Que pasa con Pedro?

 Este que está no nicho é São Pedro. Muito bem trajado, de sotaina negra. Estranho? Foi o que eu achei. Não é costume. Muito mais estranho, contudo, é o facto de Pedro empunhar um livro. Sim, um livro. E dos grandes. Com todo o ar de quem prega convictamente o seu conteúdo. E de que o conhece bem, talvez por muito o ter lido, quem sabe por o ter mesmo escrito. O que, convenhamos, é realmente estranho. Logo Pedro que, tanto quanto se sabe, não era propriamente dado à leitura ou a afins exercitações do espírito …    

O que será que se  passa com Pedro?

Uma ajudinha? Querem uma ajudinha… Então aqui fica a foto da fachada onde me deparei com este extraordinário São Pedro. Fica em Santiago de Compostela. Já foi de uma Igreja,pertença de uma poderosa ordem religiosa, actualmente é sala de exposições e pertence à universidade. A ver se nela encontram, por assim dizer, pregada alguma pista …

These foolish things remind me of you

Estou longe, muito longe de casa. Muy ajetreada y disfrutando a tope, entre devociones xacobeas y placeres más terrenos. Sempre com a graça del Apóstol, por supuesto. Um desassossego do melhor. Mas a verdade é que por mais relapsa e desligada que ande do meu fiel computador, não há beco, rua, esquina desta cidade que me não lembre o extraordinário cemitério. É constante a sensação de dejá vu. Perturbadora, mas ainda assim reconfortante. Muito. Ora vejam.   


Sim, leram bem, Fonseca


Pareceu-me tudo gente (quase) morta


Disse-me que comprou a saia em Ponferrada depois de ler o texto do Pedro Norton
Diz que comprou a saia em Ponferrada depois de ler o texto do Pedro sobre el Che


Sim. leram bem, Fonseca ... he's all over the place
Sim, leram bem, Fonseca, Parte II …


Ups!


São Rosas, senhores? Estaria disposta a jurar que sim ... e o que farão no regaço de San Diego?
São rosas, senhores? Eu estaria disposta a jurar que sim … mas porque as tenta ocultar Diego, aliás San Diego?

Finalmente chegámos, pensa o Cãogrino, valeu-me apesar de tudo o belo atrelado, cheguei a temer ter de fazer o Caminho no cestinho de que a Dona tanto gosta…

Sim, leram bem, Fonseca, Parte III, he´s all over the place …

Tão diversa como o nosso cemitério, esta banca de recuerdos …

Para o Manuel, claro

Este post não é meu. Melhor dizendo, é-o só um bocadinho, na parte em que, com todo o gosto, me fiz cúmplice da nossa Luciana, que muito queria surpreender o seu e nosso Manuel pelo seu aniversário.

Por isso, e depois de deixar aqui um grande abraço de parabéns, desejando ao Manuel que viva este seu dia na maior felicidade e que assim prossiga, por todo o ano, até ao próximo, retiro-me. E deixo o espaço e o momento a quem, do outro lado do Alântico, tem muito mais e mais belo que dizer…       

 

Aniversário do Manuel, by Luciana

É aniversário do Manuel e dou-lhe de presente o que há de mais inútil que se possa achar: uma confissão. Não se pense que é falta de apreço ou de bolso, é que escolhi a lembrança da mesma matéria com que ele me tem alegrado os dias. Confesso, pois: o Manuel é o meu Saci. Saci-Pererê. Meu primeiro encontro com este personal Saci creio que foi aqui e nada poderia ser mais auspicioso. E está tudo  de forma tal que não precisava ser explicado, mas eu explico mesmo assim.

O Saci é visto ora como um ser brincalhão e gracioso, ora como malvado e astucioso. Pois. O saci se diverte com pessoas e animais, faz pequenas estripulias (quase sempre em embates verbais com as Graças do blog) e assusta viajantes noturnos (e quantas vezes se acorda com novos e provocativos posts aqui repentinamente surgidos). Mas não se pense que é um desocupado, o Saci/Manuel tem como função o controle – com sabedoria – das matas (ou cemitérios?) e vive a confundir e embaraçar quem nelas penetra sem a devida permissão. Diz-se que ele se desloca em moinhos de vento, mas há relatos de que o Manuel tem aprimorado essa técnica e se movimenta em redemoinhos de letras que nos deixam aparvalhados. O Saci tem poderes mágicos, muitas vezes faz-nos perder o rumo e vagar sem destino (de post em post?) e consegue ficar invisível (na época de férias, quase sempre).

Fazer aniversário é um pouco contemplar a mortalidade. Nem precisaria Sêneca gastar saliva a lembrar que qualquer tempo que já passou pertence à morte. Mas, seriamente, não me preocupo com o Manuel. Conta a lenda que o Saci nasce em um broto de bambu (atualizado como cemitério/blog), vive nele sete anos (já a quantas anda este aqui?) e depois vive mais setenta e sete anos a atazanar os andantes desavisados. Só depois é que o Saci vira um cogumelo venenoso – cuidado, amigos – ou uma orelha de pau* – sabe-se lá pra que serve isso, mas que vira, vira.

Ao meu Saci – pessoal e intransferível – meu carinho agradecido e muitos vivas no aniversário. Que esteja a fazer travessuras, onde estiver!

Onde todos os caminhos vão dar

É assim desde 1122, ano em que o Papa Calisto II proclamou Ano Santo Jacobeu (Ano Santo Xacobeo ou simplesmente Xacobeo, em galego), todo aquele em que a festa litúrgica de Santiago – a 25 de Julho – coincida com um domingo. Como neste ano de 2010.

Os Xacobeos sucedem-se segundo uma cadência regular de seis-cinco-seis-onze anos, por força da interferência dos anos bissextos: a não existirem estes, ocorreria um em cada sete años. O anterior foi em 2004 e o próximo será apenas em 2021.

O seu significado é, antes de mais e principalmente, religioso. Trata-se de um ano jubilar, período durante o qual a Igreja concede singulares graças espirituais aos seus fiéis que reúnam determinadas condições que, no caso do Xacobeo, são essencialmente a visita ao túmulo de Santiago e a participação nos sacramentos da reconciliação e da comunhão.

Nesse sentido, o início do Ano Santo é marcado pela abertura solene, na tarde de 31 de Dezembro antecedente, da Porta Santa da Catedral, situada na Plaza de la Quintana e pela qual se acede directamente à parte de trás do altar-mor, erigido sobre la Tumba del Apóstol. È por essa porta que durante o Xacobeo (e só nesse período) se faz a entrada dos peregrinos. São diariamente celebradas várias misas de peregrinos, sendo, em várias delas, lançado o Botafumeiro, o descomunal turíbulo de incenso, que nos tempos medievais perfumava e, segundo se cria, purificava o ar, pesado e quase irrespirável da Catedral, a abarrotar de peregrinos exaustos, sujos e, não raro, doentes. 

Mas Santiago, em geral, e o Xacobeo, em especial, têm também uma fortíssima componente histórica e cultural.  

O Caminho de Santiago, cujas rotas e símbolos – a começar pela própria vieira, usada pelos peregrinos para se identificarem e serem tratados como tais e para beber água, associada a antiquíssimos rituais de fertilidade –  resultaram, em larga medida, da assimilação de itinerarios e cultos pagãos, foi durante séculos um percurso e uma experiencia essencialmente religiosa. Na actualidade, e sem perder essa dimensão, tem vindo a ganhar várias outras — cultural e artística, de contacto com a natureza, de desafio  ou de percurso de crescimento espiritual, por via do despojamento material e do distanciamento de hábitos e rotinas do quotidiano que propicia. É percorrido a pé ou a cavalo, como outrora, mas também e crescentemente, de bicicleta — pelos chamados “ciclogrinos”. O chamado Caminho Francês foi proclamado pelo Conselho da Europa Primeiro Itinerário Cultural Europeu, em 1987. E tanto a parte española (em 1993), como a parte francesa do Caminho (em 1998) foram declaradas pela UNESCO como Património da Humanidade, pelo papel fundamental por este desempenhado no intercâmbio cultural entre a Península Ibérica e o resto da Europa durante a Idade Média e, bem assim, enquanto testemunho do poder e influencia da fé cristã entre pessoas de todas as clases e de todos os países na Europa medieval.  

Todas estas dimensões estão bem presentes na variada e abrangente programação de eventos de toda a ordem — 10 camiños para vivir Xacobeo 2010, que vão da espiritualidade à história e à contemporaneidade, passando pela música, a gastronomia, a reflexão, as artes cénicas, o audiovisual e o desporto, sem esquecer as crianças — e que abarca todo o ano, incidindo especialmente nos meses de Verão.

 

Tiago, o Maior

Santiago el Mayor, El Greco, 1610–1614

Tiago. São Tiago ou Santiago, entre nós. Santiago, San Diego, San Jaime, San Yago ou simplesmente El Apóstol, em Espanha – de que é Santo Patrono. O Maior, por ser o irmão mais velho do apóstolo João, e para o diferenciar de um outro, também Tiago, filho de Alfeu, ou o Menor.

Terá nascido em Betsaida, na Galileia, e morreu em Jerusalém, no ano 44, decapitado por ordem de Herodes Agripa I (Act. 12, 1). No Evangelho, Tiago é frequentemente referido junto com seu irmão João: são os “filhos de Zebedeu” (Mt. 4, 21; Mc 1, 19; Lc 5, 10) e — nas palavras do próprio Cristo — os “filhos do trovão” (Mc, 3, 17), por serem muito intensos e impetuosos, sempre prontos a fazer descer “fogo do céu” sobre os que os hostilizavam ou simplesmente não acolhiam (como em Lc 9, 54–56)  

Pescadores de profissão, largaram as redes que consertavam e “deixaram no mesmo instante o barco e o pai” para seguir Cristo, quando este os chamou, nas margens do Mar da Galileia (Mt 4, 21–22). Preocupados, ainda assim, com o seu futuro, terão pouco tempo depois – por sua iniciativa, segundo Marcos (10, 35–41), liderados pela respectiva mãe, conta Mateus (20, 20–24) – procurado obter junto daquele a promessa de um lugar preferencial no Reino (“que nos sentemos um à tua esquerda e outro à tua direita”), atitude que muito indignou os outros discípulos. A verdade é que, apesar do liminar “não sabeis o que pedis” com que Cristo prontamente os despachou, eram estreitos os seus laços de afecto e de confiança com os dois irmãos. Relatam os vários Evangelistas terem sido Pedro, Tiago e João os três discípulos escolhidos por Cristo para presenciar a ressurreição da filha de Jairo (Mc. 5, 35–40, Lc 8, 50–55), testemunhar a sua transfiguração no cimo do Monte Tabor (Mt. 17, 1, Mc. 9, 2, Lc, 9, 28) e a acompanhá-lo na angustiada Oração em Gétsemani (Mt 26, 37; Mc. 14, 32).

Reza a lenda que após o Pentecostes (Act. 2, 1–12), Tiago terá vindo para a Hispania. Na sua pregação, iniciada na Galiza, percorreu boa parte do território sob dominação romana — tendo presenciado, com os seus discípulos, cerca do ano 40, uma aparição da Virgem Maria sobre uma coluna de jaspe, em Caesaraugusta (actual Zaragoza), no local onde se ergue hoje a Basílica de Nuestra Señora del Pilar – antes de regresar a Jerusalém. Após a sua morte, o seu corpo terá sido transportado numa misteriosa barca de volta à Galiza e aí sepultado em segredo. Viria a ser descoberto séculos mais tarde, cerca de 813, quando estranhas luzes que brilhavam sobre um descampado outrora utilizado como necrópole por celtas, suevos e visigodos, levaram à descoberta de um túmulo com um corpo degolado e a cabeça debaixo do braço, que se não duvidou ser o del Apóstol. Afonso II, o Casto, Rei das Astúrias, mandou construir uma igreja no local, a qual veio a dar origem à majestosa e belíssima Catedral de Santiago de Compostela (nome derivado, ao que se crê, de campus stellae ou campo de estrelas).  

Rapidamente o local da Tumba del Apóstol se tornou num destino procurado por crentes de toda a Europa, que aí acorriam, utilizando — e assim “cristianizando” – antiquíssimos itinerarios que ligavam França ao que se julgava ser o fim do mundo (finisterrae), muito procurado pelos celtas para os seus rituais e celebrações. Por toda a Idade Média, Compostela e o Caminho de Santiago ombrearam com Roma e Jerusalém como rotas principais de peregrinação da cristandade.

Remonta também a estes tempos a transmutação do humilde pescador galileu no bravo Santiago Matamoros que, a fazer fé nos diversos e sempre extrordinários relatos, terá aparecido em mais de uma batalha, montado no seu cavalo branco, a ajudar a combater os infiéis. E era a sua protecção que se invocava com o grito Santiago y cierra, España!, pela primeira vez usado em Navas de Tolosa (1212) e que perdurou bem para lá da Reconquista.

Patrono dos peregrinos, veterinários, cavaleiros, curtidores e peleiros, São Tiago ou Santiago é-o também, de todos os Tiagos e Diogos, Jaimes e Santiagos. Festeja-se hoje, 25 de Julho. 

Um morto com várias vidas

Viveu várias vidas, este morto. Começou por nascer duas vezes. Foi médico e, acima de tudo, revolucionário. Os seus feitos, das viagens aos escritos, da luta armada de libertação ao empenhamento na construção e consolidação, em todos os continentes, de regimes revolucionários, dificilmente cabem numa única existência. Terá morrido mais de uma vez, antes daquela que foi a derradeira. São inúmeros e contraditórios entre si, mas jamais desapaixonados ou neutros, os relatos e interpretações do seu percurso terreno e do seu legado. 

É este morto, em todas as suas contrastantes versões, que o Pedro Norton trouxe para junto de nós e que aqui podemos encontrar.

É possível que venha a causar agitação no cemitério. Por ora, parece tranquilo. Quando há pouco o espreitei, exortava os mortos das campas vizinhas, como aos filhos, na carta em que deles se despediu, “sobre todo, sean siempre capaces de sentir en lo más hondo cualquier injusticia cometida contra cualquiera en cualquier parte del mundo: es la cualidad más linda de un revolucionário”.

No Ponto de Mira

As luzes acenderam-se. Intervalo. Pegou nos binóculos, a outra mão a apertar, firme, o leque pousado no colo. Fixou um ponto do outro lado do teatro, no meio das filas de camarotes. Debruçou-se, tentando mostrar-se natural e descontraída, interessada e curiosa. E, sobretudo, tão segura e destemida quanto gostaria de se sentir. Espreitou. Não procurava nada nem ninguém. De nada lhe interessava o que da vida dos outros pudessem captar as suas lentes. Sentia todos os olhares pousados em si.

Nessa noite infringira várias regras e desafiara outras tantas convenções. Apresentara-se no teatro, ocupando o camarote que assinara para toda a temporada. Três hesitantes semanas depois de esta ter começado. Viera só. Tão só como escolhera, fazia agora um ano, viver a sua vida. Regressara com os filhos a casa dos pais, à sua cidade. A princípio fora fácil. Bem mais fácil do que contava. Os feitos, públicos e privados, do seu ainda marido, de todos bem conhecidos, ajudavam a colorir de negro o retrato da sua tormentosa vida conjugal que, cedo percebeu, constituía a carta de alforria que não podia nem devia largar. Era, afinal, uma vítima das circunstâncias, sofredora e frágil, irresignada a um destino que se lhe impusera. E que, aos mais empedernidos, convinha apresentar, junto com uma incontida lágrima, como não irreversível (quem sabe, talvez um dia, ainda tudo se componha). Resultava sempre. Tal como o recatado quase luto que achara prudente adoptar. Fora tratada com compaixão e complacência. Tivera até vários convites, alguns inesperados. A todos agradecera, humilde e reverente. Ao fim de uns meses, estava saturada. De ter de se apresentar desolada, desvalida, desamparada. Sufocava-a o ter de exibir uma infelicidade que não sentia. O alívio inicial dera lugar a uma desmedida vontade de desfrutar da autonomia que, aos poucos, conquistara. Mudara-se para uma casa sua, com os seus filhos. Administrava o seu património — bendita a hora em o pai impusera a separação de bens. Sentia-se livre e feliz. Aos poucos deixou cair a máscara da desgraçada. Ria e mostrava-se animada. Tinha planos e falava deles. Nos serões e festas, movia-se pelos salões, conversava, dançava até, recusando integrar o “arame farpado” —  a temida hoste de azedas solteironas e viúvas que, à falta de mais assunto, cortava às tiras vidas e reputações alheias. Percebera os olhares críticos e reprovadores. Sabia de cor os comentários, de tanto os ter ouvido, aplicados a outras. LevantadaCabecita no ar. Doida.  

Perante várias amigas advertências, hesitou. Fez por regressar ao esquema antigo. Não conseguiu. Tens de te dar ao respeito, diziam-lhe. Respeito não é pena, respondia. E rematava, como sempre ouvira a avó: mais vale mal de inveja, que bem de piedade. Porque era inveja o que sentia suscitar. Inveja da sua liberdade, nas mulheres encerradas em casamentos onde se haviam perdido (admitindo que os  houvera) o afecto e o respeito. Nos homens era diferente. Nalguns homens. Era mais medo. Do péssimo exemplo que dava às submissas esposas. Mas havia pior, os sonsos. Como aquele que conhecera em casa dos tios. Desgostara da forma como a olhara e o tom com que se lhe dirigira. Ignorara-o polidamente, refugiando-se, lesta, no “arame farpado”. Soube, depois, dos comentários depreciativos a seu respeito. Falou-se em metê-lo na ordem. Dissuadira-os. Não se dá importância ao que a não merece.     

Respirou fundo. Avistara duas primas, que lhe acenavam, sorridentes. Baixou os binóculos. Acenou de volta. Sorriu cordial aos vizinhos do camarote à direita. Retomou a simulada coscuvilhice. A conversa ficaria para a próxima. Não convinha exagerar na dose. Um homem observava-a, fixamente, através dos seus binóculos. O seu mais antigo e querido amigo. A quem ganhara a aposta que haviam feito, ao comparecer no teatro nessa noite. Amanhã ou depois ele levá-la-ia na sua nova caleche a lanchar a uma nova confeitaria que há pouco abrira no centro, próximo do jardim. Haveria falatório? Paciência.    

Para a semana viria sem o maldito vestido preto e sem as tristonhas pérolas. Pensassem o que pensassem. Dissessem o que dissessem. Só vive uma vez. E ela tinha trinta anos e tencionava fazê-lo.

Homem Mau

Mau, mau, mau. É o que ele é. Ó se é. Ataca pela calada da noite e, rasteirinho mas benenuoso, como as cobras de que tanto diz gostar, recorre à falsidade e à intriga, pratica a calúnia e tenta semear a dúvida e a divisão.  

Refiro-me evidentemente ao sinistro António Benedito Afonso de Eça de Queiroz, decano dos mortos deste nosso cemitério que, esta madrugada, e a culminar um crescendo de torpes e totalmente infundadas acusações que me foi movendo ao longo dos últimos dias (ei-las aqui e aqui e aqui) e no espaço de um único comentário:

1) Me acusou falsamente, a mim que tenho a inscrição na Ordem suspensa há que anos, de exercer irregularmente a advocacia (“vive afogada de in folios legais”), o que além de violar regras deontológicas básicas, constitui como se sabe crime de usurpação de funções (art. 358.º, al. b), do Cód.Penal);  

2) Me acusou da mais crassa incompetência enquanto jurista, afirmando despudoradamente que utilizo no meu dia-a-dia textos legais caducos e há muito revogados (“anda sempre a escarafunchar lá pelo velho tronco das Ordenações Filipinas”);

3) Afirmou sem rodeios que, mais que a precisar urgentemente de férias, estou para lá de treslida (“isso não lhe faz nada bem”), logo que só profiro dislates e incongruências;

4) Incorreu no mais primário machismo ao estabelecer, displicente e paternalista, a irrelevância e o desacerto de tudo o que eu digo, de forma tão categórica que praticamente retroactiva  (“não pode acreditar em tudo tudinho que ela diz”).     

5) Tudo isto dirigido à minha querida Luciana, transatlântica e dedicadíssima amiga, junto de quem procurou, de forma vil, denegrir a minha imagem a todos os níveis, pessoal e profissional: não ter acrescentado que eu era também gorda, loura, desgrenhada ou que falo muito só pode ter sido falta de lembrança.

E fê-lo sem qualquer motivo. Mas ainda que o tivesse, a verdade é que nada, mas nada, justificaria tamanha ruindade.

A gravidade da situação é, pois, extrema. Isto não pode, não vai ficar assim. Não, não o vou castigar. Isso dar-me-ia muito trabalho e o referido António não merece que eu me canse por causa dele.  

Conversei com o Santo António — dele, mas sobretudo meu. Que me deu, claro, toda a razão. E que ficou de me ajudar. Por isso, antes que termine o dia de hoje, vão começar a desaparecer coisas ao terrível António – a caneta preta, o relógio, os óculos (de ver e escuros), a chave do carro e por aí fora. Graças à intercessão do Santo, o ingrato António vai passar os próximos dias à procura de todos os objectos que nesse exacto momento precisaria de ter à mão. E vai ser muito bem feito.

Quanto a mim, declaro-me, a partir deste momento e por tempo indeterminado, em greve aos posts do cruel António – não mais vou lê-los e menos ainda comentá-los. Abstenção total de actividade nas correspondentes zonas do blog – como se lá nada estivesse. Nada nem ninguém.          

Histórias de Joanas V — A Prima da Flor da Malva

- Oh Zé Fernandes, quem é esta lavradeirona tão rechonchuda?

- Mais respeito, sr. D. Jacinto… Um pouco mais de respeito, cavalheiro!… É a minha prima Joaninha, de Sandofim, da Casa da Flor da Malva.

 Eça de Queiroz, A Cidade e As Serras, Cap. VIII 

É a minha preferida das figuras femininas criadas por Eça de Queiroz. Sempre o foi, desde a primeira vez que li A Cidade e as Serras, devia ter uns doze anos.   

Gosto, desnecessário dizê-lo, do nome, a que o diminutivo acrescenta graça, ternura … e um toque de vermelho. Mas não é do nome que nasce o encanto — e a prova disso é a outra, a das Viagens na Minha Terra, que jamais me cativou.

Joaninha não tem um papel central no desenrolar da acção, não lhe é atribuída nenhuma fala, não protagoniza qualquer cena especialmente dramática ou inesperada. Aparece a Jacinto e a Zé Fernandes, na Flor da Malva, já perto do final. Mas a verdade é que muito antes desse momento surgira e se fora suavemente integrando na narrativa. A sua presença sente-se, cada vez mais intensa e inevitável, à medida que a redentora história de Jacinto se aproxima do seu epílogo. Porque Joaninha é a derradeira e definitiva etapa deste, rumo à Grã-Ventura que lhe estava destinada à nascença, mas que teve, afinal, de construir.

Tudo o que de Joaninha sabemos nos vai sendo contado por Zé Fernandes de Noronha e Sande, seu padrinho e primo, que se lhe refere com a ternura e a parcialidade do irmão mais velho que assume ser — pois, explica ele a Jacinto, fomos criados desde pequeninos, mais acostumados e familiares que tu e eu. E que muito embora conteste, meio a sério, meio a brincar, o fervor, a tocar as raias do pecado de idolatria, com que a Tia Vicência celebra a sobrinha toda-amada, contrapondo tratar-se de uma criatura apenas humana, a verdade é que não o faz senão por temer um desapontamento tremendo de Jacinto. Pois ele próprio se não coíbe de a descrever como uma perfeição de rapariga, o orgulho da nossa casa.

Joaninha é-nos retratada, não com o detalhe de descrições pormenorizadas, mas com suaves pinceladas de luz e de cor que, como num quadro impressionista, lhe desvelam a beleza e revelam a natureza. É uma figura absolutamente luminosa e positiva, cuja simplicidade e autenticidade contrastam com a complexidade e alguma ambivalência que marca muitas outras da esplêndida galeria queirosiana. Não exibe um lado sombrio, não evidencia defeitos de carácter ou más inclinações, não mostra atracção por caminhos que a precipitem num destino trágico. O seu único defeito – relutantemente admitido pelo dedicado primo – terá sido algum juvenil excesso de viço rústico enquanto sadia planta da serra, captado no retrato que faz o blasé Jacinto a soltar o tão insensível quanto delicioso Oh Zé Fernandes, quem é esta lavradeirona tão rechonchuda?. Mas, adverte pronta e categoricamente o nada isento narrador, isso é já coisa do passado. Como a seu tempo bem o comprovará Jacinto.  

Joaninha é bela. Grande e forte, tem cabelo louro ondeado e largos, luminosos olhos negros. A pele, muito branca, fica às vezes rosada, do passeio e do vivo ar. Aos 25 anos está na plenitude do seu esplendor rubicundo — numa feliz combinação do tal viço rústico com  sensibilidade, inteligência e maturidade.

Joaninha é alegre e doce, dedicada e generosa, genuína e descomplicada. Cuida, desvelada e paciente, do seu achacado pai, faz um doce de pêssego extraceleste, encanta-se com as crianças das redondezas, seus afilhados, a quem lava, penteia, tira as tosses e carrega ao colo, como se fossem seus. É constantemente descrita como risonha, lindamente risonha. Tudo isto a faz imensamente simpática e, sobretudo, real e cheia de vida – bem longe da perfeição distante e intocável das heroínas idealizadas e sem graça.

À medida que a história avança, percebe Zé Fernandes e percebemos nós que Joana e Jacinto foram feitos um para o outro. Mas, lá diz o Eclesiastes – a que, junto com Schoppenhauer, tanto se aferrava o desanimado Jacinto do 202 – para tudo há um momento e um tempo para cada coisa que se deseja debaixo do céu (3,1). E o tempo destes dois demorou o que tinha de demorar. Primeiro foi tempo de Jacinto se adaptar, afeiçoar, apegar, encontrar. Depois, foi tempo de descobrir o outro lado, menos belo, mas igualmente real, daquela vida e daquelas gentes, da pobreza confrangedora dos camponeses aos limitados horizontes da sociedade local. Várias semanas se passam até ao seu encontro, numa tarde de Setembro. Longamente antecipado e com um desfecho que se adivinha feliz. São inequívocos os sinais que se sucedem — a doçura luminosa, fina, fresca da manhã, logo à partida, a sensação de Jacinto de que percorre o caminho do Céu, a alusão do tio João Torrado, o profeta da serra, à estrela clara que paira por cima de Tormes, o encanto de Jacinto com a beleza da quinta e a sua descoberta, num Presépio e numas cadeiras iguais às suas de, quem sabe, um gosto comum… O que sucede é o que se espera: Joaninha, surpreendida e encantada, irrompe na sala e na vida de Jacinto, surpreendendo-o e encantando-o para sempre.

Joaninha completa a Grã-Ventura de Jacinto. Que este atingiu, ao cabo de um crucial e solitário percurso de crescimento, libertação e descoberta de si e do mundo à sua volta. Não é Joaninha que o transforma, na ilusória veste de anjo salvador. O seu papel é, felizmente, outro: é a companheira certa para o homem verdadeiro que Jacinto já é.

Acima de tudo, Joaninha é uma mulher feliz. Sempre. Quando risonha e doce nos surge e quando magnífica e triunfal  recebe Zé Fernandes vindo de uma tormentosa estadia em Paris, naquela que é a última cena do livro. Deslumbrada com o seu Jacinto, a cujo rijo pescoço deita os braços, ditosa com os filhos (a gorda e vermelha Teresinha e o bravo Jacintinho), apegada à nudez rude de Tormes e às suas serras, Joaninha vive de bem com a vida. Dedica-se, desfruta e valoriza o que tem. É feliz porque o sabe ser. E tem gosto nisso. E é mesmo por isso que tanto me agrada.  

Preferido Nenhum, Inesquecível Este

Não gosto de cemitérios. Nunca gostei. Afligem-me pelo silêncio, o frio das pedras, a ausência de vida. Entristecem-me porque me lembram a dor da despedida e da perda e todas as vezes que a senti. Não lhes encontro beleza que me toque ou paz que me serene. E não é neles que sinto presentes todos aqueles que amo e que já partiram.   

É por isso que os que bem me conhecem mal conseguem disfarçar o ar, entre o incrédulo e o comiserado, que se dedica aos patentemente ensandecidos, quando lhes conto o contentíssima que estou, sepultada em vida num blog com tal nome e que pretende ser … um cemitério. Vermelho-vivo, caloroso e animado, rico, divertido e acolhedor. Único e extraordinário. Mas cemitério. 

Voltando aos cemitérios, só lá entro quando tem mesmo de ser. Fora dessas penosas ocasiões, é raro sentir qualquer vontade ou impulso para os visitar, conhecer e explorar. Apesar disso, gostei muito do cemitério judeu de Praga, de que nos falou aqui o Pedro Norton. Como já antes de um outro que havia na ilha da Taipa, em Macau, numa maravilhosa encosta de montanha, a descer até à agua e com uma vista deslumbrante.

Não tenho, pois, como falar de um cemitério preferido.

Mas há um que não esqueço. Por diferentes e surpreendentes razões. Fica em Nápoles e dá pelo enganoso nome de Catacombe di San Gaudiano. Fui lá parar ao engano e, mesmo assim, contrariada: não gosto, já aqui o confessei, de locais subterrâneos. Mas lá acedi em visitar o que — pensava eu — ser o despojado e belo local de uma primitiva igreja cristã. Não sabia para o que ia. Nem eu nem nenhum dos integrantes do intrépido grupo de portugueses e americanos, conduzidos por uma guia que não proferia uma palavra de inglês.

As Catacombe di San Gaudiano ficam debaixo da majestosa Basilica di Santa Maria della Sanitá. Terão sido templo grego e primitiva igreja católica, onde repousam as relíquias do mártir San Gaudiano, vindas de África. Mas isso foi antes, muito antes, de o local ter sido destinado a um estranhíssimo ritual funerário, por alturas do séc. XVII, sob impulso dos dominicanos, primeiro, dos franciscanos, depois.

O esquema era sinistro e basicamente o seguinte: falecido o morto, o seu corpo, antes que sobreviesse o rigor mortis, era lançado às catacumbas por um alçapão no chão mesmo por trás do altar da Basílica. Uma vez lá em baixo era acondicionado (sentado, com as pernas bem dobradinhas) num nicho de pedra escavado na parede, a secar. Logo que bem enxutas, as ossadas, dependendo do status do seu titular e da quantia paga, tinham um de dois destinos: ou eram incrustadas na própria parede da catacumba, devidamente ornamentadas com alusões à sua vida passada — nunca mais esqueci o par formado por uma graciosa ossada de lindo vestido rosa e leque e seu garboso companheiro, de casaca e militar espada à cinta. Também havia um magistrado, de toga, e um pintor, de pincel e paleta. A versão low-cost implicava o depósito num ossário comum, tudo arrumadinho por partes: crânios para um lado, tíbias para outro, e por aí fora. Objecto de sucessivas e infrutíferas proibições, este espantoso ritual só terá sido defintivamente abandonado em meados do séc. XIX durante tremendas epidemias de peste que assolaram Nápoles.

Tudo isto era explicado pela, a princípio sisuda, guia num misto de italiano e espanhol, que eu ia decifrando e traduzindo aos estarrecidos americanos. À medida que os detalhes se tornavam mais bizarros, traduttore tradittore, comecei com apartes e gracinhas, só para amenizar. Os americanos ripostaram, em grande estilo. Eu transmiti à guia. E a coisa descambou completamente. Overwhelmed com tamanho entusiasmo, desmultiplicou-se em mais disgusting details, sobre o tratamento dado às vísceras e os relatos da época acerca da sistemática insuficiência dos pequenos recipentes destinados a recolher os fluidos dos corpos em decomposição, os quais transbordavam e empapavam o chão de terra batida – sim, o mesmo que nesse preciso momento pisávamos … E, sobretudo, sobre o surreal rissorgimento desta até então esquecida necrópole nas primeiras décadas do séc. XX, em especial durante a Primeira e a Segunda Guerras, quando devotas senhoras napolitanas começaram a visitá-la e, apiedadas do anonimato de tanta e tão indiferenciada caveira, as adoptaram e passaram a cuidar delas – depositando-as em almofadinhas por si costuradas, metendo-os em casinhas, iluminando-as com velas, rezando pela salvação da respectiva alma. E porque muitas dessas almas estariam presumivelmente já no céu (por acesso directo ou cumpridos dois séculos de purgatório) pediam graças e favores junto da corte celeste. Os quais, se atendidos, davam azo a agradecimentos vários, se não, motivavam o despedimento sumário da caveira em apreço, logo substituída por outra, mais competente e menos ingrata. Nisto se passavam longas tardes, aqui e no Cimitero delle Fontanelle, até que, proibido tal culto em 1969, as caveiras foram removidas para este último, entretanto encerrado ao público. Das pilhas e pilhas que ali se haviam amontoado, restavam apenas umas simbólicas  quantas e uma inacreditável colecção de fotografias, que a nossa guia nos exibiu e explicou até ao mais tenebroso detalhe, respondendo a todas as nossas macabras questões.  

A visita, estimada em 45 minutos prolongou-se por mais de duas horas. Entre gargalhadas e exclamações de espanto e horror. Julguei que não aguentava, mas aguentei. Não posso dizer que tenha gostado. Mas que foi uma experiência única, foi. E muito, muito divertida.

Todos os Dias, De Todas as Cores

 

Entrou neste nosso cemitério logo no primeiro dia, mal se abriram os portões

Desde então, quase todos os dias atravessa o oceano para nos visitar

Deixa simpáticos e sentidos comentários, como quem pousa pedrinhas nas nossas campas

De tantas cores quantas as que tem o nome que usa

E tão variados como as cartas do seu tarot

Por aqui recebemo-la sempre com agrado e alegria

E hoje também com um cintilante e colorido

PARABÉNS TURMALINA!

In Praise of Earl Grey

Charles, Second Earl Grey (1764−1845). Eleito para o Parlamento pelo Whig Party em 1786, com apenas 22 anos, destacou-se pelos seus outstanding dotes oratórios e retóricos. Ainda solteiro, manteve um rather notorious affair com Georgiana Cavendish, Duchess of Devonshire, do qual nasceu uma filha em 1792, facto que compreensivelmente abalou, e muito, o casamento dela, mas que em nada afectou a sua promissora carreira política. Primeiro-ministro do Reino Unido de 1830 a 1834, o seu mandato ficou marcado pelo Reform Act, que redefiniu o sistema eleitoral, em 1832, e pela abolição da escravatura em todo o British Empire, em 1833. A remarkable and achieved man, indeed.

Não é, contudo, este Earl Grey o destinatário de todo o meu apreço e gratidão, aqui expressos, mas sim o chá. Earl Grey, as well, porque named after him. Este unique blend of tea, tradicionalmente black only, é aromatizado com óleo de bergamota (citrus bergamia), uma variedade de citrino originário do Oriente e cultivado sobretudo em Itália. A receita original, pertença dos Jacksons of Piccadilly, ter-lhes-á sido dada pelo próprio Charles Grey em 1830 (sendo várias, e na sua maioria implausíveis, as explicações quanto ao modo como este a terá obtido) e desde então permanece inalterada.

É o meu chá preferido. E é sobretudo a minha salvação. Quando o trabalho é muito e o cansaço muitíssimo. Quando o café se revela de todo inoperante e o seu simples cheiro começa a enjoar. Para me ajudar a correr (ou apenas a percorrer) the extra mile que me separa do cumprimento de um apertado prazo, da conclusão de uma espinhosa tarefa, da chegada de umas desejadas e merecidas férias. In comes Earl Grey, nos casos mais graves combinado com quantidades adequadas de chocolate preto. Nunca falha. Desperta, estimula, (re)conforta e (re)anima.   

O enorme bule castanho já ali está, no seu canto da secretária. Fumega. O cheiro é delicioso e inspirador.

Vou trabalhar.   

O Todo e Mais Uns Quantos

Ei-lo, completo, o quadro do qual aqui mostrei apenas parte — A Ascensão, de Vasco Fernandes (Grão Vasco).

Terá sido pintado entre 1501 e 1506, junto com os outros 13 (Anunciação, Visitação, Natividade, Circuncisão, Adoração dos Reis Magos, Apresentação no Templo, Fuga para o Egipto, Última Ceia, Oração no Horto, Prisão de Cristo, Descida da Cruz, Ressurreição e Pentecostes) que integravam o retábulo do altar-mor da Sé de Viseu e que hoje se encontram admiravelmente expostos no Museu Grão Vasco, em Viseu. O conjunto é magnífico e cada um dos quadros que o compõe, uma maravilha. Daquele que, de entre todos, verdadeiramente me encanta, a Adoração dos Reis Magos, já aqui falei, há tempos.

Terminada esta obra, Vasco Fernandes terá recebido uma encomenda do então Bispo de Lamego, de que resultou o imenso políptico do altar-mor da Sé de Lamego, pintado entre 1506 e 1511. Por ocasião das obras realizadas na Sé de Lamego em meados do séc. XVIII, foi desmontado, tendo-se perdido grande parte dos quadros que o compunham – dos vinte originais restam apenas os belíssimos cinco que o António aqui tão bem lembrou (Criação dos Animais, Anunciação, Visitação, Apresentação no Templo e Circuncisão).

Da Parte ao Todo

É uma parte de um quadro de um dos meus pintores preferidos. Acabo de me deleitar diante dele e de todos os outros treze, igualmente belíssimos, que compõem o imponente retábulo, pintado para o altar-mor de uma Sé, mas que agora domina uma sala imensa, branca e luminosa, especialmente concebida para o acolher.  

Sempre que os visito, aos quadros e ao museu, perco-me a observar os deliciosos, muitas vezes divertidos ou surpreendentes, pormenores com que este grande pintor pontua as suas cenas bíblicas e retratos de santos.

Neste quadro em especial, sempre gostei deste detalhe, do céu tão azul a abrir-se e a deixar antever o seu interior, de acolhedora e calorosa luz. Da estranha quietude da imagem, aparentemente suspensa entre céu e terra, sem qualquer sugestão de movimento ascendente na túnica, sem uma ponta de brisa a agitá-la sequer. Dos pés, como que pousados, prestes. dir-se-ia, a dar um passo…

De que quadro, de que pintor, de que museu falo?

Ajuda? Querem ajuda? Seja, então: o pintor é português, é conhecido, não pelo seu verdadeiro nome, mas por um outro, que exalta a sua grandeza e que é também o do museu de onde acabo de chegar.      

Any guess, any of you?

Short Story de Julho

Ei-la. A imagem que vai ser o ponto de partida dos autores do É Tudo Gente Morta e dos seus convidados para a short story de Julho.

Reproduz um quadro de Mary Cassatt (Pittsburgh, 1844 – Beaufresne, 1926), pintora americana que viveu grande parte da sua vida em França e que integrou o movimento impressionista, sendo especialmente influenciada por Edgar Degas, com quem estudou e manteve uma longa e estreita amizade.

In The Loge foi pintado em 1878 e integra The Hayden Collection, que pode ser visitada, by special appointment, no Museum of Fine Arts, em Boston.

Espreitem bastante, inspirem-se muito e divirtam-se imenso!

Homens e Mulheres: a minha lista

Lista das mulheres que gostava que fossem minhas irmãs … e dos homens que nunca Deus permita tal coisa, mas não por esta ordem

Diz-nos o Genesis que ao contemplar a sua obra, o Criador achou que tudo era muito bom e que tudo estava muito bem feito. Eu concordo. Por tantas e tão boas razões — algumas das quais me foram ocorrendo desde que o Manuel nos intimou a mais esta lista-duas-em-uma.

Por exemplo, o ter um irmão. Fantástico, porque ele é fantástico. Mas também, e agora que me pus a pensar nisso, pela infinitude de interessantes e não consaguíneas possibilidades que uma tal situação comporta.

Porque a verdade é que, a não ser assim, a serem eles meus irmãos, como poderia eu, a meu contento e sem grave impropriedade, sequer propor-me:

* derreter o exeedingly cool Jeremy Irons, em qualquer das suas versões – do oxonian Charles Ryder (Brideshead Revisited), ao gélido Von Bulow (Reversal of Fortune), jesuíta Aramis incluído (The Man in the Iron Mask);

* deixar-me fascinar pelo intenso e larger than life Daniel Day-Lewis – como o para sempre irresistível Tomas (The Unbearable Lightness of Being), mas not bad at all como o valente e dedicado Hawkeye (Last of the Mohicans) e os torturados, cada um à sua maneira, claro, Newland Archer (The Age of Innocence) e Gerry Conlon (In the Name of the Father);

* confortar o sempre atormentado Ralph Fiennes, em qualquer dos seus sofridos Heathcliff (Wuthering Heights), Lazlo Almasy (The English Patient), Justin Quayle (The Constant Gardner) ou Michael Berg (The Reader);

*atazanar o tímido Colin Firth, Mr Darcy himself forever and ever (Pride and Prejudice), por mais que tente fazer-nos crer que não, que afinal é Vermeer (Girl with a Pearl Earring), que sabe cantar (Mamma Mia!), que é homossexual (A Single Man);    

* desfrutar da tranquilidade de Sam Shepard, o luminoso Chuck Yeager (The Right Stuff), que ao quebrar a barreira do som estilhaçou também os meus adolescentes padrões de beleza masculina, banindo – amen – para a categoria dos imprestáveis (em grau variável, valha a verdade) os Cruises, Costners, Bacons, Gibsons e afins que então faziam suspirar boa parte da minha geração.        

E se de irmãs falamos, de novo it’s a wonderful world. Porque cedo me apercebi que, no meu caso não se tratava de não ter uma que fosse, antes de as ter todas, todas as irmãs que eu sempre quis ter e tenho — as minhas queridas, dedicadas, corajosas, leais, solidárias, divertidas, talentosas, prendadas, pacientes, estóicas e muito resistentes amigas.

E é graças a esta minha genuína e alargada concepção de sisterhood que posso listar como altamente prováveis candidatas a integrar o meu portentoso exército de amigas-irmãs

*Helena Bonham-Carter, por dominar com inigualável mestria a difícilima arte de alternar a mais extreme composure de Lucy Honeychurch (Room With a View) com o mais absoluto desgrenhamento de Bellatrix (über alles) e Cª;

* Emma Thompson, por ser imbatível na combinação, a meu ver essencial, de sense and sensibility que imprime a todas as suas protagonistas, de Shakespeare (Henry V, Much Ado about Nothing) a Austen (Sense and Sensibility), das so genuinely british ladies em tantos belíssimos period dramas (Howard’s End, Remains of the Day, Brideshead) à determinada advogada Gareth Pierce (In the Name of the Father);  

*Frances McDormand, pela naturalidade com que se presta ao mais hilariante nonsense (Fargo, Burn after Reading, Madeline) mas, sobretudo, pela forma única e talentosa como transforma, a sua banal e quase desinteressante persona, em sempre remarkable e striking characters, por mais supporting que sejam (Mississippi Burning, North Country, Primal Fear, Almost Famous). Porque levar muito a sério aquilo que se faz de modo algum implica levar-se demasiado a sério. Quite the opposite, digo eu.   

* Meryl Streep, porque tudo o que faz, faz muito bem, o que, confesso, muito ligeiramente me enerva, mas que inquestionavelmente a tornaria numa boa influência, porque tem rugas e nenhum problema em mostrá-las, porque é um gosto vê-la sorrir com os olhos e com todo o rosto, sem botox e outros deploráveis afins;   

* Audrey Tautou, melhor dizendo Amélie Poulain, pelo muito que me agrada a ideia de consertar a vida de todos aqueles de quem gosto e também dos que me rodeiam, tanto mais quanto menos convencionais os métodos a utilizar.

E prontos.

Histórias de Joanas IV — A Jesuíta

Viveu uma vida curta, mas na qual couberam duas. Uma sombria, truncada e sem perspectivas. Por isso lhe pôs fim de modo radical, quase incompreensível. Outra surpreendente, não convencional e, por isso, única. Que escolheu com intenção de “abandonar el mundo”, mas que a fez participar intensamente na vida político-religiosa da sua época.

Sempre soube da primeira. Descobri a segunda, numa visita às Descalzas Reales, em Madrid, quando um livro sobre a sua vida atraiu a minha atenção, justamente pelo título*. Lembro-me de lhe pegar e de o folher, curiosa, mas 575 páginas em castelhano … gracias, pero no gracias! Pousei-o, gozei a visita sem pensar mais no gordo livro e dei o assunto por encerrado … semanas depois, quando finalmente o recebi pelo correio e o devorei. E para sempre me deixei fascinar por esta controversa figura.

Juana nasceu a 24 de Junho de 1535, faz hoje 475 anos. Filha mais nova de Carlos V e da sua mulher, Isabel de Portugal, terá ficado a dever o nome a São João, o santo do dia, e à sua desventurada avó paterna, Juana, la Loca. Foi prometida criança a seu primo João Manuel, único filho do seu tio materno João III e de sua tia paterna Catarina. O casamento, celebrado em 1552 — tinha ela 17 anos e ele 15 -, durou pouco. João Manuel morreu no início de 1554. Duas semanas depois nascia o seu filho, o muito desejado Sebastião. Valendo-se da cláusula das capitulações matrimoniais que lhe permitia regressar livremente a Espanha, Juana decidiu fazê-lo. O pretexto, assegurar a regência, perante a iminente abdicação do seu pai e a ausência, previsivelmente prolongada, do seu irmão em Inglaterra, por via do seu casamento com Maria Tudor. Na realidade, terá querido deixar para trás uma vida que sempre lhe pesara e um destino indefinido, desde logo quanto ao próprio filho, mas que adivinhava crescentemente irelevante, logo, insustentável. Entregou Sebastião com poucos meses aos régios avós e partiu. Não o voltou a ver. Cortam o coração os retratos deste em várias idades que a Juana eram enviados de Portugal, ao ritmo de um por ano, e que hoje integram a colecção do Monasterio de las Descalzas Reales, que fundou no seu regresso a Madrid, no palácio onde nascera e no qual está sepultada.   

E foi logo que assumiu a regência, em 1554, que Juana comunicou ao seu confessor, o jesuíta Francsco de Borja, o seu projecto para esta nova fase da sua vida: queria professar na recém-fundada Companhia de Jesus, que muito admirava. Esta pretensão de Juana terá representado um grave problema para Inácio de Loyola. A Companhia de Jesus não tinha, nem tencionava ter, um ramo feminino. Juana não foi a primeira mulher a fazer tal pedido, mas foi a primeira – e, ao que se sabe, a única — a vê-lo deferido. O facto de ser, à data, Lugarteniente General de los territorios peninsulares castellanos pesou evidentemente a seu favor. Não só seria em absoluto desavisado contrariá-la, como o seu apoio seria crucial para a consolidação e a expansão da Societas Jesu. A Juana foi imposta uma única condição: que tudo se passasse no máximo segredo. A sua identidade foi cuidadosamente ocultada, figurando na correspondência e em todos os demais documentos da Companhia como “Mateo Sánchez”, num primeiro momento, e “Montoya”, mais tarde. Mais ficou estabelecido que Juana não deveria alterar de forma evidente o seu modo de vida. Juana terá professado em 1555, fazendo votos de escolástico (jesuíta em formação) — definitivos para o próprio, mas revogáveis pela Companhia, ocorrendo justo motivo, que bem poderia ser um novo casamento seu, então com 20 anos, a selar uma qualquer aliança política.  

Terminada a regência, em 1559, Juana retirou-se para as Descalzas Reales. Porque não estava vinculada à respectiva regra franciscana de clausura, foi repartindo o seu tempo entre o convento e a corte, até à sua morte, em 1573, com apenas 38 anos. Apesar de oficialmente confinada à sua esfera privada, a pertença de Juana à Companhia de Jesus traduziu-se numa constante intervenção pública, na qual usou toda a autoridade e influência que teve e que manteve, para a proteger e promover, tendo contribuído de forma decisiva para o seu crescimento e implantação. Ad maiorem dei gloriam.

   

*(Antonio Villacorta Baños-Garcia, La Jesuita — Juana de Austria, Ariel, 2005)

Rotten glad of it

“And so there aint’t nothing more to write about, and I am rotten glad of it, because if I’d a knowed what a trouble it was to make a book I wouldn’t a tackled it and ain’t agoing to to no more.”

É assim que termina um dos mais divertidos, desconcertantes e tocantes livros que conheço. O mesmo livro do qual, afirmou Hemingway, “all modern american literature comes from”, pois “there was nothing before” and “there has been nothing as good since”. E que desde ontem releio, numa deliciosa sucessão de reencontros. Com o irresistível par – mais para o fim, trio — de protagonistas. Com o inglês coloquial, a reproduzir dialectos vários e a pronúncia sulista e bem pejado de erros de ortografia — pois o narrador era convictamente avesso a ir à escola, a tomar banho, a rezar à mesa e fora dela e, em geral a que o tentassem “sivilize”. Com as considerações absolutamente hilariantes mas quase sempre acertadas deste. E com alguns dos episódios – como o das então bem evidentes diferenças entre girls and boys — que tantas vezes recordo.

Gosto especialmente deste fim. Por tão fielmente exprimir o que com grande frequência me sucede. Com projectos, tarefas e trabalhos que devo, que tenho de, que não me resta outra opção senão levar a bom porto – contrariada, de má vontade, sombria e às vezes infelicíssima, a remoer tudo o que de maravilhoso estou a perder só por causa do que me ocupa, a começar pelo indiscutível prazer de “não cumprir um dever”. Mas quando acaba é exactamente assim. Quais edificante satisfação do dever cumprido! Rotten glad of it, nem mais — numa mistura de alívio por ter finalmente terminado, de orgulho pelo lindo resultado e de alegria por ter conseguido contrariar e superar a minha terrível inclinação para adiar e/ou me distrair com o que quer que nestas alturas me apareça. E a jura, já se sabe vã — mas tão confortante enquanto, ilusória, se mantém -, de que noutra me não volto a meter. Como não, se é disto que é também feita a vida?     

Voltando ao livro, completaram-se por estes dias 100 anos sobre a morte — a verdadeira, em 1910, e não a que chegou a ser noticiada em 1897 e que o próprio desvalorizou como great exaggeration — daquele que, sob pseudónimo, deu vida a esta extraordinária figura num livro anterior (e igualmente fabuloso) e lhe conferiu um protagonismo quase total neste. Quase, porque partilhado com o portentoso e sempre presente Mississippi, sobre o qual este autor escreveu como poucos e ao qual foi buscar o seu pen-name, recordação dos anos felizes em que, antes de se tornar jornalista e escritor, foi licensed river pilot e conduziu steamboats, até o começo da Guerra Civil o forçar a abandonar tal actividade. O nome por que todos o conhecemos exprime, na gíria dos barqueiros, uma profundidade equivalente a duas (two) braças (marks), o equivalente a 12 pés — mais que suficiente para navegar, logo, clear water, safe to navigate.  

Any clue, any of you?

Histórias de Joanas III — A Louca

Mestre Michel, Doña Juana I, c. 1500

Princesa enamorada sin ser correspondida.
Clavel rojo en un valle profundo y desolado.
La tumba que te guarda rezuma tu tristeza
a través de los ojos que ha abierto sobre el mármol.

Eras una paloma con alma gigantesca
cuyo nido fue sangre del suelo castellano,
derramaste tu fuego sobre un cáliz de nieve
y al querer alentarlo tus alas se troncharon.

Soñabas que tu amor fuera como el infante
que te sigue sumiso recogiendo tu manto.
Y en vez de flores, versos y collares de perlas,
te dio la Muerte rosas marchitas en un ramo.

Federico Garcia Lorca Elegia a doña Juan la Loca, 1918 (excerto)

 La Loca. A Louca. Este o aterrador cognome que ficou da passagem por este mundo de Juana, terceira filha de Isabel de Castela e Fernando II de Aragão, os Reis Católicos, mãe de Carlos V de Habsburgo e bisavó do nosso D. Sebastião.

Vista a esta distância, a história da sua vida impressiona pela trágica, quase absurda, sucessão de eventos em que basicamente nada aconteceu como planeado ou sequer do modo que seria razoável prever ou esperar, muito por culpa do destino, mas também e tristemente dos seus mais próximos.   

Educada para não mais que um casamento estrategicamente adequado acabou, ante a morte prematura dos que a antecediam na linha de sucesão, rainha de Castela. Casada, pouco antes, aos dezasseis anos, com Felipe, o Belo (de Habsburgo), enviuvou escassos nove anos volvidos, grávida da sexta criança do casal. Uniu sob a sua coroa todos os reinos que formam a Espanha tal como agora existe e, ainda, as Duas Sicílias e as Índias Ocidentais, sem nunca ter exercido o enorme poder que por tal via lhe pertencia de pleno direito. Teve um longo reinado de cinquenta anos, quarenta e seis dos quais passou encarcerada e apartada do mundo, por ordem do seu pai, primeiro, e do seu filho, depois, os quais governaram sempre em seu nome e no seu lugar, por via da sua alegada incapacidade. A sua instabilidade mental, que justificou o seu afastamento do poder e o seu encerramento em total isolamento e longe dos próprios filhos (que, com excepção da mais nova, foram entregues pelo marido à respectiva irmã e por esta educados na longínqua Flandres), nunca foi oficialmente apreciada nem declarada em Cortes pelo que não teve reflexos no plano dinástico: jamais destituída, reinou até morrer.

Não se sabe ao certo de que mal padecia Juana. Às explicações durante muito tempo avançadas, de esquizofrenia ou perturbação bipolar (das quais haveria antecedentes familiares) junta-se, mais recente e fundada, a de depressão, gerada e/ou agudizada pela frequência e proximidade dos partos. O que parece evidente é que, fosse o que fosse, resultou fortemente agravado por décadas de encarceramento e solidão, em condições de grave penúria e abandono, bem descritas nas constantes (e vãs) queixas que Catarina, a filha que com ela viveu (até casar com João III de Portugal), dirigia ao irmão nas suas cartas.

São conhecidos os episódios bizarros e perturbadores que terá protagonizado — dos ciúmes descontrolados que tinha do marido (muito pouco fiel e ainda menos discreto) e das pavorosas cenas que lhe fazia em público, às macabras peripécias que rodearam a trasladação, de Burgos para Granada, do cadáver deste, numa errática expedição de vários meses, acompanhada por um vasto séquito e marcada pela obsessão de Juana em evitar que qualquer mulher se aproximasse do caixão (cuja chave transportava ao pescoço e que, reza a lenda, amiúde abria), nem que para tanto fosse necessário viajar de noite e pernoitar em descampados, longe de pueblos e conventos (e das suas femininas habitantes).  

Muitos destes extraordinários relatos, admite-se hoje, terão sido largamente difundidos ou, pelo menos ampliados por aqueles a quem a generalizada convicção da loucura de Juana servia o seu próprio projecto de poder. Filipe, o marido, de modo algum resignado ao papel de consorte que lhe tocara em inesperada sorte, que logrou ser aclamado rei e regente de Castela e que terá sido o primeiro a aperceber-se das vantagens de manter Juana confinada e longe da vista de todos, enquanto lamentava os seus estranhos comportamentos (que os rumores que então começaram a circular confirmavam). Fernando, o pai, que vivera contrariado à sombra do poder da mulher e que, legitimado pelo testamento desta, que o nomeava regente de Castela, caso Joana não quisesse ou pudesse governar, combateu as pretensões do genro e após a morte deste (à qual, diz-se, não terá sido alheio), encerrou Juana em Tordesilhas em 1509 e assumiu o poder, enquanto tentava desesperadamente gerar um herdeiro para Aragão e Navarra, com a sua segunda mulher (e sobrinha-neta), de modo a evitar que este fosse, como foi, parar a mãos austríacas. Carlos, o filho, que após a morte do avô e a unificação dos reinos, em 1516, manteve a situação inalterada e governou como co-regente até à morte da mãe, quase 40 anos volvidos. Um após outro, todos dominaram o seu imenso reino, apoiados na sua inatacável legitimidade dinástica, a única jamais questionada, e na sua loucura, nunca comprovada. O nome de Juana, que até à morte ostentou o título de rainha, encabeça todos os documentos da época, de cujo teor jamais teve conhecimento e nos quais não apôs uma única assinatura.

Tudo isto fez de Juana uma figura densa e complexa, cujo pathos fascinou e atraiu pintores, escritores e poetas – em especial os ligados ao romantismo espanhol –, que nas suas obras a perpetuaram como louca. De e por amor, mas inapelavelmente louca.     

Francisco Pradilla, Doña Juana la Loca, 1877

Santo da Minha Devoção

Cada um sabe de si e Deus de todos, é o que dizem. E cada um saberá decerto dos santos da sua devoção,  

Santo António encabeça a minha lista. Daqueles santos que são sempre meus, como os límpidos Clara e Francisco de Assis, a intensa Teresa de Ávila, a fiel Maria Madalena, o combativo Inácio de Loyola, o aventureiro Francisco Xavier, a poderosa Rita de Cássia, o expressivo Marcos, padroeiro da minúscula terra beirã onde tenho as minhas raízes e de que já aqui falei. Com todo o apreço, que é muito, por todos os demais, com quem sei poder contar, pois estão sempre lá para nós, para o que preciso for.   

Não me lembro de não gostar de Santo António. Suponho que tem tudo a ver com o ser filha de uma muito antoniana Antónia — que festeja o Santo em vez dos anos e que tem as casas povoadas de imagens suas (dele), grandes, médias e pequenas, numa imensa e divertida colecção, que família e amigos, para além da própria, fazem crescer com os mais inesperados contributos. E que muito cedo — e muito antes de o ter visto in loco na imponente versão António de Pádua – me fez saber dos seus extraordinários feitos, bem para lá das mimosas graças que o popularizaram como santo-tão-de-trazer-por-casa.

Vivo bem com este meu Santo, que muito me agrada em todas as vertentes em que actuou e actua.

Inspiram-me a sua radical seriedade, a sua profunda exigência e a sua desassombrada coragem. Porque há de facto coisas nesta vida em que se não pode e se não deve ceder ou transigir. Fascinam-me os seus poderosos dotes retóricos e de pregação, a mim a quem calhou como modo de vida argumentar e persuadir.  

Não dispenso a sua vertente de achador de coisas perdidas. Multitasker a alta velocidade, sei que passaria, não fora o Santo, boa parte do meu já tão escasso tempo em busca de chaves e óculos, papéis e livros, brincos e anéis — que arrumo, largo, pouso, enquanto falo ao telefone (85% das ocorrências), converso com quem calha estar perto, penso noutra coisa. Basta-me invocá-lo e tudo, mas tudo, me aparece – sem responso e sem demora.

Confio tranquila na sua vertente casamenteira. Conheço o meu Santo e ele a mim. Ambos sabemos que o coração, como a terra, às vezes precisa de pousio. E que quando for tempo de flores e frutos, ambos saberemos — o Santo primeiro, para tudo providenciar pelo melhor, dando-me depois as pistas inequívocas, que espero saber decifrar.

Mas há mais, muito mais. Porque o que a meus olhos torna o Santo verdadeiramente imbatível é o todo que forma com a minha mãe e que faz com que cuide e vele por mim, junto com ela e em vez dela, quando a tarefa vai para lá das suas humanas forças. Sempre suspeitei que haviam feito um pacto. Soube-o no que haveria de ser o começo de uma fase especialmente dura da minha vida, quando a minha mãe me entregou um minúsculo Santo António em prata que sempre a acompanhara e que nunca mais larguei. Vai comigo para todo o lado — numa bolsa vermelha, claro – porque me lembra a presença constante na minha vida destas duas poderosíssimas forças que, conjugadas, jamais me deixam ficar mal.