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	<title>É tudo gente morta &#187; Gonçalo Pistacchini Moita</title>
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		<title>Parva summa de necessaria humanorum fide</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Jun 2011 01:37:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Esclareço, antes de mais nada, que parva, aqui, não quer dizer tola, ou apatetada, mas sim pequena, pois que é pequena, mas pretensamente essencial, esta suma que aqui tento fazer sobre a necessária fé dos homens (parva summa de necessaria humanorum fide). Explico, além disso, que embora parta de um exemplo bíblico, que me é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/nascente.png"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/nascente.png" alt="" title="nascente" width="259" height="194" class="aligncenter size-full wp-image-29576" /></a> Esclareço, antes de mais nada, que <em>parva</em>, aqui, não quer dizer tola, ou apatetada, mas sim pequena, pois que é pequena, mas pretensamente essencial, esta suma que aqui tento fazer sobre a necessária fé dos homens (<em>parva summa de necessaria humanorum fide</em>).<br />
Explico, além disso, que embora parta de um exemplo bíblico, que me é mais familiar, de nenhum modo me quero cingir a uma fé particular. Pelo contrário, falo de algo que julgo ser fundamental na vida de todos os seres humanos, independentemente daquilo em que concretamente acreditem e da maior ou menor consciência que disso tenham. E é por isso que chamo <em>necessária</em> à fé dos homens. Com efeito, ninguém age sem acreditar.<br />
O exemplo, para não demorarmos mais, é aquele segundo o qual Deus, o Senhor, o máximo objecto de uma crença, nos é apresentado como uma rocha. De facto, são muitíssimas as passagens com que, ao longo do <em>Antigo Testamento</em>, embora com uma maior incidência nos <em>Salmos</em>, Deus é assim imaginado. Esta imagem, aliás, desdobra-se fundamentalmente em duas: a da água que brota da rocha, símbolo de um Deus que é fonte da vida; e a da firme constância da rocha, símbolo de um Deus que é um refúgio seguro.<br />
É a partir destes muitos exemplos que o <em>Novo Testamento</em> voltará a este tema, dizendo que o homem de fé é aquele que constrói a sua casa sobre a rocha. Aqui, porém, gosto de interpretar o exemplo a partir do <em>Evangelho de Mateus</em> (cap. 7), cuja leitura pode bem opor-se àqueloutra famosa história dos três porquinhos. O homem prudente, com efeito, não é aqui como o porquinho mais velho, pois que esta rocha é dura de mais para permitir a material escavação de grandes fossos e a consequente fundação de sólidos alicerces. Pelo contrário, construir a casa sobre a rocha, aqui, é confiar num sentido da vida que me transcende e ao qual me entrego, de tal maneira que a minha casa há-de muitas vezes fazer-se e desfazer-se. Estas mudanças, no entanto, estarão fundadas numa fé que lhes garante a paz.<br />
À firmeza da fé, portanto, não corresponde uma tranquilidade exterior, mas interior, como o exemplo de Cristo, para quem é cristão, facilmente poderá lembrar. A casa dos homens, de facto, só pode fundar-se no espírito, cuja melhor definição será, talvez, a presença, isto é, aquilo cuja experiência apenas se dá no presente. Talvez isto permita explicar que esta mesma passagem, no <em>Evangelho de Lucas</em> (cap. 6), fale expressamente dos alicerces que a casa do homem prudente deverá fundar na rocha.<br />
Permitam-me a poesia de uma leitura na qual estes alicerces sejam também espirituais. De outro modo, aliás, não os percebo, ou melhor, não acredito. Na verdade, também o <em>Evangelho de Marcos</em> (cap. 15) nos conta como Jesus, depois de morto, foi envolto num lençol e depositado num sepulcro lavrado numa rocha. Foi aí que ressuscitou, como a água que, da pedra, irrompe misteriosamente viva. Ora, é dessa mesma espiritual invisibilidade que são feitos os alicerces de que fala Lucas. São alicerces que interiormente unidos àquela rocha que tudo suporta e que tudo renova permitem que os homens possam enfrentar, em paz, as terríveis mudanças que estão inevitavelmente fadados a sofrer no tempo.</p>
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		<title>Despedida</title>
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		<pubDate>Wed, 18 May 2011 23:22:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[A tua mão chega pesada à minha alma, Esquecida da leveza do amor. É o Outono quem hoje nos abraça: Triste graça de morrer sem dor. O Inverno há-de vir, logo depois… E o frio nos há-de então cortar em dois.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/folhas.jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-28587" title="folhas" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/folhas-500x313.jpg" alt="" width="500" height="313" /></a></p>
<p style="text-align: center;">A tua mão chega pesada à minha alma,<br />
Esquecida da leveza do amor.<br />
É o Outono quem hoje nos abraça:<br />
Triste graça de morrer sem dor.<br />
O Inverno há-de vir, logo depois…<br />
E o frio nos há-de então cortar em dois.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Portugal…</title>
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		<pubDate>Thu, 12 May 2011 22:43:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Arredado deste meu querido blog muito mais do que gostaria, por razões que deixariam muito contente a troika do FMI, do FEFE e do BCE – explico: por razões de trabalho e de estudo que quase não me deixam tempo para outras actividades de carácter lúdico, não consentâneas, ao que parece, com a época de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Arredado deste meu querido <em>blog</em> muito mais do que gostaria, por razões que deixariam muito contente a <em>troika</em> do FMI, do FEFE e do BCE – explico: por razões de trabalho e de estudo que quase não me deixam tempo para outras actividades de carácter lúdico, não consentâneas, ao que parece, com a época de sofrimento * que vivemos –, ouso aqui roubar alguns minutos à nossa objectiva e nacional produtividade para vos falar, ensombradamente, de Portugal.<br />
Falo-vos de Portugal, no entanto, não a partir do olhar exterior proporcionado pela visita de uma europeia <em>troika</em> (contradição tragicómica que parece querer esquecer que a Europa e a Rússia teimam em não olhar o futuro lado a lado), mas de um olhar interior proporcionado por uma popular e antiga vivência de um fértil tríduo pascal.<br />
Uma primeira observação que gostaria de fazer sobre isto é que Portugal é mais antigo do que esta Europa que agora nos visita. Esta Europa, na verdade, pretende fundar-se em revoluções – inglesa, americana, francesa, russa… – que fazem tábua rasa do passado. Nós, porém, somos já antes disso. Temos que senti-lo, temos que vivê-lo, temos que sabê-lo, para resolvermos as nossas próprias contradições e, então, falarmos, a partir de nós, com todos os outros.<br />
Na Casa do Carboal, em Covas do Douro, onde fui para passar a Páscoa, na porta, logo à entrada, pode ler-se: «Si Deus pro nobis quis contra nos: 1689». Esta inscrição, tirada da <em>Carta aos Romanos</em> (8, 31), dá o mote que deve inspirar uma família que, desde então, se reconhece daquela casa. Faltavam 100 anos para a revolução francesa, com a qual esta noção de propriedade familiar e comunitária iria dar lugar a uma outra, apenas económica e política.<a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/Casa-do-Carboal-Entrada1.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-28146" title="Casa do Carboal - Entrada" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/Casa-do-Carboal-Entrada1-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a> Esta exterioridade totalitária que desde então nos tem vindo a ser imposta levou ao absurdo generalizado de se pensar uma casa apenas como um investimento económico, uma aplicação financeira, um bem transaccionável, exagero que, no nosso país, tão atreito às modernidades vindas de fora, foi mesmo, nesse sentido, comentado pela <em>troika</em>.<br />
Ora, se de um ponto de vista económico e político nós temos uma casa, de um ponto de vista familiar e civil, contudo, nós somos de uma casa. Esta pertença diferenciada a um espaço e a um tempo, brutalmente combatida pelas revoluções universalistas em que esta Europa quer fundar-se, tem a sua raiz num sistema feudal que, nalguns pontos, como este, faremos bem em recuperar. E nós somos daqueles que têm uma longa tradição feudal. Fazemos mal, por isso, em deitá-la fora.<br />
Claro que esta tradição foi, de um modo geral, ultrapassada. E bem, pois que continha princípios que hoje reconhecemos como inaceitáveis. É com estranheza que observamos, com efeito, que esta mesma casa erigida sobre pilares de pedra cristãos seja arrolada num morgadio em que, «nos casos em que não haja sucessão legítima dos chamados nesta instituição, poderão suceder os filhos bastardos sendo havidos com mulher limpa sem má raça, e tidos por filhos, e por tais reputados; e quer e é sua vontade [– do fundador –], que o que suceder neste vínculo e morgado não seja cristão novo, nem judeu, nem mourisco, nem mulato, nem de nação com defeito, nem casado com mulher que o tenha. (…) [Do mesmo modo não poderão nele suceder] Frades, Freiras, Clérigos e Malteses, (…) para que só sucedam nele aqueles que possam casar…» Eis o que dizia o direito. <a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/DSCN08692.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-28163" title="DSCN0869" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/DSCN08692-300x400.jpg" alt="" width="300" height="400" /></a> Esta contradição, no entanto, é nossa, e, como tantas outras, tem de resolver-se, ou melhor, temos de resolvê-las. Mas não com revoluções que fazem tábua rasa de um passado que é também a nossa história. No Minho, no meu Minho, que é verde, por causa da água que sai de todas as pedras, as contradições resolvem-se a cantar. No campo, nas praças, nas festas e na igrejas. Os cantos não são, muitas vezes, nem os mais afinados, nem os mais bem cantados. Mas saem fortes e puros das almas das gentes como a água sai dos campos e das pedras, conferindo, com o seu som, a todos a graça de um mesmo caminho.<br />
<a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/DSCN0840.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-28169" title="DSCN0840" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/DSCN0840-150x112.jpg" alt="" width="219" height="161" /></a></p>
<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/DSCN08411.jpg"><img class="aligncenter size-thumbnail wp-image-28165" title="DSCN0841" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/DSCN08411-112x150.jpg" alt="" width="161" height="150" /></a><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/DSCN08462.jpg"><img class="alignright size-thumbnail wp-image-28167" title="DSCN0846" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/DSCN08462-112x150.jpg" alt="" width="200" height="150" /></a></p>
<p>Foi assim, uma vez mais, no sábado de Aleluia. A igreja cheia, de uma gente que convive com o pecado como convive com a terra. E que canta com uma força que irrompe nos corações, comovendo-os, como comoveu a mim, que sei hoje mais das letras que dos elementos. Ora, a <em>troika</em> nada sabe desta terra, desta água, deste fogo e deste ar. E nem tem que saber. Mas é deles que somos feitos. E só neles podemos ser – ou então não ser, como dizia o outro!</p>
<p> </p>
<p>* <em>Tripalium</em>, como é sabido, é um termo latino que significa sofrimento, do qual deriva, em português, a palavra trabalho.</p>
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		<title>Espártaco</title>
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		<pubDate>Sat, 16 Apr 2011 01:52:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
				<category><![CDATA[Queridos Mortos]]></category>

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		<description><![CDATA[Diz-se que nasceu na Trácia, no ano 120 a. C., mas não é certo. Diz-se ainda que serviu no exército romano, do qual terá desertado, pelo que foi depois vendido como escravo, juntamente com a sua mulher, mas também isto não se sabe com certeza. Parece, porém, que foi então comprado pelo romano Cneu Cornélio [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/spartacus.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/spartacus.jpg" alt="" title="spartacus" width="317" height="475" class="aligncenter size-full wp-image-26985" /></a><br />
Diz-se que nasceu na Trácia, no ano 120 a. C., mas não é certo. Diz-se ainda que serviu no exército romano, do qual terá desertado, pelo que foi depois vendido como escravo, juntamente com a sua mulher, mas também isto não se sabe com certeza. Parece, porém, que foi então comprado pelo romano Cneu Cornélio Lêntulo Batiato, que o enviou para a sua escola de gladiadores, na antiga cidade etrusca de Cápua, onde, pouco depois, durante uma rebelião, empunhando facas arrebanhadas na cozinha, fugiu, juntamente com setenta e sete gladiadores, de uma morte certa num lugar fechado para uma morte incerta em campo aberto. Talvez isto seja o que de mais certo sabemos sobre a sua vida.<br />
Mas a vida tem muito pouco de certo. E nesse campo aberto onde gritavam, como se gritassem ainda na arena onde morriam matando para divertir os outros que, lá em cima, também gritavam, venceram os soldados enviados para os combater. Agora armados, acamparam no monte Vesúvio, dentro da cratera do adormecido vulcão, cuja força neles havia de acordar. Um primeiro exército de 3.000 soldados romanos foi derrotado pelos escravos e outras duas hostes enviadas pelo Senado foram subjugadas pelos gladiadores. A fama destes homens, então, rapidamente se espalhou, de tal maneira que cada vez mais escravos se lhes vinham juntar. Diz-se que chegaram a ser mais de 70.000, os quais, roubando e pilhando, viviam livres e insubmissos a Roma.<br />
O seu grande número e a ausência temporária dos exércitos regulares romanos transformou-os numa ameaça. O seu líder, então, tornou-se temido. Desprezado por uns e exaltado por outros, odiado pelos primeiros e amado pelos segundos, deixámos para sempre de saber quem era. Conhecemo-lo apenas por meio daqueles que contaram a sua história, ou de uma maneira ou de outra. Já os romanos sobre ele não se entendiam. Floro, Apiano, Diodoro Sículo, Plutarco, cada um o vê à sua maneira. Não é de estranhar, por isso, que, mais tarde, os comunistas façam dele um precursor e Hollywood o cante como um herói. O mais provável, no entanto, é que ele tenha apenas querido fugir do jugo que o oprimia, procurando, para lá dos Alpes, uma terra onde pudesse viver tranquilo. Quem sabe, até, ser feliz!?<br />
O seu exército, porém, não se pôs de acordo. Em vez de se dirigirem para a Gália, pilharam a península itálica e confirmaram a sua ameaça a Roma. Esta, reuniu então seis legiões sob as ordens de Marco Licínio Crasso, que aceitou arriscar a sua reputação numa difícil batalha contra um exército de escravos. A batalha foi travada em vários locais e manteve-se, de algum modo, incerta, até que o exército de Cneu Pompeu Magno, entretanto regressado da Espanha, onde vencera Sertório, se juntou às legiões de Crasso que, em Petélia, na Lucânia, no ano de 71 a. C., definitivamente venceram os homens liderados por Espártaco.<br />
O gladiador e líder da revolta dos escravos morreu durante a batalha, ao lado da grande maioria dos seus homens. Os cerca de 6.000 escravos-livres que escaparam com vida foram capturados e crucificados ao longo da estrada que vai de Cápua até Roma, cidade na qual Pompeu entrou triunfalmente, anunciando o império, que estava a chegar. Espártaco, esse, ninguém sabe realmente quem foi. Lutou por si, não pelos outros, e essa foi a sua grande vitória, destinado que parecia estar a lutar pelos outros, e não por si. </p>
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		<title>Distância…</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Mar 2011 00:25:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[A distância é o que me separa do outro, permitindo-me ser diferente. É a medida do afastamento e da proximidade; o intervalo que dá ao ser um estar, no qual este se identifica e diferencia. Pensá-la apenas como extensão é consequência de um erro de Descartes, que cindiu a alma e o corpo. A distância, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/distância.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/distância.jpg" alt="" title="distância" width="259" height="194" class="aligncenter size-full wp-image-26107" /></a></p>
<p>A distância é o que me separa do outro, permitindo-me ser diferente. É a medida do afastamento e da proximidade; o intervalo que dá ao ser um estar, no qual este se identifica e diferencia. Pensá-la apenas como extensão é consequência de <em>um erro de Descartes</em>, que cindiu a alma e o corpo.<br />
A distância, no entanto, é relação. É o medo que a torna em desamor. E a crença no desamor cimenta, então, essa distância. É por isso que me escondo, movido por sensações chegadas antes dos conceitos à memória, contrariando um íntimo desejo de ser.<br />
Entre ser e não ser, contudo, arrisco. Entre mim e o outro, tento e jogo-me… E à dúvida que me acompanha no caminho canto agora, confiante, estas palavras, que me foram oferecidas por uma filha por causa de um dia e de um pai: «Gosto tanto de ti que te furava para entrar no teu coração.»</p>
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		<title>A lenda do minotauro</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Mar 2011 16:24:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Há uma lenda da antiga Grécia, bela como são as lendas e racional como era a antiga Grécia, que aqui quero resumidamente relembrar: a lenda do Minotauro. Teseu, o herói desta história, fora educado no palácio real da velha cidade de Trezena por seu sábio avô, o rei Piteus, onde vivia com sua mãe, Ethra. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/teseu_e_minotauro.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/teseu_e_minotauro.jpg" alt="" title="teseu_e_minotauro" width="400" height="278" class="aligncenter size-full wp-image-25972" /></a><br />
Há uma lenda da antiga Grécia, bela como são as lendas e racional como era a antiga Grécia, que aqui quero resumidamente relembrar: a lenda do Minotauro.<br />
Teseu, o herói desta história, fora educado no palácio real da velha cidade de Trezena por seu sábio avô, o rei Piteus, onde vivia com sua mãe, Ethra. O seu pai, o rei Egeu, vivia em Atenas, na Ática, que governava, e que não podia abandonar, pois um monarca deve olhar sempre pelo seu povo.<br />
Enquanto crescia, Teseu perguntava frequentemente por seu pai, que nunca vira, e que muito desejava conhecer. Sua mãe, no entanto, não o deixava partir e dizer ao rei Egeu quem era – seu maior anseio –, por ele não ser ainda suficientemente forte e crescido para uma tal jornada. Todos os dias Teseu perguntava a sua mãe quando poderia partir, menino ainda que era. Um dia ela disse-lhe que quando ele fosse capaz de levantar a pedra onde estavam sentados, conversando, consentiria em deixá-lo partir para Atenas para dizer ao rei Egeu que era o seu filho.<br />
Era a tarefa de um gigante. No entanto, dia após dia ele tentou, até que, passados anos, chegou o momento esperado. A enorme rocha cedeu ante os esforços de Teseu. Ethra ficou muito triste por ver que tinha chegado a hora de se separar do seu filho muito querido, mas percebendo que nada mais podia fazer, mostrou-lhe uma espada com um punho de ouro e um par de sandálias, que o rei Egeu tinha deixado para ele debaixo da pedra, quando a levantou com os seus poderosos braços e a repôs no local de onde agora Teseu a retirava.<br />
No longo caminho até Atenas, que percorreu com as sandálias de seu pai, Teseu viveu muitas aventuras. Muitos foram os salteadores e os bandidos que com a espada de seu pai derrotou sem piedade, de tal maneira que a fama da sua nobreza e coragem chegaram até Atenas antes dele. Aí, os sobrinhos do rei, com medo que este o preferisse, esquecendo-se deles, preparam-lhe uma armadilha, apresentando-o como um traidor que vinha para o matar.<br />
O rei, encolerizado por tamanha afronta, ordenou que o prendessem e o matassem, embora sentisse, olhando nos seus olhos, algo muito estranho. Parecia saber que aquele homem era bom e justo, mas não percebia o que sentia. Apenas no último instante, olhando a sua própria espada, reconheceu o seu filho, que abraçou, mandando embora para sempre os verdadeiros traidores. Desde então, os dois governaram Atenas felizes e Teseu era conhecido por todos pela sua coragem e nobreza.<br />
Uma vez mais, porém, tudo se precipitou. Na ilha de Creta havia um horrível monstro, chamado minotauro, com as formas em parte de um homem e em parte de um toiro. O rei Minos, que governava a ilha, gastara uma grande quantidade de dinheiro na construção de uma habitação para o horrível monstro. Alguns anos antes os atenienses tinham entrado em guerra com Creta e foram derrotados. A paz só foi concedida com uma condição: o envio anual de sete jovens e sete virgens para serem devorados pelo monstro favorito do cruel rei Minos.<br />
Teseu, ao saber desta terrível história, ofereceu-se para ir como um dos sete jovens desse ano. «É exactamente por ser um príncipe – disse ele ao pai – e o legítimo herdeiro do teu reino, que livremente tomo sobre mim as calamidades dos teus súbditos.»<br />
Deixando seu pai muito triste foi para Creta para ser devorado pelo minotauro. A sua atitude e coragem, no entanto, diferenciavam-no dos restantes jovens, o que não passou despercebido a Ariadne, filha do rei de Creta, que já não conseguia suportar a crueldade do pai. De noite, enquanto esperavam a aurora em que seriam sacrificados, os pobres atenienses choraram e, embalados pelos seus soluços, adormeceram. Apenas Teseu se mantinha altivamente acordado, pensando numa forma de os salvar.<br />
Apareceu então a princesa Ariadne, que, abrindo a porta da cela, lhe pediu que fugisse. Mas ele nunca deixaria abandonados os seus companheiros, pelo que convenceu Ariadne a mostrar-lhe o refúgio do minotauro. Os dois percorreram um bosque cerrado até que chegaram a uma porta, único acesso a um escuro labirinto, no meio do qual estava o terrível monstro.<br />
O minotauro era fácil de encontrar, apesar do labirinto, pois os seus roucos rugidos indicavam o caminho a seguir. Mas como é que de lá sairia? Ariadne disse-lhe então que segurasse na ponta de um fio de seda, cuja outra extremidade ela seguraria. Assim, se ele sobrevivesse, poderia sair do labirinto.<br />
A luta foi longa e feroz e foi apenas no momento em que o minotauro estava prestes a devorá-lo que, de um só golpe, Teseu o matou. Rapidamente, saiu do labirinto e, reunindo os seus companheiros, todos fugiram para Atenas. Ariadne, porém, decidiu ficar junto do seu pai, que, no fundo, amava, na ilha que um dia havia de governar.<br />
Durante a viagem de regresso, no entanto, vinham tão felizes e excitados, que Teseu se esqueceu de içar velas brilhantes, e não pretas, sinal de que vencera o minotauro, tal como seu pai lhe pedira, o que fez com que o rei Egeu, do alto de uma montanha onde, todos os dias, esperava avistar o barco regressando, vendo que as velas eram pretas, e não brilhantes, se atirasse com o seu ceptro e a sua coroa para o mar, onde morreu afogado.<br />
Há várias lições a retirar deste mito encantador. E em primeiro lugar, talvez, esta: Teseu queria saber quem era. Nada era tão importante. Quando pensava em ir ter com seu pai e dizer-lhe que era seu filho, Teseu ia à procura de si mesmo: ia perguntar ao pai quem era.<br />
É muito estranho, de facto, sermos e não sabermos quem somos, ou o que somos. É essa a grande jornada para a qual Ethra preparava o seu filho. Mas como nos procuramos a nós mesmos? Tal como Teseu: primeiro de tudo com o ardente desejo de nos revelarmos e de nos conhecermos. E então, calçando as sandálias de nossos pais e empunhando suas armas, fazendo obra.<br />
Conhecemo-nos, de facto, ao mesmo tempo que nos revelamos, ao mesmo tempo que nos fazemos. Ethra, no entanto, chorava, ao ver seu filho partir: porque não há garantias. Porque nos podemos perder. É que todos temos, dentro de nós, Egeu e Minos: e ambos querem governar.<br />
Nascemos. Somos preparados por nossa mãe – a natureza – para a grande jornada que há-de vir: des-cobrirmo-nos! Quando é chegada a altura vamos à procura de nós próprios. Onde? Em todo o lado; e ardentemente, como é próprio da juventude. Calçamos as sandálias de nosso pai – cultura e civilização humanas – e empunhamos a sua espada. E onde ele parou nós continuamos. Contudo, não há garantias. Longo é o caminho até Atenas.<br />
Seguimos obstinados até à nossa meta: olhar nos olhos de nosso pai – então ele nos dirá quem somos! Mas quando lá chegamos e ele olha os nossos olhos, não nos reconhece. Se não nos perdemos no caminho, porém, se nos provámos justos e corajosos, trazemos ainda a sua marca intacta em nós; e, vendo-a, convidar-nos-á a governar junto dele. A lição, no entanto, deve ser aprendida: o seu reino não é o nosso – temos de des-cobrir-nos.<br />
Podemos, na verdade, acomodar-nos e sentar-nos ao lado do nosso pai, gozando os confortos do seu reino e as delícias do seu amor. Mas não seremos livres! Ser príncipe não é ser filho de um rei, é tomar livremente sobre si as obrigações dos seus súbditos. É escolher, dia-a-dia, irmos ao encontro de nós próprios e construirmos verdadeiramente o nosso reino.<br />
Para sermos verdadeiramente nós próprios temos de enfrentar livremente essa batalha final. Depois de nos termos procurado em todo o lado, sem nos reconhecermos ainda, falta olhar dentro de nós. Todos albergamos, meio escondidos, Minos e Egeu – e ambos querem governar: um terrível monstro, escondido, metade homem e metade toiro, que luta bem no centro de nós. Sermos livres, sermos nós próprios, obriga a ir ao encontro dessa batalha: eis a universal tarefa de cada uma das humanas vidas.<br />
É matando o toiro que o homem nasce, livre. No meio do nosso recôndito labirinto – que precisamos de percorrer e conhecer, pois nele nos podemos perder –, cada vez que é chegado o momento de escolhermos, de decidirmos, precisamos de toda a nossa coragem e determinação. A nossa força, porém, só é verdadeira força enquanto se mantiver ligada ao frágil fio de seda nos permite revoltar até à virtude e ao bem.<br />
É sob a luz do sol, saídos, vitoriosos, do labirinto, que nos reconhecemos como autores de nós mesmos. Vemo-nos olhando a nossa obra, olhando tudo o que fizemos calçando as sandálias dos nossos pais e empunhando as suas armas. O olhar que reconhece, portanto, não é já o dos nossos pais, os quais têm agora de morrer para que a natureza e a cultura sejam, em nós, uma vez mais, reinventadas. É que a obra que fazemos somos nós – e nós somos fazedores de nós mesmos.</p>
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		<title>Livros estupidamente bonitos VII</title>
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		<pubDate>Fri, 11 Mar 2011 08:55:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Já tinha comentado num post da Marta a tristeza de não ter cá em casa livros assim tão bonitos. Tão estupidamente bonitos. Este, na verdade, também não o tenho cá. Mas já o tive nas mãos e tenho-o inteirinho no meu computador. A imagem vai partida em duas. Foi o melhor que consegui. Mas a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Já tinha comentado num <em>post</em> da Marta a tristeza de não ter cá em casa livros assim tão bonitos. Tão estupidamente bonitos. Este, na verdade, também não o tenho cá. Mas já o tive nas mãos e tenho-o inteirinho no meu computador. A imagem vai partida em duas. Foi o melhor que consegui. Mas a capa tem aquela antiga beleza que é usada ainda naquelas outras capas que o Zé Navarro mostrou também no seu <em>post</em>. Espero que gostem.</p>
<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/António-Herrera-Historia-General-de-los-Castellanos....jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/03/António-Herrera-Historia-General-de-los-Castellanos...-500x776.jpg" alt="" title="António Herrera, Historia General de los Castellanos..." width="500" height="776" class="aligncenter size-large wp-image-25647" /></a></p>
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		<title>www.gategalleries.com</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Mar 2011 16:45:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Vivemos tempos de crise, segundo nos dizem. Aliás, dizem-nos tanto, que estou francamente convencido de que muitas pessoas provam a crise mesmo quando, felizmente, não tenham que a saborear. Crise, na sua origem etimológica grega, quer dizer ruptura, cisão, significado que o latim incluiu no verbo decidere, justamente formado a partir do verbo caedere, que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vivemos tempos de crise, segundo nos dizem. Aliás, dizem-nos tanto, que estou francamente convencido de que muitas pessoas provam a crise mesmo quando, felizmente, não tenham que a saborear. Crise, na sua origem etimológica grega, quer dizer ruptura, cisão, significado que o latim incluiu no verbo <em>decidere</em>, justamente formado a partir do verbo <em>caedere</em>, que quer sobretudo dizer bater, abater, cortar (as árvores). Decidir, portanto, em português, em Portugal, deveria ser hoje um dos sentidos da crise. Mas não. As nossas rupturas não têm sentido próprio, interior. Os cortes são feitos por outros, por imposições que vêm de fora. Nós, na verdade, tanto quanto nos é possível, adiamos, não decidimos.<br />
Um exemplo disto é o turismo. Grande desígnio nacional, como há tanto tempo se diz, é uma das actividades em que temos <em>decididamente</em> de apostar como fonte própria de receitas. E, no entanto, o que é que verdadeiramente acreditamos ter para oferecer a quem nos visita? Eu diria que, quase instintivamente, enquanto povo, respondemos que é o sol. É este nosso canto à beira mar plantado, calmo, bonito, solarengo e temperado aquilo que admitimos que as pessoas vêm visitar.<br />
E nós, pergunto eu? Será que não somos também merecedores de visita? Não deixámos a nossa marca nesta terra abençoada pelo sol? E não merece essa marca respeito e visibilidade? Julgo que, potencialmente, sim. Em acto, no entanto, não. E assim será enquanto adiarmos, enquanto não escolhermos, enquanto não arriscarmos, enquanto não decidirmos. Numa palavra: enquanto não acreditarmos em nós mesmos.<br />
Nós, cujo complexo de Édipo terá sido resolvido à nascença logo pelo nosso primeiro rei, somos um país sem auto-estima. Estimável, sem dúvida, mas pelos outros — não por si mesmo (que é o que, em grego, quer dizer <em>éauton</em>).<br />
Dito isto, fiquei muito contente quando vi que foi criado, em papel e na internet, um <em>guia de arte contemporânea</em> português, no qual se dá conta das inaugurações, exposições, eventos, etc., que acontecem nos vários museus e galerias de arte de Lisboa e do Porto, informando, além disso, o que fazer para lá chegar. Coisa que existe obviamente em qualquer cidade civilizada que acredite em si mesma, mas não existia em Portugal, onde os turistas <em>vinham</em> apenas por causa do sol e os museus, os teatros e as galerias de arte <em>deviam viver</em> apenas de subsídios estatais.<br />
Escrevi no pretérito, bem sei, num claro excesso de entusiasmo. Fi-lo, porém, porque é disto mesmo que precisamos: acreditarmos em nós próprios e darmo-nos a conhecer! Só assim sairemos da crise que nos dizem estamos a viver.<br />
Ah! Vão lá ver: <a href="http://www.gategalleries.com">www.gategalleries.com</a>.</p>
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		<title>A maior felicidade do homem é a de parecer feliz e de logo morrer…</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Feb 2011 20:35:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nos últimos posts muito se falou aqui sobre aquilo que é o homem (homem e mulher, bem entendido), tendo todos, de algum modo, concordado que ele é um ser à procura e a caminho. Apesar do acordo geral, sendo este um assunto difícil, enredado em tradições e contradições que tantas vezes o obscurecem, lembrei-me de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/Gustave-Moreau-Édipo-e-a-Esfinge.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/Gustave-Moreau-Édipo-e-a-Esfinge.jpg" alt="" title="Gustave Moreau - Édipo e a Esfinge" width="300" height="585" class="aligncenter size-full wp-image-25145" /></a><br />
Nos últimos <em>posts</em> muito se falou aqui sobre aquilo que é o homem (homem e mulher, bem entendido), tendo todos, de algum modo, concordado que ele é um ser à procura e a caminho. Apesar do acordo geral, sendo este um assunto difícil, enredado em tradições e contradições que tantas vezes o obscurecem, lembrei-me de aqui trazer um especialista: Sófocles, que porventura como nenhum outro deu conta da tragicidade própria da existência humana.<br />
Ouçamo-lo no <em><strong>Rei Édipo</strong></em>, onde a progressiva descoberta da identidade de Édipo, centro de toda a acção, vem inevitavelmente acompanhada da revelação de um crime. Ora, o terrível crime de Édipo, que o desenrolar da acção irá mostrar, foi justamente o de ter querido, «venha o que vier, conhecer a sua origem, por mais obscura que seja», de tal maneira que assim pudesse escapar à tragicidade própria da sua existência: ter querido, portanto, ou afirmar-se de tal modo que ele próprio se tornasse o princípio de todas as coisas; ou não se afirmar sequer… em ambos os casos, ter querido a indiferença: ter querido, ainda criança, «fugir e esconder-se onde não pudesse ver cumprirem-se os oráculos vergonhosos e horríveis»; ter querido, já adulto, responder, de uma vez por todas, ao monstruoso enigma que trazia dentro de si: o que é o homem, este ser que questiona acerca de si mesmo?<br />
O ser humano, de acordo com a concepção trágica de que Sófocles aqui nos dá conta, é este ser capaz de um encontro maravilhoso com a <em>Esfinge</em>: de um olhar de frente o próprio monstro que, no entanto, porque o homem lhe não pode dar resposta, logo a seguir o devora. Por isso nos diz Sófocles que a maior felicidade do homem é «a de parecer feliz e de logo morrer». Mas o homem é também este ser tentado a resolver o enigma e que, tal como Édipo, se subtrai à realidade e se substitui à natureza, sendo essa sua acção horrenda digna dos maiores castigos. É o próprio monstro, então, quem, desesperado, se mata, o que acarreta para o homem um castigo pior do que a morte, pois que agora, absolutamente determinado, já não se pode questionar.<br />
É que «não era um homem qualquer que tinha obrigação de explicar o enigma, mas sim os adivinhos». É o próprio Tirésias quem o diz: decifrar o obscuro enigma «foi exactamente o que te perdeu». O crime de Édipo, assim, foi ter ousado responder a «essa cadela, com as suas palavras obscuras, (…) sem o auxílio das aves e dos augúrios». Ele representa o homem que – aproveitando o dito de Protágoras – se impõe a si mesmo como medida de todas as coisas: o homem que se impõe ao próprio <em>logos</em> ao invés de, colaborando com ele, participar nas delícias do divino palácio do ser.<br />
Édipo, portanto, é o Adão do povo grego, símbolo do homem pecador que, vítima do orgulho, se afirma, absolutamente definido, como o senhor de todas as coisas. Por isso se torna «para todos o irmão de seu próprio filho, o filho e o esposo daquela que o gerou, aquele que ocupa o leito de seu pai, depois de o ter matado». Ora, este homem indiferente, absolutamente igual a si mesmo, é o mais infeliz dos homens – porque vive sozinho. E o homem que vive sozinho, incapaz de ouvir as novidades que lhe trazem os mensageiros e os arautos, é um homem injusto: a <em>cólera</em>, a <em>insensatez</em> e o <em>medo</em> tomam sucessivamente conta de si.<br />
A consciência da queda, no entanto, traz consigo a memória das alturas. O homem tem também, portanto, esta possibilidade de voltar a participar na vida dos deuses, que radicalmente se lhe manifesta nesse encontro com a <em>Esfinge</em>, «a Profetiza, a Virgem das garras recurvadas». A esse reencontro com o divino, no entanto, o homem só chega por via da comunidade com o outro, sendo que a comunidade com o outro só acontece por via da acção justa, isto é, da acção <em>bela</em>, <em>corajosa</em> e <em>inteligente</em> – as três verdadeiras virtudes do homem que caminha para o divino e que surgem a partir da própria natureza esfíngica da questão. Por isso nos diz Édipo: «ó encruzilhada, ó vale sombrio, ó bosques de carvalhos, ó estreito passo a que vão dar as três estradas».<br />
Com efeito, o monstro, a que leva a estrada, está já presente no caminho, apresentando-se sob a forma de uma questão cuja figura é a de uma mulher com corpo de leão alado, símbolo das três instâncias que devem ser convocadas neste humano caminhar: a mulher, símbolo da beleza e da sensibilidade estética; o leão, símbolo da coragem, da força viril e primitiva; as asas, símbolo do espírito inteligente que compreende e une todas as coisas (cada uma destas três virtudes opondo-se imediatamente aos três vícios, atrás indicados, do homem só: a <em>beleza</em> opondo-se à <em>cólera</em>; a <em>coragem</em> ao <em>medo</em>; e a <em>inteligência</em> à <em>insensatez</em>).<br />
Reconhecemos aqui, portanto, a estrutura, ou dinamismo, própria do ser, tal como vinha expressa na Grécia já desde os poemas homéricos, que se constituem como uma fabulação pela qual se mostra a acção do povo grego que, por causa de um crime, ou traição, se encontra e reúne, face a um inimigo comum, esforçando-se por, finda a guerra, regressar à sua perdida casa. Édipo, com efeito, é o símbolo do homem decaído, que, para expiar o seu crime, tem de, descobrindo e respeitando a estrutura virtuosa do real, reunir-se aos outros homens, com eles se transformando por relação ao que é sempre igual em todos e em cada um, para assim poderem regressar a casa.<br />
A existência deste homem, no entanto, já não é mítica, antes se reconhece ordenada pelo <em>logos</em>, que permite expressar universalmente essa experiência de um destino trágico a que nenhum homem pode escusar-se e que consiste ou em contrair «vergonhosas núpcias» – que são as do homem que, sozinho e, portanto, injusto, vive na indiferença –, ou em contrair «gloriosas núpcias» – que são as do homem que, em comunidade e, por isso, justo, acolhe em si mesmo o outro. Em ambos os casos, no entanto, o homem tem de escolher: ser livre, é esse o seu destino.</p>
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		<title>Sábio, na verdade, é aquele que busca Deus</title>
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		<pubDate>Tue, 22 Feb 2011 16:57:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O meu querido amigo Manuel Fonseca leu este meu post e, enchendo-me de mimos que não mereço, escreveu este outro, a que chamou «bem-aventurados os descrentes.» O objectivo daquele meu post, como anunciei logo ao início, não era converter ninguém, mas partilhar uma experiência inspirada na leitura do capítulo 5 do Evangelho de São Mateus. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O meu querido amigo Manuel Fonseca leu <a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/02/bem-aventurados">este meu <em>post</em></a> e, enchendo-me de mimos que não mereço, <a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/02/bem-aventurados-os-descrentes">escreveu este outro</a>, a que chamou «bem-aventurados os descrentes.» O objectivo daquele meu <em>post</em>, como anunciei logo ao início, não era converter ninguém, mas partilhar uma experiência inspirada na leitura do capítulo 5 do <strong><em>Evangelho de São Mateus</em></strong>. Fiel a este princípio, não vou aqui discordar das crenças do Manuel, embora, em alguns pontos, não sejam concordes com as minhas. Vou, no entanto, chamar-lhes crenças – e não descrenças – pois que aí já julgo haver razão para discórdia.<br />
Na verdade, só se assumirmos que na origem das nossas acções está, mediata ou imediatamente, um conjunto de crenças num determinado fundamento da ordem é que poderemos pensar e comunicar essas nossas acções e crenças. Esta crença na razão, aliás, é própria do Ocidente, grego e judaico-cristão, e sobre a extraordinária história do seu desenvolvimento já eu e o Manuel uma vez <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/05/a-%c2%abvitoria-da-razao%c2%bb">aqui</a> concordámos.<br />
Não me choca, portanto, muito pelo contrário, que o Manuel acredite num homem que vive separado dos deuses, os quais, «calados e preguiçosos do Mundo, [vivem] fechados num condomínio de marfim, amoral e impiedoso.» Julgo aliás, que esta sua crença é consentânea com o que sente, com o que diz, com o que faz e com o que escreve. E todos nós, aqui, sabemos (embora, por dentro, só o Manuel realmente o saiba) o bem que o Manuel sente e diz e faz e escreve.<br />
Nem sequer sei, devo dizê-lo, se este Deus que eu procuro não será exactamente aquele de que faz experiência o Manuel. Fazendo uso de um pouco mais do que os 21 séculos de história a que o Manuel nos cingiu neste seu <em>post</em>, gostaria de dizer que, pela minha parte, a única objectivação a que Deus parece deixar submeter-se é a do seu nome. «Ó Senhor, nosso Deus, como é admirável o vosso nome em toda a terra», lê-se no <strong><em>Livro dos Salmos</em></strong> (8, 1), muito antes de Jesus ter ensinado que a nossa relação com Deus (que apenas podemos imaginar como nosso pai, isto é, como origem amorosa da qual intimamente brotamos) passa por manter puro e inviolado e santo este seu nome (<strong><em>Mt</em></strong>. 6, 9).<br />
É com este fragilíssimo fio de Ariadne que nós andamos, por este mundo afora, à procura de sentido e de sabor – dizia eu naquele meu primeiro <em>post</em>, a propósito do <em>Sermão da Montanha</em>. Creio, porém, que, no meio dos infinitos desencontros a que esta inobjectivação essencial de Deus se presta, há algo em que quase sempre nos encontramos, ou podemos encontrar: nessa experiência interior de uma procura que nos põe sempre a caminho. Porque sábio, na verdade, é aquele que busca Deus (<em><strong>Sl</strong></em>. 13, 2).</p>
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		<title>Bem-Aventurados!?</title>
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		<pubDate>Mon, 21 Feb 2011 00:42:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ando ultimamente absorto com tanta coisa para fazer que pouco tempo me sobra para ler e pensar. Entre um livro que teimo em acabar de escrever e um doutoramento que tenho que concluir (ora aqui está aquilo a que se chama um eufemismo), a minha vida intelectual anda cansada e posta à prova. No meio [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/sermao-da-montanha.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/02/sermao-da-montanha-300x262.jpg" alt="" title="sermao-da-montanha" width="300" height="262" class="aligncenter size-medium wp-image-24939" /></a><br />
Ando ultimamente absorto com tanta coisa para fazer que pouco tempo me sobra para ler e pensar. Entre um livro que teimo em acabar de escrever e um doutoramento que tenho que concluir (ora aqui está aquilo a que se chama um eufemismo), a minha vida intelectual anda cansada e posta à prova. No meio de tudo isto, porém, as leituras das missas dos últimos domingos ecoam suavemente dentro de mim. Que belo é aquele capítulo 5 do Evangelho de São Mateus, conhecido pelo nome das bem-aventuranças. Sem querer maçá-los, ou convertê-los, deixem-me partilhar convosco alguns destes ecos do divino.<br />
O capítulo começa assim: «Ao ver a multidão, [Jesus] subiu a um monte e, depois de se ter sentado, aproximaram-se dele os discípulos. Tomando então a palavra, começou a ensiná-los.» Voltarei daqui a pouco a esta encenação inicial do sermão, que me parece importante para bem compreendê-lo. Para já, no entanto, tentemos imaginar como realmente tudo se terá passado.<br />
Jesus tinha começado a pregar há pouco tempo. Acabara de escolher e de reunir à sua volta alguns discípulos. Nesta ocasião, provavelmente, ter-lhes-á perguntado: Quem pensam vocês que são, entre os homens, os felizes? Quem sãos os bem-aventurados? Como qualquer aluno, os futuros apóstolos quiseram impressionar o seu professor e, atropelando-se uns aos outros, foram respondendo o que julgavam saber:<br />
Mestre – disseram –, bem-aventurados são os cultos, porque deles é o reino dos céus; bem-aventurados são os que riem, porque estão satisfeitos; bem-aventurados são os ricos, porque possuem muitos bens; bem-aventurados são os poderosos, porque conseguem para si a justiça; bem-aventurados são os que presidem aos cultos, porque estão mais perto de Deus; bem-aventurados são os heróis e os famosos, porque participam das delícias desta vida; etc.<br />
Ora, todos nós sabemos, como eles sabiam então, que tudo isto era e é verdade. Jesus, porém, respondeu-lhes, professando algo com que certamente não contavam: «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles será o reino dos céus; bem-aventurados os que choram, porque serão consolados; bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra; bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados; bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia; bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus; bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus; bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa justiça, porque deles será o reino dos céus; bem-aventurados sereis quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o género de calúnias contra vós, por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque grande será a vossa recompensa nos céus…»<br />
É possível imaginar aquilo que alguns – se não todos – dos apóstolos então pensaram. O mínimo que se poderá dizer é que não era desta felicidade que julgavam andar à procura quando decidiram ir atrás deste homem. O que o seu mestre lhes propunha, com efeito, logo numa das suas primeiríssimas lições, era serem pobres em espírito, sofredores, mansos, ou melhor, tansos, crédulos numa justiça igual para todos, misericordiosos, generosos, puros, altruístas, pacíficos, abnegados, perseguidos, insultados, caluniados, maltratados, etc. E quando assim for – concluía o Nazareno – alegrai-vos, pois será grande a vossa recompensa.<br />
Qualquer observador imparcial que, por acaso, ali passasse, pensaria, com razão, que aquela primeira aula seria provavelmente a última e que aquele homem, com aquela doutrina, não haveria de ter muitos seguidores. E, no entanto, os discípulos permaneceram fiéis e os seguidores foram crescendo cada vez. O segredo, penso eu, está na mudança do tempo verbal (trata-se, é bom lembrá-lo, de um verbo que se fez carne), que nos transporta de uma felicidade presente para uma felicidade futura, ou melhor: de uma felicidade parcial e incompleta, para uma felicidade total e perfeita.<br />
É nesta mudança do tempo que, quanto a mim, se joga a medida da fé. Bem-aventurados os que reconhecem as suas falhas e limitações, pois nesse reconhecimento lhes é dado o horizonte da sua esperança. Quem se reconhece triste põe-se perante o desejo da alegria. Quem se reconhece imperfeito põe-se perante o desejo da perfeição. Entre o agora da tristeza e o depois da alegria está um caminho, que, embora surgindo como impossível, nos é dado para que o percorramos. E o princípio de qualquer caminho é acreditar que ele é possível.<br />
É esse sentido de perfeição concretamente emprestado á vida pelo despojamento que dá acesso à fé que faz dos homens o sal da terra. Esse sentido que saborosamente experimentamos, no entanto, não é invenção nossa. Se o sal se corromper, não mais o saberemos salgar. Se a luz em nós se extinguir, já não conseguiremos iluminar. Por isso Jesus subiu a um monte, onde se estabeleceu (se sentou) como exemplo para a multidão que o olhava, cá de baixo, convidando-os a olhar, a ver, a desejar, a querer… e a caminhar.<br />
Jesus não era um revolucionário, não vinha para mudar os sistemas do mundo e as suas leis. Respeitando a lei e o mundo, Jesus veio chamar os homens para o alto, lembrando que de nada vale cumprir exteriormente as regras e os preceitos se interiormente não estivermos em verdadeira paz. Não nos interessa o que de nós vêem os olhos dos outros, pois que eles não nos vêem a alma. Só nós sabemos se é ou não verdade o que os nossos gestos dão a ver. O nosso olhar, portanto, deve sentar-se bem alto, naquele monte que Jesus nos dá a imaginar, e a partir dele dirigir a nossa vida, dando sabor e sentido ao mundo.<br />
Ao começarmos os nossos caminhos, porém, parecer-nos-á quase sempre impossível responder à violência com amor. Mas é aí que intervém a fé – continuamos. Choramos, pedimos, acreditamos. E aquela pequenina e inspirada palavra, que era tudo o que nós tínhamos, ao começar, vai-se tornando misteriosamente poderosa. Abre caminhos, onde parecia não haver lugar. Inspira outros, que se metem também a caminho. É-nos devolvida, quando queremos desistir. Ultrapassa-nos, quando erramos. Continua, quando paramos.<br />
Os poderosos deste mundo têm força para se nos impor durante toda uma vida e às vezes até durante duas ou três. Depois são esquecidos e transformam-se indiferentemente em pó. Aqueles, porém, que se despojaram de tudo o que tinham e se entregaram inteiramente ao mundo, ao qual deram sabor e sentido, continuam a motivar-nos e a inspirar-nos e a transformar-nos passados mais de mil e de dois mil e de três mil anos. Dir-me-ão: sim, mas o melhor é que esses dois poderes se encontrem e que essas duas felicidades se conjuguem. Estarei de acordo. Até lá, porém, elevemos o nosso olhar para o alto e, a partir de aí, «sejamos perfeitos, como é perfeito o nosso pai celeste.»</p>
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		<title>Pai…</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Jan 2011 23:13:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Estou numa altura terrível, de crise, de decisão, de mudança. O entusiamo sucede-se ao desânimo e este de novo se impõe ao entusiamo num corpo que já não aguenta os excessos próprios de um adolescente. Mas é a vida. E a vida é boa. A vida é óptima. No meio disto, tenho dado por mim, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estou numa altura terrível, de crise, de decisão, de mudança. O entusiamo sucede-se ao desânimo e este de novo se impõe ao entusiamo num corpo que já não aguenta os excessos próprios de um adolescente. Mas é a vida. E a vida é boa. A vida é óptima.<br />
No meio disto, tenho dado por mim, por razões que não vêm ao caso, a meditar numa oração de que gosto muito (pois é: rezamos sempre quando estamos aflitos), tal como, para nós, foi tradicionalmente fixada: o Pai-Nosso.<br />
Não vou maçá-los com as minhas iluminações interiores neste processo — até porque, em rigor, não as sei quase nunca repetir de olhos abertos -, mas gostava de partilhar convosco uma, apenas uma, inocente descoberta: esta oração começa com a palavra <em>Pai </em>e acaba com a palavra <em>mal</em>.<br />
Parece coisa pouca, mas o facto é que os seres humanos, na sua vida natural, são seres morais, que a partir das suas acções descobrem, ou impõem, ou descobrem e impõem (para o caso tanto faz) uma escolha entre o bem e o mal.<br />
Na vida sobrenatural, ou espiritual, porém, e em especial na religiosa, a escolha não é já entre o bem e o mal, mas entre o Pai e o mal. E isto faz toda a diferença.<br />
Porque o mal, afastando do pai, não se lhe opõe. Porque a escolha, aqui, implica o reconhecimento imediato e interior de duas ordens distintas, que misteriosamente coexistem sem se anularem: a do mal, que divide, que separa e que é, por isso, diabólica; e a do pai, da mãe, de uma nossa origem amorosa, de um colo que nos acolhe e une e contém (por isso é simbólico) e a partir do qual somos amados e capazes de ser amor, mesmo que, às vezes, até, se calhar, muitas vezes, sendo também escravos do mal.<br />
Tenho andado, assim, no meio do entusiamo e do desânimo que se sucedem abruptamente nos meus dias, a tentar ver este Pai na minha vida. A tentar acreditar nele. A tentar acreditar em mim. A tentar acreditar em nós.<br />
Mas Deus não se vê como Deus. Dele apenas dizemos que é Pai, que é nosso Pai, e que devemos manter este seu nome santo, puro, inviolado, pois que o seu nome é o único e fragilíssimo acesso racional que temos para o seu ser.<br />
Acreditando, porém, vejo-o aparecer nas coisas pequeninas, inocentes, até descabidas, que todos os dias acontecem na minha vida e que vão ajudando a suportar o meu desânimo e a estruturar o meu entusiasmo, isto é (literalmente), a saber que tenho Deus dentro de mim, apesar de não saber o que ele é… a não ser, talvez, que é Pai, que é a nossa primeira e amorosa origem, a qual, porque nos antecede, não pode ser por nós exterior e objectivamente vista, mas, porque nos habita, pode intíma e amorosamente revelar-se.</p>
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		<title>Diógenes e Alexandre</title>
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		<pubDate>Mon, 10 Jan 2011 16:50:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O pensamento dos cínicos é normalmente desvalorizado como se fosse uma mera contestação da ordem social estabelecida (contestação que, na sua origem, se referia à desagregação da civilização grega sentida pelos próprios sobretudo nos séculos IV e III a. C.). No entanto, ele contém, ainda que apenas de um modo latente, a intuição daquilo que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/01/Diogenes-e-Alexandre.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/01/Diogenes-e-Alexandre-300x247.jpg" alt="" title="Diogenes-e-Alexandre" width="300" height="247" class="aligncenter size-medium wp-image-23387" /></a><br />
O pensamento dos cínicos é normalmente desvalorizado como se fosse uma mera contestação da ordem social estabelecida (contestação que, na sua origem, se referia à desagregação da civilização grega sentida pelos próprios sobretudo nos séculos IV e III a. C.). No entanto, ele contém, ainda que apenas de um modo latente, a intuição daquilo que essencialmente subjaz a essa ruptura do seu tempo: a separação radical entre a acção espiritual e a acção política e a necessidade do estabelecimento de um equilíbrio entre ambas.<br />
Eis uma lição geral a tirar da história. Mesmo aqueles que, como por exemplo Nietzsche, se sentem numa determinada época obrigados a fazer filosofia à martelada, transportam no interior da sua terrível desconstrução um princípio essencialmente construtivo. Assim acontece, do meu ponto de vista, também com os cínicos. E essa é a segunda lição – esta concreta – que aqui quero também propor: o pensamento dos cínicos pressente e anuncia a separação radical entre a acção espiritual e a acção política e a necessidade do estabelecimento de um equilíbrio entre ambas.<br />
Defendo, na verdade, que, contrariamente àquilo que nos é ensinado nas escolas, a relação entre o poder temporal e o espiritual, longe de caracterizar somente a estrutura mental que funda e justifica a realidade social da Idade Média, é uma relação natural e historicamente estruturante em todas as sociedades humanas. Mais: essa relação vem à consciência na Grécia, estabelece-se durante o império romano e, passada a época medieval, é ainda a partir dela que há-de vir mais amplamente a compreender-se a modernidade nos seus avanços e nos seus recuos. Esta história, porém, como num outro lugar já escrevi, encontra-se ainda por fazer.<br />
Contra o senso comum, porém, que reage sempre violentamente quando pretendem iluminar de um outro modo as opiniões que tem por devidamente esclarecidas, podem sempre ir-se apresentando alguns episódios que, quase sem se dar por isso, vão contestando o que temos por aprendido. É aqui o caso das conhecidas histórias de Diógenes de Sinope, o mais famoso dos discípulos de Antístenes, e sobretudo daquela que narra o encontro de Alexandre, o grande, com Diógenes, em Corinto, segundo a qual, tendo o rei perguntado ao filósofo, que se encontrava deitado no chão, de frente para o sol, se haveria algo que pudesse fazer por ele, este lhe terá apenas pedido que se desviasse um pouco para o lado, para assim deixar passar a luz da grande estrela. Admirado com a altivez da resposta e do filósofo, Alexandre terá então ordenado a todos aqueles que o acompanhavam que parassem de fazer troça daquele homem, pois que se ele não fosse Alexandre, certamente seria Diógenes.<br />
Ora, para além do facto de que esta oposição entre Alexandre e Diógenes é expressa e repetidamente referida tanto na <em>Vida e Opiniões dos Mais Ilustres Filósofos</em>, de Diógenes Laércio, como nas <em>Vidas Paralelas</em>, de Plutarco, bastará lembrarmo-nos de que, não muitos anos antes, Platão prosseguia ainda, na teoria como na prática, o ideal do rei filósofo, para imediatamente percebermos a ruptura que aqui se estabelece: Alexandre e Diógenes, com efeito, não podem já pensar-se como um só. Concorrendo embora para um mesmo fim – o bem dos homens, das cidades e do género humano –, eles são agora radicalmente distintos, como distinta é a sua acção: o rei age politicamente, a partir da esfera exterior do poder, enquanto o filósofo age espiritualmente, a partir da sua esfera interior, não havendo entre estas duas esferas uma relação nem proporcional, nem directa.<br />
Como tantas outras conquistas civilizacionais que os seres humanos fizeram na história, esta noção de uma relação autónoma e diferenciada entre os poderes temporal e espiritual deve ser conhecida e valorizada. A sua história está por fazer e ela é fundamental para compreender o nosso mundo actual. A sua emergência à consciência, porém, começou na Grécia, no momento mesmo da sua desagregação, sem o que, aliás, após os quase dois séculos de guerra ininterrupta que se seguiu à morte de Alexandre, Roma não poderia, ao mesmo tempo, ter conquistado materialmente a Grécia e ter sido espiritualmente conquistada por ela.</p>
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		<title>E dei-lhes meus olhos para ovos!</title>
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		<pubDate>Sun, 02 Jan 2011 21:27:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Mais vale tarde do que nunca, diz o povo, provavelmente com razão. Dito isto, já quase com um ano de atraso, venho responder ao magnífico pedido do Manuel Fonseca para que aqui apresentássemos a lista dos nossos melhores primeiros versos. Como já confessei, porém, sou poeticamente inculto. Não tenho memória de tal lista e não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/01/vitorino-nemesio.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/01/vitorino-nemesio-300x424.jpg" alt="" title="vitorino-nemesio" width="300" height="424" class="aligncenter size-medium wp-image-23065" /></a><br />
Mais vale tarde do que nunca, diz o povo, provavelmente com razão. Dito isto, já quase com um ano de atraso, venho responder ao magnífico <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/12/lista-de-primeiros-versos">pedido do Manuel Fonseca</a> para que aqui apresentássemos a lista dos nossos melhores primeiros versos. Como já confessei, porém, sou poeticamente inculto. Não tenho memória de tal lista e não a saberia fingidamente fazer. Tenho, no entanto, uma lista de um primeiro verso. E quanto mais procuro mais este fica sozinho e mais este fica primeiro. O poema, que o envolve, também é, para mim, primeiro. Já não sozinho, já não único, mas, por agora, sim, primeiro. Aqui ficam os dois:</p>
<p>Pus-me a contar os alciões chegados<br />
(Minha memória era água, água…)<br />
Fez-me mal aquela alta tristeza<br />
De bicos vagabundos,<br />
Mas não chorei os alciões desterrados.</p>
<p>Sempre gostei de aves e de lágrimas.<br />
Lágrimas, agora, não podia,<br />
mas podia os alciões<br />
– E dei-lhes meus olhos para ovos<br />
(Que as fêmeas estavam cansadas<br />
E vinham de terra fria).</p>
<p>Firme e condescendente,<br />
Fechei as pálpebras pesadas<br />
De contradição e de poesia<br />
– E um mundo novo de alciões novos,<br />
Esse era o meu quando as abria. </p>
<p>Vitorino Nemésio</p>
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		<title>Ser poeta é continuar divino verso…</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Dec 2010 15:20:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A propósito do belíssimo post que o Manuel S. Fonseca escreveu mesmo aqui em baixo, e independentemente de qualquer lista que, como aí nos pede, venha ainda a publicar, lembrei-me destes cinco pequenos versos: Ser poeta é continuar divino verso Nascido, imperceptível, num bocejo… E com a acordada alma esclarecido Apelar para o que está [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/12/poesia.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/12/poesia-300x225.jpg" alt="" title="poesia" width="300" height="225" class="aligncenter size-medium wp-image-22697" /></a></p>
<p>A propósito <a href="http://www.etudogentemorta.com/22682">do belíssimo post que o Manuel S. Fonseca escreveu mesmo aqui em baixo</a>, e independentemente de qualquer lista que, como aí nos pede, venha ainda a publicar, lembrei-me destes cinco pequenos versos:</p>
<p>Ser poeta é continuar divino verso<br />
Nascido, imperceptível, num bocejo…<br />
E com a acordada alma esclarecido<br />
Apelar para o que está sempre esquecido:<br />
Sentido — só — em imortal desejo.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Lázaro de Betânia</title>
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		<pubDate>Fri, 17 Dec 2010 22:03:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
				<category><![CDATA[Queridos Mortos]]></category>

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		<description><![CDATA[O morto de que venho falar é Lázaro de Betânia, irmão de Marta e de Maria, amigos muito próximos de Jesus de Nazaré. Dele se diz que morreu duas vezes, razão pela qual, mais do que qualquer outro, mereceria figurar neste lugar. Parece-me, porém, que a história é outra, maior razão ainda lhe dando, contudo, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/12/sao-lazaro-ressuscitado-300x2781.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/12/sao-lazaro-ressuscitado-300x2781.jpg" alt="" title="sao-lazaro-ressuscitado-300x278" width="300" height="278" class="aligncenter size-full wp-image-22676" /></a></p>
<p>O morto de que venho falar é Lázaro de Betânia, irmão de Marta e de Maria, amigos muito próximos de Jesus de Nazaré. Dele se diz que morreu duas vezes, razão pela qual, mais do que qualquer outro, mereceria figurar neste lugar. Parece-me, porém, que a história é outra, maior razão ainda lhe dando, contudo, para aqui estar.</p>
<p>A história é conhecida de todos. Estando Lázaro gravemente doente, suas irmãs, Marta e Maria, mandaram dizer a Jesus: «Senhor, aquele que tu amas está enfermo.» Jesus, porém, ouvindo-o, disse: «A sua doença não é de morte, mas é para glória do Senhor.» E ficou ainda dois dias no lugar onde se encontrava, até que, por fim, foi ter com eles.<br />
Os seus discípulos desaconselharam-no de fazer essa viagem, pois que ainda uns dias antes os judeus o tinham tentado apedrejar. Mas Jesus respondeu-lhes que nada deve temer aquele que percorre os caminhos que o seu pai, que está no céu, lhe mostra com a sua luz. E acrescentou: «Lázaro está morto. Mas nós vamos ter com ele.» E os discípulos puseram-se também a caminho, dizendo: «Vamos nós também, para morrermos com Jesus.»<br />
Quando chegaram a Betânia, Lázaro estava já sepultado há quatro dias. Marta, ouvindo dizer que Jesus se aproximava, saiu a correr ao seu encontro e disse-lhe: «Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido! Mas também sei que, ainda agora, tudo quanto pedires a Deus te será concedido.» Jesus replicou-lhe: «Marta, teu irmão há-de ressuscitar.» Marta respondeu: «Eu sei que ele há-de ressuscitar na ressurreição do último dia.»<br />
Disse-lhe então Jesus: «Eu sou a ressurreição e a vida: quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive e crê em mim nunca morrerá. Crês tu nisto?» Marta, respondeu-lhe que sim e partiu para junto de Maria, dizendo-lhe que Jesus a chamara. Esta, levantando-se, foi apressadamente ter com ele, lançando-se aos seus pés e dizendo: «Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido.»<br />
Jesus, vendo Maria e os judeus que vinham com ela a chorar, comoveu-se profundamente e perturbou-se. Depois perguntou-lhe: «Onde o puseste?» E ao chegar junto do sepulcro onde Lázaro se encontrava, chorou também, de tal maneira que muitos judeus exclamaram: «Vede como o amava!»<br />
Intimamente comovido, mandou então retirar a pedra que impedia o acesso ao sepulcro. Mas Marta disse-lhe: «Senhor, já cheira mal, pois já tem quase quatro dias.» Jesus respondeu-lhe: «Não te disse que, se cresses, verias a glória de Deus?» Retiraram, pois, a pedra, e Jesus, levantando os olhos ao céu, disse: «Pai, graças te dou por me teres ouvido.» E então bradou em alta voz: «Lázaro: sai cá para fora.» E o defunto saiu, tendo as mãos e os pés ligados com faixas e o rosto envolto num sudário. E disse Jesus: «Desligai-o e deixai-o ir.»</p>
<p>O melhor seria, talvez, deixar a história por aqui, pois que ela é suficientemente forte e bela para, mesmo vertida neste meu pequeno resumo, se manter perfeita. Perdoai-me, portanto, que aqui repare apenas num ou dois dos seus aspectos, esperando não a adulterar.<br />
A verdade é que, como diz São Paulo, a fé dos homens é terrível, pois que a medida da sua esperança implica sempre a possibilidade de uma igual desgraça. Lázaro, nesse sentido, pode bem considerar-se como o mais desgraçado dos homens, pois que, de acordo com uma certa literalidade da história, que faremos bem em ter em conta, certamente morreu duas vezes. Contudo, em nenhum lado da Bíblia ouvimos falar da segunda morte de Lázaro, de tal maneira que me atrevo a dizer que o foco desta história é outro, nomeadamente o da sua segunda vida.<br />
A vida humana, na verdade, apresenta-se-nos, em primeiro lugar, imperfeita e incompleta. A nossa existência acontece, de facto, numa vida misturada de morte: todos somos, tal como Lázaro, seres enfermos. Dir-me-ão que assim é com todos os seres que conhecemos. É bem verdade. Mas nós temos, para além deles, a consciência dessa imperfeição, a que corresponde, também em nós, o desejo da perfeição.<br />
A nossa origem visível e material não esgota, com efeito, a sede que trazemos em nós. A experiência do amor, pelo contrário, convoca-nos para a origem íntima e inesgotável de um Deus que nos ama. E Deus mostra-se-nos perfeitamente no amor, o qual é uma vida sem morte: eis o maior mistério que, nesta vida, nos é dado experimentar. A ressurreição, de facto, não acontece no último dia, mas agora. O amor é sempre presença; o amor é sempre presente.<br />
Seres enfermos, tal como Lázaro, vivemos, através da fé, a experiência radical de uma escolha existencial entre uma vida sem morte e uma morte sem vida. Quantas vezes, nas nossas vidas, fomos trazidos do desânimo para a força, do desespero para a coragem, da tristeza para a alegria? E em todas essas vezes não foram as nossas mãos e os nossos pés desatados, tal como a Lázaro, a quem Jesus disse: «Desligai-o e deixai-o ir»?<br />
Escolhendo o amor, com efeito, escolhemos a liberdade. Por isso disse Santo Agostinho: «Ama e faz o que quiseres.» Tenhamos nós a força, a coragem e a alegria para, aqui e agora, tornarmos o amor presente no mundo dos mortos. Crês tu nisto?</p>
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		<title>Os filósosofos são, por definição, desajeitados</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Dec 2010 16:40:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Os filósofos são, por definição, desajeitados. A origem desta ideia, tão antiga como a própria filosofia, está numa história, contada por Platão, no seu diálogo Teeteto, em que Tales de Mileto, por muitos considerado o primeiro filósofo, enquanto andava, olhando para o céu, observando os astros, não viu onde punha os pés, deste modo caindo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/12/Tales_de_Mileto_by_pabloyungblut.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/12/Tales_de_Mileto_by_pabloyungblut-300x433.jpg" alt="" title="Tales_de_Mileto_by_pabloyungblut" width="300" height="433" class="aligncenter size-medium wp-image-22057" /></a><br />
Os filósofos são, por definição, desajeitados. A origem desta ideia, tão antiga como a própria filosofia, está numa história, contada por Platão, no seu diálogo <strong><em>Teeteto</em></strong>, em que Tales de Mileto, por muitos considerado o primeiro filósofo, enquanto andava, olhando para o céu, observando os astros, não viu onde punha os pés, deste modo caindo a um poço, com o que provocou o riso de uma jovem (curiosamente, Diógenes Laércio dirá, mais tarde, que era uma velha) e bonita criada trácia. Este riso – conclui Platão – aplica-se a todos os que dedicam à filosofia, pois que têm o corpo, apenas, na cidade, enquanto o seu espírito viaja atá às profundezas das coisas.<br />
Ora, se este riso espontâneo conhece bem a inutilidade imediata da tarefa do filósofo, que, vivendo com os pés numa dimensão da realidade, mas com os olhos postos noutra, não fará mais que causar o riso ou a raiva dos outros homens (do que a vida e a morte de Sócrates em Atenas é o exemplo por excelência), o facto é que a vida presa à superfície do mundo das coisas (é o que significa a personagem da criada trácia) não tem sentido em si mesma, pelo que, perante o pressentimento da morte dado na natural corrupção dos corpos (o facto da jovem criada se ter tornado velha nas <strong><em>Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres</em></strong>, de Diógenes, é precioso), acontece também espontaneamente aos homens voltarem-se para os filósofos (aqui entendidos como sábios, ou homens das coisas do espírito), para que, embora aparentemente cegos, os guiem.<br />
A tentação científica moderna de tudo constituir em problema que se possa resolver, ou dissolver, porém, elidiu esta natural tensão do caminhar do ser humano (que até então fora expressa por uma relação histórica entre os poderes temporal e espiritual), fazendo com que, hoje, já nem Tales caia no poço, nem a criada se ria. Este nosso mundo, triste e uniforme, faria bem em lembrar a proposta de Platão, que, na <strong><em>República</em></strong>, desde a sua primeira página, propõe uma constante subida e descida (<em>anábasis</em> e <em>katábasis</em>) entre a sensibilidade e a inteligibilidade das coisas e das ideias, bem no meio do livro expressa pela famosa alegoria da caverna, poço de onde Sócrates parte e ao qual regressa, correndo o risco de que se riam dele, ou de que o matem, como de facto, fizeram: porque, cá em baixo, precisamos que nos elevem; porque, também lá em cima, não podemos viver sozinhos.</p>
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		<title>Do deserto e das tentaçõesssss…</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Nov 2010 23:04:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[«Jesus foi então conduzido pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Demónio. E tendo jejuado durante quarenta dias e quarenta noites, por fim teve fome. Aproximando-se o Tentador, disse-lhe: “Se tu és o Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães.” Mas Jesus respondeu: “Está escrito: Nem só de pão [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/11/première-tentation-au-desert.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-21482" title="première tentation au desert" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/11/première-tentation-au-desert.jpg" alt="" width="266" height="210" /></a></p>
<p>«Jesus foi então conduzido pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Demónio. E tendo jejuado durante quarenta dias e quarenta noites, por fim teve fome. Aproximando-se o Tentador, disse-lhe: “Se tu és o Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães.” Mas Jesus respondeu: “Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que procede da boca de Deus”. O Demónio conduziu-o então à cidade santa e, colocando-o sobre o pináculo do templo disse-lhe: “Se tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo, pois está escrito: Dará a teu respeito ordens aos anjos e eles suster-te-ão nas suas mãos para que os teus pés não se firam em alguma pedra.” Disse-lhe Jesus: “Também está escrito: Não tentarás o senhor teu Deus.” Então o Demónio conduziu-o a um monte muito alto e, mostrando-lhe todos os reinos do mundo com todas as suas glórias, disse-lhe: “Dar-te-ei tudo, se, prostrado, me adorares.” Ao que Jesus respondeu: “Vai-te Satanás, porque está escrito: Adorarás o senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto.” Então o Diabo deixou-o e chegaram os anjos e serviram-no.» (<em>Mt</em>. 4, 1–11) *</p>
<p>Eis o breviário das tentações, a síntese dos caminhos em que nos perdemos neste mundo. Tudo começa no deserto e na fome que nele se dá. Quem não fez experiência disto? Mas o que é talvez mais extraordinário é isto – de que também cá dentro fazemos experiência: o mal tem uma ordem! Tentando matar a fome que trazemos em nós, começamos, primeiro, por pôr o material acima do espiritual; avançamos, depois, um pouco mais, e pomos Deus ao nosso serviço; chegamos, por fim, à meta de todos os descaminhos, e pomo-nos no lugar de Deus.<br />
Embora com diferentes graus, em todos estes casos se subverte a natureza essencialmente moral do ser humano, que interiormente nos mostra que só somos na medida em que nos abrimos a um outro. Na verdade, é sempre outro que nos descobre. Contrariamente ao que nos dizem, porém, até aqui estamos ainda no domínio da razão natural. Um passo além, no entanto, e vemos que só este caminho é suave, que só ele tem saída. Estamos, porém, já no domínio da fé, conhecimento sobrenatural de um outro que incessantemente nos convida a quebrar as barreiras deste mundo em direcção a algo que não se vê, que não se agarra, mas cujo caminho se faz aqui e agora. </p>
<p>* Cfr. também <em>Mc</em>. 1, 12–13 e <em>Lc</em>. 4, 1–13.</p>
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		<title>Cronos</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Nov 2010 22:51:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ Que o tempo, meu amor, não nos devore, Tolhendo a vida logo ao começar. Que longe dele o nosso amor demore E as horas vão passando — sem passar.   Que a nossa condição não se deplore Para além do que lhe é dado deplorar… E apenas o que é pedra e em nós more [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/11/reia-e-cronos.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-21055" title="reia e cronos" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/11/reia-e-cronos.jpg" alt="" width="235" height="214" /></a></p>
<p style="text-align: center;"> Que o tempo, meu amor, não nos devore,</p>
<p style="text-align: center;">Tolhendo a vida logo ao começar.</p>
<p style="text-align: center;">Que longe dele o nosso amor demore</p>
<p style="text-align: center;">E as horas vão passando — sem passar.</p>
<p style="text-align: center;"> </p>
<p style="text-align: center;">Que a nossa condição não se deplore</p>
<p style="text-align: center;">Para além do que lhe é dado deplorar…</p>
<p style="text-align: center;">E apenas o que é pedra e em nós more</p>
<p style="text-align: center;">O horrendo deus consiga devorar.</p>
<p style="text-align: center;"> </p>
<p style="text-align: center;">Seu filho em nós separe e torne absorte</p>
<p style="text-align: center;">O peso dos corpos irracionais,</p>
<p style="text-align: center;">Salvando a nossa triste e humana sorte</p>
<p style="text-align: center;"> </p>
<p style="text-align: center;">Do indiferente ventre dos seus pais.</p>
<p style="text-align: center;">E o nosso amor, no Olimpo, além da morte</p>
<p style="text-align: center;">Nos torne um só instante em imortais.</p>
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		<title>Onde está a Europa, essa belíssimna princesa da Fenícia!?</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Oct 2010 18:55:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Em 1651 escrevia Thomas Hobbes que «aquele que é suposto governar uma Nação inteira deve ler em si mesmo (*) não este ou aquele homem particular, mas o género humano (man kind).» (**) Esta afirmação ocidental feita em nome de todos os homens é aquilo que, para o bem e para o mal, na história [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/Manifestações-em-França.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/Manifestações-em-França-300x224.jpg" alt="" title="Manifestações-em-França" width="300" height="224" class="aligncenter size-medium wp-image-20839" /></a></p>
<p>Em 1651 escrevia Thomas Hobbes que «aquele que é suposto governar uma Nação inteira deve ler em si mesmo (*) não este ou aquele homem particular, mas o género humano (<em>man kind</em>).» (**)</p>
<p>Esta afirmação ocidental feita em nome de todos os homens é aquilo que, para o bem e para o mal, na história moderna mais caracterizou a Europa – e, a partir dela, aquilo a que poderá chamar-se o Ocidente. Seguiu-se-lhe de um modo muito evidente a <em>Bill of Rights</em>, em Londres, em 1689, a <em>Declaração da Independência da Virgínia</em>, na Virgínia, em 1773, a <em>Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão</em>, em França, em 1789, e a <em>Declaração Universal dos Direitos Humanos</em>, escrita por diferentes personalidades de todo o mundo e adoptada pela ONU, em 1948, logo após a II guerra mundial. Começa assim: «Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo…»</p>
<p>Ora, o que pergunto é: Onde está esta afirmação, hoje, na Europa? E onde está, hoje, a Europa, sem esta afirmação? Os alemães, que nos lideram, para onde nos levam? Os franceses, para além de melhores condições de vida – só para eles… o que propõem? Os ingleses, que outro nascimento (<em>alter</em> + <em>nativa</em>) sugerem para a Europa e para o mundo? E os ibéricos, portugueses e espanhóis, que contribuição querem trazer para essa Europa de que apenas dizem conhecer a cauda!?</p>
<p>(*) Ler em si mesmo, isto é, ler dentro, quer dizer: inteligir (do latim <em>intelegere</em>, de <em>intus </em>+ <em>legere</em>).<br />
(**) HOBBES, Thomas, <em><strong>Leviathan, or the Matter, Form and Power of a Common Wealth Ecclesiastical and Civil</strong></em>, Londres, 1651, Introdução.</p>
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		<title>Um aforismo de merda</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Oct 2010 12:29:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Quem, como eu, teve, ou tem, ainda algum contacto com o campo, com aquele campo em que as tradições não estão num museu, porque fazem parte da vida, sabe que as bostas que, apesar de todos os esforços da ASAE, os animais insistem em deixar cair no espaço público, secam, logo após esse acto primitivo, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/bosta-de-vaca.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/bosta-de-vaca-300x150.jpg" alt="" title="bosta-de-vaca" width="300" height="150" class="aligncenter size-medium wp-image-20740" /></a><br />
Quem, como eu, teve, ou tem, ainda algum contacto com o campo, com aquele campo em que as tradições não estão num museu, porque fazem parte da vida, sabe que as bostas que, apesar de todos os esforços da ASAE, os animais insistem em deixar cair no espaço público, secam, logo após esse acto primitivo, e, por isso, não cheiram mal. À superfície, na verdade, não se sabe a que é que cheiram. Só as moscas, porque vêem a uma outra escala, sobrevoam aquela dura camada que esconde o que lá tem dentro.<br />
A experiência, em qualquer cidade onde não tenham ainda chegado os sacos de plástico com que os animais tiranizam hoje os seus donos, pode ser feita com qualquer cocó de cão, que, depois de inadvertidamente pisado num qualquer passeio, por ter sido confundido com uma pedra, logo descobre o terrível cheiro que continha lá dentro e que, desde então, persiste, teimoso, nos sapatos e nos narizes.<br />
Ora, é esta a razão pela qual a política ocidental, apoiada por uma moral fundada em pseudo ciências humanas, se tem vindo a tornar cada vez mais superficial: fazer com que ninguém saiba a que é que cheira.<br />
Não digo, com isto, que a política cheire necessária ou naturalmente mal. Pelo contrário, inscrevo-me na antiga tradição que vê na política a mais alta realização da natureza humana. Afirmo, no entanto, que a política, hoje, no nosso Ocidente, não é pensada, para além da fina camada com que se mostra à superfície. Ninguém sabe, portanto, a que é que cheira. Existem mesmo inúmeras entidades cuja função é apenas afastar as moscas da política e garantir que ninguém a pise, seja voluntária ou inadvertidamente. Desconfiamos, portanto, do que tem lá dentro, ainda que não consigamos dar cientificamente razão da nossa desconfiança. Daí o aforismo deste post: a política, no Ocidente, hoje em dia, é uma merda!</p>
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		<title>Momento Paula Bobone</title>
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		<pubDate>Sun, 17 Oct 2010 19:32:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Senhor Gonçalo… A moda pegou. Recebo uma chamada em casa, quase sempre à hora do jantar, que insiste sorridentemente em vender-me qualquer coisa, apesar da minha óbvia – porque expressamente demonstrada – má vontade. Pedem-me que confirme o meu nome, ao qual acederam num qualquer ficheiro. Confirmo-o e tento voltar a dizer-lhes que, SEJA LÁ [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Senhor Gonçalo… A moda pegou. Recebo uma chamada em casa, quase sempre à hora do jantar, que insiste sorridentemente em vender-me qualquer coisa, apesar da minha óbvia – porque expressamente demonstrada – má vontade. Pedem-me que confirme o meu nome, ao qual acederam num qualquer ficheiro. Confirmo-o e tento voltar a dizer-lhes que, SEJA LÁ O QUE FOR, NÃO ESTOU INTERESSADO. Não consigo. Antecipam-se e dizem-me aquilo que tinham planeado dizer-me – a mim e a mais cento e cinquenta pessoas – naquela já malfadada hora. E é então que, confiantes, sorridentes, reduzem invariavelmente o meu nome para: Senhor Gonçalo.<br />
Sei que é uma batalha perdida, que não vale a pena explicar, replicar, barafustar… de hoje em diante sou o Senhor Gonçalo. Mas nem por isso a coisa deixa de me soar tão mal, razão pela qual aqui venho desabafar.<br />
O assunto, ainda por cima, é relativamente simples. Gonçalo é o meu nome de baptismo. Christian name, como dizem a Joana e os outros ingleses. Tratarem-me por Gonçalo, portanto, implica alguma amizade, ou proximidade, ou intimidade… a qual pode até, por vezes, resvalar para um terno Gonçalinho.<br />
Quem não me é assim tão próximo, portanto, tratar-me-á com recato, com reserva, com distância, ou reverência, de tal maneira que, ao dirigir-se-me, começará sempre por Senhor… ao que acrescentará, então, o meu nome de família.<br />
Porque Senhor, de acordo com uma tradição antiga, romana e feudal e burguesa, refere-se a uma casa, à qual pertenço, na qual fui recebido e pela qual sou responsável — isto é, pela qual respondo.<br />
Chamem-me, portanto, Senhor Moita, Senhor Gonçalo Moita, Senhor Pistacchini Moita, ou qualquer outra combinação que julguem boa e que os meus nomes legitimamente permitam.Se não quiserem, chamem-me Gonçalo, Brother, Meu, Man, Tá-se Bem, Bacano… enfim, o que quiserem.Mas não me chamem Senhor Gonçalo. Desgraçam-me. Desgraçam-se. Matam os meus. Enterram os vossos. E, sobretudo, ou o vosso produto é muuiita bom, ou é certo que já não vops comprarei coisa nenhuma.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>O admirável Afonso Costa</title>
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		<pubDate>Fri, 08 Oct 2010 22:41:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Aluno brilhante, licenciou-se e doutorou-se em direito, em 1895, com distinção. Leccionou na Universidade de Coimbra a partir de 1896, sendo unaninemente considerado como um académico notável e um advogado de sucesso. Orador empolgante, bastou um discurso público para se tornar influente no Partido Republicano. Político entusiasmado, exerceu admirável actividade parlamentar desde o ano de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/Afonso-Costa.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/Afonso-Costa-300x358.jpg" alt="" title="Afonso Costa" width="300" height="358" class="aligncenter size-medium wp-image-20111" /></a><br />
Aluno brilhante, licenciou-se e doutorou-se em direito, em 1895, com distinção. Leccionou na Universidade de Coimbra a partir de 1896, sendo unaninemente considerado como um académico notável e um advogado de sucesso. Orador empolgante, bastou um discurso público para se tornar influente no Partido Republicano. Político entusiasmado, exerceu admirável actividade parlamentar desde o ano de 1906. Republicano convicto, lutou sempre pelo derrube da monarquia e pela instauração e manutenção da república. Socialista tardio, desejava honestamente o bem do povo.<br />
Trata-se, como já perceberam, de Afonso Costa, normalmente mais conhecido pela perseguição que moveu contra a Igreja católica, especialmente os jesuítas (<em>maçon</em> assumido, a sua tese de doutoramento, defendida em 1895, intitulava-se <em>A Igreja e a Questão Social</em>, constituindo um violento ataque à Igreja católica, especialmente dirigido contra a encíclica <em>Rerum Novarum</em>), e pela violência da sua acção partidária (como membro e dirigente do Partido Republicano, primeiro, e do Partido Democrático, depois) e política (quer enquanto primeiro-ministro e ministro de várias pastas, quer enquanto líder da oposição a outros governos da I República e ao governo do Estado Novo), de tal maneira que ficaram famosas as cenas de pugilato em que se envolveu com Sampaio Bruno, assim como o desafio que lançou a António José de Almeida para um duelo.<br />
A figura histórica de Afonso Costa, na verdade, está envolta nestes dois extremos, quase contraditórios, em que se desenvolveu a sua vida. Nenhum dos dois é isoladamente verdadeiro, embora os dois sejam relativamente verdade. É importante ter presente, por isso, que esquecer um deles é falsear a história, pretendendo que ela seja o que não é – pretendendo que nós somos o que não somos.<br />
Desgraçadamente, porém, a imagem de Afonso Costa confunde-se hoje com a da primeira república difundida no senso comum português como época socialmente conturbada, economicamente desastrosa e politicamente violenta. Tudo isto é verdade. O outro extremo, no entanto, igualmente verdadeiro, desapareceu. O regicídio ensombra nas nossas consciências a implantação da república, impedindo que, através dela, exaltemos Portugal. Por isso a comemoração do seu centenário foi, há poucos dias, um momento tão chocho.<br />
Ora, como em tudo na vida, perdendo a direita se perde a esquerda e vice-versa. Ao contar desta maneira a história de Afonso Costa e da I República repudiamos a brutal violência dos seus excessos, o que, na verdade, deve fazer-se… mas repudiamos também o seu desejo de um Portugal melhor e a sua entrega pelo nosso povo, coisa que não devíamos fazer.<br />
Como sabiamente disse Ghandi, ainda na África do Sul, a luta pelo reconhecimento público da dignidade dos indianos era uma causa pela qual estava disposto a morrer, mas não havia nenhuma causa pela qual estivesse disposto a matar. Assim deveria ter sido com Afonso Costa, o qual, porém, não saberia ouvir Ghandi mais do que soube ouvir os jesuítas. A todos nós, aliás, bastam umas poucas horas no trânsito para nos lembrarmos como somos volúveis na prática destes princípios. Isso não deve fazer esquecer, no entanto, tudo aquilo que temos de bom, tal como não deveria fazer esquecer o amor por Portugal que tão fortemente moveu Afonso Costa e a I República. Todas as suas mortes foram um excesso condenável. Mas é talvez tempo de reconhecer que a exaltação de Portugal que motivou estes 10 a 15 anos da nossa história foi também um oásis na continuada desistência nacional que marcou os nossos últimos 500 anos. Eis porque Afonso Costa e a I República devem merecer hoje a nossa admiração. </p>
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		<title>Não sei bem o que vos diga!</title>
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		<pubDate>Wed, 15 Sep 2010 20:59:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Não resisti a mostrar aqui este filme. Trata-se da Sra. Ministra da Educação dando a todos os alunos as boas vindas a mais um ano lectivo. A maneira como abre e fecha os olhos lembra, por vezes, o lobo mau da história das carochinha. O âmbito e o discurso lembram, contudo, assim uma espécie de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não resisti a mostrar aqui este filme. Trata-se da Sra. Ministra da Educação dando a todos os alunos as boas vindas a mais um ano lectivo. A maneira como abre e fecha os olhos lembra, por vezes, o lobo mau da história das carochinha. O âmbito e o discurso lembram, contudo, assim uma espécie de conversas em família, embora vindas de um outro mundo, estranhamente não paralelo ao nosso: apenas quase. Francamente, não sei o que vos diga. Vejam e digam-me vocês qualquer coisa.</p>
<p><a href='http://www.youtube.com/user/EDUTVPORTUGAL' >EDUTVPORTUGAL</a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>*(º)#@ da ^@&amp; do Luís Horta!</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Sep 2010 21:07:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Eu sei que é muito feio lembrar a alguém as suas origens da maneira que o Sr. Carlos Queiroz fez ao Sr. Luís Horta. Mas tratando-se, como se trata, da selecção nacional (na qual a Europa falsamente estimula um vivo sentimento de pertença a uma nação), o mínimo que poderá dizer-se, por analogia com a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/09/carlos-queiroz-e-gilberto-madaíl.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/09/carlos-queiroz-e-gilberto-madaíl-300x207.jpg" alt="" title="filhos de uma mesma mãe" width="300" height="207" class="aligncenter size-medium wp-image-18545" /></a></p>
<p>Eu sei que é muito feio lembrar a alguém as suas origens da maneira que o Sr. Carlos Queiroz fez ao Sr. Luís Horta. Mas tratando-se, como se trata, da selecção nacional (na qual a Europa falsamente estimula um vivo sentimento de pertença a uma nação), o mínimo que poderá dizer-se, por analogia com a expressão do Sr. Queiroz, é que as mães destes dois senhores, que podem ali ver-se na fotografia, prestaram um péssimo serviço ao país quando permitiram que ambos se abatessem neste mundo por intermédio das suas infames baixezas.</p>
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		<title>A outra infância # 4</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Aug 2010 13:04:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nos tempos homéricos, os gregos viajavam pelos líquidos caminhos: «todo o dia tinham desfraldadas as velas das naus, que corriam sobre o mar; em seguida o Sol punha-se e a sombra cobria todos os caminhos.» Assim chegou Ulisses ao fim da terra, ao curso profundo do Oceano, onde se situava o país dos Cimérios, coberto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/Gonçalo-bebé1.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/Gonçalo-bebé1-300x300.jpg" alt="" title="Gonçalo" width="300" height="300" class="aligncenter size-medium wp-image-18049" /></a></p>
<p>Nos tempos homéricos, os gregos viajavam pelos líquidos caminhos: «todo o dia tinham desfraldadas as velas das naus, que corriam sobre o mar; em seguida o Sol punha-se e a sombra cobria todos os caminhos.» Assim chegou Ulisses ao fim da terra, ao curso profundo do Oceano, onde se situava o país dos Cimérios, coberto de nuvens e de brumas. Naquele lugar, que o Sol, com os seus raios, nunca aquece, estendendo sobre aqueles mortais uma noite maldita, haveria Ulisses de, por indicação de Circe, descer à mansão dos mortos e interrogar o velho Tirésias (<strong><em>Odisseia</em></strong>, Canto XI).<br />
Ora, o que aqui me interessa nesta visão ainda brutal dos nossos heróicos gregos sobre o mundo e sobre nós é a distinção radical entre o dia e a noite, a alegria e a tristeza, a luz e a escuridão. Assim é a minha infância, tal como hoje me lembro dela.<br />
Os mortos habitam, como diz Tirésias, uma região sem alegria, à qual não chega a luz do Sol. Aquiles, o herói Aquiles, agora morto, pálido, exangue, confessa a Ulisses preferir viver como um escravo de um qualquer homem sem importância nem património do que reinar sobre todos os mortos, que já nada são.<br />
A alegria, com efeito, pertence ao mundo dos vivos, para o qual Ulisses quer regressar. Por isso, o nome do fruto que cresce ao sol, que os latinos hão-de chamar <em>apricus</em>, há-de, mais tarde, querer também dizer abrigo. Ter abrigo, com efeito, não é ter um telhado, mas ter acesso ao Sol. Assim, nas nossas cidades, o excluído não é o que não tem tecto, mas o que não tem acesso ao Sol, à luz, à alegria e à vida. É o que vive na sombra, esquecido da verdade do ser, pois que o seu sangue não é aquecido pelo Sol.<br />
Assim é a saudade da minha infância. Lembro dentro de mim, criança, esta distinção radical entre a noite e o dia, a tristeza e a alegria, a morte e a vida; esta crença natural na luzidia verdade do ser que me rodeia e ao qual me entregava com o seu brilho reflectido nos meus olhos; esta vontade corajosa de viver rindo, sem medo de chorar – porque sempre chorando o medo… Outras coisas terei experimentado e sido e vivido. Só disto tenho saudades. A isto apenas regresso. Tudo o resto morreu, esquecido. </p>
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		<title>Sentença Judicial da Província de Sergipe, Brasil, no ano de 1833</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Aug 2010 21:32:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Chegou-me às mãos esta notícia que dá conta da inteireza da justiça brasileira. Ora leiam: Para além de muitas outras questões que poderiam a este propósito abordar-se (como é o caso das questões jurídicas, que interessarão sobretudo à Joana; ou da estética do abuso, que poderá ser defendida pelo Manuel; ou da radiografia do acto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Chegou-me às mãos esta notícia que dá conta da inteireza da justiça brasileira. Ora leiam:</p>
<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/Brasil-Sergipe-Sentença-de-1833.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/Brasil-Sergipe-Sentença-de-1833-500x630.jpg" alt="" title="Brasil-Sergipe - Sentença de 1833" width="500" height="630" class="aligncenter size-large wp-image-17807" /></a></p>
<p>Para além de muitas outras questões que poderiam a este propósito abordar-se (como é o caso das questões jurídicas, que interessarão sobretudo à Joana; ou da estética do abuso, que poderá ser defendida pelo Manuel; ou da radiografia do acto executório, coisa que muito interessaria o Pedro Norton; ou outras…) interessam-me aqui sobretudo as questões filosóficas, que só poderão ser verdadeiramente resolvidas, no entanto, com a ajuda das nossas amigas — e amigos — transatlânticos. Peço-vos, por isso, que nos digam:</p>
<p>1. Porque é que ao homem chamam “cabra”?<br />
2. Pode-se também chamar bode a uma senhora?<br />
3. O que quer dizer “abrafolou-se”?<br />
4. O que quer dizer exactamente: “uma senhora ficar com as encomendas de fora”?<br />
5. E mais pedagogicamente: como é que, em tal caso, as põe para dentro?<br />
6. Qual o significado de “conxambrar”?<br />
7. Pode-se, como insinua o Sr. Dr. Juíz, conxambrar também com homens?<br />
8. E porque é que isso lhes mete medo?<br />
9. A capadura feita a macete é muito dolorosa?<br />
10. O que deve legalmente fazer o carcereiro com o justo resultado da execução da sentença?</p>
<p>Enfim, são dúvidas que ficam, mas que era importante resolver.</p>
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		<title>Parabéns Mr. Norton…</title>
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		<pubDate>Sun, 22 Aug 2010 00:20:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Parece-me que és mais novo do que eu, de maneira que a coisa vai um bocadinho adiantada. Enfim, fica já para o ano. Agora, a música tinha de ser esta, porque os anos devem comemorar-se com a família. Parabéns!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Parece-me que és mais novo do que eu, de maneira que a coisa vai um bocadinho adiantada. Enfim, fica já para o ano. Agora, a música tinha de ser esta, porque <a href="http://www.youtube.com/user/nortonmusic#p/a/u/0/DRKlWdwgGzM">os anos devem comemorar-se com a família</a>. Parabéns!</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Eros versus Pedro Norton</title>
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		<pubDate>Sat, 21 Aug 2010 16:14:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A partir de uma breve conversa, tida neste nosso último jantar, com o ilustre Pedro Medusa Norton, sobre o caminho de espiritualização que deve, ou não, sofrer o amor humano, aqui deixo, para prosa posterior, alguma coisa que, em forma de narrativa mítica, disse, sobre este assunto, o enorme e querido Platão. Peço-vos que leiam [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/eros-.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/eros-.jpg" alt="" title="eros-" width="382" height="495" class="aligncenter size-full wp-image-17655" /></a></p>
<p>A partir de uma breve conversa, tida neste nosso último jantar, com o ilustre Pedro <em>Medusa</em> Norton, sobre o caminho de espiritualização que deve, ou não, sofrer o amor humano, aqui deixo, para prosa posterior, alguma coisa que, em forma de narrativa mítica, disse, sobre este assunto, o enorme e querido Platão. Peço-vos que leiam com atenção, pois se é certo que os mitos são falsidades, neles se contêm, contudo, algumas verdades (<strong><em>República</em></strong>, 377a), de tal maneira que nos podem ser muito úteis, se neles acreditarmos, para descobrirmos a verdade (<strong><em>República</em></strong>, 612b).<br />
A cena passa-se n´<strong><em>O Simpósio</em></strong>, ou <em><strong>Banquete</strong></em>, de Platão. O tema é <em>Eros</em>: o amor. Depois de vários discursos, é dada a palavra Sócrates, o qual, falando depois de Agatão, o homenageado dessa noite, prefere lembrar um discurso por meio do qual foi iniciado neste tema pela profetisa Diotima de Mantineia. É no início do seu discurso que ela nos conta este mito sobre o nascimento de <em>Eros</em>:<br />
«De que pai e de que mãe nasceu <em>Eros</em>? – perguntei eu. ”Demora um pouco a contar – disse-me ela. – No entanto, vou fazê-lo. No dia em que nasceu <em>Afrodite</em>, os deuses estavam num banquete. Com eles estava <em>Poros</em>, filho de <em>Métis</em>. Depois do jantar, <em>Pénia </em>veio mendigar, o que era natural em dia de festa, e pôs-se ao lado da porta. <em>Poros</em>, que se tinha embriagado com néctar (o vinho não existia ainda), entrou no jardim de <em>Zeus</em> e, completamente entorpecido, adormeceu. <em>Pénia</em>, na sua indigência, teve a ideia de ter um filho de <em>Poros</em>. Deitou-se junto dele e ficou grávida de <em>Eros</em>. Eis porque <em>Eros</em> se tornou o companheiro de <em>Afrodite</em> e o seu servidor: engendrado aquando das festas do nascimento desta, é naturalmente amante do belo… e <em>Afrodite</em> é bela!<br />
Sendo filho de <em>Poros</em> e de <em>Pénia</em>, portanto, <em>Eros</em> encontra-se na seguinte condição: por um lado, é sempre pobre; e longe de ser delicado e belo, como crê a maioria, anda descalço, não tem morada, deita-se sempre no chão, dorme ao relento junto das portas e nos caminhos, porque sai à sua mãe, acompanhando-o sempre a necessidade. Por outro lado, tal como o seu pai, vive à espreita do que é bom e belo; é viril, resoluto e ardente, um caçador de primeira, que está sempre a inventar estratagemas; deseja o saber e sabe encontrar os caminhos que a ele conduzem, emprega todo o seu tempo a filosofar, é um adivinho, um mago e um orador dotado.<br />
Acrescente-se que não é, por natureza, nem mortal nem imortal. Ao longo de um só dia, ora floresce e vive, ora morre; depois revive, quando nele perpassam os dons que deve à natureza do seu pai; mas o que nele perpassa sempre lhe escapa; <em>Eros</em>, assim, não está nunca nem na indigência nem na opulência. Está, pelo contrário, entre o saber e a ignorância – e isto diz bem o que ele é. Nenhum deus se ocupa em filosofar nem deseja tornar-se sábio, porque já o é. E de um modo geral, quando se é sábio não se filosofa. Os ignorantes, porém, também não filosofam, nem desejam tornar-se sábios. É justamente isso que é desagradável na ignorância: não se é nem belo, nem bom, nem inteligente, e, contudo, acredita-se sê-lo o bastante. Na verdade, nós não desejamos ser uma coisa quando não cremos que ela nos falte.”<br />
Quem são, então, ó <em>Diotima</em> – perguntei eu –, os que filosofam, se não são nem os sábios nem os ignorantes? “É muito claro – respondeu ela – e até uma criança pode agora percebê-lo: são os que se encontram entre os dois: e <em>Eros</em> deve fazer parte deles. A sabedoria, com efeito, conta-se entre as coisas mais belas. Ora, <em>Eros</em> é o amor do belo. Logo, é necessário que <em>Eros</em> seja filósofo e que, sendo filósofo, esteja a meio caminho entre o sábio e o ignorante. A causa de isto ser assim está na sua origem, pois que nasceu de um pai sábio e cheio de dons e de uma mãe desprovida tanto de sabedoria como de dons. Tal é, meu caro Sócrates, a natureza deste <em>daemon</em>.”» (<strong><em>O Simpósio</em></strong>, 203b-204b)</p>
<p>Glossário e pistas de leitura:</p>
<p>* <em><strong>Eros</strong></em>: Deus grego cujo nome significa aqui o amor, em especial o amor humano, ou amor-desejo.<br />
** <em><strong>Afrodite</strong></em>: Deusa grega da beleza, que nasceu nas ondas formadas pela espuma resultante do sémen de Urano, atirado para o mar por Cronos, quando este o castrou. Outra versão, porém, contada por Homero e aqui provavelmente tida em conta por Platão, diz que ela é filha de Zeus e de Dione, a deusa das ninfas.<br />
*** <em><strong>Poros</strong></em>: Personificação da abundância, ou da riqueza (não de coisas, ou de objectos, mas de habilidades, de capacidades e de dons), que vivia junto dos deuses. Poros, assim, é o que é capaz de engenhosamente encontrar e de fazer caminhos (o que se lhe opõe, neste sentido, é a aporia, enquanto, o caminho sem saída, ou ausência de caminho).<br />
**** <em><strong>Métis</strong></em>: Deusa grega cujo nome significa a inteligência prática, ou a prudência. Foi a primeira esposa de Zeus, o qual a engoliu, por causa de uma terrível profecia, quando ela estava grávida de Atena, a qual viria a nascer directamente pela cabeça de Zeus.<br />
***** <em><strong>Pénia</strong></em>: Personificação mítica da pobreza, da carência e da indigência (não de coisas, ou de objectos, mas de habilidades, de capacidades e de dons), que vivia à porta dos deuses.<br />
****** <em><strong>Zeus</strong></em>: Zeus era filho de Cronos e de Reia, o rei do Olimpo e o maior dos deuses.<br />
******* <em><strong>Daemon</strong></em>: É um espírito, um génio, um demónio (assim à imagem do génio da lâmpada de Aladino), que está presente nas coisas e, principalmente, nas pessoas, funcionando como intermediário, que pode ser bom ou mau, entre os deuses e os homens.</p>
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		<title>Karl Marx</title>
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		<pubDate>Fri, 13 Aug 2010 23:09:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
				<category><![CDATA[Queridos Mortos]]></category>

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		<description><![CDATA[Karl Marx morreu em Londres, no dia 14 de Março de 1883, às 14 horas e 45 minutos. No Sábado seguinte, dia 17, foi enterrado naquela cidade, no cemitério de Highgate, na mesma campa onde a sua mulher tinha sido deposta quinze meses antes. Na cerimónia estiveram presentes apenas dez pessoas, nomeadamente a sua filha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_17293" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/karl-Marx.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/karl-Marx.jpg" alt="" title="karl Marx" width="300" height="350" class="size-full wp-image-17293" /></a><p class="wp-caption-text">Fotografia de Karl Marx na qual não tem cara de mau…</p></div>
<p>Karl Marx morreu em Londres, no dia 14 de Março de 1883, às 14 horas e 45 minutos. No Sábado seguinte, dia 17, foi enterrado naquela cidade, no cemitério de Highgate, na mesma campa onde a sua mulher tinha sido deposta quinze meses antes. Na cerimónia estiveram presentes apenas dez pessoas, nomeadamente a sua filha Eleanor e os seus genros Charles Longuet e Paul Lafargue; os socialistas e amigos de longa data Friedrich Engels, Wilhelm Liebknecht, Gottlieb Lemke, Friedrich Lessner e Georg Lochner; e os cientistas Ray Lankester e Carl Schorlemmer.<br />
Não obstante a convicção de que «seria despropositado perderem-se ali em discursos muito pomposos, até porque ninguém detestava mais veementemente esse palratório do que Karl Marx», como então bem lembrou Wilhelm Liebknecht, o facto é que foi proferido um pequeno discurso por Friedrich Engels, em inglês, após o qual Charles Longuet leu três breves mensagens, em francês, enviadas pelos socialistas russos e pelos ramos francês e espanhol da Associação Internacional dos Trabalhadores, às quais se seguiu uma também curta declaração, em alemão, feita por Wilhelm Liebknecht, em representação do Partido Social-Democrata alemão.<br />
Ora, estes breves discursos, como num outro lugar escrevi (ou estou ainda a escrever, já não sei!), apesar da sua simplicidade, ou talvez por isso mesmo, permitem indicar os dois principais aspectos a partir dos quais julgo que deve hoje propor-se uma releitura crítica do marxismo: o primeiro tem a ver com o carácter apaixonado com que o pensamento de Marx foi desde o início acolhido e rejeitado, o que impediu – e impede ainda – uma compreensão do marxismo que permita aproveitá-lo naquilo que tem de integrador; o segundo diz respeito à percepção imediata que o marxismo teve do pensamento de Marx, a partir da qual se construíram três desvios que historicamente resultaram: a) na progressiva desvalorização da acção política; b) na convicção da preeminência do económico sobre o social; c) na pretensão de uma aplicação absoluta e universal das ideologias.<br />
Não tenho espaço para desenvolvê-lo aqui. Posso brevemente explicar, no entanto, porque é que o pensamento e a obra de Karl Marx precisam hoje de ser desenterradas.<br />
Como disse Engels, no fim do referido discurso, «Marx era, antes de tudo, um revolucionário. A sua verdadeira missão na vida era contribuir, de uma maneira ou de outra, para a queda da sociedade capitalista e das instituições do Estado que ela trouxe à existência; contribuir para a libertação do proletariado moderno, que ele foi o primeiro a tornar consciente da sua própria posição e necessidades, consciente das condições da sua libertação. Lutar era o seu elemento. E ele lutou com uma paixão, uma tenacidade e um sucesso como poucos tiveram. (…) Por isso Marx era o mais odiado e o mais caluniado homem do seu tempo. Os governos, absolutistas e republicanos, deportaram-no dos seus territórios. Os burgueses, conservadores ou ultra-democratas, competiam entre si para caluniá-lo. Mas de tudo ele se desenvencilhou, como se varresse uma teia de aranha, ignorando-os e respondendo apenas quando impelido por uma extrema necessidade. E morreu amado, reverenciado e chorado por milhões dos seus companheiros trabalhadores revolucionários – das minas da Sibéria à Califórnia, em todas as partes da Europa e da América – e eu atrevo-me a dizer que, embora ele possa ter tido muitos opositores, dificilmente teve um inimigo pessoal. O seu nome perdurará pelos séculos, tal como a sua obra!»<br />
No entanto, segundo Louis Althusser (<em>Sobre a Relação de Marx com Hegel</em>), é este «o grande escândalo de toda a história intelectual contemporânea: todos falam de Marx, todos se dizem mais ou menos marxistas em ciências humanas ou sociais. Mas quem se deu ao trabalho de ler realmente Marx, de compreender a sua novidade e de extrair daí as respectivas consequências teóricas?»<br />
Voltando ao enterro de Marx, Wilhelm Liebknecht, no seu discurso, pouco depois «do maior amigo e colega de Marx lhe ter chamado o homem mais odiado do seu tempo, [disse que] isso era verdade. Ele era o mais odiado, mas também o mais amado. O mais odiado pelos opressores e exploradores do povo, o mais amado pelos oprimidos e explorados, desde que eles estivessem conscientes da sua posição. O povo oprimido e explorado ama-o porque ele os amou. Porque o morto cuja perda aqui choramos foi grande no seu amor e no seu ódio. E o seu ódio tinha o amor na sua base.»<br />
Ora, este amor e este ódio pelo homem e pela doutrina multiplicaram-se de tal maneira que, abandonando o âmbito propriamente civil, onde nasceram, foram então politicamente assumidos e protagonizados pelos Estados. A guerra, que deflagrou na Europa, aliou à disputa pelo alargamento dos mercados a vontade de expansão ideológica, a qual, estendendo-se violentamente a todo o mundo, se polarizou em dois blocos política e economicamente rivais e opostos. A alma da revolução, contudo – isto é, o carácter familiar e civil de onde brotara –, tanto da liberal quanto da socialista, perdera-se neste processo, porquanto já não se lutava por uma transposição democrática dos novos valores sociais para a esfera da acção política, mas, ao contrário, pela determinação política e económica da totalidade da vida social dos seres humanos.<br />
O esfriamento da guerra, contudo, que, em consequência directa dos seus horrores, se verificou na segunda metade do século XX, acarretou um progressivo arrefecimento ideológico, o qual, se teve a virtude de, num primeiro momento, conter as terríveis tensões que então se viviam, culminou, depois, na imposição, em todo o mundo ocidental, de uma ideologia da indiferença, por meio da qual intencionalmente se esqueceram as diferenças ideológicas que conferiam inteligência à acção política e inconscientemente se estabeleceram as formas desviadas e desviantes que estão na base da nossa organização social.<br />
Ora, a rejeição generalizada do pensamento de Marx, produzida ao longo deste processo – negando-o, primeiro, e esquecendo-o, depois –, acarretou a rejeição dos evidentes progressos sociais historicamente alcançados pelos movimentos de inspiração marxista e, deste modo, a rejeição dos inegáveis avanços civilizacionais no interior dos quais eles se realizaram. Eis porque é preciso hoje desenterrar Marx, compreendendo aquilo que tem de morto e aquilo que tem de vivo.<br />
Com efeito, se o capitalismo foi capaz de desenvolver as forças produtivas de um modo e a um ponto até então insuspeitados, como Marx não hesita em admitir (<em>vide</em>, por exemplo, o Manifesto <em>do Partido Comunista</em>), a verdade é que este aumento da riqueza, por si mesmo, de modo nenhum se traduziu numa melhoria generalizada das condições de vida das populações. Ao contrário, o modo pelo qual os operários e os trabalhadores agrícolas, nas sociedades capitalistas do terceiro quartel do século XIX, estavam obrigados a lutar pela sobrevivência implicava necessariamente a sua degradação física e moral, facto que foi inclusivamente atestado em vários relatórios oficiais, referidos pelo próprio Marx no <em>Manifesto do Lançamento da II Internacional </em>e n´ <em>O Capital</em>.<br />
Já no <em>Manifesto do lançamento da II Internacional</em>, com efeito, escrito entre 21 e 27 de Outubro de 1864, Marx fizera referência ao relatório de um inquérito ordenado em 1863, pela Câmara dos Lordes, no qual se concluía que as condições de vida (alimentação, abrigo, vestuário, higiene, horas de trabalho, etc.) dos criminosos condenados a trabalhos forçados na Escócia e em Inglaterra eram objectivamente melhores do que as dos trabalhadores agrícolas destes países e mais ainda do que as da maior parte dos trabalhadores especializados dos estabelecimentos industriais do Leste de Londres.<br />
N´ <em>O Capital</em>, mais tarde, voltará a este tema, afirmando que «o carácter antagónico da acumulação capitalista e, consequentemente, das relações de propriedade que dela derivam, abrange-se com uma tal facilidade que até os relatórios oficiais sobre este assunto abundam em vivos ataques pouco ortodoxos contra “a propriedade e os seus direitos”, [como é o caso, por exemplo, do oitavo relatório sobre saúde pública, publicado em 1866, no qual o Dr. Julien Hunter escreve:] “Embora o meu ponto de vista oficial seja exclusivamente médico, a mais elementar humanidade não me permite esconder outro lado do mal. Este, chegado a um certo grau, implica quase necessariamente uma negação de todo o pudor, uma promiscuidade revoltante, uma exposição de nudez que são mais próprias das bestas que dos homens. Estar submetido a semelhantes influências é uma degradação que, pela sua duração, em cada dia se torna mais profunda. Para as crianças criadas nesta maldita atmosfera, é um baptismo de infâmia. E é embalarmo-nos na mais vã esperança pensar que pessoas colocadas em tais condições como em outras circunstâncias piores venham a esforçar-se por atingir uma civilização cuja essência é constituída pela pureza física e moral.”»<br />
Julgo que é para todos evidente não só o extraordinário caminho que percorremos desde então, como também a enorme importância que nesse caminho tiveram os movimentos de inspiração marxista. É um erro, porém, reduzir o alcance histórico das transformações políticas realizadas nos últimos 150 anos, no mundo ocidental, à melhoria generalizada das condições de vida das populações, porquanto estas possam ser alcançadas, pelo menos durante um certo período de tempo, sem ter em conta a dignidade essencial de cada ser humano, isto é, sem que cada indivíduo esteja, ou possa estar, implicado no seu próprio processo de desenvolvimento histórico e social.<br />
Ora, é justamente este reconhecimento, elevado à esfera da acção política, da dignidade própria de cada indivíduo existente numa determinada sociedade, aquilo que confere valor aos progressos materiais que nela se vão alcançando, sendo que nos parece inegável que a actual possibilidade generalizada de uma afirmação política individual deve muito ao advento do marxismo.<br />
A união dos trabalhadores, com efeito, que Marx insistentemente reivindica como elemento chave para o sucesso da sua luta – «Proletários de todo o mundo, uni-vos!» –, adquire todo o seu sentido ao operar a transformação da luta de classes em luta política. E se «toda a luta de classes é uma luta política, (…) a organização do proletariado em classe [transforma-o], deste modo, em partido político» (<em>Manifesto do Partido Comunista</em>).<br />
Para Marx, com efeito (ainda que aqui as palavras sejam de Engels), «toda a luta de classes cujo sentido é alcançar a liberdade, apesar de, em última análise, se converter num problema de emancipação económica, tem um inevitável carácter político, já que toda a luta de classes é uma luta política» (<em>Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã</em>), facto que confere uma dignidade nova aos seus intervenientes, que, deste modo, lutando, se reconhecem senhores da sua própria história e, neste sentido, participam na realização do seu destino.<br />
É este, do meu ponto de vista, o sentido mais profundo da tese de Althusser (<em>Sobre a Relação de Marx com Hegel</em>), que afirma que «a união, ou fusão, do movimento operário e da teoria marxista é o maior acontecimento da história das sociedades com classes, quer dizer, praticamente de toda a história humana.»<br />
No entanto, se não repararmos na importância capital de Marx e do marxismo na realização histórica desta possibilidade do reconhecimento do valor próprio de cada ser humano, concretamente traduzida na atribuição universal de uma dignidade política objectiva, será muito difícil, senão impossível, reencontrarmo-nos com os princípios que estão na base da actual diferença civilizacional do Ocidente – nomeadamente os princípios da separação dos poderes temporal e espiritual; da individualidade essencial e auto-determinação do ser; e da dignidade da pessoa humana –, sem os quais não só não seremos nós próprios, como nada então teremos para oferecer.</p>
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		<title>O seu cheiro…</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Aug 2010 21:21:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[O seu cheiro invadiu hoje os meus sentidos, Conquistando todas as minhas memórias, Transportando-me, incessante, para as histórias Em que aos dois nos abraçámos: nós despidos. Não me importa já o afã com que, perdidos, Andam os homens sempre em busca de vãs glórias… Pois que, deste mundo, os louros das vitórias P´lo seu cheiro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/caress.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-17238" title="caress" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/caress.jpg" alt="" width="319" height="400" /></a></p>
<p>O seu cheiro invadiu hoje os meus sentidos,<br />
Conquistando todas as minhas memórias,<br />
Transportando-me, incessante, para as histórias<br />
Em que aos dois nos abraçámos: nós despidos.</p>
<p>Não me importa já o afã com que, perdidos,<br />
Andam os homens sempre em busca de vãs glórias…<br />
Pois que, deste mundo, os louros das vitórias<br />
P´lo seu cheiro são em mim sempre vencidos. </p>
<p>Hoje todos os meus cheiros são de si!<br />
Como se todas as coisas que vivemos<br />
Fossem tudo o que eu alguma vez cheirara. </p>
<p>E morrera eu cheirando, agora, aqui…<br />
Pois que fôra isto, somente, o que tivemos<br />
E a mim já p´la vida toda me bastara.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Socrates, magister omnium philosophorum</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Aug 2010 00:22:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Como em tudo na vida, há bons e há maus filósofos. Tenho-me, evidentemente, na conta dos segundos. Não obstante, ser filósofo, bom ou mau, é ser da filosofia e, nesse sentido, ser de algum modo discípulo de Sócrates, assim como os cristãos o são de Cristo. Mas não é fácil, neste mundo, a tarefa dos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como em tudo na vida, há bons e há maus filósofos. Tenho-me, evidentemente, na conta dos segundos. Não obstante, ser filósofo, bom ou mau, é ser da filosofia e, nesse sentido, ser de algum modo discípulo de Sócrates, assim como os cristãos o são de Cristo.<br />
Mas não é fácil, neste mundo, a tarefa dos filósofos. Desde o início da filosofia, na Grécia, que o filósofo, cuja alma se exercita constantemente em abstrair voluntariamente de tudo o que em si é apenas corpo, contemplando desinteressadamente as coisas tal como são, sabe que filosofar consiste essencialmente em preparar-se com agrado para a morte (Platão, <em><strong>Fédon</strong></em>, 80c-81a).<br />
Por esta mesma razão, porém, porque se preocupa não consigo, mas com a verdade, é considerado por todos aqueles com quem partilha a sua existência numa determinada sociedade como um excêntrico perverso e inútil (Platão, <em><strong>República</strong></em>, VI, 487d e 499b), para quem estão guardados apenas dois tipos de tratamento: ou o riso, por ser desajeitado no mundo dos negócios (Platão, <em><strong>Teeteto</strong></em>, 174a); ou a morte, por ameaçar alguns interesses particulares (Platão, <strong><em>República</em></strong>, 517a).<br />
No entanto, não há outra hipótese, a não ser não-ser – o que, como tão bem mostrou Parménides, não é uma verdadeira hipótese. E é talvez isto o que, mais do que toda a vã erudição, distingue verdadeiramente o bom e o mau filósofo: a entrega radical de nós mesmos a um ser inteiramente bom e belo que apenas limitadamente nos é dado contemplar — sejam quais forem as consequências.<br />
Por isso o bom filósofo não é aquele que escreve tratados difíceis e eruditos, mas aquele que vive de acordo com os princípios do ser verdadeiro tal como lhe foram dados a contemplar. E quando dele se riem, ou quando o querem matar – porque se assim não for ele não é filósofo –, ele sabe — como só um sábio o sabe — que aquilo a que verdadeiramente pertence de nenhum modo lhe podem tirar. E é por isso que não desanima. </p>
<div id="attachment_17118" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/David-The-Death-of-Socrates1.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/David-The-Death-of-Socrates1-500x325.jpg" alt="" title="David, The Death of Socrates" width="500" height="325" class="size-large wp-image-17118" /></a><p class="wp-caption-text">Louis David, «A morte de Sócrates», 1787</p></div>
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		<title>Antonius Eça Queirozis, Luandae verus imperator, in terribilem Malangiae carcerem tragice et atrociter inclusum</title>
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		<pubDate>Wed, 04 Aug 2010 18:53:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Com a expressa permissão do próprio, como facilmente poderá ver-se aqui, apresento-vos em primeira mão — e roubada à escuridão que a escondia — a extraordinária imagem de António Eça de Queiroz, imperador de Luanda, duque de Sassalemba e marquês de Ambriz, durante a sua triste e penosa estada na terrível prisão de Malange, à [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Com a expressa permissão do próprio, como facilmente poderá ver-se <a href="http://etudogentemorta.com/2010/08/short-story-de-agosto">aqui</a>, apresento-vos em primeira mão — e roubada à escuridão que a escondia — a extraordinária imagem de António Eça de Queiroz, imperador de Luanda, duque de Sassalemba e marquês de Ambriz, durante a sua triste e penosa estada na terrível prisão de Malange, à qual foi tragicamente parar por causa da heróica, mas falhada, incursão que intentou pelo interior de Angola — incursão que, como hoje se sabe, poderia ter inteiramente mudado o inexorável destino da guerra.<br />
Ei-lo, coitado:</p>
<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/velazquez-marte1.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/velazquez-marte1.jpg" alt="" title="VELÁZQUEZ, Diogo, «Marte» (c. 1639-1641)" width="333" height="648" class="aligncenter size-full wp-image-16993" /></a></p>
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		<title>Short Story de Agosto…</title>
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		<pubDate>Tue, 03 Aug 2010 12:01:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Aqui está ela, a imagem de onde poderão partir as short-storys deste nosso quente mês de Agosto. Vamos ver no que dá…]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_16917" class="wp-caption aligncenter" style="width: 446px"><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/Botero-Homenagem-a-Bonnard-1972.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/08/Botero-Homenagem-a-Bonnard-1972.jpg" alt="" title="Botero-Homenagem a Bonnard-1972" width="436" height="553" class="size-full wp-image-16917" /></a><p class="wp-caption-text">BOTERO, Fernando, «Homenagem a Bonnard», 1972</p></div>
<p>Aqui está ela, a imagem de onde poderão partir as short-storys deste nosso quente mês de Agosto. Vamos ver no que dá…</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Da grandeza ibérica…</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2010/07/da-grandeza-iberica/</link>
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		<pubDate>Sun, 25 Jul 2010 23:33:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Num livro que, por razões que agora não interessam, tenho vindo a estudar com algum cuidado, intitulado Concórdia do livre arbítrio com os dons da graça, divina presciência, providência, predestinação e reprovação, a partir de alguns artigos da primeira parte da «Suma teológica» de São Tomás, publicado pelo jesuíta Luís de Molina, em Lisboa, no [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_16461" class="wp-caption aligncenter" style="width: 509px"><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/07/Concordia-liberii-arbitrii-cum-gratiae-donis...-11.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/07/Concordia-liberii-arbitrii-cum-gratiae-donis...-11-499x360.jpg" alt="" title="Concordia liberii arbitrii cum gratiae donis... (1)" width="499" height="360" class="size-large wp-image-16461" /></a><p class="wp-caption-text">Concordia liberi arbitrii cum gratiae donis…</p></div>
<p>Num livro que, por razões que agora não interessam, tenho vindo a estudar com algum cuidado, intitulado <strong><em>Concórdia do livre arbítrio com os dons da graça, divina presciência, providência, predestinação e reprovação, a partir de alguns artigos da primeira parte da «Suma teológica» de São Tomás</em></strong>, publicado pelo jesuíta Luís de Molina, em Lisboa, no ano de 1588, podem ler-se, na pág. 6, os vários títulos de D. Filipe II de Espanha (I de Portugal), por ocasião da concessão do privilégio real para a publicação da obra. </p>
<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/07/Concordia-liberii-arbitrii-cum-gratiae-donis...-2.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/07/Concordia-liberii-arbitrii-cum-gratiae-donis...-2-499x353.jpg" alt="" title="Concordia liberii arbitrii cum gratiae donis... (2)" width="499" height="353" class="aligncenter size-large wp-image-16463" /></a></p>
<p>Por não se conseguir ler muito bem, aqui reproduzo os ditos títulos inscritos na página da direita. Diz assim: «Dom Filipe, pela graça de Deus Rei de Castela, de Aragão, de Leão, das duas Sicílias, de Jerusalém, de Portugal, da Hungria, da Dalmácia, da Croácia, de Navarra, de Granada, de Toledo, de Valência, da Galiza, das Maiorcas, de Sevilha, da Sardenha, de Córdova, da Córsega, de Múrcia, de Haia, dos Algarves, de Aljeciras, de Gibraltar, das ilhas Canárias, das Índias Orientais e Ocidentais, das ilhas e terras firmes do mar Oceano, Arquiduque da Áustria, Duque de Borgonha, de Brabante, de Milão, de Atenas e da Terra Nova, Conde de Habsburgo, da Flandres, do Tirol, de Barcelona, do Rossilhão e da Sardenha, Marquês de Oristan e Conde de Sociano…» E continua com outros assuntos.</p>
<p>Ora, mesmo sabendo que Portugal (que aqui inclui os Algarves, as Índias Orientais e grande parte das ilhas e terras firmes do mar Oceano) não faria muito mais tempo desta união ibérica, mas lembrando, também, que este mesmo Filipe já não herdara de seu pai, o imperador Carlos V, as possessões e títulos alemães (que este transferiu, conjuntamente com a eleição imperial, para o seu irmão Fernando), ficamos com alguma ideia da grandeza desta nossa península, não há muitos anos atrás. O facto é que os espanhóis andam lembrados dela. Nós, no entanto, parece que não.*</p>
<p>* Escrevi este <em>post</em> no dia 25 de Julho, dia em que nasceu o nosso primeiro rei, Afonso Henriques. Problemas informáticos, porém, fizeram com que só conseguise publicá-lo hoje, dia 26. Será isto fruto, uma vez mais, do atraso estrutural de Portugal!?</p>
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		<title>Silêncio…</title>
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		<pubDate>Sun, 25 Jul 2010 22:09:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[… que se vai cantar o fado. Descobri este ficheiro num disco que tinha para aqui perdido. Que saudades. Todas as quartas-feiras lá ia eu para aquela tasca posta por ordem, em Lisboa, na Calçada da Ajuda, onde, à noite, em ambiente quase familiar, se ouvia e cantava o fado. São pessoas, conversas, histórias e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>… que se vai cantar o fado.<br />
Descobri este ficheiro num disco que tinha para aqui perdido. Que saudades. Todas as quartas-feiras lá ia eu para aquela tasca posta por ordem, em Lisboa, na Calçada da Ajuda, onde, à noite, em ambiente quase familiar, se ouvia e cantava o fado. São pessoas, conversas, histórias e memórias de um tempo que já não volta, que já não há. A guitarra do Zé Pracana, a viola do Mário Estorninho, a graça do Manuel Margaride, a ciência do Daniel Gouveia… Paciência. É assim a vida.<br />
Ficou, só, este ficheiro, perdido no meu computador, para o qual foi trasladado a partir de um outro ficheiro do telemóvel de alguém que uma noite testemunhou isto que aqui vos conto. A gravação é miserável, mas, se tiverem pachorra, ouçam o último fado, de que gosto muito. A letra com que ali o canto é do Fernando Pessoa. A música é minha, razão pela qual o Zé Pracana e o Manuel Margaride lhe chamaram o «fado Moita». É tudo o que resta. E é tudo vosso.<br />
<a href='http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/07/3-fados-na-ajuda15.mp4'>3 fados na Ajuda</a></p>
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		<title>Em defesa do bom António — com o risco da própria vida!</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2010/07/em-defesa-do-bom-antonio-com-o-risco-da-propria-vida/</link>
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		<pubDate>Mon, 19 Jul 2010 15:05:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A loucura tomou conta deste blog. O pobre António, terrivelmente assediado pela Joana, que já aqui nos advertira que era louca, tem sofrido em abnegado silêncio o que poucos homens seriam capazes de suportar. O seu sofrimento, porém, já o ultrapassa, e porque, com ele, sofremos também nós, todos os homens, resolvi aqui intervir, em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A loucura tomou conta deste blog. O pobre António, <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/07/homem-mau">terrivelmente assediado pela Joana</a>, <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/06/historias-de-joanas-iii-a-louca">que já aqui nos advertira que era louca</a>, tem sofrido em abnegado silêncio o que poucos homens seriam capazes de suportar. O seu sofrimento, porém, já o ultrapassa, e porque, com ele, sofremos também nós, todos os homens, resolvi aqui intervir, em sua defesa, encorajado por aquelas últimas palavras com que Marx nos grita no seu famoso manifesto: «Homens de todo o mundo: uni-vos!»<br />
Bem sei que o nosso momento não é chegado. Não sei se alguma vez o será. Por agora temos ainda de sofrer em silêncio as provações que esse outro sexo nos impõe. Não posso, por isso, ser eu a falar, que as represálias seriam por certo maiores do que aquelas que me é dado suportar. Falará, assim, a própria loucura, de que elas, as mulheres, se arvoram em donas, com aquele mesmo discurso que há já muito tempo nos deixou. Possa assim, por esta via, o bom senso regressar a esta casa:</p>
<p>«LOUCURA – Vede que providência a da Natureza, genitriz e fabricante do género humano, a de deixar em tudo o condimento da loucura. Com efeito, segundo a definição dos estóicos, a sapiência não é mais do que a conduta da razão; pelo contrário, a loucura consiste em deixar-se levar pelas paixões. Para que a vida dos homens não fosse inteiramente triste e tétrica, Júpiter deu-lhes mais paixões do que a razão – na proporção de um grão por meia-onça. Além disso, relegou a razão para um canto estreito da cabeça, deixando o resto do corpo entregue às paixões. À razão opôs ainda dois tiranos violentíssimos, a ira, que tem a sua sé no peito, com a própria fonte da vida que é o coração, e a concupiscência, cujo império se dilata até ao baixo-ventre. Quanto vale a razão contra estas duas forças reunidas é o que a vida comum dos homens satisfatoriamente nos mostra. A razão pode gritar até enrouquecer para fazer cumprir as  fórmulas da honestidade; é rainha a que os homens não obedecem, a que os homens replicam com injúrias, até que emudeça ou se declare vencida.<br />
Ora, o homem, nascido para administrar as coisas, deveria receber um pouco mais do que uma onça de razão. Júpiter consultou-me a este respeito e dei-lhe um conselho digno de mim: o de unir a mulher ao varão. A mulher é um animal louco como nenhum, inepto, ridículo e delicioso, que no convívio doméstico atenuaria a tristeza do engenho viril com a loucura feminina. E claro que, quando Platão parece hesitar em incluir a mulher entre os animais racionais, nada mais pretende do que indicar a loucura insigne desse sexo. Quando por acaso uma mulher quer passar por sábia, não faz mais do que dizer que é duas vezes louca. Ninguém vai ungir um boi para a palestra, nem Minerva o consentiria. Não procedamos, pois, contra a natureza; o vício fica agravado quando dissimulado de virtude, por maior que seja o engenho. É bem justo o provérbio grego: um macaco é sempre um macaco, ainda que vestido de púrpura. Assim também a mulher é sempre mulher, quero dizer sempre louca, ainda que ponha uma máscara.<br />
As mulheres não me podem levar a mal que lhes atribua a loucura, porque eu também sou, além de mulher, a própria Estultícia. Vendo bem as coisas, devem ser gratas à Estultícia que lhes permite serem muito mais felizes do que os varões. Têm a graça da formosura, mérito que antepõem a todas as coisas, e que lhes serve para tiranizarem os próprios tiranos. O varão tem as formas rudes, a cútis híspida, a barba selvagem, e tudo isso o envelhece, embora signifique sabedoria; as mulheres, com as faces sempre macias, a voz sempre doce, a pele sempre lisa, têm a seu favor os atributos da juvência perpétua. Porque optam elas nesta vida, senão por agradar da melhor maneira aos varões? Não é essa a razão de tantos cuidados, enfeites, banhos, perfumes, penteados, cosméticos, cremes, pinturas, de tanta arte no embelezamento do rosto e dos olhos? Não é a Loucura a deusa que lhes entrega da melhor maneira os varões submissos? Que é que eles não prometem às mulheres, e que é que eles não lhes permitem? E tudo isto em troca de quê, se não de voluptuosidade? Quem permite todas estas delícias é a estultícia. Basta reparar na figura que o varão faz, e nas tolices que diz à mulher quando pretende obter a volúpia que ela concede.»*</p>
<p>Posto isto, caro António, conte comigo. Ambos sabemos que a batalha está perdida. Mas há lá melhor e mais doce maneira de morrer!</p>
<p>* ERASMO de Roterdão, <strong>Elogio da Loucura</strong> (1508), cap. XVI e XVII.</p>
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		<title>Recado de António Vieira, S. I., aos governantes de Portugal que foram, aos que são e aos que hão-de ser</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2010/07/recado-de-antonio-vieira-s-i-aos-governantes-de-portugal-os-que-foram-os-que-sao-e-os-que-hao-de-ser/</link>
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		<pubDate>Wed, 14 Jul 2010 12:19:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[«Se é necessário para a conservação da Pátria, tire-se a carne, tire-se o sangue, tirem-se os ossos, que assim é razão que seja; mas tire-se com tal modo, com tal indústria, com tal suavidade, que os homens não o sintam, nem quase o vejam. Deus tirou a costa a Adão, mas ele não o viu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/07/padre-antónio-vieira.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/07/padre-antónio-vieira-300x457.jpg" alt="" title="padre antónio vieira" width="300" height="457" class="aligncenter size-medium wp-image-16018" /></a></p>
<p>«Se é necessário para a conservação da Pátria, tire-se a carne, tire-se o sangue, tirem-se os ossos, que assim é razão que seja; mas tire-se com tal modo, com tal indústria, com tal suavidade, que os homens não o sintam, nem quase o vejam. Deus tirou a costa a Adão, mas ele não o viu nem o sentiu; e se o soube, foi por revelação. Assim aconteceu aos bem governados vassalos do imperador Teodorico, dos quais por grande glória sua dizia ele: “Eu sei que há tributos, porque vejo as minhas rendas acrescentadas; vós não sabeis se os há, porque não sentis as vossas diminuídas.” (…) O maior jugo de um reino, a mais pesada carga de uma república são os imoderados tributos. Se queremos que sejam leves, se queremos que sejam suaves, repartam-se por todos. Não há tributo mais pesado que o da morte, e contudo todos o pagam, e ninguém se queixa, porque é tributo de todos. Se uns homens morreram e outros não, quem levara em paciência esta rigorosa pensão da imortalidade? Mas a mesma razão que a estende, a facilita; e porque não há privilegiados, não há queixosos. Imitem as resoluções políticas o governo natural do Criador: “O qual faz nascer o seu sol sobre bons e maus, e vir chuva sobre justos e injustos.” (Mt. 5, 45) Se amanhece o sol a todos aquenta; e se chove o céu a todos molha. Se toda a luz caíra a uma parte e toda a tempestade a outra, quem o sofrera?» *</p>
<p>* VIEIRA, António, S. J., <strong>Do Sermão de Santo António </strong> (1642), <em>in</em> «Textos Escolhidos do Padre António Vieira», Ed. Verbo, Colecção livros RTP, Lisboa, 1971, págs. 34–35.</p>
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		<title>A existência do cristianismo</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Jul 2010 23:40:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Faço aqui uma muito breve reflexão sobre as famosas cinco vias propostas por São Tomás de Aquino para demonstrar a existência de Deus, que mais atrás traduzi, de algum modo em diálogo com alguns textos e comentários entretanto feitos neste nosso blog à volta deste mesmo tema. O primeiro ponto para o qual julgo ser [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Faço aqui uma muito breve reflexão sobre as famosas cinco vias propostas por São Tomás de Aquino para demonstrar a existência de Deus, que mais atrás traduzi, de algum modo em diálogo com alguns textos e comentários entretanto feitos neste nosso blog à volta deste mesmo tema.<br />
O primeiro ponto para o qual julgo ser importante chamar a atenção é o facto de São Tomás começar a <em>Summa Theologiae</em> com a questão da existência de Deus. É com ela, com efeito, que inaugura o conjunto de questões dedicadas à compreensão de um Deus cuja essência – como o próprio expressamente afirma – é existir (Ex. 3, 14).<br />
O que está em causa, portanto, não é uma questão conceptual – isto é, a compreensão intelectual da realidade essencial de um ser do qual estamos separados –, mas uma questão existencial – isto é, a apreensão vital da realidade essencial de um ser no qual, ou com o qual, estamos lançados.<br />
Para nós, porém, que somos seres espiritualmente limitados, a existência de uma totalidade capaz de dar sentido a tudo aquilo que nos aparece sendo – à qual costuma chamar-se Deus – não é de nenhum modo evidente. Pelo contrário, temos de conhecê-la a partir dos seus efeitos, que são tudo aquilo que nos é imediatamente dado conhecer (<em>Summa Theologiae</em>, Ia, 2, 1–2).<br />
O conhecimento humano, portanto, implica a fé. É a partir dela, com efeito, que procuramos compreender a realidade na qual estamos lançados desejando ser felizes. Podemos obviamente divergir na determinação do que seja a felicidade – Deus, o amor, o prazer, o dinheiro, o poder… –, mas julgo que devemos concordar nisto: a nossa relação com a realidade implica a fé.<br />
É a partir das crenças que temos naquilo em que julgamos consistir o nosso bem, com efeito, que tentamos equilibrar-nos nessa realidade que de algum modo nos antecede e que a partir de nós se projecta. Esta é uma importantíssima lição medieval que, quer contra o essencialismo moderno – que, elevado a ideais alturas, se perdeu da realidade humana –, quer contra o existencialismo do século XX – que, com medo de maiores vertigens, negou as alturas de Deus –, urge, hoje, reaprender e recuperar.<br />
O facto de todas as nossas acções serem informadas por uma escolha original que procede radicalmente da fé, porém, não implica a desconformidade desta escolha nem com a inteligência nem com a experiência. Pelo contrário, é próprio dos ensinamentos cristãos a afirmação de uma relação íntima entre a fé, a razão e a realidade, de tal maneira que a fé impregna a razão que se confirma, ou infirma, na realidade.*<br />
Assim, se é verdade que só por via de uma sobrenatural existência de Deus São Tomás encontra uma explicação para tudo aquilo que existe, não é menos verdade que o ponto de partida do seu questionamento é a misteriosa existência do ser que naturalmente nos é dado experimentar.<br />
As cinco vias para o conhecimento da existência de Deus que nos propõe, neste sentido, reflectem o processo de manifestação do ser, o qual surge, antes do mais, como movimento, a partir do que percebemos que existem causas produtoras, ou eficientes, de entre as quais conhecemos que umas são possíveis e outras necessárias, distinguimos diferentes graus de perfeição e verificamos que existe uma ordem racional que governa todas as coisas (<em>Summa Theologiae</em>, Ia, 2, 3).<br />
O que aqui quero ainda especialmente notar, no entanto, é que cada uma destas cinco etapas da experiência do ser só se revela como um caminho para Deus se e quando a pensamos por relação ao infinito. Ora, o que afirmo é que se o argumento proposto em todas as cinco vias é a <em>reductio ad infinitum</em> é porque a principal qualidade atribuída pelos cristãos àquilo que dizemos por meio do nome Deus é justamente a infinitude.**<br />
Para os cristãos, com efeito, Deus é a existência da infinitude. Isto percebe-se melhor se repararmos que a capacidade para pensar o infinito, que expressamente apareceu na Grécia logo a partir de Anaximandro (para quem o infinito, ou ilimitado, ou <em>apéiron</em>, era o princípio de todas as coisas), não encontrou um correspondente espiritual concreto até ao momento em que a filosofia grega se cruzou com a religião judaico-cristã no seio do império romano.<br />
Até então, com efeito, o facto de um determinado Deus não ser omnipotente (isto é, infinitamente poderoso), ou de, consequentemente, poder pecar e/ou ser responsável pelos pecados de alguém (isto é, não ser infinitamente bom), não representava um qualquer problema para aqueles que tinham nesse Deus a sua fé.<br />
Para os cristãos, porém, Deus é o criador de todas coisas, tanto visíveis como invisíveis, em relação com as quais diversamente mostra este seu mesmo traço distintivo: a infinitude. Deus dir-se-á, assim, óptimo máximo, omnipresente, omnipotente, omnisciente, maximamente perfeito, sumamente bom, sumamente belo, soberano bem, etc.<br />
Ora, foi a partir desta plenitude do Deus cristão, da qual adequadamente participamos (Jo. 1, 16), que radicalmente se pôs na história a questão da liberdade humana, tanto de um modo positivo – segundo o qual o valor da liberdade humana se reconhece a partir da sua semelhança ontológica com a liberdade de Deus –, como de um modo negativo – segundo o qual a liberdade humana não pode ser mais do que uma obediência consciente à vontade de um Deus todo-poderoso.<br />
É na solução deste paradoxo que a igreja cristã existe e deve hoje redescobrir-se. O terrível erro histórico do qual sempre participaram tanto os chefes das igrejas como os das nações – e que a época moderna elevou até à loucura do totalitarismo – foi o de pretender absolutamente infinito um só dos termos da proposição: ou somos livres e então não pode haver autoridade, ou existe autoridade e então nós não somos livres.<br />
Há que distinguir, porém, a liberdade política, pela qual escolhemos o que somos na ordem do tempo, e a liberdade religiosa, pela qual escolhemos o que somos na ordem do espírito. Na primeira, partimos da essência para a existência (quase à maneira do desenvolvimento hegeliano da ideia), de tal maneira que realizamos as formas nas quais somos abstracta mas naturalmente dados. Na segunda, partimos da existência para a essência, de tal maneira que criamos sobrenaturalmente novas formas naturais.<br />
As duas liberdades, assim, embora sendo distintas, relacionam-se necessariamente no mundo, no qual se põem, se dão e se opõem. É neste sentido que se pode compreender o que dissemos, nomeadamente que a essência do cristianismo é existir, de tal maneira que a sua igreja se mostre no mundo, mas sem ser deste mundo (Jo. 18, 36), no qual, partindo somente da fragilidade do amor, dê testemunho da ressurreição de Jesus Cristo (Act. 1, 22; 2, 32; 3, 15; 4, 33; etc.), curando e convertendo pela fé com palavras de vida (Act. 5, 20).</p>
<p>* Penso, aliás, que é este o impulso fundamental do qual nascerá a ciência moderna. Impulso fundamental não quer dizer, porém, que não haja outros, como, por exemplo, a concepção determinável do infinito, de que já seguir falaremos, os contributos da filosofia grega, etc.</p>
<p>** Infinitude não quer aqui dizer a ausência de limites físicos, ou espaciais (questão que São Tomás expressamente trata na questão 7 desta primeira parte da <em>Summa Theologiae</em>), e muito menos que Deus seja algo incompleto, ou indeterminado. Infinitude refere-se aqui à irrestrita perfeição das qualidades, das operações e do poder divinos, os quais se dizem negativamente (<em>in </em>= não) apenas por causa do nosso modo limitado de conhecer – e não por qualquer negatividade própria da sua essência. </p>
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		<title>Short à bruta!</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Jun 2010 22:13:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gonçalo Pistacchini Moita</dc:creator>
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		<description><![CDATA[F*-se. Já não aguento mais. São quase nove horas e ainda aqui estou. E prometi à M. que hoje chegava cedo a casa. Mas esta merda não pára. Papel, telefonemas, relatórios; papel, telefonemas, relatórios; papel, papel… PAPEL! F*-se. E tudo merda. Tudo. Só merda. Uma grandessíssima merda, é o que é! E a esta hora [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/06/hopper_office-night-500x4283.jpg"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/06/hopper_office-night-500x4283-300x256.jpg" alt="" title="hopper_office-night-500x428" width="300" height="256" class="aligncenter size-medium wp-image-15363" /></a><br />
F*-se. Já não aguento mais. São quase nove horas e ainda aqui estou. E prometi à M. que hoje chegava cedo a casa. Mas esta merda não pára. Papel, telefonemas, relatórios; papel, telefonemas, relatórios; papel, papel… PAPEL! F*-se. E tudo merda. Tudo. Só merda. Uma grandessíssima merda, é o que é! E a esta hora é que mandam a desgraça destes telegramas dos sacristas do Pedro Norton e do Manuel Fonseca com ameaças de merda por causa de uma treta de um texto sobre a porra de uma merda de um quadro qualquer. F*-se para isto. Trabalho, trabalho, trabalho. Aaaahhh! Estou cansado, porra… gasto; exangue; lívido; branco! Pensando melhor estou verde. Por fora estou branco, é verdade, mas por dentro sinto-me verde, envenenado com esta vida de merda. Agora reparo, aliás, que tudo à minha volta está verde. Só aquela gaja é que não. Sempre com aquelas roupinhas justas – que já lhe estavam apertadas há mais de 5 ou 10 quilos atrás – e aquele arzinho de p* armada em boa menina. «Chamou Sr. Dr.?»; «Precisa de alguma coisa Sr. Dr.?»; «Quer um cafezinho Sr. Dr.?»; «Ainda vai precisar de mim hoje Sr. Dr.?». Xiça, que já não a aguento mais. Se quero alguma coisa? Quero, quero. Olha, sabes o que é que eu quero? Que tires estes papéis todos de cima da minha mesa, que arranques os botões todos da merda da tua camisa e que te deites aqui em cima que eu já te digo o que é quero. F*-se. Tenho que fazer isto e ir para casa. Mas o que é que hei-de escrever agora para aqueles gajos?<br />
– Ó Fernanda…<br />
– Sim, Sr. Dr.!?<br />
– Telefone se faz favor para o escritório do Sr. Norton e do Sr. Fonseca e diga-lhes…<br />
–  (…)<br />
– Diga-lhes que…<br />
– Digo-lhes!? Sr. Dr.?<br />
– Olhe, diga-lhes que o quadro é muito bonito e que e que eu fui para casa jantar!<br />
– (…) !<br />
– Até amanhã, Fernanda…<br />
– Até amanhã Sr. Dr.</p>
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