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	<title>É tudo gente morta &#187; Joana Vasconcelos</title>
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		<title>10</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Jul 2011 10:16:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Foi em Julho de 1976 — faz por estes dias 35 anos. Pela primeira vez na história das modernas olimpíadas, uma prova de ginástica obteve um 10, a máxima classificação possível. O feito, que o marcador electrónico, impreparado para tal eventualidade, assinalou com um desconcertante 1.00, haveria de repetir-se por mais seis vezes nos dias [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-30197" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/07/10/nadia-comaneci-1976-3a-2/"></a><a rel="attachment wp-att-30193" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/07/10/nadia-comaneci-1976-2/"></a></p>
<p><a rel="attachment wp-att-30195" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/07/10/nadia-comaneci-1976-3-2/"></a></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><a rel="attachment wp-att-30198" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/07/10/nadia-comaneci-1976-4/"></a></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><a rel="attachment wp-att-30228" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/07/10-2/nadia-comaneci-1976-3a-3/"><img class="aligncenter size-full wp-image-30228" title="nadia comaneci 1976 - 3a" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/07/nadia-comaneci-1976-3a2.jpg" alt="" width="235" height="261" /></a></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><a rel="attachment wp-att-30229" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/07/10-2/nadia-comaneci-1976-3-3/"><img class="aligncenter size-full wp-image-30229" title="nadia comaneci 1976 - 3" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/07/nadia-comaneci-1976-32.jpg" alt="" width="235" height="314" /></a></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Foi em Julho de 1976 — faz por estes dias 35 anos. Pela primeira vez na história das modernas olimpíadas, uma prova de ginástica obteve um <strong>10</strong>, a máxima classificação possível. O feito, que o marcador electrónico, impreparado para tal eventualidade, assinalou com um desconcertante 1.00, haveria de repetir-se por mais seis vezes nos dias subsequentes. A protagonista, sempre a mesma: <strong>Nadia Comaneci</strong>, romena, com apenas <strong>14 anos</strong>, a quem a prodigiosa sucessão de <strong>sete provas com o <em>score </em>10* </strong>fez ganhar <strong>cinco medalhas**</strong> e um merecido e incontestado lugar na história.    </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Eu tinha 9 anos e estava de férias. Vagueava dias inteiros numa preguiça sem fim à vista que muito me agradava, entre os meus livros, os Legos do meu irmão e as constantes incursões na casa do outro lado do patamar, para fazer palavras cruzadas a meias e ver na televisão as transmissões dos Jogos Olímpicos de Montreal com o meu Avô. Foi sentada no chão, encostada ao braço da sua poltrona, que vi o primeiro 10 e todos os que se seguiram. Tinha por essa altura uma vaguíssima ideia de que existia um país chamado Roménia e nenhuma do que por lá se passava. E estava longe de imaginar o que seria a vida daquela miúda magrinha, de olhos escuros e cabelo apanhado em totós. Gostei de a ver derrotar sozinha o exército de espernéficas ginastas russas. Encantaram-me o seu ar concentrado e sereno e a forma graciosa e aparentemente <em>effortlessly </em>com que fazia aqueles exercícios tão difíceis. E também o ar de <em>girl-next-door</em>, como se o ser-se assim extraordinário estivesse ao alcance de qualquer um.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Seguiram-se mais férias e mais jogos olímpicos, mais proezas e mais deslumbramentos. Mas poucas imagens me tocam, ainda hoje, como estas. A preto e branco, evidentemente.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><a rel="attachment wp-att-30222" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/07/10-2/21st-july-1976-nadia-comaneci-14-year-old-romanian-gymnast-scored-three-maximum-10-out-of-10-scores-at-the-montreal-olympics-the-first-perfect-scores-ever-obtained-by-a-gymnast-in-the-olympics-p-3/"><img class="aligncenter size-full wp-image-30222" title="21st July 1976: Nadia Comaneci, 14 year old Romanian gymnast, scored three maximum 10 out of 10 scores at the Montreal Olympics, the first perfect scores ever obtained by a gymnast in the Olympics. (Photo by Central Press/Getty Images)" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/07/nadia-comaneci-1976-12.jpg" alt="" width="314" height="171" /></a></span></p>
<h6><a rel="attachment wp-att-30199" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/07/10/21st-july-1976-nadia-comaneci-14-year-old-romanian-gymnast-scored-three-maximum-10-out-of-10-scores-at-the-montreal-olympics-the-first-perfect-scores-ever-obtained-by-a-gymnast-in-the-olympics-p-2/"></a></h6>
<h6><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"><strong><em>*Três na competição por equipas e quatro na competição individual, nas provas de paralelas assimétricas e trave olímpica.</em></strong></span></h6>
<h6><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"><strong><em>** Três de ouro, uma de prata e uma de bronze</em></strong></span></h6>
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		<title>Bem lembradas, as toalhas</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Jun 2011 07:26:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Esperara pelo meio-dia para lhe ligar. Mesmo assim, acordara-o. Desculpa, mas são os meus óculos, esqueci-me deles aí ontem e fazem-me tanta falta… Posso passar a buscá-los? Avançou por entre o caos de pratos, copos, garrafas e cinzeiros. Depressa encontrou os óculos, lá onde estrategicamente os colocara mesmo antes de sair, com os últimos convivas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-29848" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/06/bem-lembradas-as-toalhas/christopher-williams-kodak-three-point-reflection-guide-1968-miko-laughing/"><img class="aligncenter size-full wp-image-29848" title="Christopher Williams, Kodak Three Point Reflection Guide, 1968 (Miko Laughing)" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/Christopher-Williams-Kodak-Three-Point-Reflection-Guide-1968-Miko-Laughing.jpg" alt="" width="415" height="336" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; color: #000000; font-size: small;">Esperara pelo meio-dia para lhe ligar. Mesmo assim, acordara-o. <em>Desculpa, mas são os meus óculos, esqueci-me deles aí ontem e fazem-me tanta falta… Posso passar a buscá-los?</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; color: #000000; font-size: small;">Avançou por entre o caos de pratos, copos, garrafas e cinzeiros. Depressa encontrou os óculos, lá onde estrategicamente os colocara mesmo antes de sair, com os últimos convivas do animado serão. <em>Pronto, já os tenho! Esta sala está que mete medo! Deixa-me ajudar-te a dar um jeito nisto!</em> Ele deixou, claro. <em>Vou só tomar um duche, a ver se acabo de acordar … olha se quiseres um café, tens a máquina na cozinha, acho que ainda há cápsulas, eu não demoro</em>. Saiu mas voltou segundos depois. Já me esquecia, <em>a Sara deve estar aí a aparecer, ligou-me ainda agora, esqueceu-se cá dos óculos, diz que ficaram na entrada … </em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><em><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">- Não te preocupes, eu trato dela.</span></em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; color: #000000; font-size: small;"><em>Os óculos, pois claro. Grande sonsa</em>. Passara boa parte da noite num crescendo de irritação a vê-la insinuar-se junto dele, com aquele ar de quem não parte um prato e as duas amigas feiosas a ajudar. E ele, o grande tanso, ainda inconsolável por causa da outra pindérica e prestes a deixar-se enredar, sem dar por nada, na teia da criatura.  </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; color: #000000; font-size: small;">Espreitou os presentes que se amontoavam numa cadeira, entre sacos e papéis de embrulho rasgados. Um jogo de toalhas turcas amarelas. <em>Que espécie de anormal oferece toalhas a um amigo nos anos ? Ainda por cima amarelas … </em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; color: #000000; font-size: small;">Soou a campainha da porta. Ali onde estava ouvia o esquentador na cozinha, a água a correr na casa de banho. Com gestos rápidos despiu-se e descalçou-se. Enrolou-se na toalha amarela maior e pôs a outra na cabeça, tipo turbante. Fez um sorriso radioso e abriu a porta.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><em><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">- Olá, entra, entra, ele está a tomar um duche, mas não demora.</span></em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; color: #000000; font-size: small;">A outra, estarrecida, pregada ao chão, no patamar, lá fora.     </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><em><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">- eu … os meus óculos … ficaram cá …</span></em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><em><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">- bem sei, são estes, não são? toma … não queres entrar? tomar um cafezinho?</span></em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; color: #000000; font-size: small;"><em>- não, não, obrigada… tenho de ir, tenho mesmo … o carro mal parado, sabes como é … </em> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; color: #000000; font-size: small;">Fechou a porta. Vestiu-se e dobrou as toalhas. Dirigiu-se à cozinha e fez dois cafés. Acabara de se sentar no sofá quando ele apareceu. Estendeu-lhe uma chávena. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"> </span><em><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">- A Sara sempre passou, para buscar os óculos, mas vinha numa pressa doida, nem entrou …</span></em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><em><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">- Numa pressa? Mas se ainda há bocado queria por força vir ajudar-me a arrumar tudo …</span></em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000;"><em><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">- Que estranho … bom, vai-se a ver e arranjou melhor programa… Mas deixa lá isso, tens-me aqui para o que for preciso! Estive a ver os teus presentes … Que bem lembradas, as toalhas: dão sempre imenso jeito, não achas? </span></em></span></p>
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		<title>The Prettiest Boys in Rock</title>
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		<pubDate>Wed, 15 Jun 2011 08:42:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Foi a 15 de Junho de 1981, faz foje 30 anos. Os Duran Duran lançaram o seu primeiro e homónimo álbum. Eram cinco rapazes altamente estilosos. Tinham em comum com os grupos New Wave que por esta altura floresciam o look clean, cuidado e muito elaborado, a contrastar fortemente com a agressiva decadência dos punk rockers. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-29616" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/06/the-prettiest-boys-in-rock/duran-duran-1981/"><img class="aligncenter size-full wp-image-29616" title="Duran Duran, 1981" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/Duran-Duran-1981.jpg" alt="" width="300" height="300" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Foi a 15 de Junho de 1981, faz foje 30 anos. Os Duran Duran lançaram o seu primeiro e homónimo álbum.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Eram cinco rapazes altamente estilosos. Tinham em comum com os grupos <em>New Wave</em> que por esta altura floresciam o<em> look clean</em>, cuidado e muito elaborado, a contrastar fortemente com a agressiva decadência dos <em>punk rockers</em>. Mas os Duran Duran — cujo nome se terá inspirado, vá-se lá saber porquê, no malvado Dr. Durand Durand de <em>Barbarella </em>-, destacavam-se pela sua <em>flamboyant extravagance</em>: tudo neles era extraordinário, excessivo, quase barroco. O <em>hairstyling, absolutely unique</em>, com tons estridentes, farripas em estudada desordem e enigmáticas franjas a cobrir o rosto. A maquilhagem, muito em especial o eyeliner e o bâton, vermelho, claro. E o traje, sobretudo o traje: uma espantosa profusão de folhos e laços, faixas à cintura e fitas na cabeça, alamares e mangas esvoaçantes, ombros bem enchumaçados e tecidos sempre muito coloridos e brilhantes. Neo-românticos, explicou-me uma amiga cujo irmão, ele próprio também bastante estiloso, estava a par destes <em>trends</em>.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Eu tinha 14 anos e lembro-me de achar o máximo os elaboradíssimos (para a época) videos, as imagens que apareciam <em>all over</em>, e inevitavelmente, os fotogénicos moços propriamente ditos – <em>the preetiest boys in rock</em>, segundo a  revista <em>People</em>. O mais consensual, entre amigas, primas e colegas de turma, sem dúvida Simon Le Bon, o vocalista – se bem que as fífias arrepiantes que volta e meia dava (e que atingiram um delirante auge durante o LiveAid, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=mINh8ZOWSLw">nesta inesquecível performance</a> de <em>A View To a Kill</em>, do OO7 com o mesmo nome) me enervassem um bocadito. O mais giro, de longe, o baixista, John Taylor.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Por tudo o que antecede, a música não era senão parte de um todo, bem mais vasto e vistoso. Não é que fosse má — que não era. Mas estava longe de ser <em>outstanding</em>. <em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=8NF6Qa84mno">Planet Earth</a>, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=KCjMZMxNr-0">Girls on Film</a>, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=W1N19zOBKCE">Careless Memories</a>,</em> as primeiras, tiveram a sua época lá por casa: comprei o disco, ouvi-as <em>ad nauseam</em>, ainda as sei de cor. Mas depressa passaram, como boa parte dos <em>hits </em>que se foram seguindo. Houve, claro, algumas honrosas excepções: <em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=e3W6yf6c-FA&amp;feature=related">Rio</a>, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=-ZBUzT1ucrM">Hungry like a Wolf</a>, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=6Uxc9eFcZyM">Save a P</a></em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=6Uxc9eFcZyM">rayer</a> e quase todas as do álbum Rio (de 1982), <em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=oNU61nS0TTY&amp;feature=relmfu">Skin Trade</a></em>. E, <em>above all</em>, a fase Power Station, projecto que envolveu parte da banda e Robert Plant e que se traduziu, entre outros, no fabuloso <em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=rgYqIvnPvqQ">Some Like it Hot</a></em>.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Trinta anos volvidos e 100.000.000 de discos vendidos, os Duran Duran, são ainda cinco. Cinquentões e ainda altamente apresentáveis, com a imagem mais sóbria e bem mais sofisticada que sucedeu ao <em>style for style’s sake </em>dos primeiros tempos. Lançaram recentemente, já em 2011, o seu 13.º álbum de estúdio – muito apropriadamente intitulado <a href="http://www.youtube.com/watch?v=A7Er5TsQrGg">All you need is now</a>.<em> Indeed we do</em>. </p>
<p></span></p>
<p><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/8NF6Qa84mno?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/8NF6Qa84mno?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
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		<title>Let’s go, girls</title>
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		<pubDate>Sun, 12 Jun 2011 17:17:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Porque a noite de Santo António é já hoje e o encantador Santo casamenteiro, patrono dos namorados e intermediário de amores desencontrados deve estar para lá de assoberbado com pedidos, súplicas, promessas e, não me espantaria, ameaças. Para que nada vos falte a vós, queridas leitoras, residentes ou visitantes aqui do lindo cemitério… Aqui ficam [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><a rel="attachment wp-att-29534" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/06/lets-go-girls/joana-vasconcelos-coracao-independente-vermelho-3/"><img class="aligncenter size-full wp-image-29534" title="Joana Vasconcelos, Coração Independente Vermelho" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/Joana-Vasconcelos-Coração-Independente-Vermelho2.jpg" alt="" width="181" height="314" /></a></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Porque a noite de Santo António é já hoje e o encantador Santo casamenteiro, patrono dos namorados e intermediário de amores desencontrados deve estar para lá de assoberbado com pedidos, súplicas, promessas e, não me espantaria, ameaças. Para que nada vos falte a vós, queridas leitoras, residentes ou visitantes aqui do lindo cemitério… Aqui ficam alguns bem-intencionados conselhos — se infalíveis ou não, pois <em>ya veremos</em>: conto com a vossa interessada colaboração e, claro, aguardo <em>feed-back </em>…</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Esqueçam o manjerico, <em>o regar e pôr ao luar, com Santo António a ajudar</em>. Não resulta e é, além do mais, perigoso: da primeira (e evidentemente única) vez que o fiz, caíram vaso e manjerico da janela de um sexto andar, em pleno centro de Lisboa. Nada aconteceu no plano da responsabilidade (civil e criminal), o que foi bom, mas o ofertante do manjerico melindrou-se e isso já me fez mais diferença. Adiante, pois.   </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><em>Ajuda-te e Deus te ajudará</em>, diz o povo. Sábias palavras que, por maioria de razão se aplicam ao Santo que, apesar dos seus variados e imensos poderes, não consta que seja omnipotente. Há que fazer qualquer coisa, ser mais pró-activa, como soi dizer-se. Como? Pois com música, que a noite é de festa!</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Esqueçam o desânimo e o desalento. Larguem a caixa dos <em>kleenex</em>, o chocolate, o pacote de batatas fritas, o comando da televisão. Não me venham com conversas de Lykke Li, de que <strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=k7hqiiKwuJE"><span style="color: #d8274a;">Sadness is a Blessing</span></a></strong>: <em>whom are you trying to fool</em>? E caso ainda não tenham percebido, choramingar <strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=SN1gi8oq74g"><span style="color: #d8274a;">Hopelessly Devoted to You</span></a></strong> como a coitada da Olivia Newton-John não vos leva a lado nenhum. Mudem de atitude, é o que é. Que é como quem diz, de música. Ora vejam.  </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Porque nestas coisas do coração, como em tudo na vida, cada caso é um caso, o que vale por dizer que cada uma sabe de si e Santo António de todas, trago várias possibilidades: <em>it’s up to you to decide </em>qual a que melhor vos serve.      </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Começo pelos casos mais graves: as românticas incorrigíveis. Aquelas que acham que o seu (delas) <em>prince charming </em>lhes vai surgir à frente, vindo do nada, por obra e graça do Santo (e/ou quem sabe de uma rara e favorável conjugação astral). É bonito, lá isso é, e não duvido de que às vezes até aconteça. Mas concordarão comigo que esforçando-se um bocadinho, as vossas chances melhorarão significativamente. Nada de <em>stress</em>: não estou a dizer que avancem, que mostrem o jogo todo, que se declarem – que horror, o que seria!!! É só uma musiquinha, dirigida ao destinatário dos vossos devaneios. Subtil, <em>understated</em>, muito assim-como-quem-não-quer-a-coisa: tipo <strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=Y2BavhwpIJg">I’m Not in Love</a></strong>, dos 10cc, ou <span style="color: #d8274a;"><strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=USGWnC-OkrI">The Lady with the Braid</a></strong></span>, de Dory Previn. Pode ser? Sim? Muito bem. Mas se me permitem o conselho – e sei do que falo – não sejam demasiado subtis ou correm o risco de o objecto da vossa paixão nem sequer se aperceber (pior, de ser o amigo do lado a interpretar mal a vossa, chamemos-lhe assim, iniciativa…). Fica, pois, a advertência.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Seguem-se as não menos problemáticas tímidas e/ou desajeitadas, aquelas que até se lançariam para a frente, mas não sabem como e sempre que tentam estragam tudo: afligem-se, engasgam-se, atrapalham-se. Pois rejubilem, meninas: é só lançar mão do infalível <strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=WdVV4Gh1xd8"><span style="color: #d8274a;">Problema de Expressão</span></a></strong>, dos Clã.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Para as mais afoitas, trago um vasto reportório, que vai do <em>straight to the point </em>ao <em>getting him, dead or alive</em>. Mas antes de o apresentar, fica, bem explícito, o <em>disclaimer</em>: decerto saberão melhor do que eu que é sempre muito variável o êxito dessas abordagens mais, vá, directas, assertivas, óbvias mesmo, por isso vejam lá o que aplicam a quem — e depois não se venham aqui queixar. Para as que dispensam os rodeios, mas não a doçura, sugiro o grande e xaroposo clássico <strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=XoID1x_w9xo"><span style="color: #d8274a;">You are the Sunshine of My Life</span></a></strong>, do Stevie Wonder, mas também<span style="color: #d8274a;"><strong> <a href="http://www.youtube.com/watch?v=D_Bj8wrXslk">Don’t Get me Wrong</a></strong></span>, dos Pretenders e, pois claro, o super queridinho <span style="color: #d8274a;"><strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=VuNIsY6JdUw">You Belong With Me</a></strong></span>, da Taylor Swift. E por falar em clássicos, para a amizade que se transmutou em amor, não há evidentemente que hesitar: <strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=dqJK29zsO44"><span style="color: #d8274a;">Can´t Fight this Feeling</span></a></strong>, dos REO Speedwagon. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Já se o vosso caso é extremo e requer medidas extremas, se eles andam a fazer fintas e/ou a mostrar-se desentendidos e se <em>vosotras </em>são mulheres para pôr tudo preto no branco, sem entrelinhas ou rodriguinhos, então fogo à peça, com  <strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=ogugnws5qDc"><span style="color: #d8274a;">I’m Gonna Getcha Good</span></a></strong>, da intrépida Shania Twain, <span style="color: #d8274a;"><strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=S-P9FjArlxs">One Way or Another</a></strong></span> dos <em>everlasting </em>Blondie ou, em versão lusitana, o <strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=0T43cfsASi0 ."><span style="color: #d8274a;">Fado Toninho, </span></a></strong>dos Deolinda.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Ouçam e meditem. Pensem bem naquele por quem bate o vosso coração e façam as vossas escolhas. Decorem, ensaiem – têm ainda umas horas até logo à noite. Para as mais desafinadas, sugiro o envio de <em>link </em>para o You Tube, por <em>e-mail, facebook, whatever </em>… não vão querer estragar tudo, pois não?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Bom ânimo, boa sorte. Façam o que têm de fazer. Santo António fará o resto. <em>So don’t worry, be happy </em>…   </span></p>
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		<title>Espiga</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Jun 2011 07:47:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Há muito que a Quinta-feira da Ascensão deixou de ser feriado nacional e que a liturgia católica moveu para o domingo seguinte a correspondente celebração litúrgica. Subsiste, porém, neste quadragésimo dia após a Páscoa a colorida tradição da Espiga, radicada em antigos cultos pagãos associados ao ressurgir da natureza após o desolado Inverno.     Desde tempos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-29273" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/06/espiga/espiga/"><img class="aligncenter size-full wp-image-29273" title="espiga" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/espiga.jpg" alt="" width="448" height="336" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Há muito que a Quinta-feira da Ascensão deixou de ser feriado nacional e que a liturgia católica moveu para o domingo seguinte a correspondente celebração litúrgica. Subsiste, porém, neste quadragésimo dia após a Páscoa a colorida tradição da Espiga, radicada em antigos cultos pagãos associados ao ressurgir da natureza após o desolado Inverno.    </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Desde tempos imemoriais que ao amanhecer deste dia se apanham no campo espigas de trigo, rebentos e flores silvestres que, atados em ramos, se guardam em casa por todo o ano seguinte. Estes “ramos da Espiga”, diz-se, atraem tudo o que de bom simbolizam as diferentes plantas neles juntas: o trigo o pão; o malmequer o ouro e a prata; a papoila o amor e a vida; a oliveira a paz; a videira a alegria e o alecrim a saúde e a força.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">É muito de cidade a minha Quinta-Feira da Espiga. Espreito, manhã cedo, as mulheres com os ramos empilhados em cestos ou em caixotes, um pouco por todo o lado — nos passeios e esquinas mais movimentados, à entrada das lojas, nos corredores do metropolitano. Acho graça à ideia de o campo, primaveril como agora está, vir sorrateiro até nós. Faço por abstrair do facto de os ditos ramos, colhidos de madrugada, quando não de véspera, se apresentarem às vezes murchos e quase sempre muito fanados de papoilas. E também da aterradora hiperinflacção que ano após ano atinge o seu preço. Lembro-me de os ver atrás das portas nas cozinhas de quando eu era pequena. E também da minha primeira casa e do gosto com que nela pendurei o meu primeiro ramo da Espiga. Desde então que, sem falhas, trato das Espigas para as várias casas - a minha, mas também as da família e de amigos — que de tantas formas me pertencem. <span style="text-decoration: underline;"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Desta vez trouxe mais um ramo do que é costume. Deixo-o aqui, virtualmente pendurado. Para que tenhamos saúde, prosperidade e alegria, de preferência em abundância. Não posso garantir que resulte em pleno — mas nestes tempos difíceis que correm, <em>it’s worth a try ..</em></span></p>
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		<title>A Chefe de Família</title>
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		<pubDate>Sat, 28 May 2011 11:45:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ana de Castro Osório e Carolina Beatriz Ângelo, 28 de Maio de 1911 (foto de Joshua Benoliel) Foi a 28 de Maio de 1911. Faz hoje 100 anos. Carolina Beatriz Ângelo (1877–1911) dirigiu-se à Assembleia Eleitoral de Arroios, instalada no Clube Estefânia, em Lisboa, para votar nas eleições para a Assembleia Constituinte. Semanas antes, requerera na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a rel="attachment wp-att-29034" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/05/a-chefe-de-familia/carolina-beatriz-angelo-e-ana-de-castro-osorio-28-de-maio-de-1911/"><img class="size-full wp-image-29034 aligncenter" title="Carolina Beatriz Ângelo e Ana de Castro Osório - 28 de Maio de 1911 " src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/Carolina-Beatriz-Ângelo-e-Ana-de-Castro-Osório-28-de-Maio-de-1911.jpg" alt="" width="409" height="541" /></a><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: x-small;">Ana de Castro Osório e Carolina Beatriz Ângelo, 28 de Maio de 1911 </span><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: x-small;">(foto de Joshua Benoliel)</span></p>
<h5><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Foi a 28 de Maio de 1911. <strong>Faz hoje 100 anos</strong><strong>.</strong></span></h5>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><strong>Carolina Beatriz Ângelo </strong>(1877–1911) dirigiu-se à Assembleia Eleitoral de Arroios, instalada no Clube Estefânia, em Lisboa, para votar nas eleições para a Assembleia Constituinte.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Semanas antes, requerera na Comissão de Recenseamento do Bairro onde residia a sua inclusão nos cadernos eleitorais, alegando preencher todas as condições especificadas no artigo 5.º do Decreto com força de Lei de 14 de Março de 1911<strong>*</strong>: tinha mais de 21 anos, sabia ler e escrever e era <strong>“chefe de família”</strong> pois, viúva há mais de um ano, provia ao seu sustento e ao da sua filha de oito anos com o seu trabalho como médica (fora a primeira mulher cirurgiã a exercer em Portugal). Perante a recusa de tal pretensão pelo Ministro do Interior, António José de Almeida, recorreu do correspondente despacho para o tribunal. Por sentença proferida a 28 de Abril, o juiz da 1ª Vara Cível de Lisboa, João Baptista de Castro, pai de Ana de Castro Osório (activista dos direitos das mulheres e presidente da Liga das Sufragistas Portuguesas), deu provimento ao pedido da médica e mandou incluí-la nos cadernos eleitorais, considerando que <strong>excluir a mulher <em>“de ser eleitora e ter intervenção nos assuntos políticos (…) só por ser mulher (…) é simplesmente absurdo e iníquo e em oposição com as próprias ideias da democracia e justiça proclamadas pelo partido republicano, porquanto desde que a reclamante tem todos os predicados para ser eleitora não pode arbitrariamente ser excluída do recenseamento eleitoral, porque onde a lei não distingue não pode o julgador distinguir”</em>.</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Apoiada na autoridade desta decisão, Carolina votou nesse dia. Foi a primeira mulher a fazê-lo em Portugal – e durante largos anos a única.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">O episódio teve enorme repercussão mediática e foi entusiasticamente celebrado como uma vitória nos muitos movimentos que em Portugal e por toda a Europa lutavam pelo sufrágio feminino. Mas causou também consternação e, sobretudo, embaraço às autoridades republicanas, muito pouco favoráveis ao voto das mulheres. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Porque a verdade é que muito embora a letra do artigo 5.º do referido Decreto com força de Lei de 14 de Março de 1911, ao conferir o direito de voto a <strong><em>“todos os portugueses”</em></strong>, aparentemente não diferenciasse homens e mulheres, a intenção do legislador fora — era sabido – bem outra: conceder tal direito apenas aos primeiros. Carolina Beatriz Ângelo, que desde os tempos de estudante militava nas organizações feministas republicanas, tendo-se dedicado muito especialmente à causa do sufrágio feminino, viu nesta incongruência da lei uma oportunidade que tratou de aproveitar.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Para evitar a repetição e, quem sabe, a multiplicação de tão lamentável episódio, o novo Código Eleitoral, aprovado pela Lei de  3 de Julho de 1913, especificava com total clareza que seriam eleitores <strong><em>“todos os cidadãos portugueses do sexo masculino”</em>**</strong> — explicitamente negando o voto à mulher. Ainda que fosse letrada e/ou chefe de família.</span></p>
<p><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Carolina Beatriz Ângelo não viveria, contudo, para presenciar este retrocesso na causa em que tanto se empenhara: morreu, poucos meses depois, de ataque cardíaco, a 3 de Outubro de 1911. Tinha 33 anos e a sensação de <em>“ter vivido muito em pouco tempo”</em><strong>***</strong>.</span></p>
<p><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"> </span></p>
<p><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"> </span></p>
<p><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: x-small;"><em><strong>*</strong> Artigo 5.º do Decreto com força de Lei de 14 de Março de 1911, estabelecendo as regras a observar na eleição dos deputados à Assembleia Constituinte: “São eleitores todos os portugueses maiores de vinte e um annos á data de 1 de maio do anno corrente, residentes em território nacional, comprehendidos em qualquer das seguintes categorias: </em><em>1.º os que souberem ler e escrever; </em><em>2.º os que forem chefes de família, entendendo-se como tal aqueles que há mais de um anno, á data do primeiro dia do recenseamento, viverem em commum com qualquer ascendente, descendente, tio, irmão ou sobrinho, ou com a sua mulher, e proverem aos encargos da família.”  </em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: x-small;"><em><strong>**</strong> Artigo 1.º da Lei n.º 3, de 3 de Julho de 1913, estabelecendo um novo Código Eleitoral: “São eleitores de cargos legislativos e administrativos todos os cidadãos portugueses do sexo masculino, maiores de 21 anos ou que completem essa idade até o termo das operações de recenseamento, que estejam no pleno gôzo dos seus direitos civis e políticos, saibam ler e escrever português e residam no território da República Portuguesa.”   </em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: x-small;"><em><strong>***</strong> Carta a Ana de Castro Osório, Julho de 1911.</em></span></p>
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		<title>Acerca de Livros e de Tempo</title>
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		<pubDate>Mon, 23 May 2011 07:20:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[ 1 — Existe um livro que lerias e relerias várias vezes? A Bíblia. Porque apesar das décadas que já levamos de afectuosa proximidade, há ainda muito que nela conheço mal ou compreendo pouco. Porque constantemente dou por mim surpreendida, interpelada e maravilhada pelos novos sentidos e possibilidades que textos e passagens familiares de tão ouvidos, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-28813" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/05/acerca-de-livros-e-de-tempo/dahl-blake-matilda-ii/"></a> <span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><strong><a rel="attachment wp-att-28817" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/05/acerca-de-livros-e-de-tempo/quentin-blake-matilda/"><img class="aligncenter size-full wp-image-28817" title="Quentin Blake, Matilda" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/Quentin-Blake-Matilda.jpg" alt="" width="448" height="295" /></a></strong></span><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><strong>1 — Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">A <strong>Bíblia</strong>. Porque apesar das décadas que já levamos de afectuosa proximidade, há ainda muito que nela conheço mal ou compreendo pouco. Porque constantemente dou por mim surpreendida, interpelada e maravilhada pelos novos sentidos e possibilidades que textos e passagens familiares de tão ouvidos, lidos e meditados ganham com a luz que sobre elas lançam as sempre novas inquietações e percepções que a vida nos dá. Porque nela encontro sempre o que procuro de inspiração, de conforto e de simples e desconcertante sabedoria.    </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><strong>2 — Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><strong>Não</strong>, dessa forma atormentada, nunca. Tenho pouquíssimo tempo para ler e muitíssimos livros à minha espera. Por isso, se ao fim de umas quantas páginas um livro não me prende, interessa ou agrada, largo-o e avanço para outro. Sem hesitações, dramas ou remorsos: pouco importa se é problema meu, do livro ou de ambos. Porque, como dizia a minha avó, “o que tem de ser tem muita força”, sei que os nossos caminhos se voltarão a cruzar,<em> if that’s what’s meant to be</em>.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><strong>3 — Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"> A <strong>Bíblia</strong>. Por tudo o que já disse lá em cima, na resposta à pergunta 1.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><strong>4 — Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Não é um, são vários. O motivo, sempre o mesmo: falta de tempo, agravada nos últimos anos pela desmedida porção que as leituras jurídicas tomaram do meu tempo e energia. Foi um período nefasto, literariamente falando, que me deu cabo dos apreciáveis ritmo e média que desde criança mantinha e que me atrasou e desactualizou nas leituras. Ando agora a ver se recupero e se levo a melhor sobre a pilha de livros que fui amontoando e que não pára de crescer — muito também por culpa deste blog e do que por lá vou cobiçando. Consigo vê-la daqui, colorida, variada e suculenta: <strong>Philip Roth, Martin Amis, Monica Ali, Torrente Ballester, Camilla Lackberg, Machado de Assis, Herman Hesse, Stendhal, Chaucer …</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><strong>5 — Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Foi esta pergunta que primeiro me fez gostar deste questionário. Tenho uma absurda memória de elefante que, no que toca a livros, faz com que raramente esqueça um enredo, por pior que seja, ou um fim. Gosto muito de <em>happy ends </em>e da tranquila certeza do “felizes para sempre”. Mas também me agradam os finais surpreendentes e, sobretudo os incertos, em que quase tudo <em>is left to our imagination</em>. Por razões diferentes, jamais consegui esquecer: a irresignada <strong>cena final de <em>Mau Tempo no Canal</em></strong>, a deixar antever outro destino para aquela protagonista; o sublime <strong>desfecho de <em>Crime no Expresso do Oriente</em></strong>, porque a justiça às vezes se faz assim; o delirante <strong>fim de <em>Os Maias</em></strong>, porque, felizmente, o gosto pela vida pode sempre mais. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><strong>6 — Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><strong>Sim</strong>. Um péssimo hábito que, desde que me lembro, me causou graves problemas: perdi a conta às vezes em que fui repreendida e castigada (com o confisco dos mesmos) por votar ao desprezo os trabalhos de casa ou por ter sido apanhada, altas horas da noite, a ler à socapa. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Quanto aos livros propriamente lidos, já aqui falei de muitos deles, a propósito das <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/06/lemos-o-que-somos-ou-o-que-gostariamos-de-ser/">minhas heroínas</a> e das <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/06/lemos-o-que-nao-somos-ou-nao-queremos-ser/">minhas nada-heroínas</a>. Mas nem só de leituras “de menina” se fez a minha infância. Havia os livros deixados pelos meus tios maternos em casa dos meus avós: <strong><em>A Tulipa Negra </em>(Dumas), <em>Beau Geste </em>(P.C. Wren), <em>A Ilha do Tesouro </em>(Stevenson), <em>Dois Anos de Férias, 20.000 Léguas Submarinas, A Volta ao Mundo em Oitenta Dias e Os Filhos do Capitão Grant</em> (Verne),</strong> entre outros. Tive uma fase em que lia “a metro”, livros que, antecipando as férias sem fim no campo, em casa dos meus avós, comprava na Feira do Livro, grandes e baratos, sobretudo baratos: todo o Walter Scott e todo o Salgari e mais uns quantos, como O Ultimo dos Moicanos (James Fenimore Cooper) e A Feira das Vaidades (William Thackeray Makepeace). Mas até esses se me acabavam antes das férias. E foi assim que num Verão já distante me lancei desesperada sobre os policiais de que a minha avó e vários tios eram grandes consumidores. Comecei com <strong>Agatha Christie, Erle Stanley Gardner/AA Fair, Mickey Spillane, Georges Simenon</strong>. Depois, como em todos os vícios, tive de ir aumentando a dosagem — o que ainda hoje faço, com muito gozo e proveito (como? v. a resposta à pergunta 8).    </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><strong>7 — Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Ui, foram tantos, tantos, tantos nos últimos vinte e cinco anos que, para vos poupar – e, assim, conseguir que leiam até ao fim este questionário – me limitarei a um genérico <em>best of</em>, talvez mais apropriadamente <em>worst of </em>… Então, aí vai: boa parte dos manuais e afins das várias cadeiras do curso de Direito e a larga maioria dos manuais e monografias, nacionais e estrangeiras, que tive de ler para produzir, primeiro uma tese de mestrado e, anos depois, uma tese de doutoramento. O pior de tudo? Seguramente as referidas <strong>teses de mestrado e de doutoramento </strong>– e logo por três sofridas vezes: antes de as entregar, de as discutir e de as publicar.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><strong>Porquê? </strong>Porque os li até ao fim? Porque é que eram chatos? Basica e respectivamente porque não tinha alternativa e porque <em>that’s the way these things are meant to be</em> … que é como quem diz “o que não tem remédio, remediado está”.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><strong>8 — Indica alguns dos teus livros preferidos.</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Gosto muito de toda a <strong>Jane Austen</strong>, de todo o<strong> Eça de Queiroz</strong>, de todos os <em><strong>Contos</strong></em> do <strong>Miguel Torga</strong>, de todo o <strong>Mário de Carvalho</strong>, de quase tudo de <strong>Julio Dinis, Camilo Castelo Branco </strong>e <strong>José Cardoso Pires</strong>. Gosto de tudo o que li de <strong>Graham Greene</strong>, <strong>David Lodge</strong>, <strong><a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/11/o-gigante-que-gostava-de-historias/">Roald Dahl</a></strong>, <strong>Torrente Ballester</strong>, <strong>Perez Reverte</strong>, de quase todo o <strong>Vargas Llosa</strong>, de bastante <strong>Gabriel Garcia Marquez</strong>. Sou ainda uma convicta e exigentíssima leitora dos <em>so-called </em>policiais. Gosto muito de muitos dos mais contemporâneos: <strong>PD James, Mary Higgins Clark, Patricia Highsmith, Patricia Cornwell, Minette Walters, Philip Kerr, Stieg Larsson, Anne Perry</strong>,<em> to name just a few…  </em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Mas é de “livros preferidos” que tenho de falar aqui. Dos que li, muitos reli, e de que guardo memórias especialmente gratas — porque são em absoluto magníficos ou porque simplesmente no tempo e no lugar em que os li me fizeram muito feliz. Ei-los, sem particular ordem: <strong><em>A Cidade e as Serras </em>(Eça de Queiroz), <em>Mau Tempo no Canal </em>(Vitorino Nemésio), <em>Sinais de Fogo </em>(Jorge de Sena), <em>Contos Exemplares </em>(Sophia de Mello Breyner Andresen), <em>A Morgadinha dos Canaviais </em>(Júlio Dinis), <em>Memorial do Convento </em>(José Saramago),<em> O Milagre Segundo Salomé </em>(José Rodrigues Miguéis), <em>Balada da Praia dos Cães </em>(José Cardoso Pires), <em>Adeus Princesa </em>(Clara Pinto Correia), <em>A sombra da Magnólia </em>(Vasco Graça Moura), <em>Crónica dos Bons Malandros </em>(Mário Zambujal), <em>Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde </em>(Mário de Carvalho),<em> Pride and <span style="color: #000000;">Prejudice </span></em></strong><span style="color: #000000;">e <strong><em><a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/04/enganosamente-estranho/">Persuasion</a> </em>(Jane Austen), <em>The End of the Affair </em>(Graham Greene), <em>How Far Can You Go? </em>(David Lodge), <em>The Little Drummer Girl </em>(John Le Carré), <em>O Nome da Rosa </em>(Umberto Eco), <em>O Ultimo Cabalista de Lisboa </em>(Richard Zimmler), <em>Noble House </em>(James Clavell), <em>Ervamoira </em>(Suzanne Chantal), <em>Crónica de El Rei Pasmado </em>(Torrente Ballester), The <em>Adventures of Tom Sawyer</em> e </strong></span><strong><span style="color: #000000;"><em><a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/06/rotten-glad-of-it/">The Adventures of Huckleberry Finn</a> </em>(Mark Twain</span>), <em>The Catcher in the Rye </em>(J.D. Sallinger), <em>A Tia Júlia e o Escrevedor </em>(Vargas Llosa).</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><strong>9 — Que livro estás a ler neste momento? </strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Ando a ver se dou conta do binómio <strong><em>Heart of Darkness </em>(Joseph Conrad) — <em>O Sonho do Celta </em>(Vargas Llosa)</strong>, que me sobrou da Páscoa … Deus, como a vida muda: agora são as férias que se me acabam tão antes dos livros! Mas nestes últimos dias, dei por mim a ler como quem não quer a coisa, <strong><em>A Humilhação </em>(Philip Roth)</strong>. E na semana passada desgracei-me noite dentro com os <strong><em>Novos Contos da Montanha </em>(Torga).</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><strong>10 — Indica dez amigos para o Meme Literário</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">São três, mas cada uma vale por dez. Se não acreditam, vão lá ver e depois passem aqui só para me dar razão:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><strong>Luciana</strong>, do <span style="color: #000000;"><strong><a href="http://borboletasnosolhos.blogspot.com/">Borboletas nos Olhos</a> </strong></span></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><strong>Turmalina</strong>, da <span style="color: #000000;"><strong><a href=" http://cartadetarot.blogspot.com/">Carta de Tarot</a></strong></span></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><strong>George Sand</strong>, de <span style="color: #000000;"><strong><a href="http://chezgeorgesand.blogspot.com/">Chez George Sand</a></strong></span>,</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">considerem-se desafiadas e, a partir deste momento, alvo da nossa desmedida curiosidade: queremos ler as vossas respostas, saber os vossos gostos e desgostos, cuscar as vossas estantes … não nos façam esperar muito, sim?   </span></p>
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		<title>For every skin</title>
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		<pubDate>Wed, 18 May 2011 06:33:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[﻿ Há semanas que a lata redonda esperava, azul e branca, sobre a cómoda do quarto. Pusera-a ali, bem visível, para me lembrar do propósito que me fizera comprá-la e que me trazia dividida entre a sua atraente simplicidade e a sua arriscada ousadia. Segura de que mais cedo do que tarde me haveria de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-28509" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/05/for-every-skin/nivea-lata-azul-2/"><img class="aligncenter size-full wp-image-28509" title="Nívea Lata Azul" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/Nívea-Lata-Azul1.jpg" alt="" width="314" height="212" /></a><a rel="attachment wp-att-28504" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/05/for-every-skin/creme-nivea/"></a></p>
<div id="_mcePaste" class="mcePaste" style="position: absolute; width: 1px; height: 1px; overflow: hidden; top: 0px; left: -10000px;">﻿</div>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; mso-outline-level: 1;"><span style="mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: Calibri; mso-bidi-theme-font: minor-latin; mso-font-kerning: 18.0pt; mso-fareast-language: PT; mso-bidi-font-weight: bold;"><span><span style="font-family: Calibri;">Há semanas que a lata redonda esperava, azul e branca, sobre a cómoda do quarto. Pusera-a ali, bem visível, para me lembrar do propósito que me fizera comprá-la e que me trazia dividida entre a sua atraente simplicidade e a sua arriscada ousadia. Segura de que mais cedo do que tarde me haveria de chegar o <em>mood </em>adequado, esperei por tal momento. Que é como quem diz, fui adiando a decisão. Até que num fim de tarde de sábado, saturada de árduos e áridos labores jurídicos, senti que precisava de acção e de emoção. Fui buscá-la e abri-a.<span style="mso-spacerun: yes;">  </span></span></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; mso-outline-level: 1;"><span style="mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: Calibri; mso-bidi-theme-font: minor-latin; mso-font-kerning: 18.0pt; mso-fareast-language: PT; mso-bidi-font-weight: bold;"><span style="font-family: Calibri;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; mso-outline-level: 1;"><span style="mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: Calibri; mso-bidi-theme-font: minor-latin; mso-font-kerning: 18.0pt; mso-fareast-language: PT; mso-bidi-font-weight: bold;"><span><span style="font-family: Calibri;">Tudo, mas tudo naquela lata azul com letras brancas me fez de novo pequena, mimada e feliz, de férias com os meus avós. A película prateada e lisa, a atrair-me irresistivelmente o indicador — que tantas vezes lhe espetei, bem no meio, <em style="mso-bidi-font-style: normal;">just for the fun of it</em> (e se a visão das ondas de creme a erguerem-se a toda a volta valia bem o que sobre <em>moi </em>depois se abatia…). Aquele cheiro, igualzinho à memória que dele guardava. A textura espessa, tão ruim de espalhar na pele ainda mal seca do banho a seguir à praia. Revi-me contrariada, muito mesmo, a tentar em vão escapar ao vigoroso perfeccionismo da minha avó, firme no propósito de me deixar diariamente a reluzir. A nívea cor,<em> mais branca que a neve pura</em>, decerto diria Camões, a lembrar-me outra neve, a da balada: <em>há quanto tempo a não via, e que saudades, Deus meu… </em></span></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; mso-outline-level: 1;"><span style="mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: Calibri; mso-bidi-theme-font: minor-latin; mso-font-kerning: 18.0pt; mso-fareast-language: PT; mso-bidi-font-weight: bold;"><span style="font-family: Calibri;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; mso-outline-level: 1;"><span style="mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: Calibri; mso-bidi-theme-font: minor-latin; mso-font-kerning: 18.0pt; mso-fareast-language: PT; mso-bidi-font-weight: bold;"><span><span style="font-family: Calibri;">Hesitei por instantes, a ponderar hipotéticos e nefastos desenvolvimentos. Depois encomendei-me aos competentes santos, fiz o gosto ao indicador e lancei besuntadas mãos à obra.</span></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; mso-outline-level: 1;"><span style="mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: Calibri; mso-bidi-theme-font: minor-latin; mso-font-kerning: 18.0pt; mso-fareast-language: PT; mso-bidi-font-weight: bold;"><span style="font-family: Calibri;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; mso-outline-level: 1;"><span style="mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: Calibri; mso-bidi-theme-font: minor-latin; mso-font-kerning: 18.0pt; mso-fareast-language: PT; mso-bidi-font-weight: bold;"><span><span style="font-family: Calibri;">Semanas antes, em plena véspera de Natal, presenteara-me com uma carteira. Linda de morrer. <em>Slightly beyond my budget</em>, mas se eu merecia! Explicou-me o amável vendedor, enquanto embrulhava a sublime auto-oferta, como cuidá-la (e às mais que tivesse em casa): creme Nívea. Sim, esse mesmo, o da lata azul. Seguiram-se os detalhes. Imbuída do espírito da quadra, não o quis contrariar ou sequer parecer desconfiada. Mas garanto que era tão enviesado quanto cintilante o sorriso que lhe lancei à despedida, tipo <em>olha-que-tenho-testemunhas-disto-e-sei-bem-onde-te-encontrar </em>… </span></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; mso-outline-level: 1;"><span style="mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: Calibri; mso-bidi-theme-font: minor-latin; mso-font-kerning: 18.0pt; mso-fareast-language: PT; mso-bidi-font-weight: bold;"><span style="font-family: Calibri;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; mso-outline-level: 1;"><span style="mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: Calibri; mso-bidi-theme-font: minor-latin; mso-font-kerning: 18.0pt; mso-fareast-language: PT; mso-bidi-font-weight: bold;"><span><span style="font-family: Calibri;">Resisti à absurda ideia por uns tempos. Mas a curiosidade pôde mais. Naquele sábado apliquei-me a tratar dos meus amores de perdição — enquanto antecipava qual das belas carteiras que vira na loja iria exigir como compensação de danos patrimoniais e morais em caso de desaire. Depressa cheguei ao fundo da lata. Sobre a mesa da cozinha, vários volumes brancos dir-se-iam bolos cobertos de <em>chantilly</em>. Bolos com formato de carteira. Não pude evitar um calafrio e um <em>ups, será que fiz asneira?</em> antes de fechar a porta atrás de mim e de ir à minha vida. Dormi sobre o engordurado assunto, tentando não pensar muito nele. No dia seguinte tirei o excesso com um pano e rejubilei, ao ver o excelente aspecto que exibiam as estimadas carteiras: macias, lustrosas e, tal como promete a publicidade,<em> intensely moisturised</em>! Ao terceiro dia puxei-lhes o lustro com um pano seco. Ficaram fantásticas, como novas — por menos de € 5, memórias incluídas e <em>side effects </em>muito benéficos nas mãos e braços da aplicadora. O que mais se pode querer? </span></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; mso-outline-level: 1;"><span style="mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: Calibri; mso-bidi-theme-font: minor-latin; mso-font-kerning: 18.0pt; mso-fareast-language: PT; mso-bidi-font-weight: bold;"><span style="font-family: Calibri;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; mso-outline-level: 1;"><span style="mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: Calibri; mso-bidi-theme-font: minor-latin; mso-font-kerning: 18.0pt; mso-fareast-language: PT; mso-bidi-font-weight: bold;"><span><span style="font-family: Calibri;">O creme Nívea faz 100 anos. Foi em 1911 que começou a ser comercializado pela Beiersdorf. A fórmula, altamente secreta, permanece até hoje inalterada. Já a <em>uber famous </em>embalagem azul com letras brancas remonta a 1925. Um século volvido, continua em grande, inabalado pela concorrência e pela profusão de linhas especializadas em que se desdobrou a fortíssima marca que ajudou a criar: só no ano passado terão sido vendidas 100.000.000 de latas redondas <em>worldwide</em>. </span></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; mso-outline-level: 1;"><span style="mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: Calibri; mso-bidi-theme-font: minor-latin; mso-font-kerning: 18.0pt; mso-fareast-language: PT; mso-bidi-font-weight: bold;"><span style="font-family: Calibri;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; mso-outline-level: 1;"><span><span style="font-family: Calibri;"><span style="mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: Calibri; mso-bidi-theme-font: minor-latin; mso-font-kerning: 18.0pt; mso-fareast-language: PT; mso-bidi-font-weight: bold;">Mais uma festiva razão para juntar aos <em>favorites </em>domésticos este autêntico <em>beauty classic</em>, imbatível a acalmar escaldões, consertar mãos secas, amaciar cotovelos, esbater cicatrizes e marcas de borbulhas — e comprovadamente eficaz em utilizações à primeira vista menos convencionais, mas afinal bem conformes com a garantia dada pelo seu fabricante: <em>for </em></span><span style="mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: Calibri; mso-bidi-theme-font: minor-latin; mso-fareast-language: PT;"><em>every skin type</em></span></span></span><span><span style="font-family: Calibri;"><span style="mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: Calibri; mso-bidi-theme-font: minor-latin; mso-fareast-language: PT;">. </span></span></span></p>
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		<title>TODO MUNDO QUER IR PRO CÉU …</title>
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		<pubDate>Sat, 14 May 2011 18:21:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ … MAS NINGUÉM QUER MORRER. É uma das frases da minha vida. Apropriei-me dela vai para muitíssimos anos quando para sempre me encantei com os delirantes Blitz e o delicioso Romance da Universitária Otária – a tal “que não sabia se fazia oceanografia ou veterinária”, se “dava bem em redação” e que “era boa em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: andale mono,times; font-size: medium;"> <span style="font-family: book antiqua,palatino;"><span style="color: #cb1f4b;"><strong>… MAS NINGUÉM QUER MORRER.</strong></span> É uma das frases da minha vida. Apropriei-me dela vai para muitíssimos anos quando para sempre me encantei com os delirantes Blitz e o delicioso Romance da Universitária Otária – a tal “que não sabia se fazia oceanografia ou veterinária”, se “dava bem em redação” e que “era boa em línguas mas não sabia beijar” …  </span></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: medium;"> Uso-a constantemente,  ainda que -<em> needless to say </em>– em contextos um tanto diversos do do expressivo e expedito Abreu da música. Porque é tão autêntica quanto desconcertante, tão certeira quanto divertida. Para além de edificante, claro, pois exprime de forma irrefutável a ideia de que tudo o que vale a pena na vida requer esforço, trabalho e empenho. E também disciplina, opções e renúncias. Que custam, pois claro que custam, às vezes muito. Mas a verdade é que não há outro caminho – para ter boas notas, escrever uma tese, levar projectos a bom porto, realizar sonhos, educar crianças, ter boa figura ou boa pele, criar e manter laços de afecto e de amizade.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: book antiqua,palatino;"><span style="font-size: medium;">E, bem vistas as coisas, uma vez atingidos os objectivos, tudo parece bem menos penoso: prova de que casos há em que afinal os fins justificam os meios </span><span style="font-size: small;">…</span></span></p>
<p><span style="font-family: book antiqua,palatino; font-size: small;"> </span></p>
<p><iframe width="480" height="390" src="http://www.youtube.com/embed/3ASFWZYEKEE" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
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		<title>The things that dreams are made of</title>
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		<pubDate>Mon, 02 May 2011 17:58:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Aquilo que estavas a contar há pedaço no balneário, de sonhares com os dois carros, a curva, a estrada amarela de giestas… Não disse nada porque a da lycra lilás, a new-age-morta-de-fome estava a tentar ouvir, para se meter, o costume, mas sabes que eu também… isto é o meu telemóvel? é, não é? deixa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-27752" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/05/the-things-that-dreams-are-made-of/imagem-short-story-abril-2/"><img class="aligncenter size-full wp-image-27752" title="Imagem-Short-Story-Abril" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/Imagem-Short-Story-Abril.jpg" alt="" width="550" height="343" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Aquilo que estavas a contar há pedaço no balneário, de sonhares com os <a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/05/olha-xorte-fresquinha/">dois carros, a curva, a estrada amarela de giestas</a>… Não disse nada porque a da <em>lycra</em> lilás, a <em>new-age-morta-de-fome </em>estava a tentar ouvir, para se meter, o costume, mas sabes que eu também… isto é o meu telemóvel? é, não é? deixa cá ver … número privado … melgas, eles que liguem depois, à hora do <em>meu</em> almoço é que não … queres ficar cá fora? temos ali uma mesa vaga com guarda-sol. Onde é que eu ia? Já sei, os teus sonhos. Tudo isso me parece perfeitamente compreensível, normal, sabendo o que foi aquele dia… Ouve, quase ninguém sabe disto, mas a mim acontece-me o mesmo — com o meu avô, lembras-te dele? É claro que te lembras! Muitos cigarrinhos lhe fanámos eu e tu … e ele sempre a fingir que não dava pela falta! Fez agora vinte anos que morreu e acreditas que volta e meia sonho com ele? Mas o mais estranho é que sonho no presente: que está vivo, que conversamos … Vejo-lhe o sorriso e os gestos de sempre: descasca com o canivete e dá-me, um por um, os quartos da maçã vermelha que acabou de escolher e apanhar; pega nas minhas crianças (que nunca conheceu) ao colo, como fazia comigo … e elas num deslumbre, a mirar tudo tão de lá de cima, tão seguras naqueles braços fortes. Uma vez contei àquela minha prima que é vagamente psicóloga: fez um ar muito douto e explicou-me que são coisas mal resolvidas. É claro que são coisas que temos mal resolvidas. O quê? No teu caso, talvez aquele desfecho, o ainda hoje não se saber ao certo o que verdadeiramente se passou no carro da frente antes de … No meu? Pois, perguntas bem … A morte? Não, a morte não. Quero dizer, custou-me muito, sempre soube que ia custar, mas também sempre soube que ia acontecer. Saudades? Tenho imensas, claro, éramos muito próximos … mas não, não é isso … Cada vez mais acho que foi a forma como tudo se passou … lembras-te? Éramos para ir lá para a Páscoa, depois à ultima hora não fomos, já nem sei porquê, até se combinou para daí a tempos, nuns feriados… e de repente, sem mais nem menos, sem se estar à espera… ainda hoje gelo quando um telefone toca lá em casa de madrugada. Nada a fazer. Nem sequer dizer adeus. Sabes, às vezes acho que é mesmo isso. É um bocado estúpido, eu sei. Porque, a bem dizer não teria feito qualquer diferença: assim como assim morria na mesma, não é? Mas a mim fez. Fez muita. Gostava de me ter despedido dele.  </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><em><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;">PS: O nosso PN disse <a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/04/a-felicidade-e-um-lugar-estranho/">aqui</a> — e muito bem — que </span><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;">Março é quando o homem quiser. Pois eu digo mesmo mais: Abril é quando uma mulher quiser. </span></em></span></p>
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		<title>35</title>
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		<pubDate>Mon, 25 Apr 2011 20:56:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Faz hoje 35 anos que entrou em vigor. A data, simbólica, fora aprovada junto com o seu texto, dias antes, a 2 de Abril de 1976, em sessão solene da Assembleia da República. Os nossos caminhos cruzaram-se fugazmente nos tempos do liceu (e de umas soporíferas Noções de Administração Pública), mas só mais tarde fomos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a rel="attachment wp-att-27374" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/04/35-2/crp-76-2/"><img class="aligncenter size-full wp-image-27374" title="CRP 76" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/CRP-761.jpg" alt="" width="261" height="400" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Faz hoje 35 anos que entrou em vigor. A data, simbólica, fora aprovada junto com o seu texto, dias antes, a 2 de Abril de 1976, em sessão solene da Assembleia da República.</p>
<p style="text-align: justify;">Os nossos caminhos cruzaram-se fugazmente nos tempos do liceu (e de umas soporíferas Noções de Administração Pública), mas só mais tarde fomos formalmente apresentadas, vai para 25 anos, na cadeira de Direito Constitucional, corria o ano lectivo de 1986/1987.  </p>
<p style="text-align: justify;">Visto a esta distância, o nosso não foi um caso de amor à primeira vista. Nem sequer de grande empatia. Achei-a desmedida no tamanho, excessiva na regulamentação, incompreensível e até incómoda, aqui e além – apesar de a revisão de 1982 lhe ter já reduzido o número de artigos e, de caminho, despachado o Conselho da Revolução para a “parte histórica” da matéria, junto dos pactos MFA-partidos e das Constituições desde 1822. Desesperei com a imensidão da reserva absoluta e relativa de competência legislativa da Assembleia da República, a aridez do elenco dos actos normativos, a <em>vexata quaestio </em>do valor jurídico a atribuir ao seu preâmbulo e as <em>nuances </em>do princípio do não retrocesso social. E estranhei,<em> to say the least</em>, a expressa proclamação do carácter irreversível das nacionalizações pós-25 de Abril e de que íamos todos rumo ao socialismo, a proibição do número nacional único e a imposição do método de Hondt na eleição dos deputados. Ainda assim — e por via da minha bússola que, já então, de tudo me apontava o <em>bright side </em>-, fascinou-me a impossibilidade de auto-mutilação e/ou auto-destruição ínsita nos limites materiais inatingíveis através da sua própria revisão e agradaram-me (como não?) o elenco e o regime dos direitos fundamentais. Gostei da sua abrangência e abertura e, sobretudo, da limpidez e da lisura de intenções dos constituintes — que para sempre baniram as infames cláusulas de excepção que no articulado da Constituição de 1933 permitiam restringir severamente tais direitos, em nome do bem comum ou, no caso das mulheres, em nome da sua natureza e do bem da família. E simpatizei de imediato com o princípio da igualdade — da latitude da fórmula adoptada ao auspicioso 13 do artigo que ainda hoje o acolhe.    </p>
<p style="text-align: justify;">Valha a verdade que a moderação do meu inicial entusiasmo pela nossa Lei Fundamental se deveu menos à própria e suas particularidades que ao facto de, por essa altura, <em>mon coeur être bien ailleurs</em>: no segundo ano de um curso que escolhera porque dava “para fazer montes de coisas” (todas fora do mundo jurídico) acabara de me encantar com o Direito Civil, o primeiro e mais duradouro dos meus amores jurídicos. E foi pela mão deste, em especial dos seus ramos de Família e de Sucessões, que redescobri e ganhei respeito e afecto à Constituição, ao estudar as suas decisivas repercussões no jurássico (mesmo para os padrões da época) articulado do Código Civil de 1966 — suprimindo o poder marital, o direito do marido de dirigir os assuntos da família, a diferenciação entre filhos legítimos e ilegítimos e outras iníquas e injustificadas opções. Seguir-se-iam igualmente gratificantes (re)descobertas em matéria de Direito Penal e de Direito Processual Penal. Mas o melhor estava ainda para vir. Foi com o “meu” Direito do Trabalho que, ao longo de já quase duas décadas aprendi, primeiro a viver com, mais tarde a respeitar e a apreciar, a presença marcante e fortemente garantística da Constituição em todas as vertentes das relações laborais. Um percurso nada fácil, porque nem sempre linear ou isento de sobressaltos – basta recordar a controvérsia que sempre rodeia a aprovação e/ou a alteração de qualquer diploma nesta área, com destaque para o “pacote laboral” de 1989, o Código do Trabalho de 2003 ou a sua recente revisão de 2009. Mas um percurso inquestionavelmente estimulante e gratificante – e, porque não dizê-lo, tranquilizante. Porque a verdade é que me tranquiliza saber que a Constituição garante e subtrai à lei ordinária (leia-se aos sucessivos governos e maiorias) e à conjuntura, seja ela qual fôr, a proibição de despedimento sem justa causa (<em>i.e.</em>, sem uma motivação suficiente e socialmente adequada), a existência de um salário mínimo, a igualdade em matéria retributiva (“a trabalho igual, salário igual”), as férias, o direito à greve e a contratação colectiva — mas que o faz sem de modo algum os absolutizar, antes os fazendo coexistir e articularem-se com os princípios da liberdade de empresa e da livre iniciativa económica privada. Muito por tudo isto, e ao fim deste tempo todo, pode dizer-se que somos hoje boas amigas.</p>
<p style="text-align: justify;">Faz hoje trinta e cinco anos a nossa Constituição. E se as sete revisões a que o seu texto foi submetido lhe suavizaram a linguagem, alteraram normas e reviram opções, preservaram, contudo, o essencial do seu projecto de sociedade “livre, justa e solidária” — um projecto ambicioso e idealista, imbuído de um profundo, radical e empenhado optimismo e feito de consensos e de compromissos. Tão necessário há 35 anos, como nos tempos duros e exigentes que agora vivemos.  </p>
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		<title>Enganosamente estranho</title>
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		<pubDate>Fri, 15 Apr 2011 15:33:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Persuasion é o segundo dos meus dois estranhos melhores livros que, em resposta ao desafio lançado pelo Manuel, aqui me propus (e aqui comecei a) revelar. Publicado postumamente, em 1818, foi o sexto escrito e o último completado pela sua autora, Jane Austen (1775–1817). E calhou ser também aquele que conheci depois de todos os seus [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-26940" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/04/enganosamente-estranho/persuasion/"><img class="aligncenter size-full wp-image-26940" title="persuasion" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/persuasion.jpg" alt="" width="288" height="445" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><em>Persuasion</em> é o segundo dos meus dois estranhos melhores livros que, em resposta ao desafio lançado pelo Manuel, <a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/04/o-meu-estranho-melhor-livro-e-so-para-avisar-que-sao-dois/">aqui</a> me propus (e <a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/04/diabolicamente-estranho/">aqui</a> comecei a) </span><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">revelar. Publicado postumamente, em 1818, foi o sexto escrito e o último completado pela sua autora, Jane Austen (1775–1817). E calhou ser também aquele que conheci depois de todos os seus outros, já vários anos volvidos sobre as primeiras e adolescentes leituras de <em>Pride and Prejudice, Sense and Sensibility</em> e <em>Emma</em>.  </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">São várias as razões que o tornam estranho. E também inesperado, complexo e muito tocante e belo.  </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"> </span><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Quando pela primeira vez li <em>Persuasion </em>de imediato lhe estranhei os contrastes com os demais, contrastes bem nítidos nos traços mais tipicamente “Jane Austen” que mos tornavam tão gostáveis: a desconcertante (<em>to say the least</em>) protagonista, Anne Elliot, um <em>plot </em>em que presente e futuro surgem inapelavelmente condicionados por eventos passados e cujo relevo o próprio título parece reforçar, a paleta de tons invulgarmente carregados, às vezes sombrios, que a autora usa ao longo de toda a narração.  </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Num primeiro relance, Anne Elliot define-se essencialmente pelo que <em>não é</em>: desenvolta e destemida como Lizzie Bennet, sensata e outspoken como Elinor Dashwood, alegre e despreocupada como Emma Woodhouse, vibrante e espontânea como Marianne Dashwood.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Esta primeira impressão de apagamento é magistralmente intensificada pela própria Miss Austen, que ao longo dos primeiros capítulos nos faz ainda saber que Anne Elliot — de novo ao contrário de todas as suas outras protagonistas — não é jovem nem bela. Com 27 anos está já bem para lá da idade casadoira (e em vias de se tornar uma solteirona, com tudo o que isso implicava de dependência familiar e de irrelevância social). Pior, se <em>“a few years before Anne Elliot had been a very preety girl, her bloom had vanished early”</em>, e apesar das suas <em>“delicate features”</em> e <em>“mild dark eyes”</em>, apresenta-se <em>“faded and thin”.</em> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Mas há mais: caso único entre as heroínas austenianas, Anne Elliot não espera viver um grande amor, menos por força destas suas particularidades - que, convenhamos, a tornam <em>hardly eligible</em> para casar adequadamente e menos ainda para suscitar uma qualquer <em>romantic infatuation -</em>, do que por uma outra e bem mais trágica razão: anos antes, a muito jovem Anne, seguindo desacertados conselhos, recusou casar com aquele que foi o amor da sua vida, mas que se apresentava, a diversos títulos, como um <em>unsuitable match for a lady of her standing</em><span style="text-decoration: underline;">.</span></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;"><em>To make matters worse</em>, Anne Elliot vive rodeada de gente tonta e apegada a valores crescentemente desfasados da realidade e dos novos tempos que se vivem que, com raras e amigas excepções, a depreciam e desconsideram: para o seu pai e irmãs <em>“(she) was nobody (…) her word had no weignt, her convenience was alwaysto give way – she was just Anne”.</em> Compreensivelmente solitária<span style="text-decoration: underline;">,</span> contida e quase invisível.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Diante deste desolador panorama, não se estranharia que o devotado leitor de Jane Austen esmorecesse no seu gosto e ponderasse seriamente abandonar <em>Persuasion </em>ainda antes de chegar a meio. Estranhamente, porém, não é o que sucede – falo por mim e por tantos, tantos outros. <em>Persuasion </em>lê-se com um encantado e crescente fascínio, que nos impede de o pousar antes do fim. Muito pela sucessão de eventos a que a engenhosa Miss Austen submete a sofrida Anne Elliot — um sério <em>reversal of fortune </em>familiar, um inesperado reencontro que traz à superfície amargura, ressentimento e outros dolorosos vestígios de um passado muito mal-resolvido, um pretendente tão irrecusável quanto inadequado. Mas, <em>above all,</em> pela formidável figura que, página a página, se nos revela, sem artificiosos <em>volte-faces </em>ou <em>twists</em>. Sendo tudo aquilo que dela aqui se disse, Anne Elliot é também muito mais e muito melhor: madura e serena, intuitiva e observadora, empática e generosa, persistente nos afectos e confiante nas suas percepções e nas avaliações que faz dos outros e das situações — quase se adivinha que muito à imagem e semelhança da sua criadora, que por essa altura da sua vida decerto desenvolvera e aprendera a valorizar tais características.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">Tudo isto torna <em>Persuasion </em>extraordinário e Anne Elliot a mais elaborada e consistente das figuras femininas saídas da pena de Jane Austen. Lembro-me de ter gostado muito quando primeiro o li. E sei que gosto mais em cada releitura, tanto mais que de há tempos para cá <em>Persuasion </em>encabeça o <em>top </em>dos meus favoritos, <em>ex-aequo </em>com <em>Pride and Prejudice</em>. Estranho? De todo. A idade, já se sabe, tem destas coisas…</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: small;">PS — O <strong><em>passa ao outro e não ao mesmo </em></strong>que ainda aqui tenho para lançar vai para a <strong>EUGÉNIA</strong>, que muitos de nós <em>can hardly wait </em>que nos revele o mais estranho melhor livro que leu …  </span></p>
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		<title>Diabolicamente estranho</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Apr 2011 19:01:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[The Screwtape Letters é o primeiro dos meus dois estranhos melhores livros que, em resposta ao desafio lançado pelo Manuel, aqui me propus revelar. Publicado em fascículos semanais no The Guardian, entre Maio e Novembro de 1941, foi editado em livro no ano seguinte. O seu autor, o irlandês C. S. Lewis (1898–1963) foi investigador [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-26780" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/04/diabolicamente-estranho/screwtape/"><img class="aligncenter size-full wp-image-26780" title="Screwtape" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/Screwtape.jpg" alt="" width="308" height="448" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; color: #993300; font-size: medium;"><em>The Screwtape Letters </em>é o primeiro dos meus dois estranhos melhores livros que, em resposta ao desafio lançado pelo Manuel, <a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/04/o-meu-estranho-melhor-livro-e-so-para-avisar-que-sao-dois/">aqui</a> me propus revelar. Publicado em fascículos semanais no <em>The Guardian</em>, entre Maio e Novembro de 1941, foi editado em livro no ano seguinte. O seu autor, o irlandês C. S. Lewis (1898–1963) foi investigador e professor de literatura medieval inglesa em Oxford, crítico literário e escritor. Nascido e educado numa família pertencente à <em>Church of Ireland</em>, tornou-se ateu na adolescência e converteu-se à<em> Church of England </em>em 1931, muito graças aos esforços do seu colega e amigo, o católico J. R. R. Tolkien — a quem é dedicado este livro que vos trago.  </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; color: #993300; font-size: medium;">São várias as razões que o tornam<em> </em>estranho. E também surpreendente, corrosivo e muito, muito divertido.   </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; color: #993300; font-size: medium;"><em>The Screwtape Letters </em>é-nos apresentado como um exorcismo. O seu prefácio adverte que os demónios existem e que entre os maiores erros em que com frequência incorre a humanidade, para seu (deles) gozo e vantagem estão o descrer na respectiva existência e o subestimar-lhes a capacidade, reduzindo-os a estereótipos absurdos e evidentemente falsos. Ora, nada mais perigoso para os incautos humanos – que, lendo este livro, ficarão a saber como é que os demónios os vêm e conhecem e como tramam e conspiram para os desgraçar, tirando partido da sua <em>unawareness</em>, que os deixa desprevenidos e da sua natureza, que os torna particularmente receptivos a todo o tipo de tentação.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; color: #993300; font-size: medium;">Enquanto exorcismo, <em>The Screwtape Letters </em>é tão atípico quanto o são os meios que utiliza: em vez de benzeduras, ladainhas, cruzes, imposições de mãos e afins, o riso e o ridículo, suportados por um inteligente e impiedoso sentido de humor. A eficácia de uma tal opção, essa é garantida, logo de entrada, por duas portentosas figuras da dividida cristandade, que convergem quanto a este ponto:  Lutero e Tomás More <em>themselves</em>, a afirmar, respectivamente, que <em>“the best way to drive out the devil, if he will not yield to texts of Scripture, is to jeer and flout him, for he cannot bear scorn” </em>e que <em>“the devil … the prowde spirite … cannot endure to be mocked”.</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; color: #993300; font-size: medium;">Sucede, porém, que uma análise mais atenta de <em>The Screwtape Letters </em>nos revela que, apesar de os seus principais protagonistas serem demónios, de nos dar um <em>full </em>e delirante <em>insight </em>de como estes congeminam, actuam e se (des)tratam uns aos outros, nada nele é como acabo de dizer (ou apenas isso): nos dois anteriores parágrafos, como no começo do livro, do que se trata é essencialmente de atrair e prender o leitor…</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; color: #993300; font-size: medium;"><em>The Screwtape Letters </em>é um espelho. Um daqueles espelhos de feira que nos devolve uma imagem grotesca e cómica, mas na qual, ai de nós, nos revemos … Qualquer um que, ao lê-lo, solte uma boa gargalhada – e muitas vezes, garanto, isso sucederá — é de si mesmo que ri. Porque <em>The Screwtape Letters</em> é uma crítica tremendamente certeira à natureza humana em geral e aos cristãos em particular. Quanto a estes e ao modo como vivem a sua fé, nada escapa: da espiritualidade estéril que os desliga da realidade e torna insensíveis aos que os rodeiam e às suas necessidades à experiência meramente intelectual das virtudes, sem qualquer reflexo na prática, passando pela caridade exercida de forma voluntarista e massacrante para os seus destinatários ao orgulho na própria religiosidade e virtude. Através de um percurso muito, muito retorcido sobre a tentação, o pecado e sobre a forma gradual, imperceptível e insidiosa como estes podem conduzir o mais comum dos mortais, através da mais banal das existências e sem necessidade de feitos espectacularmente atrozes, à condenação e ao inferno, <em>The Screwtape Letters </em>mostra afinal que, não desfazendo na competência do demónio tentador que a cada um nos saia em sorte, qualquer humano tem em si <em>all that it takes </em>para inapelavelmente se desgraçar — e sem disso sequer dar conta, tão seguro está da sua rectidão de vida. Estranho? Vai-se a ver e se calhar não … </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; color: #993300; font-size: medium;">Quanto ao conteúdo do livro e numa síntese breve e praticamente <em>spoiler-free</em>, <em>The Screwtape Letters </em>é uma série de 31 cartas dirigidas, como o próprio título o indicia, por Screwtape, um demónio velho, astuto e muito vivido, ao seu sobrinho, o jovem, inexperiente e impetuoso Wormwood, a iniciar uma carreira como tentador de humanos (aos quais deve incutir, se necessário, a descrença e fazer cometer pecados de toda a ordem, de modo a assegurar a sua perdição). Nas suas cartas, escritas em resposta às que recebe de Wormwood, Screwtape congratula-se com os progressos que este lhe relata e responde às suas questões. As mais das vezes, contudo, exaspera-se e repreende-o pela sua insensatez e incompetência e tenta transmitir-lhe alguma da sua sabedoria, dissertando sobre Deus, o homem, a oração, a ciência, a idolatria, a guerra, os pecados, a virtude e a tentação. É através destas cartas que vamos também conhecendo <em>the patient</em>, o homem que Wormwood tem de tentar: um recém-convertido ao cristianismo, que se dá com companhias mundanas, se apaixona por uma rapariga muito devota e virtuosa, se angustia perante a perspectiva de ser mobilizado para a guerra e teme os ataques aéreos que na sua região se multiplicam…</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #993300;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; font-size: medium;">Screwtape e Wormwood vivem num mundo ao contrário, no qual <em>The Enemy  </em>(por vezes referido as <em>Our Oppressor</em>) é Deus e <em>Our Father Below </em>o Diabo <em>himself</em>, São Paulo é referido como <em>that pestilent fellow Paul </em>e a organização administrativa infernal tem o nome de <em>Lowerarchy</em>. São deliciosamente desconcertantes as considerações de Screwtape sobre, entre outros relevantes assuntos, <em>that discreditable episode known as the Incarnation (oh, that abominable advantage of the Enemy!), those disgusting little human vermins, those amphibians, half spirit and half animal </em>ou sobre os <em>desires of the flesh </em>e a <em>bebida </em>como caminhos de perdição:<em> never forget that when we are dealing with any pleasure in its healthy and normal and satisfying form we are, in a sense, on the Enemy’s ground (…) for he made the pleasures, all we can do is to encourage the humans to take them at times, or in ways, or in degrees in which He has forbidden…</em></span></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #993300;"> </span><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; color: #993300; font-size: medium;">A concluir, e para ter a certeza de que ficam completamente rendidos, deixo-vos com mais duas pérolas do meu e espero que por esta altura já vosso <em>affectionate uncle </em>Screwtape:    </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; color: #993300; font-size: medium;"><em>To be greatly and effectively wicked a man needs some virtue. What would Attila have been without his courage, or Shylock without self-denial as regards the flesh? </em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; color: #993300; font-size: medium;"><em>It does not matter how small the sins are provided that their cumulative effect is to edge the man away from the Light and out into the Nothing. Murder is no better than cards if cards can do the trick. Indeed the safest road to Hell is the gradual one — the gentle slope, soft underfoot, without sudden turnings, without milestones, without signposts.</em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; color: #993300; font-size: medium;"><em> </em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; color: #993300; font-size: medium;"><em> </em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif; color: #993300; font-size: medium;">PS — O primeiro dos meus <strong><em>passa ao outro e não ao mesmo </em></strong>vai para o <strong>GONÇALO</strong>, que muito gostaria que nos falasse do mais estranho melhor livro que leu …  </span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>O meu estranho melhor livro: é só para avisar que são dois</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Apr 2011 12:43:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O Manuel lançou o desafio. Passou-o à Marta, que o passou a mim. Qual foi o mais estranho melhor livro que leste? Gosto deste surpreendente desafio, que nos faz lançar um outro olhar sobre as nossas estantes, em busca dessa gostável estranheza que não incomoda e afasta, antes interessa, atrai e para sempre prende. E [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-26761" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/04/o-meu-estranho-melhor-livro-e-so-para-avisar-que-sao-dois/matilda-livros/"><img class="aligncenter size-full wp-image-26761" title="Matilda + Livros" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/Matilda-+-Livros.jpg" alt="" width="220" height="367" /></a><span style="color: #000000; font-size: medium; mso-bidi-font-family: Calibri;"><span style="font-family: Calibri;">O Manuel lançou o <a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/03/as-feiticeiras/">desafio</a>. Passou-o à Marta, que o <a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/04/a-infancia-e-um-lugar-estranho/">passou a mim</a>. <span style="color: #d01933;"><strong style="mso-bidi-font-weight: normal;">Qual foi o mais estranho melhor livro que leste?</strong></span></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 18pt; margin: 0cm 0cm 5.35pt;"><span style="color: #000000; font-size: medium; mso-bidi-font-family: Calibri;"><span style="font-family: Calibri;">Gosto deste surpreendente desafio, que nos faz lançar um outro olhar sobre as nossas estantes, em busca dessa gostável estranheza que não incomoda e afasta, antes interessa, atrai e para sempre prende. E que nos permite espreitar inesperados recantos das estantes dos outros, não à socapa (como tantas vezes se faz quando se visita a casa de alguém) mas melhor, muito melhor, porque guiados pelo seu gosto e pela sua sensibilidade, que verdadeiramente fazem aqui toda a diferença – a começar na explicação do que leva cada um a qualificar o livro como estranho (o tema? o enredo? o desfecho? o contraste com o que se é, se pensa, se vive?), a escolhê-lo e, sobretudo, a fazê-lo seu. <span style="mso-spacerun: yes;"> </span><span style="mso-spacerun: yes;">  </span><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 18pt; margin: 0cm 0cm 5.35pt;"><span style="color: #000000; font-size: medium; mso-bidi-font-family: Calibri;"><span style="font-family: Calibri;">Chegada que é a minha vez, impõe-se a breve advertência que motiva este post. Um primeiro <em>raid </em>às minhas prateleiras e às pilhas de livros que se amontoam no chão junto das mesmas resultou num preliminar (e evidentemente estranho) montinho que, sem dramáticas hesitações, depressa reduzi a dois, os quais andaram comigo toda a passada semana (Deus terá decerto um lugar no Céu para quem lançou a moda das carteiras XXL). Folheei-os, reli passagens, aqui e além embrenhei-me e, <em>needless to say</em>, desgracei-me reiteradamente com as horas e os horários. Mais de uma vez me decidi por um, para escassas horas volvidas, escolher o outro ou, pior, querer os dois. <span style="mso-spacerun: yes;"> </span><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 18pt; margin: 0cm 0cm 5.35pt;"><span style="color: #000000; font-size: medium; mso-bidi-font-family: Calibri;"><span style="font-family: Calibri;">Perante tamanha dificuldade e também a título de penitência quaresmal – para mim que, por ser voraz e me não conseguir resolver vou ter de escrevinhar mais, para os que têm a bondade de me ler (o que, <em>rest assured</em>, muito conta para desconto dos vossos pecados), e que levam não com um, mas com três posts sobre o mesmo tema, a começar já neste. </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 18pt; margin: 0cm 0cm 5.35pt;"><span style="color: #000000; font-size: medium; mso-bidi-font-family: Calibri;"><span style="font-family: Calibri;">Então é assim: vou publicar ao longo desta semana, começando ainda hoje (espero) <strong><span style="color: #d01933;">os meus dois estranhos melhores livros</span></strong>. Há muito que um e outro me são muito queridos, e por muito diferentes motivos: o primeiro por ser tão diabolicamente divertido e retorcido quanto inesperadamente sério e profundo, o segundo por ser o mais sombrio e, não obstante, o mais luminoso dos sempre luminosos livros escritos por aquela que é uma das minhas escritoras preferidas. </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 18pt; margin: 0cm 0cm 5.35pt;"><span style="color: #000000; font-size: medium; mso-bidi-font-family: Calibri;"><span style="font-family: Calibri;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 18pt; margin: 0cm 0cm 5.35pt;"><span style="color: #4c4c4c; font-size: 10pt; mso-bidi-font-family: Calibri;"><span style="font-family: Calibri;"><span style="color: #000000; font-size: medium;"><em>PS – Aos meus muito queridos companheiros de sepulcro ainda não desafiados aproveito para avisar que, tendo o Manuel modelado o presente desafio como “passa ao outro e não ao mesmo” em versão dupla, irei cumprir essa parte do mesmo igualmente em prestações, dividindo os dois desafios que me cabe lançar pelos dois textos que se seguem: cada um trará um. </em></span></span></span></p>
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		<title>Monday, Monday</title>
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		<pubDate>Mon, 04 Apr 2011 06:43:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Tell me why, I don´t like Mondays. A questão, lançada por Bob Geldof com os seus Boomtown Rats nos já remotos idos de 1979 é, evidentemente, retórica. Segunda-feira não é dia de que se goste e o motivo é simples. Por mais estimulante que seja o que se faz, por melhor que seja o ambiente [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em><strong><span style="color: #c93541;">Tell me why, I don´t like Mondays</span></strong></em>. A questão, lançada por Bob Geldof com os seus Boomtown Rats nos já remotos idos de 1979 é, evidentemente, retórica.</p>
<p style="text-align: justify;">Segunda-feira não é dia de que se goste e o motivo é simples. Por mais estimulante que seja o que se faz, por melhor que seja o ambiente que nos espera, por mais gratos que sejam os frutos que do nosso esforço colhemos, custa sempre regressar ao trabalho ou à escola, mudar de registo, passar do tranquilo remanso do fim-de-semana aos ritmos frenéticos do despertador e dos compromissos de toda a ordem que sobre nós avançam, tremendos e formados em bélica lista de <em>To Do’s</em>. Não há volta a dar-lhe: a segunda-feira suporta-se com doses adequadas de ânimo e de estoicismo, mas não é dia que se deseje ou se antecipe com entusiasmo. A menos que se esteja em férias. Ou que seja feriado, bem coladinho ao fim-de-semana. Ou ainda, <em>worst case scenario</em>, que haja sido dantesco o fim-de-semana, entre crianças doentes, noites mal-dormidas, termómetros, antibióticos, máquinas de aerossóis e papas de arroz e cenoura, em ininterrupta performance tipo-Florence-Nightingale-com-fada-digo-santa-mártir-do-lar: neste caso, e mesmo só neste, é a chegada da manhã de segunda-feira que nos  liberta, permitindo-nos sair de casa para enfrentar horas do mais duro trabalho com o melhor dos sorrisos.  </p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isto explica a minha estranheza quando aqui há tempos constatei, completamente por acaso, a despropositada quantidade de músicas dedicadas à segunda-feira ou com alusões à mesma.</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #c93541;"><strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=h81Ojd3d2rY">Monday, Monday</a></strong></span>, dos The Mamas &amp; The Papas, <strong><span style="color: #c93541;"><a href="http://www.youtube.com/watch?v=-Kobdb37Cwc">I Don’t Like Mondays</a></span></strong>, dos Boomtown Rats, <span style="color: #c93541;"><strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=ftJZomwDhxQ">Blue Monday</a></strong></span>, dos New Order, <span style="color: #c93541;"><strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=lAZgLcK5LzI">Manic Monday</a></strong></span>, das Bangles, <strong><span style="color: #c93541;"><a href="http://www.youtube.com/watch?v=QMi8gnhQZzc&amp;feature=related">New Moon on Monday</a></span></strong>, dos Duran Duran, <strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=hVR8lg1YLuc">Stormy Monday</a></strong>, de T-Bone Walker, <span style="color: #c93541;"><strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=uyGLLipZYQ8">Monday</a></strong></span>, dos Wilco e <span style="color: #c93541;"><strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=JACc2aIb9PQ">Monday</a></strong></span> dos The Jam — e isto <em>to name just a few</em>. À segunda-feira se referem também os Beatles em <strong><span style="color: #c93541;"><a href="http://www.youtube.com/watch?v=wobmyEB-dsk">You Never Give Me Your Money </a></span></strong>e os The Cure em <strong><span style="color: #c93541;"><a href="http://www.youtube.com/watch?v=wa2nLEhUcZ0">Friday I´m in Love</a></span></strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é que não existam muitíssimas músicas dedicadas aos outros dias, sobretudo ao que integram o fim-de-semana. O que por completo me escapa é o que leva alguém a querer cantar a segunda-feira. Pior, a assumir que alguém possa estar interessado em ouvi-lo. A única explicação que me ocorre prende-se com o desagrado que rodeia tal dia: só pode tratar-se de desabafo, de catarse de um por aí fora de emoções negativas que com este pretexto se exteriorizam. Uma rápida análise da letra da maior parte das <em>monday musics</em> confirma esta minha teoria. Um primeiro grupo basicamente vitupera a segunda-feira – com as piores intenções, como o grande clássico <strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=-Kobdb37Cwc">I Don’t Like Mondays</a></strong> (<span style="color: #c93541;"><em>I wanna shoot the whole day down</em></span>), num tom mais levezinho, mas nem por isso menos expressivo, como <strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=lAZgLcK5LzI">Manic Monday</a></strong><span style="color: #c93541;"><strong><strong> </strong></strong></span>(<span style="color: #c93541;"><em>these are the days when you wish your bed was already made</em></span>), em desolado e desconfiado abandono, como <span style="color: #c93541;"><strong><strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=h81Ojd3d2rY">Monday, Monday</a></strong> </strong></span>(<em><span style="color: #c93541;">can’t trust that day</span></em>) ou sem quaisquer ilusões, caso de <strong><span style="color: #c93541;"><strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=wa2nLEhUcZ0">Friday I´m in Love</a></strong></span></strong>(<em><span style="color: #c93541;">I don’t care if Monday’s black, <span style="color: #000000;">inclusive,</span> Monday you could fall apart</span></em>). Outras não aludem directamente ao dia, mas o seu sombrio contéudo, rico em lamentos e/ou recriminações, indicia que só podem ter sido escritas numa (ou na sequência de uma) segunda-feira — e das difíceis, digo eu: vejam-se <span style="color: #c93541;"><strong><strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=ftJZomwDhxQ">Blue Monday</a></strong></strong></span>, <span style="color: #c93541;"><strong><strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=hVR8lg1YLuc">Stormy Monday</a></strong></strong></span>, <span style="color: #c93541;"><strong><strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=wobmyEB-dsk">You Never Give Me Your Money </a></strong></strong></span>e até o críptico <span style="color: #c93541;"><strong><strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=QMi8gnhQZzc&amp;feature=related">New Moon on Monday</a></strong></strong></span>.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas será que resulta? Será que estas músicas funcionam realmente como antídoto para os <em>monday blues</em>? Nada como experimentar. Proponho-vos que cliquem num <em>link</em> à vossa escolha, de entre os que aqui vos deixo. Se a gravidade do caso o justificar, pois cliquem em vários, cliquem em todos. Cantem e/ou trauteiem, logo pela manhã e ao longo do dia. A ver o que acontece.</p>
<p><strong><span style="color: #c93541;">Boa segunda-feira para todos</span></strong>. Dentro do possível, claro.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Short Story de Abril</title>
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		<pubDate>Sat, 02 Apr 2011 17:36:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Miguel Telles da Gama, Sem Título, acrílico sobre tela, 2006* Há uns anos que me cruzo com ele, em casa de muito queridos amigos. Quando chego, já lá está. Sempre sentado, sempre no mesmo lugar, de onde tão bem se avistam a sala, a sala de jantar e tudo o que por lá se passa. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="mceTemp mceIEcenter" style="text-align: justify;">
<dl id="attachment_26437" class="wp-caption aligncenter" style="width: 560px;">
<dt class="wp-caption-dt"><a rel="attachment wp-att-26437" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/04/short-story-de-abril/imagem-short-story-abril/"><img class="size-full wp-image-26437" title="Imagem-Short-Story-Abril" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/Imagem-Short-Story-Abril.jpg" alt="" width="550" height="343" /></a></dt>
<dd class="wp-caption-dd">Miguel Telles da Gama, Sem Título, acrílico sobre tela, 2006*</dd>
</dl>
</div>
<p style="text-align: justify;">Há uns anos que me cruzo com ele, em casa de muito queridos amigos. Quando chego, já lá está. Sempre sentado, sempre no mesmo lugar, de onde tão bem se avistam a sala, a sala de jantar e tudo o que por lá se passa. Nunca lhe ouvi uma palavra. Fuma, aparentemente alheado da nossa ruidosa presença. E no entanto, todos sabemos que nos observa, que nos ouve as conversas, as discussões e as gargalhadas, que repara em cada detalhe dos nossos épicos jantares – tenho mesmo para mim que, à socapa, vai tomando nota dos vários e sempre fantásticos tintos de que, com método e proveito, damos conta no decurso dos mesmos. Depois volta, absorto, às suas cogitações.   </p>
<p style="text-align: justify;">Há uns anos que me cruzo com ele, dizia. E que tento, sem êxito, decifrá-lo. Uma ou duas vezes senti-o preocupado, quase tenso. Mas em geral parece-me satisfeito consigo próprio, realmente satisfeito, enquanto contempla, triunfante e controlador… muito gostaria eu de saber o quê! Devo confessar que ao fim de todo este tempo, e apesar de alguma familiaridade que inevitavelmente traz a reiterada convivência, subsistem, da minha parte, <em>mixed feelings</em>: tão depressa o senhor quase me cativa, afável e cortês, como me deixa de pé atrás, pelos ares sarcásticos, quando não completamente lúbricos, que lhe surpreendo. Vá lá uma mulher tentar perceber este homem, que é como quem diz os homens em geral.  </p>
<p style="text-align: justify;">Por tudo isto, decidi trazê-lo aqui para o cemitério, onde vai passar o mês de Abril. Para que os meus argutos, sabedores e inspirados companheiros de sepulcro finalmente desvendem quem é ele, onde e com quem está, para onde olha ou parece olhar… A ver se de uma vez por todas fico, ficamos todos, a saber <em>what he is really up</em> to e porque é que aquele cigarro não é – como, de resto, não parece ser - um mero pensativo cigarro…</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><em>* Esta imagem — a única que consegui surripiar e trazer para aqui, corta uma parte da tela original, que é quadrada e tem mais uns detalhes que, em querendo, podem espreitar <a href="http://migueltellesdagama.enecoisas.com/html/portfolio.html">aqui, com o n.º 17</a>.  </em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Como uma tela em branco</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Mar 2011 23:44:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Chegara nos primeiros dias de Março. Arrendara a casa branca sobre as dunas, virada ao mar. Viera só, estava sempre só. E sempre de branco. Manhã cedo passeava na praia. Recebia poucas cartas e nenhumas visitas. Nas contadas vezes em que fizera compras na vila mostrara-se cordial mas distante. Era grande a curiosidade acerca daquela [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a rel="attachment wp-att-26244" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/03/como-uma-tela-em-branco/hip-hip-hurra-de-peder-severin-kroyer-1888/"><img class="aligncenter size-full wp-image-26244" title="Hip Hip Hurra, Peder Severin Kroyer, 1888" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/Hip-Hip-Hurra-de-Peder-Severin-Kroyer-1888.bmp" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Chegara nos primeiros dias de Março. Arrendara a casa branca sobre as dunas, virada ao mar. Viera só, estava sempre só. E sempre de branco. Manhã cedo passeava na praia. Recebia poucas cartas e nenhumas visitas. Nas contadas vezes em que fizera compras na vila mostrara-se cordial mas distante. Era grande a curiosidade acerca daquela mulher pálida e frágil. O que a trouxera até ali? Desgosto, para muitos. De amor, claro. Tragédia, não era caso para menos, havia quem garantisse: tão nova e bonita, a vaguear como um fantasma naquele fim de mundo.   </p>
<p style="text-align: justify;">Também entre os artistas, como eram conhecidos na terra, se comentara a misteriosa figura. Apesar da dor que prostrava muitos dos que ali se juntavam - os que vinham da cidade, mal surgia a Primavera, atrás daquela luz única e os que permaneciam o ano todo, enquanto o céu e o mar a mudavam de cor. Fora um Inverno gelado de inesperadas mortes. Primeiro a mulher de Tomás, a dar à luz a segunda criança de ambos, que também se não salvara. Semanas depois, o marido de Ana, numa queda de cavalo. O desespero de Tomás, o desamparo da sua filha, tão pequena, a apatia de Ana agravavam o desgosto da irmã e dos irmãos dos desaparecidos. As conversas morriam, os serões acabavam cedo. Uns retiravam-se, para longas vigílias sem sono. Outros ficavam a beber, noite adentro. Às vezes discutiam. Todos haviam deixado de pintar: as telas brancas trazidas pelos que iam chegando empilhavam-se por todo o lado.    </p>
<p style="text-align: justify;">Mas a curiosidade é uma força poderosa. As deambulações matinais da mulher de branco não passaram despercebidas a uns quantos membros do desolado grupo que, do alto de uma falésia, começaram a observá-la e, logo depois, a desenhá-la. Numa visita à casa branca Ana e Luísa haviam descoberto que também ela pintava. A conversa fluira e, abandonando a sua reserva, mostrara-lhes os trabalhos em que ocupava as tardes. Na parede da sala, o retrato de uma criança loura, a mesma que aparecia em quase todas as fotografias. Ao canto, uma enorme casa de bonecas, montada, mobilada e habitada. Nenhuma ousara perguntar, mas quando dias depois Luísa regressara, trazia consigo a sobrinha, filha de Tomás. Fora imediata e intensa a ligação entre a mulher de branco e a criança. O tempo passara depressa, esta a brincar na casinha, aquela absorta a vê-la, enquanto escutava Luísa. Nessa noite, e pela primeira vez em meses Tomás sorriu, ao ouvir o relato da filha. Prometeu que no dia seguinte iria com ela ver tal maravilha. Foi e ficou a tarde toda. Um jantar de conversas e risos em casa de Luísa selou a entrada do novo membro no grupo. Dir-se-ia que a desanimada desconhecida a todos insuflara novo ânimo. A todos não.</p>
<p style="text-align: justify;">Ana mantivera-se à margem do entusiasmo geral, desconfiada e ressentida. Sempre gostara de Tomás, resignara-se mal ao casamento dele com a sua melhor amiga, fora até feliz com o seu marido. Mas a morte quase simultânea de ambos vira-a como um estranho sinal – de que talvez tivesse chegado a altura de Tomás e ela ficarem juntos. Então aparecera a mulher de branco. Que dia a dia se libertava da densa tristeza que a tolhia e se revelava gentil, alegre e talentosa. <em>Não achas estranho não sabermos nada sobre ela? É como uma tela em branco.</em> Dissera-o varias vezes a Luísa, que ria e respondia. <em>E que mal é que isso tem? Uma tela em branco pode vir a ser o que se queira!</em> Escrevera a uma prima, que sabia sempre tudo sobre toda a gente. Quem seria ela afinal, que vida fora a sua, da qual não falava? Várias semanas passaram. Tomás recuperara o sorriso. Recomeçara a pintar. Ao lado, no terraço de casa dela, a mulher de branco sorria também. O branco do vestido já nada tinha de mortalha, iluminava-lhe os traços suaves e a figura esbelta. </p>
<p style="text-align: justify;">Era já Setembro. O almoço juntara-os todos, desta vez em sua casa, e prolongara-se pela tarde, em brindes e discursos. Arrefecia. Ana entrou  para buscar um agasalho. Na sala, a lareira já acesa. Sobre a mesa, o correio. A carta que esperava. Volumosa. Pegou nela. Reviu o sorriso de Tomás, de pé, no meio dos outros. A criança loura aninhada no colo branco, envolvida pelo braço <em>dela</em>. Ouviu o som dos copos a tinir e das gargalhadas, lá fora. Atirou a carta fechada para as chamas, pegou no xaile de lã e regressou ao seu lugar, na cabeceira da mesa.     </p>
]]></content:encoded>
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		<title>Flush</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Mar 2011 01:28:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Queridos Mortos]]></category>

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		<description><![CDATA[FLUSH (Reading, 1840 – Florença, 1854) Era um cocker spaniel castanho escuro que, graças às suas impecáveis linhagens materna e paterna, apresentava todas as characteristic excellences of his kind, facto que  older and wiser passou a relativizar, tendo-se deixado de snobeiras de pure-bred dog. Viveu 14 anos de uma existência muito intensa e variada. Nos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong><a rel="attachment wp-att-26083" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/03/flush/flush-capa-1-%c2%aa-edicao-2/"><img class="aligncenter size-full wp-image-26083" title="Flush Capa 1.ª edição" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/Flush-Capa-1.ª-edição1.jpg" alt="" width="273" height="408" /></a></strong></p>
<h2 style="text-align: center;"><span style="color: #765241;"><strong>FLUSH</strong></span></h2>
<h3 style="text-align: center;"><span style="color: #765241;"><em><strong>(Reading, 1840 – Florença, 1854)</strong></em></span></h3>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #765241;">Era um <em>cocker spaniel </em>castanho escuro que, graças às suas impecáveis linhagens materna e paterna, apresentava todas as <em>characteristic excellences of his kind</em>, facto que  <em>older and wiser </em>passou a relativizar, tendo-se deixado de snobeiras de <em>pure-bred dog</em>. Viveu 14 anos de uma existência muito intensa e variada. Nos campos do Berkshire, onde nasceu, foi cão de caça, turbulento e enérgico. Em Londres deixou-se reduzir, à força de mimo, a cão de colo caprichoso e timorato. Em Pisa e em Florença voltou a ser um cão como os outros e foi completamente feliz. Flush gozou momentos únicos de quase comunhão espiritual com a sua Dona, de absoluto deleite com a luz e a exuberância olfactiva e sonora de Itália, de grande paródia com os cães e, sobretudo, com as irresistivelmente atrevidas cadelas que por lá encontrou. Passou também por momentos terríveis. Como quando por três vezes foi raptado e levado para fétidos e aterradores antros, nos mais miseráveis bairros da Londres vitoriana – na qual florescia o negócio de subtrair cães de raça que andavam na rua sem trela, contra avultado resgate. Ou quando teve de presenciar, transtornado de ciúmes, como a sua Dona se apaixonava e se dedicava inteiramente a um rival, a quem, por duas vezes, ressentido e rancoroso, chegou a morder.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #765241;">Flush não era um cão comum, insistem a sua extremosa Dona e a sua talentosa biógrafa, também ela Dona de um <em>cocker spaniel </em>castanho (cuja foto ilustrou a capa da primeira edição da sua biografia):<em> he was high-spirited, yet reflective; canine, but highly sensitive to human emotions also</em>. Verdadeiramente únicas são, ainda, as extraordinárias <em>literary connections </em>de Flush: a sua adorada Dona era Elisabeth Barrett (mais tarde também Browning); a autora da sua surpreendente biografia Virginia Woolf – que para a escrever se baseou nas cartas de Elisabeth para Robert Browning (o alvo das sombrias conjecturas e das furiosas investidas de <em>Flushie</em>) e para a sua irmã, e em dois poemas por aquela dedicados a Flush – <em>To Flush, My Dog e Flush, or Faunus</em>. Não é para quallquer cão, convenhamos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #765241;">Corria o Verão de 1931. Virginia Woolf acabara <em>The Waves</em>, estava física e emocionalmente extenuada – e ter-se-á concedido esta <em>little escapade</em> (as palavras são suas). Que teve, à época, apreciável sucesso comercial, mas que foi desde então e até muito recentemente votada por críticos e estudiosos à irrelevância e à desconsideração como obra menor, quase embaraçosa de tão ligeira no tema e no tom e no contraste com a sua portentosa escrita. E, no entanto, tudo aponta para que fosse outro o olhar de Virginia Woolf sobre <em>Flush: a biography</em>, a que se referiu como “<em>too slight and too serious</em>”. Numa entrada no seu Diário, no Outono de 1933, antecipa o sucesso da obra e admite vir a ficar <em>“very much depressed (…) by the kind of praise”</em> com que a mesma será recebida: <em>“they’ll say its charming, delicate, ladylike”</em>. Algum tempo depois, em resposta à carta de uma amiga, confirma ser <em>Flush: a biograpy “all a matter of hints and shades, and pratically no one has seen what I was after</em>”. Decididamente, <em>there is more to this book than meets the eye</em>. Mas o quê?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #765241;">A história de Flush é a de Elisabeth Barrett Browning. Contar uma é contar a outra. Porque a vida de Flush replica a vida de Elisabeth. Da sombria reclusão do quarto nas traseiras do n.º 50 de Wimpole Street à luminosa animação da <em>Villa Guidi</em>. De uma prisão, feita de medos e de super-protecção, para a liberdade, aberta a todas as possibilidades, expectativas e riscos. Elisabeth era hipocondríaca, dada a melancolias e viciada em láudano, deixava-se cuidar e menorizar por um pai que tinha tanto de protector como de tirano: raramente saía do seu quarto, onde escrevia, tomava as refeições e recebia raras visitas. Flush temia as sombras do escritório, as paradas militares, os bandos de raptores: não saía à rua sem trela, só relutantemente largava a sua almofada aos pés da Dona — <em>the prince of cowards</em>, chamava-lhe ela, afectuosamente. Elisabeth primeiro, Flush depois resignaram-se a uma vida de dependência. Abdicaram da sua liberdade a troco de conforto, protecção e segurança. Submeteram-se, dóceis e gratos, àqueles a quem tudo deviam, a quem tudo relevavam: o pai, a Dona. E ao fazê-lo negaram-se a si mesmos: Elisabeth como mulher, Flush como cão.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #765241;">Este desolado destino só mudou quando Elisabeth decidiu tudo arriscar. Deixar para trás a invalidez, os cuidados, o controlo, para viver uma vida que até aos quarenta anos aceitara estar-lhe negada: uma vida inteira, como mulher, mãe e poetisa, uma vida plena de luz e de calor, de saúde e de inspiração.<strong> </strong>Libertando-se, Elisabeth libertou Flush da triste condição de sucedâneo dos afectos por que ansiava. E permitiu-lhe voltar a ser cão, dedicar-se a uma alegre vadiagem e a novas experiências de companheirismo e de conquistas.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #765241;"><em>Flush: a biography </em>é, antes de mais, uma deliciosa experiência de escrita numa <em>non-human perspective</em>. A narradora entra e move-se com um desconcertante à vontade na mente e no coração do temperamental <em>cocker</em>, revela receios e interrogações, decifra perplexidades, explicita receios, ressentimentos, humilhações e amuos. São absolutamente hilariantes as passagens que relatam o desespero de Flush ao perceber como o <em>tall, dark haired man </em>passa a fazer parte da vida de Elisabeth, o seu espanto perante a <em>obtuseness </em>do pai dela, alheio ao que se passava debaixo do seu próprio tecto, os seus malévolos planos para atacar e correr de vez com <em>the usurper</em>, os ciúmes quando do nascimento do bebé, <em>the horrid thing that mewed</em>. E sublimes as páginas sobre <em>the world of smell </em>em que vivia Flush, para quem o cheiro era poesia, mas sem palavras: <em>where Mrs. Browning saw, he smelt, where she wrote, he snuffed (…) not a single one of his miryad sensations ever submitted itself to the deformity of words</em>.     </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #765241;">Mas <em>Flush: a biography </em>é também uma incisiva e inquietante reflexão ﻿ sobre a incontornável tensão entre protecção e autonomia, dependência e liberdade, conforto e acomodação; sobre o preço do conformismo e da desresponsabilização, sobre o amor que às vezes diminui e destrói. Questões que os paradigmas femininos vigentes à época de Elisabeth e de Virginia tornavam especialmente pertinentes, questões com que esta última se terá defrontado na juventude, entre a sua fragilidade psicológica e o voluntarismo tutelar do seu pai. E questões que <em>in another time and place </em>nos dão, ainda assim, que pensar. </span></p>
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		<title>Ab ovo usque ad mala</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Mar 2011 13:23:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ab ovo usque ad mala. Do ovo às maçãs. A expressão, atribuída a Horácio, refere-se aos lautos banquetes romanos, que começavam com uma entrada de ovos e terminavam com fruta, e significa do princípio ao fim, completude. Ocorre-me a propósito deste quadro, por causa do nome do seu autor — Egg, Augustus Leopold Egg (1816–1863) — [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-25937" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/03/ab-ovo-usque-ad-mala/egg-past-and-present-1/"><img class="aligncenter size-full wp-image-25937" title="Egg, Past and Present 1" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/Egg-Past-and-Present-1.jpg" alt="" width="512" height="424" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Ab ovo usque ad mala.</em> Do ovo às maçãs. A expressão, atribuída a Horácio, refere-se aos lautos banquetes romanos, que começavam com uma entrada de ovos e terminavam com fruta, e significa do princípio ao fim, completude. Ocorre-me a propósito deste quadro, por causa do nome do seu autor — Egg, Augustus Leopold Egg (1816–1863) — e das maçãs que contém e que evoca. Mas também por ser o mesmo um pantagruélico festim de detalhes e simbologias que se conjugam diante de nós num expressivo e dramático relato.  </p>
<p style="text-align: justify;"><em>Past and Present</em> 1 é o primeiro — e de longe o mais extraordinário – de um triptíco pela primeira vez exposto em 1858 na <em>Royal Academy</em> de Londres, e dedicado ao adultério feminino. Corresponde ao <em>past </em>do título por que ficou conhecido e representa o momento em que o marido descobre <em>tudo </em>- e em que a mulher literalmente cai em desgraça. Quando da primeira apresentação pública do conjunto, figurava no centro, como chave de leitura dos outros dois, que retratam o sombrio <em>present</em>, num engenhoso e, à data, surpreendente <em>flashback</em> narrativo.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo neste quadro é significativo e concorre para intensificar o <em>pathos</em> do momento que capta. Em primeiro plano, <em>the fallen woman</em>, de mãos postas, dir-se-iam atadas, o rosto escondido – ciente do que a espera e que a porta da rua aberta reflectida no espelho deixa já entrever. Logo atrás, o marido, o rosto de pedra e, amarfanhada na mão, a carta reveladora. Anónima delação? Imprudência dos amantes, surpreendidos pelo seu intempestivo regresso (que a bagagem pousada no chão e o chapéu na mesa parecem sugerir)? Para o caso pouco importa, se já nada há a ocultar: nem sequer a identidade do outro, cujo retrato-miniatura o pé marital esmaga. Há ainda a maçã vermelha. Metade caída no chão, metade sobre a mesa, a faca nela espetada — sinal da divisão causada, do rude golpe inflingido pela traição da mulher. A própria facada no matrimónio. Mas a maçã remete-nos também para Eva, <em>of course</em>. E se dúvidas restassem quanto a este ponto, um mero relance para a parede do fundo da divisão dissipá-las-ia: à esquerda, sobre o retrato da até aí dona da casa, a reprodução de uma cena bíblica: expulsão do Paraíso, <em>what else</em>? <em>Last but not the least</em>, as duas meninas, tão angelicais quanto sinistras – veja-se o desproporcionado tamanho das louras cabecinhas … -, uma a mirar fixamente a cena, a outra absorta no castelo de cartas que acaba de ruir, como tudo à sua volta,<em> needless to say</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi grande o impacto deste tríptico junto da crítica da época. O tema e a forma crua como era tratado causaram incómodo: como disse um <em>outraged critic, “</em><em>there must be a line drawn as to where the horrors that should be painted for public and innocent sight begin, and we think Mr. Egg has put one foot at least beyond this line”</em><em>.</em> Ainda assim, passou por moralista, como advertência contra os males associados ao adultério feminino na sociedade vitoriana: a destruição do lar, as filhas a crescer sem mãe, a degradação moral da mulher. A verdade é que a <em>closer look</em> abala a certeza de uma tal leitura. Aquela mulher para sempre caída tem a fragilidade da vítima, suscita, mais que a reprovação, a compaixão – que as <em>poignant scenes</em> que completam o triptíco as desamparadas filhas a recordá-la e a própria, debaixo de uma ponte, abandonada pelo amante com o fruto dos seus ilícitos amores nos braços mais não fazem que acentuar. É bem provável que Egg, amigo e admirador de Balzac e de Dickens tenha, como estes, na literatura, ou como Watts, na pintura, procurado expor as limitações e a injustiça do modelo burguês de casamento de conveniência que propiciava o adultério de parte a parte, da dureza dos códigos sociais e legais que baniam e lançavam na miséria e na degradação a mulher prevaricadora. E que o tenha feito habilidosamente, através de uma cuidada <em>mise-en-scène</em> que, numa aparente e insuspeita colagem às convenções vigentes, consegue, entre o quase absurdo do primeiro e a desolação dos demais, uma densidade dramática capaz de suscitar emoções e conjecturas inesperadas à desprevenida assistência. Ou não fosse Egg também um talentoso actor de teatro, com créditos bem firmados como encenador.    </p>
<p style="text-align: justify;"> <a rel="attachment wp-att-25943" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/03/ab-ovo-usque-ad-mala/egg-past-and-present-2-2/"><img class="alignleft size-full wp-image-25943" title="Egg, Past and Present 2" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/Egg-Past-and-Present-21.jpg" alt="" width="287" height="235" /></a>  <a rel="attachment wp-att-25944" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/03/ab-ovo-usque-ad-mala/egg-past-and-present-3-2/"><img class="alignright size-full wp-image-25944" title="Egg, Past and Present 3" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/Egg-Past-and-Present-31.jpg" alt="" width="289" height="235" /></a> <a rel="attachment wp-att-25939" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/03/ab-ovo-usque-ad-mala/egg-past-and-present-3/"></a></p>
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		<title>Foi Surreal</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Mar 2011 23:35:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A negociação durou dias. Renhida. De um lado, moi, do outro o sindicato filial, tão temível quanto sorridente. À proposta inicial respondi com um rotundo e — julgava eu — definitivo não. O perigoso sindicato insistiu. Tentei esquivar-me com o depois lá, logo se vê, mas o tenaz cartel voltou à carga. Antevendo o inevitável [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-25585" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/03/foi-surreal/pattinson-girls/"><img class="aligncenter size-full wp-image-25585" title="Pattinson &amp; Girls" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/Pattinson-Girls.jpg" alt="" width="228" height="314" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">A negociação durou dias. Renhida. De um lado, <em>moi</em>, do outro o sindicato filial, tão temível quanto sorridente. À proposta inicial respondi com um rotundo e — julgava eu — definitivo não. O perigoso sindicato insistiu. Tentei esquivar-me com o <em>depois lá, logo se vê</em>, mas o tenaz cartel voltou à carga. Antevendo o inevitável desfecho, impus condições, prontamente aceites: três museus, à minha escolha, sempre com boa cara. Marquei <em>online</em> para terça-feira de Carnaval. <em>Very</em> a<em>ppropriate</em>. E foi assim que cheia de <em>fair-play</em> e com uma <em>radiant disposition</em>, depois de um <em>early morning raid </em>a uma livraria que rendeu dois sacos de promissoras leituras, integrei a multidão que convergia para o <em>Madame Tussaud’s Wax Figure Museum</em>, em Londres.  </p>
<p style="text-align: justify;">A muito custo preparara-me para uma enfadonha sucessão de salas atulhadas de figuras tipo manequim de loja foleira, ataviadas como personagens, reais ou imaginárias, pretéritas e presentes. Não, de todo, para a inimaginável e delirante mistura de Disneyland, MTV e parque de diversões, com pipocas e afins <em>all over</em>, em que me vi metida durante quase duas horas.       </p>
<p style="text-align: justify;">As surpresas começaram logo à entrada da primeira sala: gargalhadas, gritinhos, urros e um desatino de <em>flashes </em>que só visto. Espalhados no meio de um cenário que pretendia evocar <em>glitter </em>e <em>glamour </em>lá estavam a Miley Cyrus-Hanna Montana, os rapazes que fazem de Harry Potter e de Edward (o xaroposo vampiro do <em>Twilight</em>). A pensar nos mais crescidos (que também os havia, e muitos, Santo Deus), Clooney, o casal Beckham, Angelina Jolie e o seu Brad Pitt, Julia Roberts, Johnny Depp e Nicole Kidman, entre outros. As reproduções eram <em>pretty accurate,</em> das tatuagens da Angelina ao rosto botoxado da Nicole. Depressa percebi, porém, que ninguém ali estava para apreciar detalhes. O objectivo era um e um só: tirar fotos, o maior número possível de fotos, num tu-cá-tu-lá de estarrecer com as <em>celebrities</em>. Mulheres de todas as idades posavam com o Clooney, as mais afoitas davam-lhe a mão ou beijinhos na bochecha. A cena repetia-se com o Brad Pitt e, em versão rapaziada, com a Angelina. Na secção infanto-juvenil, havia filas para posar junto da Miley e para <em>polaroids </em>com o moço vampiro. Cumpridos os mínimos de mãe extremosa, fugi, deixando para trás a Kate Moss descalça e aninhada num divã e mais uns quantos <em>famous </em>votados ao desinteresse pela turba. Achava eu que se seguiria algo mais convencional. <em>Couldn’t have been more wrong</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">A sala seguinte era dominada pela princesa Diana, de vestido de lantejoulas, sobre um pedestal azul celeste, tipo santa. Várias muçulmanas veladas faziam-se retratar junto dela, enquanto Andy Warhol e Jerry Hall miravam desdenhosos. Já Liza Minelli, escarranchada na cadeira de <em>Cabaret</em>, parecia genuinamente interessada na cena. A tornar tudo mais bizarro, se possível, a música, a alto e bom som: <em>Yellow Submarine</em>, dos Beatles, <em>Jumpin Jack Flash</em>, dos Stones e <em>Light My Fire</em>, dos Doors. Decidida a abreviar o meu tormento, atravessei em passo rápido <em>From Bollywood to Hollywood </em>- onde avistei vários 007, Spielberg, Audrey Hepburn de tiara, Aiswaria Rai num belo sari, por entre inúmeras e variavelmente cintilantes <em>movie stars</em>. Os mais requisitados para fotografias, sem dúvida o Schreck e Marylin Monroe, esta sob uma linda pérgola iluminada, de vestido branco plissado esvoaçante. Em cantos opostos, Brando de blusão de couro e Bogart de gabardine olhavam sombrios os passantes, decerto a pensar no que estariam ali a fazer. Impossível não. Com a minha por esta altura um tanto desconcertada prole, desci ao <em>lower level</em>. Pensei em Dante e em como merecia uma estátua de cera, ali mesmo. O senhor que decorava o patamar parecia o Hitchcock. Era.</p>
<p style="text-align: justify;">Grandes e indescritíveis emoções me reservava o piso de baixo. <em>Sports Stars</em>, para começar bem. Logo de entrada, uma antecâmara exclusivamente dedicada ao <em>Special One</em>, Mourinho <em>himself</em>. Entre abraços, palmadas nas costas e exclamações sentidas, quase todas em português, o pobre não tinha sossego. Embaraçada, esgueirei-me para ver o resto do desporto. Jogadores da bola eram quatro: Cristiano Ronaldo, Beckham, Pelé e Wayne Rooney: Messi, nem vê-lo. Suspensa do tecto, por cima deles, Olga Korbut, de louros totós, fazia o pino na trave olímpica. Em vão procurei a Comaneci. Indignada com tão inexplicável omissão, votei ao desprezo várias <em>cricket glories</em>, um matulão do <em>rugby</em>, mais o Lewis Hamilton, o Cassius Clay-Muhammad Ali e o Boris Becker e<em> moved forward</em>. Vi-me então rodeada de <em>Royals </em>e no meio de grande agitação: adolescentes <em>giggling </em>agarradinhas aos princípes William e Harry e várias<em> ladies over fifty </em>posando numa de <em>best friends </em>com Camilla Parker-Bowles. <em>Astonishing</em>. Estranhei a ausência de Kate, a esbelta noiva de William, e mais ainda a presença lá no meio, como alma penada, da diminuta rainha Vitória. No recanto dedicado a <em>Science and the Arts</em>, um curioso e heterógeneo grupo formado por Einstein — muitíssimo requestado para fotos em registo de grande informalidade, vá-se lá saber porquê -, Picasso, Stephen Hawking, na sua cadeira de rodas, Oscar Wilde, sorrindo descarado, Dickens e Van Gogh, de paleta e com ar bastante alucinado. Não era caso para menos, convenhamos.  </p>
<p style="text-align: justify;">Por esta altura, fiel ao meu <em>endurable motto </em>– se não podes vencê-los, junta-te a eles – confesso que estava a divertir-me, e bem, para crescente apreensão das duas principais instigadoras do programa, as quais não sabiam bem o que achar de tudo aquilo. <em>Music Megastars</em>,<em> the next stop</em>, não desiludiu – dentro do género, claro. Luzes de discoteca e bolas de espelho no tecto. Michael Jackson, de peúga branca e chapéu preto. Uma legião de fiéis passava feliz, de cabeça em cabeça, um chapéu preto igual: tive um calafrio só de pensar no potencial de contágio de <em>pediculus capitis </em>(eufemismo que nas cartas da escola refere exactamente <em>isso </em>em que estão a pensar) de tão bonito gesto. Mas as atenções convergiam inevitavelmente para o palco cheio de <em>babes</em>, de cera e não só: Amy Winehouse, Britney Spears, Lady Gaga … e um enxame de <em>wannabes </em>que, guinchando, as imitavam e quase derrubavam. Indiferente a tudo isto, Jimi Hendrix tocava e controlava pelo canto do olho os fãs mais idosos que se abraçavam comovidos a Elvis e a Bob Marley. A selecção musical alternava, num desconcertante <em>shuffle</em>, <em>Rehab </em>com <em>Love me Tender</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Porque nem só de futilidades é feita esta vida, o <em>grand finale</em>, dedicado aos <em>world leaders</em>, tinha mensagem. Bem ao centro da sala, virados para o dito palco, contra um fundo às pombinhas (e benevolamente observados por Mohamed Al Fayed, junto ao balcão das pipocas e do algodão doce), um quarteto de <em>peace-builders</em>: Dalai Lama, Ghandi, Mandela e o Papa João Paulo II. Logo ao lado, um trio de alto coturno: Saddam Hussein, Mugabe e Hitler — este último um <em>must </em>para catárticas e exuberantes poses (aposto que a imagem passa o tempo a ser reparada). Mesmo ao lado, a dupla Fidel e Khaddafi não deixava ninguém indiferente: um rapaz, de <em>t-shirt </em>do Che, punho erguido e ar convicto, plantou-se junto do primeiro, estranhamente sem máquina fotográfica conhecida à vista e por ali ficou. Para os demais retratados, vivos e mortos, agrupados do lado oposto a estes – Obama, Merkel, Sarkozy, Blair, Putin, Bush, Ataturk, Thatcher, Benazir Bhutto, <em>to name a few</em> – <em>the writing on the wall: the world awaits. Lovely.</em></p>
<p style="text-align: justify;">O balanço da visita, esse não podia ser mais positivo: uma experiencia realmente atípica e enriquecedora, para mim, a prova de que às vezes é a mãe e não as amigas quem tem razão, para as meninas. <em>Lovely, indeed.   </em>                                    </p>
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		<title>E se fosse aqui? E se fosse agora?</title>
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		<pubDate>Sun, 27 Feb 2011 20:14:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O Gonçalo e o Manuel foram partilhando connosco, ao longo da semana que passou, as suas reflexões muito pessoais e muito sentidas sobre aquela que é uma das mais belas passagens do Evangelho e uma das que mais fortemente me interpela – o Sermão da Montanha, na versão de Mateus (5, 1–12). Revi-me, impossível não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-25194" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/02/e-se-fosse-aqui-e-se-fosse-agora/picasso-blue-dove-1961/"></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a rel="attachment wp-att-25202" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/02/e-se-fosse-aqui-e-se-fosse-agora/pablo-picassocolombe-bleue-1961/"><img class="aligncenter size-full wp-image-25202" title="Pablo Picasso,Colombe Bleue, 1961" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/Pablo-PicassoColombe-Bleue-1961.jpg" alt="" width="415" height="329" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">O Gonçalo e o Manuel foram partilhando connosco, ao longo da semana que passou, as suas reflexões muito pessoais e muito sentidas sobre aquela que é uma das mais belas passagens do Evangelho e uma das que mais fortemente me interpela – o Sermão da Montanha, na versão de Mateus (5, 1–12). Revi-me, impossível não o fazer, em todos os textos que um e outro publicaram. Com o Gonçalo partilho essa dimensão incontornável da esperança e da certeza que nos dá a fé, a noção de que estamos a caminho, rumo a uma felicidade futura, com as bem-aventuranças como coordenadas de GPS. Tal como ao Manuel, fascina-me a profunda humanidade deste desafio, tão revolucionário quanto actual, feito por um homem a mulheres e homens que ali tinham ido para o ouvir – gente comum, tão comum como cada um de nós, não especialmente virtuosos, espirituais ou heróicos. Mas a verdade é que a leitura que do Sermão da Montanha há já tempo faço e procuro pôr em prática não coincide exactamente com a que fazem um e outro. Por isso decidi trazê-la aqui, tão explicada e curta quanto consegui, para não causar nos que tiverem a bondade de me ler até ao fim uma desagradável <em>overdose</em> de Bem-Aventuranças.  </p>
<p style="text-align: justify;">Como crente, sei que Deus tem para mim um projecto de felicidade. Sei que me espera um final feliz, eternamente feliz, uma vez fterminada a minha passagem por este mundo e sei também que esta faz já parte desse projecto. Talvez por isso, pouco me inquiete a pensar no que se segue e me centre na vida que me é dado viver aqui e agora, procurando fazê-lo o melhor possível. E é  justamente neste contexto que ganham pleno sentido as Bem-Aventuranças. Como projecto de felicidade terrena e, por via desta, de santidade.</p>
<p style="text-align: justify;">As Bem-Aventuranças são antes de mais um projecto de felicidade – bem-aventurados significa, numa linguagem mais corrente e acessível que aquela a que nos habituaram a tradução e a tradição dos textos bíblicos, felizes. O projecto de uma felicidade quotidiana e acessível. Que nos liberta do que desnecessária e quantas vezes incompreensivelmente nos prende e nos tolhe, que nos centra no essencial, que nos abre e nos liga ao outro, que nos faz autênticos e inteiros.</p>
<p style="text-align: justify;">É neste sentido que se é tanto mais feliz quanto mais se é pobre ou manso, quando mais se chora ou se é perseguido. Em momento algum este texto faz a apologia do sofrimento ou até da busca dele como via de melhoramento, de crescimento ou — o que seria -, de felicidade. Sofrer é sempre mau. Sempre. Pior, às vezes é causa de males maiores: todos temos, com mais ou menos nitidez, a experiência de que a dor que a uns tempera, fortalece e suaviza a outros revolta, azeda e torna mesquinhos (tal como a felicidade a uns faz empáticos e generosos e a outros insensíveis e indiferentes para com os menos afortunados).</p>
<p style="text-align: justify;">É definitivamente diferente, bem mais rico e estimulante o desafio que encerram estas nove exortações, de todos tão bem conhecidas. Que com um coração de pobre vivamos com a simplicidade, a sobriedade e a contenção que nos permitem desfrutar de tudo o que é material, acessório, às vezes supérfluo, sem excessos que nos complicam a vida. Que chorando, sempre que a vida nos dá motivo para tal, sejamos verdadeiros, mostrando-nos frágeis e necessitados, pedindo e aceitando ajuda, confiando e agradecendo, libertando-nos da orgulhosa auto-suficiencia que desvaloriza e dispensa o outro. Que sendo humildes não deixemos que o nosso saber, as nossas certezas e o nosso desejo de impressionar e de brilhar nos impeçam de ouvir, de aprender, de mudar, de dar ao outro razão e valor. Que recusemos a dureza e a insensibilidade de um coração de pedra, que julga e condena e nos torna incapazes de sentir e de sofrer com o outro, de pesar as suas razões e de relativizar, relevar e perdoar. Que por mais que vivamos e vejamos, façamos por manter inteiras a limpidez do olhar e das intenções, a confiança e o optimismo no outro e neste nosso mundo. Que em todos os planos em que actuamos procuremos construir em vez de destruir, aproximar em vez de dividir, acrescentar em vez de diminuir. Poderia continuar mas prometi ser breve. E misericordiosa com o leitor. Adiante, pois.</p>
<p style="text-align: justify;">É uma proposta ousada e exigente, esta. Cristo dirigiu-a à multidão, na qual nos incluímos, e não a um conjunto de eleitos, especialmente vocacionados ou dotados para a perfeição. O Sermão da Montanha é um luminoso apelo a que coloquemos a fasquia mais alta, a que nos transformemos e a este nosso mundo, mas sempre — e é isso que o torna extraordinário -, no horizonte do humanamente possível e atingível, fazendo prevalecer o que o ser humano tem de melhor, para lá das suas limitações e insuficiências. Se o fizermos, ligaremos, na nossa frágil e singela humanidade, a terra e o céu. E atingiremos a santidade, a santidade que está afinal ao alcance de todos. Aqui e agora.</p>
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		<title>A duquesa, o homem sem cabeça e o colar de pérolas</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Feb 2011 12:32:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[História Particular da Infâmia]]></category>

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		<description><![CDATA[Protagonizou um longo e escandaloso divórcio, cujos lurid details causaram um frenesim mediático sem precedentes na Londres dos sixties e por um triz não fizeram cair o governo conservador de Harold Macmillan.   Margaret enganou o marido. De forma reiterada e muito pouco discreta. Imprudente, anotava nos seus diários os affaires que ao longo de vários [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-25062" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/02/a-duquesa-o-homem-sem-cabeca-e-o-colar-de-perolas/mandatory-credit-photo-by-harry-myers-rex-features-302441c-the-duchess-of-argyll-with-dirk-bogarde-at-the-ceremony-film-premiere-britain-16-jul-1963margaret-duchess-of-argyll-2/"><img class="aligncenter size-full wp-image-25062" title="Mandatory Credit: Photo by Harry Myers / Rex Features ( 302441c )THE DUCHESS OF ARGYLL WITH DIRK BOGARDE AT 'THE CEREMONY' FILM PREMIERE, BRITAIN - 16 JUL 1963MARGARET DUCHESS OF ARGYLL" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/Margaret-Duchess-of-Argyll1.jpg" alt="" width="425" height="497" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;">Protagonizou um longo e escandaloso divórcio, cujos <em>lurid details</em> causaram um frenesim mediático sem precedentes na Londres dos <em>sixties</em> e por um triz não fizeram cair o governo conservador de Harold Macmillan. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"> </span><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;">Margaret enganou o marido. De forma reiterada e muito pouco discreta. Imprudente, anotava nos seus diários os <em>affaires</em> que ao longo de vários anos foi tendo. Pior, guardava entre os seus mais prezados <em>recuerdos</em> uma extraordinária colecção de fotos Polaroid. As imagens, captadas na sumptuosa casa de banho <em>art deco</em> do seu apartamento de Mayfair, mostravam-na<em> dressed in nothing but three strands of pearls,</em> <em>performing</em> o que o juiz do divórcio qualificou como <em>disgusting sexual activities</em> num homem de quem pouco mais se vê que o torso. Outras havia de um homem sozinho, <em>engaged </em>em<em> lewd practices, </em>também ele <em>shown from the neck down</em>. Estas últimas fotos exibiam ainda <em>salacious comments</em>, a si dirigidos, manuscritos em jeito de dedicatória.  </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;">Que fique, contudo, bem claro que nada disto, só por si, justifica a minha decisão de trazer Margaret Campbell, <em>the Duchess of Argyll</em>, para este infame recanto do nosso cemitério e de aqui a enterrar.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;">O motivo principal é outro — bem outro e bem mais prosaico. Pérolas. Um colar de pérolas. Um belíssimo e bem-comportado colar de pérolas de três voltas que, por culpa de Margaret, passou a ser símbolo de <em>decadence and debauchery</em>. Numa verdadeira traição a todas as mulheres – nas quais eu me incluo — que desde que o mundo é mundo gostam muito de pérolas e confiam na sua luminosa e límpida beleza para realçar encantos e para exprimir feminilidade e sedução. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;">Ethel Margaret Whigham nasceu em 1912, filha única de um milionário escocês. Viveu e estudou em Nova Iorque, onde o seu pai tinha negócios. De regresso a Londres, e como era costume na época, foi apresentada em sociedade mal completou 18 anos. Foi imediato e duradouro o sucesso: a sua beleza e a sua fortuna fizeram dela <em>a debutante of the year</em> de 1930, a sua elegância e a sua exuberante personalidade tornaram-na figura central da <em>social scene</em> de então. Seguiram-se um sem número de pretendentes e de romances, o noivado, anunciado e logo desfeito, com um aristicrata inglês, o casamento com um jogador de golf americano, o divórcio deste e mais um sem número de pretendentes e de romances. Até que em 1951 casou com Ian Douglas Campbell, <em>the 11th Duke of Argyll</em>.  </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;">Um <em>match made in heaven</em> para Margaret – ela própria o reconheceu mais tarde:  “<em>I </em><em>had wealth, I had good looks. As a young woman I had been constantly photographed, written about, flattered, admired, included in the Ten Best-Dressed Women in the World list. I had become a duchess and mistress of an historic castle</em><em>. </em><em>Life was apparently roses all the way</em>”. Só que Margaret não fora feita para a sombria pacatez das <em>scottish highlands</em>, pelo que depressa rumou a Londres, deixando marido e castelo para trás.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;">O escândalo rebentou em 1959, quando o <em>Duke of Argyll</em> propôs uma acção de divórcio contra Margaret. Como prova das suas acusações de adultério — concretizadas numa extensa e variada lista de 88 supostos amantes, a qual incluía dois ministros, vários actores de Hollywood e três membros da família real -, o marido queixoso apresentou em tribunal os diários de Margaret e as referidas fotos Polaroid, obtidos numa busca ao seu <em>boudoir</em>, levada a cabo pela sua enteada.   </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;">Foi tremendo o escândalo, explosivas as revelações e acusações de parte a parte e desmedida a curiosidade quanto àquele a quem o juiz se referia no processo como <em>the Man Without a Head</em> e que a imprensa da época crismou também como <em>the Headless Lover</em>. Dos vários candidatos apontados, dois havia que se perfilavam como altamente prováveis: o político Duncan Sandys e o actor Douglas Fairbanks Jr., ambos casados, <em>to make matters worse</em>.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;">Porque Duncan Sandys, além de genro de Winston Churchill, era então <em>Minister of Defence</em> e porque — <em>poor timing indeed</em>, o de <em>Lord Argyll</em> – o julgamento deste <em>infamous divorce</em> coincidiu com os depoimentos na <em>House of Commons</em> e a subsequente demissão de John Profumo, <em>Secretary of State for the War</em>, que se desgraçara também por <em>sexual indiscretions</em>, foi pedido ao magistrado que conduzira o inquérito a este caso que averiguasse quem era <em>the Man Without a Head</em>. O relatório final da investigação ilibou Duncan Sandys, mas foi em tudo o mais inconclusivo — ou seja, nada adiantou quanto à identidade do <em>Headless Lover</em>, que ficou por desvendar durante décadas.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;"> </span><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;">Sabe-se hoje que o misterioso <em>Headless Man</em> não era um — mas dois. Justamente os dois de que mais insistentemente se falava: Douglas Fairbanks, “apanhado” à época por um exame grafológico (a sua caligrafia correspondia à das “dedicatórias” apostas nas <em>lewd photos</em>) e Duncan Sandys, subtilmente denunciado mais tarde pela própria Margaret que, pouco antes de morrer, confidenciou a um amigo que “<em>the only Polaroid camera in the country at this time had been lent to the Ministry of Defence.</em>”</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;">Quanto a Margaret, nunca houve a menor dúvida. Era ela, só podia ser ela. Porque era sua a casa de banho onde haviam sido tiradas as fotos. E por causa do colar. Que distintamente se via nas <em>sexually explicit images</em> e que era a sua <em>signature jewel</em>, indissociável da sua <em>exquisitely elegant</em> imagem que enchia as <em>society pages e as gossip columns</em>, onde tinha lugar cativo. Nunca saberemos porque não o tirou <em>on that occasion: the reason why is left entirely to our imagination</em>. Igualmente não o fez, continuando a apresentar-se, <em>impeccable and defiant</em> <em>in three strands of pearls</em>, durante as audiências de julgamento do divórcio e mesmo depois de a sentença que lhe pôs termo a ter publicamente exposto como a<em> completely promiscuous woman, one who has ceased to be satisfied with normal sexual activities. </em>Tinha estilo e tinha <em>nerve, quite a nerve</em>, há que reconhecer.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: arial,helvetica,sans-serif;">Mas que bem podia ter deixado as pérolas fora disto, podia.</span>  </p>
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		<title>Face a Face</title>
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		<pubDate>Sun, 13 Feb 2011 12:19:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Agora, vemos como num espelho, de maneira confusa; depois, veremos face a face. São Paulo, Primeira Carta aos Coríntios, 13, 12 Foi surreal. É que nem te passa pela ideia. Quando entrei e vi aquela encenação toda fiquei parva, completamente parva… A figura dela! Deitada, de blusa de seda. Roxa, seda roxa! Maquilhada. Um disparate [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><strong><em><a rel="attachment wp-att-24661" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/02/face-a-face/i_am_a_bird_now-4/"><img class="aligncenter size-full wp-image-24661" title="I_Am_a_Bird_Now" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/I_Am_a_Bird_Now1.jpg" alt="" width="500" height="500" /></a></em></strong></p>
<h3 style="text-align: right;"><em>Agora, vemos como num espelho, de maneira confusa; </em></h3>
<h3 style="text-align: right;"><em>depois, veremos face a face. </em></h3>
<h6 style="text-align: right;">São Paulo, Primeira Carta aos Coríntios, 13, 12</h6>
<p style="text-align: justify;">Foi surreal. É que nem te passa pela ideia. Quando entrei e vi aquela encenação toda fiquei parva, completamente parva… A figura dela! Deitada, de blusa de seda. Roxa, seda roxa! Maquilhada. Um disparate de maquilhagem, como se fosse para a noite — <em>bâton</em> e tudo, vermelho vivo, tipo <em>femme fatale</em>. Flores aos molhos, tipo camarim de diva em noite de estreia! E uma rosa vermelha, pousada no lençol … de uma cama de hospital, valha-me Deus! Tu achas isto normal? Ela está doente, gravemente doente. Toda a gente sabe — o que ela tem, o estado em que está… Quem é que ela pensa que engana? Pode ser um café. Curto, se faz favor. E um copo de água, sim? A Ana viu a minha cara, puxou-me logo para fora do quarto e ainda começou a arengar. Mas ouviu das boas, ai isso ouviu. Aquilo foi obra dela, claro. E da Luísa, que também lá estava. Diz que foi ela que pediu, que pediu por tudo. E as ricas amigas, claro, toca de embarcar na maluqueira… como sempre, aliás. Só queria que visses o lindo preparo em que a puseram: que Deus me perdoe, mas parecia mesmo uma pêga. Não acredito, então eles aqui não têm adoçante? Mas que raio de espelunca! Paciência, vai com açúcar, não consigo habituar-me a tomar sem nada. E a melhor… nem tu sabes a melhor! Que nojo a colher está suja! Empresta aí a tua. Ouve, parece que agora lhe deu para a mística e para a transcendência. A ela, logo a ela, dá para acreditar? Quer dizer, não seria a primeira. A doença, a perspectiva da morte, essas coisas mexem com as pessoas… Contou-me a Ana que de há uns dias para cá quer que lhe leiam a Bíblia, trechos de que se lembra, da catequese, dos casamentos, dos enterros, sei lá… Tudo bem, disse-lhes eu, só que não é assim que se faz. Deixem-se de fantasias e chamem mas é um padre. Ela, depois da vidinha que levou, havia de se confessar. E por amor de Deus, limpem-lhe aquela borrada da cara e vistam-lhe uma camisa de noite decente. Não. Nem pensar. Ela não quer. Sente-se bem assim. Quer estar no seu melhor quando chegar o momento de encarar, face a face — a morte, Deus, o que quer que seja.<em> Face a face, no seu melhor…</em> Tu já me viste a tonteria? Humildade, contrição, modéstia? Quais quê: desafio, provocação, pose, como quem vai para um encontro, ou até para um duelo. Eu bem tentei explicar-lhes que ela, coitada, já não está bem e que assim não estão a ajudá-la … E elas, logo, <em>taliban</em>. Muito gostam aquelas duas de me chamar <em>taliban</em>. Eu já nem ligo. Ah, mas hoje a Luísa saiu-se com uma nova: <em>tens um coração de pedra</em>. A Luísa a invocar Ezequiel, o próprio profeta Ezequiel, para cima de mim! Ao que chegámos, Deus do Céu… Até parece que eu, apesar das nossas diferenças, que sempre as tivemos como sabes, não gosto dela, que não tenho imensa pena dela, tão nova, coitada. Mas convém não perder a noção das coisas. Ela está a morrer, será assim tão difícil perceber que há que prepará-la, preservá-la? Que do que ela precisa é de paz, de dignidade e não de números destes? Só te digo, fiquei mesmo, mesmo incomodada… Olha, vou pedir outro café. Queres?       </p>
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		<title>Ad impossibilia nemo tenetur</title>
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		<pubDate>Mon, 31 Jan 2011 20:23:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Findo que está o primeiro mês de 2011, é tempo de fazer o balanço das nossas resoluções de ano novo: importa apreciar a sua bondade e adequação para, sendo o caso, corrigir o rumo traçado. Como? Pois detendo-nos a avaliar o estado do seu cumprimento, melhor dizendo, da falta dele, que por esta altura deverá [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a rel="attachment wp-att-24200" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/01/ad-impossibilia-nemo-tenetur/1-1/"><img class="size-full wp-image-24200  aligncenter" title="1-1" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/01/1-1.jpg" alt="" width="248" height="204" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Findo que está o primeiro mês de 2011, é tempo de fazer o balanço das nossas resoluções de ano novo: importa apreciar a sua bondade e adequação para, sendo o caso, corrigir o rumo traçado. Como? Pois detendo-nos a avaliar o estado do seu cumprimento, melhor dizendo, da falta dele, que por esta altura deverá ser já uma realidade. E, a ser assim, um excelente indício. Estranho? De todo.</p>
<p style="text-align: justify;">As resoluções de ano novo exprimem um ideal de disciplina, controlo e harmonia que, se cumprido, ainda que só em parte, faria de nós modelos inquestionáveis de perfeição. Mas seguramente não de felicidade — tão contrariados, aperreados e tensos andaríamos. Algo verdadeiramente nefasto, a evitar a todo o custo.    </p>
<p style="text-align: justify;">Para que servem então tais intenções e objectivos que, ano após ano, vamos reiterando, de forma mais ou menos explicita? Não decerto para nos pressionar, culpabilizar ou diminuir: para isso bem basta o que de sofrimento e aborrecimento a vida nos traz, sem que o possamos evitar. É outro o sentido destas resoluções: lembrar-nos que não somos, que nunca seremos, perfeitos, completos, exemplares. E é justamente nessa medida que contribuem para fazer de nós melhores pessoas — porque mais humildes, realistas e razoáveis no que exigimos de nós próprios e dos outros.   </p>
<p style="text-align: justify;">Que assim é mostra-o bem o facto de raras dessas resoluções respeitarem a aspectos verdadeiramente essenciais da nossa maneira de ser e de viver: do que se trata é de pormenores, quando não de meros retoques. Uma espreitadela à lista das<em><a href="http://www.time.com/time/specials/packages/article/0,28804,2040218_2040220_2040342,00.html"> Top 10 Commonly Broken New Year´s Resolutions</a></em>, publicada na edição <em>online</em> da Time confirma esta minha tese: adquirir uma excelente forma física, fazer uma alimentação mais saudável, aprender algo novo, viajar para novos lugares, tornar-se voluntário, não stressar tanto… <em>cherries to top the cake</em>, nem mais, nem menos. Porque a verdade é que as grandes e definitivas mudanças (como deixar de fumar ou de beber) se devem em regra a razões bem mais prementes, que o singelo ano novo, vida nova…   </p>
<p style="text-align: justify;">Por tudo isto, as resoluções de ano novo serão tanto mais adequadas quanto mais inatingíveis, tanto mais bem escolhidas quanto mais difíceis de cumprir. O que vale por dizer que tudo o que seja fácil, exequível, agradável até, não vale. Para este efeito, claro.    </p>
<p style="text-align: justify;">Pela minha parte, o balanço não pode ser melhor: logo na primeira semana do ano recaí no péssimo hábito de roer as unhas, que por ora mantenho; ainda não fui ao ginásio e não sei quando o farei; a média diária de cafés excede o que mandaria o bom senso, as horas de sono, passado o estado de excepção que antecedeu a discussão da tese, têm vindo a decrescer para os lamentáveis níveis do costume. E não, não faz parte dos meus planos para as próximas semanas (leia-se meses) arrumar o que quer que seja aqui por casa. Pode dizer-se que comecei e estou a ir realmente bem.</p>
<p style="text-align: justify;">Se, contudo, é outro o vosso caso, se estão a conseguir cumprir, no todo ou em parte, as vossas resoluções de ano novo, pois há que rapidamente arrepiar caminho: estas não servem. Urge substituí-las, quanto antes, por outras, bem fora do vosso alcance. Quais? Pois cada um saberá de si. A razão de tanta pressa? Aproxima-se o início de um novo ano — no calendário chinês, que o dedica ao Coelho. Uma ocasião a não perder: têm exactamente <a href=" http://www.chinesefortunecalendar.com/2011.htm">três dias</a>.   </p>
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		<title>Um rubro, intenso prazer</title>
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		<pubDate>Sat, 29 Jan 2011 18:13:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[  As saudades que eu já tinha. Do lindo e animado cemitério e dos que o fazem assim. De uma lista e de um desafio. Foi, com rubro e intenso prazer que li este post do Manuel Fonseca e que durante dias e dias em que não podia, não devia, não conseguia escrever, antecipei este momento. Estou de volta. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> <a rel="attachment wp-att-24140" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/01/um-rubro-intenso-prazer-2/jv/"><img class="size-full wp-image-24140 alignnone" title="JV" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/01/JV.jpg" alt="" width="258" height="448" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">As saudades que eu já tinha. Do lindo e animado cemitério e dos que o fazem assim. De uma lista e de um desafio. Foi, com <span style="color: #dc2240;"><strong>rubro e intenso prazer</strong> </span>que li <a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/01/um-rubro-intenso-prazer/"><strong>este</strong></a> post do Manuel Fonseca e que durante dias e dias em que não podia, não devia, não conseguia escrever, antecipei este momento. Estou de volta. E trago comigo a <span style="color: #dc2240;"><strong>listinha das coisas que me dão um rubro e intenso prazer</strong></span>. Ei-las.  </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #dc2240;"><strong>Vento de mar</strong></span>. Sobretudo no Inverno. Quando me gela a cara e as mãos, me sabe e cheira a sal e a algas e a Verão, me revolve e me encaracola o cabelo, me leva para longe todos os sons, deixando-me só com o das ondas.  </p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="color: #dc2240;">Vinho do Porto</span></strong>. À lareira, com nozes ou avelãs, que vou ou me vão partindo, as cascas atiradas ao fogo. Ou à mesa, tarde, noite fora, a prolongar uma refeição, uma companhia, uma conversa que não têm de acabar …  </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #dc2240;"><strong>Ler</strong></span>. Com tempo, com todo o tempo pela frente. Quando o calor me faz fugir da praia, à sombra da minha árvore, o pé descalço apoiado no tronco. Ou na rede pendurada na imensa tília da minha avó, ao fundo do jardim, a espreitar a serra em frente e a ouvir lá atrás as vozes e as atarefações de uma casa cheia.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="color: #dc2240;">Ganhar</span></strong>. Não importa ao quê — às cartas ou aos dados, ao Stop ou ao Monopólio, uma aposta, uma corrida, uma discussão. Importa como: sem batota, sem truques, sempre<em> playing by the rules</em>. Pois nisso está boa parte do <em>sweet taste of victory</em> …</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="color: #dc2240;">Chocolate</span></strong>. Preto, mas também pode ser do outro. Estimula e inspira, concentra e fortalece, cura desgostos e potencia alegrias – digo eu, devoradora convicta e impenitente, suportada em décadas de experiência.  </p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="color: #dc2240;">Laços</span></strong>. De afecto e de amizade. Tão diversos quanto o são aqueles com quem os crio, os mantenho e os desfruto. Aquele momento único — uma conversa, um comentário, um gesto – em que se descobrem afinidades e empatias, gostos comuns e contrastes surpreendentes, em quem se não conhecia ou em quem sempre esteve por perto, e que marca<em> the beginning of a beautiful friendship…</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="color: #dc2240;">Rir</span></strong>. Muito. Abertamente ou à socapa, a propósito e também a despropósito, de uma piada certeira, de um aparte inesperado, de uma situação constrangedora, de um cenário absurdo. E sobretudo dos delirantes erros, <em>gaffes</em> e enredos que constantemente me acontecem, graças ao meu intensivo <em>multitasking</em> e ao meu desmedido optimismo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="color: #dc2240;">Abraços</span></strong>. De dar e de receber. Abraços apertados, envolventes, quentes. Silenciosos ou ruidosos, mas sempre expressivos – sejam macios de ternura, de consolo e de protecção ou vibrantes de partilha, de triunfo e de alegria.  </p>
]]></content:encoded>
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		<title>Alegria</title>
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		<pubDate>Fri, 24 Dec 2010 18:49:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Há músicas feitas de alegria, que sempre nos alegram. Como este Jauchzet frohlocket*, que abre a maravilhosa Oratória de Natal de Bach, estreada em 1734. Ouvi-a pela primeira vez num já longínquo Natal, na tristonha Basílica da Estrela. Para sempre me ficou o extraordinário instante em que a funda e soturna abóboda explodiu em música que, luminosa e feliz, ressoou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Há <strong><span style="color: #d62844;">músicas feitas de alegria</span></strong>, que sempre nos alegram. Como este <span style="color: #d62844;"><strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=ggm0SZCWKZo">Jauchzet frohlocket*</a></strong></span>, que abre a maravilhosa <strong><span style="color: #d62844;">Oratória de Natal</span> </strong>de <strong><span style="color: #d62844;">Bach</span></strong>, estreada em 1734.</p>
<p style="text-align: justify;">Ouvi-a pela primeira vez num já longínquo Natal, na tristonha Basílica da Estrela. Para sempre me ficou o extraordinário instante em que a funda e soturna abóboda explodiu em música que, luminosa e feliz, ressoou por todos os recantos, enxotando a desolada escuridão da igreja que era, então, a minha paróquia e da qual não sinto a falta senão dos sinos que, de quarto em quarto de hora, pautavam o meu dia e dos jacarandás que a rodeavam e que, quando floridos, me mantinham, deslumbrada, à janela. Voltei a ouvi-la nos dias que se seguiram, já em CD. Vezes e vezes sem conta. Crescia em mim a que seria a primeira das minhas filhas; escrevia a que seria a primeira das minhas teses. E sentia-me a mais afortunada das mulheres. A música, esta música, exprimia exactamente isso. De tal maneira que, ainda hoje, quando a ouço, é essa mesma <strong><span style="color: #d62844;">transbordante alegria</span> </strong>que ressurge em mim. Como quando, por qualquer outro motivo, me sinto assim de feliz, é ela que me ocorre.   </p>
<p style="text-align: justify;">Por tudo isto é a <span style="color: #d5293a;"><strong><span style="color: #d62844;">minha música de Natal</span></strong></span>. Um <span style="color: #d62844;"><strong>verdadeiro shot de alegria</strong></span>. <span style="color: #d5293a;"><strong><span style="color: #d62844;">Forte, redonda, vermelha</span></strong></span>. O que é que a faz assim? A natureza profana da cantata <a href="http://www.youtube.com/watch?v=e-iQ5eprFEo"><span style="color: #000000;"><em>Tönet, ihr Pauken! Erschallet, Trompeten!</em></span><em><span style="color: #000000;">,</span> </em></a>composta um ano antes, em 1733, e que Bach em boa hora decidiu reciclar? A sua <span style="color: #ce3040;"><strong><span style="color: #d62844;">letra, irresistivelmente festiva e optimista</span></strong></span>, que a todos interpela, para lá do indecifrável alemão**? O apelar a tudo aquilo que nesta quadra aproxima crentes e não crentes – <span style="color: #ce3040;"><strong><span style="color: #d62844;">a celebração da vida e da confiança, do presente e do futuro, do amor e da amizade</span></strong></span>? Decerto a fabulosa conjugação de tudo isto. </p>
<h3 style="text-align: center;"><span style="color: #d62844;">A todos desejo um Natal cheio de afecto e de esperança.</span></h3>
<h3 style="text-align: center;"><span style="color: #d62844;">E com muita, muita alegria!!!   </span></h3>
<h3 style="text-align: center;">
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="560" height="340" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/yjmyt3DQaJU?fs=1&amp;hl=pt_PT" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="560" height="340" src="http://www.youtube.com/v/yjmyt3DQaJU?fs=1&amp;hl=pt_PT" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object><br />
</h3>
<address style="text-align: justify;">* Esta a minha versão preferida, mas que não consigo trazer para aqui senão <a href="http://www.youtube.com/watch?v=ggm0SZCWKZo">assim</a>.</address>
<p style="text-align: justify;">** <em>Shout for joy, exult, rise up, glorify the day, praise what today the highest has done!, Abandon hesitation, banish lamentation, begin to sing with rejoicing and exaltation! Serve the highest with glorious choirs, let us honour the name of our ruler!</em></p>
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		<title>O gigante que gostava de histórias</title>
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		<pubDate>Sun, 28 Nov 2010 21:42:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Nasceu no País de Gales, de pais noruegueses que lhe deram o nome do herói da sua terra distante que o nosso Francisco aqui gelidamente sepultou. Media quase dois metros de altura e gostava de snooker, de orquídeas, de chocolate e de histórias. Sobretudo de histórias — de as ouvir, ainda pequeno, à mãe, que lhe [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-21859" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/11/o-gigante-que-gostava-de-historias/roald-dahl-ii/"><img class="aligncenter size-full wp-image-21859" title="Roald Dahl II" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/11/Roald-Dahl-II.jpg" alt="" width="364" height="392" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Nasceu no País de Gales, de pais noruegueses que lhe deram o nome do herói da sua terra distante que o nosso Francisco <a href="http://www.etudogentemorta.com/2009/11/roald-amundsen/">aqui</a> gelidamente sepultou. Media quase dois metros de altura e gostava de <em>snooker</em>, de orquídeas, de chocolate e de histórias. Sobretudo de histórias — de as ouvir, ainda pequeno, à mãe, que lhe falava dos gigantes e de outros seres fantásticos da mitologia nórdica; de as contar aos seus cinco filhos, à noite, antes de lhes apagar a luz. Participou numa expedição científica à Terra Nova, trabalhou para a Shell em África e foi piloto da RAF e espião ao serviço de Sua Majestade durante a II Guerra Mundial. Só depois começou a escrever, numa cabana ao fundo do jardim, no cadeirão que herdara da mãe, com uma prancha de madeira a servir de mesa. E sempre a lápis.        </p>
<p style="text-align: justify;">É antiga a minha história com Roald Dahl. E desenrola-se de trás para a frente, o que faz todo o sentido, sendo ele o incomparável <em>master</em> dos <em>twisted plots</em> e dos <em>surprise ends</em>.    </p>
<p style="text-align: justify;">Lembro-me de ver na televisão, teria uns treze ou catorze anos, <em>Tales of the Unexpected</em>, uma série cujos episódios eram antecedidos de um extraordinário genérico com <a href="http://www.youtube.com/watch?v=js7T-VTL91k">música de realejo de feira</a> e de uma provocatória e desconcertante introdução, muito ao estilo do <em>Hitchcock Presents</em>*, pelo próprio Roald Dahl, autor das <em>short stories</em> em que aqueles se baseavam. Os enredos eram imaginativos, estranhos, tortuosos, muitas vezes macabros, quando não perversos — mas sempre negra e irresistivelmente divertidos. Descobri entretanto lá por casa vários volumes das ditas <em>short stories</em> que a minha mãe, completamente <em>addicted</em>, trazia das viagens de trabalho a Inglaterra. Comecei pelas conhecidas, só para ver se eram mesmo assim. Eram <em>so much better, so much more wicked and bizarre and spinechilling</em> que as li todinhas. Porque, como dizia o próprio Dahl, <em>“what’s horrible is basically funny – in fiction”</em>. Ainda hoje as relembro amiúde e as revisito com gozo: <em>Lamb for the Slaughter, Man from the South, William and Mary, The Way up to Heaven, The Great Switcheroo, Skin,</em> <em>Bitch, to name just a few …</em></p>
<p style="text-align: justify;">Só muito depois descobri o delicioso <em>Matilda</em>, que devorei num ápice. De leitora do Dahl para crescidos, rapidamente me tornei — também — leitora do Dahl juvenil. Seguiram-se <em>The Witches, Charlie and the Chocolate Factory, The Big Friendly Giant, The Magic Finger, The Twits, Esio Trot, Fantastic Mr. Fox</em> e todos os outros. Muitos deram origem a filmes, altamente apreciados por estas bandas. Mas são os livros que são objecto de adoração – minha e das filhas, todas três, e também da vasta trupe de filhos de primos e de amigos, a quem a Tia Joana fez questão de iniciar neste estimulante vício. Porque não são muito grandes e até se conseguem ler bem e depressa, dizem os mais relutantes, surpreendidos, convertidos e já prontos para o próximo. Porque as histórias são fantásticas, dizem todos. E têm razão. Roald Dahl escreve para os mais pequenos como se fosse do tamanho deles: é pelos olhos límpidos e atentos dos seus protagonistas, quase sempre crianças, que vemos o mundo, aquilo que lhes sucede e, claro, os adultos. Que, com contadas e honrosas excepções, raramente saem bem no retrato: são insensíveis, insensatos e injustos. Pior, não percebem nem tentam perceber as crianças, tratam-nas sem afecto nem cuidado, gritam-lhes e metem-lhes medo. À conta disto, adultos há — estes reais, não de ficção — que alegam serem estes livros subversivos, logo impróprios para crianças. Decerto nunca tiveram professores retorcidos, vigilantes de recreio prepotentes, parentes assustadores, vizinhos antipáticos — digo eu. Porque não me ocorre outra explicação para que por completo lhes escape, não só o que de comicamente catártico têm tais histórias, mas sobretudo o que nelas mais importa: que os miúdos levam sempre a melhor porque são corajosos, optimistas, resilientes, lúcidos e inteligentes. É este, aliás, um ponto que me fascina e me encanta em Roald Dahl: ter sido capaz de produzir, às vezes em simultâneo, das mais tortuosas e arrepiantes histórias para adultos que li e estas deliciosas e tocantes histórias para crianças, a todas cunhando com a sua marca: uma portentosa e às vezes impiedosa combinação de agudo sentido crítico e de corrosivo humor. </p>
<p style="text-align: justify;">Há ainda as obras <em>in between</em>, catalogadas como infantis, mas em bom rigor para adultos, como as <em>Revolting Rhymes</em>, uma hilariante e politicamente incorrecta reelaboração dos tradicionais contos infantis — na qual o <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/06/to-the-lovely-child-within-us/">Capuchinho Vermelho</a> mata o lobo a tiro e faz um casaco de peles e a Branca de Neve, exasperada porque os Sete Anões, jogadores inveterados, não acertam uma, surripia à madrasta o Espelho Mágico, para ter tips acarca dos cavalos vencedores … e acabam todos milionários.  </p>
<p style="text-align: justify;">E, <em>last but not the least</em>, as ilustrações de Quentin Blake, que numa parceria feliz com a escrita criativa e exuberante de Dahl, que ainda hoje perdura, apreendeu a essência das figuras criadas por este e, ao desenhá-los, tornou-os ainda mais reais e adoráveis ou execráveis, conforme o caso. Gosto delas todas, mas, a ter de escolher uma, sem hesitar a <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/06/lemos-o-que-nao-somos-ou-nao-queremos-ser/">menina</a> <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/06/lemos-o-que-somos-ou-o-que-gostariamos-de-ser/">leitora</a>, de <em>Matilda</em>.   </p>
<p style="text-align: justify;">Fez esta semana vinte anos que Roald Dahl morreu, a 23 de Novembro de 1990. Há muito que andava para o trazer para aqui. Pareceu-me ser esta uma boa ocasião. <a rel="attachment wp-att-21874" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/11/o-gigante-que-gostava-de-historias/matilda-v/"><img class="aligncenter size-full wp-image-21874" title="Matilda V" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/11/Matilda-V.jpg" alt="" width="314" height="184" /></a> * Foi aliás Hitchcock quem primeiro filmou algumas das short stories de Roald Dahl, entre 1958 e 1961, a saber: <a href="http://www.youtube.com/watch?v=BmpY9cpe6g8">Lamb to the Slaughter</a>, Dip in the Pool, Poison, Man from the South, Mrs Bixby and the Colonel’s Coat, The Landlady.  </p>
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		<title>Ontem, Hoje e Amanhã*</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Nov 2010 12:35:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[“Ora, menina, bate no que é dele!” Foi há uns trinta anos que pela primeira vez ouvi isto. Domingo, manhã cedo, no adro da igreja da aldeia das minhas férias. Não era incomum surgir uma mulher com a cara inchada, o olho raiado de sangue, o lábio rebentado. Causa de espanto só mesmo o meu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-21777" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/11/ontem-hoje-e-amanha/real-men-dont-use-violence/"><img class="aligncenter size-full wp-image-21777" title="Real Men don't use violence" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/11/Real-Men-dont-use-violence.jpg" alt="" width="400" height="245" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>“Ora, menina, bate no que é dele!” Foi há uns trinta anos que pela primeira vez ouvi isto. Domingo, manhã cedo, no adro da igreja da aldeia das minhas férias. Não era incomum surgir uma mulher com a cara inchada, o olho raiado de sangue, o lábio rebentado. Causa de espanto só mesmo o meu espanto, diante de tal visão e da resignação da própria e das demais — “ai, o meu homem ontem bateu-me tanto”, “o meu também fica ruim quando bebe”. O meu “então e deixa que ele lhe faça isso?” fê-las rir, nervosas: “e o que há-de ela fazer?” Seguiu-se o remate, lapidar: “bate no que é dele”. Variante do deplorável “quanto mais me bates, mais gostas de mim”. Era outro tempo, outro contexto, feito de atraso, miséria e alcoolismo. Ou será que não?   </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Cenas que se desenrolam diante de mim, relatos que me chegam. O namorado que batia vinga-se da ruptura fazendo montagens escabrosas com a imagem dela, que envia a conhecidos e colegas e espalha na net. O marido que vive com a amante mas submete a mulher ao silêncio e à humilhação de o ter na sua cama quando ele queira, ameaçando tirar-lhe os filhos, que ela não consegue sustentar, por ter trocado a promissora carreira por um emprego mal pago e tempo para a família. O sujeito que, diante de qualquer mulher que se destaque, regista que “curiosamente, ela é inteligente”. O mesmo e tantos outros que, em privado e em público, mandam calar a mulher, por ser “burra” e/ou não saber o que diz, a repreendem, ora com o “és mesmo incapaz de fazer o que quer que seja em condições”, ora com o “não prestas para nada” e rematam diferendos com um “enquanto for eu a pagar, sou eu quem manda aqui”. Casos raros de péssima e retrógrada educação, dinossauros condenados à extinção neste mundo de igualdade e paridade. Ou será que não?        </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>A minha filha teria dez anos. Um pretendente declarou-se. Rejeitado, insistiu. Sem êxito. Mudou de estratégia: nos recreios plantava-se com os amigos junto dela e chamavam-lhe “p—“. Repetidamente e aos gritos. Quando soube, passei-me. Ainda ponderei recorrer à via institucional, mas a mãe-leoa levou a melhor. Rugi: “da próxima vez, bem alto, para toda a gente ouvir, «p— é a tua mãezinha»… à minha responsabilidade!” Logo no dia seguinte, o moço deu o primeiro tiro e levou com a rajada, bem à vista da sua entourage e de quantos mais ali estavam. Ficou histérico: gritou, esbracejou, soluçou descontrolado. Foi preciso chamar a psicóloga. Soube depois, por várias mães, que as filhas haviam passado pelo mesmo, com estes e outros meninos. E que “lésbica” era também de uso corrente, para o mesmo efeito. Miúdos malcriados, idades parvas, excessiva sensibilidade e ferocidade da minha parte. Ou será que não? </em></p>
<p style="text-align: justify;"> São casos muito diferentes entre si, na sua gravidade, dir-se-á. Pois são. Estão todos a anos-luz das atrocidades a que são submetidas meninas e mulheres noutras latitudes, noutros ambientes culturais e religiosos, acrescentar-se-á. Pois estão. Não se trata, é certo, de violações em cenário de guerra, de casamentos forçados de meninas ainda crianças, de mutilação genital, de crimes de honra ou motivados pelo incumprimento do dote ajustado, de aborto selectivo ou de infanticídio de recém-nascidos do sexo feminino: a lista de barbaridades é bem conhecida e ressurge todos os anos por esta altura, perturbadora e ilustrada por números que nos gelam. </p>
<p style="text-align: justify;">Mas importa não esquecer que à cabeça deste rol de infâmias, pela sua frequência, vem a violência inflingida à mulher pelo que é ou foi seu companheiro, seja através de espancamento, de coerção sexual ou de formas variadas de abuso psicológico e emocional. Segundo números da ONU, do total de mulheres que por todo o mundo tombam vítimas de homicídio, cerca de metade morre às mãos dos seus <em>intimate partners</em>. Em Portugal, em 2010, a violência doméstica causou já 39 mortes e 37 tentativas de homicídio (respectivamente mais 10 e mais 9 que em 2009).    </p>
<p style="text-align: justify;">E convém ter presente que esta e as demais formas de violência referidas radicam numa visão profundamente discriminatória da mulher, no casal e na família, marcada pela sua subordinação à autoridade do homem, na sua instrumentalização à satisfação de interesses tidos como preponderantes e na desvalorização das suas capacidades pessoais e necessidades de desenvolvimento e de realização individual.</p>
<p style="text-align: justify;">A violência sobre as mulheres, não há como negá-lo, faz parte da nossa realidade. Atravessa todos os estratos sociais, económicos, geracionais ou etários. E tende a subsistir e a replicar-se, fruto de uma pesada herança cultural, feita de atitudes, de estereótipos e de papéis, aprendidos e, não raro, banalizados como suposta expressão característica e inevitável do nosso modo de ser e de viver.</p>
<p style="text-align: justify;">Pior, a ânsia de poder e de controlo que subjaz a esta violência convive muitíssimo mal com o sucesso profissional, a independência financeira e a autonomia emocional conquistadas pelas mulheres. Com a crescente consciência de que quem ama, não deprecia nem sufoca, de que o casamento se vive, não se aguenta. Estudos recentes apontam para um assustador aumento desta violência, potenciado pela insubmissão daquelas perante atitudes masculinas hoje vistas como inaceitáveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isto me incomoda e me dá que pensar, enquanto mulher que vive neste mundo e mãe de três filhas que, temo bem, terão ainda de travar duros combates nesta frente. Porque esta violência cruel e injusta é um problema de ontem, de hoje e também de amanhã. E é a clara noção disso que nos exige que preparemos os nossos filhos para o enfrentar e, quem sabe, debelar em definitivo. Explicando aos meninos que ser homem não é ser bruto, que as mulheres se conquistam e se mantêm, não se compram, nem subjugam. Ensinando as meninas a prezar e a, em caso algum, abrir mão da sua individualidade, autonomia e dignidade. Com a palavra e com o exemplo. É essa a nossa responsabilidade.</p>
<address style="text-align: justify;"><span style="font-family: andale mono,times;">* Texto escrito em resposta ao desafio que me foi lançado pela Luciana, do Borboletas nos Olhos, para me associar, com ela e muitos outros, à iniciativa “ativismo online – FimDaViolenciaContraMulher”, a propósito do Dia Internacional para a Erradicação da Violência Contra a Mulher, que hoje se comemora em todo o mundo (e originalmente publicado <a href="http://borboletasnosolhos.blogspot.com/2010/11/fim-da-violencia-contra-mulher-dia-5_25.html">aqui</a>).    </span></address>
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		<title>Inaceitável, Indesculpável, Intolerável</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Nov 2010 09:03:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[There is one universal truth, applicable to all countries, cultures and communities: violence against women is never acceptable, never excusable, never tolerable. Ban Ki Moon, Secretário Geral da ONU, no lançamento da campanha UNiTE  Foi em 1999 que uma resolução da Assembleia Geral da ONU fixou 25 de Novembro como International Day for the Elimination of Violence [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-21743" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/11/inaceitavel-indesculpavel-intoleravel/viloenceagainstwomen-i/"><img class="aligncenter size-full wp-image-21743" title="ViloenceAgainstWomen I" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/11/ViloenceAgainstWomen-I.jpg" alt="" width="311" height="448" /></a></p>
<h2 style="text-align: center;"><span style="font-family: arial black,avant garde;"><span style="color: #c0151c;">There is one universal truth, applicable to all countries, cultures and communities: violence against women is never acceptable, never excusable, never tolerable.</span></span></h2>
<h6 style="text-align: right;"><em>Ban Ki Moon, Secretário Geral da ONU, no lançamento da campanha </em><a href="http://www.un.org/News/Press/docs/2008/sgsm11437.doc.htm "><em>UNiTE </em></a><em> </em></h6>
<p style="text-align: justify;">Foi em 1999 que uma resolução da Assembleia Geral da ONU fixou 25 de Novembro como <strong><em><span style="color: #cb3446;"><a href="http://www.un.org/depts/dhl/violence/">International Day for the Elimination of Violence Against Women</a></span></em></strong>, uma data especialmente dedicada à promoção de iniciativas e actividades visando alertar e sensibilizar para um problema que assume,nos dias que correm - a expressão é da <a href="http://www.unifem.org/">UNIFEM </a>- <em>pandemic proportions</em>. </p>
<p style="text-align: justify;">A data, que já desde 1981 era informalmente consagrada a tal objectivo por inúmeras organizações, sobretudo na América Latina, coincide com a do assassinato, em 1960 — faz hoje precisamente 50 anos -, das três irmãs Mirabal, activistas políticas dominicanas. Pátria, Minerva e Maria Teresa (então com 36, 34 e 25 anos) destacaram-se na oposição à ditadura de Trujillo, tendo sido por diversas vezes detidas, torturadas e condenadas a penas de prisão. Na data que hoje se assinala, e por ordem daquele, <em>Las Mariposas </em>(era esse o seu nome de código)<em> </em>foram atraídas a uma cilada quando regressavam de uma visita aos respectivos maridos, presos por motivos políticos, e espancadas até à morte.  </p>
<p style="text-align: justify;">Para assinalar esta data, a nossa Luciana Nepomuceno decidiu aderir à iniciativa, promovida por um grupo de <em>blogueiras</em> e <em>tuiteiras</em> brasileiras, de cinco dias de <em>ativismo online</em>, a culminar numa blogagem colectiva a 25 de Novembro, para destacar a data, promover a reflexão e a acção e produzir e divulgar material sobre o tema nas redes sociais e demais espaços de formação e informação disponíveis. Generosa, fez convites, dando a outras e a outros a possibilidade de dar o seu contributo para esta causa, actual, premente e justa. O resultado: uma semana de posts diários, <a href="http://borboletasnosolhos.blogspot.com/2010/11/comecando-ou-manchetes-importantes.html">lançada pela própria</a>, com emoção e entusiasmo, no passado sábado, 20 de Novembro, e ao longo da qual o seu, já de si vermelho, <a href="http://borboletasnosolhos.blogspot.com/">Borboletas nos Olhos</a> tem estado literalmente ao rubro:</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #cb3446;"><strong>*</strong></span> com o fabuloso texto do seu amigo <a href="http://borboletasnosolhos.blogspot.com/2010/11/fim-da-violencia-contra-mulher-dia-1.html">Évio Gianni</a>, do blog <a href="http://ircontraamare.blogspot.com/">Contra a maré</a>, escrito a pensar na filha dele, mas que todas as mães e pais deveriam dar a ler às suas; </p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="color: #cb3446;">*</span></strong>com a surpreendente e tão deliciosa quanto perturbadora fantasia no feminino a várias vozes da também já nossa <a href="http://borboletasnosolhos.blogspot.com/2010/11/fim-da-violencia-contra-mulher-dia-2.html">Teresa Font</a>;</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #cb3446;">*</span> com o bem disposto texto da bem disposta <a href="http://borboletasnosolhos.blogspot.com/2010/11/fim-da-violencia-contra-mulher-dia-3.html">Lica</a>, que calha ser irmã mais nova da Luciana e que, como esta, também bloga, agora no <a href="http://imagem-semelhanca.blogspot.com/">Imagem e Semelhança</a>;</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #cb3446;"><strong>*</strong></span> com a irreverente e provocadora abordagem  do seu amigo <a href="http://borboletasnosolhos.blogspot.com/2010/11/fim-da-violencia-contra-mulher-dia-4.html">Gui</a>, que escreve no <a href="http://oasdespadas.blogspot.com/">Ás de Espadas</a>;</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #cb3446;"><strong>* </strong></span>e, <em>so far</em>, também com este <a href="http://borboletasnosolhos.blogspot.com/2010/11/fim-da-violencia-contra-mulher-dia-5_25.html">meu texto</a>, que a Luciana tão gentilmente decidiu publicar nesta simbólica data.</p>
<p style="text-align: justify;">Porque a semana tem sete dias e porque, como nas bodas de Canãa, o melhor vinho vem no fim, seguir-se-ão mais dois contributos, de duas queridíssimas e transatlânticas visitantes aqui do cemitério.   </p>
<p style="text-align: justify;">Foi um gosto e uma honra participar nesta experiência, para mim totalmente nova, diferente e inesquecível.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<address style="text-align: justify;"><em>Para os mais curiosos e/ou interessados, deixo aqui os links para alguns dos envolvidos nesta blogagem colectiva — o </em><a href="http://pimentacomlimao.wordpress.com/"><em>Pimenta com Limão</em></a><em> e o </em><a href="http://contramachismo.wordpress.com/"><em>Contramachismo</em></a><em>, ambos do Brasil, e o </em><a href="http://www.nomasviolenciacontramujeres.cl/"><em>nomasviolenciacontramujer</em></a><em>, do Chile — de um outro blog, onde </em><a href="http://cynthiasemiramis.org/"><em>Cynthia Semiramis</em></a><em> trata estes temas e do </em><a href="http://www.facebook.com/home.php?sk=group_176594019024578&amp;notif_t=group_activity"><em>grupo do Facebook</em></a> <em>relativo a esta iniciativa.   </em></address>
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		<title>Guilhermina Suggia</title>
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		<pubDate>Thu, 18 Nov 2010 00:07:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Queridos Mortos]]></category>

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		<description><![CDATA[GUILHERMINA SUGGIA (Porto, 27 de Junho de 1865 — 30 de Julho de 1950)   Bach. As Cello Suites. Era o que tocava a violoncelista, nas inúmeras sessões que decorreram entre 1920 e 1923 no estúdio do artista. Este, completamente fascinado, procurava captar-lhe os movimentos, o temperamento, o brilho. O resultado, este poderoso retrato, que exprime [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>GUILHERMINA SUGGIA </strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>(Porto, 27 de Junho de 1865 — 30 de Julho de 1950)</strong></p>
<h3 style="text-align: center;"><em><a rel="attachment wp-att-21501" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/11/guilhermina-suggia/madame-suggia/"><img class="size-full wp-image-21501" title="Madame Suggia" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/11/Madame-Suggia.jpg" alt="" width="450" height="512" /></a></em> </h3>
<p style="text-align: justify;">Bach. As Cello Suites. Era o que tocava a violoncelista, nas inúmeras sessões que decorreram entre 1920 e 1923 no estúdio do artista. Este, completamente fascinado, procurava captar-lhe os movimentos, o temperamento, o brilho. O resultado, este poderoso retrato, que exprime o completo domínio do instrumento, a absoluta entrega e a fortíssima presença da intérprete — imponente e sensual no arquear do braço bem delineado, na firmeza das mãos longas e esguias, na cabeça inclinada, os olhos fechados como num êxtase. Tudo isto potenciado pelo fabuloso vestido vermelho. Um retrato que, de tão intenso, quase se ouve. <em>Madame Suggia</em>, se consagrou Augustus John (1878–1961) como retratista, definiu para sempre a imagem de Guilhermina Suggia. E, tal como esta ao longo da sua extraordinária vida, contribuiu decisivamente para desfazer o arreigado preconceito de que o violoncelo era um instrumento impróprio para mulheres.</p>
<p style="text-align: justify;">Gulhermina Suggia (1885–1950) não foi a primeira a fazer carreira profissional como violoncelista. Várias houve que a precederam – com destaque para a francesa Lisa Cristiani (1827–1853) – mas cuja notoriedade se deveu em boa parte à originalidade que representavam. O violoncelo era então considerado um instrumento eminentemente masculino. Pela <em>gravitas</em> do seu som, assunto sério que vozes autorizadas decretavam incompatível com a ligeireza típica das interpretações femininas. Pela força física que se julgava necessária para para dele extrair um som adequadamente grandioso. E, sobretudo, por impor à mulher uma posição tida como muito pouco decorosa e nada elegante. Graças à sua técnica impecável e à sua arrebatadora presença em palco, que fizeram dela uma das maiores solistas do seu tempo, Guilhermina Suggia foi inquestionavelmente a primeira a gozar de um reconhecimento sem reservas e sem acepção de género.</p>
<p style="text-align: justify;">Tinha 5 anos quando começou a ter aulas de violoncelo com o pai, que cedo reconheceu as suas excepcionais capacidades e tudo fez para lhe permitir desenvolvê-las. Estreou-se em público ainda criança com a irmã, pianista. Já adolescente, integrou o quarteto liderado pelo violinista Bernardo Moreira de Sá. Com apenas 16 anos, recebeu uma bolsa régia para prosseguir estudos no estrangeiro. Escolheu o Conservatório de Leipzig, o mais conceituado da época. E apesar de aquela cobrir uma estadia de três anos, Guilhemina progrediu tão rapidamente que concluiu a sua formação em menos de metade desse tempo. De imediato iniciou uma impressionante carreira de solista, tocando com as principais orquestras, por toda a Europa.</p>
<p style="text-align: justify;">Radicada primeiro em Paris e depois em Londres, Guilhermina Suggia conquistou o apreço e o respeito unânimes dos músicos seus pares e gozou de uma imensa popularidade junto do público. O seu sucesso assentava numa combinação insuperável e meticulosamente calculada de precisão, sentimento e carisma. Partilhou por diversas vezes o palco com violoncelistas como Pablo Casals e com pianistas como Arthur Rubinstein e Wilhelm Backhaus. O seu reportório era vasto e abrangente, incluindo, entre outros, os concertos de Dvořak, Elgar, Haydn, Saint-Saëns e Schumann, o<em> Kol Nidrei</em> de Bruch, as <em>Variações de Böllmann, </em>a <em>Peça em Forma de Habanera</em> de Ravel ou a <em>Dança do Fogo </em>do<em> Amor Brujo </em>de Falla. E, <em>above all</em>, as Suites para Violoncelo de Bach — as suas preferidas e nas quais, atestam quantos assistiram, era simplesmente sublime.</p>
<p style="text-align: justify;">Da sua vida privada é bem conhecida a ligação com Pablo Casals, com quem viveu em Paris — sem nunca terem chegado a casar, supõe-se que por persistente recusa sua — entre 1906 e 1913. Suggia tivera aulas com Casals anos antes, durante uma estadia dele em Espinho, tinha ela 13 anos e ele 22. Reencontraram-se em Leipzig, mas só depois, já em Paris, surgiu a paixão. Durante esse periodo, Suggia e Casals tocavam frequentemente juntos, tendo-lhes sido dedicados o Duplo Concerto para Violoncelo e a Suite para Dois Violoncelos, de Emanuel Moór, e a Sonata para Dois Violoncelos, de Donald Tovey. A relação não resistiu, contudo, à desmedida intensidade de temperamentos. E também à legítima ambição de um e de outro, lançados em exigentes carreiras, das quais nenhum estava disposto a abdicar. Os destemperados ciúmes de Casals consta que não terão ajudado. Suggia deixou-o e partiu para Londres, onde se radicou. O fim, amargo, deixou feridas em ambos. Suggia nunca mais se referiu a Casals senão em termos estritamente profissionais. Quanto a este, recusava falar de Suggia a entrevistadores e biógrafos, dizendo apenas que o seu período com ela fora “o mais cruelmente infeliz” de toda a sua vida. Sabe-se também que, já em Londres, chegou a estar noiva de um aristocrata inglês, mas que decidiu, afinal, não casar. Haveria de o fazer, muito mais tarde, já de regresso ao Porto, com um médico portuense. Também nesta vertente da sua vida, Guilhermina Suggia foi percursora. Escolheu manter a independência e a disponibilidade para se dedicar em pleno à sua carreira e, ao fazê-lo, firmou a possibilidade e a legitimidade de uma outra via de realização, à sua medida, que não passasse pelo casamento e pela vida doméstica.</p>
<p style="text-align: justify;">Não teve filhos, mas nem por isso deixou de ser fecunda. À sua maneira, deu vida a muitas outras vidas, as dos jovens e talentosos violoncelistas que, sabia, viriam depois dela, e aos quais destinou quase todo o seu património. Os seus preciosos violoncelos foram legados ao Conservatório de Lisboa (o Lockey Hill, de finais do séc XVIII), do Porto (o Montagnana, de 1700) e à <em>Royal Academy of the Arts</em> (o Stradivarius de 1717), os dois últimos com expressa indicação de que deveriam ser vendidos pelo melhor preço e com este serem constituídos fundos destinados a bolsas de estudo. Por sua vontade e meios foram criados, em Portugal e em Inglaterra, esquemas de apoio que beneficiaram incontáveis violoncelistas em formação — a saber, o <em>Prémio Guilhermina Suggia</em>, atribuído pelo Conservatório do Porto, o <em>Suggia Trust</em>, administrado pelo <em>Arts Council of Great Britain</em> e o <em>Suggia Prize</em>, da <em>Royal Academy of Music. </em>De entre todos eles, a mais conhecida foi decerto Jacqueline du Pré que, em 1955, com apenas 10 anos, recebeu uma bolsa para ter lições com William Pleeth, e a quem, subsequentemente, o <em>Suggia Trust</em> tornou possível prosseguir estudos com Pablo Casals e com Paul Tortelier.</p>
<p style="text-align: justify;">Guilhermina Suggia deixou-nos fez este ano 60 anos. Porque gostava acima de tudo de tocar ao vivo, gravou muito pouco. São raros os seus sons que entre nós permanecem. Encontrei este belíssimo Kol Nidrei, de Bruch, que aqui deixo.  </p>
<p>
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		<title>A Menina do Meio</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Nov 2010 00:10:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Não é fácil ser-se o filho “do meio”. Nasce-se para logo descobrir que jamais se terá o inquestionável estatuto do primogénito. Pior, que se tem de disputar atenção e cuidados com esse ser hiper-estimulado e egocêntrico, pólo de todas as expectativas e ansiedades parentais*. Ocupa-se brevemente o delicioso lugar do mais novo, do qual se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-21210" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/11/a-menina-do-meio/a-menina-do-meio/"><img class="aligncenter size-full wp-image-21210" title="A Menina do Meio" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/11/A-Menina-do-Meio.jpg" alt="" width="428" height="336" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Não é fácil ser-se o filho “do meio”. Nasce-se para logo descobrir que jamais se terá o inquestionável estatuto do primogénito. Pior, que se tem de disputar atenção e cuidados com esse ser hiper-estimulado e egocêntrico, pólo de todas as expectativas e ansiedades parentais*. Ocupa-se brevemente o delicioso lugar do mais novo, do qual se é um dia privado pela chegada de nova criatura, para sempre pequenina, que o ocupa, feroz, sem a menor intenção o partilhar. Não se é o maior nem o menor — e se calha ser assimilado a um ou a outro, é quase sempre para efeitos dos quais que de bom grado se prescindiria. Vive-se “ensanduichado”, à procura de uma especificidade que tarde ou nunca é reconhecida**.</p>
<p style="text-align: justify;">É esta a condição da minha filha Joaninha, a menina do meio.</p>
<p style="text-align: justify;">Penso nisso quando penso nela. E sempre que o faço, constato fascinada como o omnisciente Criador, antecipando o duro destino que a esperava, a abençoou com tantas e tamanhas graças, que, desde que nasceu, usa como respira.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo nesta minha filha marca. A impressionante combinação de beleza e charme, que desde os risonhos, rosados e rechonchudos tempos do berço a torna irresistível***. A intensa e fortíssima personalidade, feita de determinação, persistência, lucidez, frontalidade, coragem e desembaraço, nem sempre fáceis de gerir, pela própria e pelos próximos. O humor, delicioso de tão certeiro e implacável. A apuradíssima sensibilidade estética, de par com um incomum sentido crítico. E, <em>last but not the least</em>, o desmedido gosto pela vida, por tudo o que esta de bom e de belo tem para gozar.</p>
<p style="text-align: justify;">É de longe a filha que mais luta me dá. Fazemos muita faísca. Não é dócil, nem obediente, nem submissa. Desafia-me e resiste-me. Tira-me do sério. Está invariavelmente no centro de qualquer furacão que varre esta casa: leva a amável e tranquila <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/03/madalena/">Madalena</a> ao desespero, põe a temperamental e dramática Teresinha em ponto de rebuçado. Pior, não se deixa abalar com raspanetes, nem mostra medo de ameaças ou castigos. Teria uns três ou quatro anos quando, após ouvir, impávida, uma das minhas temíveis descomposturas, me advertiu, séria e grave: <em>“a mãe fala assim comigo e depois eu não sou amiga da mãe”…</em>           </p>
<p style="text-align: justify;">Esta e outras desconcertantes pérolas do género cedo me fizeram perceber que com este feitio de <em>antes quebrar que torcer</em>, o <em>approach</em> teria de ser outro. Que rapidamente teria de decifrar esta minha filha, para a não perder. Naquela cabeça racional e pragmática, as coisas ou fazem sentido, ou não. Se não, nada feito. Se sim, tudo. Ganhar o seu respeito e consideração exige doses apreciáveis de firmeza, total coerência, alguma humildade e muita flexibilidade. Não é tarefa fácil, nem com fim à vista. Mas a dedicação, a generosidade, a lealdade e a doçura com que corresponde justificam o esforço feito que, bem vistas as coisas, não é tanto assim …</p>
<p style="text-align: justify;">Em tudo o mais, é mais uma adolescente. Que suspira pelo <a href="http://www.justinbiebermusic.com/myworlds/">Justin Bieber</a> (e ocasionalmente pelo princípe <a href="http://www.imdb.com/title/tt0499448/">Caspian</a>)****. Que muda, dia sim dia não, a foto do perfil do Facebook. Que passa horas em frenéticas trocas de <em>sms</em> ou ao telemóvel, à meia-voz exigida pela super confidencialidade dos assuntos. Que sai de casa de manhã, sempre em grande estilo e sempre com dez minutos de atraso, deixando atrás de si um intenso rasto de perfume e um dantesco cenário de atentado à bomba, com roupa “explodida” por todo o quarto.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Igualzinha a tantas outras</em>, acrescentaria. Se desconhecesse as suas extraordinárias preferências, que incluem colares e brincos de ónix, múmias e divindades egípcias, répteis (sobretudo cobras), uvas descascadas e nêsperas, chocolate branco, cães husky, programas e livros de culinária e experiências da mesma (para a qual revela excepcional talento) e um número considerável de furos, <em>piercings</em> e tatuagens que (julga ela) um dia a mãe vai autorizar… Ou o especial gosto que tem no facto de os seus olhos serem de distintos tons de castanho. E, sobretudo, se não soubesse o muito que a Joaninha detesta ser igual a toda a gente…  </p>
<p style="text-align: justify;">Faz hoje treze anos, esta menina afortunada e diferente, que todos os dias me surpreende e encanta.  </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<address style="text-align: justify;">* De primogénitos falo com cabal conhecimento de causa, primeira que fui da minha geração a nascer: filha, neta, bisneta, irmã e prima, sempre a mais velha …  </address>
<address style="text-align: justify;">**Tudo isto evidentemente se agrava quando o trio é todo do mesmo género, sem o consolo que advém de se ser o único/a menino ou menina, o mais velho/a ou o mais novo/a, deles ou delas, conforme o caso.</address>
<address style="text-align: justify;">*** Com todo o à vontade o afirmo, pois das minhas três filhas é a única que fisicamente em nada se parece comigo.</address>
<address style="text-align: justify;">**** Em matéria de suspiros, estou evidentemente impedida de transpor os estritos limites da ficção …</address>
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		<title>Teúda e Manteúda, a outra legítima</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Nov 2010 00:05:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[História Particular da Infâmia]]></category>

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		<description><![CDATA[TEÚDA E MANTEÚDA (1 de Julho de 1867 — 3 de Novembro de 1910)  Amante. Amásia. Concubina. Manceba. A outra. Mas não qualquer outra. Teúda e manteúda, porque de casa posta, sustentada pelo seu casado benfeitor, o qual provia a todas as suas necessidades materiais, a troco da sua constante e plena disponibilidade e da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-21039" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/11/teuda-e-manteuda-a-outra-legitima/edgar-degas-femme-se-peignant-1885/"><img class="aligncenter size-full wp-image-21039" title="Edgar Degas, Femme se Peignant, 1885" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/11/Edgar-Degas-Femme-se-Peignant-1885.jpg" alt="" width="395" height="405" /></a></p>
<h3 style="text-align: center;">TEÚDA E MANTEÚDA</h3>
<h3 style="text-align: center;">(1 de Julho de 1867 — 3 de Novembro de 1910)</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong></strong> Amante. Amásia. Concubina. Manceba. A outra. Mas não qualquer outra. Teúda e manteúda, porque de casa posta, sustentada pelo seu casado benfeitor, o qual provia a todas as suas necessidades materiais, a troco da sua constante e plena disponibilidade e da exclusividade dos seus favores.  </p>
<p style="text-align: justify;">A teúda e manteúda fazia parte do modelo social da época. Reflectia a prosperidade e alimentava a vaidade daquele que a tomava e mantinha, permitindo-lhe exibir ao círculo em que se movia a sua virilidade e o seu domínio dos <em>ways of the world.</em> E, não faltava quem o sustentasse, seria também o sustentáculo de muitos casamentos, ajustados e mantidos por conveniências várias, da continuidade de nomes e títulos, à consolidação de património, passando pelo mutuamente vantajoso intercâmbio de prestígio social e conexões relevantes por desafogo económico, assente em fortuna recente.    </p>
<p style="text-align: justify;">Por tudo isto, mais que tolerada, era aceite. Pela sociedade, que nela não via, muito pelo contrário, uma ameaça à harmonia conjugal e à paz doméstica. Pela mulher casada, desde tenra idade instruída para ser boa esposa e mãe, logo bem ciente dos deveres que lhe cabia cumprir, se não com entusiasmo, ao menos com boa cara — e dos quais fazia parte o não tomar conhecimento de certas coisas. <em>Porque o homem, já se sabe, tem necessidades.</em>   </p>
<p style="text-align: justify;">Sucede, porém, que entre nós se foi além, muito além, nesta matéria. E durante mais de 40 anos a teúda e manteúda beneficiou de um raro e extraordinário estatuto, que não só lhe reconhecia e banalizava a existência, como a legitimava, enquanto ocorrência normal na vida de um homem casado. Dentro de certos limites, impostos pela decência e pela razoabilidade, claro. Eu explico.</p>
<p style="text-align: justify;">O nosso primeiro Código Civil, aprovado por Carta de Lei de D. Luís, de 1 de Julho de 1867, impunha a mulher e marido a obrigação de <em>“guardar mutuamente fidelidade conjugal”</em>, mas modelava o conteúdo desta bem ao sabor dos padrões vigentes. Donde, se permitia o divórcio perante o<em><strong> </strong>“adultério da mulher”</em>, sem mais, exigia, para o mesmo efeito, sendo o homem a cometê-lo, além do propriamente dito adultério, que este envolvesse <em>“escândalo público”, “completo desamparo da mulher”</em> ou, pior, que se consumasse<strong> </strong><em>“com concubina teúda e manteúda no domicílio conjugal”</em><strong>*</strong>. O Código Penal de 1886 confirmava esta desigual valoração dos adultérios, punindo a mulher prevaricadora e o seu cúmplice com prisão <em>“de dois a oito anos”</em> enquanto aplicava ao <em>“homem casado”</em> que tivesse <em>“manceba teúda e manteúda na casa conjugal” </em>uma singela <em>multa<strong>**</strong></em>.  </p>
<p style="text-align: justify;">Da primeira destas esclarecedoras normas resultava, antes de mais, que fora dos casos nela descritos, em que o<strong> </strong>adultério marital ocorria em circunstâncias inaceitáveis, porque especialmente embaraçosas ou indignas, o mesmo era irrelevante. Ainda que decorresse de forma continuada, estável e organizada, com uma amante fixa e oficial. E resultava também a atribuição a esta de uma posição própria, como mulher<em> de facto</em>, com o seu espaço e os seus deveres bem definidos: desde que soubesse ser discreta e moderar as suas expectativas, <em>i.e.</em>, manter-se no seu lugar, a teúda e manteúda gozava do beneplácito e da protecção da lei, enquanto amante legítima — tão legítima quanto a legitima esposa, cuja existência e papel social lhe cabia respeitar e em momento algum questionar ou cobiçar.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas porque não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe, este estado de graça da teúda e manteúda haveria de chegar ao fim.  </p>
<p style="text-align: justify;">A Lei do Divórcio, elaborada nos primórdios do regime republicano, sob forte pressão das organizações feministas que, tendo contribuído para o triunfo da revolução, exigiam a adopção das mudanças por que haviam lutado, traçava um regime todo ele baseado na igualdade entre mulher e marido – quanto à designação daquele com quem ficariam os filhos, à partilha de responsabilidades com a sua educação e sustento, à prestação de alimentos entre ex-cônjuges e, inevitavelmente, quanto aos motivos do divórcio.   </p>
<p style="text-align: justify;">A complacência do Código Civil novecentista em matéria de adultério masculino deu lugar à estrita aplicação ao marido do que valia já para a mulher. O elenco legal de causas de divórcio litigioso passou a referir, ao lado do <em>“adultério da mulher”</em>, o <em>“adultério do marido”</em> – sem contemplações, graduações ou <em>nuances</em>. No plano criminal, o adultério deste foi expressamente <em>“igualado em carácter e gravidade ao da mulher”</em> e como este punido com prisão***.<strong> </strong>Do adúltero e da sua cúmplice, claro.  </p>
<p style="text-align: justify;">Estas novas regras tiveram um impacto tremendo na pacata e confortável existência que levava a<strong> </strong>teúda e mantéuda. Por via da triunfal preponderância nelas assumida pela mulher casada — doravante a única legítima parceira, não mais forçada a suportar a sua vexante concorrência – foi remetida à clandestinidade e desqualificada, numa degradante equiparação, dentro da torpe categoria das <em>“outras”</em>, às mulheres fáceis e promíscuas e às imorais mancebas de portas adentro. Porque não há duas sem três, passou a estar em risco de humilhação pública, como co-ré num divórcio litigioso ou, pior, e sendo essa a opção da esposa ultrajada, ser presa, como cúmplice de adultério criminoso, porque cometido <em>“durante a vida dos cônjuges em commum”</em><strong>****</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, de uma assentada passou de elemento estabilizador do casamento, a co-responsável pela ruína do mesmo. Derrotada em toda a linha, a teúda e manteúda não deixou, evidentemente de existir. Mas, porque o seu tempo passara, a sua vida mudou. Muito e para muito pior.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Foi a 3 de Novembro de 1910. Faz hoje 100 anos.</strong></em></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<address><strong>* </strong>Artigos 1184.º, § 1.º, e 1204.º, §§ 1.º e 2.º, respectivamente, do Código Civil de 1867.</address>
<address><strong>**</strong> Artigos 401.º, § 1.º, e 404.º, § único, respectivamente.  </address>
<address><strong>***</strong> Artigos 4.º, §§ 1.º e 2.º, e 61.º, § 1.º, respectivamente, do Decreto com força de lei, de 3 de Novembro de 1910, o último dos quais alterou o Código Penal, reduzindo para dois anos o prazo máximo da pena de prisão aplicável.</address>
<address><strong>****</strong> Artigo 61.º, corpo e § 1.º, do Decreto com força de lei, de 3 de Novembro de 1910: tal como sucedia já no direito anterior, “o cônjuge offendido” teria “de optar pela acção criminal de adulterio ou pela civil de divórcio (…) com base em adulterio, não podendo cumulá-las em caso algum”.</address>
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		<title>Apesar de tudo</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Oct 2010 20:49:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[- Foi ele o amor da tua vida, não foi? Quero dizer, apesar de tudo … Sentiu o olhar das duas amigas fixo nela. Diante de si a fotografia que a apanhara desprevenida, ao virar da página do álbum que uma delas trouxera para o almoço das sextas-feiras. Fui ajudar a minha mãe a esvaziar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-20853" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/10/apesar-de-tudo/imagem-short-de-outubro/"><img class="aligncenter size-full wp-image-20853" title="Imagem Short de Outubro" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/Imagem-Short-de-Outubro.jpg" alt="" width="458" height="400" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>- Foi ele o amor da tua vida, não foi? Quero dizer, apesar de tudo … </em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Sentiu o olhar das duas amigas fixo nela. Diante de si a fotografia que a apanhara desprevenida, ao virar da página do álbum que uma delas trouxera para o almoço das sextas-feiras. <em>Fui ajudar a minha mãe a esvaziar o sótão, por causa das obras no telhado e já viram o que encontrei? </em> </p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>O amor da tua vida.</em></strong> Muito gosta esta boa alma de etiquetas, rótulos, letreiros. Como se tudo fosse assim tão simples. Se calhar é, para ela. Que sorte. Ou então, não.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Apesar de tudo.</em> </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Apesar de tudo o que acontecera?</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Lá está <strong><em>ele</em></strong>, à esquerda. Mesmo <strong><em>ele</em></strong>. As mãos esguias. A melena loura e desgrenhada. O ar de miúdo. Com <strong><em>ele</em></strong> vivera tudo o que sonhara – paixão, casamento, filhos, projectos, desafios. E também um longo pesadelo de incompatibilidade, distanciamento, desconfiança e raiva. Eram muito novos e tinham crescido — ela, pelo menos, que <strong><em>ele</em></strong> jamais o faria — em direcções opostas. Tinham jurado ser fiéis – e <strong><em>ele</em></strong> não o fora. Respeitar-se – e ela não conseguira. Amar-se – e Deus, como se tinham chegado a odiar! Os anos haviam atenuado ressentimentos e mágoas. Já conseguiam estar juntos e até conversar. Fazia, ainda assim, por não se rir das piadas <strong><em>dele</em></strong>, não se deixar arrastar nos seus empolgantes relatos. Impressionante como <strong><em>nele</em></strong> nada mudara. Como <strong><em>ele</em></strong> mantinha inteiras a irreverente despreocupação e a alegre irresponsabilidade. E a irresistível graça que, sabia-o bem, fora – e, deixasse ela, seria de novo — a sua desgraça…         </p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Apesar de tudo o que poderia ter acontecido?</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Ao centro. <strong><em>Ele</em></strong>. Forte e consistente, por fora como por dentro. Sereno, sensato e generoso. Profundamente bom. Sempre gostara dela. <em>Por amor</em>, como dizem os miúdos. E ela sabia. Nunca lhe dera falsas expectativas. Mas abusara, isso sim, das suas infinitas dedicação e paciência. Todas as vezes que o seu mundo desabara – e haviam sido tantas -, fora <strong><em>nele</em></strong> que se refugiara. Para chorar desgostos, bradar revoltas, ouvir conselhos. Várias vezes, ao longo dos anos, se perguntara porque não aceitava o amor incondicional daquele homem extraordinário. Seriam decerto felizes: <strong><em>ele</em></strong> seria incapaz de a magoar. <em>Não, não seríamos: porque não basta só um amar, têm de ser os dois</em>. E ela não o amava, não dessa maneira. Foi então que tudo mudou: <strong><em>ele</em></strong> estivera fora, pouco soubera <strong><em>dele</em></strong> por uns tempos. No regresso, vira-o com outros olhos. Teve a certeza de que iriam ser felizes, muito felizes. Ainda hoje tinha. Não fora a morte <strong><em>dele</em></strong>, naquele estúpido acidente. Já lá iam dois anos e raro era o dia em que não pensava <strong><em>nele</em></strong>, no tempo que tinham perdido, no que teria sido a sua vida.   </p>
<p style="text-align: justify;"> <strong><em>Apesar de tudo o que (ainda) não acontecera?</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">À direita. <strong><em>Ele</em></strong>. Cabeça baixa, reservado, esquivo. Começara por embirrar. Como não? Giro e com pinta de sedutor, um sucesso junto das meninas, que lhe caíam todas aos pés. Sem sorte, coitadas, porque definitivamente <strong><em>ele</em></strong> não se deixava prender. <em>Tontas, não vêm que <strong>ele</strong> é um pateta?</em> Até que chegara a sua vez. Fora tudo muito rápido: a muralha de desconfiança, má vontade e certezas absolutas ruíra diante do que apercebera por detrás de tanta pose. Apaixonara-se perdidamente. Tentara conquistá-lo. Em vão. <strong><em>Ele</em></strong> ou não percebia ou fingia não perceber. Persistiu, sofreu, penou. Até que, desesperada, desistiu. Declarou-o assunto encerrado, listou-lhe defeitos, fez por o esquecer. Só não tinha como. Era uma doença crónica: se os seus amores corriam de feição, a coisa mantinha-se dentro de um certo controlo; se estava fragilizada, e <strong><em>ele</em></strong> aparecia, sorridente e afectuoso, recaía. Sempre na mesma vexante versão <em>teenager</em>, feita de palpitações, devaneios e esperanças infundadas. <em>Obsessão, será isto uma obsessão? Ou um mero caso mal resolvido, de que no jantar de há dias tantas se queixavam?</em> Fosse o que fosse, <strong><em>ele</em></strong> fora, era ainda, um problema. Um belo dum problema.            </p>
<p style="text-align: justify;">Sorriu e encarou as amigas, do outro lado da mesa.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>- Ele, o amor da minha vida? Claro que sim! Apesar de tudo, dizes bem … </em></strong></p>
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		<title>A Primeira de Muitíssimas</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Oct 2010 11:00:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Foi a 24 de Outubro de 1910. Faz hoje 100 anos. Regina Quintanilha (1893–1967), então com 17 anos, atravessou a Porta Férrea, que dá acesso ao Pátio das Escolas, onde se situa a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Era o seu primeiro dia de aulas. Era também a primeira vez que uma mulher [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-20726" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/10/a-primeira-de-muitissimas/rq-ii/"><img class="aligncenter size-full wp-image-20726" title="RQ II" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/RQ-II.gif" alt="" width="336" height="446" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Foi a 24 de Outubro de 1910. <span style="color: #cb3446;"><strong>Faz hoje 100 anos</strong></span>.</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #cb3446;"><strong>Regina Quintanilha (1893–1967)</strong></span>, então com 17 anos, atravessou a Porta Férrea, que dá acesso ao Pátio das Escolas, onde se situa a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Era o seu primeiro dia de aulas. Era também a primeira vez que uma mulher frequentava o curso de Direito, em Portugal. A sua matrícula, um mês antes, motivara uma reunião do Conselho Universitário, na qual fora discutida e aprovada a sua admissão. Foi acolhida em ambiente festivo pelos colegas, que atapetaram a entrada com as suas capas e formaram alas para lhe dar passagem.<em> </em></p>
<p style="text-align: justify;">Valendo-se do recentemente instituído regime de cursos livres<span style="color: #cb3446;">*</span>, Regina concluiu o seu em três anos, tendo sido, de imediato, convidada para reitora do recém-criado Liceu Feminino de Coimbra. Recusou, pois tinha outros planos — queria ser advogada. Apesar de a lei então vigente lhe vedar, por ser mulher, o exercício de tal profissão<span style="color: #cb3446;">**</span>. O obstáculo, à primeira vista intransponível, foi removido pelo Supremo Tribunal de Justiça que, em sessão plenária, decidiu conceder-lhe uma autorização especial para advogar. E foi no uso desta que, a 14 de Novembro de <strong><span style="color: #cb3446;">1913</span></strong>, Regina Quintanilha, com apenas 20 anos, se estreou no tribunal da Boa Hora, em Lisboa, como defensora oficiosa de duas mulheres acusadas de agressão, tornando-se na primeira mulher a exercer a advocacia em Portugal.</p>
<p style="text-align: justify;">Regina Quintanilha foi também – e de novo pela primeira vez entre nós – conservadora do Registo Predial e notária. Mas foi à advocacia que principalmente se dedicou, durante mais de quarenta anos, em Portugal e também no Brasil e nos Estados Unidos (tendo tido escritório no Rio de Janeiro e, mais tarde, em Nova Iorque).</p>
<p style="text-align: justify;">Como jurista, agrada-me especialmente evocar esta data e a mulher talentosa e trabalhadora que a protagonizou. Foi o início de um longo, longo caminho, que demorou e custou a percorrer.</p>
<p style="text-align: justify;"> Se o acesso da generalidade das mulheres à advocacia pouco tardou — remonta a <span style="color: #cb3446;"><strong>1918</strong></span><span style="color: #cb3446;">***</span> -, o mesmo não sucedeu com a magistratura, que lhes permaneceu vedada até <span style="color: #cb3446;"><strong>1974</strong></span><span style="color: #cb3446;">****</span>. Foi, por isso, só em <strong><span style="color: #cb3446;">1977</span></strong> que tomou posse a primeira juíza portuguesa, <span style="color: #cb3446;"><strong>Ruth Garcêz (1923–2006)</strong></span>, que se tornou também a primeira Juíza-Desembargadora, quando integrou o Tribunal da Relação de Lisboa, em <strong><span style="color: #cb3446;">1993</span></strong>. No que se refere aos tribunais superiores, haveriam de mudar século e milénio antes que neles dessem entrada as primeiras Juízas-Conselheiras — <span style="color: #cb3446;"><strong>Maria Laura Maia Leonardo (1937)</strong></span>, no Supremo Tribunal de Justiça, em <strong><span style="color: #cb3446;">2004</span></strong>, e <strong><span style="color: #cb3446;">Isabel Marques da Silva (1970)</span></strong>, no Supremo Tribunal Administrativo (secção de contencioso tributário), em <strong><span style="color: #cb3446;">2009</span></strong>. A mudança chegara bem mais cedo à justiça constitucional, com a nomeação, em <strong><span style="color: #cb3446;">1976</span></strong>, de <span style="color: #cb3446;"><strong>Isabel Maria de Magalhães Collaço (1926–2004)</strong></span> como vogal da Comissão Constitucional, que antecedeu o actual Tribunal Constitucional, cuja primeira juíza foi <span style="color: #cb3446;"><strong>Maria da Assunção Esteves (1956)</strong></span>, em <strong><span style="color: #cb3446;">1989</span></strong>. No plano académico, <strong><span style="color: #cb3446;">Isabel Maria de Magalhães Collaço</span></strong> foi a primeira — e durante quase quarenta anos, a única – mulher a doutorar-se em Direito em Portugal, em <strong><span style="color: #cb3446;">1954</span></strong>. Apesar da sua extraordinária média de licenciatura e da excepcional qualidade da sua dissertação, não foi isenta de controvérsia e, por isso mesmo, não imediata, a sua admissão como docente na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.  </p>
<p style="text-align: justify;">Direito é, hoje, um curso com uma fortíssima componente feminina. O número de raparigas excede largamente o de rapazes nas salas de aula. As mulheres estão em força em todas as profissões jurídicas: é muito expressiva e não pára de crescer a percentagem, que já ultrapassou os 50%, de advogadas, juízas, procuradoras e funcionárias judiciais, nos nossos tribunais. São também mulheres a maioria dos solicitadores e uma parte muito significativa dos notários e conservadores. O mesmo sucede no ensino universitário e na investigação: o total de professoras, nos vários graus da carreira académica e nas várias faculdades anda muito perto da metade, quando não a excede. Existem, é claro, excepções, como os tribunais superiores, em que é ainda exígua a componente feminina, mas será evidentemente uma questão de tempo – e não muito.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi um caminho felizmente sem retorno aquele que trilhou Regina Quintanilha primeiro e, tantas, tantas outras depois dela. E é muito gratificante constatar o quanto que se avançou nestes cem anos — mesmo sabendo do muito que falta ainda percorrer.    </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<address style="text-align: justify;"><em><span style="color: #cb3446;"><strong>*</strong></span> Decreto com força de lei de 23 de Outubro de 1910, publicado no Diário do Governo de 24 de Outubro de 1910, faz hoje também 100 anos, que declarou “supprimido” o ponto “tomado aos alumnos” da universidade, ficando “a partir d’esta data, livres os cursos de todas as cadeiras das differentes faculdades”. Este novo regime permitia aos alunos, não mais obrigados a assistir às aulas, elaborar o seu próprio plano de estudos, com cadeiras de qualquer ano do curso e porventura de outros. </em></address>
<address style="text-align: justify;"><em><span style="color: #cb3446;"><strong>** </strong></span>O artigo 1354.º, n.º 2, do Código Civil de 1867 expressamente proibia que fossem “procuradores em juízo (…) as mulheres, excepto em causa própria ou de seus ascendentes, e descendentes ou de seu marido, achando-se estes impedidos”.    </em></address>
<address style="text-align: justify;"><em><span style="color: #cb3446;"><strong>***</strong></span> Decreto n.º 4876, de 17 de Julho de 1918.</em></address>
<address style="text-align: justify;"><em><strong><span style="color: #cb3446;">****</span></strong> DL n.º 492/74, de 27 de Setembro, que revogou o art. 488.º, § 4.º, do Código Administrativo de 1940, que enumerava uma série de cargos a que só poderiam concorrer candidatos de sexo masculino.</em></address>
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		<title>Back from the underworld</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Oct 2010 22:11:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Frances Hodgson Burnett, Etty Hillesum, Irène Némirovsky, Mollie Panter-Downes, Winifred Watson, Dorothy Whipple, Edith Wharton, Marghanita Laski, Katherine Mansfield, Dorothy Canfield Fisher, Virginia Woolf e tantas, tantas outras. Viveram e escreveram na primeira metade do séc. XX. Tiveram sucesso e gozaram de amplo reconhecimento. Pelas mais variadas razões, foram caindo no esquecimento. Os seus livros [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-20519" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/10/back-from-the-underworld/persephone-books/"><img class="aligncenter size-full wp-image-20519" title="Persephone Books" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/Persephone-Books.jpg" alt="" width="510" height="339" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Frances Hodgson Burnett, Etty Hillesum, <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/02/irene-nemirovsky/">Irène Némirovsky</a>, Mollie Panter-Downes, Winifred Watson, Dorothy Whipple, Edith Wharton, Marghanita Laski, Katherine Mansfield, Dorothy Canfield Fisher, Virginia Woolf</strong> e tantas, tantas outras.</p>
<p style="text-align: justify;">Viveram e escreveram na primeira metade do séc. XX. Tiveram sucesso e gozaram de amplo reconhecimento. Pelas mais variadas razões, foram caindo no esquecimento. Os seus livros deixaram de ser editados ou reimpressos. Os exemplares publicados, confinados a colecções privadas ou a bibliotecas, tornaram-se dificilmente acessíveis, lembrados por poucos, conhecidos por cada vez menos. Até recentemente.</p>
<p style="text-align: justify;">A <a href="http://www.persephonebooks.co.uk/index.asp">Persephone Books </a>é uma pequena editora <em>indie</em> inglesa, que publica principalmente <em>neglected fiction and non-fiction by women, for women and about women (</em>apesar de o seu catálogo incluir vários<em> non-female authors)</em>. O nome, inspirado na deusa grega, filha de Zeus e de Deméter, raptada por Hades e por ele levada para o mundo dos mortos, onde vive e reina metade do ano (durante a qual a sua desgostosa mãe não cuida da terra e das colheitas) e de onde regressa na outra metade (fazendo com que a alegria materna encha a terra de flores e de frutos), não pode ser mais apropriado: do que se trata é de evocar <em>new beginnings and fertility, as well as female creativity and domesticity</em>. Os livros, apresentados como <em>readable, thought-provoking and impossible to forget</em> são, além do mais, belíssimos – <em>paperbacks</em> com sofisticadas capas que, ora reproduzem pormenores de quadros da época, ora contrastam o cinzento minimalista do exterior com as coloridas guardas (e marcas), a reproduzir padrões de tecidos de então (ou neles inspirados). Os títulos editados são, até ao momento, noventa, entre romances, colectâneas de <em>short stories</em>, diários e livros de cozinha. E são prefaciados por escritoras ou estudiosas consagradas.   </p>
<p style="text-align: justify;">Quem me falou desta editora, dos seus livros e da sua encantadora livraria, no centro de Londres, foi a minha amiga Sofia, que costuma escrever <a href="http://avezdopeao.blogspot.com/">aqui </a>e que sabe coisas fantásticas sobre livros e sobre sítios. Pouco antes de eu partir para uns dias em Inglaterra, com o meu irmão, fez-me uma extensa e variada lista de sugestões, em Londres e fora, da qual apenas consegui “gastar” uma parte (o que significa que vou ter de regressar em breve, para dar conta do resto), parte essa que se traduziu em belos programas e surpreendentes descobertas. Com muita pena minha, não cheguei a visitar a livraria, mas encontrei os livros e, num caso de <em>love at first sight</em>, trouxe um montinho deles – que, com o meu sensato irmão a agoirar-me excesso de bagagem, de bom grado troquei por vários artigos não indispensáveis que por lá ficaram.</p>
<p style="text-align: justify;">Li-os de seguida. E gostei. Muito. Da escrita limpa, luminosa e elegante. Da profundidade e da densidade de personagens e enredos. Da subtil ironia, a raiar, aqui e ali, o sarcasmo mais negro e carregado. Dos deliciosos detalhes de época e estilo e, não obstante, da sua intemporalidade, a conferir-lhes uma inesperada e estimulante actualidade.   </p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Good Evening Mrs. Craven: The Wartime Stories of Mollie Panter-Downes</strong></em> é um conjunto de <em>short stories</em>, escritas em plena II Guerra Mundial. A sua autora, Mollie Panter-Downes (1906–1997) era jornalista e, durante mais de 50 anos, foi colaboradora regular de <em>The New Yorker</em>, com a sua <em>Letter from London</em> quinzenal e frequentes <em>book reviews</em>. O livro abre e fecha com duas dessas cartas-crónica, datadas respectivamente de 3 de Setembro de 1939 e de 11 de Junho de 1944. As <em>short stories</em> dão-nos fragmentos variados, autênticos e quase sempre impressionantes do que foram os anos da guerra, não na frente de combate ou no <em>underground</em> da resistência, mas na rectaguarda, no quotidiano irremediavelmente transformado pelos bombardeamentos e as máscaras de gás, a evacuação de crianças e outros civis para o campo, o empenhamento devotado (e às vezes <em>overzealous</em>) no esforço de guerra, a fome e a solidão, a angústia e a desolação, mas também as profundas e irreversíveis mudanças sociais em curso e que pouco a pouco se tornavam perceptíveis.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>The Making of a Marchioness</strong></em> é uma das várias obras de literatura não infantil de Frances Hodgson Burnett (1849–1924) - que todos conhecemos como a autora de <em>The Little Princess, The Secret Garden, Little Lord Fauntleroy</em>. Escrito em 1901, apresenta-nos Emily Fox-Seton, uma adorável e incomum protagonista, que seguimos ao longo de uma primeira parte irresistivelmente romântica e amena e de uma inesperadamente sombria, tormentosa, quase trágica segunda parte. Todo o livro traça, além do mais, um exacto e impiedoso retrato da sociedade inglesa da época, das relações sociais e do casamento, com especial destaque para o <em>dark underside of women’s lives</em>.       </p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Miss Pettigrew lives for a Day</strong></em>, de Winifred Watson (1906–2002) narra a saga, absolutamente hilariante, de uma desgraçada preceptora – solteirona, de meia-idade, desengraçada, desastrada e desempregada – que por um engano da agência de colocação é enviada, não para (mais) uma família com crianças insuportáveis, mas para casa de uma encantadora cantora de <em>cabaret</em>, aspirante a <em>starlett</em>, belíssima, gentil … e com uma mais que atribulada vida sentimental, entre um amante possessivo e dominador, dono do <em>night-club</em> onde canta, o irresistível produtor da sua peça de teatro a estrear e um honesto e dedicado namorado que quer casar e fazer dela uma mulher séria. Ao longo de vinte e quatro horas sucedem-se peripécias inesperadas e episódios delirantes que Mrs. Pettigrew resolve com despacho e audácia, fazendo extraordinárias descobertas sobre si própria e sobre o que julgava não saber da vida…     </p>
<p style="text-align: justify;">Comecei há dias e estou a avançar bem no último dos que trouxe comigo:<strong> <em>Someone at a Distance</em></strong>, de Dorothy Whipple, que seria (mais) uma história de desamor e traição, envolvendo uma <em>deceived wife</em>, um <em>foolish husband</em> e uma jovem dama de companhia francesa tão cheia de encanto quanto desprovida de escrúpulos e de remoroso, não fora ser tão maravilhosamente escrito.</p>
<p style="text-align: justify;">E tenho já a lista pronta, para encomendar <em>online</em>: <em><strong>Dimanche and Other Stories</strong></em>, de Irène Némirovsky, <em><strong>Minnie’s Room – The Peacetime Stories</strong></em>, de Mollie Panter-Downes; <em><strong>They Were Sisters</strong></em>, de Dorothy Whipple; <em><strong>The Wise Virgins</strong></em>, de Leonard Woolf; <em><strong>The Shuttle</strong></em>, de Frances Hodgson Burnett. Por agora, claro.</p>
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		<title>Teresa</title>
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		<pubDate>Fri, 15 Oct 2010 13:24:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Se derraman más lágrimas por las plegarias atendidas que por las no atendidas.  A frase, que inmpressinou Truman Capote, que nela inspirou o título do seu nunca terminado Answered Prayers, é atribuída a Teresa Sánchez de Cepeda y Ahumada (1515–1582). Impetuosa, excessiva, arrebatada, destemida, determinada, radical, exigente, desassombrada, controversa para além de — nisso convergem as [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-20384" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/10/teresa/bernini-santa-teresa-i/"><img class="aligncenter size-full wp-image-20384" title="Bernini, Santa Teresa I" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/Bernini-Santa-Teresa-I.jpg" alt="" width="350" height="336" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Se derraman más lágrimas por las plegarias atendidas que por las no atendidas</em>.  A frase, que inmpressinou Truman Capote, que nela inspirou o título do seu nunca terminado <em>Answered Prayers,</em> é atribuída a Teresa Sánchez de Cepeda y Ahumada (1515–1582).</p>
<p style="text-align: justify;">Impetuosa, excessiva, arrebatada, destemida, determinada, radical, exigente, desassombrada, controversa para além de — nisso convergem as crónicas da época — muito bela. São sempre fortes os adjectivos e carregados os traços com que, de tantos e tão variados ângulos, nos surge retratada aquela que todos conhecemos como Teresa de Ávila ou Teresa de Jesus, cuja vida foi tão pouco convencional e intrigante quanto fascinante e inspiradora.  </p>
<p style="text-align: justify;">Dos seus primeiros anos, é conhecido o episódio da fuga de casa, ainda criança e na companhia de um dos irmãos, rumo a território mouro, em busca do martírio certo e da imediata santidade. Interceptada por um tio e devolvida à casa paterna, sabe-se que depressa esqueceu tão exacerbados propósitos com a entrada na adolescência e a descoberta da outra metade da humanidade. Tais terão sido o alvoroço e o desassossego que o pai, alarmado e abalado pela recente viuvez, a remeteu, muito contrariada ao que consta, para o convento de <em>Santa Maria de Gracia</em>, em Ávila, em busca da prudente orientação das monjas agostinhas. Contra o que seria de esperar, a experiência correu bem. Tão bem que, pouco tempo volvido sobre o seu regresso, Teresa anunciou a sua intenção de professar, opção a que o pai se opôs frontalmente. Seguiu-se nova fuga de casa, desta vez em direcção ao <em>Monasterio de la Encarnación</em>, em Ávila, onde, com vinte anos, fez votos como carmelita, com a já resignada bênção do seu pai.</p>
<p style="text-align: justify;">A sua vida religiosa foi marcada pela doença grave que a acometeu ainda jovem – crê-se hoje que se tratava de malária – e que periodicamente a atormentava, deixando-a prostrada e debilitada. Mas, sobretudo, pela sua intensíssima experiência de oração, meditação e contemplação, traduzida em frequentes episódios de visões e/ou êxtases, que a celebrizaram, suscitando, à data, enorme controvérsia, e que, ainda hoje, se prestam às mais díspares interpretações e conjecturas, entre o sagrado e o profano. Os seus sucessivos confessores passaram das iniciais perplexidade e certeza de que se tratava de obra do diabo, a evitar a todo o custo, à convicção de que se tratava de expressões do favor divino, a manter e a aprofundar. Foram estes últimos – em especial o jesuíta Francisco de Borja e o franciscano Pedro de Alcantara, que a convenceram a escrever o que via e sentia. São, pois, da própria as palavras do extraordinário relato da sua transverberação, experiência mística, similar à da estigmatização das mãos, vivida por Francisco de Assis, mas que envolve o trespassar do coração - no caso de Teresa por um anjo e com uma flecha de ouro -, que causa uma dor intensa, para além de deixar marcas físicas. Experiência que Bernini, inspirado por tal descrição, imortalizou no seu <em>Êxtase de Santa Teresa</em> (1647–1652).</p>
<p style="text-align: justify;">Desagradada com a ligeireza, a superficialidade e a opulência do <em>Monasterio de la Encarnacion</em>, Teresa decidiu, com um grupo de companheiras, retornar à pureza e radicalidade iniciais da regra carmelita. Para tanto tratou de obter os necessários apoios na hierarquia eclesial e, no meio de muita polémica e bastantes contratempos, fundou um mosteiro segundo nova regra de pobreza e de clausura – as Carmelitas Descalças. Em breve se seguiu a incumbência de fundar novos conventos femininos e de liderar, com João da Cruz, a reforma dos mosteiros masculinos que pretendessem adoptar a nova e bem mais exigente regra. A expansão desta reforma foi duramente combatida pelo ramo tradicional da ordem, que tudo fez para, primeiro submeter as novas comunidades à sua autoridade e, uma vez logrado tal objectivo, travar os seus promotores. João da Cruz e outros monges chegaram a ser presos. Teresa foi confinada a um convento e proibida de sair e de contactar com o exterior. Durante este período, que durou vários anos e que só terminou com a criação de uma ordem religiosa autónoma, Teresa dedicou-se a escrever as suas principais obras, uma das quais relata esta sua experiência fundadora.</p>
<p style="text-align: justify;">São únicos e profundamente originiais, sobretudo nas imagens que utiliza, os seus escritos sobre teologia mística. Neles, Teresa relata e analisa as suas intensas experiências pessoais e descreve vários níveis de contemplação e de oração. Canonizada cerca de quarenta anos depois da sua morte, junto com os jesuítas Inácio de Loyola e Francisco Xavier, Teresa foi a primeira mulher a ser proclamada Doutora da Igreja, por Paulo VI, em 1970.</p>
<p style="text-align: justify;">Agradam-me esta Santa de forte personalidade e a sua vida intensamente vivida. Impressiona-me, tanto quanto a sua desconcertante espiritualidade, a profunda humanidade desta mulher, que fez da exigência – consigo própria, acima de tudo – e da busca do essencial, o objectivo da sua vida. Que para além da forte vertente mística, tinha um igualmente forte e bem mais terreno mau feitio, que se não coibia de exprimir - teimando, criticando e zangando-se. Nem o próprio Cristo terá escapado aos seus remoques, com o lapidar <em>Ah Señor, se así tratas tu a tus amigos, por eso tienes tan pocos</em>… Mas que era também capaz da confiante serenidade do belíssimo <em>Nada te turbe </em>que, como crente, sempre me toca<em>*</em>. </p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Teresa é a padroeira dos escritores - e, necessariamente, porque estes bem mais precisam, dos escrevedores e escrevinhadores, nos quais me incluo. Trouxe-a para aqui hoje, data da sua festa litúrgica, não vá falhar-nos a inspiração ou ser preciso meter algum dos nossos escreventes, pouco escreventes ou não escreventes na ordem. É melhor tê-la por perto, digo eu. Just in case.</strong></em></p>
<p><a rel="attachment wp-att-20387" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/10/teresa/bernini-santa-teresa-ii-2/"><img class="aligncenter size-full wp-image-20387" title="Bernini, Santa Teresa II" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/Bernini-Santa-Teresa-II1.jpg" alt="" width="382" height="548" /></a></p>
<p><em>* Nada te turbe, nada te espante,todo se pasa, Dios no se muda, la paciência todo lo alcanza.<br />
Quien a Dios tiene, nada le falta. Solo Dios basta.</em></p>
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		<title>Nesta extraordinária data</title>
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		<pubDate>Sun, 10 Oct 2010 13:45:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[10–10-10. Decimus dies do decimus mensis do decimus annus deste nosso ainda novo século. Uma data que, de tão repetida e redonda, agrada. E que por todo o mundo foi antecipada e assinalada — pelo seu significado matemático e/ou numerológico, por trazer boa sorte ou simplesmente por envolver uma simpática e rara harmonia numérica. Não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-20177" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/10/nesta-extraordinaria-data/10-10-10/"><img class="aligncenter size-full wp-image-20177" title="10-10-10" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/10-10-10.jpg" alt="" width="500" height="101" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #cb3446;"><strong>10–10-10</strong></span>. <em>Decimus dies</em> do <em>decimus mensis</em> do <em>decimus annus</em> deste nosso ainda novo século. Uma data que, de tão repetida e redonda, agrada. E que por todo o mundo foi antecipada e assinalada — pelo seu significado matemático e/ou numerológico, por trazer boa sorte ou simplesmente por envolver uma simpática e rara harmonia numérica. Não se trata, alertam os <em>experts</em>, de uma sucessão de capicuas perfeitas, mas lê-se, ainda assim, da mesma maneira, de trás para a frente e de frente para trás, e isso torna-a divertida.</p>
<p style="text-align: justify;">Para mais, o número que converge em dia-mês-ano é o <strong><span style="color: #cb3446;">10</span></strong>. O número dos Mandamentos e das bíblicas pragas, necessárias para convencer o malvado faraó a deixar partir o povo de Deus, cativo no Egipto. Dos dedos das nossas mãos e dos pés também, claro. Academicamente, <strong><span style="color: #cb3446;">10</span> </strong>são os minutos da tolerância para o atraso do professor, cujo decurso legitima os alunos a partir rapidamente para o bar (não vá o dito aparecer) e, já se sabe, <strong><span style="color: #cb3446;">10</span> </strong>é o objectivo dos cábulas, quando doseiam o seu, vá, parcimonioso estudo. <strong><span style="color: #cb3446;">10</span> </strong>foi a nota que merecidamente consagrou, diante dos encantados olhos de muitos de nós, a perfeição imbatível de Nadia Comaneci, em Montreal, em 1976. <strong><span style="color: #cb3446;">10</span> </strong>é nome de pelo menos dois filmes — de Blake Edwards (<em>sim, esse, o da Bo Derek</em>) e de Abbas Kiarostami – e do primeiro disco dos Pearl Jam. E <strong><span style="color: #cb3446;">10</span> </strong>é, ainda, o número da porta de um dos endereços mais famosos do mundo (Downing Street, <em>of course</em>) e o número mínimo de entradas em qualquer lista ou top que se preze.  Porque neste blog se gosta muito de bola, <strong><span style="color: #cb3446;">10</span> </strong>é o número da camisola de, entre outros, Eusébio, Pelé, Maradona,  Zidane, Rui Costa, Platini, Zico, Futre, Chalana, Lineker e Messi. Por último, e para não me eternizar nestas evocações, <span style="color: #cb3446;"><strong>10</strong></span> e <strong><span style="color: #cb3446;">10</span></strong> é a hora que quase invariavelmente marcam os relógios nas imagens publicitárias e nas montras das lojas onde estão expostos – porque a similitude dessa posição dos ponteiros com um sorriso ou com o v da vitória, os torna, ao que parece, mais atractivos para o consumidor.</p>
<p style="text-align: justify;">Curiosidades e superstições, numerologia e matemática à parte, <strong><span style="color: #cb3446;">esta data reveste-se da máxima importância neste extraordinário cemitério</span> </strong>– <strong><span style="color: #cb3446;">por um outro motivo</span></strong>. Porque é a data em que <strong><span style="color: #cb3446;">um dos nossos mortos celebra justamente uma linda capicua</span> </strong>– ou seja (<em>que o morto-em-festa me perdoe a indiscrição, mas não resisto</em>) <strong><span style="color: #cb3446;">44 a 10–10-10</span></strong>. Não é para qualquer um, convenhamos.  </p>
<p style="text-align: justify;"><em>Quem é ele?</em> Fácil, claro – é o nosso morto mais eterno, aquele que mais e mais facilmente viaja entre o mais remoto passado e o mundo actual, que nos bate a todos no diálogo com tantos ilustres mortos, pois domina as línguas em que eles falavam e escreviam, que conhece bem e trata com à vontade pesos-pesados como Platão e Epicteto, Tomás de Aquino e Erasmo, Francisco Suarez e Marx, bem menos intimidatórios — digo eu - desde que ele para nós os decifrou e os trouxe aqui para o cemitério.   </p>
<p style="text-align: justify;">Mas, mais que tudo, este morto faz-me lembrar o que nos diz São Paulo, na sua Primeira Carta aos Coríntios. É que apesar de falar “todas as línguas dos homens e dos anjos”, de conhecer todos os mistérios e toda a ciência” a que se dedica, de ter “tão grande fé que transporta montanhas”, ele não é o címbalo que, em vão, retine. Porque este nosso morto ama. Ama a vida em tudo aquilo que ela lhe traz de bom, de uma forma que todos reconhecemos, apreciamos e admiramos. E canta-a, canta-a com sentimento e convicção – e com que belíssima voz!</p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="color: #cb3446;"><strong>Vamos dar-lhe aqui os parabéns? Que tal impressioná-lo, recorrendo a outros idiomas? Recomendo o latim e o grego, que além de realmente eruditos, têm a vantagem adicional de lhe provocarem umas fortes gargalhadas, diante da nossa esforçada inépcia. Podem escolher outra, desde que o (e nos) impressionem, claro. Fica ao vosso critério…</strong></span></em></p>
<p style="text-align: justify;">Eu começo, então – <em>nada de rir, sim?</em></p>
<h1 style="text-align: center;"><span style="color: #cb3446;">Felicem diem natalem, </span></h1>
<h1 style="text-align: center;"><span style="color: #cb3446;">Gonsalvus nostrus …. </span></h1>
]]></content:encoded>
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		<title>A ter de escolher uma, só uma …</title>
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		<pubDate>Sat, 09 Oct 2010 10:59:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Recordar John Lennon na data em que teria completado setenta anos e, inevitavelmente, os seus e meus Beatles, levou-me a revisitar as suas músicas, nas quais por diversas vezes me perdi, em puro desfrute, esquecida do major purpose que me orientava. Vi-me em sérios apuros para referir apenas algumas, entre tantas e tão significativas canções… ou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a rel="attachment wp-att-20117" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/10/a-ter-de-escolher-uma-so-uma/beatles-i/"><img class="aligncenter size-full wp-image-20117" title="Beatles I" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/Beatles-I.jpg" alt="" width="448" height="292" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Recordar <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/10/john/">John Lennon na data em que teria completado setenta anos</a> e, inevitavelmente, os seus e meus Beatles, levou-me a revisitar as suas músicas, nas quais por diversas vezes me perdi, em puro desfrute, esquecida do <em>major</em> <em>purpose</em> que me orientava. Vi-me em sérios apuros para referir apenas algumas, entre tantas e tão significativas canções… ou ficar-me-ia o post com uma extensão quilométrica. Mas o pior de tudo foi mesmo ter de escolher uma só para rematar. Vai daí, tive uma ideia.</p>
<p style="text-align: justify;">A <a href="http://www.radarlisboa.fm/">Radar</a>, extraordinária estação de rádio de que o <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/03/os-dias-da-radio/">Diogo aqui nos falou</a> e da qual há vários meses sou ouvinte fiel e feliz, tem uma rubrica muito divertida – a “roleta russa” -, na qual um convidado (músico), é submetido ao longo da semana, a uma questão por dia, cuja resposta implica a escolha de uma música, que toca logo depois. As questões, apresentadas como “de vida ou de morte”, variam numa lista de cerca de dez. Muitas delas são desconcertantes — qual a música ideal para curar uma ressaca, perder a virgindade de forma pacífica, sair à noite numa sexta-feira e acabar na cadeia ou aquela que o deixa roído de inveja por não ter sido composta por si? Outras são mais convencionais — qual a versão que é melhor que a canção original, a canção mais rock and roll do universo? E — agora sim, estou a chegar onde queria — <strong><span style="color: #d62841;">qual é, para si, a melhor canção dos Beatles?</span></strong> Ouço muitas vezes e, confesso, gosto mesmo quando sai esta.</p>
<p style="text-align: justify;">E foi justamente dessa roleta russa, desta específica bala, que me lembrei, no rescaldo de tanta Beatle <em>revival</em>. Por isso, <strong><span style="color: #d62841;">cá estou eu mais uma vez a propor um desafio</span></strong> — a todos os mortos deste cemitério, a todos os <em>living dead</em> que por aqui vagueiam ou que tomaram já lugar cativo, junto de certas campas ou debaixo das nossos frondosos posts.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="color: #d62841;">Que nos digam qual é, para cada um, a melhor canção dos Beatles. Interpretada por eles, ou não. E porquê, claro.       </span></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Eu começo. Gosto de quase todas. Das primeiras, só na aparência simples e pouco construídas, as letras quase inocentes, pontuadas por muitos <em>yeah, yeah, yeahs</em>. Da fase dita psicadélica, com as extraordinárias – e largamente <em>LSD-fueled</em> – lyrics e os exóticos instrumentos orientais. E também da fase final, em que a excelência das canções, algumas das melhores criadas pelos FabFour, não deixa adivinhar as tensões entre os membros do grupo, prestes a desagregar-se, que marcavam as respectivas sessões de estúdio. Difícil, pois, decidir-me por uma, só uma. Mas tem de ser.</p>
<p style="text-align: justify;">Eis então a minha escolha. Porque a música é belíssima e porque a letra é uma maravilha de amizade, solidariedade, delicadeza, coragem, optimismo e alegria, mesmo — ou sobretudo - diante da adversidade. </p>
<p>
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="483" height="388" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/BDbHBuqJsTs?fs=1&amp;hl=pt_PT" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="483" height="388" src="http://www.youtube.com/v/BDbHBuqJsTs?fs=1&amp;hl=pt_PT" allowfullscreen="true"></embed></object>
</p>
<p style="text-align: center;"><em><strong><span style="color: #d62841;">HEY JUDE</span></strong></em></p>
<p style="text-align: center;"><em><strong><span style="color: #d62841;">Hey Jude don’t make it bad<br />
Take a sad song and make it better<br />
Remember to let her into your heart<br />
Then you can start to make it better<br />
Hey Jude don’t be afraid<br />
You were made to go out and get her<br />
The minute you let her under your skin<br />
Then you begin to make it better<br />
And any time you feel the pain, Hey Jude, refrain<br />
Don’t carry the world upon your shoulders<br />
For well you know that it’s a fool who plays it cool<br />
By making his world a little colder<br />
Hey Jude don’t let me down<br />
You have found her now go and get her<br />
Remember to let her into your heart<br />
Then you can start to make it better<br />
So let it out and let it in<br />
Hey Jude begin<br />
You’re waiting for someone to perform with<br />
And don’t you know that it’s just you<br />
Hey Jude you’ll do<br />
The movement you need is on your shoulder<br />
Hey Jude don’t make it bad<br />
Take a sad song and make it better<br />
Remember to let her under your skin<br />
Then you’ll begin to make it better <br />
Better, better, better, better, better, Yeah,Yeah,Yeah</span></strong></em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>John</title>
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		<pubDate>Fri, 08 Oct 2010 23:05:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Nobody controls me. I’m uncontrollable. The only one who controls me is me, and that’s just barely possible. John Lennon, The Playboy Interview, Setembro de 1980 John and Paul and George and Ringo. Just like that. The Beatles. Nasci com o Sargent Pepper’s e cresci a ouvi-los. Começou por ser a música dos meus pais, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-20082" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/10/john/john-lennon/"><img class="aligncenter size-full wp-image-20082" title="JOHN LENNON" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/JOHN-LENNON.jpg" alt="" width="350" height="430" /></a></p>
<h3 style="text-align: center;"><em>Nobody controls me. I’m uncontrollable. </em></h3>
<h3 style="text-align: center;"><em>The only one who controls me is me, and that’s just barely possible.</em></h3>
<h6 style="text-align: right;"><em>John Lennon, The Playboy Interview, Setembro de 1980</em></h6>
<p style="text-align: justify;">John and Paul and George and Ringo. <em>Just like that</em>. The Beatles. Nasci com o Sargent Pepper’s e cresci a ouvi-los. Começou por ser a música dos meus pais, até que me apossei dela e a fiz minha. Até hoje. Era dos Beatles o único poster que alguma vez pendurei no meu quarto — uma preciosidade dos <em>early sixties</em>, <em>on</em> <em>temporary loan</em> da minha mãe, a quem fora oferecido em Londres por um grupo de fãs, condoídos do desgosto dela e dos irmãos, que a intransigência do meu avô (que deplorava o quarteto de “cabeludos”) forçara a sair da fila  onde estavam prestes a conseguir comprar bilhetes para um concerto <em>deles</em>. Conheço todas as suas músicas, grande parte de cor — o que não espanta, ao cabo de mais de quatro décadas a ouvi-las em <em>repeat</em>… Having <em>let them into my heart*</em>, são muitas delas que ainda agora me ocorrem e que, tantas vezes dou por mim a trautear, para dentro ou a alta voz, consoante o caso, claro. O sábio <em>don’t carry the world upon your shoulders*</em>, que prego a familiares e amigos mas que ando ainda a aprender como se faz. O demolidor <em>how could she do this to me, how could she treat us so thoughtlessly*</em>, com que procuro evitar o tentador <em>self-centered approach</em> aos dramas que marcam o quotidiano de uma casa com duas adolescentes, tipicamente agravadas com o mundo em geral, as amigas, os professores, a mãe, a criatura insuportável (leia-se irmã mais nova) e uma com a outra. O <em>it’s been a hard days night and I’ve been working like a dog*</em>, que me ocorre amiúde. O <em>so happy together*</em> e o <em>will you still need me when I’m sixty four*</em>, diante de felizmente tantos amores felizes que me rodeiam. Ou o <em>we all want to change the world</em>*, em face de certos iluminados, tão impetuosos quanto insensatos … </p>
<p style="text-align: justify;">Sempre fui mais <em>team </em>Paul, confesso. Foi sempre ele o meu preferido — o certinho, solar, <em>hard-working</em>  e, claro, canhoto, Paul. Deliciosamente irónico em <em>Michelle (ma belle)</em>, <em>When I’m sixty four</em> ou <em>Lovely Rita</em>. Irresistivelmente optimista no fabuloso <em>Hey Jude</em>. Também gostava muito da serenidade e da sensibilidade de George — o belíssimo <em>Something</em>, que compôs, escreveu e cantou, permanece – digo eu — imbatível na categoria <em>any-woman’s-heart-melting-music</em>.  </p>
<p style="text-align: justify;"><em>And then there was</em> John. Intenso, complexo, carismático, desconcertante, controverso, contraditório, incompreensível. Nas suas letras, criativas e geniais – como<em> Lucy in the Sky with Diamonds</em>, <em>Come Together</em>, <em>I am the Walrus</em>, <em>to mention just a few</em>. Nas suas tiradas — como a do <em>we are now more famous than Jesus Christ</em>, que desatou, na altura, uma bela polémica, magistralmente rematada pelo próprio com o delicioso “<em>I wasn’t saying whatever they’re saying I was saying (…)</em><em> but if you want me to apologise, if that will make you happy, then OK, I’m sorry</em>”. Na sua absorvente e, até ao fim, controversa relação com Yoko Ono, nos seus <em>bed-ins for peace</em>, nas suas provocatórias imagens e fortemente <em>engaged</em> intervenções públicas, que o imortalizaram como ícone pacifista, mas lhe trouxeram alguns dissabores com a administração Nixon, que tentou em vão deportá-lo dos USA.</p>
<p style="text-align: justify;">John intrigava-me e fascinava-me. Mais que tudo pelas fragilidade e pela imperfeição, que a sua voz tão bem reflecte nos sublimes <em>A Day in the Life, Lucy in the Sky with Diamonds, I Want You, Strawberry Fields Forever</em>, e que o tornavam único. A sua morte, brutal e incompreensível, escassos dias depois de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_S%C3%A1_Carneiro">outra, igualmente brutal e incompreensível</a>, marcou-me para sempre. Tinha treze anos e senti que parte no meu universo se desmoronava. Aquele negro Dezembro de 1980 confirmou-me da pior maneira a suspeita, que por mais de uma vez me assaltara já: de que este mundo nem sempre é um lugar bom para se viver.</p>
<p style="text-align: justify;">Impressionam, ainda hoje, as entrevistas que deu à <a href="http://www.john-lennon.com/playboyinterviewwithjohnlennonandyokoono.htm">Playboy </a>e à <a href="http://www.john-lennon.com/1980rollingstoneinterview.htm">Rolling Stone</a>, em 1980 (esta última, três dias antes da sua morte). Preparava e antecipava um regresso em grande. Após cinco anos de retiro — como <em>househusband</em> de Yoko e pai a tempo inteiro de Sean, explica. Uma opção que procura justificar como de liberdade — após anos e anos de compromissos com espectáculos e tournées, de pressões para compor e gravar-, mas a qual, percebe-se claramente, o deixou saturado e frustrado. Daí o azedume com que se refere aos seus ex-companheiros Paul, George e Ringo e às respectivas carreiras a solo. John está contente, animado, desejoso de <em>get back to where he once belonged*</em>. A sua morte, é sabido, fez disparar as vendas de <em>Double Fantasy</em>, tornou<em> Imagine, Woman </em>e<em> (Just Like) Starting Over</em> eternos <em>overnight</em> e aumentou de forma exponencial a aura de mito que tinha já em vida.  </p>
<p style="text-align: justify;">Penso às vezes no que se teria seguido, se não fosse o acto cruel e imperdoável daquele que aqui não merece sequer menção. Como John nos teria supreendido, chocado, quem sabe desiludido, decerto tocado. E tenho pena, muita pena. Porque aos quarenta anos John tinha ainda muito para viver. E uma desmedida vontade de o fazer.</p>
<p><strong>Faria hoje setenta anos. 70.</strong></p>
<p>
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</p>
<address><em>* Pertencentes, evidente (para alguns) e respectivamente, a Hey Jude, She’s Leaving Home, Hard Day’s Night, Me and You, When I’m Sixty-Four, Revolution e Get Back.</em></address>
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		<title>Happy ever after</title>
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		<pubDate>Sat, 02 Oct 2010 20:24:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Vasconcelos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Eu, como este post, cheguei ao extraordinário cemitério já depois de 1 de Outubro. Entrei e espreitei, com alguma curiosidade e grandes reticências. Almoçara com um dos mortos que cá jaziam e que dele me falara com enorme entusiasmo. O que ouvi deixou-me gelada e convicta de que o pobre só podia ter ensandecido: mortos, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_19868" class="wp-caption aligncenter" style="width: 410px"><a rel="attachment wp-att-19868" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/10/happy-ever-after/bellatrix/"><img class="size-full wp-image-19868" title="Bellatrix" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/Bellatrix.jpg" alt="" width="400" height="464" /></a><p class="wp-caption-text">JV, Outubro a Dezembro de 2009</p></div>
<p style="text-align: justify;">Eu, como este post, cheguei ao extraordinário cemitério já depois de 1 de Outubro. Entrei e espreitei, com alguma curiosidade e grandes reticências. Almoçara com um dos mortos que cá jaziam e que dele me falara com enorme entusiasmo. O que ouvi deixou-me gelada e convicta de que o pobre só podia ter ensandecido: mortos, cemitérios, celebrações … <em>not exactly my cup of tea</em>. Não foi, confesso, tão mau quanto esperava: gostei do vermelho <em>all over</em> e do espantoso<em> lay-out</em>, diverti-me a espreitar as fotos e os perfis, de alguns conhecidos e de tantos desconhecidos. Passei os olhos pelos posts — cinema, literatura, música, religião, arte e alguma bola, numa competentíssima mistura de referências passadas e contemporâneas. Tudo requintadamente belo e elaborado e, sobretudo, <em>muito à frente</em>. Imersa, por essa altura, num desmedidamente árduo e árido labor académico, não demorei a concluir que <em>I didn’t belong there</em>. Regressei ao meu covil, para mais umas notas de rodapé.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos dias seguintes, dei por mim várias vezes a vaguear pelo cemitério – e não a consultar o e-mail ou o Diário da República, como era suposto. Comecei a achar graça. Muita mesmo. O referido morto, entretanto, instava-me a comentar. Sob pseudónimo, se preferisse — como umas tais Turmalina e Orcama*, que por lá andavam. Pareceram-me tentadoras, ambas as ideias. Por isso resisti-lhes. Por duas semanas lutei. Não contra a timidez, que sempre achei que dá o maior charme aos que a possuem. Contra <em>moi</em>. Porque, conhecendo-me, sabia da imensa probabilidade de me vir a desgraçar: bastava que me dessem alguma corda… Entrei em plena noite de <a href="http://www.etudogentemorta.com/2009/10/halloween-ha-so-um/">Haloween</a>, em versão bruxa má. E perdi-me para sempre.</p>
<p style="text-align: justify;">Fui acolhida com naturalidade e muita simpatia. O cemitério passou a fazer parte dos meus dias, todos tão iguais. A necessária <em>isolation</em> deixou de me pesar tanto. De significar, como cantam os U2, <em>desolation</em>. Trabalhava com afinco para, nos intervalos, ir espreitar os posts, os comentários, as respostas. Gozava com a antecipação do que lá iria encontrar, com a lembrança do que lá lera, vira e ouvira. E  havia a parte da animada e às vezes bem tumultuosa interacção com certos mortos e comentadores…  </p>
<p style="text-align: justify;">No Natal recebi o <a href="http://www.etudogentemorta.com/2009/12/welcome-joana-vasconcelos/">melhor dos presentes</a>, aquele com o qual não me atrevera sequer a sonhar. Entrei de cabeça e coração no mundo destes fantásticos mortos. Um mundo intenso e estimulante, onde nunca se está só, onde tudo é real, apesar de virtual — da cordialidade dos que nos visitam e são já da casa (melhor dizendo, da tumba), aos estreitos laços de admiração e afecto que nos ligam. </p>
<p style="text-align: justify;">Devo a este blog uma boa parte dos muitos momentos divertidos, emocionados, surpreendentes e estimulantes que vivi ao longo do último ano. Aprendi muito — do <em>Tonnerre de Brest</em> à psicadélica beleza dos malvados <em>streptococus</em>, dos quadros esfaqueados de Fontana aos mais recentes <em>trends</em> musicais. Deliciei-me com a beleza, a profundidade, a intensidade e o humor de tantos textos, com os estilos tão marcadamente distintos de cada um. Revivi o imenso prazer de escrever que, só então me apercebi, desde o fim da adolescência raramente me concedia. Deslumbrei-me com a constatação do muito que podem ter em comum pessoas com tão diversas histórias e percursos, formações e convicções, gostos e temperamentos. Espantei-me com o que descobri ao contemplar tantas coisas e assuntos com outro olhar que não o meu. Passo mais tempo calada**, de olhos pregados no <em>écran</em> do portátil e dedos a trepidar no teclado, às vezes durmo menos do que devia. Sinto-me afortunada, desperta e preenchida. E, claro, feliz.  </p>
<p style="text-align: justify;"><em>* Sorry Prezado Padrinho, mas a verdade é que demorei algum tempo, não muito, a perceber …</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>** Escrever não conta como falar, certo?</em></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
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