Eu tenho uma pistola. De agrafos, o que é que estava a pensar?! É pesada, a danada, tão pesada que não se deixa pegar direitinha, sem apoio. Ora isto vem a propósito do quê? Do PEC, do que é havia de ser… e não é porque vá desandar a agrafar a classe política em geral e os gestores públicos em particular. É porque, sem me chamar Martha Stewart ou Bree Van De Kamp, tenho um defeito terrível que, nas relações pessoais e na economia doméstica, é uma qualidade: quando olho para uma pessoa ou coisa, nunca considero só aquilo que ela é, mas tudo aquilo que ela pode ser — tive uma epifania, acho que, mal comparado, é um feitio de alquimista. Adiante. Nas outras situações é mau porque induz, pode induzir, em erros de avaliação. Graves. Todavia nestas duas situações é bom. Não podia ser melhor.
A parte humana é obviamente fácil de entender: quando se vê uma pessoa no esplendor do seu futuro potencial, basta, no presente, na relação com ela, ir a direito em direcção a esse futuro, prevendo as dificuldades, para que a pessoa manifeste a sua capacidade no presente. E é uma felicidade.
Agora, a parte doméstica porque, nos dias que correm, convém gastar menos, no entanto, vivendo tão ou mais bem, ou mesmo, tendo uma vida melhor do que quando se gasta mais. É preciso olhar para uma moldura de loja dos trezentos e vê-la costume made para um quarto. Encontrar entre bases de candeeiro de feira de velharias, a talha que se restaura e folheia a ouro. Lembrar de quem gosta de bolachas de manteiga e quem prefere compota. Saber o que comprar e onde e a quem. E o que fazer com aquilo que se compra para que se dê, como direi?, o milagre da multiplicação do vinho e do pão, mas sem a parte do milagre. Enfim, esquecer o que não interessa: que há hipermercados que vendem o tomate a mais de dois euros o quilo. A verdade é que poupando, se tem liberdade para as pequeninas extravagâncias e para alguma generosidade — só falo, obviamente, daqueles que têm a satisfação das necessidades básicas assegurada. Mais do que tempo, o que é necessário é organização. No fundo, é a teoria do porco. Em toda a sua extensão quando possível. Quando não, o mais que se conseguir. Olhe, a teoria do meio porco e não se fala mais nisso. Eu não compro febras, compro um porco. Não compro secretos, não compro lombo, não compro linguiças, nem banha. Nem presunto. Compro um porco. Não compro carne cheia de antibióticos, criada a partir de ração de farinhas duvidosas, carne que encolhe no tamanho e no peso quando se cozinha e sabe a qualquer coisa vagamente porca. Compro carne de um bicho meio selvagem que anda pelos montados a comer bolotas e o que deve, tem uma vida santa e uma morte limpa. Ai um porco é muito grande, onde é que eu ponho tanta carne?! Diz você. Compre a meias com a sua irmã. A treias com o seu irmão e pais. A seias com as suas lindas amigas. E o que é que isto tem que ver com a pistola? Tudo! Fazer coisas é bom. Seja para nós, seja para os que amamos. Para os que não sabemos amar, também. Faz-nos sentir competentes porque nos dá competências. E fazê-lo acompanhado, é diversão de programa de festas. Até educação para a frugalidade e/ou criatividade, sem seca. E para a justa medida quando a vaidade nos dá para a hipérbole. O corpo é tão importante como a cabeça e é uma alegria utilizá-lo – não me estou a referir a exercícios de yoga ou manobras de outra natureza, que, concedo, é tudo também muito bom. E nem sequer é preciso ter jeito: vontade e prática, bastam. Para corrigir os erros, usa-se a tal da cabeça. Volto para lhe contar tudo. Pronto, conto só um bocadinho. Sabe o que é eu fiz? Já forrei uma cabeceira de cama, um sofá, uma fartura de bancos de cozinha. Não foi hoje. Se parecem projectos dignos de uma aula de trabalhos manuais? Essa é boa… Garanto-lhe que parecem ter vindo do estofador — de um estofador que admite pequeninas imperfeições do seu aprendiz que as disfarça com muito afinco. Isto para ficarmos pelos agrafos. Se fosse falar de candeeiros, abria uma loja de iluminação. Bem, quase. Teria, vá, uma prateleira numa loja de iluminação. Comida? Só lhe digo, na sexta-feira, uma querida amiga faz anos e eu vou levar para o pai dela bolinhos de gema de ovo. Se saírem mal, uma garrafa de belo tinto.
De Eugénia, dita Rainha da Sardenha, Serva das Servas de Deus, da Bondade e Modéstia, ao Caríssimo Irmão em Cristo, e Bloga, Pedro Marta Santos, Ilustre Rei de todos os Cinéfilos, habitantes das terras brumosas do Reino da Cinefilândia, Servo dos Servos do Argumento que, oferecendo como veículo as palavras de Sua pena, cede a Excelsa voz ao silêncio das imaginações.
Mostrastes, e indubitavelmente o vimos, que sois bom Rei das terras da Cinefilândia pois incontáveis vezes defendestes Vossos súbditos do mal contra eles arremedado — permiti que, à laia de menor exemplo, a Vossa humildade contemple o generoso bom serviço que prestastes a Dom M. Noite Shyamalan, cavaleiro -, e por Vossa corajosa defesa, por Vosso reconhecimento da grandeza de outrém, conquistastes a eterna dívida deles e dos que os seguem que, assim, Vos são e serão leais e aos Vossos pés depositam a espada dos serviços que heis-de, por merecimento, haver. Destes, intrépido, valoroso e sem proveito próprio, o que para Vós colhestes em sabedoria após fotogramada reflexão e por isso deve a Sardenha responder sem delongas ao que a Vossa modéstia suplica, usando de desnecessária reverência no tom ao dirigir-se-nos, a nós que somos em Majestade iguais a Vós, ainda que em virtude não mais que o último dos Vossos discípulos. Todavia, antes, e porque o primeiro magistério da Sardenha obriga à verdade que só nos mitos infantis se revela, cabe-nos confirmar a pura linhagem, idoneidade, toda e cada uma das proezas, e o que por pudor ocultastes: o devotado fervor amoroso e conjugal consumado na cabana de ouro, na praia, daquele que entre os Grandes é Máximo, o Fantasma. Atendo, então, ao que podendo ordenar, pedis.
Esta seria a altura ideal para falar da minha Murasaki Shikibu, ou do meu Churchill, do Jung, mesmo da Sei Shonagon, ou de tantos tão superiores outros, vá, da Jo March, não fora, apesar da genuína admiração, o facto de, infelizmente, não serem os meus mais internos heróis.
O meu grande herói é D. Vito Corleone. Gosto de tudo dele e não tenho, ó desgosto, umazinha só das qualidades que nele superabundam e a mim tanto faltam. Gosto-o criança muda e subestimada, gosto-o fechado no quarto, de quarentena, a cantar para ter tudo o que já tinha perdido, gosto-o diligente de mercearia e ali babá de levar para a mulher aconchegar a casa, um tapete persa grande demais. Gosto-o por tão familiar. E por ser salomónico, proporcional e sem excessos. Mas mais que tudo, gosto que as circunstâncias que o determinam, determinem a excelência porque não se pode determinar aquilo que não se é.
O meu vilão parece divertido. Mas é um monstro. E é perigoso: é infantil, egoísta, indisciplinado, insuportável. Sabotador. Exaspera-me. Cansa-me. É pior do que Penélope à noite: desfaz, tenta desfazer, tudo. É o Calvin. O que me vale é que o meu Hobbes não é só o meu lindo Cão. É a, inaceitável para século XXI, Anita.
Em 1899, Joseph Conrad, estimado marido, arrancava com The heart of darkness, ao seu jeito de pedra na água, o jeito dele, a traçar o caminho mais curto entre a superfície clara e o fundo escuro: The Nellie, a cruising yawl, swung to her anchor without a flutter of the sails, and was at rest. The flood had made, the wind was nearly calm, and being bound down the river, the only thing for it was to come to and wait for the turn of the tide. Eu não era nascida. Porém, diante disto, pensei logo em nascer. Não pude, no entanto, por absoluta falta de ainda desinventados pai e mãe.
Em 1951, Graham Greene, estimado marido, arrancava com The end of the affair, ao seu jeito exacto, o jeito dele, de osso limpo: A story has no beginning or end; arbitrarily one chooses that moment of experience from which to look back or from which to look ahead. Eu não era nascida. Pensei, por ser absolutamente impossível impensá-lo: gostava tanto de ir comprar a primeira edição.. Mas qual o quê?! Tive de conformar-me ao estado de incriada. Que nervos!
Em 1944, Dylan Thomas, marido apenas de Caitlin McNamara — tão mau marido, tão muito amado, tão bom amor mal amado dos dois que ela terá dito no hospital, quando ele já moribundo: Is the bloody man dead yet? -, começou a escrever Under Milk Wood. Entregou a versão final, 9 anos depois, à BBC que, em 1954, e pela voz de Richard Burton, me fez pensar seriamente em nascer, desse por onde desse! Não consegui: apesar do meu pai já ter idade para ser pai, a verdade é que a minha mãe tinha, e teria ainda por bastante tempo, idade para ser mãe só de bonecas. Não fez mal. O YouTube guardou para mim. Passa-se tudo nos primeiros 30 segundos. Assim é mais fácil acompanhar: To begin at the beginning: It is spring, moonless night in the small town, starless and bible-black, the cobblestreets silent and the hunched, courters’-and-rabbits’ wood limping invisible down to the sloeblack, slow, black, crowblack, fishingboatbobbing sea.
- Retrato de Mrs. Allan Bott, Tamara Lempicka
Já corri meia Lisboa, mais sites e arredores, e casa, nada. Buracos escuros de 40 ou 60 metros quadrados com vista para rixas e lixo de fim de noite, uma fartura. E tudo para quê? Para perder tempo. Fazemos uma vaquinha, compramos esta, e à noite pomo-nos todos bonitos para os cocktails antes de jantar, assim bonitos da Era do Jazz. A ouvi-lo. Alguém faça o favor de ser fumador.
O meu bisavô Manuel tinha um pato de estimação. Ele ia. O pato atrás. Ele vinha. O pato atrás. Onde quer que fosse. Pela casa. Ao café o pato ia também, só não bebia água Castelo. Se alguém, ao passar pela porta da rua, demorava, o pato grasnava a dar alarme. A minha bisavó Teresa:
– Manuel, não quero o pato dentro de casa. É um porco. É um horror.
– Ó Teresa, decida-se: o horror é pato ou é porco?
– Manuel!
– Teresa, pense que é um cão que grasna.
Ps: depois conto da gaivota e da galinha.
PLENO: se alguém sonhasse o efeito que pleno tem em mim, na minha presença, punha-se logo vazio. Pleno, antes de cair nas bocas no mundo era uma palavra onde a tranquilidade se deitava antes de se escoar, o meio alto do céu todo surpreendido pela luz nocturna do sol guardada na lua cheia. Eu gostava. Agora tudo é pleno: ainda ontem, no link da imobiliária que me enviaram, estava um apartamento “pleno de luz”, para um anúncio que era como certas conversas, plenas de significado, onde era suposto que quem o lesse se sentisse pleno de vontade de o visitar — ou prenhe, ai prenhe!, prenhe também toca no si da oitava mais aguda dos meus nervos. A única justiça que me poderiam fazer ao pleno, no entanto, já me a fizeram – obrigada: é marca de leite. Da próxima vez que alguém me disser que se sente pleno, pergunto-lhe em serpentês, porquê, acabou de tomar a ddr de cálcio?
PERSONAGEM: o que raio se passa que desandou tudo a chamar personagens às pessoas?! Desde os jornalistas, mas só aqueles que são personagens da incomunicação social, aos comuns falantes, que querem ser personagens up to date do dia dia. Como ironia é do mais pobre e preguiçoso que pode haver. Há belíssimos personagens, personagens atormentados, há-os seráficos translúcidos e opacos vilões. Da próxima vez que alguém me disser, lailailailai a/o personagem, pergunto-lhe em serpentês: ai estava em palco da última vez que foi à ópera?
Ps: qualquer dia, em conversa e com ar seríssimo, a propósito da primeira destas pérolas que ouvir, e que só me dão vontade de desencarnar, faço uma frase fabulástica: é um personagem pleno de vida, mesmo profissionalmente usa de um registo simpático. E sempre tão cúmplice.. Não é?
Ps 2: Harakiri para um!
O Pedro Marta Santos não sabia porque não podia saber. Há quem coleccione selos, porcelanas da Companhia das Índias, os lindos bichos em prata de Luiz Ferreira, cromos de jogadores de futebol, diplomas. Eu colecciono palavras que me dão, que leio ou ouço, como se as lesse ou ouvisse pela primeira vez. E é mesmo a primeira vez. Às vezes é o som. Outras, o que evocam de memória e significado. Ou tudo junto ou só porque sim de não querer saber explicar mais bem. Estas, não é segredo, são algumas das que mais gosto. Mas também gosto muito de coisa e coisinhas, de diminutivos em inhos quentinhos de botas de bebés fresquinhos de bebezices. E advérbios em geral. Inventados em particular.
PASMOSA/O. Nem espumante nem espumoso. Espuma. Nem refresco nem gelado. Sorvete. Nem primeiro beijo nem primeiro amado. Amor. Nem inocência nem pecado. Espanto. Puro azul marinho molhado de sal, dentes de riso, branquinhos, e toda a sabedoria do mundo, pré literada, feliz: pasmosa.
AZUCRINAR. Os pais não azucrinam os filhos, os filhos não azucrinam os pais, os amigos não se azucrinam porque azucrinar é um verbo feminino com dois substantivos dentro: açúcar e limão em partes desiguais e aleatórias, e transitivo porque oxidado quando não há paixão. Isto é, as mulheres azucrinam a paciência aos homens por quem se apaixonam — ao resto do mundo masculino não apetece azucrinar. Porquê? Porque é uma resposta provocatória, feliz, risonha e mazinha, à vulnerabilidade abissal de amar. E geradora de tensão. Ai fazes-me gostar tanto de ti?! Então, vais ver o que eu te faço… E o que se faz? Azucrina-se! Esse decote é muito fundo, sobe-se o decote, encolhe-se a saia. Minha querida, que tal um peixinho com equilibrados legumes? Belas vieiras cobertas de queijinhos em béchamel e pimenta preta, ou não são elas bichos aquáticos e a pimenta não é praticamente um legume?! A um amoroso dar as mãos responde-se com um indecoroso pôr de mãos. A um beijo com sabor gostoso de pecado, com uma leve repreensão. Azucrinar… gosto.
Ps: e gosto tanto dos sons em azucrinar. O do cri risonho, entalado entre um u muito sério e um a aberto de impaciência.
SOALHEIRO. Há apartamentos pequenos, por fora de um bolor lento escorrido sobre a pintura de prédio um dia branco, húmidos de humidade em verdes cinzas até ao esfumado em cor de Sintra nas varandas que espreitam para outras varandas: vista para a vida fechada dos outros. Marquises de antes em retalhos de vidros quadrados, emoldurados a ferro, às vezes partidos. Perto da Defensores de Chaves há ainda um prédio assim: todo remediando a pobreza a um braço de distância da casa do lado, de tectos altos, rica da cave ao sótão, até empobrecer , ela rica, de ter sido vendida para embaixada antes do terminal morrecimento. Ele, remediado, chegado depois, ficou remediando a cartão os vidros em falta. Quando morrerem os inquilinos velhos, os proprietários ficarão felizes. E dos já proprietários humildes, virão, já vieram, herdeiros partilhar os lucros da localização, localização, localização, se forem vários, ou reformar a centralidade sem vista para os plátanos, se se sonharem a acordar no adormecimento habitacional de Lisboa. Eu pensava que, ao início, o amor de um homem por uma mulher era aquele prédio: soalheiro por dentro da timidez húmida de ser solar demais — o mundocéu aberto. A escorrer, por isso, verdes cinzas pelo lado de fora da marquise em Sintra, mais ciosa que fechada, o cartão no vidro, e o amor do homem impronunciando: és só para os meus olhos, lá fora a casa rica é nada, ninguém vê o sol que me ilumina inteiro, com três passos fazes uma cozinha e, com meia dúzia, a sala e o quarto, uma dia teremos uma como aquela, ninguém sente o sol que me aquece todo, se abro os braços a casa de banho é minha, escondes-te atrás da cortina opaca de plástico grosso, a água corre, devia tê-la pendurado transparente só para seguir no teu rasto de passos de Verão.
FUNDAMENTE. Um destes dias vou-me embora. Fecho a porta e não olho para trás. Hão de crescer as heras sobre o tempo, os fios de água da humidade hão de entrar pelo telhado, juntar-se aos fios de lágrimas presos dentro das paredes que se hão de abater fundamente como nunca tivessem existido, os dias dos homens estivessem por criar e a pureza vegetal acabasse de parir os primeiros animais e a invenção dos ninhos. Fecho a porta e não olho para trás: devolvo ao mundo pré-adâmico o chão das cinzas, devolvo-o à vida e não olho para trás. Faço o caminho, o único caminho, um destes dias, saio ainda de noite para chegar com a primeira luz, antes dos candeeiros públicos se desligarem da vigília, antes da agitação cantada das penas escondidas nas árvores, antes da agitação dos carros. Chegarei, um destes dias, com o mundo muito quieto para saber que chego, para fazer um postal com a hora exacta antes de abrir a porta da tua casa, ter um gato de rua como testemunha de que não sonho, abrir a porta da tua casa a uma hora demasiado cedo para beber café, para se estar composto de coração arrumado. A hora certa para te encontrar de calças de pijama, amarrotado da cama, descaídas no elástico, t-shirt com cheiro de sono, doce do sono, quente de sono, olhos inchados de sono e para me dizeres com toda a impassível naturalidade, e um sorriso leve: pareceu-me ouvir-te entrar, ainda é muito cedo, vem deitar-te. Onde moras, meu amor?
DESDE O OSSO ATÉ AO OSSO
Bem vês.. é já muito tarde para despedidas.
Podemos inaugurar um silêncio tremendo
como o que se sucedeu à feitura do mundo,
porque dizer adeus, requer que saibamos ser
um sem o outro, um sem a memória do outro,
e essa página de esquecimento não existe
no livro da vida, lá, onde nos conhecemos
desde o osso e até ao osso, desde a escuridão
do pó onde se tece a matéria até à voz do riso.
Inauguramos, então, um silêncio tremendo,
mas diariamente, farei como sempre, como no tempo da fala,
o caminho de sempre:
de lanterna acesa para alumiar o longo corredor estreito,
abrirei, ao fim, os portões altos
para escoar a noite nas asas das primeiras aves,
até aos limites da aurora.
Ao que parece, esta fotografia faz das mulheres, “bimbas ao serviço do prazer misógino de homens” que, pelas almas, “não são todos trogloditas boçais”. Portanto, mulheres que não sendo, não querendo ser, ou não se reconhecendo como bimbas, e todos os homens que não sendo, não querendo ser, ou não se reconhecendo como trogloditas boçais, não admitem, e apontam como utilização sexista, o que o decote de roupão de banho deixa espreitar: o corpo como objecto de desejo. Ó! Por causa de duas maminhas e um bocadinho de pele bronzeada e bonita. E tudo tão apetitosamente bem fechado e fácil de abrir como a mini stout presa pelo cinto. Não admitem e protestam. No nosso e-mail e num facebook perto dele. Acho bem isso de protestar, dá ar aos pulmões. O que não gosto nem um bocadinho, é do tom: “vamos ver quantas cervejas a menos esta campanha vai custar.” A menos, não sei. A mais? O preço de uma. Mas de certeza — apesar de só beber uma ou duas cervejas por ano, e sempre as mesmas Heineken ou Grolsch, que me sabem muito bem, mas caem mal, vou comprar e beber uma mini stout. E não garanto que não a prenda no roupão.
Há outras versões? Pois, pois há, mas nenhuma delas é esta. Velvet Underground rules!, mas se a Joana não acreditar, peel slowly and see.
Entre os nossos Queridos Mortos, ali à direita, por debaixo da cruz, está, agora, Jesus Cristo. Foi o Manuel S. Fonseca — que surpresa! -, quem o trouxe para perto, muito mais perto. Mas este Jesus Cristo que trouxe, não é, se calhar não é, aquele contado na Bíblia. Não completamente. E não tenho a certeza que não seja aquele Cristo tão Superstar que vi no cinema quando era pequena e gostei tanto. Não se parece muito com o da Eucaristia. Tem, no entanto, apontados alguns traços comuns com o Cristo de um poeta nosso, escrevedor, também, de exemplares cartas comerciais. E é poeta Ele.
sou eu que te abro pela boca,
boca com boca,
metido em ti o sôpro até raiar-te a cara,
até que o meu soluço obscuro te cruze toda,
amo-te como se aprendesse desde não sei que morte,
ainda que doa o mundo,
a alegria
Herberto Helder in A FACA NÃO CORTA O FOGO, A&A
Ps: uma, outro e mais uma chávena de chá, fazem um bom nightcap. É servida, Teresa?
A ingratidão também é um grandessíssimo pecado, Pedro Norton! Mortal, até. Justifiquei, com o maior respeito pelo pudor, a sua queda entre saias e flores para que a nossa Teresa mantivesse a opinião que tem da sua vilania nas alturas, e Zás!, é com falsas acusações de impureza que agradece. Na próxima vez que lhe der para ter asas, aprenda com os anjos que não caem a resguardar, como direi?, o que deve.
- Fotografia de Pedro Norton*
UM DIA, O MUNDO
Um dia, vi num tapete a árvore, disseram-me, da vida, toda em floração e, contra natura, em simultâneo fruto, doce fruto, provado ao alto por duas aves do paraíso, um tapete bordado para a oração, disseram-me, e eu acreditei que debaixo dos joelhos, em cada ponto, se construíam as vontades mundo, perfeita árvore contra natura. Um dia, o mundo foi um tapete de oração que eu pisava: uma rua com chão em cubinhos de pedra calcária, branca azul vermelha, bem assentes debaixo dos pés, podia-se caminhar sobre ele, mundo, uma oração. A cada passo abria-se, da geométrica e bem calcetada ordem, a germinação do futuro bordado, e quente, ao fundo, a terra escura, na humidade, exalava o desejo dele futuro. Às vezes, mesmo os pássaros abriam as asas e nem a arrumação apertada das pedras lhes continha o voo. Às vezes, até as caravelas enfunadas pelos passos, os pássaros adiante, aqueles pássaros rebeldes de pedras voadas, cheios de destino, e nem o apertado das pedras continha o caminho delas adiante: caravelas carruagens puxadas por pássaros abriam a cada passo o desenho da geométrica ordem até ao futuro bordado do mundo. Um dia, o futuro. As mãos pequeninas dão-se às mãos grandes dos pais, bem medida a palma contra a palma, tanto muito de diferença por crescer, um dia, mãos grandes iguais não se dão a ninguém, um dia, o mundo as mesmas pedras, mas encardidas pela pressa, nenhum voo entre as aves presas, nenhum caminho: caravelas de cenário pisado. E das montras de vidros altos, já só espreitam manequins, ninguém faz adeus porque ninguém parte para plantar uma árvore contra natura onde dois pássaros, sobre as quatro estações, vivam.
* prova da reincidência na rapinagem aqui — mea culpa, mea culpa e lailailai..
AS MULHERES SÃO O QUE SÃO
As mulheres choram. E os homens ficam enrodilhados numa culpa ressentida que não lhes pertence: as mulheres não choram por causa dos homens. O amor não é tão pequeno que caiba no sal daquelas lágrimas fáceis, ou tão leve que caia para se acabar quando secam. As mulheres choram porque às vezes a relação amorosa é uma arena. Não é sempre uma cama. Não é sempre uma mesa. Não é sempre a tontice leve e risonha de dois. A solidão projecta uma sombra de asas abertas e a dor dói. É natural.
MAS, ÀS VEZES, NÃO
Nem uma lágrima. Porque é mais fácil fugir, fingir, seguir no tempo e aprender a durar. Amar menos, confrontar menos, ter menos, ser menos. Por um período de tempo curto. Por muitos anos. Ou uma vida.
Um polvo é uma bicheza um bocadinho medonha, um bocadinho viscosa e muito feia — aqui está bem explicada a anatomia do animal. Se fosse gigantone, eu teria medo dele. Depois, é preciso ver que o danado, por conta de tanto braço e de deslargar tinta para ludibriar os seus perseguidores, presta-se à metáfora politicocriminosa e assins. Está a pensar no mesmo que eu, aposto, em… La Piovra, que é máfia em italiano de minisérie, e coisas no estrangeiro muito longe. Não?! Ó. Que espanto. O polvo metafórico é um bicho que se relaciona mal com outro bicho, porém utópico, o jornalismo de informação. No entanto, tem uma relação de codependência perversa com outra animalidade, desta feita, mitológica: a Hidra de Lerna que, toda gente sabe, tem um monte de cabeças que não pensam, apenas reproduzem o que a central cabeça dissemina, os tais dos mitos de desinformção que tanto podem servir ao, como destruir o, polvo. Em Lilliput, por exemplo, usa-se muito:
— agarra o Primeiro que é maricas, não fez o curso, é ladrão de outlet, asfixiou a MMG, e falou num restaurante!
— agarra a TVI que está a ofender o Primeiro!
— agarro já na Golden Share que é para veres quem manda…
— agarra-te ao jornal, que é quem manda e vê, mas é, se lês o segredo de justiça.
— deslarga o telemóvel que sai tudo em papel químico indestrutível e na primeira página!
— agarrem-nos a todos!, que eu não tenho liberdade de expressão… JÁ DISSE QUE NÃO TENHO LIBERDADE EXPRESSÃO! JÁ ESCREVI QUE NÃO TENHO LIBERDADE DE EXPRESSÃO! Ó DA GUARDA, PULHAS, DESLARGUEM-ME A LÍNGUA QUE ME QUERO EXPRESSAR!
Mais coisa menos coisa. Posto isto, vamos ao que do polvo interessa:
Vá ao mercado. À banca onde costuma comprar o belo peixinho. Compre uma dessas criaturas piovras, fresca, aí de 2 ou 3 quilos. Peça à senhora para limpar porque já chega de porcaria. Vá para casa. Já chegou? Passe a bicheza por água corrente. Jogue 3 dedos de água, um caldo Knorr e a própria da bicheza na panela de pressão durante 40 minutos, give or take. Não é pouca água não, não se arme em criativo que a piovra deita água que se farta. Num tabuleiro de ir ao forno, ponha um fundo de azeite e uma fartura de alhos esmagados. Barre o abuso do poder político, perdão, o polvo com massa de pimentão*, pimenta preta, pimenta branca, alho em pó, uma colher de café, de açúcar. E uma ou duas conchas da água da cozedura. Forno com ele. De vez em quando, regue-o com o próprio caldo. Vire uma, duas vezes. Quando comprou o polvo comprou batatinhas novas de tamanho médio pequeno? E porque é que não comprou? Ah, porque é orientada, tinha-as em casa. Então, não havia porque comprar mais. Muito bem, não quero cá desperdícios. Lave a batatas, com casca, em água corrente, até mais não. Coza as cabeças da Hidra, quer dizer, as batatas, com casca, em água e sal. Não pode deixar que cozam um segundo a mais. A menos, sim. Deve. Mas não é só uma entaladela. Retire-as e escorra-as. Dê-lhes uma trolitada leve com o martelo de cozinha. O suficiente para lhes abrir as cabeças a ver se lhes entra o juízo em falta. Faça uma fritura rápida em óleo bem quente – exactamente igual à das batatas fritas, mas com menos tempo. Escorra –lhes todo o óleo e passe-as por papel absorvente. Pique finamente alho fresco e salsa, deite sobre a parte aberta das batatinhas ajuizadas e regue com um fio de azeite. Sirva com o polvo. Coma tudo para ser um lindo menino inteligente. Se for menina, é linda e inteligente de certeza.
* A massa de pimentão que se vende no supermercado, não vale nada. Compre num mercado, de preferência numa localidade pequena, onde os próprios que a produzem, a comercializam. Ou então faça você mesma uma quantidade maluca, congele, e vá usando.
** Não, não me esqueci do sal: entre o próprio do animal, a massa de pimentão e o Knorr, fica comme il fault.
*** Estas batatinhas também vão lindamente com bacalhau assado no forno.
Foi a Joana quem trouxe para este blog a Bellatrix. Está aqui registada a última presença dela. Mas antes, muito antes, ainda do outro lado do espelho, a nossa Joana assinava Bellatrix — avolumam-se provas de uma alter Joana. A sombra de. Porém, desejada. Ora isto de outros eus, mesmo eus maus de salão, subordinados dos eus crescidos é, como direi?, giro que se farta. Porque se eu fosse dar à Joana uma representação, como não lhe adivinhava o tipo de dark side, nunca por nunca teria sido a Bellatrix. Pergunto, então, à nossa Teresa, esperando que ela passe a pergunta a outro e não ao mesmo:
1. Teresa, quem é a sua menina má? Quem é que responde por si quando se assanha?
Pode escolher de um filme, de um livro, da banda desenhada, lailailai, de onde que quiser, logo que seja público. E não há nada que impeça que a sua menina má seja um rapaz mau.
2. Se a Teresa fosse um herói, ou mesmo um anti herói, quem seria a Teresa?
Valem todos, desde o prémio Nobel da Física ao Ideafix. E não esqueça: passe a outro e não ao mesmo. Estou curiosa!
FAÇA VOCÊ MESMA #20
Categoria: gracinhas
Esta maldade é, na realidade, de duas valências: a prestação um amoroso cuidado e uma expressão artisticoafectiva. Use a gosto, de cada vez que a oportunidade se apresente, independentemente da estação do ano. Não espere pagamento, recompensa. Sequer reconhecimento. Por uma razão de mistério, enerva os beneficiários dela. Eles. Aqueles que nós sabemos quem são.
Os homens são criaturas pilosas. O seu amado marido/namorado/híbrido não será excepção. Em que classificação o seu mais que querido encaixa?
1. é um tal de metrossexual que se vai despelar todo para a esteticista, a toque de cera ou de laser, até ficar liso e luzidio como a Barbie, ou como uma enguia nadadora de piscina olímpica, na esperança que você o vista, dispa e leve ao cabeleireiro a fazer madeixas e a tomar chá com as outras bonecas suas amigas;
2. é um gorila daqueles de mindinha unha comprida e tufos de ogre a sair-lhe pelas orelhas e nariz;
3. é um homem normal, ie, desde que começaram com mariquices de sociocatálogo urbano, um uberssexual. Um daqueles com bom senso e sobriedade que não pinta o cabelo, não usa brincos, nem confunde higiene e compostura com estética de estereótipo de futebolista. Ou de rapper.
Se o seu amor amado é um 1 ou um 2, minha querida: é karma, você foi uma lambisgóia feroz e agora está a pagar os seus pecados. Trate-o a pão de ló na esperança de que ele, se é um 1, se apaixone pelo mecânico; se é um 2, olhe, que se apaixone pelo mesmo mecânico. Mas fique por aqui na mesma e leia tudo tudinho porque o seu próximo marido, uma vez saldadas as universais dívidas, será um 3.
Um marido/namorado/híbrido equilibrado, se se depila, fá-lo com a inteligência que não admite excessos. O que significa que continuará a ter áreas pilosas. Nas coxas? No peito? Tanto faz, nós gostamos de ambas as partes ainda que, como no franguinho, preferindo esta ou aquela. Até porque a perna, ao contrário da coxa, nos rapazes e nos frangos, tende a ser fraca. Fina. Adiante. Para além da questão dos pêlos, homem que é homem, vá-se lá saber porquê, dorme como se tivesse morrido e celebra-o ressonando como se não houvesse amanhã – o indissociável nexo onírico. Quando o seu marido/namorado híbrido estiver nesse estado de (in)consciência pense:
a) que lindos e românticos são os monogramas com as iniciais do casal que antes se bordavam na roupa branca;
b) o óptimo é inimigo do bom, cada um faz o que pode com o tempo que tem.
Postos estes pensamentos de parte, vá buscar a gilete da barba do seu amor amado. Exponha a boa coxa ou o belo peito do seu marido/namorado/híbrido. Pense que arte moderna é coisa para dimensões que não cansem a miopia: quer-se tudo de bom tamanho. Estime a sua intervenção aí para dois palmos de altura para dois dedos de largura — o máximo que conseguir, portanto. Não obstante, seja modesta nas suas ambições para que estas sejam exequíveis. Planeie, não um amável monograma, mas a sua linda inicial. Grande. (Não seja restritiva: imagine que ontem não lhe deu um presente, faça-lhe um coração hoje!) Pronta? Desbaste! Ai, como é dura a vida.. enquanto o Monstro permanece desacordado, a Bela trabalha em benefício dele, sobre ele próprio, fazendo-o tela para a expressão do amor. A dedicação é abnegada, fazer o quê? Deixe a linda pele tão bem amada do seu querido marido/namorado/híbrido, livre de indesejáveis pêlos. Ó que bonito, o monogramado Monstrinho dormido. Pode ser que amanhã tenha um jogo de futebol. Ou vá para o ginásio e termine o esforço no jacuzzi. Que tenha programadas férias caribenhas para cortar o Inverno Europeu. Na mais discreta das hipóteses, haverá sempre o duche e o espelho matinais. Quando ele começar a dizer despropósitos, abrace-o e diga-lhe ao ouvido: de quem é a culpa, se não tatuaste o meu nome?
Ganhos: já acrescentou mais um ano de vida ao seu casamento.
Conclusões: os homens precisam de se sentir livres: cabe-nos mostrar-lhes que, infelizmente, não nos pertencem.
Toda a gente gosta da Bimby. Quem sabe cozinhar e quem não sabe. Quem cozinha e quem não cozinha. Quem recebe e quem tem uma família grande. Quem tem uma família pequena. E quem tem uma extraordinária e misteriosa, porém politicamente correcta, família unipessoal, também, que não é menos que os outros a não ser em número — ele há contradictions in terms, mas esta é do melhorzinho. Toda a gente gosta da Bimby. Eu não. Sou neurótica e controladora: não quero que apareça feito, quero fazer. A Bimby que queria ter é esta. E chama-se fogão e forno. Lacanche, pois claro.































