Short Story de Julho, by Luciana

por Luciana Nepomuceno

Desejo. Ela sabe. A boca mais seca, a carne mais quente, o sangue mais acelerado no pulso. O corpo inclina-se um pouco mais, as mãos crispam-se no leque, latejam os ouvidos. Ela sente, ela sabe: desejo. Os olhos estreitam-se à procura, ao encontro já daquele corpo que aprisiona sua imaginação há dias. É só por isso que sai de casa: para vê-lo em movimento, o corpo que a atormenta. Óperas, saraus, chás, não há descanso nem recolhimento. Ela arde. Cobrir de negro seu próprio corpo, amortalhar a alma, de nada lhe valem, ela sente, ela sabe: desejo. Sabe da ansiedade e da rispidez com que passará a agir com os mais próximos, sabe da amargura no canto da boca, sabe da noite vazia e do corpo em apelo. Sabe dos gemidos que serão sempre de não. Mas insiste, os olhos insistem, vorazes; o ventre insiste, faminto; desejo. Estreita os olhos: ela advinha os risos e as conversas no balcão que espreita. Mais um pouco, mais um pouco, é quase uma prece, ela repete, mais um pouco, curve-se mais um pouco, tanta cor na roupa, tanta graça no movimento, ela vê o colo, ela antecipa os seios, ah, sua própria carne em espasmo, aquela pele, que gosto terá? Em ríspido movimento, desvia o olhar, inútil renúncia, não há atalhos para o desejo.

O negro céu de Lucy

Presumimos que tenha sido escrita pela calada da noite. É pelo menos fartamente noir. Short e tão perigosa como a Luciana que a assina. Agora, para fazermos o pleno só nos falta uma soft e peaceful short de Mr. Orcama.

Na trilha de Raksin
por Luciana Nepomuceno

A hora: certa. O dia: hoje. O que mais a espanta é a certeza. O deslizar suave da gaveta do arquivo, a mão firme no punho da 45, já ali, insuspeitada, dois passos, a loura nuca vulnerável, o sangue, um passo para trás basta, não há esguicho. Usar o lenço. Limpar a arma. Os tantos sentidos: o acre da pólvora, o surdo da arma na carpete, o rubro a manchar papéis, a seda fria nas mãos, o sal na boca. Ir-se. Chorar na hora de chorar. Dizer: sim, sim, nada havia quando eu saí; e dizer assim: num cruzar e descruzar de pernas e torcendo o lenço. Mas não, mas não, já não lhe bastava aquele corpo, agora danava-se a ter as idéias. Noir demais, sabia-se, e voltou ao trabalho.

Colado ao corpo

A Turmalina entusiasmou-se com o Hopper. Inspirou, inspirou-se e veio acolher-se aqui, a este nosso cemitério. Welcome.

Colado ao Corpo
por Turmalina

Mas…mas…
E ainda tenho que me concentrar, mas como? Aquela dissimulada tem o prazer de me tentar, dia após dia, em doses homeopáticas. O jeito como ela usa o vestido colado ao corpo, ah…aquele corpo tão bem feito e no frescor da idade, faz virar a cabeça de qualquer um. Faz-me derreter por dentro enquanto um desejo violento sai explodindo todos os meus poros. Tento disfarçar e me concentrar no trabalho. As letras na minha frente dançam sobre a trêmula folha de papel branca.
– Se concentre, Atílio! Se concentre, homem!
Aquela voz interna, vulgo consciência, me atormenta incessantemente. Ao tentar disfarçar vejo somente aqueles tornozelos, largos e tão perfeitamente desenhados como as suas avantajadas e portentosas ancas. Fecho os olhos e vejo minhas mãos deslizando por todo aquele corpo moldado prô pecado. E que raios que tanto ela me olha? Fatalmente que é para me ver desconcertado.
Abro a janela na tentativa de respirar melhor e de refrear aquele calor todo que insiste em me queimar por dentro. Aquela inconseqüente sabe que me provoca, faz de propósito, a maldita. Maldito também é aquele seu feitio manso de falar, um quase sussurar, como se pudesse convencer-me que eu estava diante de uma frágil criatura. Frágil que nada, ela é mesmo um demônio em forma de mulher.
Mais um pouco e eu fecho aquela porta, lhe atiro à mesa e a devoro aqui mesmo. Ela vai ver só o que lhe acontece se continuar me tentando assim. Não sou homem de firulas e nem mesmo de meias vontades. Vou dar-lhe mais uma chance, uma única chance, antes que lhe dê motivo para sair por aí me chamando de canalha. E a ordinária continua lá, imóvel, como uma cobra, hipnotizando sua presa antes do bote. Ah…mas a sem vergonha está redondamente enganada, mais alguns instantes e a presa aqui será ela, subjugada e vencida.
Não há tortura maior do que me imaginar sobre o seu corpo, com minhas mãos tateando aquele corpo dos infernos. Uma gota de suor escorre da minha testa dispersando-se sobre a folha de papel que teimo em tentar ler. Não sei quanto tempo mais conseguirei resistir. Deus é testemunha que tentei me controlar, mas o apelo do pecado é bem maior.
– Atílio!
Tomado de susto, percebo o Coriolano na porta da sala.
– O que faz aqui até agora, homem?
– Estou aguardando a menina Ana, do Departamento Pessoal, terminar de arquivar uns documentos.
– Quem?
– A menina Ana, que trabalha no segundo andar, lá no Departamento Pessoal.
– Deu prá beber agora, Atílio? Não há ninguém mais aqui.
– Claro que há, Coriolano, a menina Ana.
– Venha, meu amigo, vamos embora. Acho que você já trabalhou muito por hoje.
– Mas…mas…

Angulação

A Sofia Loureiro dos Santos, que tão bem defende o quadrado, faz e muito bem questão em participar na short story de Junho. Aplaudimos a graciosa colaboração que muito nos honra. Ora leiam.

ANGULAÇÃO
POR SOFIA LOUREIRO DOS SANTOS

Será que acredita? Não sei se deveria ter escrito a azul ou a preto. Preto fica mais masculino e a angulação da letra pode ser que o engane. Pelo menos está com atenção. Mesmo assim terei que cá vir amanhã. Se não encontrar o fundo falso que tenho a certeza que existe neste arquivador, não estou a descortinar uma alternativa para esconder o documento. É impressionante o cuidado com que está a ler, a passar os dedos para atestar a rugosidade conhecida do papel. Mas disfarça bem.

Está a olhar para mim, tenho que me controlar. Tenho que me demorar o suficiente para que perceba onde está o fundo falso. Está bem feita, a carta, a letra parece masculina mas nota-se um ligeiro tremor mos eles e um bico demasiado pronunciado nos  emes e nos enes. Mesmo assim, onde terá arranjado o papel? Ainda por cima hoje escolheu um vestido bem provocante, para ver se a sedução está consumada. Vou convidá-la para jantar. Está à espera disso e não a vou desiludir. Terei que voltar cá amanhã para recolher o documento. Bem, espero que já esteja convencida. Disfarça bem.

Quase um post de Mr. Orcama

Atendendo à raridade da prendinha e à ocasião festiva, atrevemo-nos, no É Tudo Gente Morta e à revelia do próprio, a publicar este quase post de

Mr. Orcama:

“Red & Pink” Joana Vasconcelos,
Olhe quem trouxe comigo para lhe entoar os parabéns:

Obrigado Mr. Orcama

 

short: “abrir o mundo em folhas de cinza”

Já temos mais fogo amigo a animar as nossas short stories. Este chegou assinado pela Sofia Loureiro dos Santos, autora do atentíssimo Defender o Quadrado.

Abrir o mundo em folhas de cinza
por Sofia Loureiro dos Santos

Na cara o esquecimento do vento, olhos bem fechados, o ruído surdo e o embalo do comboio. De lado é como se um enorme tela pintada por quem corre, como o dia que fica para trás. À frente só o emaranhado de cabelo, os pássaros que não vêem mas passam quase colados à vertical do horizonte.

Apetece a vertigem do abismo, dos carris em linha que perigam a vontade irresistível de cair, ficar aonde já não há começo. Para lá do que já passou passa tudo sem saber que morre. Apetece a orgia veloz do desconhecido, sem traços de sangue nem passos firmes. Apetece abrir o mundo em folhas de cinza, irreal e fantasmagórico como os sentidos que adormecem.

Sem sugestão do risco, para lá do que não tem lei.

Short-story directamente do Brasil

A nossa primeira short-story, após desafio à bloga, vem do Brasil. Escreveu-a Luciana Nepomuceno que podem conhecer melhor neste blog com o qual a Gente Morta se dá bem.

       

O Encontro,
por Luciana Nepomuceno

              Ela sabia que tinha um encontro e, por isto, arrumou-se com esmero. Até pérolas colocou. Falsas, é claro, mas é preciso lembrar, colocou pérolas, assim se entende que era uma data importante. Vestido quase novo, guardado desde o enterro da irmã, mas preto sempre lhe caiu bem, um pouco de sol afastou o mofo e ela está bonita, um pouco de água de colônia, um batom bem claro, um pouco de coragem e abre a porta. A rua a recebe sem estranheza nem alegria, é mais uma na rua ensolarada, os transeuntes não sabem que ela tem um encontro, o asfalto não sabe, nem mesmo o sol que lá de cima parece tudo conhecer como um olho esfuziante, nem o sol sabe: ela tem um encontro. Os passos são ágeis, a idade verdadeira dá lugar à idade do passo de quem vai a um encontro. Sabe que está atrasada, mas não se apressa, não é preciso suar por um atraso de quarenta e nove anos. O seu sorriso, se alguém reparasse bem, bem serviria para um retrato de monalisa. Ela tem um segredo, ela tem um encontro. Seus passos a conduzem a um tempo que era o tempo deste encontro e que ela ainda não se preocupava se tinha tempo pra fazer o que queria, até ter um encontro, porque ela tinha todo o tempo do mundo. Era o tempo em que ela não andava encurvada, nem acordava com falta de ar, nem usava fraldas para incontinência. Era o tempo que ela só tinha filhos nos óvulos inquietos e não tinha netos nem nas conversas sentimentais com as amigas. Era o tempo do encontro. Era o tempo dos dezessete anos. Era o tempo do trem. Deste tempo ela lembra com clareza. São os fatos e as mortes mais recentes que se envolvem em bruma e que fazem os parentes lastimarem sua condição. Talvez esteja um pouco gagá. Mas se lembra do tempo dos dezessete anos e se lembra do encontro que teria com ele. Lembra da plataforma. Lembra do fim das férias e da hora certa de partir. Lembra da janela, do vento nos cabelos, do rubor nas faces agoniadas de não ter tempo, das frases não ditas. Lembra dele. Ele que chegou tarde, tarde demais, o trem em movimento e dentro dela tudo parado. Palavras por dizer. Lembra dele e de tudo que não aconteceu. Ele que a espera agora com o coração inquieto como no dia em que tinham um encontro que não aconteceu. Ela sabe deste coração cansado e irrequieto, ela sabe, mas seu passo é o mesmo. Ela vai a um encontro e é de bom tom não apressar-se. Mas seu coração se apressa porque lembra a primeira vez que o viu. Ele lia e havia em sua testa marcas da concentração. Uma contração que ela quis imediatamente afagar, desfazer e pôr no rosto um sorriso. Um rosto desconhecido, mas que ela trazia em si sem saber. Estava passeando com as amigas, a praça era local de encontro preferido, tomavam refrescos e andavam a cochichar e a dar risinhos que hoje ela sabia tolos, mas risinhos de dezessete anos são assim, tolos. Ou eram, no seu tempo. Ela já não sabe se são os mesmos os dezessete anos das meninas. Só sabe que nos seus poucos anos andava com as amigas e o viu. As vozes cochichando e os risinhos tornaram-se distantes como a lua que nem tinha sido pisada pelo homem e ela pensou: olhe-me. Ele levantou os olhos cansados do livro e a olhou. Ela pensou ainda mais forte: queira-me. Pensou assim: queira-me, porque ela já o queria, não sabia ainda das coisas do corpo, só se casaria cinco anos depois, mas o quis em calor, em mãos frias, respiração suspensa, seios que doíam por amamentar filhos ainda por fazer. Ele a olhou e a quis, tal como ela ordenou. Foram as únicas ordens que deu, pois desde o momento em que os olhos contaram este querer de um pro outro, ele era homem e ela não era mulher de ter um homem que recebesse comando de mulher. Ele veio e a cumprimentou, os risinhos tolos aumentaram, disto ela lembra, não lembra é o que conversaram porque seu corpo estava ocupado em guardar, de forma a nunca esquecer, os sentidos que ela sentia de ter o seu homem assim perto. Porque eles eram um do outro, disto se sabia de ver pela primeira vez e ela soube assim: meu homem, e foi tratando bem depressa de se acostumar a ele. Não era difícil se acostumar àquela voz grave que fazia sua perna tremer que nem vara verde, era assim que se dizia nos livros, era assim que ela sentia. Porque era moça lida, enquanto seu próprio romance não chegava, desvendava os que lhe caíam na mão — e que sua família lhe permitia ler. Pois bem, a voz rouca lhe foi agradável, tanto quanto as palavras que ela proferiu, embora destas ela não lembre. Mas lembra que quis aquela vibração que a voz lhe produzia bem no centro do tórax, quis que ela se repetisse sempre. Lembra o calor de qualquer lugar em seu corpo que ele tocasse ou olhasse. Lembra que ele foi o primeiro, do que se chamava pretendente, e lembra que o quis sem saber para quê como nunca quis nenhum outro que se seguiu ao encontro que não houve. Exceção talvez para o que veio a ser seu marido, mas isto ela sabe que não pode saber, casou-se, isto muda este querer primeiro, são trinta e dois anos interferindo no lembrar de querer a primeira vez. Mas este do encontro, nada interfere neste pensar: eu o quis sem saber para quê e era tanto querer que o ar e o dizer me faltaram. Ainda bem que a ele só faltava ela, pois foi justo isto o que ele disse para marcar o encontro, pronto, lembrou de uma das frases, talvez a última: na minha vida falta você, por favor não deixe que ela fique assim a sofrer, incompleta. Hoje não tem a mesma expressão. Mas nela tem o mesmo efeito, parada para atravessar um cruzamento, seu corpo estremece, varado por um arrepio de antecipação. Do outro lado da rua há uma estação, o trem, há o homem e o encontro que não aconteceu.

Desafio à bloga: escrevam uma short neste cemitério

Lançamos um desafio à blogosfera: venham escrever neste cemitério. Sejam também Gente Morta.
Explicamo-nos: está em curso um desafio lançado pela Eugénia de Vasconcellos aos co-autores de É Tudo Gente Morta, o de cada um escrever uma short-story tomando como pretexto esta imagem.

Houve, noutros blogs, quem achasse graça e nos tenha dito. Percebemos logo que a verdadeira graça era darem-nos o prazer (e a subida honra, lailailai) de virem passar um dia ao nosso cemitério. Alargamos, por isso, e a partir de agora,  o desafio a todos os estimados bloggers que escrevam em língua portuguesa.
Se aceitarem, enviem para o nosso e-mail uma short-story que convirá não ultrapassar os 6 mil caracteres. Está claro: nós publicamos e com link para o blog do autor.
Estimados bloggers, venham de lá esses ossos.

O Trem de T
Como os zombies do Cemitério não se chegam à frente — não é PN? não é MSF? não é JV? — têm de vir as almas penadas dos nossos leitores depositar o narrativo óbulo na boca do barqueiro. A Turmalina, respondendo ao desafio da EV, pôs-se em pontas. Leiam.

Coisas de menina
by Turmalina

O vestido era de festa e eram os poucos dias de calor que experimentávamos.Tão acostumados ao branco da neve, quando chegava o verão era exatamente de branco que nos vestíamos. Parece um pouco de falta de originalidade, mas era só um a questão de costume.Ou talvez minha mãe fosse mesmo muito tradicional.
Seriam 15 horas de São Petersburgo até Helsinki em condições não tão confortáveis assim, mas eu não me importava, sentia-me livre. Os últimos dias não foram fáceis. Eu gostava de ser a Fada Açucarada, mas para tanto era preciso mais do que açucar.
Aos 11 anos era muita responsabilidade fazer parte do corpo de baile do Kirov. Eram muitas as cobranças, minhas mesmas.Mas era impossível esquecer também a rigidez dos professores, e principalmente a da minha mãe. Lembro que nos ensaios, em vésperas de apresentação, meus pés doídam de segunda à segunda, sem descanso. A ponta dos dedos, então, viviam dormentes. Se bem que os aplausos abafavam qualquer dor e confortavam-me imensamente a alma.
Mas lembro-me especialmente deste dia, do cheiro da lenha queimando nas fornalhas, com meus cabelos rebelando-se ao vento, enquanto o trem avançava ruidoso.Eu ia para o Festival de Artes e Cultura que acontecia todo ano na capital da Finlândia. Mas ia com meu pai. Com ele me sentia amada e segura. Podia até tomar sorvete e me sujar, podia falar tudo o que me vinha à cabeça sem o medo de ser repreendida.Com meu pai eu era feliz e era criança.
Até hoje quando abro a caixinha de música que ele me comprou naquele dia, deixo escapar um suspiro de saudade.Saudade de um dia que foi realmente feliz!

O dragão da cabaia*, by António Eça de Queiroz

Na tentativa de descoberta de armas de destruição maciça, o nosso Cemitério tem vindo a ser invadido. Primeiro pela Turmalina, agora pelo Eça.  O ETGM não se importa e até permite a entrada de dragões, vá lá, azulados. Damos as boas vinda ao homem que gosta muito de dragões.

 

Eu gosto muito de dragões.
Gosto da Coca de Monção, gosto do dragão do FCP – que é o mesmo que encima as armas da cidade. Mas, acima de tudo, gosto do meu dragão.
Obtive-o a partir de uma foto em que Eça está vestido com a cabaia que o seu amigo Bernardo Pindela lhe trouxe de Macau – e que eu suponho representar uma elegante homenagem ao escritor e à sua participação especial num grande acto humano.
N’O mandarim Eça nunca explica objectivamente porque nunca se deve fazer soar a campainha que determinará o fim do rico mandarim, que vive distante e incógnito lá «no fundo da China» segundo as frases mágicas que Teodoro lê, entre o sono e o sonho, nas páginas do velho in-fólio Brecha das Almas.
De facto, só no estranho prólogo teatral desta fábula alegórica se vislumbra algo: o 1º amigo quer «repousar do áspero estudo da Realidade humana». O 2º amigo aceita o alvitre com uma reserva: «Mas sobriamente, camarada, parcamente!… E como nas sábias e amáveis alegorias da Renascença, misturando-lhe sempre uma Moralidade discreta…»
A explicação da advertência de Eça para que «nunca mates o mandarim» – e que encerra a tal «Moralidade discreta» exigida pelo 2º amigo – é o que penso ter descoberto há uns anos.
Colocado em Havana em 1872, Eça logo denuncia o tratamento infra-humano imposto aos milhares de chineses que, chegados de Macau, engrossam as hordas de trabalhadores de que toda a economia cubana tanto carece. Com tal atitude Eça conquistou de uma assentada grossa falange de inimigos entusiastas e uma data de problemas.
Revolta-se com especial ênfase contra a legislação dirigida ao trabalhador ‘coolie’ – termo depreciativo para o emigrante chinês –, que representa, afinal, uma armadilha sem saída: o seu contrato de trabalho – que lhe assegura mal os limites da sobrevivência – é por oito anos; findo este tempo, o ‘coolie’ pode apenas voltar à China (com que dinheiro?), renovar o contrato, ou então recolher aos chamados «depósitos» – autênticos ghettos repletos de miseráveis permanentemente explorados por quem lhes fornece alimentação a preços da usura. Quando alguém precisa de mão-de-obra, vai lá e requisita oficialmente… escravos!
Considera o cônsul não haver «ninguém mais infeliz do que o ‘coolie’ (…) a não ser o Fellah no Egipto e na Núbia»
No seu livro «Eça de Queiroz e o século XIX», o escritor brasileiro Viana Moog descreve a situação em que o diplomata português se encontra, no auge deste seu combate humanitário sob bandeira oficial: «Em face desta situação, o cônsul Eça de Queiroz tem que optar por uma destas alternativas: ou adere à Comissão Central» – que, actuando à margem de qualquer lei, boicotava todos os pedidos de nacionalidade portuguesa solicitados pelos ‘coolie’ junto da representação diplomática – «ou luta contra ela. No primeiro caso tornar-se-á rico, receberá toda a classe de considerações, sobretudo se soube de começo simular hostilidade capaz de alarmar os negociantes. No segundo caso, terá de percorrer um caminho cheio de lutas, de ameaças e dissabores».
Ou seja: Eça sabe perfeitamente que lhe bastaria entrar em tal «jogo» para ficar rico de vez! – e que está mesmo na posição ideal para o fazer, pois quem ajudara a criar a máquina esclavagista tinha sido o seu antecessor, o cônsul português Fernando de Gaver.
Não fugirá, no entanto, à sua atitude idealista inicial, como refere Moog: «Não tem dúvidas ou vacilações. Fica ao lado dos chineses», lutando «contra tudo e contra todos, em defesa da massa anónima dos oprimidos que nada lhe podem dar em troca».
E é nesta intensa e desigual luta de já dois anos – em que passou centenas de certidões portuguesas para que muitos destes chineses emigrassem depois para o Chile e Peru, que surge em cena o marquês de Chin-Lan-Pin. Tratava-se de um elemento do conselho imperial da China em função diplomática. Uma comissão por si chefiada passeia-se por Cuba aparentando inteirar-se das condições dos seus compatriotas emigrados. Chin-Lan-Pin promete tudo a todos, mas nada mudará entretanto.
E com isso retira todo e qualquer protagonismo a Eça que, realmente, era o único ser ali preocupado com o destino de todos aqueles paupérrimos reféns.
Aqui é natural que alguém se pergunte o que afinal tem tudo isto a ver com o livro O mandarim – publicado seis anos mais tarde no Diário de Portugal sob a forma de folhetim.
Omiti propositadamente a categoria social a que pertencia o plenipotenciário chinês que se cruzara anos antes com Eça em Cuba. Porque o marquês de Chin-Lan-Pin era simplesmente um mandarim de 1ª classe…
Agora, já com o título do livro, vamos à procura da tal campainha em que nunca se deve tocar…
E aí está ela, bem visível na vil riqueza que Eça teria arrecadado facilmente se tivesse fechado os olhos àquela infâmia. Bastava, enfim, ter feito soar a campainha – um gesto mental que certamente consideraria habitual no ser poderoso e falso que se escondia sob a cabaia chinesa do oriental marquês.
O tal mandarim a quem mais tarde Eça acaba idealmente os dias no conto fantástico que escreveu com esse título, utilizando para tanto o medíocre, inconsistente e portuguesíssimo Teodoro. 

António Eça de Queiroz
*Síntese do texto A campainha do Mandarim, publicado em Eça de Queiroz e os seus clones (G&P)

tarde, tarde demais, by Turmalina

A Turmalina sentiu-se inspirada pelo primeiro desafio da Eugénia. Tarde demais, porque o desafio mudou. Mas fica aqui, com vénia da Gente Morta, a short story que ela enviou.

 

Eram pequenos olhinhos brilhantes, quase minúsculos, que a observavam. Ela cavava, cavava e cavava num gesto tresloucado e sem fim. O silêncio da floresta refletia o silêncio da sua alma. E havia  um vazio , um abismo entre seu corpo e sua  existência. Aonde havia de ter se perdido? Entre um sorriso e um abraço que tanta falta lhe fazia?
A noite se aproxima e não há caminho de volta. Perdera suas crenças e seu amor próprio. Vendera a alma ao diabo. Não lhe restaram nem mais lágrimas que pudesse verter agora. A culpa envenenava-a, gota a gota. Ela podia ter dito não.
Seu desespero era tanto que não percebia que pequenos olhinhos a observavam. Ela sabia que não haveria mais tempo, na manhã seguinte estaria tudo terminado. Sempre perdera e não seria agora que haveria de ganhar. É tarde, muito tarde, tarde demais.
Exausta, sentou-se aninhada entre as raízes da frondosa árvore, abraçou os joelhos, abaixou a cabeça, contraiu-se e mais uma vez tentou chorar.Seus delicados braços em torno dos joelhos tremiam de dor e frio. Suas mãos , encardidas de tanto cavar, adormeceram de cansaço.Aos poucos começou a escutar os sons da floresta.
Pareciam grilos, pareciam galhos, pareciam passos, não, pareciam pássaros. Mas era tudo tão confuso. Tudo doía-lhe, o corpo, a alma e até o estômago. Há quanto tempo estava alí? Não conseguia nem lembrar-se  de como é que chegou lá. Só sabia que era tarde, tarde demais.
Aos poucos foi acalmando-se e logo o sono veio. E aqueles pequenos olhinhos continuavam ali, velando seu sono. Apesar de já adulta parecia ainda uma menina. Aquela mesma menina que quando criança passeava por este mesmo bosque, rindo enquanto seu pai contava-lhe estórias engraçadas. E que na primavera colhia pequenas flores nascidas aos pés das árvores para enfeitar os longos cabelos da sua mãe.
Era madrugada e ela dormia, coberta pelo frio, fome e solidão.E principalmente pela terrível culpa. Aquela mulher que já não tinha pai, nem mãe, nem filhos, nem nada, dormia o sono que não era bem o dos justos. O dia parecia querer amanhecer. E aqueles pequenos olhinhos brilhantes agora choravam ao escutar as moto serras invadindo a floresta. Era mesmo tarde, tarde demais.   

Bibliófilo nas alturas

Carla Lopes, nossa leitora brasileira, quis, respondendo a evocação que o Gente Morta fez por ocasião do passamento de José Mindlin, um fanático apaixonado do livro e dos livros, deixar aqui uma encantada homenagem a que nos juntamos com igual admiração.

Em 28 de Fevereiro deste ano encerrou-se mais um capítulo de uma linda história de amor.
Jose Ephim Mindlin (1914 — 2010), deixou orfãos, principalmente, os livros que tanto amava. Em seus 95 anos de vida, leu aproximadamente 6 mil livros. Sabendo que sua paixão pelos livros começou aos 13 anos, quando ganhou de uma tia a coleção História do Brasil, do Frei Vicente Salvador, ele leu praticamente um livro à cada 5 dias.
Filho de um casal de judeus russos que resolveu “fazer a América” na cidade de São Paulo, aos 15 anos foi contratado como repórter do Estado de São Paulo, dirigido na época por Rangel Pestana, que era muito amigo de seu pai. Durante a revolução de 1930, por ser um dos únicos na redação que falava inglês, ficou responsável por passar informações, por telefone, aos revolucionários no Rio de Janeiro, driblando assim a censura.
Deixou o jornalismo em 32, quando ingressou na Faculdade de Direito.Logo nos primeiros dias de aula do quinto ano conheceu Guita, com quem viria a se casar alguns meses depois.Com ela compartilhava a paixão pelos livros.Era a própria Guita quem restaurava os livros que Mindlin adquiria. Em 2006 ele enviuvou, depois de 68 anos juntos.
Ainda como advogado, na época da Segunda Guerra, conseguiu transformar vistos temporários para turistas em permanentes, assegurando assim a vinda de diversas famílias de refugiados judeus.
Era amigo pessoal e leitor fanático da obra de Guimarães Rosa, a quem chamava de “almofadinha”. Aos 32 anos, em sociedade com Claude Blum, fundou a livraria Parthenon, em São Paulo, especializada em livros raros. E assim iniciou sua busca por obras raras para sua biblioteca particular. Ele dizia: ” Se você tem o dinheiro para comprar esse livro, compra, porque o dinheiro volta, mas esse livro pode não voltar”. Nesta sua paixão por livros chegou a esperar 20 anos para finalmente adquirir a primeira edição de O Guarani, de José de Alencar.
Questionado pela reportagem do jornal A Folha de São Paulo, em 2004, se existia um livro preferido em meio a tantos que colecionava, Mindlin disse que uma das características da bibliofilia era a poligamia. “Não há como dizer prefiro este ou aquele”, afirmou. Mas considerava duas obras em especial, como sendo livros da vida de qualquer pessoa: Memórias Póstumas de Bráz Cubas, de Machado de Assis e Grande Sertão: Veredas, do amigo Guimarães Rosa.
Mindlin deixou de presente para o futuro um acervo com aproximadamente 40 mil títulos, entre obras da literatura brasileira e portuguesa, relatos de viajantes, manuscritos históricos, periódicos, livros científicos e didáticos. 

Livros indicados por Mindlin:  

As mil e uma noites
Bagagem — Adélia Prado
Le Grand Meaulnes — Alain Fournier
A Peste — Albert Camus
Os Três Mosqueteiros — Alexandre Dumas
A Ilha dos Pingüins - Anatole France
Sermões — Antônio Vieira
A Torre do Orgulho — Barbara Tuchman
A Flor do Mal — Baudelaire
Adolfo - Benjamin Constant
Decameron — Boccacio
Grandes Esperanças — Charles Dickens
O Amanuense Belmiro — Cyro dos Anjos
Robson Crusoé —  Daniel Defoe
Jacques, o fatalista — Diderot
Crime e Castigo — Dostoiévisk
Os Maias — Eça de Queiroz
O Morro dos Ventos Uivantes — Emily Brontë
O Tempo e o Vento — Érico Veríssimo
Tom Jones — Fielding
O Processo — Franz Kafka
Cem Anos de Solidão — Gabriel Garcia Marquez
Casa Grande e Senzala —  Gilberto Freire
Vidas Secas — Graciliano Ramos
Grande Sertão: Veredas — Guimarães Rosa
Minha Vida de Menina — Helena Morley
O Lobo da Estepe - Herman Hesse
Comédia Humana — Balzac
Orgulho e Preconceito — Jane Austen
Confissões, origem da desigualdade - Rousseau 
A Biblioteca de Babel — Jorge Luis Borges 
O Guarani — José de Alencar
Menino do Engenho — José Lins do Rego
Lord Jim — Joseph Conrad
Rayuela — Julio Cortazar
Triste Fim de Policarpo Quaresma — Lima Barreto
Os Lusíadas — Luis de Camões
Memórias Póstumas de Bráz Cubas — Machado de Assis
Em Busca do Tempo Perdido — Marcel Proust
Macunaíma — Mario de Andrade
Don Quixote — Miguel de Cervantes
Cartas Persas — Montesquieu
A Carta Escarlate — Nathaniel Howthorne
Diálogos — Platão
O Quinze — Rachel de Queiroz
O Ateneu — Raul Pompéia
O Vermelho e o Negro — Stendhal
A Montanha Mágica — Thomas Mann
Guerra e Paz — Tolstói
Conversa na Catedral — Vargas Llosa
Os Miseráveis — Victor Hugo
Eneida — Virgílio
Orlando — Virginia Woolf

O cemitério encantado

um post misericordioso de NINI

O Rapto das Filhas de Leuripto, Peter Paul Rubens

Respirava-se bem e fresco cá fora. Ao passear distraída por aí, deparei-me com algo novo que ostentava um nome no mínimo surpreendente. Sem saber o que me esperava, entrei. Era a primeira vez que por ali passava e ainda estava em construção, percebiam-se os trabalhos de última hora, que depressa foram ultrapassados com mestria, e peça a peça foi sendo edificado o que hoje é a morada de “É Tudo Gente Morta”.
Entretanto, começou a chegar mais Gente, e ampliaram a construção. Por vezes, quando passava, também colocava umas pedrinhas num muro que fica nas traseiras, onde uns jogam de dia e todos se divertem à noite. Não os conheci a todos em pormenor, não tive tempo, são muitos e dispersam-se por um espaço amplo, grande e harmonioso. Bem dispostos e divertidos, também têm dias de “amuos” e “embirrações”, e aí, o melhor é transitar em silêncio e sair.
Ah! E adoram pôr-nos à prova. Devagar, sem darmos por isso, estamos nos contos de Saint-Exupéry, e cativos, passamos por lá cada vez mais, e mais vezes, se entramos no seu jogo ficam-nos com a alma; com a minha não, que essa há muito que a deixei em Upper East Side, a flutuar no chumbo das águas do East River, iluminada por um céu púrpura numa explosão de luz e cor como num quadro de Kandinsky.
Depois de se entrar há Penitências para quem quiser sair; a minha fica aqui paga. Apesar do estado comatoso, e do Sindroma de Estocolmo que permanece em mim, aconselho febrilmente esta alucinante experiência. Agora parto, vou celebrar o Jubileu com a Virgem Negra em Notre Dame du Puy.

 

P.S. — Este é o terceiro post de leitores do É Tudo Gente Morta. Não é nenhuma política do blog, nem lailailai. É assim porque gostamos muito dos comentários deles. Dão-nos imensa vontade de os ler. Já conseguimos ter o António, a Turmalina, agora a NINI. Falta-nos o Orcama, a que um dia faremos oferta que não possa recusar. E mais haverá, muito em breve.
Nini, ficamos-lhe mortalmente gratos. 

Caridade, até aonde uma virtude

Um post de Turmalina

E  disse Paulo:
“Se eu falar as línguas dos anjos; se tiver o dom de profecia, e penetrar todos os mistérios; se tiver toda a fé possível, a ponto de transportar montanhas, mas não tiver caridade, nada sou. Entre essas três virtudes: a fé, a esperança e a caridade, a mais excelente é a caridade”.    (  I Coríntios, XIII: 1–7 e 13)
“Caridade — do latim caritas (amor), de carus (caro, de alto valor, digno de apreço, de amor). Identifica-se hoje, freqüentemente, a caridade com um afeto piegas que se traduz por gestos de assistência paternalista. O termo evoca, imediatamente, a idéia de esmola, tanto que a expressão viver de caridade pública, significa viver de esmolas. “(Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo).
Encontramos aí um abismo entre as duas definições e me pergunto de que lado estou. Eu acredito que pessoas nasçam ou não caridosas, desde os tempos do homem selvagem, de Rousseau. É da natureza de cada um.  Mas chamar de afeto piegas e paternalista é um pouco de exagero, embora não discorde totalmente dessa afirmação, afinal em nome de “Deus” comete-se muita caridade, numa forma discreta de despotismo.
E  os cristãos pregam ainda que :
 “a caridade é a virtude teologal pela qual amamos  a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos por amor de Deus.  A caridade é «o vínculo da perfeição»  e o fundamento das outras  virtudes, que ela anima, inspira e ordena: sem ela «não sou nada» e «nada me aproveita» (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica.)”.
Que me perdoe a Igreja, mas vejo a Caridade como um gesto ou uma atividade  laica, mesmo considerando Zilda Arns e Madre Teresa exemplos de caridade abnegada. Porque em questões que envolvem toda uma sociedade, o pensamento crítico racional me parece mais eficaz que a manifestação da fé.
O minha noção de caridade difere um pouco das definições católicas e morais. É bem mais íntima, simples e  sutil. Como um  professor que pacientemente abre um novo horizonte para aquele aluno tido como caso perdido.Como o vizinho que você vê toda manhã, e que mal conhece,mas que vem prestar-lhe solidariedade num momento de aperto.Como a moça que vendo uma criança passando frio na rua tira seu próprio casaco para aquecer aquele frágil e pequeno pedaço de gente, mesmo sabendo que nunca mais irá ver aquele seu casaco favorito.São inúmeros os exemplos de pessoas normais movidas por uma caridade natural.
Quando a caridade é muita eu desconfio, pois pode tratar-se de um disfarce da vaidade. Quem imaginaria prepotência maior do que ser caridoso em troca de reconhecimento? Ou mesmo um lugar garantido no céu. Seria interessante se os homens tivessem como se justificarem diante da presença divina. Já vejo, inclusive, algumas figuras ilustres com suas listinhas em papel  timbrado. Homens do povo, caridosos, acima de qualquer suspeita. E podemos pensar na caridade ainda como forma de dominação, dependência e hierarquia.

Pieter Pauwel Rubens, caridade romana

Bem, acho que ficou claro como podemos transformar uma virtude num pecado, não é?
E assim eu vivo a vida, desconfiando tanto das virtudes quanto dos pecados… afinal como diria meu querido Willian: “Existem mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a sua filosofia”.

Surpresa é pecado ou virtude?

É Tudo Gente Morta, desafiado por Nini, leitora muito mais imaginativa do que os refastelados mortos deste cemitério, está a fazer o inventário de pecados mortais e virtudes cardeais. Um por autor. Sobraram dois e resolvemos convidar a participar os leitores e comentadores que nos acompanham desde o começo. António Eça de Queiroz foi o primeiro. Hoje temos surpresa do outro lado do Atlântico. Daqui a 15 segundos vai surgir, ali em cima, o post de Turmalina,autora deste blog brasileiro, a que fazemos admirativa vénia.

Humildade

Um post de António Eça de Queiroz

Oh!, com que comovida humildade recebi o amável convite do Manuel. Logo senti espelhar-se em todo o meu eu a exacta perfeição do Grande Arquitecto do Universo e respectiva obra!… Comigo, espelho meu e dos outros, incluído no pacote – como é público e notório.
Não se trata de veneno, não. É vitríolo puro metido no chuveiro ao acordar, para me derreter em farândolas e fumarolas guinchantes, cheias de plástico esplendor,  e de seguida enfiar-me ralo abaixo numa pressinha de perfumado benzovaque.
Porque MSF sabe provavelmente tão bem como eu que nada sei sobre semelhante vocábulo. Nem eu nem ninguém das minhas relações. Porque é uma palavra da realidade abstracta, de significado totalmente ambíguo – como tentarei provar no decurso da minha defesa.
Einstein garantiu que Deus tinha sido forreta com ele porque só lhe tinha dado como qualidade a teimosia das mulas. Trata-se afinal de natural vaidade eloquentemente encapotada, mais nada – nunca humildade. Porque embora o genial físico tenha procurado e encontrado razões para ser humilde, apenas conseguiu esboçar levemente o gesto. Em tal nível Espinosa aproximou-se bem mais, nada dizendo de si, não aparecendo, não vencendo o Tempo em vida.
Humildade não é contrária de coisa nenhuma: não o é da vaidade, da arrogância, os tais parassinónimos do orgulho e da soberba, entre outros tantos. Nem sequer é a ausência de.
Sim, é verdade, encontramos características que definimos como sinais de humildade: o olhar cândido de certos velhotes do campo (de condição humilde, vá), ou o do esforçado arrumador (que depende em boa parte desse mesmo olhar), ou o do cão escorraçado no meio do seu sentimento real de medo triste, em tudo idêntico ao das crianças flageladas.
Trata-se de representações de condição, não dum estado de consciência tantas vezes reclamado pelo universo moral como qualidade suprema.
Na maioria dos casos não passa duma máscara.
Mas!…, realmente, os Frades Menores (frater minor, ou irmãos dos menores) equacionaram esse estado do ser há quase mil anos perseguindo um ideal crístico com rigor absolutamente inédito na sociedade e na Igreja do século. Símbolos de tão radical movimento, as personalidades dos seus irmãos mais velhos, Francisco e António – ambos nascidos em berços ricos bem cedo trocados pelo cuidar e pelo conviver com aquilo que muito indiano justo classificaria ainda hoje de intocável (afinal como intocáveis são para nós os andrajos dos mendigos mais patéticos) –, exibem um desapego terreno tal que é aceitável concluir que, esses sim, encontraram a humildade para só nela aceitarem viver. Porque a amaram, como amaram o plasma espiritual emanado do ser que os inspirou no gesto.
Não há materialistas humildes, a sua hipotética manifestação de humildade não passa de vaidade da coerência.
Humildade é coisa de santos, esses seres privados que não se vêem porque só aparecem onde não podem ser vistos. 

Pecados cardeais, virtudes mortais: a surpresa

Quando neste É Tudo Gente Morta se anunciou a série de posts sobre pecado e virtudes, prometeu-se uma surpresa. Vamos ter duas. A primeira é do post que vai aparecer já aqui, por cima, daqui a um minuto.

Assina-o António Eça de Queiroz, autor de “Eça e os Seus Clones” e co-autor de “Porto vs Lisboa”. Habitual e extraordinário comentador deste blog, aceitou agora escrever, como convidado, uma bela oração sobre a Humildade. Não sabemos porquê, achamo-lo inspirado por Santo António, o de Lisboa, claro. A Gente Morta agradece-te, António.

Prometemos que haverá mais: esta é a primeira, mas não a última das surpresas do É Tudo Gente Morta.

Pecados e Virtudes

Comunicado

É Tudo Gente Morta deve uma explicação aos seus leitores. Está em curso um torneio medieval entre os autores do blog: uma verdadeira e sangrenta batalha entre terríveis vícios e as mais doces bondades de cada um. Nos próximos dias vão, por isso, surgir manifestos e desagravos sobre os 7 pecados mortais e as 7 virtudes mais ou menos cardeais.
O repto foi proposto por uma leitora, Nini, a cuja ideia fazemos a devida vénia. As primeiras respostas — Pedro Marta Santos disse da inveja, Eugénia de Vasconcellos sobre a gula — já podem ser lidas em baixo e tornam tudo mais fácil ( basta aos restantes autores imitá-los) e tudo muito mais difícil (estão os dois muito acima dos máximos olímpicos).
Há outra boa notícia: temos uma supresa.

 

Inauguração solene a 1 de Outubro

Walker Evans Grave

Este cemitério aceita visitantes a partir do próximo dia 1 de Outubro.

À meia-noite!