
Interrompendo brevemente a discussão entre cervejas e radiografias, desenterro aqui (ou enterro, já não sei!) um texto antigo, escrito na altura do geracaode60.blospot.com, a propósito da Páscoa.
Tudo se passa em torno da relação que Jesus nos exorta a estabelecer entre os dois reinos em que naturalmente existimos: o dos homens e o de Deus. A questão, porém, não está em escolher entre a soberania de um ou de outro, pois que ambos são bons, mas em saber vivê-los de uma forma ordenada. Melhor: em saber ordená-los para a verdadeira vida.
Vejamos a história da prisão de Jesus. São Mateus começa por lembrar a pergunta que Judas faz aos sumo-sacerdotes: «Quanto me dareis se eu vo-lo entregar?» A resposta é conhecida: «Trinta moedas de prata.» Consumada a traição, os sumo-sacerdotes, representantes do poder espiritual, entregam Jesus a Pilatos, representante do poder temporal, o qual, apesar de sabê-lo inocente, não vê nele nada a ganhar, pelo que, prudentemente, o entrega à morte.
No dia seguinte, estando já morto Jesus, os sumo-sacerdotes reuniram-se com Pilatos e disseram-lhe: «Senhor. Lembrámo-nos de que aquele impostor disse, ainda em vida: “Três dias depois hei-de ressuscitar.” Por isso, ordena que o sepulcro seja guardado até ao terceiro dia, não venham os discípulos roubá-lo e dizer ao povo: “Ressuscitou dos mortos.” Pois seria a última impostura pior do que a primeira.» Pilatos respondeu-lhes: «Tendes guardas. Ide e guardai-o como entenderdes.» E eles foram pôr o sepulcro em segurança, selando a pedra e confiando-o à vigilância dos guardas.
O sentido, portanto, é claro: sempre que, em vez de pormos o espírito ao serviço do tempo, submetemos o espírito ao tempo, pervertendo a ordem das coisas… sempre que, tal como Adão, na esfera própria da humanidade, decidimos desobedecer a Deus, erigindo a nossa vontade em absoluto e sujeitando tudo ao nosso próprio interesse… sempre que assim agimos, dizia, transformamo-nos em meros guardiães da mentira e da morte. É este o exemplo de Judas, que assim representa todos os homens.
Imediatamente contraposto a este exemplo, porém, aparece também o de Jesus, que, a igual pergunta, no deserto – onde o diabo, mostrando-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, tudo lhe prometeu se ele o adorasse –, respondeu: «Vai-te Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele servirás.» Jesus sabia, porém (coisa que a sua Igreja, na história, muitas vezes esqueceu) que o reino de Deus é tão frágil como um grão de mostarda, o qual, para dar frutos, tem que morrer. Crescendo, no entanto, «cria grandes ramos, de tal maneira que as aves do céu se podem aninhar sob a sua sombra.»
Jesus apresenta-se-nos, assim, como aquele que, sofrendo perante a mentira e a morte, reza, pedindo a Deus: «Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice.» Mas imediatamente acrescenta: «Não seja, porém, como eu quero, mas como Tu queres.» Jesus é o exemplo daquele que submete as coisas do tempo às do espírito, prescindindo de todas as espadas do mundo e aceitando a vontade de seu Pai, tornando próximo o reino de Deus pela livre entrega de si mesmo à morte para salvação de todos os homens e revelando-se, deste modo, o guardião da verdade e da vida.
Estes dois exemplos sãos extremos. Nas nossas vidas, com efeito, bem poucas vezes têm os acontecimentos esta clareza de vida e de morte. Ao contrário: o mal aparece quase sempre como um bem e o bem surge frequentemente como um mal. A escolha, porém, tem que ser feita, já que, ultimamente, somos mortais. E é perante a radicalidade de uma escolha que envolve toda a nossa vida – a que foi, a que é e a que há-de ser – que, na Páscoa, somos colocados.
A Páscoa, assim, não é a negação deste mundo. Pelo contrário, é a sua maior afirmação. É um convite para uma liberdade mais ampla, que Jesus transporta do âmbito familiar, ou comunitário, com que aparece no livro do Êxodo, para a universalidade do coração de cada homem.
A questão, portanto, é esta: que liberdade queremos nós: uma liberdade ordenada ao reino dos homens ou uma liberdade ordenada ao reino de Deus? E a verdade é que tantas vezes, à pergunta de Pilatos – «Qual destes homens quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado Cristo?» – respondemos com a multidão em fúria: «Barrabás! Barrabás!»
«Qual de nós te trairá, Senhor?» – perguntavam, perplexos, a Jesus os seus discípulos. «O que mete comigo a mão no prato, esse me entregará» – respondeu-lhes Jesus. Todos nós, na verdade, somos traidores, porquanto, tal como Judas, e embora sempre agindo por bem, tantas vezes, na intimidade dos nossos corações, pomos a nós mesmos à frente de Deus e dos outros.
A diferença, porém, é que Jesus sobrevive no meio da mentira e da morte, convidando para a sua mesa aquele que o vai trair. Aqueles que o rejeitam, porém, não têm outra hipótese senão matá-lo. A escolha da primazia do reino dos homens, com efeito, traz consigo o problema que Pilatos, aceitando libertar Barrabás, imediatamente se pôs: «Que hei-de fazer, então, de Jesus, chamado Cristo?» Ora, a solução é apenas uma: matá-lo!
Matar Deus, porém, é matar o homem. Por isso Judas, matando Jesus, se mata a si mesmo. Na verdade, quando absolutamente nos entregamos ao reino dos homens tudo se torna relativo. Ninguém mais é merecedor de confiança. Então, ao ver um inocente ser condenado por uma multidão desordenada, o mais prudente é fazer como Pilatos e lavar as mãos, dizendo: «Estou inocente deste sangue. Isso é convosco.»
A Páscoa lembra-nos, porém, que não estamos inocentes do sangue que está nas mãos dos nossos irmãos: a não ser, talvez, que seja o nosso. Demasiadas vezes, nas nossas vidas, damos por nós a perguntar como Pilatos: mas, afinal, «o que é a verdade?» Com esta pergunta, porém, transformo a mim em absoluto e a tudo o resto em relativo… e a partir daqui não mais posso confiar: a minha liberdade será proporcional à escravidão dos outros e eu terei incessantemente de ser o guardião da mentira e da morte.
Que liberdade queremos nós? Uma liberdade que acaba na morte? Ou uma liberdade que tem por fim a vida? Eis uma escolha para todos os dias!