10

Foi em Julho de 1976 — faz por estes dias 35 anos. Pela primeira vez na história das modernas olimpíadas, uma prova de ginástica obteve um 10, a máxima classificação possível. O feito, que o marcador electrónico, impreparado para tal eventualidade, assinalou com um desconcertante 1.00, haveria de repetir-se por mais seis vezes nos dias subsequentes. A protagonista, sempre a mesma: Nadia Comaneci, romena, com apenas 14 anos, a quem a prodigiosa sucessão de sete provas com o score 10* fez ganhar cinco medalhas** e um merecido e incontestado lugar na história.    

Eu tinha 9 anos e estava de férias. Vagueava dias inteiros numa preguiça sem fim à vista que muito me agradava, entre os meus livros, os Legos do meu irmão e as constantes incursões na casa do outro lado do patamar, para fazer palavras cruzadas a meias e ver na televisão as transmissões dos Jogos Olímpicos de Montreal com o meu Avô. Foi sentada no chão, encostada ao braço da sua poltrona, que vi o primeiro 10 e todos os que se seguiram. Tinha por essa altura uma vaguíssima ideia de que existia um país chamado Roménia e nenhuma do que por lá se passava. E estava longe de imaginar o que seria a vida daquela miúda magrinha, de olhos escuros e cabelo apanhado em totós. Gostei de a ver derrotar sozinha o exército de espernéficas ginastas russas. Encantaram-me o seu ar concentrado e sereno e a forma graciosa e aparentemente effortlessly com que fazia aqueles exercícios tão difíceis. E também o ar de girl-next-door, como se o ser-se assim extraordinário estivesse ao alcance de qualquer um.

Seguiram-se mais férias e mais jogos olímpicos, mais proezas e mais deslumbramentos. Mas poucas imagens me tocam, ainda hoje, como estas. A preto e branco, evidentemente.

*Três na competição por equipas e quatro na competição individual, nas provas de paralelas assimétricas e trave olímpica.
** Três de ouro, uma de prata e uma de bronze
Bem lembradas, as toalhas

Esperara pelo meio-dia para lhe ligar. Mesmo assim, acordara-o. Desculpa, mas são os meus óculos, esqueci-me deles aí ontem e fazem-me tanta falta… Posso passar a buscá-los?

Avançou por entre o caos de pratos, copos, garrafas e cinzeiros. Depressa encontrou os óculos, lá onde estrategicamente os colocara mesmo antes de sair, com os últimos convivas do animado serão. Pronto, já os tenho! Esta sala está que mete medo! Deixa-me ajudar-te a dar um jeito nisto! Ele deixou, claro. Vou só tomar um duche, a ver se acabo de acordar … olha se quiseres um café, tens a máquina na cozinha, acho que ainda há cápsulas, eu não demoro. Saiu mas voltou segundos depois. Já me esquecia, a Sara deve estar aí a aparecer, ligou-me ainda agora, esqueceu-se cá dos óculos, diz que ficaram na entrada … 

- Não te preocupes, eu trato dela.

Os óculos, pois claro. Grande sonsa. Passara boa parte da noite num crescendo de irritação a vê-la insinuar-se junto dele, com aquele ar de quem não parte um prato e as duas amigas feiosas a ajudar. E ele, o grande tanso, ainda inconsolável por causa da outra pindérica e prestes a deixar-se enredar, sem dar por nada, na teia da criatura.  

Espreitou os presentes que se amontoavam numa cadeira, entre sacos e papéis de embrulho rasgados. Um jogo de toalhas turcas amarelas. Que espécie de anormal oferece toalhas a um amigo nos anos ? Ainda por cima amarelas … 

Soou a campainha da porta. Ali onde estava ouvia o esquentador na cozinha, a água a correr na casa de banho. Com gestos rápidos despiu-se e descalçou-se. Enrolou-se na toalha amarela maior e pôs a outra na cabeça, tipo turbante. Fez um sorriso radioso e abriu a porta.

- Olá, entra, entra, ele está a tomar um duche, mas não demora.

A outra, estarrecida, pregada ao chão, no patamar, lá fora.     

- eu … os meus óculos … ficaram cá …

- bem sei, são estes, não são? toma … não queres entrar? tomar um cafezinho?

- não, não, obrigada… tenho de ir, tenho mesmo … o carro mal parado, sabes como é …  

Fechou a porta. Vestiu-se e dobrou as toalhas. Dirigiu-se à cozinha e fez dois cafés. Acabara de se sentar no sofá quando ele apareceu. Estendeu-lhe uma chávena.

 - A Sara sempre passou, para buscar os óculos, mas vinha numa pressa doida, nem entrou …

- Numa pressa? Mas se ainda há bocado queria por força vir ajudar-me a arrumar tudo …

- Que estranho … bom, vai-se a ver e arranjou melhor programa… Mas deixa lá isso, tens-me aqui para o que for preciso! Estive a ver os teus presentes … Que bem lembradas, as toalhas: dão sempre imenso jeito, não achas? 

The Prettiest Boys in Rock

Foi a 15 de Junho de 1981, faz foje 30 anos. Os Duran Duran lançaram o seu primeiro e homónimo álbum.

Eram cinco rapazes altamente estilosos. Tinham em comum com os grupos New Wave que por esta altura floresciam o look clean, cuidado e muito elaborado, a contrastar fortemente com a agressiva decadência dos punk rockers. Mas os Duran Duran — cujo nome se terá inspirado, vá-se lá saber porquê, no malvado Dr. Durand Durand de Barbarella -, destacavam-se pela sua flamboyant extravagance: tudo neles era extraordinário, excessivo, quase barroco. O hairstyling, absolutely unique, com tons estridentes, farripas em estudada desordem e enigmáticas franjas a cobrir o rosto. A maquilhagem, muito em especial o eyeliner e o bâton, vermelho, claro. E o traje, sobretudo o traje: uma espantosa profusão de folhos e laços, faixas à cintura e fitas na cabeça, alamares e mangas esvoaçantes, ombros bem enchumaçados e tecidos sempre muito coloridos e brilhantes. Neo-românticos, explicou-me uma amiga cujo irmão, ele próprio também bastante estiloso, estava a par destes trends.

Eu tinha 14 anos e lembro-me de achar o máximo os elaboradíssimos (para a época) videos, as imagens que apareciam all over, e inevitavelmente, os fotogénicos moços propriamente ditos – the preetiest boys in rock, segundo a  revista People. O mais consensual, entre amigas, primas e colegas de turma, sem dúvida Simon Le Bon, o vocalista – se bem que as fífias arrepiantes que volta e meia dava (e que atingiram um delirante auge durante o LiveAid, nesta inesquecível performance de A View To a Kill, do OO7 com o mesmo nome) me enervassem um bocadito. O mais giro, de longe, o baixista, John Taylor.

Por tudo o que antecede, a música não era senão parte de um todo, bem mais vasto e vistoso. Não é que fosse má — que não era. Mas estava longe de ser outstanding. Planet Earth, Girls on Film, Careless Memories, as primeiras, tiveram a sua época lá por casa: comprei o disco, ouvi-as ad nauseam, ainda as sei de cor. Mas depressa passaram, como boa parte dos hits que se foram seguindo. Houve, claro, algumas honrosas excepções: Rio, Hungry like a Wolf, Save a Prayer e quase todas as do álbum Rio (de 1982), Skin Trade. E, above all, a fase Power Station, projecto que envolveu parte da banda e Robert Plant e que se traduziu, entre outros, no fabuloso Some Like it Hot.

Trinta anos volvidos e 100.000.000 de discos vendidos, os Duran Duran, são ainda cinco. Cinquentões e ainda altamente apresentáveis, com a imagem mais sóbria e bem mais sofisticada que sucedeu ao style for style’s sake dos primeiros tempos. Lançaram recentemente, já em 2011, o seu 13.º álbum de estúdio – muito apropriadamente intitulado All you need is now. Indeed we do.

Let’s go, girls

Porque a noite de Santo António é já hoje e o encantador Santo casamenteiro, patrono dos namorados e intermediário de amores desencontrados deve estar para lá de assoberbado com pedidos, súplicas, promessas e, não me espantaria, ameaças. Para que nada vos falte a vós, queridas leitoras, residentes ou visitantes aqui do lindo cemitério… Aqui ficam alguns bem-intencionados conselhos — se infalíveis ou não, pois ya veremos: conto com a vossa interessada colaboração e, claro, aguardo feed-back

Esqueçam o manjerico, o regar e pôr ao luar, com Santo António a ajudar. Não resulta e é, além do mais, perigoso: da primeira (e evidentemente única) vez que o fiz, caíram vaso e manjerico da janela de um sexto andar, em pleno centro de Lisboa. Nada aconteceu no plano da responsabilidade (civil e criminal), o que foi bom, mas o ofertante do manjerico melindrou-se e isso já me fez mais diferença. Adiante, pois.   

Ajuda-te e Deus te ajudará, diz o povo. Sábias palavras que, por maioria de razão se aplicam ao Santo que, apesar dos seus variados e imensos poderes, não consta que seja omnipotente. Há que fazer qualquer coisa, ser mais pró-activa, como soi dizer-se. Como? Pois com música, que a noite é de festa!

Esqueçam o desânimo e o desalento. Larguem a caixa dos kleenex, o chocolate, o pacote de batatas fritas, o comando da televisão. Não me venham com conversas de Lykke Li, de que Sadness is a Blessing: whom are you trying to fool? E caso ainda não tenham percebido, choramingar Hopelessly Devoted to You como a coitada da Olivia Newton-John não vos leva a lado nenhum. Mudem de atitude, é o que é. Que é como quem diz, de música. Ora vejam.  

Porque nestas coisas do coração, como em tudo na vida, cada caso é um caso, o que vale por dizer que cada uma sabe de si e Santo António de todas, trago várias possibilidades: it’s up to you to decide qual a que melhor vos serve.      

Começo pelos casos mais graves: as românticas incorrigíveis. Aquelas que acham que o seu (delas) prince charming lhes vai surgir à frente, vindo do nada, por obra e graça do Santo (e/ou quem sabe de uma rara e favorável conjugação astral). É bonito, lá isso é, e não duvido de que às vezes até aconteça. Mas concordarão comigo que esforçando-se um bocadinho, as vossas chances melhorarão significativamente. Nada de stress: não estou a dizer que avancem, que mostrem o jogo todo, que se declarem – que horror, o que seria!!! É só uma musiquinha, dirigida ao destinatário dos vossos devaneios. Subtil, understated, muito assim-como-quem-não-quer-a-coisa: tipo I’m Not in Love, dos 10cc, ou The Lady with the Braid, de Dory Previn. Pode ser? Sim? Muito bem. Mas se me permitem o conselho – e sei do que falo – não sejam demasiado subtis ou correm o risco de o objecto da vossa paixão nem sequer se aperceber (pior, de ser o amigo do lado a interpretar mal a vossa, chamemos-lhe assim, iniciativa…). Fica, pois, a advertência.

Seguem-se as não menos problemáticas tímidas e/ou desajeitadas, aquelas que até se lançariam para a frente, mas não sabem como e sempre que tentam estragam tudo: afligem-se, engasgam-se, atrapalham-se. Pois rejubilem, meninas: é só lançar mão do infalível Problema de Expressão, dos Clã.

Para as mais afoitas, trago um vasto reportório, que vai do straight to the point ao getting him, dead or alive. Mas antes de o apresentar, fica, bem explícito, o disclaimer: decerto saberão melhor do que eu que é sempre muito variável o êxito dessas abordagens mais, vá, directas, assertivas, óbvias mesmo, por isso vejam lá o que aplicam a quem — e depois não se venham aqui queixar. Para as que dispensam os rodeios, mas não a doçura, sugiro o grande e xaroposo clássico You are the Sunshine of My Life, do Stevie Wonder, mas também Don’t Get me Wrong, dos Pretenders e, pois claro, o super queridinho You Belong With Me, da Taylor Swift. E por falar em clássicos, para a amizade que se transmutou em amor, não há evidentemente que hesitar: Can´t Fight this Feeling, dos REO Speedwagon. 

Já se o vosso caso é extremo e requer medidas extremas, se eles andam a fazer fintas e/ou a mostrar-se desentendidos e se vosotras são mulheres para pôr tudo preto no branco, sem entrelinhas ou rodriguinhos, então fogo à peça, com  I’m Gonna Getcha Good, da intrépida Shania Twain, One Way or Another dos everlasting Blondie ou, em versão lusitana, o Fado Toninho, dos Deolinda.

Ouçam e meditem. Pensem bem naquele por quem bate o vosso coração e façam as vossas escolhas. Decorem, ensaiem – têm ainda umas horas até logo à noite. Para as mais desafinadas, sugiro o envio de link para o You Tube, por e-mail, facebook, whatever … não vão querer estragar tudo, pois não?

Bom ânimo, boa sorte. Façam o que têm de fazer. Santo António fará o resto. So don’t worry, be happy …   

Espiga

Há muito que a Quinta-feira da Ascensão deixou de ser feriado nacional e que a liturgia católica moveu para o domingo seguinte a correspondente celebração litúrgica. Subsiste, porém, neste quadragésimo dia após a Páscoa a colorida tradição da Espiga, radicada em antigos cultos pagãos associados ao ressurgir da natureza após o desolado Inverno.    

Desde tempos imemoriais que ao amanhecer deste dia se apanham no campo espigas de trigo, rebentos e flores silvestres que, atados em ramos, se guardam em casa por todo o ano seguinte. Estes “ramos da Espiga”, diz-se, atraem tudo o que de bom simbolizam as diferentes plantas neles juntas: o trigo o pão; o malmequer o ouro e a prata; a papoila o amor e a vida; a oliveira a paz; a videira a alegria e o alecrim a saúde e a força.

É muito de cidade a minha Quinta-Feira da Espiga. Espreito, manhã cedo, as mulheres com os ramos empilhados em cestos ou em caixotes, um pouco por todo o lado — nos passeios e esquinas mais movimentados, à entrada das lojas, nos corredores do metropolitano. Acho graça à ideia de o campo, primaveril como agora está, vir sorrateiro até nós. Faço por abstrair do facto de os ditos ramos, colhidos de madrugada, quando não de véspera, se apresentarem às vezes murchos e quase sempre muito fanados de papoilas. E também da aterradora hiperinflacção que ano após ano atinge o seu preço. Lembro-me de os ver atrás das portas nas cozinhas de quando eu era pequena. E também da minha primeira casa e do gosto com que nela pendurei o meu primeiro ramo da Espiga. Desde então que, sem falhas, trato das Espigas para as várias casas - a minha, mas também as da família e de amigos — que de tantas formas me pertencem. 

Desta vez trouxe mais um ramo do que é costume. Deixo-o aqui, virtualmente pendurado. Para que tenhamos saúde, prosperidade e alegria, de preferência em abundância. Não posso garantir que resulte em pleno — mas nestes tempos difíceis que correm, it’s worth a try ..

A Chefe de Família

Ana de Castro Osório e Carolina Beatriz Ângelo, 28 de Maio de 1911 (foto de Joshua Benoliel)

Foi a 28 de Maio de 1911. Faz hoje 100 anos.

Carolina Beatriz Ângelo (1877−1911) dirigiu-se à Assembleia Eleitoral de Arroios, instalada no Clube Estefânia, em Lisboa, para votar nas eleições para a Assembleia Constituinte.

Semanas antes, requerera na Comissão de Recenseamento do Bairro onde residia a sua inclusão nos cadernos eleitorais, alegando preencher todas as condições especificadas no artigo 5.º do Decreto com força de Lei de 14 de Março de 1911*: tinha mais de 21 anos, sabia ler e escrever e era “chefe de família” pois, viúva há mais de um ano, provia ao seu sustento e ao da sua filha de oito anos com o seu trabalho como médica (fora a primeira mulher cirurgiã a exercer em Portugal). Perante a recusa de tal pretensão pelo Ministro do Interior, António José de Almeida, recorreu do correspondente despacho para o tribunal. Por sentença proferida a 28 de Abril, o juiz da 1ª Vara Cível de Lisboa, João Baptista de Castro, pai de Ana de Castro Osório (activista dos direitos das mulheres e presidente da Liga das Sufragistas Portuguesas), deu provimento ao pedido da médica e mandou incluí-la nos cadernos eleitorais, considerando que excluir a mulher “de ser eleitora e ter intervenção nos assuntos políticos (…) só por ser mulher (…) é simplesmente absurdo e iníquo e em oposição com as próprias ideias da democracia e justiça proclamadas pelo partido republicano, porquanto desde que a reclamante tem todos os predicados para ser eleitora não pode arbitrariamente ser excluída do recenseamento eleitoral, porque onde a lei não distingue não pode o julgador distinguir”.

Apoiada na autoridade desta decisão, Carolina votou nesse dia. Foi a primeira mulher a fazê-lo em Portugal – e durante largos anos a única.

O episódio teve enorme repercussão mediática e foi entusiasticamente celebrado como uma vitória nos muitos movimentos que em Portugal e por toda a Europa lutavam pelo sufrágio feminino. Mas causou também consternação e, sobretudo, embaraço às autoridades republicanas, muito pouco favoráveis ao voto das mulheres. 

Porque a verdade é que muito embora a letra do artigo 5.º do referido Decreto com força de Lei de 14 de Março de 1911, ao conferir o direito de voto a “todos os portugueses”, aparentemente não diferenciasse homens e mulheres, a intenção do legislador fora — era sabido – bem outra: conceder tal direito apenas aos primeiros. Carolina Beatriz Ângelo, que desde os tempos de estudante militava nas organizações feministas republicanas, tendo-se dedicado muito especialmente à causa do sufrágio feminino, viu nesta incongruência da lei uma oportunidade que tratou de aproveitar.

Para evitar a repetição e, quem sabe, a multiplicação de tão lamentável episódio, o novo Código Eleitoral, aprovado pela Lei de  3 de Julho de 1913, especificava com total clareza que seriam eleitores “todos os cidadãos portugueses do sexo masculino”** — explicitamente negando o voto à mulher. Ainda que fosse letrada e/ou chefe de família.

Carolina Beatriz Ângelo não viveria, contudo, para presenciar este retrocesso na causa em que tanto se empenhara: morreu, poucos meses depois, de ataque cardíaco, a 3 de Outubro de 1911. Tinha 33 anos e a sensação de “ter vivido muito em pouco tempo”***.

 

 

* Artigo 5.º do Decreto com força de Lei de 14 de Março de 1911, estabelecendo as regras a observar na eleição dos deputados à Assembleia Constituinte: “São eleitores todos os portugueses maiores de vinte e um annos á data de 1 de maio do anno corrente, residentes em território nacional, comprehendidos em qualquer das seguintes categorias: 1.º os que souberem ler e escrever; 2.º os que forem chefes de família, entendendo-se como tal aqueles que há mais de um anno, á data do primeiro dia do recenseamento, viverem em commum com qualquer ascendente, descendente, tio, irmão ou sobrinho, ou com a sua mulher, e proverem aos encargos da família.” 

** Artigo 1.º da Lei n.º 3, de 3 de Julho de 1913, estabelecendo um novo Código Eleitoral: “São eleitores de cargos legislativos e administrativos todos os cidadãos portugueses do sexo masculino, maiores de 21 anos ou que completem essa idade até o termo das operações de recenseamento, que estejam no pleno gôzo dos seus direitos civis e políticos, saibam ler e escrever português e residam no território da República Portuguesa.”  

*** Carta a Ana de Castro Osório, Julho de 1911.

Acerca de Livros e de Tempo

 1 — Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?

A Bíblia. Porque apesar das décadas que já levamos de afectuosa proximidade, há ainda muito que nela conheço mal ou compreendo pouco. Porque constantemente dou por mim surpreendida, interpelada e maravilhada pelos novos sentidos e possibilidades que textos e passagens familiares de tão ouvidos, lidos e meditados ganham com a luz que sobre elas lançam as sempre novas inquietações e percepções que a vida nos dá. Porque nela encontro sempre o que procuro de inspiração, de conforto e de simples e desconcertante sabedoria.    

2 — Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

Não, dessa forma atormentada, nunca. Tenho pouquíssimo tempo para ler e muitíssimos livros à minha espera. Por isso, se ao fim de umas quantas páginas um livro não me prende, interessa ou agrada, largo-o e avanço para outro. Sem hesitações, dramas ou remorsos: pouco importa se é problema meu, do livro ou de ambos. Porque, como dizia a minha avó, “o que tem de ser tem muita força”, sei que os nossos caminhos se voltarão a cruzar, if that’s what’s meant to be.

3 — Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?

 A Bíblia. Por tudo o que já disse lá em cima, na resposta à pergunta 1.

4 — Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?

Não é um, são vários. O motivo, sempre o mesmo: falta de tempo, agravada nos últimos anos pela desmedida porção que as leituras jurídicas tomaram do meu tempo e energia. Foi um período nefasto, literariamente falando, que me deu cabo dos apreciáveis ritmo e média que desde criança mantinha e que me atrasou e desactualizou nas leituras. Ando agora a ver se recupero e se levo a melhor sobre a pilha de livros que fui amontoando e que não pára de crescer — muito também por culpa deste blog e do que por lá vou cobiçando. Consigo vê-la daqui, colorida, variada e suculenta: Philip Roth, Martin Amis, Monica Ali, Torrente Ballester, Camilla Lackberg, Machado de Assis, Herman Hesse, Stendhal, Chaucer …

5 — Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?

Foi esta pergunta que primeiro me fez gostar deste questionário. Tenho uma absurda memória de elefante que, no que toca a livros, faz com que raramente esqueça um enredo, por pior que seja, ou um fim. Gosto muito de happy ends e da tranquila certeza do “felizes para sempre”. Mas também me agradam os finais surpreendentes e, sobretudo os incertos, em que quase tudo is left to our imagination. Por razões diferentes, jamais consegui esquecer: a irresignada cena final de Mau Tempo no Canal, a deixar antever outro destino para aquela protagonista; o sublime desfecho de Crime no Expresso do Oriente, porque a justiça às vezes se faz assim; o delirante fim de Os Maias, porque, felizmente, o gosto pela vida pode sempre mais. 

6 — Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?

Sim. Um péssimo hábito que, desde que me lembro, me causou graves problemas: perdi a conta às vezes em que fui repreendida e castigada (com o confisco dos mesmos) por votar ao desprezo os trabalhos de casa ou por ter sido apanhada, altas horas da noite, a ler à socapa. 

Quanto aos livros propriamente lidos, já aqui falei de muitos deles, a propósito das minhas heroínas e das minhas nada-heroínas. Mas nem só de leituras “de menina” se fez a minha infância. Havia os livros deixados pelos meus tios maternos em casa dos meus avós: A Tulipa Negra (Dumas), Beau Geste (P.C. Wren), A Ilha do Tesouro (Stevenson), Dois Anos de Férias, 20.000 Léguas Submarinas, A Volta ao Mundo em Oitenta Dias e Os Filhos do Capitão Grant (Verne), entre outros. Tive uma fase em que lia “a metro”, livros que, antecipando as férias sem fim no campo, em casa dos meus avós, comprava na Feira do Livro, grandes e baratos, sobretudo baratos: todo o Walter Scott e todo o Salgari e mais uns quantos, como O Ultimo dos Moicanos (James Fenimore Cooper) e A Feira das Vaidades (William Thackeray Makepeace). Mas até esses se me acabavam antes das férias. E foi assim que num Verão já distante me lancei desesperada sobre os policiais de que a minha avó e vários tios eram grandes consumidores. Comecei com Agatha Christie, Erle Stanley Gardner/AA Fair, Mickey Spillane, Georges Simenon. Depois, como em todos os vícios, tive de ir aumentando a dosagem — o que ainda hoje faço, com muito gozo e proveito (como? v. a resposta à pergunta 8).    

7 — Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?

Ui, foram tantos, tantos, tantos nos últimos vinte e cinco anos que, para vos poupar – e, assim, conseguir que leiam até ao fim este questionário – me limitarei a um genérico best of, talvez mais apropriadamente worst of … Então, aí vai: boa parte dos manuais e afins das várias cadeiras do curso de Direito e a larga maioria dos manuais e monografias, nacionais e estrangeiras, que tive de ler para produzir, primeiro uma tese de mestrado e, anos depois, uma tese de doutoramento. O pior de tudo? Seguramente as referidas teses de mestrado e de doutoramento – e logo por três sofridas vezes: antes de as entregar, de as discutir e de as publicar.

Porquê? Porque os li até ao fim? Porque é que eram chatos? Basica e respectivamente porque não tinha alternativa e porque that’s the way these things are meant to be … que é como quem diz “o que não tem remédio, remediado está”.

8 — Indica alguns dos teus livros preferidos.

Gosto muito de toda a Jane Austen, de todo o Eça de Queiroz, de todos os Contos do Miguel Torga, de todo o Mário de Carvalho, de quase tudo de Julio Dinis, Camilo Castelo Branco e José Cardoso Pires. Gosto de tudo o que li de Graham Greene, David Lodge, Roald Dahl, Torrente Ballester, Perez Reverte, de quase todo o Vargas Llosa, de bastante Gabriel Garcia Marquez. Sou ainda uma convicta e exigentíssima leitora dos so-called policiais. Gosto muito de muitos dos mais contemporâneos: PD James, Mary Higgins Clark, Patricia Highsmith, Patricia Cornwell, Minette Walters, Philip Kerr, Stieg Larsson, Anne Perry, to name just a few…  

Mas é de “livros preferidos” que tenho de falar aqui. Dos que li, muitos reli, e de que guardo memórias especialmente gratas — porque são em absoluto magníficos ou porque simplesmente no tempo e no lugar em que os li me fizeram muito feliz. Ei-los, sem particular ordem: A Cidade e as Serras (Eça de Queiroz), Mau Tempo no Canal (Vitorino Nemésio), Sinais de Fogo (Jorge de Sena), Contos Exemplares (Sophia de Mello Breyner Andresen), A Morgadinha dos Canaviais (Júlio Dinis), Memorial do Convento (José Saramago), O Milagre Segundo Salomé (José Rodrigues Miguéis), Balada da Praia dos Cães (José Cardoso Pires), Adeus Princesa (Clara Pinto Correia), A sombra da Magnólia (Vasco Graça Moura), Crónica dos Bons Malandros (Mário Zambujal), Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde (Mário de Carvalho), Pride and Prejudice e Persuasion (Jane Austen), The End of the Affair (Graham Greene), How Far Can You Go? (David Lodge), The Little Drummer Girl (John Le Carré), O Nome da Rosa (Umberto Eco), O Ultimo Cabalista de Lisboa (Richard Zimmler), Noble House (James Clavell), Ervamoira (Suzanne Chantal), Crónica de El Rei Pasmado (Torrente Ballester), The Adventures of Tom Sawyer e The Adventures of Huckleberry Finn (Mark Twain), The Catcher in the Rye (J.D. Sallinger), A Tia Júlia e o Escrevedor (Vargas Llosa).

9 — Que livro estás a ler neste momento?

Ando a ver se dou conta do binómio Heart of Darkness (Joseph Conrad) — O Sonho do Celta (Vargas Llosa), que me sobrou da Páscoa … Deus, como a vida muda: agora são as férias que se me acabam tão antes dos livros! Mas nestes últimos dias, dei por mim a ler como quem não quer a coisa, A Humilhação (Philip Roth). E na semana passada desgracei-me noite dentro com os Novos Contos da Montanha (Torga).

10 — Indica dez amigos para o Meme Literário

São três, mas cada uma vale por dez. Se não acreditam, vão lá ver e depois passem aqui só para me dar razão:

Luciana, do Borboletas nos Olhos

Turmalina, da Carta de Tarot

George Sand, de Chez George Sand,

considerem-se desafiadas e, a partir deste momento, alvo da nossa desmedida curiosidade: queremos ler as vossas respostas, saber os vossos gostos e desgostos, cuscar as vossas estantes … não nos façam esperar muito, sim?   

For every skin



Há semanas que a lata redonda esperava, azul e branca, sobre a cómoda do quarto. Pusera-a ali, bem visível, para me lembrar do propósito que me fizera comprá-la e que me trazia dividida entre a sua atraente simplicidade e a sua arriscada ousadia. Segura de que mais cedo do que tarde me haveria de chegar o mood adequado, esperei por tal momento. Que é como quem diz, fui adiando a decisão. Até que num fim de tarde de sábado, saturada de árduos e áridos labores jurídicos, senti que precisava de acção e de emoção. Fui buscá-la e abri-a. 

 

Tudo, mas tudo naquela lata azul com letras brancas me fez de novo pequena, mimada e feliz, de férias com os meus avós. A película prateada e lisa, a atrair-me irresistivelmente o indicador — que tantas vezes lhe espetei, bem no meio, just for the fun of it (e se a visão das ondas de creme a erguerem-se a toda a volta valia bem o que sobre moi depois se abatia…). Aquele cheiro, igualzinho à memória que dele guardava. A textura espessa, tão ruim de espalhar na pele ainda mal seca do banho a seguir à praia. Revi-me contrariada, muito mesmo, a tentar em vão escapar ao vigoroso perfeccionismo da minha avó, firme no propósito de me deixar diariamente a reluzir. A nívea cor, mais branca que a neve pura, decerto diria Camões, a lembrar-me outra neve, a da balada: há quanto tempo a não via, e que saudades, Deus meu…

 

Hesitei por instantes, a ponderar hipotéticos e nefastos desenvolvimentos. Depois encomendei-me aos competentes santos, fiz o gosto ao indicador e lancei besuntadas mãos à obra.

 

Semanas antes, em plena véspera de Natal, presenteara-me com uma carteira. Linda de morrer. Slightly beyond my budget, mas se eu merecia! Explicou-me o amável vendedor, enquanto embrulhava a sublime auto-oferta, como cuidá-la (e às mais que tivesse em casa): creme Nívea. Sim, esse mesmo, o da lata azul. Seguiram-se os detalhes. Imbuída do espírito da quadra, não o quis contrariar ou sequer parecer desconfiada. Mas garanto que era tão enviesado quanto cintilante o sorriso que lhe lancei à despedida, tipo olha-que-tenho-testemunhas-disto-e-sei-bem-onde-te-encontrar

 

Resisti à absurda ideia por uns tempos. Mas a curiosidade pôde mais. Naquele sábado apliquei-me a tratar dos meus amores de perdição — enquanto antecipava qual das belas carteiras que vira na loja iria exigir como compensação de danos patrimoniais e morais em caso de desaire. Depressa cheguei ao fundo da lata. Sobre a mesa da cozinha, vários volumes brancos dir-se-iam bolos cobertos de chantilly. Bolos com formato de carteira. Não pude evitar um calafrio e um ups, será que fiz asneira? antes de fechar a porta atrás de mim e de ir à minha vida. Dormi sobre o engordurado assunto, tentando não pensar muito nele. No dia seguinte tirei o excesso com um pano e rejubilei, ao ver o excelente aspecto que exibiam as estimadas carteiras: macias, lustrosas e, tal como promete a publicidade, intensely moisturised! Ao terceiro dia puxei-lhes o lustro com um pano seco. Ficaram fantásticas, como novas — por menos de € 5, memórias incluídas e side effects muito benéficos nas mãos e braços da aplicadora. O que mais se pode querer?

 

O creme Nívea faz 100 anos. Foi em 1911 que começou a ser comercializado pela Beiersdorf. A fórmula, altamente secreta, permanece até hoje inalterada. Já a uber famous embalagem azul com letras brancas remonta a 1925. Um século volvido, continua em grande, inabalado pela concorrência e pela profusão de linhas especializadas em que se desdobrou a fortíssima marca que ajudou a criar: só no ano passado terão sido vendidas 100.000.000 de latas redondas worldwide.

 

Mais uma festiva razão para juntar aos favorites domésticos este autêntico beauty classic, imbatível a acalmar escaldões, consertar mãos secas, amaciar cotovelos, esbater cicatrizes e marcas de borbulhas — e comprovadamente eficaz em utilizações à primeira vista menos convencionais, mas afinal bem conformes com a garantia dada pelo seu fabricante: for every skin type.

TODO MUNDO QUER IR PRO CÉU …

 … MAS NINGUÉM QUER MORRER. É uma das frases da minha vida. Apropriei-me dela vai para muitíssimos anos quando para sempre me encantei com os delirantes Blitz e o delicioso Romance da Universitária Otária – a tal “que não sabia se fazia oceanografia ou veterinária”, se “dava bem em redação” e que “era boa em línguas mas não sabia beijar” …  

 Uso-a constantemente, ainda que - needless to say – em contextos um tanto diversos do do expressivo e expedito Abreu da música. Porque é tão autêntica quanto desconcertante, tão certeira quanto divertida. Para além de edificante, claro, pois exprime de forma irrefutável a ideia de que tudo o que vale a pena na vida requer esforço, trabalho e empenho. E também disciplina, opções e renúncias. Que custam, pois claro que custam, às vezes muito. Mas a verdade é que não há outro caminho – para ter boas notas, escrever uma tese, levar projectos a bom porto, realizar sonhos, educar crianças, ter boa figura ou boa pele, criar e manter laços de afecto e de amizade.

E, bem vistas as coisas, uma vez atingidos os objectivos, tudo parece bem menos penoso: prova de que casos há em que afinal os fins justificam os meios

 

The things that dreams are made of

Aquilo que estavas a contar há pedaço no balneário, de sonhares com os dois carros, a curva, a estrada amarela de giestas… Não disse nada porque a da lycra lilás, a new-age-morta-de-fome estava a tentar ouvir, para se meter, o costume, mas sabes que eu também… isto é o meu telemóvel? é, não é? deixa cá ver … número privado … melgas, eles que liguem depois, à hora do meu almoço é que não … queres ficar cá fora? temos ali uma mesa vaga com guarda-sol. Onde é que eu ia? Já sei, os teus sonhos. Tudo isso me parece perfeitamente compreensível, normal, sabendo o que foi aquele dia… Ouve, quase ninguém sabe disto, mas a mim acontece-me o mesmo — com o meu avô, lembras-te dele? É claro que te lembras! Muitos cigarrinhos lhe fanámos eu e tu … e ele sempre a fingir que não dava pela falta! Fez agora vinte anos que morreu e acreditas que volta e meia sonho com ele? Mas o mais estranho é que sonho no presente: que está vivo, que conversamos … Vejo-lhe o sorriso e os gestos de sempre: descasca com o canivete e dá-me, um por um, os quartos da maçã vermelha que acabou de escolher e apanhar; pega nas minhas crianças (que nunca conheceu) ao colo, como fazia comigo … e elas num deslumbre, a mirar tudo tão de lá de cima, tão seguras naqueles braços fortes. Uma vez contei àquela minha prima que é vagamente psicóloga: fez um ar muito douto e explicou-me que são coisas mal resolvidas. É claro que são coisas que temos mal resolvidas. O quê? No teu caso, talvez aquele desfecho, o ainda hoje não se saber ao certo o que verdadeiramente se passou no carro da frente antes de … No meu? Pois, perguntas bem … A morte? Não, a morte não. Quero dizer, custou-me muito, sempre soube que ia custar, mas também sempre soube que ia acontecer. Saudades? Tenho imensas, claro, éramos muito próximos … mas não, não é isso … Cada vez mais acho que foi a forma como tudo se passou … lembras-te? Éramos para ir lá para a Páscoa, depois à ultima hora não fomos, já nem sei porquê, até se combinou para daí a tempos, nuns feriados… e de repente, sem mais nem menos, sem se estar à espera… ainda hoje gelo quando um telefone toca lá em casa de madrugada. Nada a fazer. Nem sequer dizer adeus. Sabes, às vezes acho que é mesmo isso. É um bocado estúpido, eu sei. Porque, a bem dizer não teria feito qualquer diferença: assim como assim morria na mesma, não é? Mas a mim fez. Fez muita. Gostava de me ter despedido dele.  

 

PS: O nosso PN disse aqui — e muito bem — que Março é quando o homem quiser. Pois eu digo mesmo mais: Abril é quando uma mulher quiser.

35

Faz hoje 35 anos que entrou em vigor. A data, simbólica, fora aprovada junto com o seu texto, dias antes, a 2 de Abril de 1976, em sessão solene da Assembleia da República.

Os nossos caminhos cruzaram-se fugazmente nos tempos do liceu (e de umas soporíferas Noções de Administração Pública), mas só mais tarde fomos formalmente apresentadas, vai para 25 anos, na cadeira de Direito Constitucional, corria o ano lectivo de 1986/1987.  

Visto a esta distância, o nosso não foi um caso de amor à primeira vista. Nem sequer de grande empatia. Achei-a desmedida no tamanho, excessiva na regulamentação, incompreensível e até incómoda, aqui e além – apesar de a revisão de 1982 lhe ter já reduzido o número de artigos e, de caminho, despachado o Conselho da Revolução para a “parte histórica” da matéria, junto dos pactos MFA-partidos e das Constituições desde 1822. Desesperei com a imensidão da reserva absoluta e relativa de competência legislativa da Assembleia da República, a aridez do elenco dos actos normativos, a vexata quaestio do valor jurídico a atribuir ao seu preâmbulo e as nuances do princípio do não retrocesso social. E estranhei, to say the least, a expressa proclamação do carácter irreversível das nacionalizações pós-25 de Abril e de que íamos todos rumo ao socialismo, a proibição do número nacional único e a imposição do método de Hondt na eleição dos deputados. Ainda assim — e por via da minha bússola que, já então, de tudo me apontava o bright side -, fascinou-me a impossibilidade de auto-mutilação e/ou auto-destruição ínsita nos limites materiais inatingíveis através da sua própria revisão e agradaram-me (como não?) o elenco e o regime dos direitos fundamentais. Gostei da sua abrangência e abertura e, sobretudo, da limpidez e da lisura de intenções dos constituintes — que para sempre baniram as infames cláusulas de excepção que no articulado da Constituição de 1933 permitiam restringir severamente tais direitos, em nome do bem comum ou, no caso das mulheres, em nome da sua natureza e do bem da família. E simpatizei de imediato com o princípio da igualdade — da latitude da fórmula adoptada ao auspicioso 13 do artigo que ainda hoje o acolhe.    

Valha a verdade que a moderação do meu inicial entusiasmo pela nossa Lei Fundamental se deveu menos à própria e suas particularidades que ao facto de, por essa altura, mon coeur être bien ailleurs: no segundo ano de um curso que escolhera porque dava “para fazer montes de coisas” (todas fora do mundo jurídico) acabara de me encantar com o Direito Civil, o primeiro e mais duradouro dos meus amores jurídicos. E foi pela mão deste, em especial dos seus ramos de Família e de Sucessões, que redescobri e ganhei respeito e afecto à Constituição, ao estudar as suas decisivas repercussões no jurássico (mesmo para os padrões da época) articulado do Código Civil de 1966 — suprimindo o poder marital, o direito do marido de dirigir os assuntos da família, a diferenciação entre filhos legítimos e ilegítimos e outras iníquas e injustificadas opções. Seguir-se-iam igualmente gratificantes (re)descobertas em matéria de Direito Penal e de Direito Processual Penal. Mas o melhor estava ainda para vir. Foi com o “meu” Direito do Trabalho que, ao longo de já quase duas décadas aprendi, primeiro a viver com, mais tarde a respeitar e a apreciar, a presença marcante e fortemente garantística da Constituição em todas as vertentes das relações laborais. Um percurso nada fácil, porque nem sempre linear ou isento de sobressaltos – basta recordar a controvérsia que sempre rodeia a aprovação e/ou a alteração de qualquer diploma nesta área, com destaque para o “pacote laboral” de 1989, o Código do Trabalho de 2003 ou a sua recente revisão de 2009. Mas um percurso inquestionavelmente estimulante e gratificante – e, porque não dizê-lo, tranquilizante. Porque a verdade é que me tranquiliza saber que a Constituição garante e subtrai à lei ordinária (leia-se aos sucessivos governos e maiorias) e à conjuntura, seja ela qual fôr, a proibição de despedimento sem justa causa (i.e., sem uma motivação suficiente e socialmente adequada), a existência de um salário mínimo, a igualdade em matéria retributiva (“a trabalho igual, salário igual”), as férias, o direito à greve e a contratação colectiva — mas que o faz sem de modo algum os absolutizar, antes os fazendo coexistir e articularem-se com os princípios da liberdade de empresa e da livre iniciativa económica privada. Muito por tudo isto, e ao fim deste tempo todo, pode dizer-se que somos hoje boas amigas.

Faz hoje trinta e cinco anos a nossa Constituição. E se as sete revisões a que o seu texto foi submetido lhe suavizaram a linguagem, alteraram normas e reviram opções, preservaram, contudo, o essencial do seu projecto de sociedade “livre, justa e solidária” — um projecto ambicioso e idealista, imbuído de um profundo, radical e empenhado optimismo e feito de consensos e de compromissos. Tão necessário há 35 anos, como nos tempos duros e exigentes que agora vivemos.  

Enganosamente estranho

Persuasion é o segundo dos meus dois estranhos melhores livros que, em resposta ao desafio lançado pelo Manuel, aqui me propus (e aqui comecei a) revelar. Publicado postumamente, em 1818, foi o sexto escrito e o último completado pela sua autora, Jane Austen (1775−1817). E calhou ser também aquele que conheci depois de todos os seus outros, já vários anos volvidos sobre as primeiras e adolescentes leituras de Pride and Prejudice, Sense and Sensibility e Emma.  

São várias as razões que o tornam estranho. E também inesperado, complexo e muito tocante e belo.  

 Quando pela primeira vez li Persuasion de imediato lhe estranhei os contrastes com os demais, contrastes bem nítidos nos traços mais tipicamente “Jane Austen” que mos tornavam tão gostáveis: a desconcertante (to say the least) protagonista, Anne Elliot, um plot em que presente e futuro surgem inapelavelmente condicionados por eventos passados e cujo relevo o próprio título parece reforçar, a paleta de tons invulgarmente carregados, às vezes sombrios, que a autora usa ao longo de toda a narração. 

Num primeiro relance, Anne Elliot define-se essencialmente pelo que não é: desenvolta e destemida como Lizzie Bennet, sensata e outspoken como Elinor Dashwood, alegre e despreocupada como Emma Woodhouse, vibrante e espontânea como Marianne Dashwood.

Esta primeira impressão de apagamento é magistralmente intensificada pela própria Miss Austen, que ao longo dos primeiros capítulos nos faz ainda saber que Anne Elliot — de novo ao contrário de todas as suas outras protagonistas — não é jovem nem bela. Com 27 anos está já bem para lá da idade casadoira (e em vias de se tornar uma solteirona, com tudo o que isso implicava de dependência familiar e de irrelevância social). Pior, se “a few years before Anne Elliot had been a very preety girl, her bloom had vanished early”, e apesar das suas “delicate features” e “mild dark eyes”, apresenta-se “faded and thin”. 

Mas há mais: caso único entre as heroínas austenianas, Anne Elliot não espera viver um grande amor, menos por força destas suas particularidades - que, convenhamos, a tornam hardly eligible para casar adequadamente e menos ainda para suscitar uma qualquer romantic infatuation -, do que por uma outra e bem mais trágica razão: anos antes, a muito jovem Anne, seguindo desacertados conselhos, recusou casar com aquele que foi o amor da sua vida, mas que se apresentava, a diversos títulos, como um unsuitable match for a lady of her standing.

To make matters worse, Anne Elliot vive rodeada de gente tonta e apegada a valores crescentemente desfasados da realidade e dos novos tempos que se vivem que, com raras e amigas excepções, a depreciam e desconsideram: para o seu pai e irmãs “(she) was nobody (…) her word had no weignt, her convenience was alwaysto give way – she was just Anne”. Compreensivelmente solitária, contida e quase invisível.

Diante deste desolador panorama, não se estranharia que o devotado leitor de Jane Austen esmorecesse no seu gosto e ponderasse seriamente abandonar Persuasion ainda antes de chegar a meio. Estranhamente, porém, não é o que sucede – falo por mim e por tantos, tantos outros. Persuasion lê-se com um encantado e crescente fascínio, que nos impede de o pousar antes do fim. Muito pela sucessão de eventos a que a engenhosa Miss Austen submete a sofrida Anne Elliot — um sério reversal of fortune familiar, um inesperado reencontro que traz à superfície amargura, ressentimento e outros dolorosos vestígios de um passado muito mal-resolvido, um pretendente tão irrecusável quanto inadequado. Mas, above all, pela formidável figura que, página a página, se nos revela, sem artificiosos volte-faces ou twists. Sendo tudo aquilo que dela aqui se disse, Anne Elliot é também muito mais e muito melhor: madura e serena, intuitiva e observadora, empática e generosa, persistente nos afectos e confiante nas suas percepções e nas avaliações que faz dos outros e das situações — quase se adivinha que muito à imagem e semelhança da sua criadora, que por essa altura da sua vida decerto desenvolvera e aprendera a valorizar tais características.

Tudo isto torna Persuasion extraordinário e Anne Elliot a mais elaborada e consistente das figuras femininas saídas da pena de Jane Austen. Lembro-me de ter gostado muito quando primeiro o li. E sei que gosto mais em cada releitura, tanto mais que de há tempos para cá Persuasion encabeça o top dos meus favoritos, ex-aequo com Pride and Prejudice. Estranho? De todo. A idade, já se sabe, tem destas coisas…

 

PS — O passa ao outro e não ao mesmo que ainda aqui tenho para lançar vai para a EUGÉNIA, que muitos de nós can hardly wait que nos revele o mais estranho melhor livro que leu …  

Diabolicamente estranho

The Screwtape Letters é o primeiro dos meus dois estranhos melhores livros que, em resposta ao desafio lançado pelo Manuel, aqui me propus revelar. Publicado em fascículos semanais no The Guardian, entre Maio e Novembro de 1941, foi editado em livro no ano seguinte. O seu autor, o irlandês C. S. Lewis (1898−1963) foi investigador e professor de literatura medieval inglesa em Oxford, crítico literário e escritor. Nascido e educado numa família pertencente à Church of Ireland, tornou-se ateu na adolescência e converteu-se à Church of England em 1931, muito graças aos esforços do seu colega e amigo, o católico J. R. R. Tolkien — a quem é dedicado este livro que vos trago.  

São várias as razões que o tornam estranho. E também surpreendente, corrosivo e muito, muito divertido.   

The Screwtape Letters é-nos apresentado como um exorcismo. O seu prefácio adverte que os demónios existem e que entre os maiores erros em que com frequência incorre a humanidade, para seu (deles) gozo e vantagem estão o descrer na respectiva existência e o subestimar-lhes a capacidade, reduzindo-os a estereótipos absurdos e evidentemente falsos. Ora, nada mais perigoso para os incautos humanos – que, lendo este livro, ficarão a saber como é que os demónios os vêm e conhecem e como tramam e conspiram para os desgraçar, tirando partido da sua unawareness, que os deixa desprevenidos e da sua natureza, que os torna particularmente receptivos a todo o tipo de tentação.

Enquanto exorcismo, The Screwtape Letters é tão atípico quanto o são os meios que utiliza: em vez de benzeduras, ladainhas, cruzes, imposições de mãos e afins, o riso e o ridículo, suportados por um inteligente e impiedoso sentido de humor. A eficácia de uma tal opção, essa é garantida, logo de entrada, por duas portentosas figuras da dividida cristandade, que convergem quanto a este ponto:  Lutero e Tomás More themselves, a afirmar, respectivamente, que “the best way to drive out the devil, if he will not yield to texts of Scripture, is to jeer and flout him, for he cannot bear scorn” e que “the devil … the prowde spirite … cannot endure to be mocked”.

Sucede, porém, que uma análise mais atenta de The Screwtape Letters nos revela que, apesar de os seus principais protagonistas serem demónios, de nos dar um full e delirante insight de como estes congeminam, actuam e se (des)tratam uns aos outros, nada nele é como acabo de dizer (ou apenas isso): nos dois anteriores parágrafos, como no começo do livro, do que se trata é essencialmente de atrair e prender o leitor…

The Screwtape Letters é um espelho. Um daqueles espelhos de feira que nos devolve uma imagem grotesca e cómica, mas na qual, ai de nós, nos revemos … Qualquer um que, ao lê-lo, solte uma boa gargalhada – e muitas vezes, garanto, isso sucederá — é de si mesmo que ri. Porque The Screwtape Letters é uma crítica tremendamente certeira à natureza humana em geral e aos cristãos em particular. Quanto a estes e ao modo como vivem a sua fé, nada escapa: da espiritualidade estéril que os desliga da realidade e torna insensíveis aos que os rodeiam e às suas necessidades à experiência meramente intelectual das virtudes, sem qualquer reflexo na prática, passando pela caridade exercida de forma voluntarista e massacrante para os seus destinatários ao orgulho na própria religiosidade e virtude. Através de um percurso muito, muito retorcido sobre a tentação, o pecado e sobre a forma gradual, imperceptível e insidiosa como estes podem conduzir o mais comum dos mortais, através da mais banal das existências e sem necessidade de feitos espectacularmente atrozes, à condenação e ao inferno, The Screwtape Letters mostra afinal que, não desfazendo na competência do demónio tentador que a cada um nos saia em sorte, qualquer humano tem em si all that it takes para inapelavelmente se desgraçar — e sem disso sequer dar conta, tão seguro está da sua rectidão de vida. Estranho? Vai-se a ver e se calhar não … 

Quanto ao conteúdo do livro e numa síntese breve e praticamente spoiler-free, The Screwtape Letters é uma série de 31 cartas dirigidas, como o próprio título o indicia, por Screwtape, um demónio velho, astuto e muito vivido, ao seu sobrinho, o jovem, inexperiente e impetuoso Wormwood, a iniciar uma carreira como tentador de humanos (aos quais deve incutir, se necessário, a descrença e fazer cometer pecados de toda a ordem, de modo a assegurar a sua perdição). Nas suas cartas, escritas em resposta às que recebe de Wormwood, Screwtape congratula-se com os progressos que este lhe relata e responde às suas questões. As mais das vezes, contudo, exaspera-se e repreende-o pela sua insensatez e incompetência e tenta transmitir-lhe alguma da sua sabedoria, dissertando sobre Deus, o homem, a oração, a ciência, a idolatria, a guerra, os pecados, a virtude e a tentação. É através destas cartas que vamos também conhecendo the patient, o homem que Wormwood tem de tentar: um recém-convertido ao cristianismo, que se dá com companhias mundanas, se apaixona por uma rapariga muito devota e virtuosa, se angustia perante a perspectiva de ser mobilizado para a guerra e teme os ataques aéreos que na sua região se multiplicam…

Screwtape e Wormwood vivem num mundo ao contrário, no qual The Enemy  (por vezes referido as Our Oppressor) é Deus e Our Father Below o Diabo himself, São Paulo é referido como that pestilent fellow Paul e a organização administrativa infernal tem o nome de Lowerarchy. São deliciosamente desconcertantes as considerações de Screwtape sobre, entre outros relevantes assuntos, that discreditable episode known as the Incarnation (oh, that abominable advantage of the Enemy!), those disgusting little human vermins, those amphibians, half spirit and half animal ou sobre os desires of the flesh e a bebida como caminhos de perdição: never forget that when we are dealing with any pleasure in its healthy and normal and satisfying form we are, in a sense, on the Enemy’s ground (…) for he made the pleasures, all we can do is to encourage the humans to take them at times, or in ways, or in degrees in which He has forbidden…

 A concluir, e para ter a certeza de que ficam completamente rendidos, deixo-vos com mais duas pérolas do meu e espero que por esta altura já vosso affectionate uncle Screwtape:    

To be greatly and effectively wicked a man needs some virtue. What would Attila have been without his courage, or Shylock without self-denial as regards the flesh?

It does not matter how small the sins are provided that their cumulative effect is to edge the man away from the Light and out into the Nothing. Murder is no better than cards if cards can do the trick. Indeed the safest road to Hell is the gradual one — the gentle slope, soft underfoot, without sudden turnings, without milestones, without signposts.

 

 

PS — O primeiro dos meus passa ao outro e não ao mesmo vai para o GONÇALO, que muito gostaria que nos falasse do mais estranho melhor livro que leu …  

O meu estranho melhor livro: é só para avisar que são dois

O Manuel lançou o desafio. Passou-o à Marta, que o passou a mim. Qual foi o mais estranho melhor livro que leste?

Gosto deste surpreendente desafio, que nos faz lançar um outro olhar sobre as nossas estantes, em busca dessa gostável estranheza que não incomoda e afasta, antes interessa, atrai e para sempre prende. E que nos permite espreitar inesperados recantos das estantes dos outros, não à socapa (como tantas vezes se faz quando se visita a casa de alguém) mas melhor, muito melhor, porque guiados pelo seu gosto e pela sua sensibilidade, que verdadeiramente fazem aqui toda a diferença – a começar na explicação do que leva cada um a qualificar o livro como estranho (o tema? o enredo? o desfecho? o contraste com o que se é, se pensa, se vive?), a escolhê-lo e, sobretudo, a fazê-lo seu.     

Chegada que é a minha vez, impõe-se a breve advertência que motiva este post. Um primeiro raid às minhas prateleiras e às pilhas de livros que se amontoam no chão junto das mesmas resultou num preliminar (e evidentemente estranho) montinho que, sem dramáticas hesitações, depressa reduzi a dois, os quais andaram comigo toda a passada semana (Deus terá decerto um lugar no Céu para quem lançou a moda das carteiras XXL). Folheei-os, reli passagens, aqui e além embrenhei-me e, needless to say, desgracei-me reiteradamente com as horas e os horários. Mais de uma vez me decidi por um, para escassas horas volvidas, escolher o outro ou, pior, querer os dois.   

Perante tamanha dificuldade e também a título de penitência quaresmal – para mim que, por ser voraz e me não conseguir resolver vou ter de escrevinhar mais, para os que têm a bondade de me ler (o que, rest assured, muito conta para desconto dos vossos pecados), e que levam não com um, mas com três posts sobre o mesmo tema, a começar já neste.

Então é assim: vou publicar ao longo desta semana, começando ainda hoje (espero) os meus dois estranhos melhores livros. Há muito que um e outro me são muito queridos, e por muito diferentes motivos: o primeiro por ser tão diabolicamente divertido e retorcido quanto inesperadamente sério e profundo, o segundo por ser o mais sombrio e, não obstante, o mais luminoso dos sempre luminosos livros escritos por aquela que é uma das minhas escritoras preferidas.

 

PS – Aos meus muito queridos companheiros de sepulcro ainda não desafiados aproveito para avisar que, tendo o Manuel modelado o presente desafio como “passa ao outro e não ao mesmo” em versão dupla, irei cumprir essa parte do mesmo igualmente em prestações, dividindo os dois desafios que me cabe lançar pelos dois textos que se seguem: cada um trará um.

Monday, Monday

Tell me why, I don´t like Mondays. A questão, lançada por Bob Geldof com os seus Boomtown Rats nos já remotos idos de 1979 é, evidentemente, retórica.

Segunda-feira não é dia de que se goste e o motivo é simples. Por mais estimulante que seja o que se faz, por melhor que seja o ambiente que nos espera, por mais gratos que sejam os frutos que do nosso esforço colhemos, custa sempre regressar ao trabalho ou à escola, mudar de registo, passar do tranquilo remanso do fim-de-semana aos ritmos frenéticos do despertador e dos compromissos de toda a ordem que sobre nós avançam, tremendos e formados em bélica lista de To Do’s. Não há volta a dar-lhe: a segunda-feira suporta-se com doses adequadas de ânimo e de estoicismo, mas não é dia que se deseje ou se antecipe com entusiasmo. A menos que se esteja em férias. Ou que seja feriado, bem coladinho ao fim-de-semana. Ou ainda, worst case scenario, que haja sido dantesco o fim-de-semana, entre crianças doentes, noites mal-dormidas, termómetros, antibióticos, máquinas de aerossóis e papas de arroz e cenoura, em ininterrupta performance tipo-Florence-Nightingale-com-fada-digo-santa-mártir-do-lar: neste caso, e mesmo só neste, é a chegada da manhã de segunda-feira que nos  liberta, permitindo-nos sair de casa para enfrentar horas do mais duro trabalho com o melhor dos sorrisos.  

Tudo isto explica a minha estranheza quando aqui há tempos constatei, completamente por acaso, a despropositada quantidade de músicas dedicadas à segunda-feira ou com alusões à mesma.

Monday, Monday, dos The Mamas & The Papas, I Don’t Like Mondays, dos Boomtown Rats, Blue Monday, dos New Order, Manic Monday, das Bangles, New Moon on Monday, dos Duran Duran, Stormy Monday, de T-Bone Walker, Monday, dos Wilco e Monday dos The Jam — e isto to name just a few. À segunda-feira se referem também os Beatles em You Never Give Me Your Money e os The Cure em Friday I´m in Love.

Não é que não existam muitíssimas músicas dedicadas aos outros dias, sobretudo ao que integram o fim-de-semana. O que por completo me escapa é o que leva alguém a querer cantar a segunda-feira. Pior, a assumir que alguém possa estar interessado em ouvi-lo. A única explicação que me ocorre prende-se com o desagrado que rodeia tal dia: só pode tratar-se de desabafo, de catarse de um por aí fora de emoções negativas que com este pretexto se exteriorizam. Uma rápida análise da letra da maior parte das monday musics confirma esta minha teoria. Um primeiro grupo basicamente vitupera a segunda-feira – com as piores intenções, como o grande clássico I Don’t Like Mondays (I wanna shoot the whole day down), num tom mais levezinho, mas nem por isso menos expressivo, como Manic Monday (these are the days when you wish your bed was already made), em desolado e desconfiado abandono, como Monday, Monday (can’t trust that day) ou sem quaisquer ilusões, caso de Friday I´m in Love(I don’t care if Monday’s black, inclusive, Monday you could fall apart). Outras não aludem directamente ao dia, mas o seu sombrio contéudo, rico em lamentos e/ou recriminações, indicia que só podem ter sido escritas numa (ou na sequência de uma) segunda-feira — e das difíceis, digo eu: vejam-se Blue Monday, Stormy Monday, You Never Give Me Your Money e até o críptico New Moon on Monday.

Mas será que resulta? Será que estas músicas funcionam realmente como antídoto para os monday blues? Nada como experimentar. Proponho-vos que cliquem num link à vossa escolha, de entre os que aqui vos deixo. Se a gravidade do caso o justificar, pois cliquem em vários, cliquem em todos. Cantem e/ou trauteiem, logo pela manhã e ao longo do dia. A ver o que acontece.

Boa segunda-feira para todos. Dentro do possível, claro.

Short Story de Abril
Miguel Telles da Gama, Sem Título, acrílico sobre tela, 2006*

Há uns anos que me cruzo com ele, em casa de muito queridos amigos. Quando chego, já lá está. Sempre sentado, sempre no mesmo lugar, de onde tão bem se avistam a sala, a sala de jantar e tudo o que por lá se passa. Nunca lhe ouvi uma palavra. Fuma, aparentemente alheado da nossa ruidosa presença. E no entanto, todos sabemos que nos observa, que nos ouve as conversas, as discussões e as gargalhadas, que repara em cada detalhe dos nossos épicos jantares – tenho mesmo para mim que, à socapa, vai tomando nota dos vários e sempre fantásticos tintos de que, com método e proveito, damos conta no decurso dos mesmos. Depois volta, absorto, às suas cogitações.   

Há uns anos que me cruzo com ele, dizia. E que tento, sem êxito, decifrá-lo. Uma ou duas vezes senti-o preocupado, quase tenso. Mas em geral parece-me satisfeito consigo próprio, realmente satisfeito, enquanto contempla, triunfante e controlador… muito gostaria eu de saber o quê! Devo confessar que ao fim de todo este tempo, e apesar de alguma familiaridade que inevitavelmente traz a reiterada convivência, subsistem, da minha parte, mixed feelings: tão depressa o senhor quase me cativa, afável e cortês, como me deixa de pé atrás, pelos ares sarcásticos, quando não completamente lúbricos, que lhe surpreendo. Vá lá uma mulher tentar perceber este homem, que é como quem diz os homens em geral.  

Por tudo isto, decidi trazê-lo aqui para o cemitério, onde vai passar o mês de Abril. Para que os meus argutos, sabedores e inspirados companheiros de sepulcro finalmente desvendem quem é ele, onde e com quem está, para onde olha ou parece olhar… A ver se de uma vez por todas fico, ficamos todos, a saber what he is really up to e porque é que aquele cigarro não é – como, de resto, não parece ser - um mero pensativo cigarro…

 

* Esta imagem — a única que consegui surripiar e trazer para aqui, corta uma parte da tela original, que é quadrada e tem mais uns detalhes que, em querendo, podem espreitar aqui, com o n.º 17.  

Como uma tela em branco

Chegara nos primeiros dias de Março. Arrendara a casa branca sobre as dunas, virada ao mar. Viera só, estava sempre só. E sempre de branco. Manhã cedo passeava na praia. Recebia poucas cartas e nenhumas visitas. Nas contadas vezes em que fizera compras na vila mostrara-se cordial mas distante. Era grande a curiosidade acerca daquela mulher pálida e frágil. O que a trouxera até ali? Desgosto, para muitos. De amor, claro. Tragédia, não era caso para menos, havia quem garantisse: tão nova e bonita, a vaguear como um fantasma naquele fim de mundo.   

Também entre os artistas, como eram conhecidos na terra, se comentara a misteriosa figura. Apesar da dor que prostrava muitos dos que ali se juntavam - os que vinham da cidade, mal surgia a Primavera, atrás daquela luz única e os que permaneciam o ano todo, enquanto o céu e o mar a mudavam de cor. Fora um Inverno gelado de inesperadas mortes. Primeiro a mulher de Tomás, a dar à luz a segunda criança de ambos, que também se não salvara. Semanas depois, o marido de Ana, numa queda de cavalo. O desespero de Tomás, o desamparo da sua filha, tão pequena, a apatia de Ana agravavam o desgosto da irmã e dos irmãos dos desaparecidos. As conversas morriam, os serões acabavam cedo. Uns retiravam-se, para longas vigílias sem sono. Outros ficavam a beber, noite adentro. Às vezes discutiam. Todos haviam deixado de pintar: as telas brancas trazidas pelos que iam chegando empilhavam-se por todo o lado.    

Mas a curiosidade é uma força poderosa. As deambulações matinais da mulher de branco não passaram despercebidas a uns quantos membros do desolado grupo que, do alto de uma falésia, começaram a observá-la e, logo depois, a desenhá-la. Numa visita à casa branca Ana e Luísa haviam descoberto que também ela pintava. A conversa fluira e, abandonando a sua reserva, mostrara-lhes os trabalhos em que ocupava as tardes. Na parede da sala, o retrato de uma criança loura, a mesma que aparecia em quase todas as fotografias. Ao canto, uma enorme casa de bonecas, montada, mobilada e habitada. Nenhuma ousara perguntar, mas quando dias depois Luísa regressara, trazia consigo a sobrinha, filha de Tomás. Fora imediata e intensa a ligação entre a mulher de branco e a criança. O tempo passara depressa, esta a brincar na casinha, aquela absorta a vê-la, enquanto escutava Luísa. Nessa noite, e pela primeira vez em meses Tomás sorriu, ao ouvir o relato da filha. Prometeu que no dia seguinte iria com ela ver tal maravilha. Foi e ficou a tarde toda. Um jantar de conversas e risos em casa de Luísa selou a entrada do novo membro no grupo. Dir-se-ia que a desanimada desconhecida a todos insuflara novo ânimo. A todos não.

Ana mantivera-se à margem do entusiasmo geral, desconfiada e ressentida. Sempre gostara de Tomás, resignara-se mal ao casamento dele com a sua melhor amiga, fora até feliz com o seu marido. Mas a morte quase simultânea de ambos vira-a como um estranho sinal – de que talvez tivesse chegado a altura de Tomás e ela ficarem juntos. Então aparecera a mulher de branco. Que dia a dia se libertava da densa tristeza que a tolhia e se revelava gentil, alegre e talentosa. Não achas estranho não sabermos nada sobre ela? É como uma tela em branco. Dissera-o varias vezes a Luísa, que ria e respondia. E que mal é que isso tem? Uma tela em branco pode vir a ser o que se queira! Escrevera a uma prima, que sabia sempre tudo sobre toda a gente. Quem seria ela afinal, que vida fora a sua, da qual não falava? Várias semanas passaram. Tomás recuperara o sorriso. Recomeçara a pintar. Ao lado, no terraço de casa dela, a mulher de branco sorria também. O branco do vestido já nada tinha de mortalha, iluminava-lhe os traços suaves e a figura esbelta. 

Era já Setembro. O almoço juntara-os todos, desta vez em sua casa, e prolongara-se pela tarde, em brindes e discursos. Arrefecia. Ana entrou  para buscar um agasalho. Na sala, a lareira já acesa. Sobre a mesa, o correio. A carta que esperava. Volumosa. Pegou nela. Reviu o sorriso de Tomás, de pé, no meio dos outros. A criança loura aninhada no colo branco, envolvida pelo braço dela. Ouviu o som dos copos a tinir e das gargalhadas, lá fora. Atirou a carta fechada para as chamas, pegou no xaile de lã e regressou ao seu lugar, na cabeceira da mesa.     

Flush

FLUSH

(Reading, 1840 – Florença, 1854)

Era um cocker spaniel castanho escuro que, graças às suas impecáveis linhagens materna e paterna, apresentava todas as characteristic excellences of his kind, facto que  older and wiser passou a relativizar, tendo-se deixado de snobeiras de pure-bred dog. Viveu 14 anos de uma existência muito intensa e variada. Nos campos do Berkshire, onde nasceu, foi cão de caça, turbulento e enérgico. Em Londres deixou-se reduzir, à força de mimo, a cão de colo caprichoso e timorato. Em Pisa e em Florença voltou a ser um cão como os outros e foi completamente feliz. Flush gozou momentos únicos de quase comunhão espiritual com a sua Dona, de absoluto deleite com a luz e a exuberância olfactiva e sonora de Itália, de grande paródia com os cães e, sobretudo, com as irresistivelmente atrevidas cadelas que por lá encontrou. Passou também por momentos terríveis. Como quando por três vezes foi raptado e levado para fétidos e aterradores antros, nos mais miseráveis bairros da Londres vitoriana – na qual florescia o negócio de subtrair cães de raça que andavam na rua sem trela, contra avultado resgate. Ou quando teve de presenciar, transtornado de ciúmes, como a sua Dona se apaixonava e se dedicava inteiramente a um rival, a quem, por duas vezes, ressentido e rancoroso, chegou a morder.

Flush não era um cão comum, insistem a sua extremosa Dona e a sua talentosa biógrafa, também ela Dona de um cocker spaniel castanho (cuja foto ilustrou a capa da primeira edição da sua biografia): he was high-spirited, yet reflective; canine, but highly sensitive to human emotions also. Verdadeiramente únicas são, ainda, as extraordinárias literary connections de Flush: a sua adorada Dona era Elisabeth Barrett (mais tarde também Browning); a autora da sua surpreendente biografia Virginia Woolf – que para a escrever se baseou nas cartas de Elisabeth para Robert Browning (o alvo das sombrias conjecturas e das furiosas investidas de Flushie) e para a sua irmã, e em dois poemas por aquela dedicados a Flush – To Flush, My Dog e Flush, or Faunus. Não é para quallquer cão, convenhamos.

Corria o Verão de 1931. Virginia Woolf acabara The Waves, estava física e emocionalmente extenuada – e ter-se-á concedido esta little escapade (as palavras são suas). Que teve, à época, apreciável sucesso comercial, mas que foi desde então e até muito recentemente votada por críticos e estudiosos à irrelevância e à desconsideração como obra menor, quase embaraçosa de tão ligeira no tema e no tom e no contraste com a sua portentosa escrita. E, no entanto, tudo aponta para que fosse outro o olhar de Virginia Woolf sobre Flush: a biography, a que se referiu como “too slight and too serious”. Numa entrada no seu Diário, no Outono de 1933, antecipa o sucesso da obra e admite vir a ficar “very much depressed (…) by the kind of praise” com que a mesma será recebida: “they’ll say its charming, delicate, ladylike”. Algum tempo depois, em resposta à carta de uma amiga, confirma ser Flush: a biograpy “all a matter of hints and shades, and pratically no one has seen what I was after”. Decididamente, there is more to this book than meets the eye. Mas o quê?

A história de Flush é a de Elisabeth Barrett Browning. Contar uma é contar a outra. Porque a vida de Flush replica a vida de Elisabeth. Da sombria reclusão do quarto nas traseiras do n.º 50 de Wimpole Street à luminosa animação da Villa Guidi. De uma prisão, feita de medos e de super-protecção, para a liberdade, aberta a todas as possibilidades, expectativas e riscos. Elisabeth era hipocondríaca, dada a melancolias e viciada em láudano, deixava-se cuidar e menorizar por um pai que tinha tanto de protector como de tirano: raramente saía do seu quarto, onde escrevia, tomava as refeições e recebia raras visitas. Flush temia as sombras do escritório, as paradas militares, os bandos de raptores: não saía à rua sem trela, só relutantemente largava a sua almofada aos pés da Dona — the prince of cowards, chamava-lhe ela, afectuosamente. Elisabeth primeiro, Flush depois resignaram-se a uma vida de dependência. Abdicaram da sua liberdade a troco de conforto, protecção e segurança. Submeteram-se, dóceis e gratos, àqueles a quem tudo deviam, a quem tudo relevavam: o pai, a Dona. E ao fazê-lo negaram-se a si mesmos: Elisabeth como mulher, Flush como cão.

Este desolado destino só mudou quando Elisabeth decidiu tudo arriscar. Deixar para trás a invalidez, os cuidados, o controlo, para viver uma vida que até aos quarenta anos aceitara estar-lhe negada: uma vida inteira, como mulher, mãe e poetisa, uma vida plena de luz e de calor, de saúde e de inspiração. Libertando-se, Elisabeth libertou Flush da triste condição de sucedâneo dos afectos por que ansiava. E permitiu-lhe voltar a ser cão, dedicar-se a uma alegre vadiagem e a novas experiências de companheirismo e de conquistas.

Flush: a biography é, antes de mais, uma deliciosa experiência de escrita numa non-human perspective. A narradora entra e move-se com um desconcertante à vontade na mente e no coração do temperamental cocker, revela receios e interrogações, decifra perplexidades, explicita receios, ressentimentos, humilhações e amuos. São absolutamente hilariantes as passagens que relatam o desespero de Flush ao perceber como o tall, dark haired man passa a fazer parte da vida de Elisabeth, o seu espanto perante a obtuseness do pai dela, alheio ao que se passava debaixo do seu próprio tecto, os seus malévolos planos para atacar e correr de vez com the usurper, os ciúmes quando do nascimento do bebé, the horrid thing that mewed. E sublimes as páginas sobre the world of smell em que vivia Flush, para quem o cheiro era poesia, mas sem palavras: where Mrs. Browning saw, he smelt, where she wrote, he snuffed (…) not a single one of his miryad sensations ever submitted itself to the deformity of words.     

Mas Flush: a biography é também uma incisiva e inquietante reflexão  sobre a incontornável tensão entre protecção e autonomia, dependência e liberdade, conforto e acomodação; sobre o preço do conformismo e da desresponsabilização, sobre o amor que às vezes diminui e destrói. Questões que os paradigmas femininos vigentes à época de Elisabeth e de Virginia tornavam especialmente pertinentes, questões com que esta última se terá defrontado na juventude, entre a sua fragilidade psicológica e o voluntarismo tutelar do seu pai. E questões que in another time and place nos dão, ainda assim, que pensar. 

Ab ovo usque ad mala

Ab ovo usque ad mala. Do ovo às maçãs. A expressão, atribuída a Horácio, refere-se aos lautos banquetes romanos, que começavam com uma entrada de ovos e terminavam com fruta, e significa do princípio ao fim, completude. Ocorre-me a propósito deste quadro, por causa do nome do seu autor — Egg, Augustus Leopold Egg (1816−1863) — e das maçãs que contém e que evoca. Mas também por ser o mesmo um pantagruélico festim de detalhes e simbologias que se conjugam diante de nós num expressivo e dramático relato.  

Past and Present 1 é o primeiro — e de longe o mais extraordinário – de um triptíco pela primeira vez exposto em 1858 na Royal Academy de Londres, e dedicado ao adultério feminino. Corresponde ao past do título por que ficou conhecido e representa o momento em que o marido descobre tudo - e em que a mulher literalmente cai em desgraça. Quando da primeira apresentação pública do conjunto, figurava no centro, como chave de leitura dos outros dois, que retratam o sombrio present, num engenhoso e, à data, surpreendente flashback narrativo.

Tudo neste quadro é significativo e concorre para intensificar o pathos do momento que capta. Em primeiro plano, the fallen woman, de mãos postas, dir-se-iam atadas, o rosto escondido – ciente do que a espera e que a porta da rua aberta reflectida no espelho deixa já entrever. Logo atrás, o marido, o rosto de pedra e, amarfanhada na mão, a carta reveladora. Anónima delação? Imprudência dos amantes, surpreendidos pelo seu intempestivo regresso (que a bagagem pousada no chão e o chapéu na mesa parecem sugerir)? Para o caso pouco importa, se já nada há a ocultar: nem sequer a identidade do outro, cujo retrato-miniatura o pé marital esmaga. Há ainda a maçã vermelha. Metade caída no chão, metade sobre a mesa, a faca nela espetada — sinal da divisão causada, do rude golpe inflingido pela traição da mulher. A própria facada no matrimónio. Mas a maçã remete-nos também para Eva, of course. E se dúvidas restassem quanto a este ponto, um mero relance para a parede do fundo da divisão dissipá-las-ia: à esquerda, sobre o retrato da até aí dona da casa, a reprodução de uma cena bíblica: expulsão do Paraíso, what else? Last but not the least, as duas meninas, tão angelicais quanto sinistras – veja-se o desproporcionado tamanho das louras cabecinhas … -, uma a mirar fixamente a cena, a outra absorta no castelo de cartas que acaba de ruir, como tudo à sua volta, needless to say.

Foi grande o impacto deste tríptico junto da crítica da época. O tema e a forma crua como era tratado causaram incómodo: como disse um outraged critic, “there must be a line drawn as to where the horrors that should be painted for public and innocent sight begin, and we think Mr. Egg has put one foot at least beyond this line”. Ainda assim, passou por moralista, como advertência contra os males associados ao adultério feminino na sociedade vitoriana: a destruição do lar, as filhas a crescer sem mãe, a degradação moral da mulher. A verdade é que a closer look abala a certeza de uma tal leitura. Aquela mulher para sempre caída tem a fragilidade da vítima, suscita, mais que a reprovação, a compaixão – que as poignant scenes que completam o triptíco as desamparadas filhas a recordá-la e a própria, debaixo de uma ponte, abandonada pelo amante com o fruto dos seus ilícitos amores nos braços mais não fazem que acentuar. É bem provável que Egg, amigo e admirador de Balzac e de Dickens tenha, como estes, na literatura, ou como Watts, na pintura, procurado expor as limitações e a injustiça do modelo burguês de casamento de conveniência que propiciava o adultério de parte a parte, da dureza dos códigos sociais e legais que baniam e lançavam na miséria e na degradação a mulher prevaricadora. E que o tenha feito habilidosamente, através de uma cuidada mise-en-scène que, numa aparente e insuspeita colagem às convenções vigentes, consegue, entre o quase absurdo do primeiro e a desolação dos demais, uma densidade dramática capaz de suscitar emoções e conjecturas inesperadas à desprevenida assistência. Ou não fosse Egg também um talentoso actor de teatro, com créditos bem firmados como encenador.    

  

Foi Surreal

A negociação durou dias. Renhida. De um lado, moi, do outro o sindicato filial, tão temível quanto sorridente. À proposta inicial respondi com um rotundo e — julgava eu — definitivo não. O perigoso sindicato insistiu. Tentei esquivar-me com o depois lá, logo se vê, mas o tenaz cartel voltou à carga. Antevendo o inevitável desfecho, impus condições, prontamente aceites: três museus, à minha escolha, sempre com boa cara. Marquei online para terça-feira de Carnaval. Very appropriate. E foi assim que cheia de fair-play e com uma radiant disposition, depois de um early morning raid a uma livraria que rendeu dois sacos de promissoras leituras, integrei a multidão que convergia para o Madame Tussaud’s Wax Figure Museum, em Londres.  

A muito custo preparara-me para uma enfadonha sucessão de salas atulhadas de figuras tipo manequim de loja foleira, ataviadas como personagens, reais ou imaginárias, pretéritas e presentes. Não, de todo, para a inimaginável e delirante mistura de Disneyland, MTV e parque de diversões, com pipocas e afins all over, em que me vi metida durante quase duas horas.       

As surpresas começaram logo à entrada da primeira sala: gargalhadas, gritinhos, urros e um desatino de flashes que só visto. Espalhados no meio de um cenário que pretendia evocar glitter e glamour lá estavam a Miley Cyrus-Hanna Montana, os rapazes que fazem de Harry Potter e de Edward (o xaroposo vampiro do Twilight). A pensar nos mais crescidos (que também os havia, e muitos, Santo Deus), Clooney, o casal Beckham, Angelina Jolie e o seu Brad Pitt, Julia Roberts, Johnny Depp e Nicole Kidman, entre outros. As reproduções eram pretty accurate, das tatuagens da Angelina ao rosto botoxado da Nicole. Depressa percebi, porém, que ninguém ali estava para apreciar detalhes. O objectivo era um e um só: tirar fotos, o maior número possível de fotos, num tu-cá-tu-lá de estarrecer com as celebrities. Mulheres de todas as idades posavam com o Clooney, as mais afoitas davam-lhe a mão ou beijinhos na bochecha. A cena repetia-se com o Brad Pitt e, em versão rapaziada, com a Angelina. Na secção infanto-juvenil, havia filas para posar junto da Miley e para polaroids com o moço vampiro. Cumpridos os mínimos de mãe extremosa, fugi, deixando para trás a Kate Moss descalça e aninhada num divã e mais uns quantos famous votados ao desinteresse pela turba. Achava eu que se seguiria algo mais convencional. Couldn’t have been more wrong.

A sala seguinte era dominada pela princesa Diana, de vestido de lantejoulas, sobre um pedestal azul celeste, tipo santa. Várias muçulmanas veladas faziam-se retratar junto dela, enquanto Andy Warhol e Jerry Hall miravam desdenhosos. Já Liza Minelli, escarranchada na cadeira de Cabaret, parecia genuinamente interessada na cena. A tornar tudo mais bizarro, se possível, a música, a alto e bom som: Yellow Submarine, dos Beatles, Jumpin Jack Flash, dos Stones e Light My Fire, dos Doors. Decidida a abreviar o meu tormento, atravessei em passo rápido From Bollywood to Hollywood - onde avistei vários 007, Spielberg, Audrey Hepburn de tiara, Aiswaria Rai num belo sari, por entre inúmeras e variavelmente cintilantes movie stars. Os mais requisitados para fotografias, sem dúvida o Schreck e Marylin Monroe, esta sob uma linda pérgola iluminada, de vestido branco plissado esvoaçante. Em cantos opostos, Brando de blusão de couro e Bogart de gabardine olhavam sombrios os passantes, decerto a pensar no que estariam ali a fazer. Impossível não. Com a minha por esta altura um tanto desconcertada prole, desci ao lower level. Pensei em Dante e em como merecia uma estátua de cera, ali mesmo. O senhor que decorava o patamar parecia o Hitchcock. Era.

Grandes e indescritíveis emoções me reservava o piso de baixo. Sports Stars, para começar bem. Logo de entrada, uma antecâmara exclusivamente dedicada ao Special One, Mourinho himself. Entre abraços, palmadas nas costas e exclamações sentidas, quase todas em português, o pobre não tinha sossego. Embaraçada, esgueirei-me para ver o resto do desporto. Jogadores da bola eram quatro: Cristiano Ronaldo, Beckham, Pelé e Wayne Rooney: Messi, nem vê-lo. Suspensa do tecto, por cima deles, Olga Korbut, de louros totós, fazia o pino na trave olímpica. Em vão procurei a Comaneci. Indignada com tão inexplicável omissão, votei ao desprezo várias cricket glories, um matulão do rugby, mais o Lewis Hamilton, o Cassius Clay-Muhammad Ali e o Boris Becker e moved forward. Vi-me então rodeada de Royals e no meio de grande agitação: adolescentes giggling agarradinhas aos princípes William e Harry e várias ladies over fifty posando numa de best friends com Camilla Parker-Bowles. Astonishing. Estranhei a ausência de Kate, a esbelta noiva de William, e mais ainda a presença lá no meio, como alma penada, da diminuta rainha Vitória. No recanto dedicado a Science and the Arts, um curioso e heterógeneo grupo formado por Einstein — muitíssimo requestado para fotos em registo de grande informalidade, vá-se lá saber porquê -, Picasso, Stephen Hawking, na sua cadeira de rodas, Oscar Wilde, sorrindo descarado, Dickens e Van Gogh, de paleta e com ar bastante alucinado. Não era caso para menos, convenhamos.  

Por esta altura, fiel ao meu endurable motto – se não podes vencê-los, junta-te a eles – confesso que estava a divertir-me, e bem, para crescente apreensão das duas principais instigadoras do programa, as quais não sabiam bem o que achar de tudo aquilo. Music Megastars, the next stop, não desiludiu – dentro do género, claro. Luzes de discoteca e bolas de espelho no tecto. Michael Jackson, de peúga branca e chapéu preto. Uma legião de fiéis passava feliz, de cabeça em cabeça, um chapéu preto igual: tive um calafrio só de pensar no potencial de contágio de pediculus capitis (eufemismo que nas cartas da escola refere exactamente isso em que estão a pensar) de tão bonito gesto. Mas as atenções convergiam inevitavelmente para o palco cheio de babes, de cera e não só: Amy Winehouse, Britney Spears, Lady Gaga … e um enxame de wannabes que, guinchando, as imitavam e quase derrubavam. Indiferente a tudo isto, Jimi Hendrix tocava e controlava pelo canto do olho os fãs mais idosos que se abraçavam comovidos a Elvis e a Bob Marley. A selecção musical alternava, num desconcertante shuffle, Rehab com Love me Tender.

Porque nem só de futilidades é feita esta vida, o grand finale, dedicado aos world leaders, tinha mensagem. Bem ao centro da sala, virados para o dito palco, contra um fundo às pombinhas (e benevolamente observados por Mohamed Al Fayed, junto ao balcão das pipocas e do algodão doce), um quarteto de peace-builders: Dalai Lama, Ghandi, Mandela e o Papa João Paulo II. Logo ao lado, um trio de alto coturno: Saddam Hussein, Mugabe e Hitler — este último um must para catárticas e exuberantes poses (aposto que a imagem passa o tempo a ser reparada). Mesmo ao lado, a dupla Fidel e Khaddafi não deixava ninguém indiferente: um rapaz, de t-shirt do Che, punho erguido e ar convicto, plantou-se junto do primeiro, estranhamente sem máquina fotográfica conhecida à vista e por ali ficou. Para os demais retratados, vivos e mortos, agrupados do lado oposto a estes – Obama, Merkel, Sarkozy, Blair, Putin, Bush, Ataturk, Thatcher, Benazir Bhutto, to name a few – the writing on the wall: the world awaits. Lovely.

O balanço da visita, esse não podia ser mais positivo: uma experiencia realmente atípica e enriquecedora, para mim, a prova de que às vezes é a mãe e não as amigas quem tem razão, para as meninas. Lovely, indeed.