Madalena

JV, MADALENA, Páscoa 2009

É alegre e optimista, corajosa e persistente, generosa e sensata. Gosta de ler e de tocar guitarra, de escrever e de desenhar. Devora quantidades desmedidas de chocolate e de arroz e detesta bananas. Tem a secretária e o quarto sempre arrumados. É uma barra nas notas e imbatível a nadar costas. Cuida de toda a gente – de mim, quando me sente cansada ou triste, das irmãs, a quem livra dos mais delirantes enredos, dos atrapalhados colegas nas vésperas dos testes, dos idosos do lar que visita às terças e a quem leva maçãs, bolachas, marmelada e tudo o mais que lhe ocorre furtar da despensa cá de casa.               

Quer ser médica e salvar vidas. Diz que vai para África. Também quer ser escritora e ter três filhas. E não duvida que um dia vai avistar uma baleia azul a nadar em pleno oceano.   

Às vezes zanga-se. Comigo, porque não a compreendo. Com as irmãs, porque abusam indecentemente dela. Com o cabelo, com as borbulhas, com as amigas e com o mundo em geral, porque sim. Então resmunga e brada aos céus, profere negras ameaças e fecha-se no quarto, a remoer. Disfarço como posso uma imensa vontade de rir e suspiro de alívio: afinal ela é normal. 

Nasceu faz hoje 15 anos. E mudou a minha vida para sempre.

Bread and Roses

As we come marching, marching in the beauty of the day,

A million darkened kitchens, a thousand mill lofts gray,

Are touched with all the radiance that a sudden sun discloses,

For the people hear us singing: “Bread and roses! Bread and roses!”

As we come marching, marching, we battle too for men,

For they are women’s children, and we mother them again.

Our lives shall not be sweated from birth until life closes;

Hearts starve as well as bodies; give us bread, but give us roses!

As we come marching, marching, unnumbered women dead

Go crying through our singing their ancient cry for bread.

Small art and love and beauty their drudging spirits knew.

Yes, it is bread we fight for — but we fight for roses, too!

As we come marching, marching, we bring the greater days.

The rising of the women means the rising of the race.

No more the drudge and idler — ten that toil where one reposes,

But a sharing of life’s glories: Bread and roses! Bread and roses!

James Oppenheim, 1911

 

Bread and Roses. Melhores salários e condições mais dignas de trabalho e de vida (redução da jornada diária e protecção na maternidade). Era o que exigiam estas mulheres, operárias têxteis. Na manifestação de 8 de Março de 1857, em Nova Iorque, que juntou 15.000. Na Lawrence Strike, que durou entre Janeiro e Março de 1912, no Massachussetts, e que envolveu cerca de 20.000 trabalhadores, na sua maioria mulheres imigrantes.

O Dia Internacional da Mulher foi instituído em 1910, na II Conferência Internacional de Mulheres Trabalhadoras, em Copenhaga. Há 100 anos. Surgiu como jornada de sensibilização e reflexão, de pressão e luta. Rapidamente evoluiu do plano estritamente laboral para o da igualdade e dignidade da mulher em todos os aspectos da vida. E é assim que deve ser e se deve manter. Não na versão delicodoce e quase sãovalentinizada do “feliz dia da mulher!”, bem-intencionada, eu sei, mas que me leva ao desespero…    

Porque, nesta nossa parte do mundo, por todo esse mundo fora, o pão dos salários, do poder, das responsabilidades familiares, das tarefas da vida corrente não é ainda partilhado de forma justa e solidária. Porque a vida das mulheres e meninas, vítimas de discriminação, violência, exploração, sujeição e depreciação sob as mais diversas, brutais e inaceitáveis formas está longe, muito longe de ser um mar de rosas.      

 

Uma Questão de Princípios

Foi uma óptima ideia do MSF. Que o JNA já tivera e há muito acalentava, mas in pectore. Extraordinários começos de belos livros. Gostei muito dos textos e dos inícios que escolheram. Apesar de um e outro terem incluído dois dos meus absolutamente preferidos — Pride and Prejudice (Jane Austen) e Rebecca (Daphne du Maurier).

Que fique, pois, bem claro que os começos que se seguem acrescem a estes dois, que estão muito bem onde estão, mas que é como se estivessem também aqui.

A story has no beginning or end: arbitrarily one chooses that moment of experience from which to look back or from which to look ahead (The End of the Affair, Graham Greene). Gosto muito deste surpreendente começo, e muitíssimo do que se lhe segue. One of my favorite books, ever.  

Mrs. Dalloway said she would buy the flowers herself (Mrs Dalloway, Virginia Woolf). Excelente a tranquila simplicidade deste princípio, que de modo algum nos prepara para a fabulosa intensidade do que vem depois.

No era el hombre más honesto ni el más piadoso, pero era un hombre valiente (El Capitán Alatriste, Arturo Pérez-Reverte). É assim, na voz do fiel, sensato e também valente Iñigo de Balboa, seu escudeiro, que começa a primeira das fantásticas histórias do capitão Alatriste. Foi aqui também que começou o meu encanto com as mesmas, que ainda hoje se mantém.   

Naquele lugar a guerra tinha morto a estrada (Terra Sonâmbula, Mia Couto). Gosto dos começos do Mia Couto. Porque me tocam profundamente, como este, ou porque me apanham de surpresa. Difícil, sempre, é parar.

The first Wednesday in any month was a Perfectly Awful Day – a day to be awaited with dread, endured with courage and forgotten with haste (Daddy-Long Legs, Judy Webster). É o delicioso início de um delicioso livro que me acompanha desde os treze ou catorze anos. Não o empresto: comprei um para as minhas filhas. Não é esta a única parte que fixei. Mas é certamente a que mais utilizo. Quantas vezes, de véspera, antes de adormecer, ou no próprio dia, quando toca o maldito despertador, me ocorre que, pelos mais variados motivos, lá vem um Perfectly Awful Day. E posso garantir que me basta lembrar este trecho e recitar mentalmente a receita da extraordinária Judy para a coisa parecer logo menos negra…        

Meu avô foi o padre Rufino da Conceição, licenciado em Teologia, autor de uma devota «Vida de Santa Filomena» e prior da Amendoeirinha. Meu pai, afilhado de Nossa Senhora da Assunção, chamava-se Rufino da Assunção Raposo – e vivia em Évora com minha avó, Filomena Raposo, por alcunha «a Repolhuda», doceira na Rua do Lagar dos Dízimos” (A Relíquia,  Eça de Queiroz). Não é o meu Eça preferido, mas é absolutamente irresistível. Logo desde este princípio.   

Termino com o belíssimo começo de uma das mais adoráveis histórias para crianças que conheço. Certamente a que mais vezes li às minhas filhas. E das primeiras que elas quiseram ler, sozinhas. Sei-a quase de cor:

Era uma vez uma casa branca nas dunas, voltada para o mar. Tinha uma porta, sete janelas e  uma varanda de madeira pintada de verde. Em roda da casa havia um jardim de areia onde cresciam lírios brancos e uma planta que dava flores brancas, amarelas e roxas (A Menina do Mar, Sophia de Mello Breyner Andresen).

Sempre achei, ainda hoje acho, que um dia vou ter uma casa assim. Tal e qual. Só as flores é que em vez de amarelas e roxas serão vermelhas. E talvez também cor-de-rosa. 

Todos Manueis

Este blog descambou. Outra vez. Regressaram os raios X. De todos os lados surgem mulheres em roupa interior. Por enquanto, temo bem. Hoje, só hoje, dois posts exibem the F— Word  (um deles com florzinhas e bolinhas, eu sei, mas que lá está, lá está)!

A culpa, já se sabe, é dos do costume — Pedro Norton, Vasco, Pedro Marta Santos.  Mas, valha-nos Deus, desta vez temos uma estreia – o Diogo! Com estes lindos exemplos, tremo só de pensar no que estará o Francisco a preparar lá em Boston. E admito como altamente provável que o Gonçalo, o José Navarro, o Ruy e o próprio Manuel se deixem perniciosamente influenciar.  

Isto não se aguenta. Não pode ser. É preciso repreender esta rapaziada. Ralhar-lhes. Chamá-los à razão. Ríspida e severamente.

Ora, para isso, nada melhor do que a utilização conjunta do primeiro e do segundo nomes próprios. Todos nós, os que fomos baptizados ao quadrado, poderemos narrar a amarga e reiterada experiência de, sempre que a coisa dava para o torto, em casa e na escola, levar com aquele sibilino binómio, que invariavelmente prenunciava sarilhos…

E é aqui que começa o problema. Tirando o Vasco que, para este efeito, é também Luís, e Manuel, que tem o  adequado Sucedâneo que é o S, todos os demais rapazes deste blog, tanto quanto consegui apurar, não têm segundo nome. O que cria um tremendo problema prático, para além de gerar uma iníqua desigualdade entre estes últimos que – julgam eles – estão safos e os outros dois, coitados, se situam na primeira linha do raspanete.  

Para grandes males, grandes remédios. Sendo o problema colectivo, também a solução o será. Por isso, e ante a excepcional gravidade da situação que se vive neste blog decidi que (e estou certa de que a Eugénia e a Teresa me apoiarão):  

1 –Todos os rapazes deste blog (excepto o Vasco e o Manuel) passem, a partir da publicação deste post, a ter como segundo nome Manuel, designadamente para o efeito de serem admoestados.

2 – Caso algum dos visados, tenha segundo nome de que possa fazer prova adequada e pretenda utilizá-lo, pode apresentar requerimento nesse sentido, junto deste post, o qual será apreciado e decidido pela Eugénia, pela Teresa ou por mim.

3 — Fora do caso previsto em 2, não será admitido qualquer outro segundo nome.

Posto isto, direi apenas

PEDRO MANUEL, VASCO LUÍS, PEDRO MANUEL, DIOGO MANUEL …

ISTO FAZ-SE? ACHAM BEM? SEUS MAUS!!! 

Há que reconhecer, faz logo toda a diferença …

Omnia Definitio Periculosa Est

A Bellatrix retrata o meu darkest side. Nos meus piores momentos gostava mesmo de ser assim. Má, má, má. Desmedida e destemperada. E muitíssimo eficaz. De desaparecer e reaparecer, numa súbita e aterradora ventania negra. De aplicar, com imbatível mestria, as três unforgivable curses — a verde e letal avada kedavra, a dolorosa crucius, a dominadora imperium. Sem hesitação, compaixão ou remorso. Just like that.

Já o meu bright side é bem mais difícil. De descrever, de sintetizar e, pior ainda, de reduzir a um único personagem.    

Poderia dizer, respondendo directamente à desafiadora Eugénia, que quando sou “boa menina” ando perto da Hermione. Bruxa ainda. Mas aplicada e persistente, ambiciosa e combativa, leal e dedicada. Sempre de dedo no ar nas aulas. Com resposta pronta e solução para todos os problemas.

Mas a verdade é que faltaria qualquer coisa. Talvez o meu lado John Keating. Que me faz acreditar que a vida é para ser vivida em pleno. Que isso que depende muito de nós. E que educar e formar é sobretudo alargar mentes e horizontes. É esta minha faceta que me faz tentar tornar estimulante, agradável e divertido tudo o que é maçador, pesado e desinteressante. Com alegria, imaginação e originalidade q.b. Os meus métodos podem até variar, mas o lema é o mesmo do Oh Captain, my Captain: “Carpe Diem! Seize the Day! Make your lives extraordinary!”.

Melhor, mas ainda incompleto. O que seria um grande problema — para mim, que muito gostaria que alguém lesse este meu post até ao fim, para todos os demais, que desesperariam ante este meu endless and boring side… Não fora esta música, que preety much sums up aquele que é seguramente um dos traços marcantes do meu sunny side … always the same, never the same!        

E agora que já falei muitíssimo de mim,

Passo a Outro e Não ao Mesmo

VASCO!!!

Queremos saber TUTTO!

Sobre o teu LATO BELLISSIMO e sobre o teu LATO OSCURO e PAUROSO

Boomerang

Fantástica, mais esta ideia da Eugénia. Que cada um, à vez, revele o seu dark side. E também o seu bright side. Não é opção, acaba de esclarecer, é dose dupla!

Este estimulante desafio tem um único defeito. Obriga a esperar. Que a Teresa, a primeira visada, descubra e revele os seus lados sombrio e solar. Que passe ao outro e este ao outro e nunca ao mesmo. E por aí fora. Sucede que a rapaziada está assoberbada com trabalhos pesados – ele é pecados, ele é virtudes, ele é episódios do folhetim, ele é queridos mortos… Isto vai demorar e não é pouco!

Ora, o meu lado Bellatrix torna-me, entre outras coisas que não vêm ao caso, muito, muito curiosa. E horrivelmente impaciente. Detesto esperar. Adiar, só as coisas más, de preferência todas.

Por isso, e sem pôr minimamente em causa as regras definidas pela criativa Eugénia, decidi fazer-lhes um pequeno aditamento. Boomerang, de seu nome. Trata-se de uma única regra. Que diz que, em casos excepcionais, pode aquela de nós que tenha já revelado o seu dark side decidir unilateralmente derrogar o princípio do “não ao mesmo”, num espectacular efeito boomerang.

Por tudo o que antecede, e na minha negra veste de Bellatrix, determino que a nossa Eugénia nos revele, quanto antes, os seus mais sinistro e luminoso lados. Eugénia, queremos saber quem é a sua menina má e quem é a sua menina bonita! Já! 

Dies Irae

Ausenta-se uma alma por umas horas deste cemitério por motivos ponderosos e, no regresso, já tarde, depara-se com um massacre. Uma verdadeira carnificina, perpetrada pelo Sinistro Manuel Serpente Fonseca, acolitado pelo não menos Sinuoso Orcama. Contra a frágil e indefesa Eugénia. Numa hedionda desproporção de forças. O motivo, evidentemente fútil: a incompreensão ante mais um sábio e providencial Inventário (dos melhores até hoje publicados, Eugénia, sobretudo pelo notável e em absoluto  irrefutável enquadramento teórico). A envolver reincidência. O nível, de faca e alguidar, to say the least: facas, navalhas, gillettes e todo o tipo de instrumentos cortantes. Um horror de crueldade.

Isto não pode ficar assim. Não vai ficar assim.

Eugénia, estou de volta. Conte comigo. Manuel e Orcama, preparem-se para ser merecida e adequadamente castigados. Por esta e por todas as outras. A vossa penitência vai começar e é já hoje. Apresentem-se junto deste post, mais  lá para o serão. Qualquer outro também serve. É o melhor que podem fazer — não porque a comparência voluntária sirva de atenuante, que não merecem, mas porque não vos resta outra saída. 

Agora vou trabalhar. Até mais logo.

É melhor dois do que um só

 

Marc Chagall, Lovers in the lilacs

 

É melhor dois do que um só: tirarão melhor proveito do seu esforço.

Se caírem, um ergue o seu companheiro.

Mas ai do solitário que cai: não tem outro para o levantar!

E se dormirem dois juntos, dormem quentes;

mas se alguém está só, como se há-de aquecer?

Se um só é oprimido, dois já conseguem resistir a isso;

o cordel dobrado em três não se parte facilmente.

Eclesiastes, 4, 9–12 

Orgulho

Pablo Picasso, Blue Nude

O orgulho é o meu pecado. O mais profundamente enraizado em mim. O que tem tudo a ver com aquilo que me define. Para o bem e para o mal.

O orgulho nasce da consciência que temos das nossas capacidades e do nosso valor. Do que gostamos de nós e do que confiamos nos nossos talentos. Tem um lado luminoso, de força, confiança e determinação que muito me agrada. E um lado escuro, de vaidade, arrogância e dureza de coração que, levado ao extremo, faz dele o primeiro e o pior dos pecados, fonte de todos os demais, dizem os teólogos. Porque envolve a exagerada valorização de si próprio e a recusa e o rebaixamento do outro. É o pecado de Lúcifer e de Eva, que desafiaram o próprio Deus. E é um pecado especialmente insidioso, por ser porventura aquele em que é mais ténue a linha que separa o que é aceitável e legítimo do que é reprovável e inadmissível.

É o orgulho que me faz manter a dignidade e a compostura diante da adversidade. Não me render, por mais desigual que seja a luta. Atingir tudo aquilo que me proponho, porque sei que sou capaz. Fazer sempre o melhor que posso e que sei. E saborear o merecido e incomparavelmente sweet taste of victory or success, conforme o caso.

O lado mais sombrio do meu orgulho chama-se auto-suficiência. E consiste na convicção de que resolvo sozinha os meus problemas, que consigo fazer tudo só por mim, que aguento, resisto e “cá me arranjo”. Sem ajuda. E sem que se saiba. Comigo, oficialmente, tudo está sempre bem: raros são os que alguma vez me não viram alegre, bem disposta, solar.  

Ora, isto é mau. Muito mau mesmo.

Porque é uma forma suprema de falta de humildade. Pedir ajuda é revelar fraquezas e insuficiências. É mostrar-nos tal como somos, mas não gostamos que nos vejam. Torna-nos iguais àquelas pessoas pesadas que se lamuriam e queixam o tempo todo. Para as quais não há paciência. Aceitar ajuda coloca-nos nas mãos do outro. E isso torna-nos vulneráveis e dependentes. E obriga-nos a confiar e a acreditar que tudo correrá bem, apesar de feito à maneira dele e não à nossa.  

E porque é também de uma enorme injustiça para com aqueles que gostam de nós. Família, amigos, colegas, vizinhos. Que mantemos à distância, fora do reduto mais íntimo do que nos preocupa e nos magoa. Que não deixamos que façam verdadeiramente parte da nossa vida. E que, pior, muito pior, chegamos a  recriminar por situações que só nós criamos, acusando-os de não perceber, adivinhar ou intuir aquilo que tanto afinal nos esforçamos por deles ocultar.  

Vencer a tentação da auto-suficiência torna-nos mais verdadeiros e reais, aos olhos do mundo e aos nossos próprios olhos. Permite-nos desfrutar melhor a vida, porque a solidariedade do outro torna mais leve o fardo que nos esmaga. E abre-nos à gratidão, um dos sentimentos que mais prezo e valorizo.    

Requer humildade, simplicidade e entrega. E por isso é tão difícil.   

Mas é um esforço que vale a pena. Porque nada doi mais do que sofrer só. Orgulhosamente só.

Pepitas de Ouro


Um amigo fiel é uma poderosa protecção; quem o encontrou, descobriu um tesouro.

Nada se pode comparar a um amigo fiel, e nada se iguala ao seu valor.

(Ben Sira, 6, 14–15)

Sempre me fascinou a actividade dos garimpeiros. Metidos na água, a peneirar areia, terra e lama, em busca de pepitas de ouro e de pedras preciosas.

Talvez por isso o garimpo me pareça uma excelente imagem do que sucede na nossa vida, naquelas fases menos boas ou realmente más que, mais tarde ou mais cedo, acontecem. Pouco importa a causa — uma doença grave, um divórcio, a perda do emprego, negócios que correm mal, insucessos, azares e desgraças de todo o tipo. Perde-se sempre. Às vezes muito. Laços que sentíamos indestrutíveis, projectos e planos que pareciam certos e seguros. E, pior que tudo, uma certa inocência, ao descobrir certas facetas de alguns (felizmente raros) daqueles com quem julgávamos contar (familiares, amigos, colegas, vizinhos) e que preferiríamos nunca ter visto. É assim, é verdade e não há como negá-lo.

Mas há também o outro lado. O bom. Do que fica nas nossas peneiras quando a água dos maus momentos nelas passa. Porque sempre fica qualquer coisa, mesmo quando tudo parece ter ido rio abaixo. As pepitas de ouro, as pedras preciosas que são a nossa família e os nossos amigos. Aqueles que sabíamos que nunca, nunca nos falhariam, fortes, dedicados e leais. E os outros, os que nos surpreendem e nos comovem, pela sua solidariedade e generosidade e, não raro, coragem. A revelar uma sua tocante bondade, mas também o quanto para eles importávamos, sem que porventura disso tivéssemos a noção.

É certo que é menos, muito menos do que aquilo que se tinha antes da tormenta. Será. Mas é tudo verdadeiro e é tudo infinitamente valioso. Como as pepitas de ouro e as pedras preciosas dos garimpeiros. E o resto? O resto é areia e lama. Não interessa e não faz falta.  

O que eu gostaria de …

São desejos impossíveis porque são inalcançáveis. Ou porque não dependem só da minha vontade e esforço.

Mas o que eu gostaria de …  

- Ter tempo para tudo o que devo, gosto e quero fazer. E também para descansar.   

- Poder, como a Mary Poppins, e com um simples estalar de dedos, empilhar livros desmoronados, ordenar papéis, encontrar uns e outros no meio do caos, tirar fotocópias, escrever os sumários das aulas, dobrar e arrumar roupas e brinquedos, fazer a louça entrar e sair da máquina, pôr e levantar a mesa e tantas, tantas outras coisas que me maçam e me cansam.

- Viajar no tempo, para quando e para onde eu quisesse (e de volta, claro). Para ver se a Joana era mesmo Louca, se a Carlota Joaquina era tão medonha quanto a história e os pintores a fazem, porque é que seriam da rainha Njinga as pegadas de que o meu avô me falava e como é que as pedras de Stonehenge foram partidas, transportadas e colocadas ali onde estão. Só para começar.        

- Ter nas mãos a lâmpada do Aladino e o poder de realizar três desejos. Mesmo sabendo que um deles implicaria substituir-me à justiça divina, o outro à também divina providência e o terceiro a ambas.

- Viver muito e muito bem, envelhecer com graça e sabedoria como a minha avó Madalena e conhecer os filhos dos filhos das minhas filhas.

folhetim 3 — Pretérito Imperfeito

Francisco voltou-se para o intérprete. Tinha perguntas. Queria respostas. O que estava no papel era demasiado absurdo. Certamente um equívoco, fruto de tanta tradução, num e noutro sentido. Mas antes que pudesse dizer o que quer que fosse, o guru leitor começou a juntar e a empilhar as folhas de palmeira. As suas. Porque o eram, disso não tinha a menor dúvida. Cabeças baixas e vozes ainda mais baixas, o guru e o astrólogo conversavam entre si, como se ele já ali não estivesse. E o intérprete, impassível:

- You have to go, sir, no more for you here, sir

Saiu. Desconcertado. De papel na mão. E agora? A luz intensa do sol já alto, depois de horas naquela penumbra, era quase insuportável. Olhou à volta, em busca de uma sombra. Foi então que a viu.

Vinha na sua direcção. Decidida e apressada. Alta e esguia. O cabelo escuro e curto, ondulado e ligeiramente despenteado. Na mão direita, um saco enorme, castanho, cheio a abarrotar. Tal como sempre a conhecera e a recordava.

- Xavier, tens que vir comigo.

Xavier. Só ela o chamava assim. Desde aquela tarde, no bar do liceu. A propósito do seu segundo nome. Diferente, comentara alguém. Nome de santo viajante, dissera ela. Nome do meu avô, rematara ele. As meninas presentes acharam graça e começara a brincadeira do Xavier. Que se prolongara na faculdade, ante a profusão de Franciscos nas pautas. O nome pegara, nas sessões de estudo e nas saídas. Mas, depois, a vida a sério e o Francisco haviam levado a melhor. O Xavier subsistia apenas nos telefonemas e nos postais dela, que chegavam dos vários cantos do mundo. Cada vez mais espaçados. Sobretudo depois daquela noite, que ainda hoje Francisco evitava lembrar.  

- Xavier, estás bem? Tens que vir, anda tudo à tua procura

- Luísa, o que é que estás aqui a fazer?

Vacinas. E consultas de pediatria. Numa clínica próxima, ao abrigo de um programa que envolvia várias ONG, entre as quais a sua. Estava ali há quase um ano, vinda de Goa e, antes, de Puducherry. Tudo isto lhe contou Luísa, enquanto conduzia o jeep no meio do trânsito caótico. 

Antes, ainda no templo, começara por lhe explicar a razão da sua surpreendente presença.

- A tua mulher está numa aflição, há vários dias que não consegue falar contigo…

Acalmado o alarme inicial – “não, não aconteceu nada, os teus filhos estão bem” – Luísa relatou o pouco que sabia. Catarina ficara, conforme combinado, em Chennai. Estranhara a ausência de notícias de Francisco e tentara repetidamente ligar-lhe para o telemóvel. Em vão. Ao fim de dois dias, contactara a Embaixada e dera o alarme. Alguém do consulado de Goa ligara para a clínica, nessa manhã, a pedir ajuda para o localizar. Por coincidência, Luísa estava a observar uma criança, com sintomas de varicela. O avô, que a trouxera e à mãe, lembrava-se de um estrangeiro no autocarro vindo de Chidambaram, dias antes. Ia para o templo. Talvez ainda por lá estivesse. E oferecera-se para a acompanhar.    

Francisco tirara o telemóvel da mochila. Não funcionava. Lembrava-se de ter enviado um sms a Catarina quando o autocarro partira. E de o ter apanhado do chão, na confusão que se seguira ao rebentamento do pneu. A verdade é que entre o acidentado percurso até ao templo e o estranho fascínio que por lá o envolvera, havia perdido toda e qualquer noção do tempo. Quatro dias? Seria possível?

- Estou sem telemóvel. Emprestas-me o teu?

- Não adianta, esta zona não tem rede, vamos ter que ir até à clínica e ligar de lá.

Caminhavam rumo à saída do recinto quando apareceu o homem. Era o seu companheiro do autocarro. Não pareceu surpreendido ao ver Francisco. Contente, sim. Fez-lhe o seu largo e inconfundível sorriso sem dentes. E dirigiu-se a Luísa, numa língua incompreensível, gesticulando e apontando para ele. Ela traduziu:  

- Diz que o que aconteceu lá dentro é o teu karma. Ou então não era ainda a altura, tens que voltar, para saber… Mas tu, que tens o mesmo nome, lembra-te do caranguejo … 

Francisco fitou-os, estupefacto. Nada daquilo fazia sentido. O homem desdentado. À sua procura, com Luísa. A comentar o que sucedera na biblioteca. E como sabia o seu nome? E que história era essa do caranguejo?

- Caranguejo?

- É o caranguejo de São Francisco Xavier, uma lenda muito antiga, aqui por estes lados.… Basicamente significa que às vezes é preciso perder primeiro, para encontrar depois …

O homem sorria. De súbito, fez um gesto de despedida e afastou-se, em passo ágil.

O jeep ora avançava lentamente, ora parava. Francisco fechou os olhos e encostou a cabeça à janela. Sentia-se exausto e incapaz de raciocinar ou reagir. 

- Xavier, podes passar-me os meus óculos escuros? Estão aí dentro do saco, num estojo preto…

Foi ao dar-lhe os óculos para a mão direita, que Luísa estendera sem desviar o olhar da estrada, que Francisco reparou na tatuagem. Na parte inferior do antebraço, junto ao pulso. Um símbolo. Impenetrável, mas estranhamente familiar.  

Espreitou, pela janela, a imensidão de gente que caminhava ao longo da estrada. Para o templo e de regresso. Homens e mulheres, de todas as idades. E crianças, muitas. Ao colo e pela mão. Pensou na mulher do sari cor de coral e na menina. Ainda estariam lá? Ou iriam também, estrada fora, naquela multidão? A mão pequenina na mão da mãe. Num sobressalto, lembrou-se! O pano que a mulher bordava. O seu pulso, que a repetição do gesto de passar a agulha e puxar a linha deixava entrever, tatuado. O pendente ao pescoço da menina, numa fita cor de coral. O símbolo. O mesmo que marcava o pulso de Luísa…

- Cá estamos

A clínica funcionava num conjunto de pavilhões brancos pré-fabricados. Tinha a toda a volta uma vedação de canas com uma trepadeira verde. Luísa parou o jeep junto do maior. Entraram. A sala de espera, ampla e luminosa, estava cheia. Havia crianças por todo o lado. Francisco via-as, através da parede de vidro do gabinete onde Luísa o deixara. E ouvia, apesar da porta fechada, a algazarra de vozes pequeninas que riam, choravam, tagarelavam e guinchavam. Pegou no telefone e marcou o número. 

Tinha prontas várias explicações e outras tantas desculpas, para tentar travar a rajada de recriminações, não totalmente imerecidas, com que sabia bem que ia ser recebido. Mas, mais que zangada, Catarina estava preocupada. E muito assustada.  

Desde que Francisco partira para Vaitheeswaram que um homem ligava insistentemente para o hotel, à sua procura. Catarina atendera-o várias vezes. A conversa era sempre a mesma: queria falar com Francisco, era urgente, important information, delicate issue. Não se identificava, nem deixava qualquer contacto. 

Depois, ao cair da tarde do dia anterior, fora entregue um envelope na recepção do hotel. Para Francisco. Por uma mulher de sari roxo, sem mais explicações. Catarina abrira-o, claro. Lá dentro, três fotografias antigas, com inscrições manuscritas no verso. E uma carta. Também antiga. Escrita em Malange, a 1 de Fevereiro de 1965.

- Queres que ta leia?

Francisco encostou-se para trás na cadeira e fechou os olhos. Do outro lado da linha, a voz de Catarina:

“Minha querida Susana”                                        

T minus 7 … and counting

Porque 1 de Fevereiro começa logo depois da meia-noite.

Porque o texto do terceiro episódio do nosso folhetim está pronto.

Comecei há minutos o countdown.

Gostaria que fosse ao som do In the Midnight Hour, na minha versão preferida, a dos Echo & the Bunnymen. Não consegui encontrar o vídeo. Porque faltam menos de 7 horas, e porque tudo se passou, até agora, do outro lado do mundo, talvez fizesse sentido o Seven Seas. Mas eu sempre gostei mais desta. 

Quem vem e atravessa o rio, junto à serra do Pilar …

 


JV, Porto


O Francisco atingiu-me em cheio. Num dos meus pontos sensíveis. A pronúncia do Norte, que tão bem descreve, nas suas deliciosas subtilezas, e que me encanta. Porque tem, de facto, outra graça. E porque é a pronúncia dos meus mais profundos afectos – assim falavam os meus avós, assim me falam o meu pai e metade da minha família.


 Venham mais, pediu o Francisco… Pois aqui vão!


 First and above all, Porto Sentido, do Rui Veloso (1). Uma das canções da minha vida.


 O prometido é devido, do Rui Veloso (2),  por causa dos “tratados de paz e pessangas”, mas podiam ser TODAS.


 E, ainda,


 Primeiro dia, Sérgio Godinho (3)


 GNR, Bellevue (4)


GNR, Pronúncia do Norte (5), of course, mas podiam ser TODAS.


A terminar, os divertidos


Sete e Pico, do Conjunto António Mafra (6) e


Arménio, o trolha da Areosa, Rui Veloso (7).

 

 

1 — http://www.youtube.com/watch?v=AtgMCtadQOM

2 — http://www.youtube.com/watch?v=BAFAlAEhuV8

3 — http://www.youtube.com/watch?v=WY4SKahF-k0

4 - http://www.youtube.com/watch?v=wV5k3zjSifI

5 — http://www.youtube.com/watch?v=JA4KfgrYzwQ

6 — http://www.youtube.com/watch?v=EZEIWHfHwTQ

7 — http://www.youtube.com/watch?v=s7yAMQslwfo

When you’re weary, feeling small

Faz hoje 40 anos. A 26 de Janeiro de 1970 foi lançado o LP Bridge Over Troubled Water, o último de estúdio de Simon & Garfunkel — que incluía, ainda, The Boxer, Cecilia e El Condor Pasa/If I Could.  

Por essa altura, a relação entre ambos, amigos de infância, estava já muito deteriorada. E isso ter-se-á reflectido no próprio processo de gravação – o disco saiu com onze músicas, por um e outro não se terem conseguido entender quanto ao décimo segundo tema a incluir. A ruptura definitiva viria pouco depois, ainda em 1970.

Lembro-me de ser pequena e de ouvir estas músicas em casa dos meus pais. E também Mrs. Robinson, Scarborough Fair, The Sound of Silence, I am a Rock… Redescobri-as, mais tarde, com o Concert in Central Park, que  embalou várias tardes da minha adolescência. Ouço-as pouco, ultimamente. Mas ainda as sei todas de cor.

 

Non est potestas super terram quae comparetur ei


Ao ler o post do Pedro Norton sobre o Haiti e o Hobbes, lembrei-me do Leviathan. De entre os vários livros que li, nos longínquos tempos da Ciência Política, certamente um dos que mais me impressionou. E desta imagem, que sempre me fascinou – a espada numa mão, o báculo na outra. E a citação de Job, 41, 24 - Non est potestas super terram quae comparetur ei (não existe poder sobre a terra que se lhe compare).

Vi-o este ano, na biblioteca do castelo de Windsor. O major purpose da visita era, confesso, mostrar às minhas filhas a mega casa de bonecas da Queen Mary. Foi, como se esperava, um sucesso. Para mim, valeu pelo que veio logo depois. Uma primeira edição do Leviathan de Hobbes, de 1651, que lá estava exposta. Aberta nesta mesma página…

These are a few of my favorite things

Joana Vasconcelos, View from my bicycle

Ei-la, a minha lista. De 20 coisas de que gosto. Fora todas as outras, que ficaram de fora. Por serem inconfessáveis, segundo múltiplos critérios. Ou, simplesmente, porque não cabiam. 

Gosto…

Do meu nome

Das minhas mãos e dos meus braços

De fazer tranças no cabelo das minhas filhas

De piano – Beethoven, Bomtempo, Brahms, Mozart, Rachmaninov…

De figuras e de presépios de cerâmica de Estremoz

De vinho tinto

Do mar no Inverno, quando está sol e também quando o céu está carregado

De acordar cedo e de ter o dia todo pela frente

De chocolate, de bacalhau, de grelos, de ameixas e de geleia de marmelo

De nadar no mar, para longe, e de parar, de vez em quando, para olhar para trás e ver a praia e as falésias

De todos os livros da Jane Austen

De escrever à mão, a preto, cartas, cartões, agendas, livros de moradas e listas

De antas, dólmenes e cromeleques, sobretudo de cromeleques

De foguetes, feiras e farturas

De castanheiros, de cameleiras (japoneiras, diz o meu Pai) e de jacarandás

De Vermeer, Dürer, Bosch, Velazquez, Goya, Van Gogh, Giotto, Klee, Klimt, Miró, Amadeo…

Do Outono, de andar pela rua a comer castanhas e a pisar as folhas

Da minha bicicleta, sobretudo do cesto, onde levo coisas

Das aventuras do Harry Potter, do Capitão Alatriste, do Tintin e do Michel Vaillant

De vermelho

“Casai-me que bem podeis”

São Gonçalo de Amarante

Casamenteiro das velhas

Porque não casas as novas

Que mal te fizeram elas?

 

O apelo do título e o remoque da quadra têm um mesmo destinatário – Gonçalo de Amarante, beato na hagiografia oficial, santo na devoção popular, padroeiro de Amarante. A sua festa litúrgica celebra-se hoje, 10 de Janeiro, data da sua morte, em 1259.

A biografia de Gonçalo pouco diverge da de outros religiosos da época. Nascido em família fidalga, ordenado padre em Braga, foi nomeado pároco de São Paio de Riba (Vizela), onde se distinguiu no zelo apostólico e no apoio aos mais pobres. No regresso de uma longa peregrinação a Roma e à Terra Santa, viu-se privado da sua paróquia, usurpada pelo sobrinho, também padre, a quem a confiara. Dedicou-se então à pregação por terras de Entre-Douro-e-Minho, a partir de uma pequena ermida, junto ao Tâmega, onde se manteve mesmo depois de professar como dominicano. E aí levou uma vida de austeridade e de serviço aos fiéis que, em grande número, o procuravam. 

Porém, e por razões não inteiramente esclarecidas – são muitas e quase sempre extraordinárias as versões que, a este propósito, se cruzam – passou à posteridade e é celebrado como santo casamenteiro. Lado a lado com Santo António, se bem que com um âmbito de actuação mais restrito que o do santo lisboeta – a sua especialidade são as velhas. Advirta-se, contudo, que o critério que define as ditas — claramente datado — é muito mais abrangente do que se possa supor. Velha, para beneficiar da graça preferencial do simpático São Gonçalo, é qualquer mulher de idade igual ou superior a 30 anos…

É, por isso, imensa a popularidade deste santo, há séculos celebrado com uma devoção alegre e pícara, expressa em quadras mais ou menos brejeiras, rituais de origem pagã, há muito enxertados neste culto, cuja mera descrição deixa estarrecido o incauto e, claro, os explícitos doces de São Gonçalo. Manifestações de uma tradição arreigada, de riqueza e originalidade ímpares, mas que razões de elementar decência me impedem de descrever e/ou reproduzir  neste blogue de Gente sisuda e composta, pese embora Morta.*

Em todo o caso, fica o reminder. A todas as, afinal, velhas. E, porque um santo tão bondoso decerto não discrimina na sua providência, também às novas. O mesmo vale para a rapaziada (julgavam que escapavam?) de todas as idades. Porque não arriscar uma singela prece? Parece que é casamento garantido, e no prazo de um ano…

 

* Aos mais curiosos que, por essa internet fora e por sua exclusiva conta e risco, decidam aventurar-se, não digam depois que eu não avisei…

Retrato de Isabel (II) — a Solução

Gente Morta. Era esta a chave para decifrar o enigma proposto – o que rapidamente fizeram ads e Ivone Costa!

O quadro foi pintado entre 1545 e 1548 — vários anos depois da morte de Isabel, em 1539, aos 36 anos. A pedido do próprio Carlos V, que queria ter um retrato da mulher, cuja perda muito o desgostara, pintado pelo seu pintor preferido.  

Tiziano ter-se-á baseado – aqui as versões variam – num busto de Isabel, que ainda hoje se pode admirar no Prado, ou num seu outro retrato, entretanto destruído num incêndio. Seja como for, o que para este nosso caso importa é que o pintor não chegou a conhecer, nem teve qualquer contacto, com a retratada. Limitou-se a fazer uma reprodução, tecnicamente perfeita, das suas feições, a partir de outras representações destas (e, narram as crónicas da época, das indicações do próprio Carlos V, que impôs várias emendas e retoques). Um retrato de um outro retrato. Esta a explicação mais frequente da rigidez e falta de expressão — numa palavra, de vida — de Isabel. Muito embora haja quem sustente serem tais características, não apenas comuns, mas até intencionais, porque associadas à majestas própria dos retratos imperiais. Será. Mas agrada-me mais a primeira versão.    

O quadro terá encantado Carlos V, que o manteve sempre consigo, no Monasterio de San Yuste, onde recolheu após a sua abdicação, em 1556. Consta que passava horas a contemplá-lo…

Retrato de Isabel (I) — o Enigma

Tiziano Vecellio, Isabel de Portugal

Esta é Isabel de Portugal, filha de D. Manuel I, irmã de D. João III, e mulher do todo-poderoso Carlos V. Que, para além de lhe dedicar profunda afeição, depositava grande confiança no seu discernimento, nomeando-a regente durante os largos períodos em que se ausentava de Espanha.  

O quadro foi pintado por Tiziano. Retrata na perfeição a beleza delicada de Isabel, de que dão nota as crónicas da época. E são encantadores o elaborado penteado, as belíssimas jóias, o sumptuoso vestido. Está no Museo del Prado, em Madrid. 

No entanto, há qualquer coisa neste quadro que não está bem. Quanto mais se olha, mais se avoluma a sensação de estranheza. Será a extrema palidez da retratada? Será a pose, excessivamente hierática? É quase chocante o contraste com os sempre tão luminosos quadros de Tiziano…

O que é que se passa então com o retrato de Isabel?

Queridos Gente Morta, queridos visitantes deste singular cemitério … Eis uma adivinha!

Para que nada vos falte, aqui ficam umas ajudinhas

a) Tiziano estava já muito doente quando o pintou, após grande insistência de Carlos V, por isso o resultado ficou muito aquém do que dele se esperaria;

b) Isabel, que tinha acabado de dar à luz (mais) uma criança, estava muito combalida, tendo, não obstante, insistido em posar, estóica, durante horas para dar esse gosto ao marido;  

c) O quadro não foi pintado por Tiziano, mas por um dos seus discípulos, o que muito terá aborrecido Carlos V, quando descobriu;  

d) Carlos V e Isabel, muito religiosos e austeros, impuseram ao pintor sobriedade, contenção e gravitas neste retrato, que, de algum modo, queriam que resultasse fútil ou mundano;  

e) Nada disto. O motivo é outro … Qual?