Eh touro lindo!

A minha irmã e o meu cunhado vieram jantar. Trouxeram o filho de ambos, o meu sobrinho. Findo o jantar, já para o tardinho em relógio de baby, ligo a televisão.
Eu para o meu sobrinho:
— vamos à corrida?
O meu sobrinho para mim:
— tim!
Eu para o meu sobrinho:
— está a ver que lindo?
O meu sobrinho para mim:
— é memé!
Eu para o meu sobrinho:
— qual memé?! Não é memé, é touro.
O meu sobrinho para mim:
— é va. Muuu.
Eu para o meu sobrinho:
— não é vaca. Faz muuu, mas é touro. Touro não é vaca.
O meu sobrinho para mim:
—  muuu.
Eu para o meu sobrinho:
— tou-ro, tou-ro, tou-ro..
O meu sobrinho para mim:
— muuu!
E Zás!, dá-me uma cabeçada na barriga, agarra-me à bruta e não larga.
Eu para a minha irmã:
— temos forcado!
A minha irmã para o marido:
— vamos embora.

06 Toponímia ínfera


Fotografia de Daido Moriyama


Somos, juntos, de brandura. Por isso, penso que seja por isso, nos é tão conforme o barro e o bíblico pó de um dia para quando, em nós, nenhuma água cante e sobrevenha, vermelha, da terra, só a argila, e das horas, só a memória na boca de outros onde o nosso sangue corra ou o nosso sonho vibre. Somos, juntos, de brandura. Por isso, penso que seja por isso, tão maleáveis o corpo, o coração, o pensamento, completa substância do amor, o pensamento, o coração, o corpo, macia e humedecida substância, completa no corpo de amor, barro apenas, argila e água onde se inscrevem a acção e o desejo, e onde o sopro que baixinho alimenta o fogo nascido do espírito, sussurra nas chamas: tudo o que te dou me acrescenta.

Lanche

Odeio domingos. Odeio. Os domingos são menos maus quando há John Le Carré para ler. Hoje não havia: às vezes os personagens desaparecem, não se deixam encontrar porque se fizeram carne e osso. Fazem-me falta. Jim Prideux. Gosto tanto da qualidade silenciosa de Jim Prideaux, da solidão atenta como a de todos os que são alvo de dois tiros de origem insuspeita que alteram tudo o que é rotina de sentir e pensar, sem alterar nada do que é a própria natureza — só mais funda rumo ao sem fim. Há gente que é jim, pessoas cujo coração é uma cápsula incorruptível de ser,  mesmo quando o chão cede. Gosto tanto. Não havia. Pensei: vou fazer uma bola – já sei, já sei.. era mais bonito, num post, dizer: pensei, vou fazer um soufflé.. azarucho, era mesmo uma bola de carne que é uma perdição. Mas como não é o género da coisa que se congele e não tinha quem a comesse, decidi fazer pão. Conheço-me mal. A Bertha Rosa-Limpo conhece-me melhor: fiz sericaia. Todavia não a sirvo com ameixas. Sejam elas de onde forem. Com leite fresco, quase gelado.  Está feita. Tem fome ou é muito tarde para lanchar?

Story tão pequenina..

 


Fotografia de Pedro Norton


(…)
Hei-de reconhecer-te pelo imortal
silêncio.

Cristina Campo, in O Passo do Adeus, A&A

AMOR, O TEU NOME
— o que há dentro de um nome?,
dizes. 
— destino,
digo, é a absoluta invocação da verdade.
— avançamos em direcção a quê?,
dizes.
nada, não há onde chegar, digo, é aqui.
No caminho circular do retorno, as estrelas caem só para iluminar os corações no escuro.


03 Coisas lindas de românticas para dizer ao Grande Amor

ONDE?
Em qualquer rua de Lisboa que esteja enfeitada com grinaldas de papel coloridas, ao alto, e grelhadores gigantones, cheios de sardinhas e febras, ao baixo. Quando? Quando ele, o raio do Grande Amor, lhe oferecer um manjerico só para você ficar feliz.. com ele. Malvado manipulador!
O QUÊ?
Merci, gostei muito.. é que nem de propósito, você parece que adivinha: queria fazer trenette com pesto alla genovese, mas não fui ao mercado comprar manjericão.

Eu própria só não o disse ainda, ouça, pelo motivo do costume — e não, não é por desconhecer Alfama, nem por deficit manjerical.


Ó freguês! Olhe o manjerico..

O DIOGO LEOTE — QUE DANTES ATÉ ESCREVIA
DESAPARECEU, Ó,  E NUNCA MAIS DISSE NADA..
SE A LÍNGUA NÃO LHE TEM SERVENTIA
MAL NÃO FAZ: COZINHO-LHA ESTUFADA.

Lemos para ser. Lemos para desser. Lemos porque sim, porque somos.

Um dia, há pouco tempo, estava a ler um estudo sobre o cérebro masculino, feminino e as diferenças entre. Pensei: Zás!, está aqui, está uma fracturante aos gritos que é igual igual IGUAL! Silêncio por cá, molhos de vozes nos EUA que tendem a gritar sempre antes da Europa. Porque é que o raio do cérebro feminino haveria de ser funcionalmente idêntico ao masculino? Pior.. porque é que não sê-lo, é mau? Acaso o feminismo obriga a ter como paradigma o homem? Isso não é machismo? E sempre aviso a navegação desatenta: não encontro qualquer indignidade no trabalho doméstico, mas acredito que fere a dignidade de quem o executa, denegri-lo, penso que precisamos do marido/namorado/ híbrido, não para que venha ser nosso pai, que essa conversa já chateia, mas para o comermos de beijos e outras inutilidades sagradas, profanas, práticas e doutro modo impraticáveis, materiais ou absolutamente desmaterializadas, mas essenciais à felicidade. Porque isto é pouco, sim, Deus existe. Qualquer coisa: blame it on the books.

Quando eu era pequena, se tinha heroínas, não sabia. Porque eu era elas a espetar o dedo no fuso de uma roca e a dormir cem anos. A avançar na floresta, já que me queriam o coração, prova de morte, numa caixa, ainda que não fosse viver com os Sete Anões porque nunca quis viver com os Sete Anões, não gostava daquela vida com Sete Anões, eram homens velhos de barba branca como se fossem crianças. Não. Não me apanhavam lá. Metia-me medo. Preferia, de verdade, medo por medo, tê-lo da maluca da Rainha de Copas, sempre era doida, e andar num lugar onde não se percebia nada de nada, mas não era preciso fingir que se percebia. Não sabia que a Gata Borralheira, Cinderela que nos vingava, era uma heroína. Ou que a Bela do Monstro era. E desta sempre gostei mais que muito. Ainda hoje. Até porque, quando se é pequeno, não se supõe que uma Sereia que se deixa transformar em espuma de mar para não enfiar um punhal no coração de um ingrato, possa ser heroína do que quer que seja. Quando se é pequeno, ser herói é ganhar, vencer os maus e de preferência dar-lhes um enxerto de porrada. Um coração igual ao nosso mas mais forte e melhor. Vá, até mesmo substituir a pancadaria que merecem por uns valentes castigos. Em branco.. os maus, santa paciência, não passam. Os heróis de mim pequena eram príncipes, guerreiros, fadas, todos de extraordinários poderes rimados de matei o dragão, beijo-te, és minha e uma abóbora é uma carruagem na ponta da minha varinha, ou poderes desejados, esta é uma casa encantada, eu com ela, nós dentro até que tudo luz. Herói não era porque homem, mulher, ou ser, ou bicho.
Não cresci muito porque caí directamente na banda desenhada a galope do Zorro e coladinha ao Fantasma com quem pensei seriamente em casar. A primeira vez que me ocorreu isso de modelos morais devia ser como ela, sem que ela fosse a minha avó ou  a mãe, foi com a Nossa Senhora. Talvez fruto das aulas de preparação para a Primeira Comunhão, onde aprendi o que não sabia: as minhas maldades de pedir desculpa e não faço mais, acreditando que não faria até à próxima feita, eram na realidade um pecado terrível que não sabia exactamente qual era, mas havia de ser terrível de certezinha, porque ninguém dizia qual era, só que era original — e não porque fosse genuíno, antes porque estava na origem. Havia de ser medonho. Obediência. Bondade. Cuidar bem do chorão, levá-lo a passear de carrinho e fazer-lhe uma festa de baptizado. Tudo sem pai como mandava o figurino. As meninas com chorões são sempre mães sem pais, mulheres sem marido. A segunda vez que me ocorreu devia ser como ela, foi com a Scarlett. Contudo, sempre com as asas da culpa da Melanie e da Nossa Senhora, anjos de Branca Neve, a pairarem por cima, e vá de tapar os ouvidos e ouvir na mesma e querer ser na mesma.
Sim, claro que também quis ser bem comportada como a Anita, exemplar, todavia, nunca — bem gostava. E também chorei com a Sarah Crewe. E escrevi quilómetros com a Jo March. É evidente que me apaixonei pelo Mr. Darcy quando fui cinco longos segundos de Elizabeth. Que me enganei uma fartura de cada vez que fui Emma e me benzi só de pensar que podia ser a Jane Eyre — que horror no sótão! Nunca me senti Guinevre, apesar da paixão pelo Thomas Mallory. Nem o Salgari, apesar do Sandokan, nem o Dumas apesar do Monte Cristo, me fizeram querer ser rapaz — Verne, confesso, só li em bd. Dava-me uma seca do piorio porque, na altura, apaixonada pelo Pedro Bala, tinha a cabeça toda formatada em Jorge Amado e a professora de Português, no colégio: Vasconcellos!, a menina não pode ler isso, é impróprio! Vá lá que só podiam mandar-me ao gabinete da Madre Superior, e, ó que desgraça tão desgraçadinha, trocar-me o recreio pelo exílio na biblioteca.. Nada de puxar orelhas, nem de dar reguadas porque o 25 de Abril continuava vivo e de boa saúde, excepto para a professora de ballet que por ser adepta, nem de propósito, da escola russa, batendo-nos no exacto local do corpo que falhava para lhe ensinar directamente a correcção, a nós, nem nos tocava. Prodígios da dança. No castigo, conheci o Descartes antes de saber o significado de filosofia — gostei-o logo na carta.
Quando dei por mim, tinha perdido a Scarlett, do mais vivo que pode haver, ainda que nunca tenha existido, porque estava entre gente, ó paradoxo, verdadeira, porém morta e morta de morte morrida, em versão instantânea, ou lenta. Era a tal da fase sombria da adolescência antes toda solar: Sylvia Plath, gás, Virginia Woolf, água, Emily Dickinson, filha, Pessoa, álcool, Hemingway, miolos à Pollock, sempre eles, não os personagens deles. Mas mais, muito mais, uma adoração por Eça. E Hesse. E uma curiosidade aguda e indiscriminada, Lessing? Venha.. Guimarães Rosa? Venha também. Venha o que houver. Havia.
Ao fim da última linha da infância legal, uma inveja admirativa por Agustina — malvada, malvada!, escondida de mim, como?! Ainda hoje não percebi esse estúpido segredo até aos 18 anos. A idade em que conheci a Murasaki Shikibu e o Sena, a preceito. Depois? Depois é o que se sabe, poemas e crónicas de poetas e cronistas, uma fraqueza que se me dá, ensaios e autobiografias, as únicas autópsias que interessam por junto com os romances, uma fraqueza, ó de mim, sem fim. O que vale é que o cinema não entra nesta conversa, nem as proscritas séries de televisão.

Vemo-nos amiúde: sentamo-nos no sofá, calados, a ouvir

Pintura de R. Magritte

O meu tio António morreu novo. Foi sempre muito novo. Novo demais para poder ser um tio avô e para eu o conhecer. Só teve idade, à tangente, para ser tio da minha mãe. Nem sei como. Era muito novo demais para graus de parentesco daqueles que exigem, pelo menos, alguns cabelos brancos e um travo da gravidade que se espera dos adultos já mesmo adultos; a prática de algum exercício da maldade. Era o filho mais novo e por isso o irmão mais novo. Foi sempre, coisa que não é tão constante quanto pode parecer. Conheço casos de irmãos mais novos que se transformaram em mais velhos. Ele não. E nunca envelheceu, não teve tempo: ficou doente logo à partida. Tuberculose. Ainda assim enchia a casa com a sua linda voz de barítono. Contaram-me. Era de uma bondade tranquila, cheia de migalhas de pão para os pássaros, para os peixes. Que a felicidade o tocara, apesar da manta nos joelhos em vez das correrias. Sentiam alegria ao lado dele, a ponto de esquecerem a presença da morte no canto mais escuro da casa. Que era terno e os animais vinham ter com ele. Cantava. Contaram-me. Era tudo verdade. Ainda é, damo-nos muito. Vou vê-lo amiúde. Ou vem ele.
O meu avô dizia: o meu irmão António. Nunca: o António. Sempre: o meu irmão António. Os outros irmãos eram o nome deles, o corpo presente. Este era o sangue antes do nome e eu percebi logo, antes da escola, que o sistema circulatório se fazia mesmo com as veias das ausências e tinha tudo a ver com o coração. É importante aprender cedo que o amor que se tem para se amar, nem sempre tem um corpo para poder ser amado. É importante: é uma porta para a atenção ao invisível.


 

TPC: E. Hopper — office at night

SENHOR ENGENHEIRO..
Todas as pessoas deviam ter uma prima Nair. Eu também. Aliás, nem sei se todas as mulheres não deveriam ter uma nota, pelo menos uma nota, de Nair, como a que fica, de um perfume, na roupa. Ou ainda mais dentro: a recordação de um aroma bem entranhada na memória primitiva, mas esquecida à superfície e por isso indetectável no rasto, e por isso imprevisível no efeito de si mesma quando emergida. Poderia ser, para umas, o olhar de Nair: a cabeça ligeiramente inclinada para baixo e um dos lados, o meio sorriso a levantar os olhos para cima, o clássico espreitar por baixo das pestanas muito pretas com a evocação toda do movimento pressentido no rumor das sedas atrás de recatados biombos. Sim, o olhar de Nair. Ou as pernas cruzadas e lateralmente estendidas, uma sobre a outra, deitadas, completamente juntas, duas linhas apetecidas de infinito, a inventar uma geometria de começos escondidos, começos longe tão escondidos debaixo do tecido, e fins nas pontinhas elegantes dos sapatos. Ou a mão, poderia ser a mão de Nair, aquela que o braço às vezes esquece, brevemente suspensa do pulso enquanto o arco móvel das sobrancelhas, em espanto. Ou talvez a expressão dos lábios, das expressões do rosto, a mais infantil. Porque uma prima Nair é um bem necessário. Esta minha prima, se eu a tivesse, gostava-a. Desde os gestos, à volta ondulante e curta que a anca define antes distribuir o peso do corpo, três quartos assentes sobre a perna esquerda, atrás, um quarto à frente sobre a perna direita, quando se procura uma posição confortável, em pé, parada, o queixo bem levantado, gostava-a. Há mulheres que sabem estar de pé. Ela saberia. Sempre enraizada, três quartos, sempre quase solta, um quarto, sempre desafio no queixo alto. E sempre vestida de cores nuas agarradas à pele. Gostava-a.. e aos pequeninos biscoitos amanteigados que ela faria, serviria e comeria sem morder, mordiscando — biscoitos de massa bem trabalhada até que lisa, fina e a escapar-se por entre os dedos quentes contra a pedra fria, engordurados, a temperatura exacta do forno a fazer os cabelos sobre a nuca e sobre testa, húmidos na raiz, e a blusa a querer juntar-se ao corpo por uma gota de suor rolada pelo exacto o meio das costas, da base do pescoço numa corrida rápida até à cintura, enquanto sobre o lume, o cheiro doce do doce tomate na cozinha demasiado aquecida. Mesmo o chá, mordiscado em pequeninos goles até passar de morno a quase frio, permanente chá na chávena, o doce de tomate brilhante na taça entre as torradas e o prato dos biscoitos. Tudo eterno. Tudo levemente envelhecido de bom uso, tudo alheio a modas, tudo como só nos lugares bem amados.
Lembrou-me agora, a mesa de chá da Nair, o meu bisavô Manuel, um ano depois da mulher ter morrido, a minha bisavó Teresa, à noite, o Natal por dias, já a rondar, eu pequena no corredor, a porta aberta, a vê-lo, ao longe, tinha-lhe um bocadinho de medo, ele mais zangado do que inquisitivo, sem sequer levantar a voz, zangado, a voz afundava-se, para a minha tia, sua filha, à primeira, única, inaceitável alteração: o robe de chambre da mãe não está aos pés da cama porquê se a mãe havia de querer o robe aos pés da cama?!
Esta minha prima Nair, se a tivesse, agora muito viúva de muitos anos de um engenheiro, engenheiro de pontes, o cabelo enrolado sempre, penteado sempre como se desmanchar-se, a roçar a curva do ombro, bem amada, haveria de dizer-me: chamava sempre senhor engenheiro ao seu primo, meu marido. E logo a seguir: senhor engenheiro… como se estivesse diante dele, a chamá-lo para fora do relatório e para dentro do arquivo, ou de bloco de papel e caneta na mão disposta a tirar desnecessárias notas, no escritório, à noite, depois do meu primo vir do atelier, no gabinete ao lado. Diria, senhor engenheiro, franzindo os olhos do sorriso espreitado de malícia pequenina, um toque das pontas dos dedos rápidos habituados às teclas da máquina de escrever, o arredondado das unhas rosadas, curtas debaixo do verniz transparente, dedos de estenografias de serão, um toque das pontas dos dedos na palma da própria mão, senhor engenheiro, quando no escritório ambos, porque, dir-me-ia para concluir, lá, não era mais do que a secretária dele.

JOANA! Ó JOANA!

3, 2, 1..
PUM!





 

 


MEIA NOITE E UM SEGUNDO
em vermelho e cor de rosa
para inaugurar
o dia
5 DE JUNHO DE 2010!
Porquê?
Ora, adeus..
QUEM, Ó QUEM, SERÁ



 

 

 


que hoje descobre
que quarenta e três
são duas vezes felizes vinte
mais três?
O quê,
diz que não lembra
rigorosa,
minuciosa,
exacta
e vividamente
de como foram os felizes vinte?
Olha que tolice,
não seja por isso..
se estávamos todos lá!
Foram assim:

Já viu?
Então, agora é só multiplicar por dois
e acrescentar três:
TRÊS RICAS FILHAS.

PS: de tão discreta,
não sei se terei sido clara..
Querida Joana:
FELIZ ANIVERSÁRIO!

Caillebotte story, perdão, botte story, ai!, short story

RUE DE PARIS; TEMPS DE PLUIE
— a luz é linda, assim, depois das quatro, escorrida até aos veios da estrada calcetada, lisa no passeio limpo.. mas estamos a fazer tudo mal.
— mal?
— esta pintura não é para ser vista de frente, parados.
— não?
— não. Tem de ser a andar. Isto é olhar de quem vai atravessar a praça a partir deste ponto. Para a nossa esquerda. Reparou que o casal tem o olhar dirigido, todo, para a própria direita..
— claro.
— porque conhece um senhor que está do outro lado, é o solicitador deles, e ainda que com alguma distância de permeio, estão ambos a pensar: ele está longe, está a mudar de direcção, cumprimentamos?, será nos vê?
— viram-se?
— não sei, iam tão concentrados neste pensamento que se distraíram da rua e tocaram no casal com quem se cruzaram mesmo em cima: ele ainda encalhou ao de leve na senhora que estava a descer o passeio — bem vê, tinha de ser na senhora, porque ela é que ia do lado de dentro..
— qual casal?
— dê cá o braço, Jeune homme à la fenêtre, que depois do encontrão não estou para escorregar nas pedras molhadas.

03 Neologismos do É tudo gente morta

ABDÓLMEN: toda a gente sabe que os rapazes são umas criaturas sanguinárias, teletransportadas do neolítico pelo feixe civilizacional feminino. Não fora este e andariam alegremente uns com os outros a caçar bichezas, a domar bichezas, a levantar casas nas margens dos lagos e rios para poderem mergulhar o duche matinal, não terem maçadas com a louça ou de carregar água engarrafada. Fariam punhais e outras barbaridades lascáveis. No intervalo, para se recuperarem da canseira, leriam Proust. Ora, uma vez do lado de cá da teletransportação, o tanto que ganham com o superior convívio não os faz esquecer a brutidade primeva, em inglês antropológico, primal roughness. Isto verifica-se no entusiasmo que têm por caçadas, futebol que é caçada na mesma, pelos desportos violentos ou desabridos, filmes de pancadaria em geral e de cowboys em particular. São indiferentes a sentimentos de repulsa por ratos, baratas, insectos nojentos e ofídios. Por último, têm grande apetência visual pela crueza anatómica, seja de brunas reais ou irreais, de miolos de macaco, ou estupendaças* imagens de pítons rasgadas pelo jacaré comido ao almoço. Tudo porque os rapazes, ao contrário das meninas, têm, não um abdómen, mas um ABDÓLMEN. Um ABDÓLMEN é um estômago capaz de digerir pedras de grande porte. Este conhecimento é de tal forma do senso comum que costuma ouvir-se entre eles o elogio: é pá!, grande estômago… ie, ABDÓLMEN.

Adendazinha: gente amiga — umas bruxas controladoras! — informa-me que este neologismo não está formalmente tratado como os anteriores.  Já fui verificar. É tudo verdade. Ó. Ainda pensei penitenciar-me adentrando a procissão do Pardon Breton. Mas era uma estafa com este calor. Segue  uma, vá, errata.

ERRATA
Linha primeira, após ABDÓLMEN deverá ler-se, no espaço em branco, neologismo quarto.
Linha última, por escrever, deverá ler-se: assim, ABDÓLMEN, integrado no léxico; substantivo, masculino, singular. Plural abdólmens.

*onde poderá verificar declaração conforme, de Vasco Grilo, no dia 1 de Junho de 2010, às 23:05

E quando crescer, a pitonzinha, quer ser..

Destes?

Destes?

Ou destas?


02 Coisas lindas de românticas para dizer ao Grande Amor

Onde?
A toponímia da coisa, aqui, escapa-nos completamente. Ó. E logo a nós que gostamos de ter tudo sob controlo. Mas fazer o quê? C´est la vie. Há coisas que, as muito feministas que me perdoem, só sabem completa e inteiramente bem quando são os rapazes a tomar a iniciativa. Não, não é machismo. É verdade. Seria bom se acontecesse no cinema. Ou assins. Porque haveria um ponto externo onde convergir a atenção. Facilitador, portanto. Porém, um bocadinho de ruindade é indispensável. Dificultador. Porquê? Simetria! Reciprocidade! Isto é, na verdade: vingança. E tudo porque o raio do amor é uma nervoseira. Se não ficar feliz e aflita da primeira vez que o seu GA lhe der a mão, isto não é para si e eu estou cheia de inveja porque preferia que não fosse para mim: também acho mais sexy ser-se cool — o português às vezes até parece estrangeiro, não parece? Adiante. Sim, desta vez o Onde? é um Quando? Quando ele lhe der a mão pela primeira vez.
O quê?
Seja doce, feminina e delicada. Quando ele lhe der a mão, no exacto instante em que ficar com o coração a bater-lhe na garganta, diga ao malvado: querias dar-me a mão ou isso foi um movimento involuntário do bolbo raquidiano?

Eu própria, só não o disse ainda porque tal malvada mão nunca se deu a conhecer à minha. Sua feia!

Coisas lindas de românticas para dizer ao Grande Amor


Onde?

No antiquário. Diante daquelas medonhas, vá, ai que interessantes, colheres de sobremesa, ou de chá, adornadas com os Santos Apóstolos e que nos perseguem há que séculos num revivalismo que é já prova de eternidade. Pegue numa. Qualquer uma, tanto faz, olhe pode ser uma reprodução holandesa do século XVIII, é feia na mesma.
O quê?

— querido, vê que colher tão perfeita para eu te tirar os lindos olhinhos… quando os tiveres esbugalhados de entupidos de Bündchen.

Eu própria, só não o disse ainda por falta do bem essencial ao diálogo. E não, não estou a falar da colher.

Livre associação 08


Estava a rever esta..

Fotografia de Pedro Norton

lembrei-me desta:

Fotografia de Imogen Cunningham


O Blog é bicho vivo e tem alma, dizem

Este blog é feito por 13 pessoas dentro — e leitores dentro e fora e mesmo em trânsito entre uma e outra coisa. Gosto de todas. E gosto do blog, a começar no começo que o nosso Francis desenhou para morrermos em paz, até à zaragata sem gauleses, mas com obrigatória peixeirada. Ou seja, percebi que blogamente falando, não quero abrir mão nem de umazinha só pessoa, quanto mais de 13. Sim, também não quero abrir mão de mim, aqui, onde sou feliz. Assim, reconsidero, não a avaliação que fiz, mantenho-a em cada linha, e espero do Gonçalo o pedido de desculpas que mereço, mas a decisão que dela decorreu. Prefiro zangar-me muito com o Gonçalo por causa do post que fez, à ausência do Gonçalo, dos textos do Gonçalo, e da generosidade do Gonçalo em partilhar connosco mesmo a intimidade de uma noite de fados entre amigos. Do Pedro e do Manuel, não digo das saudades que teria, um ai, para não ter de dizer aiai, já que seria incapaz de lhes dar argumentos do género, os meus ricos rapazes. E o que é que fazia sem a minha Joana? Quem é que me mostrou que a lealdade de uma amizade de vida inteira nos pode ser oferecida por uma amiga de infância que nossa infância se distraiu de conhecer? A ausência da menina mesmo má que a Teresa sabe que é, deixar-me-ia sem cor. Creio mesmo que a minha vida não seria a mesma sem pensar o José Navarro entre os vulcões dele, os pintores dele, enfim, o Navarro‘s World é todo um mistério por decifrar. Ora isso é que não pode ser. E sem imaginar o Vasco de cada vez que me dá para pensar em Nova Iorque, terra quase tão boa de se viver quanto Lisboa, mesmo que seja no York Hotel. Ou quando ando a gastar as montras pseudo milanesas todas em sádicas Gucci, e eu masoquista com carteiras de contrafacção. Nem vou falar do Pedro Obi Cine Wan Kenobi, ou do Ruy de além mar. E há a questão familiar, claro, tenho cá um bisneto, o António Eça, praticamente criado porque não vai para novo e a quem devo, ó vergonha, um rico post: o meu marido haveria de ficar às voltas na tumba se lhe fizesse esta falseta de incumprir — pois claro, marido meu de um bisneto dele.. se tiver dúvidas o PMS vai explicar-lhe, e sem estaladas que façam o leitor sentir-se a Faye Dunaway, que, mal comparado, isto entre mim e o bisavô, é tipo Chinatown, mas em platónico. Porque isto tudo é pouco, não devolvi ao Diogo o parafuso de lhe atarrachar a cabeça ao pescoço.
Aos meninos e meninas que pediram que ficasse: não queria fazer uma fitinha, nem que tivessem que ter pedido que ficasse, têm de me perdoar por vos deixar nessa situação, a verdade é que fiquei triste e zangada. Ficaria mais, icomparavelmente mais, com a vossa falta. E chega de telenovela mexicana.

E você? Quem é?

Se eu lhe dissesse que por causa de uma lagarta azul saberíamos quem é o Manuel S. Fonseca, acreditava-me? Fazia bem em acreditar, é tudo verdade, ainda por cima tão verdadeira, seja debaixo da chuva de um céu regador sobre a terra de crescer, ou no dia da vida e em dia de morte. Começo a desconfiar que Alice, mais que revista linda de ler, tem páginas olhos. De nos ler a nós.

09 O amor luz

Fotografia de Pedro Norton

Há quem diga, adormeci nos braços da noite, suspire e guarde o amor entre as coisas inefáveis, com pétalas ou penas, em colectâneas de sentimentalidades, depois desfeitas naquilo sempre foram: flores e pássaros da natureza de carro alegórico. E então diga, arranca de mim o amor, lhe chame almofariz de sal, ou qualquer metáfora que fira, saiba a sangue na boca e enxaqueca, diga, arranca de mim, enquanto a cabeça lateja uma náusea de agarrar as paredes, tontura de mundo no escuro e silêncio sobrevindo numa cama de horas. De novo dirá, ao acordar limpo de céu em papel de lustro, adormeci nos braços da noite.
Porém. Quando um nome é o nome, pode comer-se de beijos que o coração lembra o primeiro batimento — saudade é sempre do futuro conjugado sobre o passado -, e diz: o teu corpo é a minha morada, a minha vigília toda foi para encontrar o caminho de volta, chegar perto do desejo, conhecer a fome, cair no abismo dos teus meus abraços.

Play it again, Sam*


O meu sobrinho fez ontem uma exorbitância de anos: 2. Inteiros. Completos. Uma fartura de mais de 700 dias. Esta é a música preferida dele. Também gosta da ária da Rainha da Noite, e ainda mais da parte em que a Majestade respira por absoluto mistério.  Do Lamento de Pamina, com muita atenção. E da Marcha Turca que não tem nada a ver com isto. Faz que toca piano no encosto do sofá e dança. Mas com a Flauta Mágica é que é a loucura. Ficava-me bem dizer que o rapaz é um monstro dotado apesar de não falar. A verdade, no entanto, é que o reportório de pedidos, inequívocos, não se fica por aqui. Faço a play list. Em bilingue que sou um primor de tia. E acrescento: tive de ouvir nove, nove vezes de seguida, o dueto Papagena-Papageno na quinta feira. Fiquei com penas e bico! O porquê do acrescento? Ora adeus! Isto de família vem com obrigações… para quando for velha lhe cobrar a companhia em termos igualmente inequívocos: o menino faça o favor de vir com a sua tia à ópera porque o seu tio está uma desgraça de surdo e agora sou eu que estou com ganas de ouvir A Flauta Mágica tio?!, diz você que é um leitor atento, tio como se não tem marido? Ora outra vez adeus, não estou cá a contar que, a despeito dos requisitos um tudo nadinha lailailailai, São Gonçalo incumpra.. entre tanto malvado que há no mundo, há-de haver um em condições e que, vá, me apeteça.

Play Happy Birthday List.
Pagên– Papageno
AhAh – Rainha da Noite
Pian – Marcha Turca
Pinpin — Le ragga des pingouins
Atchim – Atchim do Avô Cantigas.

* eu sei, eu sei, não é preciso que digam: esta frase não existe no filme.