá nas bordas do Nilo.                                                                                                                                                                                                  Muito mais para leste, onde os olhos ficam em bico, naquilo fazia-se com asseio e distinção. Eram bons modos os dos antigos. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Aos anos que isto foi, quando <strong><em>aquilo</em></strong> era visto assim, sem mais nem menos. Era lá nas bordas do Nilo.</p>
<p><img class="aligncenter size-large wp-image-26725" title="08-01-11/68" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/aquilo-31-500x330.jpg" alt="" width="500" height="330" /></p>
<p>                                                                                                                                                                                                 <img class="alignleft size-full wp-image-26721" title="aquilo 2" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/aquilo-21-e1302400745526.jpg" alt="" width="292" height="172" /><img class="aligncenter size-full wp-image-26722" title="aquilo" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/aquilo.jpeg" alt="" width="254" height="198" /></p>
<p style="text-align: justify;">Muito mais para leste, onde os olhos ficam em bico, <strong><em>naquilo</em></strong> fazia-se com asseio e distinção. Eram bons modos os dos antigos. </p>
<p><img class="size-medium wp-image-26731 aligncenter" title="aquilo 6" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/aquilo-61-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></p>
<p><img class="alignright size-medium wp-image-26734" title="aquilo 5" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/aquilo-51-300x320.jpg" alt="" width="300" height="320" /><br />
<img class="alignleft size-medium wp-image-26733" title="aquilo 4" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/aquilo-42-300x215.jpg" alt="" width="300" height="215" /></p>
]]></content:encoded>
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		<title>A capela</title>
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		<pubDate>Sun, 10 Apr 2011 01:25:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Se me perguntassem qual era o lugar mais belo feito pelo homem do séc. XX, depois de hesitar responderia a Capela Rothko, onde tudo é perfeito e onde se precipitou o melhor da conturbada modernidade. No meio do nada, ou seja em Houston, o casal Jean, mais tarde John, e Dominique de Menil, franceses, católicos, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-large wp-image-26715" title="rothko" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/rothko-500x384.jpg" alt="" width="500" height="384" /><br />
Se me perguntassem qual era o lugar mais belo feito pelo homem do séc. XX, depois de hesitar responderia a Capela Rothko, onde tudo é perfeito e onde se precipitou o melhor da conturbada modernidade.<br />
No meio do nada, ou seja em Houston, o casal Jean, mais tarde John, e Dominique de Menil, franceses, católicos, refugiados no Texas da invasão nazi, milionários, filantropos e patronos das artes, convidaram o pintor Mark Rothko a dar corpo a um espaço de meditação obrigatoriamente religioso mas ecuménico, onde indivíduos ou pequenas congregações pudessem dar graças ao seu deus, pedir-lhe paz e agradecer-lhe dons.<br />
Rothko pintou 14 telas, entre as quais 3 trípticos, obras densas, quase monocromáticas, concebidas na fase terminal — e desesperada — da vida do pintor. Delas, só pelas fotografias, adivinha-se o fervor, o enlevo e a placidez, sensações contraditórias mas sempre possíveis vindas de quem vêm.<br />
<img class="aligncenter size-large wp-image-26710" title="RothkoChapel" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/RothkoChapel-500x336.jpg" alt="" width="500" height="336" /><br />
À volta dos quadros de Rothko, e com alguns acidentes conceptuais à mistura, ergue-se a capela em forma octogonal e revestida a brique. Uma forma depurada, quase severa, sem o menor adorno, fazendo parte da natureza, a inspirar despojamento e simplicidade. Não deixa de surpreender que o traço deste corpo sólido tenha saído da mão de Philip Johnson, um dos campeões da arquitectura contemporânea, que deixou alguns dos mais imponentes <em>corporate buildings </em>do séc. XX, majestosas catedrais de aço e vidro: o Seagram em Nova Iorque, o IDS em Minneapolis, o PPG Place em Pittsburgh (o meu favorito) e a vertiginosa Puerta de Europa em Madrid.<br />
Anexo à capela está um jardim, nele há um lago comprido, dentro do qual se eleva o “obelisco quebrado” de Barnett Newman, uma escultura d’aço em memória de Martin Luther King.<br />
Inspirado por tudo isto Morton Feldman escreveu uma das suas mais puras obras musicais, a “Rothko Chapel”, precisamente.<br />
Tanta beleza junta e concordante – neste lugar o céu deve tocar na terra.</p>
<p> <iframe title="YouTube video player" width="480" height="390" src="http://www.youtube.com/embed/qxSt_w2ODaQ" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
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		<title>As Sibilas</title>
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		<pubDate>Mon, 04 Apr 2011 11:00:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Agora que a Senhora D. Agustina Bessa-Luís feneceu para a literatura e somente o ingrato corpo ainda se mantêm trabalhando, será talvez de olhar em redor o ver o que fica – tão pouco! Mas se em má hora se prepara Agustina para nos abandonar à nossa sorte, ainda assim devemos ficar gratos ao destino [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="alignleft size-full wp-image-26449" title="sem título 1" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/sem-título-1.png" alt="" width="193" height="280" /><br />
Agora que a Senhora D. Agustina Bessa-Luís feneceu para a literatura e somente o ingrato corpo ainda se mantêm trabalhando, será talvez de olhar em redor o ver o que fica – tão pouco!<br />
Mas se em má hora se prepara Agustina para nos abandonar à nossa sorte, ainda assim devemos ficar gratos ao destino – não gosto nada desta palavra, mas ela gosta – por ser de toque a pedra de remate da casa de palavras que ela vinha acabando.<br />
“A Ronda da Noite” é um romance quase fabuloso, porque quase toca na fábula, de tal modo se enrodilha o seu enredo no tempo e nas personagens e não no surpreendia nada que ao virar da folha começassem os bichos a falar.<br />
O romance tem um ritmo descompassado, cheio de elipses furtivas, deixando-nos perplexos, a páginas tantas sem sabermos muito bem a que década pertencem os episódios romanescos. Isto, que noutras mãos estaria à beira do desconchavo, saído dos pálidos dedos de Agustina é um jogo do gato e do rato com o leitor. Que se trata de uma deliberação em vez de falta de norte narrativo, pode ser afirmado, não é por causa da autoridade do nome, é porque de vez em quando a autora levanta uma cortina e mostra-nos a mecânica das coisas. Depois deixa-a cair e recomeça a iludir-nos. </p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-26460" title="Sem Título 3" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/Sem-Título-31.png" alt="" width="651" height="263" />Imperial ao centro do romance ergue-se o quadro “A ronda da noite” e tão singular e absorvente é a sua presença que as personagens, os Nabasco, só aparecem porque se intrometem no seu raio de ação.A tela é um monstro, do tamanho do original, se não maior, que só cabe em parede de casa grande e tão fiel é à matriz que a certa altura se levanta a tese de que foi executado pelo próprio Rembrandt. Para melhor nos fazer andar à roda, o quadro vai recebendo várias teorias interpretativas ao longo do romance, e todas parecem mais dirigidas aos Nabasco que à obra do holandês.<br />
O caráter obsessivo que invade “A ronda da noite”, tanto pela figura de Martinho como pelo punho da narradora quando se detém a olhar para a pintura, os fios soltos e as pistas falsas que o suposto enredo vai largando, os túneis temporais atravessados sem aviso, a cópia de pormenores irrelevantes praticados pelos protagonistas, tudo isto não seriam já sinais, ou premonições do mal que vai corroendo Agustina?<br />
<img class="aligncenter size-full wp-image-26463" title="Sem Título 4" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/Sem-Título-4.png" alt="" width="671" height="335" />A prolífica obra de Bessa-Luís é (como todas…) uma serra com os seus cumes, vales sombrios e matagais; nos primeiros o ar é mais leve e vê-se tudo à volta, nos segundos e terceiros só lá vai quem quer e quem precisa de desbravar mato, sabendo-se que a safra não será de proveito imediato. “A ronda da noite” assenta bem lá no alto.<img class="alignright size-full wp-image-26472" title="Sem Título 5" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/Sem-Título-52.png" alt="" width="223" height="257" /></p>
<p>Deixei-me levar – mais uma partida que Agustina me prega. A ideia inicial deste post era revelar o nome que me parece receber em suas mãos o facho literário da Mulher do Norte. Mas como já vai longo, contarei noutra ocasião o segredo da elusiva Teresa Veiga.</p>
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		<title>Ilustres, eminentes &amp; detestáveis — Zurbarán</title>
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		<pubDate>Sat, 02 Apr 2011 22:00:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Introdução Se nem tudo que reluz é oiro, também nem sempre o oiro é querido. Há obras que é impossível desconsiderar e são forçosamente admiráveis. Todavia entre a admiração e o amor vai um salto que pode ser de pulga mas tem o comprimento da sensibilidade de cada um. O que vos proponho é que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="mceTemp mceIEcenter" style="text-align: justify;">
<div id="attachment_26426" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><a href="Zurbarán, &quot;S. Francisco em meditação&quot;, 1639"><img class="size-large wp-image-26426" title="zurbaran" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/zurbaran1-500x594.jpg" alt="" width="500" height="594" /></a><p class="wp-caption-text">Zurbarán, “S. Francisco em meditação”, 1639</p></div>
<p><strong><em>Introdução</em></strong><br />
<em>Se nem tudo que reluz é oiro, também nem sempre o oiro é querido. Há obras que é impossível desconsiderar e são forçosamente admiráveis. Todavia entre a admiração e o amor vai um salto que pode ser de pulga mas tem o comprimento da sensibilidade de cada um. O que vos proponho é que detestem comigo alguma arte que embora genial e magnífica, não deixe de causar repulsa.</em><br />
_______________________________________</p>
</div>
<p style="text-align: justify;">As línguas ibéricas às vezes têm coisas bárbaras, como por exemplo, designarem com a mesma palavra a carne-animada-humana e a carne-animal-comestível, ao contrário da <em>flesh</em>/<em>meat</em> inglesa ou da <em>chair</em>/<em>viande</em> francesa. Talvez não seja um acaso mas o modo de ser próprio de quem com tanta força abraçou a Contra Reforma e a sua Inquisição, para a qual a matéria, sobretudo a carnal, era um contratempo, uma provocação, um obstáculo à espiritualidade.<br />
Expoente desta atitude foi Francisco de Zurbarán. O domínio da luz? Perfeito. E uma perfeita ironia dir-se-á, porque é sabido que de tanto ouvir os seus mestres elogiar o exasperado dramatismo da composição luminosa de Caravaggio e sem nunca ter visto – talvez uma reprodução – qualquer obra do infame milanês, conseguiu tão bem como ele, por razões diametralmente opostas, iluminar as figuras retiradas das trevas. Mas se em Caravaggio a tensão da luz é uma vitória da vida e do prazer, em Zurbarán é a prova de que a existência terrena é um terrível negrume contra o qual só pode vibrar a claridade de um pequeno instante de contemplação.</p>
<div id="attachment_26421" class="wp-caption aligncenter" style="width: 400px"><img class="size-full wp-image-26421" title="ZURBAR~3" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/ZURBAR3.jpg" alt="" width="390" height="600" /><p class="wp-caption-text">Zurbarán, “S. Francisco ajoelhado”, 1635–39</p></div>
<p style="text-align: justify;">Admirem-se estas visões de S. Francisco, não o suave e prazenteiro santo que pregava aos animais, mas o glauco asceta rojando na pobreza. Não há aqui uma centelha de felicidade, apenas sofrimento material, ansiando a libertação da morte. Os olhos (os célebres “espelhos da alma”) escondem-se de nós, suplicam para cima ou pendem sobre a caveira.<br />
Não deve ter havido outro pintor como Zurbarán que pusesse tanto peso e tanta escassez de ornamento nos panos que vestem o corpo. E será este o ponto mais alto da sua arte, conseguir de um modo tão despojado revelar a emoção numa prega de tecido grosseiro, dar sentido filosófico aos remendos, produzir enorme efeito trágico num modestíssimo hábito fradesco.<br />
Zurbarán foi contemporâneo de Velasquez, apenas um ano mais velho. Maior não podia ser a diferença; se em Diego tudo é delicado, gentil e contidamente elegante, em Francisco, imperam a crueza e uma severidade que hoje apodaríamos de sado-masoquista. Velasquez era um cortesão, ao passo que Zurbarán quase só recebia encomendas monásticas, de ordens poderosas, mas de estrita ortodoxia na representação da vida.<br />
Os românticos impressionavam-se muitíssimo com Zurbaran: “uma sombria e trágica rigidez”. Eles bem sabiam que se falhassem, o mundo voltaria ser assim horrendo.</p>
<div id="attachment_26422" class="wp-caption aligncenter" style="width: 458px"><img class="size-full wp-image-26422 " title="zurbaran Meditation_of_St_Francis_f" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/zurbaran-Meditation_of_St_Francis_f.jpg" alt="" width="448" height="670" /><p class="wp-caption-text">Zurbarán, “Meditação de S. Francisco”, 1632</p></div>
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		<title>Sempre com um livro, nem sempre na mão</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Apr 2011 11:00:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Se não tivéssemos pressa tínhamos ido a pé. Foi por isso que apressadamente pensámos que era um táxi como os outros, esquecendo com a impaciência que não há dois táxis iguais. Nova Orleães tem muito que ver na primeira visita, Bourbon Street para baixo e para cima sempre eufórica, até percebermos, à segunda ou à [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_26377" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-26377" title="don eddy" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/don-eddy-500x365.jpg" alt="" width="500" height="365" /><p class="wp-caption-text">Don Eddy, “Untitled (Volkswagen)”, 1971</p></div>
<p style="text-align: justify;">Se não tivéssemos pressa tínhamos ido a pé. Foi por isso que apressadamente pensámos que era um táxi como os outros, esquecendo com a impaciência que não há dois táxis iguais.<br />
Nova Orleães tem muito que ver na primeira visita, Bourbon Street para baixo e para cima sempre eufórica, até percebermos, à segunda ou à terceira, que a cidade acaba em Bourbon Street. Depois aborrece.<br />
Já não me recordo muito bem, mas houve uma senhora nórdica que nos pediu boleia porque ia para o mesmo hotel; a festa estava uma lástima e o dia seguinte iria ser muito trabalhoso. Por deferência e para os deixar mais à vontade, ocupei o lugar do morto. Lá fomos.<br />
Embora entorpecido pelo cansaço, o silêncio no interior do automóvel permitiu-me reparar nalguns pormenores. Primeiro, que o motorista era jovem, caucasiano, com o aspecto simplificado dos tardo-hippies, um produto típico da decadente Nova Orleães. Ora um taxista de etnia branca nos EUA é não só uma raridade como um contratempo: o que eu aprendi sobre zoroastrismo com os persas de Los Angeles, como cozinhar o<em> hummus </em>perfeito com os sírios de Nova Iorque ou sobre a geo-estratégia do corno de África com um eritreu em Las Vegas. A bem da verdade, não posso omitir que também adquiri alguns conhecimentos mais elaborados sobre a vida privada dos futebolistas com alguns beirões em Lisboa.<br />
Portanto a viagem anunciava-se monótona, a não ser o segundo pormenor que me prendeu a atenção: sobre o tablier do carro havia uma pilha de livros fininhos – pareciam de poesia.<br />
“Tantos livros”, lancei a fazer conversa, “são de poesia” respondeu-me o motorista com precaução, não fosse a bizarria espantar os clientes. Armei-me em bom e revelei o meu apreço por Gingsberg (pareceu-me apropriado), Whitman (“I sing the body electric”) ou Elliot ((“We are the hollow man”) – fui mesmo petulante ao ponto de citar estes versos. Nisto do banco de trás o meu companheiro desatou a declamar um poema de Larkin. A executiva nórdica estava atónita, não sei se apavorada, e o taxista enlevado.<br />
A pergunta do costume: “where are you from?” E dada a resposta, o rapaz referiu Pessoa. Disse-lhe que continuava a haver bons poetas contemporâneos em Portugal, Herberto Helder, por exemplo. Neste ponto o motorista exprimiu aquela peculiar alegria que só um súbito sentimento de ignorância pode proporcionar: queria conhecer Herberto Helder; estava traduzido em inglês? Não importa; que eu escrevesse o nome e a editora num papel – e ficou parado num sinal verde à procura do lápis no porta luvas – que ele se desenvencilharia para dar com os livros.<br />
Só não ficámos amigos porque a viagem terminou pouco depois.<br />
Entusiasmada, a nórdica despediu-se entregando-nos o seu cartão de vista.<br />
Não é forçoso andar com um livro sempre na mão, pode ser no automóvel.</p>
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		<title>Asseio</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Mar 2011 23:45:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Sempre quis ter um quadro de Angelo de Sousa. Não fui eu que pedi, foi a pintura dele que me chamou. Quando vejo uma tela dele, vejo logo que é dele e fica tudo mais claro e simples em redor – deve ser do branco e das cores limpas. Pressinto também uma emboscada: a de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="mceTemp mceIEcenter" style="text-align: justify;">
<div id="attachment_26263" class="wp-caption aligncenter" style="width: 590px"><img class="size-full wp-image-26263" title="angelo sem título (10 quadros para o ano 2000), 1986" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/angelo-sem-título-10-quadros-para-o-ano-2000-19862.jpg" alt="" width="580" height="390" /><p class="wp-caption-text">Ângelo de Sousa, “Sem título (10 quadros para o ano 2000)”, 1986</p></div>
<p>Sempre quis ter um quadro de Angelo de Sousa. Não fui eu que pedi, foi a pintura dele que me chamou.<br />
Quando vejo uma tela dele, vejo logo que é dele e fica tudo mais claro e simples em redor – deve ser do branco e das cores limpas. Pressinto também uma emboscada: a de acreditar que estou diante de um exercício de pureza, de uma procura do que é essencial ou ainda – o que seria mais ingénuo – de ouvir a música de Mondrian no equilíbrio das formas.<br />
“Pureza”, “essência”, “Mondrian”, “equilíbrio”– nada disso acontece nesta pintura. Há uma alegria sem sombras, sim, donde o poder que ela tem sobre a nossa atenção, capaz de franquear a nossa disponibilidade. Haverá alguma ironia sem sarcasmo, porque as tais formas grandes que enchem o espaço da tela não partem de nenhum centro de gravidade, nem se acomodam entre si com as inocências da harmonia. É tudo muito liso e direito e no entanto parece que se move como um glaciar. Apenas não sabemos para onde quer ir.<br />
Mas aquilo que mais afasta Ângelo de Sousa do formalismo é o desprendimento, o qual, como se sabe, não quer dizer descuido. Depois de verem o que ele faz, oiçam-no: “Não quero salvar ninguém. Se for preciso empurrar, empurro, faço o melhor possível. Mas não tenho a ideia de que vou salvar o mundo, não tenho ideias de apóstolo.”</p>
<div id="attachment_26264" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-26264" title="angelo 1-II-5-G," src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/angelo-1-II-5-G3-500x422.jpg" alt="" width="500" height="422" /><p class="wp-caption-text">Ângelo de Sousa, “1-II-5-g”, s.d.</p></div>
</div>
<div class="mceTemp mceIEcenter"></div>
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		<title>O gato esfolado</title>
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		<pubDate>Tue, 29 Mar 2011 23:24:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Quando o funeral de Eça de Queiroz entrou no Rossio, lá estava ele à esquina da Rua Augusta, de gravata bem vermelha, num garrido insulto ao pesar exibido compungidamente por todas as solenidades. Ele era Fialho de Almeida, auto-arvorado em nemesis de Eça pela raiva que lhe tinha. Esta figura, menoríssimo escritor, pois o que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-medium wp-image-26227" title="cr_fialho-de-almeida1" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/cr_fialho-de-almeida1-300x511.jpg" alt="" width="300" height="511" /><br />
Quando o funeral de Eça de Queiroz entrou no Rossio, lá estava ele à esquina da Rua Augusta, de gravata bem vermelha, num garrido insulto ao pesar exibido compungidamente por todas as solenidades.<br />
Ele era Fialho de Almeida, auto-arvorado em<em> nemesis </em>de Eça pela raiva que lhe tinha. Esta figura, menoríssimo escritor, pois o que lhe sobrava em <em>verve</em> e recorte estilístico faltava-lhe em ânimo literário, quem mais fez por não a esquecer foi Raul Brandão, sempre piedosamente enternecido pelos rancores, pelo ressentimento eivado de ciúme (donde o ódio a Eça), pelo vitríolo verbal que derramava sobre “a sociedade” – “o nervo” de Fialho de Almeida.<br />
A vida e a obra ou não-obra de Fialho de Almeida é de muito proveito e exemplo aos dias de hoje.<br />
Nasceu remediado, filho de um áspero mestre de escola de Vilar de Frades, na Vidigueira, mas cresceu pobre, interno num colégio e depois ajudante de boticário já em Lisboa, acabando por se formar a pulso em medicina, aos 38 anos.<br />
Ou não lhe valeu de nada o canudo ou Fialho o terá desprezado em nome das letras e, sobretudo, a favor de uma vida insalubre de boémia e carrascão, as tardes no Martinho, as noites arrastadas até de madrugada pelas ruas mais ordinárias da cidade, com um bando de compinchas de igual nota à arreta. De vez em quando iam ao teatro, lá para cima para o galinheiro, donde lançavam chufas sobre os comediantes e os autores até que a guarda viesse expulsa-los de chanfalho em riste.<br />
O mau vinho, a má vida, o mau carácter garantiram a Fialho de Almeida o estatuto de má rês das letras de Lisboa, “um misto de cavador e boémio”, como resume Brandão, espumando contra os êxitos alheios, merecidos ou comprados, sempre encarniçado contra alguém por qualquer motivo e nunca deixando de exibir um acirrado despeito social, não de revolucionário mas de revoltado. E o que deu isto? Deu em panfletos, artigos e peças mordazes, sobre tudo opinando, de espírito agudo e prosa letal, capazes de fazer rir, chorar e ranger os dentes, manipulando com maestria as emoções do leitor.<br />
Tendo escrito um grosso punhado de generalidades genialmente bem escritas, Fialho de Almeida nunca escreveu o livro que prometia conseguir e nunca alcançou. Ficaram “Os Gatos”, um par de contos, nenhum romance.<br />
Assim sobreviveu o escritor até casar com uma menina lá da terra de algumas posses latifundiárias da qual enviuvou dez meses depois. A seguir o medo da miséria levou-o a enterrar-se de volta em Vilar de Frades e em Cuba do Alentejo a tratar das propriedades e de um irmão epilético (“profundamente doente”, como à época se julgava) e virou conservador, mas não menos acrimonioso.<br />
O Alentejo donde Fialho emergiu era por ele odiado com palavras tão azedas como as de Brandão quando, tempos depois da morte do amigo, foi em romaria a Cuba, visitar a casa em que vivera:<br />
“Não passa ninguém nas ruas, que exalam uma tristeza mesquinha e fétida. (…) Sinto-me perto do inferno em que [Fialho] viveu. Saio com a impressão de que todas as almas banais do mundo se juntaram aqui nesta pequena terra concentrada, pesando sobre ele a asfixia e a morte.”<br />
Um exagero de Brandão, influenciado pela amargura de Fialho? Talvez não, pois até Manuel da Fonseca, o mais alentejano de todos os alentejanos que houve, deixou um dia cair este epigrama fulminante: “isto por cá é de enredos teimosos e ódios lentos”.<br />
Fialho de Almeida morreu faz este ano 100 anos redondos. Um exemplo consumado de talento inútil e de qualidades desperdiçadas, ou de como desfazer é não fazer.</p>
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		<title>العرب</title>
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		<pubDate>Sat, 26 Mar 2011 18:28:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Sempre preferimos imaginar os árabes a entendê-los. Talvez seja assim porque em tudo eles nos parecem incompreensíveis. E tanto mais o são quanto mais nos intrigamos com o facto de estando os árabes logo ali defronte de nós; vivendo numa geografia que embora alheia à nossa não é imprevisível; sendo seguidores de um Livro tão semelhante [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_25185" class="wp-caption aligncenter" style="width: 650px"><img class="size-full wp-image-25185 " title="serralho Benjamin-Constant-les nuits Arabes" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/serralho-Benjamin-Constant-les-nuits-Arabes.jpg" alt="" width="640" height="338" /><p class="wp-caption-text">Benjamim-Constant, “Les nuits arabes”, s.d.</p></div>
<p style="text-align: justify;">Sempre preferimos imaginar os árabes a entendê-los.<br />
Talvez seja assim porque em tudo eles nos parecem incompreensíveis. E tanto mais o são quanto mais nos intrigamos com o facto de estando os árabes logo ali defronte de nós; vivendo numa geografia que embora alheia à nossa não é imprevisível; sendo seguidores de um Livro tão semelhante ao que nos formou; pois apesar da proximidade e da contingência, da longa vizinhança que com eles temos, o que sempre vemos é por onde nos separamos, aquilo que mais se nota é a desinteligência que com eles mantemos, quase nada supera desentendimentos e agravos, a história é por norma evocada para explicar o rosário de incompatibilidades por reparar.<br />
Quando os europeus começaram a desembarcar no norte de África como senhores e não apenas como visitantes a partir de 1830, franceses sobretudo, mas ingleses também, olhavam para os árabes com a desarmada ingenuidade dos colonizadores; o que lhes parecia impróprio era para ser civilizado e o que se lhes afigurava como bizarro era colecionado como objeto pitoresco, para um estudo de antropologia. Entre estes exploradores, vinham artistas, para os quais as viagens eram curtos passeios, dada a inclemência do clima, assumidos como expedições para recolha de situações exóticas e tipos extravagantes.</p>
<div id="attachment_25181" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-25181" title="serralho Lecomte_du_Nouy_Gate_of_the_Harem_large" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/serralho-Lecomte_du_Nouy_Gate_of_the_Harem_large1-500x281.jpg" alt="" width="500" height="281" /><p class="wp-caption-text">Jean Lecompte du Nouÿ, “Les portes du serrail”, 1876</p></div>
<p style="text-align: justify;">O que uns viram no Egipto (Lean-Léon Gérôme) não destoava do que outros encontraram em Marrocos (Benjamin-Constant). E como para os artistas aquilo que se vê serve apenas para excitar a fantasia acerca do que não se mostra, o que mais os impressionou foram as pesadas portas que trancavam os serralhos. Para mais, portas guardadas por homens implacáveis, a quem tinham sido retiradas fisiologicamente as paixões, capazes por isso de serem impiedosos com forasteiros indiscretos e relapsos a qualquer sinal de complacência perante os infiéis.</p>
<div id="attachment_25182" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-25182" title="serralho Jean Auguste Dominique Ingres-le bain turc" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/serralho-Jean-Auguste-Dominique-Ingres-le-bain-turc-500x514.jpg" alt="" width="500" height="514" /><p class="wp-caption-text">Ingres, “Le bain turc”, 1862</p></div>
<p style="text-align: justify;">O que se passava portas adentro, era pois totalmente inacessível aos europeus, pelo que se permitiam delirar com o que acontecia detrás daquelas grossíssimas paredes, onde resguardadas da vista, com a total liberdade de quem se sabe imperturbável, mulheres se refrescavam e perfumavam todo o dia, à espera da noite, na esperança de serem as escolhidas para contentarem de carícias e deleites os seus poderosos amos.</p>
<div id="attachment_25190" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-25190" title="serralho theodore chasseriau, le harem, 1851-52-jpg" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/serralho-theodore-chasseriau-le-harem-1851-52-jpg-500x626.jpg" alt="" width="500" height="626" /><p class="wp-caption-text">Theodore Chasseriau, “Le harem”, 1851–52</p></div>
<p style="text-align: justify;">Os pobres pintores franceses, gerados nas terras húmidas do cristianismo setentrional, encontraram no levante – onde é sempre meio dia, o sol vertical, uma languidez, a sesta – ocasião para se desagrilhoarem do puritanismo e executarem imagens tão sensuais e de tal carnalidade, que hoje diríamos só ser possível terem escapado ao escândalo porque se limitavam a revelar os sonhos lúbricos que às escondidas afectavam<em> tout le monde civilisé</em>. Ah sim, e porque traziam tranquilidade aos espíritos por saberem que as coisas não são assim entre nós.</p>
<div class="mceTemp mceIEcenter" style="text-align: justify;">
<dl id="attachment_25183" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px;">
<dt class="wp-caption-dt"><img class="size-large wp-image-25183" title="serralho benjamin-constant favorite du emir" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/serralho-benjamin-constant-favorite-du-emir-500x314.jpg" alt="" width="500" height="314" /></dt>
<dd class="wp-caption-dd">Benjamin-Constant, “La favorite de l’emir”, 1879</dd>
</dl>
</div>
<p style="text-align: justify;">Claro que este mundo árabe de prostração diurna e exacerbados prazeres nocturnos, para mais feito de mulheres, esses seres só de emoções e escassa razão, como era seguro serem no séc. XIX, e vigiadas por taciturnos castrados, refervilhava de intrigas, invejas e maldades. Onde não havia sombra de castidade e o ócio era perpétuo, a norma teria que ser a imoralidade e o crime um acidente do destino. Haveria de valer pouco a vida feminina de tão submetida que era aos caprichos e apetites do ventre, um órgão destituído de moral.</p>
<div class="mceTemp mceIEcenter" style="text-align: justify;">
<dl id="attachment_26144" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px;">
<dt class="wp-caption-dt"><img class="size-large wp-image-26144" title="serralhofernand-cormon" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/serralhofernand-cormon-500x366.jpg" alt="" width="500" height="366" /></dt>
<dd class="wp-caption-dd">Fernand Cormon, “Jalousie au serrail”, 1874</dd>
</dl>
</div>
<p style="text-align: justify;">Assim adivinhavam ver os europeus que nada conseguiam vislumbrar do interior das casas sem janelas, todas de paredes cegas ao longo de ruas estreias e fétidas.<br />
Nem um deste quadros resultou da observação daquilo que retratam – são pura invenção. Ou melhor suposição.<br />
Mas uma suposição com propósitos e convencimento de dedução, segundo as melhores regras do positivismo do século XIX. O que fizeram estes artistas foi, depois de lerem o programa filosófico de Compte, entrar num êxtase racionalista e aplicar à pintura o que achavam ser as puras e claras regras científicas. Aquelas terras do pó, antes vistas como misteriosas eram agora desvendáveis pela inteligência, diziam os positivistas, para quem o mundo não tinha sombras que não pudessem ser esbatidas.<br />
Donde estes quadros que hoje sabemos falarem bem mais daqueles que os pintaram do que dos objectos que ilustram. Designa-se como académica esta pintura, o que é um bom nome para tanta altivez disfarçada de curiosidade, para tamanho conformismo convencido de espirituoso.</p>
<p><span id="mce_marker"></p>
<div id="attachment_26145" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-26145" title="serralho john frederick Lewis_Harem" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/serralho-john-frederick-Lewis_Harem-500x342.jpg" alt="" width="500" height="342" /><p class="wp-caption-text">John Frederick Lewis, “The harem”, 1850</p></div>
<p></span></p>
<p>Os árabes — nunca havemos de os compreender.</p>
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		<title>Still life</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Mar 2011 02:03:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nos verões setentrionais de noite ainda faz dia. Os homens permitem-se beber até mais tarde sem culpa mas sem escândalo, ficam eufóricos, desabotoam o casaco e o siso, mas ainda assim não ousam desatar o nó da gravata ou porem-se em mangas de camisa. A regra evangélica é exata e a compostura é para mantar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-large wp-image-26013" title="Kroyer-274348" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/Kroyer-274348-500x407.jpg" alt="" width="500" height="407" /><br />
Nos verões setentrionais de noite ainda faz dia.<br />
Os homens permitem-se beber até mais tarde sem culpa mas sem escândalo, ficam eufóricos, desabotoam o casaco e o siso, mas ainda assim não ousam desatar o nó da gravata ou porem-se em mangas de camisa. A regra evangélica é exata e a compostura é para mantar sob qualquer circunstância, mesmo que a <em>akvavit</em> vá toldando o espírito devagar, cálice a cálice.<br />
Com as horas fora do sítio, deixam-se todos ficar à mesa, apesar de as criadas simples da Jutlândia já terem levantado os pratos. As mulheres incapazes de se porem de pé de tão complicados os vestidos de linho, que à época eram considerados leves, crianças e tudo, participam nas libações que prosseguem até o sol se pôr deveras, nos princípios de Julho lá para as dez.<br />
Há tantas horas para dormir no inverno que seria pecado desperdiçar o verão com o sono.<br />
Esta gente conversa pouco: por uma questão de princípio detestam frivolidades e recusam-se discuti-las, por outro lado, com este tempo tão suave não apetece nada uma ressaca de Kierkegaard. Para mais, os tios têm opiniões tão díspares e contraditórias que o álcool poderia ampliar discórdias, rachar a pedra da família – melhor ficar calado. Sobretudo o tio Emile, famoso pelas suas intransigências que descambam em cóleras e terminam em frases apopléticas e relações cortadas irremediavelmente. O menino lembre-se que vai para pastor, vai ter a Dinamarca a observá-lo, dizia-lhe a mãe. O mesmo que nada, foi assim toda a vida, mas pior ficou depois da viagem a Espanha que tanto o impressionou. As procissões à luz de archotes, as penitências sanguinárias, o fedor a ervas nas missas, a convulsiva mistura de luxo e povo nas igrejas, toda esta idolatria banhada em suor e pó; que saudade teve Emile das alvuras do inverno – a pureza.<br />
Beber à vida, um brinde à morte que chegue tarde, beber à natureza, à beleza das mulheres, berber à saúde das crianças, que por muito tempo não se conspurquem com as maldades da vida, uma saúde à vida de novo. E por aí fora, às gargalhadas.<br />
Num assomo de excitação a pequena Estefânia chegou mesmo a pôr a perna em cima do banco mas, no estado em que já todos estavam, ninguém levou a mal. A tia Amelie condescendeu ao ponto de ampará-la para que visse melhor as alegrias dos tios barbudos e ruidosos.<br />
À cabeceira, a prima triste, viúva com menos de 12 meses, refreava tamanhas expansões, erguendo o copo baixinho e entretendo-se a reparar nos pormenores, por exemplo que a meia de Estefânia tinha a côr de framboesa igual à do frasco rubro diante dela. Naquele ano bastava-lhe um sorriso para não  ser infeliz.<br />
Comam e bebam depressa, piores tempos virão.</p>
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		<title>Breves notas sobre os dias de hoje</title>
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		<pubDate>Sun, 13 Mar 2011 01:58:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Por esta hora estarão os desfilantes da tarde de Sábado a sentir aquele misto de alívio e melancolia que costuma prevalecer depois das manifestações. Alívio porque desabafaram as mágoas, fizeram-se ouvir, deram exposição pública aos seus desagravos. A confissão sempre foi uma forma de trazer paz ao espírito; quando acompanhada pela sensação de ter sido [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_25686" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-25686" title="peter garfield harsh reality III 2000" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/peter-garfield-harsh-reality-III-2000-500x360.jpg" alt="" width="500" height="360" /><p class="wp-caption-text">Peter Garfield, “Harsh reality III”, 2000</p></div>
<p>Por esta hora estarão os desfilantes da tarde de Sábado a sentir aquele misto de alívio e melancolia que costuma prevalecer depois das manifestações.<br />
Alívio porque desabafaram as mágoas, fizeram-se ouvir, deram exposição pública aos seus desagravos. A confissão sempre foi uma forma de trazer paz ao espírito; quando acompanhada pela sensação de ter sido acarinhada, ainda mais conforto recebe a alma.<br />
Melancolia porque já perceberam que ao acordarem na segunda-feira tudo estará na mesma. O protesto é um ato de profunda inutilidade porque não tem consequências para além da sua própria expressão. Pior que o protesto só mesmo a abjeta ideia do “direito à indignação”: como posso reivindicar um estado de espírito como um direito? De que modo conseguiria a PIDE, para usar um exemplo radical, impedir que me indigne?</p>
<p>“E o povo, pá? E o povo, pá? // Quer mais dinheiro para comprar um carro novo.”<br />
Nenhum outro par de versos define tão bem a situação social portuguesa contemporânea. O povo (categoria que Marx, que não era nada parvo, execrava, por não ter qualquer significado enquanto classe social) é hoje abreviatura de “classe média”. Ora foi esta classe média que desfilou hoje Avenida abaixo, sem programa, sem ideologia, sem plano e sem perspectivas. Acabou de descobrir que está empobrecida e não quer acreditar que vai empobrecer ainda mais.<br />
Podemos congratular-nos por não terem trazido as panelas, como no Chile em 1973 e por, ao contrário do que sucede com estas manifestações de “jovens” em latitudes mais civilizadas, as vitrines das lojas de luxo que bordejam a Avenida terem permanecido intactas após a manifestação.</p>
<p style="text-align: justify;">Há dois problemas muito graves em Portugal: o desemprego e a falta de emprego.<br />
O desemprego está a liquidar os subitamente desqualificados e os que têm idade superior a 50 anos.<br />
A falta de emprego mata à nascença as hipóteses dos que têm menos de 30 anos.<br />
Porque é que há desemprego? Porque uma economia baseada em mão de obra barata viu-se ultrapassada pela mão de obra ainda mais barata da Ásia. Os chineses estão a fazer aos portugueses aquilo que os portugueses fizeram a Birmingham nos anos 60.<br />
Porque é que há falta de emprego? Porque a economia portuguesa não cresce há mais de 10 anos; pura e simplesmente é incapaz de absorver todos os que procuram emprego compatível com os seus certificados de habilitações.<br />
Quais são as perspectivas? Nenhumas, enquanto os impostos forem altíssimos para as empresas e para o consumo, enquanto os tribunais não funcionarem (experimentem cobrar uma dívida judicialmente e logo verão) enquanto a iniciativa não for estimulada e premiada.</p>
<p>Nestes dias proclamou-se como verdadeira uma enorme mistificação. A saber: “esta é a geração mais qualificada de sempre em Portugal”.<br />
Em comparação com miserável Portugal salazarista? Sem dúvida.<br />
Em comparação com qualquer outro país Europeu? Claro que não.<br />
É seguro que há uma franja de elite em Portugal, muito maior do que alguma vez existiu. Esses ocuparão os lugares disponíveis no mercado nacional ou emigrarão. No fundo, esteve o estado a gastar avultados recursos para fornecer gratuitamente os mercados de trabalho estrangeiros – rico serviço…<br />
Mas também é seguro que existe, diria que uma horda, de licenciados e mestrandos cujos certificados de habilitações têm valor equivalente a papel higiénico em qualquer mercado de trabalho.<br />
Sociólogos, antropólogos, animadores culturais, politólogos e especialistas em relações internacionais, designers de moda e de multimédia, peritos em estudos portugueses, ambientalistas, licenciados em relações empresariais, licenciados em artes do espectáculo, em educação social (“<em>O Educador Social irá adquirir um conjunto de competências que lhe permitem a realização de funções profissionais na área da educação social, seja directamente em contacto com crianças, jovens ou adultos, seja nas fases de planeamento e intervenção da acção sócio-educativa</em>.”), e outros tantos da mesma estirpe – nunca mais haverá emprego para estas aptidões…</p>
<p> Pode um novo governo melhorar “isto”? Não.<br />
Façam o breve exercício de calçar os sapatos do Sr Passos Coelho e hão de constatar que só um alienado quereria assumir neste momento a governação, já que:<br />
1)     Não há outra forma de saldar a dívida pública senão a que tem sido seguida;<br />
2)     Não há outra questão a resolver de imediato senão a dívida pública;<br />
3)     Saldar a dívida pública continuará a atrofiar o crescimento;<br />
4)     Quem nos tutela não quer e não deixa que a gestão do Estado fique interrompida durante os mais de três meses que dura a mudança eleitoral de governo;<br />
5)     Quem nos tutela não permitirá qualquer desvio à linha que traçou para Portugal e não dirá a qualquer novo governo nada que não tenha já dito a este;<br />
6)     O PSD é um partido organicamente semelhante ao PS, ou seja, repleto de carreiristas políticos cujo obetivo é a mera conquista dos lugares de poder.</p>
<p> Nota final: tal como toda a gente também não sei qual será a solução.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Cantam as nossas almas</title>
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		<pubDate>Sat, 12 Mar 2011 13:49:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Dois presentes para quem está em dia de recebê-los. I Às vezes há coisas que lembram pessoas. Confiando no primeiro instinto, ou nas primeiras impressões, para não ser tão impulsivo, quando passei por aqui, lembrei-me logo de ti. Mas como posso lembrar-me de quem nunca vi? Digamos, então, que este trabalho do indiano Manish Nai, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Dois presentes para quem está em dia de recebê-los.<br />
I<br />
Às vezes há coisas que lembram pessoas. Confiando no primeiro instinto, ou nas primeiras impressões, para não ser tão impulsivo, quando passei por aqui, lembrei-me logo de ti. Mas como posso lembrar-me de quem nunca vi? Digamos, então, que este trabalho do indiano Manish Nai, desencadeou um processo de analogia em que às cores e à textura, associei de imediato a imagem que tenho de ti. Se tivesse que explicar porquê, diria porque é quente, terroso, áspero e liso e tem uma harmonia suspeita, pronta a sair do lugar — tudo como o sertão (dizem) e a gente que lá mora.<br />
Este quadro obviamente não tem título – como poderia ter se o artista não te conhece? É fabricado com juta e papel manteiga; deve ser agradável tocar nele, tem ar de ser muito carnal. </p>
<div id="attachment_25680" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-full wp-image-25680" title="ManishNai-L-250056754" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/ManishNai-L-2500567542.jpg" alt="" width="500" height="297" /><p class="wp-caption-text">Manish Nai, “Untitled”, 2009</p></div>
<p>II<br />
Teresa Ascencao, ou de como a grafia de um nome pode ser todo um programa. Nasceu de pais açoreanos em S. Paulo, e foi com eles para Toronto em criança. A dita diáspora lusitana numa cápsula. Sei que vais gostar dela e que faz o teu género, embora não o meu. Fico-me pela beleza visual dos objectos ao passo que decerto vais querer ficar com tudo.</p>
<p><iframe title="YouTube video player" width="480" height="390" src="http://www.youtube.com/embed/wwxqYCSgJgs" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p>Vê tudo aqui: <a href="http://euphoricfemme.com/">http://euphoricfemme.com/</a></p>
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		<title>Livros. Estupidamente. Bonitos. — II</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Mar 2011 17:18:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[                                                                                                                                           Em Portugal a revolução falava francês e foi toda aprendida nos livros da 10/18. Do lado de lá a coisa passou-se assim: em 1968, ainda inebriado pelos fumos do Maio, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_25465" class="wp-caption alignleft" style="width: 201px"><img class="size-full wp-image-25465" title="10-18-_44" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/10-18-_441.jpg" alt="" width="191" height="320" /><p class="wp-caption-text">nº 44</p></div>
<p style="text-align: justify;">                 </p>
<div id="attachment_25466" class="wp-caption alignright" style="width: 206px"><img class="size-full wp-image-25466" title="10-18_-_221" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/10-18_-_221.jpg" alt="" width="196" height="320" /><p class="wp-caption-text">nº 221</p></div>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">                     </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">                          <br />
<img class="alignleft size-full wp-image-25468" title="10-18 667" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/10-18-667.bmp" alt="" />                              <img class="alignright size-full wp-image-25470" title="10-18 -n" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/10-18-n.bmp" alt="" /></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">Em Portugal a revolução falava francês e foi toda aprendida nos livros da 10/18.<br />
Do lado de lá a coisa passou-se assim: em 1968, ainda inebriado pelos fumos do Maio, o editor Christian Bourgois  (“<em>Etre éditeur consiste à publier des livres que les gens n’ont pas envie de lire”</em>) propôs-se ilustrar as massas (estudantis, urbanas, pequeno-burguesas, logo de contumaz de vocação anti-capitalista) com a<em> collection de poche </em>10/18, na qual publicou tudo o que achava relevante na eufórico campo das ciências sociais, desde teses universitárias até aos clássicos da literatura moderna, passando por textos militantes e intervenções em colóquios. A festa durou cerca de 1000 volumes até 1979.<br />
Por cá foi mais simples: até de noite as capas da 10/18 pareciam refulgir nos escaparates da 111 e ao jovem aprendiz de feiticeiro que eu era (16 aninhos, senhores!) foi imprescindível adquirir todo e qualquer título da colecção à medida da mesada – nem que fosse só para usufruir da clareza colorida daquelas capas a prometerem mudar o mundo. Ao lado deste voluminhos gordos, de boa e bem colada lombada, que não se desvaneciam em folhas esvoaçantes nem à décima espalmadela para melhor os sublinhar, as edições portuguesas faziam sorumbática figura, tesos e mornos na sua empertigada e feia sobranceria.<br />
Ainda hoje – estou agora a olhar para eles – tenho para ali um punhado de 10/18s que acabei por nunca ler, olhem como são viçosos e apetitosos por fora, embora de miolo repassado pelos zigzags da história. Tão bonitos que faz pena esquecê-los.</p>
<div id="attachment_25475" class="wp-caption alignleft" style="width: 200px"><img class="size-full wp-image-25475" title="10-18_-_1123" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/10-18_-_1123.jpg" alt="" width="190" height="320" /><p class="wp-caption-text">nº1123</p></div>
<p>                           </p>
<div id="attachment_25488" class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><img class="size-full wp-image-25488" title="10-18-184-185" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/10-18-184-1852.jpg" alt="" width="200" height="338" /><p class="wp-caption-text">nº184–185</p></div>
<p>                                                                                                                                </p>
<p style="text-align: justify;">     </p>
<div id="attachment_25490" class="wp-caption alignleft" style="width: 205px"><img class="size-full wp-image-25490" title="10-18_-_327-330" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/10-18_-_327-3302.jpg" alt="" width="195" height="320" /><p class="wp-caption-text">nº327–330</p></div>
<p style="text-align: justify;">                                                                           </p>
<div id="attachment_25491" class="wp-caption alignright" style="width: 207px"><img class="size-full wp-image-25491" title="10-18-685" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/10-18-6851.jpg" alt="" width="197" height="320" /><p class="wp-caption-text">nº685</p></div>
<p style="text-align: justify;">                                                                                                         </p>
<div id="attachment_25501" class="wp-caption aligncenter" style="width: 360px"><img class="size-large wp-image-25501 " title="10-18-446 -1985" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/10-18-446-19851-500x841.png" alt="" width="350" height="589" /><p class="wp-caption-text">nº 446 da nova série (1985). Ainda tão sugestivo…</p></div>
<p style="text-align: justify;"> </p>
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		<title>Nunca conheci Jane Russell</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Mar 2011 00:29:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Noutro dia poderei explicar por que razão Tróia foi o melhor festival de cinema do mundo durante um par de anos, no início da década de 90. Para dar importância ao pequeno grupo que se juntava no desolado aldeamento turístico naqueles primeiros dias de Junho, a organização enchia o peito e convidava uma glória de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_25210" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-25210" title="jane_russell murray garrett" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/jane_russell-murray-garrett-500x500.jpg" alt="" width="500" height="500" /><p class="wp-caption-text">fotografia de Murray Garrett</p></div>
<p style="text-align: justify;">Noutro dia poderei explicar por que razão Tróia foi o melhor festival de cinema do mundo durante um par de anos, no início da década de 90.<br />
Para dar importância ao pequeno grupo que se juntava no desolado aldeamento turístico naqueles primeiros dias de Junho, a organização enchia o peito e convidava uma glória de Hollywood a passar por lá. Numa das vezes calhou sermos honrados com a presença de Jane Russell. Arvorando a minha equívoca condição de crítico e vendo nisto um belo pretexto para justificar a estadia na remota península durante uma semana, pressurosamente me candidatei a entrevistar a senhora.<br />
Se Marylin Monroe entrou no estrelato a sair do plano, ondulando as ancas apertadas no fatinho azul bebé em “Niagara”, já Russell debutou de modo bem mais funesto. Na primeira cena do seu primeiro filme, vai logo ao destrunfo numa sequência em que é violada num palheiro às garras de Howard Hughes por interposto Billy the Kid. Ter conspurcada a casta imagem das palhinhas natalícias e no topo disso ainda ter aprofundado um decote do tamanho da fossa das Marianas, deixou a censura de olhos em bico e Jane Russell nos píncaros da fama.<br />
Era com estas coisas inteligentíssimas que eu pretendia comovê-la, mostrar-lhe que a sua arte não tinha sido em vão, pois nesta ponta perdida do planeta havia alguém que se interessava, conhecia-lhe os percalços e os êxitos com pormenor e queria ter dela alguma revelação singular, um <em>insight</em> inédito, qualquer coisa que tivesse ficado por dizer e pudesse agora ser confessado.<br />
É capaz de ser das brisas do Sado que tornam tudo mais ameno, pois Jane Russell foi aturando a minha pirotecnia cinéfila sem dar mostras de impaciência ou presunção. Mas a dado passo, tendo talvez percebido que diante dela estava não mais do que um inocente, agarrou-me na mão – sim, deu-me a mão! –  e disse:<br />
– <em>You know, I was just a valley girl</em>. E que depois de um dia de trabalho nos estúdios só desejava voltar para a quinta onde morava, fazer as compras na mercearia da esquina e passar o serão em família.<br />
E de repente a estrela de cinema converteu-se numa gentil avózinha a dizer que as coisas são muito mais simples do que parecem e a água é mais importante do que o <em>champagne</em>.</p>
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		<title>Natal é quando um homem quiser — último</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Feb 2011 19:35:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Navarro de Andrade</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Por fim, quase no Carnaval, chegam os derradeiros presentes de Natal. Nunca é tarde demais para que não se fique de mãos a abanar.  A Eugénia dedicou-se a uma existência incorpórea, só de palavras. E estas aparecem não sei se em forma de cascata escondida numa floresta tropical, onde se chega ao fim de uma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Por fim, quase no Carnaval, chegam os derradeiros presentes de Natal. Nunca é tarde demais para que não se fique de mãos a abanar. </p>
<p>A Eugénia dedicou-se a uma existência incorpórea, só de palavras. E estas aparecem não sei se em forma de cascata escondida numa floresta tropical, onde se chega ao fim de uma caminhada íngreme e nela mergulhamos a saborear o refresco; ou se em forma de géiser, uma irrupção escaldante, da terra para o céu. São mistérios, tal como numa história, sem rosto nem mãos, apenas com aquilo que se pode imaginar.<br />
Pois para ela reservei estas fotografias da controversa grega Polixeni Papapetrou. São histórias, senhora, são histórias, sem sabermos para onde nos levam, caminhando por dentro delas. Há qualquer cosia de perigoso nestas fotos, não sei bem o quê: A infância pouco infantil (a modelo de Polixeni é sempre a sua filha)? A distância dada àquilo que designamos por amor?</p>
<div id="attachment_24882" class="wp-caption aligncenter" style="width: 460px"><img class="size-full wp-image-24882" title="polixeni papapetrou A_memory_for_tomorrow_2008" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/polixeni-papapetrou-A_memory_for_tomorrow_20081.jpg" alt="" width="450" height="452" /><p class="wp-caption-text">Polixeni Papapetrou, “A memory for tomorrow”, 2008</p></div>
<div id="attachment_24883" class="wp-caption aligncenter" style="width: 460px"><img class="size-full wp-image-24883 " title="polixeni papapetrouThe-Provider-2009" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/polixeni-papapetrouThe-Provider-20091.jpg" alt="" width="450" height="450" /><p class="wp-caption-text">Polixeni Papapetrou, “The provider”, 2009</p></div>
<p style="text-align: justify;">Será que a metafísica existe? O Gonçalo diz que sim e faz incansável prova da sua afirmação. Desgostam-lhe os modernos e as pragmáticas com que eles tomaram o mundo. Poderia ter sido doutra maneira, houve ali um momento, um instante em que tudo poderia ter sido diferente? O Gonçalo diz que sim, acredita que sim.<br />
Entrego-lhe assim, os trabalhos da dupla Komar &amp; Melamid (Vitaly Komar e Alexander Melamid) dois artistas que após a sua primeira exposição foram pressurosamente expulsos da União dos Artistas de Moscovo, por “distorcerem a realidade soviética” – a consagração, portanto. Criar uma espécie de pop soviético, mesclando o realismo socialista com uma espécie de surrealismo, acabando por resultar num pré-rafaelismo rubro, foi uma receita eficaz para a desgraça institucional. Todo o trabalho de Komar e de Melamid é trespassado por uma ironia não muito fina, mas assaz divertida e eficaz. Uma metafísica sem sentido de humor é pouco metafísica.</p>
<div id="attachment_24885" class="wp-caption aligncenter" style="width: 437px"><img class="size-full wp-image-24885" title="komar &amp; melamid, lenin lived, linin lives, lenin will live, 1980-82" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/komar-melamid-lenin-lived-linin-lives-lenin-will-live-1980-82.jpg" alt="" width="427" height="626" /><p class="wp-caption-text">Komar &amp; Melamid, “Lenin lived, Lenin lives, Lenin will live”, 1981–82</p></div>
<div id="attachment_24886" class="wp-caption aligncenter" style="width: 428px"><img class="size-full wp-image-24886 " title="komar &amp; melamid, the origin of realism socialim" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/komar-melamid-the-origin-of-realism-socialim.jpg" alt="" width="418" height="640" /><p class="wp-caption-text">Komar &amp; Melamid, “The origins of socialist realism”, 1980</p></div>
<p style="text-align: justify;">Permite que te chame a atenção, Manuel, para o fato de o centro deste quadro não estar vazio. Está repleto de branco e o branco é a soma de todas as cores.<br />
Numa fase da sua vida Sam Francis pintava muito assim, ocupava-se com manchas periféricas, pingadas, deixando o centro livre para nós. Uma forma centrífuga de conceber a harmonia. E depois as cores são suaves, e porque suspensas na brancura, tudo nelas tende para a harmonia, mesmo confusa. Além disso, <em>we will always have</em> Santa Monica.</p>
<div id="attachment_24889" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><img class="size-large wp-image-24889" title="sam francis blue balls2 1961" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/sam-francis-blue-balls2-1961-500x576.jpg" alt="" width="500" height="576" /><p class="wp-caption-text">Sam Francis, “Blue balls 2″, 1961</p></div>
<div id="attachment_24888" class="wp-caption aligncenter" style="width: 462px"><img class="size-full wp-image-24888" title="SamFrancisSantaMonica 1, 1972" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/SamFrancisSantaMonica-1-1972.jpg" alt="" width="452" height="650" /><p class="wp-caption-text">Sam Francis, “Santa Monica 1″, 1972</p></div>
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