Cinema & Companhia

Alguém disse, aqui mesmo, nesta sala, contam-se as vezes que fui sozinho ao cinema. Creio que foi o PN. Mas não sei onde nem a propósito do quê — tenho uma memória torta: lembra-se só do que lhe interessa. Recordo ter pensado, então, com estranheza, que bonito. Porquê? Contam-se as vezes que fui acompanhada ao cinema. Em criança, apenas se fosse com primos de idade próxima ou mais velhos; com as colegas, os amigos de mais tarde, mais juventude, não: eles iam para as filas, eu tinha uma semanada muito curta que a frisa na ainda família salvava do escuro absoluto, contudo abria para um ecrã de distância que o intervalo não fechava. E para fazer um convite, tinha de saber de ciência sabida que nenhum crescido iria ou cedera os lugares para que alguém fosse — uma quase impossibilidade, raríssima alegria. Por outro lado, era, há-de ter sido, um descanso para os adultos, nunca perguntei: estava, ou estávamos se era plural de férias, ali, vigiados pelo mais velho e por estranhos olhos funcionários de os meninos portem-se bem, olhos conhecidos, afinal, na assiduidade das sessões.

Isto foi há muito tempo. Noutra vida. Quando os cinemas eram nos teatros, as telas imensas e os senhores e as senhoras não se limitavam a vender bilhetes, isso era na bilheteira com guichet em condições de quase viagem. Quando a bilheteira fechava, atravessavam, pelos passageiros, uma mínima lanterninha à frente, um território desconhecido de cadeiras e cadeiras, e davam-lhes um lugar  no mundo. Timoneiros, ida volta, não ficavam, só o leva e traz de passageiros, os outros — do meu posto, via-os chegar, e antes do regresso, a dona Luz, a dona Sãozinha, o senhor Aníbal, cara séria de morte e olhar de má rês, breve desvio para uma volta pela curva sussurrada, se precisar de alguma coisa, já sabe — elas, que ele, pois sim, bem podíamos pegar fogo ao circo e arder por junto com a tenda; o rosto,  o corpo, a postura, os gestos, o olhar perigoso, semicerrado, de baixo para cima, nítidos até hoje.

No dia da Madame Butterfly, vinda de longe de olhos em bico, os lugares tomados de assalto pelos  mais velhos de todos: precedência feita de tias de bengala, caras de pó de arroz por cima dos sinais, cabelos armados a laca em finas camadas de teias de aranha de onde estranhos reflexos azulados, violeta, o buraquinho do lóbulo da orelha todo esticado pelo peso dos brincos, nunca vi sem brincos como ficava, restolho de papéis de rebuçados, gulosas, éramos transparentes, nunca ofereciam, só às amigas velhas iguais, de cabelos iguais e orelhas iguais, nós tínhamos de oferecer sempre aos mais velhos todos, milhares de anos de uma só vez, sovinatas de lindas bolsas por carteiras.  O século tinha descido  ao teatro, por inteiro, era preto branco cinza, pérolas preto branco cinza igual, mais camélias de modista, e eu de rabo na rua, quer dizer, no corredor. Se precisar já sabe, bem sabia que precisava, não servia era para ver. A perder uma coisa daquelas, parece mentira, os ingressos pela hora da morte, se precisar já sabe, serviu para espreitar, não se perdeu tudo. E que lindos que eram os bilhetes: grandes, em cores japonesas. Que desgosto. A minha avó, incompadecida de uma sala à cunha toda em roupa de naftalina e sapatos de inferno, e do meu desgosto: mas para quê isso? Aquilo é uma desgraça, não vale nada! Ouça aqui como deve ser e sem fífias para desentupir os ouvidos.

No Verão havia as reposições. As tias papavam-nas todas. Eu, sempre presente, fosse a preto e branco de Bette Davis ou technicolor de Leslie Caron. E aos rebuçados também papavam. Nem um reles caramelo. Sovinatas. Um dia, zás!, bocadinhos bem embrulhadinhos de Caldo Knorr e pus-me a comer chocolate com nougat trazido de casa, a fazer um disparate de barulho com a prata e o papel. O que é que estás a comer, filha? Nougat. Não me serviu de nada a verdade técnica perante a mentira artística. Bem me lixei com o júri por premeditação: fiquei de castigo um mês e tive de fazer a roda das desculpas. Gulosas.

Sozinha nas maratonas de cóboiada, nas de cantoria e dança dos filmes indianos, nas reposições das reposições mais que repisadas depois das tias enterradas, no Bergman de carreirinha, todos quantos passaram quando deram em fazer ciclos de monotonia, cheguei a ficar mal disposta de fechar os olhos, e por ai vai. Ia a tudo, para maiores de seis, de doze, de dezoito, a menos que me apanhassem, e apanhavam.

Não era sobre nada disto que ia escrever. Fugiram-me as teclas. Enfim, atalho: fui ver A Árvore da Vida no outro dia.  Um filme  para se ver com companhia mesmo para quem goste de ir ao cinema descansado — fui mal, portanto. Não encontrei lá nenhuma Odisseia no Espaço, nem aquelas coisas cinéfilas do não sei quê porque não sei quais são, quando as leio, não percebo nada e perco mesmo a vontade de as perceber. De cinema só quero ler o pão pão queijo queijo, coisa, ao tudo indica, inaceitável já que ninguém a faz. Ou a pura invenção do maravilhoso: as crónicas do João Bénard. Ou a beleza cheia dos textos do nosso MSF, cheia de informação bem mastigada pelo pensamento, cheia de vidas que não vivemos, fáceis fáceis de ler, verdadeira arquitectura da simplicidade essa beleza. Ou as especialidades do PMS  fundamentadas ao cabelo, que, acabo de saber, estão na Sábado. Gostei muito. Na estrutura, parece-se com o último romance do Lobo Antunes mas em melhor: não é um romance, não é um contra romance, é outra coisa. Sim, sei o que está a pensar: já o Raul Brandão…  era para dar um exemplo mais contemporâneo, que chateasse menos, nem toda a gente tem fraqueza pelo Brandão. É parecido, mas em melhor por ser mais amplo: cabemos lá todos. E em americano. Completamente americano de anos 50 numa linguagem limpa de excessos. E outra vez completamente americano na hipérbole, temporal ou atemporal?, e sinfónica. Para além de ter gostado muito da coisa em si, também gostei muito da falta de medo da frugalidade do texto, da falta de medo da hiperabundância musical, da falta de medo de trazer inundantes imagens, até paradas, sem movimento, para fazer movimento com imagens paradas — foi como deve ter sido na origem do cinema, não é? Coincidências belas. Mal comparado: sabe aquilo de bildungsroman e lailailai? É isso mesmo. Porém, contra todas as evidências, ao contrário. Não é, contra todas as evidências, os comos e os porquês: o como nasceu, o como se desenvolveu, o como maturou. É o que é. E o que é? Um testamento que acrescenta ao não resistais ao mal do Sermão da Montanha, o resistimos ao mal e resistimos ao bem, e rendemo-nos a ambos. O (os) personagem pergunta a Deus. Todavia é o realizador quem responde. São o mesmo, o rapaz, o adulto, o realizador, Deus e o silêncio? Partilham da mesma substância? É irrelevante, somos ele, tu e eu. A vida é o belo mesmo quando é o horrendo. É o que é. Escrito em americano de todos nós.

Short como o amor #7

Dreyer — still, 1932

ACENDALHAS
– nem uma fotografia dele onde quer que seja. E onde não se vê?
– igual.
– nem guardaste as cartas, os postais, bilhetinhos, nada?
– sim e não: enquanto estivemos juntos, guardei. E acrescentámos. Depois, algum tempo depois de nos separarmos, queimei tudo.
– queimaste?
– não foi uma fogueira de inquisição, antes pelo contrário, foram para a lareira junto com as pinhas para aquecer a lenha até que se fez lume.
– porquê?
– eram palavras de amor: ardem bem.
– eram recordações.
– qual recordações. A vida é como as casas, precisa da limpeza da Primavera. Que se acenda a candeia e se encontre o fermento onde ele estiver. Mesmo que esteja no mais saboroso dos alimentos, no que dá cor à nossa boca. Temos tempo para apodrecer e crescer de vazio depois de mortos. O que da memória interessa guardar faz-se carne, corpo, faz-se presente quando sentimos, pensamos, decidimos, e por vezes sem sequer darmos conta. Fica em nós.
– e se tivessem voltado?
– o se é um lugar sem morada, muito longe, muito grande, muito só. Não tem condições de habitabilidade.

 

Falsos e Malvados!

Este blog está descambar again! Onde, onde?! Pergunta você que é um defensor da moral e dos bons costumes. Nestes comentários. E porquê, porque hoje é sábado?, pergunta você que põe velas a Vinicus. Não – que perguntadeiro! Porque estes rapazes se desgraçam fazendo das feminas de tela e das de carninha e osso, híbridos. Sim, híbridos. Ele é a mulher pássaro, eufemismo para hárpia, a mulher serpente, eufemismo para equidna, mulheres o diabo a quatro de eu femismos e ainda nem chegámos às sereias e já passámos pela Catwoman. Disse eufemismos? Disse. Mas queria dizer elesfemismos: os deles, António e Manuel — não que eu seja de apontar o dedo, que não sou, ó de mim tão bem educadinha, Deus me valha, ou como dizia em fonético o muito pequenino filho de uma rica amiga, e porque o assunto é de mitobestiário, Deus Ovelha.

Porém. Se trataram por feminasbichezas as mulheres/namoradas/híbridos de uma vida inteira, as concretas e as de fantasia, isso significa que são o quê? Ah pois… telhadinhos de vidro, ou melhor, de cristal.

E se isto não fosse um blog de família punha os bonecos todos por claro. Todavia é, portanto, vai em picassos de anatomia, vá, um tudo nadinha estrefegada. Quem é quem?, pergunta você uma última vez? Então não se vê logo?!

Les Uns et…

…Les Autres

Story tão pequenina…

Sala dei Cavalli, detalhe — Palazzo Ducale, Mantova

No entanto, a perda das perdas, semente e circunferência de todas as outras, é aquela de que não se diz o nome.
Cristina Campo in OS IMPERDOÁVEIS, A&A

AMOR, TUDO
– amas-me porquê?
– vejo-te.
– e vês o quê?
– tudo.

Diga…

Persona, Ingmar Bergman

De fora, o mundo é diferente — é um lugar comum, bem sei, mas nós sentimos comummente.

Fiz-me uma pergunta para a qual não encontrei ainda resposta. Se tivesse de escolher um outro eu que me representasse, ie, alguém/algo que me fizesse presente diante de estranhos, que outro seria eu? Olhei para o nosso blog: aqui usamos todos o nosso nome, só a Jeanne foi Bellatrix en passant. Olhei para as caixas de comentários: George Sand, Turmalina, Sem-se-ver, Borboleta, Panurgo, Cusca Zombies… Poderia continuar. E por essa blogosfera fora, uma infinidade. Mesmo quem, em tempos adolescentes, achou coisa de parvos andar a jogar Dungeons & Dragons experimentando alteridades dotadas de traços e poderes fantásticos, não tem, adulto, qualquer problema nelas.

O que determina a escolha desse representante? Há quem diga: o reconhecimento de características próprias naquele outro, seja personagem, objecto, animal, ou. Quem identifique nesse reconhecimento, mais ou menos adequado, uma superevidência das características com que  se querem apresentar e o ocultamento, mais ou menos benigno, das outras. Ou uma decisão meramente funcional. Também há quem afirme: não, claro que não, é mesmo a experiência da absoluta diferença — não sei, contudo, se tanto será possível, ouço o Sena a buzinar-me aos ouvidos a queda da máscara no Carnaval. Na verdade, não sei: de fora o mundo é diferente.

Por isto a pergunta que faço aos rapazes e meninas autores deste blog e aos nossos leitores: se tivesse de escolher um outro eu que o representasse diante de estranhos, que outro era você? Começo por si, Antoine, conte-nos tudo, diga… E depois passe a outro e não ao mesmo.

Um poema para mil quilómetros

Fotografia de Daido Moriyama

MIL QUILÓMETROS TODOS PARA VOLTAR
Não sou romântica
não suspiro entre ah rosas
caixas de recordações
lixem-se
Mas como digo
o amor
dizem ah romântica
enquanto isso vejo salmões
Digo amor como quem pensa
Faulkner
romantismo de salmões:
um dia no mar da migração
dispara a hora e mata o tempo
abre-se a vida e a bússola
mil quilómetros todos para voltar
É só isto
O amor é o primeiro aceno da morte sorrido
lembrança de inteireza
floração completa da flor
dor é depois em contra corrente rio acima
dor para desabituações do corpo desintoxicações
dor que de ser não dói é romantismo de salmões
rio acima a voar
A alma quer regressar a casa

 

* foi por sua tão grande culpa que pensei isto. A minha linda edição, que não é a do Borges nem a do Sena, termina assim: Between grief and nothing I will take grief.

** gosto muito desta versão do Rufus Wainwright com a irmã e a Joan Wasser. Não gosto que tenham matado as últimas duas estrofes do meu rico Cohen.

 

Segredos de liquidificador

Vi estas fotografias e o que será, por certo, um diálogo, ouvi num monólogo do tempo: entre o ontem e o hoje. A janela gradeada. O pardacento do dia burocrático. E a organização da frase? Do espaço? Das palavras no espaço? E este vermelho?

Fotografia de Maria João Cabrita

Fotografia de Maria João Cabrita

NÃO SEI
E se, de repente, sem repentino Vinicus, com toda a calma da respiração inalterada, o pulso em si mesmo, muito do que conhecesse de si próprio se aplicasse na memória e se impossibilitasse na realidade? Não digo na vida, porque a memória, mesmo ícara diante da verdade, sol, é só cinemascope e cera derretida, diante da verdade, sol, é, mas também, ainda assim macia e moldável, vida. E se muito? Por exemplo: chocolate.

Este Natal chegou previsivelmente em Dezembro. Era Dezembro e escolhi um bombom, um dos preferidos, à noite, no sofá, à conversa com a minha irmã. Sempre gostei de chocolate. Às vezes, traziam-mo de presente para que experimentasse um sabor novo, um velho sabor renovado por produtoras mãos competentes. Com pimenta. Branco. Com gengibre. Belga. Nougat. Praliné. Preto como o continente africano. Finíssimo. Em pó para o servir quente, molho ou bebida. Escolhi um bombom. Meti-o na boca. Porém, o que naquele fim de dia arrastado até à madrugada se derreteu na língua não coincidia com a memória do que antes se derretera. Insisti. Outro. Só uma pontinha. Mais outra de outro. Diferentes. Indiferente: nenhum. Foi desta forma que soube que minha língua se divorciou da minha antes língua e não mais casaram. Começou no chocolate?

Tenho visto isto acontecer muito nas pessoas. No amor. Bem, não no amor. Um dia desgostam-se e não percebem como se quiseram antes. Afectada, no entanto, a memória gustativa — cinemascope, sim, porém em pesadelos de halloween onde antes musical. Cera moldável, ícara a vida, que perigo, não a memória. Tenho-o visto acontecer na distância feliz que vai dos hábitos da juventude aos da idade adulta — que são mais uma retoma da criança pelo adulto do que outra coisa qualquer, retoma plena, no entanto, já que permanecemos filhos sendo, mistério, pais de nós e filhos de nossos pais, e aquele tempo intermédio onde o mundo se provou foi, mais do que menos, a experiência de sermos outros, as regras da dança da transgressão. Nunca vi acontecer assim. Nunca ouvi dizer que uma mudança se anunciasse num bombom maumau, no insuportável sabor do chocolate.

Começou no Natal. Ou foi ali que dei conta. Apanhada no meio, na fronteira entre o conhecido e o desconhecido, a pensar que sim, claro que sim, e uma vez na língua não, não e não, impossível, a aprender o não sei depois de uma vida inteira à volta de conhece-te a ti mesmo, desconheço-me sem qualquer estranheza.

 

* segredos de liquidificador — de uma letra de uma canção de Cazuza

** conhece-te a ti mesmo — inscrição encontrada no Templo de Apolo, em Delfos, segundo Pausanias


Um poema para acordar

Alice in Wonderland, Tim Burton — still

CANÇÃO DE RODA
Sol de Primavera
agulhas a pique
pelas pupilas adentro
até ao centro
à dormição
da semente
o coração
Acorda Acorda
gritam felizes dedos agudos de espessura agulhínea
crianças cruéis e felizes abrem a rasgos
a dormição — mesmo pela boca -
e a dançar em roda tiram-lhe a moeda da boca
dançam dedos agudos, vozes crianças cantam:
não terás como pagar ao barqueiro
virás para trás, cantam a rir, gritinhos felizes, essa hora é minha
sou eu, a luz, quem, de tanta luz, faz cerrar as pálpebras

Vou ali…

Já volto.

 

Ps: céus! como o tempo passa, estamos aqui, estamos no Natal

Histórias do Princípio do Mundo

Fascículo i, Folha de Terça Feira, 11ª – O AMIGO DO DIABO

Dizem que, ininterruptamente, sobre o próprio eixo dela, roda lenta a Terra, desloca em constante velocidade o peso da massa que forma, de dentro para fora, a memória da explosão do universo, ferve o núcleo, dizem, e arrefece a perfeição da superfície.

Talvez pare. Não posso jurar que pára. Talvez pare de vez em quando, em cada vez que pensamos, já vivi isto, sabemos, e alguém responde, ah! déjà vu, ou mesmo um mais justo, ah! déjà vécu, logo um volume de explicações científicas. Ninguém se lembrou, no entanto: talvez pare. Por certo, em suspenso, pause de vídeo, alguém, se não a Terra, nós, e depois regressamos, não ao futuro, mas ao passado, longe onde possamos, no tempo, pauta, educar o coração para o desgosto, faça-se música, não morte, quando chegar: já vivi isto.
– … esse que aí tem, não sei de quem é filho.

Olhou em volta, o calor do fim Junho cansado, quieto, imóvel no céu; os lábios levemente entreabertos da ama, argila, a criança nos braços, uma realidade de ex-voto; um homem com o peso do mundo nos olhos e um cadáver nos braços; umas botas pretas enfiadas em estribos de caixa, eram as suas e dentro pés e acima pernas, o suor na parte mais interna das coxas, a respiração do animal e, finalmente, a própria respiração a devolver-lhe os sentidos ao presente,
– …. esse que aí tem, não sei de quem é filho.

Já vivi isto.

Desmontou. Aproximou-se da ama ainda ao lado da caleça, à espera,
– tenha paciência,
estendeu-lhe a mão:
– deixe ver o menino… como se chama?
– João, senhor.
– Pois muito bem. Tenha paciência. Regressamos.

Já vivi isto.

Foi assim que o meu trisavô perdeu um neto no dia em que lhe mataram o filho: enterrou os dois. Foi assim que o meu trisavô ganhou um filho no dia em ofereceu ao fogo a morte da filha, no dia em que matou o amor e um pai. Caetana e Miguel ficaram para trás, naquele lugar em que os para sempre estão. João seguiu adiante. À frente do avô que lhe dava a antemão do cavalo. À frente. E desde esse dia, em todos, ele à frente.

Um poema para uma pintura que Paula Rego não fez

Fotografia de Maria João Cabrita

LALALALA — POEMA DO ATRAIÇOAMENTO
quando a tua boca se abriu
era de rosas por isso
eu cantava feliz
se eu cair ao mar quem me salvará
enquanto do lado de lá do fio leve do amor
o teu riso cortava a resposta
eu

numa tela da Paula Rego
estaria sentada no passeio
com os pés na estrada sem movimento
a ver-te
perverso guardador de patos
de avental sujo, a atirar às aves
como alimento, o meu corpo
minuciosamente desmembrado

Romance de Pedro a conduzir um Jaguar #2 — ou: romance de Teresa no banco traseiro de um Packard

A Eugénia ao volante, o Ruy ao lado. Os dois na disposição do costume: parece que vivem na alegria do mundo, não param de inventar nem sentados no carro. Cantam, ele, afinadinho, a fazer voz de galã da rádio dos anos 40, ela, uma pauta de desafinação compensada pela interpretação dramática interrompida pelo riso. Não negam a raça. Aliás, para a banda estar completa, só falta a Joana — está no carro do Pedro a dormir em sanduíche, é o queijo, ao lado as fatias de pão, Marta e Vasco. Estavam perdidos de sono. Fazem a festa. Agora é o Non ho l´età. Estão tão entretidos que nem dão pelos avanços do Júlio, aqui, no banco de trás. Palerma. Arma-se em engraçadinho e acompanha-os na cantoria virando-me uns olhos de borrego, lascia che io viva un amore romantico. Não o suporto. Só o perfume… Se não fosse sócio do Pedro nem lhe mostrava os dentes. Faz-me acreditar no Triunfo do Orwell. É um ordinário. Um promíscuo. Deve pensar-se viril, um Apolo – também, dão-lhe argumentos. Tem a carteira cheia e areja-a. Funciona: tudo o que está venda, chega-se à frente, a chorus line, todas iguais, um suor de desespero, leva-me, escolhe-me. Nunca percebi o que passa pela cabeça da maioria das mulheres — nem pela dos homens para dizer a verdade. O mundo é um lugar estranho: nunca me senti em casa. Ainda bem que os tenho a eles. Mas estes dois, o Judas de ginásio e a caricatura da Mata Hari… estavam tão bem um para o outro, duas gotas de água. Ninguém me convence que o Júlio não lhe deu umas voltas, mas, e quem é não andou no Carrossel da Selva?, mais uma volta, mais uma viagem. Ainda por cima quem vai sentada ao lado do Pedro é ela. Detesto-a. Detesto-a. Preferia nunca a ter conhecido. Palavra de honra, se aquilo se atira ao Pedro, e ele lhe dá corda em vez de a mandar pastar como vaca que é, é hoje.  Giestas. Um caminho de giestas. Devíamos parar enquanto é tempo. Parar o carro, parar a tempo, fazer um piquenique, parar o tempo, devolver os lugares à ordem. É hoje. Que vergonha!, o Vasco, a Joana, a Marta, uma humilhação pública. Se me fazes isso, Pedro, é hoje, garanto-te. Nem posso pensar. O Pedro não ata nem desata: há quase três anos e nem uma palavra sobre casamento, não sei porquê, entendemo-nos como ninguém, uma simetria, com dois olhares falamos, e na cama, meu Deus, tão bom. Quando me apresenta, parece que o embaraço, porquê?, é a Teresa, a minha namorada, quando diz namorada já a voz se lhe some. Porquê? Às vezes, em casa, ponho-me a observá-lo quando está entretido a fazer qualquer uma das coisas dele, absorvido, dá-me prazer aquela coreografia de gestos, o mesmo prazer que as frases, quando fala, ouço tudo, ponho-me a observá-lo e penso: quantas são as pessoas que podem dizer, encontrei o que sempre sonhei e não acreditava. Quantas são as pessoas que são felizes e sabem que são? Faz-me tão feliz amá-lo. Não sei amar uma pessoa qualquer.
– Eugénia! Mas que guinada foi esta?!
– Viu não, Tê?
– Era uma lebrinha, Teresa, magoaste-te? Desculpa, só a vi em cima.
– Magoei-me nas costas, bati no vidro.
– Nunca nos desviamos de um animal pequeno, passa-se por cima ou pode-se perder a direcção, claro, para uma mulher é uma lebrinha. Deixe ver, Teresa…
– Não vale a pena, Júlio, obrigada.
– Não seja assim, eu ajudo.
– Se quer ajudar apanhe-me o brinco que há-de estar para aí no tapete. E nunca mais me fale em atropelar animais.
Eu aflita para tirar o soutien, o colchete fez-me um arranhão tal que sinto um fiozinho de sangue correr, e ele a querer conversa. Não que tenha problemas em tirar o soutien por baixo do vestido, à frente dele. Nenhuns. O que não quero é este alarve a enfiar-me os olhos pelo decote abaixo, dar-lhe o gosto de me jogar a retina às mamas.
O Pedro está a ficar para trás… Acordem! Marta, Joana, Vasco, acordem! Aquela Lili, tudo o que vem à rede, náuseas, provoca-me náuseas, ridícula de maneirismos ridículos, retalho de cópias, logo que seja com um deles, então, a disponibilidade é total e absoluta, ais e ós. Razão teve o Manel em não vir: o Júlio, a Lili, elementares predadores de alto gabarito, são a prova da falta de imaginação de Darwin: i´m out. Palavra de honra, é hoje.

O relato acima é pura ficção. Qualquer semelhança com a realidade seria uma lamentável coincidência e um indesculpável plágio da treta da realidade. Os nomes das personagens são inventados, numa mistura de esperanto, sardo e português não se encontrando por isso em nenhuma língua conhecida. Os automóveis foram cedidos pelo nosso patrocinador.

Histórias do Princípio do Mundo

Fascículo i, Folha de Quinta Feira, 10ª – O AMIGO DO DIABO

Não sei se alguém conheceu a casa da Quinta Nova melhor do que a Agustina. Tinha em si um inventário, desde os tachos na cozinha de meia cave, janelas pequenas, gradeadas acima do olhar, rentes ao chão, tecto porém, até lá ao alto, às trapeiras: apontado tudo, contado e recontado, registado tudo naqueles olhos aquilinos. Sabia mesmo de tudo. O que andava dentro dos armários, das estantes, das arcas, a ordem invariável dos livros, o segredo das gavetas, a perna oca da cadeira, enfim, o que se passava na barriga das paredes: quando a lavandaria deu em roncar a partir de debaixo do chão, andaram em voltas inúteis só para verificar que sim, que quem sabia era ela — de facto, não era lavandaria nenhuma, era uma divisão cega onde se engomava e tratava roupa, mesmo muitos anos depois, e aí sim, lavandaria, ainda cheirava a antes, tão bem, a vapor levemente perfumado, leve como se de pó de talco com cheiro a lírios do vale, mas com a frescura que só a liquidez, ainda que quente, em vapor, tão bom cheiro, há-de ter-se impregnado. Teve razão no diagnóstico: a raiz viera do jardim das traseiras, só uma linha de civilização, na verdade, a separar o logo início de mata densa, viera de lá, do primeiro pinheiro velho e furara longe,  com tempo, bem por dentro, à superfície nada, são raízes de engano as dos pinheiros mansos, são bravas, viera e furara o chão, fazendo um estrago tal que, de lento, de invisível, se infiltrou silencioso, minando em estouro final, um estouro de levantar ladrilhos e susto de benza-nos Deus à rapariga que andava pelos arrumos, porque a Agustina há-de ter ficado com os cantos dos lábios subidos num sorriso desgostado de se me tivessem ouvido - não ouviram porque nessa altura o meu trisavô estava fora e o administrador tinha-lhe pó. A Agustina, contam, tinha um sorriso torto: torto na linha dos lábios e torto de motivos. Com as pessoas era igual. Não, não quero dizer torta. Quero dizer que dava conta dos passos de toda a gente, abaixo controlava, acima antecipava: parecia ler os pensamentos, mas o que a sua atenção lia, eram os gestos onde cada um deles se depositava. Uma falta de privacidade que só a muita estima aceitava pela força do carácter recto, pela lealdade.

Não será, pois, de estranhar que tivesse conhecimento do livro. Tinha.

Esta mulher era o braço direito do meu trisavô. E um grande amigo. Não, não me enganei, um grande amigo, não amiga. Ela ouvia o que, então, só um homem, e participava da decisão, planta-se ali, vende-se agora. Discutia-a. A venda da casa de Lisboa, que aconteceu poucos anos antes  disto, muitas se venderam, de muita gente, à data, de tanta instabilidade, fora feita contra a vontade dela. Se precisassem de voltar à capital teriam de comprar ou alugar a casa de alguém. Ora, isto parecera-lhe mal porque ao contrário do meu trisavô que tinha a certeza de não voltar, ela sabia que nós, mais do que qualquer outra coisa, somos vento que a sorte sopra.

O livro é, estranho, pequeno. De pequenas dimensões — alguma espessura, no entanto. Por fatalidade, que é outro nome para coincidência porque para estas coisas não há regra além do receio de a incumprir, em todos os seus donos correu o mesmo sangue, ou a memória dele. E o mesmo nome próprio, ainda que em diferentes línguas ao longo da linha do tempo e da geografia, do fim luminoso do norte frio da Europa para o sul de outra luz, quente, do primeiro ao último João.

Não sendo um nome bem querido na família, emerge sempre, inesperada e obstinadamente.

Foi reencapado, não se sabe por encomenda de quem, com uma daquelas capas como as dos missais e Bíblias, em chapa de prata, pesada, relevada, e de fecho, um São João Baptista em primeiro plano e em segundo, em obtusa perspectiva, uma iconografia nada canónica: a cheia do Nilo a marcar o Solestício — nem a pirâmide falta. Não se sabe por encomenda de quem, todavia a marca de ourives não engana, nem na data nem no local, a contrastaria não engana, e se não se sabe quem, é porque não consta do livro de registos da oficina. Tenho as minhas desconfianças. As primeiras páginas, como a capa original, são de pele de vaca. As últimas de papel. Bem, papel como agora o concebemos, só as do meu avô.

Foi ela, Agustina, quem o desenterrou do centro da biblioteca, do centro da rosa dos ventos: um taco, um botão, um livro. Há que perceber: o meu trisavô negou-se ao neto que lhe nascera. E um dos padres que por lá cirandava em volta da minha trisavó naquele dia de todas as loucuras, baptizou-o. Ninguém se interessou, ninguém quis saber: foi em Junho, ao terceiro dia de morta a mãe. Dia de São João Baptista. Como?, em meio a tanto, recordou ela o que lhe fora confiado pelo meu trisavô, na altura do nascimento da filha, tão feliz da menina no colo que se esqueceu que não tinha nem teria um varão, contou-lho porque contrariava a mulher a quem adorava, e ela queria chamar-lhe Joana, nem pensar, fê-la escolher entre Caetana, Beatriz e Inês, ou ao modo antigo, Brites e Agnes, para ser outra Caetana, Beatriz ou Inês, Brites ou Agnes. Foi. E nem por isso se impediu o que tinha de ser:
– venho devolver-lhe o que é seu.

Maior dor não se poderia infligir. Igual. Nem se lhe dirigiu directamente. Tinha retirado do cavalo, sozinho, o corpo do filho. Não autorizou a presença a quem quer que fosse. Aos irmãos. À mulher. À vista ninguém. Sozinho. Tinha-o nos braços como se não lhe pesasse, tinha de pesar muito — era um homem baixo este meu trisavô, e estreito. Talvez se tenha feito peso de outra vez inesperada alegria acabada de vir ao mundo. Ou talvez um pai tenha a força de um touro picado. Olhou para a carruagem, como se não lhe pesasse, interrompendo o movimento de descida que o moço amparava, um touro ferido:
– não desça, ama, esse que aí tem, não sei de quem é filho.

Histórias do Princípio do Mundo

Fascículo i, Folha de Terça Feira, 9ª – O AMIGO DO DIABO

Nem sempre uma pereira dá as esperadas pêras, ainda que quase sempre dê. Nunca se sabe qual dos actos passados foi enxerto e pegou, mudando o curso à natureza. No grande como no pequeno. Foi este? Aquele? Em rigor, como apontá-lo?

Eram tempos explosivos e ao norte mais. Mais tinham sido e mais seriam. Eram ainda tempos explosivos.

O reino tinha sido esquartejado. Primeiro, e literalmente feito em três como na Lenga Lenga da Cabra Cabrês, por Napoleão.  Logo de seguida pela mão salvadora dos ingleses corporizados em Wellington: não éramos um reino, um campo de batalha, apenas, habitado por estranhos nativos de estranhos costumes e estranha religião – a estes que tanto nos estranhavam, éramos devedores de aliança e mais seríamos. Pior. Beresford era o novo duque de Lafões, dono do exército português, um exército reformado, profissional, de proporções formidáveis para a então Europa. Todavia um exército de estadão e ambições sociais oferecidas à mais humilde fidalguia de província, não sem interesse político, e aos ricos proprietários. Foge cão que te fazem barão. Pior. Com o rabo do embaixador inglês, sentava-se no Conselho de Regência, a Inglaterra. Enquanto isto, no Brasil, a monarquia reinventava-se pelo comércio liberal e ensaiava uma portugalidade, não com sotaque e de modinha, but with an accent, à revelia de Portugal continental tratado como embaraçosa parentela, pobre e obscura: esconda-se. E se não falava em inglês a corte fugida, não era por falta de se dobrar pela cintura como quem serve. God Save The King.

Está a perguntar-me, aí do passado, se discordo, no presente, do desígnio incumprido? De todo. Do fim do esclavagismo ao fim da inquisição, passando pelo necessário finamento de feudos, mais a liberalização do comércio, a reforma da administração, uma constituição, tudo isto e tornando o excêntrico, central: Rio de Janeiro, grande capital Europeia.

Contudo, nunca como foi tentado. Parcelarmente. Sem unidade. Sem visão. Em suma: sem um projecto nacional suportado por decisões políticas que substanciassem o interesse colectivo. Sem competências que permitissem ir disputar, à cabeça, os mercados. Porque se alguma coisa ao início do século as invasões mostraram, foi que nação havia. Havia. Tinha sido, aliás, alimentada à colher e crescera, inflamada, a toque de mais inflamação por corpo estranho francês. Digo nação, digo portugueses por trono e altar, vassalos todos diante do rei, não digo povo — essa invenção é mais tardia. Sim, mesmo os que negaram uma câmara de nobres à semelhança da dos lordes, sim, depois houve uma câmara de pares, à parte, eu sei, e interditaram a câmara de deputados a quem fizesse parte da corte, não tinham nem queriam ter nada a ver com o povo. Longe! Nem o povo a ver com eles que não se torcia nem se amolgava com a revolução: o povo continuava sujo, gente suja, gente baixa, descalço, iletrado e fora dos interesses dos senhores revolucionários. O que aqui se inventava e defendia, queria inventar-se e defender-se, era a classe média, média baixa, média média, que a média alta já estava no poder a reproduzir as suas variantes menos ricas, menos cultas, menos educadas, todavia com o mesmo poder aspiracional — que muito breve daria os seus frutos envenenados: por oposição, claro, daqueles a quem afastara na segunda leva constitucionalista: o baixo povo por junto com o clero e a alta nobreza. Por favor, não os pinte a grotesco como na campanha de então, há mais adjectivos para além desses ainda colados, e lembre a surpresa, mais tirano veio Pedro a ser: expropriando a igreja, atirando à rua e à mendicância mesmo os velhos doentes de morte, apossando-se de propriedades de inimigos, vendendo títulos ao arrátel, consentindo na total alienação da mesma gente baixa que pegara em foices como espingardas à entrada de Junot. E isto é nada, quase nada do que foi, do que de arruaça se fez pela gente dita limpa.

O que se revelou de Portugal foi o resultado de todo este esquartejamento: guerra fratricida à beira da bancarrota.

E o Douro com isto? Tudo. Será preciso recordar? Recordemos: Douro. Real Companhia das Vinhas do Alto Douro. Alta nobreza. Elite administrativa. Maçonaria. Coimbra. Douro. Real Companhia das… Depois muito se fez de absolutista quem antes se fez liberal e muito ajoelhou quem andava de avental. Aliás, nem se pode levar completamente a sério o vira casaquismo: as facções eram tantas que havia mais em comum entre os moderados delas, do que entre moderados e radicais do mesmo clube político. É conforme disse: os tempos eram explosivos, e ao norte, mais.

O esforço de remembração do reino via-se nos ínfimos movimentos e nos íntimos gestos: o casamento de tio e sobrinha, D. Miguel e Dona Maria, costurara mal a coordenação de braços e pernas. Do segundo régio casamento, pelo qual Viena oferecera mais do que um consorte e menos do que um rei viúvo — logo casado com uma cantora de ópera, bela que fosse Elise, e era-o, culta, educada, não deixava de ser  para os mais fechados uma mulher de palco, mãe solteira de uma filha suposta de um conde milanês que a negara e assim mais de palco a fizera -, vingou-se ele, no seu segundo mais feliz casamento, de uma vida de diferenças em tudo, até políticas, nas primeiras núpcias: D. Maria fora cabralista. Estas segundas núpcias de Dom Fernando, tão mal faladas ou ignoradas pela história como se não se tratasse de um nosso rei, deram-nos em meio a tanto inferno, tréguas com Columbano. E com o romantismo da Pena como só os austríacos e os loucos sabem. A educação da verdura húmida do parque de Sintra como a educação deve ser: naturalidade onde não se deixe ver a aprendizagem. São como se sempre tivessem sido os cedros americanos. Desde sempre as araucárias brasileiras. E da idade da terra, são os miradouros sem nacionalidade: nossos olhos de pássaro.

Fora destas intimidades, na praça pública, as outras intimidades. Metidos na coisa interna, só nossa, soberana nossa, julgamos nós, nós os patéticos cônjuges fiéis com as contas por pagar, nós cônjuge e terceiro vértice do casamento, vendado pelas próprias mãos, metidos na coisa interna pelas nossas omissões, os ingleses. Perto, os primos alemães. No sangue, os austríacos. Distantes como ex amantes, inimigos, outra vez amantes, os franceses. Espanha sempre nos braços: o que se desse cá, lá se daria, o que lá se desse, cá se daria. Até os Estados recentemente Unidos, amigos do amigo inglês, alcovitaram fracturante bedelho em papel de jornal na coisa nossa. A política é promíscua e esta cama era-o muito, tanto que haveria de terminar em mapa de lençóis cor de rosa e ais contra os bretões que a bem marcharam — letra rasurada de ainda hino.

Não estou a tentar enfiar o século aqui, ora adiantando ora atrasando um relógio de Alice. Não posso, no entanto, ignorá-lo. Tudo do corrido foi oitocentista. Este era o ar que se respirava. Tudo do ocorrido foi irmão contra irmão, igreja contra maçonaria,  realismo contra republicanismo,  e foram núpcias de palácio da Pena e amor verde jardim em doces sombras líquidas de parque. Era este o ar que se respirava. No grande como no pequeno: reino, família. Inescapável.

Mesmo nós, o querido leitor e eu nos anos de dois mil, o país, a república, o 25 de Abril em plena maioridade, somos outra vez oitocentistas no saco de gatos e dívida.

O meu bisavô não estava ferido, estava morto. Deitado sobre a barriga, atravessado no próprio cavalo que lhe serviria de transporte até à casa paterna. Na caleça, além do óbvio cocheiro no banco e do moço, dentro, confortáveis, a ama com o bebé ao colo, aconchegados os dois, um no outro, o corpo em soluços, não sei do sofrimento de todos, se do caminho irregular. À frente desta loucura, também a cavalo, a puxar adiante a procissão, penitencial como todas, porém sem perdão por vir, o meu trisavô.

No cais sabia-se: quando chegaram a casa do meu outro trisavô, horas depois, duas, quase três?, o luto ia do portão aos criados. Era grave que, à porta de entrada, o meu outro trisavô esperava, do lado de fora. E foi grave que recebeu aquele filho morto, não o último, o mais querido, adiado sempre o seminário e para sempre adiado, benjamim que ninguém viu chegar pela idade dos pais, Miguel. Chamava-se Miguel. Tinha só dezanove anos nessa tarde. Tão grave o esperava que a boca não se abriu quando ouviu, assim como se fora entre iguais, entre amigos próximos, o tratamento por você aumentando o peso da traição, cortando fundo, rente à artéria vital, ouviu o que nenhuns ouvidos de pai devem:
– venho devolver-lhe o que é seu.

Este meu trisavô, ao contrário do que estava à frente dele, não era um homem jovem. Nem para destemperos. Não cedia à irrazoabilidade. Uma parte dele era terra. Outra rio. Outra cálculo. Outra ambição. Outra família. Cinco partes. Uma para cada ponta da Estrela de David que lhe brilhava no sangue de judeu convertido em bom católico, em maçon. A sexta, secreta, para Deus.

09 Toponímia ínfera
Fotografia de Daido Moriyama — Tomei Expressway, 1969

É preciso olhar de olhos nos olhos, assim, vês-me?, sem medo de cegar, e com impiedosa calma, as mãos sobre o peito do amor, as minhas no teu, as tuas no meu, a pressão dos polegares até o esterno ser um osso concreto de dor natural,  mesmo ao meio, ponto e porta,  parte-se, ponto onde o corpo se despe da carne, porta que abre a caixa da respiração e a devolve ao sopro do universo. Lá, no equilíbrio musical dos astros suspensos, em depositada flutuação no pano de negro silêncio frio, também o coração, astro também suspenso, brilha escuro, brilhante escuro, a luz dentro. O corpo de amor, feito deste e deste nossos corpos de pó, é de pó estrelas.

Histórias do Princípio do Mundo

Fascículo i, Folha de Quinta Feira, 8ª – O AMIGO DO DIABO

As pistolas de fecho de pederneira eram, informam-me, à data, comuns, as de duelo, melhores — menos bonitas do que as pequenas, de bolso, no entanto. Vinham num estojo de duas: uma caixa em madeira, esta era de mogno, é, com uma pega em cobre a meio da tampa para facilitar o transporte, fechadura de chave, não fora abrir-se, vá, marcada por um embutido mais claro, carvalho?, em forma de diamante, e dois fechos laterais, de metal, curvos. Uma vez levantada a tampa, denunciavam quem as fizera, ainda, queixinhas, no interior, por assinatura que se repetia, repete, nas armas, por gravação, no caso Wogdon & Barton, e por junto tudo quanto fazia falta para tiro e limpeza em perfeita ordem, boa organização de espaço e em efeito de espelho — sim, fazia falta, já não faz. Bem sei que nada sei de armas, mas coube-me a infame herança de calibre 58. E o livro, claro. Foi coisa acertada e bem feita: quem tem o nome do meu avô sou eu. Mais ninguém teve a audácia – sequer eu a tive que não foi por mão própria que me baptizei, todavia isso é outra história do mesmo princípio do mesmo mundo.

O noivo secreto, o amante secreto, o amor amado, mais moderno, tinha uma Durs Egg. Contam. Presumo que isso signifique alguma coisa. Para mim é pistola em voz de papagaio e papagaio sou: Durs Egg. Ovo duro, soa-me — é que soa mesmo. Na verdade, eram também duas. Outra irrelevância ao meio de tanta irrisão naquela que deveria ser uma das mais formais situações entre cavalheiros. Cada um com o que era seu, dispostos ambos a nada aceitar de cada outro, se não a confiança na honradez das armas – é que também as havia mexidas como dados de batota.

Por alguma razão não foi o meu trisavô para a capela por dentro: teria sido curta a distância usando a porta que abria para o corredor, não levava a mais lado nenhum, uma daquelas portas baixas, dissimuladas, em que o trompe l´oeil tanto serve à virtude quanto ao pecado, e no caso, servia à devoção por via daquele estreitíssimo corredor silencioso. Saiu. Foi por fora. Pelo jardim.

Na altura da construção da casa, os jardins particulares eram muito monótonos e pouco frondosos — dizem-me que não, que nos Açores, não. Aqui: esquerda igual à direita, sebes baixas, a geometria dos canteiros de buxo floridos por dentro da falta de espaço, serpenteia-se em pequenos labirintos apertados, saracoteia-se em enervantes serpentinhas maçadoras, parterres de Versalhes de mini golf. Menos mal, alguma topiária, uma chuva de rosas de chá e, axial, um tanque redondo de pedra e estatuária de repuxo ao centro:  nadariam peixes, cresceriam nenúfares e papiros? Aqui e ali, certos, os eternos meninos gordos apoiados na pontinha dos dedos dos pés gordos. Aqui e ali, certos, os eternos pináculos bicudos de arrancarem um olho a um anjo. Finalmente, a caminho dos pomares propriamente ditos, das hortas, enfim da quinta, na fronteira, a simetria de algum desafogo no que fosse cheiro de flor, visão de árvore de fruto, muitas vezes a gosto da dona da casa: largos canteiros quadrados aromatizados por laranjeiras. Para a minha trisavó, a simetria de dois pequenos laranjais. O fundo delimitado a ciprestes com abertura ao meio. Algumas árvores exóticas, exdrúxulas na paisagem, as palmeiras, as pimenteiras, um tulipeiro. A moda daqueles amontoadinhos de rochas a fazerem-se de mínimas montanhas de onde uma queda de água, ou as mínimas pontes curvas para mínimas ilhas em mínimos lagos, não chegara ali, gente avessa a miniaturas que não fosse para experimentar concreta escala. O que chegara, e profusamente, fora a azulejaria: a forrar o muro da cercadura do jardim feita lateralmente por bancos e alegretes, interrompida só pelo ferro, logo retomada mal chegada a alvenaria onde ressurgia: banco, guarda de ferro com muro abaixo, banco, alegrete, banco, guarda de ferro com muro abaixo, banco, alegrete, alegremente forrados, todos forrados em histórias descontínuas contadas em azul e branco em quadradinhos de azulejos. Dirá você: por essa data já muito amarelo. E mais cor. Mesmo antes. Pois está muito bem. Está muito bem, mas não chegou lá nada que não fosse azul claro ou azul forte, cobalto, em painéis, silhares, emoldurados por faixas, curvas e contracurvas suaves, volteios e fechos concheados, laçados, floridos. O pouco amarelo nem conta: só o havia nas damas e escudeiros, recortadas pessoas de azulejo, tais sinaleiros: bem vindo, apontava um, vá por aqui, em frente, dizia ela, a cabeleira em cachos.

A capela fora, pelo lado de fora, obra da mesma mão. Todo o arco de cima abaixo, em largura e altura, em azulejos, ali a contar histórias de Jesus em banda desenhada, de se lerem, algumas, de cabeça virada para cima: Jesus, criança, no Templo com os Doutores, por exemplo, só de pescoço para trás. Jerusalém, de olhos nos olhos e pescoço direito era azul e branco à entrada, e o burro azul, as palmas e ramos, Cristo azul e branco. As três cruzes sobre o monte, azuis. E o negro que se terá feito às três da tarde, hora da morte, era azul também.

Não foi às três da tarde, o negro não caiu sobre o mundo sequer em azul forte, a noite não surpreendeu o dia, mas foi triste. O meu trisavô avançou até ao altar e voltou-se para a porta, tinha a luz a bater-lhe nos olhos. O meu bisavô, à porta, tinha nos olhos a luz do retábulo dourado a fé. Os procedimentos hão-de ter demorado. Ou não?

A casa estava num alvoroço e, no entanto, ninguém tinha os gestos fora do lugar ainda que não fizessem sentido. Fumo preto, sujo, escapava-se para fora. A lógica do absurdo era tão formal quanto a da razão. Talvez por isso o horror se tenha instalado e ninguém tenha saído, vieram dentro mesmo os criados de fora, ninguém se foi embora, nem vendo o mundo de cabeça para baixo sem que ninguém caísse: a minha trisavó, mais a criada de quarto que a acompanhou até ao fim da vida, emalava o que de mais pessoal lhe servia os dias, escovas, pentes, roupa, jóias, porta retratos. Lá em cima, debaixo de um mau óleo da Nossa Senhora do Leite, da escola portuguesa, francamente mau, a criança dormia, consolada, nenhuma fome, a ama por perto do berço, ao lado da própria cama, toda em ai Jesus, coitadinho, o que vai ser si?, meu senhor tão pequenino.

Só dois tiros foram disparados: nessa hora a pólvora foi incenso e subiu aos céus. A arma do meu trisavô portou-se melhor. A de ovo duro atingiu o retábulo e por lá ficou o que dela saiu.

E foi assim que nem a mãe nem o pai alguma vez olharam o filho. Cego de amor logo à nascença.

Do lado de dentro, porque vinda por dentro, Agustina. O que assistiu foi o que contei. Porque sobre isto nunca mais houve uma palavra fosse de quem fosse – à boca pequena, talvez muitas, na família, ou em presença de alguém da família, nunca, nem uma. Enfim, há agora estas todas aqui escritas.

- O que faz aí especada?! Não lhe tinha pedido me trouxesse aquilo?

Story tão pequenina…

Sala dei Cavalli, detalhe — Palazzo Ducale, Mantova

Existe para cada viajante um tema, uma melodia que é sua e de mais ninguém, que o procura desde o nascimento e desde antes de todos os séculos, pars, hereditas mea.

Cristina Campo in OS IMPERDOÁVEIS, A&A


AMOR
, A  TUA BOCA É UMA PALAVRA QUE ME SALVA

– já sentiste uma dor tão funda que não lhe conhecesses o fim?
– sim. É um poço no meio de uma grande cidade. É pior quando se espreita, é preto; se se lhe fala, é eco; se se bebe dele, lágrimas.
– e o que é se faz?
– nada. É assim. As ruas, o trabalho, a felicidade num instante, o trânsito, o tempo, memória e futuro, a beleza, os edifícios, a família. A vida. E um poço.
– nunca te apeteceu encolher a vida e um poço até ao espaço nuclear? Como Emily. Dickinson. Sozinha. Primeiro só a quinta, depois só a casa, e por fim só quarto. Nunca?
– não é isso que somos um do outro, potência? Não é isso também o amor, o mundo e um quarto?
– e acto: um mundo no quarto, um quarto no mundo.

Histórias do Princípio do Mundo

Fascículo i, Folha de Terça Feira, 7ª – O AMIGO DO DIABO

É preciso ver, nós que o podemos sem vendas nos tapem os olhos, que a Justiça, então como hoje, era justa, porém a lei e os seus representantes e executores, eram exactamente como nós hoje o somos. Não é igual, em consequência, matar um ou outro, ser um ou outro matador, se um e outro não são pares em tudo o que de paridade possa existir. E se não partilham da matéria subtil da Justiça, as substâncias densas dos pensamentos dos legisladores, a concreta lei e seus executores, pares só o seremos para a Justiça no alto da sua cegueira divina que nos vê iguais de tanto saber da nossa mesma e una natureza. Pode assim dizer-se que tudo correu pelo melhor: se tivera corrido ao contrário, hipótese descabida, é para o mar que correm as águas dos rios, nem sei – decerto teria sido pesada a mão sobre os de Montenegro. Deste modo, nem mão nem peso, só o da terra que se deseja leve.

Afinal quem vira a sua honra de pater familias ofendida? Já sei o que está a pensar: tudo isto se passa depois de progressivamente diluído o Direito Romano nas últimas das Ordenações e de maior diluição no Código Civil do Visconde de Seabra, pois é tudo, ainda que por pouco, posterior a 1867. É irrelevante. Não só o pater familias de facto existia, e existiria reconfigurado até depois de eu própria ser nascida, como as alterações que contemplavam a figura da mulher na família aqui não se aplicavam — nem ao resto que veio a suceder. Para mais, isto era uma saída de bico: não tinha saída. Nada fora às boas, tudo quanto pudera ir mal, fora.
– Venho pela vida de Vossa Excelência. Agora.
– Pois se a quer, recolha a sua casa e espere, como homem de bem que não é, que o mande desafiar. E deixe-se ferir ou matar. É essa a sua obrigação para restaurar a dignidade da família a que pertence e reparar a desonra da vida de minha filha, perdida por sua sedução. Concedo, para si, a sua sedução de minha filha era séria, visava o casamento, para mim não era séria porque não poderia almejá-lo. Se está vivo, se respira, a ela o deve. Ela está morta agora e eu a si, nada lhe devo.

Tudo dito do patamar sem descer um único degrau. Sem elevar a voz perfeitamente audível. Com a calma que a surpresa de ver ali o último dos impensáveis não abalara.

Nada abala, pode sequer baloiçar, leve, um quase nada, quase brisa, uma verdade que se constrói por dentro como uma catedral súbita, insujeitável às regras lentas da pedra, à lógica do tempo. Nada abala uma revelação. O amor pela filha Caetana fora isso: irrompera súbito ao primeiro olhar quando lha depositaram no colo, fresca de nascida, flor, uma catedral amorosa de agudos góticos por dentro do corpo demasiado pequeno para a conter, e ele era um homem grande, uma catedral amorosa de vitrais rosáceas a coarem toda a luz em matizes de ternura. Flor. Rosa. Filha. Fizera-se pai.

Tivesse a filha voltado à vida, e ele teria um neto e daquele nada, daquele último filho daquela gente, daquele para quem a própria família reservara o último lugar, haveria ele, por amor a sua filha regressada, de o fazer um primeiro. Com que forças inventaria para a filha renascida da morte um não, se levara em três dias de espera, os meses que ela levara de gestação, a gerar, ele mesmo, um sim, o sim que veio depois da negação? Sim, far-se-ia o casamento. Sim, tolerar-se-ia a parentela, mas ao avesso dos costumes, não seria gente daquela que ganharia uma filha, seria ele que receberia um filho por junto com o neto, folha de passado em branco, acabados de nascer, os dois. Não se falaria mais nisto. Estava preparado para em tudo retribuir, até ao limite de si, a Graça Divina da ressurreição. Nada fora às boas. Tudo quanto pudera ir mal, fora. O coração da casa, Caetana, flor, morrera e morrera. O amor, rosa, ardia.
– Agora.
– Saiba e decida. Se agora como pede, se amanhã, para que hoje se prepare e faça as suas despedidas. Ouça e meça: Deus está morto e você vai fazer-lhe companhia. Amanhã?
– Agora!
– Pois faça-se a sua vontade. O estojo.
– Diante de Deus, rogo-lhe.
– Seja. O estojo!

E largou para a capela. Seguido a dois passos por quem, certo que estava de ser dono da única verdade sobre a terra, Deus por testemunha e padrinho, nem pediu para conhecer o filho antes de oferecer o peito à morte, seguro, tão seguro de que ela não viria por ele, porque ele viera por ela.

Um poema para fazer colares de conchas

Roubaste-me o coração com um só dos teus olhares

in O CÂNTICO DOS CÂNTICOS

 

UM SÓ
Na praia tranquila
uma maré de destroços
do naufrágio das bibliotecas
dá à costa a calma do mundo e a fúria
dois para fazer o nome da alegria
calma e fúria são a alegria
a maré de destroços são todas as letras:
palavras conchas palavras contas
palavras malões palavras vestidos
palavras peixes coloridos escamas de luz
enfiadas num colar
rente ao pescoço à beira da voz
algas versos de nós colhidas ali do sal da água
Uma bíblia flutua
calma e fúria são alegria no cântico das páginas
arrancadas de dentro onde não cabe a hipérbole dos cânticos
mal cosidas páginas a tempo da igreja
não haverá oração mais sagrada melhor alimento
tão mal cozido pão de páginas
cântico arrancado cru da hipérbole dos cânticos
mal cosido cântico no tempo boa a linha
para enfiar os destroços do naufrágio das bibliotecas
uma a uma conta amado concha na linha do cântico
uma a uma letra à beira da voz colares de algas
um a um de búzios de nós
peixes coloridos
uma a uma escama letra de luz
são teus amores memória
na escada do ouvido à beira da voz
até que o mel na ponta da língua
seja o corte na ponta da seta
surdos
morrem gamos
caiem flechas
Nenhum coração se rasga
na praia tranquila
que não seja de amor:
roubaste-me com só um dos teus olhares

Outro mais estranho melhor livro

Querida Jeanne: não a deixaria pendurada. Foi numa corrida  — só volto Domingo. Por muito que não seja, e não é, uma escolha surpreendente, creio que será, por isso mesmo, uma surpresa — sou uma rapariga simples, já sabe, isto espremido e tal e coiso, é tudo em neils youngs e assins.
Continuo o desafio que começou aqui e a Joana me passou, entregando-o à Teresa: Teresa, linda Menina Má, qual foi o mais estranho melhor livro que leu?

Admiro profundamente aquilo que, me sendo mais estranho, me é melhor, sem que por isso me faça menor, banal, pior. Estabeleça apenas uma fronteira de diferença de natureza formal, qualquer que esta seja: moral, estética, gnoseológica… o diabo, tanto faz.

Fascina-me a coisa bem feita, a coisa bela, boa, ou por onde, esperada ou inesperadamente, irrompa. A coisa poderia ser uma cereja. Numa cesta de batatas térreas de terem sido recolhidas. A coisa pode ser Mahler. Enquanto faço limpezas.

Uma noite, o mar fez contornos de fosforescências verdes à volta dos corpos que nocturnos nadavam. Nadávamos. Nós e a nossa linha de corpo, como as crianças brincam com a sombra, brincávamos, era luz a sombra, uma linha de luz desenhava-nos. Não a mão no papel, o bico da caneta a fazer a volta dos dedos: o corpo na água contornado de luz. Verde. Fosforescente como radioactividade em imaginário de bd.

Uma tarde, há pouco tempo, foi em 2009?, a meio de uma imprevista tempestade primaveril, bruta, que baixou e rebaixou o céu até fazer dele um tecto de chumbo cortado a relâmpagos e abanado por trovões, uma cegonha, enorme, veio abrigar-se debaixo da gelosia onde cresce a buganvília, encostou-se à coluna, alta e direita como a coluna, nunca vi majestade assim escorrendo tanta água pelas penas. Nem me mexi, fiquei a vê-la da janela da cozinha, por cima do lava loiça.

E por muito que muita gente diga, ah, disso, muito, só duas vezes vi dois arcos íris claramente definidos, um ao lado do outro: este último foi de presente, de certeza, porque foi neste meu aniversário, em pleno parque de estacionamento de hipermercado, apinhado, à beira do fim da claridade, nunca me tinham dado os parabéns assim, parecia mentira que aquele resto de sol de Inverno guardasse tanto dentro das mínimas gotas de chuva. Não sei quem ofereceu, sequer contei que tinha recebido. Agradeço agora: gostei tudo, não podia ter gostado mais, merci.

Antes da Casa da Música inaugurar, estive completamente desfasada de qualquer polémica portugalidade. Então, quando a caminho do hotel dou com ela ali caída, foi na primeira semana em que esteve aberta ao público, literalmente caída do céu, os degraus para a porta rectangular da nave, dentro da minha cabeça, muito alto, o trecho musical dos Encontros Imediatos de Terceiro Grau — sei que sabe qual é, é aquele: na-na-na-na-na. Páre!, páre!, pus-me a gritar para o taxista. Ele estacionou e esperou, e se me demorei!, foi até notar os sapatos cheios de lama e a alegria me voltar a caber dentro do carro.

É infindável a minha lista de mais estranho melhor. O meu primeiro Bosch. Bacon. E o Giuseppe Arcimboldo? Ri tanto, era míuda, adorei-o.

O que haverá de mais estranho melhor do que outro corpo, corpo amado, no nosso corpo quando amado? O completo beijo se a testa toca a testa, duas línguas e uma só boca?, os braços sobre os braços, as mãos fecham-se mas com outras mãos, o sexo dentro do sexo na melhor estranheza  mais certa do corpo, as pernas ao longo das pernas.

Porém o que aqui se pede são palavras, e não quaisquer umas. Literatura. É mais seguro apontar os grandes escritores do passado. Mesmos os estranhos, ou só a obra estranha. O presente levanta questões. Será grande escritor? A prova do tempo? A prova do tempo, merda. Tanto sobrevive o que presta como o lixo, e o sucesso depende da volubilidade das massas, da orquestração da crítica e de sabe-se lá do que mais. Repito, merda.

Já falei dele aqui. É um gosto voltar a falar. É um grande escritor. Não interessa o que  tempo faça com ele ou com a obra dele. É. Cormac McCarthy.

The Road, de Cormac McCarthy, é o mais estranho melhor livro que li: não têm nomes, os personagens, são o pai e o filho, um pai e um filho, somos nós, a caminho numa estrada desconhecida desde uma terra que não se sabe, a não ser que está a norte do sul que se pretende, num tempo em que a civilização por algum apocalipse se desfez, e em solidão e desconhecimento de outros, o que resta de valor humano em cada homem, no pai que o passa ao filho, o filho ao pai, a refaz, à civilização, a cada decisão em que preserva a humanidade, a ética, e a inteligente besta sadia do reduto do ser que somos. Fá-la inventando esperança contra a realidade sem esperança, um passo de perigo a seguir a outro, e contra a sub espécie que do mesmo reduto do ser que somos, ronda, espreita, ruge, pode surgir e tomar-nos, amoral, reptilária, canibalesca. Monstruosa. Bestial.

E tudo isto que escreve, que é a essência do ser, ele escreve usando a essencialidade da linguagem: o perfeito equilíbrio da mesma outra coisa.

E a cinza que cai?