
Sorrow will pass, belive me. Life is so unimportant.
Lermontov a Vicky in THE RED SHOES
Cresci, crescemos, creio, com a ideia de que um botão vermelho filme, sapatos vermelhos, pressionado num gabinete longe de casa, de todas as casas, abriria qual cortina de teatro o início do fim do mundo, o último acto, a luz sobre a ausência em palco. Foi no tempo dos espiões, enquanto as gravatas dos homens passavam de estreitas a largas, os cabelos deles desciam devagar até tocarem os colarinhos e no rosto avançavam patilhas enquanto creio que crescíamos. Em vermelho filme, sapatos vermelhos, o botão, e havia também, ouvi, um telefone vermelho filme para o fim debaixo do comboio onde os sapatos, contra vontade, dançariam a morte, mesmo antes do botão carregado soaria o trim trim dos sapatos vermelhos, depois o botão, o princípio do fim e ao fim, o fim do mundo. Debaixo do comboio.
Os soldados, de cabelo mais comprido à chegada, patilhas à chegada, nenhum à chegada era o mesmo que fora à partida, nunca somos, o mesmo era outro à chegada, somos outros, os soldados iam e vinham em barcos enormes. Horas no cais, ao colo, esperei o meu primo com uma blusa nova, marinheira em riscado azul e branco que a minha avó mandara fazer na máquina de tricot grande como um piano pequeno, um tear de segredos com mínimos dentes metálicos, se visto de cima da cadeira para lhe ver as entranhas tricotadeiras, milhares, pareciam-me milhares alinhados, ligados e bicudinhos, a minha avó tinha isto das máquinas, a máquina de lavar louça da primeira memória era um monstro em duas partes, duas portas, podia enfiar-me por qualquer uma delas e desaparecer, desaparecia, o monstro não se deixava mexer, metia medo, a louça era lavada à mão, a minha avó dizia: mas se eu já lhe ensinei a montar a besta, qual o quê, mostro-lhe outra vez, não tenha medo, não parte, qual o quê, a louça lavada à mão. A besta dormia enquanto a tricotadeira cantava, da tricotadeira, boca rasgada cheia de dentes de metal, ninguém tinha medo, ela cantava para um fim macio de lã, a blusa riscada, eu marinheiro num colo de horas à espera de outro primo, um desconhecido de patilhas, cabelo comprido na gola, escurecido por África desde a pele até à alma encardida, outro. A plataforma do cais era larga, muitas pessoas, o navio enorme em manobras de horas lentas, ao colo, tinham morrido todos, ele vivo, o jipe explodira, uma mina, na verdade foram dois jipes, no da frente, no dele, ele vivo, todos mortos, e sequer alguém ouvira o telefone vermelho filme, vermelho fim aos pedaços desmembrados de carne quente, sequer alguém soubera que carregava no botão do mundo, era uma cirurgia local, era uma morte localizada, ultramarina e fardada, vinham os mortos e os vivos no mesmo barco, uns pelo próprio pé, os outros descidos aos bocados dentro de caixões fechados, todas as mãe eram a mesma, todo o choro a mesma lágrima, o coração feito em iguais retalhos sobrados de estilhaços, o ronco do barco no colo de horas lentas era a lágrima, a moínha do sofrimento audível, o ronco, uníssono doloroso, o sofrimento à mostra, uma mulher tinha uma saia cor de vinho e uma blusa preta, o cabelo curto despenteado, era larga, dobrada para a frente, nem um grito, era um gemido, o mesmo gemido do fundo do navio, quase um nada de já não poder, a nudez do desgosto à mostra debaixo do comboio. Horas.
Ninguém quer os sapatos que dançam até debaixo do comboio, não enquanto não tocar o telefone, ninguém carrega no botão vermelho enquanto não tocar o telefone, e mesmo depois: o plano de vida e a vida são mapa incoincidido com o caminho, uma só coincidência: não sinalizam as minas. O mundo acaba assim, cirúrgico, para uma só pessoa, uma pessoa de cada vez, o comboio avança na plataforma do cais, morte à chegada ou à despedida, serve-se a morte, o telefone toca sozinho, o botão dispara sozinho, o mundo acaba, cirúrgico, só para uma pessoa. Ninguém calça os sapatos vermelhos. Ninguém pode tirá-los dos pés.