folhetim 8– Interlúdio e Fuga

– Merda!
Primeiro foi a voz. A parede crepitava num bzzz estaladiço e de repente acendeu-se nela a imagem de um homem sentado, um corpo enorme. Tinha o olhar disperso dos cegos mas intimidava, a sua opulenta figura.
– Senhor?
Disse Catarina hesitante e reverente. A transmissão oscilava, fustigada pela chuva de drops. A pouco e pouco foi estabilizando.
– A vossa rede está uma desgraça. Quem vos viu e quem vos vê, pobres, pobres europeus que eram os senhores do mundo e agora nem conseguem fazer uma teleconferência em condições – o Senhor começou a frase a rir e acabou-a a tossir. Riso e tosse quase convulsos, no mesmo formidável estremecimento.
Catarina olhou pela janela do seu apartamento na Plaka. Da rua subia-lhe o rumor festivo de centenas de passos e vozes. Eram os turistas chineses a subirem para a Acrópole. Em menos de uma hora ia começar o espectáculo quotidiano do Ligh & Sound The Ancient Hellas. Tal como todos os habitantes do bairro, também ela teria que vestir a toga e ir à varanda deitar fogo de artifício. Era disso que viviam.
– Estamos muito descontentes com o curso das coisas, meu anjo. – A ironia de S. angustiou Catarina – demos-lhe um homem a guardar, só um, e perdeu-o? Onde pára o seu valido com nome de santo?
– Ficou à porta de uma igreja em Nova Iorque, Senhor. – Qual? – The Little Church Around the Corner, a Igreja da Transfiguração, na Rua 29 – Catarina sentiu um abismo entre a grandiloquência do nome oficial e a prosaica localização.
– Logo essa… O homem está mesmo perdido. Só um descrente é que entra nas igrejas à procura de respostas. Quem tem o hábito de lá ir já sabe o que espera.
– Não era o Sandeep que estava a tomar conta dele? – ousou perguntar Catarina, sabendo que são insondáveis os desígnios de quem pode.
Dois sulcos riscaram a testa de S.
– Era. Mas tive que o chamar. – Isto foi dito sem levantar nem gelar a voz, afirmado como quem descreve.
Catarina recebeu isto como a verdadeira forma do poder.
O Senhor começou a crescer, a erguer o seu volume colossal. Ocupava agora toda a imagem, enquanto a voz afundava o tom, martelando cada sílaba. O rosto avermelhava-se mas os olhos vagueavam indiferentes à cólera que os sacudia.
– Tive pena dele, vi-o desesperado, a morte deteve-se na sua vida com impiedade, foi a mulher que agonizou com um sofrimento minucioso; foi o desaparecimento súbito dos pais que afinal não eram os verdadeiros pais, o que lhe impediu de recordá-los amorosamente, retribuindo o imenso amor que lhe deram em vida; foi o desamparo dos filhos de quem ele ouvia o choro sufocado todas as noites, numa tristeza que lhe afugentava o sono eo deixava prostrado de amargura. Tudo isto fez com que a compaixão voltasse a tocar-me e decidi intervir. Sim, resolvi agir. E qual foi o resultado?
Catarina teve a perfeita dimensão da sua fragilidade diante da fúria que vinha ao seu encontro. Naquele instante viu como tudo podia desaparecer num clic. E recomeçar logo a seguir num estalar de dedos, sem sombra de passado. E percebeu que se uma pergunta nunca encontra resposta, é porque deve estar mal feita.
– Esse Francisco Xavier abandonou os filhos, que é a maior das crueldades; ficou cego ao que lhe era oferecido, desdenhou ou ignorou os sinais que lhe foram postos à frente. Para quê? Para correr como uma galinha tonta de enigma em enigma à volta do mundo como uma personagem dos livros daquele locutor de TV, como é que ele se chama? – Catarina lembrou-se mas não disse e S. suspirou enfadado, esvaziando a sua ira. – Tanto acidente para encontrar o nome. Vale a pena juntar mais sofrimento ao sofrimento por um nome? E isto o vosso livre arbítrio?
Houve um súbito silêncio. No ar só os alegres ditongos chineses que se exclamavam da rua. O senhor permaneceu imóvel e Catarina também não se mexeu, mas receou que a transmissão tivesse bloqueado.  S. acabou por fazer um gesto de abandono com a mão.
– O homem já começou a ouvir coisas dentro de quadros. Ainda não descobrimos os limites da nossa paciência, mas não é tolerável que um episódio tão insignificante possa ficar fora de controlo. Vamos acabar com esta deambulação insensata. Nem Boston, nem Atenas. Está na hora, vá buscá-lo e traga-o de novo a casa. À casa de origem. Lisboa.
Catarina endireitou-se na ponta da cadeira, ainda sem coragem para desvanecer a tensão nos músculos.
Não nos deixe ficar mal, Catarina. – disse o Senhor com alarmante  suavidade – Se o seu Francisco Xavier continuar tão aflito para se identificar consigo próprio teremos sempre o recurso de lhe marcar um encontro com Deus. Quando é a pedido não há remorsos.
Um vórtice negro. Desligou.


O telemóvel tocou e veio uma repentina bátega de chuva. Na esquina da 29 com a Madison Francisco viu o nome no visor e lembrou-se da frase: “Diz-lhe que estás viva, e que o teu nome é o nome dele”.
– Não posso viver sem ti. Amo-te. Vou aí buscar-te.

Um bom princípio

Kamrooz Aram, “Cryptic Summit”, 2007

O sr. Manuel Fonseca pilhou-me uma ideia que eu há muito acalentava. Evocar a ignorância das minhas íntimas e nunca declaradas intenções será por certo desculpa suficiente neste mundo repleto de factos observáveis, mas não o ilibará no meu tribunal subjectivo.
Por isso, façam o favor de ler este post antes do dele, porque essa é a ordem justa.
Como escreveu Frank Herbert na abertura de “Dune” (quem? onde?): “A beginning is the time for taking the most delicate care that the balances are correct.” Ou seja, um livro começa pelo princípio. Duas coisas podem espantar nesta frase: que haja alguém que tenha a lata de registar uma evidência tão pedestre e que haja quem escreva um livro esquecendo esta evidência tão pedestre. Sou capaz de jurar que a segunda é pior que a primeira.
O modo como a narrativa se desencadeia compele-me, a mim leitor instável, a seguir em frente ou a largar o volume logo ali. Às vezes é mesmo em pé na livraria que tomo a decisão, o que faço levando pouco em conta o respeito pelo nome do autor inscrito na capa: as coisas hão de valer por si, ou não. Se tiverem paciência para continuar, partilho convosco um punhado exemplos vividos e confirmados de livros que arriscaram prometer mundos e fundos logo na primeira frase e  me compeliram a escolhê-los on the spot.
Tenho o prazer de vos comunicar que as restantes páginas não desmereceram os votos iniciais


“Naquele ano coube a Martinho Dias Nabasco acompanhar o que restava duma família numerosa e abastada, ao cemitério da terra natal.”
Agustina Bessa-Luís, “A Ronda da Noite”

“Partimos então no jipe, o Paulino e eu, a caminho de Opuho, na Namíbia, pela fronteira de Namacunde, Sta. Clara… Essa foi a primeira viagem… A que estou a fazer agora é a segunda. Vim de avião até Windhoek, aluguei um carro, cheguei a Outjo ao cair da tarde de ontem, vou aqui ficar uns dias, esta é a primeira manhã. Estou a escrever num desses famosos cadernos de capa preta, quer dizer, num caderno feito para durar, para caber tudo nele.”
Ruy Duarte de Carvalho, “as Paisagens Propícias”
Com o livro comprei também um moleskine

 

“Criado embora entre hálitos de faisão, cedo me especializei na arte de estender os braços.”
Nuno Bragança, “A Noite e o Riso”

“A Eufémia Troncha catava-o, fingia estalinhos insecticidas, fazia-lhe com a unha titilações, atritos suaves no casco da coroa, inventava para o nutrir e inflamar carícias e guisados, surpreendia-lhe o apetite com fricassés muito aromáticos, tinha meiguices e candonguices duma donzela que afaga os pombinhos entre os seios virginais, decotava o corpete dos vestidos para lhe escaldar o sangue, fazia trejeitos lascivos de gata que se rebola escandecida nos telhados – uma cróia velha com muita experiência sublinhada.”
Camilo Castelo Branco, “A Corja”

Por fim, a abertura das aberturas que tem o romance todo numa frase (mais o filme):

Last night I dreamt I went to Manderley again.”
Daphne du Maurier, “Rebecca”

Foi como foi e pronto


No meio de Hamlet há aquela peça que encena dentro da peça que vemos, o drama do príncipe poltrão. É um momento utilizado na escola para ilustrar a técnica do mise en abyme. Assim é também o futebol: um eloquentíssimo mise en abyme daquilo a que chamamos “vida real”, encenado por 22 rapazes de calções, mais 3 ladrões sem casaca, rodeados tanto por um punhado de mulheres com um prodigioso léxico de insultos (caso do A.D.R.) como de 40.000 uivantes em ira ou alegria.
Para ilustrar esta analogia peço que considerem o caso Djaló, Yannick Djaló.
Fadaram-lhe um futuro auspicioso e o menino, sonhando fintas mirabolantes e golos de bandeira em noites europeias, foi logo cortar o cabelo à campeão, e furar as orelhas de diamantes, que em futebol é o emblema dos predestinados.
Mas da potência ao ato vai um abismo, que nem os filósofos árabes medievais, nem os coevos monges cristãos que lhes pilharam o pensamento, conseguiram resolver; pelo que o tempo passava e o destino tardava. E se debaixo da bondosa tutela de Derlei ainda Djaló teve uns minutos de ser capaz de qualquer coisa acima da vulgaridade, quando íamos ao deixa-lá-ver-melhor já lá não estava nada digno de estima. E as coisas foram indo assim, ou seja, cada vez pior. Em campo exibia demasiado uma pose petulante, aparentando preocupar-se mais com a estética do que com os resultados, como se fosse um poeta da Assírio, propondo umas corridinhas em pezinhos de lã amarelos, sem consequência.
De modo que estivemos nisto até à semana passada. E de repente, sem alerta prévio, quem era aquele acelerador de partículas em campo? Era o Djaló, a romper, driblar, rematar. E tudo isto com uma convicção e uma certeza dir-se-ia que “evidentes”, como se nada tivesse sido de outra maneira.
Como se explica tão drástica metamorfose, tamanho salto quântico da noite para o dia? Os crentes, que sabem sempre o que dizer, exclamarão: “Milagre!” Ou então: “mistérios da Divina Providência” que é o que avançam quando precisam de não explicar o que dizem. Os ludopedistas, que tendem a ser deterministas,  declamarão razões como se já soubessem antes o que só repararam depois. Mas na verdade a explicação é só uma: não há explicação.
O irrompimento do novo Djaló, que em nada o velho deixava antever, é semelhante à maior parte daquilo que nos sucede na vida – apenas acontece. And that’s that.

“True materialism is about what you LEARN in the material realm, not what you EARN”

John Balderassi, (com Mario Sorrenti e Yves Saint Laurent), 2007

Decorrem tempos um bocado foscos, ou então é da minha vista.
Oiço cada vez mais gente que pensa mal a dizer o que pensa. “Pensa mal” é uma expressão simplesmente técnica e se a cortarmos às fatias quer dizer, por exemplo, que se pensa muito pouco que pensar é resolver problemas ou puzzles e que, assim sendo, se pensa pouco naquilo que se diz pensar; dá-se respostas esquecendo-se das perguntas ou o que é pior, há respostas mesmo antes das perguntas.
Cobrem-se, ainda, as coisas com demasiadas respostas, produzem-se explicações com intempestiva facilidade sobre tudo que acontece, como se a contingência não existisse, como se tudo fosse factual e produzido pela necessidade, como se não fosse distinta a “razão suficiente” da “necessária”, como se a sorte e o azar não fossem as mais poderosas constantes, como se houvesse explicações ou razões naturais, como se o que é da ordem do natural ou a natureza fosse parte do pensamento e não, precisamente, aquilo que lhe é exterior. Enfim, como se não houvesse que pensar nas perguntas que queremos fazer, quando se quer procurar as respostas em que se há de pensar.
E depois há os que não entendem a transcendência sem revelação, os que procuram o conforto prêt-a-porter das narrativas como se já tivesse sido tudo dito, só falta agora é ir aplicando aos casos que encontram. E fazê-lo sem interrogações fora das perguntas previstas como se a curiosidade não os movesse e não fosse a centelha que desencadeia o pensamento. Como se não houvesse problemas. E volta-se ao princípio.
E comecei afirmando “oiço cada vez mais gente” porque me parece que vejo cada vez menos entusiasmo pela arte do nosso tempo, qualquer que seja o seu género e espécie, mais capaz de a desmobilizar porque não a entende, pensando que é a arte, ela própria, que não é compreensível. Como se na arte deste tempo que vivemos não houvesse consolo porque ela pensa connosco em vez de pensar por nós. Como se não houvesse consolo em pensar. Isto entristece.
Pelo menos é o que penso.

De rerum natura

de Patrícia Almeida

Se me tivessem perguntado, teria votado em Patrícia Almeida. Refiro-me ao Prémio BES Photo, 2009 para algumas fontes ou 2010, para outras.
O magnífico júri escolheu três finalistas: André Cepeda, Filipa César e Patrícia Almeida. E a cada um cedeu uma bolsa para produzirem um trabalho que já está em exposição no CCB, na ala entregue ao Museu Coleção Berardo, até ao dia 4 de Abril.


Berlin Zoo, frag. de video de Filpa César


Faz tempo que sou adepto de Filipa César e gosto bastante do modo como ela utiliza o clic fotográfico para congelar o instante da indecisão ou o momento em que não acontece nada. Enquadradas segundo os preceitos clássicos, as suas fotos capturam anónimos em trânsito, lugares que parecem ter uma história para contar para além do simples facto de estarem ali. Isto assim descrito é tão genérico que cabe tudo lá dentro, mas é a brevíssima centelha de emoção, muito frágil e efémera, que as fotografias de Filipa César soltam de cada vez que olhamos para elas que dão robustez às imagens. Não digo isto por exercício especulativo: é o que me acontece sempre que reparo na foto que tenho pendurada na sala lá de casa. E, note-se, acontece-me passar por ela muitas vezes ao dia.
Mas Filipa César é uma consagrada; vive em Berlim e até já teve direito a instantâneo festivo no “Scene & Herd” da Artforum que passa por ser a “Caras” do circuito artístico planetário. Já não é deste rectângulo lusitano, pelo que não precisava de ter vencido mais esta distinção para ampliar o seu prestígio.


de Patrícia Almeida

Logo o meu voto iria mesmo para Patrícia Almeida. Primeiro, por razões pessoais que são importantes embora não venham nada ao caso. A seguir porque dos três trabalhos expostos é aquele que dá o maior passo em frente face ao que a artista já nos havia mostrado. Depois porque sendo o menos conceptual é o mais substantivo.
Chama-se “All Beauty Must Die” e é composto por um conjunto de fotografias de paisagem com gente. Ou melhor: paisagem e gente. Fui virgem para a exposição, não li nada nem falei com ninguém e o que me pareceu é que tudo acontece num daqueles festivais de música de Verão, em que as pessoas espalham o acampamento pelas matas do recinto. O que vemos, então, são jovens manifestamente urbanos prometendo comunhão com a natureza mas na realidade, se assim se pode dizer, em contraste com ela, interrompendo-a desajeitadamente. Não há ruptura, desintegração, ou qualquer outra espécie de drama social ou emocional, nem juízos morais de carácter ecologista; tudo é sereno e inconsequente, cheio das armadilhas da boa vontade.
Na exposição de Patrícia Almeida fica patente a impossibilidade de um regresso ao romantismo clássico neste século XXI. Todos os poetas, de preferência alemães, que outrora viam na floresta e nos regatos ainda intocados pelo homem um potencial de pura vitalidade, são hoje desmentidos pelo exemplo desta estirpe juvenil idealista que não consegue ser mais do que um acidente no curso da ordem natural.
Nada se troca, tudo fica como estava e nem as cabrinhas escapam à discrepância.

 

 

What comes down must go up

Lucio Fontana, “Concetto Spaziale”, 1959

Nos dias em que me encontro mais toldado ou assim me acha quem de mim se atreva a aproximar, nesses dias sou em todo e tudo, tela de Lucio Fontana. Indícios de cólera só para espantar os menos afoitos ou para mobilizar a tropa em ordem de marcha quando lhes dá para arrastar os pé. Ou, como iam avisando os campinos quando corriam o gado de corno bravo do bairro para o campo: “fuge diante por mór dos bois!”
Assustam umas facadas no amarelo? Estou só a avisar.


Ugo Rondinone, “Hell, Yes!”, 2001

Quando é bom pode ser ao som do “This Tornado Loves You” da Neko Case; quem diria que na pop haveria bálsamo para os meus sulfurosos humores.
E o céu está limpo; de preferência calor – olha! pendurou-se-me um daiquiri na mão esquerda!
Não é necessário que as cores sejam muitas, só é preciso que estejam bem iluminadas. São dias em que há grande prazer em dizer que sim, senão a tudo, pelo menos ao maior pedaço do que se me oferece. Não ter nada para fazer ajuda muito, dá mais sim ao sim.

Querem mais do melhor e do pior? Então perguntem ali à Belatrix da Professora Joana.

Os cavalos também se abatem


Há de ser o filme mais triste da história do cinema.
Nem será bem triste, porque a tristeza é coisa passageira e com lágrimas, líquido que seca depressa se lhe aplicarmos um lenço. Em The Misfits o que temos é melancolia, esse indefinível mas persistente pathos que no espírito se instala e endurece, irredutível aos piparotes da alegria e tantas vezes incapaz de estremecimento diante dos assaltos da ternura.
O que permite atribuir a The Misfits o estatuto de filme mais melancólico de sempre não é o desalento que o enforma e se desprende do primeiro ao último fotograma, mas aquilo que na sequência dele veio a acontecer e nele parece já tão manifesto. Dos três actores que o protagonizam, Clark Gable e Marylin Monroe morreram pouco depois e Montgomery Clift já não era aqui mais do que um espectro. Gable foi-se de ataque cardíaco 10 dias depois das filmagens. Marylin assistiu à estreia a caminho de uma clínica psiquiátrica e nada mais nos deixou além de fragmentos de uma obra inacabada. Clift faleceu quatro anos depois, precisamente numa noite em que The Misfits era exibido na televisão e as últimas palavras que o ouviram dizer foi “nem pensar”, respondendo à pergunta da sua empregada sobre se iria vê-lo.
A posteriori, e pelo modo como cada um faz evoluir a sua personagem, dir-se-ia que todos eles sentiram a presença eminente do anjo negro durante a turbulentíssima rodagem na planície desértica do Nevada, às portas de Reno.
Olhando para o filme como quem olha para trás, vemos acontecer algo muito pouco habitual e que é o grande interdito na arte de representar: não são os actores que se escondem na pele das personagens, são as personagens que transportam as questões de cada uma daqueles pessoas. As fadigas de Gay Landland são o próprio cansaço de Clark Gable, e a pose ausente de Perce era a exacta alienação de Montgomery Clift.
Sabemos hoje que a estentórica cena final de Marylin foi a última que lhe saiu do corpo. E sabendo isto, a nossa consciência vacila e perturba-se diante do desespero daquela mulher, quando pede ao endurecido cowboy Gable que poupe a vida dos mustangs como quem pede pela vida dos filhos. O que noutras circunstâncias acharíamos exagerado entendemos agora que é apenas verdadeiro. Já não é a pesada metáfora de Henry Miller sobre a morte da liberdade que estamos a ver, aquilo a que presenciamos é o fim da vida de Marylin Monroe mostrado por ela.
Hoje, só resta um punhado de mustangs em liberdade, graças a um programa de proteção da espécie.

Outros tempos, estes tempos

John Everett Millais, Ophelia, 1851–52

“Tudo se paga? Pergunto baixinho e a medo. Ódio. Tem sido sempre o mesmo ódio. O ódio que vi proclamado por Moreira de Almeida, nestes termos: – Tenho-lhes ódio! tenho-lhes ódio! E como lhe observasse que para voltar à monarquia era preciso matar quinhentas pessoas, respondeu logo. – Matam-se. O ódio que vi nos republicanos de pistola no bolso – para matar, ou de carabina em punho, nas noites da República, quando o jornal estava para ser assaltado pelos democráticos. O ódio do João de Freitas – e o ódio dos que o mataram. O ódio que encheu de sangue o Terreiro do Paço no dia trágico que nunca mais esquece. O ódio a que Sidónio sucumbiu e que ia matando Camacho e Magalhães Lima. De toda a mentira avolumada se formou a atmosfera de morte. […] Quem me dera apagar a pavorosa fotografia de Machado Santos fuzilado, que O Mundo publicou, e as figuras do rei e do príncipe, que não me saem dos olhos!“
“Um dia destes (Maio 1915) João de Freitas disparou o revólver sobre o João Chagas, quando vinham no mesmo comboio para Lisboa, vazando-lhe um olho […] No comboio prenderam-no, agarraram-no e entregaram-no aos sicários que o mataram lentamente no Entroncamento. Cuspiram-no. Escarneceram-no. Arrancaram-lhe as barbas e torturaram-no até ao último suspiro. Por fim enterraram-no como um cão, por ordem do administrador de Torres Novas. […] a sua morte foi um verdadeiro martírio: até fel lhe deram a beber.”

- Raul Brandão in “Vale de Josafat”

Nunca gostei muito de Raul Brandão. A prosa encaracolada, com mais adjectivos que predicados. Todavia, as suas “Memórias” escritas no tom despachado dos diários, descomprometidas com a ideia que Brandão tinha de literatura, são um colosso de observação, recheadas de pormenores e particulares impublicáveis e, no seu tom desprendido e desiludido, tornam-se o relato mais agudo das primeiras duas décadas do séc. XX em Portugal.  Nada do que ele escreveu alcançou tamanha dimensão, tanto acerto. Ler estas páginas hoje pode ser assustador.

Quando no cinema acabaram os homens


Se quiserem uma data, diria que foi em 1960. Foi este o ano em que acabaram os homens no cinema.
Já em 1959 as coisas não tinham corrido bem e sobejaram sinais do que estava para chegar. Hitchcock maltratou Cary Grant de todas as maneiras e feitos, com supina crueldade, em North By Northwest; Hawks anunciou o finnis tempore do western em Rio Bravo, cercando John Wayne ao fundo da rua, na companhia de um bêbado, Dean Martin claro, e de um velho desdentado, Walter Brennan, ainda mais óbvio. Pior ainda fizeram Billy Wilder e I.A.L. Diamond em Some Like it Hot, quando obrigaram os tesudos Jack Lemmon e sobretudo Tony Curtis, a percorrerem o filme travestidos de mulher, com a burra da Marilyn a fazer deles – tão espertos que se julgavam… – gato sapato.
Mas foi em 1960 que Visconti nos entregou Allain Delon e os seus irmãos, na conta de 3, e o magnífico John Sturges não conseguia resolver o assunto com menos de 7 pistoleiros. Um homem sozinho e sem ajuda já era de pouca serventia, pequeno demais para o ofício de herói. Para quem precisar do simbólico, recorde-se que 1960 foi também o ano em que a figura de John Wayne soçobrou de vez nos escombros do Álamo, um fiasco de filme, de engenho, enfim, de homem.
Mas a prova mais segura de que 1960 é a estaca certa, saiu das mãos da dupla Billy Wilder / I.A.L. Diamond e chamou-se The Apartment. Foi aqui mesmo que se extinguiu no cinema a ideia de homem que todos os homens queriam ser.
Temos então o pobre Jack Lemmon aguardando numa esquina, à chuva. É a própria imagem da desolação, aquele homem constipado, ansioso por uma canjinha que o acalente. Como se pôs ele em tal situação? Foram a tibieza e a cupidez, irmãs gémeas nos frouxos, que o conduziram ao hábito servil de emprestar o seu apartamento ao chefe da repartição, para que este pudesse gozar as amantes, a troco de uma vaga promessa de promoção. Outro motivo assaz materialista animava o C. C. Baxter de Lemmon a praticar o torpe aluguer, pois era com esse dinheirinho que pagava a renda de casa. Ficamos desde logo a perceber que o volumoso Fred McMurray, o boss, irá tratar Lemmon como um trapo até ao fim do filme.
A única luz que no pusilânime C C. Baxter se acende é de uma subtilíssima atração pela rapariga do elevador. A ascensorista é Shirley MacLaine, a dos olhos arregalados e franja rala, feições de amplitude eslava e atitudes com o seu quê de desconcertado, mais do que desconcertante. MacLaine que vinha de ser uma puta com a candura absoluta dos idiotas aos pés de Frank Sinatra, nesse melodrama dos melodramas que é Some Came Running, apresenta-se como uma figura intangível, porque indiferente e sem importância. Que emoções se adivinham numa ascensorista?
O contacto entre ambos dá-se quando Baxter, podendo finalmente regressar ao seu apartamento, numa das noites de aluguer, vai dar com ela semi-suicidada. Fred McMurray acabara de anunciar-lhe a retirada e McLaine ficou desprovida quer de amante, quer, também ela, de esperança numa promoção lá no escritório.
O resto do filme é ver como se enlaçam ou sobrevivem duas almas perdidas no seu próprio oportunismo e submetidas à impiedade dos mais fortes.
O Baxter de Jack Lemmon é uma figura patética, um fraco digno de comiseração, mas nunca o vemos humilhado, nem nos rimos dele. Porquê? Porque sabemos que aquela poderia ser a nossa figura, que estamos sempre a um milímetro de nos tornarmos naquela criatura se baixarmos a guarda por uns minutos. A esta consciência de si, não há alívio em descobrir que afinal Mclaine é moça de sentimentos, quase enternecedora na sua vontade de os recalcar para evitar ferir-se, quase irritante por não saber distinguir entre a bondade e a complacência. Todas as mulheres se fazem perigosas aos olhos dos homens apoucados.
E esta sensação de alarme que nos atravessa e nos põe entre o dó e a amargura, é obra do génio de Wilder & Diamond, os grão-mestres do funambulismo emocional de alta voltagem, sempre a um instante do sarcasmo mas sem tropeçar na crueldade, sempre a roçar a sordidez, mas sem resvalar para a complacência. Quando Wilder & Diamond nos convidam para dançar, já sabemos o tango que nos calha: no primeiro passo lamentamos o protagonista, no segundo compreendemo-lo, no terceiro temos pena dele, no quarto identificamo-nos com ele. É aqui que rodopiamos.
The Apartment patenteou que estava acabado o cinema de homens que se definiam por aquilo que faziam, à boa maneira de Hawks. Já se haviam apresentado os rapazes agrestes, tão densos como as células, incapazes de conterem as lágrimas e moderarem a voz, ainda mais abstratos que os hollow men de Ford, a fazerem-se trágicos só porque temperamentais. A receita para a infelicidade masculina de Lee Strasberg, decalcada das técnicas de Stanislavski, tirou do forno James Dean, Marlon Brando e Montgomery Clift. Só Paul Newman teve inteligência para sair do redil, ao descobrir que um módico de insolência e azul salvaria a imagem da sua virilidade.
Mas já era tarde demais para que no cinema voltasse a haver homens à homem.

Avareza


Mas que belíssimas meditações o Sporting nos continua a proporcionar.
Embora não seja adepto da reflexologia m-l não consigo deixar de ver nas peripécias do futebol o espelho onde se reflectem de modo berrante todos os sintomas em suspensão no “mundo real”.
segundo a qual o pensamento é o reflexo das condições materiais que o produz
Uma equipa como o Sporting, apesar integrar o fulgurante Liedson, demonstra uma inusitada avareza em golos porque nela se refletem os princípios profundamente avaros da sua organização. Em última instância, a filosofia mesquinha e sovina que tem norteado o Sporting mais não é do que um efeito de especularidade de alguns processos de governance que tiveram grande voga até finais de 2008.
bem sei que parece expressão de crítico de cinema dos anos 70
O Sporting tem a aura de um clube de cavalheiros. Sucede que os cavalheiros são portugueses, logo são tolos, de uma tolice acima da média nacional – um facto historicamente comprovado. Daí que in illo tempore, o que em futebol quer dizer há um punhado de anos, os senhores dirigentes tiveram a ideia sensata – na sensatez dos tolos – de aplicar ao clube os modelos de gestão que haviam aprendido nos MBAs, orientando-o para os interesses do shareholders em detrimentos dos stakeholders. Ou seja, em economês de sarrafo: o EBITDA é benéfico para as cotações, em vez de ser a bolsa a financiar a produção. Ora isto que  se vem agora suspeitar não ser bom para as empresas, revelou-se péssimo para um clube desportivo, porque foi esquecido que em futebol o EBITDA tem a forma de vitórias conquistadas naquele hectare de relva. “Não podemos estar dependentes da bola que bate na trave” disse o Presidente de então, sem declarar que passaria a estar dependente das folhas de Excel.
Os sportinguistas, nós, vinham-se satisfazendo com a parcimoniosa gestão de formiga durante estes últimos 10 anos em que terminámos as épocas com um módico de consolo e sempre à frente da cigarra benfiquista que todos os verões esbanjava jogadores às pázadas, para chegar ao fim, patéticos, a tiritar de melancolia.
Não andávamos infelizes, nós e os depositantes no Bear Stearns. Até que nos aconteceu esta débacle, a nós e aos clientes de Bernie Madoff.
Afinal os jogadores ditos mais valiosos ficavam por cá, não porque o presidente tivera força para os segurar, mas apenas porque o mercado não lhes ligou nenhuma; afinal a dívida crescia de modo hiperbólico apesar da suposta contenção de custos; afinal a célebre aposta na formação consistiu em desistir de procurar bons jogadores a preços acessíveis e expor na equipa um lote de monos sem talento nem crédito.
conten-quê? quando se ostenta um departamento de marketing com cerca de 40 funcionários e um diretor do dito com um vencimento superior ao seu equivalente bancário
O humilde Paulo Bento, na sua estreiteza tática e no seu estoicismo emocional, lá ia incutindo nos rapazes que treinava alguma abnegação, apesar das vaidades e parvoíces inerentes aos jogadores de futebol. Mas bastou uma série de jogos mais sonolentos e irresolutos do que o habitual para tudo se desmoronar.
O Sporting está a sofrer a sorte dos avarentos: quem pouco quer tudo perde.

É bem pior do que isso


Caro Pedro Norton:

Desculpa parasitar o teu post, Pedro, mas precisamente porque partilho por inteiro o teu diagnóstico sobre os diagnósticos, e os pressupostos que o enformam, não consigo dar o quantum leap para a hipótese de uma luz ao fundo do túnel. Estou como o outro: só vislumbro um túnel ao fundo da luz.
Para utilizar uma imagem horrífica, portanto à altura dos tempos, tu estás como um médico que diz: “o cancro á apenas no estômago, o resto está bem.”
A questão não é meramente política como muito bem afirmas, a questão é tanto mais grave quanto é política. Porque não é só o facto de os partidos terem sido sequestrados pela patuleia das concelhias, por alguns profissionais do aparelho para quem o exercício do poder é em si mesmo o objectivo da sua prática, nem pelo pequeno (suponho) punhado de oportunistas. Tudo isto seria regenerável, como já o foi noutras ocasiões, com escasso trauma e muito acordo geral.
O problema é a total politização do aparelho de estado e o segundo passo lógico que foi dado: a estatização de uma parte tão substancial da economia e das mentalidades do país, que se tornou irremovível sem catástrofe, logo impossível de remover pela majestosa inércia que o sustenta. Inércia e legítimo medo.
Chegámos a um ponto que é sempre omitido: reformar o aparelho de estado do seu lastro, dos absurdos orgânicos, das excrescências, do despesismo, seria atirar para o desemprego uma multidão insustentável para qualquer sistema de segurança social e insuportável para qualquer sociedade que precisa de paz.
Mas para além deste “pormenor” que só por si é um formidável obstáculo, afirmas, que “não é de escassez de diagnósticos ou de remédios que morrerá o paciente”. A tua boa vontade ilude-te, Pedro. Por mais de acordo que possamos estar com as propostas apontadas pela racionalidade económica, como suponho estarmos, não podemos esquecer que elas provêm de um sector minoritário, parcial e comprometido da sociedade e da intellingentzia portuguesa. A mentalidade dominante, sobretudo na esquerda mais sonora, não se desviou um milímetro da dinâmica salazarista no que concerne à relação entre o Estado e a economia: protecionismo completo, anti-capitalismo radical no que este tem de tumulto e de “destruição criativa”, desresponsabilização individual na condução dos negócios pessoais. Ao fim do dia, em vez de risco, crescimento, e realização individual, o que todos querem é garantia eterna de sossego (mesmo que também eterno), sabendo que ele se obtém se eu entregar o meu destino nas mãos do Estado – ao menos ninguém me chateia, nem me chateio com nada…
A memória da nossa miséria atávica está demasiado próxima para ser de outra maneira. E como se sabe, um cancro no estômago propaga-se por outros orgãos, contamina o corpo todo e mata o paciente. É só uma questão de tempo.
Desesperei de qualquer possibilidade reformista com um caso sucedido durante a primeira legislatura de José Sócrates. E ia jurar que virá a ser um case study daquilo que nos aconteceu, quando no futuro nos quiserem perceber.
Imagine-se um sector de actividade da máxima importância para o país, com uma performance bastante disfuncional a necessitar de reforma profunda de modo a ser mais justo e mais eficaz, premiando o mérito e orientando-o para os resultados. Imagine-se agora as condições políticas ideais: um governo de maioria absoluta, um presidente vitorioso na primeira volta disposto a dar o seu apoio, um consenso social em torno da ideia de que é preciso haver reformas e, até, alguma disponibilidade financeira.
Qual foi o resultado? Foi a ministra Maria de Lurdes Rodrigues ter sido corrida pela porta pequena debaixo dos piores enxovalhos.
A inércia e a entropia são as forças mais persistentes do universo, e quando não há vontade de ir mudando, as coisas só mudam quando se quebram de vez.
Estamos como havemos de ir.

Sem título


Agnes Martin, Untitled #8


“Nem vais dar por isso”. Preocupava-o apenas a bata ridícula que lhe deram a vestir e a possibilidade de proferir inconveniências durante a passagem pela anestesia. Acordou meia hora depois com a memória intacta do último instante em que ficou consciente. Esteve totalmente entregue e vulnerável, num estado tão nulo que nem chega a ser vazio, ou lugar, ou nada. Apenas tinha meia hora a menos. Deve ser por causa disto que  fizeram deus, porque isto não tem forma de ser. Há sempre uma enfermeira que fala por diminutivos a dispôr umas bolachinhas. “Daqui a uma semana tem o resultado do exame”.
Um dia lindo, fazia um frio quieto.
À noite, em casa, pôs-se a ler um conto de Teresa Veiga escutando Zoe Keating. Há misturas que não se fazem; são demasiadas vozes. Sem vontade de dormir, mas cheio de sono.
Ela vem a caminho.

Por dentro

Que raça das piores de esqualo ostenta fauces tão grotescas, quatro filas de dentuças bem capazes de britar ossos e rasgar carnes?

Pois nada. São de uma menina de 10 anos normal à vista.

Tão estranhas as nossas entranhas.

Viajar sem sair do mesmo lugar *

* - para a EV quando me acha embirrento

Giorgio Morandi, Natureza morta (vaso azul), 1920

Giorgio Morandi não viveu apartado das ideias e dos movimentos da pintura do seu tempo. Vivia, isso sim, fora das peripécias da vida quotidiana.
Durante os estudos académicos, na fase em que os jovens são euforicamente epígonos na descoberta do novo, estudou com atenção as composições de Cézanne e de Piero Della Francesca.  Sabendo o que veio depois, pode dizer-se que eram já as naturezas mortas e uma pintura de planos a chamar por Morandi.
Conheceu os futuristas e com eles expôs na Espozione Libera Futurista Internazionale de 1914, ao lado de Balla e do grande Marinetti. Algum respeito ou pelo menos atenção, deve ter Morandi alcançado junto deles para poder pendurar as suas telas ao pé das de gente tão sobranceira e selectiva.
Na fase seguinte, Morandi associou-se à scuola metafisica, encabeçada por De Chirico. Se bem que o movimento tivesse sido fundado em 1917, só em 1919 Morandi se encontrou com De Chirico em Roma, data a partir da qual os trabalhos daquele se aproximaram um pouco dos propósitos líricos deste. A escola foi dispersa em 1920 e Morandi não se deteve nela.
Depois, em 1926, participa na grande exposição do grupo Novecento, muito ligado ao novel Estado fascista. Todavia, ninguém deixou de reparar que as telas de Morandi contrastava de um modo abissal com a grandiloquência e o fervor nacionalista dos restantes trabalhos.
A partir daqui nunca mais se viu Morandi alinhado, embora também não haja prova de que andasse distraído.
O ponto é este: Morandi não desmente uma das leis empíricas mais constantes (logo verdadeiras?) da pintura: que um artista se faz em escola, movimento ou grupo, fora dos quais não há arte. Até o intratável Van Gogh tinha como melhor, se não único, amigo o pintor Gaughin.

Giorgio Morandi, Natureza morta, 1946

Mas sendo certo que Morandi via, aprendia, aderia, e até se deixava ver, não menos seguro será afirmar que terá sido o grande anacoreta de todos os pintores que participaram no frutuoso século XX.
Viveu sempre em Bolonha, e desde a morte do pai em 1933, sempre na mesma casa com sua mãe e suas três irmãs, e sempre no mesmo quarto onde dormia e pintava.
A primeira vez que Morandi requereu um passaporte foi aos 66 anos, em 1956, para atender a uma retrospectiva sua perto de Zurique, aproveitando, no mesmo passo, para apreciar uma grande mostra sobre Cézanne, o mestre mais querido.
Teve leves empregos, quase sinecuras, como, por exemplo, o de inspector escolar, que lhe forneciam bons motivos para não sair do solitário quarto, trabalhando horas a fio, a pintar interminavelmente os mesmos objectos, numa estreita paleta de cores.
Na sua vida minimal, Giorgio Morandi não recusou os movimentos do século, mas não se moveu com eles. Não se afastou das coisas, mas ficou quieto no mesmo lugar.
O estilo de Morandi progrediu pouquíssimo e evoluiu nada. Raras vezes se afastou de pintar frascos e tijelas, muito apertados no centro da tela, repletos de vazio à volta. Na infinita monotonia dos seus dias, Giorgio Morandi recomeçava em cada tela o princípio da sua pintura.
E nunca se repetiu.

Giorgio Morandi, Natureza morta, 1962

A minha esperança depende de vós


“a minha esperança depende de vós”, 1976


Na última edição do “Expresso” vem estampada na primeira página uma frase do sr. Passos Coelho capaz de aterrorizar o mais temerário.
Os partidos, quando lhes falta o arrimo do governo, sustentam-se nas autarquias, que são os lugares do aparelho de estado que lhes restam para recolher as vantagens do exercício do poder. Como não é difícil notar, o PSD tem vindo a ser infiltrado e tomado perla chusma dos micro-poderosos das concelhias e, por cima deles mas em perfeita comunhão com eles, pelos notáveis das distritais. Eles são o húmus do partido, a teia capilar que leva o partido, porta a porta, até à casa dos eleitores. Isto que não se nota nem tem peso nas grandes cidades onde os vizinhos não se cumprimentam na rua, é determinante em meios mais aconchegados. Sem os serviços e as influências destes maiorais não se ganha um chavo eleitoral.
O “pessoal do terreno” não é parvo. Por isso, embora persistentemente reivindicativo não ambiciona sair donde está, porque é onde está que reside a sua força. Um gimnodesportivo aqui, uma estrada nova ali, uns cargos em departamentos regionais, de preferência dos inúteis e pacatos tipo Comissão da Proteção Civil, são suficientes para lhes saciar o apetite e reforçar as vassalagens; à maior, um lugarzito de deputado em Lisboa durante um par de temporadas.
Nada disto é recente e já está descrito com todos os efes-e-erres em “A queda de um anjo” de Camilo” (1866), ou “Uma Eleição Perdida”, pálido mas bem observado romance do Conde de Ficalho (1888), ou ainda no póstumo “A Capital” de Eça.
Novidade era os partidos nascidos do 25 de Abril terem superado o imbróglio com a rotatividade no poder e com o aparecimento oportuno de líderes considerados carismáticos. As duas circunstâncias juntas permitiam rasgar o cerco, até porque quem ganha eleições descobre-se carismático de um dia para o outro e não faltará quem atribua ao prévio carisma do candidato a razão da vitória eleitoral.
Ora, como ao PSD têm faltado ambas as coisas, ei-lo, então, em pleno refluxo histórico. Só assim se explica a imprudente declaração, para não dizer pior, do sr. Passos Coelho ao afirmar que baixaria o salário dos políticos de 5 a 10%. Na melhor das hipóteses tamanha enormidade foi proferida num torpe impulso populista, porque qualquer outra razão que o tenha levado a dizer isto parece ainda mais ignóbil.
O que o sr. Passos Coelho acaba de anunciar é que, na horrenda circunstância de vir a ser eleito primeiro ministro, irá prescindir daqueles que lhe pareçam mais aptos, competentes e honrados para formar governo consigo. Não senhor, ele contará, isso sim, com os mais baratos. Os altos quadros de ótima formação, reputada competência e bom desempenho, que os há em quantidade em Portugal, com lugares de responsabilidade em várias empresas, esses fugirão mesmo de serem convidados, porque têm contas para pagar e famílias para sustentar. Quem se vai chegar à frente, de factura em punho pelos bons serviços prestados em campanha, vão ser, precisamente, os maiorais do partido, agora que viram uma fresta de oportunidade nunca antes aberta.
E olhem que isto é gente que não deixa escapar uma.

Vae victis ou morituri te salutant, tanto faz


Titanomaquia, Cornelis van Haarlem, 1588


Estou inteiramente confiante que depois de ponderar o problema com a maior prudência, de sopesar os factos e as circunstâncias com toda a equidade e perscrutar com minúcia as subtilezas da situação, mesmo sem o amparo do Powerpoint ou o patrocínio do Excel, estou confiante e seguro, dizia, que o dr. José Eduardo Bettencourt, como tem vindo a ser o seu denodado timbre, substituirá Sá Pinto tomando a pior decisão que lhe estiver ao alcance.
Expelido Mercúrio venha Baco.

Quando não só a terra treme


Pat Robertson foi fundador e presidente da Christian Coalition of América um grupo de pressão da grande influência no interior do Partido Republicano. Em 1988 ainda teve uma aparição frustrada nas primárias para a eleição presidencial, mas foi nos mandatos de George W. Bush que mais se aproximou do poder executivo e a sua voz mais se fez sentir. Não é um qualquer.
Ora, sobre o terramoto no Haiti, o Reverendo Pat Robertson apresentou uma explicação, digamos metafísica, para o terrífico fenómeno. Disse ele que embora as pessoas não gostem de falar disto, é um facto histórico terem os haitianos feito um pacto com o diabo para se libertarem do jugo colonial francês, no tempo de Napoleão III ou “whatever” (sic). Amaldiçoado desde então, aquele país tem sofrido constante miséria e turbulência, ao passo que os seus vizinhos da República Domicana, que com eles partilham a mesma ilha, usufruem de uma vida normal. Donde que o terramoto possa ser a “blessing in disguise”, pois permitirá uma reconstrução maciça do país e pôr cobro à maldição. O remédio será então rezar muito por eles.

Em 1756 o padre Gabriel Malagrida, jesuíta de puro recorte, devoto, pio e repleto da mística da Contra Reforma, publica o opúsculo “Juízo da verdadeira causa do terramoto, que padeceu a corte de Lisboa no primeiro de Novembro de 1755”. Impressionado com a cegueira pragmática de Pombal, que preferiu “enterrar os mortos e cuidar dos vivos” em vez de se deter na reflexão das causas transcendentais do cataclismo, Malagrida toma como tarefa sua revelar as profundas e verdadeiras razões do terramoto. Quais foram?
“Sabe pois, oh Lisboa, que os únicos destruidores de tantas casa e Palácios, os assoladores de tantos Templos, e Conventos, homicidas de tantos seus habitantes […] são unicamente os nossos intoleráveis pecados.”
Que medicina prescrevia Malagrida para curar tamanho mal? Bastante oração, procissões, penitências e sobretudo recolhimento e meditação de seis dias nos exercícios de Inácio de Loyola. Noutro passo fustigava como relapsos aqueles que procuravam abrigo nos campos e levantavam ruínas na cidade.
Esta linha de pensamento não é anti-moderna mas pré-moderna, e se hoje nos inclinamos a considerá-la absurda ou pior, como uma impostura intelectual, ou pior ainda, como indigente charlatanismo espiritual, não deixaremos de encontrar nela uma genealogia que remonta, intacta e inalterável, desde as especulações da escolástica medieval. Há 250 anos, foi um bom catalizador para a afirmação filosófica, por antinomia, das Luzes.
À boa maneira do século, o vencedor Pombal purificou o vencido pelo fogo inquisitorial. O nosso tempo é mais suave, Pat Robertson continua a ir à televisão.
Em que época é preferível viver?

Para E.V. e T.C. que merecem tanto

Cy Twombly, Untitled VII Bacchus, 2005

 

Que coisa era o amor para que eu o amasse assim? O amor é escrever-me, transcrever-me, traduzir-me, colocar-me. É pegar em mim, e pôr-me ao mesmo tempo dentro e fora de mim; e reconhecer outra pessoa, trazê-la, reescrevendo-a, e pô-la dentro e fora de si, e tudo se encontrar. E o tempo? O tempo no tempo. E o lugar? O lugar no lugar.
Mas isso mata — pensei eu.
Sim, isso mata — respondi — Isso queima as mãos, e mata verdadeiramente.
Experimentei esta nova liberdade, e vi que era a loucura que eu esperara como quando se está sem casa e se faz a gente arquitecto, para construir uma casa e dizer: Eis a minha casa. Edificar a casa era queimar as mãos, coisa realmente mortal. E, depois de haver casa, podia-se entrar nela com a nossa morte.


fragmento de “Exercício Corporal III”, (1961–68)  orignalmente publicado em “Retrato em Movimento” (1967); in Herberto Helder, “Poesia Toda 1953–1980″, Lisboa, 1981

Listado


instalação do colectivo Urban Prankster


Abaixo coloco um punhado de minudências que têm sobremaneira contribuído para tornar a minha vida um pouco melhor ao longo destes anos.

O poema de Herberto Hélder “que coisa era o amor para que eu o amasse assim?”, localizado na pg. 461 da “Poesia Toda”, na edição boa, a de 1981,  rasurado nos volumes posteriores.

O tema “Time After Time” por Miles Davis, gravado ao vivo pouco antes de morrer e publicado na coletânea “Live around the world”.

Os coiratos no intervalo dos jogos do A.D.R. “O Paraíso”, quando é o Rogério a grelhar. Empurrados por umas “mines” que sabem a Krug.

A sequência das portas em “Le Carrosse d’Or” com Anna Magnani à espera num quarto a tanger a guitarra só para chamar a atenção, a reunião do Conselho de Estado encabeçada pelo Vice Rei que não pára de ser interrompida noutra sala, e a noiva oficial deste na câmara de entrada. Para mim, mas só para mim bem sei, é a melhor cena que até hoje se armou diante de uma câmara.

As tardes de sábados passadas no sofá da sala. Na TV emudecida, um jogo do campeonato inglês, tanto melhor se for do “meu” Arsenal; no hi fi um CD dos últimos que comprei, francamente alto; no colo, um livro para disfarçar a sesta. De preferência a cena passa-se no Inverno e lá fora as árvores da Tapada sacodem a chuva de inveja.

As sanduíches de foie gras com pickles do Gambrinus.

O conto “À grande e à francesa” de Luísa Costa Gomes, fotografia fulminante de uma época.

Algumas sequências de North By Northwest de Hitchcock, nomeadamente: a do leilão, a do campo de milho, a da perseguição final (às vezes a cena inicial, desde o grume a chamar por mr. Kaplan, até ao próprio Hitch perder o autocarro).

O 3º andamento, Ecstasio, de “Asyla” de Thomas Adès (obsessão ganha em 2009)

As plumas e secretos de porco do restaurante-tipo-café-atascado da Inácia ali no bairro novo de Monforte, junto à estrada para Arronches, nem sei como se chama a casa.

Um punhado aleatório de páginas de qualquer romance de Tomaz de Figueiredo antes de ir para a cama, quando desconfio que vem aí insónia.

Ficar uns minutos (ou mais) a contemplar qualquer quadro de Ana Vidigal, para aliviar um peso de cima; ou de Mark Rothko, para pensar melhor em qualquer coisa; ou “As Meninas” que ainda não consegui acabar de ver.

Demorar as manhãs de domingo de verão de julho na cama a ler. O quarto refrescado pela brisa do poente da barra do Tejo. Banda sonora: o zumbido dos carros na ponte e o tranquilizante ruído da televisão, lá ao fundo, noutra sala.

A nudez desapaixonada, sem vestígio de erotismo, mas, ainda assim, de altíssima voltagem sexual de Isabelle Huppert em “Sauve qui peut… la vie” (J-L Godard). Tanta coisa que me aconteceu acerca daquelas “máquinas desejantes”.

Descobrir por acaso um livro que estava mesmo a fazer-me falta, eu é que ainda não tinha dado por isso.

Quando a bola chega limpinha aos pés de Liedson.



Outro retrato

NPG 151, James Scott, Duke of Monmouth and Buccleuch
Se o retrato de Isabel de Portugal que Joana Vasconcelos nos oferece encerra um enigma, que poderemos dizer deste retrato de James Crofts, depois James Scott, 1º Duque de Monmouth e 1º Duque de Buccleuch?
O ar desprendido do fidalgo, com o seu quê de melancólico? A desconfortável pose, quase egípcia, com o ombro esquerdo tão adiantado, forçando a cabeça a torcer-se sobre ele? O fundo tão escuro, dissolvendo nas suas trevas a cabeleira e a armadura negra, como se houvesse pressa no acabamento?
Os beefeaters da Torre de Londres contam a história assim: James Crofts, bastardo de Carlos II, achou que poderia reclamar o trono quando Jaime II se converteu ao catolicismo, tendo comandado aquela que ficou conhecida como “Rebelião Monmouth”. O Duque foi derrotado, capturado, condenado e decapitado. Só depois do enterro descobriram que ao contrário do que exigia a tradição e as boas maneiras, não ficava sobre a terra nenhum retrato dele. A solução foi exumar o cadáver, coser a cabeça aos ombros e chamar William Wissing para que pintasse com celeridade a efígie do Senhor de Monmouth.
Se é verdade ou lenda é o que fica por apurar, só é verdade que ajuda a compreender a estranha figura que sobrou de James Scott.