Quantas voltas tem o mundo?


Apresentou-se como Rikio Hossback, redator do Travel Almanac. Vinha credenciado pelo sr. Pedro Norton, a mando do sr. Manuel Fonseca — as mais finas referências, portanto. Queria coisas, vá lá que não era vendedor.
Foi brusco de entrada, julgando que assim me desarmava e que eu já tinha o discurso na ponta da língua. Tinha-o era tomado de ponta, sem paciência para perguntas teutónicas.
Então? — disse.
Então o quê? — retorqui — Faça o favor de dizer ao que vem.
Era umas perguntinhas sobre viagens, hotéis, experiências dessas…
Não me apetecem inquéritos. Quero que lhe conte tudo como deve ser?
Se fizer o favor.
Serei económico. Relatarei apenas os transes decisivos.
Seja.

A primeira grande viagem de que tenho memória foi no elétrico nº 2, a riscar Lisboa ao meio, do Lumiar ao Martim Moniz. Ir à Baixa tinha o prémio de andar nas escadas rolantes do Grandella – um frisson impagável. Valia bem a pena as enormes e variadas horas truc truc por ali fora: Alameda das Linhas de Torrres, Campo Grande, Av. Da República, Estefânia, Campo Santana, S. Lázaro e enfim o descampado do Martim Moniz no sopé do castelo. Demorava mais a percorrer do que a contar; parecia um tarde inteira e quase dava pena desembarcar, tão entretida era a jornada. Muito mais tarde, li num conto de José Rodrigues Miguéis, acho que “Saudades para a Dona Genciana” (agora não tenho como confirmar), uma evocação lírica dos elétricos de Lisboa, em tudo igual ao que eu vivia a bordo do nº 2.

A segunda grande viagem, continuava eu a ser criança, era muito mais temerária. Minha mãe acordava-me de madrugada e íamos até ao Areeiro apanhar a camioneta para o Vale. Uma aventura infindável, ao longo de uns extensíssimos 50 kms, que obrigava a xixis preparatórios e farnel para o meio da manhã. Uma a uma, com método e minúcia, a camioneta dava conhecer todas as povoações, lugares e vilas entre Lisboa e Vila Franca, em todas resfolegando e vibrando as vidraças como numa derradeira etapa. Desembarcava-se na indolente Azambuja e havia ainda que esperar a carreira para Alcoentre, a qual evoluía agora com peripécias mais rústicas e informais. Era gloriosa a entrada no Vale: os miúdos a empoleirarem-se nas escadas traseiras de acesso ao tejadilho, as mulheres a virem à porta, os homens afastando-se do monstro para a berma, o revisor a saltar de repente em andamento para perseguir os tais miúdos. Poucas vezes consegui noutras viagens repetir tão plena sensação de “enfim chegámos”.

A terceira grande viagem foi assaz burguesa. No princípio dos anos 70, mesmo antes da crise petrolífera, a pequena burguesia portuguesa constatou que lhe sobravam algumas economias. Começavam assim os charters para Londres da Abreu, na famigerada Court Line. Essa minha primeira viagem de avião desiludiu: a terra lá em baixa passava devagar e não à velocidade estonteante prometida pelos 800km/h da aeronave. Em Londres confirmaram-se todas as lendas urbanas: os homens tinham cabelos compridos, as miúdas andavam de mini saia com imprevidência, os polícias eram gentis (eu vi uma hippie a beijar um bobby!), havia ajuntamentos de pessoas sem horror das autoridades, podia-se cantar e gritar nas ruas sem desacato e estava em cartaz o escandaloso “The Clockwork Orange”, que não me foi permitido ver. Aos 12 anos estivera no mundo – e era grande.

Dash Snow, “Untitled (Hell)”, 2005

Algumas tribos africanas mais avisadas, agarram nos rapazes, circuncisam-nos e largam-nos na floresta. Eles que voltem semanas depois, sobrevividos e já adultos. Nos anos 80, os jovens europeus, sem que percebessem, passavam por um ritual idêntico – chamava-se inter rail e foi a minha quarta viagem. De mochila às costas parti, com os meus pais a acenarem adeuses em St. Apolónia, um pouco preocupados. Estive um mês sem dar novas, nesses tempos sem telemóveis, nem trocos dispensáveis, nem vagar para informes. No regresso, fui lacónico nos relatos, para não os afligir, descrevendo apenas os episódios mais inofensivos: a parcimoniosa Hungria socialista, onde me impressionara um estendal urbano de cuecas como só as velhas mais soezas usavam em Portugal; a familiar Grécia, tão igual a nós, pois tudo recordava o passado glorioso e nada se mostrava interessante no presente; a circunspecta Viena de Áustria, sem migalha de paciência para mochileiros. Tudo o mais que vivi, ainda hoje creio ser extemporâneo relatar; deixemos correr mais umas décadas. O saldo logístico desse primeiro inter rail foi decente: um número igual de dormidas ao relento e em catres de albergue e zero sobras das 10 latas de atum com que me tinha aviado. Conheci quem fizesse pior.

A quinta viagem foi ao luxo. Na companhia de um senhor muito conhecido de todos vós, éramos dois executivos a caminho de Los Angeles com mordomias adequadas à nossa posição empresarial. Hoje será capaz de parecer irresponsável o que à época era banal e mesmo necessário para que os portuguesitos não desembarcassem em Hollywood com ares de remediados, mas de igual para igual com o resto do mundo. Ainda guardo os pijamas de bom algodão egípcio da First da British e em melhor cofre preservo as belas memórias de andar por Los Angeles como se lhe pertencesse. Já que podíamos, fazíamos vida de filme.

Não houve mais nada?
Houve muito mais, mas estas sobram para chegar onde estou. Só me resta declarar que ao contrário doutros cavalheiros, nunca me comoveu o que se passava portas adentro do La Chunga de Cannes. Been there, done that, digo eu armado aos cucos. Para que saibam, aquilo é hoje um restaurante de grandes janelas, com os interiores à mostra. Já não se guardam segredos.

VERÃO!! (noturno)

Edgar Martins, “Untitled” (da série “Accidental theorist”), 2008

 

Para onde irá o Verão de noite?

 

Edgar Martins, idem

Patrícia Almeida, “Albufeira” (da série “Portobello”), 2009

O VERÃO!!

Augusto Alves da Silva, da exposição “Sem saída: ensaio sobre o optimismo” (Serralves), 2009

O Verão oferece um resumo de todos os perigos e sugestões. O que nos traz a onda? Até onde pode chegar a pele? Vou ou não vou lá ter, depois de fumar? Ela desliza e cai, ou tenho que despi-la?
Espera-se tudo do Verão e ele, coitado, raro responde aos ardores. Mas enquanto dura é bom, mesmo que o otimismo inicial acabe por não ter saída.

Augusto Alves da Silva, idem

Augusto Alves da Silva, idem

Augusto Alves da Silva, “Um cigarro”, 2008

pouco


Fez-me prometer que não diria nada. Matava-se, se eu falasse; iria carregar na consciência a morte dela o resto da vida. Pedi-lhe por favor que desencostasse o braço do meu pescoço, estava a magoar-me, a parede era dura. Ela apertou ainda mais – “promete!”, exigiu.
É costume recomendar nestas situações o contacto visual. Mas se exige uma tremenda coragem fitar um tigre nos olhos, não menor será a necessária para fingir de morto diante de um urso. Do gato ao tigre os felinos são todos iguais em temperamento, só o volume lhes permite resultados diferentes.
Seria já a cartilagem tiróide que estalava dentro de mim? Isto não tem como resolver senão esperar.
Na manhã seguinte ria-se como se não tivesse sido nada.
Em boa verdade sou obrigado a confessar que dela só me interessava o que a luz lhe fazia, a suave modulação de cambiantes entre a perfeita pele caucasiana e a toalha gema de ovo de turco de Torrres e perceber como esta frágil relação se comportava em contraste com o negro absoluto do fundo. Ela, para dormir, não tolerava uma frincha de luz.
Pus lá o pantone a comprovar as minhas pequenas intenções.

Christopher Williams, Body Type & Seating: 4-dr sedan — 4 to 5 persons. Engine Type: 14/52 Weight: 1397 lbs. Price: $1495,00 USD (original) CHASSIS DATA: Wheelbase: 89 in. Overall length: 155 in. Height: 57 in. Width: 60 in. Front thread: 49 in. Rear thread: 48 in. Standard Tires: 5.50×15 PRODUCTION DATA: Sales: 18,432 sold in U.S. in 1964 (all types). Manufacturer: Regie Nationale des Usines Renault, Billancourt, France. Distributor: Renault Inc., New York, NY., U.S.A. Serial number: R-10950059799 Engine Number: Type 670–05 # 191563 California License Plate number: UOU 087 Vehicle ID Number: 0059799 (For R.R.V.) Los Angeles, California January 15, 2000

Oeste de novo selvagem

Mark Ruwedel, “California Eastern #12″, 2001

Será que Larry McMurtry conhece Mark Ruwedel? Venho então apresentá-los porque ambos concordam em murmurar-nos a memória do Oeste.
Como se sabe, o oeste americano só existiu enquanto imaginação, porque aquilo foi uma coisa bárbara de violência, brutal de esforço, ingrata de proveito e muito pouco recomendável para a saúde e para a moral. Ou seja: o património ideal para uma gesta heróica e um épico de proporções sobre humanas. O Oeste foi a melhor ficção do séc. XX acerca do séc. XIX, resgatando o que de mais grandioso, puro e generoso ficou desse passado – permite-nos o orgulho de sermos o que somos.
Passada a fase eufórica e quando se teve que reconhecer as mãos sujas, os mais prudentes, em vez de desmanchar a glória numa punição, tiveram tanto juízo como arte em transformar o Oeste na nostalgia do Oeste perdido que nunca houve. Foram-se os dedos? Que fique a memória dos anéis.
No topo de tais nostálgicos, bastante realistas para não serem sentimentais, suficientemente seguros para prescindirem do cinismo, colocaria Larry McMurtry. É um belíssimo escritor, embora de prestígio enevoado pelo estigma de autor de paperback, e um notável alfarrabista, sustentando, por puro prazer, um gigantesco armazém de livros raros na terreola onde vive: Archer City, um remoto canto do Norte do Texas. Mas talvez seja mais conhecido pelos argumentos de cinema que assinou: Hud (o melhor filme de Paul Newman?), Terms of Edearment, The Last Picture Show e a sequela Texasville e a adaptação de um conto original de Annie Proulx que resultou em Brokeback Mountain.
Parece absurdo dizer isto de um escritor cinematográfico, mas a melhor imagem do pathos que rescende da escrita de McMurtry, palpitei-a em Mark Ruwedel. Aliás, foi ao contemplar as fotografias de Rwedel que automaticamente – c’est mon côté surréaliste – recordei as emoções de McMurtry.
Desde 1994 que Ruwedel se dedica a percorrer – e a fotografar – os trilhos onde outrora se alongavam os carris das linhas de caminho de ferro que atravessavam o Grande Oeste. Foi a sua construção a epopeia máxima da conquista do território, por entre perigos, tiroteios, doenças, negócios, traições, emboscadas, trabalhos forçados, fortunas rápidas e um bom punhado de massacres. À série deu o nome de “Westward the Course of Empire”.
Aquilo que resta é uma cicatriz inscrita na terra, mas observando com atenção, consegue-se ouvir o vento.

Central Pacific #7, 1994

Tonopah and Tidewater #23, 2002

San Diego and Arizona Eastern #7, 2003

Numa dada noite em Zurique

Jean Arp, “Configuração”

Este exercício consiste em colocar a insuspeita cidade de Zurique no centro do mundo, durante um conciso período de tempo. A Zurique escolhida vai ser aquela que vigorava no preciso dia 14 de Julho de 1916. Qualquer outra Zurique, passada ou futura, é irrelevante para o exame em causa.
Para atribuir maior eficácia ao exercício, e, seja confessado, para ampliar sobremaneira o seu dramatismo, vai-se mesmo negligenciar a maior parte da cidade e concentrar a observação apenas numa rua: a Spiegelgasse.
Como se sabe, à volta de Zurique fica a Suíça e em 1916, esta estava rodeada de guerra.
No nº 1 da Spiegelgasse era sito o Cabaret Voltaire, que embora não tivesse fama de prostíbulo, uns diziam que de noite nele aconteciam coisas bizarras, outros infames e talvez só uns poucos seriam capazes de as considerar artísticas.
Foi, então, na noite de 14 de Julho de 1916 que Hugo Ball subiu a uma mesa – o que em si não constituiu escândalo – e antes de começar a ler um Manifesto, explicou que o movimento se chamava Dada, palavra encontrada por um processo escrupulosamente aleatório, pois abriu-se um dicionário ao calhas, cravou-se nele uma faca e verificou-se que a lâmina entrara no papel junto à palavra “Dada”.
“Dada é uma nova tendência na arte”, assim começava o texto, ao que parece escrito pelo inquieto Tristan Tzara, o nom de guerre de um romeno de melena descaída sobre o olho direito.
Do texto lido por Ball constavam enormidades assim: “Eu leio versos sem outro objectivo que dispensar a linguagem convencional.” Ou, mais acintoso ainda: ”Dada mhm dada da. O que importa é a ligação e, antes do mais, que ela seja interrompida.” Ou então: “Cada coisa tem a sua palavra, mas a palavra tornou-se uma coisa em si mesma.”
E terminou proclamando: “A palavra, senhores, é uma questão pública de primeira ordem”.
Quando Hugo Ball desbancou do poleiro onde se elevara, o Positivismo tinha sido erradicado das artes e da poesia.

Hugo Ball, “Karawane” (poema)

O programa positivista, até então dominante na cultura ocidental, impunha que o método científico, na sua absoluta perfeição, fosse aplicado e informasse na substância qualquer actividade humana, nomeadamente as Artes. O Positivismo, tal como se afirmava no séc. XIX, era a etapa terminal da filosofia e da inteligência humana e sob a sua égide entraríamos numa geração de conhecimento absoluto, total e pleno, com um completo domínio da Natureza. Eis a Razão e o racionalismo em todo o seu esplendor epistemológico e gnoseológico, para utilizar (à boa maneira de Dada) palavras que rolam na língua.
O que fez Dada foi arrasar com esta pretensão e inocular as palavras e os gestos artísticos de irracionalidade, de contingências, de elementos implausíveis, improváveis e inexplicáveis. Porquê tamanha devastação? Porque entenderam Ball, Tzara, Jean Arp, Hans Richter, Emmy Hennings e outros meliantes de igual calibre, que o racionalismo era exíguo e imcompleto – qualquer coisa nos escaparia sempre. O génio deles foi intuir que a Arte e a Poesia são impermeáveis ao método científico porque em nada se assemelham à Natureza.
Isto que fez Dada foi definitivo nas Artes e na Poesia, mas ficou a Humanidade liberta dos avatares totalitários da Razão?
Talvez naquela noite o inquilino do nº 54 da sempiterna Spiegelgasse não se mostrasse mais irritado do que o habitual com o tumulto da Cabaret Voltaire, do qual costumava queixar-se. Era possível que dormisse mal, pois os dias passava-os escrevendo compulsivamente um livro que almejava ser a análise definitiva da relação entre os Estados, intitulado “Imperialismo, o estado supremo do capitalismo”, que só viria a terminar dali a 2 anos. Aquele calvo e taciturno russo, que mal cumprimentava os vizinhos, empenhava todas as suas energias a racionalizar a Política, talvez prevendo que o seu trabalho viria a influenciar sobremaneira o que mais tarde se apelidaria de ciências sociais.
Enquanto Dada punha limites ao racionalismo, precisamente ao mesmo tempo e no mesmo lugar do planeta, Valdimir Ilitch Ulianov, conhecido entre os seus militantes por Lenin, esforçava-se por alargá-lo a toda a esfera da actividade humana.
Até hoje, os mundos que ali se dividiram, nesse exata noite, nunca mais se juntaram.

Às voltas

Sofia Areal (da exposição “SIM”), s.d.

                                                           

Ana Vidigal, “Bolas azuis”(?), 2011 (?)

                                                                                                                                                                                                              

 
Está-se mesmo a ver: elas são circulares. Querendo, dá-se um passo em frente para dizer: as mulheres, as pinturas das mulheres, são circulares.
Círculos?, circunferências?, mulheres?, oh lala… [com sotaque francês no original] Está-se mesmo a ver onde é que isto iria parar apenas com um punhado de sintagmas freudianos: que divagações vaginais, que sugestivas comparações com a forma perfeita do círculo e a origem feminina da vida, que metáforas e metástases inteligentes se desenvolveriam acerca da harmonia do uno feminino e a sua serena interioridade vis a vis a desordem do múltiplo masculino, todo exterior; multiplicar analogias e interpretações, sobre a circularidade, a antiga forma redonda do mundo e das coisas que ele arrasta, na ordem natural feminina.
Eis o momento de fugir a sete pés dos gender studies, ou não chegaremos a lado nenhum por habitar.
– Então porque as juntaste?
– Porque a familiaridade que lhes vi ao princípio foi-se transformando em distância quanto mais as vejo. E foi este trajecto o que mais gostei de fazer.
Além das linhas e de tudo mais que neles é curvo, os quadros de Sofia aproximam-se ainda dos de Ana pela espessura. No liso e espelhado ecrã em que estamos agora a olhar para eles, é difícil perceber que há camadas rugosas por debaixo daquilo que aparece à superfície; pastas de tinta em Sofia, presumo, colagens de papel em Ana. Em ambos os casos o que vemos é um resultado, é o que vem ao de cimo e a fábrica subentende-se, poderia apalpar-se mas não se pode nada, porque é proibido tocar nas obras.
Daqui em diante tudo se afasta entre Sofia e Ana, cada qual apontando à sua estrela e de rota batida ao longo de cartografia própria.
Sofia traça circunferências com um gesto de mão, alavancada pelo braço, provavelmente auxiliada por um instrumento que lhe permita não ofender a retidão matemática. Ana desenha, recorta e cola círculos bem formados. Sofia é contorno, é linha, Ana é superfície, é espaço. Sofia sobrepõe órbitas, rastos da passagem do pincel; Ana acumula densidades, formas gravitacionais suspensas na composição. Sofia passou por ali, Ana ficou lá.
A suposta perfeição do círculo estragou as contas do conhecimento durante milénios. Além disso entre a circunferência e o círculo, são complementares mas diferentes as solicitações matemáticas e os resultados do entendimento. Fazer arte é também a intuição dos problemas que provavelmente nunca acudiram aos artistas quando trabalhavam na sua pintura.
Entre Sofia e Ana há dois maravilhosos – não sei se é a palavra adequada – corpos celestes que fazem uma tangente, mas seguem trajetórias diversas. Gosto muito da turbulência que este contacto provoca – mas já passou.

Ana Vidigal, “Claridade”, 2011

                                                          

Sofia Areal

                                                                                

Legislativas 2011 (durante)

Wang Qinsong, “Follow me”, 2003

 

De quem o presidente tinha mais medo era do arquiteto. Sobre a mesa de reuniões da junta desenrolava plantas do largo e no decorrer da apresentação chegou a insinuar que haveria de trazer uma maqueta para a sessão pública.
Um laguinho sem bordas, à Siza, rodeando o pelourinho e a seguir, do meio para fora, umas veredas pavimentadas com granito cinza para dar seriedade e absorver a luz; o resto seriam canteiros de flores de geometria e espécie variáveis, a fingir que foram semeados ao calhas, disseminando explosões de cor, entremeados com um relvado de pêlo curto. Como se via, tudo rasteiro, nada de árvores que bloqueassem a vista sobre a fachada do que chamavam palácio, muto decrépito mas pronto, tal qual pedira o presidente. Tudo à volta, bancos para os velhos gozarem o sol e o fresco, conforme.
Enquanto esclarecia o projeto percebia-se o esforço do arquiteto para ser condescendente, proferindo a palavra “parede” em vez de “alçado” ou evitando “sacada” no lugar de “varanda”. Sentiu-se corajoso por falar assim, sabendo do risco que corria se estivesse um pedreiro ou um construtor na sala e não o levasse a sério.
O que via o presidente era o entusiasmo, os perdigotos aspergidos em grande cadência sobre a assembleia, o olhar coruscante, as punhadas no ar, na direção da janela que sobrepujava o largo de terra batida, regado 3 vezes ao dia pelo cantoneiro da junta, de modo a não levantar aquela poeirada. Um entusiasmo incapaz de esconder o despeito recalcado em determinação, por muitos anos de convívio com tais labregos.
Aos elementos da assembleia de freguesia, subjugados pela eloquência do arquiteto, tolheu-os um silêncio espesso. Tão óbvia lhes parecia a réplica, mas as palavras faziam-se penhas de basalto, enroscadas e brutas, sem a luz de um argumento que as guiasse da cabeça à boca. Nenhum se atreveu.
E lá tinha o presidente que se levantar depois de pedir licença à mesa, muito presa ao cargo: o largo sempre foi assim. Há para aí uns retratos velhos e o doutor no outro dia trouxe umas gravuras antigas que mostram que o largo sempre foi assim. Assim é que ele é castiço.
Relatando no dia seguinte ao presidente da câmara tamanho transe, o ânimo do arquiteto desfazia-se, a barba negra ainda eriçada: Um ano de trabalho de campo para o lixo! E este presidente maior que o outro, sem abjurar o suave sorriso que era seu timbre, encolhia os ombros e puxava pelos plurais: aquela malta da extrema do concelho “são como são”. Mais fica, os fundos para trás é que não voltam.
Que ainda por cima tinha sido a única freguesia arrebanhada pela oposição – não disse, mas foi evidente que pensou. Depois queixem-se – porém o arquiteto permaneceu  inconsolável.

Legislativas 2011 (horas antes)

José Loureiro, “Sem título”, 2008

A arte não serve para nada. Só depois de darmos como clara e assente esta asserção é que poderemos começar a descobrir algum sentido na arte. O artista limita-se a criar realidades, é uma espécie de pequeno deus; aos outros cabe-lhes interpretar essas realidades, do modo que lhes parecer mais plausível. Ou conveniente.
A pertinência do que nos pode ocorrer ao olharmos para uma obra de arte é um pouco difusa. Será apropriada esta ideia que me ocorreu? Por exemplo: poderei ver na pintura de José Loureiro o perfeito retrato das abissais dúvidas políticas que me dilaceram a horas das eleições?

As coisas mais simples começam a tremer; os contornos vibram para fora do lugar; as linhas não se desfazem, continuam a ser linhas, mas não assentam; o desenho desajusta-se da margem tela – assim estou sem saber onde me sentar, em que votar.

José Loureiro, “Cadeiras amestradas”, 2007

José Loureiro, “Sem título”, 2004

José Loureiro, “Sem título”, 2004

Legislativas 2011 (dois dias antes)

Boris Becker, “Lac de Dixence”, 2003

A arte não serve para nada, não é para isso que ela serve. Mas às vezes podemos dizer que nos tira as palavras da boca. Como a arte diz com proposições e asserções, embora nunca com frases, porque não fala, acabamos por verificar que numa expressão errada se encontra muito acerto.
Por exemplo: se quiséssemos encontrar uma imagem justa, juste une image, para mostrar como está Portugal, que melhor haveria senão a foto de Boris Becker?
Outro exemplo: se quiséssemos descrever o pathos que atravessa a nossa vida portuguesa, sentido por todos e cada um de nós, a instalação de Do Ho Suh não serviria muito bem?

Do Ho Suh, “Floor”, 2010

Itinerante na biblioteca
Michael Brophy, “Memory trip #4″, 2006
- livros de viagem? Não. Livros para viagem? Também não. Deturpei o desafio do PN

Os livros são um magnífico meio de transporte. É disso que eu gosto mais neles, quando o enredo (que às vezes faz falta) e as personagens (habitualmente úteis), parecem depender e desprender-se de um lugar.
Para que a sensação de viagem resulte, o livro tem que ser discreto e sonso: nós estamos entretidos a ler os mexericos que as vestais de Jane Austen trocam entre si, quando de repente começamos a ver os prados rolantes do Hampshire debaixo daquela chuva miudinha que afasta os amantes dos prazeres da sombra.
Ao contrário das “-gias” a geografia não empobrece o prazer da leitura, decorre dele e alarga-o, sem o inconveniente das explicações nem a afronta da interpretação.
O que mais e mais imediatamente me impressionou em Mau Tempo no Canal, foi a sensação de ter lá vivido nos Açores. Durante uns tempos, por blague, jurava conhecer o arquipélago por ter lido o livro, o que na realidade foi confirmado quando visitei a Horta. Aquelas ruas melancólicas, o que é natural nas cidades insulares, ainda apresentavam claros sinais da guerra mesquinha e surda entre Dulmos e Garcias que, decerto, ainda hoje corre sob outras formas. O próprio Norberto não sabia onde arrumá-lo: se nas páginas de Nemésio se no Moby Dick.
Um livro – e também um filme – que não dê vontade de ir lá, não me interessa. Quase sem exceção — só o cego Borges me demove.
Já sequei sob o sol estremenho com o patife Pascual Duarte; com Buzatti já senti como é ermo e lento o início da Ásia; já frequentei os mares do Sul com Corto Maltese; já afugentei mosquitos e fugi de serpentes nos pauis do Caribe durante 100 Anos de Solidão; já veraneei com tristeza solar na Cotê d’Azur de Françoise Sagan; há bairros de Los Angeles onde só entrei com James Ellroy; gosto mais de conversar noite dentro, fumando tabaco de onça e picando linguiça, no Alentejo de Manuel da Fonseca do que no de Monica Ali. E sempre que sofro esperas em aeroportos temo que me apareça finalmente Godot.
Nenhum destes livros estará entre os que diga favoritos, mas todos tiveram a gentileza de me levar consigo, enquanto os tive na mão. Nem sei como lhes possa agradecer.

Pablo Fernando, “Shanghai’s visual interruption”, s.d.
Rotação terrestre

Ed Ruscha, “wen out for cigrets”, 1985

Se fechar os olhos consigo, com dificuldade, imaginar-vos na primeira hora da manhã, a acordarem, a cama desalinhada pelo sono, estremunhados face ao espelho da casa de banho, com um dia pela frente ainda por decidir.
Lá muito mais à frente, calculo que o Vasco já tenha acabado de almoçar em Beijing, um dia adiante de mim, à distância de três quartos de planeta.
Aqui eles deixam as luzes dos edifícios acesas toda a noite, vigilantes nesta derradeira cidade antes do imenso e negro Pacífico.
A esfera do tempo é muito difícil de conceber. Ou melhor, de representar de um modo vivido. Se fechar os olhos imagino-vos, mas não sinto o vosso tempo. Cada um prisioneiro na sua hora.
Cabeceio de sono e vou-me deitar.

Christina Seely, “Metropolis 35º 56′ N 118º 24′ W”, 2005–2009

Onde os anjos não têm asas

John Baldessari, “The overlap series: jogger (with cosmic event)”, 2000

Cada necessidade é respondida com uma floresta de marcas. Há prateleiras de pasta de dentes capazes de dar várias voltas ao mundo, anéis de Júpiter de comida saudável, lagos de água pura gaseificada — tudo trabalha intensamente para para o que conforto tenha medida humana. Os europeus, para quem a abundância sempre foi um equinócio entre duas pragas e nunca passou por todos de mão em mão, estranham a tranquilidade deste fulgor, como se ele fosse incorruptível. Aqui só Allen Ginsberg, meio século antes, quando a América sacudiu os derradeiros vestígios da grande guerra,  se deixou tomar por algum alvoroço ao descobrir que a saciedade se convertera num estado natural:
“What peaches and what penumbras! Whole families shopping at night! Aisles
full of husbands! Wives in the avocados, babies in the tomatoes! — and you,
Garcia Lorca, what were you doing down by the watermelons?”
Los Angeles é o mais completo alter ego contemporâneo da Roma Imperial. Uma cidade ilimitada, onde o sol nasce, corre o céu e se põe, sem lhe ver os confins; uma cidade de sereníssimos patrícios, que depositam uma cortesia estóica em todos os gestos e há muito abdicaram do sofrimento (e que para se sentirem vivos inventaram formas artificiais de dor).
Mas o grande segredo do império de Los Angeles esconde-se à vista de todos: é multidão de latinos, todos igualmente pequenos e trigueiros, tão ubíquos quanto intangíveis, com as suas eternas camisas brancas e ténis pretos, que arrumam os carros, levantam as mesas, fazem as camas, manicuram os relvados, dobram a roupa, milhões de mãos atarefadas e silenciosas que tratam de tudo para que a face urbana de Los Angeles pareça uma dádiva da natureza, sem esforço.
E no entanto, se encostarmos o ouvido à terra, o único rumor que se escuta em Los Angeles é o da eletricidade, que de noite, vista de um avião, pontilha a terra de uma luz infinita de horizonte a horizonte. A luz que nasce do chão.

Donna Anderson Kam, “911”, 2010
Do banal
- nota de rodapé ao artigo/post de M.S. Fonseca “O reles e parvo dia a dia”

Velasquez, “O aguadeiro de Sevilha”, 1618–22

Vincent van Gogh, “Quarto em Arles” 1889

Tomas Ruff, “Carole”, 1989

A banalidade é o mais díficil.
Digo a banalidade tal como ela é. Sabe-se que de nada se pode dizer tal como é, porque as coisas são o que delas captamos e pelo modo como o fazemos. Por isso, a banalidade enquanto banalidade, na sua banalidade mais banal, é difícil de ser dita sem redundância.
Mas alguns conseguem mostrá-la como se fosse uma evidência, como se fosse possível. Conseguem dir-se-ia que descrevê-la, sem lhe inocular o drama, o sentimento, a eventual angústia, a ambicionada segurança ou a provável desolação – sem adjetivos. A banalidade sem sugerir nela o grão do sublime, como se apenas vislumbrada sem propósito.
Alcançar isto é a marca mais intensa e sublime do génio da arte. É conseguir desencadear tudo na cabeça do recetor, sem ter posto nada no emissor.
Ozu comove-nos com um estendal de roupa ao sol. É apenas a imagem de um estendal de roupa ao sol, sem parcialidade, sublinhados, inclinações, filmado do mesmo modo com que Ozu filmava tudo. Mas esse estendal de roupa a secar ao sol, por si só, por ser o que é, deflagra uma catarata de emoções. Ou não… (é o risco maior da banalidade: o poder não ser).
E se alguém chora ao ver essa imagem e vem outro e pergunta “porque choras?”, uma pessoa não sabe o que responder.
O que podem interessar bilhas cheias de água nas caniculares ruas de Sevilha? Ou o quarto desarrumado como tantos, de Vincent? Ou a cara de Carole, em tudo tão igual e diferente dos outros milhões de rostos que povoam o mundo?
Porque sentimos nisto o sentido da vida?

Yasujiro Ozu, “Flores do equinócio”, 1958

By the book

Raj Rajaratnam, por inside information na bolsa

Brandon Davis, socialite de Hollywood

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Timothy McVeigh

Paris Hilton

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Senador Tom Duane, durante um ato de desobediência cívica

 

 

 

 

Bernard Madoff, banqueiro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No Portugal de hoje o anti-americanismo é o traço mais persistente e subtil da herança cultural salazarista.
O Primeiro de Santa Comba Dão detestava tudo na América dos ainda por cima católicos Kennedy: a informalidade em mangas de camisa dos poderosos; a Coca Cola; o liberalismo dos costumes; a música barulhenta (e de pretos!); o dinheiro sem culpa; os piquetes de greve  com tacos de baseball; os beijos impúdicos nos bancos detrás dos grandes Cadillacs; a mania das grandezas mesmo à grande; as festivas campanhas eleitorais, dominadas por confettis e senhoras ostentando cartolas ridículas rebrilhando com estrelinhas patrióticas; a competitividade, à qual é imprescindível o adjetivo “desenfreada”; a desnecessária fartura de comida e coisas, sem um mínimo de frugalidade. E o tremendo chewing gum. Mas sobretudo, mesmo no mais baixo povoléu rural, a despreocupação, a falta de timidez, a ausência de medo do futuro. Isto só podia ser gente  imprevidente e insensata — estúpida, portanto, de uma estupidez  constitucional.
A propósito da prisão do Sr. Dominique Strauss-Kahn topei uma frase que ilustra de um modo lapidar o ethos lusitano: “se o caso não foi abafado é porque foi tramóia”. É maneira de se ter  sempre razão.

Pijama sim… mas, party?

Norman Rockwell, “Sunday morning”

Isto tem vindo a piorar e não tem medicina apropriada. Quando trinam campainhas anunciando  pajama party, o meu íntimo Pavlov já não segrega sugestões de Hugh Heffner mas do Norman Rockwell supra.
São assim as minhas manhãs dominicais, uma indolente pijama party enquanto elas saíram aprumadíssima para a missa. Se quiserem passar por cá, tragam café.

Reparação a ONÉSIMO TEOTÓNIO DE ALMEIDA

“Egas Moniz, o Aio”, painel de azulejos na estação de S. Bento no Porto

Fui infame, declarei falso testemunho e só não devo ter ofendido Onésimo Teotónio de Almeida porque ele demonstrou bonomia e bom carácter na interpelação que me fez. Valha-me a paciência dos outros para os meus dislates.
O caso é o seguinte:
No meu post “Interrogatório (sem holofotes na cara)”, no passo em que alinho os meus livros favoritos, apenso a “Mau Tempo no Canal” a seguinte frase: “nem Onésimo Teotónio Almeida, cujo gosto literário costuma ser infalível, conseguiu fazer-me duvidar dele.” (escusam de ir lá ver, a parvoíce já foi retirada). Ao que o visado teve a caridade de responder: “Fico com curiosidade de saber que mal fiz eu ao meu querido Nemésio…”
Foi mais ou menos neste instante que me caiu um meteoro na cabeça: as minhas débeis sinapses haviam-me traído e fizeram-me confundir Onésimo Teotónio de Almeida com outra pessoa que há alguns anos, nas páginas do JL, escrevera uma crónica, aliás bem sustentada e inteligente, relatando a sua desilusão ao ler “Mau tempo no canal”.
Cometi o monstruoso erro que nos outros tanto me irrita: dizer as coisas de memória, sem desconfiar quão traiçoeira e fantasiosa pode ela ser. E tanto mais desastrada foi a minha falta que logo incidiu sobre aquele que, sendo açoriano e literato como Nemésio , melhor o entendeu, tão finamente o analisou e tanto tem feito para o divulgar. De toda a gente que há no mundo, haveria precisamente de me meter com Onésimo…
Sinceramente – desculpe.

Interrogatório (sem holofotes na cara)

Matej Kren, “Bookcell”, CAM da Gulbenkian, 2006

A nossa compagne de route sem-se-ver” que tantas vezes nos afaga com os seus comentários, entrou no outro dia pela porta dos fundos a propor que alguém respondesse a este inquérito, a passar de mão em mão, por aí na bloga. É uma frivoleira, ou seja, um divertimento — cheguei-me à frente.

1 — Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Porquê o condicional? Há sempre um livro para reler. Aliás – é um lugar comum – a verdadeira leitura é a releitura. Um exemplo? Os contos de Graham Greene, sobretudo “May I borrow your Husband?”, sempre que lá volto está diferente. Ou “O vale de Josafat” de Raul Brandão, um autor que aprecio muito pouco à exceção destas memórias onde está tudo o que foi a nossa 1ª República – por isso é que nunca paro de regressara a ele: de cada vez percebo um bocadinho mais.

2 — Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
“Poesia toda” de Herberto Hélder. Refiro-me à edição legítima, a de capa em forma de embrulho, antes das sucessivas “Poesias que já não são todas” cada vez mais reduzidas, publicadas ano sim ano não pelo Natal, sabe-se lá se por que rasos motivos.
Nunca o consegui acabar porque queima. Leio um troço e as palavras incendeiam-se, a cabeça entra em sobreaquecimento e sou forçado a interromper. E depois volto e torno ser derrotado. Sei que nunca vencerei esta luta, o livro é maior do que eu, mas hei de levá-la até ao fim.

3 — Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Além de servirem para ler, os livros são objectos decorativos muito lindos. Uma sala com uma parede forrada a estantes repletas de lombadas tem logo outra gravidade, ganha um ar de scriptorum, ressuma inteligência. Ora, se um pobre diabo como eu, que já comprou tantos livros e continua a comprar mais, tivesse que ficar reduzido a um voluminho, então haveria de ser um daqueles sublimes álbuns de Franco Maria Ricci (FMR ou éfemerre para os habitués) que parecem incunábulos e dão vistas largas, primorosos sobre a coffee table da sala.

4 — Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Ui, o que para aí anda escondido ou mesmo à mostra sem eu saber. Mas quantas vezes descubro um clássico como se tivesse sido publicado agora e acabo a lamentar a minha ignorância por não me ter chegado a ele uns anos antes? Que mais hei de encontrar por abrir  e que esteja tão diante de mim como a  carta sobre a lareira de Poe?

5– Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?
“Trabalhos e Paixões de Benito Prada” (agora é que vem o nome do autor:) de Assis Pacheco. Ele acaba por disparar ou não? A História diz que não mas no livro sabe-se lá…

6– Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
À bruta; não havia muito mais para fazer além de ver a Pipi e o Franjinhas na escassa TV, nesses tempos em que o Sporting era campeão de 3 em 3 anos. Eram palettes de banda desenhada: Tio Patinhas, a revista “Tintin” do Dinis Machado (orgulho-me de ainda os ter todos) e depois, por bizarria, os Peanuts, aos 12, anos em inglês, ia do Lumiar à Bertrand do Chiado comprá-los, sozinho de autocarro,uma jornada hoje impossível.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Os diários de Enver Hoxha, publicados depois de a Albânia romper com a RP China. Porque teve que ser. (Isto na altura fazia sentido, hoje nenhum).

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Hoje, às 23h30, de memória e tal como vêm, são:
Jorge Luís Borges – “Obras completas”, para resolver o assunto numa penada.
“Amor de perdição” de Camilo. Este entrou e nunca mais saiu.
“The long goodbye” Raymond Chandler.
“Vom Krieg” (“On War”, li em inglês) de Clausevitz. Muito prático e útil.
“Underworld” Don DeLillo.
“Mau tempo no canal” de Vitorino Nemésio.
“Art as experience” de John Dewey. Uma chave.
“The whole equation” de David Thomson. A melhor história do cinema (americano) embora não seja bem isso (se o lerem percebem o que quero dizer).
“Grande sertão: veredas” de João Guimarães Rosa. Qual Joyce, qual quê…
“A toca do lobo”; “Uma noite na toca do lobo”; “O jardim das oliveiras”; “Nó cego” de Tomaz de Figueiredo. O mais anacrónico, irascível, reaccionário, gramatical, saudosista, eloquente, amargo, olvidado, escritor português do séc. XX.
São 10 e faltam tantos. Daqui a uma hora seriam outros de certeza.

9. Que livro estás a ler neste momento?
Como de costume um punhado que vou rodando conforme a disposição:
“Ricos e pobres no Alentejo” de José Cutileiro (Feira do Livro 2011). Supostamente uma tese de antropologia, na verdade uma descrição fulgurante (e tão bem escrita!) do Alentejo dos anos 60.
“A heartbreaking work of staggering genius” de Dave Eggers. Romance, ainda não sei, mas até agora vai bem.
“It’s not TV: HBO in the post-television era” editado por Marc Leverette. É trabalho.

10 -
É suposto passar a tocha antes que derreta na mão. Ó rapazes, não haverá aí ninguém que pegue nesta graça?

Mortificações

William Eggleston, in “Troubled waters”, 1980

William Eggleston, in “10 D.70.V2”, 1996

Duas velhas que se tratam por mana, “mana isto”, mana aquilo” e depois zangam-se. Nenhuma se cala a reivindicar a derradeira palavra. E depois nada. Vão dormir, cada uma no seu quarto, que o sono consome as teimas.
Os maridos já os levou a ceifeira, já criados e saídos de casa os filhos, os tostões contados, sobra-lhe o tempo para roçarem os dias assim.
Lá tornam de manhã ao mesmo, esquecidas à janela a bisbilhotar quem passa, “mana viste”, “mana ouviste”.

Adorável Bergman

Portugal teve azar com Ingmar Bergman. Quando os seus filmes começaram a poder ser vistos sem constrangimentos, a partir de 1974, declinava o realizador a sua fase mais taciturna. Era talvez o ar dos tempos, dos anos 70.
Como todas as imagens, esta que dele se formou também não é falsa (não há imagens falsas, há é visões falsas das imagens) e se nos detivermos só nela, de Bergman molda-se a impressão de um homem atormentado, amaro, desesperado com as noites longas do norte e repugnado com os fervores do sul, desconsolado com os afetos submergidos pela ética e, sobretudo, irritado com um deus espetador do sofrimento humano.
Mas houve outros Bergmans antes deste. Um era o ansioso amante que filmava para conquistar as mulheres. Com a câmara perscrutava os rostos femininos, encostava-se a eles com enorme proximidade, quase incómoda para as actrizes, que era como o tímido Ingmar lhes pedia que o amassem. Nenhum outro realizador tentou tanto seduzir as mulheres com o cinema – nem Luis Malle. Harriet Andersson (que deixou tontos de luxúria os poucos portugueses que iam a Paris ver os filmes interditos em Portugal), Bibi Andersson, Liv Ullmann, todas partilharam com Bergman a cama antes de lhe oferecerem a imagem.
O outro Bergman, decorrente deste era o realizador de comédias românicas. Nelas o desejo, um conceito depois tão na moda, não passava do parente pobre do sexo. E com uma liberdade protestante que parecia obscena aos nossos beatos costumes – por isso estes filmes nos passaram ao largo em seu tempo – todas as personagens sabiam ao que iam, só não sabiam o que haveriam de conseguir.
Comédias por certo imorais, ou seja, corrosivas para decência e contumazes às probidades em vigor. São de um humor talvez demasiado em filigrana para os nossos dias, mas ainda assim suecamente espirituosos, como o exemplo que aqui fica.