A nossa primeira short-story, após desafio à bloga, vem do Brasil. Escreveu-a Luciana Nepomuceno que podem conhecer melhor neste blog com o qual a Gente Morta se dá bem.
O Encontro,
por Luciana Nepomuceno
Ela sabia que tinha um encontro e, por isto, arrumou-se com esmero. Até pérolas colocou. Falsas, é claro, mas é preciso lembrar, colocou pérolas, assim se entende que era uma data importante. Vestido quase novo, guardado desde o enterro da irmã, mas preto sempre lhe caiu bem, um pouco de sol afastou o mofo e ela está bonita, um pouco de água de colônia, um batom bem claro, um pouco de coragem e abre a porta. A rua a recebe sem estranheza nem alegria, é mais uma na rua ensolarada, os transeuntes não sabem que ela tem um encontro, o asfalto não sabe, nem mesmo o sol que lá de cima parece tudo conhecer como um olho esfuziante, nem o sol sabe: ela tem um encontro. Os passos são ágeis, a idade verdadeira dá lugar à idade do passo de quem vai a um encontro. Sabe que está atrasada, mas não se apressa, não é preciso suar por um atraso de quarenta e nove anos. O seu sorriso, se alguém reparasse bem, bem serviria para um retrato de monalisa. Ela tem um segredo, ela tem um encontro. Seus passos a conduzem a um tempo que era o tempo deste encontro e que ela ainda não se preocupava se tinha tempo pra fazer o que queria, até ter um encontro, porque ela tinha todo o tempo do mundo. Era o tempo em que ela não andava encurvada, nem acordava com falta de ar, nem usava fraldas para incontinência. Era o tempo que ela só tinha filhos nos óvulos inquietos e não tinha netos nem nas conversas sentimentais com as amigas. Era o tempo do encontro. Era o tempo dos dezessete anos. Era o tempo do trem. Deste tempo ela lembra com clareza. São os fatos e as mortes mais recentes que se envolvem em bruma e que fazem os parentes lastimarem sua condição. Talvez esteja um pouco gagá. Mas se lembra do tempo dos dezessete anos e se lembra do encontro que teria com ele. Lembra da plataforma. Lembra do fim das férias e da hora certa de partir. Lembra da janela, do vento nos cabelos, do rubor nas faces agoniadas de não ter tempo, das frases não ditas. Lembra dele. Ele que chegou tarde, tarde demais, o trem em movimento e dentro dela tudo parado. Palavras por dizer. Lembra dele e de tudo que não aconteceu. Ele que a espera agora com o coração inquieto como no dia em que tinham um encontro que não aconteceu. Ela sabe deste coração cansado e irrequieto, ela sabe, mas seu passo é o mesmo. Ela vai a um encontro e é de bom tom não apressar-se. Mas seu coração se apressa porque lembra a primeira vez que o viu. Ele lia e havia em sua testa marcas da concentração. Uma contração que ela quis imediatamente afagar, desfazer e pôr no rosto um sorriso. Um rosto desconhecido, mas que ela trazia em si sem saber. Estava passeando com as amigas, a praça era local de encontro preferido, tomavam refrescos e andavam a cochichar e a dar risinhos que hoje ela sabia tolos, mas risinhos de dezessete anos são assim, tolos. Ou eram, no seu tempo. Ela já não sabe se são os mesmos os dezessete anos das meninas. Só sabe que nos seus poucos anos andava com as amigas e o viu. As vozes cochichando e os risinhos tornaram-se distantes como a lua que nem tinha sido pisada pelo homem e ela pensou: olhe-me. Ele levantou os olhos cansados do livro e a olhou. Ela pensou ainda mais forte: queira-me. Pensou assim: queira-me, porque ela já o queria, não sabia ainda das coisas do corpo, só se casaria cinco anos depois, mas o quis em calor, em mãos frias, respiração suspensa, seios que doíam por amamentar filhos ainda por fazer. Ele a olhou e a quis, tal como ela ordenou. Foram as únicas ordens que deu, pois desde o momento em que os olhos contaram este querer de um pro outro, ele era homem e ela não era mulher de ter um homem que recebesse comando de mulher. Ele veio e a cumprimentou, os risinhos tolos aumentaram, disto ela lembra, não lembra é o que conversaram porque seu corpo estava ocupado em guardar, de forma a nunca esquecer, os sentidos que ela sentia de ter o seu homem assim perto. Porque eles eram um do outro, disto se sabia de ver pela primeira vez e ela soube assim: meu homem, e foi tratando bem depressa de se acostumar a ele. Não era difícil se acostumar àquela voz grave que fazia sua perna tremer que nem vara verde, era assim que se dizia nos livros, era assim que ela sentia. Porque era moça lida, enquanto seu próprio romance não chegava, desvendava os que lhe caíam na mão — e que sua família lhe permitia ler. Pois bem, a voz rouca lhe foi agradável, tanto quanto as palavras que ela proferiu, embora destas ela não lembre. Mas lembra que quis aquela vibração que a voz lhe produzia bem no centro do tórax, quis que ela se repetisse sempre. Lembra o calor de qualquer lugar em seu corpo que ele tocasse ou olhasse. Lembra que ele foi o primeiro, do que se chamava pretendente, e lembra que o quis sem saber para quê como nunca quis nenhum outro que se seguiu ao encontro que não houve. Exceção talvez para o que veio a ser seu marido, mas isto ela sabe que não pode saber, casou-se, isto muda este querer primeiro, são trinta e dois anos interferindo no lembrar de querer a primeira vez. Mas este do encontro, nada interfere neste pensar: eu o quis sem saber para quê e era tanto querer que o ar e o dizer me faltaram. Ainda bem que a ele só faltava ela, pois foi justo isto o que ele disse para marcar o encontro, pronto, lembrou de uma das frases, talvez a última: na minha vida falta você, por favor não deixe que ela fique assim a sofrer, incompleta. Hoje não tem a mesma expressão. Mas nela tem o mesmo efeito, parada para atravessar um cruzamento, seu corpo estremece, varado por um arrepio de antecipação. Do outro lado da rua há uma estação, o trem, há o homem e o encontro que não aconteceu.