Santo da Minha Devoção

Cada um sabe de si e Deus de todos, é o que dizem. E cada um saberá decerto dos santos da sua devoção,  

Santo António encabeça a minha lista. Daqueles santos que são sempre meus, como os límpidos Clara e Francisco de Assis, a intensa Teresa de Ávila, a fiel Maria Madalena, o combativo Inácio de Loyola, o aventureiro Francisco Xavier, a poderosa Rita de Cássia, o expressivo Marcos, padroeiro da minúscula terra beirã onde tenho as minhas raízes e de que já aqui falei. Com todo o apreço, que é muito, por todos os demais, com quem sei poder contar, pois estão sempre lá para nós, para o que preciso for.   

Não me lembro de não gostar de Santo António. Suponho que tem tudo a ver com o ser filha de uma muito antoniana Antónia — que festeja o Santo em vez dos anos e que tem as casas povoadas de imagens suas (dele), grandes, médias e pequenas, numa imensa e divertida colecção, que família e amigos, para além da própria, fazem crescer com os mais inesperados contributos. E que muito cedo — e muito antes de o ter visto in loco na imponente versão António de Pádua – me fez saber dos seus extraordinários feitos, bem para lá das mimosas graças que o popularizaram como santo-tão-de-trazer-por-casa.

Vivo bem com este meu Santo, que muito me agrada em todas as vertentes em que actuou e actua.

Inspiram-me a sua radical seriedade, a sua profunda exigência e a sua desassombrada coragem. Porque há de facto coisas nesta vida em que se não pode e se não deve ceder ou transigir. Fascinam-me os seus poderosos dotes retóricos e de pregação, a mim a quem calhou como modo de vida argumentar e persuadir.  

Não dispenso a sua vertente de achador de coisas perdidas. Multitasker a alta velocidade, sei que passaria, não fora o Santo, boa parte do meu já tão escasso tempo em busca de chaves e óculos, papéis e livros, brincos e anéis — que arrumo, largo, pouso, enquanto falo ao telefone (85% das ocorrências), converso com quem calha estar perto, penso noutra coisa. Basta-me invocá-lo e tudo, mas tudo, me aparece – sem responso e sem demora.

Confio tranquila na sua vertente casamenteira. Conheço o meu Santo e ele a mim. Ambos sabemos que o coração, como a terra, às vezes precisa de pousio. E que quando for tempo de flores e frutos, ambos saberemos — o Santo primeiro, para tudo providenciar pelo melhor, dando-me depois as pistas inequívocas, que espero saber decifrar.

Mas há mais, muito mais. Porque o que a meus olhos torna o Santo verdadeiramente imbatível é o todo que forma com a minha mãe e que faz com que cuide e vele por mim, junto com ela e em vez dela, quando a tarefa vai para lá das suas humanas forças. Sempre suspeitei que haviam feito um pacto. Soube-o no que haveria de ser o começo de uma fase especialmente dura da minha vida, quando a minha mãe me entregou um minúsculo Santo António em prata que sempre a acompanhara e que nunca mais larguei. Vai comigo para todo o lado — numa bolsa vermelha, claro – porque me lembra a presença constante na minha vida destas duas poderosíssimas forças que, conjugadas, jamais me deixam ficar mal.     

Ao cuidado do Meu Rico Santo António

O MEU CORAÇÃO — Anaquim com Ana Bacalhau (Deolinda)


O MEU CORAÇÃO

O meu coração é um viajante
Que se entrega num instante
Por aí aonde for

Acha que sabe bem o que eu preciso
Prende-se a qualquer sorriso
Sem motivos de maior

O meu coração é inocente
Pensa que a vida é um mar de rosas
Mas eu que vi espinhos em toda a gente
Afasto essas certezas duvidosas

 O meu coração é um bicho muito estranho
Que se esconde e não responde a quem chamar
Alérgico ao exterior vive na toca
Onde se esconde e sufoca por não ver entrar o ar

O meu coração vive trancado
Diz que atirou a chave ao mar
E eu que a procurei por todo o lado
Só me resta assim continuar

 Coração triste
Não me arrastes em teu passo
Meu corpo insiste em decidir o que faço
Se eu digo sim tu dizes não
Eu cá vou bem sem coração
Entre o morrer de amor e o viver nesta prisão

Coração louco
Não me imponhas o teu vicio
Que a pouco e pouco vou cedendo ao sacrifício
É que eu sei bem que se acordares
E procurares por ai
Encontras outro coração para ti

 Já encontraste? Demoras muito ou quê?

 O meu coração é uma criança
Ansiosa pela dança de quem lhe estender a mão
Mas este é caprichoso e inclusivo
Analista compulsivo que não chega à conclusão

O meu coração segue as novelas
Jubila com as falas das actrizes

O meu carrega histórias de mazelas
E afasta-se desses finais felizes

Coração triste
Não me arrastes em teu passo
Meu corpo insiste em decidir o que faço
Se eu digo sim tu dizes não
Eu cá vou bem sem coração
Entre o morrer de amor e o viver nesta prisão

Coração louco
Não me imponhas o teu vicio
Que a pouco e pouco vou cedendo ao sacrificio
É que eu sei bem que se acordares
E procurares por ai
Encontras outro coração para ti

 Falei primeiro a bem por ser assunto de respeito
Mas não me deu ouvidos perseguiu naquele jeito

Mudei para as ameaças
Tentei que usasse a razão
Mas é palavra estranha pró meu pobre coração

Farta desses maus tratos fiz as malas e parti
E logo te encontrei com o mesmo modo que eu sofri
A mesma frustração
A mesma pose o mesmo olhar
E em teu toque senti no meu corpo a trupulsar

Juntos rimos de tudo
Só chorámos nas novelas
Fingimos ser crianças e dançámos como elas
Perdemos noite e dia entre histórias e canções
Juntámos nomes, gostos e moradas
E quase sem dar por nada
Encontrámos corações

Coração triste
Não me arrastes em teu passo
Meu corpo insiste em decidir o que faço
Se eu digo sim tu dizes não
Eu cá vou bem sem coração
Entre o morrer de amor e o viver nesta prisão

Coração louco
Não me imponhas o teu vicio
Que a pouco e pouco vou cedendo ao sacrifício
É que eu sei bem que se acordares
E procurares por ai
Encontras outro coração para ti

Nightmare at Office

Lá está a ela a olhar para ele daquela maneira… Hoje está toda contentinha, a grande bruxa. Aposto que arranjou maneira de o fazer ficar cá outra vez à noite a acabar mais não sei o quê, muito urgente, a treta do costume. Só ele e ela. Agora é quase dia sim, dia não. Por isso há bocado o chamou lá dentro. A cara dele quando saiu… metia dó. Desgraçado.

Bem que esta manhã voltei a insistir, quando fomos lá abaixo ao café…“tens de fazer alguma coisa, quanto mais amochas pior… um dia destes ficas doente ou passas-te dos carretos e ainda fazes algum disparate e depois como é que é?”. Diz que pediu transferência, mas que ela lhe trocou as voltas, com altos elogios e avaliações do melhor, que não o pode dispensar de maneira nenhuma e mais não sei quê. Então que faça queixa dela! Isso é que era! Tramava-a e na volta ainda recebia umas massas, só para ficar caladinho… Que não, que não pode ser, que é uma vergonha, quem é que ia acreditar, é tudo muito complicado. Hoje vi-o tão mal que até me ofereci para testemunha, não é que tenha visto grande coisa, que ela é fina e sabe-a toda… Claro que o grunho do Sérgio tinha de se meter, armado em matador, “aproveita mas é, meu, que a tipa inda por cima é boazona”… Daaaa! Havia de ser lindo, com a irmã da mulher!

No elevador para cima quase implorei “tu não podes viver assim, ao menos fala com a Ana”… Tarde demais, diz ele. Com tanta noite fora, tanto serão de trabalho, “a Ana anda outra vez com a paranóia dos ciúmes, como quando começámos a namorar e ela nos fazia a vida negra… acha que há qualquer coisa… e o pior é que … olha já cá estamos, abre aí a porta antes que nos puxem”.

Sinceramente, só gostava de saber o que é que ela vê nele… um pãozinho sem sal, sem graça, sem conversa, sem ambição, ainda por cima marreco… Não a percebo, palavra… Com aquela figuraça, com o que aqui ganha, podia ter qualquer um, havia era de gozar e anda-me de volta do mongo do cunhado, metida no escritório até às tantas! Dá Deus nozes a quem não tem dentes, é o que é! Vai-se a ver e é porque ele lhe dá luta, não lhe cai aos pés como os outros… Diz a Rute, que foi vizinha delas, que isto é coisa antiga, que ele nunca lhe deu a menor bola, só tinha olhos para a mosca-morta da Ana… Mas que é tara, é, e das grandes…

Olha, os ingleses já responderam ao mail com a proposta de orçamento …, deixa cá ver … boa, aceitaram, tá tudo bem. Ok, amanhã pego no processo logo que chegar. Agora deixa-me mas é ir, a ver se apanho o Nuno antes de ele se meter no ginásio, a Rute disse que o filme é mesmo fixe e que só está mais esta semana …  

- Acho que vou indo … vens ou quê?

- Não posso, tenho umas coisas para acabar ainda hoje, fico mais um bocado…          

Lemos o que somos ou o que gostaríamos de ser

As minhas heroínas, aquelas nas quais, ainda criança, me revia ou me imaginava, ao lê-las, tinham — vejo agora que as pus todas lado a lado numa folha em branco, prontinhas a entrar neste post — muitos traços em comum. Gostavam de ler e de escrever, pensavam pela sua cabeça e diziam o que pensavam, mediam forças com os rapazes, fosse nas aulas, no recreio da escola ou no gelo, sobre patins. Sabiam o que queriam da vida e tinham génio e ambição para muito mais que o limitado papel que lhes estava reservado. Prosseguiram os seus sonhos mas — e isso para mim fazia todo o sentido — sem afrontar ou escandalizar, sem romper com os pais, a família, o meio. Talvez por isso, no fim, conseguiram have it all – ser professoras e escritoras, conquistar o amor da sua vida, ter uma família. Refiro-me, evidentemente, às minhas adoradas Jo March (de Little Women), Anne (de Anne of Green Gables) e Judy (de Daddy-Long-Legs). E também à encantadora — e real — Laura Ingalls (de Little House in the Prairie). 

Por razões diferentes, mas não menos fortes, admirava a resiliente Sarah Crewe (de A Little Princess), cujo mundo desabou no dia em que perdeu o seu adorado pai e todo o apoio e protecção que este e a sua imensa fortuna lhe garantiam, mas que sobrevive a todas as desfeitas e humilhações da horrorosa directora e colegas da escola by making the most das mais pequenas alegrias e da dedicada amizade dos mais simples entre os simples.

Last but not the least, uma heroína a sério, em todos os sentidos — Miep Gies, a querida Miep a que se refere Anne Frank no seu pungente Diário (que graças a ela chegou até nós) e que morreu há escassos  meses, com quase 100 anos. Um exemplo de compaixão, de solidariedade e de fabulosa coragem, em tempos absolutamente adversos a tais valores.   

Vieram depois, já em plena adolescência, outras heroínas que me ficaram para sempre. Que, apesar dos dois séculos que nos separam, ainda me encantam e me inspiram. Três delas devo-as à talentosa Miss Jane Austen – Ellizabeth (Lizzie) Bennett (de Pride and Prejudice), inteligente e frontal, coerente e dedicada, divertida e irónica; Elinor Dashwood (de Sense and Sensibility), a personificação da sensatez e da compostura, por contraposição à arrebatada Marianne, e que se revela afinal, a verdadeiramente passionate soul, hopelessly dedicada a um amor que crê impossível; Anne Elliot (de Persuasion), que por temer arriscar, recusou o amor da sua vida que, muitos anos depois e em condições totalmente adversas (por já não ser muito nova e por via de um grave reversal of fortune) consegue, perseverante, (re)conquistar. Ainda nos clássicos, mentiria se não confessasse um fraquinho pela despachada, nem sempre ortodoxa nos seus métodos, mas irresistivelmente charmosa e combativa Becky Sharpe (de Vanity Fair).

A completar o fabuloso elenco das minhas absolutamente preferidas, duas heroínas saídas de páginas escritas em português – a admirável Madalena, a própria Morgadinha dos Canaviais, e a romântica e “levantada” (no dizer da sogra, claro) Margarida Clarke Dulmo, do Mau Tempo no Canal. Madalena por ser completa: sensata e audaz, moderada e arrebatada, esclarecida, generosa e acessível. Margarida, por recusar substituir a dolorosa e verdadeira lembrança dos seus dois amores para sempre impossíveis pela bem-intencionada mas sufocante perfeição de um match made in heaven – tudo isto centrado no anel-serpente e no gesto totalmente simbólico, mas belíssimo e libertador, com que termina o livro e que jamais me canso de reler.    

Porque o tempo e a vida nos mudam e nos tornam mais tolerantes ou porventura mais atentos ao essencial, dei por mim a acrescentar recentemente ao meu lote duas improváveis e contraditórias heroínas.

A primeira, uma das mais surpreendentes personagens com que me lembro de ter cruzado — Lisbeth Salander (a fabulosa hacker da série Millenium). Uma criatura desconcertante e em absoluto não recomendável – catalogada e vigiada pelos serviços competentes como perigosa sociopata, coberta de piercings e tatuagens, com uma desordenadíssima vida sexual, capaz de arranques de uma atroz violência, gelidamente amoral. E, não obstante, genial, talentosa, persistente, lutadora e capaz de uma comovente dedicação e lealdade aos poucos que deixa que se aproximem da sua alma em ferida. Profundamente humana, afinal.

A outra, a ruiva e rechonchuda Mrs. Weasley, que ao longo dos sete volumes da saga Harry Potter nos surge como a Mãe – dos seus sete filhos, de todos os amigos destes que constantemente acolhe e cuida na sua sempre movimentada e desarrumada casa. Calorosa, segura, sensata e divertida, é também mandona e despachada, corajosa e frontal. As suas artes mágicas, muito “de trazer por casa”, eram a minha delícia e a minha inveja. Mas como feiticeira não riscava grande coisa — esse o único senão da encantadora personagem. Até à cena, decisiva e já no fim da saga (atenção, spoiler!!!) em que, de um só golpe de varinha e movida pelo mais primário e poderoso dos instintos, fulmina a mais talentosa e rápida das bruxas, e a mais má delas todas – a minha, malgré tout, Bellatrix – que se preparava para lhe matar a filha, enquanto grita, inequívoca, “not my daughter, you b—-”! Eu faria o mesmo. Com ou sem varinha.

Lemos o que não somos ou não queremos ser

Desde cedo tive a noção de que o que lia me revelava muito daquilo que eu era ou gostaria de vir a ser, através das heroínas que me agradavam e inspiravam, mas também muito do que eu não era e de modo algum quereria ser, por via daquelas outras protagonistas que me desgostavam, enervavam e, não raro, constrangiam. E foi justamente por estas que aqui decidi começar a minha resposta ao desafio lançado pelo Manuel.  

Como muitas crianças da minha geração, devorei quantos livros da Enid Blyton consegui apanhar. Os Cinco e os Sete, as Gémeas no Colegio de Santa Clara e o Colégio das Quatro Torres, a série Mistério e a colecção Aventura, entre outros. Li-os e reli-os vorazmente, em momentos de emoção e divertimento (e de fome, a fome que davam aqueles pequenos-almoços, lanches e ceias) que fazem parte das minhas mais felizes memórias. Mas se como livros de aventuras eram imbatíveis, já no que a heroínas se refere, o panorama estava longe de ser animador. O exemplo acabado eram as duas meninas dos Cinco, que alternadamente me desesperavam. A temerosa Ana, super-protegida pelos irmãos, que invariavelmente desaparecia a meio do plot, porque chegada a da aventura, ficava em casa ou a vigiar o portão, porque era perigoso. E a incompreensível Zé, a rapariga que não gostava de o ser, que se vestia e usava o cabelo à rapaz, que exigia ser tratada por um nome masculino (Zé, porque Maria José, na tradução portuguesa, George, porque Georgina, no original) e como um qualquer rapaz. Identificar-me com uma ou com outra não era escolha, era dilema.  

Mas havia pior. As Meninas Exemplares, as exasperantes Camila e Madalena, sobretudo a primeira, já que a segunda em uma ou outra ocasião perdia a cabeça, para meu profundo alívio. Elas eram bondosas e suaves, submissas e obedientes, compostas e contidas. Não pensavam nem diziam mal de ninguém, jamais levantavam a voz. Tamanha perfeição, só superada pela das suas plácidas mães, enervava. O contraponto? Desanimador: a caprichosa  Margarida e a disparatada Sofia. Que apesar de altamente refrescante, neste abafado contexto, convenhamos que ia um bocadinho longe demais – salgar e cortar às postas com uma faquinha os peixinhos que ia arrebanhando do aquário da mamã? Ó valha-me Deus …

Por ter passado parte da adolescência num colégio que fora um antigo internato feminino tive acesso a uma biblioteca absolutamente incomum. Cheia de livros que eu nem sonhava que existiam – a minha mãe foi educada por uma avó, professora primária imensamente strict e feminista, que achava um horror esses romances para raparigas. Lá em casa só entravam Dumas e Walter Scott, Salgari e Stevenson e mais uns quantos, que eu já lera e de que muito gostara. Mas isto era outra coisa. Berthe Bernage. Brigitte Jeune Fille, Jeune Femme. A colecção todinha: 35 volumes. E ainda Le Roman d’Elizabeth. Foi um festim. Li-os todos. Um por um. De seguida. Num crescendo de fascínio e horror que me impedia de parar. Tudo aquilo era tão edificante e modelar que arrepiava. A doutrina dos três K – Kinder, Küche, Kirche, na sua esplendorosa plenitude. A Brigitte propriamente dita até tinha graça – era mesmo bastante normal. O problema é que a pobre vivia numa permanente angústia, a martirizar-se (ou a sê-lo, pelos próximos) por não ser tão dócil, compreensiva, contida e modesta como as cunhadas, a angelical Chantal, que encarnava todas as perfeições e era freira e a sofredora Chonchonette, casada com o estróina do seu mano mais novo. O Roman d’Elizabeth era bastante pior. Confesso que para despachar os 6 volumes me forcei a acreditar que a própria iria dar um belo de um mau passo com o seu apaixonado Florêncio ou, quem sabe, apanhar uma fúria. Mas não. Que nervos. A parte boa desta saga literária? Para além de ser uma experiência absolutamente única? Pois ajudou-me muito a perceber aquilo que definitivamente não era, nem queria ser. E sobretudo permitiu-me apreender, na sua versão laudatória, os contornos e as fundas raízes de um estereótipo, para mim até então desconhecido, que insidioso teima em subsistir ainda entre nós.

Por último, não poderia deixar de referir a arrepiante Mónica, cujo Retrato nos é magistralmente traçado por Sophia, nos Contos Exemplares. Para uma fervorosa multitasker como eu, aquele texto começa por ser irresistível de apelativo. A meio torna-se numa caricatura que incomoda. E segue em crescendo de pesadelo, mas o fim é o mais perfeito reality check que conheço, o derradeiro critério para aferir da bondade do que quer que seja desta vida, que nos obrigue a renunciar “à poesia, ao amor e à santidade”. Nunca por nunca.

Somos o que lemos? Or else?

Gostei muito da questão que o Manuel aqui nos deixou, junto com um belíssimo texto sobre os livros que nele fizeram a diferença, porque os leu e por quando os leu, ou porque os não leu quando porventura deveria tê-lo feito.  

A verdade é que a questão me interpelou, mas num outro plano. Quanto mais procurava relembrar em que medida o que lera (ou não) me tornara naquilo que fui e sou, mais claro me surgia que, above all, quando lia, lia aquilo que era e o que não era. Eu explico. O turbilhão de memórias que aquele post reavivou saía directo das páginas dos livros que marcaram a minha infância e adolescência. Mas referia-se sobretudo às minhas heroínas – as personagens femininas que me encantavam e nas quais eu me revia. Porque sentia que era muito assim. Ou que gostava de ser. E também às outras, as que me irritavam e desagradavam. Mas que – há sempre que ver a coisa pela positiva – me mostravam com toda a clareza aquilo que eu não era, que eu de modo algum queria ou iria ser.

Não sei se esta abordagem responde ao desafio que me foi aqui lançado. Suspeito haver uma forte probabilidade de vir a ser desclassificada. Mas está-me mesmo, mesmo a apetecer escrever sobre isto, pelo que vou arriscar. Ó se vou.

Para tornar o texto menos mortalmente longo e pesado, optei por dividi-lo em duas partes, que se seguem de imediato – começo pelas exasperantes e incompreensíveis personagens e termino, como nas bodas de Caná (Jo, 2, 1–11), com as estimáveis e admiráveis heroínas.

Vitória Espectacular

O nosso Vasco lançou-nos esta manhã um lindo desafio.

A primeira parte era como naqueles concursos da televisão: tinha de se ver o vídeo e depois responder a uma pergunta. De escolha múltipla e cheia de rasteiras. Depois de muito meditar, escolhi a alínea e), porque é a que mais se adequa, aquilo, porque sendo a mais abrangente, há-de incluir a resposta certa e porque além disso é a única que está em inglês, o que lhe dá outro cachet. 

A segunda parte implicava escolher um outro grande momento musical de um filme. Em circunstâncias normais hesitaria, mas o profundo e erudito texto do nosso António Eça sobre a essência do feminino deixou-me realmente encantada. E inspirada, também. De bonitos e bons sentimentos de reciprocidade. Por isso escolhi este. Gracioso, edificante e profundamente autêntico. A prova que faltava da teletransportada natureza da rapaziada, tão sensivel e cientificamente retratada pela nossa Eugénia.

Vasco, tá completamente ganho! Podes declarar-me desde já VENCEDORA– e aproveitar para nomear os laboriosos membros da comissão que providenciará o descasque das batatinhas, enquanto as girls desfrutam de um belo dia de praia lá na Sardenha! 

WITH A LITTLE BIT O’ LUCK

The Lord above gave man an arm of iron
So he could do his job and never shirk.
The Lord gave man an arm of iron, but
With a little bit o’ luck,
With a little bit o’ luck,
Someone else’ll do the blinkin’ work!

With a little bit… with a little bit…
With a little bit o’ luck you’ll never work!

The Lord above made liquor for temptation,
To see if man could turn away from sin.
The Lord above made liquor for temptation, but
With a little bit o’ luck,
With a little bit o’ luck,
When temptation comes you’ll give right in!

With a little bit… with a little bit…
With a little bit o’ luck you’ll give right in.

Oh, you can walk the straight and narrow;
But with a little bit o’ luck,
You’ll run amuck!

The gentle sex was made for man to marry,
To share his nest and see ‘is food is cooked.
The gentle sex was made for man to marry, but
With a little bit o’ luck,
With a little bit o’ luck,
You can have it all and not get hooked.

With a little bit… with a little bit…
With a little bit o’ luck you won’t get hooked.
With a little bit… with a little bit…
With a little bit o’ bloomin’ luck!

They’re always throwin’ goodness at you;
But with a little bit o’ luck,
A man can duck!

The Lord above made man to ‘elp is neighbor,
No matter where, on land, or sea, or foam.
The Lord above made man to ‘elp his neighbor, but
With a little bit o’ luck,
With a little bit o’ luck,
When he comes around you won’t be ‘ome!

With a little bit… with a little bit…
With a little bit o’ luck,
You won’t be ‘ome.
With a little bit… with a little bit…
With a little bit o’ bloomin’ luck!

A man was made to ‘elp support his children,
Which is the right and proper thing to do.
A man was made to ‘elp support his children, but
With a little bit o’ luck,
With a little bit o’ luck,
They’ll go out and start supportin’ you!

With a little bit… with a little bit…
With a little bit o’ luck they’ll work for you!
With a little bit… with a little bit…
With a little bit o’ bloomin’ luck!

Oh, it’s a crime for man to go philanderin’
And fill his wife’s poor ‘eart with grief and doubt.
Oh, it’s a crime for man to go philanderin’, but
With a little bit o’ luck,
With a little bit o’ luck,
You can see the bloodhound don’t find out!

With a little bit… with a little bit…
With a little bit o’ luck she won’t find out!
With a little bit… with a little bit…

With a little bit o’ bloomin’ luck!

Palavras Analgésicas

O comentário da Turmalina ao post sobre palavras desconfortáveis, no qual ela contava um exercício que o professor do filho fez com adolescentes e com palavrões, fez-me lembrar um artigo que li há tempos na Time e que guardei, de tanto que me divertiu e confortou.

Versava um grave problema da minha infância e adolescência, que aliás subsiste e me exige ainda hoje algum esforço de autodomínio (com resultados variáveis) — palavrões e afins. Eu explico. É inquestionável que em Portugal falamos todos a mesma língua. Mas é-o também que não a falamos da mesma maneira. Não me refiro às cobertas que a sul do Mondego viram colchas e às agulhetas que se transformam em mangueiras. Ou, viajando em sentido contrário, aos cadeados que a norte se tornam aloquetes e às couves que passam a pencas. Refiro-me ao, chamemos-lhe assim, limiar de tolerância muito diverso que no que se refere ao uso de palavras mais fortes, de expressões mais vernáculas, vigora no norte e no sul do país. Sobretudo quando a utilizadora pertence à metade feminina da humanidade. Parece pitoresco e engraçado. Não é. Garanto-o eu, cujo impecável cadastro disciplinar (falar muito é ofensa minor quando se é bom aluno) ficou manchado por esporádicos episódios — sempre após férias passadas a norte, entre primos quase todos rapazes – que resultaram em participações escritas para casa, pelas amáveis freiras, a acusar “linguagem menos própria para uma menina” (devo advertir que não se tratava de palavrões a sério, o que seria estupidez, mas unicamente expressões mais atípicas de entusiasmo e/ou contrariedade)…

O artigo que então me deliciou e que podem encontrar aqui, referia-se ao poder analgésico de tais palavras. Não só, mas também da F word. E baseava-se em estudos levados a cabo por equipas de psicólogos. O ponto de partida: a constatação, por experiência própria de alguns dos peritos envolvidos, de que quando se martela ou se entala um dedo com toda a força, sai asneira. Constatação confirmada por equipas de médicos, enfermeiras e parteiras quanto ao que naquela hora-às-vezes-não-tão-curta proferem as parturientes em apuros. Os testes efectuados apontavam unânimes, para uma conclusão: swearing increases your pain tolerance. A explicação, simples, envolvia um “very primitive reflex”, que partilhariamos com os animais. Porém, e porque “in humans, our vocal tract has been hijacked by our language skills”, em vez de ladrar ou uivar we articulate our yelp with a word colored with negative emotion.” Uma outra explicação: “swearing serves as an alarm bell, triggering the body’s fight-or-flight response”. O que vale por dizer que praguejar desencadeia uma resposta fisiológica com reflexos a nível da dor: “in swearing, people have an emotional response, and it’s the emotional response that actually triggers the reduction of pain”.

Chegados a este ponto, é meu dever apelar a que perseverem, que leiam o post até ao fim. Porque não há bela sem senão. Em geral e neste caso também. Ou não se estava mesmo a ver? O que se passa é que os mesmos estudos revelam que dizer palavrões reduz mais fortemente a dor nas mulheres que nos homens. Porque, evidentemente, “in daily life men swear more than women”. O que tem o nefasto side-effect de neutralizar o potente analgésico natural. E seria esta, segundo um dos responsáveis pelo estudo, uma das principais razões para que “people should not overuse profanity in their speech and writing”. Não enfraquecer os palavrões, privando-os do seu poder analgésico para quando dele realmente precisarmos! Conclusão:“save them for just the right occasions”!

Palavras Desconfortáveis

A professora de português da minha filha Joana propôs esta semana à turma um exercício diferente: cada um juntaria em casa 6 palavras que, só por si, i.e., fora de qualquer contexto, lhe causassem desconforto. Na aula seguinte, e com base nas escolhas de cada um, fizeram uma enorme lista comum.

Foi, segundo o divertido relato que me chegou, um sucesso. Ferveram, é claro, as gracinhas em que são pródigos os meninos, sobretudo os meninos, de 12–13 anos – que incluíram no elenco a empresa fornecedora dos almoços do colégio, junto com bolor, remela e pé-de-atleta, entre outras pérolas. Quanto às escolhas “a sério”, muitas eram previsíveis ou expectáveis – nunca, ninguém, pobreza, fome, guerra, morte, inveja, racismo, castigo, bater, gritar, ameaçar, rastejante. Mas várias outras surpreenderam-me, pelo que revelam do que pensa e sente esta gente ainda pequena, fruto do que já viu, ouviu e porventura viveu – impossível, tumor, enlouquecer, hospital, bullying, pedófilo, violência, assalto, faca, ataque, terrorismo, bomba, veneno, ganância, longínquo.

Dei por mim a pensar quais seriam as minhas seis desconfortáveis escolhas. Ei-las:

Perfeição/Perfeito

Medo

Frio

Podre

Vazio

Adeus

To the lovely child within us

Porque hoje é Dia Mundial da Criança. Porque há em todos nós, já tão atinados e responsáveis, uma terrivelmente divertida criança que teima em não crescer … Aqui fica a sempre adorável história do Capuchinho Vermelho, numa versão um tanto alternativa, em ritmo de nursery rhyme, mas, sobretudo, com um lindo e diferente final feliz.  

Little Red Riding Hood and the Wolf

As soon as Wolf began to feel
That he would like a decent meal,
He went and knocked on Grandma’s door.
When Grandma opened it, she saw
The sharp white teeth, the horrid grin,
And Wolfie said, ‘May I come in?‘
Poor Grandmamma was terrified,
’He’s going to eat me up!’ she cried.
And she was absolutely right.
He ate her up in one big bite.
But Grandmamma was small and tough,
And Wolfie wailed, ‘That’s not enough!
I haven’t yet begun to feel
That I have had a decent meal!‘
He ran around the kitchen yelping,
’I’ve got to have a second helping!’

Then added with a frightful leer,
’I’m therefore going to wait right here
Till Little Miss Red Riding Hood
Comes home from walking in the wood.’

He quickly put on Grandma’s clothes,
(Of course he hadn’t eaten those).
He dressed himself in coat and hat.
He put on shoes, and after that,
He even brushed and curled his hair,
Then sat himself in Grandma’s chair.

In came the little girl in red.
She stopped. She stared. And then she said,
’What great big ears you have, Grandma.‘
’All the better to hear you with,‘
the Wolf replied.
’What great big eyes you have, Grandma.‘
said Little Red Riding Hood.
’All the better to see you with,‘
the Wolf replied.
He sat there watching her and smiled.
He thought, I’m going to eat this child.
Compared with her old Grandmamma,
She’s going to taste like caviar.

Then Little Red Riding Hood said, ‘
But Grandma, what a lovely great big
furry coat you have on.’

‘That’s wrong!’ cried Wolf.
’Have you forgot
To tell me what BIG TEETH I’ve got?
Ah well, no matter what you say,
I’m going to eat you anyway.’

The small girl smiles. One eyelid flickers.
She whips a pistol from her knickers.
She aims it at the creature’s head,
And bang bang bang, she shoots him dead.

A few weeks later, in the wood,
I came across Miss Riding Hood.
But what a change! No cloak of red,
No silly hood upon her head.
She said, ‘Hello, and do please note
My lovely furry wolfskin coat.

Roald Dahl (1916−1990), Revolting Rhymes, 1982

Joana, malgré tout

É talvez a única das muitas Joanas vindas do passado (e que, pelo tanto que me agrada o meu nome, há muito colecciono) de que não gosto. Nada nela e na sua curta e desgraçada existência me suscita admiração ou interesse, compaixão ou afecto, Não sei explicar porquê. Suponho que é mesmo isso que define uma embirração. Poderia tentar alinhar razões para este meu desagrado – mas a verdade é que muitas Joanas houve, bem mais loucas e mais patéticas, bem mais excessivas noutros traços que não valorizo, aprovo ou compreendo mas que, ainda assim, não deixam de me atrair e fascinar. Ou seja, é implicação mesmo.  

Ora eu quando embirro, desgosto ou, o que é raro, detesto, não ligo nem faço caso: procedo como se aquela pessoa, coisa, situação não existisse. Caso contrário, estaria a conferir-lhe uma importância que não tem, nem merece ter. Por isso a excluí da série de Histórias de Joanas, que há tempos aqui comecei.

Em todo o caso, e como em tudo na vida, há que ter um mínimo de fair-play...

Porque hoje, 30 de Maio, data da sua morte (em 1431) se festeja Jeanne d’Arc, venerada em toda a cristandade como padroeira dos soldados, prisioneiros e presos e Sainte Patronne de França.

E, sobretudo, porque a sua controversa figura inspirou, ao longo de séculos, pintores e escultores, escritores e dramaturgos, realizadores, actores e músicos, nalgumas das suas mais belas criações.  Escolhi, de entre tantas, duas — uma lá em cima, outra já a seguir - que justificam, só por si, celebrar uma Santa que não é da minha devoção e lembrar uma Joana que não está no meu panteão.  Last but by no mean the least, permitem desfrutar da beleza e talento destes extraordinários não santos, que conseguem sempre o milagre de me fazer olhá-la com outros olhos.


Foi Duro

Destiny Hope é o seu verdadeiro nome. Porque os pais acreditavam que she would accomplish great things. Por ser muito sorridente passou a Smiley e daí a Miley foi uma questão de tempo. Porque a sorte se constrói, Miley Cyrus, sempre pela mão do pai, o cantor country Billy Ray Cyrus — imortalizado pelo dificilmente igualável Achy Breaky Heart — começou cedo uma impressionante carreira, que inclui vários milhões de discos vendidos, inúmeras nomeações para vários prémios, alguns dos quais ganhou. A série da Disney Hannah Montana, em que contracena com o pai Billy Ray e representa uma girl next door que é também uma secret pop star, fez dela uma estrela à escala global, ídolo de milhões de crianças e pré-adolescentes. Por tudo isto, foi incluída em 2008, com apenas 15 anos, na lista das 100 Most Influential People in The World da revista Time (sob veementes protestos de vários outraged readers). No mesmo ano, a Forbes atribuiu-lhe o posto 35 na Celebrity 100 list, tendo subido seis lugares, para 29, em 2009. Perto de completar 18 anos, procura libertar-se da imagem de criança-vedeta. Para tanto protagonizou já um pequeno escândalo, que envolvia fotos suas moderadamente sugestivas, de costas desnudas, envolta num lençol, lançadas na net, em 2008. Seguiram-se vagas de indignação parental e o pedido de desculpas da praxe. Soube-se, depois, que as fotos eram de Annie Leibowitz, se destinavam à Vanity Fair e que a sessão decorrera na presença e sob supervisão dos seus dedicados progenitores. Na mesma senda de emancipação da Hannah Montana, lançou dois discos a solo (o terceiro sai agora em Junho) e participou nos filmes The Last Song e Sex and The City II.

A notícia da sua vinda ao Rock in Rio foi recebida com euforia aqui em casa. O dia de ontem foi aguardado, ansiado, sonhado pela minha filha Teresinha (e pelas manas grandes também, embora elas jurem que não). Oficialmente era o “Dia da Família” na Bela Vista, com um cartaz adequado, muitos eventos e diversões. Porque levo já muitos anos disto, fui só ao anoitecer, para desfrutar o main course com as crianças em bom estado. Sorte minha, ainda assisti, no Palco Sunset, ao divertido mano a mano entre Luís Represas e Martinho da Vila. Estava um mar de gente – 88 000 pessoas — crianças por todo o lado, algumas já em estado catatónico, pais (daqueles muito esforçados) com ar exausto e já pouco estóico, após terem suportado os DZRT e horas em filas para que aos rebentos lhes não faltasse nada (pipocas, gelados, uma volta na roda gigante ou na montanha-russa, anéis fluorescentes e perucas, uma guitarra insuflável oferta do principal patrocinador do evento). Mal os pobres sabiam o que lhes estava ainda reservado: porque a pequena estatura dos fãs de Miley não lhes permitia vislumbrar os écrans, quanto mais o palco, no meio da multidão, era preciso erguê-los – às cavalitas ou ao colo — e assim permanecer …  

Quanto ao concerto propriamente dito, Miley chegou, viu e venceu, sem dificuldade. A rapariga é pirosa e totalmente produzida, pouco espontânea e nada interactiva com o público. Tudo o que profere se reduz a um rosário de clichés e lugares comuns, claramente seguindo um guião standard. Os atuendos que envergava, decerto judiciosamente escolhidos para lhe conferir a tão almejada imagem sexy, em nada a favoreciam — bem pelo contrário, sobretudo o primeiro, umas absurdas hot-pants que lhe realçavam as pernocas rolicinhas. Mas para além de tudo isto, devo dizer que me impressionou muitíssimo a desenvoltura e o à vontade em palco, a energia e a segurança e, porque não dizê-lo, o controlo e o profissionalismo de uma miúda com apenas 17 anos. Miley Cyrus canta e dança, não pára quieta e interpreta as suas músicas com a convicção única de quem gosta muito delas e do que faz. E depois, valia a pena ver as caras encantadas e quase incrédulas de tantas meninas e alguns meninos que, deliciados, cantavam em coro todas as suas músicas, do princípio ao fim.   

Fiel a um dos lemas que regem a minha vida – se não podes vencê-los, junta-te a eles – tinha feito o meu homework. Vasculhei o You Tube em busca de músicas e coreografias. Toquei-as, decorei-as, trauteei-as. Ensaiei meneios e gestos. Tamanha devoção alarmou a Teresinha que, há dias me inquiriu, séria: “a mãe não vai para lá cantar e dançar assim, pois não”? Respondi, evasiva (e sabedora do que grande parte das minhas amigas andava a tramar): “não, claro que não … mas se as outras mães fizerem, eu também faço”. E fiz. Can’t be tamed, 7 Things, Robot, Party in the USA, When I look at you, Start all over, See you again, The Climb, entre outras – cantei-as, dancei-as, executei as apropriadas coreografias. Com a Teresinha e os seus 25 kg sobre os ombros metade do tempo (valeu-me a sempre generosa Madalena, com quem partilhei tão pesado encargo). Foi muito, muito divertido. Mas duro, muito duro. Hoje estou que mal me mexo…

Foi Lindo

Ao terceiro dia, o consenso, entre mãe e filhas. Refiro-me evidentemente ao Rock in Rio. Vetada a Shakira, por mim (“já não se aguentam as músicas” e os sugestivos hip movements, “vêem-se muito melhor na televisão e até dá para treinar, estando em casa”), os Trovante por elas (“quem são esses?”) e o Elton John por unanimidade, convergimos no cartel da passada quinta-feira, 27.

A começar, Xutos. Cada vez melhores. Divertidos, afectuosos, encantados e encantadores. Foi um fim de tarde de folia e de reencontro. Arrancaram em grande, ainda era dia, com Contentores e foram, em crescendo até ao apoteótico final com o já clássico Maria, o Tim com o eterno lenço vermelho e de camisola do Benfica. Na relva, a malta cantava aos berros e dançava, imparável. A fauna era completamente diferente da que povoava o Restelo, em Setembro – em vez dos cinquentões rockeiros, de couro negro e alma gentil, era sobretudo miudagem, vinda para os concertos seguintes; em vez do docemente perfumado cheiro que então pairava no ar, voavam objectos em direcção às babes que, às cavalitas dos moços, tapavam a vista e ferviam moches e empurrões. A animação, essa, era a mesma.  

Depois, a grande revelação da noite. Para mim, claro. Snow Patrol. Conhecia uma ou duas músicas, de que gostava. Descobri que conhecia e gostava de muitas mais. E descobri, sobretudo, um grupo talentoso e com uma fantástica presença em palco (é assim que se diz, não é?). O vocalista, o irlandês Gary Lightbody - informa-me a Santa Wiki, padroeira dos afoitos, que escrevem e falam do que pouco ou nada sabem – um encanto. Simpático, descontraído, com uma belíssima voz e, lançando mão da já clássica expressão do nosso Diogo, com uma imagem muito interessante. Run, Chasing Cars, Open Your Eyes, Just Say Yes e Set Fire to the Third Bar, em dueto com Rita Redshoes, foram alguns de entre tantos momentos intensos e inesquecíveis. Fiquei fã.


Por último, os portentosos Muse. O concerto foi, to say the least, avassalador. Uprising e Supermassive Black Hole foram, como se esperava, momentos de absoluta loucura. As músicas são todas fabulosas. O som, poderoso. Matthew Bellamy, o extraordinário vocalista, toca uma miríade de instrumentos, incluindo uma guitarra com dois braços e um piano, lindo de morrer, de cauda e com a tampa transparente. Dir-se-ia estar ligado à corrente eléctrica. E a imensa multidão em êxtase também. Impossível ficar quieto, calado, sossegado. Time is Running Out, Starlight, Citizen Erased, Plug in Babe, Undisclosed Desires, Knights of Cydonia, entre outras, seguiram-se a um ritmo alucinante em quase duas horas de puro arrebatamento. Foi brutal. Lindo mesmo.

A Cada Santo, Sua Causa
Santo Antão, Padroeiro dos Coveiros e dos Cemitérios

Santo Antão, Padroeiro dos Coveiros e dos Cemitérios

Sempre achei graça à ideia de as Santas e os Santos da corte celeste terem competências especializadas e reciprocamente bem demarcadas. Agrada-me a ideia de para cada situação ou problema haver um Santo prontinho a entrar em acção, para nos ajudar – seja a encontrar um objecto perdido, seja um companheiro para a vida. E tranquiliza-me constatar que os pelouros vão sendo actualizados, num claro esforço de adaptação aos novos tempos e às novas solicitações — há Santos protectores da televisão e de quem nela trabalha (Clara), dos divorciados (Helena) e dos internautas (Isidoro de Sevilha). Gosto dos grandes clássicos, como o são os simpáticos Santos casamenteiros — António, Valentim e Gonçalo de Amarante. E por muito que me fascine a extrema precisão de alguns sectores de actuação – catequistas (Carlos Borromeo), cozinheiros (Marta), cabeleireiros (Maria Madalena), fotógrafos (Verónica)  -  a verdade é que a minha incondicional admiração vai toda para os Santos de competência genérica – como a fabulosa Rita de Cássia, padroeira das causas impossíveis ou o rápido Santo Expedito, que cura das causas urgentes.

A pensar em todos vós e nas vossas atarefadas e às vezes complexas vidas. E para que vos não falte nada, aqui fica um pequeno rol hagiográfico que, espero, permita responder aos vossos anseios, pequenos ou grandes, comuns ou extraordinários:

Santa Ana e São Joaquim – Avós

Santa Bárbara – Bombeiros, Mineiros e Fogueteiros

Santa Cecília – Músicos, Poetas, Actores

Santa Clara – Televisão

Santa Edwiges – Endividados

Santa Helena – Casais em dificuldades, Separados, Divorciados … e Arqueólogos

Santa Marta – Cozinheiras

Santa Mónica — Mães aflitas

Santa Rita de Cássia – Causas impossíveis

Santa Teresa de Ávila – Escritores e Professores

Santa Verónica — Fotógrafos

Santo Antão – Coveiros e Cemitérios

Santo Isidoro de Sevilha – Informáticos e internautas

Santo Onofre — Jogadores

São Carlos Borromeo — Catequistas

São Francisco de Assis – Animais

São Francsco de Sales – Jornalistas

São Gonçalo de Amarante – Csamenteiro das Velhas 

São Lucas – Médicos e Pintores

São Luís Gonzaga – Jovens Estudantes

São Roque — Cães

São Tomás More – Políticos e Governantes

O meu enriquecedor passatempo

Este post da Teresa sobre lutas de galos em Timor fez-me lembrar um outro passatempo, bem menos sangrento e a vários títulos enriquecedor, que muito me divertia em Macau, nos anos em que por lá passava as minhas férias de Verão todinhas – as corridas de galgos. Era à quinta-feira à noite e era sempre um gozo. 

A começar pela simples ida até ao Canídromo. Porque o dito ficava do outro lado da cidade, era preciso ir de taxi. E explicar ao motorista para onde pretendíamos ir, articulando esforçadamente a correspondente expressão cantonense, que integrava o nosso  muito limitado léxico. Às vezes a coisa resolvia-se logo à primeira, de forma ortodoxa. Mas com demasiada frequência não (devíamos ter má pronúncia). O impasse linguístico era normalmente ultrapassado pela imitação, tão fiel quanto possível, do ladrar de um cão – que motivava a pronta gargalhada e a imediata compreensão do nosso interlocutor.

Já lá dentro, era um espectáculo único. Multidões de aficionados e, sobretudo, de apostadores. A enorme pista, a lembrar as de ateltismo, onde os cães corriam, perseguindo um objecto que zumbia, as coloridas baias onde aguardavam o tiro de partida, os potentes holofotes, os altifaltantes que incessantemente debitavam informações e alertas sobre a série que se seguiria, o relato da corrida em curso, e, nos tempos mortos, os últimos êxitos pop produzidos em Hong Kong. Os galgos competiam em séries que se sucediam ao longo da noite. Antes de cada corrida, os campeões eram exibidos numa pequena cerca junto às bancadas, acompanhados pelos seus treinadores, que os seguravam pela trela e que, consoante o caso, os tranquilizavam ou acirravam. Tinham nome e número e eram muito diferentes entre si, tanto na cor (do preto aos vários tons de castanho, passando pelo sempre fabuloso cinza), como na altura e  envergadura.

Fomos lá parar por mera curiosidade. Só mesmo para ver como era. Mas a verdade é que aquele ambiente de cor, entusiasmo e competição contagiava. E rapidamente deu para perceber que grande parte do gozo daquilo residia em apostar e torcer, aos gritos, pelo “nosso” cão, na esperança de que o dito ganhasse a corrida e nós umas patacas. Estávamos, afinal, na terra em que toda e qualquer situação era pretexto para uma boa aposta – fosse o mais insignificante acidente de tráfico (em que os mirones esperavam ansiosos que a polícia chegasse, para determinar o culpado e, por tal via, o palpite vencedor), fosse o iluminar, ao entardecer, da antiga ponte da Taipa (que levava vários interessados a juntarem-se por ali à espera de comprovar qual deles acertara no número de lâmpadas que, nesse dia, estavam fundidas).

Não foi um percurso fácil, este meu de apostadora. Comecei por me basear numa atenta observação dos cães: descartando os muito gordos e os muito raquíticos, decidia-me pelos que pareciam conjugar envergadura com agilidade e tinham atitude de vencedores. Não correu bem. Atravessei depois uma fase (que agora reconheço problemática) em que apostava aleatoriamente – conforme a cor (cinzento), o número (5 ou 7), a cor da faixa que identificava o cão (vermelha). Ganhei uma vez – e muito, porque o bicho, oficialmente um looser, se revelou afinal uma fera veloz – mas perdi em todas as outras. Até que, cansada de desperdiçar as minhas contadas patacas, descobri a via para o sucesso, que logo partilhei com irmão, primos e amigos. Aquilo pululava de apostadores experts, munidos de jornais desportivos chineses, os quais antecipavam as séries da noite e forneciam — suspeito – dados relevantes sobre os canídeos. Os ditos experts, depois de os mirarem lá no paddock, dirigiam-se aos guichets, onde apostavam. E nós ali à coca. No derradeiro minuto que antecedia o encerrar das apostas, corríamos aos mesmos guichets e explicávamos ao atónito funcionário, numa caótica e apressada mistura de inglês, cantonense e linguagem gestual que queríamos apostar no mesmíssimo cão que aqueles senhores todos. Infalível, esta técnica do follow their dog. Não se ganhava muito, mas ganhava-se quase, quase sempre. E isso, era já então, continua a ser, para mim, a most significant part of the fun

 

O morto que hoje faz anos

Gosta de bola e de Benfica, de cinema e de música. Muito. E escreve sobre estas suas paixões numa combinação absolutamente única de entusiasmo com rigor, de gosto e reflexão pessoais com objectividade. Os seus posts – sejam sobre Von Trier ou Woody Allen, o seu divino e atarracado homónimo* ou treinadores de duvidoso mérito, o eterno Ian Curtis, o talentoso Sufijan Stevens ou o exótico Devendra Banhart — informam e ensinam, interpelam e despertam a curiosidade, divertem e dão que pensar**.     

Depois, dá-nos música, muita música. Sempre excelente, seja antiga ou nova, seja mais mainstream ou mais alternativa. Este extraordinário blog deve-lhe grande parte da sua consabidamente extraordinária banda sonora.   

Os seus textos reflectem o impeccable taste e a composure, always so graceful and balanced que o caracterizam. Por isso, são especialmente deliciosas as surpreendentes confissões e as arrebatadas declarações com que de vez em quando nos brinda. Lembro o sorrateiro crivo a que submetia as desprevenidas candidatas aos seus sedutores avanços***; a confissão de ocasionais cedências a um alegado lado piroso e lamechas (musicalmente falando, claro); a ferocidade estética que o move a listar e a acalentar certos ódios de estimação e a recente revelação de que por vezes cede à preguiça e, sobretudo, do modo sui generis como combate tão perniciosa inclinação, autoflagelando-se num expressivo e contundente francês. Last, but by no mean the least, este nosso defunto professa recorrentemente o seu inabalável romantismo, em lindas alusões ao amor eterno, perfeito e indestrutível, com que se sonha e por que vale a pena lutar, e à expectativa de felicidade e de paixões vindouras. Tudo isto em versão coup de foudre e com Paris como cenário, de preferência.

É claro que o menino também pisa o risco e, pior, descamba. O seu manuelino cadastro, não sendo dos mais negros, regista o incitamento da desassossegada turba aqui do cemitério à elaboração de um portentoso ranking e reiteradas propostas musicais com linguagem que mereceria decerto a melhor atenção de Mrs. Tipper Gore. As suas proezas neste domínio valeram-lhe, aliás, para além de uma ou outra reprimenda, uma condenação às galés e uma decapitação.

QUEM É ELE, QUEM É?

Desafio todos os interessantes cadáveres jacentes neste cemitério e todas as estimadíssimas almas penadas que nos visitam a dar-lhe os parabéns, claro. Mas duma forma diferente: hoje, excepcionalmente, somos nós a dar-lhe música.   

Eu começo. Escolhi esta. Porque sei que gosta dela e desta versão. Porque festejar os anos é celebrar a vida e é o sonho que comanda a vida. E porque este dia é sempre mais feliz quando se partilha o palco com aquela que estava lá connosco naquele que foi o nosso primeiro dia.   

* Sim, esse, o da mano de Dios, who else?

** Digo-o eu que os li todos, sempre com o maior gozo e proveito (com excepção dos inspirados trechos em matéria de bola, naturalmente por manifesta incapacidade minha).   

*** Que o próprio prontamente confessou ter há tempos abandonado, sem nada, contudo, adiantar quanto ao/s que presentemente o substitui/em. 

Histórias de Joanas II — A Musa

Foi muito por causa dela que comecei a gostar de Modigliani. Lembro-me de, ainda pequena, achar espantosos os retratos desta mulher – o cabelo ruivo, solto ou apanhado, os olhos enormes e claros, o pescoço, sobretudo o pescoço, longo e esguio, E de achar graça ao nome – Jeanne. Joana como eu. Foi também por causa dela que durante muito tempo me desgostei de Modigliani e dos mesmos quadros. Porque ao olhá-los não conseguia afastar a aterradora visão de uma mulher jovem, grávida, a atirar-se, de costas, de um quinto andar para a morte. E de uma menina, também Jeanne, que no curto espaço de dois dias ficou só no mundo.  

Jeanne Hébuterne nasceu em 1898, em Paris. Seguindo os passos do seu irmão, André, começou a estudar desenho e pintura e a frequentar os círculos artísticos de Montparnasse. Foi aí que em 1917 conheceu Amedeo Modigliani. Jeanne tinha 19 anos, Amedeo mais catorze. Foi imediata a sua paixão. E tão intensa como o era o próprio Modigliani.

Desafiando a família, católica e convencional, a quem muito desagradavam os variados e constantes excessos de Amedeo e o facto de este ser judeu, Jeanne foi viver com ele. A vida do casal alternava períodos de grande turbulência com períodos de tranquilidade e harmonia, em que ambos desenhavam e pintavam, não raro retratando-se um ao outro. No final de 1918 nasceu-lhes uma filha. Meses depois, Jeanne voltou a engravidar. Vários dos seus retratos pintados nesta época por Modigliani mostram, com delicadeza e ternura, as suas formas arredondadas. Terão sido felizes, apesar da quase constante penúria e da crescente deterioração da saúde de Amedeo. A tuberculose, que o afligira na adolescência, regressou, e com gravidade. Amedeo morreu a 24 de Janeiro de 1920, de meningite tuberculosa. Na madrugada do dia seguinte, Jeanne, grávida de oito meses, conseguiu iludir a cerrada vigilância familiar e lançou-se da janela de casa dos seus pais.

Esta morte de Jeanne impressiona-me profundamente e intrigou-me durante muito tempo. Nunca me convenceu o epitáfio que, anos mais tarde, quando da sua trasladação para o Pére Lachaise, onde jaz ao lado de Modigliani, lhe compuseram: “devotada companheira, até ao sacrifício extremo”. Não encontro outra explicação para o seu acto — totalmente incompreensível, com uma vida por viver, uma outra dentro de si e mais uma pela mão — que não seja o absoluto desespero causado pelo desgosto da perda, claro, mas também pelo desgaste de ter acompanhado sozinha e num estado de extrema vulnerabilidade, sem ajuda e sem meios, os últimos dias de Modigliani. Agravado pela angustia quanto ao futuro e pelo sentimento de não pertença aos dois meios em que se movia e que marcara toda a sua vida — demasiado livre e outrageous para a sua conservadora família, demasiado bourgeoise para o grupo de Montparnasse, cuja boémia nunca a atraíra (e no qual pontuavam as inúmeras amantes de Amedeo, anteriores e contemporâneas de Jeanne, que abertamente a hostilizavam).

Mas foi justamente pela sua dramática e prematura morte e pelo seu papel de musa de Modigliani que Jeanne passou à posteridade. Pouco chegou até nós da sua vida e da sua arte. Sabe-se que era tímida, gentil e reservada. Que tocava violino e que concebia e confeccionava as suas próprias roupas e adereços. Os seus trabalhos, intransigentemente guardados pela família durante décadas, só se tornariam conhecidos em 2000 – por determinação e graças ao esforço da filha, que dedicou grande parte da sua vida adulta a reconstituir a história dos pais (que ambas as famílias lhe haviam ocultado), a firmar o legado artístico da mãe e, sobretudo, a reabilitar a memória do pai. A obra de Jeanne – cerca de 60 desenhos e 6 pinturas – revela uma forte influência de Modigliani, mas deixa também adivinhar já um estilo próprio, diferente e arrojado.

Jeanne Hébuterne, Retrato de Amedeo Modigliani, 1919

É possível que tivesse chegado longe. Nunca saberemos. Porque partiu demasiado cedo. Tinha 21 anos.

Graciousness

Gosto desta qualidade, que reúne a simpatia, a generosidade e a elegância de quem está tão bem consigo que lhe é fácil apreciar, valorizar e promover o outro. Requer uma alma grande e uma cabeça bem arrumada, com os complexos e as inseguranças resolvidos, que permitam evidenciar o outro, fazê-lo ou deixá-lo brilhar, colocando-se num discreto segundo plano. Sobretudo quando o outro é mais novo e tem ainda toda uma vida pela frente, de  oportunidades de sucesso e realização.

E foi graciousness que me ocorreu quando há dias li o texto que Stevie Nicks, dos Fleetwood Mac, escreveu sobre Taylor Swift, eleita pela revista Time como uma das 100 Most Influential People in the World. Há muitos anos que assino a Time. É um dos momentos felizes da minha semana aquele em que a tiro da caixa do correio e lhe espreito a capa, antes de rasgar o plástico que a envolve. Depois meto-a no saco dos livros e dos Códigos e levo-a comigo, para ir lendo nos bocadinhos de tempo que vou tendo. Gosto muito dos números especiais que a Time, por alturas de Dezembro, dedica à Person of the Year e em que faz o balanço do ano que termina, em imagens, eventos – e com uma tocante secção dedicada aos que nos deixaram. E também daquele em que, desde há uns anos para cá, e por esta altura, escolhe as 100 Most Influential People in the World. Folheio-o sempre rapidamente para ver quem são e só depois leio os textos relativos a cada um. Nunca por ordem, mas conforme me vai apetecendo. Grande parte é escrita por pessoas tão ou mais influentes, famosas e, em geral, achieved, na mesma ou noutra área. E revelam sempre tanto sobre o visado como sobre o seu autor. No número deste ano, gostei de ver entre os 100 Sonia Sottomayor, a primeira latina a chegar ao Supreme Court americano. Gostei de ler sobre Kathryn Bigelow por Oliver Stone, sobre Steve Jobs por Jeff Koons, sobre Kim Yu-Na, a fabulosa patinadora coreana que ganhou o ouro em Vancouver, pela não menos fabulosa Michelle Kwan, sobre Bill Clinton por Bono, dos U2. Mas especialmente do texto que sobre Taylor Swift escreveu Stevie Nicks.

Taylor Swift tem 20 anos. É muito talentosa e linda de morrer. Escreve e compõe as suas próprias canções, que acompanha à guitarra, e que já lhe valeram 4 Grammys. Stevie Nicks começa por afirmar que a sua determination e childlike nature lhe lembram as suas, há quarenta anos. Acha notáveis e merecidos os Grammys que Taylor já ganhou e confessa-se sua admiradora. Diz que Taylor is writing for the universal woman and for the man who wants to know her. E conclui dizendo, não apenas que the female rock-‘n-roll-country-pop song writer is back, mas que serão women like her who are going to save the music business.

Mais gracious, só o gesto a mesma Stevie Nicks, quando aceitou o convite de Taylor Swift para partilhar com ela o palco na cerimónia dos Grammy Awards, cantando uma das suas canções – sem se deixar deter por Taylor ser 20 years old, 1,8 meters and slender e ela, Stevie, ser 40 years older and neither of the other two things.


Escrevi ao som dos fantásticos Fleetwood Mac que o Manuel Fonseca tão oportunamente postou e que me deram o impulso e a inspiração para escrever este post que há tempos andava para fazer. E que daqui agradeço.

Histórias de Joanas I — A Suplente

A heir and a spare. Era o mínimo que se exigia a qualquer casal real: produzir um herdeiro para o trono e, just in case, um suplente que pudesse, sendo o caso, tomar o seu lugar. E se impressiona o facto de o herdeiro ter o seu destino traçado à nascença, que dizer do suplente, condenado a viver em função de algo que provavelmente nunca iria suceder? Por isso ainda hoje se diz que the heir gets all, the spare gets none.

Joana nasceu em 1452. Por ser a primeira descendente de Afonso V e sua mulher Isabel, casados há já vários anos, foi prontamente jurada pelas Cortes Princesa Herdeira do Reino, título que manteve até ao nascimento do seu irmão, que viria a reinar como João II, três anos depois.

Passou então à ingrata condição de suplente, que haveria de marcar a sua vida, limitando as suas opções e dificultando o caminho que, desde cedo, soube ser o seu. Profundamente religiosa, Joana queria ingressar num convento para, em simplicidade e longe da corte, levar uma vida de oração e de contemplação. Por isso, recusou as várias propostas de casamento que, logo que completou 16 anos, lhe foram sendo dirigidas. Às coroas de França, de Inglaterra e do Sacro Império Romano-Germânico, Joana preferiu a coroa de espinhos de Cristo. Que figurava no seu escudo de armas e que mandou pintar em todas as salas do seu paço. Mas esta foi a parte fácil.

Pior, muito pior, foi convencer o pai e, sobretudo, o irmão, a deixarem-na seguir a sua vocação. Fora de questão, foi-lhe dito, enquanto não estivesse garantida a sucessão no trono. Inconformada, Joana aproveitou o regresso triunfal de ambos da conquista de Arzila e Tânger, em 1471, e instou o pai a agradecer a Deus a vitoriosa campanha com uma oblação adequada à sua grandeza como rei: “eu mesma, Senhor”. Afonso V deixou-se convencer e autorizou o seu ingresso no mosteiro de Odivelas, primeiro, e depois no Convento de Jesus, em Aveiro, de regra dominicana, mais austero e resguardado.

Chegada a altura de professar, no início de 1475, foram vários e tremendos os obstáculos com que se defrontou Joana. A tenaz oposição do rei e do príncipe herdeiro que, apesar de já casado, não lograva ter descendência e que se não conformava com a perda do trunfo diplomático que seria o casamento da irmã. Mas não só. Os relatos da época dão nota de movimentações do clero e dos grandes do reino e de protestos populares à porta do convento, tentando demover Joana do seu propósito. Uma junta de teólogos decidiu que a princesa estava obrigada em consciência a abandonar a sua pretensão. Fisicamente debilitada por uma doença que pouco antes a acometera, Joana cedeu: numa dramática cerimónia, diante dos superiores da ordem e do rei, assinou um auto público pelo qual renunciava a pronunciar votos perpétuos e abandonava o hábito. Mas não mais voltou à corte, tendo permanecido no convento, cuja regra observava como secular. 

Quanto à questão dinástica que ditara esta sua renúncia, resolveu-se algum tempo depois com o nascimento do infante Afonso, único filho de João II. Mas haveria de ressurgir, de forma insuperável e por isso mesmo um tanto irónica, logo após a morte de Joana – com 38 anos, a 12 de Maio de 1490 – quando um estranho acidente vitimou o infante e forçou João II a designar como sucessor o seu primo direito e cunhado Manuel, então duque de Beja.       

Joana foi beatificada em 1693 por Inocêncio XIII, que permitiu que no seu reino e nos seus domínios se lhe prestasse culto como bem-aventurada. Em 1965, Paulo VI proclamou a Princesa Santa Joana padroeira da cidade e da diocese de Aveiro com as honras litúrgicas de santo canonizado (breve Flos Sanctitatis, de 5 de Janeiro de 1965). E é lá que hoje é festejada.  

No meio de nós

Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, eu estou no meio deles

(Mt 18, 20)