
Quem, como eu, teve, ou tem, ainda algum contacto com o campo, com aquele campo em que as tradições não estão num museu, porque fazem parte da vida, sabe que as bostas que, apesar de todos os esforços da ASAE, os animais insistem em deixar cair no espaço público, secam, logo após esse acto primitivo, e, por isso, não cheiram mal. À superfície, na verdade, não se sabe a que é que cheiram. Só as moscas, porque vêem a uma outra escala, sobrevoam aquela dura camada que esconde o que lá tem dentro.
A experiência, em qualquer cidade onde não tenham ainda chegado os sacos de plástico com que os animais tiranizam hoje os seus donos, pode ser feita com qualquer cocó de cão, que, depois de inadvertidamente pisado num qualquer passeio, por ter sido confundido com uma pedra, logo descobre o terrível cheiro que continha lá dentro e que, desde então, persiste, teimoso, nos sapatos e nos narizes.
Ora, é esta a razão pela qual a política ocidental, apoiada por uma moral fundada em pseudo ciências humanas, se tem vindo a tornar cada vez mais superficial: fazer com que ninguém saiba a que é que cheira.
Não digo, com isto, que a política cheire necessária ou naturalmente mal. Pelo contrário, inscrevo-me na antiga tradição que vê na política a mais alta realização da natureza humana. Afirmo, no entanto, que a política, hoje, no nosso Ocidente, não é pensada, para além da fina camada com que se mostra à superfície. Ninguém sabe, portanto, a que é que cheira. Existem mesmo inúmeras entidades cuja função é apenas afastar as moscas da política e garantir que ninguém a pise, seja voluntária ou inadvertidamente. Desconfiamos, portanto, do que tem lá dentro, ainda que não consigamos dar cientificamente razão da nossa desconfiança. Daí o aforismo deste post: a política, no Ocidente, hoje em dia, é uma merda!
Senhor Gonçalo… A moda pegou. Recebo uma chamada em casa, quase sempre à hora do jantar, que insiste sorridentemente em vender-me qualquer coisa, apesar da minha óbvia – porque expressamente demonstrada – má vontade. Pedem-me que confirme o meu nome, ao qual acederam num qualquer ficheiro. Confirmo-o e tento voltar a dizer-lhes que, SEJA LÁ O QUE FOR, NÃO ESTOU INTERESSADO. Não consigo. Antecipam-se e dizem-me aquilo que tinham planeado dizer-me – a mim e a mais cento e cinquenta pessoas – naquela já malfadada hora. E é então que, confiantes, sorridentes, reduzem invariavelmente o meu nome para: Senhor Gonçalo.
Sei que é uma batalha perdida, que não vale a pena explicar, replicar, barafustar… de hoje em diante sou o Senhor Gonçalo. Mas nem por isso a coisa deixa de me soar tão mal, razão pela qual aqui venho desabafar.
O assunto, ainda por cima, é relativamente simples. Gonçalo é o meu nome de baptismo. Christian name, como dizem a Joana e os outros ingleses. Tratarem-me por Gonçalo, portanto, implica alguma amizade, ou proximidade, ou intimidade… a qual pode até, por vezes, resvalar para um terno Gonçalinho.
Quem não me é assim tão próximo, portanto, tratar-me-á com recato, com reserva, com distância, ou reverência, de tal maneira que, ao dirigir-se-me, começará sempre por Senhor… ao que acrescentará, então, o meu nome de família.
Porque Senhor, de acordo com uma tradição antiga, romana e feudal e burguesa, refere-se a uma casa, à qual pertenço, na qual fui recebido e pela qual sou responsável — isto é, pela qual respondo.
Chamem-me, portanto, Senhor Moita, Senhor Gonçalo Moita, Senhor Pistacchini Moita, ou qualquer outra combinação que julguem boa e que os meus nomes legitimamente permitam.Se não quiserem, chamem-me Gonçalo, Brother, Meu, Man, Tá-se Bem, Bacano… enfim, o que quiserem.Mas não me chamem Senhor Gonçalo. Desgraçam-me. Desgraçam-se. Matam os meus. Enterram os vossos. E, sobretudo, ou o vosso produto é muuiita bom, ou é certo que já não vops comprarei coisa nenhuma.

Aluno brilhante, licenciou-se e doutorou-se em direito, em 1895, com distinção. Leccionou na Universidade de Coimbra a partir de 1896, sendo unaninemente considerado como um académico notável e um advogado de sucesso. Orador empolgante, bastou um discurso público para se tornar influente no Partido Republicano. Político entusiasmado, exerceu admirável actividade parlamentar desde o ano de 1906. Republicano convicto, lutou sempre pelo derrube da monarquia e pela instauração e manutenção da república. Socialista tardio, desejava honestamente o bem do povo.
Trata-se, como já perceberam, de Afonso Costa, normalmente mais conhecido pela perseguição que moveu contra a Igreja católica, especialmente os jesuítas (maçon assumido, a sua tese de doutoramento, defendida em 1895, intitulava-se A Igreja e a Questão Social, constituindo um violento ataque à Igreja católica, especialmente dirigido contra a encíclica Rerum Novarum), e pela violência da sua acção partidária (como membro e dirigente do Partido Republicano, primeiro, e do Partido Democrático, depois) e política (quer enquanto primeiro-ministro e ministro de várias pastas, quer enquanto líder da oposição a outros governos da I República e ao governo do Estado Novo), de tal maneira que ficaram famosas as cenas de pugilato em que se envolveu com Sampaio Bruno, assim como o desafio que lançou a António José de Almeida para um duelo.
A figura histórica de Afonso Costa, na verdade, está envolta nestes dois extremos, quase contraditórios, em que se desenvolveu a sua vida. Nenhum dos dois é isoladamente verdadeiro, embora os dois sejam relativamente verdade. É importante ter presente, por isso, que esquecer um deles é falsear a história, pretendendo que ela seja o que não é – pretendendo que nós somos o que não somos.
Desgraçadamente, porém, a imagem de Afonso Costa confunde-se hoje com a da primeira república difundida no senso comum português como época socialmente conturbada, economicamente desastrosa e politicamente violenta. Tudo isto é verdade. O outro extremo, no entanto, igualmente verdadeiro, desapareceu. O regicídio ensombra nas nossas consciências a implantação da república, impedindo que, através dela, exaltemos Portugal. Por isso a comemoração do seu centenário foi, há poucos dias, um momento tão chocho.
Ora, como em tudo na vida, perdendo a direita se perde a esquerda e vice-versa. Ao contar desta maneira a história de Afonso Costa e da I República repudiamos a brutal violência dos seus excessos, o que, na verdade, deve fazer-se… mas repudiamos também o seu desejo de um Portugal melhor e a sua entrega pelo nosso povo, coisa que não devíamos fazer.
Como sabiamente disse Ghandi, ainda na África do Sul, a luta pelo reconhecimento público da dignidade dos indianos era uma causa pela qual estava disposto a morrer, mas não havia nenhuma causa pela qual estivesse disposto a matar. Assim deveria ter sido com Afonso Costa, o qual, porém, não saberia ouvir Ghandi mais do que soube ouvir os jesuítas. A todos nós, aliás, bastam umas poucas horas no trânsito para nos lembrarmos como somos volúveis na prática destes princípios. Isso não deve fazer esquecer, no entanto, tudo aquilo que temos de bom, tal como não deveria fazer esquecer o amor por Portugal que tão fortemente moveu Afonso Costa e a I República. Todas as suas mortes foram um excesso condenável. Mas é talvez tempo de reconhecer que a exaltação de Portugal que motivou estes 10 a 15 anos da nossa história foi também um oásis na continuada desistência nacional que marcou os nossos últimos 500 anos. Eis porque Afonso Costa e a I República devem merecer hoje a nossa admiração.
Não resisti a mostrar aqui este filme. Trata-se da Sra. Ministra da Educação dando a todos os alunos as boas vindas a mais um ano lectivo. A maneira como abre e fecha os olhos lembra, por vezes, o lobo mau da história das carochinha. O âmbito e o discurso lembram, contudo, assim uma espécie de conversas em família, embora vindas de um outro mundo, estranhamente não paralelo ao nosso: apenas quase. Francamente, não sei o que vos diga. Vejam e digam-me vocês qualquer coisa.
Eu sei que é muito feio lembrar a alguém as suas origens da maneira que o Sr. Carlos Queiroz fez ao Sr. Luís Horta. Mas tratando-se, como se trata, da selecção nacional (na qual a Europa falsamente estimula um vivo sentimento de pertença a uma nação), o mínimo que poderá dizer-se, por analogia com a expressão do Sr. Queiroz, é que as mães destes dois senhores, que podem ali ver-se na fotografia, prestaram um péssimo serviço ao país quando permitiram que ambos se abatessem neste mundo por intermédio das suas infames baixezas.
Nos tempos homéricos, os gregos viajavam pelos líquidos caminhos: «todo o dia tinham desfraldadas as velas das naus, que corriam sobre o mar; em seguida o Sol punha-se e a sombra cobria todos os caminhos.» Assim chegou Ulisses ao fim da terra, ao curso profundo do Oceano, onde se situava o país dos Cimérios, coberto de nuvens e de brumas. Naquele lugar, que o Sol, com os seus raios, nunca aquece, estendendo sobre aqueles mortais uma noite maldita, haveria Ulisses de, por indicação de Circe, descer à mansão dos mortos e interrogar o velho Tirésias (Odisseia, Canto XI).
Ora, o que aqui me interessa nesta visão ainda brutal dos nossos heróicos gregos sobre o mundo e sobre nós é a distinção radical entre o dia e a noite, a alegria e a tristeza, a luz e a escuridão. Assim é a minha infância, tal como hoje me lembro dela.
Os mortos habitam, como diz Tirésias, uma região sem alegria, à qual não chega a luz do Sol. Aquiles, o herói Aquiles, agora morto, pálido, exangue, confessa a Ulisses preferir viver como um escravo de um qualquer homem sem importância nem património do que reinar sobre todos os mortos, que já nada são.
A alegria, com efeito, pertence ao mundo dos vivos, para o qual Ulisses quer regressar. Por isso, o nome do fruto que cresce ao sol, que os latinos hão-de chamar apricus, há-de, mais tarde, querer também dizer abrigo. Ter abrigo, com efeito, não é ter um telhado, mas ter acesso ao Sol. Assim, nas nossas cidades, o excluído não é o que não tem tecto, mas o que não tem acesso ao Sol, à luz, à alegria e à vida. É o que vive na sombra, esquecido da verdade do ser, pois que o seu sangue não é aquecido pelo Sol.
Assim é a saudade da minha infância. Lembro dentro de mim, criança, esta distinção radical entre a noite e o dia, a tristeza e a alegria, a morte e a vida; esta crença natural na luzidia verdade do ser que me rodeia e ao qual me entregava com o seu brilho reflectido nos meus olhos; esta vontade corajosa de viver rindo, sem medo de chorar – porque sempre chorando o medo… Outras coisas terei experimentado e sido e vivido. Só disto tenho saudades. A isto apenas regresso. Tudo o resto morreu, esquecido.
Chegou-me às mãos esta notícia que dá conta da inteireza da justiça brasileira. Ora leiam:
Para além de muitas outras questões que poderiam a este propósito abordar-se (como é o caso das questões jurídicas, que interessarão sobretudo à Joana; ou da estética do abuso, que poderá ser defendida pelo Manuel; ou da radiografia do acto executório, coisa que muito interessaria o Pedro Norton; ou outras…) interessam-me aqui sobretudo as questões filosóficas, que só poderão ser verdadeiramente resolvidas, no entanto, com a ajuda das nossas amigas — e amigos — transatlânticos. Peço-vos, por isso, que nos digam:
1. Porque é que ao homem chamam “cabra”?
2. Pode-se também chamar bode a uma senhora?
3. O que quer dizer “abrafolou-se”?
4. O que quer dizer exactamente: “uma senhora ficar com as encomendas de fora”?
5. E mais pedagogicamente: como é que, em tal caso, as põe para dentro?
6. Qual o significado de “conxambrar”?
7. Pode-se, como insinua o Sr. Dr. Juíz, conxambrar também com homens?
8. E porque é que isso lhes mete medo?
9. A capadura feita a macete é muito dolorosa?
10. O que deve legalmente fazer o carcereiro com o justo resultado da execução da sentença?
Enfim, são dúvidas que ficam, mas que era importante resolver.
Parece-me que és mais novo do que eu, de maneira que a coisa vai um bocadinho adiantada. Enfim, fica já para o ano. Agora, a música tinha de ser esta, porque os anos devem comemorar-se com a família. Parabéns!
A partir de uma breve conversa, tida neste nosso último jantar, com o ilustre Pedro Medusa Norton, sobre o caminho de espiritualização que deve, ou não, sofrer o amor humano, aqui deixo, para prosa posterior, alguma coisa que, em forma de narrativa mítica, disse, sobre este assunto, o enorme e querido Platão. Peço-vos que leiam com atenção, pois se é certo que os mitos são falsidades, neles se contêm, contudo, algumas verdades (República, 377a), de tal maneira que nos podem ser muito úteis, se neles acreditarmos, para descobrirmos a verdade (República, 612b).
A cena passa-se n´O Simpósio, ou Banquete, de Platão. O tema é Eros: o amor. Depois de vários discursos, é dada a palavra Sócrates, o qual, falando depois de Agatão, o homenageado dessa noite, prefere lembrar um discurso por meio do qual foi iniciado neste tema pela profetisa Diotima de Mantineia. É no início do seu discurso que ela nos conta este mito sobre o nascimento de Eros:
«De que pai e de que mãe nasceu Eros? – perguntei eu. ”Demora um pouco a contar – disse-me ela. – No entanto, vou fazê-lo. No dia em que nasceu Afrodite, os deuses estavam num banquete. Com eles estava Poros, filho de Métis. Depois do jantar, Pénia veio mendigar, o que era natural em dia de festa, e pôs-se ao lado da porta. Poros, que se tinha embriagado com néctar (o vinho não existia ainda), entrou no jardim de Zeus e, completamente entorpecido, adormeceu. Pénia, na sua indigência, teve a ideia de ter um filho de Poros. Deitou-se junto dele e ficou grávida de Eros. Eis porque Eros se tornou o companheiro de Afrodite e o seu servidor: engendrado aquando das festas do nascimento desta, é naturalmente amante do belo… e Afrodite é bela!
Sendo filho de Poros e de Pénia, portanto, Eros encontra-se na seguinte condição: por um lado, é sempre pobre; e longe de ser delicado e belo, como crê a maioria, anda descalço, não tem morada, deita-se sempre no chão, dorme ao relento junto das portas e nos caminhos, porque sai à sua mãe, acompanhando-o sempre a necessidade. Por outro lado, tal como o seu pai, vive à espreita do que é bom e belo; é viril, resoluto e ardente, um caçador de primeira, que está sempre a inventar estratagemas; deseja o saber e sabe encontrar os caminhos que a ele conduzem, emprega todo o seu tempo a filosofar, é um adivinho, um mago e um orador dotado.
Acrescente-se que não é, por natureza, nem mortal nem imortal. Ao longo de um só dia, ora floresce e vive, ora morre; depois revive, quando nele perpassam os dons que deve à natureza do seu pai; mas o que nele perpassa sempre lhe escapa; Eros, assim, não está nunca nem na indigência nem na opulência. Está, pelo contrário, entre o saber e a ignorância – e isto diz bem o que ele é. Nenhum deus se ocupa em filosofar nem deseja tornar-se sábio, porque já o é. E de um modo geral, quando se é sábio não se filosofa. Os ignorantes, porém, também não filosofam, nem desejam tornar-se sábios. É justamente isso que é desagradável na ignorância: não se é nem belo, nem bom, nem inteligente, e, contudo, acredita-se sê-lo o bastante. Na verdade, nós não desejamos ser uma coisa quando não cremos que ela nos falte.”
Quem são, então, ó Diotima – perguntei eu –, os que filosofam, se não são nem os sábios nem os ignorantes? “É muito claro – respondeu ela – e até uma criança pode agora percebê-lo: são os que se encontram entre os dois: e Eros deve fazer parte deles. A sabedoria, com efeito, conta-se entre as coisas mais belas. Ora, Eros é o amor do belo. Logo, é necessário que Eros seja filósofo e que, sendo filósofo, esteja a meio caminho entre o sábio e o ignorante. A causa de isto ser assim está na sua origem, pois que nasceu de um pai sábio e cheio de dons e de uma mãe desprovida tanto de sabedoria como de dons. Tal é, meu caro Sócrates, a natureza deste daemon.”» (O Simpósio, 203b-204b)
Glossário e pistas de leitura:
* Eros: Deus grego cujo nome significa aqui o amor, em especial o amor humano, ou amor-desejo.
** Afrodite: Deusa grega da beleza, que nasceu nas ondas formadas pela espuma resultante do sémen de Urano, atirado para o mar por Cronos, quando este o castrou. Outra versão, porém, contada por Homero e aqui provavelmente tida em conta por Platão, diz que ela é filha de Zeus e de Dione, a deusa das ninfas.
*** Poros: Personificação da abundância, ou da riqueza (não de coisas, ou de objectos, mas de habilidades, de capacidades e de dons), que vivia junto dos deuses. Poros, assim, é o que é capaz de engenhosamente encontrar e de fazer caminhos (o que se lhe opõe, neste sentido, é a aporia, enquanto, o caminho sem saída, ou ausência de caminho).
**** Métis: Deusa grega cujo nome significa a inteligência prática, ou a prudência. Foi a primeira esposa de Zeus, o qual a engoliu, por causa de uma terrível profecia, quando ela estava grávida de Atena, a qual viria a nascer directamente pela cabeça de Zeus.
***** Pénia: Personificação mítica da pobreza, da carência e da indigência (não de coisas, ou de objectos, mas de habilidades, de capacidades e de dons), que vivia à porta dos deuses.
****** Zeus: Zeus era filho de Cronos e de Reia, o rei do Olimpo e o maior dos deuses.
******* Daemon: É um espírito, um génio, um demónio (assim à imagem do génio da lâmpada de Aladino), que está presente nas coisas e, principalmente, nas pessoas, funcionando como intermediário, que pode ser bom ou mau, entre os deuses e os homens.
Karl Marx morreu em Londres, no dia 14 de Março de 1883, às 14 horas e 45 minutos. No Sábado seguinte, dia 17, foi enterrado naquela cidade, no cemitério de Highgate, na mesma campa onde a sua mulher tinha sido deposta quinze meses antes. Na cerimónia estiveram presentes apenas dez pessoas, nomeadamente a sua filha Eleanor e os seus genros Charles Longuet e Paul Lafargue; os socialistas e amigos de longa data Friedrich Engels, Wilhelm Liebknecht, Gottlieb Lemke, Friedrich Lessner e Georg Lochner; e os cientistas Ray Lankester e Carl Schorlemmer.
Não obstante a convicção de que «seria despropositado perderem-se ali em discursos muito pomposos, até porque ninguém detestava mais veementemente esse palratório do que Karl Marx», como então bem lembrou Wilhelm Liebknecht, o facto é que foi proferido um pequeno discurso por Friedrich Engels, em inglês, após o qual Charles Longuet leu três breves mensagens, em francês, enviadas pelos socialistas russos e pelos ramos francês e espanhol da Associação Internacional dos Trabalhadores, às quais se seguiu uma também curta declaração, em alemão, feita por Wilhelm Liebknecht, em representação do Partido Social-Democrata alemão.
Ora, estes breves discursos, como num outro lugar escrevi (ou estou ainda a escrever, já não sei!), apesar da sua simplicidade, ou talvez por isso mesmo, permitem indicar os dois principais aspectos a partir dos quais julgo que deve hoje propor-se uma releitura crítica do marxismo: o primeiro tem a ver com o carácter apaixonado com que o pensamento de Marx foi desde o início acolhido e rejeitado, o que impediu – e impede ainda – uma compreensão do marxismo que permita aproveitá-lo naquilo que tem de integrador; o segundo diz respeito à percepção imediata que o marxismo teve do pensamento de Marx, a partir da qual se construíram três desvios que historicamente resultaram: a) na progressiva desvalorização da acção política; b) na convicção da preeminência do económico sobre o social; c) na pretensão de uma aplicação absoluta e universal das ideologias.
Não tenho espaço para desenvolvê-lo aqui. Posso brevemente explicar, no entanto, porque é que o pensamento e a obra de Karl Marx precisam hoje de ser desenterradas.
Como disse Engels, no fim do referido discurso, «Marx era, antes de tudo, um revolucionário. A sua verdadeira missão na vida era contribuir, de uma maneira ou de outra, para a queda da sociedade capitalista e das instituições do Estado que ela trouxe à existência; contribuir para a libertação do proletariado moderno, que ele foi o primeiro a tornar consciente da sua própria posição e necessidades, consciente das condições da sua libertação. Lutar era o seu elemento. E ele lutou com uma paixão, uma tenacidade e um sucesso como poucos tiveram. (…) Por isso Marx era o mais odiado e o mais caluniado homem do seu tempo. Os governos, absolutistas e republicanos, deportaram-no dos seus territórios. Os burgueses, conservadores ou ultra-democratas, competiam entre si para caluniá-lo. Mas de tudo ele se desenvencilhou, como se varresse uma teia de aranha, ignorando-os e respondendo apenas quando impelido por uma extrema necessidade. E morreu amado, reverenciado e chorado por milhões dos seus companheiros trabalhadores revolucionários – das minas da Sibéria à Califórnia, em todas as partes da Europa e da América – e eu atrevo-me a dizer que, embora ele possa ter tido muitos opositores, dificilmente teve um inimigo pessoal. O seu nome perdurará pelos séculos, tal como a sua obra!»
No entanto, segundo Louis Althusser (Sobre a Relação de Marx com Hegel), é este «o grande escândalo de toda a história intelectual contemporânea: todos falam de Marx, todos se dizem mais ou menos marxistas em ciências humanas ou sociais. Mas quem se deu ao trabalho de ler realmente Marx, de compreender a sua novidade e de extrair daí as respectivas consequências teóricas?»
Voltando ao enterro de Marx, Wilhelm Liebknecht, no seu discurso, pouco depois «do maior amigo e colega de Marx lhe ter chamado o homem mais odiado do seu tempo, [disse que] isso era verdade. Ele era o mais odiado, mas também o mais amado. O mais odiado pelos opressores e exploradores do povo, o mais amado pelos oprimidos e explorados, desde que eles estivessem conscientes da sua posição. O povo oprimido e explorado ama-o porque ele os amou. Porque o morto cuja perda aqui choramos foi grande no seu amor e no seu ódio. E o seu ódio tinha o amor na sua base.»
Ora, este amor e este ódio pelo homem e pela doutrina multiplicaram-se de tal maneira que, abandonando o âmbito propriamente civil, onde nasceram, foram então politicamente assumidos e protagonizados pelos Estados. A guerra, que deflagrou na Europa, aliou à disputa pelo alargamento dos mercados a vontade de expansão ideológica, a qual, estendendo-se violentamente a todo o mundo, se polarizou em dois blocos política e economicamente rivais e opostos. A alma da revolução, contudo – isto é, o carácter familiar e civil de onde brotara –, tanto da liberal quanto da socialista, perdera-se neste processo, porquanto já não se lutava por uma transposição democrática dos novos valores sociais para a esfera da acção política, mas, ao contrário, pela determinação política e económica da totalidade da vida social dos seres humanos.
O esfriamento da guerra, contudo, que, em consequência directa dos seus horrores, se verificou na segunda metade do século XX, acarretou um progressivo arrefecimento ideológico, o qual, se teve a virtude de, num primeiro momento, conter as terríveis tensões que então se viviam, culminou, depois, na imposição, em todo o mundo ocidental, de uma ideologia da indiferença, por meio da qual intencionalmente se esqueceram as diferenças ideológicas que conferiam inteligência à acção política e inconscientemente se estabeleceram as formas desviadas e desviantes que estão na base da nossa organização social.
Ora, a rejeição generalizada do pensamento de Marx, produzida ao longo deste processo – negando-o, primeiro, e esquecendo-o, depois –, acarretou a rejeição dos evidentes progressos sociais historicamente alcançados pelos movimentos de inspiração marxista e, deste modo, a rejeição dos inegáveis avanços civilizacionais no interior dos quais eles se realizaram. Eis porque é preciso hoje desenterrar Marx, compreendendo aquilo que tem de morto e aquilo que tem de vivo.
Com efeito, se o capitalismo foi capaz de desenvolver as forças produtivas de um modo e a um ponto até então insuspeitados, como Marx não hesita em admitir (vide, por exemplo, o Manifesto do Partido Comunista), a verdade é que este aumento da riqueza, por si mesmo, de modo nenhum se traduziu numa melhoria generalizada das condições de vida das populações. Ao contrário, o modo pelo qual os operários e os trabalhadores agrícolas, nas sociedades capitalistas do terceiro quartel do século XIX, estavam obrigados a lutar pela sobrevivência implicava necessariamente a sua degradação física e moral, facto que foi inclusivamente atestado em vários relatórios oficiais, referidos pelo próprio Marx no Manifesto do Lançamento da II Internacional e n´ O Capital.
Já no Manifesto do lançamento da II Internacional, com efeito, escrito entre 21 e 27 de Outubro de 1864, Marx fizera referência ao relatório de um inquérito ordenado em 1863, pela Câmara dos Lordes, no qual se concluía que as condições de vida (alimentação, abrigo, vestuário, higiene, horas de trabalho, etc.) dos criminosos condenados a trabalhos forçados na Escócia e em Inglaterra eram objectivamente melhores do que as dos trabalhadores agrícolas destes países e mais ainda do que as da maior parte dos trabalhadores especializados dos estabelecimentos industriais do Leste de Londres.
N´ O Capital, mais tarde, voltará a este tema, afirmando que «o carácter antagónico da acumulação capitalista e, consequentemente, das relações de propriedade que dela derivam, abrange-se com uma tal facilidade que até os relatórios oficiais sobre este assunto abundam em vivos ataques pouco ortodoxos contra “a propriedade e os seus direitos”, [como é o caso, por exemplo, do oitavo relatório sobre saúde pública, publicado em 1866, no qual o Dr. Julien Hunter escreve:] “Embora o meu ponto de vista oficial seja exclusivamente médico, a mais elementar humanidade não me permite esconder outro lado do mal. Este, chegado a um certo grau, implica quase necessariamente uma negação de todo o pudor, uma promiscuidade revoltante, uma exposição de nudez que são mais próprias das bestas que dos homens. Estar submetido a semelhantes influências é uma degradação que, pela sua duração, em cada dia se torna mais profunda. Para as crianças criadas nesta maldita atmosfera, é um baptismo de infâmia. E é embalarmo-nos na mais vã esperança pensar que pessoas colocadas em tais condições como em outras circunstâncias piores venham a esforçar-se por atingir uma civilização cuja essência é constituída pela pureza física e moral.”»
Julgo que é para todos evidente não só o extraordinário caminho que percorremos desde então, como também a enorme importância que nesse caminho tiveram os movimentos de inspiração marxista. É um erro, porém, reduzir o alcance histórico das transformações políticas realizadas nos últimos 150 anos, no mundo ocidental, à melhoria generalizada das condições de vida das populações, porquanto estas possam ser alcançadas, pelo menos durante um certo período de tempo, sem ter em conta a dignidade essencial de cada ser humano, isto é, sem que cada indivíduo esteja, ou possa estar, implicado no seu próprio processo de desenvolvimento histórico e social.
Ora, é justamente este reconhecimento, elevado à esfera da acção política, da dignidade própria de cada indivíduo existente numa determinada sociedade, aquilo que confere valor aos progressos materiais que nela se vão alcançando, sendo que nos parece inegável que a actual possibilidade generalizada de uma afirmação política individual deve muito ao advento do marxismo.
A união dos trabalhadores, com efeito, que Marx insistentemente reivindica como elemento chave para o sucesso da sua luta – «Proletários de todo o mundo, uni-vos!» –, adquire todo o seu sentido ao operar a transformação da luta de classes em luta política. E se «toda a luta de classes é uma luta política, (…) a organização do proletariado em classe [transforma-o], deste modo, em partido político» (Manifesto do Partido Comunista).
Para Marx, com efeito (ainda que aqui as palavras sejam de Engels), «toda a luta de classes cujo sentido é alcançar a liberdade, apesar de, em última análise, se converter num problema de emancipação económica, tem um inevitável carácter político, já que toda a luta de classes é uma luta política» (Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã), facto que confere uma dignidade nova aos seus intervenientes, que, deste modo, lutando, se reconhecem senhores da sua própria história e, neste sentido, participam na realização do seu destino.
É este, do meu ponto de vista, o sentido mais profundo da tese de Althusser (Sobre a Relação de Marx com Hegel), que afirma que «a união, ou fusão, do movimento operário e da teoria marxista é o maior acontecimento da história das sociedades com classes, quer dizer, praticamente de toda a história humana.»
No entanto, se não repararmos na importância capital de Marx e do marxismo na realização histórica desta possibilidade do reconhecimento do valor próprio de cada ser humano, concretamente traduzida na atribuição universal de uma dignidade política objectiva, será muito difícil, senão impossível, reencontrarmo-nos com os princípios que estão na base da actual diferença civilizacional do Ocidente – nomeadamente os princípios da separação dos poderes temporal e espiritual; da individualidade essencial e auto-determinação do ser; e da dignidade da pessoa humana –, sem os quais não só não seremos nós próprios, como nada então teremos para oferecer.
O seu cheiro invadiu hoje os meus sentidos,
Conquistando todas as minhas memórias,
Transportando-me, incessante, para as histórias
Em que aos dois nos abraçámos: nós despidos.
Não me importa já o afã com que, perdidos,
Andam os homens sempre em busca de vãs glórias…
Pois que, deste mundo, os louros das vitórias
P´lo seu cheiro são em mim sempre vencidos.
Hoje todos os meus cheiros são de si!
Como se todas as coisas que vivemos
Fossem tudo o que eu alguma vez cheirara.
E morrera eu cheirando, agora, aqui…
Pois que fôra isto, somente, o que tivemos
E a mim já p´la vida toda me bastara.
Como em tudo na vida, há bons e há maus filósofos. Tenho-me, evidentemente, na conta dos segundos. Não obstante, ser filósofo, bom ou mau, é ser da filosofia e, nesse sentido, ser de algum modo discípulo de Sócrates, assim como os cristãos o são de Cristo.
Mas não é fácil, neste mundo, a tarefa dos filósofos. Desde o início da filosofia, na Grécia, que o filósofo, cuja alma se exercita constantemente em abstrair voluntariamente de tudo o que em si é apenas corpo, contemplando desinteressadamente as coisas tal como são, sabe que filosofar consiste essencialmente em preparar-se com agrado para a morte (Platão, Fédon, 80c-81a).
Por esta mesma razão, porém, porque se preocupa não consigo, mas com a verdade, é considerado por todos aqueles com quem partilha a sua existência numa determinada sociedade como um excêntrico perverso e inútil (Platão, República, VI, 487d e 499b), para quem estão guardados apenas dois tipos de tratamento: ou o riso, por ser desajeitado no mundo dos negócios (Platão, Teeteto, 174a); ou a morte, por ameaçar alguns interesses particulares (Platão, República, 517a).
No entanto, não há outra hipótese, a não ser não-ser – o que, como tão bem mostrou Parménides, não é uma verdadeira hipótese. E é talvez isto o que, mais do que toda a vã erudição, distingue verdadeiramente o bom e o mau filósofo: a entrega radical de nós mesmos a um ser inteiramente bom e belo que apenas limitadamente nos é dado contemplar — sejam quais forem as consequências.
Por isso o bom filósofo não é aquele que escreve tratados difíceis e eruditos, mas aquele que vive de acordo com os princípios do ser verdadeiro tal como lhe foram dados a contemplar. E quando dele se riem, ou quando o querem matar – porque se assim não for ele não é filósofo –, ele sabe — como só um sábio o sabe — que aquilo a que verdadeiramente pertence de nenhum modo lhe podem tirar. E é por isso que não desanima.
4 de Agosto de 2010
Com a expressa permissão do próprio, como facilmente poderá ver-se aqui, apresento-vos em primeira mão — e roubada à escuridão que a escondia — a extraordinária imagem de António Eça de Queiroz, imperador de Luanda, duque de Sassalemba e marquês de Ambriz, durante a sua triste e penosa estada na terrível prisão de Malange, à qual foi tragicamente parar por causa da heróica, mas falhada, incursão que intentou pelo interior de Angola — incursão que, como hoje se sabe, poderia ter inteiramente mudado o inexorável destino da guerra.
Ei-lo, coitado:
Num livro que, por razões que agora não interessam, tenho vindo a estudar com algum cuidado, intitulado Concórdia do livre arbítrio com os dons da graça, divina presciência, providência, predestinação e reprovação, a partir de alguns artigos da primeira parte da «Suma teológica» de São Tomás, publicado pelo jesuíta Luís de Molina, em Lisboa, no ano de 1588, podem ler-se, na pág. 6, os vários títulos de D. Filipe II de Espanha (I de Portugal), por ocasião da concessão do privilégio real para a publicação da obra.
Por não se conseguir ler muito bem, aqui reproduzo os ditos títulos inscritos na página da direita. Diz assim: «Dom Filipe, pela graça de Deus Rei de Castela, de Aragão, de Leão, das duas Sicílias, de Jerusalém, de Portugal, da Hungria, da Dalmácia, da Croácia, de Navarra, de Granada, de Toledo, de Valência, da Galiza, das Maiorcas, de Sevilha, da Sardenha, de Córdova, da Córsega, de Múrcia, de Haia, dos Algarves, de Aljeciras, de Gibraltar, das ilhas Canárias, das Índias Orientais e Ocidentais, das ilhas e terras firmes do mar Oceano, Arquiduque da Áustria, Duque de Borgonha, de Brabante, de Milão, de Atenas e da Terra Nova, Conde de Habsburgo, da Flandres, do Tirol, de Barcelona, do Rossilhão e da Sardenha, Marquês de Oristan e Conde de Sociano…» E continua com outros assuntos.
Ora, mesmo sabendo que Portugal (que aqui inclui os Algarves, as Índias Orientais e grande parte das ilhas e terras firmes do mar Oceano) não faria muito mais tempo desta união ibérica, mas lembrando, também, que este mesmo Filipe já não herdara de seu pai, o imperador Carlos V, as possessões e títulos alemães (que este transferiu, conjuntamente com a eleição imperial, para o seu irmão Fernando), ficamos com alguma ideia da grandeza desta nossa península, não há muitos anos atrás. O facto é que os espanhóis andam lembrados dela. Nós, no entanto, parece que não.*
* Escrevi este post no dia 25 de Julho, dia em que nasceu o nosso primeiro rei, Afonso Henriques. Problemas informáticos, porém, fizeram com que só conseguise publicá-lo hoje, dia 26. Será isto fruto, uma vez mais, do atraso estrutural de Portugal!?
… que se vai cantar o fado.
Descobri este ficheiro num disco que tinha para aqui perdido. Que saudades. Todas as quartas-feiras lá ia eu para aquela tasca posta por ordem, em Lisboa, na Calçada da Ajuda, onde, à noite, em ambiente quase familiar, se ouvia e cantava o fado. São pessoas, conversas, histórias e memórias de um tempo que já não volta, que já não há. A guitarra do Zé Pracana, a viola do Mário Estorninho, a graça do Manuel Margaride, a ciência do Daniel Gouveia… Paciência. É assim a vida.
Ficou, só, este ficheiro, perdido no meu computador, para o qual foi trasladado a partir de um outro ficheiro do telemóvel de alguém que uma noite testemunhou isto que aqui vos conto. A gravação é miserável, mas, se tiverem pachorra, ouçam o último fado, de que gosto muito. A letra com que ali o canto é do Fernando Pessoa. A música é minha, razão pela qual o Zé Pracana e o Manuel Margaride lhe chamaram o «fado Moita». É tudo o que resta. E é tudo vosso.
3 fados na Ajuda
A loucura tomou conta deste blog. O pobre António, terrivelmente assediado pela Joana, que já aqui nos advertira que era louca, tem sofrido em abnegado silêncio o que poucos homens seriam capazes de suportar. O seu sofrimento, porém, já o ultrapassa, e porque, com ele, sofremos também nós, todos os homens, resolvi aqui intervir, em sua defesa, encorajado por aquelas últimas palavras com que Marx nos grita no seu famoso manifesto: «Homens de todo o mundo: uni-vos!»
Bem sei que o nosso momento não é chegado. Não sei se alguma vez o será. Por agora temos ainda de sofrer em silêncio as provações que esse outro sexo nos impõe. Não posso, por isso, ser eu a falar, que as represálias seriam por certo maiores do que aquelas que me é dado suportar. Falará, assim, a própria loucura, de que elas, as mulheres, se arvoram em donas, com aquele mesmo discurso que há já muito tempo nos deixou. Possa assim, por esta via, o bom senso regressar a esta casa:
«LOUCURA – Vede que providência a da Natureza, genitriz e fabricante do género humano, a de deixar em tudo o condimento da loucura. Com efeito, segundo a definição dos estóicos, a sapiência não é mais do que a conduta da razão; pelo contrário, a loucura consiste em deixar-se levar pelas paixões. Para que a vida dos homens não fosse inteiramente triste e tétrica, Júpiter deu-lhes mais paixões do que a razão – na proporção de um grão por meia-onça. Além disso, relegou a razão para um canto estreito da cabeça, deixando o resto do corpo entregue às paixões. À razão opôs ainda dois tiranos violentíssimos, a ira, que tem a sua sé no peito, com a própria fonte da vida que é o coração, e a concupiscência, cujo império se dilata até ao baixo-ventre. Quanto vale a razão contra estas duas forças reunidas é o que a vida comum dos homens satisfatoriamente nos mostra. A razão pode gritar até enrouquecer para fazer cumprir as fórmulas da honestidade; é rainha a que os homens não obedecem, a que os homens replicam com injúrias, até que emudeça ou se declare vencida.
Ora, o homem, nascido para administrar as coisas, deveria receber um pouco mais do que uma onça de razão. Júpiter consultou-me a este respeito e dei-lhe um conselho digno de mim: o de unir a mulher ao varão. A mulher é um animal louco como nenhum, inepto, ridículo e delicioso, que no convívio doméstico atenuaria a tristeza do engenho viril com a loucura feminina. E claro que, quando Platão parece hesitar em incluir a mulher entre os animais racionais, nada mais pretende do que indicar a loucura insigne desse sexo. Quando por acaso uma mulher quer passar por sábia, não faz mais do que dizer que é duas vezes louca. Ninguém vai ungir um boi para a palestra, nem Minerva o consentiria. Não procedamos, pois, contra a natureza; o vício fica agravado quando dissimulado de virtude, por maior que seja o engenho. É bem justo o provérbio grego: um macaco é sempre um macaco, ainda que vestido de púrpura. Assim também a mulher é sempre mulher, quero dizer sempre louca, ainda que ponha uma máscara.
As mulheres não me podem levar a mal que lhes atribua a loucura, porque eu também sou, além de mulher, a própria Estultícia. Vendo bem as coisas, devem ser gratas à Estultícia que lhes permite serem muito mais felizes do que os varões. Têm a graça da formosura, mérito que antepõem a todas as coisas, e que lhes serve para tiranizarem os próprios tiranos. O varão tem as formas rudes, a cútis híspida, a barba selvagem, e tudo isso o envelhece, embora signifique sabedoria; as mulheres, com as faces sempre macias, a voz sempre doce, a pele sempre lisa, têm a seu favor os atributos da juvência perpétua. Porque optam elas nesta vida, senão por agradar da melhor maneira aos varões? Não é essa a razão de tantos cuidados, enfeites, banhos, perfumes, penteados, cosméticos, cremes, pinturas, de tanta arte no embelezamento do rosto e dos olhos? Não é a Loucura a deusa que lhes entrega da melhor maneira os varões submissos? Que é que eles não prometem às mulheres, e que é que eles não lhes permitem? E tudo isto em troca de quê, se não de voluptuosidade? Quem permite todas estas delícias é a estultícia. Basta reparar na figura que o varão faz, e nas tolices que diz à mulher quando pretende obter a volúpia que ela concede.»*
Posto isto, caro António, conte comigo. Ambos sabemos que a batalha está perdida. Mas há lá melhor e mais doce maneira de morrer!
* ERASMO de Roterdão, Elogio da Loucura (1508), cap. XVI e XVII.
14 de Julho de 2010
«Se é necessário para a conservação da Pátria, tire-se a carne, tire-se o sangue, tirem-se os ossos, que assim é razão que seja; mas tire-se com tal modo, com tal indústria, com tal suavidade, que os homens não o sintam, nem quase o vejam. Deus tirou a costa a Adão, mas ele não o viu nem o sentiu; e se o soube, foi por revelação. Assim aconteceu aos bem governados vassalos do imperador Teodorico, dos quais por grande glória sua dizia ele: “Eu sei que há tributos, porque vejo as minhas rendas acrescentadas; vós não sabeis se os há, porque não sentis as vossas diminuídas.” (…) O maior jugo de um reino, a mais pesada carga de uma república são os imoderados tributos. Se queremos que sejam leves, se queremos que sejam suaves, repartam-se por todos. Não há tributo mais pesado que o da morte, e contudo todos o pagam, e ninguém se queixa, porque é tributo de todos. Se uns homens morreram e outros não, quem levara em paciência esta rigorosa pensão da imortalidade? Mas a mesma razão que a estende, a facilita; e porque não há privilegiados, não há queixosos. Imitem as resoluções políticas o governo natural do Criador: “O qual faz nascer o seu sol sobre bons e maus, e vir chuva sobre justos e injustos.” (Mt. 5, 45) Se amanhece o sol a todos aquenta; e se chove o céu a todos molha. Se toda a luz caíra a uma parte e toda a tempestade a outra, quem o sofrera?» *
* VIEIRA, António, S. J., Do Sermão de Santo António (1642), in «Textos Escolhidos do Padre António Vieira», Ed. Verbo, Colecção livros RTP, Lisboa, 1971, págs. 34–35.
Faço aqui uma muito breve reflexão sobre as famosas cinco vias propostas por São Tomás de Aquino para demonstrar a existência de Deus, que mais atrás traduzi, de algum modo em diálogo com alguns textos e comentários entretanto feitos neste nosso blog à volta deste mesmo tema.
O primeiro ponto para o qual julgo ser importante chamar a atenção é o facto de São Tomás começar a Summa Theologiae com a questão da existência de Deus. É com ela, com efeito, que inaugura o conjunto de questões dedicadas à compreensão de um Deus cuja essência – como o próprio expressamente afirma – é existir (Ex. 3, 14).
O que está em causa, portanto, não é uma questão conceptual – isto é, a compreensão intelectual da realidade essencial de um ser do qual estamos separados –, mas uma questão existencial – isto é, a apreensão vital da realidade essencial de um ser no qual, ou com o qual, estamos lançados.
Para nós, porém, que somos seres espiritualmente limitados, a existência de uma totalidade capaz de dar sentido a tudo aquilo que nos aparece sendo – à qual costuma chamar-se Deus – não é de nenhum modo evidente. Pelo contrário, temos de conhecê-la a partir dos seus efeitos, que são tudo aquilo que nos é imediatamente dado conhecer (Summa Theologiae, Ia, 2, 1–2).
O conhecimento humano, portanto, implica a fé. É a partir dela, com efeito, que procuramos compreender a realidade na qual estamos lançados desejando ser felizes. Podemos obviamente divergir na determinação do que seja a felicidade – Deus, o amor, o prazer, o dinheiro, o poder… –, mas julgo que devemos concordar nisto: a nossa relação com a realidade implica a fé.
É a partir das crenças que temos naquilo em que julgamos consistir o nosso bem, com efeito, que tentamos equilibrar-nos nessa realidade que de algum modo nos antecede e que a partir de nós se projecta. Esta é uma importantíssima lição medieval que, quer contra o essencialismo moderno – que, elevado a ideais alturas, se perdeu da realidade humana –, quer contra o existencialismo do século XX – que, com medo de maiores vertigens, negou as alturas de Deus –, urge, hoje, reaprender e recuperar.
O facto de todas as nossas acções serem informadas por uma escolha original que procede radicalmente da fé, porém, não implica a desconformidade desta escolha nem com a inteligência nem com a experiência. Pelo contrário, é próprio dos ensinamentos cristãos a afirmação de uma relação íntima entre a fé, a razão e a realidade, de tal maneira que a fé impregna a razão que se confirma, ou infirma, na realidade.*
Assim, se é verdade que só por via de uma sobrenatural existência de Deus São Tomás encontra uma explicação para tudo aquilo que existe, não é menos verdade que o ponto de partida do seu questionamento é a misteriosa existência do ser que naturalmente nos é dado experimentar.
As cinco vias para o conhecimento da existência de Deus que nos propõe, neste sentido, reflectem o processo de manifestação do ser, o qual surge, antes do mais, como movimento, a partir do que percebemos que existem causas produtoras, ou eficientes, de entre as quais conhecemos que umas são possíveis e outras necessárias, distinguimos diferentes graus de perfeição e verificamos que existe uma ordem racional que governa todas as coisas (Summa Theologiae, Ia, 2, 3).
O que aqui quero ainda especialmente notar, no entanto, é que cada uma destas cinco etapas da experiência do ser só se revela como um caminho para Deus se e quando a pensamos por relação ao infinito. Ora, o que afirmo é que se o argumento proposto em todas as cinco vias é a reductio ad infinitum é porque a principal qualidade atribuída pelos cristãos àquilo que dizemos por meio do nome Deus é justamente a infinitude.**
Para os cristãos, com efeito, Deus é a existência da infinitude. Isto percebe-se melhor se repararmos que a capacidade para pensar o infinito, que expressamente apareceu na Grécia logo a partir de Anaximandro (para quem o infinito, ou ilimitado, ou apéiron, era o princípio de todas as coisas), não encontrou um correspondente espiritual concreto até ao momento em que a filosofia grega se cruzou com a religião judaico-cristã no seio do império romano.
Até então, com efeito, o facto de um determinado Deus não ser omnipotente (isto é, infinitamente poderoso), ou de, consequentemente, poder pecar e/ou ser responsável pelos pecados de alguém (isto é, não ser infinitamente bom), não representava um qualquer problema para aqueles que tinham nesse Deus a sua fé.
Para os cristãos, porém, Deus é o criador de todas coisas, tanto visíveis como invisíveis, em relação com as quais diversamente mostra este seu mesmo traço distintivo: a infinitude. Deus dir-se-á, assim, óptimo máximo, omnipresente, omnipotente, omnisciente, maximamente perfeito, sumamente bom, sumamente belo, soberano bem, etc.
Ora, foi a partir desta plenitude do Deus cristão, da qual adequadamente participamos (Jo. 1, 16), que radicalmente se pôs na história a questão da liberdade humana, tanto de um modo positivo – segundo o qual o valor da liberdade humana se reconhece a partir da sua semelhança ontológica com a liberdade de Deus –, como de um modo negativo – segundo o qual a liberdade humana não pode ser mais do que uma obediência consciente à vontade de um Deus todo-poderoso.
É na solução deste paradoxo que a igreja cristã existe e deve hoje redescobrir-se. O terrível erro histórico do qual sempre participaram tanto os chefes das igrejas como os das nações – e que a época moderna elevou até à loucura do totalitarismo – foi o de pretender absolutamente infinito um só dos termos da proposição: ou somos livres e então não pode haver autoridade, ou existe autoridade e então nós não somos livres.
Há que distinguir, porém, a liberdade política, pela qual escolhemos o que somos na ordem do tempo, e a liberdade religiosa, pela qual escolhemos o que somos na ordem do espírito. Na primeira, partimos da essência para a existência (quase à maneira do desenvolvimento hegeliano da ideia), de tal maneira que realizamos as formas nas quais somos abstracta mas naturalmente dados. Na segunda, partimos da existência para a essência, de tal maneira que criamos sobrenaturalmente novas formas naturais.
As duas liberdades, assim, embora sendo distintas, relacionam-se necessariamente no mundo, no qual se põem, se dão e se opõem. É neste sentido que se pode compreender o que dissemos, nomeadamente que a essência do cristianismo é existir, de tal maneira que a sua igreja se mostre no mundo, mas sem ser deste mundo (Jo. 18, 36), no qual, partindo somente da fragilidade do amor, dê testemunho da ressurreição de Jesus Cristo (Act. 1, 22; 2, 32; 3, 15; 4, 33; etc.), curando e convertendo pela fé com palavras de vida (Act. 5, 20).
* Penso, aliás, que é este o impulso fundamental do qual nascerá a ciência moderna. Impulso fundamental não quer dizer, porém, que não haja outros, como, por exemplo, a concepção determinável do infinito, de que já seguir falaremos, os contributos da filosofia grega, etc.
** Infinitude não quer aqui dizer a ausência de limites físicos, ou espaciais (questão que São Tomás expressamente trata na questão 7 desta primeira parte da Summa Theologiae), e muito menos que Deus seja algo incompleto, ou indeterminado. Infinitude refere-se aqui à irrestrita perfeição das qualidades, das operações e do poder divinos, os quais se dizem negativamente (in = não) apenas por causa do nosso modo limitado de conhecer – e não por qualquer negatividade própria da sua essência.

F*-se. Já não aguento mais. São quase nove horas e ainda aqui estou. E prometi à M. que hoje chegava cedo a casa. Mas esta merda não pára. Papel, telefonemas, relatórios; papel, telefonemas, relatórios; papel, papel… PAPEL! F*-se. E tudo merda. Tudo. Só merda. Uma grandessíssima merda, é o que é! E a esta hora é que mandam a desgraça destes telegramas dos sacristas do Pedro Norton e do Manuel Fonseca com ameaças de merda por causa de uma treta de um texto sobre a porra de uma merda de um quadro qualquer. F*-se para isto. Trabalho, trabalho, trabalho. Aaaahhh! Estou cansado, porra… gasto; exangue; lívido; branco! Pensando melhor estou verde. Por fora estou branco, é verdade, mas por dentro sinto-me verde, envenenado com esta vida de merda. Agora reparo, aliás, que tudo à minha volta está verde. Só aquela gaja é que não. Sempre com aquelas roupinhas justas – que já lhe estavam apertadas há mais de 5 ou 10 quilos atrás – e aquele arzinho de p* armada em boa menina. «Chamou Sr. Dr.?»; «Precisa de alguma coisa Sr. Dr.?»; «Quer um cafezinho Sr. Dr.?»; «Ainda vai precisar de mim hoje Sr. Dr.?». Xiça, que já não a aguento mais. Se quero alguma coisa? Quero, quero. Olha, sabes o que é que eu quero? Que tires estes papéis todos de cima da minha mesa, que arranques os botões todos da merda da tua camisa e que te deites aqui em cima que eu já te digo o que é quero. F*-se. Tenho que fazer isto e ir para casa. Mas o que é que hei-de escrever agora para aqueles gajos?
– Ó Fernanda…
– Sim, Sr. Dr.!?
– Telefone se faz favor para o escritório do Sr. Norton e do Sr. Fonseca e diga-lhes…
– (…)
– Diga-lhes que…
– Digo-lhes!? Sr. Dr.?
– Olhe, diga-lhes que o quadro é muito bonito e que e que eu fui para casa jantar!
– (…) !
– Até amanhã, Fernanda…
– Até amanhã Sr. Dr.




























