– Merda!
Primeiro foi a voz. A parede crepitava num bzzz estaladiço e de repente acendeu-se nela a imagem de um homem sentado, um corpo enorme. Tinha o olhar disperso dos cegos mas intimidava, a sua opulenta figura.
– Senhor?
Disse Catarina hesitante e reverente. A transmissão oscilava, fustigada pela chuva de drops. A pouco e pouco foi estabilizando.
– A vossa rede está uma desgraça. Quem vos viu e quem vos vê, pobres, pobres europeus que eram os senhores do mundo e agora nem conseguem fazer uma teleconferência em condições – o Senhor começou a frase a rir e acabou-a a tossir. Riso e tosse quase convulsos, no mesmo formidável estremecimento.
Catarina olhou pela janela do seu apartamento na Plaka. Da rua subia-lhe o rumor festivo de centenas de passos e vozes. Eram os turistas chineses a subirem para a Acrópole. Em menos de uma hora ia começar o espectáculo quotidiano do Ligh & Sound The Ancient Hellas. Tal como todos os habitantes do bairro, também ela teria que vestir a toga e ir à varanda deitar fogo de artifício. Era disso que viviam.
– Estamos muito descontentes com o curso das coisas, meu anjo. – A ironia de S. angustiou Catarina – demos-lhe um homem a guardar, só um, e perdeu-o? Onde pára o seu valido com nome de santo?
– Ficou à porta de uma igreja em Nova Iorque, Senhor. – Qual? – The Little Church Around the Corner, a Igreja da Transfiguração, na Rua 29 – Catarina sentiu um abismo entre a grandiloquência do nome oficial e a prosaica localização.
– Logo essa… O homem está mesmo perdido. Só um descrente é que entra nas igrejas à procura de respostas. Quem tem o hábito de lá ir já sabe o que espera.
– Não era o Sandeep que estava a tomar conta dele? – ousou perguntar Catarina, sabendo que são insondáveis os desígnios de quem pode.
Dois sulcos riscaram a testa de S.
– Era. Mas tive que o chamar. – Isto foi dito sem levantar nem gelar a voz, afirmado como quem descreve.
Catarina recebeu isto como a verdadeira forma do poder.
O Senhor começou a crescer, a erguer o seu volume colossal. Ocupava agora toda a imagem, enquanto a voz afundava o tom, martelando cada sílaba. O rosto avermelhava-se mas os olhos vagueavam indiferentes à cólera que os sacudia.
– Tive pena dele, vi-o desesperado, a morte deteve-se na sua vida com impiedade, foi a mulher que agonizou com um sofrimento minucioso; foi o desaparecimento súbito dos pais que afinal não eram os verdadeiros pais, o que lhe impediu de recordá-los amorosamente, retribuindo o imenso amor que lhe deram em vida; foi o desamparo dos filhos de quem ele ouvia o choro sufocado todas as noites, numa tristeza que lhe afugentava o sono eo deixava prostrado de amargura. Tudo isto fez com que a compaixão voltasse a tocar-me e decidi intervir. Sim, resolvi agir. E qual foi o resultado?
Catarina teve a perfeita dimensão da sua fragilidade diante da fúria que vinha ao seu encontro. Naquele instante viu como tudo podia desaparecer num clic. E recomeçar logo a seguir num estalar de dedos, sem sombra de passado. E percebeu que se uma pergunta nunca encontra resposta, é porque deve estar mal feita.
– Esse Francisco Xavier abandonou os filhos, que é a maior das crueldades; ficou cego ao que lhe era oferecido, desdenhou ou ignorou os sinais que lhe foram postos à frente. Para quê? Para correr como uma galinha tonta de enigma em enigma à volta do mundo como uma personagem dos livros daquele locutor de TV, como é que ele se chama? – Catarina lembrou-se mas não disse e S. suspirou enfadado, esvaziando a sua ira. – Tanto acidente para encontrar o nome. Vale a pena juntar mais sofrimento ao sofrimento por um nome? E isto o vosso livre arbítrio?
Houve um súbito silêncio. No ar só os alegres ditongos chineses que se exclamavam da rua. O senhor permaneceu imóvel e Catarina também não se mexeu, mas receou que a transmissão tivesse bloqueado. S. acabou por fazer um gesto de abandono com a mão.
– O homem já começou a ouvir coisas dentro de quadros. Ainda não descobrimos os limites da nossa paciência, mas não é tolerável que um episódio tão insignificante possa ficar fora de controlo. Vamos acabar com esta deambulação insensata. Nem Boston, nem Atenas. Está na hora, vá buscá-lo e traga-o de novo a casa. À casa de origem. Lisboa.
Catarina endireitou-se na ponta da cadeira, ainda sem coragem para desvanecer a tensão nos músculos.
Não nos deixe ficar mal, Catarina. – disse o Senhor com alarmante suavidade – Se o seu Francisco Xavier continuar tão aflito para se identificar consigo próprio teremos sempre o recurso de lhe marcar um encontro com Deus. Quando é a pedido não há remorsos.
Um vórtice negro. Desligou.
O telemóvel tocou e veio uma repentina bátega de chuva. Na esquina da 29 com a Madison Francisco viu o nome no visor e lembrou-se da frase: “Diz-lhe que estás viva, e que o teu nome é o nome dele”.
– Não posso viver sem ti. Amo-te. Vou aí buscar-te.









































