Portrait of a Lady II

É o meu lit de mort preferido – se é que se pode ter um, ponto relativamente ao qual acalento ainda algumas dúvidas. Aquele que eu teria escolhido, em resposta ao desafio aqui lançado pelo Pedro, não fossem as múltiplas e extenuantes actividades de férias que por essa altura absorviam parte substancial do meu tempo e energia.   

Gosto do exuberante cenário verde e das flores, tão variadas e coloridas — mesmo sabendo que algumas delas simbolizam, neste contexto, realidades tão pouco alegres como o amor não correspondido, a dor, a tristeza ou a própria morte. Gosto também da serenidade do rosto de Ophelia e do modo como jaz no leito do rio — faz-me sempre lembrar a Bela Adormecida ou a Branca de Neve, mortas-mas-não-tanto…   

Elisabeth Siddal (1829−1862) foi um dos modelos preferidos dos pintores da Pre-Raphaelite Brotherhood, fundada cerca de 1848 por John Everett Millais, William Holman Hunt e Dante Gabriel Rossetti. Descrições da época referem-na como a most beautiful creature, tall and slender, com greenish-blue unsparkling eyes, large perfect eyelids, brilliant complexion and a lavish heavy wealth of coppery golden hair.

Tinha 19 anos quando posou para Millais. Este, fiel ao cânon pré-rafaelita, queria o quadro as truthfull as possible naquilo que retratava. Por isso, pintou-o em duas etapas e em diferentes cenários. Toda a parte da natureza, outside in the open air, nas margens do rio Hogsmill, no Surrey, directamente para a tela (sem esboços ou apontamentos). A figura de Ophelia, naturalmente no seu estúdio … ao longo de incontáveis horas durante as quais Elisabeth, com um vestido antigo, bordado a prata, permaneceu mergulhada numa banheira cheia de água, teoricamente aquecida por lâmpadas colocadas por baixo. As quais, com frequência, se apagavam sem que o artista, absorto no seu trabalho, reparasse. Resultado: um enorme sucesso artístico para Millais, na Royal Academy Exhibition, de 1852. E, pelo menos, uma pneumonia para Elisabeth.

Foi esta a primeira e também a única vez que Elisabeth serviu de modelo a Millais. Por razões totalmente alheias às extreme working conditions: terá sido outro, e bem mais comezinho, o motivo. Dele vos falarei num próximo Portrait, se tiverem a gentileza de o aguardar e de o ler, claro…

Portrait of a Lady I

Perfectly hideous … and yet quite recognizable. É o que terá escrito acerca deste quadro, quando da sua primeira exposição pública, em 1915, a sua autora. Satisfeitíssima, pois fora justamente esse o resultado pretendido.  

Vanessa Bell (1879−1961) gozava já por essa altura de amplo reconhecimento como um dos mais talentosos e activos elementos do inovador e irreverente Bloomsbury Group – o qual integrava artistas e escritores como Roger Fry, Clive Bell, Duncan Grant, Leonard e Virginia Woolf (sua irmã mais nova), E.M. Forster, Maynard Keynes, Lytton Strachey e Dora Carrington. E que se rebelou abertamente contra os rígidos padrões vitorianos, em matéria de arte, de estética e também de costumes. Os Bloomsberries pensavam, escreviam, pintavam e viviam playfully and lightheartedly.

Vanessa e Clive Bell mantinham, desde o nascimento dos seus dois filhos, um open marriage, que não impedia cada um de fazer a vida que bem entendesse. São conhecidos o breve affair de Vanessa com Roger Fry e a sua ligação duradoura com Duncan Grant, de quem teve uma filha, em 1918. Quanto a Clive, a well renowned womanizer, teve a sua mais que  fair share de relações extraconjugais. Mary St John Hutchinson, mulher de um conhecido advogado, patrona das artes e aspirante a escritora foi uma das suas incontáveis amantes.

E era-o ainda, quando encomendou este retrato e posou para Vanessa. Esta sabia evidentemente. Mas, tudo leva a crer, não gostava. Mesmo nada. Daí a unflattering nature of the portrait, o qual não deixa margem para dúvidas quanto aos seus feelings para com a modelo. Os especialistas destacam a forte influência fauvista deste quadro, traduzida na exuberância e audácia das non-naturalistic cores utilizadas. Opção justificada pela grande admiração que Bell tinha por Matisse. Quanto à concreta selecção de tons, as motivações terão sido bem outras — digo eu. Verde é verde. E logo este tom, é sabido, não favorece ninguém. O lilás também não ajuda. A combinação das duas,  fatal. Para não referir os  demais detalhes.

Agrada-me este quadro. Gosto do que evidencia de normalidade por parte de quem o pintou. Porque mesmo nas mais extraordinariamente moldadas relações, há-de haver limites. O que vale por dizer que some things never change. E ainda bem: afinal, quem não se sente, não é filho de boa gente. E gosto, sobretudo, da deliciosa forma — tão subtil quanto eficaz — com que resolve o eterno problema da outra, do ciúme, da vingança. Quais faca, na liga ou na mão. Quais alguidar. Quais banhos de sangue. Tela, pincéis e tinta, numa mistura absolutamente letal de repulsive colours e fabuloso talento…   

Um Perfeito Vazio

 

Não se lembrava da última vez que tomara um banho de imersão. Naquele dia, apetecera-lhe. Encheu a banheira e despejou lá para dentro uns sais e mais um gel, presente de Natal ou de anos, não sabia ao certo. O rosa-vivo destes tingiu a água e a espuma. No ar, um intenso cheiro a rebuçado de framboesa. Ou seria morango? Sentia-se vagamente ridícula. Hesitou. Mas aquilo era suposto ser relaxante, revigorante, activar a circulação nas pernas… Largou o roupão e entrou na banheira. Excelente, a temperatura da água. Procurou uma posição confortável. Olhou à volta — o lavatório, o pequeno armário por baixo que mandara há tempos fazer, o espelho a começar a embaciar. Será que também é cor-de-rosa, o vapor? Sorriu da absurda ideia e fechou os olhos. Para logo os abrir e, rapidamente, espreitar e voltar a fechá-los. Tudo na mesma.   

Às vezes parecia-lhe ainda vê-lo ali. De pé, diante do lavatório. A fazer a barba. Nu.

Estes flashes causavam-lhe uma irritação difícil de controlar. A mesma que sentia quando, dali, de onde estava, ele a interpelava. Com os seus problemas — pessoais, familiares, profissionais, tanto fazia. “Olha lá”, começava invariavelmente. Mesmo sabendo, porque tantas vezes ela lho dissera, que tal tratamento lhe desagradava. Depois as questões, os dilemas, os impasses, quase todos fruto da sua exasperante falta de sensibilidade e de empatia, de instinto e de tacto. Que o passar dos anos agravava. Ela respondia, resolvia. Seguiam-se os cenários, antecipados à exaustão, construídos uns sobre os outros, hipotéticos e surreais — então e se ele me responder que? e se eles me propuserem antes que? e se não aceitarem isto? e se o tipo começa com a conversa de outro dia? e se? e então se? olha lá, e se? Não valia a pena encurtar o duche: ele segui-la-ia até ao quarto. Era um exercício cansativo e inútil. Mas ao qual não tinha como escapar. A alternativa era o inferno, logo ali, logo pela manhã. Sabia-o, porque experimentara. Não responder ou explicar que estava absorta nos seus problemas. O resultado, sarcasmo e rancor: obrigado, muito obrigado, está uma pessoa cheia de problemas e é esta a ajuda que recebe; da próxima vez que me vieres chatear com os teus dramas, vais ver como é! Não era provável que isso viesse a suceder. Percebera há muito que neste, como noutros planos, nada era como esperara. Tentara. Mas sem êxito. Foste parva, agora admiras-te, tão inteligente para umas coisas…, esses tipos são umas bestas, só percebem à bruta, fora o que obtivera, de conforto e de conselho. Quisera crer tratar-se de incapacidade dele: se mal resolvia os seus problemas, como haveria de saber acudir aos alheios? Logo percebera ser algo muito diferente: uma visão totalmente enviesada do amor, do casamento, dos papéis do homem e da mulher. Profunda, enraizada, ancestral. Que ele nem sob tortura admitiria professar. Mas que praticava, se praticava. Por isso o desconcertava a insistência dela na reciprocidade: não era suposto maçá-lo com os seus problemas, não era suposto sequer tê-los.  

Piores, muito piores eram os outros flashes. Felizmente cada vez mais espaçados. Imagens e sons de explosões de fúria descontrolada. Sempre dirigida a ela. Fosse qual fosse o detonador. Gritos e ameaças, insultos e reprimendas. Até acalmar. Até à próxima. Que só não sabia quando, onde e por que motivo ocorreria. Nunca pedira perdão. Nunca mostrara arrependimento. Uma ou outra vez admitira, displicente, ter-se talvez excedido, mas — que diabo! -, tinha razão. Tinha sempre razão. Os gritos eram um suplício, as descomposturas um enxovalho: vê se metes isso de uma vez nesse bestunto, não me voltas a fazer isso, não me voltas a colocar numa situação destas, ouviste? Implorava-lhe que parasse. Não consigo, não vês que não consigo? Eu bem te disse para não me irritares. Ou então, tu pelos vistos não percebeste ainda a gravidade do que fizeste. E continuava. Para que ela percebesse. Só que ela persistia em não o fazer. Em não achar inaceitável telefonar-lhe do escritório a avisar que ia chegar mais tarde, pedir-lhe que fosse, muito excepcionalmente, claro, buscar as crianças ou ao supermercado comprar leite para o dia seguinte, o facto de a empregada não ter lavado e engomado no mesmo dia (de chuva torrencial) aquela camisa branca, igual a todas as outras, que ele decidira (in pectore), usar no dia seguinte.

A princípio optara por ignorar. Não fora fácil, mas desenvolvera um excelente auto-domínio. Só que tanto para ele, como para as crianças, que assistiam às cenas – como impedi-lo? – isso equivalia a submissão. Passou a ripostar. A agressividade subiu de tom. Aos primeiros encontrões arranjou forças para o que há muito sabia ter de fazer. Nos meses seguintes, a violência continuou, sob todas as formas pelas quais ele sabia poder atingi-la, mostrar-lhe que ela estava ainda ao seu alcance. Mas não era a mesma coisa. Já não dormia com o inimigo. Já não partilhava com ele a intimidade. A casa de banho cor-de-rosa. O medo, a humilhação, o embaraço haviam dado lugar a um delicioso, desmedido e libertador alívio.   

Abriu de novo os olhos. Só para mirar, mais uma vez, o lavatório, o pequeno armário por baixo, o espelho já completamente embaciado. De branco, afinal. O vazio, onde antes estava ele. Um perfeito vazio. Imenso e luminoso. Sorriu e estendeu o pé na direcção da misturadora: será que consigo pôr um bocadinho mais de água quente?   

Só Visto

É uma das hottest shops em Londres por estes dias. Para quem tenha entre 12 e 21 anos, mais coisa menos coisa, claro. Tinha-me sido muito recomendada por amigas, mães de  adolescentes que insistiam: “as roupas são o máximo, e a loja, bem, a loja … tens de lá ir” ou “esquece a GAP e vai mas é a esta, que é o que está a dar, é o que as miúdas usam agora …”.

Fui. Hoje. Ao fim de um dia de chuva torrencial. Encharcada e já exausta, de tanto input cultural, de tanto caminhar, de tanta e tão bela compra. Demorei a dar com o sítio, num labirinto entre Regent e Piccadilly. Por um triz não falhei a entrada: perante a multidão que do lado de fora convivia animada achei que se tratava de um pub, de um concerto rock ou coisa assim. Mas não. It was it.

A Abercrombie and Fitch é basicamente o que se obtém juntando, num mesmo sítio, a Zara (tirando a parte dos preços …) e o bar mais in do momento (tirando a parte dos copos …). Música de dança aos berros, escuridão total, pequenos pontos de luz nas prateleiras onde está a roupa que é suposto comprar-se. Cheira intensamente a perfume em todos os recantos. E depois há os vendedores. Têm todos, rapazes e raparigas, pelo menos 1,80 m de altura. São lindos de morrer. Mesmo. Elas magérrimas, com caras de anjo e cabelos compridos. Eles muito bem apessoados, com um físico que evidencia várias – muitas, muitas mesmo – horas de ginásio. De entre os eles, vários têm como única função permanecer na entrada da loja, de jeans e troco nú — impecavelmente moldado e depilado -, a saudar afavelmente quem chega e a deixarem-se fotografar com ofegantes adolescentes de todas as nacionalidades, diante de um fundo especialmente preparado para o efeito, cheio de logótipos, que com estas coisas do marketing não se brinca. Vários outros, aos pares, dançam, enérgicos e felizes, debruçados na varanda do andar de cima. Se não tivesse visto, não acreditava.

Entrei, saltei a parte das fotos extáticas com os moços semi-despidos e dirigi-me resoluta para o interior da loja. Queria uns atuendos giros e adequadamente griffés para levar às minhas filhas mais velhas. Rapidamente percebi que não iria ser tarefa fácil. Zonas havia em que simplesmente se não podia passar, tal a profusão de meninas a remexer nas roupas e a pedir conselhos aos giraços de turno. A situação era agravada, na secção girls clothing por onde andei, pela absurda quantidade de rapazinhos embasbacados, bem mais interessados em meter conversa com as vendedoras que nos jeans, leggings, tops e afins, e que só estorvavam. O ambiente era de festa, de garagem ou de praia. A média de idades rondava os 18 anos. Senti-me um verdadeiro dinossauro. A princípio, um daqueles grandes, afáveis e inofensivos. Mas isso foi antes de tentar desincumbir-me da missão que me levara até ali.    

Porque se tratava de comprar roupa, procurei inteirar-me dos modelos, cores, tamanhos e preços das várias peças. O problema é que pouco ou nada conseguia ver às escuras. Pareceu-me tudo relativamente banal — muita camisa de algodão em xadrez ou às riscas, muita mini-saia farfalhuda com flores, muito short de ganga, muita sweat shirt com capuz, em versão com e sem zip, e profusos dizeres alusivos à marca. Hot, só mesmo os preços. Red hot. E gente, gente, gente. Por todo o lado. Cheguei a ponderar vir-me embora, de mãos a abanar. Mas uma mulher nunca desiste – nem mesmo, ou sobretudo, num sítio destes. Tratei, isso sim, de ser mais proactiva. Por outras palavras, transformei-me num dinossauro muito mau, daqueles assassinos, com várias fileiras de dentes. Dirigi-me a um menino e a uma menina que dobravam peças de roupa que a turba atirara pelo ar e anunciei-lhes que I was freaking out, pelo que tinham de me ajudar. Muito. Os dois. Right away. Foram do mais simpático e prestável: mostraram e provaram modelos, adivinharam tamanhos, deram palpites e sugestões, aventuraram-se nas overcrowded partes da loja onde me recusei a voltar, para buscar peças que eu havia vislumbrado. Acabei contentíssima, numa fila interminável para pagar, entre uma muçulmana de cabeça coberta de negro e piercing no nariz e de duas francesas que tentavam por todos os meios passar-me à frente até que lhes rosnei que era escusado o esforço. A menina da caixa, gentilíssima, meteu todas as minhas aquisições e mais as compras que trazia comigo (e cujos sacos de papel estavam desfeitos por causa da chuva) nos emblemáticos sacos da loja — que ostentam o garboso torso acima publicado, mas com mais dois palmos à vista.

Percorri toda a Regent Street até ao metro e, depois, toda a estação de Paddington e vários quilómetros de comboio, até ao carro do meu irmão, transportando em cada mão dois sacos. Ou seja, um conspícuo total de quatro homens em tronco nú.  Cuja visão, se no centro de Londres suscita olhares cúmplices e aprovadores por parte de mães e filhas iniciadas, vai gerando um genuíno e crescente embaraço à medida que dele nos afastamos em direcção ao countryside. Não tenho como descrever a cara estupefacta da idosa que viajava ao meu lado no comboio quando baixei os meus quatro-sacos-quatro e me despedi desejando-lhe all the best… Ou o estado de agitação em que ficaram os dois “cromos” locais que, beberricando cervejitas ao balcão do bar da carruagem, controlavam e comentavam, jocosos, quem entrava e quem saía …   

Muito pode o amor de mãe, é o que é.   

Histórias de Joanas VI — A Destemida

Your mother works for a living.

One day I have chickens, and the next day feathers.

 These days I’m driving a stagecoach.

For a while, I worked in Russell’s saloon

but when I worked there all the virtuous women

planned to run me out of town,

so these days, I’m driving a stagecoach.

 I’ll be leaving soon to join Bill Cody’s Wild West Show.

I’ll ride a horse bare-back,

standing up, shoot my old Stetson hat

twice — throwing it into the air -

and landing on my head.

These are hectic days — like hell let out for noon.

I mind my own business, but remember

the one thing the world hates is a woman

who minds her own business.

All the virtuous women

have bastards and shot-gun weddings.

I have nursed them through childbirth and

my only pay is a kick in the pants when my back is turned.

These other women are pot bellied, hairy legged

and look like something the cat dragged in.

I wish I had the power to damn their souls to hell! 

Your mother works for a living.

 Martha Jane Cannary, Carta a sua filha Janey, 1883*

Fez pela vida, esta Joana. Desde cedo e pelas mais extraordinárias e menos convencionais formas. Por necessidade, claro. Mas também por temperamento. Era audaz e independente. Gostava do risco e da aventura, que abundavam no seu tempo e nos lugares por onde andou. E também da fama e do reconhecimento associados aos seus modos de vida, hábitos e atitudes, absolutamente incomuns mesmo no wild west de então. Não é fácil, na sua história, destrinçar a realidade do mito. Mas a verdade é que, mesmo descontando o que se sabe hoje serem invenções ou exageros,  muitos deles com origem na sua fantasiosa autobiografia de 1896, é indiscutível que foram extremely colourful and eventful os cerca de cinquenta anos que viveu.      

Martha Jane Canary (ou Cannary) terá nascido a 1 de Maio de 1852 em Princeton, no Missouri. Quando tinha cerca de treze anos, os seus pais decidiram tentar a sorte going west, primeiro para Virginia City, Montana, e depois para Salt Lake City, Utah. Durante os largos meses que durou a viagem, Jane acompanhava os homens da caravana na caça e divertia-se a atravessar os rios e a enfrentar os rápidos montada no seu pony – sendo já então considerada “a remarkable good shot” and a “fearless rider for a girl of my age”, nas suas palavras.

A morte da mãe, logo no início da viagem e a do pai, meses após a chegada ao destino, deixaram Jane órfã, com apenas quinze anos e cinco irmãos mais novos a seu cargo. Partiu de novo, na direcção das Great Plains até Piedmont, Wyoming e, mais tarde, Deadwood, Dakota do Sul. Fez de tudo um pouco, para assegurar o seu sustento e o da sua numerosa família: foi, como muitas mulheres que então povoavam os frontier territories, lavadeira, ajudante de cozinha, cozinheira, empregada de saloon, dance-hall girl, enfermeira e, nos períodos de maior necessidade, prostituta. Mas foi também condutora de manadas, estafeta Pony Express para o US Mail e batedora do exército, tendo participado em várias campanhas contra os índios siouxie no Wyoming e nos Dakotas e em expedições de exploração de futuros territórios mineiros, nos Black Hills.

Os relatos da época descrevem-na — supõe-se que consoante a simpatia que suscitava nos cronistas — ora como “pretty, dark-eyed girl”, “extremely attractive”, ora como “the result of a cross between the gable end of a fire proof and a Sioux Indian”. Era muito alta (media “six feet”, i.e., cerca de 1,83m), bebia bastante (não raro mais que a conta), mascava tabaco, praguejava e com frequência usava roupa de homem. Terá sido por esta altura que passou a ser conhecida por Calamity Jane. Sobre a incerta origem deste nickname que sempre me fascinou coexistem a versão romanceada, apresentada pela própria, de o nome lhe ter sido dado pelo seu comandante, a quem salvara a vida durante uma batalha (“Capt Egan on recovering, laughingly said: ‘I name you Calamity Jane, the heroine of the plains”’) e as mais difundidas e porventura genuínas, de o mesmo se dever à ameaça com que Jane mantinha à distância os mais atrevidos, advertindo que meterem-se com ela era o mesmo que “court calamity” ou, mais simplesmente, ao facto de ter muito mau-feitio, facilmente produzindo “a ruction at any time and place and on short notice.”

Teve uma vida dura e intensa, marcada por episódios de grande bravura e generosidade. Dela disse William “Buffallo Bill” Cody, sob cujo comando serviu no exército, que tinha “unlimited nerve and entered into the work with enthusiasm, doing good service”, que arriscava ir a “places where old frontiersmen were unwilling to trust themselves” e que “her courage and good-fellowship made her popular with every man in the command”. São inúmeros os relatos de salvamentos de diligências atacadas por índios que protagonizou. E sabe-se da dedicação com que Jane tratou as vítimas e abasteceu as populações em quarentena durante várias epidemias de varíola e de difteria (a que sobrevivera em criança, ficando imune) que assolaram a região de Deadwood.

Da sua atribuladíssima vida privada, sabe-se que teve vários companheiros, em uniões de duração variável (algumas das quais caberiam no latíssimo conceito de common law marriage então vigente). Que o seu amplamente divulgado romance com James “Wild Bill Hickok” Butler, por quem tinha um fascínio quase obsessivo — casamento, divórcio e filha Janey, nascida em 1873 e dada para adopção, incluídos — não passou de uma fabricação, da própria e dos dime novelists da época, dos quais foi um favorite character: são inexistentes, insuficientes, contraditórias ou simplesmente forjadas as provas (desde logo as comoventes cartas escritas e nunca enviadas àquela, encontradas entre os seus pertences após a sua morte). Que terá casado com o texano Clinton Burke em 1885, sendo incerto se teve uma filha, em 1887, ou se a criança que apresentou como sua no seu regresso a Deadwood, e da qual nada mais se soube, seria fruto de uma anterior ligação deste.  

Após uns anos de relativa acalmia, em que se dedicou a criar gado, primeiro num rancho nas margens do Yellowstone, depois em El Paso, no Texas, usufruindo do respeitável estatuto de mulher casada e “leading a quiet home life”, na sua descrição, Jane largou o marido e regressou à movimentada vida que verdadeiramente lhe agradava. A partir de 1893 actuou no Wild West Show de Buffallo Bill, exibindo os seus riding and shooting skills. Actuou também no Pan-American Show em Buffalo, NY, cerca de 1901. Porém, os seus heavy drinking habits, os constantes escândalos e desacatos em que por via destes se envolvia e a deterioração da sua saúde forçaram a sua retirada, em finais de 1901. Morreu pouco depois, de pneumonia, a 1 de Agosto de 1903. Foi enterrada, diz-se que a seu pedido, junto de Wild Bill Hickok, no Mount Moriah Cemetery, em Deadwood. Os seus amigos e admiradores fizeram, além do mais, constar que morrera na mesma data que aquele – 2 de Agosto. Detalhe que decerto muito terá agradado a Jane, wherever she might be.   

 

* Texto adaptado por Libby Larsen, para a música Working Woman, integrada no ciclo Songs from Letters, 1989

Happy Birthday to … hope you guess his name

Professa uma irresistível e inconfessável e simpatia pelo Diabo. O Demo, o Canhoto, o Chifrudo, a Besta, o De-trás-da-porta, o Ferra-brás, o Tinhoso, o Pé-de-bode. Mais eruditamente, o Diabolus (διάβολος), aquele que desvia, separa, divide, que semeia a cizânia e provoca a desunião. Talvez por isso, insiste em postar raios x, profanos e nem tanto, “nojices” com alegado interesse científico ou cinematográfico, mortos em leurs lits, extraordinários detalhes da vida e dos quadros de Caravaggio – that’s the nature of his game. A verdade é que em vão o faz. Porque nós gostamos. Gostamos todos muito de tudo isso — e também das suas fotografias, dos seus Cristos amarelos, do seu gosto de ver museus de mãos dadas, dos seus textos que nos comovem, nos surpreendem e nos dão que pensar. E se é por vezes, vá, dissonante a forma como os expressamos, são inquestionavelmente unânimes o nosso espanto, interesse, deleite e divertimento. So much for discórdia, pois.   

Our Satanic Companion faz hoje anos. Queremos, claro, dar-lhe os parabéns e wish him all the best. Proponho que o façamos de forma diferente e adequada. Vamos antecipar em 48 horas, aqui no cemitério, a noite de São Bartolomeu – em que anda o diabo à solta – e vamos dar-lhe música. Música diabólica, demoníaca, levada do diabo.  

Queridos defuntos, ousem sacrílegas invocações, façam pactos com o diabo, pintem-no a quatro — desde que brindem com música do inferno o nosso aniversariante cadáver. 

Só mais uma coisinha. Esta, evidentemente não vale. Porque já é dele. Vão ter de se esforçar mais, com mil diabos!

Eis a minha escolha. Satanicamente interpretada pelo imbatível Richter.

Mas tem artes, o Demo. Invoquei-o aqui e logo tropecei nesta. Diabólica, sim. Mais, tenebrosa, sinistra, atroz. E com um cemitério em festa, um toquezinho celta e tudo. Verdadeiramente irresistível. Não consigo escolher entre as duas, por isso aqui fica também. Com meus mais sulfurosos parabéns.

Uma Imensa e Extraordinária Minoria

A net está cheia de blogs e de sites dedicados à canhotice em geral e aos canhotos em particular. Muitos imbuídos de genuíno espírito de apreço e entre-ajuda, outros dedicados ao mais mercantil intuito de promoção e venda de objectos supostamente adequados a esta tão peculiar parcela da humanidade. Comuns a uns e outros são os textos, com graus de acerto e de fantasia muito variáveis (e quase sempre inversamente proporcionais) sobre características diferenciadoras dos canhotos. E as listas de famous e achieved left-handers, nos mais diversos domínios. As quais me fascinam pela sua extensão, variedade e, sobretudo, pelas extraordinárias descobertas que a sua leitura sempre me proporciona e que não resisto a partilhar aqui convosco hoje, Dia Internacional do Canhoto.

Casais de canhotos, felizes, mas não para sempre

Será belo ao princípio, o amor entre canhotos, não duvido. Se até isso têm em comum …! Mas, é fatal como o destino, mais tarde ou mais cedo tudo acaba. E, não raro, mal. É o que evidenciam as malogradas uniões de Napoleão Bonaparte e Josefina de Beauharnais, Fred Astaire e Ginger Rogers, John Mc Enroe e Tatum O’Neal, Emma Thompson e Kenneth Branagh, Demi Moore e Bruce Willis, Uma Thurman e Gary Oldman, Tom Cruise e Nicole Kidman, Jennifer Anniston e Brad Pitt. É certo que este reincidente último e Angelina Jolie se têm aguentado, apesar dos ameaços e dos agoiros. Mas será uma questão de tempo, há muito o garante la prensa rosa. Now we know why!

Alter egos canhotos

Que a canhotice tende a ser fortemente hereditária sabemo-lo nós canhotos. E confirmam-no exemplos tão variados como JFK e os seus filhos, Caroline e John Jr, Ryan O’Neill e a sua filha Tatum, ou os british royals, como a Rainha Vitória, 0s seus bisnetos Edward VIII e George VI e, mais recentemente, o Principe Charles e o seu filho William.

Tão intensa é esta hereditariedade — digo eu — que extravasa os limites da realidade e invade a ficção. E é por isso que são canhotos, tão canhotos como os seus criadores, Ziggy Stardust, o alter ego de David Bowie; Rocky Balboa, o boxeur a que deu vida Sylvester Stallone; Kermit the Frog (Cocas, o Sapo), o primeiro e mais famoso dos Muppets de Jim Henson; Bart, o Simpson em que Matt Groenig apôs a sua left-handed signature. Há depois, as curiosas coincidências — de a mais bela impersonation da canhota Jeanne d’Arc se dever à também canhota Jean Seberg; ou de ter sido o canhoto Val Kilmer a recriar o também canhoto Billy, the Kid.

Excelentes e excessivos, para o bem e para o mal

Que os canhotos são talentosos, criativos e persistentes, que registam uma above-average quota of over achievers — a sério que julgavam que eu ia saltar esta parte? — é o primeiro e incontornável dado que se retira da leitura de qualquer lista de destacados canhotos que se preze.

Uma pequena amostra? Seja, pois, e por ordem alfabética: Hans-Christian Andersen, Baden-Powell, Marco van Basten, Ludwig van Beethoven, David Byrne, Lewis Carroll, Enrico Caruso, Pau Casals, Winston Churchill, Bill Clinton, Jimmy Connors, Johan Cruyff, Leonardo Da Vinci, Albrecht Dürer, Bob Dylan, Albert Einstein, Morgan Freeman, Bill Gates, Bob Geldof, Ruud Gullitt, Jimi Hendrix, Helen Keller, Mario Kempes, Paul Klee, Ivan Lendl, Greg Louganis, Machado de Assis, Diego Maradona, Michelangelo, Wynton Marsalis, Martina Navratilova, Barack Obama, Nicoló Paganini, Linus Pauling, Pelé, Michel Platini, Sergei Prokofiev, Julia Roberts, Ringo Starr, Sting, Sergei Rachmaninoff, Romario, Peter Paul Rubens, Monica Seles, Paul Simon, Mark Spitz, Mark Twain, Guillermo Vilas, Oprah Winfrey.

São também exuberantes e ligeiramente excessivos, como David Bowie, Kurt Cobain, Eminem, Bobby Fischer, Jean-Paul Gaultier, Glenn Gould, John McEnroe, W.A. Mozart, River Phoenix e Johnny Rotten, to name a few.

E – valha a verdade – nem sempre se distinguem pelas melhores razões, como Jeanne d’Arc, Fidel Castro, Céline Dion ou Ricky Martin. Pior, alguns destacam-se mesmo em actividades muito pouco recomendáveis, como Billy, the Kid, ou Jack, The Ripper e, ainda, The Boston Strangler ou o mais remoto Tibério. Mas, mesmo assim, conseguem fugir da mediania e isso, evidentemente, tem de contar a seu favor.

They can work it out

 Quem? Os tenistas canhotos, claro. E os futebolistas, sure. Mas, não menos significativamente, os talentosíssimos músicos canhotos, que nos deram e continuam a dar a música e sem a qual a nossa vida não seria a mesma. Exagero de canhota? Let it be. Mas a verdade é que vai-se a ver e são canhotos 2/3 dos Police (Sting e Stewart Copeland), metade dos Beatles (Paul e Ringo), ¼ dos UB40 até há bem pouco (Ali e Robin Campbell), ambos os Everly Brothers, todos os quatro elementos dos Manhattan Transfer. E ainda os completíssimos David Byrne, Phill Collins, Bob Dylan e Paul Simon. Ou Michael Stipe (REM), Joe Perry (Aerosmith), Noel Galagher (Oasis), entre tantos, tantos outros. Last but not the least, os fabulosos Jimi Hendrix, Mark Knopfler e Robert Plant. Caso para dizer que every little thing they do is magic …

Termino em beleza, um canhoto a tocar outro, numa interpretação de uma das minhas peças preferidas que sempre me comove.

 

Num Mundo ao Contrário

Sou canhota. O meu único irmão e 2/3 das minhas filhas também. Tal como grande parte dos meus primos e dos seus ainda minúsculos descendentes — feitas as contas por alto, a canhotice atinge 6 dos 9 netos e, até ver, 4 dos 11 bisnetos do meu avô materno, o grande responsável por esta convictamente esquerdina família. Que, como todos os canhotos da sua época, apanhou de grande na escola até escrever com a mão direita. O resto — jogar ténis e futebol, caçar e pescar, cortar, segurar as cartas e lançar os dados — tudo à esquerda, irredutivelmente.

Celebra-se hoje, 13 de Agosto, o Dia Internacional do Canhoto, com o objectivo de alertar para as dificuldades que enfrentam os left-handed num predominantly right-handed world e, claro, celebrar a uniqueness daqueles que representam entre 7 e 10% da população mundial.

Longe vão, é certo, os tempos em que o obscurantismo tornado sinistrofobia levava a acusar de feitiçaria ou a tomar como demoníacos os canhotos. Deles subsiste, ainda, a sistemática conotação negativa que as mais diversas línguas conferem à palavra que designa a esquerda e/ou o canhoto — como a medonha sinistra, os desastrados gauche, maladroit, maldestro e canhestro, a triste condição do que se diz ter two left feet por dançar mal e/ou não marcar golos, o clandestino, porque ilegítimo, filho da mão esquerda e o esconjurativo cruzes, Canhoto! (sendo, está-se mesmo a ver quem, o Canhoto que assim se procura enxotar). Sempre em contraste com a exaltação do direito como certo, correcto, justo — pense-se nos jurídicos droit, derecho e recht, no acertado right, e mesmo no tauromáquico diestro.

Não tão longínqua, mas felizmente ultrapassada, vai também a era em que, em nome de questionáveis orientações pedagógicas, as crianças canhotas eram contrariadas e “adestradas” à força na escola. Perdi a conta às tantas, tantas pessoas que, vendo-nos, às minhas filhas e a mim, a escrever com a esquerda, revelam a sua história, sempre a mesma, tão igual à do meu avô: reguadas, golpes de palmatória, puxões de orelhas, mão amarrada atrás das costas até aprenderem a escrever direitinho … Mas — é fatal e é a parte de que mais gosto, claro -, logo acrescentam, com ar entre o safado e o triunfante, tudo o mais, sempre com a esquerda!

Ser canhoto significa viver num mundo pensado e construído às avessas. Dos irritantes garfinhos de bolo às imprestáveis facas de cortar tarte, com destaque para as enviesadas cadeiras de auditório com aquela tabuinha para tirar notas, invariavelmente à direita. A encabeçar esta exasperante lista, evidentemente os abre-latas. Os quais, terminado o 9.º ano e as frustrantes aulas de Desenho, para sempre destronaram os tenebrosos tira-linhas, que durante anos me fizeram a vida tão negra como a tinta da China que, traiçoeiros, derramavam sobre os meus esforçados trabalhos …

Mas ser canhoto significa também aprender a viver, e o melhor possível, nesse mundo que é também nosso. E isso implica, antes de mais, virar tudo o que para nós está ao contrário: passar a colher para a esquerda, pôr o relógio no pulso direito, enfiar o cinto nas presilhas pela direita, instalar a torradeira com o logotipo da marca virado para a parede, receber a hóstia da comunhão na mão direita, para depois lhe pegar com a esquerda (e fixar, sem pestanejar, o sacerdote que, às vezes, nos olha suspeitando sacrílegas intenções). Mas também adaptar-se. Sempre que o fazer “à esquerda” não seja opção. Ou, sendo-o, nos complique depois a vida, transformando-nos nuns seres à parte. Faço tricot e crochet “à direita” porque doutro modo as minhas dextras avós não mos teriam conseguido ensinar. As minhas filhas aprenderam a tocar guitarra “à direita” pois só assim poderiam fazê-lo em qualquer ocasião e em qualquer guitarra disponível (não ficando limitadas à respectiva guitarra de cordas “trocadas”, à Jimi Hendrix ou Paul Mc Cartney). Cá em casa não há teclados ou ratos “canhotos”, porque fugir ao standard nos tornaria menos aptas a manejar qualquer outro computador que não o nosso.

E implica, sobretudo, não enveredar pelo caminho da recusa do compromisso e da adaptação e da intransigente proclamação do direito a ser diferente, que por esta altura se faz ouvir com mais força — suponho que potenciada pelo remanso da silly season – e que me deixa sempre perplexa, quando não deveras constrangida. Pior, só mesmo a panóplia de proper left-handed products supostamente adequados a melhorar a vida de pessoas como eu e grande parte da minha família.

Descobri-os aqui há uns anos quando abriu uma loja dedicada a canhotos perto de minha casa. Apresentei-me lá na primeira oportunidade. Queria, evidentemente, um abre-latas. Estavam esgotados. Para atenuar o meu desalento, o simpático vendedor insistiu em mostrar-me tudo o que por lá tinha e que decerto me agradaria. Seguiu-se uma das horas mais surreais da minha vida. Canecas em que a imagem ou os dizeres se viam quando seguras com a esquerda. Saca-rolhas e afia-lápis a girar ao contrário. Porque não? Um boomerang. Réguas com a numeração da direita para a esquerda. Fitas-métricas, também. Calculadoras com os números invertidos. Comecei a achar aquilo tudo demasiado estranho. Agendas e livros de notas que abriam ao contrário e cujas páginas se percorriam de trás para a frente. Relógios com os números por ordem decrescente. Não quis ver mais. Praticamente fugi. Não voltei. Soube, pouco depois, que a dita loja fechara. Era de prever.

Ainda hoje não tenho o tão ambicionado abre-latas. Mas cada vez lhe sinto menos a falta, tal a profusão de latas com abertura fácil que crescentemente povoam as prateleiras dos supermercados. A provar que o mundo às vezes também gira na nossa direcção… 

Antes que Julho se acabe

O Zé Navarro deixou-nos a todos em suspenso. Com o denso e decerto sinistro enredo que envolveria a retraída Emília e o execrável Dr. Ramiro. E que permitia a este, com indiscutível grosseria mas, sobretudo, com aparente e intrigante impunidade, destratá-la e embaraçá-la em público. Sem que aquela em quem ele “cravara a alcunha de Tia Tula”, reiterada e cruelmente acossada, esboçasse a menor reacção. “Porque motivo o Dr. Ramiro tomara aquela mulher de ponta e porque razão ela nunca desencadeara uma vingança, eis um segredo que só a eles pertencia”. Pois sim.

Movida pela curiosidade fui a casa dos meus pais e surripiei a Tia Tula, de Miguel de Unamuno. Li-o duma assentada. Gostei muito. Mas quanto a pistas para resolver este enigma é que fiquei na mesma. Dificilmente Gertrudes (Tula), encaixa no papel desta Emília acossada e resignada. Uma e outra, é certo, renunciam cedo demais e por motivos incompreensíveis à sua feminilidade. A verdade, porém, é que Gertrudes (Tula), ao contrário desta Emília, vai mantendo um férreo controlo dos acontecimentos e da vida dos que a rodeiam. À primeira vista movida por uma obsessão com a pureza e a virtude, mas na realidade dominada por um desmedido orgulho que a impede de ultrapassar o facto de Ramiro se ter primeiro aproximado de sua casa atraído pela beleza exuberante de Rosa, sua irmã. Por isso o castiga, negando-se-lhe – e, de caminho, negando-se a si mesma, como amargamente o vem, mais tarde, a admitir – e impelindo-o a casar com as duas mulheres por quem o pobre, atordoado com a sua irredutível recusa, se acaba por se deixar atrair (Rosa, a sua própria irmã e Manuela, a criada). Mas mantendo-se sempre por perto, tão perto, como mãe extremosa e puríssima dos seus filhos, dos cinco filhos que Ramiro vai tendo com as suas desventuradas mulheres. O papel supremo que para si reserva e a que se dedica por inteiro. E que, junto com a ideia de que constantemente Ramiro sofrerá pensando nela e no que perdeu, são a sua afinal bem magra consolação.       

Aqui a história parece ser bem outra. Tudo aponta para que alguma coisa tenha acontecido. Escandalosa, porventura ilícita, quem sabe mesmo obscena. Alguma coisa que o Dr. Ramiro sabe. E que Emília preferiria que não. Mas, entre ambos? Ou envolvendo terceiros, terceiras? E porquê esta insistência – despeitada? magoada? rancorosa? – em atormentar uma mulher que, em princípio, lhe surgiria desprovida de qualquer interesse? Porque é que patentemente Emília não é indiferente ao Dr. Ramiro? E porque se deixa ela enxovalhar assim? O que teme Emília?

Desafio todos os mortinhos de curiosidade — como eu — a apresentarem aqui a sua versão, uma explicação, um pequeno contributo que seja que lance alguma luz sobre esta turva situação.

E peço encarecidamente ao Zé que não nos deixe às escuras e nos ajude a desvendar este mistério. Quanto mais não seja dando também o seu – qualificado e altamente autorizado, já se sabe – palpite.     

Para que possamos ir de férias mais tranquilos.

Que pasa con Pedro?

 Este que está no nicho é São Pedro. Muito bem trajado, de sotaina negra. Estranho? Foi o que eu achei. Não é costume. Muito mais estranho, contudo, é o facto de Pedro empunhar um livro. Sim, um livro. E dos grandes. Com todo o ar de quem prega convictamente o seu conteúdo. E de que o conhece bem, talvez por muito o ter lido, quem sabe por o ter mesmo escrito. O que, convenhamos, é realmente estranho. Logo Pedro que, tanto quanto se sabe, não era propriamente dado à leitura ou a afins exercitações do espírito …    

O que será que se  passa com Pedro?

Uma ajudinha? Querem uma ajudinha… Então aqui fica a foto da fachada onde me deparei com este extraordinário São Pedro. Fica em Santiago de Compostela. Já foi de uma Igreja,pertença de uma poderosa ordem religiosa, actualmente é sala de exposições e pertence à universidade. A ver se nela encontram, por assim dizer, pregada alguma pista …

These foolish things remind me of you

Estou longe, muito longe de casa. Muy ajetreada y disfrutando a tope, entre devociones xacobeas y placeres más terrenos. Sempre com a graça del Apóstol, por supuesto. Um desassossego do melhor. Mas a verdade é que por mais relapsa e desligada que ande do meu fiel computador, não há beco, rua, esquina desta cidade que me não lembre o extraordinário cemitério. É constante a sensação de dejá vu. Perturbadora, mas ainda assim reconfortante. Muito. Ora vejam.   


Sim, leram bem, Fonseca


Pareceu-me tudo gente (quase) morta


Disse-me que comprou a saia em Ponferrada depois de ler o texto do Pedro Norton
Diz que comprou a saia em Ponferrada depois de ler o texto do Pedro sobre el Che


Sim. leram bem, Fonseca ... he's all over the place
Sim, leram bem, Fonseca, Parte II …


Ups!


São Rosas, senhores? Estaria disposta a jurar que sim ... e o que farão no regaço de San Diego?
São rosas, senhores? Eu estaria disposta a jurar que sim … mas porque as tenta ocultar Diego, aliás San Diego?

Finalmente chegámos, pensa o Cãogrino, valeu-me apesar de tudo o belo atrelado, cheguei a temer ter de fazer o Caminho no cestinho de que a Dona tanto gosta…

Sim, leram bem, Fonseca, Parte III, he´s all over the place …

Tão diversa como o nosso cemitério, esta banca de recuerdos …

Para o Manuel, claro

Este post não é meu. Melhor dizendo, é-o só um bocadinho, na parte em que, com todo o gosto, me fiz cúmplice da nossa Luciana, que muito queria surpreender o seu e nosso Manuel pelo seu aniversário.

Por isso, e depois de deixar aqui um grande abraço de parabéns, desejando ao Manuel que viva este seu dia na maior felicidade e que assim prossiga, por todo o ano, até ao próximo, retiro-me. E deixo o espaço e o momento a quem, do outro lado do Alântico, tem muito mais e mais belo que dizer…       

 

Aniversário do Manuel, by Luciana

É aniversário do Manuel e dou-lhe de presente o que há de mais inútil que se possa achar: uma confissão. Não se pense que é falta de apreço ou de bolso, é que escolhi a lembrança da mesma matéria com que ele me tem alegrado os dias. Confesso, pois: o Manuel é o meu Saci. Saci-Pererê. Meu primeiro encontro com este personal Saci creio que foi aqui e nada poderia ser mais auspicioso. E está tudo  de forma tal que não precisava ser explicado, mas eu explico mesmo assim.

O Saci é visto ora como um ser brincalhão e gracioso, ora como malvado e astucioso. Pois. O saci se diverte com pessoas e animais, faz pequenas estripulias (quase sempre em embates verbais com as Graças do blog) e assusta viajantes noturnos (e quantas vezes se acorda com novos e provocativos posts aqui repentinamente surgidos). Mas não se pense que é um desocupado, o Saci/Manuel tem como função o controle – com sabedoria – das matas (ou cemitérios?) e vive a confundir e embaraçar quem nelas penetra sem a devida permissão. Diz-se que ele se desloca em moinhos de vento, mas há relatos de que o Manuel tem aprimorado essa técnica e se movimenta em redemoinhos de letras que nos deixam aparvalhados. O Saci tem poderes mágicos, muitas vezes faz-nos perder o rumo e vagar sem destino (de post em post?) e consegue ficar invisível (na época de férias, quase sempre).

Fazer aniversário é um pouco contemplar a mortalidade. Nem precisaria Sêneca gastar saliva a lembrar que qualquer tempo que já passou pertence à morte. Mas, seriamente, não me preocupo com o Manuel. Conta a lenda que o Saci nasce em um broto de bambu (atualizado como cemitério/blog), vive nele sete anos (já a quantas anda este aqui?) e depois vive mais setenta e sete anos a atazanar os andantes desavisados. Só depois é que o Saci vira um cogumelo venenoso – cuidado, amigos – ou uma orelha de pau* – sabe-se lá pra que serve isso, mas que vira, vira.

Ao meu Saci – pessoal e intransferível – meu carinho agradecido e muitos vivas no aniversário. Que esteja a fazer travessuras, onde estiver!

Onde todos os caminhos vão dar

É assim desde 1122, ano em que o Papa Calisto II proclamou Ano Santo Jacobeu (Ano Santo Xacobeo ou simplesmente Xacobeo, em galego), todo aquele em que a festa litúrgica de Santiago – a 25 de Julho – coincida com um domingo. Como neste ano de 2010.

Os Xacobeos sucedem-se segundo uma cadência regular de seis-cinco-seis-onze anos, por força da interferência dos anos bissextos: a não existirem estes, ocorreria um em cada sete años. O anterior foi em 2004 e o próximo será apenas em 2021.

O seu significado é, antes de mais e principalmente, religioso. Trata-se de um ano jubilar, período durante o qual a Igreja concede singulares graças espirituais aos seus fiéis que reúnam determinadas condições que, no caso do Xacobeo, são essencialmente a visita ao túmulo de Santiago e a participação nos sacramentos da reconciliação e da comunhão.

Nesse sentido, o início do Ano Santo é marcado pela abertura solene, na tarde de 31 de Dezembro antecedente, da Porta Santa da Catedral, situada na Plaza de la Quintana e pela qual se acede directamente à parte de trás do altar-mor, erigido sobre la Tumba del Apóstol. È por essa porta que durante o Xacobeo (e só nesse período) se faz a entrada dos peregrinos. São diariamente celebradas várias misas de peregrinos, sendo, em várias delas, lançado o Botafumeiro, o descomunal turíbulo de incenso, que nos tempos medievais perfumava e, segundo se cria, purificava o ar, pesado e quase irrespirável da Catedral, a abarrotar de peregrinos exaustos, sujos e, não raro, doentes. 

Mas Santiago, em geral, e o Xacobeo, em especial, têm também uma fortíssima componente histórica e cultural.  

O Caminho de Santiago, cujas rotas e símbolos – a começar pela própria vieira, usada pelos peregrinos para se identificarem e serem tratados como tais e para beber água, associada a antiquíssimos rituais de fertilidade –  resultaram, em larga medida, da assimilação de itinerarios e cultos pagãos, foi durante séculos um percurso e uma experiencia essencialmente religiosa. Na actualidade, e sem perder essa dimensão, tem vindo a ganhar várias outras — cultural e artística, de contacto com a natureza, de desafio  ou de percurso de crescimento espiritual, por via do despojamento material e do distanciamento de hábitos e rotinas do quotidiano que propicia. É percorrido a pé ou a cavalo, como outrora, mas também e crescentemente, de bicicleta — pelos chamados “ciclogrinos”. O chamado Caminho Francês foi proclamado pelo Conselho da Europa Primeiro Itinerário Cultural Europeu, em 1987. E tanto a parte española (em 1993), como a parte francesa do Caminho (em 1998) foram declaradas pela UNESCO como Património da Humanidade, pelo papel fundamental por este desempenhado no intercâmbio cultural entre a Península Ibérica e o resto da Europa durante a Idade Média e, bem assim, enquanto testemunho do poder e influencia da fé cristã entre pessoas de todas as clases e de todos os países na Europa medieval.  

Todas estas dimensões estão bem presentes na variada e abrangente programação de eventos de toda a ordem — 10 camiños para vivir Xacobeo 2010, que vão da espiritualidade à história e à contemporaneidade, passando pela música, a gastronomia, a reflexão, as artes cénicas, o audiovisual e o desporto, sem esquecer as crianças — e que abarca todo o ano, incidindo especialmente nos meses de Verão.

 

Tiago, o Maior

Santiago el Mayor, El Greco, 1610–1614

Tiago. São Tiago ou Santiago, entre nós. Santiago, San Diego, San Jaime, San Yago ou simplesmente El Apóstol, em Espanha – de que é Santo Patrono. O Maior, por ser o irmão mais velho do apóstolo João, e para o diferenciar de um outro, também Tiago, filho de Alfeu, ou o Menor.

Terá nascido em Betsaida, na Galileia, e morreu em Jerusalém, no ano 44, decapitado por ordem de Herodes Agripa I (Act. 12, 1). No Evangelho, Tiago é frequentemente referido junto com seu irmão João: são os “filhos de Zebedeu” (Mt. 4, 21; Mc 1, 19; Lc 5, 10) e — nas palavras do próprio Cristo — os “filhos do trovão” (Mc, 3, 17), por serem muito intensos e impetuosos, sempre prontos a fazer descer “fogo do céu” sobre os que os hostilizavam ou simplesmente não acolhiam (como em Lc 9, 54–56)  

Pescadores de profissão, largaram as redes que consertavam e “deixaram no mesmo instante o barco e o pai” para seguir Cristo, quando este os chamou, nas margens do Mar da Galileia (Mt 4, 21–22). Preocupados, ainda assim, com o seu futuro, terão pouco tempo depois – por sua iniciativa, segundo Marcos (10, 35–41), liderados pela respectiva mãe, conta Mateus (20, 20–24) – procurado obter junto daquele a promessa de um lugar preferencial no Reino (“que nos sentemos um à tua esquerda e outro à tua direita”), atitude que muito indignou os outros discípulos. A verdade é que, apesar do liminar “não sabeis o que pedis” com que Cristo prontamente os despachou, eram estreitos os seus laços de afecto e de confiança com os dois irmãos. Relatam os vários Evangelistas terem sido Pedro, Tiago e João os três discípulos escolhidos por Cristo para presenciar a ressurreição da filha de Jairo (Mc. 5, 35–40, Lc 8, 50–55), testemunhar a sua transfiguração no cimo do Monte Tabor (Mt. 17, 1, Mc. 9, 2, Lc, 9, 28) e a acompanhá-lo na angustiada Oração em Gétsemani (Mt 26, 37; Mc. 14, 32).

Reza a lenda que após o Pentecostes (Act. 2, 1–12), Tiago terá vindo para a Hispania. Na sua pregação, iniciada na Galiza, percorreu boa parte do território sob dominação romana — tendo presenciado, com os seus discípulos, cerca do ano 40, uma aparição da Virgem Maria sobre uma coluna de jaspe, em Caesaraugusta (actual Zaragoza), no local onde se ergue hoje a Basílica de Nuestra Señora del Pilar – antes de regresar a Jerusalém. Após a sua morte, o seu corpo terá sido transportado numa misteriosa barca de volta à Galiza e aí sepultado em segredo. Viria a ser descoberto séculos mais tarde, cerca de 813, quando estranhas luzes que brilhavam sobre um descampado outrora utilizado como necrópole por celtas, suevos e visigodos, levaram à descoberta de um túmulo com um corpo degolado e a cabeça debaixo do braço, que se não duvidou ser o del Apóstol. Afonso II, o Casto, Rei das Astúrias, mandou construir uma igreja no local, a qual veio a dar origem à majestosa e belíssima Catedral de Santiago de Compostela (nome derivado, ao que se crê, de campus stellae ou campo de estrelas).  

Rapidamente o local da Tumba del Apóstol se tornou num destino procurado por crentes de toda a Europa, que aí acorriam, utilizando — e assim “cristianizando” – antiquíssimos itinerarios que ligavam França ao que se julgava ser o fim do mundo (finisterrae), muito procurado pelos celtas para os seus rituais e celebrações. Por toda a Idade Média, Compostela e o Caminho de Santiago ombrearam com Roma e Jerusalém como rotas principais de peregrinação da cristandade.

Remonta também a estes tempos a transmutação do humilde pescador galileu no bravo Santiago Matamoros que, a fazer fé nos diversos e sempre extrordinários relatos, terá aparecido em mais de uma batalha, montado no seu cavalo branco, a ajudar a combater os infiéis. E era a sua protecção que se invocava com o grito Santiago y cierra, España!, pela primeira vez usado em Navas de Tolosa (1212) e que perdurou bem para lá da Reconquista.

Patrono dos peregrinos, veterinários, cavaleiros, curtidores e peleiros, São Tiago ou Santiago é-o também, de todos os Tiagos e Diogos, Jaimes e Santiagos. Festeja-se hoje, 25 de Julho. 

Um morto com várias vidas

Viveu várias vidas, este morto. Começou por nascer duas vezes. Foi médico e, acima de tudo, revolucionário. Os seus feitos, das viagens aos escritos, da luta armada de libertação ao empenhamento na construção e consolidação, em todos os continentes, de regimes revolucionários, dificilmente cabem numa única existência. Terá morrido mais de uma vez, antes daquela que foi a derradeira. São inúmeros e contraditórios entre si, mas jamais desapaixonados ou neutros, os relatos e interpretações do seu percurso terreno e do seu legado. 

É este morto, em todas as suas contrastantes versões, que o Pedro Norton trouxe para junto de nós e que aqui podemos encontrar.

É possível que venha a causar agitação no cemitério. Por ora, parece tranquilo. Quando há pouco o espreitei, exortava os mortos das campas vizinhas, como aos filhos, na carta em que deles se despediu, “sobre todo, sean siempre capaces de sentir en lo más hondo cualquier injusticia cometida contra cualquiera en cualquier parte del mundo: es la cualidad más linda de un revolucionário”.

No Ponto de Mira

As luzes acenderam-se. Intervalo. Pegou nos binóculos, a outra mão a apertar, firme, o leque pousado no colo. Fixou um ponto do outro lado do teatro, no meio das filas de camarotes. Debruçou-se, tentando mostrar-se natural e descontraída, interessada e curiosa. E, sobretudo, tão segura e destemida quanto gostaria de se sentir. Espreitou. Não procurava nada nem ninguém. De nada lhe interessava o que da vida dos outros pudessem captar as suas lentes. Sentia todos os olhares pousados em si.

Nessa noite infringira várias regras e desafiara outras tantas convenções. Apresentara-se no teatro, ocupando o camarote que assinara para toda a temporada. Três hesitantes semanas depois de esta ter começado. Viera só. Tão só como escolhera, fazia agora um ano, viver a sua vida. Regressara com os filhos a casa dos pais, à sua cidade. A princípio fora fácil. Bem mais fácil do que contava. Os feitos, públicos e privados, do seu ainda marido, de todos bem conhecidos, ajudavam a colorir de negro o retrato da sua tormentosa vida conjugal que, cedo percebeu, constituía a carta de alforria que não podia nem devia largar. Era, afinal, uma vítima das circunstâncias, sofredora e frágil, irresignada a um destino que se lhe impusera. E que, aos mais empedernidos, convinha apresentar, junto com uma incontida lágrima, como não irreversível (quem sabe, talvez um dia, ainda tudo se componha). Resultava sempre. Tal como o recatado quase luto que achara prudente adoptar. Fora tratada com compaixão e complacência. Tivera até vários convites, alguns inesperados. A todos agradecera, humilde e reverente. Ao fim de uns meses, estava saturada. De ter de se apresentar desolada, desvalida, desamparada. Sufocava-a o ter de exibir uma infelicidade que não sentia. O alívio inicial dera lugar a uma desmedida vontade de desfrutar da autonomia que, aos poucos, conquistara. Mudara-se para uma casa sua, com os seus filhos. Administrava o seu património — bendita a hora em o pai impusera a separação de bens. Sentia-se livre e feliz. Aos poucos deixou cair a máscara da desgraçada. Ria e mostrava-se animada. Tinha planos e falava deles. Nos serões e festas, movia-se pelos salões, conversava, dançava até, recusando integrar o “arame farpado” —  a temida hoste de azedas solteironas e viúvas que, à falta de mais assunto, cortava às tiras vidas e reputações alheias. Percebera os olhares críticos e reprovadores. Sabia de cor os comentários, de tanto os ter ouvido, aplicados a outras. LevantadaCabecita no ar. Doida.  

Perante várias amigas advertências, hesitou. Fez por regressar ao esquema antigo. Não conseguiu. Tens de te dar ao respeito, diziam-lhe. Respeito não é pena, respondia. E rematava, como sempre ouvira a avó: mais vale mal de inveja, que bem de piedade. Porque era inveja o que sentia suscitar. Inveja da sua liberdade, nas mulheres encerradas em casamentos onde se haviam perdido (admitindo que os  houvera) o afecto e o respeito. Nos homens era diferente. Nalguns homens. Era mais medo. Do péssimo exemplo que dava às submissas esposas. Mas havia pior, os sonsos. Como aquele que conhecera em casa dos tios. Desgostara da forma como a olhara e o tom com que se lhe dirigira. Ignorara-o polidamente, refugiando-se, lesta, no “arame farpado”. Soube, depois, dos comentários depreciativos a seu respeito. Falou-se em metê-lo na ordem. Dissuadira-os. Não se dá importância ao que a não merece.     

Respirou fundo. Avistara duas primas, que lhe acenavam, sorridentes. Baixou os binóculos. Acenou de volta. Sorriu cordial aos vizinhos do camarote à direita. Retomou a simulada coscuvilhice. A conversa ficaria para a próxima. Não convinha exagerar na dose. Um homem observava-a, fixamente, através dos seus binóculos. O seu mais antigo e querido amigo. A quem ganhara a aposta que haviam feito, ao comparecer no teatro nessa noite. Amanhã ou depois ele levá-la-ia na sua nova caleche a lanchar a uma nova confeitaria que há pouco abrira no centro, próximo do jardim. Haveria falatório? Paciência.    

Para a semana viria sem o maldito vestido preto e sem as tristonhas pérolas. Pensassem o que pensassem. Dissessem o que dissessem. Só vive uma vez. E ela tinha trinta anos e tencionava fazê-lo.

Homem Mau

Mau, mau, mau. É o que ele é. Ó se é. Ataca pela calada da noite e, rasteirinho mas benenuoso, como as cobras de que tanto diz gostar, recorre à falsidade e à intriga, pratica a calúnia e tenta semear a dúvida e a divisão.  

Refiro-me evidentemente ao sinistro António Benedito Afonso de Eça de Queiroz, decano dos mortos deste nosso cemitério que, esta madrugada, e a culminar um crescendo de torpes e totalmente infundadas acusações que me foi movendo ao longo dos últimos dias (ei-las aqui e aqui e aqui) e no espaço de um único comentário:

1) Me acusou falsamente, a mim que tenho a inscrição na Ordem suspensa há que anos, de exercer irregularmente a advocacia (“vive afogada de in folios legais”), o que além de violar regras deontológicas básicas, constitui como se sabe crime de usurpação de funções (art. 358.º, al. b), do Cód.Penal);  

2) Me acusou da mais crassa incompetência enquanto jurista, afirmando despudoradamente que utilizo no meu dia-a-dia textos legais caducos e há muito revogados (“anda sempre a escarafunchar lá pelo velho tronco das Ordenações Filipinas”);

3) Afirmou sem rodeios que, mais que a precisar urgentemente de férias, estou para lá de treslida (“isso não lhe faz nada bem”), logo que só profiro dislates e incongruências;

4) Incorreu no mais primário machismo ao estabelecer, displicente e paternalista, a irrelevância e o desacerto de tudo o que eu digo, de forma tão categórica que praticamente retroactiva  (“não pode acreditar em tudo tudinho que ela diz”).     

5) Tudo isto dirigido à minha querida Luciana, transatlântica e dedicadíssima amiga, junto de quem procurou, de forma vil, denegrir a minha imagem a todos os níveis, pessoal e profissional: não ter acrescentado que eu era também gorda, loura, desgrenhada ou que falo muito só pode ter sido falta de lembrança.

E fê-lo sem qualquer motivo. Mas ainda que o tivesse, a verdade é que nada, mas nada, justificaria tamanha ruindade.

A gravidade da situação é, pois, extrema. Isto não pode, não vai ficar assim. Não, não o vou castigar. Isso dar-me-ia muito trabalho e o referido António não merece que eu me canse por causa dele.  

Conversei com o Santo António — dele, mas sobretudo meu. Que me deu, claro, toda a razão. E que ficou de me ajudar. Por isso, antes que termine o dia de hoje, vão começar a desaparecer coisas ao terrível António – a caneta preta, o relógio, os óculos (de ver e escuros), a chave do carro e por aí fora. Graças à intercessão do Santo, o ingrato António vai passar os próximos dias à procura de todos os objectos que nesse exacto momento precisaria de ter à mão. E vai ser muito bem feito.

Quanto a mim, declaro-me, a partir deste momento e por tempo indeterminado, em greve aos posts do cruel António – não mais vou lê-los e menos ainda comentá-los. Abstenção total de actividade nas correspondentes zonas do blog – como se lá nada estivesse. Nada nem ninguém.          

Histórias de Joanas V — A Prima da Flor da Malva

- Oh Zé Fernandes, quem é esta lavradeirona tão rechonchuda?

- Mais respeito, sr. D. Jacinto… Um pouco mais de respeito, cavalheiro!… É a minha prima Joaninha, de Sandofim, da Casa da Flor da Malva.

 Eça de Queiroz, A Cidade e As Serras, Cap. VIII 

É a minha preferida das figuras femininas criadas por Eça de Queiroz. Sempre o foi, desde a primeira vez que li A Cidade e as Serras, devia ter uns doze anos.   

Gosto, desnecessário dizê-lo, do nome, a que o diminutivo acrescenta graça, ternura … e um toque de vermelho. Mas não é do nome que nasce o encanto — e a prova disso é a outra, a das Viagens na Minha Terra, que jamais me cativou.

Joaninha não tem um papel central no desenrolar da acção, não lhe é atribuída nenhuma fala, não protagoniza qualquer cena especialmente dramática ou inesperada. Aparece a Jacinto e a Zé Fernandes, na Flor da Malva, já perto do final. Mas a verdade é que muito antes desse momento surgira e se fora suavemente integrando na narrativa. A sua presença sente-se, cada vez mais intensa e inevitável, à medida que a redentora história de Jacinto se aproxima do seu epílogo. Porque Joaninha é a derradeira e definitiva etapa deste, rumo à Grã-Ventura que lhe estava destinada à nascença, mas que teve, afinal, de construir.

Tudo o que de Joaninha sabemos nos vai sendo contado por Zé Fernandes de Noronha e Sande, seu padrinho e primo, que se lhe refere com a ternura e a parcialidade do irmão mais velho que assume ser — pois, explica ele a Jacinto, fomos criados desde pequeninos, mais acostumados e familiares que tu e eu. E que muito embora conteste, meio a sério, meio a brincar, o fervor, a tocar as raias do pecado de idolatria, com que a Tia Vicência celebra a sobrinha toda-amada, contrapondo tratar-se de uma criatura apenas humana, a verdade é que não o faz senão por temer um desapontamento tremendo de Jacinto. Pois ele próprio se não coíbe de a descrever como uma perfeição de rapariga, o orgulho da nossa casa.

Joaninha é-nos retratada, não com o detalhe de descrições pormenorizadas, mas com suaves pinceladas de luz e de cor que, como num quadro impressionista, lhe desvelam a beleza e revelam a natureza. É uma figura absolutamente luminosa e positiva, cuja simplicidade e autenticidade contrastam com a complexidade e alguma ambivalência que marca muitas outras da esplêndida galeria queirosiana. Não exibe um lado sombrio, não evidencia defeitos de carácter ou más inclinações, não mostra atracção por caminhos que a precipitem num destino trágico. O seu único defeito – relutantemente admitido pelo dedicado primo – terá sido algum juvenil excesso de viço rústico enquanto sadia planta da serra, captado no retrato que faz o blasé Jacinto a soltar o tão insensível quanto delicioso Oh Zé Fernandes, quem é esta lavradeirona tão rechonchuda?. Mas, adverte pronta e categoricamente o nada isento narrador, isso é já coisa do passado. Como a seu tempo bem o comprovará Jacinto.  

Joaninha é bela. Grande e forte, tem cabelo louro ondeado e largos, luminosos olhos negros. A pele, muito branca, fica às vezes rosada, do passeio e do vivo ar. Aos 25 anos está na plenitude do seu esplendor rubicundo — numa feliz combinação do tal viço rústico com  sensibilidade, inteligência e maturidade.

Joaninha é alegre e doce, dedicada e generosa, genuína e descomplicada. Cuida, desvelada e paciente, do seu achacado pai, faz um doce de pêssego extraceleste, encanta-se com as crianças das redondezas, seus afilhados, a quem lava, penteia, tira as tosses e carrega ao colo, como se fossem seus. É constantemente descrita como risonha, lindamente risonha. Tudo isto a faz imensamente simpática e, sobretudo, real e cheia de vida – bem longe da perfeição distante e intocável das heroínas idealizadas e sem graça.

À medida que a história avança, percebe Zé Fernandes e percebemos nós que Joana e Jacinto foram feitos um para o outro. Mas, lá diz o Eclesiastes – a que, junto com Schoppenhauer, tanto se aferrava o desanimado Jacinto do 202 – para tudo há um momento e um tempo para cada coisa que se deseja debaixo do céu (3,1). E o tempo destes dois demorou o que tinha de demorar. Primeiro foi tempo de Jacinto se adaptar, afeiçoar, apegar, encontrar. Depois, foi tempo de descobrir o outro lado, menos belo, mas igualmente real, daquela vida e daquelas gentes, da pobreza confrangedora dos camponeses aos limitados horizontes da sociedade local. Várias semanas se passam até ao seu encontro, numa tarde de Setembro. Longamente antecipado e com um desfecho que se adivinha feliz. São inequívocos os sinais que se sucedem — a doçura luminosa, fina, fresca da manhã, logo à partida, a sensação de Jacinto de que percorre o caminho do Céu, a alusão do tio João Torrado, o profeta da serra, à estrela clara que paira por cima de Tormes, o encanto de Jacinto com a beleza da quinta e a sua descoberta, num Presépio e numas cadeiras iguais às suas de, quem sabe, um gosto comum… O que sucede é o que se espera: Joaninha, surpreendida e encantada, irrompe na sala e na vida de Jacinto, surpreendendo-o e encantando-o para sempre.

Joaninha completa a Grã-Ventura de Jacinto. Que este atingiu, ao cabo de um crucial e solitário percurso de crescimento, libertação e descoberta de si e do mundo à sua volta. Não é Joaninha que o transforma, na ilusória veste de anjo salvador. O seu papel é, felizmente, outro: é a companheira certa para o homem verdadeiro que Jacinto já é.

Acima de tudo, Joaninha é uma mulher feliz. Sempre. Quando risonha e doce nos surge e quando magnífica e triunfal  recebe Zé Fernandes vindo de uma tormentosa estadia em Paris, naquela que é a última cena do livro. Deslumbrada com o seu Jacinto, a cujo rijo pescoço deita os braços, ditosa com os filhos (a gorda e vermelha Teresinha e o bravo Jacintinho), apegada à nudez rude de Tormes e às suas serras, Joaninha vive de bem com a vida. Dedica-se, desfruta e valoriza o que tem. É feliz porque o sabe ser. E tem gosto nisso. E é mesmo por isso que tanto me agrada.  

Preferido Nenhum, Inesquecível Este

Não gosto de cemitérios. Nunca gostei. Afligem-me pelo silêncio, o frio das pedras, a ausência de vida. Entristecem-me porque me lembram a dor da despedida e da perda e todas as vezes que a senti. Não lhes encontro beleza que me toque ou paz que me serene. E não é neles que sinto presentes todos aqueles que amo e que já partiram.   

É por isso que os que bem me conhecem mal conseguem disfarçar o ar, entre o incrédulo e o comiserado, que se dedica aos patentemente ensandecidos, quando lhes conto o contentíssima que estou, sepultada em vida num blog com tal nome e que pretende ser … um cemitério. Vermelho-vivo, caloroso e animado, rico, divertido e acolhedor. Único e extraordinário. Mas cemitério. 

Voltando aos cemitérios, só lá entro quando tem mesmo de ser. Fora dessas penosas ocasiões, é raro sentir qualquer vontade ou impulso para os visitar, conhecer e explorar. Apesar disso, gostei muito do cemitério judeu de Praga, de que nos falou aqui o Pedro Norton. Como já antes de um outro que havia na ilha da Taipa, em Macau, numa maravilhosa encosta de montanha, a descer até à agua e com uma vista deslumbrante.

Não tenho, pois, como falar de um cemitério preferido.

Mas há um que não esqueço. Por diferentes e surpreendentes razões. Fica em Nápoles e dá pelo enganoso nome de Catacombe di San Gaudiano. Fui lá parar ao engano e, mesmo assim, contrariada: não gosto, já aqui o confessei, de locais subterrâneos. Mas lá acedi em visitar o que — pensava eu — ser o despojado e belo local de uma primitiva igreja cristã. Não sabia para o que ia. Nem eu nem nenhum dos integrantes do intrépido grupo de portugueses e americanos, conduzidos por uma guia que não proferia uma palavra de inglês.

As Catacombe di San Gaudiano ficam debaixo da majestosa Basilica di Santa Maria della Sanitá. Terão sido templo grego e primitiva igreja católica, onde repousam as relíquias do mártir San Gaudiano, vindas de África. Mas isso foi antes, muito antes, de o local ter sido destinado a um estranhíssimo ritual funerário, por alturas do séc. XVII, sob impulso dos dominicanos, primeiro, dos franciscanos, depois.

O esquema era sinistro e basicamente o seguinte: falecido o morto, o seu corpo, antes que sobreviesse o rigor mortis, era lançado às catacumbas por um alçapão no chão mesmo por trás do altar da Basílica. Uma vez lá em baixo era acondicionado (sentado, com as pernas bem dobradinhas) num nicho de pedra escavado na parede, a secar. Logo que bem enxutas, as ossadas, dependendo do status do seu titular e da quantia paga, tinham um de dois destinos: ou eram incrustadas na própria parede da catacumba, devidamente ornamentadas com alusões à sua vida passada — nunca mais esqueci o par formado por uma graciosa ossada de lindo vestido rosa e leque e seu garboso companheiro, de casaca e militar espada à cinta. Também havia um magistrado, de toga, e um pintor, de pincel e paleta. A versão low-cost implicava o depósito num ossário comum, tudo arrumadinho por partes: crânios para um lado, tíbias para outro, e por aí fora. Objecto de sucessivas e infrutíferas proibições, este espantoso ritual só terá sido defintivamente abandonado em meados do séc. XIX durante tremendas epidemias de peste que assolaram Nápoles.

Tudo isto era explicado pela, a princípio sisuda, guia num misto de italiano e espanhol, que eu ia decifrando e traduzindo aos estarrecidos americanos. À medida que os detalhes se tornavam mais bizarros, traduttore tradittore, comecei com apartes e gracinhas, só para amenizar. Os americanos ripostaram, em grande estilo. Eu transmiti à guia. E a coisa descambou completamente. Overwhelmed com tamanho entusiasmo, desmultiplicou-se em mais disgusting details, sobre o tratamento dado às vísceras e os relatos da época acerca da sistemática insuficiência dos pequenos recipentes destinados a recolher os fluidos dos corpos em decomposição, os quais transbordavam e empapavam o chão de terra batida – sim, o mesmo que nesse preciso momento pisávamos … E, sobretudo, sobre o surreal rissorgimento desta até então esquecida necrópole nas primeiras décadas do séc. XX, em especial durante a Primeira e a Segunda Guerras, quando devotas senhoras napolitanas começaram a visitá-la e, apiedadas do anonimato de tanta e tão indiferenciada caveira, as adoptaram e passaram a cuidar delas – depositando-as em almofadinhas por si costuradas, metendo-os em casinhas, iluminando-as com velas, rezando pela salvação da respectiva alma. E porque muitas dessas almas estariam presumivelmente já no céu (por acesso directo ou cumpridos dois séculos de purgatório) pediam graças e favores junto da corte celeste. Os quais, se atendidos, davam azo a agradecimentos vários, se não, motivavam o despedimento sumário da caveira em apreço, logo substituída por outra, mais competente e menos ingrata. Nisto se passavam longas tardes, aqui e no Cimitero delle Fontanelle, até que, proibido tal culto em 1969, as caveiras foram removidas para este último, entretanto encerrado ao público. Das pilhas e pilhas que ali se haviam amontoado, restavam apenas umas simbólicas  quantas e uma inacreditável colecção de fotografias, que a nossa guia nos exibiu e explicou até ao mais tenebroso detalhe, respondendo a todas as nossas macabras questões.  

A visita, estimada em 45 minutos prolongou-se por mais de duas horas. Entre gargalhadas e exclamações de espanto e horror. Julguei que não aguentava, mas aguentei. Não posso dizer que tenha gostado. Mas que foi uma experiência única, foi. E muito, muito divertida.

Todos os Dias, De Todas as Cores

 

Entrou neste nosso cemitério logo no primeiro dia, mal se abriram os portões

Desde então, quase todos os dias atravessa o oceano para nos visitar

Deixa simpáticos e sentidos comentários, como quem pousa pedrinhas nas nossas campas

De tantas cores quantas as que tem o nome que usa

E tão variados como as cartas do seu tarot

Por aqui recebemo-la sempre com agrado e alegria

E hoje também com um cintilante e colorido

PARABÉNS TURMALINA!