Alguém disse, aqui mesmo, nesta sala, contam-se as vezes que fui sozinho ao cinema. Creio que foi o PN. Mas não sei onde nem a propósito do quê — tenho uma memória torta: lembra-se só do que lhe interessa. Recordo ter pensado, então, com estranheza, que bonito. Porquê? Contam-se as vezes que fui acompanhada ao cinema. Em criança, apenas se fosse com primos de idade próxima ou mais velhos; com as colegas, os amigos de mais tarde, mais juventude, não: eles iam para as filas, eu tinha uma semanada muito curta que a frisa na ainda família salvava do escuro absoluto, contudo abria para um ecrã de distância que o intervalo não fechava. E para fazer um convite, tinha de saber de ciência sabida que nenhum crescido iria ou cedera os lugares para que alguém fosse — uma quase impossibilidade, raríssima alegria. Por outro lado, era, há-de ter sido, um descanso para os adultos, nunca perguntei: estava, ou estávamos se era plural de férias, ali, vigiados pelo mais velho e por estranhos olhos funcionários de os meninos portem-se bem, olhos conhecidos, afinal, na assiduidade das sessões.
Isto foi há muito tempo. Noutra vida. Quando os cinemas eram nos teatros, as telas imensas e os senhores e as senhoras não se limitavam a vender bilhetes, isso era na bilheteira com guichet em condições de quase viagem. Quando a bilheteira fechava, atravessavam, pelos passageiros, uma mínima lanterninha à frente, um território desconhecido de cadeiras e cadeiras, e davam-lhes um lugar no mundo. Timoneiros, ida volta, não ficavam, só o leva e traz de passageiros, os outros — do meu posto, via-os chegar, e antes do regresso, a dona Luz, a dona Sãozinha, o senhor Aníbal, cara séria de morte e olhar de má rês, breve desvio para uma volta pela curva sussurrada, se precisar de alguma coisa, já sabe — elas, que ele, pois sim, bem podíamos pegar fogo ao circo e arder por junto com a tenda; o rosto, o corpo, a postura, os gestos, o olhar perigoso, semicerrado, de baixo para cima, nítidos até hoje.
No dia da Madame Butterfly, vinda de longe de olhos em bico, os lugares tomados de assalto pelos mais velhos de todos: precedência feita de tias de bengala, caras de pó de arroz por cima dos sinais, cabelos armados a laca em finas camadas de teias de aranha de onde estranhos reflexos azulados, violeta, o buraquinho do lóbulo da orelha todo esticado pelo peso dos brincos, nunca vi sem brincos como ficava, restolho de papéis de rebuçados, gulosas, éramos transparentes, nunca ofereciam, só às amigas velhas iguais, de cabelos iguais e orelhas iguais, nós tínhamos de oferecer sempre aos mais velhos todos, milhares de anos de uma só vez, sovinatas de lindas bolsas por carteiras. O século tinha descido ao teatro, por inteiro, era preto branco cinza, pérolas preto branco cinza igual, mais camélias de modista, e eu de rabo na rua, quer dizer, no corredor. Se precisar já sabe, bem sabia que precisava, não servia era para ver. A perder uma coisa daquelas, parece mentira, os ingressos pela hora da morte, se precisar já sabe, serviu para espreitar, não se perdeu tudo. E que lindos que eram os bilhetes: grandes, em cores japonesas. Que desgosto. A minha avó, incompadecida de uma sala à cunha toda em roupa de naftalina e sapatos de inferno, e do meu desgosto: mas para quê isso? Aquilo é uma desgraça, não vale nada! Ouça aqui como deve ser e sem fífias para desentupir os ouvidos.
No Verão havia as reposições. As tias papavam-nas todas. Eu, sempre presente, fosse a preto e branco de Bette Davis ou technicolor de Leslie Caron. E aos rebuçados também papavam. Nem um reles caramelo. Sovinatas. Um dia, zás!, bocadinhos bem embrulhadinhos de Caldo Knorr e pus-me a comer chocolate com nougat trazido de casa, a fazer um disparate de barulho com a prata e o papel. O que é que estás a comer, filha? Nougat. Não me serviu de nada a verdade técnica perante a mentira artística. Bem me lixei com o júri por premeditação: fiquei de castigo um mês e tive de fazer a roda das desculpas. Gulosas.
Sozinha nas maratonas de cóboiada, nas de cantoria e dança dos filmes indianos, nas reposições das reposições mais que repisadas depois das tias enterradas, no Bergman de carreirinha, todos quantos passaram quando deram em fazer ciclos de monotonia, cheguei a ficar mal disposta de fechar os olhos, e por ai vai. Ia a tudo, para maiores de seis, de doze, de dezoito, a menos que me apanhassem, e apanhavam.
Não era sobre nada disto que ia escrever. Fugiram-me as teclas. Enfim, atalho: fui ver A Árvore da Vida no outro dia. Um filme para se ver com companhia mesmo para quem goste de ir ao cinema descansado — fui mal, portanto. Não encontrei lá nenhuma Odisseia no Espaço, nem aquelas coisas cinéfilas do não sei quê porque não sei quais são, quando as leio, não percebo nada e perco mesmo a vontade de as perceber. De cinema só quero ler o pão pão queijo queijo, coisa, ao tudo indica, inaceitável já que ninguém a faz. Ou a pura invenção do maravilhoso: as crónicas do João Bénard. Ou a beleza cheia dos textos do nosso MSF, cheia de informação bem mastigada pelo pensamento, cheia de vidas que não vivemos, fáceis fáceis de ler, verdadeira arquitectura da simplicidade essa beleza. Ou as especialidades do PMS fundamentadas ao cabelo, que, acabo de saber, estão na Sábado. Gostei muito. Na estrutura, parece-se com o último romance do Lobo Antunes mas em melhor: não é um romance, não é um contra romance, é outra coisa. Sim, sei o que está a pensar: já o Raul Brandão… era para dar um exemplo mais contemporâneo, que chateasse menos, nem toda a gente tem fraqueza pelo Brandão. É parecido, mas em melhor por ser mais amplo: cabemos lá todos. E em americano. Completamente americano de anos 50 numa linguagem limpa de excessos. E outra vez completamente americano na hipérbole, temporal ou atemporal?, e sinfónica. Para além de ter gostado muito da coisa em si, também gostei muito da falta de medo da frugalidade do texto, da falta de medo da hiperabundância musical, da falta de medo de trazer inundantes imagens, até paradas, sem movimento, para fazer movimento com imagens paradas — foi como deve ter sido na origem do cinema, não é? Coincidências belas. Mal comparado: sabe aquilo de bildungsroman e lailailai? É isso mesmo. Porém, contra todas as evidências, ao contrário. Não é, contra todas as evidências, os comos e os porquês: o como nasceu, o como se desenvolveu, o como maturou. É o que é. E o que é? Um testamento que acrescenta ao não resistais ao mal do Sermão da Montanha, o resistimos ao mal e resistimos ao bem, e rendemo-nos a ambos. O (os) personagem pergunta a Deus. Todavia é o realizador quem responde. São o mesmo, o rapaz, o adulto, o realizador, Deus e o silêncio? Partilham da mesma substância? É irrelevante, somos ele, tu e eu. A vida é o belo mesmo quando é o horrendo. É o que é. Escrito em americano de todos nós.











A Eugénia ao volante, o Ruy ao lado. Os dois na disposição do costume: parece que vivem na alegria do mundo, não param de inventar nem sentados no carro. Cantam, ele, afinadinho, a fazer voz de galã da rádio dos anos 40, ela, uma pauta de desafinação compensada pela interpretação dramática interrompida pelo riso. Não negam a raça. Aliás, para a banda estar completa, só falta a Joana — está no carro do Pedro a dormir em sanduíche, é o queijo, ao lado as fatias de pão, Marta e Vasco. Estavam perdidos de sono. Fazem a festa. Agora é o Non ho l´età. Estão tão entretidos que nem dão pelos avanços do Júlio, aqui, no banco de trás. Palerma. Arma-se em engraçadinho e acompanha-os na cantoria virando-me uns olhos de borrego, lascia che io viva un amore romantico. Não o suporto. Só o perfume… Se não fosse sócio do Pedro nem lhe mostrava os dentes. Faz-me acreditar no Triunfo do Orwell. É um ordinário. Um promíscuo. Deve pensar-se viril, um Apolo – também, dão-lhe argumentos. Tem a carteira cheia e areja-a. Funciona: tudo o que está venda, chega-se à frente, a chorus line, todas iguais, um suor de desespero, leva-me, escolhe-me. Nunca percebi o que passa pela cabeça da maioria das mulheres — nem pela dos homens para dizer a verdade. O mundo é um lugar estranho: nunca me senti em casa. Ainda bem que os tenho a eles. Mas estes dois, o Judas de ginásio e a caricatura da Mata Hari… estavam tão bem um para o outro, duas gotas de água. Ninguém me convence que o Júlio não lhe deu umas voltas, mas, e quem é não andou no Carrossel da Selva?, mais uma volta, mais uma viagem. Ainda por cima quem vai sentada ao lado do Pedro é ela. Detesto-a. Detesto-a. Preferia nunca a ter conhecido. Palavra de honra, se aquilo se atira ao Pedro, e ele lhe dá corda em vez de a mandar pastar como vaca que é, é hoje. Giestas. Um caminho de giestas. Devíamos parar enquanto é tempo. Parar o carro, parar a tempo, fazer um piquenique, parar o tempo, devolver os lugares à ordem. É hoje. Que vergonha!, o Vasco, a Joana, a Marta, uma humilhação pública. Se me fazes isso, Pedro, é hoje, garanto-te. Nem posso pensar. O Pedro não ata nem desata: há quase três anos e nem uma palavra sobre casamento, não sei porquê, entendemo-nos como ninguém, uma simetria, com dois olhares falamos, e na cama, meu Deus, tão bom. Quando me apresenta, parece que o embaraço, porquê?, é a Teresa, a minha namorada, quando diz namorada já a voz se lhe some. Porquê? Às vezes, em casa, ponho-me a observá-lo quando está entretido a fazer qualquer uma das coisas dele, absorvido, dá-me prazer aquela coreografia de gestos, o mesmo prazer que as frases, quando fala, ouço tudo, ponho-me a observá-lo e penso: quantas são as pessoas que podem dizer, encontrei o que sempre sonhei e não acreditava. Quantas são as pessoas que são felizes e sabem que são? Faz-me tão feliz amá-lo. Não sei amar uma pessoa qualquer.



















