
Your mother works for a living.
One day I have chickens, and the next day feathers.
These days I’m driving a stagecoach.
For a while, I worked in Russell’s saloon
but when I worked there all the virtuous women
planned to run me out of town,
so these days, I’m driving a stagecoach.
I’ll be leaving soon to join Bill Cody’s Wild West Show.
I’ll ride a horse bare-back,
standing up, shoot my old Stetson hat
twice — throwing it into the air -
and landing on my head.
These are hectic days — like hell let out for noon.
I mind my own business, but remember
the one thing the world hates is a woman
who minds her own business.
All the virtuous women
have bastards and shot-gun weddings.
I have nursed them through childbirth and
my only pay is a kick in the pants when my back is turned.
These other women are pot bellied, hairy legged
and look like something the cat dragged in.
I wish I had the power to damn their souls to hell!
Your mother works for a living.
Martha Jane Cannary, Carta a sua filha Janey, 1883*
Fez pela vida, esta Joana. Desde cedo e pelas mais extraordinárias e menos convencionais formas. Por necessidade, claro. Mas também por temperamento. Era audaz e independente. Gostava do risco e da aventura, que abundavam no seu tempo e nos lugares por onde andou. E também da fama e do reconhecimento associados aos seus modos de vida, hábitos e atitudes, absolutamente incomuns mesmo no wild west de então. Não é fácil, na sua história, destrinçar a realidade do mito. Mas a verdade é que, mesmo descontando o que se sabe hoje serem invenções ou exageros, muitos deles com origem na sua fantasiosa autobiografia de 1896, é indiscutível que foram extremely colourful and eventful os cerca de cinquenta anos que viveu.
Martha Jane Canary (ou Cannary) terá nascido a 1 de Maio de 1852 em Princeton, no Missouri. Quando tinha cerca de treze anos, os seus pais decidiram tentar a sorte going west, primeiro para Virginia City, Montana, e depois para Salt Lake City, Utah. Durante os largos meses que durou a viagem, Jane acompanhava os homens da caravana na caça e divertia-se a atravessar os rios e a enfrentar os rápidos montada no seu pony – sendo já então considerada “a remarkable good shot” and a “fearless rider for a girl of my age”, nas suas palavras.
A morte da mãe, logo no início da viagem e a do pai, meses após a chegada ao destino, deixaram Jane órfã, com apenas quinze anos e cinco irmãos mais novos a seu cargo. Partiu de novo, na direcção das Great Plains até Piedmont, Wyoming e, mais tarde, Deadwood, Dakota do Sul. Fez de tudo um pouco, para assegurar o seu sustento e o da sua numerosa família: foi, como muitas mulheres que então povoavam os frontier territories, lavadeira, ajudante de cozinha, cozinheira, empregada de saloon, dance-hall girl, enfermeira e, nos períodos de maior necessidade, prostituta. Mas foi também condutora de manadas, estafeta Pony Express para o US Mail e batedora do exército, tendo participado em várias campanhas contra os índios siouxie no Wyoming e nos Dakotas e em expedições de exploração de futuros territórios mineiros, nos Black Hills.
Os relatos da época descrevem-na — supõe-se que consoante a simpatia que suscitava nos cronistas — ora como “pretty, dark-eyed girl”, “extremely attractive”, ora como “the result of a cross between the gable end of a fire proof and a Sioux Indian”. Era muito alta (media “six feet”, i.e., cerca de 1,83m), bebia bastante (não raro mais que a conta), mascava tabaco, praguejava e com frequência usava roupa de homem. Terá sido por esta altura que passou a ser conhecida por Calamity Jane. Sobre a incerta origem deste nickname que sempre me fascinou coexistem a versão romanceada, apresentada pela própria, de o nome lhe ter sido dado pelo seu comandante, a quem salvara a vida durante uma batalha (“Capt Egan on recovering, laughingly said: ‘I name you Calamity Jane, the heroine of the plains”’) e as mais difundidas e porventura genuínas, de o mesmo se dever à ameaça com que Jane mantinha à distância os mais atrevidos, advertindo que meterem-se com ela era o mesmo que “court calamity” ou, mais simplesmente, ao facto de ter muito mau-feitio, facilmente produzindo “a ruction at any time and place and on short notice.”
Teve uma vida dura e intensa, marcada por episódios de grande bravura e generosidade. Dela disse William “Buffallo Bill” Cody, sob cujo comando serviu no exército, que tinha “unlimited nerve and entered into the work with enthusiasm, doing good service”, que arriscava ir a “places where old frontiersmen were unwilling to trust themselves” e que “her courage and good-fellowship made her popular with every man in the command”. São inúmeros os relatos de salvamentos de diligências atacadas por índios que protagonizou. E sabe-se da dedicação com que Jane tratou as vítimas e abasteceu as populações em quarentena durante várias epidemias de varíola e de difteria (a que sobrevivera em criança, ficando imune) que assolaram a região de Deadwood.
Da sua atribuladíssima vida privada, sabe-se que teve vários companheiros, em uniões de duração variável (algumas das quais caberiam no latíssimo conceito de common law marriage então vigente). Que o seu amplamente divulgado romance com James “Wild Bill Hickok” Butler, por quem tinha um fascínio quase obsessivo — casamento, divórcio e filha Janey, nascida em 1873 e dada para adopção, incluídos — não passou de uma fabricação, da própria e dos dime novelists da época, dos quais foi um favorite character: são inexistentes, insuficientes, contraditórias ou simplesmente forjadas as provas (desde logo as comoventes cartas escritas e nunca enviadas àquela, encontradas entre os seus pertences após a sua morte). Que terá casado com o texano Clinton Burke em 1885, sendo incerto se teve uma filha, em 1887, ou se a criança que apresentou como sua no seu regresso a Deadwood, e da qual nada mais se soube, seria fruto de uma anterior ligação deste.
Após uns anos de relativa acalmia, em que se dedicou a criar gado, primeiro num rancho nas margens do Yellowstone, depois em El Paso, no Texas, usufruindo do respeitável estatuto de mulher casada e “leading a quiet home life”, na sua descrição, Jane largou o marido e regressou à movimentada vida que verdadeiramente lhe agradava. A partir de 1893 actuou no Wild West Show de Buffallo Bill, exibindo os seus riding and shooting skills. Actuou também no Pan-American Show em Buffalo, NY, cerca de 1901. Porém, os seus heavy drinking habits, os constantes escândalos e desacatos em que por via destes se envolvia e a deterioração da sua saúde forçaram a sua retirada, em finais de 1901. Morreu pouco depois, de pneumonia, a 1 de Agosto de 1903. Foi enterrada, diz-se que a seu pedido, junto de Wild Bill Hickok, no Mount Moriah Cemetery, em Deadwood. Os seus amigos e admiradores fizeram, além do mais, constar que morrera na mesma data que aquele – 2 de Agosto. Detalhe que decerto muito terá agradado a Jane, wherever she might be.
* Texto adaptado por Libby Larsen, para a música Working Woman, integrada no ciclo Songs from Letters, 1989