Histórias do Princípio do Mundo

Fascículo i, Folha de Quinta Feira, 6ª – O AMIGO DO DIABO

A que moço entregou o cavalo? Como subiu as escadas? A correr galgando degraus? O que trazia vestido? Quem lhe abriu a porta? Nada disto sei. Sei, no entanto, que, de repente, de onde?, eram três pessoas no foyer, um triângulo de olhos nos olhos nos olhos. E nada bulia.

Em frente, uma escadaria que à vista se dividia em duas no patamar para dois lances invisíveis na curva ascendente, um e outro invisíveis cá de baixo, só se adivinhavam, e desembocavam ambos no andar de cima em frente à divisão principal que sendo o salão nobre, por ironia, só se abria para festas. À esquerda e à direita, duas altas portas fechavam corredores de circulação aqui não chamados. Mais logo. Mas em baixo. Na entrada. À outra esquerda, térrea, a saleta selon le mode chinois, que queria dizer menos China do que tudo a Oriente, desde a Índia — uma naturalidade para nós portugueses, difundida de Londres e Paris para o centro da Europa e de lá para leste e sul, e que se nos ajustava como uma luva, pois tais lugares eram-nos tu cá lá, de uns por cá e outros que por lá tinham andado ou andavam ainda. Desde a faiança à tapeçaria, orientalizante à ocidental, era isso o selon le mode chinois. A boiserie forrava as paredes,  e os painéis, tal como os de dentro dos remates das portas, enquadravam o papel gravado de Jean Pillement: uns lindos pássaros pequenos e claros, em delicados ramos de verde prata, num fundo só de azul longínquo a entardecer, a chinoiserie mais japonesa que vi. Uma seda lavrada de azul celeste em fim de manhã calma, ia por cadeirões e cadeirinhas, interrompia-se na lareira cuja frente em madeira fazia o favor de repetir os baixos relevos talhados, repetidos na boiserie a espaços certos. Sobre a escrivaninha encimada por uma papeleira, um panejamento cuidadosamente descuidado de uma colcha de Castelo Branco acolhia d´objets de vertu de acaso tão casual como panejamento: um São José policromado e aleijado da viajem do rococó paulistano até ao Douro, uma nautilus chinesa com um São José gravado de olhos em bico, e mais o Menino, claro, e  outro São José indo português para fazer, por certo, companhia ao pensamento dos bordados da árvore da vida, sagrada, às duas aves unidas  pelo sagrado casamento, e também ao cravo e à rosa símbolo de homem e mulher conforme os terá criado Deus, sagrados e profanos e para bordado de colcha  de Castelo Branco, como se fora oriental a geografia de Castelo Branco. Sempre boa companhia na sala este São José, já que padroeiro das famílias e da Igreja. E mais um cache au coeur profusamente adornado que escondia uma vez descoberto o fecho… um São José esmaltado. Chega porque e mais. Do mesmo. Até culminar no aroma destilado a brancura dos lírios, flor de São José, flor também da virtude e motivo no mesmo bordado, lírios num jarrão azul profundo, azul ao fundo do azul, azul como só o período Kangxi soube para porcelana powder blue — não existe outro azul depois deste.

Todavia, daqui, nenhum dos três viera. Desta dormência azul, ninguém.

Dos dois lados do início da guarda da escada, em perfeita simetria, uns belíssimos pretos gémeos idênticos, ricamente vestidos e de turbante, de rutilantes lábios vermelhos, rubras grossas bocas rutilantes e, por Deus, dentes mais que brancos na negritude, em sandálias atadas à perna como imaginados Cristos, as saias curtas. Os irmãos imóveis sustentavam tocheiros. Eram maciços, em tamanho de gente, boa companhia para brincar a fingir pessoas: inamovíveis bonecos grandes. Também não se tomaram de vida como pinóquios, nem dali de dentro deles, por troianas barrigas, qualquer dos três presentes saíra.

Nem a pedra do chão se rasgara para, de olhos de água, brotarem.

Assim mesmo, diante da porta fechada atrás de si, o mais jovem dos de Montenegro. Assim mesmo, diante da porta fechada, acabada de fechar atrás de si, a da biblioteca que ficava a logo a seguir à saleta, entre o jovem Montenegro e um tocheiro preto de facto, Agustina, de mão esquerda sobre o peito ao qual encostava algo. Um volume? E assim mesmo, ao meio do patamar da escadaria, incrédulo, sem qualquer porta fechada atrás de si que pudesse abrir para recuar, nem que fosse do horror por vir, o dono da casa. Restava-lhes, portanto, avançar.

Quem? É difícil em território inimigo, em inferioridade numérica, dar o primeiro passo. Só na idade da juventude, na idade da juventude tomada da loucura de um amor proibido, na idade da juventude tomada de um amor morto a favor da vida de um filho jamais visto, só na idade em que a juventude se despede para partir nas chamas que sobem com uma noiva chamas.

Como correra a notícia? Quem contara do incêndio de desatino? Não viviam perto, nem os caminhos se faziam de planura e sossego. Não sei. Sei que sozinho com a idade da juventude, sem testemunhas que tivesse trazido, sem futuro que desse padrinhos às horas do amanhã, sem relógio que aprazasse o encontro para tal e subvertendo a lógica da honra por sua honra em fogo, que muito adequadamente não era de antigas monstras toledanas nem de quitózinhos de depois, era de pistola, sei que deu o primeiro passo, rigorosamente desta forma: o meu bisavô parou o olhar na Agustina, cresceu-o para o meu trisavô, e de olhos nos olhos disse-lhe:

- Venho pela vida de Vossa Excelência. Agora.

Um poema para se ser lúcido

Albrecht Dürer, Nemesis

NEMÉSIS
Cortei os botões por abrir,
já despontados, um por um
arranquei-os com gosto, ficou o pé
inútil da flor, nenhuma flor
dezenas de espinhos
finos como cabelos
frágeis nem picam
os cadáveres dos espinhos
Cada rosa por abrir é uma serpente
corta-se a cabeça em botão
arranca-se com vontade
esmigalham-se as pétalas
da cabeça da serpente
sem cabeça morre a rosa
nem picam os espinhos
macios são seus cabelos
Misturam-se os caules de nada
nem espinho nem botão
no ramo de rosas abertas
e na jarra nem se percebem:
mas a cada passagem pela mesa
estará Nemésis de pés na água
moral como uma fábula
se a flora fora fauna:
não serás o que não tiveres de ser
e terás  aquilo que és

Histórias do Princípio do Mundo

Fascículo i, Folha de Terça Feira, 5ª – O AMIGO DO DIABO

Este que agora batia, filho de um abastado e respeitado negociante duriense, fidalgo outra vez por renovada mercê desde a primeira, e prova acabada e bem demonstrada de que também por trabalho sem freio e seio de sorte se furava até onde só o nascimento e o casamento, se excluída a excelência do serviço a rei ou senhor antes poderiam, era um dos conhecidos por de Montenegro, o mais novo deles, escolhido mal nascido, para padre. E era esta tinta recente de nobreza, vitalícia e não perpétua, que o tingia de reprovação. Pior, filho caçula — benjamim que fosse do pai, e de tão querido, era-o.

A casa a que pertencia era uma casa que se fizera, fizera-se, não era da grandeza antiga, não havia juro e herdade, logo, aprendera a manter-se — começara a fidalguia no rio, acabá-la-ia no Conselho e não haveria de ser acaciana nesses tempos de superabundantes conselheiros. Fizera-se: filhas para consolidar pelas núpcias relações e rendimento e, com a ajuda dele, em grandes bons dotes, elevar o estatuto da família. Um filho para levar o nome adiante, casar com um dos bons nomes mas já de recursos em queda, fazer-se doutor em leis, orientar como se fora do alto, mas de olho em cima, o administrador, a quem, porque administrador, lhe poderia fraquejar a força para o salto e a ambição é de quem a tem: se o dinheiro dorme, não cresce e o poder esmorece. Outro filho para médico para não se irem as maleitas à boca da rua e haver alguém de ciência a fazer biblioteca. E um para padre, para Deus, para a hora da morte e, essencialmente, para a Igreja, porque, convenhamos, não há quem não o saiba, o Douro, e dele tudo, fez-se também muito debaixo de jurisdição eclesiástica, e mais se fizera nos tempos avós que os subiram a pulso do rendimento vindo do peixe, das madeiras, dos legumes, fazendo daquele cais, e desde então até aquela data, mais a vinhos e visão de outras terras, um dos mais rentáveis dos cais do Douro: ali se mercara muito do futuro.

Por tudo isto, também o seu próprio pai lhe apontava conduta imprópria – sorrindo-se, no entanto, pelos cantos cosidos da boca. Era velho, vivera longamente, e não viera de tão longe para se ficar por aqui, muito menos desaprovado e travado por quem se retirara e desprezava, agora, a vida que ele desejara e consolidara para os seus descendentes. Na verdade, trazia com ele a informação de todos os sedimentos destes montes, os círculos de idade da chuva por dentro do tronco das árvores, a estrada de água, rio que conhecia a palmo: um homem que no palpitar dos peito dos pássaros via a tempestade na distância. A história familiar era a da terra e imprimira-se nele como mapa. Há gente assim. Sangue assim em simbiose com a terra, qualquer terra donde tirem sustento e ser: é este o segredo do amor de fecunda paixão. De qualquer amor de fecunda paixão.

Vistas daqui, da República, estas minudências da diferente nobreza que era a nobreza do Reynno, são de pouco sentido. E de ainda menor sentido porque numa altura, pleno século xix, em que uma burguesia de solidez, ou melhor, de grande liquidez, se instalara aplainando o fosso das diferenças acima, cavando-o fundo abaixo, reproduzindo a estética da aristocracia em declínio pela aquisição do que de bens móveis  e imóveis vinha dar à praça, mais títulos honoríficos comprados para alegria da Fazenda e desprestígio da sua origem, e instalando uma moral de ora catecismo ora de progressismo, conforme avançava de Crucifixo ou de Avental; e a polimatia, aquele culto polímata vindo no pó das botas de fazer o mundo, reduzia-se, de facto, à medida em que o mesmo mundo se circunscrevia, na melhor das hipóteses, pela regra do grand tour em vez do ir-se longe, ir-se ser outro entre outros, conhecendo o fora, terra ou pensamento, como se fora dentro: com a vida, com obra e descendência. Declinava, encolhia, mirrava de corpo e alma. Portugal.

E vistas de lá, do Reynno, para cá, se  olhos oitocentistas e provincianos então houvessem que nos vissem, pasme-se, não estranhariam esta sociedade sem títulos porém de privilégios, nenhuma estranheza de lá para cá: a banca continua a casar-se com a indústria, ainda pouca é certo; a ganadaria com os vinhos; a ciência a pedir a mão a quem a sustente; a cultura a importar-se; o poder político à beira de saneamento, a ser pago como uma então espanhola ou francesa de prazeres lícitos, mas nem por isso aceitáveis na mesma sala onde se recebem as mães de família.

O mais novo dos de Montenegro batia à porta, batia como quem bate pela vida, batia à porta da casa conhecida como a da Quinta Nova, que teria à data pouco mais de cem anos, e onde os meus trisavós viviam por ter tido a, creio, avó deste meu trisavô birra à casa do marido, casa da família desde que tinham vindo para Portugal e sido integrados na portugalidade e ai que frio de vento pelas estreitas janelas de guilhotina bem cerradas, e não há fogo que aqueça tais lareiras, e que pedras estas de desconforto que resistem às tapeçarias, o atrofio da altura dos tectos, que aquilo não era lugar onde se vivesse, era uma torre de homens, a falta de luz era uma desumanidade, e que não se podia, e acabou-se. Viveram toda vida do outro lado, do lado com comodidade moderna, moderna importada está bem de se ver, porém os modos do pensamento eram internos e à antiga, com tudo o que isso tinha de bom e com tudo o que de mau já tivera e ia tendo, porque o reino mudara, mais mudaria, as gentes com ele, o Douro era outro e os tempos também.

Ele bate como quem bate pela vida e, benjamim, não percebe que é à desgraça que o há-de levar que apela.

Short como o amor #6

Fotografia de Gregory Crewdson

distribui também por nossos corações
incomensurável luto

Vários, O DOM DAS LÁGRIMAS, A&A

O POSTAL DE ANIVERSÁRIO
– gostaste?
– nasceste e fizeste o mundo mais belo. A mim fizeste-me bem. Possa eu fazer-te bem a ti?

– se gostaste do presente, não era sobre o que escrevi no postal que perguntava.
– fiz-te bem e possas tu fazer-me bem a mim? O mundo é mais belo?
– fizeste-me bem.
– é o meu aniversário.
– mas do presente! gostaste? Sei que gostas muito.
– é o meu aniversário. Nem disseste amo-te. Um beijo. Beijo-te. Pegaste no postal com a ponta dos dedos? Com pinças? Escreveste de luvas?
– não rias, sei que não tens vontade de rir. Queria que ficássemos amigos, gosto muito de ti. Hei-de gostar sempre muito de ti.
– gostas tanto que esperaste o meu aniversário para me fazeres este bem.
– nunca te menti. A ti não.
– talvez me tenhas dito a verdade durante os cinco minutos iniciais. Depois mentiste. Não por ser a mim. Porque é a tua natureza. Não foi por mal, eu sei. Foi pelos teus motivos de sempre: o que te dá prazer a ti, poderia magoar-me a mim, e mesmo a ti magoaria, se eu tivesse tido conhecimento e decidisse abrir mão de nós… então, bem entendido, porque agora te é igual ao litro. Olha a ironia: tive conhecimento, não abri mão de nós. Devia ter-te mandado à merda, mas porra, faltaram-me os dons divinatórios.
– não digas essas coisas.
– vi cada mentira que me contaste bem enfiada nos teus sacos de silêncio, sei muito bem quanto mede o teu egoísmo. Sei do teu oco de fome. É por isso que queres fazer-me bem? Por conheceres o mal que fizeste? O que estás a fazer? Ou queres pagar-me à saída e não sabes como? Aflige-te o quê, exactamente, não percebo: sentires-te culpado ou em dívida? Não é porque o sexo era tão bom que me deves como às putas, se era bom para ti, era bom para mim, sempre gostei. De tudo de ti. Nada nunca foi um serviço, só amor. Ou tudo te foi serviço e esqueceste de avisar?
– pára.
– apetece-te fugir agora, não apetece? A mim também, mas não posso.
– quero fazer-te bem porque te quero bem, porque posso. Tu não deixas.
– queres merda! O que queres é calar a voz dentro da tua cabeça. Queres fazer-me bem?! Faz: morre. Mas antes fica com a vida em peças de puzzles desencontrados. Sofre muito. Tanto que desejes a morte, a chames pelo teu nome. Hás-de encontrar-me nessa altura em que as mentiras te faltarem. Queres fazer-me bem? Sofre.

A outra de Abril

UM CRUZEIRO EM FAMÍLIA
Um a um. Gostava de pensar no casamento longo como um sucesso. Feliz. Era feliz. Eram felizes. Tudo o dizia desde a porta de entrada de casa: a empregada competente nas rotinas diárias da facilitação da vida, o lugar das coisas que fazem uma pessoa, nem são objectos mas histórias, pequenas conquistas, a tela da Graça Morais de logo ao início, tão verde, tanto verde, da 111, quinhentos e sessenta contos, lembrava-se bem, na altura era-lhe dinheiro, a mulher gostara, sempre fora forte, ela, e eles, também ao início, tão verdes, tanto verde de jardim fechado e paixão ao centro. Mesmo agora um sucesso, pouco se sabiam um do outro agora que sabiam tudo quanto havia a saber, um sucesso, o mundo privado de cada um crescera e tomara para ele os caminhos, os arbustos, as flores, as árvores  e aves do jardim de encontros, era aberto o um dia jardim, mudam tudo os filhos. E o amor que se lhes tem? Uma lâmina de mel pela carne adentro. A mais nova tinha a idade em que voltara a pertencer à mãe. O mais velho tinha a idade de ter sido duas vezes pai. A amante, esta última, linda, doce, entre as idades de uma e de outro: boas foram as horas do riso da conversa da cama, e o arrepio outra vez verde do primeiro amor, dançara na linha da frase de Drummond, dançaram, não eram três  que se enganavam, era a verdade da mentira. Fizera-lhe bem. Mesmo ao casamento. Faziam-lhe sempre bem as amantes. Mesmo ao casamento. Dançava a frase que dançaria. Um a um, a mulher, o filho, a filha, todos tinham crescido do centro do jardim para a diáspora. Um a um todos partiram,  e ele  também para a diáspora de si mesmo. Sozinho. Ao centro do jardim. Mesmo à porta de entrada. Isto era o que a mão sobre a boca, sem peso nem esforço, nunca o deixaria dizer e mesmo o fumo, a cada passa bem chupada de prazer, que prazer, ajudava, sem peso nem esforço, a engolir. Feliz. Era feliz. Eram felizes.

Não basta prometer: há que cumprir

SÓ DE AMOR, SÓ DE DELICADEZA
De que Manuel Fonseca falamos
quando falamos de Manuel Fonseca?
Ah… grande, ponderosa, questão:
quem és tu, Manuel, quem és?
– Sou, perdão, choverei no molhado
o dizer da poesia, sou a doce melancolia
a gentileza da flor, ó, a harmonia
o passo do tango, o da paixão
a filosofia, o suspiro, o intagível queria
e assim a força tão forte do desejo
eu, Manuel, sou  Manuela, não minto
O ÚLTIMO dramático BEIJO
só a verdade consinto, sou:
Manuela
de só amor
Fonseca
de só delicadeza
só beijos na boca à francesa!

Histórias do Princípio do Mundo

Fascículo i, Folha de Quinta Feira, 4ª — O AMIGO DO DIABO

As casas construídas à data daquela onde um quarto se deixava tomar pelas labaredas, construídas do nada ou sobre, não por acrescento de volumes ao primeiro corpo em regra direito, em regra com torre ou torres, eram quase sempre paralelepípedos feitos da simetria de dois cubos, se vinham por desenho de francês, ou um grande cubo com um menor cubo de vazio ao centro, se vinham desenhadas por mão italiana. Estas últimas, mediterrâneas, sempre foram as minhas preferidas, nem tanto pela cegueira que, no recuado quarto fundo dos tempos, as suas paredes ofereciam à rua mantendo o privado dentro, mas por se abrirem para o centro como as vilas romanas, como os claustros, as moradas africanas mais norte, mais mouras. Por cá, quando esse centro vazio já não morava debaixo do olhar das estrelas e da mais clara delas, o sol, e sim da cobertura de um tecto tão alto, lá em cima, ainda mais lá para cima do que dos três ou quatro pisos que abrigava, intocável para recordar a intocável abóbada celeste, era, assim mesmo, o centro vazio, o coração de um mundo que se erguia em galerias em redor, onde uma sucessão de portas cortava a lisura das paredes, atrás, e a balaustrada impedia a queda, adiante, e infindos corredores corriam quadrangulares, um andar sobre o outro, o balanço curvo da onda em cada arco que ao alto descia sobre o cume da coluna de sustentação, esguia montanha de engenharia. E se em baixo houvesse baile, de cima poderiam as crianças espreitar, pois esse original centro, vazio como a origem, original, fazia-se salão nobre para tacões, ou para imensas mesas de festa, ou para o que fosse e para coisa nenhuma, ou só zona de distribuição,  ou de passagem encurtada — da matéria primeira tudo pode surgir, desta origem, deste garante de, fosse quando fosse, ligação directa ao eixo da terra, ao núcleo da terra, ao início dos inícios, tudo pode surgir: e mesmo o medo se encolhe diante deste coração.

Mas esta casa não era dessas. Era das outras. E as outras como esta eram assim: um corpo direito. Sólido. Direito. Uma grande caixa setecentista. Se fora no circo e viera o ilusionista serrá-la ao meio vertical, a direita seria igual à esquerda. Se ao mágico lhe desse para imprevistos cortes horizontais, descobriria frente e traseiras, entrada nobre e serviços, e a pobre da senhora em plena arena de prodígios feitos de lantejoulas, só de cabecinha e pés de fora, não teria salvação. Isto para dizer que esta casa não tinha centro, e que o nela houvera sido central, Caetana, estava agora a queimar-se lenta na desfiguração das chamas.

Para entrar, para chegar à porta, à porta de entrada, era preciso ter passado pelo portão, pela casa do guarda portão, fazer a alameda de sombra dos imensos castanheiros, copas de mão dada, os meus ramos, as tuas folhas, dois a dois, um de cada lado, as minhas folhas nos teus ramos, uma copa de sombra; ter contornado a varanda lateral, térrea de marmórea brancura fria oferecida à vista de quem vinha, oferecia vista a quem nela se passeasse ou desse em mandar servir o chá à frente da biblioteca -  tinha sido, evidentemente, coisa mal pensada, toleirice de arquitecto estrangeiro, pois a sul avançava a juventude do sol para lamber as estantes e os livros que nenhum vidro protegia, só grelha emoldurada para a respiração de páginas, a luz russa a cor,  as bibliotecas não se viram para sul, no passar dos anos pelos séculos perde-se o desenho do chão e da estanteria que as madeiras pintam, a escuridão das lombadas sérias perde-se, a juventude é sempre isto, mesmo que seja a do sol a sul: gasta-se sem saber, perde a cor.

Era nesta biblioteca que estava Agustina, ajoelhada, dobrada sobre si mesma, a carregar com força no taco circular que compunha o meio da rosa dos ventos, no chão, para que naquela sala de conhecimento o Norte jamais se perdesse, encostara as altas portadas, correra o vermelho eclesiástico do damasco, fechara à chave a porta, no piso por cima, porém do lado norte, havia um quarto a arder, lá no alto, nas trapeiras, no bico do peito da ama engordava um bebé rosado, a Senhora a quem nunca antes o marido tratara doutra forma que não fora por tu, minha filha, minha querida, num desatino, mandara vir os malões, e o marido, o pai que fizera uma pira mortuária do leito da filha, esperava com impaciência que ela, a Agustina, agora de joelhos, agora de cócoras, os minutos contados, lhe entregasse o neto. O  taco que não cedia. Usava  já a força do corpo sobre o punho. E o taco que não cedia! Que não girava sobre si próprio. Não é, pois, de estranhar que não tenha ouvido o trote do cavalo na curva da biblioteca. Nem é de estranhar que tenha sido surpreendida pelas pancadas violentas na porta.

Não era bater para que abrissem. Era bater até que se abrisse.

Histórias do Princípio do Mundo

Fascículo i, Folha de Terça Feira, 3ª - O AMIGO DO DIABO

Lavado. Alimentado a leite de ama. Consolado. Vestido como um príncipe com a primeira roupa inteiramente feita e só feita pelas mãos da mãe, desde a camisa de baixo, milimetricamente cosida em invisíveis pontos, bordada de imenso amor, tão desejado, tão amado amor.

Ao mesmo tempo preparavam-se as exéquias. Não foram, porém, as que o padre teria gostado. Nem as que a igreja preconizava. Nem as que a minha trisavó quis. As que a família conhecia, conhecera, ou desejaria. A Agustina. O pessoal. Na verdade foi um tal escândalo que ainda hoje há quem o recorde. Ao mesmo tempo tentava-se, portanto, preparar as exéquias.

O pai, exausto pela consumição da fúria e do desgosto, puxou um cadeirão para perto da cama, sentou-se e com ambas as mãos tomou a mão pendida da filha. Minha bisavó. Caetana. Não se pôde lavá-la nem vesti-la, nem cobrir o sangue seco de que eram agora feitos os lençóis, nem retirá-los. O pai não ouviu a um dos tantos em trânsito pelo quarto, em grupo ou à vez, que pediam isto ou aquilo. Ninguém ouse tocar nesta cama. Foram estas as únicas palavras que disse. Estava sentado, à espera que a filha regressasse da morte. Ela haveria de regressar para encontrar a sua mão na mão do pai, nunca uma palavra dura durante a vida, nem quando a soube de noivado secreto celebrado, nem quando se lhe alterou o corpo, nem quando da linda boca: mas eu amo-o, papa. Ela era inocente. Fora seduzida até ao pensamento. Que culpa tinha? E prova maior da sua pureza que este mas eu amo-o, papa, esquecido de tudo, das conveniências, da obediência, da própria bondade do seu coração de filha perfeita como nenhuma, existiria? Existiria prova maior?

Fez-se noite cada vez mais escura e até ao escuro mais escuro que antecede a aurora. Ele esperava. Veio o rigor mortis. E veio a manhã. Também ele empedernido. Ao outro dia, quando já o corpo se fazia outra vez brando, veio o bispo. Manso, manso ele também, como um amante cheio de doçura que finalmente encontra quem lhe perceba a paixão: há-de ressuscitar como Lázaro para Glória de Deus. Eu pedi, essa foi a palavra dada aos homens: pedi, e ser-vos-á dado. Eu pedi.

Passaram-se no total três dias. E não se passou nem mais um.

Acordado daquele estupor pela segunda morte da filha, desta feita às mãos da morte de Deus, mandou que saíssem todos do quarto. Depois pediu uma tina de água, baldes de água, colchas. Calmo, contam. Nunca mais perdeu a calma, contam. Quando a mulher lhe perguntou para quê, respondeu-lhe: ou vêm as colchas ou arrancam-se as cortinas, a Senhora escolha. Uma fartura de água. Colchas. As segundas encharcadas da primeira, postas do lado fora das janelas outra vez fechadas, no chão, rentes às janelas-portas: das sacadas, uma e outra, pingavam colchas torcidas como trapos enrolados. Dentro igual. Primeiro, os móveis leves antes encostados, arredados para que permanecessem secos. A seguir, as paredes baldeadas. Então ateou um fogo metódico: levou a chama aos reposteiros, ao colchão, às cortinas da cama armada à la polonaise, aos tapetes. E saiu. Do lado de fora, já no corredor, o mesmo tratamento à porta de entrada: baldeou-a e selou-a com outra colcha encharcada. Voltou-se para quem estava: se virem que o fogo quer alastrar, molhem estas paredes. As que forem necessárias. Aqui, que ninguém entre. Você, você era Agustina, vá buscar aquilo.

Aquilo era o neto.

Seja

Gostamos muito de dizer coisas sensatas, e mais gostamos de as viver: há um tempo para tudo. Mas, e antes do tempo, o que havia? O que haverá depois do tempo, suponho.

Talvez não seja sempre assim tão fácil de perceber. Talvez as circunstâncias nem sempre permitam que seja assim tão fácil de ver reconhecido.  Tão cedo. Sem qualquer tratado religioso ou filosófico, resumo em vídeo aquilo em que acredito: a verdade do que somos está onde não temos idade, só raça.

A linda Silvia Moreno aqui tinha cinco anos, agora tem doze. Veja — acredite, não precisa de gostar de flamenco. Ah, não se fie nas palmas mais que merecidas, quando lhe parecer que acabou, começa.

A de Abril

O PASSAGEIRO
Os restantes passageiros nas espreguiçadeiras do deck, alinhados, todos voltados para o mar e vista de céu como os pássaros no ocaso o fazem nas águas mansas, boiam leves, não sabe uma pessoa se meditativos se contemplativos, os passageiros e os pássaros. Ele não.

Sei muito bem quem é, já lá fui à cabine umas poucas de vezes, nem um cabelo na escova, um desalinho no armário. Para verificar. Os miúdos vêm para os cruzeiros, fazem o contrato mínimo, dezasseis meses, uns vêm da faculdade, outros do medo do desemprego, trabalham muito, bebem muito, acabam por dormir muito uns com os outros, mas é nada, é como se não, nada esperam, é aquilo e já está. O corpo aguenta bem as horas de trabalho e as horas de álcool, e as poucas horas de sono porque é jovem, a cabeça aguenta o resto, os corações vazios não têm o que aguentar. Felizmente. Mas há sempre qualquer coisa que falha.

Com gente como ele não pode falhar. Não quero que despeçam os miúdos. Não aponto na folha de serviço, chamo-os à parte, sempre a sós.  Corre bem. Não há porque despedi-los, os tempos vão duros, corrigi-los, sim, o serviço tem de ser impecável e se um destes clientes diz que a dobra do lençol tem de ter treze centímetros pois é treze centímetros que terá: lá vou com a régua. Pensam que é de doido. Os miúdos. Os mais atentos fixam as siglas como lhes apareceram na última série americana: OCD. Não sabem que isso é nada perto do rigor dos dias. Tudo se mede. Tudo tem regra. Se as asas das chávenas estiverem todas voltadas para a direita, o espaço fica ocupado como deve de ser e perde-se menos tempo a retirá-las — se quem fizer o serviço for canhoto, pois para a esquerda. Experimentem a tirar uma centena delas à vez e confirmem. Tudo tem um sentido. Não se come com as costas direitas porque sim, não se mastiga de boca fechada só para evitar visões bovinas, há as razões digestivas. A vida é toda de razões e liberdade, pouca. Não parece. Ordem desde a natureza ao protocolo de um jantar de gala. Ordem até na desordem: onde nasceste, de quem, o que fizeste, o que atingiste. Não parece. É. Enfim, são muito novos e dezasseis meses passam num segundo.

Estes passageiros são os piores. Trazem da vida o hábito da impunidade. Há as leis dos homens e há os homens acima da lei. Este faz parte dos piores dos segundos. O pior do pior. Razões poucas, liberdade, dissimulada de organização, muita. São sempre assim os canalhas: campeões só de si mesmos e dos seus interesses. Se querem uma menina de doze anos, virgem, roubada de fresco à família, têm-na. Ou um rapaz. Ou uma prostituta para espancar até à morte. E se lhes apetecer, atiram com todo o peso das relações pessoais e profissionais sobre quem se lhes oponha. E os peões que comem pelos bordos da mesa, cães esfaimados, fazem o resto. Intocáveis.

Este será o terceiro que elimino a solo. Nem queríamos acreditar quando se decidiu por viajar aqui com a sobrinha, lambe-a com os olhos, de entrada, por antecipação. Pela primeira vez não tive de deixar o serviço onde me acolho há quase oito anos — já nem é um disfarce, é uma vida. Conforme. Metódica. Silenciosa.

Histórias do Princípio do Mundo

Fascículo i, Folha de Quinta Feira, 2ª — O AMIGO DO DIABO

Nos dias em que o mundo dá à vida acontecimentos destes, se há registo deles, dão-se nocturnos, de preferência invernosos, ou, pelo menos, súbitos de frio: noites inglesas onde, quando, se abre o céu para o dilúvio escorrer bem, escorrer-se todo até aos ossos da gente que o sofre: a água infiltrada prepara para a queda as paredes do ser página abaixo. Ao narrador, claro, não incomoda este reumático mental de tragédia porque, pasme-se, não é nada com ele, são personagens.

Todavia, o nascimento do meu concreto avô não se compadeceu da estilística futura: teimou ele em atravessar a noite e pôr a cabeça de fora já a manhã ia meia, o sol alto e, a pedido da mãe que resvalava entre mansos desfalecimentos, afastados os reposteiros, abertas em par as janelas francesas, portas de facto para a sacada, o vidro quadriculado e chumbado, claridade a rodos, a ponto de se perceber lá fora, no incêndio da luz, a dança do pó no ar, o avanço da quentura em direcção à casa, e dentro, a despedida do fulgor do último Verão, o cheiro doce da morte antes de ser ácido, a premonição gelada da rigidez da carne quando tudo é ainda morno como a humidade do beijo. Nem tempo para um olhar sobre o filho iluminado por Junho, ainda sujo de líquidas, ainda sujo de sólidas memórias da primeira substanciação da alma: a carne da mãe. Nunca se viram.

Diz quem sabe que foi nesse exacto instante que se deu o memorável horror, o fim do adágio onde os dois homens se fizeram inimigos tais que nem a morte — nem a morte os apartou, então o que havia de ser? Enquanto a mãe exalava a vida, a criança estreava o grito da vida, e o avô, boca aberta no O maiúsculo da morte, os olhos abertos no O da morte, nenhum som. Porque o som da morte viva é o silêncio em cruz, e ela tinha acabado de o tomar para si, de o pregar por onde o corpo não está, deixando-lhe a carcaça intocada, pronta para habitar os longos dias do ódio nas horas por vir. E se à criança bem a limparam, mais nada lhe fariam, se aquele O de vento que circulava das órbitas para a boca, da boca para as órbitas, aquele antes pai que espreitava do corredor, tivesse caído sobre outra mulher que não a que a lavava. Tê-la-ia arrancado e arrancado com ela nua num cavalo de fúria. Mas quem o tinha nos braços era Agustina, a espanhola — ninguém se lembrava já de quando tinha vindo dar à família: arrazoava um português atroz, castelhano de origem, tinha uma filha muda a quem cobria de beijos, umas ancas orbitais em movimento. Agustina metera debaixo da cama uma faca para cortar a dor em duas pois a menina era fraca e o Lobo, como sempre haveria de chamar-lhe, grande. A outra Agustina sabia-se quem fora, o que fizera: fora cozinheira e cumprira. Esta era uma hoje valquíria que ali chegara ferida quase de morte, quase menina, ainda esguia de não conhecer a largura dos próprios ossos, e mais magreza de quase fome, com uma enorme barriga de mistério mudo que pariu sozinha. Inspirava temor absoluto à criadagem, expirava devoção absoluta à casa, mais do que aos proprietários, e crescera para se fazer governanta, a mais leal de todas governantas agudas, uma postura de águia real. Ninguém nunca soube o seu nome verdadeiro, ela insistia-se Agustina. Agustina porque quem a encontrara encolhida na vacaria fora a Agustina. Fez-lhe frente: não faça um mártir com o sangue daquela gente, mártir aqui só há uma e é a sua filha.

E para que não houvessem dois, dobrou-se o meu trisavô à Agustina que sabia odiar muito melhor do que ele.

Histórias do Princípio do Mundo

Fascículo i, Folha de Terça Feira, 1ª — O AMIGO DO DIABO

Talvez não tenha contado: o meu segundo nome próprio é João, João porque o meu avô paterno foi João. Foi João e tinha um livro. Era, dizem, um homem mau. E por sê-lo, tê-lo-á recompensado o demónio. Com um livro.

Acontecia, então com natural frequência, e o então aqui é lá no virar do fim do século xix , por motivos disto ou daquilo, os filhos não serem reconhecidos pelos pais — o que não quer dizer que não viessem a sê-lo ou não fossem criados por estes. Não me estou a referir aos casos da infame bastardia. Nada disso. Outra coisa, a que tem que ver com inconveniências familiares. Dava-se o caso do meu bisavô ser solteiro. Dava-se o caso da minha bisavó morta no parto ser solteira. Ora, não pode sujar-se o nome de uma menina defunta. Para mais menina. Para mais defunta. Para mais de família.

O bebé, prova da infidelidade filial, no dia do seu destino, berrava de encher de ar o último dos alvéolos dos pulmões maduros, sem querer saber para nada da mãe para sempre morta, ali perto, na cama. A avó, rodeada de padres por todos os lados para se defender do contágio do mal e garantir que alma da filha ingrata, manchada pelo pecado, tinha impulso para a subida até onde os anjos fariam o resto, mesmo com o lastro deste que cá em baixo insistia no choro, batia no peito. O avô que a tal se negava ser, andava para trás e para a frente no corredor adiante do quarto, a espreitar pelas portas abertas o leito feito com lençóis de sangue onde dormia a palidez, tão suave, tão tranquila de felicidade que se dispensava de ter cor. Foi no corredor que tomou a decisão de o entregar ao pai. Havia de o entregar, àquele filho do rio. Nem tanto para proteger o nome da família, isso é que era bom, sabia muito bem que onde as patas do seu cavalo pisavam ninguém se atreveria a levantar a voz. Era por si mesmo. Fazia-lhe náusea a minúscula criatura, comprimia-lhe o pensamento num só ponto: que a filha, criada em rigores conventuais de francês e modéstia, em prendas de fio de seda bordada e aguarelas bucólicas guardadas religiosamente numa capa com a dedicatória pour mon papa, tivesse, e tinha, se tinha, conhecido o amor. Pior. Homem. Um traste, um coisa nenhuma cujo bisavô se fizera fidalgo a arrastar barcaças de peixe e hortaliça Douro abaixo Douro acima. Filho de algo? Filho das hortaliças e da couve galega!

Era rico o bisneto dos legumes. Nem por isso alguma vez deixara a família a casa rural na quinta onde ainda o cais acostável no rio, onde o granito mais velho levantara as paredes ao fim dos anos de mil e seiscentos e mais um volume, outro, agora este que ligava à capela consagrada a Nossa Senhora do Carmo, fazia-se solarenga, e mais uma galeria, as paredes da grossura de um braço, sólida como o comércio – dizem-me que  hoje para lá fazem eventos: casamentos, congressos, turismo personalizado, o que quer que isso seja, tomar o pequeno almoço com estranhos à mesa feitos náufragos familiares dados à margem. Pois havia de ir lá deixá-lo, àquele diabo do rio que lhe comera a filha pelas entranhas.

Uma certeza com dois mil e quinhentos anos: ser no devir

Citizen Kane — still

É domingo. Chove. Está vento. Talvez o frio não tenha regressado, mas arrefeceu. Escrevo isto e, coisa estranha, as palavras sobressaem na linha para dizerem: mentes. Minto. Se o frio vier, será frio pela primeira vez como este é o primeiro vento, e o céu desfeito em água, as primeiras gotas deste domingo nunca antes outro domingo. Mesmo eu nunca fui esta. E apesar desta certeza com mais de trinta anos, não me habituo a esta certeza com mais de trinta anos, navega-nos o pensamento há já dois milénios e meio na metáfora do rio de Heráclito, dois mil e quinhentos anos, tantos trinta, e ainda não consegui habituar-me a sentir esta novidade: todos os beijos são o primeiro beijo. Essa tua mesma boca nunca antes foi essa exacta boca, só neste instante em que fecho os olhos para a ver, ela é essa exacta boca, que nem sequer é a tua, apenas a que vejo, para sempre neste instante e só nele.

Ainda há pouco era domingo, chovia, estava vento e o frio arrefecia o calor. Tirei da mala o Citizen Kane, pensei, que pena nunca tê-lo visto num ecrã de cinema, gostava de ver, para logo colar, não faz mal, esta televisão é muito maior e melhor do que a minha, enfiei-o no dvd. Os brancos até aos cinzentos estavam cor de rosa chiclete, e o preto estava preto. Talvez Orson Welles gostasse assim — só um louco se atira ao mundo com uma prima obra prima. Há matrioskas pessoalíssimas em cada uma das obras primas do mundo. Quase sempre patetices que só fazem sentido a quem as viveu. Tal as fotografias de viagens de férias. Nesta também. Estão advertidos. Conto três das minhas neste filme. As mais recentes. Sentada no enorme sofá desta sala, a reinventar o preto e branco em preto e rosa chiclete Gorila, pus-me a espreitar da janela do Inquirer a tia do nosso aqui mesmo Pedro Norton, na carruagem, à espera de Charlie. Poucas pessoas saberão que Emily, para além de tia bisavó do nosso Pedro, era também a legítima filha do pai de outra filha, ilegítima porém, que foi mãe de outra obra prima: Marilyn Monroe, que dizem ter nascido com o nome de Norma Jean Baker, porque dizem tudo as pessoas, são um horror. Já não sou a que fui a meio do parágrafo, não conto a matrioska dentro destas, sou de fresco, não as tenho, nunca vi com estes meus olhos o que os meus antes olhos viram.

É domingo. Chove. Está vento. Talvez o frio não tenha regressado, mas arrefeceu. Pequeninas coisas enervantes, se lhes ligasse: não consigo encontrar os iogurtes de que gosto, caça ao tesouro em supermercados, x marks the spot, mandei um email à empresa; ao cabo scart deu-lhe uma cromatina, la vie en rose arruinou-me a sessão da tarde; o tempo passa demasiado depressa, não consigo acompanhá-lo, tenho uma natureza lenta, sei que não deveria ter mais de catorze anos, falta-me saber quase tudo do que toda a gente já sabe; o eu que antes nunca fui é demasiado velho para começar do princípio, o eu que sempre fui é demasiado novo para saber como se faz.

Um poema para ser feliz

Será cuando la trompeta resuene, como escribe San Juan el Teólogo.
Ha sido en 1757, según el testimonio de Swedenborg.
Fue en Israel cuando la loba clavó en la cruz la carne de Cristo, pero no sólo entonces.
Ocurre en cada pulsación de tu sangre.
No hay un instante que no pueda ser el cráter de Infierno.
No hay un instante que no pueda ser el agua del Paraíso.
No hay un instante que no esté cargado como un arma.
En cada instante puedes ser Caín o Siddharta, la máscara o el rostro.
En cada instante puede revelarte su amor Helena de Troya.
En cada instante el gallo puede haber cantado tres veces.
En cada instante la clepsidra deja caer la última gota.

Jorge Luis Borges, DOOMSDAY [Día del Juicio Final] in LOS CONJURADOS

 

UM OVO OCO DE CHOCOLATE
Se tão mas tão triste for a tristeza
Chora-se
Se tão mas tão feliz for a alegria
Ri-se
Ria-se quando a tristeza vem
Chore-se quando vem a alegria
Porque a verdade do mundo
É um ovo oco de chocolate
Hoje o céu por cima das cabeças partiu-se aos bocados
E atrás estava o preto
Hoje o bocado que é chão debaixo dos pés sumiu-se
E por baixo estava o preto
Igual um ovo oco de chocolate
Dentro está vazio
E esta é a verdade das coisas do mundo

Short como o amor #5

MOI NON PLUS
– mas o que é que estás a fazer?, não tem graça, pára!, estás a assustar-me, pára, não consigo respirar.
– por favor, querida, morre depressa.

– porquê?
– quer que lhe justifique tê-la morto? Para quê se já confessei?
– mesmo os maiores crimes acontecem por uma razão.
– não, os maiores crimes nunca acontecem por uma razão, só por falta dela, os crimes menores, sim, têm todos uma razão.
– qual é a sua?
– amava-a.

Bate à porta do mundo

Tinha pensado ser má. Voltar a cara. Fingir que não estás aí do outro lado. Guardar tudo para mim. Mas os tempos vão duros e os domingos infinitos. Para ti também — não que me importe contigo, é mesmo só porque isto se conta em duas penadas, dois vídeos. Não preciso que gostes de Arthur H. de Higelin. Mais fica. Nem de Jun Miyake sem qualquer inicial ponto, nem dos Lillies of the Valley em Pina, de Wim Wenders  para Pina — versão só instrumental, please, please: nem sempre falar acrescenta, nada acrescenta, atrapalha. Toma. Já com bónus de mais corpo interpretativo de ser, imperativo de ser corpo. Pina. Imperativo. Dança. Porque a verdade é sempre o corpo, lugar onde o pensamento floresce o que os sentimentos enterraram para a germinação lenta da palavra, uma a uma pétala, corola toda tão inteira, o pensamento, toda a verdade do corpo pétala a pétala de palavras, falá-las para quê? Há uma saudade que bate à porta do mundo, E dela acabaremos por morrer*. Fecha a boca.

 

*de Else Lasker-Schüller in Baladas Hebraicas

A de Março

ADAM
Está nos Vedas. Teria sido preciso que o sacerdote que orientasse a família tivesse dito: chamemos o adhvaryu para que sacrifique e, enquanto ele, invocarei e recitarei à frente do coro de sacerdotes e diante do fogo, Agni, cujo espírito chega ao pensamento dos deuses, alma do mundo, Agni, boca dos deuses por onde as oferendas. E tudo ficará bem.
Mas Eva nascera muito depois da escuridão que escondia a escuridão se dissipar, muito depois do sopro quente deslizar sobre a imobilidade das águas pretas de silêncio e de as arrepiar de desejo fazendo nascer a vida, trazendo o que nunca houvera sido ao ser – é isso o desejo. Nascera mesmo depois de tudo isto ser esquecido e, na verdade, mesmo depois de esquecida a lembrança de que o sânscrito é só uma memória de quando, há tanto tanto tempo, dos calcanhares dos deuses nasciam os passos dos homens.
E longe. Eva nascera muito longe. Lá onde a pele não era escura nem os olhos. Por isso, quando nascera, muito depois, o pai de Eva não chamara o brâmane que não havia, nem este convocara outros, nem o hotr nem o adhvaryu vieram, nem toda a corte dos intermediários dos deuses, em gestos sacros, para fecharem, sábios, o círculo mágico que defende do mal quem resiste ao mal. Porque era um homem de razão sequer chamara, mesmo autorizara, um padre que a sinalizasse para Deus e o diabo não a tomasse, ou, ainda pior, a fúria de Deus. A mulher, mãe de Eva, ainda contestou: lembra-te do massacre dos primogénitos. Ele, o marido, citou-lhe Marx que andava a traduzir na mesa pequenina da sala, na mesma cadeira onde antes a mulher costurara horas, bordara, o assento da cadeira em palhinha, a madeira clara de um branco anilado e cinza, céu e areia coloriam a mobília, derramavam-se pelos tecidos, entravam pela janela e chamavam-lhe sol, o advento dos homens estava a caminho, entrava pela sala gustaviana, era Marx, o baptismo estava morto desde sexta feira santa, desde que o traduzia ficava na salinha com a mulher, sua companheira, sua irmã, ainda mergulhada na superstição das ideias sem luz.
A mãe porque era temente a Deus e o pai porque não podia ser, nada viam, nada viram, nunca, enquanto Eva crescia, o relógio atrasava, ninguém viu. Porque tudo lhe chegava cedo, a Eva, o relógio, correcção do mundo, atrasava: quando o tempo coincidia com o espaço, era com atraso. No pequeno como no grande, em pequena como em grande. Como soubera ler desde logo, os pais esqueceram-se de a matricular na escola, quando foi, era a mais velha. Porque se fez alta muito nova, não baixaram a bainha dos vestidos de menina quando se fez mulher, foi mulher muito depois das outras da mesma idade. O tempo era contratempo ao pé de Eva: estava-se com ela um minuto, só um minuto, parecia um só minuto, e já tinham passado duas horas. De facto, o futuro chegava-lhe antes. Porém, se dava um passo, o espaço, corrigido, fugia-lhe: antes era cedo, depois era tarde. Pior. Porque do futuro quem sabe são os profetas ou os endemoinhados. Não é esse um dos sinais da presença dos deuses, ou de Deus e do Diabo? Adivinhar o que não se pode saber?
Ali está ela. Eva. À mesa. Finalmente. À direita, a prima Maria com a filha Maria, ao lado da sogra, Maria também, rodeada dos filhos todos. Aquele homem, o único de preto como o mundo antes de vir ao mundo, filho de Maria, casado com Maria, pai de Maria, amará a Eva desde o primeiro olhar, há uma hora inteira que a ama, e haverá de amá-la em todos os dias da vida dele. Eva já o ama há uma vida inteira. Entre o cedo e o tarde não há o tempo. Apenas a eternidade. Presa. Entre o cedo e o tarde, a eternidade. Está nos Vedas.

Um poema para dizer sim

DUETO COM MERCEDES SOSA
Gracias a la vida
pelos passos que damos
sobre as pedras de calcário
entalhadas com os cacos escuros
das nossas lágrimas
Nos passeios iluminados
pela força do mundo
pontas de cigarros lixo papéis
Gracias a la vida
por andarmos solitários
abraçados à morte
ombro a ombro com a calma do desespero
Mas de olhos levantados
para a dança da luz dourada
entre as folhas dos plátanos
de ramos de prata
Gracias a la vida
pelo sonho do amor
pela ilusão do amor
pelo engano do amor
E até pelo corte premeditado e fino
do amor espada
Gracias a la vida
pelos beirais pelas bicas
pelas fontes onde nada escorre
as paredes grafitadas
as mulheres mal amadas
os pedintes no trânsito com crianças alugadas
Pelos drogados enfiados nos buracos das casas
e pelas beatas nas igrejas
e pelas velas apagadas
Gracias a la vida
pela sempre beleza das coisas naturais
pelo mar pelas nuvens
pela alegria do sol
As brincadeiras de meninos à beira rio
as noites quentes de estrelas ao frio
E gracias a la vida
pelo toque acidental
do olhar com a mão
Pelo ocasional
bater sincronizado
do coração
noutro coração

A olho


Se há coisa enervante, é o cozinhar a olho. Pede-se uma receita e dizem-nos, ah, um bocadinho de manteiga, e nós, sim, mas quanto?, sei lá, a olho, a que vires que faz falta. Igualmente mau é o, com geleia/ou o que quer que seja que não faça remotamente parte da lista de ingredientes, também sai lindamente. Pior, se não tiveres mangericão, junta-lhe, vá, oregãos, é uma variante. É enervante! Sou, portanto, uma cozinheira enervante. Dão-me uma receita e não sou capaz de segui-la senão uma única vez: a primeira. A partir daí é sempre um tudo nadinha, ou muito, diferente. Porquê? Porque o que quero no meu prato é o sabor da minha casa que foi. Para lindas surpresas gustativas tenho a alegria de comer fora. E só trago de fora para dentro, as tais receitas novas ou pedidas, o que parece plausível à cozinha da casa da minha avó mesmo que nunca lá tenha sido feito.

 

 

 

 

 

 

 

 

Isto tudo por causa de um cheesecake de que só gosto há meia dúzia de dias. Contei aqui. Fiz a receita que generosamente me deram. Saiu mal. Expliquei à minha irmã o sabor que pretendia: tem um paladar parecido ao meu e cozinha muito melhor. Mandou-me à… Martha. Stewart. Para isto. E à Mafalda Pinto Leite. Para isto. Postos os istos diante dos olhos, cheguei à conclusão de que este light não era light enought. E não é preciso tanta mariquice. Advirto: perigo engordativo. Danger. Danger. Este cheesecake é bom que se farta. Não digam que não avisei. Usei manteiga com sal — ia lá agora sair de casa de propósito para comprar manteiga sem sal por causa de um bolo?!, e a raspa foi de laranja -, queijo fresco batido Phoenicia, quase tudo, e só um bocadinho de queijo Philadelphia, basicamente as proporções ao contrário. E umas boas bolachas para a base, qual de aveia nem meia aveia: Walkers, não são caseiras mas é como se fossem, não têm lá nada a não ser manteiga, açúcar, sal e farinha. Baunilha uso sempre a mesma, em pó, de frasco — tenho alguma horta, eu, por um acaso, para andar com vagens no bolso?! Pois queria ter lindas ervinhas frescas, mas não tenho, é a vida. Frutos vermelhos, congelados, claro. O resto fiz como as meninas Martha e Mafalda dizem. Sou bem mandada.
Podia dizer-lhe, ai que bem que sabe com chá. É verdade. Sabe muito bem. E melhor sabe se for um bom chá. Hoje, no entanto, vai saber-me perfeitamente, pasme-se, com vinho. Este.

Um poema para os intelectuais — todo em rimas bebés

PIM PAM PUM
Não me ensine o seu plural
não penduro as minhas frases
no seu estendal
Pode levar as minhas molas
de gramáticas coloridas
as sintaxes mais que ridas
vá pervertidas
já disse deixo levar
há muito mais por inventar
e eu tenho a chave do portão
à guarda do meu Cão
ão ão
Não lhe fica mal:
quem sabe cria
quem não sabe copia
Ó de si coitado
todo atrapalhado
a escrever com o braço por cima
para que não lhe vejam a paráfrase traduzida em sub rima:
escarlatina tinha a prima tina que sina caiu na piscina
Todo tão estudioso
sabe bem que
se o cabelo for seboso
ninguém lhe olha os pés
de revés
Deslargue lá
destape não tenha medo
isso não serve para nada
as palavras só são boas
quando são de comer
de fazer-se sangue e correr
nas veias ideias de ser
o resto é palhaçada
para corte de rei vai nu
se não é bom que o rei seja eu
não é bom que sejas tu -
perdão tu cá tu lá não
você
Vá já a correr obedecer ao seu deus
seja bonzinho comportado
escreva tudinho ortografado
ai que lindo ajoelhado
ao transcontinental português
upa upa
e que estrangeiros são o brasileirês
o angolanês o moçambiquês
que medo da onda contra ultramarina
em fracturante culpado imperial português
Fique com os agás de pescoço cortado
todos para si tá
não fazem melhores estórias
que histórias eu li pequena
pena pena pena
dos cês mortos de vergonha
caídos na valeta:
o espectador triste nada vê espeta
jack estripador contrariado
mas bem acordado
tenta desde o acordo de 1990
dormir
– também eu queria
e bem que à insónia me faria
Aos senhores todos poderosos por acumulação
inquisidores
escrevedores
criticadores
pensadores
amigadores
ofereço um balão:
cabeça de ar quente
também é gente