Violentas são as horas da paixão…

Meinrad Craighead, Cântico dos Cânticos, 1966

Basta uma só memória tua para me contrair inteiro.

Respiro o ar, já na barriga revoltado,
E logo se me enche o peito, comovido.
Cai-me a cabeça para trás, um pouco.
O pescoço, levemente contorcido,
Transporta-me para um e outro lado.
Então, de olhos fechados, para te ver,
Procuro inspirar-te, devagar…
E estando consumado o respirar
Expiro deleitado por te ter.

Violentas são as horas da paixão!

Contrariamente ao hábito tranquilo
De um atarefamento quieto de surpresas,
Violentas são as horas da paixão…
Durante as quais ando eu, qual Salomão,
Pulando sobre montes e outeiros,
Espreitando a minha amada p´las janelas
E introduzindo-me na sala do festim,
De onde saio a correr, para lá de mim,
Saltando como o veado, ou as gazelas,
Por sobre todo o monte dos balseiros,
Feliz, sob o olhar da minha amada.

Pois só o afastamento me revela quem tu és:
A cor do teu cabelo,
O tamanho dos teus pés…
E logo de novo o desejo de em ti perder-me outra vez.

Tu trazes-me em desordem que não quis
Para um mundo onde posso ser feliz.
E é por isso, meu amor, que ando cansado:
É por isso, meu amor – por ser amado!

* Escrevo este post, com a devida autorização da minha mulher, acedendo a um pedido da Joana Vasconcelos feito, ali em baixo, num recomeço do Manuel S. (de Salomão) Fonseca.

O princípio dos princípios

Sei que não é politicamente correcto (um dia ainda hei-de falar nisso), mas não conheço princípio maior e melhor do que este:

«No princípio, criou Deus os céus e a terra.» (Gn. 1, 1)

Hoje sou onda do mar…

Hoje sou onda do mar.

Ontem era apenas água

De tristeza derramada

No fundo de um qualquer mar.

Tristeza de água chorada,

Diluída, abandonada

No choro do seu chorar.

Ontem era apenas água.

Hoje sou onda do mar.

Quid est veritas?


Interrompendo brevemente a discussão entre cervejas e radiografias, desenterro aqui (ou enterro, já não sei!) um texto antigo, escrito na altura do geracaode60.blospot.com, a propósito da Páscoa.
Tudo se passa em torno da relação que Jesus nos exorta a estabelecer entre os dois reinos em que naturalmente existimos: o dos homens e o de Deus. A questão, porém, não está em escolher entre a soberania de um ou de outro, pois que ambos são bons, mas em saber vivê-los de uma forma ordenada. Melhor: em saber ordená-los para a verdadeira vida.
Vejamos a história da prisão de Jesus. São Mateus começa por lembrar a pergunta que Judas faz aos sumo-sacerdotes: «Quanto me dareis se eu vo-lo entregar?» A resposta é conhecida: «Trinta moedas de prata.» Consumada a traição, os sumo-sacerdotes, representantes do poder espiritual, entregam Jesus a Pilatos, representante do poder temporal, o qual, apesar de sabê-lo inocente, não vê nele nada a ganhar, pelo que, prudentemente, o entrega à morte.
No dia seguinte, estando já morto Jesus, os sumo-sacerdotes reuniram-se com Pilatos e disseram-lhe: «Senhor. Lembrámo-nos de que aquele impostor disse, ainda em vida: “Três dias depois hei-de ressuscitar.” Por isso, ordena que o sepulcro seja guardado até ao terceiro dia, não venham os discípulos roubá-lo e dizer ao povo: “Ressuscitou dos mortos.” Pois seria a última impostura pior do que a primeira.» Pilatos respondeu-lhes: «Tendes guardas. Ide e guardai-o como entenderdes.» E eles foram pôr o sepulcro em segurança, selando a pedra e confiando-o à vigilância dos guardas.
O sentido, portanto, é claro: sempre que, em vez de pormos o espírito ao serviço do tempo, submetemos o espírito ao tempo, pervertendo a ordem das coisas… sempre que, tal como Adão, na esfera própria da humanidade, decidimos desobedecer a Deus, erigindo a nossa vontade em absoluto e sujeitando tudo ao nosso próprio interesse… sempre que assim agimos, dizia, transformamo-nos em meros guardiães da mentira e da morte. É este o exemplo de Judas, que assim representa todos os homens.
Imediatamente contraposto a este exemplo, porém, aparece também o de Jesus, que, a igual pergunta, no deserto – onde o diabo, mostrando-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, tudo lhe prometeu se ele o adorasse –, respondeu: «Vai-te Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele servirás.» Jesus sabia, porém (coisa que a sua Igreja, na história, muitas vezes esqueceu) que o reino de Deus é tão frágil como um grão de mostarda, o qual, para dar frutos, tem que morrer. Crescendo, no entanto, «cria grandes ramos, de tal maneira que as aves do céu se podem aninhar sob a sua sombra.»
Jesus apresenta-se-nos, assim, como aquele que, sofrendo perante a mentira e a morte, reza, pedindo a Deus: «Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice.» Mas imediatamente acrescenta: «Não seja, porém, como eu quero, mas como Tu queres.» Jesus é o exemplo daquele que submete as coisas do tempo às do espírito, prescindindo de todas as espadas do mundo e aceitando a vontade de seu Pai, tornando próximo o reino de Deus pela livre entrega de si mesmo à morte para salvação de todos os homens e revelando-se, deste modo, o guardião da verdade e da vida.
Estes dois exemplos sãos extremos. Nas nossas vidas, com efeito, bem poucas vezes têm os acontecimentos esta clareza de vida e de morte. Ao contrário: o mal aparece quase sempre como um bem e o bem surge frequentemente como um mal. A escolha, porém, tem que ser feita, já que, ultimamente, somos mortais. E é perante a radicalidade de uma escolha que envolve toda a nossa vida – a que foi, a que é e a que há-de ser – que, na Páscoa, somos colocados.
A Páscoa, assim, não é a negação deste mundo. Pelo contrário, é a sua maior afirmação. É um convite para uma liberdade mais ampla, que Jesus transporta do âmbito familiar, ou comunitário, com que aparece no livro do Êxodo, para a universalidade do coração de cada homem.
A questão, portanto, é esta: que liberdade queremos nós: uma liberdade ordenada ao reino dos homens ou uma liberdade ordenada ao reino de Deus? E a verdade é que tantas vezes, à pergunta de Pilatos – «Qual destes homens quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado Cristo?» – respondemos com a multidão em fúria: «Barrabás! Barrabás!»
«Qual de nós te trairá, Senhor?» – perguntavam, perplexos, a Jesus os seus discípulos. «O que mete comigo a mão no prato, esse me entregará» – respondeu-lhes Jesus. Todos nós, na verdade, somos traidores, porquanto, tal como Judas, e embora sempre agindo por bem, tantas vezes, na intimidade dos nossos corações, pomos a nós mesmos à frente de Deus e dos outros.
A diferença, porém, é que Jesus sobrevive no meio da mentira e da morte, convidando para a sua mesa aquele que o vai trair. Aqueles que o rejeitam, porém, não têm outra hipótese senão matá-lo. A escolha da primazia do reino dos homens, com efeito, traz consigo o problema que Pilatos, aceitando libertar Barrabás, imediatamente se pôs: «Que hei-de fazer, então, de Jesus, chamado Cristo?» Ora, a solução é apenas uma: matá-lo!
Matar Deus, porém, é matar o homem. Por isso Judas, matando Jesus, se mata a si mesmo. Na verdade, quando absolutamente nos entregamos ao reino dos homens tudo se torna relativo. Ninguém mais é merecedor de confiança. Então, ao ver um inocente ser condenado por uma multidão desordenada, o mais prudente é fazer como Pilatos e lavar as mãos, dizendo: «Estou inocente deste sangue. Isso é convosco.»
A Páscoa lembra-nos, porém, que não estamos inocentes do sangue que está nas mãos dos nossos irmãos: a não ser, talvez, que seja o nosso. Demasiadas vezes, nas nossas vidas, damos por nós a perguntar como Pilatos: mas, afinal, «o que é a verdade?» Com esta pergunta, porém, transformo a mim em absoluto e a tudo o resto em relativo… e a partir daqui não mais posso confiar: a minha liberdade será proporcional à escravidão dos outros e eu terei incessantemente de ser o guardião da mentira e da morte.
Que liberdade queremos nós? Uma liberdade que acaba na morte? Ou uma liberdade que tem por fim a vida? Eis uma escolha para todos os dias!

Herói só meu. Vilão de todos.

Constrangido pela terrível imposição que o Pedro Norton me fez mais abaixo (a expressão é péssima, eu sei, mas, como pode ver-se, inteiramente explicável), aqui vão, sem mais palavras – porque em nenhum dos casos elas são precisas – o meu herói e o meu vilão.

O meu herói: Steven F. Seagal

O meu vilão: Manuel S. Fonseca

Pois diga-nos agora a todos o estimado José Navarro de Andrade (passo ao outro e não ao mesmo) quem são o seu herói e o seu vilão (atenção à nova regra: não vale copiar o vilão).

Generosidade


Perceber o que é a generosidade é perceber aquela frase que diz que é dando que se recebe, afirmação que, embora contrariando a mais vulgar aritmética, é, no entanto, inteiramente verdadeira.
A etimologia é aqui muitíssimo esclarecedora. O vocábulo latino generosus, com efeito, indica «aquele que é nobre, de boa qualidade e ascendência», e a raiz da palavra, genus, significa justamente «origem, nascimento, família, descendência, raça, povo, nação, género.» A generosidade, portanto, é da ordem do ser. Não é generoso quem dá isto ou aquilo, mas quem se dá – a si mesmo. E só quem se dá descobre quem é.
A mulher índia da fotografia acima, dando-se nobremente segundo aquilo que interiormente lhe pareceu justo e bom, descobriu-se mais mãe do que alguma vez pensara que ser mãe seria. Eis um belo exemplo de generosidade. Já o rico que dá ao pobre de tal maneira que o primeiro se mantém rico enquanto o segundo se mantém pobre não pode dizer-se generoso, porquanto os dois não se tornaram então do mesmo género. Eis a grande – e tão esquecida – razão de Marx. O seu igualmente grande e esquecido erro, no entanto, foi tomar essa tarefa nas mãos do Estado (ou, pelo menos, da política), como se o acto de dar-se, de descobrir-se, pudesse ser imposto a partir de fora, alheio à íntima esfera da amizade.
Tudo isto, porém, muito mais perfeitamente do que eu o escreveu Séneca, nas suas famosas Epistulae Morales ad Manuelium S. Fonsecam, com as quais procurou – e conseguiu – trazer aquele seu dilecto discípulo dos caminhos do epicurismo, em que se perdia, para a via mais segura do estoicismo, que depois veio a professar. Ora vejam:

«Desejaria compartilhar contigo, ó Manuel, esta súbita mudança operada em mim. Começaria então a ter uma mais segura confiança na nossa amizade que nem a esperança, ou o medo, ou a busca da utilidade, pode quebrar, uma amizade daquelas com a qual, e pela qual, os homens podem morrer. Posso citar-te muitos que, embora tendo amigos, careceram de amizade: ora tal caso não pode dar-se quando uma igual vontade de só desejar o bem liga dois espíritos em comunhão. E como não ser assim, se eles sabem que tudo é comum entre ambos e principalmente a adversidade?
Tu não podes conceber de quanta importância se reveste para mim cada dia. “Compartilha comigo tudo cuja eficácia experimentaste” – dirás tu. Eu não desejo outra coisa senão transmitir-te toda a minha experiência: aprender dá-me sobretudo prazer porque me torna apto a ensinar! E nada, por muito elevado e proveitoso que seja, alguma vez me deleitará se guardar apenas para mim o seu conhecimento. Se a sabedoria só me for concedida na condição de a guardar para mim, sem a compartilhar, então rejeitá-la-ei: nenhum bem há cuja posse não partilhada dê satisfação.
Vou, pois, enviar-te os livros que utilizei, e para não perderes tempo à procura dos passos mais úteis, eu assiná-los-ei, de modo que encontres de imediato aqueles que me merecem aprovação e respeito. (…) E não quero a tua presença apenas para que tu aproveites, mas também para que me aproveites: ambos poderemos ser muito úteis um ao outro!
Por agora, como te devo o meu pequeno presente diário, aqui tens uma máxima que hoje encontrei com prazer em Hecatão: “Queres saber o que lucrei hoje? Comecei a ser amigo de mim próprio.” Muito lucrou, deste modo nunca estará sozinho. Um tal amigo, fica sabendo, toda a gente o pode ter!»

SÉNECA, Lúcio Aneu, Cartas a Lucílio (ligeiramente adaptadas a Manuel), 6, Ed. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1991, págs. 13–14.

folhetim 4 — Até ao chão da voz activa…

Nem mais uma palavra ouviu da carta que Catarina lhe lia. A voz dela ecoava, ao fundo, enquanto se apossava dele a confusão de todas as coisas. Entre a desunião dos momentos todos e o símbolo na pele da Luísa tentava ver um sinal. Mas nada mostrava ainda o seu sentido. Viera à procura do seu nome inteiro, no qual se mostrasse quem é, mas tudo lhe lembrava apenas aquilo que poderia ter sido. A Catarina. A Luísa. A Susana.
– Francisco!? Francisco!?
– Sim! Catarina. Estou aqui.
– Não achas isto tudo extraordinário?
– É. Extraordinário. Nem sei bem o que hei-de dizer-te. Na verdade, estou atordoado. Deixa-me falar com a Luísa e arranjar uma maneira de ir para aí. Amanhã falamos.
Pediu o jeep emprestado à Luísa para poder ir até Chennai, onde a Catarina o esperava, no hotel. As quatro horas de viagem iam passando indistintas na indiferença dos solavancos da estrada e do espírito. Parou, perdido, sem que houvesse outro caminho. Precisava de tempo e de ar. Abriu a janela. Respirou fundo. Mas o ar não transpunha os angustiados limites dos seus pulmões. Com a mente e o coração sufocados, tirou do bolso o papel que lhe dera o guru no templo de Vaitheeswaram. E então leu-o. Devagar.
«Duas vezes terás de morrer até encontrares o teu nome inteiro. Da água surgirá a terra firme e da terra surgirá o ar e o espírito. Segue a estrada que vai até Atenas. Aí encontrarás Hydranthrópous, único descendente vivo do sábio Tales, de Mileto. Perguntar-lhe-ás então pela chave com a qual hás-de abrir a porta que encerra o segredo da vida.»
«Duas vezes terás de morrer!» Agora, como no templo, aquelas palavras sobrepunham-se a todas as outras. Resistia-lhes, imediatamente. Não queria ter de morrer, apesar de não se sentir bem vivo. A predição das suas mortes instantemente o remetia para a morte dos seus pais, no Porto, três anos antes. Para o desastre, inesperado. Para a dor à espera, no hospital. Para a terrível revelação de que o sangue deles não era o seu. Para a interrupção das vidas deles. Para a desconexão da sua.
Desde então tudo mudara. Crescera nele, continuamente, o desânimo de ser quem era. Nada parecia ligá-lo ao mundo, pelo qual andava, alheado. Catarina tentara ajudá-lo, mas estavam deslaçados. Apenas num fundo de si persistia ainda, escondido, o desejo de ser quem seria. E foi dele que surgiu a ideia da vinda aos templos de Vaitheeswaram e de Fort Kochi. Os Norton´s, uns amigos da Catarina, que costumavam passar férias na Índia, falaram-lhes, não sei porquê, destes lugares, aos quais os peregrinos acorriam à procura dos seus nomes. A ideia dilatou-se no seu fundo até que o latente desejo de si mesmo começou lentamente a descobrir-se na demorada preparação desta viagem. «Duas vezes terás de morrer até encontrares o teu nome inteiro.» Seriam estas suas mortes as duas mortes dos seus dois pais?
«Da água surgirá a terra firme e da terra surgirá o ar e o espírito.» Mais calmo, ia meditando, enquanto voltava a guiar. Aquelas palavras, embora incompreendidas, permitiam-lhe recomeçar a pensar. A lágrima de onde partira tinha agora de chorá-la por dentro, dissolvendo-o, inteiro. Chorar, sem perceber, até ao chão de si mesmo. Só assim a dor seria sua. Só assim a poderia dizer. Afirmando-se, estaria só, mas então já não teria tanto medo. A água, brotando de dentro, não secaria, ela também, com o seu secar. O ar? O ar não sabia. Mas já conseguia respirar.
«Da água surgirá a terra firme e da terra surgirá o ar e o espírito.» Chegara a hora de se afirmar. Não já na água maternal, mas fora dela. O mundo inteiro fora, até hoje, apenas e tão-somente uma mãe. Todo ele se alargara, ao recebê-lo, prenhe de um feminino amor por si. O amor dos dois se confundia, dando-lhe tudo, pedindo-lhe nada. Mas eis que sentia, lá dentro – num outro dentro, num dentro de si –, um poder irreprimível de afirmar-se e uma vontade de marcar novas fronteiras. Sentia crescendo em si a força de um toiro branco, daqueles capazes de roubar a uns pais a única filha e de, carregando-a virilmente no seu dorso, se adentrarem pelos líquidos caminhos, neles firmando ilhas de terra viva.
O espírito!? O espírito move-se sobre a superfície das águas, para as quais olha, sem tocá-las. Por isso agora, entre ele e elas, serei terra, na qual me erga capaz de amar e ser amado. Terra-água. Terra viva. Terra-planta, terra-bicho, terra-homem. Terra-anjo? Terra-Deus? Já se verá. O depois virá depois. E será, num só, dos dois. Mas agora é tempo apenas de afirmar. De romper, de dividir, de decidir. «Segue a estrada que vai até Atenas.»
Chegara. Era tarde. Subiu as escadas do hotel e entrou no quarto onde Catarina já dormia. Tocou gentilmente no seu ombro, enquanto pousava as chaves na mesa-de-cabeceira. Então disse-lhe, baixinho:
– Catarina. Sou eu. Dorme. Já não vamos para Fort Kochi. Amanhã vamos para Atenas.

Notas soltas…

Fiquei vários dias sem acesso ao computador, coisa que dicilmente pode ter sido notada pelos meus virtuais amigos deste blog. Televisão, vi também pouca, tendo ficado francamente impressionado quando vi hoje a notícia sobre os muitos casos de pessoas que, na Grécia, se suicidam por terem de entregar a sua casa ao banco. E tenho pensado nisso.
Olho os peixes no aquário das minhas filhas, os quais morrem se lhes falta a água. Penso nos homens que morrem se lhes falta o ar. E pergunto-me que ar foi este que tão terrivelmente faltou, e falta ainda, na Grécia — e no Ocidente em geral.
Porque me dói saber que alguém se mata por perder quatro paredes. Se tiver família, filhos e irmãos e pais; se tiver amigos; se tiver vizinhos; se tiver uma comunidade onde viver, não se há-de matar. Eles o ajudarão.
Temporariamente, dificilmente, sem dúvida, mas o mais importante são essas relações que conseguimos construir debaixo de um tecto sustentado por quatro paredes. É por elas que vivemos. São elas a nossa casa.
Desculpem-me a franqueza neste assunto, que é horrível, mas se estes homens se matam é porque não têm família, nem amigos, nem vizinhos, nem comunidade. E foi isso, talvez, o que perceberam, quando lhes tiraram as suas paredes. Sózinhos, perdidos, morreram.
Neste sentido, talvez valha a pena pensarmos, para além de todas as banalidades que se têm pensado para manter controlada a crise, que homens e mulheres queremos ser. Nós. Todos nós, que somos muito iguais aos gregos.
Porque desde a era das revoluções que a esquerda e a direita têm conjugado os seus esforços para anular as famílias e as comunidades, única verdadeira rede que interiormente sustenta a sociedade.
E não vale a pena enganarmo-nos com as centenas de amigos com que vamos virtualmente comunicando nas — agora assim chamadas — redes sociais. Se só elas ficarem quando perdermos a nossa casa, também nós, talvez, sózinhos, perdidos, morreremos.

Do valor da morte…


A propósito deste post do José Navarro de Andrade, dei por mim a reler alguns textos do já morto presidente Mao, tendo-me parecido que este, que segue, tinha forçosamente de publicar-se aqui neste nosso moribundo blog:

«Todo o homem tem de morrer um dia, mas nem todas as mortes têm a mesma significação. Sema Tsien, um escritor da China antiga, dizia: “É verdade que os homens são mortais; mas a morte de uns tem mais peso que o monte Tai, enquanto que a morte de outros pesa menos que uma pena.” Morrer pelos interesses do povo tem mais peso que o monte Tai, mas esforçar-se ao serviço dos fascistas e morrer pelos exploradores e opressores do povo pesa menos do que uma pena.»

Mao Tsetung, Servir o Povo, discurso proferido em 8 de Setembro de 1944, in «Citações do Presidente Mao Tsetung», Ed. Minerva, Lisboa, 1975, pág. 121

Se tu soubesses…


Este post do Pedro Norton — Se eu pudesse! — lembrou-me um suspiro antigo, que eu há muito suspirei. Foi assim:

Se tu soubesses…
Mas se soubesses
Se calhar
Não me querias.
Ah!
Mas se tu soubesses…
E se eu soubesse
Que tu sabias!

Por causa da laranja do Vasco…


O sonho laranja do Vasco Grilo, que pode ver-se aqui em baixo, lembrou-me este belíssimo mito de Aristófanes, o qual nos foi contado por Platão, no Banquete (Συμπόσιον para a Joana).
Diz Aristófanes que Eros (para a Joana, Ερως) é o melhor dos deuses, do qual depende para os homens a maior felicidade. Mas para bem aproveitarmos a força do deus, que em nós inspira o desejo de sermos uma outra vez inteiros, é preciso bem compreendermos a natureza humana, a qual não era, originalmente, como é agora.
No início, com efeito, estavam os seres humanos divididos em três géneros: o masculino, o feminino e o andrógino (uma mistura de masculino e de feminino). Cada um era inteiro na sua forma: redondo, com quatro braços, quatro mãos, quatro pernas e quatro pés; dois rostos numa só cabeça que, com quatro orelhas, se apoiava sobre um só pescoço; e dois sexos.
Fortes e vigorosos, tomaram-se, porém, de orgulho, tentando escalar aos céus e aí atacar os deuses. Então Zeus e os outros olímpicos, sobrenaturalmente ofendidos, decidiram judiciosamente cortar cada um dos seres humanos em dois, deste modo tornando-os mais fracos e, por consequência, mais tementes aos deuses. E assim fizeram, cortando-os com uma espada pelo meio e voltando-lhes o rosto e o pescoço para a parte cortada para que diariamente contemplassem essa sua mutilação.
Os seres humanos, então, ansiando pela metade que anteriormente lhes estava unida, procuravam-na sem cessar. E quando a encontravam – ou julgavam encontrar – logo se envolviam uma à outra com as mãos e com os braços e com as pernas, entrelaçando-se amorosamente e confundindo-se nesse amor. E então nada mais queriam e nenhuma outra coisa faziam, de tal maneira que, incapazes de se separarem, começaram a morrer de fome.
Zeus, tomado de compaixão, voltou-lhes então o sexo para a frente (pois que então o tinham para fora, gerando e reproduzindo-se, não um no outro, como agora, mas na terra, como as cigarras), de tal maneira que, entrelaçando-se sexualmente um no outro, pudesse haver saciedade nesse convívio, do qual poderiam, assim, repousar, regressando aos restantes trabalhos e actividades da vida.
Assim se implantou o amor nos seres humanos, pelo qual restauramos a nossa antiga natureza na constante e desejada tentativa de (re)fazermos de dois um só. E é por isso que, desde que nascemos, cada um procura a antiga metade a que estava unido: os que eram do género andrógino procuram-se homem e mulher; os que eram do género masculino procuram-se homem e homem; os que eram do género feminino procuram-se mulher e mulher.
E quando encontramos a nossa antiga metade logo a ela queremos ficar para sempre unidos – como, de facto, toda a vida ficamos –, porque o que desejamos não é apenas a união sexual, mas, por intermédio desta, o reencontro e a reunião das almas, de tal modo que vivamos como uma só pessoa, tanto agora, aqui na Terra, como mais tarde, no Hades.
Assim, sempre segundo o Aristófanes de Platão, os seres humanos tornar-se-ão felizes se todos e cada um plenamente realizarem o amor, reunindo-se à sua perdida metade e reencontrando a sua antiga natureza.

A propósito da laranja do Vasco, portanto, recomendo a (re)leitura deste texto, que é dos mais belos que conheço. E, já agora, do discurso de Agatão, que se lhe segue, e do de Sócrates que, inspirado pela deusa, nos eleva uma outra vez até à companhia dos deuses.

O passado nunca passa…


Parece que o que dizia o nosso querido Manuel S. Fonseca, há uns posts atrás – nomeadamente que não há futuro, nem há presente… o sentido do tempo é apenas «a firme e progressiva expansão do passado, belíssimo labirinto que desemboca na eternidade» – está já a angariar defensores, quem sabe mesmo prosélitos.

Nós já não abanamos com a terra… (1)

Terramoto de Lisboa - Gravura Francesa do séc. XVIII
O terrível terramoto de Lisboa de 1755 motivou uma grande comoção em todo o mundo. Na Europa, além disso, causou intensa e profunda reflexão. Hoje, porém, já não é assim.
Em 1756, com efeito, Voltaire escreve o Poema sobre o Desastre de Lisboa, contra o qual compôs Rousseau, no mesmo ano, a sua Carta sobre a Providência. A questão que se colocava era a do sentido da existência humana, radicalmente posto em causa a partir da incapacidade de dar explicação satisfatória das consequências do tremor de terra a partir da fé religiosa na bondade de um Deus providente ou na meditação filosófica do optimismo leibniziano. Em 1759, por isso, Voltaire volta a fazer menção do sismo na sua obra Cândido, ou sobre o Optimismo, com a qual mais demoradamente se opõe à teoria leibniziana do melhor dos mundos possíveis.
Kant, por outro lado, que, também em 1759, altura em que ainda dogmaticamente dormia, escreveu o Ensaio com algumas Reflexões sobre o Optimismo, no qual, referindo-se ao cataclismo de Lisboa, de algum modo mantém a visão da teodiceia leibniziana, tinha já redigido, em 1756, três pequenos textos sobre o abalo da terra lisboeta, nos quais, procurando explicá-lo inteiramente a partir de causas naturais, forçava cada vez mais o então já inevitável debate sobre a nova relação que era preciso estabelecer entre a inteligência científica e religiosa do mundo, debate esse que viria a estremecer até aos seus fundamentos o chão de todo o moderno discurso filosófico (desde Descartes até Heidegger, com efeito, passando por Leibniz e por Kant, pode claramente ver-se a progressiva assumpção da intenção metafísica da descoberta dos fundamentos – em alemão: grund; em inglês: ground – da realidade).
Ora, nada disto se passa hoje em dia. A comoção resultante da tragédia do terramoto do Haiti – como tantas outras que temos repetidamente visto acontecer –, brutal e indiferentemente visualizada em cada casa, provoca uma louvável e humanitária agitação imediata que, escorada unicamente em questões práticas, se esgotará progressivamente em questões técnicas, apenas, nomeada e ultimamente na determinação da implicação das consequências da catástrofe no conjunto da economia mundial. E a pergunta que levanto é esta: Já percebemos – e de uma vez por todas – o sentido da existência humana? Já nada abala os fundamentos da nossa inteligência da realidade? Porque deixámos de nos questionar?

Clara Pinto Correia: Orgasmos


O Correio da Manhã de ontem, dia 10 de Janeiro, na sua pág. 51, informa ter sido inaugurada no Centro Cultural de Cascais a exposição “Sexpresssions”, na qual o fotógrafo Pedro Palma apresenta as fotografias com as quais «registou para a posteridade os orgasmos da namorada», Clara Pinto Correia, a qual terá afirmado sentir-se orgulhosa por, deste modo, «cristalizar o estado de paixão que vive intensamente ao lado de Pedro Palma.»
O Diário de Notícias de 9 de Janeiro, na sua página 55, dera já a notícia desta mostra, na qual, garantem os autores, «não há encenações. Foram mesmo cenas de sexo do casal, com três câmaras fixas e muito planeamento para que o corpo de Pedro não travasse a trajectória das câmaras a caminho da cara de Clara. “Por isso é que só poderia ser feito por um casal”, justifica. Só a intimidade, defende, poderia garantir a genuinidade que assegura estar retratada em Cascais.»
Contentes com o seu trabalho, aliás, os autores pretendem agora internacionalizar a exposição — numa primeira fase, talvez, para Madrid -, estando para tal à procura de um patrocinador. Neste caso, porém, esperam poder apresentar, em vez das dez fotografias com que esgotaram o reduzido espaço de que dispõem no Centro Cultural de Cascais, as 20 fotografias, ou mais, com que originalmente sonharam a exposição.

Não farei aqui quaisquer comentários a esta notícia. Julgo que não devo. Não resisto, contudo, a partilhar convosco a perplexidade de duas ou três perguntas que, por causa dela, me assaltam (assim como se fosse uma lista daquelas sugeridas pelo Pedro Marta Santos):

1. Porque quererá a Sra. Pinto Correia cristalizar o estado de Paixão que diz viver com o Sr. Palma? Está farta dele? Não está satisfeita? Tem medo que ele fuja, levando a máquina nas mãos?
2. De que modo é que o científico planeamento dos orgasmos da Sra. Pinto Correia garante a genuinidade dos mesmos? E se esta genuinidade decorre da intimidade que existe entre os dois, porque é agora no-la mostram?
3. E porque é tal resultado só poderia ser obtido por um casal? Afinal de contas, não sabemos todos nós de casos em que o mesmo resultado se obtém sozinho? Ou com mais de duas pessoas?
4. E, mesmo acedendo a que, para obter tal resultado, fosse necessária a enérgica presença do casal, porque razão, então, nos mostram apenas a Sra. Pinto Correia? Não será discriminatória esta desvalorização da plasticidade do orgasmo masculino?
5. E não será insidioso, nesse sentido, imaginar as provações a que se terá submetido o Sr. Palma, em nome de tal discriminação, de modo a escapar à cristalina objectividade da sua própria câmara? Onde se terá ele metido? Com que padecimentos o fez? Qual é a idade do Sr.?
6. Por último, uma questão patriótica. Então por cá não há espaço para a grandeza dos orgasmos da Sra. Pinto Correia? Não fere isto a nossa honra? Terá a senhora que ir-se para Espanha para poder dar conta dos seus espasmódicos prazeres? Poderá o nosso patriotismo sobreviver ao facto dos deleitosos momentos da Sra. Pinto Correia terminarem, daqui por diante, ao som de um tauromáquico olé? Estará o Sr. Palma à altura de nos representar? E lá pode-se fumar?

Enfim, são perguntas que ficam…

Vamos, pobre homem! Foge agora um pouco às tuas ocupações…

Não pretendo converter ninguém. Digo isto, logo ao princípio, não vá dar-se o caso de o Manuel S. (de Subcacuminal) Fonseca vir a correr com a sua arte virar-me o post ao contrário. O facto, porém, é que não resisti a voltar aqui com mais uma arma de ante-ante-ante-penúltima geração — como diria a Joana. O próprio Anselmo, autor do texto, escrevia, sob a influência de Agostinho, no século XI, para aqueles que acreditam em Deus, para que melhor inteligissem a sua fé. Para todos os outros, porém, e sobretudo para os amantes de tudo o que é belo, como é o caso de muitos dos que viajam, moribundos, neste blog, não passará despercebida a beleza destas suas palavras:

«Vamos, pobre homem! Foge agora um pouco às tuas ocupações; esconde-te por algum tempo dos teus pensamentos tumultuosos. Lança fora os teus onerosos cuidados, posterga as tuas laboriosas ocupações. Entrega-te uns momentos a Deus e descansa um pouco n´Ele. “Entra no aposento” da tua mente, expulsa todas as coisas, a não ser Deus e o que te ajude a buscá-lo; e, “fechada a porta”, busca-O (Mt. 6, 6). Diz agora, meu coração todo, diz agora a Deus: “Busco o teu rosto; o teu rosto, Senhor, eu o procuro” (Sal. 27, 8)».

Santo Anselmo, Proslógion, I

A única e verdadeira diferença entre os homens e as mulheres (2)

Da única e verdadeira diferença entre os homens e as mulheres!

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Cena 1. Um homem e uma mulher têm uma valente discussão. Ela, irritadíssima, sai porta fora, chorando. Não volta durante toda a noite. Depois do almoço, preocupado (leia-se: culpado e capaz de pedir desculpa), ele telefona às dez melhores amigas dela contando o que aconteceu e perguntando se por acaso sabem onde ela está. Todas disseram não fazer a mínima ideia onde ela pudesse estar, mas cinco acrescentaram que, agora que pensavam nisso, talvez a tivessem visto, de madrugada, num bar, com um amigo… mas não podiam ter a certeza.

Cena 2. Uma mulher e um homem têm uma valente discussão. Ele, irritadíssimo, sai porta fora, gritando. Não volta durante toda a noite. Depois do almoço, preocupada (leia-se: magoada, mas capaz de desculpar), ela telefona aos dez melhores amigos dele contando o que aconteceu e perguntando se por acaso sabem onde ele está. Todos disseram que ele tinha lá passado a noite e cinco acrescentaram logo que ainda estava no quarto, a dormir.

Duas vontades dilaceravam-me a alma

Santo Agostinho Tremendo perante as invectivas do Manuel S. (de sei lá!) Fonseca (até porque segunda-feira é já amanhã), mas querendo ajudá-lo na sua caridosa tentativa de consolar a Eugénia de Vasconcellos nesta sua religiosa experiência de uma intensa dilaceração interna, aqui deixo as palavras de alguém que, há muito tempo, e sendo também poeta, admiravelmente passou por tudo isso:

«Por isso eu suspirava, atado, não pelas férreas cadeias de uma vontade alheia, mas pelas minhas, também de ferro. O inimigo dominava o meu querer e a partir dele me forjava uma cadeia com que me apertava. Ora, a luxúria provém da vontade perversa; enquanto se serve a luxúria, contrai-se o hábito; e, se não se resiste a um hábito, origina-se uma necessidade. Era assim que, por uma espécie de anéis entrelaçados — por isso lhes chamei cadeia — me prendia apertado em dura escravidão. A vontade nova, que começava a existir em mim, a vontade de Vos honrar gratuitamente e de querer gozar de Vós, ó meu Deus, único contentamento seguro, ainda se não achava apta para superar a outra vontade, fortificada pela concupiscência. Assim, duas vontades, uma concupiscente, outra dominada, uma carnal e outra espiritual, batalhavam mutuamente em mim. Discordando, dilaceravam-me a alma.»

AGOSTINHO, Aurélio, Confissões, livro VIII, cap. 5.

Como se fosse… amanhã!

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«Lembro-me como se fosse ontem» — dizia-me hoje de manhã alguém sobre qualquer coisa. Pensei então: porque não havemos de lembrar-nos como se fosse hoje? E, já agora, porque não havemos de lembrar-nos como se fosse amanhã? Não é disso que Portugal precisa? E não precisa disso como se fosse ontem?

Deixámos de viajar…

columbus sighting landHá quem pretenda que conhecer é ver a realidade tal como ela é. Sem preconceitos, provindos da ignorância religiosa ou ideológica. Apesar de ser uma simplificação grosseira (que pressupõe que a realidade é de tal maneira que aí se encontra, diante de nós, para ser apropriada e conhecida), esta é hoje uma opinião amplamente difundida ao nível do senso comum. Sendo ela mesma religiosa e ideológica, proclama o fim das religiões e das ideologias, totalitariamente escondida na construção de uma ilusão democrática. A actual crise é o anúncio do fim desta ilusão, o prenúncio de uma escolha que, no século XXI, terá de ser feita: totalitarismo ou democracia.
Deixando agora de lado esta conversa, que seria — e será — longa, o ponto é este: conhecer não é ver a realidade tal como ela é, na medida em que esse conhecer e esse ver são já, também eles, reais. Conhecer, de um ponto de vista filosófico (falo aqui de sabedoria, e não de ciência), é ver a realidade no seu vir-a-ser, na inocente brutalidade do seu brotar. Implica, por isso, da nossa parte, um constante nascer e morrer, um acordar e adormecer, um ir e vir, um caminhar, no qual nos refazemos a nós mesmos e ao caminho.
Tudo isto vem a propósito de uma breve descrição da vida dos marinheiros a bordo dos navios que descobriram o novo mundo, os quais, construídos a partir do imaginário mediterrânico do mundo greco-romano, não se adequavam à realidade das travessias atlânticas. Diz assim: «Todos os navios de madeira, em certas condições, metem água; e os de Colombo confirmavam copiosamente a regra — de modo que uma bomba fixa, de madeira, accionada pelos grumetes do quarto da manhã, devia teoricamente obstar a esse dano. A bomba, porém, não chegava nunca a enxugar completamente o navio, e com os balanços do barco a água podre do porão espadanava entre os fardos e os tonéis. Como o homens se aliviavam da tripa no porão, o excremento acumulado tornava-se, com o fedor nauseabundo, alfobre de carochas, piolhos e percevejos, companheiros inseparáveis da marinhagem de então.» (Samuel Eliot Morison, Cristóvão Colombo, Almirante do Mar-Oceano, Ed. Notícias, 1993, pág. 55).
Se compararmos esta descrição das primeiras viagens para o novo mundo com a sua representação na litografia que acima se mostra, veremos imediatamente que elas são evidentemente desconformes. E, no entanto, são ambas verdadeiras. Não de uma verdade relativa, potenciadora de infinitos mundos paralelos, mas de uma verdade em construção, em mostração, a fazer. Para isso, porém, é preciso partir… e, ao voltar, partilhar. Em comunidade, que espiritualmente se alarga, interessada em expôr-se e em dar — não em impôr-se e em conquistar. É disto que andamos esquecidos em apática e acrítica existência. Deixámos de viajar: nós, que vivemos no apologético mundo da experiência!