- Oh Zé Fernandes, quem é esta lavradeirona tão rechonchuda?
- Mais respeito, sr. D. Jacinto… Um pouco mais de respeito, cavalheiro!… É a minha prima Joaninha, de Sandofim, da Casa da Flor da Malva.
Eça de Queiroz, A Cidade e As Serras, Cap. VIII
É a minha preferida das figuras femininas criadas por Eça de Queiroz. Sempre o foi, desde a primeira vez que li A Cidade e as Serras, devia ter uns doze anos.
Gosto, desnecessário dizê-lo, do nome, a que o diminutivo acrescenta graça, ternura … e um toque de vermelho. Mas não é do nome que nasce o encanto — e a prova disso é a outra, a das Viagens na Minha Terra, que jamais me cativou.
Joaninha não tem um papel central no desenrolar da acção, não lhe é atribuída nenhuma fala, não protagoniza qualquer cena especialmente dramática ou inesperada. Aparece a Jacinto e a Zé Fernandes, na Flor da Malva, já perto do final. Mas a verdade é que muito antes desse momento surgira e se fora suavemente integrando na narrativa. A sua presença sente-se, cada vez mais intensa e inevitável, à medida que a redentora história de Jacinto se aproxima do seu epílogo. Porque Joaninha é a derradeira e definitiva etapa deste, rumo à Grã-Ventura que lhe estava destinada à nascença, mas que teve, afinal, de construir.
Tudo o que de Joaninha sabemos nos vai sendo contado por Zé Fernandes de Noronha e Sande, seu padrinho e primo, que se lhe refere com a ternura e a parcialidade do irmão mais velho que assume ser — pois, explica ele a Jacinto, fomos criados desde pequeninos, mais acostumados e familiares que tu e eu. E que muito embora conteste, meio a sério, meio a brincar, o fervor, a tocar as raias do pecado de idolatria, com que a Tia Vicência celebra a sobrinha toda-amada, contrapondo tratar-se de uma criatura apenas humana, a verdade é que não o faz senão por temer um desapontamento tremendo de Jacinto. Pois ele próprio se não coíbe de a descrever como uma perfeição de rapariga, o orgulho da nossa casa.
Joaninha é-nos retratada, não com o detalhe de descrições pormenorizadas, mas com suaves pinceladas de luz e de cor que, como num quadro impressionista, lhe desvelam a beleza e revelam a natureza. É uma figura absolutamente luminosa e positiva, cuja simplicidade e autenticidade contrastam com a complexidade e alguma ambivalência que marca muitas outras da esplêndida galeria queirosiana. Não exibe um lado sombrio, não evidencia defeitos de carácter ou más inclinações, não mostra atracção por caminhos que a precipitem num destino trágico. O seu único defeito – relutantemente admitido pelo dedicado primo – terá sido algum juvenil excesso de viço rústico enquanto sadia planta da serra, captado no retrato que faz o blasé Jacinto a soltar o tão insensível quanto delicioso Oh Zé Fernandes, quem é esta lavradeirona tão rechonchuda?. Mas, adverte pronta e categoricamente o nada isento narrador, isso é já coisa do passado. Como a seu tempo bem o comprovará Jacinto.
Joaninha é bela. Grande e forte, tem cabelo louro ondeado e largos, luminosos olhos negros. A pele, muito branca, fica às vezes rosada, do passeio e do vivo ar. Aos 25 anos está na plenitude do seu esplendor rubicundo — numa feliz combinação do tal viço rústico com sensibilidade, inteligência e maturidade.
Joaninha é alegre e doce, dedicada e generosa, genuína e descomplicada. Cuida, desvelada e paciente, do seu achacado pai, faz um doce de pêssego extraceleste, encanta-se com as crianças das redondezas, seus afilhados, a quem lava, penteia, tira as tosses e carrega ao colo, como se fossem seus. É constantemente descrita como risonha, lindamente risonha. Tudo isto a faz imensamente simpática e, sobretudo, real e cheia de vida – bem longe da perfeição distante e intocável das heroínas idealizadas e sem graça.
À medida que a história avança, percebe Zé Fernandes e percebemos nós que Joana e Jacinto foram feitos um para o outro. Mas, lá diz o Eclesiastes – a que, junto com Schoppenhauer, tanto se aferrava o desanimado Jacinto do 202 – para tudo há um momento e um tempo para cada coisa que se deseja debaixo do céu (3,1). E o tempo destes dois demorou o que tinha de demorar. Primeiro foi tempo de Jacinto se adaptar, afeiçoar, apegar, encontrar. Depois, foi tempo de descobrir o outro lado, menos belo, mas igualmente real, daquela vida e daquelas gentes, da pobreza confrangedora dos camponeses aos limitados horizontes da sociedade local. Várias semanas se passam até ao seu encontro, numa tarde de Setembro. Longamente antecipado e com um desfecho que se adivinha feliz. São inequívocos os sinais que se sucedem — a doçura luminosa, fina, fresca da manhã, logo à partida, a sensação de Jacinto de que percorre o caminho do Céu, a alusão do tio João Torrado, o profeta da serra, à estrela clara que paira por cima de Tormes, o encanto de Jacinto com a beleza da quinta e a sua descoberta, num Presépio e numas cadeiras iguais às suas de, quem sabe, um gosto comum… O que sucede é o que se espera: Joaninha, surpreendida e encantada, irrompe na sala e na vida de Jacinto, surpreendendo-o e encantando-o para sempre.
Joaninha completa a Grã-Ventura de Jacinto. Que este atingiu, ao cabo de um crucial e solitário percurso de crescimento, libertação e descoberta de si e do mundo à sua volta. Não é Joaninha que o transforma, na ilusória veste de anjo salvador. O seu papel é, felizmente, outro: é a companheira certa para o homem verdadeiro que Jacinto já é.
Acima de tudo, Joaninha é uma mulher feliz. Sempre. Quando risonha e doce nos surge e quando magnífica e triunfal recebe Zé Fernandes vindo de uma tormentosa estadia em Paris, naquela que é a última cena do livro. Deslumbrada com o seu Jacinto, a cujo rijo pescoço deita os braços, ditosa com os filhos (a gorda e vermelha Teresinha e o bravo Jacintinho), apegada à nudez rude de Tormes e às suas serras, Joaninha vive de bem com a vida. Dedica-se, desfruta e valoriza o que tem. É feliz porque o sabe ser. E tem gosto nisso. E é mesmo por isso que tanto me agrada.