Ludopédico leonino — mais uma grande noite europeia # 1

prostrai-vos!

Cruz na porta da tabacaria!

Às 18H estava sentado à secretária, laborando em prol do share holder e nem me lembrei. Na verdade – declinemos as liberdades poéticas – lembrei-me, mas não quis saber. De propósito: eles que dessem pela minha falta.

Quem morreu? O próprio Alves? Dou

Quando saí ao fim do dia, o segurança estava ostensivamente de costas para o televisor pendurado na parede. Revendo agora a pose, consigo esmiuçar a mensagem que o instinto me enviou: se o homem, que é um daqueles usuais benfiquistas azedos, perpetuamente de mal com o universo, virava as espaldas ao jogo é porque tinha comichões. Olhei para cima e lá estava: em letra miudinha, muito discreto ao canto da pantalha – zero-um. Olha! pensei. E saí.

Ao diabo o bem-estar que trazia

A caminho de casa o relato radialista exaltava uma épica batalha em relvados hamletianos – o habitual. De repente (mais tarde percebi que foi uma improvável parabólica de 30 metros), zero-dois. O próprio e emérito Pedro Gomes balbuciou umas evidências que acabara de não ver segundos antes, para disfarçar a surpresa que lhe acometeu.
Aqui deram-me uns nervos; aqueles bandalhos aproveitaram à traição a minha paz de espírito e pela surra punham-se a jogar com decência? Ai era assim? Então, só para enervá-los, fui a correr para casa ver a segunda metade da segunda parte.

Desde ontem a cidade mudou

Mas os marotos são espertos. Quandodei um salto à cozinha a buscar os pistacios do prolongamento, o sonso do Djaló roçou com a luva do pé no esférico e ei-lo, qual mero coralífero, flutuando rumo ao precipício das redes.
Vitória! Vitória! Vitória! Eu não vos disse sempre que?

Pela estrada abaixo
foto de Kathryn Parker Almanas

O que lhe pareceu mais estranho não foram as sete cabeças envolvidas em celofane que estavam na arca frigorífica.
O pelicano da BT até se alegrou quando viu a furgoneta fumegante descendo por ali abaixo, adornando nas curvas da serra, rumo a Vila Velha de Ródão. Àquela hora pós prandial, com os pinheiros a estalarem ao sol ameaçando combustões e tragédias, dormitava ele ao volante do patrulha, na emboscada à N18. Lá surgiu então a descomposta carrinha. Despertado num repelão, alarmou a sirene, atravessou o patrulha na estrada e ergueu a palma da mão fazendo alto. Ato contínuo, as portas do veículo prevaricador se abriram e delas despontaram dois indivíduos com propósitos de fuga. Entusiasmado e bem oleado pela adrenalina, o guarda deu uns tiros para o ar e outro para diante, só para ser levado a sério, ao que já um estava amochado no asfalto com a cabeça entre as mãos e outro de joelhos e braços levantados, ambos irrompendo num lamento ululante e enigmático. Eram romenos. A seguir foi a revista ao furgão e lá dentro a arca ligada a uma bateria a zumbir na penumbra. O resto já sabem.
Veio a tropa toda do posto de Vila Velha cortar o trânsito, esticar fitas amarelas, registar a ocorrência e mostrar aprumo. No calabouço, antes que chegasse a polícia graúda, bem sacudiram a ciganada com tabefes, cuspidelas, berros, o tenente mandou-os despir, um cabo de olhos vermelhos agitou um facalhão mesmo diante do seu nariz, mas os flagrados, uma vez começando a gemer já não pararam, entregues ao fatalismo zíngaro, o que viesse que viesse depressa, porque tinha que vir. Ficou assim a guarda sem muito que reportar aos inspetores que nessa noite mesmo chegaram da cidade. Ao verem uns paisanos com tanto à vontade na esquadra dando ordens aos fardas, os ciganos descompuseram-se de vez, aterrorizados com a dimensão da desgraça que decerto se preparava.
Desembrulhadas, expostas, classificadas, enumeradas e conferidas as cabeças, o que verdadeiramente intrigou o inspector foi a placidez daqueles rostos decepados cerce por um corte limpo e breve. A expressão que eles ofereciam não era de abandono nem a de quem foi passado ao fio durante o sono. Era outra coisa: uma tranquilidade consciente, uma espécie de felicidade interior; tinham ar de enamorados, como se ainda neles houvesse alma.
De pronto, com grandes demonstrações de submissão e humilíssimos, os romenos romperam numa algaraviada, donde se retirava que não sabiam nada, que tinham sido pagos para levar a carga sem abrirem e muito menos desligarem a arca, que nada sabiam, que o frete tinha sido combinado em Lisboa, que não sabiam de nada, que tinham ordens para atirar o aparelho ao Tejo, junto ao Cedilho, em terra de ninguém. Fora isto não sabiam mais nada, por favor sinhor. É assim que eles nos levam à certa, remoeu o inspetor.
O pânico tomou os ciganos, ao verem os polícias virar costas e irem-se embora sem mais, deixando-os entregues à guarda. Nos praças e no próprio tenente inflamava-se o despeito por terem sido excluídos do interrogatório. O meu tenente vá levantando o auto relativo ao código da estrada que infrações não faltam para armar um valente processo, o resto fica ao nosso cuidado, não se preocupe. Obrigado – e foi esta despedida do inspetor.
Num assomo de autoridade castrense o oficial ordenou aos subordinados:
– Levem esta merda toda para os bombeiros, não quero aqui nada a estorvar o serviço.
Tal era o humor dos guardas quando acolheram os ciganos de volta. Os coitados acoitaram-se no fundo mais negro da cela e agudizaram a tétrica melopeia.

 

Perdão


As nódoas negras nas costas do seu homem maravilhavam Madalena. E de tal modo ela se excitava com tamanha demonstração de piedade que acabava por tremer de medo ao sentir deveras a luxúria dos seus pensamentos. “Um simples pecadora”, pensava Madalena agitando as águas.
O cheiro da maresia no verão ou da terra húmida de outono, o ruído feliz dos filhos a crescer, o aconchego caloroso da lareira no inverno, nada disto demovia José Maria da sua missão. Todas as noites via o noticiário na televisão com escrúpulo e minúcia, anotando mentalmente as desgraças apresentadas, os crimes tão soezes quanto o esforço dos jornalistas para os ampliar e toda a coleção de tragédias globais que cintilavam com alacridade no ecrã elétrico.
Mais tarde, no sereno da alta noite, trancava-se na casa de banho e iniciava os trabalhos de expiação: uma vergastada por cada alma perdida, como mandavam as Ordens, assim redimindo todas aquelas mortes que não encontrariam outra salvação.
– São dias de grande abundância, mas tudo acaba porque tudo acaba – murmurava José Maria.
E Madalena, demolhada, anuía em silêncio.
Depois dormiam como justos até ao raiar da aurora. Lá vinha novo dia.

Ludopédico leonino — 2ª jornada


E logo à segunda jornada, no primeiro jogo em casa, impera a descontração nas bancadas de Alvalade. Os otimistas, desejosos de sofrer as ansiedades dos grandes momentos, dirão que é por ser ainda verão e o povo anda desafogado, sem estro para emoções fortes; esperemos pelo Natal, aconselham. Os realistas, embora inibidos de o expressarem em voz alta, acham que sempre é melhor assim, deste modo aristotélico: uma época recatada, sem as grandes turbulências das vitórias que dão esperanças infaustas, nem as vertiginosas deceções que nunca deixam de sobrevir. Vamos passar uma tarde à bola, os miúdos gozam umas horas de ar livre, conversa-se com a rapaziada do lado e o entretenimento fica rematado com a bifana da roulote final – há lá tempo mais bem passado…
Mas não há jogo que não deixe contas por apresentar. Rui Patrício, por exemplo, ameaça, malgré lui, converter-se no herói leonino do momento. Quatro vezes quatro, o guarda abandonou as redes, para vir desferir uns chutões fora da área. Qual foi o balanço? Por duas ocasiões livrou-nos do nunca inesperado golo adversário; noutra permitiu que o insular lhe aplicasse um arco ogival ainda mais amplo que o traçado pelos estudantes na Luz, na semana anterior e só por subtilezas da mecânica newtoniana a bola não entrou; e noutra ainda, a mais funesta, atropelou o desgraçado João Pereira o qual só veio a recobrar numa cama de hospital.
Em resumo: Patrício não está nada melhor do que era e continua a fazer estragos mais evidentes que os proveitos. Todavia, graças à analítica comparativa, reparam-se agora nele qualidades imprevistas. Sucede isto porque do outro lado da estrada, perfilou-se um fantoche desconcertado e desconcertante que, ó prodígio, se mostra capaz de produzir mais comoções e fiascos que o nosso Patrício. Será pequena compensação, mas uma alegria sempre é uma alegria.
Entretanto e por desfastio, o Sporting aceitou o convite do Marítimo para marcar um golito de penalty, já o contra regra ia correndo o pano. Menos mal, pois assim sem mais nem ontem, ficou o passarinho a piar atrás de nós.

Tanto dobrou que partiu


Acabei de enfiar um barrete chamado The Last Airbender. Para todos os efeitos ainda me serviu para cravar mais um prego no caixão nesse paradigma caduco de ver o cinema que é o autorismo.
O facto de os produtores Kathleen Kennedy e Frank Marshall – uns semi-deuses de Hollywood – nunca o terem abandonado, prolongou a expectativa de que M. Night Shyamalan seria um fiel sucessor de Spielberg. Uma ilusão para europeu acreditar. O protagonismo deslizando para as crianças, as famílias naturalmente disfuncionais, a reverie do um mundo perfeito se fosse um conto de fadas; sim, se juntarmos os ingredientes como quem põe as compras num carrinho de supermercado, estão muitos elementos do mestre. Faltava o resto, claro, e o resto é tudo.
Mas The Last Airbender dissipa as derradeiras dúvidas de que Shyamalan só foi interessante enquanto a Disney o defendeu, tendo a estrela passado a cometa e o cometa a meteorito, desde que o estúdio se indispôs com as vaidades do realizador. O filme tem o fervor, a variedade e tensão de uma placa de gelo, que é onde, por acaso, uma boa parte da ação decorre. Para mais resolveramcovertê-lo em 3D depois de filmado, o que teve o efeito de fazer duvidar das  dioptrias dos nossos óculos quando o vemos. Como James Cameron tão bem percebeu, não bastam uns contra picados de 90º para fazermos uau com o 3D e aqui reside a diferença entre o Avatar a sério e este avatarzinho. Sendo também verdade que na ideologia naturalista de fancaria os filmes até nem se distinguem por aí além; revolução industrial = má, planeta Gaia = bom; agora é só ir arrumando as personagens nestas caixas e esticando a história neste
O estilo narrativo de Shyamalan sempre foi tão solene e tão protocolar que muitos viram nisso a irrisão do formalismo. Um auteur! Exclamaram, porque só um auteur seria capaz de porfiar tamanha subtileza de filme em filme, sem desmanchar a sisudez num sorriso cúmplice, ao menos numa piscadela de olho para mostrar que não se levava assim tão sério. Ora um dos melhores sinais para sabermos quão verdadeiro é um auteur é, precisamente, a ausência de piscadelas de olho. E assim se garantiu o embuste.
Agora percebemos que a cara de pau que William Hurt mantinha ao longo de The Village era mesmo de enfado, ou então foi de propósito, um belo truque para condensar o estado gasoso do drama do filme. E vendo bem, assim tudo bate certo com as poses de Mel Gibson em Signs, de Paul Giamatti em Nossa Senhora da Pisicna do Condomínio ou de Mark Wahlberg em The Happening. A todos Shyamalan deve ter dado a mesma instrução que Mamoulian disse a Greta Garbo na célebre cena da dança em Queen Christina: “não penses em nada!” e o que ficou para a posteridade foi um rosto supinamente impassível, ou seja, intrigante, capaz de receber todas as profundidades que nos apeteça atribuir-lhe. O maroto do Bruce Willis é que bem nos enganou com a soberba interpretação em The Sixth Sense, no qual, como bem se lembram, só no fim percebemos o significado daquelas nuances no seu olhar inquieto.
Olhando melhor para trás, já me tinha sobressaltado quando apareciam de repente os extraterrestres em Signs, e tão verdes, pelados e de maus fígados como rezava a lenda; mas ainda concedi que a volta de 360º era para trocar as minhas curvas de 180º, num golpe ao género de eu sei que tu sabes que eu sei. Para mal dos meus pecados deixei-me convencer que era inteligência onde só havia literalidade. Aquilo a que se foi chamando o estilo de Shyamalan, não era estilo, mas apenas falta de flexibilidade e se tudo ficava em suspenso, seria porque afinal não tinha onde cair.
Tal como Samuel Fuller, M. Night Shyamalan acreditou que o estúdio o atrofiava quando dizia protegê-lo e que sobreviveria fora do aconchego que lhe proporcionava. Enganou-se. Na verdade nós é que o enganámos quando o convencemos que era ele quem controlava os filmes.

Quem agora me há de levar lá?


Deram com o cadáver de Ruy Duarte de Carvalho na casa em que passara a viver após a reforma, na distante cidade de Swakopmund, na Namíbia. Como, e do que morreu não se sabe, nem sequer quando, pois embora o óbito fosse pronunciado a 12 de Agosto, há dias que já não dava notícias.
Este angolano de Luanda branco de Santarém, passou a infância e a juventude em Moçâmedes. Para lá voltou, ao fim de outras vidas, quando quis penetrar, perder-se, encontra-se e, por fim, devolver-nos, o vasto deserto do Namibe. Ruy Duarte de Carvalho ia atrás dos mucubais, os kuvale, hereros e himbas (tudo nomes do mesmo nome para nós, ignorantes) que por seu turno iam para onde os conduziam o gado que pastoreavam. E todos se iam internando na lua de terra que rodeia o Cunene e se espalha para cima, para o Sul de Angola e para baixo, pelo Norte da Namíbia, o Okavango e lugares assim negros e pedregosos.
Em 2005 fui fulminado por “Paisagens Propícias” que me veio parar às mãos sei lá porquê. “Fulminado” quer dizer que me senti cheio de sorte e envergonhado em simultâneo, tanto por não ter perdido tamanha maravilha, como por não ter dado com ela mais cedo apesar de ter estado sempre ali, à minha disposição. No mesmo fôlego atirei-me ao anterior volume da trilogia: “Os Papéis do Inglês” (2000) e já este ano ao fecho com “A Terceira Metade” (2009). Para compor o ramalhete devorei ainda “Vou Lá Visitar Pastores” de 1999.
A prosa de Ruy Duarte de Carvalho era, como próprio sabia: “uma meia-ficção-erudito-poético-viajeira”, pelo que os leitores vão carambolando pelos livros dele adentro, como quem assiste àqueles funâmbulos chineses que põem a rodar pratos em varas, uma floresta de varas, muitos pratos em equilíbrio precário, a velocidades diferentes, e nós empolgados com a ideia que tudo aquilo vai desabar e partir-se, mas não vai, no fim aguenta-se, pelo que ficamos radiantes com a perícia do artista em atender a tudo a tempo, e jubilantes com o prolongado frisson que nos ofereceu.
Podiam estes livros ter um ar de bloco de notas, de apressados nalguns momentos, ou pouco cuidados noutros, mas talvez por esse fervor da caçar o instante, sucedia com eles partirmos para o interior de uma paisagem e atravessarmos o fim do mundo do deserto namibiano, que fica para lá de qualquer fronteira, e nele sobreviver enquanto os tínhamos nas mãos. Uma Angola distante do asfalto, até dos trilhos, que nos permite um relance do tamanho africano para lá do que nos dizem.
E isto é muito do que gosto na leitura: sentir-me transportado para um território físico desconhecido, suar quando me dá calor e tremer quando me diz que está frio, conviver com as personagens que por lá habitam, aprender com elas, precipitar-me nas suas aflições e alegrias, e no fim, ficar com a sensação de que viajei uma aventura e fiquei a saber.
No meu pequeno mundo Ruy Duarte de Carvalho era um dos muito poucos melhores escritores portugueses (é a língua, estúpido!) contemporâneos. Que pena não poder mais ser guiado por ele.

1807–1814

Há episódios da nossa história que esquecemos por conveniência. A curta mas brusca turbulência criada no vortex das invasões napoleónicas e a tão rápida sucessão de acontecimentos por ela gerada, é um destes momentos que, embora fundador, embaraça aquilo que chamamos memória colectiva.
Quando, em Novembro de 1807, o Marechal Junot marchou sobre Lisboa como faca em manteiga, ainda viu na barra a esquadra que transportava a família real portuguesa  em fuga para o Brasil. Com ela abalavam as melhores cabeças e os mais fidalgos brasões da corte, assim decapitando o reino. Bem pressentiu a louca Rainha Maria que nunca mais haveria de ver os areais de Belém, quando aos uivos se fincou nos varais da carruagem até ficarem alvos os nós dos dedos e serem os mordomos obrigados a quase lhe partir a mão para a soltar e embarcar.
Embora roto e exausto, o exército napoleónico garantiu o sossego público sem sobressalto de maior e com aliviada aprovação da burguesia e da pequenina nobreza lusitana que ficou para trás. O êxodo precipitado e atabalhoado da coroa retirou o pouco ânimo que sobrava aos partidários dos Braganças e deu alento às aspirações dos pedreiros livres. Porque uns entraram em Lisboa mal outros se foram, não houve azo a qualquer revolta ou golpe de mão.
Ato contínuo, Junot embrenhou-se nas questões administrativas do reino, para as quais levava indicações precisas do Imperador: aplicar o Tratado de Fontainebleau celebrado entre a França e a Espanha em Outubro desse ano de 1807, já o próprio Marechal se havia posto em marcha.
O corpo do que era Portugal foi retalhado em três partes:
Os territórios compreendidos entre os rios Minho e Douro, foram regalados à recente dinastia dos Reis da Etrúria por troca com a Toscânia, que Napoleão tanto ambicionava. A cidade do Porto viu então flutuar o pavilhão azul e branco do juvenilíssimo Rei Carlos Luís, que por ter só 10 anos, se deixava governar por sua mãe a regente Maria Luíza de Borbón-Parma, filha do rei espanhol. A Invicta recebeu os monarcas com enorme gáudio pois assim via satisfeita uma velha ambição: a de ser uma capital europeia, a do Reino da Lusitânia Setentrional.
A província do Alentejo e o Reino dos Algarves passaram a formar um estado único, o Principado dos Algarves, e foi oferecida a Manuel de Godoy, o plenipotenciário valido de Carlos IV de Espanha, pelos magníficos serviços que prestara à coroa. Tamanha foi a satisfação deste plebeu – embora de coeva linhagem – em ascender à mais alta nobreza que, sem olhar a despesas celebrou o triunfo, deixando-se retratar por Goya, em pose majestática, na contemplação da bandeira conquistada.

Godoy por Goya

O troço do meio que sobrou deste recortes, incorporando Trás-os-Montes, as Beiras, o Ribatejo e a Estremadura, que viria a designar-se tanto por Portugal propriamente dito, como por Lusitânia Meridional, sendo o maior e mais suculento, queria-o, em segredo, Junot para si mesmo. Desejava deste modo o Marechal antecipar-se aos feitos do seu camarada Jean-Baptiste Bernardotte que viria a ser entronizado rei da Suécia com o nome de Carl Johan, por ordem de Napoleão. E com o sucesso que hoje se reconhece.
Como é sabido, foi funesto o destino de tais planos. Com a debacle do Imperador Bonaparte em 1814 estes reinos dissolveram-se e reverteram para a coroa de Espanha conforme previa o próprio tratado de Fontainebleu. Para isso muito contribuiu o facto de os Braganças nunca terem regressado do Brasil, donde regeram um Império sui generis, afro-indo-sulamericano. Foram a única monarquia que se deslocou da velha Europa para as colónias e se estabeleceu no Novo Mundo.
Hoje a província do Minho integra a Galiza e a cidade do Porto contenta-se em ser a quarta da Região bem atrás de A Corunha e Vigo em grandeza e de Compostela em importância.
Aquilo que em tempos se chamava genericamente de Alentejo é agora a mancha de terra que liga a Estremadura ao mar.
Por seu lado o Algarve puxando os galões da sua velha condição de reino, resistiu a ser absorvido pela Andaluzia e alcandorou-se à posição de Região Autónoma.
O que a partir daqui foi designado por Reino de Portugal nunca perdeu certos e distintos privilégios, cujo fito era impedir que voltasse a haver motivos para uma sedição semelhante à de 1640. A coroa de Espanha foi pródiga e generosa com Lisboa, tratando a cidade como uma das jóias do reino, cuja importância nunca parou de crescer, até aos nossos dias.
Dizem os historiadores alternativos que poderia ter sido outro o desfecho deste momento histórico, se as diatribes no Parlamento Britânico do jovem cabo de guerra e deputado tory Arthur Wellesley, tivessem comovido o rei Jorge III a intervir na península Ibérica. Mas o monarca britânico considerou grande imprudência despejar uns batalhões do seu precioso exército nessas terras áridas num inútil exercício estratégico. Para mais, a vitória de Trafalgar, em Outubro de 1805, tinha garantido uma invulnerável supremacia britânica sobre os mares, mesmo estando os portos peninsulares na mão dos franceses. E o próprio Wellesley haveria de ter o seu instante de glória em Waterloo.

Tudo está bem quando acaba bem



Joris Ivens nos anos 20


Às vezes os astros alinham-se ou um sopro de lucidez sopra nas chancelarias. Mas o que está bem feito é para aplaudir: muito bem decidido sra. Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas.


Vacâncias campestres


Jonathan Brand, “Fallen”, 2007


Da cozinha elevaram-se umas falas altas com o grão de alarme capaz de penetrar a frequência sonora do i-pod e perturbar os acordes airosos do Ben Goldberg. Não ia para dizer “o que foi porra”, embora pensasse nisso, porque entretanto chegou a informação – a Teresa caiu da bicicleta.
E então? É próprio das crianças malharem das bicicletas, faz parte do crescimento e da descoberta das leis da vida, que não são justas nem injustas, apenas se impõem. Parece que é mau, exclamou a minha sogra, a pessoa mais bondosa do mundo, mas que tem uma paixão pelo drama, capaz de converter o menor incidente numa aflição. Levantei-me do sofá que tão bem me conhece das sestas estivais e conduzi em direção ao eventual sinistro.
Agora tudo começa a correr mais depressa.
O estradão do olival bloqueava-se com um inusitado congestionamento de três carros, mulheres gesticulavam, um homem agia e o meu cunhado Manuel digitava o telemóvel no exato momento em que o meu começa a tocar. Poeira levantada, dando um aspecto palestiniano à cena. Desta escuridão emerge a Margarida com a Teresa ao colo, em pose de pietà; um braço bem esfolado, com a pele toda raspada e logo abaixo do joelho uma cratera do tamanho de uma hóstia onde faltava um bife de carne.
Falhei duas batidas cardíacas à vista do sangue filial, aquele fiozinho que me pareceu correr em jorros.
O relógio começou a contar:
Centro de Saúde de Monforte – 5 minutos depois estava uma enfermeira a limpar as feridas; 5 minutos depois já o médico escrevia o diagnóstico: “posso coser mas ia ficar mal, vai para Elvas”; 5 minutos depois o bombeiro a bater à porta do gabinete: “tenho a ambulância lá fora à espera”.
A estrada é uma fita a direito na peneplanície riscada até ao horizonte, a vibrar debaixo de uns heróicos 42 graus.
Em Elvas – a médica das urgências liga ao cirurgião e o cirurgião entra na sala como se estivesse atrás da porta à espera de ser chamado. Olha para o descalabro e profere a sentença: “Nem osso partido, nem tendões contundidos, nem vasos afetados. Podia fazer uma plástica mas a menina é forte e brava. O melhor é deixar o corpo regenerar-se – a carne sabe sempre o que faz e faz sempre melhor do que nós.” Ficámos assim.
Tempo? O percalço começou às 17h20 e às sete e meia estávamos em casa. Há que descontar os 60 km da ida e volta a Elvas.
Balanço:

  1. A bicicleta não se escangalhou, ficou bem obrigado.
  2. A Teresa quer é mimo.
  3. O Serviço Nacional de Saúde funcionou na perfeição, assim mesmo: na perfeição. Que bem gasto nisto é o dinheiro dos meus impostos.

PS – nada me foi cobrado pelo episódio, a não ser hoje de manhã, que fui ao quartel dos bombeiros como prometi, pagar o transporte. “Foi aquilo ontem da Teresa?” perguntou a escriturária como se fosse família.

E se não fosse tão simples?

As malvadezas que o Estado de Israel pratica nos palestinianos são particularmente atrozes porque:

  1. São perpetradas por um povo que se diz eleito, ungido por deus.
  2. São cometidas por quem tanto sofreu e tem gravado literalmente na carne a memória desses horrores.
  3. São executadas por um estado que nasceu como uma utopia de quem por fim reencontra o seu espaço histórico e ambicionou uma sociedade exemplar.

Dito isto falta dizer o resto. Por exemplo, que Tel Aviv é a cidade onde vivem, trabalham, expõem e são considerados o fotógrafo Adi Nes e o pintor David Reeb.
“considerados” significa também que têm o patrocínio de instituições privadas e estatais de Israel.

Asi Nes, “Untitled”, 1996

Adi Nes, “Untitled”, 1999

Adi Nes (n. 1966) ganhou notoriedade com a série “soldados”. Neste lote de fotografias Nes patenteia a sua homossexualdiade retratando os conscritos do exército israelita em pose deliberada e com um olhar muito declarado. Não foram nada isentas de polémica estas fotografias, não só por os militares de um país em constante estado de alerta serem olhados desta maneira, mas também porque os modelos eram de tez escura, de compleição muito semelhante à dos palestinianos. Dois sinais críticos profundos, que excitaram com facilidade os conservadores israelitas, reclamando contra a desmoralização do trabalho de Adi Nes.

David Reeb, “Red helicopter”, 2007

David Reeb, “Wall #7″, 2005

David Reeb (n. 1952) é um artista político, embora muito do seu trabalho tenda para o abstracionismo. Sem subterfúgios, o trabalho de Reeb manifesta-se contra todas as intervenções militares desde a invasão do Líbano em 1982, contra a humilhação dos check points, contra os colonatos e contra o muro. Embora Reeb reitere com um orgulho romântico que apenas se representa a si próprio e seja avesso a declarações públicas por outros meios que não a arte, não é difícil colocá-lo na zona mas à esquerda do espetro ideológico de Israel. Reeb é uma proeminência na Universidade de pública de Tel Aviv onde sempre deu aulas.

Tel Aviv está à distância de 111km de Amã, 214 de Damasco, 405 km do Cairo. Lugares onde é impensável existirem artistas como Adi Nes e David Reeb e onde seria perigosíssimo sequer pensar como eles.
Quando se diz Israel convém olhar melhor.

Gangrena

Paul Chang, “5th light”, 2007

Afinal não acabou, não acaba nunca, nunca acabará.
Quando o DCIAP disse que o homem não estava envolvido e mais disse que o processo encerrou, à uma vieram os amigos do homem remexer na coisa para ajustar contas com exigências de pedidos de desculpa e à dobra vieram uns procuradores dizer que afinal foi mal fechado, que havia perguntas para responder que não foram sequer postas.
E tudo isto não para de jorrar na “comunicação social” que só está a fazer o seu trabalho, diz ela, quando dá voz ao primeiro que se quer fazer ouvir, sem verificação nem exame daquilo que diz.
E é só para dizer que quando isto nunca se dá por acabado, impressiona não verem que vão cada vez mais deslizando para um fundo muito negro, justiça, investigadores, jornalistas, todos escorrendo devagar mas irreversivelmente para um charco chamado descrédito, descrença, desonra, virando contra si e contra cada um a desconfiança permanente a que se devotaram.
Isto nunca acaba, não acabará nunca. Mas irá acabar tão mal, tão mal, que nenhuma razão ficará de pé, ninguém ficará incólume. E é de ficar aterrado.

Esplendor

a Terra em comparação com o Sol

O Sol em comparação com a hipergigante vermelha VY Canis Majoris

A VY Canis Majoris vista pelo telescópio Hubble a 5.000 anos luz da Terra

É muito fácil viajar no tempo, basta que numa noite estrelada uma pessoa se ponha a olhar o firmamento. Aqueles pontos de luz que agora mesmo incidem na nossa retina foram emitidos, por vezes, há milhares de anos. Ou seja, estamos a assistir no momento presente a um episódio ocorrido há séculos.
Esta singela experiência permite-nos ter uma ideia aproximada, por defeito, da fragilíssima finitude da nossa duração.
As imagens acima esmagam. Somos pequenos, tão ínfimos que nos é impossível compreender (no duplo sentido da palavra, como abarcar e como entender) a dimensão daquilo a que chamamos universo. O que assusta.
Parece-me por isso de uma patética petulância acreditar que o eventual criador disto tudo, se tenha preocupado connosco com tanto pormenor, tal como vem descrito nas várias sagas religiosas. Mais bizarro ainda é imaginar, como o fazem algumas seitas mais incendiárias, que deus tenha um plano específico para cada um de nós. A resposta que os crentes darão à insensatez de tal presunção costuma ser o Mistério. Fecha-se o círculo da ilusão: ou temos resposta feita, ou convertemos a ignorância e a dúvida no divino desconhecido.
Em qualquer dos casos desfaz-se a angústia o que, vendo bem, proporciona algum sossego existencial. O que não é mau.

[quando quis refazer os passos já não consegui, pelo que estou impedido de fazer a citação. Peço desculpa ao autor do blog onde vi a imagem que inspirou este post.]

Sweet dreams (are made of this)

Tauba Auerbach, “Yes No Morph 1″, 2007

O livro “A Jornada de Cristóvão Távora Terceira e Última Parte” (Lx, Presença, 1990) de João Miguel Fernandes Jorge inclui um Posfácio de Joaquim Manuel Magalhães que tenho como um dos mais notáveis ensaios sobre poesia (e literatura) do séc. XX:
“(…) A construção não visa um efeito de linearidade ou de discursividade meramente narrativa (…) mas têm um valor narrativo de espécie diferente bastante intenso; mas têm um valor referencial muito firme, ainda que não se preocupando com o nexo clarificado entre aquilo que designam. Querem apenas colocar diante de nós objectos vocabulares com capacidades evocadoras. (…) A acumulação assim causada, perseguida e sabotada pode talvez ser inteligível de um modo inicial através de todas estas palavras pouco capazes de explicar. (…) O leitor é que sabe. Eu não sabia. Concerteza perdi tempo demais com a insistência racional.”

E se estas palavras tivessem ressoado, lá ao longe, numa vaga memória do nexo que elas causaram, a meio da escrita de um texto que começou por se ir experimentando escrevendo?
E se a recordação da Tia Tula de Unamuno tivesse sobressaltado a memória aquando da descrição dos comportamentos daquelas mulheres?
E se, então, a mulher seca e dominadora de Unamuno que tanto impressionou a puberdade deste leitor, se tivesse convertido na sombra da personagem que ao ser construída, começasse assim a fazer um pouco de sentido?
E se Ramiro tivesse, ao mesmo tempo, surgido como nome eufónico e, já agora, como a vingança do pobre Ramiro subjugado e desorientado pela Tia Tula na novela do bilbaíno de Salamanca?
E se Emília fosse um erro por ter julgado, no instante em que foi grafado esse nome, que a Bovary era Emília e não Emma?
E se a mulher de negro só tivesse sido batizada no fim de tudo escrito?
E se o final fosse este porque a ideia de um segredo era a que melhor calhava numa descrição de gente que vive em conspirações e tramas constantes?
E se tudo isto emergisse assim porque sim, ou seja, porque pareceu que assim ficava melhor, ou seja, mais justo e ajustado?
E se, ao fim e ao cabo, de tanta explicação com ratificadora citação e tudo, as coisas fossem tão simples quanto o Diogo Leote revela?
Quer dizer: também não sei –  não escondi nada, só escrevi.

 

PS — Obrigado Joana — deep from the bottom of the heart

Verão em Lisboa

Michael Wolf, “Transparent City # 32″

As miúdas foram para a Pedreira de férias e fiquei sozinho em Lisboa. Como não vive nenhuma Marilyn Monroe no andar de cima e há um lustro que passaram as comichões dos sete anos, estou aqui a jantar uma salada pré-embalada Vitacress com um ovo escalfado e queijo parmesão, encimada por uma lata de ovas de bacalhau da La Gôndola (o melhor petisco do planeta, acreditem). Ao mesmo tempo, vou lendo uns parágrafos do “The Yiddish Policemen’s Union” do Chabon enquanto deito um olho aos Dodgers a cilindrarem os Mets com um par de fast balls.
No diamante o jogo passa mais tempo parado do que em movimento, ao passo que nas bancadas é um interminável vai e vem de público em demanda de  baseball food. As especulações dos comentadores acerca do que vem a seguir (tácticas, desempenhos, virtudes e defeitos dos jogadores) são despendidas com humor e  entusiasmo mas sem ponta de ciência. Isto é entretenimento não é física quântica, eis a atitude de toda a gente. Por isso tratam com leveza o que para eles é tão sério quanto uma profissão.
Em Sitka as coisas complicaram-se e o detetive Meyer Landsman acabou de sacar do revólver contra um sequaz do rebbe. Neva sobre eles.
Ora aqui está uma noite bem passada.

Se houver decência


Metendo o bedelho onde não sou chamado e, pior, entrando na torpe dança das sugestões de nomes, tenho a dizer que um meridiano bom senso torna inevitável um nome para o lugar de subdiretor da Cinemateca Portuguesa: José Manuel Costa.
Seria uma nomeação de puro mérito e, sobretudo, seria reparar uma gravíssima injustiça, já que o cargo lhe foi usurpado.

Viskningar och rop

Erland Josephson, um original entre clones

Pela mão de Nero, entrou o Zero. Nero era um déspota para quem o conheceu de perto, um esclarecido para quem o conheceu de longe — era ambos. Zero, adulado pelos menos-que-ele, manjava das bodas de Canaan, embora proclamasse detestar filisteus – deus e o diabo davam-se bem no sertão do seu espírito.
Nero foi-se e Zero e demorou-se. Nero libertou-se da lei da vida, Zero pendurou-se nela até ao fim; lá caiu da tripeça, diz que por seu próprio pé – cuidado filho, não escorregues.

A ponta acerada da língua


Seguindo os costumes da cidade, que não estando escritos eram ainda mais dogmáticos, a partir dos 30 anos Emília começou a vestir de negro profundo. “Viúvas de vivos”, era como lhes chamavam os homens entradotes, mesmo os bons pais de família, que a todos aborrecia o significado deste preceito, pois viam-se assim expurgados de alegrias. Ao envergarem tal vestuário, as mulheres anunciavam que além de não desejarem usufruir nem das delícias nem das arrelias do matrimónio, também se esquivariam a qualquer inclinação emocional e não desejavam ser tocadas pelo escândalo de uma maternidade serôdia.
Mesmo mulheres ainda frescas, como Emília, cuja pele não dava mostras de murchar, com a força do breu, já se punham como matronas e sentavam-se, fosse em cadeiras de espaldar alto ou em suaves otomanas, daquela maneira esfíngica, própria das velhas. Delas era esperado que se comportassem sempre com um pouco mais de rigor do que as prescrições da moral recomendavam, sempre com um pouco mais de rigidez do que as normas da educação impunham.
As raparigas novas, com a malvadez e o desprendimento próprios da idade, diziam destas mulheres que elas se movimentavam roídas pelo rancor, sempre ao longo das sombras que a vida social não conseguia iluminar, por mais deslumbrantes que fossem os holofotes.

Como já se percebeu, era feroz, todavia camuflada, a guerra entre gerações no campo feminino. Uma guerra sem quartel onde o boato, a intriga, a difamação e se possível o ostracismo, eram armas correntes. Para mais, um arsenal tão versátil e amplo estava ao alcance de qualquer bolsa, embora não fosse acessível a qualquer inteligência. Muitas mulheres tinham o dissabor de só tarde demais perceberem que um aríete mal utilizado poderia arrombar a própria reputação e uma flecha apontada por mão insegura, era capaz de trespassar o crédito de quem a disparava.
Muito pouco disto era captado pelos homens. Diretos e práticos, para quem uma palavra bastava para fecharem um negócio complicado, era-lhes incompreensível o choro repentino durante um passeio ameno, os silêncios violentos durante um belíssimo jantar num restaurante em voga e, nos casos mais extremos, as revulsões de cólera que faziam vibrar tanto as muito destemidas como as demasiado impreparadas, ambas e opostas categorias de mulher capazes de transparecerem os sentimentos que as incendiavam. Como é evidente, a coincidência entre o excesso de coragem e a total ausência de astúcia, era de molde a deixar os pobres homens ainda mais confusos e agoirados.
Velhacas, megeras, croias, desmazeladas, devassas, era banal as mulheres referirem-se assim umas às outras, mesmo dentro do mesmo partido, e sem distinção de classe social – o ódio quando nasce é para todos. E perante este vocabulário soez, surpreendente sobretudo quando utilizado fora da cama, os homens abriam os olhos de espanto e muitos deles só encontravam réplica exibindo desprezo por seres capazes de tão baixa e despropositada infâmia. Então os tímidos, sendo puxados por elas até ao extremo do desconsolo, tendiam a solucionar a sua inquietação dando-lhes sovas enérgicas, demonstrando que na supremacia física também poderia haver argumentos válidos para resolver estados de alma.
Tudo isto era um jogo perigoso que as mulheres nem sempre controlavam com primor.

As classes sociais elevadas dispunham de certas arenas favoritas para deflagrarem as suas batalhas. A ópera era uma delas. Ao contrário do cinema, uma coisa de gente invisível, ali havia muita luz e tempo livre para recortar bem as figuras que cada um fazia. E entre os teatros do mundo, o S. Carlos era o de arquitetura mais perfeita, pois, como dizia a mãe do velho inglês que morava em Colares, os camarotes, tal como devia ser, estavam virados uns para os outros e não para o palco. Assim, a plateia convertia-se no verdadeiro palco e o palco um mero apêndice onde se entretinham coisas românticas versejadas aos gritos.
Durante toda a récita, as senhoras formavam uma bateria de lunetas, a vergastarem o auditório à procura de uma falha, de um despropósito, com sorte uma inconveniência, que lhe pudesse servir de combustível para as conversas ateadas à hora do chá, durante toda a semana.

O dr. Ramiro cravara em Emília a alcunha de Tia Tula. Quando lhe perguntavam, quem?, ele ria de boca aberta, da qual era impossível saber se sairiam caroços de azeitona ou partículas de perdiz, até o rosto ganhar tons púrpura, ao que se seguiam as expectorações da ordem. Todavia, já ninguém se alarmava com as apoplexias do dr. Ramiro.
Podia considerar-se intrigante a atenção que o dr. Ramiro granjeava. Jurista formado na fina Salamanca, nem sequer dispunha de escritório para atender os suplicantes; sabia-se que não tinha fortuna, mas ninguém lhe conhecia dívidas e tal como qualquer outro cavalheiro de boa condição, sabia perder com regularidade quantias exorbitantes nas mesas de jogo; era publicamente execrado por todos os políticos sem exceção, embora nenhum lhe recusasse a mão estendida.
Daqui resultava que por ser repelente, o dr. Ramiro era temido além de respeitado.
Para gáudio da sua entourage, de cada vez que a Tia Tula se punha a perscrutar a sala, o dr. Ramiro debruçava o tronco do camarote, na iminência de tombar dos dois andares de altura em que se pendurara e apontava os seus binóculos na direção da pobre mulher. Tudo isto era executado com grandes gestos e ruído, de modo muito faceto, suscitando gargalhada geral. Emília fazia que não era nada com ela, mas as veias do pulso inchavam e a mão esquerda esmagava o leque até as unhas ficarem tão alvas como a pele.
Porque motivo o dr. Ramiro tomara aquela mulher de ponta e porque razão ela nunca desencadeara uma vingança, eis um segredo que só a eles pertencia.

Amanhã vai chover

Nova Iorque no final do séc. XX (1911)

Um dos mais maravilhosos — e embaraçantes — blogs da Noosesfera é o Paleo-Future, “A look into the future that never was”. Aqui se recolhem as imagens de como o futuro foi previsto no passado, ou seja, tal como sucede como uma enormíssima parte (para ser tímido) das previsões, de um futuro que nunca aconteceu, que não foi assim porque, sabemo-lo hoje com insolente evidência, nunca poderia ter sido assim.
Por esta altura já devíamos ter aprendido que a nossa capacidade de conhecer é limitada e ainda mais se estreita quando se trata de conjeturar a evolução das coisas. Claro que isto é aterrador, pelo que temos inventado muitas maneiras de deliberadamente nos iludirmos. Por exemplo, a mais recente trapaça é a dos gurus, que vivem de dizer uns palpites muito bem apresentados sobre as novas e radiantes oportunidades de uma qualquer linha de  negócio nos próximos 10 anos. O principal ingrediente do truque — como em todas as burlas — é a sua plausibilidade. Olhando para o que está agora à nossa volta, parece mesmo que vai ser assim como ele diz, já amanhã. Claro que os profissionais, aqueles que estão enterrados até aos gorgomilos nesse setor, costumam ser ora céticos, ora comedidos, o que, no linguajar dos gurus significa que resistem à inovação e estão impreparados para a mudança — e são uns chatos.
Onde está o logro? No facto, demasiado regular para ser admirável como ainda resistimos a reparar nele, de o futuro ser bastante incrível e nada sensato — só um idiota seria capaz de garantir há 30 anos que os telefones iriam ser uma cash cow. Não, não se estava mesmo a ver…
Nenhum dos quadrinhos aqui expostos e pilhados de Paleo-Future, é desvairado ou incongruente. Bem pelo contrário, cada um deles faz uma extrapolação razoável das tendências que no seu tempo eram mais necessárias e pareciam mais aptas a desenvolverem-se, tanto tecnológica como comercial e socialmente. Pois nada.
Decerto o leitor já adivinhou que este post vai concluir afirmando que um político, cuja atividade  é a mais volúvel das matérias, capaz de ir ao ponto de anunciar as medidas infalíveis para resolver qualquer assunto, não passa de um charlatão. Mesmo que ele acreditasse no que diz.

As casas de hoje imaginadas em 1979

O meu cemitério meu


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Aqui quero ser enterrado. Ou como diria o outro:

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza…
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

Onde tantos jazem — o meu cemitério preferido


Andreas Gursky, “Ocean II, c-print”, 2009–2010


No início do filme “The Thin Red Line”, ainda a caminho de Guadalcanal, há uma cena em que os soldados acorrem à amurada dos navios, a saudar o sobrevoo dos Mustang. Excitado e demasiado pendurado, um dos homens cai à água e logo outro grita o alarme, mas o seu camarada encolhe os ombros: o comboio de barcos não vai parar. E a câmara perdura sobre o pontinho cada vez mais insignificante à tona de água, sacudido pela esteira de espuma, enquanto o sol se põe.
Por um instante acomete-nos o pavor do abandono definitivo que é ficar sozinho no oceano apenas à espera da morte.
O mar é o cemitério mais absoluto que há.