Mesmo tendo Setembro acabado

Isto começa a tornar-se um hábito. Um péssimo hábito, digo eu, que já aqui por diversas vezes me confessei imensamente curiosa.  Um autor escreve uma bela short, que termina de forma enigmática, deixando-nos todos suspensos, numa aflição de querer saber o que falta contar … Como se isso não bastasse, o mesmo autor agrava a situação, nas suas provocatórias respostas aos nossos comentários. Aconteceu com o Zé Navarro, a sua constrangida Tula e o seu repulsivo Dr. Ramiro. E agora, outra vez. O Diogo trouxe-nos a pensativa e fumegante Daniela, anunciando que ela tinha um segredo. Que ele, só ele, conhecia e que nos desafiava a descobrir. Foi o que fizemos, ao longo do mês de Setembro. Com a consciência de que eram tudo long-shots e que o mistério seria desvendado - como sempre, tratando-se deste específico autor -, no último dia do mês. E assim sucedeu. Na passada quinta-feira à noite, surgiu o tão esperado texto. Fez revelações extraordinárias, envolveu-nos na trama – vá lá que não dentro do quarto vermelho, mas na londrina Tate, em ambiente de quase apoteótica consagração, com as nossas shorts publicadas em inglês.

Porém, passado o gosto inicial – porque, há que dizê-lo, a short está o máximo -, regressou a dúvida, verbalizada, aliás, nalguns dos comentários. Isto foi mesmo assim? Verdade? Por onde passa a thin line entre a ficção e a autobiográfica realidade? Dúvida que o Diogo tudo fez para agravar, ao responder-nos: que há uma parte da história que é totalmente verdadeira e outra, que é totalmente fantasiada. Pior, ao desafiar-nos a descobrir a verdade e a mentira da história”.

Aos mortos destes cemitério e aos nossos visitantes proponho que deixem aqui  o vosso palpite. Na certeza de que, quanto mais, vá, arrojado e implausível — sobretudo no que se refere ao envolvimento do autor no plot… — mais depressa o próprio acorrerá aqui a repor a tal verdade que maliciosamente nos sonegou. Ao Diogo apenas aviso que se vá preparando para grandes revelações, nossas e suas, claro …

Eu estou já pensar na minha e, não tarda, apresento-a aí em baixo…

Elena e os Polímeros

Foi um destacado membro do Partido Comunista da Roménia – integrou o Comité Municipal de Bucareste (1968), o Comité Central (1972), o Comité Executivo (1973) e o respectivo Gabinete Permanente (1977) e presidiu à Comissão de Quadros do Partido e do Estado (1980). Foi também, enquanto vice-primeiro-ministro, a segunda figura na hierarquia do Estado romeno (1980−1989). E se é inquestionável que a sua ascensão a estes e a outros cargos decorreu essencialmente do facto de ser casada com o homem que por mais de três décadas dominou a Roménia, não o é menos que ao exercê-los revelou excepcional desenvoltura e invulgares atributos, concretizados em inúmeros feitos, dos quais uma ínfima parte bastaria para lhe garantir, de pleno direito (e dispensando a marital intercessão) um lugar neste sombrio recanto do nosso cemitério.

Sucede, porém, que não é por conta dessas negras e conhecidas proezas que trago aqui hoje Elena, mas de outras, que ainda hoje me causam fascínio. Um  absurdo, enviezado e inexplicável fascínio diante do que de grotesco, quase patético, tem o poder exercido de forma desmedida e desconectada da realidade.  

A queda do regime romeno, em 1989, tornou bem patente o abissal contraste entre a sua mirífica imagem, veiculada pela propaganda, e a sinistra realidade das várias atrocidades por si concebidas, ordenadas e cometidas. Um aspecto houve, contudo, que na torrente de dados sobre a vida de Elena me intrigou especialmente: o seu impecável e extenso curriculum académico e científico, o qual incluía um PhD em química de polímeros – com uma tese considerada, à época, um major breakthrough na área – cerca de 11 livros, 90 artigos em revistas científicas, romenas e estrangeiras, e mais de 30 patentes de invenção registadas em seu nome. Achievements próprios de uma vida dedicada ao estudo e à investigação, no resguardo de laboratórios, bibliotecas e gabinetes – e claramente inconciliáveis com uma tão intensa actividade pública como era a sua, entre os lugares políticos que acumulava e a omnipresença, ao lado do marido, enquanto “mãe da nação romena”. A explicação para tão improvável sobreposição de percursos surgiria pouco depois, através de sucessivas revelações que eu segui, num ávido e mórbido crescendo de horror e deleite.

Elena nasceu em 1919, no sul da Roménia, numa família modesta que, ainda assim, a conseguiu manter a estudar até aos catorze anos, altura em que decidiu abandonar a escola – com negativas a tudo, excepto a costura – e rumar a Bucareste. Aí trabalhou como assistente de um laboratório clandestino que produzia pastilhas para emagrecer e como operária têxtil. Nos anos cinquenta, já casada com Nicolae Ceausescu, inscreveu-se num curso nocturno de química, num instituto dedicado à instrução de adultos, a cujas aulas raramente comparecia e do qual foi expulsa por ter sido apanhada a copiar num exame. Inexiste qualquer prova de que tenha prosseguido os seus estudos ou completado uma licenciatura. E, no entanto, escassos anos depois, em 1960, doutorou-se summa cum laude, com uma monografia intitulada Stereospecific Polymerization of Isoprene on the Stabilization of Synthetic Rubbers and Copolymerization. Seguiram-se a nomeação para a presidência do ICECHIM, o principal laboratório de investigação química da Roménia (1965), a condecoração com a Ordem do Mérito Científico de 1ª Classe (1966), a Presidência do Conselho Nacional da Ciência e Teconologia, criado para si (1970), o ingresso na Academia Romena das Ciências (1974), a Presidência do Conselho Nacional da Cultura e Educação (1975). Tudo isto em estreito - e inequívoco - paralelo com a firme e imparável ascensão do seu marido no interior do Partido Comunista e à frente dos destinos da Roménia.

A mesma ganância que fez Imelda Marcos juntar uma obscena colecção de 3000 pares de sapatos terá, numa bem mais retorcida versão, levado Elena Ceausescu a acumular títulos e distinções e a construir um impressionante curriculum, recorrendo, para tanto, aos mais ínvios e tortuosos métodos. Se Evita quis ser lembrada pela sua generosidade e bondade para com os descamisados, Elena de tudo fez para criar e consolidar uma imagem de inteligência, competência e sabedoria que estava longe de possuir. 

Sabe-se hoje que se contava entre os seus planos receber um Nobel. Que as viagens oficiais do casal Ceausescu eram precedidas de nada discretas diligências junto das principais universidades do país em causa, no sentido de lhe serem atribuídos – espontaneamente, claro – doutoramentos honoris causa. E que chegaram a frustrar-se ou a estar em risco algumas dessas viagens ante a recusa, peremptória, de várias universidades, irredutíveis apesar das pressões diplomáticas e políticas “ao mais alto nível”*. Já então no Ocidente se questionava abertamente a autoria dos trabalhos de Elena – que a incansável máquina de propaganda do regime romeno se encarregava de distribuir, traduzidos, pelas bibliotecas científicas de referência. As suspeitas radicavam em raras, mas esclarecedoras, prestações públicas em que aquela exibira uma confrangedora ineptitude em matérias em que seria perita e nas denúncias que, clandestinas, chegavam da comunidade científica romena.  

Só com o fim da era Ceausescu a verdade emergiu. Acerca da extorsão a que haviam sido submetidos inúmeros cientistas, desapropriados, sob ameaça de represálias, dos resultados de anos de paciente e dedicada investigação, os quais eram publicados e, sendo o caso, patenteados por Elena, em seu nome e proveito. Mas também quanto à falta de capacidades intelectuais e de qualificações básicas desta para poder sequer aspirar a tal carreira. São especialmente ilustrativas as circunstâncias em que obteve o seu doutoramento: a recusa inicial da sua tese pelo respeitado Prof. Simionescu (que por isso foi afastado da universidade e cujos trabalhos foram tornados inacessíveis, como se o seu autor jamais houvesse existido), a sua aceitação por um académico menor (que com tal feito se lançou numa fulgurante carreira) e, last but not the least, a prova, que não decorreu na data e local marcados e de forma pública, tendo sido antecipada e realizada à porta fechada. Elena não chegou a comparecer, tendo enviado, através de agentes de Securitate, a sua defesa gravada em cassette, não fosse ter de responder a alguma questão do júri…

Durante mais de trinta anos, Elena fez-se passar por grande académica e investigadora, na mira do prestígio que julgava daí lhe advir. Fê-lo à custa da coacção e da exploração exercidas sobre cientistas capazes mas indefesos, os quais foram injustamente privados do reconhecimento e dos frutos económicos do seu trabalho e remetidos a um anonimato forçado, a troco de paz e sossego. Conta-se que no julgamento sumário que antecedeu a sua execução, no Natal de 1989, um dos oficiais se lhe dirigiu repetidamente usando a alcunha por que era conhecida nos meios científicos - “codoi”, a forma peculiar e por demais reveladora da sua ignorância, como se referia ao dióxido de carbono (CO2). A visão disso e do que se seguiu poderá até ter sido uma catarse para muitos. O mal feito, esse é mais difícil de reparar: a autoria de muitos trabalhos e patentes subsiste inalterada e é possível que decorram muitos anos até ser reposta a verdade. Ou que isso nunca venha a acontecer, full scale. Porque muitos daqueles que foram despojados morreram já e muitos outros partirão sem ter a satisfação de ver o seu trabalho e o seu mérito reconhecidos.

* Foi o caso de Oxford, Cambridge e da major league das universidades americanas. Mas não já das Universidades de Atenas, de Lima, de Buenos Aires, de Nice, de Quito, Teerão, de Amman, de Manila, do Central London Polythechnic (actual University of Westminster) que lhe atribuíram doutoramentos honoris causa e, bem assim, da Royal Society of Chemistry e da Illinois Academy of Sciences, que a admitiram como membro.  

Think for yourself and let others do the same

Desde 1982 que a American Library Association e um significativo conjunto de organizações ligadas ao livro e à leitura* dedicam a última semana de Setembro aos Banned Books.

A Banned Books Week celebra a liberdade de ler — de decidir o que se lê, de escolher diante do mais vasto leque de possibilidades. Firmemente enraizada no First Amendement, que protege a liberdade de expressão e de imprensa, a freedom to read centra-se essencialmente na garantia do acesso a obras e materiais publicados, por mais unorthodox ou unpopular que sejam as ideias e opiniões neles expressos: do que se trata é, afinal, de assegurar a availability of information in a free society.

Por tudo isto, a Banned Books Week pretende ser também um alerta para os malefícios da censura, evidenciando os ainda incontáveis casos de book banning, efectivo ou meramente tentado, em todo o território dos USA. Situações que se traduzem, não na mera expressão, livre e legítima, de uma opinião quanto a determinado livro, por um indivíduo ou grupo, mas em pedidos formais de remoção de livros das prateleiras de bibliotecas ou de livrarias, dos curricula escolares, do próprio espaço da escola (recreio incluído). Actuações vindas de todos os quadrantes políticos, ideológicos e religiosos, muitas delas decerto bem intencionadas, mas cujo incontornável efeito prático é sempre limitar o acesso a estes livros, cerceando the right of all people to choose for themselves what they and their families read.

E muito embora nem todos estes challenges produzam o reultado pretendido, a sua simples ocorrência e o motivo que a justifica são considerados relevantes e, por isso, reportados por professores, bibliotecários, editores e livreiros. Há cerca de 20 anos — desde 1990 – que o Office for Intellectual Freedom, da American Library Association, recolhe e trata informação sobre tentativas de book banning, a partir dos relatos recebidos e, bem assim, dos casos denunciads nos media.

Com base nessa informação, todos os anos o referido Office for Intellectual Freedom elabora e divulga uma lista dos Top Ten Most Frequently Challenged Books. A imensa quantidade de informação recolhida desde 1990 permitiu já fazer duas listas de 100 Most Frequently Challenged Books, por década (1990–1999 e 2000–2009) e, ainda, uma lista de Banned and Challenged Classics. Porque se trata de informar e de sensibilizar, são igualmente tornados públicos os fundamentos destes censorship efforts. Sex, profanity e racism encabeçam invariavelmente as listas de motivos invocados. Seguem-se a excessiva violência ou o uso de calão ou offensive language, os offensive portrayals of racial or religious groups e os positive portrayals of homosexuals e, ainda, o ser anti-family.

A leitura dessas listas é uma experiencia tão interessante quanto incómoda. Porque se certos livros há que verdadeiramente não surpreende encontrar por lá, knowing what this is all about,  outros há cuja presença e os motivos que a suportam são, no mínimo, desconcertantes e, não raro, dificilmente críveis.

Dá que pensar que entre os mais consistentemente challenged books das duas últimas décadas se conte a quase totalidade daqueles que foram e são ainda os Top Ten Books Read in SchoolTo Kill a Mockingbird, de Harper Lee; Of Mice and Men, de John Steinbeck; A Separate Peacede John Knowles; The Catcher in the Ryede J. D. Salinger; Animal Farmde George Orwell; Lord of the Fliesde William Golding The Great Gatsby, de F. Scott Fitzgerald; A Farewell to Armsde Ernest Hemingway. Escapam, não garanto que ilesos, mas pelo menos do topo destas infames listas, The Scarlett Letterde Nathaniel Hawthorne, e Macbethde William Shakespeare.

E só mesmo lendo se acredita que fazem parte da perturbadora lista dos Banned and Challenged Classics, para além de todos os ainda agora referidos e de várias obras de Steinbeck, Faulkner, Hemingway, D.H. Lawrence e Toni Morrison, Gone with the wind, de Margaret Mitchell, The Lord of the Rings, de J.R.R. Tolkien, 1984, de George Orwell e Ulysses, de James Joyce.

Mas, porque a insensatez não tem limites, e passando à secção de livros juvenis, aos grandes clássicos — da literatura e, também da polémica-,  o fabuloso The Adventures of Hucleberry Finn, de Mark Twain e o impressionante Anne Frank’s Diary, pela própria,  juntaram-se recentemente todos os sete volumes da mágica Harry Potter series, que ocupam (des)honrosos e destacados lugares nas listas relativas às duas últimas décadas  e, já em 2009 e a prometer continuar, os quatro volumes da xaroposa saga Twilight. As acusações que sobre estes impendem? Ser subliminarmente anti-family e promover occult themes, no caso do boy wizard, apresentar um também subliminar sexual content, explicit offensive language, aludir a drogas e promover o sobrenatural de modo inaceitável do ponto de vista religioso, no que se refere à indecisa Bella, entre vampiros e lobisomens.   

Contrária a todas as formas de censura, hard or soft, e naturalmente avessa a que me digam o que pensar, o que dizer e o que fazer, agrada-me esta iniciativa e tudo o que a mesma stands for. Por isso, e para além de a asssinalar neste post, decidi que ao longo da próxima semana vou ler ou reler um dos muitos challenged books listados. Ainda no mesmo libertário espírito aproveitei, confesso, para aumentar a minha colecção de sacos com este, fantástico, que já aí vem a caminho…


 *American Booksellers Association; American Booksellers Foundation for Free Expression; American Society of Journalists and Authors; Association of American Publishers; National Association of College Stores; Center for the Book in the Library of Congress.

Não passa de hoje

Não passa de hoje. Acordara com a primeira luz da manhã. Ali ficara, na cadeira vermelha, a caixa azul celeste na mesa, à sua frente. Não sabia há já quanto tempo. Acendeu um cigarro. Não é altura para deixar de fumar, tente reduzir: dez por dia, no máximo … Do que se fora lembrar, tantos anos depois! O conselho, sensato e tranquilizador, os seus receios e culpabilizações de novata nessas andanças… O cotovelo no braço da cadeira, a mão a afagar o cabelo, no gesto de sempre, o cigarro diante de si. Assim, em jejum, é capaz de fazer mal … Mal? Mas mal a quê? Que sabia ela afinal?  

Isto é uma loucura. Isto e tudo o mais que acontecera. Sorriu, como sempre que se lembrava. Corou e sentiu o coração disparar. Tonta. Pior que uma adolescente. Uma não, dois. Dois autênticos adolescentes, tontos e irresponsáveis. Por todos os motivos e também por esse. Não podia ter acontecido. Não voltaria a acontecer. Garantira-lho, jurara a si mesma. Repetia-o constantemente. Para dentro, dura, cortante, irritada pelos cada vez mais frequentes e delirantes devaneios em que, sem querer, se perdia. Mas aconteceu. E ainda bem. Mau! Assim não! Não está certo. Não pode ser. Sabia-o bem. Sempre o soubera. Talvez por isso tivesse sido mais fácil do que esperara, o regresso à sua ajuizada normalidade. Também ajudara, o providencial frenesim das semanas que se seguiram. O trabalho, muito e sempre em contra-relógio. O carro retido no que teria sido uma prosaica revisão, a pretexto de consertos vários, todos essenciais. A máquina de lavar a roupa avariada. Uma inédita convergência de programas e eventos de toda a espécie a preencher-lhe os fins de tarde e os serões. Mesmo assim, pensara nele. Mais do que queria, muito mais do que devia. Tinham-se telefonado umas vezes, trocado sms. Como antes. Como sempre. Tratara-o com uma ligeireza e um desprendimento que estava longe de sentir. Mas era esse o caminho: uma questão de controlo e de persistência. E de tempo, claro.  

Foi então que deu pela falta. Fez contas por alto, consultou a agenda. Já vários dias. Maldito stress. Seguiu-se o sono. Súbito e irresistível. Inconfundível. Numa reunião, a meio da tarde. Saíra para tomar um, dois cafés. Que estupidez, ter ficado a ler até tão tarde! Dias depois, mais do mesmo: tivera de encostar o carro e esperar. Quem me mandou ir cear depois do concerto com aquele bando de noctívagos sem horas…

Não pode ser. Não pode. São as hormonas, as alterações hormonais, diz que é por esta altura que começam, quase sem se dar por ela, e já se sabe, desregulam tudo… Mas, e se for? Que cena mais surreal… O tipo de enredo que deplorava na ficção transposto, assim, sem mais,  para a sua vida. Um absurdo, um perfeito absurdo, isto agora. A ligá-la àquele a quem tivera tão dolorosamente de renunciar. Seria possível, ter ficado com algo mais que memórias dele? Com um prémio de consolação… Assustavam-na as previsíveis complicações que se seguiriam. E sobretudo o encanto e o apego que nela cresciam diante de tal ideia. A angústia com que antecipava aquele que seria afinal o melhor desfecho para todos. A caixa azul celeste, comprada três dias antes, remetida às sombrias profundezas da sua carteira, tal era o medo de a abrir, das revelações que dela sairiam.     

Não passa de hoje. Apagou o cigarro, pegou na caixa azul celeste e dirigiu-se à casa de banho. Seguiu as instruções. Esperou. De olhos fechados, o rosto erguido para o tecto. Hesitou por breves segundos e, por fim, olhou.

O eterno segundo: para sempre

O “eterno segundo”. Aquele em que tivemos “a inabalável certeza de que o mundo era nosso, só nosso”.

Tinha muita conversa, às vezes graça e quase sempre boas notas. Tinha também a cara redonda, o cabelo comprido e, pelo menos, mais um palmo de altura que a maior parte dos rapazes que conhecia. Usava óculos, aparelho nos dentes, risco ao meio e, durante a semana, um pavoroso uniforme cuja saia — larga, toda a direito e até abaixo do joelho – me duplicava a largura da anca e o diâmetro das pernas. Não tinha borbulhas, não fumava e não desafiava pais e professores. Passava horas a ler, a escrevinhar um diário que dificilmente mantinha actualizado, tal a profusão de considerações e eventos que quotidianamente tinha para registar. Ou ao telefone, com as minhas queridas — ainda hoje — amigas. Hesitava entre querer ser médica ou jornalista, superada que estava a fase da arqueologia. E não duvidava – filha de uma baby-boomer que praticava o que pregava -, que o mínimo a que poderia aspirar na vida era a ter tudo. Ora, era justamente aí que residia o problema. Porque por essa altura, começava eu a suspeitar que talvez faltasse qualquer coisa para o having it all, tal como o dito se perfilava no horizonte dos meus 14, quase 15 anos. Qualquer coisa que compusesse, completasse com, vá, outra graça, outro encanto, tudo o mais que eu muito prezava de inteligência e memória, imaginação e afectos, humor e optimismo, convicções e ideais.  

A oportunidade surgiu sob a inesperada forma de um convite. Para um baile. O exclusivo e british-inspired club de que são ainda hoje membros os elementos masculinos da minha família paterna celebrava 125 anos. E ia realizar um baile, com debutes de meninas, duas firmes tradições anuais que se haviam perdido pelos idos de 1974/75. Porque tudo fazia crer que seria um evento isolado, decidiram os crescidos que era então ou nunca, logo que apesar de ainda um tanto nova, seria engraçado que eu fosse. Como sempre, mesmo sem saber bem ao que ia, concordei.

Em circunstâncias normais teria antecipado a chegada da data com ansiedade e emoção. A verdade é que, massacrada com testes e mais um dedo da mão esquerda partido num jogo de volley a forçar-me, ora a escrever com aquele estorvo de tala, ora a responder tipo exame oral às questões, não dediquei grande atenção aos preparativos. Lembro-me de achar divertidas as provas do vestido, de declarar que jamais usaria uma faixa amarela à cintura e de, entre exercícios de matemática e cronologias de história, me ter rendido sem lutar diante da asserção de que estava absolutamente fora de questão a dita faixa ser vermelha. Lembro-me também dos treinos da valsa — da infinita paciência do meu pai com os meus ataques de riso, protestos de canhota (ó pai, assim com as mãos ao contrário não dá jeito nenhum …) e insuportável teimosia (não empurre, deixe-se conduzir, é o homem que conduz…). Felizmente eram só umas horas, era no Porto, não estava lá ninguém do colégio para me ver e gozar… e tinha ainda de reler os apontamentos da aula de dúvidas antes do teste sobre Gil Vicente.  

No próprio dia, limitei-me a pôr as lentes de contacto, que semanas antes começara a usar por períodos cada vez mais longos. A minha mãe tratou do resto: brushing, ganchos, laca, base, pó de arroz, blush, sombras, rimmel, baton, pérolas … Mirei-me no espelho, antigo e escurecido, da sala dos meus avós e gostei, claro. Mas estava longe de imaginar o que se seguiria. A entrada, pela mão do meu pai, no gigantesco e luminoso salão de baile, cheio de gente e de barulho, forrado a espelhos, onde me vi, infinitamente reflectida e infinitamente bela, enquanto o percorríamos a todo o comprimento, todos os olhares em nós. Descobri, no meio da multidão, caras e mais caras conhecidas, sorridentes, apreciativas – tias e tios, primos de vários graus, amigos de todas as idades e de todo o sempre. Dancei a inesquecível primeira valsa com o meu pai. Dancei a noite toda. Com pai, tios e primos, com amigos de primos e primos de amigos. Sempre que podia espreitava-me nos espelhos a toda a volta da sala. Linda. Fantástica. Eu. Deitei-me era já manhã. Dormi toda a viagem de regresso a Lisboa. Segunda-feira, back to school, to business as usual.

Só que ao contrário da história da Cinderela, nem aquilo fora magia, nem os farrapos e a abóbora voltaram, findo o baile. O que eu descobri nessa noite sobre mim, ficou para sempre. Duas semanas certas depois fiz quinze anos. Cortei o cabelo, que desde então uso curto. Pedi e obtive um estojo de maquilhagem. Mandei às malvas os óculos e mais um dentista que se propunha instalar-me um horroroso aparelho fixo por vários anos, não sem antes proceder a uma radical intervenção que implicava partir o maxilar e voltar a fixá-lo, para ficar, dizia, tudo perfeito (o que seria). Foi também por esta altura que passei a usar um lenço vermelho à cintura.

A outra infância #5

Faladora. Curiosa. Enérgica. E contente com a vida, most of the time. Era eu em pequena – diz quem sabe, mostram-no as fotografias, que graças a este fantástico desafio do nosso Manuel, tanto me diverti a procurar, a rever e a surripiar de casa dos meus pais.  

Comecei a falar muito cedo e muito explicada. Falava muito, depressa e com as mãos. Adorava contar peripécias e histórias, com muitos pormenores e parece que algum exagero, aqui e ali. A quem me quisesse ouvir – pais, avós e tios, amigos e, quando eles finalmente nasceram e surgiram, rastejantes, irmão e primos. Tinha uma assídua turma de alunos que cedo comecei a ensinar, com zelo e entusiasmo, e da qual faziam parte quantas bonecas e ursos havia lá por casa, sentadinhos em semi-círculo, como no colégio. E também o triciclo, presente dos meus três anos, pousado sobre as rodas de trás, com o guiador para cima, devidamente ataviado com um dos meus bibes e um chapéu de palha (o meu super-desportivo Pai ainda hoje não recuperou do choque, coitado).     

Era muitíssimo curiosa. Cusca mesmo. Gostava de novidades, fossem pessoas, sítios ou informações. Tudo me interessava, da matéria escolar aos meandros da vida no campo, passando pelos assuntos de família. Queria sempre saber qualquer coisa — e não sossegava até conseguir. Como se fazia uma rodilha para equilibrar o cesto transportado à cabeça. Como era o cabelo das freiras debaixo do véu. O que é que estava sobre os jornais velhos que a minha avó colocava debaixo dos roupeiros. Se o cabelo das bonecas depois de cortado crescia. Se os porcos tinham boca ou comiam com aquele nariz. A que é que sabia o que se destilava no alambique. O que é que estava escrito dentro das alianças. Interessava-me a vida das pessoas à minha volta e fascinava-me a ideia de saber como seriam as casas onde moravam. Ainda hoje sou gozada à conta do “são namorados, noivos ou casados?” que disparava à vista de qualquer par ainda por mim não catalogado, na imensa legião de então jovens tios, tias e respectivos colegas e amigos. Ou do subtil “a sua cozinha tem armários?” que delicadamente proferia à entrada de qualquer casa cuja porta se me abrisse…

Tão desmedida curiosidade fazia de mim uma criatura sossegada e relativamente inofensiva. Passava horas, como uma sombra, a explorar, a esquadrinhar, a descobrir coisas extraordinárias. Raro foi o canto, prateleira, armário, gaveta ou caixa que ficou por espreitar ou inventariar, em casa dos meus pais ou na dos meus avós, mesmo ao lado. Invisível de tão quieta, ouvia conversas que nem sempre percebia.  Começar a ler foi mesmo a cherry on top of the cake: devorava tudo o que apanhava, tardes inteiras, absorta e alheada, sobretudo dos malditos trabalhos de casa que, a dada altura decidi não mais fazer, para estupefacção da professora e dos meus pais. Castigada com o confisco dos meus livros por umas semanas, sobrevivi por saber, de ciência certa, quem e onde guardava o quê, lá em casa …

Num plano menos peculiar, consta que era viva e vibrante, ligeiramente excessiva nas alegrias e entusiasmos, como nos desgostos e nas zangas. O que vale é que estes últimos pouco duravam. É que já por essa altura tinha a bússola bem orientada para o sunnier side of life…

Em tempo de regresso às aulas

Para assinalar os cinquenta anos da publicação de To Kill a Mockingbird, de Harper Lee, em Julho de 1960, a edição online da Time passa em revista The Top 10 Books You Were Forced To Read in School. Ei-los: 

- To Kill a Mockingbird, Harper Lee

- Of Mice and Men, John Steinbeck

- A Separate Peace, John Knowles

- The Catcher in the Rye, J. D. Salinger

- Animal Farm, George Orwell

- Lord of the Flies, William Golding

- The Great Gatsby, F. Scott Fitzgerald

- A Farewell to Arms, Ernest Hemingway

- The Scarlett Letter, Nathaniel Hawthorne

- Macbeth, William Shakespeare

Contra o que poderia sugerir o título, são positivas e deeply heartfelt as reviews dos livros que integram esta lista. Li-as todas e gostei muito, tanto que fiquei com vontade de reler, ou de finalmente ler, vários deles.     

Seguiu-se o inevitável — e eu? que lista faria? que livros lidos na escola, estudados nas aulas, nela incluiria?

Fiz por me lembrar. E, ao fazê-lo, abri, mais que o baú das memórias, a própria caixa de Pandora. Porque se dos livros que I was forced to read in school, boa parte se habilitaria sem problemas ao Top 10, outros há que, sem pestanejar, eu remeteria para uma lista negra, de livros de que não gostei, porque me maçaram, me exasperaram, me incomodaram.  

Em tempo de regresso às aulas, proponho-vos um pequeno desafio. Que nos apresentem a vossa lista dos 10 Melhores Livros Lidos na Escola. Ou, caso optem por seguir o meu péssimo exemplo, que nos revelem os 5 Melhores e os 5 Piores, desses mesmos livros. Então aqui vai:

OS  5 MAIS*

- Os Maias, Eça de Queiroz

- Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente

- El Rei Junot, Raúl Brandão

- Contos Exemplares, Sophia de Mello Breyner Andresen

- A Queda de Um Anjo, Camilo Castelo Branco

 OS 5 MENOS**

- Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos, Alves Redol

- Viagens na Minha Terra, Almeida Garrett

- A Sibila, Agustina Bessa-Luís

- Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco

- Menina e Moça, Bernardim Ribeiro

Sobre estas minhas escolhas, direi apenas que, tirando um ou outro caso em que o livro é tão bom que resiste a tudo*** ou tão mau que não tem remissão****, a inclusão numa ou noutra destas listas (ou o envio para o limbo dos indiferentes) tem muito a ver com a forma como foi abordado e analisado nas aulas. Muitos destes e vários outros livros foram dissecados, esmiuçados e submetidos a uma exegese ainda hoje para mim incompreensível de espaços e tempos, físicos e psicológicos, de refeições e vestuário, de meios de transporte e de alusões autobiográficas que me levava ao desespero. Quem nunca os tivesse lido, quem não conhecesse já Eça, Júlio Dinis, Torga ou Herculano juraria para sempre manter-se longe de tais autores. E não tinha de ser, não foi felizmente, sempre assim: a diferença faziam-na evidentemente as professoras. Como a que tive no 9.º ano e graças à qual fiquei para sempre encantada com Camões e Gil Vicente. Ou, quite the opposite, a do 11.º ano, que irremediavelmente traumatizou toda uma turma com a forma como esquartejava diante dos nossos olhos (quase sempre a quererem fechar-se…) todos e cada um dos livros incluídos no programa. Enquanto citava, a propósito e a despropósito, Lope de Vega — era espanhola, a setôra — que nós não fazíamos nem ideia de quem fosse, mas que de imediato passámos (também) a abominar.  

Mas mesmo esta delirante experiência***** teve um lado realmente positivo: não a tivesse eu suportado e decerto não desfrutaria tanto esta cena, uma das minhas em absoluto preferidas, que não me canso de ver e rever …  

* É claro que ao reduzir a lista para 5, tive de deixar de fora uns quantos de que também gostei, como Eurico, o Presbítero, de Alexandre Herculano; Bichos e Novos Contos da Montanha, de Miguel Torga; Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente; Dom Casmurro, de Machado de Assis; A Castro, de António Ferreira

** Suponho que me ficaria bem professar a intenção de, older and wiser, os reler a todos nos tempos mais próximos: faço-o, pois, aqui e agora, para que conste …  

*** Caso dos tão maltratados e resilientíssimos Os Maias … não tivesse eu por essa altura já bem avançada na leitura dos Eças e teria sido lindo …

**** O quê? A sério que achavam que eu ia dizer? Acaso não me desgracei já que chegue por hoje?

***** Devo dizer que as houve mais, do mesmo género e qualidade, se bem que não tão marcantes.   

Portrait of a Lady V

The Dark Lady. A quem Shakespeare se dirige nos últimos dos seus arrebatados sonetos. E que substitui o Young Man ou Fair Youth dos primeiros 126 como objecto da sua paixão – a qual, se nestes pode ainda conter-se (há quem o sustente) nos limites do amor platónico, assume, as far as the Dark Lady is involved,  contornos inquestionavelmente carnais.  Twoor just one?main characters cuja identidade permanece ainda hoje por estabelecer beyond a reasonable doubt e que constitui um dos great mysteries da literatura inglesa.  

Várias teorias e explicações se sucedem desde a publicação dos sonetos, em 1609. E é extensa a lista dos contenders, cada um suportado por argumentos mais ou menos irrefutáveis, aduzidos por várias gerações de Shakespeare scholars ou de simples curiosos.

Uma das mais persistentes de entre estas teses aponta para que she fosse afinal um he: Henry Wriothesley, 3rd Earl of Southampton, acima retratado.

Henry Wriothesley (1573−1624), educado em Cambridge, católico convertido ao protestantismo, era um dos favorites de Elisabeth I, com quem manteve uma relação não isenta de tensões: já no final do reinado desta esteve implicado na Essex Rebellion (1601), escapou por um triz à decapitação e passou ainda um bom período na Tower of London, até ser reabilitado por James I. Destacou-se na sumptuosa corte isabelina por ser um generoso patron of the arts e pelos seus flamboyant looks: era considerado o mais belo e accomplished dos vários lords do seu tempo. E também o mais bem trajado – um autêntico man of fashion and taste

São, no mínimo, desconcertantes alguns dos retratos deste dandy. Para os incautos como eu, I mean, não familiarizados com os excessivos ways da moda da época, em que era comum e altamente apreciado, nos homens, o uso da cinturinha bem marcada, de uma profusão de jóias, brincos incluídos, de frilly collars. E, above all, do lindo lovelock – a longa mecha de cabelo, solta ou entrançada, pendente do ombro esquerdo. Veja-se o de Henry: lovely, isn’t it? E dark, so dark …  

A verdade, porém, é que estas imagens não constituem prova única ou sequer decisiva quanto à identidade da Dark Lady. Muito embora permitam suportar a referida tese, por evidenciarem os remarkably good looks deste, à data, fair youth. São outros e muitos os argumentos, todos eles discutidos e debatidos, ora rebatidos, ora reforçados, que não vou sequer tentar reproduzir aqui – pois seria uma canseira para mim e uma maçada para vós. Direi apenas que Henry Wriothesley foi o único patrono conhecido de Shakespeare, que lhe dedicou Venus and Adonis (1593) e The Rape of Lucrece (1594), este último em termos especialmente calorosos. E que as iniciais do seu nome coincidem com as do misterioso Mr. W.H., alguém de higher social status a quem são dedicados os sonetos — if reversed, of course, pois atento o teor dos mesmos, justificava-se um mínimo de concealment.

Será Henry o dear my love do soneto 13, aquele a quem Shakespeare diz shall I compare thee to a summer’s day? Thou art more lovely and more temperate, no soneto 18, ou a quem chama, no soneto 20, the master-mistress of my passion?

Nunca saberemos ao certo. Fiquemo-nos, pois, pelo wild guessing. Que, convenhamos, não deixa de ser divertido…  

Portrait of a Lady IV

By a Lady. Foi sob este enigmático pseudónimo que Jane Austen (1775−1817) publicou o seu  primeiro livro — Sense and Sensibility, em 1811. Pride and Prejudice, de 1813, anunciava na capa By the Author of Sense and Sensibility. E nada mais. À época, era dificilmente aceitável que uma mulher, em geral, e a filha de um respeitado clergyman, em particular, se dedicasse à escrita de romances. Justificava-se, pois, alguma discrição perante o público. Pelo menos enquanto não houvesse a certeza de que aqueles fossem bem recebidos.   

Foi imediato o sucesso e grande a curiosidade quanto à autoria de such charming works. Seguiram-se Mansfield Park, em 1814, e Emma, em 1816*. O mistério, esse manteve-se por mais algum tempo, até que sucessivas inconfidências do seu irmão Henry – que vivia em Londres e frequentava os círculos sociais onde se aventavam os mais diversos palpites acerca da identidade de tão accomplished Lady -, tornaram do conhecimento geral aquilo que os mais próximos já sabiam. Mas, por essa altura, Jane estava já consagrada como escritora. 

Este retrato de Jane Austen terá sido o único pintado durante a sua relativamente curta vida. O que explica a sua relevância, não tanto como obra de arte — cuja qualidade está longe de ser excepcional e aparenta, além do mais, estar inacabado — mas como reprodução muito fiel dos seus traços e expressão, feita por quem com ela conviveu de muito perto e a conhecia como ninguém — a sua irmã Cassandra (1773–1845).  

Cassandra Austen era dois anos mais velha que Jane. Viveram sempre juntas pois, ainda que por razões diferentes, nenhuma chegou a casar. Cassandra admirava profundamente o talento da irmã e tudo fazia para a ajudar — chamando a si uma parte substancial das tarefas da organização doméstica, lendo e dando a sua opinião sobre os textos que aquela ia escrevendo. As duas irmãs eram grandes amigas e confidentes. E terá sido na sua estreita e calorosa relação que Jane decalcou a de Elinor e Marianne Dashwood, em Sense and Sensibility. E, sobretudo, aquela que une Jane e Elizabeth (Lizzy) Bennett, de Pride and Prejudice. Constitui, aliás, a truth universally acknowleged que neste seu sublime livro, Miss Austen criou a afável, tranquila e generosa irmã mais velha à imagem e semelhança da sua adorada Cassie, tendo-lhe apenas dado um outro nome — o seu.         

Pintada cerca de 1810, esta diminuta aguarela (114 x 80 mm) serviu de modelo a todas as posteriores imagens e caracterizações  da autora. A mim, encanta-me, por tudo o que reflecte do que foram a vida e a escrita de Jane Austen. Por ser, tal como estas, simples e recatada, discreta e privada,  delicada e subtil e, above all, imensamente genuína.

* Northanger Abbey e Persuasion foram publicados postumamente, em 1818, indicando serem By the Author of Pride and Prejudice, Mansfield Park etc; mas incluindo já uma breve nota biográfica da autora, escrita pelo seu irmão Henry. 

Portrait of a Lady III

São seus, o rosto belo e sereno, os olhos fechados, o cabelo ruivo e abundante. O retrato, esse é sempre de outra. Já morta. Ophelia afogada no rio, rodeada de deslumbrante vegetação de todos os tons de verde e de coloridas flores silvestres. Beatrice Portinari, a paixão impossível de Dante Alighieri, com um pássaro vermelho a pousar-lhe nas mãos abertas a papoila branca, símbolo da morte.

Pouco depois de ter posado para Millais, Elisabeth Siddal (1829−1862) iniciou um romance com Dante Gabriel Rossetti, que lhe impôs que doravante não o fizesse senão para si. Fascinado com a beleza de Elisabeth, Rossetti exaltava e idealizava a sua imagem e o amor que lhe dedicava, nos seus quadros, desenhos e poemas. Numa constante e crescente aproximação ao amor perfeito e eterno de Dante — de quem era fervoroso admirador e cuja obra traduzira para inglês – pela prematuramente morta Beatrice. A realidade era, infelizmente, outra. Incapaz de ultrapassar o constrangimento que lhe causava o facto de Elisabeth ser uma working class girl, Rossetti levou mais de oito anos (durante os quais viveram juntos), a marcar e a desmarcar o casamento — realizado em 1860 — e a coleccionar ligações (que manteve) com outras mulheres, da maidservant lá de casa, à mulher de um colega e amigo. Tudo isto desgastou a frágil saúde de Elisabeth (provavelmente tuberculosa e, ao que se sabe, dada a melancolias) e contribuiu para que esta se viciasse em láudano. E foi justamente uma overdose de láudano, que pode não ter sido acidental, que matou Elisabeth, a quem a morte da filha, nascida prematura, deixara pouco antes arrasada. Tinha 30 anos.

Foi tremendo o impacto da sua morte em Rossetti. Por perder aquela que fora, a todos os títulos, o amor da sua vida. Pela completa identidade que daí em diante se estabelecia com o remoto e inatingível amor de Dante e Beatrice, que desde jovem o atraía obsessivamente e que chegara a sua vez de viver. Mais que o compreensível desgosto e o provável remorso, terá sido a propensão de Rossetti para o exagero e para o arrebatamento a ditar a sua decisão de enterrar, junto com Elisabeth, todos os manuscritos dos seus poemas — para, poucos anos volvidos, e num macabro change of heart, requerer a exumação do seu cadáver, a fim de os recuperar e publicar.

Beata Beatrix, o mais famoso dos quadros de Rossetti, pintado entre 1864 e 1870, pretende ser uma homenagem à memória da sua musa e mulher. Retoma o tema da morte prematura da amada e do pungente amor que subsiste para lá desta. E, de novo, o paralelismo entre Elisabeth e Beatrice, personificações desse amor.

A mim perturba-me. Faz-me pensar como é bizarro só após a sua morte ter Elisabeth verdadeiramente ocupado o lugar para que a remetia, ainda em vida, a exacerbada imaginação daquele que proclamava amá-la. Como é vazio um tal amor. E como é triste ser-se amada assim — tanto mais triste quanto mais intensamente assim.

Portrait of a Lady II

É o meu lit de mort preferido – se é que se pode ter um, ponto relativamente ao qual acalento ainda algumas dúvidas. Aquele que eu teria escolhido, em resposta ao desafio aqui lançado pelo Pedro, não fossem as múltiplas e extenuantes actividades de férias que por essa altura absorviam parte substancial do meu tempo e energia.   

Gosto do exuberante cenário verde e das flores, tão variadas e coloridas — mesmo sabendo que algumas delas simbolizam, neste contexto, realidades tão pouco alegres como o amor não correspondido, a dor, a tristeza ou a própria morte. Gosto também da serenidade do rosto de Ophelia e do modo como jaz no leito do rio — faz-me sempre lembrar a Bela Adormecida ou a Branca de Neve, mortas-mas-não-tanto…   

Elisabeth Siddal (1829−1862) foi um dos modelos preferidos dos pintores da Pre-Raphaelite Brotherhood, fundada cerca de 1848 por John Everett Millais, William Holman Hunt e Dante Gabriel Rossetti. Descrições da época referem-na como a most beautiful creature, tall and slender, com greenish-blue unsparkling eyes, large perfect eyelids, brilliant complexion and a lavish heavy wealth of coppery golden hair.

Tinha 19 anos quando posou para Millais. Este, fiel ao cânon pré-rafaelita, queria o quadro as truthfull as possible naquilo que retratava. Por isso, pintou-o em duas etapas e em diferentes cenários. Toda a parte da natureza, outside in the open air, nas margens do rio Hogsmill, no Surrey, directamente para a tela (sem esboços ou apontamentos). A figura de Ophelia, naturalmente no seu estúdio … ao longo de incontáveis horas durante as quais Elisabeth, com um vestido antigo, bordado a prata, permaneceu mergulhada numa banheira cheia de água, teoricamente aquecida por lâmpadas colocadas por baixo. As quais, com frequência, se apagavam sem que o artista, absorto no seu trabalho, reparasse. Resultado: um enorme sucesso artístico para Millais, na Royal Academy Exhibition, de 1852. E, pelo menos, uma pneumonia para Elisabeth.

Foi esta a primeira e também a única vez que Elisabeth serviu de modelo a Millais. Por razões totalmente alheias às extreme working conditions: terá sido outro, e bem mais comezinho, o motivo. Dele vos falarei num próximo Portrait, se tiverem a gentileza de o aguardar e de o ler, claro…

Portrait of a Lady I

Perfectly hideous … and yet quite recognizable. É o que terá escrito acerca deste quadro, quando da sua primeira exposição pública, em 1915, a sua autora. Satisfeitíssima, pois fora justamente esse o resultado pretendido.  

Vanessa Bell (1879−1961) gozava já por essa altura de amplo reconhecimento como um dos mais talentosos e activos elementos do inovador e irreverente Bloomsbury Group – o qual integrava artistas e escritores como Roger Fry, Clive Bell, Duncan Grant, Leonard e Virginia Woolf (sua irmã mais nova), E.M. Forster, Maynard Keynes, Lytton Strachey e Dora Carrington. E que se rebelou abertamente contra os rígidos padrões vitorianos, em matéria de arte, de estética e também de costumes. Os Bloomsberries pensavam, escreviam, pintavam e viviam playfully and lightheartedly.

Vanessa e Clive Bell mantinham, desde o nascimento dos seus dois filhos, um open marriage, que não impedia cada um de fazer a vida que bem entendesse. São conhecidos o breve affair de Vanessa com Roger Fry e a sua ligação duradoura com Duncan Grant, de quem teve uma filha, em 1918. Quanto a Clive, a well renowned womanizer, teve a sua mais que  fair share de relações extraconjugais. Mary St John Hutchinson, mulher de um conhecido advogado, patrona das artes e aspirante a escritora foi uma das suas incontáveis amantes.

E era-o ainda, quando encomendou este retrato e posou para Vanessa. Esta sabia evidentemente. Mas, tudo leva a crer, não gostava. Mesmo nada. Daí a unflattering nature of the portrait, o qual não deixa margem para dúvidas quanto aos seus feelings para com a modelo. Os especialistas destacam a forte influência fauvista deste quadro, traduzida na exuberância e audácia das non-naturalistic cores utilizadas. Opção justificada pela grande admiração que Bell tinha por Matisse. Quanto à concreta selecção de tons, as motivações terão sido bem outras — digo eu. Verde é verde. E logo este tom, é sabido, não favorece ninguém. O lilás também não ajuda. A combinação das duas,  fatal. Para não referir os  demais detalhes.

Agrada-me este quadro. Gosto do que evidencia de normalidade por parte de quem o pintou. Porque mesmo nas mais extraordinariamente moldadas relações, há-de haver limites. O que vale por dizer que some things never change. E ainda bem: afinal, quem não se sente, não é filho de boa gente. E gosto, sobretudo, da deliciosa forma — tão subtil quanto eficaz — com que resolve o eterno problema da outra, do ciúme, da vingança. Quais faca, na liga ou na mão. Quais alguidar. Quais banhos de sangue. Tela, pincéis e tinta, numa mistura absolutamente letal de repulsive colours e fabuloso talento…   

Um Perfeito Vazio

 

Não se lembrava da última vez que tomara um banho de imersão. Naquele dia, apetecera-lhe. Encheu a banheira e despejou lá para dentro uns sais e mais um gel, presente de Natal ou de anos, não sabia ao certo. O rosa-vivo destes tingiu a água e a espuma. No ar, um intenso cheiro a rebuçado de framboesa. Ou seria morango? Sentia-se vagamente ridícula. Hesitou. Mas aquilo era suposto ser relaxante, revigorante, activar a circulação nas pernas… Largou o roupão e entrou na banheira. Excelente, a temperatura da água. Procurou uma posição confortável. Olhou à volta — o lavatório, o pequeno armário por baixo que mandara há tempos fazer, o espelho a começar a embaciar. Será que também é cor-de-rosa, o vapor? Sorriu da absurda ideia e fechou os olhos. Para logo os abrir e, rapidamente, espreitar e voltar a fechá-los. Tudo na mesma.   

Às vezes parecia-lhe ainda vê-lo ali. De pé, diante do lavatório. A fazer a barba. Nu.

Estes flashes causavam-lhe uma irritação difícil de controlar. A mesma que sentia quando, dali, de onde estava, ele a interpelava. Com os seus problemas — pessoais, familiares, profissionais, tanto fazia. “Olha lá”, começava invariavelmente. Mesmo sabendo, porque tantas vezes ela lho dissera, que tal tratamento lhe desagradava. Depois as questões, os dilemas, os impasses, quase todos fruto da sua exasperante falta de sensibilidade e de empatia, de instinto e de tacto. Que o passar dos anos agravava. Ela respondia, resolvia. Seguiam-se os cenários, antecipados à exaustão, construídos uns sobre os outros, hipotéticos e surreais — então e se ele me responder que? e se eles me propuserem antes que? e se não aceitarem isto? e se o tipo começa com a conversa de outro dia? e se? e então se? olha lá, e se? Não valia a pena encurtar o duche: ele segui-la-ia até ao quarto. Era um exercício cansativo e inútil. Mas ao qual não tinha como escapar. A alternativa era o inferno, logo ali, logo pela manhã. Sabia-o, porque experimentara. Não responder ou explicar que estava absorta nos seus problemas. O resultado, sarcasmo e rancor: obrigado, muito obrigado, está uma pessoa cheia de problemas e é esta a ajuda que recebe; da próxima vez que me vieres chatear com os teus dramas, vais ver como é! Não era provável que isso viesse a suceder. Percebera há muito que neste, como noutros planos, nada era como esperara. Tentara. Mas sem êxito. Foste parva, agora admiras-te, tão inteligente para umas coisas…, esses tipos são umas bestas, só percebem à bruta, fora o que obtivera, de conforto e de conselho. Quisera crer tratar-se de incapacidade dele: se mal resolvia os seus problemas, como haveria de saber acudir aos alheios? Logo percebera ser algo muito diferente: uma visão totalmente enviesada do amor, do casamento, dos papéis do homem e da mulher. Profunda, enraizada, ancestral. Que ele nem sob tortura admitiria professar. Mas que praticava, se praticava. Por isso o desconcertava a insistência dela na reciprocidade: não era suposto maçá-lo com os seus problemas, não era suposto sequer tê-los.  

Piores, muito piores eram os outros flashes. Felizmente cada vez mais espaçados. Imagens e sons de explosões de fúria descontrolada. Sempre dirigida a ela. Fosse qual fosse o detonador. Gritos e ameaças, insultos e reprimendas. Até acalmar. Até à próxima. Que só não sabia quando, onde e por que motivo ocorreria. Nunca pedira perdão. Nunca mostrara arrependimento. Uma ou outra vez admitira, displicente, ter-se talvez excedido, mas — que diabo! -, tinha razão. Tinha sempre razão. Os gritos eram um suplício, as descomposturas um enxovalho: vê se metes isso de uma vez nesse bestunto, não me voltas a fazer isso, não me voltas a colocar numa situação destas, ouviste? Implorava-lhe que parasse. Não consigo, não vês que não consigo? Eu bem te disse para não me irritares. Ou então, tu pelos vistos não percebeste ainda a gravidade do que fizeste. E continuava. Para que ela percebesse. Só que ela persistia em não o fazer. Em não achar inaceitável telefonar-lhe do escritório a avisar que ia chegar mais tarde, pedir-lhe que fosse, muito excepcionalmente, claro, buscar as crianças ou ao supermercado comprar leite para o dia seguinte, o facto de a empregada não ter lavado e engomado no mesmo dia (de chuva torrencial) aquela camisa branca, igual a todas as outras, que ele decidira (in pectore), usar no dia seguinte.

A princípio optara por ignorar. Não fora fácil, mas desenvolvera um excelente auto-domínio. Só que tanto para ele, como para as crianças, que assistiam às cenas – como impedi-lo? – isso equivalia a submissão. Passou a ripostar. A agressividade subiu de tom. Aos primeiros encontrões arranjou forças para o que há muito sabia ter de fazer. Nos meses seguintes, a violência continuou, sob todas as formas pelas quais ele sabia poder atingi-la, mostrar-lhe que ela estava ainda ao seu alcance. Mas não era a mesma coisa. Já não dormia com o inimigo. Já não partilhava com ele a intimidade. A casa de banho cor-de-rosa. O medo, a humilhação, o embaraço haviam dado lugar a um delicioso, desmedido e libertador alívio.   

Abriu de novo os olhos. Só para mirar, mais uma vez, o lavatório, o pequeno armário por baixo, o espelho já completamente embaciado. De branco, afinal. O vazio, onde antes estava ele. Um perfeito vazio. Imenso e luminoso. Sorriu e estendeu o pé na direcção da misturadora: será que consigo pôr um bocadinho mais de água quente?   

Só Visto

É uma das hottest shops em Londres por estes dias. Para quem tenha entre 12 e 21 anos, mais coisa menos coisa, claro. Tinha-me sido muito recomendada por amigas, mães de  adolescentes que insistiam: “as roupas são o máximo, e a loja, bem, a loja … tens de lá ir” ou “esquece a GAP e vai mas é a esta, que é o que está a dar, é o que as miúdas usam agora …”.

Fui. Hoje. Ao fim de um dia de chuva torrencial. Encharcada e já exausta, de tanto input cultural, de tanto caminhar, de tanta e tão bela compra. Demorei a dar com o sítio, num labirinto entre Regent e Piccadilly. Por um triz não falhei a entrada: perante a multidão que do lado de fora convivia animada achei que se tratava de um pub, de um concerto rock ou coisa assim. Mas não. It was it.

A Abercrombie and Fitch é basicamente o que se obtém juntando, num mesmo sítio, a Zara (tirando a parte dos preços …) e o bar mais in do momento (tirando a parte dos copos …). Música de dança aos berros, escuridão total, pequenos pontos de luz nas prateleiras onde está a roupa que é suposto comprar-se. Cheira intensamente a perfume em todos os recantos. E depois há os vendedores. Têm todos, rapazes e raparigas, pelo menos 1,80 m de altura. São lindos de morrer. Mesmo. Elas magérrimas, com caras de anjo e cabelos compridos. Eles muito bem apessoados, com um físico que evidencia várias – muitas, muitas mesmo – horas de ginásio. De entre os eles, vários têm como única função permanecer na entrada da loja, de jeans e troco nú — impecavelmente moldado e depilado -, a saudar afavelmente quem chega e a deixarem-se fotografar com ofegantes adolescentes de todas as nacionalidades, diante de um fundo especialmente preparado para o efeito, cheio de logótipos, que com estas coisas do marketing não se brinca. Vários outros, aos pares, dançam, enérgicos e felizes, debruçados na varanda do andar de cima. Se não tivesse visto, não acreditava.

Entrei, saltei a parte das fotos extáticas com os moços semi-despidos e dirigi-me resoluta para o interior da loja. Queria uns atuendos giros e adequadamente griffés para levar às minhas filhas mais velhas. Rapidamente percebi que não iria ser tarefa fácil. Zonas havia em que simplesmente se não podia passar, tal a profusão de meninas a remexer nas roupas e a pedir conselhos aos giraços de turno. A situação era agravada, na secção girls clothing por onde andei, pela absurda quantidade de rapazinhos embasbacados, bem mais interessados em meter conversa com as vendedoras que nos jeans, leggings, tops e afins, e que só estorvavam. O ambiente era de festa, de garagem ou de praia. A média de idades rondava os 18 anos. Senti-me um verdadeiro dinossauro. A princípio, um daqueles grandes, afáveis e inofensivos. Mas isso foi antes de tentar desincumbir-me da missão que me levara até ali.    

Porque se tratava de comprar roupa, procurei inteirar-me dos modelos, cores, tamanhos e preços das várias peças. O problema é que pouco ou nada conseguia ver às escuras. Pareceu-me tudo relativamente banal — muita camisa de algodão em xadrez ou às riscas, muita mini-saia farfalhuda com flores, muito short de ganga, muita sweat shirt com capuz, em versão com e sem zip, e profusos dizeres alusivos à marca. Hot, só mesmo os preços. Red hot. E gente, gente, gente. Por todo o lado. Cheguei a ponderar vir-me embora, de mãos a abanar. Mas uma mulher nunca desiste – nem mesmo, ou sobretudo, num sítio destes. Tratei, isso sim, de ser mais proactiva. Por outras palavras, transformei-me num dinossauro muito mau, daqueles assassinos, com várias fileiras de dentes. Dirigi-me a um menino e a uma menina que dobravam peças de roupa que a turba atirara pelo ar e anunciei-lhes que I was freaking out, pelo que tinham de me ajudar. Muito. Os dois. Right away. Foram do mais simpático e prestável: mostraram e provaram modelos, adivinharam tamanhos, deram palpites e sugestões, aventuraram-se nas overcrowded partes da loja onde me recusei a voltar, para buscar peças que eu havia vislumbrado. Acabei contentíssima, numa fila interminável para pagar, entre uma muçulmana de cabeça coberta de negro e piercing no nariz e de duas francesas que tentavam por todos os meios passar-me à frente até que lhes rosnei que era escusado o esforço. A menina da caixa, gentilíssima, meteu todas as minhas aquisições e mais as compras que trazia comigo (e cujos sacos de papel estavam desfeitos por causa da chuva) nos emblemáticos sacos da loja — que ostentam o garboso torso acima publicado, mas com mais dois palmos à vista.

Percorri toda a Regent Street até ao metro e, depois, toda a estação de Paddington e vários quilómetros de comboio, até ao carro do meu irmão, transportando em cada mão dois sacos. Ou seja, um conspícuo total de quatro homens em tronco nú.  Cuja visão, se no centro de Londres suscita olhares cúmplices e aprovadores por parte de mães e filhas iniciadas, vai gerando um genuíno e crescente embaraço à medida que dele nos afastamos em direcção ao countryside. Não tenho como descrever a cara estupefacta da idosa que viajava ao meu lado no comboio quando baixei os meus quatro-sacos-quatro e me despedi desejando-lhe all the best… Ou o estado de agitação em que ficaram os dois “cromos” locais que, beberricando cervejitas ao balcão do bar da carruagem, controlavam e comentavam, jocosos, quem entrava e quem saía …   

Muito pode o amor de mãe, é o que é.   

Histórias de Joanas VI — A Destemida

Your mother works for a living.

One day I have chickens, and the next day feathers.

 These days I’m driving a stagecoach.

For a while, I worked in Russell’s saloon

but when I worked there all the virtuous women

planned to run me out of town,

so these days, I’m driving a stagecoach.

 I’ll be leaving soon to join Bill Cody’s Wild West Show.

I’ll ride a horse bare-back,

standing up, shoot my old Stetson hat

twice — throwing it into the air -

and landing on my head.

These are hectic days — like hell let out for noon.

I mind my own business, but remember

the one thing the world hates is a woman

who minds her own business.

All the virtuous women

have bastards and shot-gun weddings.

I have nursed them through childbirth and

my only pay is a kick in the pants when my back is turned.

These other women are pot bellied, hairy legged

and look like something the cat dragged in.

I wish I had the power to damn their souls to hell! 

Your mother works for a living.

 Martha Jane Cannary, Carta a sua filha Janey, 1883*

Fez pela vida, esta Joana. Desde cedo e pelas mais extraordinárias e menos convencionais formas. Por necessidade, claro. Mas também por temperamento. Era audaz e independente. Gostava do risco e da aventura, que abundavam no seu tempo e nos lugares por onde andou. E também da fama e do reconhecimento associados aos seus modos de vida, hábitos e atitudes, absolutamente incomuns mesmo no wild west de então. Não é fácil, na sua história, destrinçar a realidade do mito. Mas a verdade é que, mesmo descontando o que se sabe hoje serem invenções ou exageros,  muitos deles com origem na sua fantasiosa autobiografia de 1896, é indiscutível que foram extremely colourful and eventful os cerca de cinquenta anos que viveu.      

Martha Jane Canary (ou Cannary) terá nascido a 1 de Maio de 1852 em Princeton, no Missouri. Quando tinha cerca de treze anos, os seus pais decidiram tentar a sorte going west, primeiro para Virginia City, Montana, e depois para Salt Lake City, Utah. Durante os largos meses que durou a viagem, Jane acompanhava os homens da caravana na caça e divertia-se a atravessar os rios e a enfrentar os rápidos montada no seu pony – sendo já então considerada “a remarkable good shot” and a “fearless rider for a girl of my age”, nas suas palavras.

A morte da mãe, logo no início da viagem e a do pai, meses após a chegada ao destino, deixaram Jane órfã, com apenas quinze anos e cinco irmãos mais novos a seu cargo. Partiu de novo, na direcção das Great Plains até Piedmont, Wyoming e, mais tarde, Deadwood, Dakota do Sul. Fez de tudo um pouco, para assegurar o seu sustento e o da sua numerosa família: foi, como muitas mulheres que então povoavam os frontier territories, lavadeira, ajudante de cozinha, cozinheira, empregada de saloon, dance-hall girl, enfermeira e, nos períodos de maior necessidade, prostituta. Mas foi também condutora de manadas, estafeta Pony Express para o US Mail e batedora do exército, tendo participado em várias campanhas contra os índios siouxie no Wyoming e nos Dakotas e em expedições de exploração de futuros territórios mineiros, nos Black Hills.

Os relatos da época descrevem-na — supõe-se que consoante a simpatia que suscitava nos cronistas — ora como “pretty, dark-eyed girl”, “extremely attractive”, ora como “the result of a cross between the gable end of a fire proof and a Sioux Indian”. Era muito alta (media “six feet”, i.e., cerca de 1,83m), bebia bastante (não raro mais que a conta), mascava tabaco, praguejava e com frequência usava roupa de homem. Terá sido por esta altura que passou a ser conhecida por Calamity Jane. Sobre a incerta origem deste nickname que sempre me fascinou coexistem a versão romanceada, apresentada pela própria, de o nome lhe ter sido dado pelo seu comandante, a quem salvara a vida durante uma batalha (“Capt Egan on recovering, laughingly said: ‘I name you Calamity Jane, the heroine of the plains”’) e as mais difundidas e porventura genuínas, de o mesmo se dever à ameaça com que Jane mantinha à distância os mais atrevidos, advertindo que meterem-se com ela era o mesmo que “court calamity” ou, mais simplesmente, ao facto de ter muito mau-feitio, facilmente produzindo “a ruction at any time and place and on short notice.”

Teve uma vida dura e intensa, marcada por episódios de grande bravura e generosidade. Dela disse William “Buffallo Bill” Cody, sob cujo comando serviu no exército, que tinha “unlimited nerve and entered into the work with enthusiasm, doing good service”, que arriscava ir a “places where old frontiersmen were unwilling to trust themselves” e que “her courage and good-fellowship made her popular with every man in the command”. São inúmeros os relatos de salvamentos de diligências atacadas por índios que protagonizou. E sabe-se da dedicação com que Jane tratou as vítimas e abasteceu as populações em quarentena durante várias epidemias de varíola e de difteria (a que sobrevivera em criança, ficando imune) que assolaram a região de Deadwood.

Da sua atribuladíssima vida privada, sabe-se que teve vários companheiros, em uniões de duração variável (algumas das quais caberiam no latíssimo conceito de common law marriage então vigente). Que o seu amplamente divulgado romance com James “Wild Bill Hickok” Butler, por quem tinha um fascínio quase obsessivo — casamento, divórcio e filha Janey, nascida em 1873 e dada para adopção, incluídos — não passou de uma fabricação, da própria e dos dime novelists da época, dos quais foi um favorite character: são inexistentes, insuficientes, contraditórias ou simplesmente forjadas as provas (desde logo as comoventes cartas escritas e nunca enviadas àquela, encontradas entre os seus pertences após a sua morte). Que terá casado com o texano Clinton Burke em 1885, sendo incerto se teve uma filha, em 1887, ou se a criança que apresentou como sua no seu regresso a Deadwood, e da qual nada mais se soube, seria fruto de uma anterior ligação deste.  

Após uns anos de relativa acalmia, em que se dedicou a criar gado, primeiro num rancho nas margens do Yellowstone, depois em El Paso, no Texas, usufruindo do respeitável estatuto de mulher casada e “leading a quiet home life”, na sua descrição, Jane largou o marido e regressou à movimentada vida que verdadeiramente lhe agradava. A partir de 1893 actuou no Wild West Show de Buffallo Bill, exibindo os seus riding and shooting skills. Actuou também no Pan-American Show em Buffalo, NY, cerca de 1901. Porém, os seus heavy drinking habits, os constantes escândalos e desacatos em que por via destes se envolvia e a deterioração da sua saúde forçaram a sua retirada, em finais de 1901. Morreu pouco depois, de pneumonia, a 1 de Agosto de 1903. Foi enterrada, diz-se que a seu pedido, junto de Wild Bill Hickok, no Mount Moriah Cemetery, em Deadwood. Os seus amigos e admiradores fizeram, além do mais, constar que morrera na mesma data que aquele – 2 de Agosto. Detalhe que decerto muito terá agradado a Jane, wherever she might be.   

 

* Texto adaptado por Libby Larsen, para a música Working Woman, integrada no ciclo Songs from Letters, 1989

Happy Birthday to … hope you guess his name

Professa uma irresistível e inconfessável e simpatia pelo Diabo. O Demo, o Canhoto, o Chifrudo, a Besta, o De-trás-da-porta, o Ferra-brás, o Tinhoso, o Pé-de-bode. Mais eruditamente, o Diabolus (διάβολος), aquele que desvia, separa, divide, que semeia a cizânia e provoca a desunião. Talvez por isso, insiste em postar raios x, profanos e nem tanto, “nojices” com alegado interesse científico ou cinematográfico, mortos em leurs lits, extraordinários detalhes da vida e dos quadros de Caravaggio – that’s the nature of his game. A verdade é que em vão o faz. Porque nós gostamos. Gostamos todos muito de tudo isso — e também das suas fotografias, dos seus Cristos amarelos, do seu gosto de ver museus de mãos dadas, dos seus textos que nos comovem, nos surpreendem e nos dão que pensar. E se é por vezes, vá, dissonante a forma como os expressamos, são inquestionavelmente unânimes o nosso espanto, interesse, deleite e divertimento. So much for discórdia, pois.   

Our Satanic Companion faz hoje anos. Queremos, claro, dar-lhe os parabéns e wish him all the best. Proponho que o façamos de forma diferente e adequada. Vamos antecipar em 48 horas, aqui no cemitério, a noite de São Bartolomeu – em que anda o diabo à solta – e vamos dar-lhe música. Música diabólica, demoníaca, levada do diabo.  

Queridos defuntos, ousem sacrílegas invocações, façam pactos com o diabo, pintem-no a quatro — desde que brindem com música do inferno o nosso aniversariante cadáver. 

Só mais uma coisinha. Esta, evidentemente não vale. Porque já é dele. Vão ter de se esforçar mais, com mil diabos!

Eis a minha escolha. Satanicamente interpretada pelo imbatível Richter.

Mas tem artes, o Demo. Invoquei-o aqui e logo tropecei nesta. Diabólica, sim. Mais, tenebrosa, sinistra, atroz. E com um cemitério em festa, um toquezinho celta e tudo. Verdadeiramente irresistível. Não consigo escolher entre as duas, por isso aqui fica também. Com meus mais sulfurosos parabéns.

Uma Imensa e Extraordinária Minoria

A net está cheia de blogs e de sites dedicados à canhotice em geral e aos canhotos em particular. Muitos imbuídos de genuíno espírito de apreço e entre-ajuda, outros dedicados ao mais mercantil intuito de promoção e venda de objectos supostamente adequados a esta tão peculiar parcela da humanidade. Comuns a uns e outros são os textos, com graus de acerto e de fantasia muito variáveis (e quase sempre inversamente proporcionais) sobre características diferenciadoras dos canhotos. E as listas de famous e achieved left-handers, nos mais diversos domínios. As quais me fascinam pela sua extensão, variedade e, sobretudo, pelas extraordinárias descobertas que a sua leitura sempre me proporciona e que não resisto a partilhar aqui convosco hoje, Dia Internacional do Canhoto.

Casais de canhotos, felizes, mas não para sempre

Será belo ao princípio, o amor entre canhotos, não duvido. Se até isso têm em comum …! Mas, é fatal como o destino, mais tarde ou mais cedo tudo acaba. E, não raro, mal. É o que evidenciam as malogradas uniões de Napoleão Bonaparte e Josefina de Beauharnais, Fred Astaire e Ginger Rogers, John Mc Enroe e Tatum O’Neal, Emma Thompson e Kenneth Branagh, Demi Moore e Bruce Willis, Uma Thurman e Gary Oldman, Tom Cruise e Nicole Kidman, Jennifer Anniston e Brad Pitt. É certo que este reincidente último e Angelina Jolie se têm aguentado, apesar dos ameaços e dos agoiros. Mas será uma questão de tempo, há muito o garante la prensa rosa. Now we know why!

Alter egos canhotos

Que a canhotice tende a ser fortemente hereditária sabemo-lo nós canhotos. E confirmam-no exemplos tão variados como JFK e os seus filhos, Caroline e John Jr, Ryan O’Neill e a sua filha Tatum, ou os british royals, como a Rainha Vitória, 0s seus bisnetos Edward VIII e George VI e, mais recentemente, o Principe Charles e o seu filho William.

Tão intensa é esta hereditariedade — digo eu — que extravasa os limites da realidade e invade a ficção. E é por isso que são canhotos, tão canhotos como os seus criadores, Ziggy Stardust, o alter ego de David Bowie; Rocky Balboa, o boxeur a que deu vida Sylvester Stallone; Kermit the Frog (Cocas, o Sapo), o primeiro e mais famoso dos Muppets de Jim Henson; Bart, o Simpson em que Matt Groenig apôs a sua left-handed signature. Há depois, as curiosas coincidências — de a mais bela impersonation da canhota Jeanne d’Arc se dever à também canhota Jean Seberg; ou de ter sido o canhoto Val Kilmer a recriar o também canhoto Billy, the Kid.

Excelentes e excessivos, para o bem e para o mal

Que os canhotos são talentosos, criativos e persistentes, que registam uma above-average quota of over achievers — a sério que julgavam que eu ia saltar esta parte? — é o primeiro e incontornável dado que se retira da leitura de qualquer lista de destacados canhotos que se preze.

Uma pequena amostra? Seja, pois, e por ordem alfabética: Hans-Christian Andersen, Baden-Powell, Marco van Basten, Ludwig van Beethoven, David Byrne, Lewis Carroll, Enrico Caruso, Pau Casals, Winston Churchill, Bill Clinton, Jimmy Connors, Johan Cruyff, Leonardo Da Vinci, Albrecht Dürer, Bob Dylan, Albert Einstein, Morgan Freeman, Bill Gates, Bob Geldof, Ruud Gullitt, Jimi Hendrix, Helen Keller, Mario Kempes, Paul Klee, Ivan Lendl, Greg Louganis, Machado de Assis, Diego Maradona, Michelangelo, Wynton Marsalis, Martina Navratilova, Barack Obama, Nicoló Paganini, Linus Pauling, Pelé, Michel Platini, Sergei Prokofiev, Julia Roberts, Ringo Starr, Sting, Sergei Rachmaninoff, Romario, Peter Paul Rubens, Monica Seles, Paul Simon, Mark Spitz, Mark Twain, Guillermo Vilas, Oprah Winfrey.

São também exuberantes e ligeiramente excessivos, como David Bowie, Kurt Cobain, Eminem, Bobby Fischer, Jean-Paul Gaultier, Glenn Gould, John McEnroe, W.A. Mozart, River Phoenix e Johnny Rotten, to name a few.

E – valha a verdade – nem sempre se distinguem pelas melhores razões, como Jeanne d’Arc, Fidel Castro, Céline Dion ou Ricky Martin. Pior, alguns destacam-se mesmo em actividades muito pouco recomendáveis, como Billy, the Kid, ou Jack, The Ripper e, ainda, The Boston Strangler ou o mais remoto Tibério. Mas, mesmo assim, conseguem fugir da mediania e isso, evidentemente, tem de contar a seu favor.

They can work it out

 Quem? Os tenistas canhotos, claro. E os futebolistas, sure. Mas, não menos significativamente, os talentosíssimos músicos canhotos, que nos deram e continuam a dar a música e sem a qual a nossa vida não seria a mesma. Exagero de canhota? Let it be. Mas a verdade é que vai-se a ver e são canhotos 2/3 dos Police (Sting e Stewart Copeland), metade dos Beatles (Paul e Ringo), ¼ dos UB40 até há bem pouco (Ali e Robin Campbell), ambos os Everly Brothers, todos os quatro elementos dos Manhattan Transfer. E ainda os completíssimos David Byrne, Phill Collins, Bob Dylan e Paul Simon. Ou Michael Stipe (REM), Joe Perry (Aerosmith), Noel Galagher (Oasis), entre tantos, tantos outros. Last but not the least, os fabulosos Jimi Hendrix, Mark Knopfler e Robert Plant. Caso para dizer que every little thing they do is magic …

Termino em beleza, um canhoto a tocar outro, numa interpretação de uma das minhas peças preferidas que sempre me comove.

 

Num Mundo ao Contrário

Sou canhota. O meu único irmão e 2/3 das minhas filhas também. Tal como grande parte dos meus primos e dos seus ainda minúsculos descendentes — feitas as contas por alto, a canhotice atinge 6 dos 9 netos e, até ver, 4 dos 11 bisnetos do meu avô materno, o grande responsável por esta convictamente esquerdina família. Que, como todos os canhotos da sua época, apanhou de grande na escola até escrever com a mão direita. O resto — jogar ténis e futebol, caçar e pescar, cortar, segurar as cartas e lançar os dados — tudo à esquerda, irredutivelmente.

Celebra-se hoje, 13 de Agosto, o Dia Internacional do Canhoto, com o objectivo de alertar para as dificuldades que enfrentam os left-handed num predominantly right-handed world e, claro, celebrar a uniqueness daqueles que representam entre 7 e 10% da população mundial.

Longe vão, é certo, os tempos em que o obscurantismo tornado sinistrofobia levava a acusar de feitiçaria ou a tomar como demoníacos os canhotos. Deles subsiste, ainda, a sistemática conotação negativa que as mais diversas línguas conferem à palavra que designa a esquerda e/ou o canhoto — como a medonha sinistra, os desastrados gauche, maladroit, maldestro e canhestro, a triste condição do que se diz ter two left feet por dançar mal e/ou não marcar golos, o clandestino, porque ilegítimo, filho da mão esquerda e o esconjurativo cruzes, Canhoto! (sendo, está-se mesmo a ver quem, o Canhoto que assim se procura enxotar). Sempre em contraste com a exaltação do direito como certo, correcto, justo — pense-se nos jurídicos droit, derecho e recht, no acertado right, e mesmo no tauromáquico diestro.

Não tão longínqua, mas felizmente ultrapassada, vai também a era em que, em nome de questionáveis orientações pedagógicas, as crianças canhotas eram contrariadas e “adestradas” à força na escola. Perdi a conta às tantas, tantas pessoas que, vendo-nos, às minhas filhas e a mim, a escrever com a esquerda, revelam a sua história, sempre a mesma, tão igual à do meu avô: reguadas, golpes de palmatória, puxões de orelhas, mão amarrada atrás das costas até aprenderem a escrever direitinho … Mas — é fatal e é a parte de que mais gosto, claro -, logo acrescentam, com ar entre o safado e o triunfante, tudo o mais, sempre com a esquerda!

Ser canhoto significa viver num mundo pensado e construído às avessas. Dos irritantes garfinhos de bolo às imprestáveis facas de cortar tarte, com destaque para as enviesadas cadeiras de auditório com aquela tabuinha para tirar notas, invariavelmente à direita. A encabeçar esta exasperante lista, evidentemente os abre-latas. Os quais, terminado o 9.º ano e as frustrantes aulas de Desenho, para sempre destronaram os tenebrosos tira-linhas, que durante anos me fizeram a vida tão negra como a tinta da China que, traiçoeiros, derramavam sobre os meus esforçados trabalhos …

Mas ser canhoto significa também aprender a viver, e o melhor possível, nesse mundo que é também nosso. E isso implica, antes de mais, virar tudo o que para nós está ao contrário: passar a colher para a esquerda, pôr o relógio no pulso direito, enfiar o cinto nas presilhas pela direita, instalar a torradeira com o logotipo da marca virado para a parede, receber a hóstia da comunhão na mão direita, para depois lhe pegar com a esquerda (e fixar, sem pestanejar, o sacerdote que, às vezes, nos olha suspeitando sacrílegas intenções). Mas também adaptar-se. Sempre que o fazer “à esquerda” não seja opção. Ou, sendo-o, nos complique depois a vida, transformando-nos nuns seres à parte. Faço tricot e crochet “à direita” porque doutro modo as minhas dextras avós não mos teriam conseguido ensinar. As minhas filhas aprenderam a tocar guitarra “à direita” pois só assim poderiam fazê-lo em qualquer ocasião e em qualquer guitarra disponível (não ficando limitadas à respectiva guitarra de cordas “trocadas”, à Jimi Hendrix ou Paul Mc Cartney). Cá em casa não há teclados ou ratos “canhotos”, porque fugir ao standard nos tornaria menos aptas a manejar qualquer outro computador que não o nosso.

E implica, sobretudo, não enveredar pelo caminho da recusa do compromisso e da adaptação e da intransigente proclamação do direito a ser diferente, que por esta altura se faz ouvir com mais força — suponho que potenciada pelo remanso da silly season – e que me deixa sempre perplexa, quando não deveras constrangida. Pior, só mesmo a panóplia de proper left-handed products supostamente adequados a melhorar a vida de pessoas como eu e grande parte da minha família.

Descobri-os aqui há uns anos quando abriu uma loja dedicada a canhotos perto de minha casa. Apresentei-me lá na primeira oportunidade. Queria, evidentemente, um abre-latas. Estavam esgotados. Para atenuar o meu desalento, o simpático vendedor insistiu em mostrar-me tudo o que por lá tinha e que decerto me agradaria. Seguiu-se uma das horas mais surreais da minha vida. Canecas em que a imagem ou os dizeres se viam quando seguras com a esquerda. Saca-rolhas e afia-lápis a girar ao contrário. Porque não? Um boomerang. Réguas com a numeração da direita para a esquerda. Fitas-métricas, também. Calculadoras com os números invertidos. Comecei a achar aquilo tudo demasiado estranho. Agendas e livros de notas que abriam ao contrário e cujas páginas se percorriam de trás para a frente. Relógios com os números por ordem decrescente. Não quis ver mais. Praticamente fugi. Não voltei. Soube, pouco depois, que a dita loja fechara. Era de prever.

Ainda hoje não tenho o tão ambicionado abre-latas. Mas cada vez lhe sinto menos a falta, tal a profusão de latas com abertura fácil que crescentemente povoam as prateleiras dos supermercados. A provar que o mundo às vezes também gira na nossa direcção… 

Mrs. Silence Dogood

Nasceu em Abril de 1722, já viúva e com três filhos. Deixou de existir seis meses depois, de forma abrupta e em estranhas circunstâncias, que envolveram uma grande zanga entre dois irmãos, causada pela muita audácia do mais novo e pela crescente insegurança do mais velho.  

Mrs. Silence Dogood ganhou notoriedade e uma legião de fiéis e entusiasmados leitores pelas suas cartas que, com cadência quinzenal, o The New-England Courant, de Boston, publicou entre 2 de Abril e 8 de Outubro de 1722. Ao todo catorze, todas metidas, durante a noite, debaixo da porta da redacção do jornal, em Queen Street.   

Nelas começou por se apresentar como — são suas, as palavras — “an Enemy to Vice, and a Friend to Vertue, one of extensive Charity and a great forgiver of private injuries, a hearty lover of the Clergy and all good Men and a mortal Enemy to arbitrary Government and unlimited Power”. Declarou-se ainda tão fervorosamente apegada aos “Rights and Liberties of my Country”, que o menor indício de restrição a estes “is apt to make my Blood boil exceedingly”. Last but not the least, assumiu uma “natural Inclination to observe and reprove the Faults of others, at which I have an excellent Faculty” que, avisou, não se coibiria de utilizar. Foi o que fez. E como.  

Nas suas cartas, Mrs. Dogood tratou temas variados e, não raro, controversos como a liberdade de expressão, o papel das mulheres (defendendo mais instrução e mais participação destas na vida pública), a hipocrisia religiosa e a corrupção dos governantes, a importância da poesia e dos elogios fúnebres (indicando mesmo os passos a seguir na construção destes), a igualdade de oportunidades no acesso ao ensino (sendo particularmente cáustica com Harvard College, que acusava de elitismo e de falta de qualidade e exigência, formando alunos somente arrogantes e preconceituosos) e, em geral, “the vices of the Town” (do excessivo consumo de álcool à vaidade no trajar, que levava muitos a endividarem-se e à adopção de modas ridículas). Sempre com frontalidade e desassombro, sensatez e ironia. Os seus comentários e opiniões sintonizavam plenamente com o tom critico e satírico dos Couranteers (também conhecidos como Hell-Fire Club), o grupo de colaboradores do The New-England Courant, um jornal independente do governo colonial (terá sido o primeiro, na América) que se destacou — não sem alguns contratempos – pelos ferozes e certeiros ataques que dirigia ao establishment político e religioso, dominado pela comunidade puritana.  

Inteligente e arguta, impiedosa observadora dos ways of the world e dotada de um corrosivo sentido de humor, Mrs. Silence Dogood causou quite an impression na Boston de então. Todos — a começar pelos próprios Couranteers — se interrogavam sobre quem seria tão misteriosa e fascinante figura.

Parte desta imensa curiosidade foi satisfeita pela própria Mrs. Silence Dogood que, com notável à vontade, contou ter nascido a bordo de um navio vindo de Inglaterra, ter ficado órfã ainda criança, ter a sua educação sido confiada a um sacerdote de uma pequena comunidade nos arredores da cidade, a “pious good natur’d young Man”. Revelou ainda detalhes do inesperado casamento com este seu tutor (causa de algum espanto e de bastante falatório), com o qual vivera “happily together in the Height of conjugal Love and mutual Endearments, for near Seven Years”.

E, sobretudo, alongou-se sobre a sua inconformada viuvez, já de alguns anos. Que a atingira na força da juventude (“when my Sun was in its meridian Altitude”) e que muito lhe desagradava (it is a State I never much admir’d), pelo que se anunciava desejosa de voltar a casar (“I could be easily persuaded to marry again”) — desde que o pretendente reunisse, claro, a “few good qualities”, a saber, ser “good-humour’d, sober and agreeable”. Esta confissão, aliada à revelação, também pela própria, de que era “courteous and affable, good humour’d (unless I am first provok’d,) and handsome, and sometimes witty”, levou vários arrebatados leitores do Courant a escrever para o jornal, declarando-se dispostos a casar com such lively and charming woman

O fim inesperado e nunca explicado das suas cartas causou tal consternação nos seus inúmeros e dedicados seguidores que o director do Courant publicou um anúncio, a 3 de Dezembro de 1722 (“If any person or persons will give a true account of Mrs. Silence Dogood, whether dead or alive, married or unmarried, in town or countrey, that so, (if living) she may be spoke with, or letters convey’d to her, they shall have thanks for their pains”) o qual jamais obteve resposta. Porque, na realidade, tal não era possível.

Silence Dogood foi o primeiro dos muitos alter-egos que Benjamin Franklin criou e assumiu ao longo da sua vida (Poor Richard ou Richard Saunders, Henry Meanwell, Alice Addertongue, Timothy Turnstone, Martha Careful, Polly Baker, Busy Body, to name a few). O traço que (para além das experiências que levaram à invenção do pára-raios) mais me encantou quando pela primeira vez li a sua biografia, devia ter uns treze anos. Lembro-me de achar absolutamente irresistível a ideia de Franklin se desdobrar em personagens, com biografias próprias, para escrever e exprimir opiniões mais arrojadas ou controversas, lançar a discussão sobre certo tema ou simplesmente porque isso o divertia. E de me parecer, sobretudo, extraordinária a profusão de aliases femininos — mulheres dignas, articuladas e convincentes, num tempo em que raras teriam instrução ou conhecimentos que as habilitassem a exprimir opiniões susceptíveis de serem atendidas e consideradas.

Quando criou Mrs. Silence Dogood, Benjamin Franklin tinha dezasseis anos e ingressara, pouco tempo antes, como aprendz de tipógrafo no The New-England Courant, fundado, dirigido e impresso pelo seu irmão mais velho, James. Desejoso de se estrear na escrita, admirador da prosa crítica dos Couranteers, mas temendo não ser levado a sério, decidiu tentar a sua sorte, sob falsa identidade. Escolheu fazer-se passar por uma mulher e de meia-idade – o próprio o admitiu mais tarde -, para conferir mais credibilidade e mais contundência às observações que se propunha fazer. O apelido Dogood terá sido uma paródia a Cotton Mather, um reputado padre puritano, que expusera as suas ideias nuns muito divulgados Essays to do Good. Já o primeiro nome, Silence, tanto podia ser uma alusão a outro livro de Mather, Silentiarius: A Brief Essay on the Holy Silence and Godly Patience, that Sad Things are to be Entertained withal, como uma fortíssima sugestão de silêncio ao próprio Mather e a tudo aquilo que este representava de intolerância e de incoerência. O estilo das cartas, esse era claramente inspirado no Spectator, de Joseph Addison e Richard Steele, que o jovem Franklin muito admirava.  

A descoberta da autoria das cartas e da identidade de Mrs. Silence Dogood deixou James Franklin muito desagradado. O mais que provável ressentimento perante o êxito do irmão — traduzido nos generalizados apreço e admiração que aquelas haviam suscitado – e o temor de que este lhe fizesse sombra terão sido, porventura, agravados pelo facto de parte das cartas de Mrs. Dogood terem sido publicadas, por indicação do próprio Benjamin, no período de algumas semanas (entre Junho e Julho de 1722) em que James estivera preso (por causa de um editorial que especialmente enfurecera as autoridades) e lhe confiara a direcção do The New-England Courant. A tensão entre os dois irmãos, desencadeada por todos estes eventos e potenciada pela intransigência do mais velho ante a ambição do mais novo, culminou, meses depois, na decisão de Benjamin partir para Filadélfia, para tentar a sua sorte.

Quanto a Mrs. Silence Dogood, sabe-se apenas que terá ficado por Boston. Porque, infelizmente, não voltou a dar ares da sua graça. 

Joana Vasconcelos

 

Antes que Julho se acabe

O Zé Navarro deixou-nos a todos em suspenso. Com o denso e decerto sinistro enredo que envolveria a retraída Emília e o execrável Dr. Ramiro. E que permitia a este, com indiscutível grosseria mas, sobretudo, com aparente e intrigante impunidade, destratá-la e embaraçá-la em público. Sem que aquela em quem ele “cravara a alcunha de Tia Tula”, reiterada e cruelmente acossada, esboçasse a menor reacção. “Porque motivo o Dr. Ramiro tomara aquela mulher de ponta e porque razão ela nunca desencadeara uma vingança, eis um segredo que só a eles pertencia”. Pois sim.

Movida pela curiosidade fui a casa dos meus pais e surripiei a Tia Tula, de Miguel de Unamuno. Li-o duma assentada. Gostei muito. Mas quanto a pistas para resolver este enigma é que fiquei na mesma. Dificilmente Gertrudes (Tula), encaixa no papel desta Emília acossada e resignada. Uma e outra, é certo, renunciam cedo demais e por motivos incompreensíveis à sua feminilidade. A verdade, porém, é que Gertrudes (Tula), ao contrário desta Emília, vai mantendo um férreo controlo dos acontecimentos e da vida dos que a rodeiam. À primeira vista movida por uma obsessão com a pureza e a virtude, mas na realidade dominada por um desmedido orgulho que a impede de ultrapassar o facto de Ramiro se ter primeiro aproximado de sua casa atraído pela beleza exuberante de Rosa, sua irmã. Por isso o castiga, negando-se-lhe – e, de caminho, negando-se a si mesma, como amargamente o vem, mais tarde, a admitir – e impelindo-o a casar com as duas mulheres por quem o pobre, atordoado com a sua irredutível recusa, se acaba por se deixar atrair (Rosa, a sua própria irmã e Manuela, a criada). Mas mantendo-se sempre por perto, tão perto, como mãe extremosa e puríssima dos seus filhos, dos cinco filhos que Ramiro vai tendo com as suas desventuradas mulheres. O papel supremo que para si reserva e a que se dedica por inteiro. E que, junto com a ideia de que constantemente Ramiro sofrerá pensando nela e no que perdeu, são a sua afinal bem magra consolação.       

Aqui a história parece ser bem outra. Tudo aponta para que alguma coisa tenha acontecido. Escandalosa, porventura ilícita, quem sabe mesmo obscena. Alguma coisa que o Dr. Ramiro sabe. E que Emília preferiria que não. Mas, entre ambos? Ou envolvendo terceiros, terceiras? E porquê esta insistência – despeitada? magoada? rancorosa? – em atormentar uma mulher que, em princípio, lhe surgiria desprovida de qualquer interesse? Porque é que patentemente Emília não é indiferente ao Dr. Ramiro? E porque se deixa ela enxovalhar assim? O que teme Emília?

Desafio todos os mortinhos de curiosidade — como eu — a apresentarem aqui a sua versão, uma explicação, um pequeno contributo que seja que lance alguma luz sobre esta turva situação.

E peço encarecidamente ao Zé que não nos deixe às escuras e nos ajude a desvendar este mistério. Quanto mais não seja dando também o seu – qualificado e altamente autorizado, já se sabe – palpite.     

Para que possamos ir de férias mais tranquilos.