Esclareço, antes de mais nada, que parva, aqui, não quer dizer tola, ou apatetada, mas sim pequena, pois que é pequena, mas pretensamente essencial, esta suma que aqui tento fazer sobre a necessária fé dos homens (parva summa de necessaria humanorum fide).
Explico, além disso, que embora parta de um exemplo bíblico, que me é mais familiar, de nenhum modo me quero cingir a uma fé particular. Pelo contrário, falo de algo que julgo ser fundamental na vida de todos os seres humanos, independentemente daquilo em que concretamente acreditem e da maior ou menor consciência que disso tenham. E é por isso que chamo necessária à fé dos homens. Com efeito, ninguém age sem acreditar.
O exemplo, para não demorarmos mais, é aquele segundo o qual Deus, o Senhor, o máximo objecto de uma crença, nos é apresentado como uma rocha. De facto, são muitíssimas as passagens com que, ao longo do Antigo Testamento, embora com uma maior incidência nos Salmos, Deus é assim imaginado. Esta imagem, aliás, desdobra-se fundamentalmente em duas: a da água que brota da rocha, símbolo de um Deus que é fonte da vida; e a da firme constância da rocha, símbolo de um Deus que é um refúgio seguro.
É a partir destes muitos exemplos que o Novo Testamento voltará a este tema, dizendo que o homem de fé é aquele que constrói a sua casa sobre a rocha. Aqui, porém, gosto de interpretar o exemplo a partir do Evangelho de Mateus (cap. 7), cuja leitura pode bem opor-se àqueloutra famosa história dos três porquinhos. O homem prudente, com efeito, não é aqui como o porquinho mais velho, pois que esta rocha é dura de mais para permitir a material escavação de grandes fossos e a consequente fundação de sólidos alicerces. Pelo contrário, construir a casa sobre a rocha, aqui, é confiar num sentido da vida que me transcende e ao qual me entrego, de tal maneira que a minha casa há-de muitas vezes fazer-se e desfazer-se. Estas mudanças, no entanto, estarão fundadas numa fé que lhes garante a paz.
À firmeza da fé, portanto, não corresponde uma tranquilidade exterior, mas interior, como o exemplo de Cristo, para quem é cristão, facilmente poderá lembrar. A casa dos homens, de facto, só pode fundar-se no espírito, cuja melhor definição será, talvez, a presença, isto é, aquilo cuja experiência apenas se dá no presente. Talvez isto permita explicar que esta mesma passagem, no Evangelho de Lucas (cap. 6), fale expressamente dos alicerces que a casa do homem prudente deverá fundar na rocha.
Permitam-me a poesia de uma leitura na qual estes alicerces sejam também espirituais. De outro modo, aliás, não os percebo, ou melhor, não acredito. Na verdade, também o Evangelho de Marcos (cap. 15) nos conta como Jesus, depois de morto, foi envolto num lençol e depositado num sepulcro lavrado numa rocha. Foi aí que ressuscitou, como a água que, da pedra, irrompe misteriosamente viva. Ora, é dessa mesma espiritual invisibilidade que são feitos os alicerces de que fala Lucas. São alicerces que interiormente unidos àquela rocha que tudo suporta e que tudo renova permitem que os homens possam enfrentar, em paz, as terríveis mudanças que estão inevitavelmente fadados a sofrer no tempo.
Arredado deste meu querido blog muito mais do que gostaria, por razões que deixariam muito contente a troika do FMI, do FEFE e do BCE – explico: por razões de trabalho e de estudo que quase não me deixam tempo para outras actividades de carácter lúdico, não consentâneas, ao que parece, com a época de sofrimento * que vivemos –, ouso aqui roubar alguns minutos à nossa objectiva e nacional produtividade para vos falar, ensombradamente, de Portugal.
Falo-vos de Portugal, no entanto, não a partir do olhar exterior proporcionado pela visita de uma europeia troika (contradição tragicómica que parece querer esquecer que a Europa e a Rússia teimam em não olhar o futuro lado a lado), mas de um olhar interior proporcionado por uma popular e antiga vivência de um fértil tríduo pascal.
Uma primeira observação que gostaria de fazer sobre isto é que Portugal é mais antigo do que esta Europa que agora nos visita. Esta Europa, na verdade, pretende fundar-se em revoluções – inglesa, americana, francesa, russa… – que fazem tábua rasa do passado. Nós, porém, somos já antes disso. Temos que senti-lo, temos que vivê-lo, temos que sabê-lo, para resolvermos as nossas próprias contradições e, então, falarmos, a partir de nós, com todos os outros.
Na Casa do Carboal, em Covas do Douro, onde fui para passar a Páscoa, na porta, logo à entrada, pode ler-se: «Si Deus pro nobis quis contra nos: 1689». Esta inscrição, tirada da Carta aos Romanos (8, 31), dá o mote que deve inspirar uma família que, desde então, se reconhece daquela casa. Faltavam 100 anos para a revolução francesa, com a qual esta noção de propriedade familiar e comunitária iria dar lugar a uma outra, apenas económica e política.
Esta exterioridade totalitária que desde então nos tem vindo a ser imposta levou ao absurdo generalizado de se pensar uma casa apenas como um investimento económico, uma aplicação financeira, um bem transaccionável, exagero que, no nosso país, tão atreito às modernidades vindas de fora, foi mesmo, nesse sentido, comentado pela troika.
Ora, se de um ponto de vista económico e político nós temos uma casa, de um ponto de vista familiar e civil, contudo, nós somos de uma casa. Esta pertença diferenciada a um espaço e a um tempo, brutalmente combatida pelas revoluções universalistas em que esta Europa quer fundar-se, tem a sua raiz num sistema feudal que, nalguns pontos, como este, faremos bem em recuperar. E nós somos daqueles que têm uma longa tradição feudal. Fazemos mal, por isso, em deitá-la fora.
Claro que esta tradição foi, de um modo geral, ultrapassada. E bem, pois que continha princípios que hoje reconhecemos como inaceitáveis. É com estranheza que observamos, com efeito, que esta mesma casa erigida sobre pilares de pedra cristãos seja arrolada num morgadio em que, «nos casos em que não haja sucessão legítima dos chamados nesta instituição, poderão suceder os filhos bastardos sendo havidos com mulher limpa sem má raça, e tidos por filhos, e por tais reputados; e quer e é sua vontade [– do fundador –], que o que suceder neste vínculo e morgado não seja cristão novo, nem judeu, nem mourisco, nem mulato, nem de nação com defeito, nem casado com mulher que o tenha. (…) [Do mesmo modo não poderão nele suceder] Frades, Freiras, Clérigos e Malteses, (…) para que só sucedam nele aqueles que possam casar…» Eis o que dizia o direito.
Esta contradição, no entanto, é nossa, e, como tantas outras, tem de resolver-se, ou melhor, temos de resolvê-las. Mas não com revoluções que fazem tábua rasa de um passado que é também a nossa história. No Minho, no meu Minho, que é verde, por causa da água que sai de todas as pedras, as contradições resolvem-se a cantar. No campo, nas praças, nas festas e na igrejas. Os cantos não são, muitas vezes, nem os mais afinados, nem os mais bem cantados. Mas saem fortes e puros das almas das gentes como a água sai dos campos e das pedras, conferindo, com o seu som, a todos a graça de um mesmo caminho.

Foi assim, uma vez mais, no sábado de Aleluia. A igreja cheia, de uma gente que convive com o pecado como convive com a terra. E que canta com uma força que irrompe nos corações, comovendo-os, como comoveu a mim, que sei hoje mais das letras que dos elementos. Ora, a troika nada sabe desta terra, desta água, deste fogo e deste ar. E nem tem que saber. Mas é deles que somos feitos. E só neles podemos ser – ou então não ser, como dizia o outro!
* Tripalium, como é sabido, é um termo latino que significa sofrimento, do qual deriva, em português, a palavra trabalho.

Diz-se que nasceu na Trácia, no ano 120 a. C., mas não é certo. Diz-se ainda que serviu no exército romano, do qual terá desertado, pelo que foi depois vendido como escravo, juntamente com a sua mulher, mas também isto não se sabe com certeza. Parece, porém, que foi então comprado pelo romano Cneu Cornélio Lêntulo Batiato, que o enviou para a sua escola de gladiadores, na antiga cidade etrusca de Cápua, onde, pouco depois, durante uma rebelião, empunhando facas arrebanhadas na cozinha, fugiu, juntamente com setenta e sete gladiadores, de uma morte certa num lugar fechado para uma morte incerta em campo aberto. Talvez isto seja o que de mais certo sabemos sobre a sua vida.
Mas a vida tem muito pouco de certo. E nesse campo aberto onde gritavam, como se gritassem ainda na arena onde morriam matando para divertir os outros que, lá em cima, também gritavam, venceram os soldados enviados para os combater. Agora armados, acamparam no monte Vesúvio, dentro da cratera do adormecido vulcão, cuja força neles havia de acordar. Um primeiro exército de 3.000 soldados romanos foi derrotado pelos escravos e outras duas hostes enviadas pelo Senado foram subjugadas pelos gladiadores. A fama destes homens, então, rapidamente se espalhou, de tal maneira que cada vez mais escravos se lhes vinham juntar. Diz-se que chegaram a ser mais de 70.000, os quais, roubando e pilhando, viviam livres e insubmissos a Roma.
O seu grande número e a ausência temporária dos exércitos regulares romanos transformou-os numa ameaça. O seu líder, então, tornou-se temido. Desprezado por uns e exaltado por outros, odiado pelos primeiros e amado pelos segundos, deixámos para sempre de saber quem era. Conhecemo-lo apenas por meio daqueles que contaram a sua história, ou de uma maneira ou de outra. Já os romanos sobre ele não se entendiam. Floro, Apiano, Diodoro Sículo, Plutarco, cada um o vê à sua maneira. Não é de estranhar, por isso, que, mais tarde, os comunistas façam dele um precursor e Hollywood o cante como um herói. O mais provável, no entanto, é que ele tenha apenas querido fugir do jugo que o oprimia, procurando, para lá dos Alpes, uma terra onde pudesse viver tranquilo. Quem sabe, até, ser feliz!?
O seu exército, porém, não se pôs de acordo. Em vez de se dirigirem para a Gália, pilharam a península itálica e confirmaram a sua ameaça a Roma. Esta, reuniu então seis legiões sob as ordens de Marco Licínio Crasso, que aceitou arriscar a sua reputação numa difícil batalha contra um exército de escravos. A batalha foi travada em vários locais e manteve-se, de algum modo, incerta, até que o exército de Cneu Pompeu Magno, entretanto regressado da Espanha, onde vencera Sertório, se juntou às legiões de Crasso que, em Petélia, na Lucânia, no ano de 71 a. C., definitivamente venceram os homens liderados por Espártaco.
O gladiador e líder da revolta dos escravos morreu durante a batalha, ao lado da grande maioria dos seus homens. Os cerca de 6.000 escravos-livres que escaparam com vida foram capturados e crucificados ao longo da estrada que vai de Cápua até Roma, cidade na qual Pompeu entrou triunfalmente, anunciando o império, que estava a chegar. Espártaco, esse, ninguém sabe realmente quem foi. Lutou por si, não pelos outros, e essa foi a sua grande vitória, destinado que parecia estar a lutar pelos outros, e não por si.
A distância é o que me separa do outro, permitindo-me ser diferente. É a medida do afastamento e da proximidade; o intervalo que dá ao ser um estar, no qual este se identifica e diferencia. Pensá-la apenas como extensão é consequência de um erro de Descartes, que cindiu a alma e o corpo.
A distância, no entanto, é relação. É o medo que a torna em desamor. E a crença no desamor cimenta, então, essa distância. É por isso que me escondo, movido por sensações chegadas antes dos conceitos à memória, contrariando um íntimo desejo de ser.
Entre ser e não ser, contudo, arrisco. Entre mim e o outro, tento e jogo-me… E à dúvida que me acompanha no caminho canto agora, confiante, estas palavras, que me foram oferecidas por uma filha por causa de um dia e de um pai: «Gosto tanto de ti que te furava para entrar no teu coração.»

Há uma lenda da antiga Grécia, bela como são as lendas e racional como era a antiga Grécia, que aqui quero resumidamente relembrar: a lenda do Minotauro.
Teseu, o herói desta história, fora educado no palácio real da velha cidade de Trezena por seu sábio avô, o rei Piteus, onde vivia com sua mãe, Ethra. O seu pai, o rei Egeu, vivia em Atenas, na Ática, que governava, e que não podia abandonar, pois um monarca deve olhar sempre pelo seu povo.
Enquanto crescia, Teseu perguntava frequentemente por seu pai, que nunca vira, e que muito desejava conhecer. Sua mãe, no entanto, não o deixava partir e dizer ao rei Egeu quem era – seu maior anseio –, por ele não ser ainda suficientemente forte e crescido para uma tal jornada. Todos os dias Teseu perguntava a sua mãe quando poderia partir, menino ainda que era. Um dia ela disse-lhe que quando ele fosse capaz de levantar a pedra onde estavam sentados, conversando, consentiria em deixá-lo partir para Atenas para dizer ao rei Egeu que era o seu filho.
Era a tarefa de um gigante. No entanto, dia após dia ele tentou, até que, passados anos, chegou o momento esperado. A enorme rocha cedeu ante os esforços de Teseu. Ethra ficou muito triste por ver que tinha chegado a hora de se separar do seu filho muito querido, mas percebendo que nada mais podia fazer, mostrou-lhe uma espada com um punho de ouro e um par de sandálias, que o rei Egeu tinha deixado para ele debaixo da pedra, quando a levantou com os seus poderosos braços e a repôs no local de onde agora Teseu a retirava.
No longo caminho até Atenas, que percorreu com as sandálias de seu pai, Teseu viveu muitas aventuras. Muitos foram os salteadores e os bandidos que com a espada de seu pai derrotou sem piedade, de tal maneira que a fama da sua nobreza e coragem chegaram até Atenas antes dele. Aí, os sobrinhos do rei, com medo que este o preferisse, esquecendo-se deles, preparam-lhe uma armadilha, apresentando-o como um traidor que vinha para o matar.
O rei, encolerizado por tamanha afronta, ordenou que o prendessem e o matassem, embora sentisse, olhando nos seus olhos, algo muito estranho. Parecia saber que aquele homem era bom e justo, mas não percebia o que sentia. Apenas no último instante, olhando a sua própria espada, reconheceu o seu filho, que abraçou, mandando embora para sempre os verdadeiros traidores. Desde então, os dois governaram Atenas felizes e Teseu era conhecido por todos pela sua coragem e nobreza.
Uma vez mais, porém, tudo se precipitou. Na ilha de Creta havia um horrível monstro, chamado minotauro, com as formas em parte de um homem e em parte de um toiro. O rei Minos, que governava a ilha, gastara uma grande quantidade de dinheiro na construção de uma habitação para o horrível monstro. Alguns anos antes os atenienses tinham entrado em guerra com Creta e foram derrotados. A paz só foi concedida com uma condição: o envio anual de sete jovens e sete virgens para serem devorados pelo monstro favorito do cruel rei Minos.
Teseu, ao saber desta terrível história, ofereceu-se para ir como um dos sete jovens desse ano. «É exactamente por ser um príncipe – disse ele ao pai – e o legítimo herdeiro do teu reino, que livremente tomo sobre mim as calamidades dos teus súbditos.»
Deixando seu pai muito triste foi para Creta para ser devorado pelo minotauro. A sua atitude e coragem, no entanto, diferenciavam-no dos restantes jovens, o que não passou despercebido a Ariadne, filha do rei de Creta, que já não conseguia suportar a crueldade do pai. De noite, enquanto esperavam a aurora em que seriam sacrificados, os pobres atenienses choraram e, embalados pelos seus soluços, adormeceram. Apenas Teseu se mantinha altivamente acordado, pensando numa forma de os salvar.
Apareceu então a princesa Ariadne, que, abrindo a porta da cela, lhe pediu que fugisse. Mas ele nunca deixaria abandonados os seus companheiros, pelo que convenceu Ariadne a mostrar-lhe o refúgio do minotauro. Os dois percorreram um bosque cerrado até que chegaram a uma porta, único acesso a um escuro labirinto, no meio do qual estava o terrível monstro.
O minotauro era fácil de encontrar, apesar do labirinto, pois os seus roucos rugidos indicavam o caminho a seguir. Mas como é que de lá sairia? Ariadne disse-lhe então que segurasse na ponta de um fio de seda, cuja outra extremidade ela seguraria. Assim, se ele sobrevivesse, poderia sair do labirinto.
A luta foi longa e feroz e foi apenas no momento em que o minotauro estava prestes a devorá-lo que, de um só golpe, Teseu o matou. Rapidamente, saiu do labirinto e, reunindo os seus companheiros, todos fugiram para Atenas. Ariadne, porém, decidiu ficar junto do seu pai, que, no fundo, amava, na ilha que um dia havia de governar.
Durante a viagem de regresso, no entanto, vinham tão felizes e excitados, que Teseu se esqueceu de içar velas brilhantes, e não pretas, sinal de que vencera o minotauro, tal como seu pai lhe pedira, o que fez com que o rei Egeu, do alto de uma montanha onde, todos os dias, esperava avistar o barco regressando, vendo que as velas eram pretas, e não brilhantes, se atirasse com o seu ceptro e a sua coroa para o mar, onde morreu afogado.
Há várias lições a retirar deste mito encantador. E em primeiro lugar, talvez, esta: Teseu queria saber quem era. Nada era tão importante. Quando pensava em ir ter com seu pai e dizer-lhe que era seu filho, Teseu ia à procura de si mesmo: ia perguntar ao pai quem era.
É muito estranho, de facto, sermos e não sabermos quem somos, ou o que somos. É essa a grande jornada para a qual Ethra preparava o seu filho. Mas como nos procuramos a nós mesmos? Tal como Teseu: primeiro de tudo com o ardente desejo de nos revelarmos e de nos conhecermos. E então, calçando as sandálias de nossos pais e empunhando suas armas, fazendo obra.
Conhecemo-nos, de facto, ao mesmo tempo que nos revelamos, ao mesmo tempo que nos fazemos. Ethra, no entanto, chorava, ao ver seu filho partir: porque não há garantias. Porque nos podemos perder. É que todos temos, dentro de nós, Egeu e Minos: e ambos querem governar.
Nascemos. Somos preparados por nossa mãe – a natureza – para a grande jornada que há-de vir: des-cobrirmo-nos! Quando é chegada a altura vamos à procura de nós próprios. Onde? Em todo o lado; e ardentemente, como é próprio da juventude. Calçamos as sandálias de nosso pai – cultura e civilização humanas – e empunhamos a sua espada. E onde ele parou nós continuamos. Contudo, não há garantias. Longo é o caminho até Atenas.
Seguimos obstinados até à nossa meta: olhar nos olhos de nosso pai – então ele nos dirá quem somos! Mas quando lá chegamos e ele olha os nossos olhos, não nos reconhece. Se não nos perdemos no caminho, porém, se nos provámos justos e corajosos, trazemos ainda a sua marca intacta em nós; e, vendo-a, convidar-nos-á a governar junto dele. A lição, no entanto, deve ser aprendida: o seu reino não é o nosso – temos de des-cobrir-nos.
Podemos, na verdade, acomodar-nos e sentar-nos ao lado do nosso pai, gozando os confortos do seu reino e as delícias do seu amor. Mas não seremos livres! Ser príncipe não é ser filho de um rei, é tomar livremente sobre si as obrigações dos seus súbditos. É escolher, dia-a-dia, irmos ao encontro de nós próprios e construirmos verdadeiramente o nosso reino.
Para sermos verdadeiramente nós próprios temos de enfrentar livremente essa batalha final. Depois de nos termos procurado em todo o lado, sem nos reconhecermos ainda, falta olhar dentro de nós. Todos albergamos, meio escondidos, Minos e Egeu – e ambos querem governar: um terrível monstro, escondido, metade homem e metade toiro, que luta bem no centro de nós. Sermos livres, sermos nós próprios, obriga a ir ao encontro dessa batalha: eis a universal tarefa de cada uma das humanas vidas.
É matando o toiro que o homem nasce, livre. No meio do nosso recôndito labirinto – que precisamos de percorrer e conhecer, pois nele nos podemos perder –, cada vez que é chegado o momento de escolhermos, de decidirmos, precisamos de toda a nossa coragem e determinação. A nossa força, porém, só é verdadeira força enquanto se mantiver ligada ao frágil fio de seda nos permite revoltar até à virtude e ao bem.
É sob a luz do sol, saídos, vitoriosos, do labirinto, que nos reconhecemos como autores de nós mesmos. Vemo-nos olhando a nossa obra, olhando tudo o que fizemos calçando as sandálias dos nossos pais e empunhando as suas armas. O olhar que reconhece, portanto, não é já o dos nossos pais, os quais têm agora de morrer para que a natureza e a cultura sejam, em nós, uma vez mais, reinventadas. É que a obra que fazemos somos nós – e nós somos fazedores de nós mesmos.
Já tinha comentado num post da Marta a tristeza de não ter cá em casa livros assim tão bonitos. Tão estupidamente bonitos. Este, na verdade, também não o tenho cá. Mas já o tive nas mãos e tenho-o inteirinho no meu computador. A imagem vai partida em duas. Foi o melhor que consegui. Mas a capa tem aquela antiga beleza que é usada ainda naquelas outras capas que o Zé Navarro mostrou também no seu post. Espero que gostem.
Vivemos tempos de crise, segundo nos dizem. Aliás, dizem-nos tanto, que estou francamente convencido de que muitas pessoas provam a crise mesmo quando, felizmente, não tenham que a saborear. Crise, na sua origem etimológica grega, quer dizer ruptura, cisão, significado que o latim incluiu no verbo decidere, justamente formado a partir do verbo caedere, que quer sobretudo dizer bater, abater, cortar (as árvores). Decidir, portanto, em português, em Portugal, deveria ser hoje um dos sentidos da crise. Mas não. As nossas rupturas não têm sentido próprio, interior. Os cortes são feitos por outros, por imposições que vêm de fora. Nós, na verdade, tanto quanto nos é possível, adiamos, não decidimos.
Um exemplo disto é o turismo. Grande desígnio nacional, como há tanto tempo se diz, é uma das actividades em que temos decididamente de apostar como fonte própria de receitas. E, no entanto, o que é que verdadeiramente acreditamos ter para oferecer a quem nos visita? Eu diria que, quase instintivamente, enquanto povo, respondemos que é o sol. É este nosso canto à beira mar plantado, calmo, bonito, solarengo e temperado aquilo que admitimos que as pessoas vêm visitar.
E nós, pergunto eu? Será que não somos também merecedores de visita? Não deixámos a nossa marca nesta terra abençoada pelo sol? E não merece essa marca respeito e visibilidade? Julgo que, potencialmente, sim. Em acto, no entanto, não. E assim será enquanto adiarmos, enquanto não escolhermos, enquanto não arriscarmos, enquanto não decidirmos. Numa palavra: enquanto não acreditarmos em nós mesmos.
Nós, cujo complexo de Édipo terá sido resolvido à nascença logo pelo nosso primeiro rei, somos um país sem auto-estima. Estimável, sem dúvida, mas pelos outros — não por si mesmo (que é o que, em grego, quer dizer éauton).
Dito isto, fiquei muito contente quando vi que foi criado, em papel e na internet, um guia de arte contemporânea português, no qual se dá conta das inaugurações, exposições, eventos, etc., que acontecem nos vários museus e galerias de arte de Lisboa e do Porto, informando, além disso, o que fazer para lá chegar. Coisa que existe obviamente em qualquer cidade civilizada que acredite em si mesma, mas não existia em Portugal, onde os turistas vinham apenas por causa do sol e os museus, os teatros e as galerias de arte deviam viver apenas de subsídios estatais.
Escrevi no pretérito, bem sei, num claro excesso de entusiasmo. Fi-lo, porém, porque é disto mesmo que precisamos: acreditarmos em nós próprios e darmo-nos a conhecer! Só assim sairemos da crise que nos dizem estamos a viver.
Ah! Vão lá ver: www.gategalleries.com.

Nos últimos posts muito se falou aqui sobre aquilo que é o homem (homem e mulher, bem entendido), tendo todos, de algum modo, concordado que ele é um ser à procura e a caminho. Apesar do acordo geral, sendo este um assunto difícil, enredado em tradições e contradições que tantas vezes o obscurecem, lembrei-me de aqui trazer um especialista: Sófocles, que porventura como nenhum outro deu conta da tragicidade própria da existência humana.
Ouçamo-lo no Rei Édipo, onde a progressiva descoberta da identidade de Édipo, centro de toda a acção, vem inevitavelmente acompanhada da revelação de um crime. Ora, o terrível crime de Édipo, que o desenrolar da acção irá mostrar, foi justamente o de ter querido, «venha o que vier, conhecer a sua origem, por mais obscura que seja», de tal maneira que assim pudesse escapar à tragicidade própria da sua existência: ter querido, portanto, ou afirmar-se de tal modo que ele próprio se tornasse o princípio de todas as coisas; ou não se afirmar sequer… em ambos os casos, ter querido a indiferença: ter querido, ainda criança, «fugir e esconder-se onde não pudesse ver cumprirem-se os oráculos vergonhosos e horríveis»; ter querido, já adulto, responder, de uma vez por todas, ao monstruoso enigma que trazia dentro de si: o que é o homem, este ser que questiona acerca de si mesmo?
O ser humano, de acordo com a concepção trágica de que Sófocles aqui nos dá conta, é este ser capaz de um encontro maravilhoso com a Esfinge: de um olhar de frente o próprio monstro que, no entanto, porque o homem lhe não pode dar resposta, logo a seguir o devora. Por isso nos diz Sófocles que a maior felicidade do homem é «a de parecer feliz e de logo morrer». Mas o homem é também este ser tentado a resolver o enigma e que, tal como Édipo, se subtrai à realidade e se substitui à natureza, sendo essa sua acção horrenda digna dos maiores castigos. É o próprio monstro, então, quem, desesperado, se mata, o que acarreta para o homem um castigo pior do que a morte, pois que agora, absolutamente determinado, já não se pode questionar.
É que «não era um homem qualquer que tinha obrigação de explicar o enigma, mas sim os adivinhos». É o próprio Tirésias quem o diz: decifrar o obscuro enigma «foi exactamente o que te perdeu». O crime de Édipo, assim, foi ter ousado responder a «essa cadela, com as suas palavras obscuras, (…) sem o auxílio das aves e dos augúrios». Ele representa o homem que – aproveitando o dito de Protágoras – se impõe a si mesmo como medida de todas as coisas: o homem que se impõe ao próprio logos ao invés de, colaborando com ele, participar nas delícias do divino palácio do ser.
Édipo, portanto, é o Adão do povo grego, símbolo do homem pecador que, vítima do orgulho, se afirma, absolutamente definido, como o senhor de todas as coisas. Por isso se torna «para todos o irmão de seu próprio filho, o filho e o esposo daquela que o gerou, aquele que ocupa o leito de seu pai, depois de o ter matado». Ora, este homem indiferente, absolutamente igual a si mesmo, é o mais infeliz dos homens – porque vive sozinho. E o homem que vive sozinho, incapaz de ouvir as novidades que lhe trazem os mensageiros e os arautos, é um homem injusto: a cólera, a insensatez e o medo tomam sucessivamente conta de si.
A consciência da queda, no entanto, traz consigo a memória das alturas. O homem tem também, portanto, esta possibilidade de voltar a participar na vida dos deuses, que radicalmente se lhe manifesta nesse encontro com a Esfinge, «a Profetiza, a Virgem das garras recurvadas». A esse reencontro com o divino, no entanto, o homem só chega por via da comunidade com o outro, sendo que a comunidade com o outro só acontece por via da acção justa, isto é, da acção bela, corajosa e inteligente – as três verdadeiras virtudes do homem que caminha para o divino e que surgem a partir da própria natureza esfíngica da questão. Por isso nos diz Édipo: «ó encruzilhada, ó vale sombrio, ó bosques de carvalhos, ó estreito passo a que vão dar as três estradas».
Com efeito, o monstro, a que leva a estrada, está já presente no caminho, apresentando-se sob a forma de uma questão cuja figura é a de uma mulher com corpo de leão alado, símbolo das três instâncias que devem ser convocadas neste humano caminhar: a mulher, símbolo da beleza e da sensibilidade estética; o leão, símbolo da coragem, da força viril e primitiva; as asas, símbolo do espírito inteligente que compreende e une todas as coisas (cada uma destas três virtudes opondo-se imediatamente aos três vícios, atrás indicados, do homem só: a beleza opondo-se à cólera; a coragem ao medo; e a inteligência à insensatez).
Reconhecemos aqui, portanto, a estrutura, ou dinamismo, própria do ser, tal como vinha expressa na Grécia já desde os poemas homéricos, que se constituem como uma fabulação pela qual se mostra a acção do povo grego que, por causa de um crime, ou traição, se encontra e reúne, face a um inimigo comum, esforçando-se por, finda a guerra, regressar à sua perdida casa. Édipo, com efeito, é o símbolo do homem decaído, que, para expiar o seu crime, tem de, descobrindo e respeitando a estrutura virtuosa do real, reunir-se aos outros homens, com eles se transformando por relação ao que é sempre igual em todos e em cada um, para assim poderem regressar a casa.
A existência deste homem, no entanto, já não é mítica, antes se reconhece ordenada pelo logos, que permite expressar universalmente essa experiência de um destino trágico a que nenhum homem pode escusar-se e que consiste ou em contrair «vergonhosas núpcias» – que são as do homem que, sozinho e, portanto, injusto, vive na indiferença –, ou em contrair «gloriosas núpcias» – que são as do homem que, em comunidade e, por isso, justo, acolhe em si mesmo o outro. Em ambos os casos, no entanto, o homem tem de escolher: ser livre, é esse o seu destino.
O meu querido amigo Manuel Fonseca leu este meu post e, enchendo-me de mimos que não mereço, escreveu este outro, a que chamou «bem-aventurados os descrentes.» O objectivo daquele meu post, como anunciei logo ao início, não era converter ninguém, mas partilhar uma experiência inspirada na leitura do capítulo 5 do Evangelho de São Mateus. Fiel a este princípio, não vou aqui discordar das crenças do Manuel, embora, em alguns pontos, não sejam concordes com as minhas. Vou, no entanto, chamar-lhes crenças – e não descrenças – pois que aí já julgo haver razão para discórdia.
Na verdade, só se assumirmos que na origem das nossas acções está, mediata ou imediatamente, um conjunto de crenças num determinado fundamento da ordem é que poderemos pensar e comunicar essas nossas acções e crenças. Esta crença na razão, aliás, é própria do Ocidente, grego e judaico-cristão, e sobre a extraordinária história do seu desenvolvimento já eu e o Manuel uma vez aqui concordámos.
Não me choca, portanto, muito pelo contrário, que o Manuel acredite num homem que vive separado dos deuses, os quais, «calados e preguiçosos do Mundo, [vivem] fechados num condomínio de marfim, amoral e impiedoso.» Julgo aliás, que esta sua crença é consentânea com o que sente, com o que diz, com o que faz e com o que escreve. E todos nós, aqui, sabemos (embora, por dentro, só o Manuel realmente o saiba) o bem que o Manuel sente e diz e faz e escreve.
Nem sequer sei, devo dizê-lo, se este Deus que eu procuro não será exactamente aquele de que faz experiência o Manuel. Fazendo uso de um pouco mais do que os 21 séculos de história a que o Manuel nos cingiu neste seu post, gostaria de dizer que, pela minha parte, a única objectivação a que Deus parece deixar submeter-se é a do seu nome. «Ó Senhor, nosso Deus, como é admirável o vosso nome em toda a terra», lê-se no Livro dos Salmos (8, 1), muito antes de Jesus ter ensinado que a nossa relação com Deus (que apenas podemos imaginar como nosso pai, isto é, como origem amorosa da qual intimamente brotamos) passa por manter puro e inviolado e santo este seu nome (Mt. 6, 9).
É com este fragilíssimo fio de Ariadne que nós andamos, por este mundo afora, à procura de sentido e de sabor – dizia eu naquele meu primeiro post, a propósito do Sermão da Montanha. Creio, porém, que, no meio dos infinitos desencontros a que esta inobjectivação essencial de Deus se presta, há algo em que quase sempre nos encontramos, ou podemos encontrar: nessa experiência interior de uma procura que nos põe sempre a caminho. Porque sábio, na verdade, é aquele que busca Deus (Sl. 13, 2).

Ando ultimamente absorto com tanta coisa para fazer que pouco tempo me sobra para ler e pensar. Entre um livro que teimo em acabar de escrever e um doutoramento que tenho que concluir (ora aqui está aquilo a que se chama um eufemismo), a minha vida intelectual anda cansada e posta à prova. No meio de tudo isto, porém, as leituras das missas dos últimos domingos ecoam suavemente dentro de mim. Que belo é aquele capítulo 5 do Evangelho de São Mateus, conhecido pelo nome das bem-aventuranças. Sem querer maçá-los, ou convertê-los, deixem-me partilhar convosco alguns destes ecos do divino.
O capítulo começa assim: «Ao ver a multidão, [Jesus] subiu a um monte e, depois de se ter sentado, aproximaram-se dele os discípulos. Tomando então a palavra, começou a ensiná-los.» Voltarei daqui a pouco a esta encenação inicial do sermão, que me parece importante para bem compreendê-lo. Para já, no entanto, tentemos imaginar como realmente tudo se terá passado.
Jesus tinha começado a pregar há pouco tempo. Acabara de escolher e de reunir à sua volta alguns discípulos. Nesta ocasião, provavelmente, ter-lhes-á perguntado: Quem pensam vocês que são, entre os homens, os felizes? Quem sãos os bem-aventurados? Como qualquer aluno, os futuros apóstolos quiseram impressionar o seu professor e, atropelando-se uns aos outros, foram respondendo o que julgavam saber:
Mestre – disseram –, bem-aventurados são os cultos, porque deles é o reino dos céus; bem-aventurados são os que riem, porque estão satisfeitos; bem-aventurados são os ricos, porque possuem muitos bens; bem-aventurados são os poderosos, porque conseguem para si a justiça; bem-aventurados são os que presidem aos cultos, porque estão mais perto de Deus; bem-aventurados são os heróis e os famosos, porque participam das delícias desta vida; etc.
Ora, todos nós sabemos, como eles sabiam então, que tudo isto era e é verdade. Jesus, porém, respondeu-lhes, professando algo com que certamente não contavam: «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles será o reino dos céus; bem-aventurados os que choram, porque serão consolados; bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra; bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados; bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia; bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus; bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus; bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa justiça, porque deles será o reino dos céus; bem-aventurados sereis quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o género de calúnias contra vós, por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque grande será a vossa recompensa nos céus…»
É possível imaginar aquilo que alguns – se não todos – dos apóstolos então pensaram. O mínimo que se poderá dizer é que não era desta felicidade que julgavam andar à procura quando decidiram ir atrás deste homem. O que o seu mestre lhes propunha, com efeito, logo numa das suas primeiríssimas lições, era serem pobres em espírito, sofredores, mansos, ou melhor, tansos, crédulos numa justiça igual para todos, misericordiosos, generosos, puros, altruístas, pacíficos, abnegados, perseguidos, insultados, caluniados, maltratados, etc. E quando assim for – concluía o Nazareno – alegrai-vos, pois será grande a vossa recompensa.
Qualquer observador imparcial que, por acaso, ali passasse, pensaria, com razão, que aquela primeira aula seria provavelmente a última e que aquele homem, com aquela doutrina, não haveria de ter muitos seguidores. E, no entanto, os discípulos permaneceram fiéis e os seguidores foram crescendo cada vez. O segredo, penso eu, está na mudança do tempo verbal (trata-se, é bom lembrá-lo, de um verbo que se fez carne), que nos transporta de uma felicidade presente para uma felicidade futura, ou melhor: de uma felicidade parcial e incompleta, para uma felicidade total e perfeita.
É nesta mudança do tempo que, quanto a mim, se joga a medida da fé. Bem-aventurados os que reconhecem as suas falhas e limitações, pois nesse reconhecimento lhes é dado o horizonte da sua esperança. Quem se reconhece triste põe-se perante o desejo da alegria. Quem se reconhece imperfeito põe-se perante o desejo da perfeição. Entre o agora da tristeza e o depois da alegria está um caminho, que, embora surgindo como impossível, nos é dado para que o percorramos. E o princípio de qualquer caminho é acreditar que ele é possível.
É esse sentido de perfeição concretamente emprestado á vida pelo despojamento que dá acesso à fé que faz dos homens o sal da terra. Esse sentido que saborosamente experimentamos, no entanto, não é invenção nossa. Se o sal se corromper, não mais o saberemos salgar. Se a luz em nós se extinguir, já não conseguiremos iluminar. Por isso Jesus subiu a um monte, onde se estabeleceu (se sentou) como exemplo para a multidão que o olhava, cá de baixo, convidando-os a olhar, a ver, a desejar, a querer… e a caminhar.
Jesus não era um revolucionário, não vinha para mudar os sistemas do mundo e as suas leis. Respeitando a lei e o mundo, Jesus veio chamar os homens para o alto, lembrando que de nada vale cumprir exteriormente as regras e os preceitos se interiormente não estivermos em verdadeira paz. Não nos interessa o que de nós vêem os olhos dos outros, pois que eles não nos vêem a alma. Só nós sabemos se é ou não verdade o que os nossos gestos dão a ver. O nosso olhar, portanto, deve sentar-se bem alto, naquele monte que Jesus nos dá a imaginar, e a partir dele dirigir a nossa vida, dando sabor e sentido ao mundo.
Ao começarmos os nossos caminhos, porém, parecer-nos-á quase sempre impossível responder à violência com amor. Mas é aí que intervém a fé – continuamos. Choramos, pedimos, acreditamos. E aquela pequenina e inspirada palavra, que era tudo o que nós tínhamos, ao começar, vai-se tornando misteriosamente poderosa. Abre caminhos, onde parecia não haver lugar. Inspira outros, que se metem também a caminho. É-nos devolvida, quando queremos desistir. Ultrapassa-nos, quando erramos. Continua, quando paramos.
Os poderosos deste mundo têm força para se nos impor durante toda uma vida e às vezes até durante duas ou três. Depois são esquecidos e transformam-se indiferentemente em pó. Aqueles, porém, que se despojaram de tudo o que tinham e se entregaram inteiramente ao mundo, ao qual deram sabor e sentido, continuam a motivar-nos e a inspirar-nos e a transformar-nos passados mais de mil e de dois mil e de três mil anos. Dir-me-ão: sim, mas o melhor é que esses dois poderes se encontrem e que essas duas felicidades se conjuguem. Estarei de acordo. Até lá, porém, elevemos o nosso olhar para o alto e, a partir de aí, «sejamos perfeitos, como é perfeito o nosso pai celeste.»
Estou numa altura terrível, de crise, de decisão, de mudança. O entusiamo sucede-se ao desânimo e este de novo se impõe ao entusiamo num corpo que já não aguenta os excessos próprios de um adolescente. Mas é a vida. E a vida é boa. A vida é óptima.
No meio disto, tenho dado por mim, por razões que não vêm ao caso, a meditar numa oração de que gosto muito (pois é: rezamos sempre quando estamos aflitos), tal como, para nós, foi tradicionalmente fixada: o Pai-Nosso.
Não vou maçá-los com as minhas iluminações interiores neste processo — até porque, em rigor, não as sei quase nunca repetir de olhos abertos -, mas gostava de partilhar convosco uma, apenas uma, inocente descoberta: esta oração começa com a palavra Pai e acaba com a palavra mal.
Parece coisa pouca, mas o facto é que os seres humanos, na sua vida natural, são seres morais, que a partir das suas acções descobrem, ou impõem, ou descobrem e impõem (para o caso tanto faz) uma escolha entre o bem e o mal.
Na vida sobrenatural, ou espiritual, porém, e em especial na religiosa, a escolha não é já entre o bem e o mal, mas entre o Pai e o mal. E isto faz toda a diferença.
Porque o mal, afastando do pai, não se lhe opõe. Porque a escolha, aqui, implica o reconhecimento imediato e interior de duas ordens distintas, que misteriosamente coexistem sem se anularem: a do mal, que divide, que separa e que é, por isso, diabólica; e a do pai, da mãe, de uma nossa origem amorosa, de um colo que nos acolhe e une e contém (por isso é simbólico) e a partir do qual somos amados e capazes de ser amor, mesmo que, às vezes, até, se calhar, muitas vezes, sendo também escravos do mal.
Tenho andado, assim, no meio do entusiamo e do desânimo que se sucedem abruptamente nos meus dias, a tentar ver este Pai na minha vida. A tentar acreditar nele. A tentar acreditar em mim. A tentar acreditar em nós.
Mas Deus não se vê como Deus. Dele apenas dizemos que é Pai, que é nosso Pai, e que devemos manter este seu nome santo, puro, inviolado, pois que o seu nome é o único e fragilíssimo acesso racional que temos para o seu ser.
Acreditando, porém, vejo-o aparecer nas coisas pequeninas, inocentes, até descabidas, que todos os dias acontecem na minha vida e que vão ajudando a suportar o meu desânimo e a estruturar o meu entusiasmo, isto é (literalmente), a saber que tenho Deus dentro de mim, apesar de não saber o que ele é… a não ser, talvez, que é Pai, que é a nossa primeira e amorosa origem, a qual, porque nos antecede, não pode ser por nós exterior e objectivamente vista, mas, porque nos habita, pode intíma e amorosamente revelar-se.

O pensamento dos cínicos é normalmente desvalorizado como se fosse uma mera contestação da ordem social estabelecida (contestação que, na sua origem, se referia à desagregação da civilização grega sentida pelos próprios sobretudo nos séculos IV e III a. C.). No entanto, ele contém, ainda que apenas de um modo latente, a intuição daquilo que essencialmente subjaz a essa ruptura do seu tempo: a separação radical entre a acção espiritual e a acção política e a necessidade do estabelecimento de um equilíbrio entre ambas.
Eis uma lição geral a tirar da história. Mesmo aqueles que, como por exemplo Nietzsche, se sentem numa determinada época obrigados a fazer filosofia à martelada, transportam no interior da sua terrível desconstrução um princípio essencialmente construtivo. Assim acontece, do meu ponto de vista, também com os cínicos. E essa é a segunda lição – esta concreta – que aqui quero também propor: o pensamento dos cínicos pressente e anuncia a separação radical entre a acção espiritual e a acção política e a necessidade do estabelecimento de um equilíbrio entre ambas.
Defendo, na verdade, que, contrariamente àquilo que nos é ensinado nas escolas, a relação entre o poder temporal e o espiritual, longe de caracterizar somente a estrutura mental que funda e justifica a realidade social da Idade Média, é uma relação natural e historicamente estruturante em todas as sociedades humanas. Mais: essa relação vem à consciência na Grécia, estabelece-se durante o império romano e, passada a época medieval, é ainda a partir dela que há-de vir mais amplamente a compreender-se a modernidade nos seus avanços e nos seus recuos. Esta história, porém, como num outro lugar já escrevi, encontra-se ainda por fazer.
Contra o senso comum, porém, que reage sempre violentamente quando pretendem iluminar de um outro modo as opiniões que tem por devidamente esclarecidas, podem sempre ir-se apresentando alguns episódios que, quase sem se dar por isso, vão contestando o que temos por aprendido. É aqui o caso das conhecidas histórias de Diógenes de Sinope, o mais famoso dos discípulos de Antístenes, e sobretudo daquela que narra o encontro de Alexandre, o grande, com Diógenes, em Corinto, segundo a qual, tendo o rei perguntado ao filósofo, que se encontrava deitado no chão, de frente para o sol, se haveria algo que pudesse fazer por ele, este lhe terá apenas pedido que se desviasse um pouco para o lado, para assim deixar passar a luz da grande estrela. Admirado com a altivez da resposta e do filósofo, Alexandre terá então ordenado a todos aqueles que o acompanhavam que parassem de fazer troça daquele homem, pois que se ele não fosse Alexandre, certamente seria Diógenes.
Ora, para além do facto de que esta oposição entre Alexandre e Diógenes é expressa e repetidamente referida tanto na Vida e Opiniões dos Mais Ilustres Filósofos, de Diógenes Laércio, como nas Vidas Paralelas, de Plutarco, bastará lembrarmo-nos de que, não muitos anos antes, Platão prosseguia ainda, na teoria como na prática, o ideal do rei filósofo, para imediatamente percebermos a ruptura que aqui se estabelece: Alexandre e Diógenes, com efeito, não podem já pensar-se como um só. Concorrendo embora para um mesmo fim – o bem dos homens, das cidades e do género humano –, eles são agora radicalmente distintos, como distinta é a sua acção: o rei age politicamente, a partir da esfera exterior do poder, enquanto o filósofo age espiritualmente, a partir da sua esfera interior, não havendo entre estas duas esferas uma relação nem proporcional, nem directa.
Como tantas outras conquistas civilizacionais que os seres humanos fizeram na história, esta noção de uma relação autónoma e diferenciada entre os poderes temporal e espiritual deve ser conhecida e valorizada. A sua história está por fazer e ela é fundamental para compreender o nosso mundo actual. A sua emergência à consciência, porém, começou na Grécia, no momento mesmo da sua desagregação, sem o que, aliás, após os quase dois séculos de guerra ininterrupta que se seguiu à morte de Alexandre, Roma não poderia, ao mesmo tempo, ter conquistado materialmente a Grécia e ter sido espiritualmente conquistada por ela.

Mais vale tarde do que nunca, diz o povo, provavelmente com razão. Dito isto, já quase com um ano de atraso, venho responder ao magnífico pedido do Manuel Fonseca para que aqui apresentássemos a lista dos nossos melhores primeiros versos. Como já confessei, porém, sou poeticamente inculto. Não tenho memória de tal lista e não a saberia fingidamente fazer. Tenho, no entanto, uma lista de um primeiro verso. E quanto mais procuro mais este fica sozinho e mais este fica primeiro. O poema, que o envolve, também é, para mim, primeiro. Já não sozinho, já não único, mas, por agora, sim, primeiro. Aqui ficam os dois:
Pus-me a contar os alciões chegados
(Minha memória era água, água…)
Fez-me mal aquela alta tristeza
De bicos vagabundos,
Mas não chorei os alciões desterrados.
Sempre gostei de aves e de lágrimas.
Lágrimas, agora, não podia,
mas podia os alciões
– E dei-lhes meus olhos para ovos
(Que as fêmeas estavam cansadas
E vinham de terra fria).
Firme e condescendente,
Fechei as pálpebras pesadas
De contradição e de poesia
– E um mundo novo de alciões novos,
Esse era o meu quando as abria.
Vitorino Nemésio
A propósito do belíssimo post que o Manuel S. Fonseca escreveu mesmo aqui em baixo, e independentemente de qualquer lista que, como aí nos pede, venha ainda a publicar, lembrei-me destes cinco pequenos versos:
Ser poeta é continuar divino verso
Nascido, imperceptível, num bocejo…
E com a acordada alma esclarecido
Apelar para o que está sempre esquecido:
Sentido — só — em imortal desejo.
O morto de que venho falar é Lázaro de Betânia, irmão de Marta e de Maria, amigos muito próximos de Jesus de Nazaré. Dele se diz que morreu duas vezes, razão pela qual, mais do que qualquer outro, mereceria figurar neste lugar. Parece-me, porém, que a história é outra, maior razão ainda lhe dando, contudo, para aqui estar.
A história é conhecida de todos. Estando Lázaro gravemente doente, suas irmãs, Marta e Maria, mandaram dizer a Jesus: «Senhor, aquele que tu amas está enfermo.» Jesus, porém, ouvindo-o, disse: «A sua doença não é de morte, mas é para glória do Senhor.» E ficou ainda dois dias no lugar onde se encontrava, até que, por fim, foi ter com eles.
Os seus discípulos desaconselharam-no de fazer essa viagem, pois que ainda uns dias antes os judeus o tinham tentado apedrejar. Mas Jesus respondeu-lhes que nada deve temer aquele que percorre os caminhos que o seu pai, que está no céu, lhe mostra com a sua luz. E acrescentou: «Lázaro está morto. Mas nós vamos ter com ele.» E os discípulos puseram-se também a caminho, dizendo: «Vamos nós também, para morrermos com Jesus.»
Quando chegaram a Betânia, Lázaro estava já sepultado há quatro dias. Marta, ouvindo dizer que Jesus se aproximava, saiu a correr ao seu encontro e disse-lhe: «Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido! Mas também sei que, ainda agora, tudo quanto pedires a Deus te será concedido.» Jesus replicou-lhe: «Marta, teu irmão há-de ressuscitar.» Marta respondeu: «Eu sei que ele há-de ressuscitar na ressurreição do último dia.»
Disse-lhe então Jesus: «Eu sou a ressurreição e a vida: quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive e crê em mim nunca morrerá. Crês tu nisto?» Marta, respondeu-lhe que sim e partiu para junto de Maria, dizendo-lhe que Jesus a chamara. Esta, levantando-se, foi apressadamente ter com ele, lançando-se aos seus pés e dizendo: «Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido.»
Jesus, vendo Maria e os judeus que vinham com ela a chorar, comoveu-se profundamente e perturbou-se. Depois perguntou-lhe: «Onde o puseste?» E ao chegar junto do sepulcro onde Lázaro se encontrava, chorou também, de tal maneira que muitos judeus exclamaram: «Vede como o amava!»
Intimamente comovido, mandou então retirar a pedra que impedia o acesso ao sepulcro. Mas Marta disse-lhe: «Senhor, já cheira mal, pois já tem quase quatro dias.» Jesus respondeu-lhe: «Não te disse que, se cresses, verias a glória de Deus?» Retiraram, pois, a pedra, e Jesus, levantando os olhos ao céu, disse: «Pai, graças te dou por me teres ouvido.» E então bradou em alta voz: «Lázaro: sai cá para fora.» E o defunto saiu, tendo as mãos e os pés ligados com faixas e o rosto envolto num sudário. E disse Jesus: «Desligai-o e deixai-o ir.»
O melhor seria, talvez, deixar a história por aqui, pois que ela é suficientemente forte e bela para, mesmo vertida neste meu pequeno resumo, se manter perfeita. Perdoai-me, portanto, que aqui repare apenas num ou dois dos seus aspectos, esperando não a adulterar.
A verdade é que, como diz São Paulo, a fé dos homens é terrível, pois que a medida da sua esperança implica sempre a possibilidade de uma igual desgraça. Lázaro, nesse sentido, pode bem considerar-se como o mais desgraçado dos homens, pois que, de acordo com uma certa literalidade da história, que faremos bem em ter em conta, certamente morreu duas vezes. Contudo, em nenhum lado da Bíblia ouvimos falar da segunda morte de Lázaro, de tal maneira que me atrevo a dizer que o foco desta história é outro, nomeadamente o da sua segunda vida.
A vida humana, na verdade, apresenta-se-nos, em primeiro lugar, imperfeita e incompleta. A nossa existência acontece, de facto, numa vida misturada de morte: todos somos, tal como Lázaro, seres enfermos. Dir-me-ão que assim é com todos os seres que conhecemos. É bem verdade. Mas nós temos, para além deles, a consciência dessa imperfeição, a que corresponde, também em nós, o desejo da perfeição.
A nossa origem visível e material não esgota, com efeito, a sede que trazemos em nós. A experiência do amor, pelo contrário, convoca-nos para a origem íntima e inesgotável de um Deus que nos ama. E Deus mostra-se-nos perfeitamente no amor, o qual é uma vida sem morte: eis o maior mistério que, nesta vida, nos é dado experimentar. A ressurreição, de facto, não acontece no último dia, mas agora. O amor é sempre presença; o amor é sempre presente.
Seres enfermos, tal como Lázaro, vivemos, através da fé, a experiência radical de uma escolha existencial entre uma vida sem morte e uma morte sem vida. Quantas vezes, nas nossas vidas, fomos trazidos do desânimo para a força, do desespero para a coragem, da tristeza para a alegria? E em todas essas vezes não foram as nossas mãos e os nossos pés desatados, tal como a Lázaro, a quem Jesus disse: «Desligai-o e deixai-o ir»?
Escolhendo o amor, com efeito, escolhemos a liberdade. Por isso disse Santo Agostinho: «Ama e faz o que quiseres.» Tenhamos nós a força, a coragem e a alegria para, aqui e agora, tornarmos o amor presente no mundo dos mortos. Crês tu nisto?

Os filósofos são, por definição, desajeitados. A origem desta ideia, tão antiga como a própria filosofia, está numa história, contada por Platão, no seu diálogo Teeteto, em que Tales de Mileto, por muitos considerado o primeiro filósofo, enquanto andava, olhando para o céu, observando os astros, não viu onde punha os pés, deste modo caindo a um poço, com o que provocou o riso de uma jovem (curiosamente, Diógenes Laércio dirá, mais tarde, que era uma velha) e bonita criada trácia. Este riso – conclui Platão – aplica-se a todos os que dedicam à filosofia, pois que têm o corpo, apenas, na cidade, enquanto o seu espírito viaja atá às profundezas das coisas.
Ora, se este riso espontâneo conhece bem a inutilidade imediata da tarefa do filósofo, que, vivendo com os pés numa dimensão da realidade, mas com os olhos postos noutra, não fará mais que causar o riso ou a raiva dos outros homens (do que a vida e a morte de Sócrates em Atenas é o exemplo por excelência), o facto é que a vida presa à superfície do mundo das coisas (é o que significa a personagem da criada trácia) não tem sentido em si mesma, pelo que, perante o pressentimento da morte dado na natural corrupção dos corpos (o facto da jovem criada se ter tornado velha nas Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, de Diógenes, é precioso), acontece também espontaneamente aos homens voltarem-se para os filósofos (aqui entendidos como sábios, ou homens das coisas do espírito), para que, embora aparentemente cegos, os guiem.
A tentação científica moderna de tudo constituir em problema que se possa resolver, ou dissolver, porém, elidiu esta natural tensão do caminhar do ser humano (que até então fora expressa por uma relação histórica entre os poderes temporal e espiritual), fazendo com que, hoje, já nem Tales caia no poço, nem a criada se ria. Este nosso mundo, triste e uniforme, faria bem em lembrar a proposta de Platão, que, na República, desde a sua primeira página, propõe uma constante subida e descida (anábasis e katábasis) entre a sensibilidade e a inteligibilidade das coisas e das ideias, bem no meio do livro expressa pela famosa alegoria da caverna, poço de onde Sócrates parte e ao qual regressa, correndo o risco de que se riam dele, ou de que o matem, como de facto, fizeram: porque, cá em baixo, precisamos que nos elevem; porque, também lá em cima, não podemos viver sozinhos.
«Jesus foi então conduzido pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Demónio. E tendo jejuado durante quarenta dias e quarenta noites, por fim teve fome. Aproximando-se o Tentador, disse-lhe: “Se tu és o Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães.” Mas Jesus respondeu: “Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que procede da boca de Deus”. O Demónio conduziu-o então à cidade santa e, colocando-o sobre o pináculo do templo disse-lhe: “Se tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo, pois está escrito: Dará a teu respeito ordens aos anjos e eles suster-te-ão nas suas mãos para que os teus pés não se firam em alguma pedra.” Disse-lhe Jesus: “Também está escrito: Não tentarás o senhor teu Deus.” Então o Demónio conduziu-o a um monte muito alto e, mostrando-lhe todos os reinos do mundo com todas as suas glórias, disse-lhe: “Dar-te-ei tudo, se, prostrado, me adorares.” Ao que Jesus respondeu: “Vai-te Satanás, porque está escrito: Adorarás o senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto.” Então o Diabo deixou-o e chegaram os anjos e serviram-no.» (Mt. 4, 1–11) *
Eis o breviário das tentações, a síntese dos caminhos em que nos perdemos neste mundo. Tudo começa no deserto e na fome que nele se dá. Quem não fez experiência disto? Mas o que é talvez mais extraordinário é isto – de que também cá dentro fazemos experiência: o mal tem uma ordem! Tentando matar a fome que trazemos em nós, começamos, primeiro, por pôr o material acima do espiritual; avançamos, depois, um pouco mais, e pomos Deus ao nosso serviço; chegamos, por fim, à meta de todos os descaminhos, e pomo-nos no lugar de Deus.
Embora com diferentes graus, em todos estes casos se subverte a natureza essencialmente moral do ser humano, que interiormente nos mostra que só somos na medida em que nos abrimos a um outro. Na verdade, é sempre outro que nos descobre. Contrariamente ao que nos dizem, porém, até aqui estamos ainda no domínio da razão natural. Um passo além, no entanto, e vemos que só este caminho é suave, que só ele tem saída. Estamos, porém, já no domínio da fé, conhecimento sobrenatural de um outro que incessantemente nos convida a quebrar as barreiras deste mundo em direcção a algo que não se vê, que não se agarra, mas cujo caminho se faz aqui e agora.
* Cfr. também Mc. 1, 12–13 e Lc. 4, 1–13.
Que o tempo, meu amor, não nos devore,
Tolhendo a vida logo ao começar.
Que longe dele o nosso amor demore
E as horas vão passando — sem passar.
Que a nossa condição não se deplore
Para além do que lhe é dado deplorar…
E apenas o que é pedra e em nós more
O horrendo deus consiga devorar.
Seu filho em nós separe e torne absorte
O peso dos corpos irracionais,
Salvando a nossa triste e humana sorte
Do indiferente ventre dos seus pais.
E o nosso amor, no Olimpo, além da morte
Nos torne um só instante em imortais.
Em 1651 escrevia Thomas Hobbes que «aquele que é suposto governar uma Nação inteira deve ler em si mesmo (*) não este ou aquele homem particular, mas o género humano (man kind).» (**)
Esta afirmação ocidental feita em nome de todos os homens é aquilo que, para o bem e para o mal, na história moderna mais caracterizou a Europa – e, a partir dela, aquilo a que poderá chamar-se o Ocidente. Seguiu-se-lhe de um modo muito evidente a Bill of Rights, em Londres, em 1689, a Declaração da Independência da Virgínia, na Virgínia, em 1773, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, em França, em 1789, e a Declaração Universal dos Direitos Humanos, escrita por diferentes personalidades de todo o mundo e adoptada pela ONU, em 1948, logo após a II guerra mundial. Começa assim: «Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo…»
Ora, o que pergunto é: Onde está esta afirmação, hoje, na Europa? E onde está, hoje, a Europa, sem esta afirmação? Os alemães, que nos lideram, para onde nos levam? Os franceses, para além de melhores condições de vida – só para eles… o que propõem? Os ingleses, que outro nascimento (alter + nativa) sugerem para a Europa e para o mundo? E os ibéricos, portugueses e espanhóis, que contribuição querem trazer para essa Europa de que apenas dizem conhecer a cauda!?
(*) Ler em si mesmo, isto é, ler dentro, quer dizer: inteligir (do latim intelegere, de intus + legere).
(**) HOBBES, Thomas, Leviathan, or the Matter, Form and Power of a Common Wealth Ecclesiastical and Civil, Londres, 1651, Introdução.


























