Fascículo i, Folha de Quinta Feira, 6ª – O AMIGO DO DIABO
A que moço entregou o cavalo? Como subiu as escadas? A correr galgando degraus? O que trazia vestido? Quem lhe abriu a porta? Nada disto sei. Sei, no entanto, que, de repente, de onde?, eram três pessoas no foyer, um triângulo de olhos nos olhos nos olhos. E nada bulia.
Em frente, uma escadaria que à vista se dividia em duas no patamar para dois lances invisíveis na curva ascendente, um e outro invisíveis cá de baixo, só se adivinhavam, e desembocavam ambos no andar de cima em frente à divisão principal que sendo o salão nobre, por ironia, só se abria para festas. À esquerda e à direita, duas altas portas fechavam corredores de circulação aqui não chamados. Mais logo. Mas em baixo. Na entrada. À outra esquerda, térrea, a saleta selon le mode chinois, que queria dizer menos China do que tudo a Oriente, desde a Índia — uma naturalidade para nós portugueses, difundida de Londres e Paris para o centro da Europa e de lá para leste e sul, e que se nos ajustava como uma luva, pois tais lugares eram-nos tu cá lá, de uns por cá e outros que por lá tinham andado ou andavam ainda. Desde a faiança à tapeçaria, orientalizante à ocidental, era isso o selon le mode chinois. A boiserie forrava as paredes, e os painéis, tal como os de dentro dos remates das portas, enquadravam o papel gravado de Jean Pillement: uns lindos pássaros pequenos e claros, em delicados ramos de verde prata, num fundo só de azul longínquo a entardecer, a chinoiserie mais japonesa que vi. Uma seda lavrada de azul celeste em fim de manhã calma, ia por cadeirões e cadeirinhas, interrompia-se na lareira cuja frente em madeira fazia o favor de repetir os baixos relevos talhados, repetidos na boiserie a espaços certos. Sobre a escrivaninha encimada por uma papeleira, um panejamento cuidadosamente descuidado de uma colcha de Castelo Branco acolhia d´objets de vertu de acaso tão casual como panejamento: um São José policromado e aleijado da viajem do rococó paulistano até ao Douro, uma nautilus chinesa com um São José gravado de olhos em bico, e mais o Menino, claro, e outro São José indo português para fazer, por certo, companhia ao pensamento dos bordados da árvore da vida, sagrada, às duas aves unidas pelo sagrado casamento, e também ao cravo e à rosa símbolo de homem e mulher conforme os terá criado Deus, sagrados e profanos e para bordado de colcha de Castelo Branco, como se fora oriental a geografia de Castelo Branco. Sempre boa companhia na sala este São José, já que padroeiro das famílias e da Igreja. E mais um cache au coeur profusamente adornado que escondia uma vez descoberto o fecho… um São José esmaltado. Chega porque e mais. Do mesmo. Até culminar no aroma destilado a brancura dos lírios, flor de São José, flor também da virtude e motivo no mesmo bordado, lírios num jarrão azul profundo, azul ao fundo do azul, azul como só o período Kangxi soube para porcelana powder blue — não existe outro azul depois deste.
Todavia, daqui, nenhum dos três viera. Desta dormência azul, ninguém.
Dos dois lados do início da guarda da escada, em perfeita simetria, uns belíssimos pretos gémeos idênticos, ricamente vestidos e de turbante, de rutilantes lábios vermelhos, rubras grossas bocas rutilantes e, por Deus, dentes mais que brancos na negritude, em sandálias atadas à perna como imaginados Cristos, as saias curtas. Os irmãos imóveis sustentavam tocheiros. Eram maciços, em tamanho de gente, boa companhia para brincar a fingir pessoas: inamovíveis bonecos grandes. Também não se tomaram de vida como pinóquios, nem dali de dentro deles, por troianas barrigas, qualquer dos três presentes saíra.
Nem a pedra do chão se rasgara para, de olhos de água, brotarem.
Assim mesmo, diante da porta fechada atrás de si, o mais jovem dos de Montenegro. Assim mesmo, diante da porta fechada, acabada de fechar atrás de si, a da biblioteca que ficava a logo a seguir à saleta, entre o jovem Montenegro e um tocheiro preto de facto, Agustina, de mão esquerda sobre o peito ao qual encostava algo. Um volume? E assim mesmo, ao meio do patamar da escadaria, incrédulo, sem qualquer porta fechada atrás de si que pudesse abrir para recuar, nem que fosse do horror por vir, o dono da casa. Restava-lhes, portanto, avançar.
Quem? É difícil em território inimigo, em inferioridade numérica, dar o primeiro passo. Só na idade da juventude, na idade da juventude tomada da loucura de um amor proibido, na idade da juventude tomada de um amor morto a favor da vida de um filho jamais visto, só na idade em que a juventude se despede para partir nas chamas que sobem com uma noiva chamas.
Como correra a notícia? Quem contara do incêndio de desatino? Não viviam perto, nem os caminhos se faziam de planura e sossego. Não sei. Sei que sozinho com a idade da juventude, sem testemunhas que tivesse trazido, sem futuro que desse padrinhos às horas do amanhã, sem relógio que aprazasse o encontro para tal e subvertendo a lógica da honra por sua honra em fogo, que muito adequadamente não era de antigas monstras toledanas nem de quitózinhos de depois, era de pistola, sei que deu o primeiro passo, rigorosamente desta forma: o meu bisavô parou o olhar na Agustina, cresceu-o para o meu trisavô, e de olhos nos olhos disse-lhe:
- Venho pela vida de Vossa Excelência. Agora.



























