
Seguindo os costumes da cidade, que não estando escritos eram ainda mais dogmáticos, a partir dos 30 anos Emília começou a vestir de negro profundo. “Viúvas de vivos”, era como lhes chamavam os homens entradotes, mesmo os bons pais de família, que a todos aborrecia o significado deste preceito, pois viam-se assim expurgados de alegrias. Ao envergarem tal vestuário, as mulheres anunciavam que além de não desejarem usufruir nem das delícias nem das arrelias do matrimónio, também se esquivariam a qualquer inclinação emocional e não desejavam ser tocadas pelo escândalo de uma maternidade serôdia.
Mesmo mulheres ainda frescas, como Emília, cuja pele não dava mostras de murchar, com a força do breu, já se punham como matronas e sentavam-se, fosse em cadeiras de espaldar alto ou em suaves otomanas, daquela maneira esfíngica, própria das velhas. Delas era esperado que se comportassem sempre com um pouco mais de rigor do que as prescrições da moral recomendavam, sempre com um pouco mais de rigidez do que as normas da educação impunham.
As raparigas novas, com a malvadez e o desprendimento próprios da idade, diziam destas mulheres que elas se movimentavam roídas pelo rancor, sempre ao longo das sombras que a vida social não conseguia iluminar, por mais deslumbrantes que fossem os holofotes.
Como já se percebeu, era feroz, todavia camuflada, a guerra entre gerações no campo feminino. Uma guerra sem quartel onde o boato, a intriga, a difamação e se possível o ostracismo, eram armas correntes. Para mais, um arsenal tão versátil e amplo estava ao alcance de qualquer bolsa, embora não fosse acessível a qualquer inteligência. Muitas mulheres tinham o dissabor de só tarde demais perceberem que um aríete mal utilizado poderia arrombar a própria reputação e uma flecha apontada por mão insegura, era capaz de trespassar o crédito de quem a disparava.
Muito pouco disto era captado pelos homens. Diretos e práticos, para quem uma palavra bastava para fecharem um negócio complicado, era-lhes incompreensível o choro repentino durante um passeio ameno, os silêncios violentos durante um belíssimo jantar num restaurante em voga e, nos casos mais extremos, as revulsões de cólera que faziam vibrar tanto as muito destemidas como as demasiado impreparadas, ambas e opostas categorias de mulher capazes de transparecerem os sentimentos que as incendiavam. Como é evidente, a coincidência entre o excesso de coragem e a total ausência de astúcia, era de molde a deixar os pobres homens ainda mais confusos e agoirados.
Velhacas, megeras, croias, desmazeladas, devassas, era banal as mulheres referirem-se assim umas às outras, mesmo dentro do mesmo partido, e sem distinção de classe social – o ódio quando nasce é para todos. E perante este vocabulário soez, surpreendente sobretudo quando utilizado fora da cama, os homens abriam os olhos de espanto e muitos deles só encontravam réplica exibindo desprezo por seres capazes de tão baixa e despropositada infâmia. Então os tímidos, sendo puxados por elas até ao extremo do desconsolo, tendiam a solucionar a sua inquietação dando-lhes sovas enérgicas, demonstrando que na supremacia física também poderia haver argumentos válidos para resolver estados de alma.
Tudo isto era um jogo perigoso que as mulheres nem sempre controlavam com primor.
As classes sociais elevadas dispunham de certas arenas favoritas para deflagrarem as suas batalhas. A ópera era uma delas. Ao contrário do cinema, uma coisa de gente invisível, ali havia muita luz e tempo livre para recortar bem as figuras que cada um fazia. E entre os teatros do mundo, o S. Carlos era o de arquitetura mais perfeita, pois, como dizia a mãe do velho inglês que morava em Colares, os camarotes, tal como devia ser, estavam virados uns para os outros e não para o palco. Assim, a plateia convertia-se no verdadeiro palco e o palco um mero apêndice onde se entretinham coisas românticas versejadas aos gritos.
Durante toda a récita, as senhoras formavam uma bateria de lunetas, a vergastarem o auditório à procura de uma falha, de um despropósito, com sorte uma inconveniência, que lhe pudesse servir de combustível para as conversas ateadas à hora do chá, durante toda a semana.
O dr. Ramiro cravara em Emília a alcunha de Tia Tula. Quando lhe perguntavam, quem?, ele ria de boca aberta, da qual era impossível saber se sairiam caroços de azeitona ou partículas de perdiz, até o rosto ganhar tons púrpura, ao que se seguiam as expectorações da ordem. Todavia, já ninguém se alarmava com as apoplexias do dr. Ramiro.
Podia considerar-se intrigante a atenção que o dr. Ramiro granjeava. Jurista formado na fina Salamanca, nem sequer dispunha de escritório para atender os suplicantes; sabia-se que não tinha fortuna, mas ninguém lhe conhecia dívidas e tal como qualquer outro cavalheiro de boa condição, sabia perder com regularidade quantias exorbitantes nas mesas de jogo; era publicamente execrado por todos os políticos sem exceção, embora nenhum lhe recusasse a mão estendida.
Daqui resultava que por ser repelente, o dr. Ramiro era temido além de respeitado.
Para gáudio da sua entourage, de cada vez que a Tia Tula se punha a perscrutar a sala, o dr. Ramiro debruçava o tronco do camarote, na iminência de tombar dos dois andares de altura em que se pendurara e apontava os seus binóculos na direção da pobre mulher. Tudo isto era executado com grandes gestos e ruído, de modo muito faceto, suscitando gargalhada geral. Emília fazia que não era nada com ela, mas as veias do pulso inchavam e a mão esquerda esmagava o leque até as unhas ficarem tão alvas como a pele.
Porque motivo o dr. Ramiro tomara aquela mulher de ponta e porque razão ela nunca desencadeara uma vingança, eis um segredo que só a eles pertencia.