Um Morto em Visita

“Um Morto em Visita” é a novidade da É Tudo Gente Morta para o seu segundo ano de vida. Nesse espaço — uma campa muito especial — vamos ter um convidado por mês. Em Outubro o “morto em visita” é de excelência. Há quem goste desenfreadamente, há quem tenha princípios de brotoeja quando a lê — não há é ninguém que fique indiferente à densidade, à acutilância e à ironia (por vezes a roçar o sarcasmo) da sua escrita.

O É Tudo Gente Morta sabe que vai viver um momento histórico, porque na 2ª, dia 4 e na 3ª, dia 5, a autora do Ana de Amsterdam vai ser nossa “autora”. Está aberta a campa para que a Ana Cássia Rebelo usufrua, com total privilégio, as mordomias deste cemitério.

Aviso aos visitantes deste Cemitério

 

Estimados visitantes, este cemitério completa um ano de vida na próxima 6ª feira, dia 1 de Outubro. Imagino que tenham de nós ideia mais ou menos estabelecida: um cemitério, uma quadrícula geométrica de campas e jazigos, alguns cipestres, nem uma ponta de vento. Nada mexe ou, se nós fossemos poetas arcádicos: nem uma humilde folha bule.

Redondo engano, claro. Para além de termos antecipado uma rubrica comemorativa a que chamámos “História Particular da Infâmia” – onde se esganam alguns dos seres mais desembestados ou macabros ou mórbidos da história humana – vamos alterar e sistematizar a participação de figuras externas ao blog. Todos os meses vamos ter um autor convidado (não é original!) que aceita cumprir duas obrigações (já é um bocadinho original!): responder a um inquérito e publicar um post de tema livre. E como já sabem que, neste blog, ao substantivo morto juntamos qualificativos como melhor, excelente, sábio, a nova rubrica chamar-se-á “Um Morto em Visita”. O primeiro “Morto em Visita” será anunciado com a fúnebre euforia que nos é própria, no dia do aniversário. Na 2ª, dia 4, publicaremos a resposta ao inquérito. No dia seguinte, o post livre. De alta patente na blogosfera portuguesa, o primeiro convidado vai ser, garantimos, uma surpresa dos diabos.

Número errado

O país é pequeno e tudo se sabe. Publicamos com apreço estas confissões que a Teresa Font encontrou. Para ficarmos a saber que uma rapariga nova não tem medo.

Número Errado
Short story de Teresa Font

Gostava do branco, da luz, da arrumação, da escassez de mobília, toda ela cara, cara como o roupão de seda que usava, cara como a roupa, os sapatos, as carteiras que tinha nos armários, impecáveis, arrumados por cores. Fácil. Branco, preto , cinzento, um ou outro toque de cor, encarnado, gostava de encarnado, mas só um toque mesmo, uma chamada de atenção.
E se ela chamava a atenção. Bonita, com classe. Charlotte como a rampling com quem era às vezes comparada, mãe francesa, pai português, diplomata. Mundo. Bons colégios. Poucos amigos em Portugal, infância e adolescência nómada.
Sorriu à  rima. Nómada/cómoda. A versão.
Lembrou-se da casa suburbana, da pobreza envergonhada, do cheiro constante a fritos. Os quartos pequenos e atravancados com moveis de má qualidade, o pai com o fato-macaco que tanto custava a lavar, as unhas sempre  sujas, a mãe  cansada, velha antes de tempo. O barulho do bairro, a gritaria dos vizinhos.
Livrou-se daquilo  tudo assim que pode. Inventou-se. Claro que para isso era preciso dinheiro e neste país pequenino, em que tudo se sabia,  tinha que ter cuidado. Fora um acaso que lhe pusera o futuro nas mãos.
Talento não lhe faltava, sempre soube  que a sua vida seria escrever. Mas ia começar por cima, sem precisar de mendigar, de arranjar segundos empregos para sobreviver até, um dia, talvez, se calhasse, ter enfim o reconhecimento merecido.
Aquele engano fora a coisa mais certa que lhe acontecera na vida. O numero errado a meio da noite, a voz de homem irritada e, depois cada vez mais simpática, mais untuosa. Está sozinha? Uma rapariga nova, não tem medo? Daquela vez desligou.
Mas já sabia o que ia fazer.
Agora, com os best-sellers vendidos quase antes de serem escritos, a mistura de êxito comercial e qualidade,  que começara por irritar os críticos, até que ela os fizera, um a um, cederem. Era “uma jovem e promissora…”, “uma lufada de ar fresco…”, “o subtil sentido de humor…”.
Não sabia bem quando é que a necessidade de por aquilo no papel começara. Confissões? Nem pensar. Brincadeira ou talvez mais do que isso. Aquela convicção cada vez forte de que podia fazer tudo.
Apagou o cigarro e sentou-se à frente do computador sempre ligado. Começou a escrever. 

“Acordou com o telefone a tocar e a voz sexy da  mulher a pronunciar um nome que não era o dele.
–Terry? Terry, é a Brenda.
–Eu não me chamo Terry…

–Sim, sim. O Ray avisou-me que diria isso. Pode ter confiança, sou mesmo eu. As andorinhas voltam na primavera. Está certo?
–As andorinhas…? Que conversa é essa?
- Terry, as-andorinhas-voltam-na-primavera. Esteja tranquilo, já não tenho duvidas. Quero matá-lo.
Vocês resistiam? Eu não fui capaz. E depois, ela tinha cá uma voz. Rouca mas feminina, percebem?
–Sim Brenda. Diga. Preciso de saber mais. Então está decidida.
–Estou. Já não aguento mais. O Ray disse-me que são cinquenta mil. Só posso arranjar trinta mil agora, mas vou pagando o resto como puder. Aceita? Por favor aceite. Já não aguento, ele está cada vez pior!
–Aceito, aceito. Mas conte-me mais. É o seu marido?
–O meu marido? Então o Ray não lhe disse? O meu marido? Coitado. Claro que não. É aquele monstro. Aquele pervertido. Já não aguento. Sabe o que ele me faz agora? Todas as noites? Até tenho vergonha de contar…
–Conte, Brenda, conte…e… como é que a coisa vai ser feita?
–Bem, você é que sabe. Por cinquenta mil… Eu acabo o meu número ás 11h30, depois estou na mesa com clientes até á 1h30, 2h00. Não posso ser suspeita, mas o resto é consigo. Ele está no escritório, à minha espera. Monstro!
–Então, diz que ele está cada vez pior?
–Sabe o que me obrigou a fazer ontem? Sabe? O Ray disse-lhe?
–Não, conte-me a Brenda…um pervertido? Assim tanto? Conte-me mais.
–Porquê? O que é que isso tem que ver com o seu trabalho? Ou gosta de ouvir? São todos iguais…
Aí aborreci-me. Falei-lhe a sério. Como um homem.
–Brenda, o profissional sou eu. Se lhe digo que preciso dos pormenores é porque preciso. Quero que me conte tudo.
–Desculpe. Tem razão. Pois, ainda ontem…
(…)
–Brenda, continue. Ai, continue. E depois, o que é que a Brenda fez? Obedeceu? Se calhar debateu-se…conte.
–Oiça, Terry, estamos há meia hora nisto, não posso estar tanto tempo ao telefone. Se o meu marido vê a conta…pobre Bruce, como é que eu fui capaz de lhe fazer isto!
–Eu ligo-lhe, não há problema. Meia hora! Tem a certeza? É que ainda vamos precisar de esmiuçar muitas coisas.
–Tenho tanta vergonha. Depois ainda é pior.
–Deixe lá a vergonha, agora vergonha numa altura  destas…preciso de saber tudinho. Isto se quer o trabalho bem feito, claro.
–Está bem, você é que sabe. O numero é  xxxxxxx. Fico à espera que ligue. Tomou nota?
–Tomei, tomei…espere lá! Isto é um número de valor acrescentado! Mas que história…quem é você, afinal? Que aldrabice é esta?
–Aldrabice? Não é aldrabice nenhuma. Quem é que eu havia de ser? Sou a Brenda. Você não é o Terry?”

Escreveu FIM. Como fazia sempre. Gravou e arrumou o texto juntamente com os do próximo livro, ia fazer um volume de short stories, não era costume mas a editora não lhe negava nada há muito tempo. Depois soltou uma gargalhada. E outra. E outra. Ela, tão controlada. Não conseguia parar de rir, mesmo com as lágrimas a correrem-lhe pela cara, até mancharem a seda imaculada do roupão.

Laura

Em geral, podemos encontrá-la aqui. Hoje veio morar connosco. Só para nos contar, subtil, fatal, uma história. E deu os nomes. 

Laura
short story de Ivone Costa

Laura. Sim, Laura porque se chamam Laura as mulheres que não existem. Não quis dar apelido nem mais nada. “Onde moras?” perguntava ele com insistência e ela recusava a precisão do local, embora o visse como se lá estivesse, as secretárias, o balcão e os utentes e sentia-se lá no fundo do gabinete a repetir assinaturas enquanto olhava o msn à espera da entrada dele. E o telefone que negou e acabou por ceder ao fim de uma sexta à tarde em que tudo se confundira e da realidade mais não ficara que a luz insistente que entrava pela janela, voyeuse. E a voz dele. A voz dele era real. Tão real que começava a doer-lhe não ser a ela, Daniela, que ele telefonava mas a Laura que morava longe, numa distância da qual insinuava pormenores, primos, a casa dos pais, a criada que já não vinha todos os dias, o café curto, um vestido azul em que ele gostava de pensar. Fora, algumas vezes, estacionar à porta do escritório dele para o ver entrar e, numa tarde, ele olhou bem de frente para ela antes de entrar apressado para abrir o mail, deixar-lhe um recado e sair de passo apressado, de toga embrulhada no braço. Não podia, já não podia dizer nada. E nem sabia se queria dizer. Seria fraude? Não, não podia ser. Ela era Laura que dela tinha a alma e o desejo. E ele queria-a e queria fazer da distância um vestido azul amarrotado no chão.

Tentara parar, desaparecer, mas voltava-lhe sempre ao monitor, reaparecia em sms’s subtis, fatais como ele dizia, nunca à noite, nunca ao fim-de-semana que até nisso ela lhe era perfeita.

Saiu mais cedo, procurou as ruas, as montras de princípio de estação, mas o fim da tarde esperava-a em casa com um robe de cetim cor de peito de pombo. Fumou um cigarro hesitante, enquanto olhava o portátil em cima da mesa. Esquecê-lo, dizer, calar-se, continuar.

Por fim debruçou-se, premiu uma tecla e, quando o cursou pulsou num convite, escreveu. Adriana.

Cacos

Entre um cigarro e outro faz-se o tempo de uma história. Esta, pensada quando no relógio ainda não batia a hora do sentimento. Vem da Turmalina que sempre gostamos de bem receber neste cemitério.

 

Cacos
Short story de Turmalina

Juntando os cacos entre um cigarro e outro.
O que a porta entreaberta escondia eram cacos, cacos de vidro, cacos de gente, cacos de dor. O porta retratos da cabeceira da cama que até então emoldurava uma vida feliz fiz em pedaços. Se eu me machuquei? Pouco, perto do estrago que me causou.
Da minha vida fiz o seu porto seguro. Dei-lhe mais que amor. Fui a companheira, a amante, a  cúmplice e até mesmo a família que nunca teve.Dei-lhe o mundo que habitava em mim. Dei-lhe inclusive os amigos que eram meus.
E o que me dá em troca? Um quarda roupas vazio, um telefonema sem  resposta e um paradeiro sem endereço. Pérfido, queres com certeza incutir-me uma culpa que não é minha. Mas isso não!
E sabe, não é de hoje que meu amor transformou-se em mágoa, em dor. Faz um tempinho, desde que tivemos os primeiros tropeços. Eu só pensava que teria mais tempo. Não acredito que tenha sido tão tola.
Mas não tem problema. Eu bem que gostaria de ver-lhe passando pelo que estou passando. Fico pensando como reagiria? Afinal a coragem nunca foi o seu forte, não é? E parece que não consegui ensinar-lhe nada nesses anos.
E eu? Vou bem, não se preocupe. Aliás agora não é hora para este tipo de manifestação hipócrita e sentimental. Eu tenho trabalho, dinheiro, sucesso e posso pagar pelo amor quando o quiser.
E por qual motivo estou tão irritada se pareço aparentemente tão bem? Quer saber mesmo? É porque você não tinha o direito de deixar-se morrer logo agora, ainda não. Por que você deixou que isso acontecesse? Por quê?

Quem ali morou

Recebemos com muito gosto a participação da Sofia Loureiro dos Santos na short story de Setembro.
Agora que se completa o primeiro ano do blog, e à beira de introduzirmos algumas significativas alterações, lembramos aos visitantes que nos fazem o favor de aparecer que a imagem abaixo é a última a que podem responder com a vossa short story. Tem é de ser já. Até 30 de Setembro. Atrevam-se.


Quem ali morou
short story de Sofia Loureiro dos Santos

Saiu à frente da representante da imobiliária. Muito cortês, muito pintada, muito equilibrada no fato apertado e nos saltos de vidro, com umas unhas de plástico de recorte quadrado e com florinhas. Despediram-se com os salamaleques do costume e atravessou a estrada a correr.
A casa estava totalmente vazia com o cheiro das casas abandonadas há já alguns meses. Tinha boa luz, uma casa de banho a precisar remodelação, uma alcatifa bafienta e de cor parda. A cozinha era arejada e os armários normais. A sala tinha uma lareira, daquelas lareiras que não se usam porque só foram concebidas para enfeitar.
O quarto era uma suite, com roupeiro. Numa das paredes da casa de banho, oposta à da banheira, havia um quadro surpreendente. Surpreendente pelo próprio quadro e pelo sítio onde estava pendurado. Terão sido os antigos donos?
Mas porquê na casa de banho? Será que era apenas para condizer com a anterior estética do quarto? Linhas direitas e modernas, cores fortes e sem matizes, mulher magra e segura, cigarro ocasional? Metáfora de um casal? De quem medita no porquê da relação? De quem sabe que aquele é um intervalo que se concede, por torpor, cansaço ou pausa de preparação?
Cama vislumbrada, luz, alguém que não se vê mas que se insinua pela pose relaxada de quem aguarda, de quem se guarda na solidão possível. As portas dividem o espaço, o arrumado e o ausente, entre o bulício e o silêncio.
Quem ali morou despediu-se de uma vida. Apagou o cigarro, despiu o roupão e fechou a porta. Ou transpôs a barreira que a separava do mundo.

  ****

Desligou o telefone e sorriu. Grande truque que tinha arranjado. Nunca a prima sonharia que aquele poster horroroso que lhe oferecera, com a mania de ser diferente, de ser artista, servia para alguma coisa. A casa já estava vendida.

Delito de Opinião

Os autores do É Tudo Gente Morta agradecem os protestos de simpatia que hoje aqui se publicam. Ainda por cima, o que nos deixa muito felizes, em termos tão deliciosamente exagerados.  

Obrigado ao

História Particular da Infâmia

O É Tudo Gente Morta tem vocação celebratória. A secção “Queridos Mortos”, que agora renovámos graficamente, é disso a melhor prova. A partir de agora, e como já podem ver na barra da direita, vai surgir uma nova secção. Sob o título “História Particular da Infâmia”, é também celebratória, mas à sua particular maneira. Os autores do blog vão convocar biografias ou retratos de seres humanos cujos melhores talentos sofreram um ligeiro, às vezes violento, desvio em relação à norma: vigaristas, trapaceiros, intrujões, assaltantes, assassinos, ditadores, o diabo em figura de gente vão ter entrada franca neste cemitério.
O “Queridos Mortos” é uma secção regular e de dia certo que é assim que se deve fazer o Bem. É semanal e, se o autor responsável não se atrasar, publica-se às quintas.
O “História Particular da Infâmia” não tem regras, aparece a qualquer dia e hora como é apanágio do fascinante Mal.
Feita a apresentação, estão abertas as hostilidades: que entre a Infâmia.

Amor de ventre seco

O ETGM vai fazer mudanças. Pormenores, como se verá. Mas há uma,  mais profunda. As shorts stories vão ser uma obrigação reservada aos autores. É para isso que as nossas leitoras e leitores nos pagam, para que tentemos diverti-los e seduzi-los. Mas como gostámos tanto do quanto e tão bem nos entraram casa dentro, em vez de estarmos à espera de que nos batam à porta, vamos nós bater às deles. Faremos convites em condições a anunciar em breve. Entretanto, recebemos e este mês receberemos ainda, com gosto, as shorts que nos queiram mandar. Esta, de choro de olhos secos, veio do Brasil, de uma visita que é já cá de casa.

Amor de Ventre Seco
por Luciana Holanda  

Ela. Porta. Dúvida. Porta. Ela. Abrir a porta com lentidão, esperando que algo tenha acontecido, uma mudança súbita, algum arrependimento, um milagre qualquer. Mas sabe que é vã esperança, abrirá a porta e encontrará a solidão. Na sala, o sofá, o tapete, os livros e discos a fitarão com pesar, uma pena que ela dispensará, orgulhosa, relembra a mãe que sempre dizia, você é muito fechada, ser assim orgulhosa ainda a fará sofrer. As palavras antigas a envolvem em estupor e lamento, se eu tivesse pedido, chorado, prometido, ele teria ficado? Mas o orgulho, o amor de olhos secos, de palavras secas: “assim será”. Passará da sala à cozinha, arrumando, por reflexo, as almofadas amontoadas no canto depois de um chute que ele deu, impotente frente a um viver que se acaba, depois fará café ou um suco, o pensamento pára, agradavelmente surpreso por ainda deter-se em mesquinharias como esta quando há uma tão grande dor a ser vivida, fará café, está decidido, para que a noite seja realmente insone e possa deparar-se com seus fantasmas com o pensar claro. Talvez quebre uma xícara, pois ao abrir o armário recordar-se-á do dia em que montaram a cozinha, as disputas quase infantis, põe o armário mais pra lá, assim tá tomando a passagem; ah, aí não, parece cozinha de quartel, tão sem criatividade; as gargalhadas íntimas, os toques alegres, a celebração no chão recém-encerado da cozinha. Sim, quebrará a xícara e com os olhos enevoados carregará seu sofrimento para o quarto. Com ele passará a noite em amoroso interlúdio: gemidos, soluços e um sono forçado pelo cansaço. A madrugada a acordará e ela se verá sozinha temporariamente abandonada até pelo sofrimento. Um grito, a chamar a dor, a chamar a si mesma, renomeando-se ou se perderá no negrume que reveste a cidade. A madrugada é dos infelizes. Banho. Roupão. Cozinha. Vinho. Uma taça. Quarto. Liga o rádio, mas a música a aborrece. Liga a TV e diminui o som até não haver som nenhum. Abre o vinho. Um tanto na taça. O resto na cama. Merda. Sala. Poltrona vermelha. Escolha dele. Merda. Cigarro. Cigarro. Cigarro. Como se. Como se fosse possível saber.  E se? Madrugada. Novamente passeará pela casa, encontrando mais que vestígios, cada canto um canto de amor foi proferido e não se permitirá o esquecimento. O banho compartilhado, o filme antigo a pipoca e o sofá, a comida queimada atrasada pelo amor urgente, o ruído característico dos passos arrastados ao chegar do trabalho, os consertos fajutos espalhados nas pias da casa, o sorriso. Em todos os lugares haverá um sorriso que não estará lá. O desespero, que terá esperado pacientemente que se despeçam a esperança, a memória, a saudade e a dor, tomará posse da casa. Veneno negro a fechar portas, a vedar janelas, a aprisionar os olhos na certeza agoniada do impossível retorno. As palavras que nunca deveriam ter sido ditas encarcerarão o futuro. Estou cansado. Alguma coisa se perdeu. Algo precisa mudar. Mude-se você. Perdeu a coragem. De mim. O amor de olhos secos, de palavras secas, de ventre seco. Um grande deserto formar-se-á lentamente em seu corpo. Terreno infértil. Impróprio para a vida. Pensará em se matar, mas não encontrará a morte fora de si, pesarosa perceberá que ela é a morte, a sua própria morte, a morte que a devorará em torturante lentidão, a morte que a desertificará.  Sim, se ela abrir a porta. Porta. Dúvida. Ela. Então, não abre. A rua a recebe. Seus passos, embora sem rumo, são decididos. Chove. Adeus ao amor de olhos secos, de palavras secas, de ventre seco. Chora. Ela e a rua estão úmidas. Prontas para a vida. 

Quem é Botero?

A Teresa Font, que é autora de “Foi Assim Que Aconteceu”, viu o desafio do Gonçalo e não resistiu a explicar-lhe. Vai ler o Gonçalo e vamos ler todos para saber se foi assim ou não que aconteceu.

Quem é Botero?
Um post de Teresa Font

 Ela estava a pedi-las.
Quantas vezes lhe disse? Quantas?
E se o Gualter soubesse, com as coisas como estão? Hã?
Ela sabe, sabia. A massa que eu lhe devo.
E a Madalena? Se a Madalena sonhasse? Sim, que ela a Lurdinhas aguenta, mas esta…Separações, uma pensão, carro, a casa, ver os filhos ao fim-de-semana…Estúpida. Esta estúpida estava a pedi-las.
Diz que com lixívia sai tudo. Passas um pano e não fica nada.
Um bocadinho de água fria na cara e desandar. Brrr.
Que impressão. Aqueles olhos abertos. E as mãos…mas fica mais natural.
Diz o Gualter que ela passava a vida a ameaçar que se matava. Que agora estava melhor.
Pudera.
E com a mania que era intelectual. Quem raio seria Botero? Saiu-te caro o Botero, pensou. Se não fosse essa do Botero, não sei se tinha a coragem.
A grande cabra encheu-me de nódoas negras. Passa a vida a ver filmes da Sharon Stone e pensa….pensava. Que.
Estúpida. Estava a pedi-las.
Lá vou ter que dormir de t-shirt. E a Madalena a querer pôr-me emplastro leão para as dores nas costas.
Por emplastro, se calhar a velha dá por falta da digitalina…o melhor é substituir os comprimidos. Ponho laxantes…ahahahah.
Devia era por a dose a dobrar. Matava dois coelhos de uma cajadada. Sogras. Merda.
Farto de mulheres.
É estranho, não sinto nada. Se calhar é como tudo, a gente habitua-se.
Saltou para o Mercedes, o carro dele estava na oficina.
Ladrões, rosnou, os recentes instintos assassinos à solta, a imaginar os empregados desmembrados nos fatos – macaco sujos de óleo.
Acelerou na direcção da Foz. Tinha tempo, antes de jantar. E a Lurdinhas também andava muito refilona. Apalpou o frasco no bolso. Prudência. Daqui a uns meses, talvez.
Ligou o leitor de CD’s. A música melhorou-lhe a disposição. Grandes brasileiros.
“Madalena, o que é meu não se divide, e tão pouco se admite…”


Pelos, pelos cantos, pelo ralo, pelas tampas

O desafio foi lançado pelo Gonçalo que postou a imagem de um quadro com que Botero homenageou Bonnard. Hoje é a Turmalina que nos surpreende, respondendo ao desafio e vindo morar connosco.

Pelos, pelos cantos, pelo ralo, pelas tampas
Um post de Turmalina

Em 20 e tantos anos de convivência ele não aprendeu o quanto eu odeio encontrar pelos na pia. Por certo, faz de propósito. Aí reclamo, ele faz que não escuta, não adianta nada e logo eu amarro a cara.E isso é praticamente toda manhã. Porque antes de encontrar os pelos na pia já tive de me deparar com os pelos no ralo do chuveiro e quando não, no sabonete.Todo o meu bom humor matinal acaba aí. Acho que é disso que ele gosta. Sempre achei que ele tivesse umas tendências sado-masoquistas.

E ainda tem mulher por aí que adora homem peludo. Mas o pior foi quando em que ele resolveu cortar os pelos pubianos, acho que de tanto eu reclamar. Bem que eu avisei para usar a tesourinha. Mas não, teimoso que só, foi direto na máquina, coisa de macho. A teimosia, é claro! Não preciso nem dizer que depois ele não agüentou a coceira e teve de recorrer ao farmacêutico No primeiro dia a coisa ficou tão ruim que o pobre não pode nem ir trabalhar.

Até hoje ele jura que foi praga que eu roguei. Mas pode uma coisa dessas? Logo eu, a pessoa mais interessada na área de lazer. Não tem cabimento. E mesmo assim, depois de todo esse quiprocó, ele ainda não entendeu que é só juntar os pelos da pia e mandar ralo abaixo.Porque eu juro que eu não sou uma pessoa assim tão chata, afinal nem da toalha molhada sobre a cama e a tampa do vaso levantada eu reclamo. E o papel higiênico então, que ele nunca repõe. Isso sem falar na mania de tomar banho de perfume.

Aí que eu não entendi quando acordei e ao lavar o rosto na pia, impecavelmente limpa nesta manhã, tinha um bilhetinho no espelho que dizia assim:

- Querida, espero que a pia esteja do seu gosto. Não me espere para o jantar, nem hoje, nem amanhã, nem nunca mais. Vou morar com a Madalena! 

Digitalia purpurea

É co-autora deste blog. Um blog sob o signo do tempo. É de tempo — vários, sublinhe-se — que se faz a short story que nos enviou. Com tempo, saboreiem cada palavra. 

DIGITALIA PURPUREA
por Ivone Costa

Um dia mato-a. Só não sei como, mas mato-a. Deixo cair o secador na banheira, sempre é mais higiénico que um rasto de sangue no soalho brunido. Dantes, era o ritual da noite: cremes, loções e uns não sei-o-quê. Ah, e ter de lhe espalhar aquilo pelas costas. Depois, mudou os hábitos. Às cinco da manhã acorda (e acordo eu que aquele desportador chegou directamente do infernos), enche a banheira de água e de sais e de óleos e de tretas, põe as mãos de fora, deve ser para não estragar o verniz, e ali fica de almofada debaixo da cabeça que nem uma Maja Desnuda aquática, num silêncio que ela deve pensar ser o silêncio da beleza. Até à seis, eu dou voltas na cama numa sonolência interrompida pela memória de vinte anos de disparates e tolerâncias. E de silêncios sem beleza.
Quando vou, finalmente, arranjar-me, tropeço nos chinelos rosa. Muita sorte: já tropecei numas coisas altas cheia de plumas, era o tempo em que ela, à noite, vagueava ora azul, ora salmão, ora preto, numa coisa que parece um robe mas tem o raio de um nome de que não me lembro. Era fase de Hollywwood, devia ser.
Ai, como eu queria a intimidade da casa de banho só para mim. A minha nudez sem olhos nas costas, sim, porque ela os finge ter fechados e, neste momento, já descobriu três centímetros a mais por mim abaixo. E se eu pussesse uma cobra na banheira? Assim ela podia morrer Cleópatra e talvez lhe agradasse.
Por que razão hei-de eu lutar sempre com esta maldita gravata? Caramba, será que ela não se despacha?
– Madalena, sai lá daí. São sete horas, não achas que já chega o disparate?
A cabeça caía ligeiramente para o lado e a água tinha uma ondulação que principiava a acalmar.
– Madalena!
 
–Então. qual foi o resultado?
–Digitalina?
–Digitalina, Augusto. É para o coração, mas em excesso mata.
– E a mulher suicidou-se?
– Sei lá. Augusto, sei lá. Estão 40 graus, não sei.
– Mas o chefe desculpe, a mulher andava com aquilo, como é que se chama, depressão ou lá o que é? O marido sabia?
– Augusto, tu conheces bem a tua mulher?
– Não, chefe.

Como é feio, benzadeus!

O mês de Agosto desliza, suado, para o mar e ainda nenhum dos autores respondeu ao desafio do Gonçalo para a short story sobre a imagem com que o Botero homenageou Bonnard. Responderam antes os nossos leitores e os mais fiéis visitantes. A Luciana, que tão bem conhecemos daqui, foi a primeira. Preparem-se para a surpresa.

 

Como é feio, benzadeus!
por Luciana Holanda

Da sua imersão em geladíssima água, ela se pergunta: porque o ama? ! Suas unhas vermelhas e bem feitas falam de um apreço à aparência que não se conforma: como é feio, feio, feio! Ela recorda o rosto que não vê no momento: pés-de-galinha em profusão. Sim, sim, ele sempre ri das suas piadas sem graça e tem um jeitinho de estreitar os olhos quando procura entender um despropósito qualquer que ela diz. Talvez, daí, as rugas no canto dos olhos. Mas e a testa? Parece tecido amassado. Sim, é certo que, quando ela esteve doente, ele se preocupava tanto que não havia quem ou o quê o fizesse desfranzir o semblante. Noite virando dia e ele segurando sua mão, tão gelada, que ele só a sabia lá de tanto querer que ela não fosse, não ainda. E as marcas ao lado da boca? Tantas! Mas isso deve ser de rir-se de tudo e de si mesmo e de sempre ter uma gargalhada solta pra qualquer problema que chega. Isso, claro, não justifica a barriga. Eca, que desleixo! Quanta banha! Humm, sim, tinha o tempo que ela cozinhava horrivelmente e ele comia tudo, tudo, pra ela não ficar sentida. Engordou um pouco, ela só fazia massa, massa, massa. E, depois, as viagens gastronômicas, os cursos, os restaurantes desejados, os cadernos de receitas, ela também já não tão mignon, os dois se deixando ficar na cozinha, inventado gostosuras pra surpreender e agradar. Engordou mais. E, jamais tempo para exercícios, ela sempre querendo cinemas e livros e recitais e ele sempre querendo ela. Tá, deixa passar a barriga. Mas aquela cicatriz horrível no braço? Que desagradável aquela risca avermelhada, o braço marcado, imperfeito.  Como foi mesmo? Ah, foi quando ele se colocou no meio de uma linha de papagaio que vinha na direção dela, que verão tão divertido estavam tendo e que sorte que o fio, preparado com cerol, não tinha cortado o tendão. Por pouco.  É, a cicatriz não é tão má. Deixa. Mas e os pés doloridos de acompanhá-la nas inventadas incursões? E as pernas arqueadas de carregá-la quando se cansa ou adormece na volta dos passeios e ele a tira gentilmente do carro? E as mãos calejadas de fazer coisas acontecerem? E os cabelos grisalhos já, no peito, na barba que nasce, na fronte, contando a história de sua presença e de seu desejo sempre ali, naquele banheiro, naquele quarto, naquela casa? E, e, e, que feio é, benzadeus! Porque, porque ela o ama? As mãos de unhas tão vermelhas sabem e pedem a navalha: deixa, deixa, eu faço tua barba.

Vengeance Amère, par Turmalina

A Turmalina não resistiu à tentação da imagem. E respondeu-lhe em francês, com petite histoire a condizer.

Vengeance Amère
par Turmalina


Só mais uns minutinhos e minha vingança estará completa, pensava Anette, debruçada sobre o balcão do Théâtre de l’Odéon.
Foram anos de espera e angústia. E como ele fora tolo. Ela armara tudo direitinho.
Aquela bela loira que sentava-se agora ao lado de Jacques fora perfeitamente plantada em sua vida. À distância, o único trabalho de Anette era o de regar a moça muito bem regada para que seu plano fosse perfeito.
Moça pobre, nascida lá pelas bandas do Marais, bem talhada e com uma facilidade de aprendizado irrepreensível. Nem foi preciso muito para que ela se transformasse numa cortesã de altíssimo nível.
A pobreza ajudou-lhe também a desenvolver requintes de crueldade invejáveis.
Foi assim que elas livraram-se do pobre do Antoine da rue du Fouarre. Afinal ninguém poderia saber que elas compraram o veneno. Seria assinar a culpa sobre o repentino mal estar seguido pela morte súbita e indolor de Jacques. 
Se bem que Anette pensava que a morte dele deveria ser mais lenta. Mas o tal veneno não deixava rastros e resolveria praticamente todos os seus problemas. 
Pelas contas de Anette, Jacques cairia duro em no máximo 15 minutos. No intervalo, a efusiva acompanhante de seu ex amante deu um jeito de avisá-la que a missão havia sido cumprida com sucesso. 
O que ela não esperava é que o Inspetor Bossuet estivesse observando-a lá do outro lado do teatro. Ele desconfiava que ela fosse a mentora de um crime inevitável que estava prestes a acontecer.

Short Story de Julho, by Luciana

por Luciana Nepomuceno

Desejo. Ela sabe. A boca mais seca, a carne mais quente, o sangue mais acelerado no pulso. O corpo inclina-se um pouco mais, as mãos crispam-se no leque, latejam os ouvidos. Ela sente, ela sabe: desejo. Os olhos estreitam-se à procura, ao encontro já daquele corpo que aprisiona sua imaginação há dias. É só por isso que sai de casa: para vê-lo em movimento, o corpo que a atormenta. Óperas, saraus, chás, não há descanso nem recolhimento. Ela arde. Cobrir de negro seu próprio corpo, amortalhar a alma, de nada lhe valem, ela sente, ela sabe: desejo. Sabe da ansiedade e da rispidez com que passará a agir com os mais próximos, sabe da amargura no canto da boca, sabe da noite vazia e do corpo em apelo. Sabe dos gemidos que serão sempre de não. Mas insiste, os olhos insistem, vorazes; o ventre insiste, faminto; desejo. Estreita os olhos: ela advinha os risos e as conversas no balcão que espreita. Mais um pouco, mais um pouco, é quase uma prece, ela repete, mais um pouco, curve-se mais um pouco, tanta cor na roupa, tanta graça no movimento, ela vê o colo, ela antecipa os seios, ah, sua própria carne em espasmo, aquela pele, que gosto terá? Em ríspido movimento, desvia o olhar, inútil renúncia, não há atalhos para o desejo.

O negro céu de Lucy

Presumimos que tenha sido escrita pela calada da noite. É pelo menos fartamente noir. Short e tão perigosa como a Luciana que a assina. Agora, para fazermos o pleno só nos falta uma soft e peaceful short de Mr. Orcama.

Na trilha de Raksin
por Luciana Nepomuceno

A hora: certa. O dia: hoje. O que mais a espanta é a certeza. O deslizar suave da gaveta do arquivo, a mão firme no punho da 45, já ali, insuspeitada, dois passos, a loura nuca vulnerável, o sangue, um passo para trás basta, não há esguicho. Usar o lenço. Limpar a arma. Os tantos sentidos: o acre da pólvora, o surdo da arma na carpete, o rubro a manchar papéis, a seda fria nas mãos, o sal na boca. Ir-se. Chorar na hora de chorar. Dizer: sim, sim, nada havia quando eu saí; e dizer assim: num cruzar e descruzar de pernas e torcendo o lenço. Mas não, mas não, já não lhe bastava aquele corpo, agora danava-se a ter as idéias. Noir demais, sabia-se, e voltou ao trabalho.

Colado ao corpo

A Turmalina entusiasmou-se com o Hopper. Inspirou, inspirou-se e veio acolher-se aqui, a este nosso cemitério. Welcome.

Colado ao Corpo
por Turmalina

Mas…mas…
E ainda tenho que me concentrar, mas como? Aquela dissimulada tem o prazer de me tentar, dia após dia, em doses homeopáticas. O jeito como ela usa o vestido colado ao corpo, ah…aquele corpo tão bem feito e no frescor da idade, faz virar a cabeça de qualquer um. Faz-me derreter por dentro enquanto um desejo violento sai explodindo todos os meus poros. Tento disfarçar e me concentrar no trabalho. As letras na minha frente dançam sobre a trêmula folha de papel branca.
– Se concentre, Atílio! Se concentre, homem!
Aquela voz interna, vulgo consciência, me atormenta incessantemente. Ao tentar disfarçar vejo somente aqueles tornozelos, largos e tão perfeitamente desenhados como as suas avantajadas e portentosas ancas. Fecho os olhos e vejo minhas mãos deslizando por todo aquele corpo moldado prô pecado. E que raios que tanto ela me olha? Fatalmente que é para me ver desconcertado.
Abro a janela na tentativa de respirar melhor e de refrear aquele calor todo que insiste em me queimar por dentro. Aquela inconseqüente sabe que me provoca, faz de propósito, a maldita. Maldito também é aquele seu feitio manso de falar, um quase sussurar, como se pudesse convencer-me que eu estava diante de uma frágil criatura. Frágil que nada, ela é mesmo um demônio em forma de mulher.
Mais um pouco e eu fecho aquela porta, lhe atiro à mesa e a devoro aqui mesmo. Ela vai ver só o que lhe acontece se continuar me tentando assim. Não sou homem de firulas e nem mesmo de meias vontades. Vou dar-lhe mais uma chance, uma única chance, antes que lhe dê motivo para sair por aí me chamando de canalha. E a ordinária continua lá, imóvel, como uma cobra, hipnotizando sua presa antes do bote. Ah…mas a sem vergonha está redondamente enganada, mais alguns instantes e a presa aqui será ela, subjugada e vencida.
Não há tortura maior do que me imaginar sobre o seu corpo, com minhas mãos tateando aquele corpo dos infernos. Uma gota de suor escorre da minha testa dispersando-se sobre a folha de papel que teimo em tentar ler. Não sei quanto tempo mais conseguirei resistir. Deus é testemunha que tentei me controlar, mas o apelo do pecado é bem maior.
– Atílio!
Tomado de susto, percebo o Coriolano na porta da sala.
– O que faz aqui até agora, homem?
– Estou aguardando a menina Ana, do Departamento Pessoal, terminar de arquivar uns documentos.
– Quem?
– A menina Ana, que trabalha no segundo andar, lá no Departamento Pessoal.
– Deu prá beber agora, Atílio? Não há ninguém mais aqui.
– Claro que há, Coriolano, a menina Ana.
– Venha, meu amigo, vamos embora. Acho que você já trabalhou muito por hoje.
– Mas…mas…

Angulação

A Sofia Loureiro dos Santos, que tão bem defende o quadrado, faz e muito bem questão em participar na short story de Junho. Aplaudimos a graciosa colaboração que muito nos honra. Ora leiam.

ANGULAÇÃO
POR SOFIA LOUREIRO DOS SANTOS

Será que acredita? Não sei se deveria ter escrito a azul ou a preto. Preto fica mais masculino e a angulação da letra pode ser que o engane. Pelo menos está com atenção. Mesmo assim terei que cá vir amanhã. Se não encontrar o fundo falso que tenho a certeza que existe neste arquivador, não estou a descortinar uma alternativa para esconder o documento. É impressionante o cuidado com que está a ler, a passar os dedos para atestar a rugosidade conhecida do papel. Mas disfarça bem.

Está a olhar para mim, tenho que me controlar. Tenho que me demorar o suficiente para que perceba onde está o fundo falso. Está bem feita, a carta, a letra parece masculina mas nota-se um ligeiro tremor mos eles e um bico demasiado pronunciado nos  emes e nos enes. Mesmo assim, onde terá arranjado o papel? Ainda por cima hoje escolheu um vestido bem provocante, para ver se a sedução está consumada. Vou convidá-la para jantar. Está à espera disso e não a vou desiludir. Terei que voltar cá amanhã para recolher o documento. Bem, espero que já esteja convencida. Disfarça bem.

Quase um post de Mr. Orcama

Atendendo à raridade da prendinha e à ocasião festiva, atrevemo-nos, no É Tudo Gente Morta e à revelia do próprio, a publicar este quase post de

Mr. Orcama:

“Red & Pink” Joana Vasconcelos,
Olhe quem trouxe comigo para lhe entoar os parabéns:

Obrigado Mr. Orcama

 

short: “abrir o mundo em folhas de cinza”

Já temos mais fogo amigo a animar as nossas short stories. Este chegou assinado pela Sofia Loureiro dos Santos, autora do atentíssimo Defender o Quadrado.

Abrir o mundo em folhas de cinza
por Sofia Loureiro dos Santos

Na cara o esquecimento do vento, olhos bem fechados, o ruído surdo e o embalo do comboio. De lado é como se um enorme tela pintada por quem corre, como o dia que fica para trás. À frente só o emaranhado de cabelo, os pássaros que não vêem mas passam quase colados à vertical do horizonte.

Apetece a vertigem do abismo, dos carris em linha que perigam a vontade irresistível de cair, ficar aonde já não há começo. Para lá do que já passou passa tudo sem saber que morre. Apetece a orgia veloz do desconhecido, sem traços de sangue nem passos firmes. Apetece abrir o mundo em folhas de cinza, irreal e fantasmagórico como os sentidos que adormecem.

Sem sugestão do risco, para lá do que não tem lei.