O país é pequeno e tudo se sabe. Publicamos com apreço estas confissões que a Teresa Font encontrou. Para ficarmos a saber que uma rapariga nova não tem medo.

Número Errado
Short story de Teresa Font
Gostava do branco, da luz, da arrumação, da escassez de mobília, toda ela cara, cara como o roupão de seda que usava, cara como a roupa, os sapatos, as carteiras que tinha nos armários, impecáveis, arrumados por cores. Fácil. Branco, preto , cinzento, um ou outro toque de cor, encarnado, gostava de encarnado, mas só um toque mesmo, uma chamada de atenção.
E se ela chamava a atenção. Bonita, com classe. Charlotte como a rampling com quem era às vezes comparada, mãe francesa, pai português, diplomata. Mundo. Bons colégios. Poucos amigos em Portugal, infância e adolescência nómada.
Sorriu à rima. Nómada/cómoda. A versão.
Lembrou-se da casa suburbana, da pobreza envergonhada, do cheiro constante a fritos. Os quartos pequenos e atravancados com moveis de má qualidade, o pai com o fato-macaco que tanto custava a lavar, as unhas sempre sujas, a mãe cansada, velha antes de tempo. O barulho do bairro, a gritaria dos vizinhos.
Livrou-se daquilo tudo assim que pode. Inventou-se. Claro que para isso era preciso dinheiro e neste país pequenino, em que tudo se sabia, tinha que ter cuidado. Fora um acaso que lhe pusera o futuro nas mãos.
Talento não lhe faltava, sempre soube que a sua vida seria escrever. Mas ia começar por cima, sem precisar de mendigar, de arranjar segundos empregos para sobreviver até, um dia, talvez, se calhasse, ter enfim o reconhecimento merecido.
Aquele engano fora a coisa mais certa que lhe acontecera na vida. O numero errado a meio da noite, a voz de homem irritada e, depois cada vez mais simpática, mais untuosa. Está sozinha? Uma rapariga nova, não tem medo? Daquela vez desligou.
Mas já sabia o que ia fazer.
Agora, com os best-sellers vendidos quase antes de serem escritos, a mistura de êxito comercial e qualidade, que começara por irritar os críticos, até que ela os fizera, um a um, cederem. Era “uma jovem e promissora…”, “uma lufada de ar fresco…”, “o subtil sentido de humor…”.
Não sabia bem quando é que a necessidade de por aquilo no papel começara. Confissões? Nem pensar. Brincadeira ou talvez mais do que isso. Aquela convicção cada vez forte de que podia fazer tudo.
Apagou o cigarro e sentou-se à frente do computador sempre ligado. Começou a escrever.
“Acordou com o telefone a tocar e a voz sexy da mulher a pronunciar um nome que não era o dele.
–Terry? Terry, é a Brenda.
–Eu não me chamo Terry…
–Sim, sim. O Ray avisou-me que diria isso. Pode ter confiança, sou mesmo eu. As andorinhas voltam na primavera. Está certo?
–As andorinhas…? Que conversa é essa?
- Terry, as-andorinhas-voltam-na-primavera. Esteja tranquilo, já não tenho duvidas. Quero matá-lo.
Vocês resistiam? Eu não fui capaz. E depois, ela tinha cá uma voz. Rouca mas feminina, percebem?
–Sim Brenda. Diga. Preciso de saber mais. Então está decidida.
–Estou. Já não aguento mais. O Ray disse-me que são cinquenta mil. Só posso arranjar trinta mil agora, mas vou pagando o resto como puder. Aceita? Por favor aceite. Já não aguento, ele está cada vez pior!
–Aceito, aceito. Mas conte-me mais. É o seu marido?
–O meu marido? Então o Ray não lhe disse? O meu marido? Coitado. Claro que não. É aquele monstro. Aquele pervertido. Já não aguento. Sabe o que ele me faz agora? Todas as noites? Até tenho vergonha de contar…
–Conte, Brenda, conte…e… como é que a coisa vai ser feita?
–Bem, você é que sabe. Por cinquenta mil… Eu acabo o meu número ás 11h30, depois estou na mesa com clientes até á 1h30, 2h00. Não posso ser suspeita, mas o resto é consigo. Ele está no escritório, à minha espera. Monstro!
–Então, diz que ele está cada vez pior?
–Sabe o que me obrigou a fazer ontem? Sabe? O Ray disse-lhe?
–Não, conte-me a Brenda…um pervertido? Assim tanto? Conte-me mais.
–Porquê? O que é que isso tem que ver com o seu trabalho? Ou gosta de ouvir? São todos iguais…
Aí aborreci-me. Falei-lhe a sério. Como um homem.
–Brenda, o profissional sou eu. Se lhe digo que preciso dos pormenores é porque preciso. Quero que me conte tudo.
–Desculpe. Tem razão. Pois, ainda ontem…
(…)
–Brenda, continue. Ai, continue. E depois, o que é que a Brenda fez? Obedeceu? Se calhar debateu-se…conte.
–Oiça, Terry, estamos há meia hora nisto, não posso estar tanto tempo ao telefone. Se o meu marido vê a conta…pobre Bruce, como é que eu fui capaz de lhe fazer isto!
–Eu ligo-lhe, não há problema. Meia hora! Tem a certeza? É que ainda vamos precisar de esmiuçar muitas coisas.
–Tenho tanta vergonha. Depois ainda é pior.
–Deixe lá a vergonha, agora vergonha numa altura destas…preciso de saber tudinho. Isto se quer o trabalho bem feito, claro.
–Está bem, você é que sabe. O numero é xxxxxxx. Fico à espera que ligue. Tomou nota?
–Tomei, tomei…espere lá! Isto é um número de valor acrescentado! Mas que história…quem é você, afinal? Que aldrabice é esta?
–Aldrabice? Não é aldrabice nenhuma. Quem é que eu havia de ser? Sou a Brenda. Você não é o Terry?”
Escreveu FIM. Como fazia sempre. Gravou e arrumou o texto juntamente com os do próximo livro, ia fazer um volume de short stories, não era costume mas a editora não lhe negava nada há muito tempo. Depois soltou uma gargalhada. E outra. E outra. Ela, tão controlada. Não conseguia parar de rir, mesmo com as lágrimas a correrem-lhe pela cara, até mancharem a seda imaculada do roupão.