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	<title>É tudo gente morta &#187; Eugénia de Vasconcellos</title>
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		<title>Mas que macaca de imitação…</title>
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		<pubDate>Sun, 03 Jul 2011 22:36:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[que sou! Parece mentira. Ainda por cima fui tão feliz aqui. Feliz com esta gente com quem bloguei e feliz com nossos ricos leitores. Dizer o quê? Merci, primeiro e antes. Au revoir, depois e ao fim.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a rel="attachment wp-att-30284" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/07/mas-que-macaca-de-imitacao/au-revoir/"><img class="aligncenter size-full wp-image-30284" title="Au revoir" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/07/Au-revoir.jpg" alt="" width="409" height="300" /></a>que sou! Parece mentira. Ainda por cima fui tão feliz aqui. Feliz com esta gente com quem bloguei e feliz com nossos ricos leitores. Dizer o quê? Merci, primeiro e antes. Au revoir, depois e ao fim.</p>
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		<title>Só é valente quem tem medo</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Jul 2011 18:46:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Aqui há uns bons anos deu-me para fazer histórias em rimas bebés. Já se sabe, para bebés, bebezices. Primeiro, eram pessoais e intransmissíveis como um presente é. Como eram gostadas, apeteceu-me fazê-las para as crianças. E fi-las. Variadas: desde personagens da história, a histórias já mil vezes contadas e mais uma vez recontadas, ou de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Aqui há uns bons anos deu-me para fazer histórias em rimas bebés. Já se sabe, para bebés, bebezices. Primeiro, eram pessoais e intransmissíveis como um presente é. Como eram gostadas, apeteceu-me fazê-las para as crianças. E fi-las. Variadas: desde personagens da história, a histórias já mil vezes contadas e mais uma vez recontadas, ou de assuntos quotidianos. Pensei mesmo em pedir que me amanhassem uns desenhos para as apresentar a uma editora. Mas nunca fui boa de pedidos, não houve desenhos, não apresentei. Foi bom assim mesmo. Diverti-me a fazê-las. Hoje encontrei uma. Fiquei contente: fui logo roubar um Rato. <a href="http://lifecraftinessandeverythingelse.blogspot.com/">Aqui.</a></em></p>
<p style="text-align: center;"><strong><a rel="attachment wp-att-30237" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/07/so-e-valente-quem-tem-medo/doctora1-2/"><img class="aligncenter size-full wp-image-30237" title="DoctorA1" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/07/DoctorA11.jpg" alt="" width="400" height="305" /></a>O RATO DOUTOR DIZ: SÓ É VALENTE QUEM TEM MEDO</strong><br />
Estava deitado<br />
Quase a dormir<br />
Bateram-me à porta<br />
Eu fui abrir<br />
E para meu espanto<br />
Muito espantado<br />
Quem é que estava<br />
Do outro lado<br />
Quase rente ao chão?<br />
Um Rato tão pequenino<br />
Bem mais baixinho<br />
Que a pata do meu Cão<br />
E carregado com um enorme malão…<br />
Então vê-me neste estado<br />
Morto de cansado<br />
E não convida para entrar<br />
Que falta de educação!<br />
E quem é o senhor?<br />
Ora essa! Sou o famoso Rato Doutor<br />
Aqui ninguém está doente<br />
Mente mente mente<br />
Tanto que lhe abana o dente<br />
Da frente<br />
Não sabe que de mentir<br />
Até um dente lhe pode cair?<br />
É vá de rir, o Rato Doutor, todo contente<br />
Da mentira convincente<br />
Vá, ande, mostre a língua<br />
Como se fosse malcriado<br />
E deixe auscultar esse chiado<br />
Não fuja<br />
Não vê que não lhe faço mal<br />
Faço-lhe bem, aqui ou no hospital<br />
Dou-lhe remédios e mesmo picadas<br />
Às vezes doem um bocadinho<br />
Outras nem se sente, é cuidado mansinho<br />
Seja valente seja um samurai<br />
Se quiser gritar ai ai<br />
Faça um kiai<br />
Sim, mesmo os guerreiros<br />
Mais que poderosos<br />
Sentiam medo, mas deixavam-no sair<br />
Disfarçado…<br />
Porque eram vaidosos<br />
Não queriam chorar<br />
Respiravam fundo<br />
E toca a gritar<br />
Antes de atacar<br />
Força. Grite tudo uma só vez:<br />
Um grito assusta o medo, fá-lo passar<br />
E ficar calmo para se tratar<br />
Depois de tratado<br />
Vou para outro lado<br />
Com o meu malão<br />
Vou bater à outra porta<br />
De outro valentão.</p>
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		<title>De pequenino se torce a… interdisciplinaridade?</title>
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		<pubDate>Thu, 30 Jun 2011 15:47:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ESTÁ LÁ? DAQUI FALA O OVO Adoeci — já foi há duas semanas, ou mais. A minha irmã, porque é mais nova, aproveitou logo para se armar em usurpadora que é o que sempre faz quando me ponho a jeito, isto é, armou-se em mais velha. A usurpadora ao telefone: – estás medicada? A vítima [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a rel="attachment wp-att-30144" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/06/de-pequenino-se-torce-a-pluridisciplinaridade/dinosaur-egg-toy/"><img class="aligncenter size-full wp-image-30144" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/Dinosaur-Egg-Toy.jpg" alt="" width="205" height="246" /></a><strong>ESTÁ LÁ? DAQUI FALA O OVO</strong><br />
Adoeci — já foi há duas semanas, ou mais. A minha irmã, porque é mais nova, aproveitou logo para se armar em usurpadora que é o que sempre faz quando me ponho a jeito, isto é, armou-se em mais velha.<br />
A usurpadora ao telefone:<br />
– estás medicada?<br />
A vítima da usurpação:<br />
– todos os dias do mundo tomo uma fartura de vitaminas, mais ácidos gordos e o que raio aquela gente enfia nos comprimidos, não achas que chega?<br />
A usurpadora ao telefone:<br />
– vou dizer à Mãe.<br />
A vítima da usurpação:<br />
– és mesmo queixinhas.<br />
A usurpadora ao telefone:<br />
– comeste?<br />
A vítima da usurpação:<br />
– e o teu filho mais velho, comeu?<br />
A usurpadora ao telefone:<br />
– já começa a desconversa. Olha, ele está farto de dizer que quer ir brincar contigo, andou a patear a casa toda, a fazer bum-bum, a rugir — são as  lindas coisas que tu  lhe ensinas-, e já foi dizer ao pai: <em>Pai, <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/12/el-torito-i-e-ii/">precisa</a> lanterna pa vê enómes pegadas de dinossauo</em>. Quando lhe disse que estavas doente, foi buscar a maleta de médico. Vou-te levar uma sopa. Sopa sei que comes sempre.<br />
…<br />
A maleta do meu sobrinho tem um estetoscópio, um martelo de reflexos, aquela coisa de ver os ouvidos, outra para a língua, sabe Deus mais o quê, e um telemóvel de serviço. Depois de me auscultar para ouvir os <em>miaus</em>, de me bater nos cotovelos e na barriga para ver os reflexos – é um método novo, do melhor que há -, de me mandar abrir a boca, escancarar os olhos e espreitar os ouvidos, rezou-me a sentença:<br />
– ponha água, Tatia, vai passá. Dou beijinho. Já passou!<br />
Eis senão quando, e já curada por milagre em nada inferior ao dos leprosos, me diz, passando-me o telemóvel:<br />
– o tufone, Tatia, é pa si.<br />
– quem é?<br />
– é o ovo de um dinossauo muito gande!<br />
A medicina e a paleontologia são unha com carne, é o que é.</p>
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		<title>Método short</title>
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		<pubDate>Tue, 28 Jun 2011 18:16:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[MAIÊUTICA – já reparaste na ironia?, no amor, o poder está todo do lado do desamor, do lado do não. Não te quero. Não fico. Não te amo. – acabaste de dizer, isso é o poder do desamor, não do amor. – pensa, qualquer coisa serve: fome-comida. O poder maior de uma coisa está sempre [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">
<div id="attachment_30100" class="wp-caption aligncenter" style="width: 343px"><a rel="attachment wp-att-30100" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/06/metodo-short/cadeados-ponte/"><img class="size-full wp-image-30100" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/cadeados-ponte.jpg" alt="" width="333" height="500" /></a><p class="wp-caption-text">Fotografia de claudiacrayon, Flickr</p></div>
<p><strong>MAIÊUTICA</strong><br />
– já reparaste na ironia?, no amor, o poder está todo do lado do desamor, do lado do não. Não te quero. Não fico. Não te amo.<br />
– acabaste de dizer, isso é o poder do desamor, não do amor.<br />
– pensa, qualquer coisa serve: fome-comida. O poder maior de uma coisa está sempre do lado de fora da coisa. O poder da porta está na chave, no trinco, no fecho.<br />
– então a anorexia, ou a greve de fome, a resistência passiva, são só um contra poder?<br />
– sim, apenas isso: contra poder não é poder, é só oposição: não há resistências passivas, só submissões agressivas, mas nem por isso menos submissas: o poder esteve o tempo todo do outro lado, o não não se fez sim, foi feito por erosão.<br />
– isso significa o quê? Não há meios de retoma do poder?<br />
– há. Basta não querer abrir a porta fechada.<br />
– isso é batota, a fome não desaparece.<br />
– desaparece, se em vez de comeres, beberes.</p>
<p> </p>
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		<title>Nenhum lugar</title>
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		<pubDate>Sun, 26 Jun 2011 20:50:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[In human affairs there is nothing from which he does not extract enjoyment, even from things that are most serious. If he converses with the learned and judicious, he delights in their talent; if with the ignorant and foolish, he enjoys their stupidity. He is not even offended by professional jesters. With a wonderful dexterity [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_30073" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><a rel="attachment wp-att-30073" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/06/nenhum-lugar/o-rapto-de-europa-tiziano-2/"><img class="size-large wp-image-30073" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/O-rapto-de-Europa-Tiziano1-500x383.jpg" alt="" width="500" height="383" /></a><p class="wp-caption-text">O Rapto de Europa, Tiziano — ou será Rubens?</p></div>
<p style="text-align: right;"><em>In human affairs there is nothing from which he does not extract         enjoyment, even from things that are most serious. If he  converses with         the learned and judicious, he delights in their talent; if with  the         ignorant and foolish, he enjoys their stupidity. He is not even  offended         by professional jesters. With a wonderful dexterity he  accommodates         himself to every disposition. As a rule, in talking with women,  even         with his own wife, he is full of jokes and banter.<br />
</em></p>
<p style="text-align: right;">Erasmus sobre Thomas More<em> in </em><a href="http://www.amazon.co.uk/gp/product/images/1120637147/ref=dp_image_0?ie=UTF8&amp;n=266239&amp;s=books"><em>Life and Writings of Blessed         Thomas More</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A DIFERENÇA ENTRE <em>OU</em> E <em>EU</em></strong><br />
Eu não sou o Vasco Pulido Valente. Não sei o que ele sabe. Nem quando leio o que ele lê, lemos o mesmo. Quando penso no que ele pensa, penso outro pensamento. Mas também, há que ser justo, não preciso de ter razão — ainda que para a ter, tantas vezes baste cruzar os braços, esperar pelo pior e dizer: chegou. Faço mesmo gosto em não a ter, a tê-la assim. Por muito que Vasco Pulido Valente seja imenso e respeitável, até cultuável, ou porque é cultuável -  não me decidi — , pasmo diante do que afirma, apesar de, dele, não esperar outras afirmações que não as terminais e conclusivas.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://aeiou.expresso.pt/vasco-pulido-valente-na-capa-da-unica-nr-2017=f657296"><em>O que é a Europa? Somos nós, a Alemanha, a Bélgica, a Itália? A Europa não existe militarmente, nem existe financeiramente. Existe a Alemanha. (…) Sempre disse que esta Europa era utópica. Tinha de acabar de uma maneira ou de outra.</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">Creio, pelo contrário, que a utopia não é um <em>não lugar</em> de chegada, apenas uma raiz: um <em>bom não lugar</em> de partida. Esses não acabam. Nunca.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>E agora?</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/06/e-agora/</link>
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		<pubDate>Sat, 25 Jun 2011 04:05:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Fui comprar o meu perfume. Estranhei: embalagem branca e Eau de Parfum?! Mas pronto. Ó diabo! Ó diabo! Não é o mesmo. Pedi esclarecimentos.  Informei-me. Estou doente. O meu perfume foi “reinterpretado” pelo novo nariz da casa Dior. Há já algum tempo. Tenho tido sorte. Tenho comprado de stocks. E agora? Se alguém encontrar Diorissimo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span style="background-color: #ff99cc;"><em>Fui comprar o meu perfume. Estranhei: embalagem branca e Eau de Parfum?! Mas pronto. Ó diabo! Ó diabo! Não é o mesmo. Pedi esclarecimentos.  Informei-me. Estou doente. O meu perfume foi “reinterpretado” pelo novo nariz da casa Dior. Há já algum tempo. Tenho tido sorte. Tenho comprado de stocks. E agora? Se alguém encontrar Diorissimo Eau de Toilette, diga-me — significa que é anterior a 2009, anterior à “reinterpretação”. Diga-me aqui mesmo. Please, please. Merci.</em></span><br />
<a rel="attachment wp-att-30002" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/06/e-agora/diorissimo-eau-de-toiltte/"><img class="aligncenter size-full wp-image-30002" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/diorissimo-eau-de-toiltte.jpeg" alt="" width="400" height="309" /></a><strong>Ó VALHA-ME EDMOND ROUDNITSKA!</strong><br />
O que é que Marcel Rochas, Elizabeth Arden, Christian Dior e Emile Hermès têm em comum? <strong>Edmond Roudnitska.</strong> Perfumista de todos eles. Quem? Fixe o nome, merece, prometo que sim, e aposto mesmo que o seu nariz já foi feliz por causa dele. E se é rapaz também fez feliz o nariz de alguém – devia era ter sido o meu, seu malvado: há lá melhor cheiro nas narinas de uma menina que a rapaz fresco de banho, fresco de folhas, fresco de manhã fresca de Primavera e mar ao fundo, seco de montanha perto? Há, mas isso é depois, é cheiro a sono acabado de acordar. Mas este perfume onde cabe tudo o que um rapaz em condições deve ser, um rapaz de se comer, portanto, é dele, de Edmond Roudnistka e mais não digo, se não o meu nariz apaixona-se. Olha!…</p>
<p style="text-align: center;">Nariz<br />
Roudnitska<br />
Feliz<br />
Perfumista</p>
<p style="text-align: justify;">Viu, que linda mnemónica de escola? Conto só um bocadinho antes de me zangar muito: antes dele, usavam-se uns perfumes doces e gordos de morrer de dor de cabeça e de náuseas. Já sei o que está a pensar. E Madame Chanel? Sim, é verdade que sabemos todos conjugar Nº 5 em gotinhas nuas de Marilyn, um frasco vendido em cada 55 segundos. Ou é 1 minuto e 55 segundos? Não sei. Mas que diabo, se até a minha avó trocou o famoso Nº 5 pelo Rochas Femme. Sabia que o Nº5 foi de serem várias as amostras levadas para que Coco escolhesse uma entre as que o famoso nariz de Ernest Beaux preparara em frascos etiquetados e numerados? Foi o frasco Nº5. Fase russa. Ernest Beaux havia sido perfumista de grande sucesso na Rússia dos Romanov, estava habituado a opulentos aromas, cheios, ricos e ostentados, e era amigo do então amante de Chanel, Dimitri Pavlovitch, um dos primos do czar Nicolau II, que os apresentou em Cannes. O resto é história como será o tweed da fase inglesa durante a relação com duque de Westminster. Para Chanel este aroma incorporava nas suas notas o desejo que tivera de um odor completamente artificial, um cheiro que se vestisse como uma peça de roupa segundo as palavras usadas pela sua própria língua e boca. Procurava um perfume que fizesse uma mulher cheirar à ideia que tinha de mulher e não, ó nunca, a flores.</p>
<p style="text-align: justify;">Derivemos um tudo nadinha. Depois deste bem conseguido sucesso seguiram-se muitos, de outras marcas, pesados, grosseiros, gordos e enjoativos. Passaram mais de vinte anos sobre os loucos anos vinte, sobre o Nº 5, uma nova mulher saíra das fábricas do pós guerra, do esforço da guerra, e à força de uma necessária igualdade de direitos inventa-se uma impossível igualdade de géneros ditos opostos — na verdade complementares. As posições extremavam-se em miudezas de estilo divisoras de mulheres, guerra aberta, sou feminista porque tu não o és suficientemente, mulher homem-mulher pin up, duas irrealidades.</p>
<p>É por esta altura que se dá o escândalo. Christian Dior volta a definir as cinturas abolidas. As maminhas. A linha curva. As saias abrem-se  em metros e metros de despesismo e tecido para uma corola de flor. Um escândalo. Mas será? Não será antes uma naturalidade o coração desejar o que não teve? Não se sonhou durante a escassez da guerra com a prosperidade da paz? Ao sofrimento agudo não apetece a macieza curva? A fome pode querer um bife, mas a saciedade prefere petits fours.</p>
<p style="text-align: justify;">A Edmond Roudnitska, em 1956, apetecia uma mulher que cheirasse a flores. A lírio do vale, flor de Dior como a camélia é ainda a de Chanel. Não a flores avós. Flores acabadinhas de florir, simples de campo, sofisticadas em bouquet. Criou, porque foi essencialmente um criador, um homem que pensou o perfume para fazer perfume, criou, dizia, uma molécula. Sim. Sintética. Até parece que foi a primeira vez. Nem a segunda, quanto mais. Mas a primeira assim mesmo.  Porque aquela flor que escolheu para uma das notas essenciais, o lírio do vale, não é extraível. E deu-lhe jasmim, ylang ylang, não sei que verdes nem sei que mais, sei que rosas e lilazes, sândalo. Fez o Diorissimo e um cisma na perfumaria. Agora não se nota, claro, há florais por todo o lado e cítricos e chipres, orientais e o  raio, há tudo. Só não há desde 2009 o Diorissimo que sempre houve. Foi reinterpretado pelo senhor François Demachy. Ficou primo do J´Adore. Mas mal. Gritado. Ácido onde foi fresco. As más línguas dizem que a fórmula era demasiado cara para o gosto da LVMH, detentora da Dior. Não quero acreditar nisso. Que após a substituição dos constituintes que a IFRA obrigou, se alterava significativamente. Nisto não acredito. É assinatura. Nota-se. É um erro. Aquela assinatura tem o seu nicho. Esta tem o dela. Parecem o mesmo, contudo não são.</p>
<p style="text-align: justify;">O Diorissimo é o meu perfume. Tive outros, parei neste. Não quero outro. Um perfume é como um amor. Não é para trocar. É para ficar com ele  logo que se o encontra, e de cada vez que se percebe que ele está ali, pensar, ai que bom, e no resto do tempo não o perceber e ser feliz dele com ele, o que é ainda melhor.  O Diorissimo cheira à aurora primaveril nas primeiras notas, as altas, as que primeiro se sentem, o lírio do vale ainda orvalhado da noite, frio, cresce ao centro para o jasmim debaixo da luz, mas leve porque a temperatura não é quente demais e está refrescado pelo verde tenro das folhas, doce e leve, é Maio, uma brisa, e ao fundo, na segurança mais seca de rosas antigas, na memória, no lilás, o sândalo. Longo. Muito inteiro. Complexo na simplicidade. Inalterável, quase conservador não fora tão fresquinho. E agora? Chanel dizia: <em>uma mulher sem perfume é uma mulher sem futuro</em>. E agora?</p>
<p style="text-align: justify;">Chanel tinha uma inteligência interpretativa, ancorada no tempo, percebia as tendências e isso permitia-lhe trazer o futuro para o presente. Era permeável a todas as influências. Edmond Roudnistka tinha uma inteligência criativa, voltada para atemporalidade que é o dia a dia da eternidade, e por isso trouxe a beleza que sempre existiu para dentro de um frasco. Juntos teriam sido uma equipa portentosa. E eu, decerto, não estaria aqui à beira de um ataque de nervos porque teria perfume inalterado até ao dia do juízo final.</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="background-color: #ff99cc;">Ps:</span> sabe pôr perfume? Não me diga que é como aquela gente doida que nos faz ficar com a cabeça a estalar de tão mal o usarem — foram a banhos. Ou parece que não pôs nada? É fácil.<br />
<strong><span style="background-color: #ff99cc;">1. parfum:</span></strong> uma linha, a mesma e chega para tudo, na parte de trás do pescoço, não não é das lindas orelhas, decote, pulsos e parte de trás dos joelhos.<br />
<strong><span style="background-color: #ff99cc;">2. eau de parfum:</span> </strong>borrife uma, duas vezes no máximo o ar diante de si e depois passe por ele.<br />
<strong><span style="background-color: #ff99cc;">3. eau de toilette:</span></strong> borrife, uma vez directamente na roupa, outra no cabelo.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Who could ask for anything more?</title>
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		<pubDate>Fri, 24 Jun 2011 19:30:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[* Não nos largam!, é que não nos largam. Parece mentira… Mr. Fonesca, qual é a sua mais antiga memória de viagem? Olhe, parece-me pouco profissional, mesmo indigno da publicação que representa, não só que insista em trocar o nome ao nosso Manuel Fonseca, mas que nem se tenha apercebido que já terminou a anterior [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="../2011/06/uma-mao-nas-nuvens-um-olho-na-paisagem/" target="_blank"><a rel="attachment wp-att-29990" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/06/who-could-ask-for-anything-more/coca-cola-3/"><img class="aligncenter size-medium wp-image-29990" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/coca-cola2-300x112.jpg" alt="" width="300" height="112" /></a></a><a href="../2011/06/uma-mao-nas-nuvens-um-olho-na-paisagem/" target="_blank">* Não nos largam!, é que não nos largam. Parece mentira…</a></p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Mr. Fonesca, qual é a sua mais antiga memória de viagem?</strong></em><br />
Olhe, parece-me pouco profissional, mesmo indigno da publicação que  representa, não só que insista em trocar o nome ao nosso Manuel Fonseca, mas que nem  se tenha apercebido que já terminou a anterior entrevista. Posso não ter os encantos do dr. Fonesca, perdão, Fonseca, não sou, por isso, de se jogar  fora. Ou foi um lapsus linguae e quer que o chame de volta? Ou só lhe quer  repetir a pergunta e podemos deixar o tio Freud no ó-ó dele?<strong><em><br />
<em>Como?</em></em></strong><br />
Deixe lá, assim como assim, perde-se na tradução como a da outra. Bem, a  mais antiga memória de viagem, diz você. Azarucho. Não é a melhor.<br />
O irmão mais novo do meu pai corria. Na verdade corria sempre, mesmo  fora dos circuitos. Era o bebé da família, mimado de miminhos, filho de todos os  irmãos, herói e mascote. Bebé casado e pai. Naquela manhã foi ele, que nunca ia,  deixar o filho ao colégio e ao voltar para a quinta, correu contra si mesmo ao  fim de uma noitada mal dormida, feliz de amigos, copos e fados. Despistou-se.  Morreu logo.  O meu pai apareceu em casa: ardia em velocidade como se esta  fosse transmissível de mortos para vivos. Não havia avião diário, não havia  tempo, não havia nada. Carro. A minha mãe no banco da frente ao lado do meu  pai. Eu, atrás, ainda antes dos cintos obrigatórios, três anos, adorava ir  deitada na chapeleira a fazer adeuses sorridos aos passageiros nos carros que de lá  via muito bem. Quilómetros. Não recordo onde passámos a noite, lembro o  quarto, as escadas que desci para o pequeno almoço, perfeita e nitidamente, a  guarda das escadas em ferro, a madeira do corrimão, tão escura, verniz demais, a  eterna calma deslizante da minha mãe. Outra vez no carro. Foi perto do Porto  que comecei: quero um copo de leite quente, quero um copo de leite quente,  quero um copo de leite quente. Agora não há onde parar. Quero um copo de leite  quente, quero um copo de leite quente. Foi a única vez. Foi a primeira vez. A  última. Nem vi. Nem me lembro de o ver voltar-se. Ao meu pai. Apanhei um estalo  na cara. Imenso como a vergonha de o apanhar.<strong><em><br />
<em>Um impacto irrepetível, o da primeira viagem, claro!</em></em></strong><br />
Um impacto, não, o impacto da mão na cara, sim, irrepetível. Lembro-me  de ter decidido que nunca mais apanharia uma chapada na vida, ai isso,  lembro-me. Nem uma lágrima. Mas custou-me. Foi cá um esforço… Bebo muitas vezes leite  quente quando paro numa viagem de carro. O  impacto do embate da morte também.  O do carro: vi carro todo enfiado numa árvore. Parecia muito velho.<strong><br />
<strong>Associa sempre as viagens a pessoas?</strong></strong><br />
Não. Às vezes são apenas lugares, coisas, acontecimentos, o que se  pensou que seria e o que é de facto, também, como disse o Manuel Fonseca, a  ausência, aquele ó gostava disto contigo, onde estás  — e já agora, quem és?  Muitas vezes a pessoa que nos acompanha não está presente. Já morreu. Percebi  isso logo naquela viagem. Ou apenas não está connosco. Não existe. Ou  sonha-se que talvez exista e por isso existe enquanto a sonhamos. Por estes istos  todos, faço sempre como nos filmes, como na canção do Sting de quando era miúda  e ainda ele era Police, quando pensava que era crescida, <em>Message in  Bottle:</em> deixo um recado mínimo numa garrafa de Coca Cola, na última noite, na  mesa de cabeceira. Há Coca Cola em todo o mundo, já reparou?<strong><em><br />
<em></em></em></strong></p>
<p style="text-align: center;"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/MbXWrmQW-OE?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/MbXWrmQW-OE?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object><em><strong><br />
</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Tudo muda quando se passa a viajar profissionalmente. Já nem  se olha lá para fora!</strong></em><br />
Não sei. Sou sempre igual. Ou não sei ser profissional ou não sei ser  amadora. Não me faz diferença, não faço diferença, sou de uma monotonia  confrangedora. <strong><em><br />
<em>Prefere os hotéis de luxo ou os familiares?</em></em></strong><br />
Há hotéis pequeninos de luxo familiar, prefiro esses. Não tenho vontade  de passar mal. É a puta da idade. Ou falta-me um argumento justificativo  que aja como uma varinha mágica e me altere a percepção, um que faça de uma  abóbora uma carruagem. Mas sou a pessoa que conheço que mais gosta de hotéis. Podia  viver num. Pelo menos penso que poderia, de facto, não sei. Também gosto de  pensões. As do Wong Kar Wai, as dos romances de espionagem, enfim, dessas.<strong><em><br />
<em>O dinheiro é importante quando se viaja?</em></em></strong><br />
Prefiro ficar em casa a ver o Mezzo com um belo vinho branco, doce e  fresco, um tinto e tapas, ou fazer uma ligação directa à Amazon, a ir onde haja o  que quero e não ter dinheiro para o bilhete. Ou para o restaurante, o que  for. Prefiro ficar a ler o mundo, mesmo que seja o mundo de alguém, ou a  escrever, do ficar que à porta a pensar: está-me fechada.<strong><em><br />
<em>Escreve?</em></em></strong><br />
Num cemitério. O mesmo do Manuel.<strong><em><br />
<em>Perdão?</em></em></strong><br />
Estou morta. De onde, e onde, queria que escrevesse?<strong><em><br />
<em>Num hotel, por ordem de importância, o que é que mais valoriza?</em></em></strong><br />
Se excluirmos o óbvio da limpeza e da segurança: localização, sou  fanática da localização, é muito importante para mim, preciso de uma localização estratégica, definida em função do perímetro pretendido. Quanto ao  resto, cama, almofadas, temperatura, varanda, varandim ou vista, pelo menos uma  vista. Tenho fraqueza por esplanadas, pátios. Mais uma vez, o exemplo do Manuel  serve-me: em Lisboa, York House — ainda por cima, come-se bem. Em NY também há uma  York House, é o 414. É a York House lá do bairro, de verdade que é — vá,  pronto, mais singelo, mais pequeno, sem restaurante, enfim, menos tudo.<strong><em><br />
<em>Imagino que tenha episódios pitorescos…</em></em></strong><br />
Não, sou muito romana em Roma. Já viu o Super Man na cabine a trocar de  roupa? Sou eu. Ser estrangeiro cheio de mariquices dá muito trabalho, não se  come isto, não se faz aquilo, vai-se a sítios esquisitos, tira-se fotografias  à frente das coisas, tenho embirração a tirar fotografias quanto mais à  frente do que quer que seja, não tenho paciência para ter muitas mariquices.<strong><em><br />
<em>Do passado, em viagens, de que é que tem mais saudades?</em></em></strong><br />
De ir a <a href="http://www.youtube.com/watch?v=3ahbE6bcVf8" target="_blank">Paris</a>. Desde pequena, de cada vez que se marca, planeia, pensa, acontecem-me  despropósitos. Até já fui parar a Cannes numa viagem a Paris — onde comi o melhor  entrecôte da minha vida, diga-se. Só a <a href="http://www.youtube.com/watch?v=LvglHa_P9BA" target="_blank">Paris</a> é que nunca. É um mistério.<strong><em><br />
<em>Já perdeu as malas?</em></em></strong><br />
Não. Mas já me as perderam. Só me perco a mim. Em todo o lado. Mesmo  dentro da cidade onde vivo. Chamam-me despistada, contudo não sou. Vou é  concentrada noutra coisa e falha-me o GPS. Já percebeu melhor aquilo da localização  dos hotéis? É para me perder controladamente. Vou parar a sítios  inacreditáveis. Eu, pelo menos, estou lá e não acredito. Às vezes tenho de pedir ajuda  para sair. Tem corrido bem. Mesmo as pessoas tidas por pouco recomendáveis  são, têm sido, muito prestáveis: um assaltante de carros, há uns bons anos, ao  fim de me explicar três vezes o caminho, e isto foi quando Lisboa tinha os  Olivais, levou-me a casa. Nunca tinha ido aos Olivais. Fiquei a conhecer. A  polícia também já me levou, ou melhor, foi à frente. Com luzes e tudo. Gostei  muito.<strong><em><br />
<em>Ameaças de acidente?</em></em></strong><br />
Em Portugal. Noutra altura, nem tinha carta, tirei muito tarde,  obrigaram-me a tirar, fazia voos domésticos com alguma frequência. A minha companhia  aérea preferida, foi uma fase, já nem existe, ou não lhe sei a existência,  ninguém a gostava então, era a LAR. Se fosse eu a tratar dos bilhetes, qual TAP verdadeira, qual Portugália de pastelinhos de nata quentes. LAR. Os  aviões, brinquedos, estavam sempre em cascos de rolha, no fundo do fim do  aeroporto. Tanto podiam ter uma escada como uma caixa. Hospedeira? Nicles. Galley?  Pois sim… Uma cortina cor de laranja separava o cockpit dos passageiros. Ao  fundo, uma geleira de praia com latas e garrafas de refrigerantes, cervejas e  águas para pessoal e clientes em modo, se quiseres serve-te, se não quiseres  não te sirvas. Os pilotos com um ar desgraçado. Nunca vi umzinho só composto. A preceito, nunquinha. Os estrangeiros, nunca voei com passageiros  portugueses, tinham cara de escândalo, de composição mental de texto para livro de reclamações lá na escuridão da agência por onde vinham, ó Portugal sub sahariano, God save us all. Adorava aquilo, eu — mas não mostrava,  sonsa, punha-me inexpressiva, muito superior de você é much ado about nothing  que é para aprenderem inglês. Uma vez pensei, zás, estamos lixados. O avião  cheio — para aí uma dúzia de lugares. Todos em posição de emergência.  Transbordavam dos bancos. Todos. Pousei o leque  em cima dos Maias. Olhei pela janela para morrer com uma vista bonita. Estava um dia imaculado, um postal, todo  dos azuis de mar, céu e seda em que o Manuel Fonseca acordou transatlântico, e não  sei como nem porquê, tive a certeza, não, não é hoje. E voltei a pegar no  leque. Não foi.<strong><em><br />
<em>Pior: já viajou ao lado de pessoas famosas?</em></em></strong><br />
O Pedro Norton e José Navarro nunca me dizem em que voo vão.<strong><em><br />
<strong>Perdão?</strong></em></strong><em><br />
</em>Perdão?!<strong><em><br />
<strong>E nos hotéis?</strong></em></strong><em><br />
</em>Se sim, não reparei. Uma vez, na rua, dei um encontrão a um senhor. Disse-lhe, desculpe-me, e segui. Era o meu avô. As minhas, chamemos-lhes distracções são metade das histórias à mesa de Natal. Mas ainda não  perdi a esperança de encontrar o Pedro ou o Zé num hotel, logo ao pequeno  almoço.</p>
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		<title>Um poema para os castelos de areia molhada</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Jun 2011 15:23:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[QUASE GAUDÍ: CASTELO DE AREIA E CONCHAS Antes que o fim da tarde viesse desfazer os minúsculos nós, tão apertados, nos fios compridos dos cabelos finos, empeço de mar, vento e areia o dia inteiro, o balde vermelho, a pá de cavar o fosso. O guarda sol aberto, uma casa na duna. A mãe estendida [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a rel="attachment wp-att-29901" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/06/um-poema-para-os-castelos-de-areia-molhada/gaudi-sagrada_familia/"><img class="aligncenter size-full wp-image-29901" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/GAUDÍ-sagrada_familia.jpg" alt="" width="460" height="288" /></a><strong>QUASE GAUDÍ: CASTELO DE AREIA E CONCHAS </strong><br />
Antes que o fim da tarde viesse desfazer<br />
os minúsculos nós, tão  apertados,<br />
nos fios compridos dos cabelos finos,<br />
empeço de mar,  vento e areia o dia inteiro,<br />
o balde vermelho, a pá  de cavar o fosso.<br />
O guarda sol aberto, uma casa na duna.<br />
A mãe  estendida à sombra.<br />
Mais uma corrida até à água, carregar água, que  peso,<br />
tornar duras, com palmadinhas suaves e molhadas,<br />
que mãos  pequenas, as paredes desse castelo tão novo,<br />
acabado de fazer<br />
e  já quer cair de ruínas antes de se enfeitar de conchas?<br />
Não, não.  Não pode pode ser.<br />
Na maré baixa, os caranguejos<br />
pequenos, muito  encarnados, este verde é o quê?,<br />
isto aqui à volta das bocas? Talvez  limos, pegue com cuidado.<br />
Eu bem disse, com cuidado,<br />
vire-o  para cima. Olhe, Mãe, está andar para trás e de lado,<br />
vai para o mar? Conquilhas!<br />
Se as quer apanhar, deixe a água no saco.<br />
A onda levou metade do  castelo,<br />
a outra metade, moura de conchas brilhantes ao sol,<br />
o  fosso cheio, os melrões delicados em caracóis de areia escorrida,<br />
vista  daqui, de longe, olhos de crescido, é quase Gaudí.</p>
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		<title>O pato, a gaivota e a galinha #2</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/06/o-pato-a-gaivota-e-a-galinha-2/</link>
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		<pubDate>Tue, 21 Jun 2011 20:01:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A GAIVOTA O meu avô, filho do meu bisavô Manuel, tinha, aos 15 anos, uma gaivota de estimação. Encontrou-a no Inverno, na praia, quase morta, uma pata partida. Levou-a para casa, gota a gota de água com açúcar no bico, uma tala. O meu bisavô, nessa noite: – trate de não se animar que lhe [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a rel="attachment wp-att-29889" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/06/o-pato-a-gaivota-e-a-galinha-2/gaivota_real/"><img class="aligncenter size-full wp-image-29889" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/gaivota_real.jpg" alt="" width="300" height="325" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A GAIVOTA</strong><br />
O meu avô, filho do meu bisavô Manuel, tinha, aos 15 anos, uma gaivota de estimação. Encontrou-a no Inverno, na praia, quase morta, uma pata partida. Levou-a para casa, gota a gota de água com açúcar no bico, uma tala.<br />
O meu bisavô, nessa noite:<br />
– trate de não se animar que lhe morre, está muito mal. E não a tire do sótão. Se a mãe descobre, já sabe. Depois ainda tenho ouvir que a culpa é do<a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/03/o-pato-a-gaivota-e-a-galinha/"> pato</a>.<br />
Não morreu. Levou muito tempo para se reestabelecer. Não tinha só a pata partida, estava muito fraca de a ter partido. Aos 15 anos, um Inverno inteiro e mais parte da Primavera duram uma eternidade. Aos poucos, curou-se. Ao início, voltava todos os dias à janela do sótão em gritos latidos como só as gaivotas sabem. E, acredite se puder, nos dias de ginástica, aparecia-lhe no liceu,  imenso par de asas para uma aterragem suave, ao ombro, como um papagaio de pirata.<br />
Depois foi espaçando as visitas até desaparecer: demora algum tempo até se conseguir devolver um rapaz à civilização.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Who wants to be José Saramago?</title>
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		<pubDate>Sun, 19 Jun 2011 15:11:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Talvez não seja a mais saramaguiana das pessoas. Li. Claro. Tive mesmo gosto em ler O Ano da Morte de Ricardo Reis. De manhã até à noite, nem pus o pé no calor da rua, um quarto de sombra, de barriga para baixo, estendida na cama, a ler, numa pensão baratíssima: pelas seis, mesmo antes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a rel="attachment wp-att-29777" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/06/quem-quer-ser-jose-saramago/pilar-rua-2-2/"><img class="aligncenter size-full wp-image-29777" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/PILAR-RUA-21.jpg" alt="" width="320" height="240" /></a>Talvez não seja a mais saramaguiana das pessoas. Li. Claro. Tive mesmo gosto em ler <em>O Ano da Morte de Ricardo Reis</em>. De manhã até à noite, nem pus o pé no calor da rua, um quarto de sombra, de barriga para baixo, estendida na cama, a ler, numa pensão baratíssima: pelas seis, mesmo antes da primeira luz, da rua, a voz de um cigano numa saeta até ao céu, atravessou paredes, janelas fechadas, e lá foi até muito mais alto.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi na exacta pensão onde já estivemos todos. Nunca me esqueci, ainda que jamais tenha voltado ou a lugar parecido. Pode ser um motel duvidoso, ou um apartamento velho, de papel, cheio da vida aos solavancos dos vizinhos. É cinematográfica e literária mesmo quando é concreta e definitiva, aquela era, porque se reconhece a cinematografia e a literatura, tem-se a certeza de que se pode ser feliz nos clichés onde a decadência da canalização não contamina a alma de passagem.</p>
<p style="text-align: justify;">Tentei a leitura de muitos outros, depois. A alguns, forcei-os, colher de xarope, e lá foram goela abaixo, os outros, não, não consegui engoli-los. Não sei. Talvez me tenha faltado a pensão. Ou a voz de romper auroras do cigano. Ou os amantes do quarto ao lado – eram tão velhos, parecia-me, para tanto ai que não corava de ser ouvido por ouvidos voyeurs à força, eram velhos, tinham à vontade mais de quarenta anos. Também não me esqueci deles: a mulher, saia-lhe o riso pelos olhos, um vestido castanho e amarelo, sandálias de tiras castanhas, a mala verde, sintética na esfoladela, via-se que andara a matutar naquele arranjo, uma princesa com idade para ser rainha.</p>
<p style="text-align: justify;">Enfim, vi ontem o documentário <em>José e Pilar</em>. Não posso mentir. As línguas dogmáticas, ainda que nobelizadas, fazem-me desligar, sequer é de propósito, deixo de saber onde estou porque não sei para onde me fugi. Porém. Há toda aquela psicochinfrineira de ai casou com pai: que treta, casou com o amor, assim, nem menos, nem mais porque mais não há. E o outro barulho todo, na perfeita estereofonia: ai controlava, hárpia, Saramago até à respiração: que treta, também ele casou com o amor. Estas coisas é que são dogmáticas sem dogma nenhum, vêem-se, agarram-se, a dedicação, que é sempre a da vida, a paixão, fogo do pensamento e alegria da carne, mesmo a alegria da presença, pensamento nas linhas, carne igual, pequeníssimos gestos, prender os dedos da própria mão, fechá-la num punho rápido, à velocidade de um sorriso de triunfo enquanto lê uma página nova escrita pelo marido, e a satisfação, o orgulho, o agarraste-o pelo cachaço, no gesto rápido, como um sorriso. Que orgulho amar um homem assim, percebe-se, e outra vez amar o amor. E ele, com voz de filho, voz de amante: Pilar, o que digo? A determinação de amar o amor mais que atingida. Este parágrafo é inútil, cabe todo numa imagem do filme que decorre durante a escrita de<em> A Viagem do Elefante.</em> Ele está à secretária. Computador diante de si. Para alcançar qualquer coisa, ela não o rodeia, antes estende o corpo sobre ele que aproveita para roçar o rosto no corpo dela, umas festas mansas e mesmo uma palmada no rabiosque.<a rel="attachment wp-att-29776" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/06/quem-quer-ser-jose-saramago/pilar-rua-2/"><br />
</a><br />
E diante da interpretação de João Afonso que tão presente deixou o tio Zeca Afonso, dizer: talvez a morte não exista.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando já não se pode acreditar em nada daquilo em que se acreditou, se aspirou, resolve Miguel Gonçalves Mendes mostrá-lo, porque existe, num documentário, saeta até ao céu, porque existe, uma só carne que a morte não separa. Isso para mim é prova bastante de Deus ainda que não creia Nele.</p>
<p style="text-align: center;"><object width="480" height="295"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/LMFbp_t7h_A?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/LMFbp_t7h_A?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="295" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Shortbeancake, perdão, story</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/06/shortbeancake-perdao-story/</link>
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		<pubDate>Fri, 17 Jun 2011 22:13:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Fotografia de Claude Cahun PÉ DE FEIJÃO Era uma vez um homem. O homem era muito rico. Mesmo o pai do homem e o pai do pai do homem já tinham sido muito ricos. Ainda antes: os mais velhos dos antepassados ossos enterrados, eram ricos ossos. Dava-se, com a riqueza deste homem, aquele caso que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="mceTemp mceIEcenter" style="text-align: justify;">
<dl id="attachment_29740" class="wp-caption aligncenter" style="width: 301px;">
<dt class="wp-caption-dt"><a rel="attachment wp-att-29740" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/06/shortbeancake-perdao-story/claudecahun-dresser/"><img class="size-full wp-image-29740" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/claudeCahun-dresser.png" alt="" width="291" height="429" /></a></dt>
<dd class="wp-caption-dd">Fotografia de Claude Cahun</dd>
</dl>
</div>
<p style="text-align: justify;"><strong>PÉ DE FEIJÃO</strong><br />
Era uma vez um homem. O homem era muito rico. Mesmo o pai do homem e o pai do pai do homem já tinham sido muito ricos. Ainda antes: os mais velhos dos antepassados ossos enterrados, eram ricos ossos. Dava-se, com a riqueza deste homem, aquele caso que se dá nas fortunas crescentes: crescia como o pé de feijão de João e de um pé de feijão de João como todas as fortunas.<br />
Este homem, além de rico, era muitíssimo sério, pouco ria, mas sorria pelos cantos levantados da boca quando alguém lhe dizia, por exemplo:<br />
– um homem tão rico e de barrete e sapatos de quarto a patinhar pela casa o dia todo…<br />
Dava sempre respostas estapafúrdias que nada tinham a ver com o comentário ou com a pergunta, ou quando tinham, era pior, pois nada tinham a ver com a resposta desejada.<br />
– pensa-se bem assim. As ideias não fogem para muito longe que o barrete caça-as, bem vê, não preciso de botinas para correr atrás delas.<br />
O homem tinha um estranho hábito que mais estranho era porque cada vez mais enriquecia: volta e meia, pegava num milhão de dinheiros e zás, oferecia-o. A mulher dele, sempre bem vestida e composta, vestido de missa, vestido de baile, diamantes nas orelhas, ficava piursa e vinha logo zangar-se muito. Ele gostava e então, sim, ria.<br />
– porque é que deu um milhão àquele bêbado pingão?<br />
– porque ele me plantou boas macieiras.<br />
– balelas! Também o Joaquim lhe cuida dos pomares e é um primor de homem que do vinho nem o cheiro e não lhe viu um centavo.<br />
Ela insistia. Que alegria.<br />
– e esta maluca agora? Não vê que deixou o marido e os filhos e se largou com um cigano estrada fora, voltou só Deus saberá porquê?<br />
– não vamos incomodar Deus.<br />
E mais. Ele adorando.<br />
– fez bem, fez bem, meu querido, a vila precisava de reconstruir a igreja depois do incêndio a ter comido até às paredes.<br />
– fiz o trabalho do diabo…<br />
– cruz em credo, que não pode uma pessoa apontar-lhe um bem! Vade retro, homem intratável. Que maçada.<br />
Um dia, o filho perguntou-lhe porquê?, como?, qual o critério que segue na sua virtuosa caridade? E de que natureza: moral, social, qual, meu pai, não percebo? Queria, coitado, era um bom filho, seguir os passos dele, dar e enriquecer. O pai disse-lhe:<br />
– vais ao engano se fores nas minhas pantufas. E vais arruinar-te. Eu não o faço para enriquecer. Sigo, e em consciência, o critério que presidiu ao mérito do meu enriquecimento, como o sigo, e em consciência, o critério que presidiu ao mérito da minha inteligência e obras: nenhum, que eu saiba, e em consciência que é mesmo que dizer, sem mim, ou melhor vistas as coisas, de mim, a gota que sou na chuva do mundo.<br />
De facto, deixou ao filho dez vezes mais do que o muito que herdara. O filho, respeitador e orientado, jamais tentou negócios de grande risco e nenhuma segurança, uma mina que ninguém vira no coração do Quénia, algodão da Colômbia, como o pai os fazia de olhos fechados, sem sair de casa, em sapatos de quarto, barrete, a patinhar o dia todo. Trabalhou, esforçou-se, investiu, e foi até filantropo, benemérito só de desvalidos, antes de se arruinar.</p>
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		<title>Short como o amor #10</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Jun 2011 13:55:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A PORTA ERRADA – esta parte da cidade é tão bonita. Os batentes… gostas destas mãozinhas aldravas? – gosto de ti. Mas porque é que estás a descalçar-te? – não consigo correr por estes passeios abaixo em cima de saltos de doze centímetros. – dá cá as sandálias, eu levo-as. Queres fazer uma corrida? — [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-29692" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/06/short-como-o-amor-10/crisscross-leather-platform-slingback-christian-louboutin-spring-2011/"><img class="aligncenter size-full wp-image-29692" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/Crisscross-leather-platform-slingback-Christian-Louboutin-Spring-2011.jpg" alt="" width="383" height="388" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A PORTA ERRADA</strong><br />
– esta parte da cidade é tão bonita. Os batentes… gostas destas mãozinhas aldravas?<br />
– gosto de ti. Mas porque é que estás a descalçar-te?<br />
– não consigo correr por estes passeios abaixo em cima de saltos de doze centímetros.<br />
– dá cá as sandálias, eu levo-as. Queres fazer uma corrida? — és como os miúdos -, vais perder.<br />
– claro que perderia, se não fosse feita justiça correctiva na casa da partida: as tuas pernas são mais altas do que as minhas, é logo batota a teu favor, tens de dar-me avanço. Olha, já não estou em equilíbrio precário, não preciso do teu braço, dá-me a mão.<br />
– falsa! És tão falsa! Fizeste-me bater à porta sei lá de quem, com toda a força, a esta hora. Bem podes fugir que te apanho.<br />
– deixa-me respirar! deixa-me respirar, não me faças rir mais.<br />
– sou tão feliz contigo. Casas comigo?<br />
– casar?<br />
– sim. Ou que é que andamos a fazer?<br />
– pensei que nos andávamos a divertir.</p>
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		<title>Short como o amor #9</title>
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		<pubDate>Wed, 15 Jun 2011 16:57:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ADORO-TE – não quero divorciar-me, adoro-te. – sei que não queres, mas eu preciso. Fica tranquilo, vai correr tudo bem: tu não me adoras, tu odeias-me. – és parva ou quê?! – não sou parva. Se usar a mesma linguagem que tu, tu odeias-me. – já te disse que não quero ter essa conversa. – [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong> </strong></p>
<div id="attachment_29640" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><strong><strong><a rel="attachment wp-att-29640" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/06/short-como-o-amor-9/dsc_3583/"><img class="size-large wp-image-29640" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/DSC_3583-500x332.jpg" alt="" width="500" height="332" /></a></strong></strong><p class="wp-caption-text">Fotografia de Maria João Cabrita</p></div>
<p style="text-align: justify;"><strong>ADORO-TE</strong><br />
– não quero divorciar-me, adoro-te.<br />
– sei que não queres, mas eu preciso. Fica tranquilo, vai correr tudo bem: tu não me adoras, tu odeias-me.<br />
– és parva ou quê?!<br />
– não sou parva. Se usar a mesma linguagem que tu, tu odeias-me.<br />
– já te disse que não quero ter essa conversa.<br />
– isso é irrelevante se não me dás o divórcio. O factos permanecem. Traíste-me.<br />
– não significou nada, porra, quantas vezes tenho de te dizer?!<br />
– nenhuma. Se me traíste com essa lógica, e fizeste-o abundantes vezes, então terias de ser burro porque te arriscavas a perder o que significava alguma coisa por aquilo que nada significava. Ora, o problema é que tu não és burro. Havia uma intenção. Sabias o que fazias, tinhas escolha e escolheste em consciência. Em cada vez que estiveste com uma mulher, preferiste-a a mim. Eu não sou a tua mãezinha.<br />
– o casamento não é só o sexo. Vai muito mais além do que a fidelidade ou a infidelidade.<br />
– é verdade. Mas sem ela é uma merda que fere. Além do que é preciso detestar, verdadeiramente detestar uma mulher, ou parte dela e do casamento, para ser infiel dentro da própria casa.<br />
– essa é uma daquelas bojardas que só da boca de uma mulher. O lugar é circunstancial, aquela gaja não me dizia nada, calhou, fim de noite. Achas que se eu soubesse que tu ias chegar de viagem mais cedo, estaria com ela aqui? Passa-te pela cabeça que se eu soubesse que iria precipitar isto tudo, a tinha trazido para aqui?<br />
– não é esta ou a outra, ou sequer as paixonites e as paixões que tiveste. Sei que tiveste. Tu podias estar fora deste casamento, mas eu estava dentro: sei. Não quero, não vou continuar casada com um homem que me agride, com um abusador.<br />
– o que é que tu dizes?<br />
– és igual a qualquer um desses que um dia matam as mulheres à pancada de tanto as espancarem a vida toda e porque as amam muito. Igual, só que não há o que mostrar no hospital nem à polícia, só o que esconder, e vergonha, humilhação. Tu és um homem violento e odeias-me.<br />
– nesse caso, tu és daquelas que um dia pegam numa caçadeira e dizem: a mim, nem mais uma vez e matam.<br />
– Pum Pum, darling.</p>
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		<title>Short como o amor #8</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Jun 2011 15:39:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ODEIO-TE – gostava que ficássemos amigos. – amigos? Porquê? Para quê? – gosto muito de ti, acho-te excepcional. – tanto que acabas de me mandar à merda. – sabes que te estou a dizer a verdade. – bem te podes ir foder mais a tua verdade. De quantos egoísmos há, nenhum me ofende mais que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong> </strong><strong></p>
<div id="attachment_29587" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><strong><a rel="attachment wp-att-29587" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/06/short-como-o-amor-8/doro-te-2/"><img class="size-large wp-image-29587" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/@doro.te_1-500x332.jpg" alt="" width="500" height="332" /></a></strong><p class="wp-caption-text">Fotografia de Maria João Cabrita</p></div>
<p>ODEIO-TE</strong><br />
– gostava que ficássemos amigos.<br />
– amigos? Porquê? Para quê?<br />
– gosto muito de ti, acho-te excepcional.<br />
– tanto que acabas de me mandar à merda.<br />
– sabes que te estou a dizer a verdade.<br />
– bem te podes ir foder mais a tua verdade. De quantos egoísmos há, nenhum me ofende mais que esse: queres o mundo à tua medida, enfias a faca e esperas que eu te beije a mão e tenha o bom gosto de transformar o sangue em rosas para não te sujar, para que pises só a felicidade. E a seguir o quê? Vais-me contar a tua nova vida amorosa? Vai-te foder, pá!</p>
<p> </p>
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		<title>Move your body, baby, be happy</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Jun 2011 16:05:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O que é que a Madre Teresa de Calcutá e a Beyoncé têm em comum? Juízo. Porquê? Muitas vezes perguntada sobre o facto de se negar a fazer campanhas contra causas meritórias como, por exemplo, a da violência, Madre Teresa respondeu que preferia comportar-se a favor, por exemplo correspondente, da paz. A Beyoncé, não sei, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><object width="480" height="295"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/mYP4MgxDV2U?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/mYP4MgxDV2U?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="295" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p style="text-align: justify;">O que é que a Madre Teresa de Calcutá e a Beyoncé têm em comum? Juízo. Porquê? Muitas vezes perguntada sobre o facto de se negar a fazer campanhas contra causas meritórias como, por exemplo, a da violência, Madre Teresa respondeu que preferia comportar-se a favor, por exemplo correspondente, da paz. A Beyoncé, não sei, mas avaliar pela decisão de colaborar com Michelle Obama na <em>Let´s Move</em>, também. Já lá vou. Agora apetece-me perorar.</p>
<p style="text-align: justify;">Peroro. Confesso que estou um bocadinho farta das campanhas de bicho papão: ai ai a obesidade… és um monstro e agora vem aí o colesterol mais a diabetes e comem-te! Perda de tempo e quem ganha é a balança. Em Portugal e no resto do mundo ocidental, a obesidade engorda a olhos vistos. Porquê? Porque já ninguém é gordo — também ninguém é drogado, só há toxicodepentes, nem há alcoólicos ou bêbedos, só adictos, sequer alguém está triste, apenas deprimido. Gordo puro e simples é coisa que ninguém é: lá banhas é que nunca por nunca, ninguém as tem — devo ser a última pessoa que tem polpas indesejáveis, no resto do país só há depósitos localizados de gordura. É um drama, a obesidade. E tem de ser? Não tem de sê-lo — nem comédia. Não é preciso gastar rios de dinheiro numa acção para que ela seja eficaz, seja uma acção individual ou institucional.</p>
<p style="text-align: justify;">Estas campanhas contra não funcionam, salvo muito raras, concertadas e investidas excepções. O faz engordar o gordo, é o mesmo que faz emagrecer o magro: estar triste, alimentar-se mal em regra, não ter hábitos de felicidade, e sentir-se impotente. A felicidade, é preciso dizê-lo, fica mal, não é intelectual: os intelectuais são gordos ou magros, ou bêbados ou drogados, ou, pelo menos, muito infelizes. Não são gente rija, a menos que sejam ensaístas. Ninguém diz que a felicidade é questão de higiene, como o duche. De respeito pelos outros. De disciplina. Uma pessoa habitua-se. Até porque a felicidade é inclusiva, mesmo a tristeza lhe cabe dentro, e como não havia de caber se é uma naturalidade?</p>
<p style="text-align: justify;">Contra? Não. A favor. Explico tudo o que está farto de saber mas é sempre bom lembrar. Freud deu-nos cabo da moleirinha de tanto a escarafunchar. Não me entenda mal, o homem foi um crâneo, todavia um crâneo de filósofo: a psicanálise é um discurso, um código de entendimento como outros, contudo, como solução… está quieto ó preto — não me chateie, tenho sangue de muitas cores e credos. Já no I Ching, que é outro discurso igualmente interessante, ainda que com uns aninhos valentes no lombo, se aprende que quando a escuridão se adensa, é preciso que os olhos busquem a luz. Isto é, o enfoque deve ser na solução, o corpo cuida do resto. Deixe lá a obesidade em paz. Lixe-se nas banhas. Está gordo? Tem o colesterol pelo telhado? Apanhe luz de sol como quem apanha uma gripe. Ande de bicicleta, vá, pronto, ande a pé. A coisa fundamental é move your body, baby, que em português é: mexe-te, filho. Ou filha — não lhe digo que faça como a menina Beyoncé, de saltos altos e meias até ao joelho… bem, se estiver com o seu marido/namorado/híbrido pode exibir-se um bocadinho e deixá-lo ser voyeur. Have fun.</p>
<p style="text-align: center;"><object width="480" height="295"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/wc_PizWNp6k?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/wc_PizWNp6k?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="295" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p style="text-align: justify;">Ps: o primeiro é para comer com os olhos, não engorda, o segundo é para aprender os moves, são muito cool.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Short como uma letrinha</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Jun 2011 13:58:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[THE GRAND HOTEL Era uma vez um homem assim desde menino: – onde está o teu irmão? – está no quarto, a ler. – onde está o meu irmão? – está no quarto, a escrever. Mais tarde, era assim o homem: – onde está o pai? – está no escritório, a ler. – onde está [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a rel="attachment wp-att-29444" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/06/short-como-uma-letrinha/fato-de-banho-1929/"><img class="aligncenter size-full wp-image-29444" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/fato-de-banho-1929.jpg" alt="" width="282" height="400" /></a><strong>THE GRAND HOTEL</strong><br />
Era uma vez um homem assim desde menino:<br />
– onde está o teu irmão?<br />
– está no quarto, a ler.<br />
– onde está o meu irmão?<br />
– está no quarto, a escrever.<br />
Mais tarde, era assim o homem:<br />
– onde está o pai?<br />
– está no escritório, a ler.<br />
– onde está o pai?<br />
– está no escritório, a escrever.<br />
O homem lia e escrevia e pouco mais fazia, mesmo pouco convivia, porque era só o queria fazer:<br />
– gosta da reabilitação do jardim?<br />
– sim, o não sei quantos escreveu-o bem: ali havia um jacarandá.<br />
– não senhor, nunca houve.<br />
– houve pois, foi ali à sombra do jacarandá que o Tomás montou a esplanada que servia ao café quando veio para a capital.<br />
– não, nunca ali houve uma esplanada.<br />
– o seu mundo é muito incompleto e fechado. Boa tarde.<br />
Era Natal e o homem adoeceu. Meteu-se uma dor por ele adentro e nunca mais saiu. Acordava de noite de sonhos que mordiam no exacto lugar onde lhe doía. Muito contrariado, acabou por ir ao médico na Primavera. Fez uma tac abdominal e ouviu a sentença:<br />
– vamos operá-lo.<br />
Abriram, fecharam, correu lindamente. Quando acordou para a náusea pós anestésica ouviu surpreendido:<br />
– era isto o que o senhor tinha dentro de si e lhe doía.<br />
Então não havia de doer? Um romance de quatrocentas páginas, capa dura e cantos bicudos. Teve alta com recomendação de repouso. Mal chegou a casa, deitou-se e pôs-se a lê-lo. Quando a mulher lhe foi levar o jantar, ao quarto, num tabuleiro com uma flor, deu com ele debruçado sobre o livro: o livro aberto sobre a cama, ele em pé, dobrado sobre a página, olhando com uns enormes olhos:<br />
– ó filha, as letras, afinal, fazem mais do que fazer palavras…<br />
– o quê? O que dizes tu?<br />
– este <em>O</em> maiúsculo aqui, por exemplo, está aberto para o espaço: um buraco negro. O que haverá do outro lado?<br />
– mau!, vê lá mas é se descansas.<br />
– e este <em>T</em> é a piscina de água salgada do The Grand Hotel em 1929. Vai pôr o fato de banho. Aproveitamos que os miúdos estão com a tua mãe. Vamos nadar.<br />
– ainda estás com os vapores da anestesia?! Vou ligar para o dr. Fernandes.<br />
– se não vens, vou sozinho.<br />
Como ela se dirigiu para o telefone, ele mergulhou.<br />
Sou um narrador sério. Competente. Sei que está a pensar: ah, como n´A Rosa Púrpura do Cairo. Não. É preciso pesar pelo menos o mesmo que a Mia Farrow para ser uma variável que altere o curso de um filme. E pesar ainda mais para um livro de quatrocentas páginas. Ora, o homem não tinha peso, era uma variável insignificante. Mergulhou e desapareceu. Nunca mais ninguém o viu.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Um poema para a impermanência</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Jun 2011 19:13:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[DA MECÂNICA ANTI MILAGRES E OUTRAS PEÇAS MÍNIMAS DE RELOJOARIA ÍNTIMA Éramos côncavos, o tempo durava, a permanência durava, as palavras eram côncavas, acolhíamos mesmo o medo e feitos para a duração podíamos dormir: os corações, incansáveis bússolas acordadas, patas de touro troavam na alegria das ervas celestes. As palavras côncavas da manhã são convexas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="mceTemp mceIEcenter">
<dl id="attachment_29356" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px;">
<dt class="wp-caption-dt"><a rel="attachment wp-att-29356" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/06/um-poema-para-a-impermanencia/hubble-2/"><img class="size-large wp-image-29356" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/Hubble1-500x283.jpg" alt="" width="500" height="283" /></a></dt>
</dl>
</div>
<p style="text-align: justify;"><strong>DA MECÂNICA ANTI MILAGRES E OUTRAS PEÇAS MÍNIMAS DE RELOJOARIA ÍNTIMA</strong><br />
Éramos côncavos, o tempo durava, a permanência durava, as palavras eram côncavas, acolhíamos mesmo o medo e feitos para a duração podíamos dormir: os corações, incansáveis bússolas acordadas, patas de touro troavam na alegria das ervas celestes.<br />
As palavras côncavas da manhã são convexas à tarde, sacodem-nos, caímos, caímos, nem uma cauda de estrela, e que inconveniência, a nemésis, visita que não sabe sair a horas: existimos e recordamos a geografia das origens, explosão de vida, pecado capital no mundo de descartáveis, caídas carcaças rotas, as bestas da alegria.<br />
Merecemos os exílios onde nos desterrem e a pedagogia do pêndulo, tempo convexo que havemos de aprender ou morrer.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://hubblesite.org/gallery/album/pr2009005a/">(Hubble)</a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>A de Junho</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/06/a-de-junho-2/</link>
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		<pubDate>Mon, 06 Jun 2011 02:50:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[YIPITTY BOOM DE BOOM – olha para cá. – não me vais tirar uma fotografia de toalha de banho! – vá, faz-me um sorriso. – não quero, não gosto de tirar fotografias, não é segredo, pois não? – quem a tira sou eu. De mãos da cara?! Não sejas pateta. Agora fazes-me caretas? Vá lá, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a rel="attachment wp-att-29240" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/06/a-de-junho/christopher-williams-kodak-three-pont-reflection-guide-1968-miko-laughing/"></a><a rel="attachment wp-att-29240" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/06/a-de-junho/christopher-williams-kodak-three-pont-reflection-guide-1968-miko-laughing/"><img class="aligncenter size-medium wp-image-29240" title="Christopher Williams, Kodak Three Pont Reflection Guide, 1968 ... (Miko Laughing)" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/Christopher-Williams-Kodak-Three-Pont-Reflection-Guide-1968-...-Miko-Laughing-300x243.jpg" alt="" width="300" height="243" /></a><strong>YIPITTY BOOM DE BOOM</strong><br />
– olha para cá.<br />
– não me vais tirar uma fotografia de toalha de banho!<br />
– vá, faz-me um sorriso.<br />
– não quero, não gosto de tirar fotografias, não é segredo, pois não?<br />
– quem a tira sou eu. De mãos da cara?! Não sejas pateta. Agora fazes-me caretas? Vá lá, quero lembrar-me de ti exactamente como estás.<br />
– estavas a planear esquecer-me e queres criar memória?<br />
– ó céus, a psicotreta da linguagem, a filosofia da imagem, câmara clara dum raio, mulher impossível! Não sabes que és toda remembered for ever like shoo bop shoo wadda wadda yipitty boom de boom? Não te mexas, deixa-te estar assim mesmo, a rir.</p>
<p style="text-align: center;"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/6A4DLAGW3a0?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/6A4DLAGW3a0?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
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		<title>Mommy, where did our love go?</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Jun 2011 20:21:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A minha irmã resolveu ser mãe outra vez. O que significa que o meu sobrinho, o de poucas falas que deu em gralha, este valente, este guerreiro, enfim, tem, ó dele, um irmão — os pais só servem para dar desgostos aos filhos. O que vale é que me tem por tia. A incompreensiva da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a rel="attachment wp-att-29313" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/06/mommy-where-did-our-love-go/morcegos-bebes/"><img class="aligncenter size-large wp-image-29313" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/MORCEGOS-BEBÉS-500x282.jpg" alt="" width="500" height="282" /></a>A minha irmã resolveu ser mãe outra vez. O que significa que o meu sobrinho, o de <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/tao-po/">poucas falas</a> que deu em gralha, este <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/06/eh-touro-lindo-2/">valente,</a> este <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/09/ninjas-de-trazer-por-casa/">guerreiro</a>, enfim, tem, ó dele, um irmão — os pais só servem para dar desgostos aos filhos. O que vale é que me tem por tia.<br />
A incompreensiva da mãe dele, ao telefone, para mim:<br />
– bela obra!<br />
Eu, a incompreendida da tia dele, ao telefone, para ela:<br />
– qual? Qual? Tiraste-lhe os dinossauros de castigo e cantou-te a frase da Diana Ross? És um coração de pedra.<br />
A incompreensiva da mãe dele, ao telefone, para mim:<br />
– qual Diana Ross, não desconverses, foste tu, é que só podes ter sido tu: agora só trata o irmão por vampiresa!<br />
Eu, a incompreendida da tia dele, ao telefone, para ela:<br />
– já o viste a mamar? É um autêntico vampiro! Vá, uma querida vampiresa. Linda vampiresa. E não faz mal, ele não sabe que sabe o que é um vampiro e quando se lembrar, terá humor, é bom para a ciumeira, afinal, a vampiresa atraca-se à mãe dele… há-de ser um desgosto tal visão.<br />
A incompreensiva da mãe dele, ao telefone, para mim:<br />
– não comeces a falar de mim como se não fosse comigo que falas, não lhe podes ensinar essas coisas e pronto! A minha sogra ficou em transe: ele virou-se para ela quando eu estava lá dentro a trocar a fralda ao irmão e disse-lhe: <em>venha ver, avó, a vampiresa a ser mudada.</em><br />
Eu, a incompreendida da tia dele, ao telefone, para ela:<br />
– ingrata! Porque não me agradeces o belo uso do particípio passado?!<br />
The Supremes na fila de espera. Mal posso aguardar…</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: center;"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/izzKUoxL11E?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/izzKUoxL11E?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
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		<title>A Ficção</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Jun 2011 02:55:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Queridos Mortos]]></category>

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		<description><![CDATA[Where there is no love of art, there is no criticism either. “Do you want to be a connoisseur of the arts?” Winckelmann says. “Try to love the artist, look for beauty in his creations.” A. Pushkin in PUSHKIN ON LITERATURE O senhor que está aí todo em preto e fumo, fúnebre, se faz favor… [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><a rel="attachment wp-att-29257" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/06/a-ficcao/onegin-staatsballett-berlin-06/"><img class="aligncenter size-full wp-image-29257" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/onegin-staatsballett-berlin-06.jpg" alt="" width="400" height="343" /></a></p>
<p style="text-align: right;"><em>Where there is no love of art, there is no criticism either. “Do you want to be a</em><br />
<em>connoisseur of the arts?” Winckelmann says. “Try to love the artist, look for beauty in his</em><br />
<em>creations.”</em></p>
<p style="text-align: right;"><em></em>A. Pushkin<em> in </em> <a href="http://www.amazon.com/gp/product/images/0810116154/ref=dp_image_0?ie=UTF8&amp;n=283155&amp;s=books"><em>PUSHKIN ON LITERATURE</em><br />
</a><em> </em></p>
<p style="text-align: justify;">O senhor que está aí todo em preto e fumo, fúnebre, se faz favor… Sim, você que espera o cortejo que aqui fazemos à quinta feira e porque hoje as exéquias cabiam ao Vasco. Olhe, é para dizer que o Vasco não pôde, faço eu — foi o que arranjou à pressa, sabe, é que isto de insónias não são só desvantagens: se o cansaço não for excessivo, os dias ficam maiores, aliás, o sol da meia noite só nasce assim nos países mais a sul. Fartei-me de pensar em si, coitado, no seu desapontamento. Decidi, por isso, matar à grande. O  Caravaggio. Porém maçava-me ter de matá-lo à pressa, de qualquer maneira. Não que ele se importe, isso será para o lado que melhor dormirá no além como dormiu no aquém, em macieza de cama feita ou catre, conforme o desaguar da fúria dos dias. Não, é porque gosto do malvado: hei-de matá-lo bem, com tempo para torturas.</p>
<p style="text-align: justify;">Não se perde tudo, trago-lhe um cadáver falso falso falso! Tanto que nem sei se não estará vivo, se não terá bebido a morte da pena de Shakespeare. Da do Salagri. Da do Dumas. Morte molhada, vinda do tinteiro, amortalhada em letras e de repente, ai que alívio, vivos!, estão vivos, ó que morrem os noivos, patetas, todos suicidados de desgosto, mas salva-se Monte Cristo e o… Trago-lhe a ficção. Não a morte na ficção, bem vê, isso seria um trabalho de Hércules, mas a morte da ficção. Tem razão, tem razão, nem é preciso dizer duas vezes: sem desejo do que não há, não se traz à existência o que não haja, não há vida que nasça. A génese da verdade, que é a vida, é a ficção de uma vida. Tem  toda a razão, todavia pergunto-lhe: e ficção sem verdade? é simulacro, é mentira, é o rascunho do desejo, linhas imprestáveis, lixo? É ensaio? Pergunto porque não sei. A minha ignorância é o mar, conformo-me à beleza salgada de tudo quanto jamais conhecerei que é quase tudo — se calhar é por isto que as lágrimas têm uma natureza marinha, há qualquer coisa triste no conhecimento, não interessa do quê, se do próprio desconhecimento, se de se saber feliz, se de não se poder sê-lo.</p>
<p style="text-align: justify;">E se fôssemos despensar isto para o ballet? Não revire os olhos, pode dormir, eu acho graça, não lhe espeto o cotovelo. Também não prometo que não lhe sopre, discretamente, claro, no ouvido, ou no nariz. Ou onde faça mais comichão. É no pescoço?<br />
<a rel="attachment wp-att-29258" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/06/a-ficcao/onegin-staatsballett-berlin-08/"><img class="aligncenter size-full wp-image-29258" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/onegin-staatsballett-berlin-08.jpg" alt="" width="400" height="290" /></a>Viu como o trouxe a uma linda interpretação? Aquela menina, não é a sua menina, é a outra menina larina, a Tatiana, tem quelque chose muito da terra, não é? Uma sensualidade carregada que a inocência, perdão, a dança clássica orvalha, quase brinca. Humedece em curvas suaves — gosto. Gostou? E que lhe pareceu? Já tem resposta para a pergunta que lhe fiz? Ai dormiu?! Parece mentira… dormiu bem? Não zango: conto-lhe o que dormido não viu, para que possa responder-me  e mesmo contradizer-me depois – sou uma interesseira. Conto à vol d´oiseau, sim? Era uma vez o há muito tempo na Rússia dos czares. Lá, vivia um senhor muito grande. Um gigante. Calhava mesmo bem porque o território era vasto. Não era infinito, no entanto, o que permitia ao gigante, da secretária à qual se sentava, ver tudo desde as dachas de Verão às estepes de Inverno. Talvez mais: há quem diga que via até à Grécia sem otomanos e mesmo até à revolução do por vir — fico só com Grécia, um dia explico, não será hoje. A este gigante tratavam por Pushkin. Senhor Pushkin porque o respeitinho é muito bonito e ele inventou o russo contemporâneo — é o nosso <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/04/os-meus-zes-2/">Eça.</a> Era casado com uma senhora que tinha cara de grão de bico, e mal sabia, quando a desposou, que seria por ela que morreria num duelo com o cunhado – o cunhado dela, um marido de uma irmã, grão de bico também.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora um dia, o senhor Puskin estava gigante de ver o mundo ao longe e disse: Eugene. Eugene Onegin. E de repente, diante dele, milhares e milhares de versos, versos macho e fémea, rimados e mimados de vida apareceram e apareceram no mundo, primeiro em folhetins vistos e revistos e mais que modificados, depois fixados em livro, em ópera, em ballet. Mesmo em filmes que nunca vi. Em meia dúzia de linhas:</p>
<p style="text-align: justify;">Onegin, colagem de colagens, e pai de colagens futuras, e tédio de as ser, parte para o campo – mal comparado é o Jacinto da Cidade e as Serras, feito com o barro do lado menos interessante do feitio e sucessos do Carlos da Maia. É um homem saciado. Como a todas as bestas satisfeitas, sobra-lhe, diante da presa, só a indiferença, crueldade que não mata. Conhece Tatiana: leitora de livros, sucedâneo de vida, pensamento sem corpo, assépsia e nenhum risco, ainda Tatiana em flor sem ontem de botão, sem amanhã de madureza. Conhece Olga, a irmã dela. A um poeta, Lenski, o noivo de Olga. Tatiana, reconhece nele, Eugene, o rosto do amor. Não porque tenha conhecido o amor, ou a ele, antes, mas porque os leu a ambos antes, sabe identificar o que sente e quem é quem — ou sentirá porque leu? Assim, oferece-lhe o seu amor. Por carta. Ele rejeita-a a ela e ao amor oferecido com tanta simplicidade a tanta sofisticação. Acaba por flirtar Olga e matar em duelo inútil como os dias que tem, o noivo desta, o amigo, Lenski. E parte.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto do amor é sabedoria? Quanto da sabedoria é inocência? Quanto do bom sucesso é mundo? Não, a estas não precisa responder-me.</p>
<p style="text-align: justify;">Tatiana vai até à casa agora vazia de Onegin e cheia dos despojos de Onegin. E faz o que sabe fazer e quem ama: lê até ler cada palavra das que fazem de Eugene Onegin, Eugene Onegin.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais tarde, já casada, também ela é um disputado sucesso de sociedade. É neste exacto mais tarde que reencontra Eugene. Ele quer o amor que ela lhe havia penhorado. Pede-lho por carta. Cartas. Nenhuma resposta além do silêncio. Confronta-a. Ela, pasme-se, não nega amá-lo,  afirma amá-lo, apenas se nega a amá-lo e por mais do que lealdade ao marido. Porquê? Não tem ciência: porque  no mais tarde vê com os olhos com  que ele a viu mais cedo, pior, viu-se a ela nele, uma ela que não se adequa aos seus interesses.</p>
<p style="text-align: justify;">Eugene Onegin existiu para além dos personagens  e do amor que encarnou? Tatiana tornar-se-ia quem se tornou sem a consciência da existência de Eugene Onegin, da natureza deste, do espaço em branco das ausências de ser e de ter onde tudo acontece? Onde mais se não no vazio? Completamente a despropósito, teve oportunidade de assistir a este <a href="http://www.amazon.co.uk/Letter-Woman-DVD-Joan-Fontaine/dp/B000HCO57K/ref=sr_1_7?s=dvd&amp;ie=UTF8&amp;qid=1306981018&amp;sr=1-7">filme</a>?</p>
<p style="text-align: justify;">Todos os concretos frutos que mordemos foram semente de ficção. Dos Vedas à Bíblia, do preto atrás do preto, tudo se fez pelo sopro quente do espírito. Onde mais senão no vazio? Deus é escritor.<br />
<a rel="attachment wp-att-29259" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/06/a-ficcao/onegin-staatsballett-berlin-20/"><img class="aligncenter size-full wp-image-29259" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/onegin-staatsballett-berlin-20.jpg" alt="" width="400" height="281" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Ps: esta é uma obra que serve à ficção. À ficção da criação, pois o próprio autor a escreveu em directo, um folhetim de que até o fim duvidavam e também pelas suas sucessivas recriações, e pelas reinterpretações seguintes. À ficção da literatura, da arte, da linguagem, pela charneira que imprimiu na paisagem literária, artística, linguística. À ficção da crítica, ou melhor, das críticas contemporâneas das publicações e até agora. À ficção nacional, social, a de correntes literárias, filosóficas, psicológicas, à da teoria da literatura, aos movimentos culturais, e até à ficção das traduções com enredos nabokovianos. E serve mais e muito melhor, à ficção do amor, ao quem sou eu, ao quem és tu, ao quem somos nós.</p>
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		<title>Cinema &amp; Companhia</title>
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		<pubDate>Tue, 31 May 2011 22:26:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Alguém disse, aqui mesmo, nesta sala, contam-se as vezes que fui sozinho ao cinema. Creio que foi o PN. Mas não sei onde nem a propósito do quê — tenho uma memória torta: lembra-se só do que lhe interessa. Recordo ter pensado, então, com estranheza, que bonito. Porquê? Contam-se as vezes que fui acompanhada ao [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a rel="attachment wp-att-29208" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/05/cinema-companhia/%e2%80%9cthe-tree-of-life%e2%80%9d-movie-2011/"><img class="aligncenter size-full wp-image-29208" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/“The-Tree-of-Life”-Movie-2011.jpeg" alt="" width="191" height="264" /></a>Alguém disse, aqui mesmo, nesta sala, <em>contam-se as vezes que fui sozinho ao cinema</em>. Creio que foi o PN. Mas não sei onde nem a propósito do quê — tenho uma memória torta: lembra-se só do que lhe interessa. Recordo ter pensado, então, com estranheza, <em>que bonito</em>. Porquê? Contam-se as vezes que fui acompanhada ao cinema. Em criança, apenas se fosse com primos de idade próxima ou mais velhos; com as colegas, os amigos de mais tarde, mais juventude, não: eles iam para as filas, eu tinha uma semanada muito curta que a frisa na ainda família salvava do escuro absoluto, contudo abria para um ecrã de distância que o intervalo não fechava. E para fazer um convite, tinha de saber de ciência sabida que nenhum crescido iria ou cedera os lugares para que alguém fosse — uma quase impossibilidade, raríssima alegria. Por outro lado, era, há-de ter sido, um descanso para os adultos, nunca perguntei: estava, ou estávamos se era plural de férias, ali, vigiados pelo mais velho e por estranhos olhos funcionários de<em> os meninos portem-se bem</em>, olhos conhecidos, afinal, na assiduidade das sessões.</p>
<p style="text-align: justify;">Isto foi há muito tempo. Noutra vida. Quando os cinemas eram nos teatros, as telas imensas e os senhores e as senhoras não se limitavam a vender bilhetes, isso era na bilheteira com guichet em condições de quase viagem. Quando a bilheteira fechava, atravessavam, pelos passageiros, uma mínima lanterninha à frente, um território desconhecido de cadeiras e cadeiras, e davam-lhes um lugar  no mundo. Timoneiros, ida volta, não ficavam, só o leva e traz de passageiros, os outros — do meu posto, via-os chegar, e antes do regresso, a dona Luz, a dona Sãozinha, o senhor Aníbal, cara séria de morte e olhar de má rês, breve desvio para uma volta pela curva sussurrada, <em>se precisar de alguma coisa, já sabe</em> — elas, que ele, pois sim, bem podíamos pegar fogo ao circo e arder por junto com a tenda; o rosto,  o corpo, a postura, os gestos, o olhar perigoso, semicerrado, de baixo para cima, nítidos até hoje.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia da Madame Butterfly, vinda de longe de olhos em bico, os lugares tomados de assalto pelos  mais velhos de todos: precedência feita de tias de bengala, caras de pó de arroz por cima dos sinais, cabelos armados a laca em finas camadas de teias de aranha de onde estranhos reflexos azulados, violeta, o buraquinho do lóbulo da orelha todo esticado pelo peso dos brincos, nunca vi sem brincos como ficava, restolho de papéis de rebuçados, gulosas, éramos transparentes, nunca ofereciam, só às amigas velhas iguais, de cabelos iguais e orelhas iguais, nós tínhamos de oferecer sempre aos mais velhos todos, milhares de anos de uma só vez, sovinatas de lindas bolsas por carteiras.  O século tinha descido  ao teatro, por inteiro, era preto branco cinza, pérolas preto branco cinza igual, mais camélias de modista, e eu de rabo na rua, quer dizer, no corredor. <em>Se precisar já sabe</em>, bem sabia que precisava, não servia era para ver. A perder uma coisa daquelas, parece mentira, os ingressos pela hora da morte<em>, se precisar já sabe</em>, serviu para espreitar, não se perdeu tudo. E que lindos que eram os bilhetes: grandes, em cores japonesas. Que desgosto. A minha avó, incompadecida de uma sala à cunha toda em roupa de naftalina e sapatos de inferno, e do meu desgosto: <em>mas para quê isso? Aquilo é uma desgraça, não vale nada! Ouça aqui como deve ser e sem fífias para desentupir os ouvidos. </em></p>
<p style="text-align: justify;">No Verão havia as reposições. As tias papavam-nas todas. Eu, sempre presente, fosse a preto e branco de Bette Davis ou technicolor de Leslie Caron. E aos rebuçados também papavam. Nem um reles caramelo. Sovinatas. Um dia, zás!, bocadinhos bem embrulhadinhos de Caldo Knorr e pus-me a comer chocolate com nougat trazido de casa, a fazer um disparate de barulho com a prata e o papel.<em> O que é que estás a comer, filha? Nougat.</em> Não me serviu de nada a verdade técnica perante a mentira artística. Bem me lixei com o júri por premeditação: fiquei de castigo um mês e tive de fazer a roda das desculpas. Gulosas.</p>
<p style="text-align: justify;">Sozinha nas maratonas de cóboiada, nas de cantoria e dança dos filmes indianos, nas reposições das reposições mais que repisadas depois das tias enterradas, no Bergman de carreirinha, todos quantos passaram quando deram em fazer ciclos de monotonia, cheguei a ficar mal disposta de fechar os olhos, e por ai vai. Ia a tudo, para maiores de seis, de doze, de dezoito, a menos que me apanhassem, e apanhavam.</p>
<p style="text-align: justify;">Não era sobre nada disto que ia escrever. Fugiram-me as teclas. Enfim, atalho: fui ver A Árvore da Vida no outro dia.  Um filme  para se ver com companhia mesmo para quem goste de ir ao cinema descansado — fui mal, portanto. Não encontrei lá nenhuma Odisseia no Espaço, nem aquelas coisas cinéfilas do não sei quê porque não sei quais são, quando as leio, não percebo nada e perco mesmo a vontade de as perceber. De cinema só quero ler o pão pão queijo queijo, coisa, ao tudo indica, inaceitável já que ninguém a faz. Ou a pura invenção do maravilhoso: as crónicas do João Bénard. Ou a beleza cheia dos textos do nosso MSF, cheia de informação bem mastigada pelo pensamento, cheia de vidas que não vivemos, fáceis fáceis de ler, verdadeira arquitectura da simplicidade essa beleza. Ou as especialidades do PMS  fundamentadas ao cabelo, que, acabo de saber, estão na Sábado. Gostei muito. Na estrutura, parece-se com o último romance do Lobo Antunes mas em melhor: não é um romance, não é um contra romance, é outra coisa. Sim, sei o que está a pensar: já o Raul Brandão…  era para dar um exemplo mais contemporâneo, que chateasse menos, nem toda a gente tem fraqueza pelo Brandão. É parecido, mas em melhor por ser mais amplo: cabemos lá todos. E em americano. Completamente americano de anos 50 numa linguagem limpa de excessos. E outra vez completamente americano na hipérbole, temporal ou atemporal?, e sinfónica. Para além de ter gostado muito da coisa em si, também gostei muito da falta de medo da frugalidade do texto, da falta de medo da hiperabundância musical, da falta de medo de trazer inundantes imagens, até paradas, sem movimento, para fazer movimento com imagens paradas — foi como deve ter sido na origem do cinema, não é? Coincidências belas. Mal comparado: sabe aquilo de bildungsroman e lailailai? É isso mesmo. Porém, contra todas as evidências, ao contrário. Não é, contra todas as evidências, os comos e os porquês: o como nasceu, o como se desenvolveu, o como maturou. É o que é. E o que é? Um testamento que acrescenta ao <em>não resistais ao mal</em> do Sermão da Montanha, o resistimos ao mal e resistimos ao bem, e rendemo-nos a ambos. O (os) personagem pergunta a Deus. Todavia é o realizador quem responde. São o mesmo, o rapaz, o adulto, o realizador, Deus e o silêncio? Partilham da mesma substância? É irrelevante, somos ele, tu e eu. A vida é o belo mesmo quando é o horrendo. É o que é. Escrito em americano de todos nós.</p>
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		<title>Short como o amor #7</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/05/short-como-o-amor-7/</link>
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		<pubDate>Tue, 31 May 2011 17:59:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[ACENDALHAS – nem uma fotografia dele onde quer que seja. E onde não se vê? – igual. – nem guardaste as cartas, os postais, bilhetinhos, nada? – sim e não: enquanto estivemos juntos, guardei. E acrescentámos. Depois, algum tempo depois de nos separarmos, queimei tudo. – queimaste? – não foi uma fogueira de inquisição, antes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_29170" class="wp-caption aligncenter" style="width: 372px"><a rel="attachment wp-att-29170" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/05/short-como-o-amor-7/dreyer-hammershoi-exibition/"><img class="size-full wp-image-29170" title="dreyer hammershoi exibition" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/dreyer-hammershoi-exibition.jpg" alt="" width="362" height="273" /></a><p class="wp-caption-text">Dreyer — still, 1932</p></div>
<p style="text-align: justify;"><strong>ACENDALHAS</strong><br />
– nem uma fotografia dele onde quer que seja. E onde não se vê?<br />
– igual.<br />
– nem guardaste as cartas, os postais, bilhetinhos, nada?<br />
– sim e não: enquanto estivemos juntos, guardei. E acrescentámos. Depois, algum tempo depois de nos separarmos, queimei tudo.<br />
– queimaste?<br />
– não foi uma fogueira de inquisição, antes pelo contrário, foram para a lareira junto com as pinhas para aquecer a lenha até que se fez lume.<br />
– porquê?<br />
– eram palavras de amor: ardem bem.<br />
– eram recordações.<br />
– qual recordações. A vida é como as casas, precisa da limpeza da Primavera. Que se acenda a candeia e se encontre o fermento onde ele estiver. Mesmo que esteja no mais saboroso dos alimentos, no que dá cor à nossa boca. Temos tempo para apodrecer e crescer de vazio depois de mortos. O que da memória interessa guardar faz-se carne, corpo, faz-se presente quando sentimos, pensamos, decidimos, e por vezes sem sequer darmos conta. Fica em nós.<br />
– e se tivessem voltado?<br />
– o se é um lugar sem morada, muito longe, muito grande, muito só. Não tem condições de habitabilidade.</p>
<p style="text-align: center;"><object width="480" height="295"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/JAG2e4etTik?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/JAG2e4etTik?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="295" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p style="text-align: center;"> </p>
]]></content:encoded>
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		<title>Falsos e Malvados!</title>
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		<pubDate>Sat, 28 May 2011 18:02:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Este blog está descambar again! Onde, onde?! Pergunta você que é um defensor da moral e dos bons costumes. Nestes comentários. E porquê, porque hoje é sábado?, pergunta você que põe velas a Vinicus. Não – que perguntadeiro! Porque estes rapazes se desgraçam fazendo das feminas de tela e das de carninha e osso, híbridos. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Este blog está descambar again! <em>Onde, onde?!</em> Pergunta você que é um defensor da moral e dos bons costumes. <a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/05/ich-bin-ein-papageno/">Nestes comentários</a>. <em>E porquê, porque hoje é sábado?</em>, pergunta você que põe velas a Vinicus. Não – que perguntadeiro! Porque estes rapazes se desgraçam fazendo das feminas de tela e das de carninha e osso, híbridos. Sim, híbridos. Ele é a mulher pássaro, eufemismo para hárpia, a mulher serpente, eufemismo para equidna, mulheres o diabo a quatro de <em>eu femismos</em> e ainda nem chegámos às sereias e já passámos pela Catwoman. Disse eufemismos? Disse. Mas queria dizer <strong>elesfemismos</strong>: os deles, <span style="background-color: #ff99cc;"><strong>António</strong></span> e <span style="background-color: #ff99cc;"><strong>Manuel</strong></span> — não que eu seja de apontar o dedo, que não sou, ó de mim tão bem educadinha, Deus me valha, ou como dizia em fonético o muito pequenino filho de uma rica amiga, e porque o assunto é de mitobestiário, Deus Ovelha.</p>
<p style="text-align: justify;">Porém. Se trataram por feminasbichezas as mulheres/namoradas/híbridos de uma vida inteira, as concretas e as de fantasia, isso significa que são o quê? Ah pois… telhadinhos de vidro, ou melhor, de cristal.</p>
<p style="text-align: justify;">E se isto não fosse um blog de família punha os bonecos todos por claro. Todavia é, portanto, vai em picassos de anatomia, vá, um tudo nadinha estrefegada. <em>Quem é quem?</em>, pergunta você uma última vez? Então não se vê logo?!</p>
<div id="attachment_29082" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><a rel="attachment wp-att-29082" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/05/falsos-e-malvados/picasso-satyr-unveilling-a-nude-woman/"><img class="size-large wp-image-29082" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/Picasso-satyr-unveilling-a-nude-woman-500x388.jpg" alt="" width="500" height="388" /></a><p class="wp-caption-text">Les Uns et…</p></div>
<div id="attachment_29083" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><a rel="attachment wp-att-29083" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/05/falsos-e-malvados/picasso-minotaur-drinker-and-woman/"><img class="size-large wp-image-29083" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/Picasso-minotaur-drinker-and-woman-500x397.jpg" alt="" width="500" height="397" /></a><p class="wp-caption-text">…Les Autres</p></div>
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		<title>Story tão pequenina…</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/05/story-tao-pequenina-5/</link>
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		<pubDate>Fri, 27 May 2011 14:03:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[No entanto, a perda das perdas, semente e circunferência de todas as outras, é aquela de que não se diz o nome. Cristina Campo in OS IMPERDOÁVEIS, A&#38;A AMOR, TUDO – amas-me porquê? – vejo-te. – e vês o quê? – tudo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_29015" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><a rel="attachment wp-att-29015" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/05/story-tao-pequenina-5/sala-dei-cavalli-palazzo-ducale-2/"><img class="size-large wp-image-29015" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/sala-dei-cavalli-palazzo-ducale-500x342.jpg" alt="" width="500" height="342" /></a><p class="wp-caption-text">Sala dei Cavalli, detalhe — Palazzo Ducale, Mantova</p></div>
<p style="text-align: right;"><em>No entanto, a perda das perdas, semente e circunferência de todas as outras, é aquela de que não se diz o nome.<br />
</em>Cristina Campo<em> in OS IMPERDOÁVEIS, </em>A&amp;A<em></em></p>
<p><a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/04/story-tao-pequenina-4/">AMOR</a>, TUDO<br />
– amas-me porquê?<br />
– vejo-te.<br />
– e vês o quê?<br />
– tudo.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Diga…</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/05/diga/</link>
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		<pubDate>Thu, 26 May 2011 14:47:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[De fora, o mundo é diferente — é um lugar comum, bem sei, mas nós sentimos comummente. Fiz-me uma pergunta para a qual não encontrei ainda resposta. Se tivesse de escolher um outro eu que me representasse, ie, alguém/algo que me fizesse presente diante de estranhos, que outro seria eu? Olhei para o nosso blog: [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_28962" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><a rel="attachment wp-att-28962" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/05/diga/bergman-persona/"><img class="size-large wp-image-28962" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/Bergman-Persona-500x333.jpg" alt="" width="500" height="333" /></a><p class="wp-caption-text">Persona, Ingmar Bergman</p></div>
<p>De fora, o mundo é diferente — é um lugar comum, bem sei, mas nós sentimos comummente.</p>
<p style="text-align: justify;">Fiz-me uma pergunta para a qual não encontrei ainda resposta. Se tivesse de escolher um outro eu que me representasse, ie, alguém/algo que me fizesse presente diante de estranhos, que outro seria eu? Olhei para o nosso blog: aqui usamos todos o nosso nome, só a Jeanne foi Bellatrix en passant. Olhei para as caixas de comentários: George Sand, Turmalina, Sem-se-ver, Borboleta, Panurgo, Cusca Zombies… Poderia continuar. E por essa blogosfera fora, uma infinidade. Mesmo quem, em tempos adolescentes, achou coisa de parvos andar a jogar Dungeons &amp; Dragons experimentando alteridades dotadas de traços e poderes fantásticos, não tem, adulto, qualquer problema nelas.</p>
<p style="text-align: justify;">O que determina a escolha desse representante? Há quem diga: o reconhecimento de características próprias naquele outro, seja personagem, objecto, animal, ou. Quem identifique nesse reconhecimento, mais ou menos adequado, uma superevidência das características com que  se querem apresentar e o ocultamento, mais ou menos benigno, das outras. Ou uma decisão meramente funcional. Também há quem afirme: não, claro que não, é mesmo a experiência da absoluta diferença — não sei, contudo, se tanto será possível, ouço o Sena a buzinar-me aos ouvidos a queda da máscara no Carnaval. Na verdade, não sei: de fora o mundo é diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isto a pergunta que faço aos rapazes e meninas <span style="background-color: #ffff00;">autores</span> deste blog e aos nossos <span style="background-color: #ffff00;">leitores</span>: se tivesse de escolher um outro eu que o representasse diante de estranhos, que outro era você? Começo por si, Antoine, conte-nos tudo, diga… E depois passe a outro e não ao mesmo.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Um poema para mil quilómetros</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/05/um-poema-para-mil-quilometros-3/</link>
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		<pubDate>Wed, 18 May 2011 17:19:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[MIL QUILÓMETROS TODOS PARA VOLTAR Não sou romântica não suspiro entre ah rosas caixas de recordações lixem-se Mas como digo o amor dizem ah romântica enquanto isso vejo salmões Digo amor como quem pensa Faulkner romantismo de salmões: um dia no mar da migração dispara a hora e mata o tempo abre-se a vida e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_28555" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><a rel="attachment wp-att-28555" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/05/um-poema-para-mil-quilometros-3/daido-moriyama-hokkaido-1978-3/"><img class="size-large wp-image-28555" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/daido-moriyama-hokkaido-19782-500x393.jpg" alt="" width="500" height="393" /></a><p class="wp-caption-text">Fotografia de Daido Moriyama</p></div>
<p style="text-align: center;"><strong>MIL QUILÓMETROS TODOS PARA VOLTAR</strong><br />
Não sou romântica<br />
não suspiro entre ah rosas<br />
caixas de  recordações<br />
lixem-se<br />
Mas como digo<br />
o amor<br />
dizem ah  romântica<br />
enquanto isso vejo salmões<br />
Digo amor como quem pensa<br />
Faulkner<br />
romantismo de salmões:<br />
um dia no mar da migração<br />
dispara a hora e mata o tempo<br />
abre-se a vida e a bússola<br />
mil  quilómetros todos para voltar<br />
É só isto<br />
O amor é o primeiro  aceno da morte sorrido<br />
lembrança de inteireza<br />
floração completa da flor<br />
dor é depois em contra corrente rio acima<br />
dor para desabituações do  corpo desintoxicações<br />
dor que de ser não dói é romantismo de  salmões<br />
rio acima a voar<br />
A alma quer regressar a casa</p>
<p style="text-align: center;"><object width="480" height="295"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/mmbQEQltOwM?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/mmbQEQltOwM?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="295" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="background-color: #ffcc00;">*</span><a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/05/um-inquerito-da-sem-se-ver/"> foi por sua tão grande culpa que pensei isto.</a> A minha linda edição,   que não é a do Borges nem a do Sena, termina assim: <em>Between grief   and nothing I will take grief.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="background-color: #ffcc00;">**</span> gosto muito desta  versão do Rufus Wainwright com a irmã e a Joan  Wasser. Não gosto que  tenham matado as últimas duas estrofes do meu  rico Cohen.</p>
<p> </p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Segredos de liquidificador</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/05/segredos-de-liquidificador/</link>
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		<pubDate>Mon, 16 May 2011 17:16:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Vi estas fotografias e o que será, por certo, um diálogo, ouvi num monólogo do tempo: entre o ontem e o hoje. A janela gradeada. O pardacento do dia burocrático. E a organização da frase? Do espaço? Das palavras no espaço? E este vermelho? NÃO SEI E se, de repente, sem repentino Vinicus, com toda [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Vi estas fotografias e o que será, por certo, um diálogo, ouvi num monólogo do tempo: entre o ontem e o hoje. A janela gradeada. O pardacento do dia burocrático. E a organização da frase? Do espaço? Das palavras no espaço? E este vermelho?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em> </em></p>
<div id="attachment_28377" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><em><em><a rel="attachment wp-att-28377" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/05/segredos-de-liquidificador/eu-quero-mj/"><img class="size-large wp-image-28377" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/Eu-quero-mj-500x332.jpg" alt="" width="500" height="332" /></a></em></em><p class="wp-caption-text">Fotografia de Maria João Cabrita</p></div>
<div id="attachment_28378" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><em><em><a rel="attachment wp-att-28378" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/05/segredos-de-liquidificador/porque-tu-nao-queres-mj/"><img class="size-large wp-image-28378" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/Porquê-tu-não-queres-mj-500x332.jpg" alt="" width="500" height="332" /></a></em></em><p class="wp-caption-text">Fotografia de Maria João Cabrita</p></div>
<p><em> </em><strong>NÃO SEI</strong><br />
E se, de repente, sem repentino Vinicus, com toda a calma da respiração inalterada, o pulso em si mesmo, muito do que conhecesse de si próprio se aplicasse na memória e se impossibilitasse na realidade? Não digo na vida, porque a memória, mesmo ícara diante da verdade, sol, é só cinemascope e cera derretida, diante da verdade, sol, é, mas também, ainda assim macia e moldável, vida. E se muito? Por exemplo: chocolate.</p>
<p style="text-align: justify;">Este Natal chegou previsivelmente em Dezembro. Era Dezembro e escolhi um bombom, um dos preferidos, à noite, no sofá, à conversa com a minha irmã. Sempre gostei de chocolate. Às vezes, traziam-mo de presente para que experimentasse um sabor novo, um velho sabor renovado por produtoras mãos competentes. Com pimenta. Branco. Com gengibre. Belga. Nougat. Praliné. Preto como o continente africano. Finíssimo. Em pó para o servir quente, molho ou bebida. Escolhi um bombom. Meti-o na boca. Porém, o que naquele fim de dia arrastado até à madrugada se derreteu na língua não coincidia com a memória do que antes se derretera. Insisti. Outro. Só uma pontinha. Mais outra de outro. Diferentes. Indiferente: nenhum. Foi desta forma que soube que minha língua se divorciou da minha antes língua e não mais casaram. Começou no chocolate?</p>
<p style="text-align: justify;">Tenho visto isto acontecer muito nas pessoas. No amor. Bem, não no amor. Um dia desgostam-se e não percebem como se quiseram antes. Afectada, no entanto, a memória gustativa — cinemascope, sim, porém em pesadelos de halloween onde antes musical. Cera moldável, ícara a vida, que perigo, não a memória. Tenho-o visto acontecer na distância feliz que vai dos hábitos da juventude aos da idade adulta — que são mais uma retoma da criança pelo adulto do que outra coisa qualquer, retoma plena, no entanto, já que permanecemos filhos sendo, mistério, pais de nós e filhos de nossos pais, e aquele tempo intermédio onde o mundo se provou foi, mais do que menos, a experiência de sermos outros, as regras da dança da transgressão. Nunca vi acontecer assim. Nunca ouvi dizer que uma mudança se anunciasse num bombom maumau, no insuportável sabor do chocolate.</p>
<p style="text-align: justify;">Começou no Natal. Ou foi ali que dei conta. Apanhada no meio, na fronteira entre o conhecido e o desconhecido, a pensar que sim, claro que sim, e uma vez na língua não, não e não, impossível, a aprender o não sei depois de uma vida inteira à volta de <em>conhece-te a ti mesmo</em>, desconheço-me sem qualquer estranheza.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="background-color: #ffcc00;">* </span><em>segredos de liquidificador — de uma letra de uma canção de Cazuza</em></p>
<p><em><span style="background-color: #ffcc00;">**</span> conhece-te a ti mesmo — inscrição encontrada no Templo de Apolo, em Delfos, segundo Pausanias<br />
</em></p>
<p><em><br />
</em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Um poema para acordar</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/05/um-poema-para-acordar/</link>
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		<pubDate>Sat, 14 May 2011 00:38:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[CANÇÃO DE RODA Sol de Primavera agulhas a pique pelas pupilas adentro até ao centro à dormição da semente o coração Acorda Acorda gritam felizes dedos agudos de espessura agulhínea crianças cruéis e felizes abrem a rasgos a dormição — mesmo pela boca - e a dançar em roda tiram-lhe a moeda da boca dançam [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_28192" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><a rel="attachment wp-att-28192" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/05/um-poema-para-acordar/alice-in-wonderland_2-1800-1024x472/"><img class="size-large wp-image-28192" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/alice-in-wonderland_2-1800-1024x472-500x230.jpg" alt="" width="500" height="230" /></a><p class="wp-caption-text">Alice in Wonderland, Tim Burton — still</p></div>
<p style="text-align: center;"><strong>CANÇÃO DE RODA</strong><br />
Sol de Primavera<br />
agulhas a pique<br />
pelas pupilas adentro<br />
até ao centro<br />
à dormição<br />
da semente<br />
o coração<br />
Acorda Acorda<br />
gritam felizes dedos agudos de espessura agulhínea<br />
crianças cruéis e felizes abrem a rasgos<br />
a dormição — mesmo pela boca -<br />
e a dançar em roda tiram-lhe a moeda da boca<br />
dançam dedos agudos, vozes crianças cantam:<br />
não terás como pagar ao barqueiro<br />
virás para trás, cantam a rir, gritinhos felizes, essa hora é minha<br />
sou eu, a luz, quem, de tanta luz, faz cerrar as  pálpebras</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Vou ali…</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/05/vou-ali/</link>
		<comments>http://www.etudogentemorta.com/2011/05/vou-ali/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 05 May 2011 10:05:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Já volto.   Ps: céus! como o tempo passa, estamos aqui, estamos no Natal]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a rel="attachment wp-att-27872" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/05/vou-ali/pause/"><img class="aligncenter size-large wp-image-27872" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/PAUSE-500x375.jpg" alt="" width="500" height="375" /></a><span style="background-color: #ff0000; color: #ff00ff; font-size: xx-large;"><strong>Já volto.</strong></span></p>
<p> </p>
<p>Ps: céus! como o tempo passa, estamos <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/05/parabens-ao-cao-viva-o-cao-viva/"><span style="font-size: x-large;">aqui</span></a>, estamos no Natal</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Histórias do Princípio do Mundo</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/05/historias-do-principio-do-mundo-11/</link>
		<comments>http://www.etudogentemorta.com/2011/05/historias-do-principio-do-mundo-11/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 03 May 2011 15:10:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Fascículo i, Folha de Terça Feira, 11ª – O AMIGO DO DIABO Dizem que, ininterruptamente, sobre o próprio eixo dela, roda lenta a Terra, desloca em constante velocidade o peso da massa que forma, de dentro para fora, a memória da explosão do universo, ferve o núcleo, dizem, e arrefece a perfeição da superfície. Talvez pare. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><span style="background-color: #ffff00;">Fascículo i, Folha de Terça Feira, 11ª</span> – O AMIGO DO DIABO</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Dizem que, ininterruptamente, sobre o próprio eixo dela, roda lenta a Terra, desloca em constante velocidade o peso da massa que forma, de dentro para fora, a memória da explosão do universo, ferve o núcleo, dizem, e arrefece a perfeição da superfície.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez pare. Não posso jurar que pára. Talvez pare de vez em quando, em cada vez que pensamos,<em> já vivi isto</em>, sabemos, e alguém responde, <em>ah! déjà vu</em>, ou mesmo um mais justo, <em>ah! déjà vécu</em>, logo um volume de explicações científicas. Ninguém se lembrou, no entanto: talvez pare. Por certo, em suspenso, pause de vídeo, alguém, se não a Terra, nós, e depois regressamos, não ao futuro, mas ao passado, longe onde possamos, no tempo, pauta, educar o coração para o desgosto, faça-se música, não morte, quando chegar:<em> já vivi isto</em>.<br />
– … esse que aí tem, não sei de quem é filho.</p>
<p style="text-align: justify;">Olhou em volta, o calor do fim Junho cansado, quieto, imóvel no céu; os lábios levemente entreabertos da ama, argila, a criança nos braços, uma realidade de ex-voto; um homem com o peso do mundo nos olhos e um cadáver nos braços; umas botas pretas enfiadas em estribos de caixa, eram as suas e dentro pés e acima pernas, o suor na parte mais interna das coxas, a respiração do animal e, finalmente, a própria respiração a devolver-lhe os sentidos ao presente,<br />
– …. esse que aí tem, não sei de quem é filho.<em></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Já vivi isto.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Desmontou. Aproximou-se da ama ainda ao lado da caleça, à espera,<br />
– tenha paciência,<br />
estendeu-lhe a mão:<br />
– deixe ver o menino… como se chama?<br />
– João, senhor.<br />
– Pois muito bem. Tenha paciência. Regressamos.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Já vivi isto.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Foi assim que o meu trisavô perdeu um neto no dia em que lhe mataram o filho: enterrou os dois. Foi assim que o meu trisavô ganhou um filho no dia em ofereceu ao fogo a morte da filha, no dia em que matou o amor e um pai. Caetana e Miguel ficaram para trás, naquele lugar em que os para sempre estão. João seguiu adiante. À frente do avô que lhe dava a antemão do cavalo. À frente. E desde esse dia, em todos, ele à frente.</p>
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		<title>Um poema para uma pintura que Paula Rego não fez</title>
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		<pubDate>Mon, 02 May 2011 21:20:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[LALALALA — POEMA DO ATRAIÇOAMENTO quando a tua boca se abriu era de rosas por isso eu cantava feliz se eu cair ao mar quem me salvará enquanto do lado de lá do fio leve do amor o teu riso cortava a resposta eu numa tela da Paula Rego estaria sentada no passeio com os [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;">
<div id="attachment_27784" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><a rel="attachment wp-att-27784" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/05/um-poema-para-uma-pintura-que-paula-rego-nao-fez/nao-es/"><img class="size-large wp-image-27784" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/não-és-500x332.jpg" alt="" width="500" height="332" /></a><p class="wp-caption-text">Fotografia de Maria João Cabrita</p></div>
<p style="text-align: center;"><strong>LALALALA — POEMA DO ATRAIÇOAMENTO</strong><br />
quando a tua boca se abriu<br />
era de rosas por isso<br />
eu cantava feliz<br />
<em>se eu cair ao mar quem me salvará</em><br />
enquanto do lado de lá do fio leve do amor<br />
o teu riso cortava a resposta<br />
<em>eu</em></p>
<p style="text-align: center;">numa tela da Paula Rego<br />
estaria sentada no passeio<br />
com os pés na estrada sem movimento<br />
a ver-te<br />
perverso guardador de patos<br />
de avental sujo, a atirar às aves<br />
como alimento, o meu corpo<br />
minuciosamente desmembrado</p>
<p style="text-align: center;"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/TW-lZjJzoRw?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/TW-lZjJzoRw?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
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		<title>Romance de Pedro a conduzir um Jaguar #2 — ou: romance de Teresa no banco traseiro de um Packard</title>
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		<pubDate>Sun, 01 May 2011 17:47:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A Eugénia ao volante, o Ruy ao lado. Os dois na disposição do costume: parece que vivem na alegria do mundo, não param de inventar nem sentados no carro. Cantam, ele, afinadinho, a fazer voz de galã da rádio dos anos 40, ela, uma pauta de desafinação compensada pela interpretação dramática interrompida pelo riso. Não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-full wp-image-27715" title="sem nome" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/05/sem-nome.png" alt="" width="500" height="351" />A Eugénia ao volante, o Ruy ao lado. Os dois na disposição do costume: parece que vivem na alegria do mundo, não param de inventar nem sentados no carro. Cantam, ele, afinadinho, a fazer voz de galã da rádio dos anos 40, ela, uma pauta de desafinação compensada pela interpretação dramática interrompida pelo riso. Não negam a raça. Aliás, para a banda estar completa, só falta a Joana — está no carro do Pedro a dormir em sanduíche, é o queijo, ao lado as fatias de pão, Marta e Vasco. Estavam perdidos de sono. Fazem a festa. Agora é o <em>Non ho l´età.</em> Estão tão entretidos que nem dão pelos avanços do Júlio, aqui, no banco de trás. Palerma. Arma-se em engraçadinho e acompanha-os na cantoria virando-me uns olhos de borrego,<em> lascia che io viva un amore romantico.</em> Não o suporto. Só o perfume… Se não fosse sócio do Pedro nem lhe mostrava os dentes. Faz-me acreditar no Triunfo do Orwell. É um ordinário. Um promíscuo. Deve pensar-se viril, um Apolo – também, dão-lhe argumentos. Tem a carteira cheia e areja-a. Funciona: tudo o que está venda, chega-se à frente, a chorus line, todas iguais, um suor de desespero,<em> leva-me, escolhe-me</em>. Nunca percebi o que passa pela cabeça da maioria das mulheres — nem pela dos homens para dizer a verdade. O mundo é um lugar estranho: nunca me senti em casa. Ainda bem que os tenho a eles. Mas estes dois, o Judas de ginásio e a caricatura da Mata Hari… estavam tão bem um para o outro, duas gotas de água. Ninguém me convence que o Júlio não lhe deu umas voltas, mas, e quem é não andou no <em>Carrossel da Selva?, mais uma volta, mais uma viagem.</em> Ainda por cima quem vai sentada ao lado do Pedro é ela. Detesto-a. Detesto-a. Preferia nunca a ter conhecido. Palavra de honra, se aquilo se atira ao Pedro, e ele lhe dá corda em vez de a mandar pastar como vaca que é, é hoje.  Giestas. Um caminho de giestas. Devíamos parar enquanto é tempo. Parar o carro, parar a tempo, fazer um piquenique, parar o tempo, devolver os lugares à ordem. É hoje. Que vergonha!, o Vasco, a Joana, a Marta, uma humilhação pública. <em>Se me fazes isso, Pedro, é hoje, garanto-te. </em>Nem posso pensar. O Pedro não ata nem desata: há quase três anos e nem uma palavra sobre casamento, não sei porquê, entendemo-nos como ninguém, uma simetria, com dois olhares falamos, e na cama, meu Deus, tão bom. Quando me apresenta, parece que o embaraço, porquê?, <em>é a Teresa, a minha namorada</em>, quando diz <em>namorada</em> já a voz se lhe some. Porquê? Às vezes, em casa, ponho-me a observá-lo quando está entretido a fazer qualquer uma das coisas dele, absorvido, dá-me prazer aquela coreografia de gestos, o mesmo prazer que as frases, quando fala, ouço tudo, ponho-me a observá-lo e penso: quantas são as pessoas que podem dizer, <em>encontrei o que sempre sonhei e não acreditava</em>. Quantas são as pessoas que são felizes e sabem que são? Faz-me tão feliz amá-lo. Não sei amar uma pessoa qualquer.<br />
– Eugénia! Mas que guinada foi esta?!<br />
– Viu não, Tê?<br />
– Era uma lebrinha, Teresa, magoaste-te? Desculpa, só a vi em cima.<br />
– Magoei-me nas costas, bati no vidro.<br />
– Nunca nos desviamos de um animal pequeno, passa-se por cima ou pode-se perder a direcção, claro, para uma mulher é uma lebrinha. Deixe ver, Teresa…<br />
– Não vale a pena, Júlio, obrigada.<br />
– Não seja assim, eu ajudo.<br />
– Se quer ajudar apanhe-me o brinco que há-de estar para aí no tapete. E nunca mais me fale em atropelar animais.<br />
Eu aflita para tirar o soutien, o colchete fez-me um arranhão tal que sinto um fiozinho de sangue correr, e ele a querer conversa. Não que tenha problemas em tirar o soutien por baixo do vestido, à frente dele. Nenhuns. O que não quero é este alarve a enfiar-me os olhos pelo decote abaixo, dar-lhe o gosto de me jogar a retina às mamas.<br />
O Pedro está a ficar para trás… Acordem! Marta, Joana, Vasco, acordem! Aquela Lili, tudo o que vem à rede, náuseas, provoca-me náuseas, ridícula de maneirismos ridículos, retalho de cópias, logo que seja com um deles, então, a disponibilidade é total e absoluta, ais e ós. Razão teve o Manel em não vir: <em>o Júlio, a Lili, elementares predadores de alto gabarito, são a prova da falta de imaginação de Darwin: i´m out. </em>Palavra de honra, é hoje.</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="background-color: #ffff00;"><em>O relato acima é pura ficção. Qualquer semelhança com a realidade seria uma lamentável coincidência e um indesculpável plágio da treta da realidade. Os nomes das personagens são inventados, numa mistura de esperanto, sardo e português não se encontrando por isso em nenhuma língua conhecida. Os automóveis foram cedidos pelo nosso patrocinador. </em></span></p>
<p style="text-align: center;"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/Kzwjxs_t_NM?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/Kzwjxs_t_NM?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
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		<title>Histórias do Princípio do Mundo</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Apr 2011 21:27:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Fascículo i, Folha de Quinta Feira, 10ª – O AMIGO DO DIABO Não sei se alguém conheceu a casa da Quinta Nova melhor do que a Agustina. Tinha em si um inventário, desde os tachos na cozinha de meia cave, janelas pequenas, gradeadas acima do olhar, rentes ao chão, tecto porém, até lá ao alto, às [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><span style="background-color: #ffff00;">Fascículo i, Folha de Quinta Feira, 10ª</span> – O AMIGO DO DIABO</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Não sei se alguém conheceu a casa da Quinta Nova melhor do que a Agustina. Tinha em si um inventário, desde os tachos na cozinha de meia cave, janelas pequenas, gradeadas acima do olhar, rentes ao chão, tecto porém, até lá ao alto, às trapeiras: apontado tudo, contado e recontado, registado tudo naqueles olhos aquilinos. Sabia mesmo de tudo. O que andava dentro dos armários, das estantes, das arcas, a ordem invariável dos livros, o segredo das gavetas, a perna oca da cadeira, enfim, o que se passava na barriga das paredes: quando a lavandaria deu em roncar a partir de debaixo do chão, andaram em voltas inúteis só para verificar que sim, que quem sabia era ela — de facto, não era lavandaria nenhuma, era uma divisão cega onde se engomava e tratava roupa, mesmo muitos anos depois, e aí sim, lavandaria, ainda cheirava a antes, tão bem, a vapor levemente perfumado, leve como se de pó de talco com cheiro a lírios do vale, mas com a frescura que só a liquidez, ainda que quente, em vapor, tão bom cheiro, há-de ter-se impregnado. Teve razão no diagnóstico: a raiz viera do jardim das traseiras, só uma linha de civilização, na verdade, a separar o logo início de mata densa, viera de lá, do primeiro pinheiro velho e furara longe,  com tempo, bem por dentro, à superfície nada, são raízes de engano as dos pinheiros mansos, são bravas, viera e furara o chão, fazendo um estrago tal que, de lento, de invisível, se infiltrou silencioso, minando em estouro final, um estouro de levantar ladrilhos e susto de <em>benza-nos Deus</em> à rapariga que andava pelos arrumos, porque a Agustina há-de ter ficado com os cantos dos lábios subidos num sorriso desgostado de <em>se me tivessem ouvido </em>- não ouviram porque nessa altura o meu trisavô estava fora e o administrador tinha-lhe pó. A Agustina, contam, tinha um sorriso torto: torto na linha dos lábios e torto de motivos. Com as pessoas era igual. Não, não quero dizer torta. Quero dizer que dava conta dos passos de toda a gente, abaixo controlava, acima antecipava: parecia ler os pensamentos, mas o que a sua atenção lia, eram os gestos onde cada um deles se depositava. Uma falta de privacidade que só a muita estima aceitava pela força do carácter recto, pela lealdade.</p>
<p style="text-align: justify;">Não será, pois, de estranhar que tivesse conhecimento do livro. Tinha.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta mulher era o braço direito do meu trisavô. E um grande amigo. Não, não me enganei, um grande amigo, não amiga. Ela ouvia o que, então, só um homem, e participava da decisão, <em>planta-se ali, vende-se agora. </em>Discutia-a. A venda da casa de Lisboa, que aconteceu poucos anos antes  disto, muitas se venderam, de muita gente, à data, de tanta instabilidade, fora feita contra a vontade dela. Se precisassem de voltar à capital teriam de comprar ou alugar a casa de alguém. Ora, isto parecera-lhe mal porque ao contrário do meu trisavô que tinha a certeza de não voltar, ela sabia que nós, mais do que qualquer outra coisa, somos vento que a sorte sopra.</p>
<p style="text-align: justify;">O livro é, estranho, pequeno. De pequenas dimensões — alguma espessura, no entanto. Por fatalidade, que é outro nome para coincidência porque para estas coisas não há regra além do receio de a incumprir, em todos os seus donos correu o mesmo sangue, ou a memória dele. E o mesmo nome próprio, ainda que em diferentes línguas ao longo da linha do tempo e da geografia, do fim luminoso do norte frio da Europa para o sul de outra luz, quente, do primeiro ao último João.</p>
<p style="text-align: justify;">Não sendo um nome bem querido na família, emerge sempre, inesperada e obstinadamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi reencapado, não se sabe por encomenda de quem, com uma daquelas capas como as dos missais e Bíblias, em chapa de prata, pesada, relevada, e de fecho, um São João Baptista em primeiro plano e em segundo, em obtusa perspectiva, uma iconografia nada canónica: a cheia do Nilo a marcar o Solestício — nem a pirâmide falta. Não se sabe por encomenda de quem, todavia a marca de ourives não engana, nem na data nem no local, a contrastaria não engana, e se não se sabe quem, é porque não consta do livro de registos da oficina. Tenho as minhas desconfianças. As primeiras páginas, como a capa original, são de pele de vaca. As últimas de papel. Bem, papel como agora o concebemos, só as do meu avô.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi ela, Agustina, quem o desenterrou do centro da biblioteca, do centro da rosa dos ventos: um taco, um botão, um livro. Há que perceber: o meu trisavô negou-se ao neto que lhe nascera. E um dos padres que por lá cirandava em volta da minha trisavó naquele dia de todas as loucuras, baptizou-o. Ninguém se interessou, ninguém quis saber: foi em Junho, ao terceiro dia de morta a mãe. Dia de São João Baptista. Como?, em meio a tanto, recordou ela o que lhe fora confiado pelo meu trisavô, na altura do nascimento da filha, tão feliz da menina no colo que se esqueceu que não tinha nem teria um varão, contou-lho porque contrariava a mulher a quem adorava, e ela queria chamar-lhe Joana, <em>nem pensar</em>, fê-la escolher entre Caetana, Beatriz e Inês, ou ao modo antigo, Brites e Agnes, para ser outra Caetana, Beatriz ou Inês, Brites ou Agnes. Foi. E nem por isso se impediu o que tinha de ser:<br />
– venho devolver-lhe o que é seu.</p>
<p style="text-align: justify;">Maior dor não se poderia infligir. Igual. Nem se lhe dirigiu directamente. Tinha retirado do cavalo, sozinho, o corpo do filho. Não autorizou a presença a quem quer que fosse. Aos irmãos. À mulher. À vista ninguém. Sozinho. Tinha-o nos braços como se não lhe pesasse, tinha de pesar muito — era um homem baixo este meu trisavô, e estreito. Talvez se tenha feito peso de outra vez inesperada alegria acabada de vir ao mundo. Ou talvez um pai tenha a força de um touro picado. Olhou para a carruagem, como se não lhe pesasse, interrompendo o movimento de descida que o moço amparava, um touro ferido:<br />
– não desça, ama, esse que aí tem, não sei de quem é filho.</p>
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		<title>Histórias do Princípio do Mundo</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/04/historias-do-principio-do-mundo-9/</link>
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		<pubDate>Tue, 26 Apr 2011 21:56:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Fascículo i, Folha de Terça Feira, 9ª – O AMIGO DO DIABO Nem sempre uma pereira dá as esperadas pêras, ainda que quase sempre dê. Nunca se sabe qual dos actos passados foi enxerto e pegou, mudando o curso à natureza. No grande como no pequeno. Foi este? Aquele? Em rigor, como apontá-lo? Eram tempos explosivos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><span style="background-color: #ffff00;">Fascículo i, Folha de Terça Feira, 9ª</span> – O AMIGO DO DIABO</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nem sempre uma pereira dá as esperadas pêras, ainda que quase sempre dê. Nunca se sabe qual dos actos passados foi enxerto e pegou, mudando o curso à natureza. No grande como no pequeno. Foi este? Aquele? Em rigor, como apontá-lo?</p>
<p style="text-align: justify;">Eram tempos explosivos e ao norte mais. Mais tinham sido e mais seriam. Eram ainda tempos explosivos.</p>
<p style="text-align: justify;">O reino tinha sido esquartejado. Primeiro, e literalmente feito em três como na Lenga Lenga da Cabra Cabrês, por Napoleão.  Logo de seguida pela mão salvadora dos ingleses corporizados em Wellington: não éramos um reino, um campo de batalha, apenas, habitado por estranhos nativos de estranhos costumes e estranha religião – a estes que tanto nos estranhavam, éramos devedores de aliança e mais seríamos. Pior. Beresford era o novo duque de Lafões, dono do exército português, um exército reformado, profissional, de proporções formidáveis para a então Europa. Todavia um exército de estadão e ambições sociais oferecidas à mais humilde fidalguia de província, não sem interesse político, e aos ricos proprietários. <em>Foge cão que te fazem barão</em>. Pior. Com o rabo do embaixador inglês, sentava-se no Conselho de Regência, a Inglaterra. Enquanto isto, no Brasil, a monarquia reinventava-se pelo comércio liberal e ensaiava uma portugalidade, não com sotaque e de modinha, but with an accent, à revelia de Portugal continental tratado como embaraçosa parentela, pobre e obscura: esconda-se. E se não falava em inglês a corte fugida, não era por falta de se dobrar pela cintura como quem serve. God Save The King.</p>
<p style="text-align: justify;">Está a perguntar-me, aí do passado, se discordo, no presente, do desígnio incumprido? De todo. Do fim do esclavagismo ao fim da inquisição, passando pelo necessário finamento de <em>feudos</em>, mais a liberalização do comércio, a reforma da administração, uma constituição, tudo isto e tornando o excêntrico, central: Rio de Janeiro, grande capital Europeia.</p>
<p style="text-align: justify;">Contudo, nunca como foi tentado. Parcelarmente. Sem unidade. Sem visão. Em suma: sem um projecto nacional suportado por decisões políticas que substanciassem o interesse colectivo. Sem competências que permitissem ir disputar, à cabeça, os mercados. Porque se alguma coisa ao início do século as invasões mostraram, foi que nação havia. Havia. Tinha sido, aliás, alimentada à colher e crescera, inflamada, a toque de mais inflamação por corpo estranho francês. Digo nação, digo portugueses por <em>trono e altar</em>, vassalos todos diante do rei, não digo povo — essa invenção é mais tardia. Sim, mesmo os que negaram uma câmara de nobres à semelhança da dos lordes, sim, depois houve uma câmara de pares, à parte, eu sei, e interditaram a câmara de deputados a quem fizesse parte da corte, não tinham nem queriam ter nada a ver com o povo. Longe! Nem o povo a ver com eles que não se torcia nem se amolgava com a revolução: o povo continuava sujo, <em>gente suja, gente baixa</em>, descalço, iletrado e fora dos interesses dos senhores revolucionários. O que aqui se inventava e defendia, queria inventar-se e defender-se, era a classe média, média baixa, média média, que a média alta já estava no poder a reproduzir as suas variantes menos ricas, menos cultas, menos educadas, todavia com o mesmo poder aspiracional — que muito breve daria os seus frutos envenenados: por oposição, claro, daqueles a quem afastara na segunda leva constitucionalista: o baixo povo por junto com o clero e a alta nobreza. Por favor, não os pinte a grotesco como na campanha de então, há mais adjectivos para além desses ainda colados, e lembre a surpresa, mais tirano veio Pedro a ser: expropriando a igreja, atirando à rua e à mendicância mesmo os velhos doentes de morte, apossando-se de propriedades de inimigos, vendendo títulos ao arrátel, consentindo na total alienação da mesma <em>gente baixa </em>que pegara em foices como espingardas à entrada de Junot. E isto é nada, quase nada do que foi, do que de arruaça se fez pela <em>gente</em> dita<em> limpa</em>.</p>
<p>O que se revelou de Portugal foi o resultado de todo este esquartejamento: guerra fratricida à beira da bancarrota.</p>
<p style="text-align: justify;">E o Douro com isto? Tudo. Será preciso recordar? Recordemos: Douro. Real Companhia das Vinhas do Alto Douro. Alta nobreza. Elite administrativa. Maçonaria. Coimbra. Douro. Real Companhia das… Depois muito se fez de absolutista quem antes se fez liberal e muito ajoelhou quem andava de avental. Aliás, nem se pode levar completamente a sério o vira casaquismo: as facções eram tantas que havia mais em comum entre os moderados delas, do que entre moderados e radicais do mesmo clube político. É conforme disse: os tempos eram explosivos, e ao norte, mais.</p>
<p style="text-align: justify;">O esforço de remembração do reino via-se nos ínfimos movimentos e nos íntimos gestos: o casamento de tio e sobrinha, D. Miguel e Dona Maria, costurara mal a coordenação de braços e pernas. Do segundo régio casamento, pelo qual Viena oferecera mais do que um consorte e menos do que um rei viúvo — logo casado com uma cantora de ópera, bela que fosse Elise, e era-o, culta, educada, não deixava de ser  para os mais fechados uma mulher de palco, mãe solteira de uma filha suposta de um conde milanês que a negara e assim mais de palco a fizera -, vingou-se ele, no seu segundo mais feliz casamento, de uma vida de diferenças em tudo, até políticas, nas primeiras núpcias: D. Maria fora cabralista. Estas segundas núpcias de Dom Fernando, tão mal faladas ou ignoradas pela história como se não se tratasse de um nosso rei, deram-nos em meio a tanto inferno, tréguas com Columbano. E com o romantismo da Pena como só os austríacos e os loucos sabem. A educação da verdura húmida do parque de Sintra como a educação deve ser: naturalidade onde não se deixe ver a aprendizagem. São como se sempre tivessem sido os cedros americanos. Desde sempre as araucárias brasileiras. E da idade da terra, são os miradouros sem nacionalidade: nossos olhos de pássaro.</p>
<p style="text-align: justify;">Fora destas intimidades, na praça pública, as outras intimidades. Metidos na coisa interna, só nossa, soberana nossa, julgamos nós, nós os patéticos cônjuges fiéis com as contas por pagar, nós cônjuge e terceiro vértice do casamento, vendado pelas próprias mãos, metidos na coisa interna pelas nossas omissões, os ingleses. Perto, os primos alemães. No sangue, os austríacos. Distantes como ex amantes, inimigos, outra vez amantes, os franceses. Espanha sempre nos braços: o que se desse cá, lá se daria, o que lá se desse, cá se daria. Até os Estados recentemente Unidos, amigos do amigo inglês, alcovitaram fracturante bedelho em papel de jornal na coisa nossa. A política é promíscua e esta cama era-o muito, tanto que haveria de terminar em mapa de lençóis cor de rosa e ais contra os bretões que a bem marcharam — letra rasurada de ainda hino.</p>
<p style="text-align: justify;">Não estou a tentar enfiar o século aqui, ora adiantando ora atrasando um relógio de Alice. Não posso, no entanto, ignorá-lo. Tudo do corrido foi oitocentista. Este era o ar que se respirava. Tudo do ocorrido foi irmão contra irmão, igreja contra maçonaria,  realismo contra republicanismo,  e foram núpcias de palácio da Pena e amor verde jardim em doces sombras líquidas de parque. Era este o ar que se respirava. No grande como no pequeno: reino, família. Inescapável.</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo nós, o querido leitor e eu nos anos de dois mil, o país, a república, o 25 de Abril em plena maioridade, somos outra vez oitocentistas no saco de gatos e dívida.</p>
<p style="text-align: justify;">O meu bisavô não estava ferido, estava morto. Deitado sobre a barriga, atravessado no próprio cavalo que lhe serviria de transporte até à casa paterna. Na caleça, além do óbvio cocheiro no banco e do moço, dentro, confortáveis, a ama com o bebé ao colo, aconchegados os dois, um no outro, o corpo em soluços, não sei do sofrimento de todos, se do caminho irregular. À frente desta loucura, também a cavalo, a puxar adiante a procissão, penitencial como todas, porém sem perdão por vir, o meu trisavô.</p>
<p style="text-align: justify;">No cais sabia-se: quando chegaram a casa do meu outro trisavô, horas depois, duas, quase três?, o luto ia do portão aos criados. Era grave que, à porta de entrada, o meu outro trisavô esperava, do lado de fora. E foi grave que recebeu aquele filho morto, não o último, o mais querido, adiado sempre o seminário e para sempre adiado, benjamim que ninguém viu chegar pela idade dos pais, Miguel. Chamava-se Miguel. Tinha só dezanove anos nessa tarde. Tão grave o esperava que a boca não se abriu quando ouviu, assim como se fora entre iguais, entre amigos próximos, o tratamento por você aumentando o peso da traição, cortando fundo, rente à artéria vital, ouviu o que nenhuns ouvidos de pai devem:<br />
– venho devolver-lhe o que é seu.</p>
<p style="text-align: justify;">Este meu trisavô, ao contrário do que estava à frente dele, não era um homem jovem. Nem para destemperos. Não cedia à irrazoabilidade. Uma parte dele era terra. Outra rio. Outra cálculo. Outra ambição. Outra família. Cinco partes. Uma para cada ponta da Estrela de David que lhe brilhava no sangue de judeu convertido em bom católico, em maçon. A sexta, secreta, para Deus.</p>
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		<title>09 Toponímia ínfera</title>
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		<pubDate>Fri, 22 Apr 2011 00:25:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Fotografia de Daido Moriyama — Tomei Expressway, 1969 É preciso olhar de olhos nos olhos, assim, vês-me?, sem medo de cegar, e com impiedosa calma, as mãos sobre o peito do amor, as minhas no teu, as tuas no meu, a pressão dos polegares até o esterno ser um osso concreto de dor natural,  mesmo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: center;">
<dl id="attachment_27168">
<dt><a rel="attachment wp-att-27168" href="http://www.etudogentemorta.com/?attachment_id=27168"><img title="daido moriyama tomei expressway  -953x639" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/daido-moriyama-tomei-expressway-953x639-500x335.jpg" alt="" width="500" height="335" /></a></dt>
<dd>Fotografia de Daido Moriyama — Tomei  Expressway, 1969</dd>
</dl>
</div>
<p style="text-align: justify;">É  preciso olhar de olhos nos olhos, assim, vês-me?, sem medo de cegar, e  com impiedosa  calma, as mãos sobre o peito do amor, as minhas no teu, as tuas no meu, a pressão  dos  polegares até o esterno ser um osso concreto de dor natural,  mesmo ao meio, ponto e  porta,  parte-se, ponto onde o corpo se despe da carne, porta  que abre a caixa da respiração e a devolve  ao sopro do universo. Lá, no  equilíbrio musical dos astros  suspensos, em depositada flutuação no  pano de negro silêncio frio, também o  coração, astro também suspenso,  brilha escuro, brilhante escuro, a luz dentro. O corpo de amor, feito deste e  deste nossos corpos de pó, é de pó estrelas.</p>
<p style="text-align: center;"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/9WiECIXnkKA?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/9WiECIXnkKA?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
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		<title>Histórias do Princípio do Mundo</title>
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		<pubDate>Thu, 21 Apr 2011 12:00:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Fascículo i, Folha de Quinta Feira, 8ª – O AMIGO DO DIABO As pistolas de fecho de pederneira eram, informam-me, à data, comuns, as de duelo, melhores — menos bonitas do que as pequenas, de bolso, no entanto. Vinham num estojo de duas: uma caixa em madeira, esta era de mogno, é, com uma pega em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong><span style="background-color: #ffff00;">Fascículo i, Folha de Quinta Feira, 8ª</span> – O AMIGO DO DIABO</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As pistolas de fecho de pederneira eram, informam-me, à data, comuns, as de duelo, melhores — menos bonitas do que as pequenas, de bolso, no entanto. Vinham num estojo de duas: uma caixa em madeira, esta era de mogno, é, com uma pega em cobre a meio da tampa para facilitar o transporte, fechadura de chave, não fora abrir-se, vá, marcada por um embutido mais claro, carvalho?, em forma de diamante, e dois fechos laterais, de metal, curvos. Uma vez levantada a tampa, denunciavam quem as fizera, ainda, queixinhas, no interior, por assinatura que se repetia, repete, nas armas, por gravação, no caso Wogdon &amp; Barton, e por junto tudo quanto fazia falta para tiro e limpeza em perfeita ordem, boa organização de espaço e em efeito de espelho — sim, fazia falta, já não faz. Bem sei que nada sei de armas, mas coube-me a infame herança de calibre 58. E o livro, claro. Foi coisa acertada e bem feita: quem tem o nome do meu avô sou eu. Mais ninguém teve a audácia – sequer eu a tive que não foi por mão própria que me baptizei, todavia isso é outra história do mesmo princípio do mesmo mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">O noivo secreto, o amante secreto, o amor amado, mais moderno, tinha uma Durs Egg. Contam. Presumo que isso signifique alguma coisa. Para mim é pistola em voz de papagaio e papagaio sou: Durs Egg. Ovo duro, soa-me — é que soa mesmo. Na verdade, eram também duas. Outra irrelevância ao meio de tanta irrisão naquela que deveria ser uma das mais formais situações entre cavalheiros. Cada um com o que era seu, dispostos ambos a nada aceitar de cada outro, se não a confiança na honradez das armas – é que também as havia mexidas como dados de batota.</p>
<p style="text-align: justify;">Por alguma razão não foi o meu trisavô para a capela por dentro: teria sido curta a distância usando a porta que abria para o corredor, não levava a mais lado nenhum, uma daquelas portas baixas, dissimuladas, em que o trompe l´oeil tanto serve à virtude quanto ao pecado, e no caso, servia à devoção por via daquele estreitíssimo corredor silencioso. Saiu. Foi por fora. Pelo jardim.</p>
<p style="text-align: justify;">Na altura da construção da casa, os jardins particulares eram muito monótonos e pouco frondosos — dizem-me que não, que nos Açores, não. Aqui: esquerda igual à direita, sebes baixas, a geometria dos canteiros de buxo floridos por dentro da falta de espaço, serpenteia-se em pequenos labirintos apertados, saracoteia-se em enervantes serpentinhas maçadoras, parterres de Versalhes de mini golf. Menos mal, alguma topiária, uma chuva de rosas de chá e, axial, um tanque redondo de pedra e estatuária de repuxo ao centro:  nadariam peixes,  cresceriam nenúfares e papiros? Aqui e ali, certos, os eternos meninos  gordos apoiados na pontinha dos dedos dos pés gordos. Aqui e ali, certos, os  eternos pináculos bicudos de arrancarem um olho a um anjo. Finalmente, a caminho dos pomares propriamente ditos, das hortas, enfim  da quinta, na fronteira, a simetria de algum desafogo no que fosse cheiro de flor, visão de árvore de fruto, muitas vezes a gosto da dona da casa: largos canteiros quadrados aromatizados  por laranjeiras. Para a minha trisavó, a simetria de dois pequenos laranjais. O fundo delimitado a ciprestes com abertura ao meio. Algumas árvores exóticas, exdrúxulas na paisagem, as palmeiras, as pimenteiras, um tulipeiro. A moda daqueles amontoadinhos de rochas a fazerem-se de mínimas montanhas de onde uma queda de água, ou as mínimas pontes curvas para mínimas ilhas em mínimos lagos, não chegara ali, gente avessa a miniaturas que não fosse para experimentar concreta escala. O que chegara, e profusamente, fora a azulejaria: a forrar o muro da cercadura do jardim feita lateralmente por bancos e alegretes, interrompida só pelo ferro, logo retomada mal chegada a alvenaria onde ressurgia: banco, guarda de ferro com muro abaixo, banco, alegrete, banco, guarda de ferro com muro abaixo, banco, alegrete, alegremente forrados, todos forrados em histórias descontínuas contadas em azul e branco em quadradinhos de azulejos. Dirá você: por essa data já muito amarelo. E mais cor. Mesmo antes. Pois está muito bem. Está muito bem, mas não chegou lá nada que não fosse azul claro ou azul forte, cobalto, em painéis, silhares, emoldurados por faixas, curvas e contracurvas suaves, volteios e fechos concheados, laçados, floridos. O pouco amarelo nem conta: só o havia nas damas e escudeiros, recortadas pessoas de azulejo, tais sinaleiros: <em>bem vindo</em>, apontava um, <em>vá por aqui, em frente</em>, dizia ela, a cabeleira em cachos.</p>
<p style="text-align: justify;">A capela fora, pelo lado de fora, obra da mesma mão. Todo o arco de cima abaixo, em largura e altura, em azulejos, ali a contar histórias de Jesus em banda desenhada, de se lerem, algumas, de cabeça virada para cima: Jesus, criança, no Templo com os Doutores, por exemplo, só de pescoço para trás. Jerusalém, de olhos nos olhos e pescoço direito era azul e branco à entrada, e o burro azul, as palmas e ramos, Cristo azul e branco. As três cruzes sobre o monte, azuis. E o negro que se terá feito às três da tarde, hora da morte, era azul também.</p>
<p style="text-align: justify;">Não foi às três da tarde, o negro não caiu sobre o mundo sequer em azul forte, a noite não surpreendeu o dia, mas foi triste. O meu trisavô avançou até ao altar e voltou-se para a porta, tinha a luz a bater-lhe nos olhos. O meu bisavô, à porta, tinha nos olhos a luz do retábulo dourado a fé. Os procedimentos hão-de ter demorado. Ou não?</p>
<p style="text-align: justify;">A casa estava num alvoroço e, no entanto, ninguém tinha os gestos fora do lugar ainda que não fizessem sentido. Fumo preto, sujo, escapava-se para fora. A lógica do absurdo era tão formal quanto a da razão. Talvez por isso o horror se tenha instalado e ninguém tenha saído, vieram dentro mesmo os criados de fora, ninguém se foi embora, nem vendo o mundo de cabeça para baixo sem que ninguém caísse: a minha trisavó, mais a criada de quarto que a acompanhou até ao fim da vida, emalava o que de mais pessoal lhe servia os dias, escovas, pentes, roupa, jóias, porta retratos. Lá em cima, debaixo de um mau óleo da Nossa Senhora do Leite, da escola portuguesa, francamente mau, a criança dormia, consolada, nenhuma fome, a ama por perto do berço, ao lado da própria cama, toda em <em>ai Jesus, coitadinho, o que vai ser si?, meu senhor tão pequenino. </em></p>
<p style="text-align: justify;">Só dois tiros foram disparados: nessa hora a pólvora foi incenso e subiu aos céus. A arma do meu trisavô portou-se melhor. A de ovo duro atingiu o retábulo e por lá ficou o que dela saiu.</p>
<p style="text-align: justify;">E foi assim que nem a mãe nem o pai alguma vez olharam o filho. Cego de amor logo à nascença.</p>
<p style="text-align: justify;">Do lado de dentro, porque vinda por dentro, Agustina. O que assistiu foi o que contei. Porque sobre isto nunca mais houve uma palavra fosse de quem fosse – à boca pequena, talvez muitas, na família, ou em presença de alguém da família, nunca, nem uma. Enfim, há agora estas todas aqui escritas.</p>
<p style="text-align: justify;">- O que faz aí especada?! Não lhe tinha pedido me trouxesse aquilo?</p>
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		<title>Story tão pequenina…</title>
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		<pubDate>Wed, 20 Apr 2011 17:00:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Existe para cada viajante um tema, uma melodia que é sua e de mais ninguém, que o procura desde o nascimento e desde antes de todos os séculos, pars, hereditas mea. Cristina Campo in OS IMPERDOÁVEIS, A&#38;A AMOR, A  TUA BOCA É UMA PALAVRA QUE ME SALVA – já sentiste uma dor tão funda que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_27063" class="wp-caption aligncenter" style="width: 510px"><a rel="attachment wp-att-27063" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/04/story-tao-pequenina-4/sala-dei-cavalli-palazzo-ducale/"><img class="size-large wp-image-27063" title="sala dei cavalli palazzo ducale" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/sala-dei-cavalli-palazzo-ducale-500x342.jpg" alt="" width="500" height="342" /></a><p class="wp-caption-text">Sala dei Cavalli, detalhe — Palazzo Ducale, Mantova</p></div>
<p style="text-align: right;"><em>Existe para cada viajante um tema, uma melodia que é sua e de mais ninguém, que o procura desde o nascimento e desde antes de todos os séculos, pars, hereditas mea.</em></p>
<p style="text-align: right;">Cristina Campo <em>in OS IMPERDOÁVEIS, </em>A&amp;A</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/08/story-tao-pequenina-3/"><br />
AMOR</a>, A  TUA BOCA É UMA PALAVRA QUE ME SALVA </strong><br />
– já sentiste uma dor tão funda que não lhe conhecesses o fim?<br />
– sim. É um poço no meio de uma grande cidade. É pior quando se espreita, é preto; se se lhe fala, é eco; se se bebe dele, lágrimas.<br />
– e o que é se faz?<br />
– nada. É assim. As ruas, o trabalho, a felicidade num instante, o trânsito, o tempo, memória e futuro, a beleza, os edifícios, a família. A vida. E um poço.<br />
– nunca te apeteceu encolher a vida e um poço até ao espaço nuclear? Como Emily. Dickinson. Sozinha. Primeiro só a quinta, depois só a casa, e por fim só quarto. Nunca?<br />
– não é isso que somos um do outro, potência? Não é isso também o amor, o mundo e um quarto?<br />
– e acto: um mundo no quarto, um quarto no mundo.</p>
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		<title>Histórias do Princípio do Mundo</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/04/historias-do-principio-do-mundo-7/</link>
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		<pubDate>Tue, 19 Apr 2011 17:00:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Fascículo i, Folha de Terça Feira, 7ª – O AMIGO DO DIABO É preciso ver, nós que o podemos sem vendas nos tapem os olhos, que a Justiça, então como hoje, era justa, porém a lei e os seus representantes e executores, eram exactamente como nós hoje o somos. Não é igual, em consequência, matar um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong><span style="background-color: #ffff00;">Fascículo i, Folha de Terça Feira, 7ª</span> – O AMIGO DO DIABO</strong></p>
<p style="text-align: justify;">É preciso ver, nós que o podemos sem vendas nos tapem os olhos, que a Justiça, então como hoje, era justa, porém a lei e os seus representantes e executores, eram exactamente como nós hoje o somos. Não é igual, em consequência, matar um ou outro, ser um ou outro matador, se um e outro não são pares em tudo o que de paridade possa existir. E se não partilham da matéria subtil da Justiça, as substâncias densas dos pensamentos dos legisladores, a concreta lei e seus executores, pares só o seremos para a Justiça no alto da sua cegueira divina que nos vê iguais de tanto saber da nossa mesma e una natureza. Pode assim dizer-se que tudo correu pelo melhor: se tivera corrido ao contrário, hipótese descabida, é para o mar que correm as águas dos rios, nem sei – decerto teria sido pesada a mão sobre os de Montenegro. Deste modo, nem mão nem peso, só o da terra que se deseja leve.</p>
<p style="text-align: justify;">Afinal quem vira a sua honra de pater familias ofendida? Já sei o que está a pensar: tudo isto se passa depois de progressivamente diluído o Direito Romano nas últimas das Ordenações e de maior diluição no Código Civil do Visconde de Seabra, pois é tudo, ainda que por pouco, posterior a 1867. É irrelevante. Não só o pater familias de facto existia, e existiria reconfigurado até depois de eu própria ser nascida, como as alterações que contemplavam a figura da mulher na família aqui não se aplicavam — nem ao resto que veio a suceder. Para mais, isto era uma saída de bico: não tinha saída. Nada fora às boas, tudo quanto pudera ir mal, fora.<br />
– Venho pela vida de Vossa Excelência. Agora.<br />
– Pois se a quer, recolha a sua casa e espere, como homem de bem que não é, que o mande desafiar. E deixe-se ferir ou matar. É essa a sua obrigação para restaurar a dignidade da família a que pertence e reparar a desonra da vida de minha filha, perdida por sua sedução. Concedo, para si, a sua sedução de minha filha era séria, visava o casamento, para mim não era séria porque não poderia almejá-lo. Se está vivo, se respira, a ela o deve. Ela está morta agora e eu a si, nada lhe devo.</p>
<p>Tudo dito do patamar sem descer um único degrau. Sem elevar a voz perfeitamente audível. Com a calma que a surpresa de ver ali o último dos impensáveis não abalara.</p>
<p>Nada abala, pode sequer baloiçar, leve, um quase nada, quase brisa, uma verdade que se constrói por dentro como uma catedral súbita, insujeitável às regras lentas da pedra, à lógica do tempo. Nada abala uma revelação. O amor pela filha Caetana fora isso: irrompera súbito ao primeiro olhar quando lha depositaram no colo, fresca de nascida, flor, uma catedral amorosa de agudos góticos por dentro do corpo demasiado pequeno para a conter, e ele era um homem grande, uma catedral amorosa de vitrais rosáceas a coarem toda a luz em matizes de ternura. Flor. Rosa. Filha. Fizera-se pai.</p>
<p style="text-align: justify;">Tivesse a filha voltado à vida, e ele teria um neto e daquele nada, daquele último filho daquela gente, daquele para quem a própria família reservara o último lugar, haveria ele, por amor a sua filha regressada, de o fazer um primeiro. Com que forças inventaria para a filha renascida da morte um não, se levara em três dias de espera, os meses que ela levara de gestação, a gerar, ele mesmo, um sim, o sim que veio depois da negação? Sim, far-se-ia o casamento. Sim, tolerar-se-ia a parentela, mas ao avesso dos costumes, não seria gente daquela que ganharia uma filha, seria ele que receberia um filho por junto com o neto, folha de passado em branco, acabados de nascer, os dois. Não se falaria mais nisto. Estava preparado para em tudo retribuir, até ao limite de si, a Graça Divina da ressurreição. Nada fora às boas. Tudo quanto pudera ir mal, fora. O coração da casa, Caetana, flor, morrera e morrera. O amor, rosa, ardia.<br />
– Agora.<br />
– Saiba e decida. Se agora como pede, se amanhã, para que hoje se prepare e faça as suas despedidas. Ouça e meça: Deus está morto e você vai fazer-lhe companhia. Amanhã?<br />
– Agora!<br />
– Pois faça-se a sua vontade. O estojo.<br />
– Diante de Deus, rogo-lhe.<br />
– Seja. O estojo!</p>
<p style="text-align: justify;">E largou para a capela. Seguido a dois passos por quem, certo que estava de ser dono da única verdade sobre a terra, Deus por testemunha e padrinho, nem pediu para conhecer o filho antes de oferecer o peito à morte, seguro, tão seguro de que ela não viria por ele, porque ele viera por ela.</p>
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		<title>Um poema para fazer colares de conchas</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/04/um-poema-para-fazer-colares-de-conchas/</link>
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		<pubDate>Sun, 17 Apr 2011 21:41:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Roubaste-me o coração com um só dos teus olhares in O CÂNTICO DOS CÂNTICOS   UM SÓ Na praia tranquila uma maré de destroços do naufrágio das bibliotecas dá à costa a calma do mundo e a fúria dois para fazer o nome da alegria calma e fúria são a alegria a maré de destroços [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><a rel="attachment wp-att-27020" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/04/um-poema-para-fazer-colares-de-conchas/buzio/"><img class="aligncenter size-full wp-image-27020" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/búzio.jpg" alt="" width="400" height="300" /></a><em>Roubaste-me o coração com um só dos teus olhares</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>in O CÂNTICO DOS CÂNTICOS<br />
</em></p>
<p style="text-align: center;"> </p>
<p style="text-align: center;"><strong>UM SÓ</strong><br />
Na praia tranquila<br />
uma maré de destroços<br />
do naufrágio das bibliotecas<br />
dá à costa a calma do mundo e a fúria<br />
dois para fazer o nome da alegria<br />
calma e fúria são a alegria<br />
a maré de destroços são todas as letras:<br />
palavras conchas palavras contas<br />
palavras malões palavras vestidos<br />
palavras peixes coloridos escamas de luz<br />
enfiadas num colar<br />
rente ao pescoço à beira da voz<br />
algas versos de nós colhidas ali do sal da água<br />
Uma bíblia flutua<br />
calma e fúria são alegria no cântico das páginas<br />
arrancadas de dentro onde não cabe a hipérbole dos cânticos<br />
mal cosidas páginas a tempo da igreja<br />
não haverá oração mais sagrada melhor alimento<br />
tão mal cozido pão de páginas<br />
cântico arrancado cru da hipérbole dos cânticos<br />
mal cosido cântico no tempo boa a linha<br />
para enfiar os destroços do naufrágio das bibliotecas<br />
uma a uma conta amado concha na linha do cântico<br />
uma a uma letra à beira da voz colares de algas<br />
um a um de búzios de nós<br />
peixes coloridos<br />
uma a uma escama letra de luz<br />
são teus amores memória<br />
na escada do ouvido à beira da voz<br />
até que o mel na ponta da língua<br />
seja o corte na ponta da seta<br />
surdos<br />
morrem gamos<br />
caiem flechas<br />
Nenhum coração se rasga<br />
na praia tranquila<br />
que não seja de amor:<br />
roubaste-me com só um dos teus olhares</p>
<p style="text-align: center;"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/n-aYOq-YBec?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/n-aYOq-YBec?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Outro mais estranho melhor livro</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2011/04/outro-mais-estranho-melhor-livro/</link>
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		<pubDate>Fri, 15 Apr 2011 20:29:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eugénia de Vasconcellos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Querida Jeanne: não a deixaria pendurada. Foi numa corrida  — só volto Domingo. Por muito que não seja, e não é, uma escolha surpreendente, creio que será, por isso mesmo, uma surpresa — sou uma rapariga simples, já sabe, isto espremido e tal e coiso, é tudo em neils youngs e assins. Continuo o desafio [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Querida Jeanne: não a deixaria pendurada. Foi numa corrida  — só volto Domingo. Por muito que não seja, e não é, uma escolha surpreendente, creio que será, por isso mesmo, uma surpresa — sou uma rapariga simples, já sabe, isto espremido e tal e coiso, é tudo em neils youngs e assins.<br />
Continuo o desafio que começou <a href="http://www.etudogentemorta.com/2011/03/as-feiticeiras/">aqui</a> e a Joana me passou, entregando-o à Teresa:<del></del><strong><del></del> Teresa, linda Menina Má, qual foi o mais estranho melhor livro que leu?</strong><br />
</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a rel="attachment wp-att-26961" href="http://www.etudogentemorta.com/2011/04/outro-mais-estranho-melhor-livro/the-road-cormac-mccarthy1/"><img class="aligncenter size-full wp-image-26961" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/04/the-road-cormac-mccarthy1.jpg" alt="" width="300" height="485" /></a>Admiro profundamente aquilo que, me sendo <em><strong>mais estranho</strong></em>, me é<em><strong> melhor</strong></em>, sem que por isso me faça menor, banal, pior. Estabeleça apenas uma fronteira de diferença de natureza formal, qualquer que esta seja: moral, estética, gnoseológica… o diabo, tanto faz.</p>
<p style="text-align: justify;">Fascina-me a coisa bem feita, a coisa bela, boa, ou por onde, esperada ou inesperadamente, irrompa. A coisa poderia ser uma cereja. Numa cesta de batatas térreas de terem sido recolhidas. A coisa pode ser Mahler. Enquanto faço limpezas.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma noite, o mar fez contornos de fosforescências verdes à volta dos corpos que nocturnos nadavam. Nadávamos. Nós e a nossa linha de corpo, como as crianças brincam com a sombra, brincávamos, era luz a sombra, uma linha de luz desenhava-nos. Não a mão no papel, o bico da caneta a fazer a volta dos dedos: o corpo na água contornado de luz. Verde. Fosforescente como radioactividade em imaginário de bd.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma tarde, há pouco tempo, foi em 2009?, a meio de uma imprevista tempestade primaveril, bruta, que baixou e rebaixou o céu até fazer dele um tecto de chumbo cortado a relâmpagos e abanado por trovões, uma cegonha, enorme, veio abrigar-se debaixo da gelosia onde cresce a buganvília, encostou-se à coluna, alta e direita como a coluna, nunca vi majestade assim escorrendo tanta água pelas penas. Nem me mexi, fiquei a vê-la da janela da cozinha, por cima do lava loiça.</p>
<p style="text-align: justify;">E por muito que muita gente diga, <em>ah, disso, muito</em>, só duas vezes vi dois arcos íris claramente definidos, um ao lado do outro: este último foi de presente, de certeza, porque foi neste meu aniversário, em pleno parque de estacionamento de hipermercado, apinhado, à beira do fim da claridade, nunca me tinham dado os parabéns assim, parecia mentira que aquele resto de sol de Inverno guardasse tanto dentro das mínimas gotas de chuva. Não sei quem ofereceu, sequer contei que tinha recebido. Agradeço agora: <em>gostei tudo, não podia ter gostado mais, merci.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Antes da Casa da Música inaugurar, estive completamente desfasada de qualquer polémica portugalidade. Então, quando a caminho do hotel dou com ela ali caída, foi na primeira semana em que esteve aberta ao público, literalmente caída do céu, os degraus para a porta rectangular da nave, dentro da minha cabeça, muito alto, o trecho musical dos <em>Encontros Imediatos de Terceiro Grau</em> — sei que sabe qual é, é aquele: na-na-na-na-na. <em>Páre!, páre!</em>, pus-me a gritar para o taxista. Ele estacionou e esperou, e se me demorei!, foi até notar os sapatos cheios de lama e a alegria me voltar a caber dentro do carro.</p>
<p style="text-align: justify;">É infindável a minha lista de <strong><em>mais estranho melhor</em></strong>. O meu primeiro Bosch. Bacon. E o Giuseppe Arcimboldo? Ri tanto, era míuda, adorei-o.</p>
<p style="text-align: justify;">O que haverá de mais estranho melhor do que outro corpo, corpo amado, no nosso corpo quando amado? O completo beijo se a testa toca a testa, duas línguas e uma só boca?, os braços sobre os braços, as mãos fecham-se mas com outras mãos, o sexo dentro do sexo na melhor estranheza  mais certa do corpo, as pernas ao longo das pernas.</p>
<p style="text-align: justify;">Porém o que aqui se pede são palavras, e não quaisquer umas. Literatura. É mais seguro apontar os grandes escritores do passado. Mesmos os estranhos, ou só a obra estranha. O presente levanta questões. Será grande escritor? A prova do tempo? A prova do tempo, merda. Tanto sobrevive o que presta como o lixo, e o sucesso depende da volubilidade das massas, da orquestração da crítica e de sabe-se lá do que mais. Repito, merda.</p>
<p style="text-align: justify;">Já falei dele aqui. É um gosto voltar a falar. É um grande escritor. Não interessa o que  tempo faça com ele ou com a obra dele. É. Cormac McCarthy.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>The Road, de Cormac McCarthy, é o mais estranho melhor livro que li</strong>: não têm nomes, os personagens, são o pai e o filho, um pai e um filho, somos nós, a caminho numa estrada desconhecida desde uma terra que não se sabe, a não ser que está a norte do sul que se pretende, num tempo em que a civilização por algum apocalipse se desfez, e em solidão e desconhecimento de outros, o que resta de valor humano em cada homem, no pai que o passa ao filho, o filho ao pai, a refaz, à civilização, a cada decisão em que preserva a humanidade, a ética, e a inteligente besta sadia do reduto do ser que somos. Fá-la inventando esperança contra a realidade sem esperança, um passo de perigo a seguir a outro, e contra a sub espécie que do mesmo reduto do ser que somos, ronda, espreita, ruge, pode surgir e tomar-nos, amoral, reptilária, canibalesca. Monstruosa. Bestial.</p>
<p style="text-align: justify;">E tudo isto que escreve, que é a essência do ser, ele escreve usando a essencialidade da linguagem: o perfeito equilíbrio da mesma outra coisa.</p>
<p style="text-align: justify;">E a cinza que cai?</p>
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