E se fosse aqui? E se fosse agora?

O Gonçalo e o Manuel foram partilhando connosco, ao longo da semana que passou, as suas reflexões muito pessoais e muito sentidas sobre aquela que é uma das mais belas passagens do Evangelho e uma das que mais fortemente me interpela – o Sermão da Montanha, na versão de Mateus (5, 1–12). Revi-me, impossível não o fazer, em todos os textos que um e outro publicaram. Com o Gonçalo partilho essa dimensão incontornável da esperança e da certeza que nos dá a fé, a noção de que estamos a caminho, rumo a uma felicidade futura, com as bem-aventuranças como coordenadas de GPS. Tal como ao Manuel, fascina-me a profunda humanidade deste desafio, tão revolucionário quanto actual, feito por um homem a mulheres e homens que ali tinham ido para o ouvir – gente comum, tão comum como cada um de nós, não especialmente virtuosos, espirituais ou heróicos. Mas a verdade é que a leitura que do Sermão da Montanha há já tempo faço e procuro pôr em prática não coincide exactamente com a que fazem um e outro. Por isso decidi trazê-la aqui, tão explicada e curta quanto consegui, para não causar nos que tiverem a bondade de me ler até ao fim uma desagradável overdose de Bem-Aventuranças.  

Como crente, sei que Deus tem para mim um projecto de felicidade. Sei que me espera um final feliz, eternamente feliz, uma vez fterminada a minha passagem por este mundo e sei também que esta faz já parte desse projecto. Talvez por isso, pouco me inquiete a pensar no que se segue e me centre na vida que me é dado viver aqui e agora, procurando fazê-lo o melhor possível. E é  justamente neste contexto que ganham pleno sentido as Bem-Aventuranças. Como projecto de felicidade terrena e, por via desta, de santidade.

As Bem-Aventuranças são antes de mais um projecto de felicidade – bem-aventurados significa, numa linguagem mais corrente e acessível que aquela a que nos habituaram a tradução e a tradição dos textos bíblicos, felizes. O projecto de uma felicidade quotidiana e acessível. Que nos liberta do que desnecessária e quantas vezes incompreensivelmente nos prende e nos tolhe, que nos centra no essencial, que nos abre e nos liga ao outro, que nos faz autênticos e inteiros.

É neste sentido que se é tanto mais feliz quanto mais se é pobre ou manso, quando mais se chora ou se é perseguido. Em momento algum este texto faz a apologia do sofrimento ou até da busca dele como via de melhoramento, de crescimento ou — o que seria -, de felicidade. Sofrer é sempre mau. Sempre. Pior, às vezes é causa de males maiores: todos temos, com mais ou menos nitidez, a experiência de que a dor que a uns tempera, fortalece e suaviza a outros revolta, azeda e torna mesquinhos (tal como a felicidade a uns faz empáticos e generosos e a outros insensíveis e indiferentes para com os menos afortunados).

É definitivamente diferente, bem mais rico e estimulante o desafio que encerram estas nove exortações, de todos tão bem conhecidas. Que com um coração de pobre vivamos com a simplicidade, a sobriedade e a contenção que nos permitem desfrutar de tudo o que é material, acessório, às vezes supérfluo, sem excessos que nos complicam a vida. Que chorando, sempre que a vida nos dá motivo para tal, sejamos verdadeiros, mostrando-nos frágeis e necessitados, pedindo e aceitando ajuda, confiando e agradecendo, libertando-nos da orgulhosa auto-suficiencia que desvaloriza e dispensa o outro. Que sendo humildes não deixemos que o nosso saber, as nossas certezas e o nosso desejo de impressionar e de brilhar nos impeçam de ouvir, de aprender, de mudar, de dar ao outro razão e valor. Que recusemos a dureza e a insensibilidade de um coração de pedra, que julga e condena e nos torna incapazes de sentir e de sofrer com o outro, de pesar as suas razões e de relativizar, relevar e perdoar. Que por mais que vivamos e vejamos, façamos por manter inteiras a limpidez do olhar e das intenções, a confiança e o optimismo no outro e neste nosso mundo. Que em todos os planos em que actuamos procuremos construir em vez de destruir, aproximar em vez de dividir, acrescentar em vez de diminuir. Poderia continuar mas prometi ser breve. E misericordiosa com o leitor. Adiante, pois.

É uma proposta ousada e exigente, esta. Cristo dirigiu-a à multidão, na qual nos incluímos, e não a um conjunto de eleitos, especialmente vocacionados ou dotados para a perfeição. O Sermão da Montanha é um luminoso apelo a que coloquemos a fasquia mais alta, a que nos transformemos e a este nosso mundo, mas sempre — e é isso que o torna extraordinário -, no horizonte do humanamente possível e atingível, fazendo prevalecer o que o ser humano tem de melhor, para lá das suas limitações e insuficiências. Se o fizermos, ligaremos, na nossa frágil e singela humanidade, a terra e o céu. E atingiremos a santidade, a santidade que está afinal ao alcance de todos. Aqui e agora.

A duquesa, o homem sem cabeça e o colar de pérolas

Protagonizou um longo e escandaloso divórcio, cujos lurid details causaram um frenesim mediático sem precedentes na Londres dos sixties e por um triz não fizeram cair o governo conservador de Harold Macmillan. 

 Margaret enganou o marido. De forma reiterada e muito pouco discreta. Imprudente, anotava nos seus diários os affaires que ao longo de vários anos foi tendo. Pior, guardava entre os seus mais prezados recuerdos uma extraordinária colecção de fotos Polaroid. As imagens, captadas na sumptuosa casa de banho art deco do seu apartamento de Mayfair, mostravam-na dressed in nothing but three strands of pearls, performing o que o juiz do divórcio qualificou como disgusting sexual activities num homem de quem pouco mais se vê que o torso. Outras havia de um homem sozinho, engaged em lewd practices, também ele shown from the neck down. Estas últimas fotos exibiam ainda salacious comments, a si dirigidos, manuscritos em jeito de dedicatória.  

Que fique, contudo, bem claro que nada disto, só por si, justifica a minha decisão de trazer Margaret Campbell, the Duchess of Argyll, para este infame recanto do nosso cemitério e de aqui a enterrar.

O motivo principal é outro — bem outro e bem mais prosaico. Pérolas. Um colar de pérolas. Um belíssimo e bem-comportado colar de pérolas de três voltas que, por culpa de Margaret, passou a ser símbolo de decadence and debauchery. Numa verdadeira traição a todas as mulheres – nas quais eu me incluo — que desde que o mundo é mundo gostam muito de pérolas e confiam na sua luminosa e límpida beleza para realçar encantos e para exprimir feminilidade e sedução. 

Ethel Margaret Whigham nasceu em 1912, filha única de um milionário escocês. Viveu e estudou em Nova Iorque, onde o seu pai tinha negócios. De regresso a Londres, e como era costume na época, foi apresentada em sociedade mal completou 18 anos. Foi imediato e duradouro o sucesso: a sua beleza e a sua fortuna fizeram dela a debutante of the year de 1930, a sua elegância e a sua exuberante personalidade tornaram-na figura central da social scene de então. Seguiram-se um sem número de pretendentes e de romances, o noivado, anunciado e logo desfeito, com um aristicrata inglês, o casamento com um jogador de golf americano, o divórcio deste e mais um sem número de pretendentes e de romances. Até que em 1951 casou com Ian Douglas Campbell, the 11th Duke of Argyll.  

Um match made in heaven para Margaret – ela própria o reconheceu mais tarde:  “I had wealth, I had good looks. As a young woman I had been constantly photographed, written about, flattered, admired, included in the Ten Best-Dressed Women in the World list. I had become a duchess and mistress of an historic castle. Life was apparently roses all the way”. Só que Margaret não fora feita para a sombria pacatez das scottish highlands, pelo que depressa rumou a Londres, deixando marido e castelo para trás.

O escândalo rebentou em 1959, quando o Duke of Argyll propôs uma acção de divórcio contra Margaret. Como prova das suas acusações de adultério — concretizadas numa extensa e variada lista de 88 supostos amantes, a qual incluía dois ministros, vários actores de Hollywood e três membros da família real -, o marido queixoso apresentou em tribunal os diários de Margaret e as referidas fotos Polaroid, obtidos numa busca ao seu boudoir, levada a cabo pela sua enteada.   

Foi tremendo o escândalo, explosivas as revelações e acusações de parte a parte e desmedida a curiosidade quanto àquele a quem o juiz se referia no processo como the Man Without a Head e que a imprensa da época crismou também como the Headless Lover. Dos vários candidatos apontados, dois havia que se perfilavam como altamente prováveis: o político Duncan Sandys e o actor Douglas Fairbanks Jr., ambos casados, to make matters worse.

Porque Duncan Sandys, além de genro de Winston Churchill, era então Minister of Defence e porque — poor timing indeed, o de Lord Argyll – o julgamento deste infamous divorce coincidiu com os depoimentos na House of Commons e a subsequente demissão de John Profumo, Secretary of State for the War, que se desgraçara também por sexual indiscretions, foi pedido ao magistrado que conduzira o inquérito a este caso que averiguasse quem era the Man Without a Head. O relatório final da investigação ilibou Duncan Sandys, mas foi em tudo o mais inconclusivo — ou seja, nada adiantou quanto à identidade do Headless Lover, que ficou por desvendar durante décadas.

 Sabe-se hoje que o misterioso Headless Man não era um — mas dois. Justamente os dois de que mais insistentemente se falava: Douglas Fairbanks, “apanhado” à época por um exame grafológico (a sua caligrafia correspondia à das “dedicatórias” apostas nas lewd photos) e Duncan Sandys, subtilmente denunciado mais tarde pela própria Margaret que, pouco antes de morrer, confidenciou a um amigo que “the only Polaroid camera in the country at this time had been lent to the Ministry of Defence.

Quanto a Margaret, nunca houve a menor dúvida. Era ela, só podia ser ela. Porque era sua a casa de banho onde haviam sido tiradas as fotos. E por causa do colar. Que distintamente se via nas sexually explicit images e que era a sua signature jewel, indissociável da sua exquisitely elegant imagem que enchia as society pages e as gossip columns, onde tinha lugar cativo. Nunca saberemos porque não o tirou on that occasion: the reason why is left entirely to our imagination. Igualmente não o fez, continuando a apresentar-se, impeccable and defiant in three strands of pearls, durante as audiências de julgamento do divórcio e mesmo depois de a sentença que lhe pôs termo a ter publicamente exposto como a completely promiscuous woman, one who has ceased to be satisfied with normal sexual activities. Tinha estilo e tinha nerve, quite a nerve, há que reconhecer.

Mas que bem podia ter deixado as pérolas fora disto, podia.  

Face a Face

Agora, vemos como num espelho, de maneira confusa;

depois, veremos face a face.

São Paulo, Primeira Carta aos Coríntios, 13, 12

Foi surreal. É que nem te passa pela ideia. Quando entrei e vi aquela encenação toda fiquei parva, completamente parva… A figura dela! Deitada, de blusa de seda. Roxa, seda roxa! Maquilhada. Um disparate de maquilhagem, como se fosse para a noite — bâton e tudo, vermelho vivo, tipo femme fatale. Flores aos molhos, tipo camarim de diva em noite de estreia! E uma rosa vermelha, pousada no lençol … de uma cama de hospital, valha-me Deus! Tu achas isto normal? Ela está doente, gravemente doente. Toda a gente sabe — o que ela tem, o estado em que está… Quem é que ela pensa que engana? Pode ser um café. Curto, se faz favor. E um copo de água, sim? A Ana viu a minha cara, puxou-me logo para fora do quarto e ainda começou a arengar. Mas ouviu das boas, ai isso ouviu. Aquilo foi obra dela, claro. E da Luísa, que também lá estava. Diz que foi ela que pediu, que pediu por tudo. E as ricas amigas, claro, toca de embarcar na maluqueira… como sempre, aliás. Só queria que visses o lindo preparo em que a puseram: que Deus me perdoe, mas parecia mesmo uma pêga. Não acredito, então eles aqui não têm adoçante? Mas que raio de espelunca! Paciência, vai com açúcar, não consigo habituar-me a tomar sem nada. E a melhor… nem tu sabes a melhor! Que nojo a colher está suja! Empresta aí a tua. Ouve, parece que agora lhe deu para a mística e para a transcendência. A ela, logo a ela, dá para acreditar? Quer dizer, não seria a primeira. A doença, a perspectiva da morte, essas coisas mexem com as pessoas… Contou-me a Ana que de há uns dias para cá quer que lhe leiam a Bíblia, trechos de que se lembra, da catequese, dos casamentos, dos enterros, sei lá… Tudo bem, disse-lhes eu, só que não é assim que se faz. Deixem-se de fantasias e chamem mas é um padre. Ela, depois da vidinha que levou, havia de se confessar. E por amor de Deus, limpem-lhe aquela borrada da cara e vistam-lhe uma camisa de noite decente. Não. Nem pensar. Ela não quer. Sente-se bem assim. Quer estar no seu melhor quando chegar o momento de encarar, face a face — a morte, Deus, o que quer que seja. Face a face, no seu melhor… Tu já me viste a tonteria? Humildade, contrição, modéstia? Quais quê: desafio, provocação, pose, como quem vai para um encontro, ou até para um duelo. Eu bem tentei explicar-lhes que ela, coitada, já não está bem e que assim não estão a ajudá-la … E elas, logo, taliban. Muito gostam aquelas duas de me chamar taliban. Eu já nem ligo. Ah, mas hoje a Luísa saiu-se com uma nova: tens um coração de pedra. A Luísa a invocar Ezequiel, o próprio profeta Ezequiel, para cima de mim! Ao que chegámos, Deus do Céu… Até parece que eu, apesar das nossas diferenças, que sempre as tivemos como sabes, não gosto dela, que não tenho imensa pena dela, tão nova, coitada. Mas convém não perder a noção das coisas. Ela está a morrer, será assim tão difícil perceber que há que prepará-la, preservá-la? Que do que ela precisa é de paz, de dignidade e não de números destes? Só te digo, fiquei mesmo, mesmo incomodada… Olha, vou pedir outro café. Queres?       

Ad impossibilia nemo tenetur

Findo que está o primeiro mês de 2011, é tempo de fazer o balanço das nossas resoluções de ano novo: importa apreciar a sua bondade e adequação para, sendo o caso, corrigir o rumo traçado. Como? Pois detendo-nos a avaliar o estado do seu cumprimento, melhor dizendo, da falta dele, que por esta altura deverá ser já uma realidade. E, a ser assim, um excelente indício. Estranho? De todo.

As resoluções de ano novo exprimem um ideal de disciplina, controlo e harmonia que, se cumprido, ainda que só em parte, faria de nós modelos inquestionáveis de perfeição. Mas seguramente não de felicidade — tão contrariados, aperreados e tensos andaríamos. Algo verdadeiramente nefasto, a evitar a todo o custo.    

Para que servem então tais intenções e objectivos que, ano após ano, vamos reiterando, de forma mais ou menos explicita? Não decerto para nos pressionar, culpabilizar ou diminuir: para isso bem basta o que de sofrimento e aborrecimento a vida nos traz, sem que o possamos evitar. É outro o sentido destas resoluções: lembrar-nos que não somos, que nunca seremos, perfeitos, completos, exemplares. E é justamente nessa medida que contribuem para fazer de nós melhores pessoas — porque mais humildes, realistas e razoáveis no que exigimos de nós próprios e dos outros.   

Que assim é mostra-o bem o facto de raras dessas resoluções respeitarem a aspectos verdadeiramente essenciais da nossa maneira de ser e de viver: do que se trata é de pormenores, quando não de meros retoques. Uma espreitadela à lista das Top 10 Commonly Broken New Year´s Resolutions, publicada na edição online da Time confirma esta minha tese: adquirir uma excelente forma física, fazer uma alimentação mais saudável, aprender algo novo, viajar para novos lugares, tornar-se voluntário, não stressar tanto… cherries to top the cake, nem mais, nem menos. Porque a verdade é que as grandes e definitivas mudanças (como deixar de fumar ou de beber) se devem em regra a razões bem mais prementes, que o singelo ano novo, vida nova…   

Por tudo isto, as resoluções de ano novo serão tanto mais adequadas quanto mais inatingíveis, tanto mais bem escolhidas quanto mais difíceis de cumprir. O que vale por dizer que tudo o que seja fácil, exequível, agradável até, não vale. Para este efeito, claro.    

Pela minha parte, o balanço não pode ser melhor: logo na primeira semana do ano recaí no péssimo hábito de roer as unhas, que por ora mantenho; ainda não fui ao ginásio e não sei quando o farei; a média diária de cafés excede o que mandaria o bom senso, as horas de sono, passado o estado de excepção que antecedeu a discussão da tese, têm vindo a decrescer para os lamentáveis níveis do costume. E não, não faz parte dos meus planos para as próximas semanas (leia-se meses) arrumar o que quer que seja aqui por casa. Pode dizer-se que comecei e estou a ir realmente bem.

Se, contudo, é outro o vosso caso, se estão a conseguir cumprir, no todo ou em parte, as vossas resoluções de ano novo, pois há que rapidamente arrepiar caminho: estas não servem. Urge substituí-las, quanto antes, por outras, bem fora do vosso alcance. Quais? Pois cada um saberá de si. A razão de tanta pressa? Aproxima-se o início de um novo ano — no calendário chinês, que o dedica ao Coelho. Uma ocasião a não perder: têm exactamente três dias.   

Um rubro, intenso prazer

 

As saudades que eu já tinha. Do lindo e animado cemitério e dos que o fazem assim. De uma lista e de um desafio. Foi, com rubro e intenso prazer que li este post do Manuel Fonseca e que durante dias e dias em que não podia, não devia, não conseguia escrever, antecipei este momento. Estou de volta. E trago comigo a listinha das coisas que me dão um rubro e intenso prazer. Ei-las.  

Vento de mar. Sobretudo no Inverno. Quando me gela a cara e as mãos, me sabe e cheira a sal e a algas e a Verão, me revolve e me encaracola o cabelo, me leva para longe todos os sons, deixando-me só com o das ondas.  

Vinho do Porto. À lareira, com nozes ou avelãs, que vou ou me vão partindo, as cascas atiradas ao fogo. Ou à mesa, tarde, noite fora, a prolongar uma refeição, uma companhia, uma conversa que não têm de acabar …  

Ler. Com tempo, com todo o tempo pela frente. Quando o calor me faz fugir da praia, à sombra da minha árvore, o pé descalço apoiado no tronco. Ou na rede pendurada na imensa tília da minha avó, ao fundo do jardim, a espreitar a serra em frente e a ouvir lá atrás as vozes e as atarefações de uma casa cheia.

Ganhar. Não importa ao quê — às cartas ou aos dados, ao Stop ou ao Monopólio, uma aposta, uma corrida, uma discussão. Importa como: sem batota, sem truques, sempre playing by the rules. Pois nisso está boa parte do sweet taste of victory

Chocolate. Preto, mas também pode ser do outro. Estimula e inspira, concentra e fortalece, cura desgostos e potencia alegrias – digo eu, devoradora convicta e impenitente, suportada em décadas de experiência.  

Laços. De afecto e de amizade. Tão diversos quanto o são aqueles com quem os crio, os mantenho e os desfruto. Aquele momento único — uma conversa, um comentário, um gesto – em que se descobrem afinidades e empatias, gostos comuns e contrastes surpreendentes, em quem se não conhecia ou em quem sempre esteve por perto, e que marca the beginning of a beautiful friendship…

Rir. Muito. Abertamente ou à socapa, a propósito e também a despropósito, de uma piada certeira, de um aparte inesperado, de uma situação constrangedora, de um cenário absurdo. E sobretudo dos delirantes erros, gaffes e enredos que constantemente me acontecem, graças ao meu intensivo multitasking e ao meu desmedido optimismo.

Abraços. De dar e de receber. Abraços apertados, envolventes, quentes. Silenciosos ou ruidosos, mas sempre expressivos – sejam macios de ternura, de consolo e de protecção ou vibrantes de partilha, de triunfo e de alegria.  

Alegria

músicas feitas de alegria, que sempre nos alegram. Como este Jauchzet frohlocket*, que abre a maravilhosa Oratória de Natal de Bach, estreada em 1734.

Ouvi-a pela primeira vez num já longínquo Natal, na tristonha Basílica da Estrela. Para sempre me ficou o extraordinário instante em que a funda e soturna abóboda explodiu em música que, luminosa e feliz, ressoou por todos os recantos, enxotando a desolada escuridão da igreja que era, então, a minha paróquia e da qual não sinto a falta senão dos sinos que, de quarto em quarto de hora, pautavam o meu dia e dos jacarandás que a rodeavam e que, quando floridos, me mantinham, deslumbrada, à janela. Voltei a ouvi-la nos dias que se seguiram, já em CD. Vezes e vezes sem conta. Crescia em mim a que seria a primeira das minhas filhas; escrevia a que seria a primeira das minhas teses. E sentia-me a mais afortunada das mulheres. A música, esta música, exprimia exactamente isso. De tal maneira que, ainda hoje, quando a ouço, é essa mesma transbordante alegria que ressurge em mim. Como quando, por qualquer outro motivo, me sinto assim de feliz, é ela que me ocorre.   

Por tudo isto é a minha música de Natal. Um verdadeiro shot de alegria. Forte, redonda, vermelha. O que é que a faz assim? A natureza profana da cantata Tönet, ihr Pauken! Erschallet, Trompeten!, composta um ano antes, em 1733, e que Bach em boa hora decidiu reciclar? A sua letra, irresistivelmente festiva e optimista, que a todos interpela, para lá do indecifrável alemão**? O apelar a tudo aquilo que nesta quadra aproxima crentes e não crentes – a celebração da vida e da confiança, do presente e do futuro, do amor e da amizade? Decerto a fabulosa conjugação de tudo isto. 

A todos desejo um Natal cheio de afecto e de esperança.

E com muita, muita alegria!!!   


* Esta a minha versão preferida, mas que não consigo trazer para aqui senão assim.

** Shout for joy, exult, rise up, glorify the day, praise what today the highest has done!, Abandon hesitation, banish lamentation, begin to sing with rejoicing and exaltation! Serve the highest with glorious choirs, let us honour the name of our ruler!

O gigante que gostava de histórias

Nasceu no País de Gales, de pais noruegueses que lhe deram o nome do herói da sua terra distante que o nosso Francisco aqui gelidamente sepultou. Media quase dois metros de altura e gostava de snooker, de orquídeas, de chocolate e de histórias. Sobretudo de histórias — de as ouvir, ainda pequeno, à mãe, que lhe falava dos gigantes e de outros seres fantásticos da mitologia nórdica; de as contar aos seus cinco filhos, à noite, antes de lhes apagar a luz. Participou numa expedição científica à Terra Nova, trabalhou para a Shell em África e foi piloto da RAF e espião ao serviço de Sua Majestade durante a II Guerra Mundial. Só depois começou a escrever, numa cabana ao fundo do jardim, no cadeirão que herdara da mãe, com uma prancha de madeira a servir de mesa. E sempre a lápis.        

É antiga a minha história com Roald Dahl. E desenrola-se de trás para a frente, o que faz todo o sentido, sendo ele o incomparável master dos twisted plots e dos surprise ends.    

Lembro-me de ver na televisão, teria uns treze ou catorze anos, Tales of the Unexpected, uma série cujos episódios eram antecedidos de um extraordinário genérico com música de realejo de feira e de uma provocatória e desconcertante introdução, muito ao estilo do Hitchcock Presents*, pelo próprio Roald Dahl, autor das short stories em que aqueles se baseavam. Os enredos eram imaginativos, estranhos, tortuosos, muitas vezes macabros, quando não perversos — mas sempre negra e irresistivelmente divertidos. Descobri entretanto lá por casa vários volumes das ditas short stories que a minha mãe, completamente addicted, trazia das viagens de trabalho a Inglaterra. Comecei pelas conhecidas, só para ver se eram mesmo assim. Eram so much better, so much more wicked and bizarre and spinechilling que as li todinhas. Porque, como dizia o próprio Dahl, “what’s horrible is basically funny – in fiction”. Ainda hoje as relembro amiúde e as revisito com gozo: Lamb for the Slaughter, Man from the South, William and Mary, The Way up to Heaven, The Great Switcheroo, Skin, Bitch, to name just a few …

Só muito depois descobri o delicioso Matilda, que devorei num ápice. De leitora do Dahl para crescidos, rapidamente me tornei — também — leitora do Dahl juvenil. Seguiram-se The Witches, Charlie and the Chocolate Factory, The Big Friendly Giant, The Magic Finger, The Twits, Esio Trot, Fantastic Mr. Fox e todos os outros. Muitos deram origem a filmes, altamente apreciados por estas bandas. Mas são os livros que são objecto de adoração – minha e das filhas, todas três, e também da vasta trupe de filhos de primos e de amigos, a quem a Tia Joana fez questão de iniciar neste estimulante vício. Porque não são muito grandes e até se conseguem ler bem e depressa, dizem os mais relutantes, surpreendidos, convertidos e já prontos para o próximo. Porque as histórias são fantásticas, dizem todos. E têm razão. Roald Dahl escreve para os mais pequenos como se fosse do tamanho deles: é pelos olhos límpidos e atentos dos seus protagonistas, quase sempre crianças, que vemos o mundo, aquilo que lhes sucede e, claro, os adultos. Que, com contadas e honrosas excepções, raramente saem bem no retrato: são insensíveis, insensatos e injustos. Pior, não percebem nem tentam perceber as crianças, tratam-nas sem afecto nem cuidado, gritam-lhes e metem-lhes medo. À conta disto, adultos há — estes reais, não de ficção — que alegam serem estes livros subversivos, logo impróprios para crianças. Decerto nunca tiveram professores retorcidos, vigilantes de recreio prepotentes, parentes assustadores, vizinhos antipáticos — digo eu. Porque não me ocorre outra explicação para que por completo lhes escape, não só o que de comicamente catártico têm tais histórias, mas sobretudo o que nelas mais importa: que os miúdos levam sempre a melhor porque são corajosos, optimistas, resilientes, lúcidos e inteligentes. É este, aliás, um ponto que me fascina e me encanta em Roald Dahl: ter sido capaz de produzir, às vezes em simultâneo, das mais tortuosas e arrepiantes histórias para adultos que li e estas deliciosas e tocantes histórias para crianças, a todas cunhando com a sua marca: uma portentosa e às vezes impiedosa combinação de agudo sentido crítico e de corrosivo humor. 

Há ainda as obras in between, catalogadas como infantis, mas em bom rigor para adultos, como as Revolting Rhymes, uma hilariante e politicamente incorrecta reelaboração dos tradicionais contos infantis — na qual o Capuchinho Vermelho mata o lobo a tiro e faz um casaco de peles e a Branca de Neve, exasperada porque os Sete Anões, jogadores inveterados, não acertam uma, surripia à madrasta o Espelho Mágico, para ter tips acarca dos cavalos vencedores … e acabam todos milionários.  

E, last but not the least, as ilustrações de Quentin Blake, que numa parceria feliz com a escrita criativa e exuberante de Dahl, que ainda hoje perdura, apreendeu a essência das figuras criadas por este e, ao desenhá-los, tornou-os ainda mais reais e adoráveis ou execráveis, conforme o caso. Gosto delas todas, mas, a ter de escolher uma, sem hesitar a menina leitora, de Matilda.   

Fez esta semana vinte anos que Roald Dahl morreu, a 23 de Novembro de 1990. Há muito que andava para o trazer para aqui. Pareceu-me ser esta uma boa ocasião.  * Foi aliás Hitchcock quem primeiro filmou algumas das short stories de Roald Dahl, entre 1958 e 1961, a saber: Lamb to the Slaughter, Dip in the Pool, Poison, Man from the South, Mrs Bixby and the Colonel’s Coat, The Landlady.  

Ontem, Hoje e Amanhã*

“Ora, menina, bate no que é dele!” Foi há uns trinta anos que pela primeira vez ouvi isto. Domingo, manhã cedo, no adro da igreja da aldeia das minhas férias. Não era incomum surgir uma mulher com a cara inchada, o olho raiado de sangue, o lábio rebentado. Causa de espanto só mesmo o meu espanto, diante de tal visão e da resignação da própria e das demais — “ai, o meu homem ontem bateu-me tanto”, “o meu também fica ruim quando bebe”. O meu “então e deixa que ele lhe faça isso?” fê-las rir, nervosas: “e o que há-de ela fazer?” Seguiu-se o remate, lapidar: “bate no que é dele”. Variante do deplorável “quanto mais me bates, mais gostas de mim”. Era outro tempo, outro contexto, feito de atraso, miséria e alcoolismo. Ou será que não?  

Cenas que se desenrolam diante de mim, relatos que me chegam. O namorado que batia vinga-se da ruptura fazendo montagens escabrosas com a imagem dela, que envia a conhecidos e colegas e espalha na net. O marido que vive com a amante mas submete a mulher ao silêncio e à humilhação de o ter na sua cama quando ele queira, ameaçando tirar-lhe os filhos, que ela não consegue sustentar, por ter trocado a promissora carreira por um emprego mal pago e tempo para a família. O sujeito que, diante de qualquer mulher que se destaque, regista que “curiosamente, ela é inteligente”. O mesmo e tantos outros que, em privado e em público, mandam calar a mulher, por ser “burra” e/ou não saber o que diz, a repreendem, ora com o “és mesmo incapaz de fazer o que quer que seja em condições”, ora com o “não prestas para nada” e rematam diferendos com um “enquanto for eu a pagar, sou eu quem manda aqui”. Casos raros de péssima e retrógrada educação, dinossauros condenados à extinção neste mundo de igualdade e paridade. Ou será que não?        

A minha filha teria dez anos. Um pretendente declarou-se. Rejeitado, insistiu. Sem êxito. Mudou de estratégia: nos recreios plantava-se com os amigos junto dela e chamavam-lhe “p—“. Repetidamente e aos gritos. Quando soube, passei-me. Ainda ponderei recorrer à via institucional, mas a mãe-leoa levou a melhor. Rugi: “da próxima vez, bem alto, para toda a gente ouvir, «p— é a tua mãezinha»… à minha responsabilidade!” Logo no dia seguinte, o moço deu o primeiro tiro e levou com a rajada, bem à vista da sua entourage e de quantos mais ali estavam. Ficou histérico: gritou, esbracejou, soluçou descontrolado. Foi preciso chamar a psicóloga. Soube depois, por várias mães, que as filhas haviam passado pelo mesmo, com estes e outros meninos. E que “lésbica” era também de uso corrente, para o mesmo efeito. Miúdos malcriados, idades parvas, excessiva sensibilidade e ferocidade da minha parte. Ou será que não?

 São casos muito diferentes entre si, na sua gravidade, dir-se-á. Pois são. Estão todos a anos-luz das atrocidades a que são submetidas meninas e mulheres noutras latitudes, noutros ambientes culturais e religiosos, acrescentar-se-á. Pois estão. Não se trata, é certo, de violações em cenário de guerra, de casamentos forçados de meninas ainda crianças, de mutilação genital, de crimes de honra ou motivados pelo incumprimento do dote ajustado, de aborto selectivo ou de infanticídio de recém-nascidos do sexo feminino: a lista de barbaridades é bem conhecida e ressurge todos os anos por esta altura, perturbadora e ilustrada por números que nos gelam. 

Mas importa não esquecer que à cabeça deste rol de infâmias, pela sua frequência, vem a violência inflingida à mulher pelo que é ou foi seu companheiro, seja através de espancamento, de coerção sexual ou de formas variadas de abuso psicológico e emocional. Segundo números da ONU, do total de mulheres que por todo o mundo tombam vítimas de homicídio, cerca de metade morre às mãos dos seus intimate partners. Em Portugal, em 2010, a violência doméstica causou já 39 mortes e 37 tentativas de homicídio (respectivamente mais 10 e mais 9 que em 2009).    

E convém ter presente que esta e as demais formas de violência referidas radicam numa visão profundamente discriminatória da mulher, no casal e na família, marcada pela sua subordinação à autoridade do homem, na sua instrumentalização à satisfação de interesses tidos como preponderantes e na desvalorização das suas capacidades pessoais e necessidades de desenvolvimento e de realização individual.

A violência sobre as mulheres, não há como negá-lo, faz parte da nossa realidade. Atravessa todos os estratos sociais, económicos, geracionais ou etários. E tende a subsistir e a replicar-se, fruto de uma pesada herança cultural, feita de atitudes, de estereótipos e de papéis, aprendidos e, não raro, banalizados como suposta expressão característica e inevitável do nosso modo de ser e de viver.

Pior, a ânsia de poder e de controlo que subjaz a esta violência convive muitíssimo mal com o sucesso profissional, a independência financeira e a autonomia emocional conquistadas pelas mulheres. Com a crescente consciência de que quem ama, não deprecia nem sufoca, de que o casamento se vive, não se aguenta. Estudos recentes apontam para um assustador aumento desta violência, potenciado pela insubmissão daquelas perante atitudes masculinas hoje vistas como inaceitáveis.

Tudo isto me incomoda e me dá que pensar, enquanto mulher que vive neste mundo e mãe de três filhas que, temo bem, terão ainda de travar duros combates nesta frente. Porque esta violência cruel e injusta é um problema de ontem, de hoje e também de amanhã. E é a clara noção disso que nos exige que preparemos os nossos filhos para o enfrentar e, quem sabe, debelar em definitivo. Explicando aos meninos que ser homem não é ser bruto, que as mulheres se conquistam e se mantêm, não se compram, nem subjugam. Ensinando as meninas a prezar e a, em caso algum, abrir mão da sua individualidade, autonomia e dignidade. Com a palavra e com o exemplo. É essa a nossa responsabilidade.

* Texto escrito em resposta ao desafio que me foi lançado pela Luciana, do Borboletas nos Olhos, para me associar, com ela e muitos outros, à iniciativa “ativismo online – FimDaViolenciaContraMulher”, a propósito do Dia Internacional para a Erradicação da Violência Contra a Mulher, que hoje se comemora em todo o mundo (e originalmente publicado aqui).    
Inaceitável, Indesculpável, Intolerável

There is one universal truth, applicable to all countries, cultures and communities: violence against women is never acceptable, never excusable, never tolerable.

Ban Ki Moon, Secretário Geral da ONU, no lançamento da campanha UNiTE 

Foi em 1999 que uma resolução da Assembleia Geral da ONU fixou 25 de Novembro como International Day for the Elimination of Violence Against Women, uma data especialmente dedicada à promoção de iniciativas e actividades visando alertar e sensibilizar para um problema que assume,nos dias que correm - a expressão é da UNIFEM - pandemic proportions

A data, que já desde 1981 era informalmente consagrada a tal objectivo por inúmeras organizações, sobretudo na América Latina, coincide com a do assassinato, em 1960 — faz hoje precisamente 50 anos -, das três irmãs Mirabal, activistas políticas dominicanas. Pátria, Minerva e Maria Teresa (então com 36, 34 e 25 anos) destacaram-se na oposição à ditadura de Trujillo, tendo sido por diversas vezes detidas, torturadas e condenadas a penas de prisão. Na data que hoje se assinala, e por ordem daquele, Las Mariposas (era esse o seu nome de código) foram atraídas a uma cilada quando regressavam de uma visita aos respectivos maridos, presos por motivos políticos, e espancadas até à morte.  

Para assinalar esta data, a nossa Luciana Nepomuceno decidiu aderir à iniciativa, promovida por um grupo de blogueiras e tuiteiras brasileiras, de cinco dias de ativismo online, a culminar numa blogagem colectiva a 25 de Novembro, para destacar a data, promover a reflexão e a acção e produzir e divulgar material sobre o tema nas redes sociais e demais espaços de formação e informação disponíveis. Generosa, fez convites, dando a outras e a outros a possibilidade de dar o seu contributo para esta causa, actual, premente e justa. O resultado: uma semana de posts diários, lançada pela própria, com emoção e entusiasmo, no passado sábado, 20 de Novembro, e ao longo da qual o seu, já de si vermelho, Borboletas nos Olhos tem estado literalmente ao rubro:

* com o fabuloso texto do seu amigo Évio Gianni, do blog Contra a maré, escrito a pensar na filha dele, mas que todas as mães e pais deveriam dar a ler às suas; 

*com a surpreendente e tão deliciosa quanto perturbadora fantasia no feminino a várias vozes da também já nossa Teresa Font;

* com o bem disposto texto da bem disposta Lica, que calha ser irmã mais nova da Luciana e que, como esta, também bloga, agora no Imagem e Semelhança;

* com a irreverente e provocadora abordagem  do seu amigo Gui, que escreve no Ás de Espadas;

* e, so far, também com este meu texto, que a Luciana tão gentilmente decidiu publicar nesta simbólica data.

Porque a semana tem sete dias e porque, como nas bodas de Canãa, o melhor vinho vem no fim, seguir-se-ão mais dois contributos, de duas queridíssimas e transatlânticas visitantes aqui do cemitério.   

Foi um gosto e uma honra participar nesta experiência, para mim totalmente nova, diferente e inesquecível.

 

Para os mais curiosos e/ou interessados, deixo aqui os links para alguns dos envolvidos nesta blogagem colectiva — o Pimenta com Limão e o Contramachismo, ambos do Brasil, e o nomasviolenciacontramujer, do Chile — de um outro blog, onde Cynthia Semiramis trata estes temas e do grupo do Facebook relativo a esta iniciativa.   
Guilhermina Suggia

GUILHERMINA SUGGIA

(Porto, 27 de Junho de 1865 — 30 de Julho de 1950)

 

Bach. As Cello Suites. Era o que tocava a violoncelista, nas inúmeras sessões que decorreram entre 1920 e 1923 no estúdio do artista. Este, completamente fascinado, procurava captar-lhe os movimentos, o temperamento, o brilho. O resultado, este poderoso retrato, que exprime o completo domínio do instrumento, a absoluta entrega e a fortíssima presença da intérprete — imponente e sensual no arquear do braço bem delineado, na firmeza das mãos longas e esguias, na cabeça inclinada, os olhos fechados como num êxtase. Tudo isto potenciado pelo fabuloso vestido vermelho. Um retrato que, de tão intenso, quase se ouve. Madame Suggia, se consagrou Augustus John (1878−1961) como retratista, definiu para sempre a imagem de Guilhermina Suggia. E, tal como esta ao longo da sua extraordinária vida, contribuiu decisivamente para desfazer o arreigado preconceito de que o violoncelo era um instrumento impróprio para mulheres.

Gulhermina Suggia (1885−1950) não foi a primeira a fazer carreira profissional como violoncelista. Várias houve que a precederam – com destaque para a francesa Lisa Cristiani (1827−1853) – mas cuja notoriedade se deveu em boa parte à originalidade que representavam. O violoncelo era então considerado um instrumento eminentemente masculino. Pela gravitas do seu som, assunto sério que vozes autorizadas decretavam incompatível com a ligeireza típica das interpretações femininas. Pela força física que se julgava necessária para para dele extrair um som adequadamente grandioso. E, sobretudo, por impor à mulher uma posição tida como muito pouco decorosa e nada elegante. Graças à sua técnica impecável e à sua arrebatadora presença em palco, que fizeram dela uma das maiores solistas do seu tempo, Guilhermina Suggia foi inquestionavelmente a primeira a gozar de um reconhecimento sem reservas e sem acepção de género.

Tinha 5 anos quando começou a ter aulas de violoncelo com o pai, que cedo reconheceu as suas excepcionais capacidades e tudo fez para lhe permitir desenvolvê-las. Estreou-se em público ainda criança com a irmã, pianista. Já adolescente, integrou o quarteto liderado pelo violinista Bernardo Moreira de Sá. Com apenas 16 anos, recebeu uma bolsa régia para prosseguir estudos no estrangeiro. Escolheu o Conservatório de Leipzig, o mais conceituado da época. E apesar de aquela cobrir uma estadia de três anos, Guilhemina progrediu tão rapidamente que concluiu a sua formação em menos de metade desse tempo. De imediato iniciou uma impressionante carreira de solista, tocando com as principais orquestras, por toda a Europa.

Radicada primeiro em Paris e depois em Londres, Guilhermina Suggia conquistou o apreço e o respeito unânimes dos músicos seus pares e gozou de uma imensa popularidade junto do público. O seu sucesso assentava numa combinação insuperável e meticulosamente calculada de precisão, sentimento e carisma. Partilhou por diversas vezes o palco com violoncelistas como Pablo Casals e com pianistas como Arthur Rubinstein e Wilhelm Backhaus. O seu reportório era vasto e abrangente, incluindo, entre outros, os concertos de Dvořak, Elgar, Haydn, Saint-Saëns e Schumann, o Kol Nidrei de Bruch, as Variações de Böllmann, a Peça em Forma de Habanera de Ravel ou a Dança do Fogo do Amor Brujo de Falla. E, above all, as Suites para Violoncelo de Bach — as suas preferidas e nas quais, atestam quantos assistiram, era simplesmente sublime.

Da sua vida privada é bem conhecida a ligação com Pablo Casals, com quem viveu em Paris — sem nunca terem chegado a casar, supõe-se que por persistente recusa sua — entre 1906 e 1913. Suggia tivera aulas com Casals anos antes, durante uma estadia dele em Espinho, tinha ela 13 anos e ele 22. Reencontraram-se em Leipzig, mas só depois, já em Paris, surgiu a paixão. Durante esse periodo, Suggia e Casals tocavam frequentemente juntos, tendo-lhes sido dedicados o Duplo Concerto para Violoncelo e a Suite para Dois Violoncelos, de Emanuel Moór, e a Sonata para Dois Violoncelos, de Donald Tovey. A relação não resistiu, contudo, à desmedida intensidade de temperamentos. E também à legítima ambição de um e de outro, lançados em exigentes carreiras, das quais nenhum estava disposto a abdicar. Os destemperados ciúmes de Casals consta que não terão ajudado. Suggia deixou-o e partiu para Londres, onde se radicou. O fim, amargo, deixou feridas em ambos. Suggia nunca mais se referiu a Casals senão em termos estritamente profissionais. Quanto a este, recusava falar de Suggia a entrevistadores e biógrafos, dizendo apenas que o seu período com ela fora “o mais cruelmente infeliz” de toda a sua vida. Sabe-se também que, já em Londres, chegou a estar noiva de um aristocrata inglês, mas que decidiu, afinal, não casar. Haveria de o fazer, muito mais tarde, já de regresso ao Porto, com um médico portuense. Também nesta vertente da sua vida, Guilhermina Suggia foi percursora. Escolheu manter a independência e a disponibilidade para se dedicar em pleno à sua carreira e, ao fazê-lo, firmou a possibilidade e a legitimidade de uma outra via de realização, à sua medida, que não passasse pelo casamento e pela vida doméstica.

Não teve filhos, mas nem por isso deixou de ser fecunda. À sua maneira, deu vida a muitas outras vidas, as dos jovens e talentosos violoncelistas que, sabia, viriam depois dela, e aos quais destinou quase todo o seu património. Os seus preciosos violoncelos foram legados ao Conservatório de Lisboa (o Lockey Hill, de finais do séc XVIII), do Porto (o Montagnana, de 1700) e à Royal Academy of the Arts (o Stradivarius de 1717), os dois últimos com expressa indicação de que deveriam ser vendidos pelo melhor preço e com este serem constituídos fundos destinados a bolsas de estudo. Por sua vontade e meios foram criados, em Portugal e em Inglaterra, esquemas de apoio que beneficiaram incontáveis violoncelistas em formação — a saber, o Prémio Guilhermina Suggia, atribuído pelo Conservatório do Porto, o Suggia Trust, administrado pelo Arts Council of Great Britain e o Suggia Prize, da Royal Academy of Music. De entre todos eles, a mais conhecida foi decerto Jacqueline du Pré que, em 1955, com apenas 10 anos, recebeu uma bolsa para ter lições com William Pleeth, e a quem, subsequentemente, o Suggia Trust tornou possível prosseguir estudos com Pablo Casals e com Paul Tortelier.

Guilhermina Suggia deixou-nos fez este ano 60 anos. Porque gostava acima de tudo de tocar ao vivo, gravou muito pouco. São raros os seus sons que entre nós permanecem. Encontrei este belíssimo Kol Nidrei, de Bruch, que aqui deixo.  

A Menina do Meio

Não é fácil ser-se o filho “do meio”. Nasce-se para logo descobrir que jamais se terá o inquestionável estatuto do primogénito. Pior, que se tem de disputar atenção e cuidados com esse ser hiper-estimulado e egocêntrico, pólo de todas as expectativas e ansiedades parentais*. Ocupa-se brevemente o delicioso lugar do mais novo, do qual se é um dia privado pela chegada de nova criatura, para sempre pequenina, que o ocupa, feroz, sem a menor intenção o partilhar. Não se é o maior nem o menor — e se calha ser assimilado a um ou a outro, é quase sempre para efeitos dos quais que de bom grado se prescindiria. Vive-se “ensanduichado”, à procura de uma especificidade que tarde ou nunca é reconhecida**.

É esta a condição da minha filha Joaninha, a menina do meio.

Penso nisso quando penso nela. E sempre que o faço, constato fascinada como o omnisciente Criador, antecipando o duro destino que a esperava, a abençoou com tantas e tamanhas graças, que, desde que nasceu, usa como respira.

Tudo nesta minha filha marca. A impressionante combinação de beleza e charme, que desde os risonhos, rosados e rechonchudos tempos do berço a torna irresistível***. A intensa e fortíssima personalidade, feita de determinação, persistência, lucidez, frontalidade, coragem e desembaraço, nem sempre fáceis de gerir, pela própria e pelos próximos. O humor, delicioso de tão certeiro e implacável. A apuradíssima sensibilidade estética, de par com um incomum sentido crítico. E, last but not the least, o desmedido gosto pela vida, por tudo o que esta de bom e de belo tem para gozar.

É de longe a filha que mais luta me dá. Fazemos muita faísca. Não é dócil, nem obediente, nem submissa. Desafia-me e resiste-me. Tira-me do sério. Está invariavelmente no centro de qualquer furacão que varre esta casa: leva a amável e tranquila Madalena ao desespero, põe a temperamental e dramática Teresinha em ponto de rebuçado. Pior, não se deixa abalar com raspanetes, nem mostra medo de ameaças ou castigos. Teria uns três ou quatro anos quando, após ouvir, impávida, uma das minhas temíveis descomposturas, me advertiu, séria e grave: “a mãe fala assim comigo e depois eu não sou amiga da mãe”…           

Esta e outras desconcertantes pérolas do género cedo me fizeram perceber que com este feitio de antes quebrar que torcer, o approach teria de ser outro. Que rapidamente teria de decifrar esta minha filha, para a não perder. Naquela cabeça racional e pragmática, as coisas ou fazem sentido, ou não. Se não, nada feito. Se sim, tudo. Ganhar o seu respeito e consideração exige doses apreciáveis de firmeza, total coerência, alguma humildade e muita flexibilidade. Não é tarefa fácil, nem com fim à vista. Mas a dedicação, a generosidade, a lealdade e a doçura com que corresponde justificam o esforço feito que, bem vistas as coisas, não é tanto assim …

Em tudo o mais, é mais uma adolescente. Que suspira pelo Justin Bieber (e ocasionalmente pelo princípe Caspian)****. Que muda, dia sim dia não, a foto do perfil do Facebook. Que passa horas em frenéticas trocas de sms ou ao telemóvel, à meia-voz exigida pela super confidencialidade dos assuntos. Que sai de casa de manhã, sempre em grande estilo e sempre com dez minutos de atraso, deixando atrás de si um intenso rasto de perfume e um dantesco cenário de atentado à bomba, com roupa “explodida” por todo o quarto.

Igualzinha a tantas outras, acrescentaria. Se desconhecesse as suas extraordinárias preferências, que incluem colares e brincos de ónix, múmias e divindades egípcias, répteis (sobretudo cobras), uvas descascadas e nêsperas, chocolate branco, cães husky, programas e livros de culinária e experiências da mesma (para a qual revela excepcional talento) e um número considerável de furos, piercings e tatuagens que (julga ela) um dia a mãe vai autorizar… Ou o especial gosto que tem no facto de os seus olhos serem de distintos tons de castanho. E, sobretudo, se não soubesse o muito que a Joaninha detesta ser igual a toda a gente…  

Faz hoje treze anos, esta menina afortunada e diferente, que todos os dias me surpreende e encanta.  

 

* De primogénitos falo com cabal conhecimento de causa, primeira que fui da minha geração a nascer: filha, neta, bisneta, irmã e prima, sempre a mais velha …  
**Tudo isto evidentemente se agrava quando o trio é todo do mesmo género, sem o consolo que advém de se ser o único/a menino ou menina, o mais velho/a ou o mais novo/a, deles ou delas, conforme o caso.
*** Com todo o à vontade o afirmo, pois das minhas três filhas é a única que fisicamente em nada se parece comigo.
**** Em matéria de suspiros, estou evidentemente impedida de transpor os estritos limites da ficção …
Teúda e Manteúda, a outra legítima

TEÚDA E MANTEÚDA

(1 de Julho de 1867 — 3 de Novembro de 1910)

 Amante. Amásia. Concubina. Manceba. A outra. Mas não qualquer outra. Teúda e manteúda, porque de casa posta, sustentada pelo seu casado benfeitor, o qual provia a todas as suas necessidades materiais, a troco da sua constante e plena disponibilidade e da exclusividade dos seus favores.  

A teúda e manteúda fazia parte do modelo social da época. Reflectia a prosperidade e alimentava a vaidade daquele que a tomava e mantinha, permitindo-lhe exibir ao círculo em que se movia a sua virilidade e o seu domínio dos ways of the world. E, não faltava quem o sustentasse, seria também o sustentáculo de muitos casamentos, ajustados e mantidos por conveniências várias, da continuidade de nomes e títulos, à consolidação de património, passando pelo mutuamente vantajoso intercâmbio de prestígio social e conexões relevantes por desafogo económico, assente em fortuna recente.    

Por tudo isto, mais que tolerada, era aceite. Pela sociedade, que nela não via, muito pelo contrário, uma ameaça à harmonia conjugal e à paz doméstica. Pela mulher casada, desde tenra idade instruída para ser boa esposa e mãe, logo bem ciente dos deveres que lhe cabia cumprir, se não com entusiasmo, ao menos com boa cara — e dos quais fazia parte o não tomar conhecimento de certas coisas. Porque o homem, já se sabe, tem necessidades.   

Sucede, porém, que entre nós se foi além, muito além, nesta matéria. E durante mais de 40 anos a teúda e manteúda beneficiou de um raro e extraordinário estatuto, que não só lhe reconhecia e banalizava a existência, como a legitimava, enquanto ocorrência normal na vida de um homem casado. Dentro de certos limites, impostos pela decência e pela razoabilidade, claro. Eu explico.

O nosso primeiro Código Civil, aprovado por Carta de Lei de D. Luís, de 1 de Julho de 1867, impunha a mulher e marido a obrigação de “guardar mutuamente fidelidade conjugal”, mas modelava o conteúdo desta bem ao sabor dos padrões vigentes. Donde, se permitia o divórcio perante o “adultério da mulher”, sem mais, exigia, para o mesmo efeito, sendo o homem a cometê-lo, além do propriamente dito adultério, que este envolvesse “escândalo público”, “completo desamparo da mulher” ou, pior, que se consumasse “com concubina teúda e manteúda no domicílio conjugal”*. O Código Penal de 1886 confirmava esta desigual valoração dos adultérios, punindo a mulher prevaricadora e o seu cúmplice com prisão “de dois a oito anos” enquanto aplicava ao “homem casado” que tivesse “manceba teúda e manteúda na casa conjugal” uma singela multa**.  

Da primeira destas esclarecedoras normas resultava, antes de mais, que fora dos casos nela descritos, em que o adultério marital ocorria em circunstâncias inaceitáveis, porque especialmente embaraçosas ou indignas, o mesmo era irrelevante. Ainda que decorresse de forma continuada, estável e organizada, com uma amante fixa e oficial. E resultava também a atribuição a esta de uma posição própria, como mulher de facto, com o seu espaço e os seus deveres bem definidos: desde que soubesse ser discreta e moderar as suas expectativas, i.e., manter-se no seu lugar, a teúda e manteúda gozava do beneplácito e da protecção da lei, enquanto amante legítima — tão legítima quanto a legitima esposa, cuja existência e papel social lhe cabia respeitar e em momento algum questionar ou cobiçar.

Mas porque não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe, este estado de graça da teúda e manteúda haveria de chegar ao fim.  

A Lei do Divórcio, elaborada nos primórdios do regime republicano, sob forte pressão das organizações feministas que, tendo contribuído para o triunfo da revolução, exigiam a adopção das mudanças por que haviam lutado, traçava um regime todo ele baseado na igualdade entre mulher e marido – quanto à designação daquele com quem ficariam os filhos, à partilha de responsabilidades com a sua educação e sustento, à prestação de alimentos entre ex-cônjuges e, inevitavelmente, quanto aos motivos do divórcio.   

A complacência do Código Civil novecentista em matéria de adultério masculino deu lugar à estrita aplicação ao marido do que valia já para a mulher. O elenco legal de causas de divórcio litigioso passou a referir, ao lado do “adultério da mulher”, o “adultério do marido” – sem contemplações, graduações ou nuances. No plano criminal, o adultério deste foi expressamente “igualado em carácter e gravidade ao da mulher” e como este punido com prisão***. Do adúltero e da sua cúmplice, claro.  

Estas novas regras tiveram um impacto tremendo na pacata e confortável existência que levava a teúda e mantéuda. Por via da triunfal preponderância nelas assumida pela mulher casada — doravante a única legítima parceira, não mais forçada a suportar a sua vexante concorrência – foi remetida à clandestinidade e desqualificada, numa degradante equiparação, dentro da torpe categoria das “outras”, às mulheres fáceis e promíscuas e às imorais mancebas de portas adentro. Porque não há duas sem três, passou a estar em risco de humilhação pública, como co-ré num divórcio litigioso ou, pior, e sendo essa a opção da esposa ultrajada, ser presa, como cúmplice de adultério criminoso, porque cometido “durante a vida dos cônjuges em commum”****.

Ou seja, de uma assentada passou de elemento estabilizador do casamento, a co-responsável pela ruína do mesmo. Derrotada em toda a linha, a teúda e manteúda não deixou, evidentemente de existir. Mas, porque o seu tempo passara, a sua vida mudou. Muito e para muito pior.

Foi a 3 de Novembro de 1910. Faz hoje 100 anos.


* Artigos 1184.º, § 1.º, e 1204.º, §§ 1.º e 2.º, respectivamente, do Código Civil de 1867.
** Artigos 401.º, § 1.º, e 404.º, § único, respectivamente.  
*** Artigos 4.º, §§ 1.º e 2.º, e 61.º, § 1.º, respectivamente, do Decreto com força de lei, de 3 de Novembro de 1910, o último dos quais alterou o Código Penal, reduzindo para dois anos o prazo máximo da pena de prisão aplicável.
**** Artigo 61.º, corpo e § 1.º, do Decreto com força de lei, de 3 de Novembro de 1910: tal como sucedia já no direito anterior, “o cônjuge offendido” teria “de optar pela acção criminal de adulterio ou pela civil de divórcio (…) com base em adulterio, não podendo cumulá-las em caso algum”.
Apesar de tudo

- Foi ele o amor da tua vida, não foi? Quero dizer, apesar de tudo …

Sentiu o olhar das duas amigas fixo nela. Diante de si a fotografia que a apanhara desprevenida, ao virar da página do álbum que uma delas trouxera para o almoço das sextas-feiras. Fui ajudar a minha mãe a esvaziar o sótão, por causa das obras no telhado e já viram o que encontrei?  

O amor da tua vida. Muito gosta esta boa alma de etiquetas, rótulos, letreiros. Como se tudo fosse assim tão simples. Se calhar é, para ela. Que sorte. Ou então, não.

Apesar de tudo.

Apesar de tudo o que acontecera?

Lá está ele, à esquerda. Mesmo ele. As mãos esguias. A melena loura e desgrenhada. O ar de miúdo. Com ele vivera tudo o que sonhara – paixão, casamento, filhos, projectos, desafios. E também um longo pesadelo de incompatibilidade, distanciamento, desconfiança e raiva. Eram muito novos e tinham crescido — ela, pelo menos, que ele jamais o faria — em direcções opostas. Tinham jurado ser fiéis – e ele não o fora. Respeitar-se – e ela não conseguira. Amar-se – e Deus, como se tinham chegado a odiar! Os anos haviam atenuado ressentimentos e mágoas. Já conseguiam estar juntos e até conversar. Fazia, ainda assim, por não se rir das piadas dele, não se deixar arrastar nos seus empolgantes relatos. Impressionante como nele nada mudara. Como ele mantinha inteiras a irreverente despreocupação e a alegre irresponsabilidade. E a irresistível graça que, sabia-o bem, fora – e, deixasse ela, seria de novo — a sua desgraça…         

Apesar de tudo o que poderia ter acontecido?

Ao centro. Ele. Forte e consistente, por fora como por dentro. Sereno, sensato e generoso. Profundamente bom. Sempre gostara dela. Por amor, como dizem os miúdos. E ela sabia. Nunca lhe dera falsas expectativas. Mas abusara, isso sim, das suas infinitas dedicação e paciência. Todas as vezes que o seu mundo desabara – e haviam sido tantas -, fora nele que se refugiara. Para chorar desgostos, bradar revoltas, ouvir conselhos. Várias vezes, ao longo dos anos, se perguntara porque não aceitava o amor incondicional daquele homem extraordinário. Seriam decerto felizes: ele seria incapaz de a magoar. Não, não seríamos: porque não basta só um amar, têm de ser os dois. E ela não o amava, não dessa maneira. Foi então que tudo mudou: ele estivera fora, pouco soubera dele por uns tempos. No regresso, vira-o com outros olhos. Teve a certeza de que iriam ser felizes, muito felizes. Ainda hoje tinha. Não fora a morte dele, naquele estúpido acidente. Já lá iam dois anos e raro era o dia em que não pensava nele, no tempo que tinham perdido, no que teria sido a sua vida.   

 Apesar de tudo o que (ainda) não acontecera?

À direita. Ele. Cabeça baixa, reservado, esquivo. Começara por embirrar. Como não? Giro e com pinta de sedutor, um sucesso junto das meninas, que lhe caíam todas aos pés. Sem sorte, coitadas, porque definitivamente ele não se deixava prender. Tontas, não vêm que ele é um pateta? Até que chegara a sua vez. Fora tudo muito rápido: a muralha de desconfiança, má vontade e certezas absolutas ruíra diante do que apercebera por detrás de tanta pose. Apaixonara-se perdidamente. Tentara conquistá-lo. Em vão. Ele ou não percebia ou fingia não perceber. Persistiu, sofreu, penou. Até que, desesperada, desistiu. Declarou-o assunto encerrado, listou-lhe defeitos, fez por o esquecer. Só não tinha como. Era uma doença crónica: se os seus amores corriam de feição, a coisa mantinha-se dentro de um certo controlo; se estava fragilizada, e ele aparecia, sorridente e afectuoso, recaía. Sempre na mesma vexante versão teenager, feita de palpitações, devaneios e esperanças infundadas. Obsessão, será isto uma obsessão? Ou um mero caso mal resolvido, de que no jantar de há dias tantas se queixavam? Fosse o que fosse, ele fora, era ainda, um problema. Um belo dum problema.            

Sorriu e encarou as amigas, do outro lado da mesa.

- Ele, o amor da minha vida? Claro que sim! Apesar de tudo, dizes bem …

A Primeira de Muitíssimas

Foi a 24 de Outubro de 1910. Faz hoje 100 anos.

Regina Quintanilha (1893−1967), então com 17 anos, atravessou a Porta Férrea, que dá acesso ao Pátio das Escolas, onde se situa a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Era o seu primeiro dia de aulas. Era também a primeira vez que uma mulher frequentava o curso de Direito, em Portugal. A sua matrícula, um mês antes, motivara uma reunião do Conselho Universitário, na qual fora discutida e aprovada a sua admissão. Foi acolhida em ambiente festivo pelos colegas, que atapetaram a entrada com as suas capas e formaram alas para lhe dar passagem.

Valendo-se do recentemente instituído regime de cursos livres*, Regina concluiu o seu em três anos, tendo sido, de imediato, convidada para reitora do recém-criado Liceu Feminino de Coimbra. Recusou, pois tinha outros planos — queria ser advogada. Apesar de a lei então vigente lhe vedar, por ser mulher, o exercício de tal profissão**. O obstáculo, à primeira vista intransponível, foi removido pelo Supremo Tribunal de Justiça que, em sessão plenária, decidiu conceder-lhe uma autorização especial para advogar. E foi no uso desta que, a 14 de Novembro de 1913, Regina Quintanilha, com apenas 20 anos, se estreou no tribunal da Boa Hora, em Lisboa, como defensora oficiosa de duas mulheres acusadas de agressão, tornando-se na primeira mulher a exercer a advocacia em Portugal.

Regina Quintanilha foi também – e de novo pela primeira vez entre nós – conservadora do Registo Predial e notária. Mas foi à advocacia que principalmente se dedicou, durante mais de quarenta anos, em Portugal e também no Brasil e nos Estados Unidos (tendo tido escritório no Rio de Janeiro e, mais tarde, em Nova Iorque).

Como jurista, agrada-me especialmente evocar esta data e a mulher talentosa e trabalhadora que a protagonizou. Foi o início de um longo, longo caminho, que demorou e custou a percorrer.

 Se o acesso da generalidade das mulheres à advocacia pouco tardou — remonta a 1918*** -, o mesmo não sucedeu com a magistratura, que lhes permaneceu vedada até 1974****. Foi, por isso, só em 1977 que tomou posse a primeira juíza portuguesa, Ruth Garcêz (1923−2006), que se tornou também a primeira Juíza-Desembargadora, quando integrou o Tribunal da Relação de Lisboa, em 1993. No que se refere aos tribunais superiores, haveriam de mudar século e milénio antes que neles dessem entrada as primeiras Juízas-Conselheiras — Maria Laura Maia Leonardo (1937), no Supremo Tribunal de Justiça, em 2004, e Isabel Marques da Silva (1970), no Supremo Tribunal Administrativo (secção de contencioso tributário), em 2009. A mudança chegara bem mais cedo à justiça constitucional, com a nomeação, em 1976, de Isabel Maria de Magalhães Collaço (1926−2004) como vogal da Comissão Constitucional, que antecedeu o actual Tribunal Constitucional, cuja primeira juíza foi Maria da Assunção Esteves (1956), em 1989. No plano académico, Isabel Maria de Magalhães Collaço foi a primeira — e durante quase quarenta anos, a única – mulher a doutorar-se em Direito em Portugal, em 1954. Apesar da sua extraordinária média de licenciatura e da excepcional qualidade da sua dissertação, não foi isenta de controvérsia e, por isso mesmo, não imediata, a sua admissão como docente na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.  

Direito é, hoje, um curso com uma fortíssima componente feminina. O número de raparigas excede largamente o de rapazes nas salas de aula. As mulheres estão em força em todas as profissões jurídicas: é muito expressiva e não pára de crescer a percentagem, que já ultrapassou os 50%, de advogadas, juízas, procuradoras e funcionárias judiciais, nos nossos tribunais. São também mulheres a maioria dos solicitadores e uma parte muito significativa dos notários e conservadores. O mesmo sucede no ensino universitário e na investigação: o total de professoras, nos vários graus da carreira académica e nas várias faculdades anda muito perto da metade, quando não a excede. Existem, é claro, excepções, como os tribunais superiores, em que é ainda exígua a componente feminina, mas será evidentemente uma questão de tempo – e não muito.

Foi um caminho felizmente sem retorno aquele que trilhou Regina Quintanilha primeiro e, tantas, tantas outras depois dela. E é muito gratificante constatar o quanto que se avançou nestes cem anos — mesmo sabendo do muito que falta ainda percorrer.    

 

* Decreto com força de lei de 23 de Outubro de 1910, publicado no Diário do Governo de 24 de Outubro de 1910, faz hoje também 100 anos, que declarou “supprimido” o ponto “tomado aos alumnos” da universidade, ficando “a partir d’esta data, livres os cursos de todas as cadeiras das differentes faculdades”. Este novo regime permitia aos alunos, não mais obrigados a assistir às aulas, elaborar o seu próprio plano de estudos, com cadeiras de qualquer ano do curso e porventura de outros.
** O artigo 1354.º, n.º 2, do Código Civil de 1867 expressamente proibia que fossem “procuradores em juízo (…) as mulheres, excepto em causa própria ou de seus ascendentes, e descendentes ou de seu marido, achando-se estes impedidos”.    
*** Decreto n.º 4876, de 17 de Julho de 1918.
**** DL n.º 492/74, de 27 de Setembro, que revogou o art. 488.º, § 4.º, do Código Administrativo de 1940, que enumerava uma série de cargos a que só poderiam concorrer candidatos de sexo masculino.
Back from the underworld

Frances Hodgson Burnett, Etty Hillesum, Irène Némirovsky, Mollie Panter-Downes, Winifred Watson, Dorothy Whipple, Edith Wharton, Marghanita Laski, Katherine Mansfield, Dorothy Canfield Fisher, Virginia Woolf e tantas, tantas outras.

Viveram e escreveram na primeira metade do séc. XX. Tiveram sucesso e gozaram de amplo reconhecimento. Pelas mais variadas razões, foram caindo no esquecimento. Os seus livros deixaram de ser editados ou reimpressos. Os exemplares publicados, confinados a colecções privadas ou a bibliotecas, tornaram-se dificilmente acessíveis, lembrados por poucos, conhecidos por cada vez menos. Até recentemente.

A Persephone Books é uma pequena editora indie inglesa, que publica principalmente neglected fiction and non-fiction by women, for women and about women (apesar de o seu catálogo incluir vários non-female authors). O nome, inspirado na deusa grega, filha de Zeus e de Deméter, raptada por Hades e por ele levada para o mundo dos mortos, onde vive e reina metade do ano (durante a qual a sua desgostosa mãe não cuida da terra e das colheitas) e de onde regressa na outra metade (fazendo com que a alegria materna encha a terra de flores e de frutos), não pode ser mais apropriado: do que se trata é de evocar new beginnings and fertility, as well as female creativity and domesticity. Os livros, apresentados como readable, thought-provoking and impossible to forget são, além do mais, belíssimos – paperbacks com sofisticadas capas que, ora reproduzem pormenores de quadros da época, ora contrastam o cinzento minimalista do exterior com as coloridas guardas (e marcas), a reproduzir padrões de tecidos de então (ou neles inspirados). Os títulos editados são, até ao momento, noventa, entre romances, colectâneas de short stories, diários e livros de cozinha. E são prefaciados por escritoras ou estudiosas consagradas.   

Quem me falou desta editora, dos seus livros e da sua encantadora livraria, no centro de Londres, foi a minha amiga Sofia, que costuma escrever aqui e que sabe coisas fantásticas sobre livros e sobre sítios. Pouco antes de eu partir para uns dias em Inglaterra, com o meu irmão, fez-me uma extensa e variada lista de sugestões, em Londres e fora, da qual apenas consegui “gastar” uma parte (o que significa que vou ter de regressar em breve, para dar conta do resto), parte essa que se traduziu em belos programas e surpreendentes descobertas. Com muita pena minha, não cheguei a visitar a livraria, mas encontrei os livros e, num caso de love at first sight, trouxe um montinho deles – que, com o meu sensato irmão a agoirar-me excesso de bagagem, de bom grado troquei por vários artigos não indispensáveis que por lá ficaram.

Li-os de seguida. E gostei. Muito. Da escrita limpa, luminosa e elegante. Da profundidade e da densidade de personagens e enredos. Da subtil ironia, a raiar, aqui e ali, o sarcasmo mais negro e carregado. Dos deliciosos detalhes de época e estilo e, não obstante, da sua intemporalidade, a conferir-lhes uma inesperada e estimulante actualidade.   

Good Evening Mrs. Craven: The Wartime Stories of Mollie Panter-Downes é um conjunto de short stories, escritas em plena II Guerra Mundial. A sua autora, Mollie Panter-Downes (1906−1997) era jornalista e, durante mais de 50 anos, foi colaboradora regular de The New Yorker, com a sua Letter from London quinzenal e frequentes book reviews. O livro abre e fecha com duas dessas cartas-crónica, datadas respectivamente de 3 de Setembro de 1939 e de 11 de Junho de 1944. As short stories dão-nos fragmentos variados, autênticos e quase sempre impressionantes do que foram os anos da guerra, não na frente de combate ou no underground da resistência, mas na rectaguarda, no quotidiano irremediavelmente transformado pelos bombardeamentos e as máscaras de gás, a evacuação de crianças e outros civis para o campo, o empenhamento devotado (e às vezes overzealous) no esforço de guerra, a fome e a solidão, a angústia e a desolação, mas também as profundas e irreversíveis mudanças sociais em curso e que pouco a pouco se tornavam perceptíveis.

The Making of a Marchioness é uma das várias obras de literatura não infantil de Frances Hodgson Burnett (1849–1924) - que todos conhecemos como a autora de The Little Princess, The Secret Garden, Little Lord Fauntleroy. Escrito em 1901, apresenta-nos Emily Fox-Seton, uma adorável e incomum protagonista, que seguimos ao longo de uma primeira parte irresistivelmente romântica e amena e de uma inesperadamente sombria, tormentosa, quase trágica segunda parte. Todo o livro traça, além do mais, um exacto e impiedoso retrato da sociedade inglesa da época, das relações sociais e do casamento, com especial destaque para o dark underside of women’s lives.       

Miss Pettigrew lives for a Day, de Winifred Watson (1906−2002) narra a saga, absolutamente hilariante, de uma desgraçada preceptora – solteirona, de meia-idade, desengraçada, desastrada e desempregada – que por um engano da agência de colocação é enviada, não para (mais) uma família com crianças insuportáveis, mas para casa de uma encantadora cantora de cabaret, aspirante a starlett, belíssima, gentil … e com uma mais que atribulada vida sentimental, entre um amante possessivo e dominador, dono do night-club onde canta, o irresistível produtor da sua peça de teatro a estrear e um honesto e dedicado namorado que quer casar e fazer dela uma mulher séria. Ao longo de vinte e quatro horas sucedem-se peripécias inesperadas e episódios delirantes que Mrs. Pettigrew resolve com despacho e audácia, fazendo extraordinárias descobertas sobre si própria e sobre o que julgava não saber da vida…     

Comecei há dias e estou a avançar bem no último dos que trouxe comigo: Someone at a Distance, de Dorothy Whipple, que seria (mais) uma história de desamor e traição, envolvendo uma deceived wife, um foolish husband e uma jovem dama de companhia francesa tão cheia de encanto quanto desprovida de escrúpulos e de remoroso, não fora ser tão maravilhosamente escrito.

E tenho já a lista pronta, para encomendar online: Dimanche and Other Stories, de Irène Némirovsky, Minnie’s Room – The Peacetime Stories, de Mollie Panter-Downes; They Were Sisters, de Dorothy Whipple; The Wise Virgins, de Leonard Woolf; The Shuttle, de Frances Hodgson Burnett. Por agora, claro.

Teresa

Se derraman más lágrimas por las plegarias atendidas que por las no atendidas.  A frase, que inmpressinou Truman Capote, que nela inspirou o título do seu nunca terminado Answered Prayers, é atribuída a Teresa Sánchez de Cepeda y Ahumada (1515−1582).

Impetuosa, excessiva, arrebatada, destemida, determinada, radical, exigente, desassombrada, controversa para além de — nisso convergem as crónicas da época — muito bela. São sempre fortes os adjectivos e carregados os traços com que, de tantos e tão variados ângulos, nos surge retratada aquela que todos conhecemos como Teresa de Ávila ou Teresa de Jesus, cuja vida foi tão pouco convencional e intrigante quanto fascinante e inspiradora.  

Dos seus primeiros anos, é conhecido o episódio da fuga de casa, ainda criança e na companhia de um dos irmãos, rumo a território mouro, em busca do martírio certo e da imediata santidade. Interceptada por um tio e devolvida à casa paterna, sabe-se que depressa esqueceu tão exacerbados propósitos com a entrada na adolescência e a descoberta da outra metade da humanidade. Tais terão sido o alvoroço e o desassossego que o pai, alarmado e abalado pela recente viuvez, a remeteu, muito contrariada ao que consta, para o convento de Santa Maria de Gracia, em Ávila, em busca da prudente orientação das monjas agostinhas. Contra o que seria de esperar, a experiência correu bem. Tão bem que, pouco tempo volvido sobre o seu regresso, Teresa anunciou a sua intenção de professar, opção a que o pai se opôs frontalmente. Seguiu-se nova fuga de casa, desta vez em direcção ao Monasterio de la Encarnación, em Ávila, onde, com vinte anos, fez votos como carmelita, com a já resignada bênção do seu pai.

A sua vida religiosa foi marcada pela doença grave que a acometeu ainda jovem – crê-se hoje que se tratava de malária – e que periodicamente a atormentava, deixando-a prostrada e debilitada. Mas, sobretudo, pela sua intensíssima experiência de oração, meditação e contemplação, traduzida em frequentes episódios de visões e/ou êxtases, que a celebrizaram, suscitando, à data, enorme controvérsia, e que, ainda hoje, se prestam às mais díspares interpretações e conjecturas, entre o sagrado e o profano. Os seus sucessivos confessores passaram das iniciais perplexidade e certeza de que se tratava de obra do diabo, a evitar a todo o custo, à convicção de que se tratava de expressões do favor divino, a manter e a aprofundar. Foram estes últimos – em especial o jesuíta Francisco de Borja e o franciscano Pedro de Alcantara, que a convenceram a escrever o que via e sentia. São, pois, da própria as palavras do extraordinário relato da sua transverberação, experiência mística, similar à da estigmatização das mãos, vivida por Francisco de Assis, mas que envolve o trespassar do coração - no caso de Teresa por um anjo e com uma flecha de ouro -, que causa uma dor intensa, para além de deixar marcas físicas. Experiência que Bernini, inspirado por tal descrição, imortalizou no seu Êxtase de Santa Teresa (1647−1652).

Desagradada com a ligeireza, a superficialidade e a opulência do Monasterio de la Encarnacion, Teresa decidiu, com um grupo de companheiras, retornar à pureza e radicalidade iniciais da regra carmelita. Para tanto tratou de obter os necessários apoios na hierarquia eclesial e, no meio de muita polémica e bastantes contratempos, fundou um mosteiro segundo nova regra de pobreza e de clausura – as Carmelitas Descalças. Em breve se seguiu a incumbência de fundar novos conventos femininos e de liderar, com João da Cruz, a reforma dos mosteiros masculinos que pretendessem adoptar a nova e bem mais exigente regra. A expansão desta reforma foi duramente combatida pelo ramo tradicional da ordem, que tudo fez para, primeiro submeter as novas comunidades à sua autoridade e, uma vez logrado tal objectivo, travar os seus promotores. João da Cruz e outros monges chegaram a ser presos. Teresa foi confinada a um convento e proibida de sair e de contactar com o exterior. Durante este período, que durou vários anos e que só terminou com a criação de uma ordem religiosa autónoma, Teresa dedicou-se a escrever as suas principais obras, uma das quais relata esta sua experiência fundadora.

São únicos e profundamente originiais, sobretudo nas imagens que utiliza, os seus escritos sobre teologia mística. Neles, Teresa relata e analisa as suas intensas experiências pessoais e descreve vários níveis de contemplação e de oração. Canonizada cerca de quarenta anos depois da sua morte, junto com os jesuítas Inácio de Loyola e Francisco Xavier, Teresa foi a primeira mulher a ser proclamada Doutora da Igreja, por Paulo VI, em 1970.

Agradam-me esta Santa de forte personalidade e a sua vida intensamente vivida. Impressiona-me, tanto quanto a sua desconcertante espiritualidade, a profunda humanidade desta mulher, que fez da exigência – consigo própria, acima de tudo – e da busca do essencial, o objectivo da sua vida. Que para além da forte vertente mística, tinha um igualmente forte e bem mais terreno mau feitio, que se não coibia de exprimir - teimando, criticando e zangando-se. Nem o próprio Cristo terá escapado aos seus remoques, com o lapidar Ah Señor, se así tratas tu a tus amigos, por eso tienes tan pocos… Mas que era também capaz da confiante serenidade do belíssimo Nada te turbe que, como crente, sempre me toca*

Teresa é a padroeira dos escritores - e, necessariamente, porque estes bem mais precisam, dos escrevedores e escrevinhadores, nos quais me incluo. Trouxe-a para aqui hoje, data da sua festa litúrgica, não vá falhar-nos a inspiração ou ser preciso meter algum dos nossos escreventes, pouco escreventes ou não escreventes na ordem. É melhor tê-la por perto, digo eu. Just in case.

* Nada te turbe, nada te espante,todo se pasa, Dios no se muda, la paciência todo lo alcanza.
Quien a Dios tiene, nada le falta. Solo Dios basta.

Nesta extraordinária data

10−10−10. Decimus dies do decimus mensis do decimus annus deste nosso ainda novo século. Uma data que, de tão repetida e redonda, agrada. E que por todo o mundo foi antecipada e assinalada — pelo seu significado matemático e/ou numerológico, por trazer boa sorte ou simplesmente por envolver uma simpática e rara harmonia numérica. Não se trata, alertam os experts, de uma sucessão de capicuas perfeitas, mas lê-se, ainda assim, da mesma maneira, de trás para a frente e de frente para trás, e isso torna-a divertida.

Para mais, o número que converge em dia-mês-ano é o 10. O número dos Mandamentos e das bíblicas pragas, necessárias para convencer o malvado faraó a deixar partir o povo de Deus, cativo no Egipto. Dos dedos das nossas mãos e dos pés também, claro. Academicamente, 10 são os minutos da tolerância para o atraso do professor, cujo decurso legitima os alunos a partir rapidamente para o bar (não vá o dito aparecer) e, já se sabe, 10 é o objectivo dos cábulas, quando doseiam o seu, vá, parcimonioso estudo. 10 foi a nota que merecidamente consagrou, diante dos encantados olhos de muitos de nós, a perfeição imbatível de Nadia Comaneci, em Montreal, em 1976. 10 é nome de pelo menos dois filmes — de Blake Edwards (sim, esse, o da Bo Derek) e de Abbas Kiarostami – e do primeiro disco dos Pearl Jam. E 10 é, ainda, o número da porta de um dos endereços mais famosos do mundo (Downing Street, of course) e o número mínimo de entradas em qualquer lista ou top que se preze.  Porque neste blog se gosta muito de bola, 10 é o número da camisola de, entre outros, Eusébio, Pelé, Maradona,  Zidane, Rui Costa, Platini, Zico, Futre, Chalana, Lineker e Messi. Por último, e para não me eternizar nestas evocações, 10 e 10 é a hora que quase invariavelmente marcam os relógios nas imagens publicitárias e nas montras das lojas onde estão expostos – porque a similitude dessa posição dos ponteiros com um sorriso ou com o v da vitória, os torna, ao que parece, mais atractivos para o consumidor.

Curiosidades e superstições, numerologia e matemática à parte, esta data reveste-se da máxima importância neste extraordinário cemitério – por um outro motivo. Porque é a data em que um dos nossos mortos celebra justamente uma linda capicua – ou seja (que o morto-em-festa me perdoe a indiscrição, mas não resisto) 44 a 10−10−10. Não é para qualquer um, convenhamos.  

Quem é ele? Fácil, claro – é o nosso morto mais eterno, aquele que mais e mais facilmente viaja entre o mais remoto passado e o mundo actual, que nos bate a todos no diálogo com tantos ilustres mortos, pois domina as línguas em que eles falavam e escreviam, que conhece bem e trata com à vontade pesos-pesados como Platão e Epicteto, Tomás de Aquino e Erasmo, Francisco Suarez e Marx, bem menos intimidatórios — digo eu - desde que ele para nós os decifrou e os trouxe aqui para o cemitério.   

Mas, mais que tudo, este morto faz-me lembrar o que nos diz São Paulo, na sua Primeira Carta aos Coríntios. É que apesar de falar “todas as línguas dos homens e dos anjos”, de conhecer todos os mistérios e toda a ciência” a que se dedica, de ter “tão grande fé que transporta montanhas”, ele não é o címbalo que, em vão, retine. Porque este nosso morto ama. Ama a vida em tudo aquilo que ela lhe traz de bom, de uma forma que todos reconhecemos, apreciamos e admiramos. E canta-a, canta-a com sentimento e convicção – e com que belíssima voz!

Vamos dar-lhe aqui os parabéns? Que tal impressioná-lo, recorrendo a outros idiomas? Recomendo o latim e o grego, que além de realmente eruditos, têm a vantagem adicional de lhe provocarem umas fortes gargalhadas, diante da nossa esforçada inépcia. Podem escolher outra, desde que o (e nos) impressionem, claro. Fica ao vosso critério…

Eu começo, então – nada de rir, sim?

Felicem diem natalem,

Gonsalvus nostrus ….

A ter de escolher uma, só uma …

Recordar John Lennon na data em que teria completado setenta anos e, inevitavelmente, os seus e meus Beatles, levou-me a revisitar as suas músicas, nas quais por diversas vezes me perdi, em puro desfrute, esquecida do major purpose que me orientava. Vi-me em sérios apuros para referir apenas algumas, entre tantas e tão significativas canções… ou ficar-me-ia o post com uma extensão quilométrica. Mas o pior de tudo foi mesmo ter de escolher uma só para rematar. Vai daí, tive uma ideia.

A Radar, extraordinária estação de rádio de que o Diogo aqui nos falou e da qual há vários meses sou ouvinte fiel e feliz, tem uma rubrica muito divertida – a “roleta russa” -, na qual um convidado (músico), é submetido ao longo da semana, a uma questão por dia, cuja resposta implica a escolha de uma música, que toca logo depois. As questões, apresentadas como “de vida ou de morte”, variam numa lista de cerca de dez. Muitas delas são desconcertantes — qual a música ideal para curar uma ressaca, perder a virgindade de forma pacífica, sair à noite numa sexta-feira e acabar na cadeia ou aquela que o deixa roído de inveja por não ter sido composta por si? Outras são mais convencionais — qual a versão que é melhor que a canção original, a canção mais rock and roll do universo? E — agora sim, estou a chegar onde queria — qual é, para si, a melhor canção dos Beatles? Ouço muitas vezes e, confesso, gosto mesmo quando sai esta.

E foi justamente dessa roleta russa, desta específica bala, que me lembrei, no rescaldo de tanta Beatle revival. Por isso, cá estou eu mais uma vez a propor um desafio — a todos os mortos deste cemitério, a todos os living dead que por aqui vagueiam ou que tomaram já lugar cativo, junto de certas campas ou debaixo das nossos frondosos posts.

Que nos digam qual é, para cada um, a melhor canção dos Beatles. Interpretada por eles, ou não. E porquê, claro.       

Eu começo. Gosto de quase todas. Das primeiras, só na aparência simples e pouco construídas, as letras quase inocentes, pontuadas por muitos yeah, yeah, yeahs. Da fase dita psicadélica, com as extraordinárias – e largamente LSD-fueled – lyrics e os exóticos instrumentos orientais. E também da fase final, em que a excelência das canções, algumas das melhores criadas pelos FabFour, não deixa adivinhar as tensões entre os membros do grupo, prestes a desagregar-se, que marcavam as respectivas sessões de estúdio. Difícil, pois, decidir-me por uma, só uma. Mas tem de ser.

Eis então a minha escolha. Porque a música é belíssima e porque a letra é uma maravilha de amizade, solidariedade, delicadeza, coragem, optimismo e alegria, mesmo — ou sobretudo - diante da adversidade. 

HEY JUDE

Hey Jude don’t make it bad
Take a sad song and make it better
Remember to let her into your heart
Then you can start to make it better
Hey Jude don’t be afraid
You were made to go out and get her
The minute you let her under your skin
Then you begin to make it better
And any time you feel the pain, Hey Jude, refrain
Don’t carry the world upon your shoulders
For well you know that it’s a fool who plays it cool
By making his world a little colder
Hey Jude don’t let me down
You have found her now go and get her
Remember to let her into your heart
Then you can start to make it better
So let it out and let it in
Hey Jude begin
You’re waiting for someone to perform with
And don’t you know that it’s just you
Hey Jude you’ll do
The movement you need is on your shoulder
Hey Jude don’t make it bad
Take a sad song and make it better
Remember to let her under your skin
Then you’ll begin to make it better
Better, better, better, better, better, Yeah,Yeah,Yeah

John

Nobody controls me. I’m uncontrollable.

The only one who controls me is me, and that’s just barely possible.

John Lennon, The Playboy Interview, Setembro de 1980

John and Paul and George and Ringo. Just like that. The Beatles. Nasci com o Sargent Pepper’s e cresci a ouvi-los. Começou por ser a música dos meus pais, até que me apossei dela e a fiz minha. Até hoje. Era dos Beatles o único poster que alguma vez pendurei no meu quarto — uma preciosidade dos early sixties, on temporary loan da minha mãe, a quem fora oferecido em Londres por um grupo de fãs, condoídos do desgosto dela e dos irmãos, que a intransigência do meu avô (que deplorava o quarteto de “cabeludos”) forçara a sair da fila  onde estavam prestes a conseguir comprar bilhetes para um concerto deles. Conheço todas as suas músicas, grande parte de cor — o que não espanta, ao cabo de mais de quatro décadas a ouvi-las em repeat… Having let them into my heart*, são muitas delas que ainda agora me ocorrem e que, tantas vezes dou por mim a trautear, para dentro ou a alta voz, consoante o caso, claro. O sábio don’t carry the world upon your shoulders*, que prego a familiares e amigos mas que ando ainda a aprender como se faz. O demolidor how could she do this to me, how could she treat us so thoughtlessly*, com que procuro evitar o tentador self-centered approach aos dramas que marcam o quotidiano de uma casa com duas adolescentes, tipicamente agravadas com o mundo em geral, as amigas, os professores, a mãe, a criatura insuportável (leia-se irmã mais nova) e uma com a outra. O it’s been a hard days night and I’ve been working like a dog*, que me ocorre amiúde. O so happy together* e o will you still need me when I’m sixty four*, diante de felizmente tantos amores felizes que me rodeiam. Ou o we all want to change the world*, em face de certos iluminados, tão impetuosos quanto insensatos … 

Sempre fui mais team Paul, confesso. Foi sempre ele o meu preferido — o certinho, solar, hard-working  e, claro, canhoto, Paul. Deliciosamente irónico em Michelle (ma belle), When I’m sixty four ou Lovely Rita. Irresistivelmente optimista no fabuloso Hey Jude. Também gostava muito da serenidade e da sensibilidade de George — o belíssimo Something, que compôs, escreveu e cantou, permanece – digo eu — imbatível na categoria any-woman’s-heart-melting-music.  

And then there was John. Intenso, complexo, carismático, desconcertante, controverso, contraditório, incompreensível. Nas suas letras, criativas e geniais – como Lucy in the Sky with Diamonds, Come Together, I am the Walrus, to mention just a few. Nas suas tiradas — como a do we are now more famous than Jesus Christ, que desatou, na altura, uma bela polémica, magistralmente rematada pelo próprio com o delicioso “I wasn’t saying whatever they’re saying I was saying (…) but if you want me to apologise, if that will make you happy, then OK, I’m sorry”. Na sua absorvente e, até ao fim, controversa relação com Yoko Ono, nos seus bed-ins for peace, nas suas provocatórias imagens e fortemente engaged intervenções públicas, que o imortalizaram como ícone pacifista, mas lhe trouxeram alguns dissabores com a administração Nixon, que tentou em vão deportá-lo dos USA.

John intrigava-me e fascinava-me. Mais que tudo pelas fragilidade e pela imperfeição, que a sua voz tão bem reflecte nos sublimes A Day in the Life, Lucy in the Sky with Diamonds, I Want You, Strawberry Fields Forever, e que o tornavam único. A sua morte, brutal e incompreensível, escassos dias depois de outra, igualmente brutal e incompreensível, marcou-me para sempre. Tinha treze anos e senti que parte no meu universo se desmoronava. Aquele negro Dezembro de 1980 confirmou-me da pior maneira a suspeita, que por mais de uma vez me assaltara já: de que este mundo nem sempre é um lugar bom para se viver.

Impressionam, ainda hoje, as entrevistas que deu à Playboy e à Rolling Stone, em 1980 (esta última, três dias antes da sua morte). Preparava e antecipava um regresso em grande. Após cinco anos de retiro — como househusband de Yoko e pai a tempo inteiro de Sean, explica. Uma opção que procura justificar como de liberdade — após anos e anos de compromissos com espectáculos e tournées, de pressões para compor e gravar-, mas a qual, percebe-se claramente, o deixou saturado e frustrado. Daí o azedume com que se refere aos seus ex-companheiros Paul, George e Ringo e às respectivas carreiras a solo. John está contente, animado, desejoso de get back to where he once belonged*. A sua morte, é sabido, fez disparar as vendas de Double Fantasy, tornou Imagine, Woman e (Just Like) Starting Over eternos overnight e aumentou de forma exponencial a aura de mito que tinha já em vida.  

Penso às vezes no que se teria seguido, se não fosse o acto cruel e imperdoável daquele que aqui não merece sequer menção. Como John nos teria supreendido, chocado, quem sabe desiludido, decerto tocado. E tenho pena, muita pena. Porque aos quarenta anos John tinha ainda muito para viver. E uma desmedida vontade de o fazer.

Faria hoje setenta anos. 70.

* Pertencentes, evidente (para alguns) e respectivamente, a Hey Jude, She’s Leaving Home, Hard Day’s Night, Me and You, When I’m Sixty-Four, Revolution e Get Back.
Happy ever after

JV, Outubro a Dezembro de 2009

Eu, como este post, cheguei ao extraordinário cemitério já depois de 1 de Outubro. Entrei e espreitei, com alguma curiosidade e grandes reticências. Almoçara com um dos mortos que cá jaziam e que dele me falara com enorme entusiasmo. O que ouvi deixou-me gelada e convicta de que o pobre só podia ter ensandecido: mortos, cemitérios, celebrações … not exactly my cup of tea. Não foi, confesso, tão mau quanto esperava: gostei do vermelho all over e do espantoso lay-out, diverti-me a espreitar as fotos e os perfis, de alguns conhecidos e de tantos desconhecidos. Passei os olhos pelos posts — cinema, literatura, música, religião, arte e alguma bola, numa competentíssima mistura de referências passadas e contemporâneas. Tudo requintadamente belo e elaborado e, sobretudo, muito à frente. Imersa, por essa altura, num desmedidamente árduo e árido labor académico, não demorei a concluir que I didn’t belong there. Regressei ao meu covil, para mais umas notas de rodapé.

Nos dias seguintes, dei por mim várias vezes a vaguear pelo cemitério – e não a consultar o e-mail ou o Diário da República, como era suposto. Comecei a achar graça. Muita mesmo. O referido morto, entretanto, instava-me a comentar. Sob pseudónimo, se preferisse — como umas tais Turmalina e Orcama*, que por lá andavam. Pareceram-me tentadoras, ambas as ideias. Por isso resisti-lhes. Por duas semanas lutei. Não contra a timidez, que sempre achei que dá o maior charme aos que a possuem. Contra moi. Porque, conhecendo-me, sabia da imensa probabilidade de me vir a desgraçar: bastava que me dessem alguma corda… Entrei em plena noite de Haloween, em versão bruxa má. E perdi-me para sempre.

Fui acolhida com naturalidade e muita simpatia. O cemitério passou a fazer parte dos meus dias, todos tão iguais. A necessária isolation deixou de me pesar tanto. De significar, como cantam os U2, desolation. Trabalhava com afinco para, nos intervalos, ir espreitar os posts, os comentários, as respostas. Gozava com a antecipação do que lá iria encontrar, com a lembrança do que lá lera, vira e ouvira. E  havia a parte da animada e às vezes bem tumultuosa interacção com certos mortos e comentadores…  

No Natal recebi o melhor dos presentes, aquele com o qual não me atrevera sequer a sonhar. Entrei de cabeça e coração no mundo destes fantásticos mortos. Um mundo intenso e estimulante, onde nunca se está só, onde tudo é real, apesar de virtual — da cordialidade dos que nos visitam e são já da casa (melhor dizendo, da tumba), aos estreitos laços de admiração e afecto que nos ligam. 

Devo a este blog uma boa parte dos muitos momentos divertidos, emocionados, surpreendentes e estimulantes que vivi ao longo do último ano. Aprendi muito — do Tonnerre de Brest à psicadélica beleza dos malvados streptococus, dos quadros esfaqueados de Fontana aos mais recentes trends musicais. Deliciei-me com a beleza, a profundidade, a intensidade e o humor de tantos textos, com os estilos tão marcadamente distintos de cada um. Revivi o imenso prazer de escrever que, só então me apercebi, desde o fim da adolescência raramente me concedia. Deslumbrei-me com a constatação do muito que podem ter em comum pessoas com tão diversas histórias e percursos, formações e convicções, gostos e temperamentos. Espantei-me com o que descobri ao contemplar tantas coisas e assuntos com outro olhar que não o meu. Passo mais tempo calada**, de olhos pregados no écran do portátil e dedos a trepidar no teclado, às vezes durmo menos do que devia. Sinto-me afortunada, desperta e preenchida. E, claro, feliz.  

* Sorry Prezado Padrinho, mas a verdade é que demorei algum tempo, não muito, a perceber …

** Escrever não conta como falar, certo?