Aqui há uns bons anos deu-me para fazer histórias em rimas bebés. Já se sabe, para bebés, bebezices. Primeiro, eram pessoais e intransmissíveis como um presente é. Como eram gostadas, apeteceu-me fazê-las para as crianças. E fi-las. Variadas: desde personagens da história, a histórias já mil vezes contadas e mais uma vez recontadas, ou de assuntos quotidianos. Pensei mesmo em pedir que me amanhassem uns desenhos para as apresentar a uma editora. Mas nunca fui boa de pedidos, não houve desenhos, não apresentei. Foi bom assim mesmo. Diverti-me a fazê-las. Hoje encontrei uma. Fiquei contente: fui logo roubar um Rato. Aqui.
O RATO DOUTOR DIZ: SÓ É VALENTE QUEM TEM MEDO
Estava deitado
Quase a dormir
Bateram-me à porta
Eu fui abrir
E para meu espanto
Muito espantado
Quem é que estava
Do outro lado
Quase rente ao chão?
Um Rato tão pequenino
Bem mais baixinho
Que a pata do meu Cão
E carregado com um enorme malão…
Então vê-me neste estado
Morto de cansado
E não convida para entrar
Que falta de educação!
E quem é o senhor?
Ora essa! Sou o famoso Rato Doutor
Aqui ninguém está doente
Mente mente mente
Tanto que lhe abana o dente
Da frente
Não sabe que de mentir
Até um dente lhe pode cair?
É vá de rir, o Rato Doutor, todo contente
Da mentira convincente
Vá, ande, mostre a língua
Como se fosse malcriado
E deixe auscultar esse chiado
Não fuja
Não vê que não lhe faço mal
Faço-lhe bem, aqui ou no hospital
Dou-lhe remédios e mesmo picadas
Às vezes doem um bocadinho
Outras nem se sente, é cuidado mansinho
Seja valente seja um samurai
Se quiser gritar ai ai
Faça um kiai
Sim, mesmo os guerreiros
Mais que poderosos
Sentiam medo, mas deixavam-no sair
Disfarçado…
Porque eram vaidosos
Não queriam chorar
Respiravam fundo
E toca a gritar
Antes de atacar
Força. Grite tudo uma só vez:
Um grito assusta o medo, fá-lo passar
E ficar calmo para se tratar
Depois de tratado
Vou para outro lado
Com o meu malão
Vou bater à outra porta
De outro valentão.
ESTÁ LÁ? DAQUI FALA O OVO
Adoeci — já foi há duas semanas, ou mais. A minha irmã, porque é mais nova, aproveitou logo para se armar em usurpadora que é o que sempre faz quando me ponho a jeito, isto é, armou-se em mais velha.
A usurpadora ao telefone:
– estás medicada?
A vítima da usurpação:
– todos os dias do mundo tomo uma fartura de vitaminas, mais ácidos gordos e o que raio aquela gente enfia nos comprimidos, não achas que chega?
A usurpadora ao telefone:
– vou dizer à Mãe.
A vítima da usurpação:
– és mesmo queixinhas.
A usurpadora ao telefone:
– comeste?
A vítima da usurpação:
– e o teu filho mais velho, comeu?
A usurpadora ao telefone:
– já começa a desconversa. Olha, ele está farto de dizer que quer ir brincar contigo, andou a patear a casa toda, a fazer bum-bum, a rugir — são as lindas coisas que tu lhe ensinas-, e já foi dizer ao pai: Pai, precisa lanterna pa vê enómes pegadas de dinossauo. Quando lhe disse que estavas doente, foi buscar a maleta de médico. Vou-te levar uma sopa. Sopa sei que comes sempre.
…
A maleta do meu sobrinho tem um estetoscópio, um martelo de reflexos, aquela coisa de ver os ouvidos, outra para a língua, sabe Deus mais o quê, e um telemóvel de serviço. Depois de me auscultar para ouvir os miaus, de me bater nos cotovelos e na barriga para ver os reflexos – é um método novo, do melhor que há -, de me mandar abrir a boca, escancarar os olhos e espreitar os ouvidos, rezou-me a sentença:
– ponha água, Tatia, vai passá. Dou beijinho. Já passou!
Eis senão quando, e já curada por milagre em nada inferior ao dos leprosos, me diz, passando-me o telemóvel:
– o tufone, Tatia, é pa si.
– quem é?
– é o ovo de um dinossauo muito gande!
A medicina e a paleontologia são unha com carne, é o que é.
MAIÊUTICA
– já reparaste na ironia?, no amor, o poder está todo do lado do desamor, do lado do não. Não te quero. Não fico. Não te amo.
– acabaste de dizer, isso é o poder do desamor, não do amor.
– pensa, qualquer coisa serve: fome-comida. O poder maior de uma coisa está sempre do lado de fora da coisa. O poder da porta está na chave, no trinco, no fecho.
– então a anorexia, ou a greve de fome, a resistência passiva, são só um contra poder?
– sim, apenas isso: contra poder não é poder, é só oposição: não há resistências passivas, só submissões agressivas, mas nem por isso menos submissas: o poder esteve o tempo todo do outro lado, o não não se fez sim, foi feito por erosão.
– isso significa o quê? Não há meios de retoma do poder?
– há. Basta não querer abrir a porta fechada.
– isso é batota, a fome não desaparece.
– desaparece, se em vez de comeres, beberes.
In human affairs there is nothing from which he does not extract enjoyment, even from things that are most serious. If he converses with the learned and judicious, he delights in their talent; if with the ignorant and foolish, he enjoys their stupidity. He is not even offended by professional jesters. With a wonderful dexterity he accommodates himself to every disposition. As a rule, in talking with women, even with his own wife, he is full of jokes and banter.
Erasmus sobre Thomas More in Life and Writings of Blessed Thomas More
A DIFERENÇA ENTRE OU E EU
Eu não sou o Vasco Pulido Valente. Não sei o que ele sabe. Nem quando leio o que ele lê, lemos o mesmo. Quando penso no que ele pensa, penso outro pensamento. Mas também, há que ser justo, não preciso de ter razão — ainda que para a ter, tantas vezes baste cruzar os braços, esperar pelo pior e dizer: chegou. Faço mesmo gosto em não a ter, a tê-la assim. Por muito que Vasco Pulido Valente seja imenso e respeitável, até cultuável, ou porque é cultuável - não me decidi — , pasmo diante do que afirma, apesar de, dele, não esperar outras afirmações que não as terminais e conclusivas.
Creio, pelo contrário, que a utopia não é um não lugar de chegada, apenas uma raiz: um bom não lugar de partida. Esses não acabam. Nunca.
Fui comprar o meu perfume. Estranhei: embalagem branca e Eau de Parfum?! Mas pronto. Ó diabo! Ó diabo! Não é o mesmo. Pedi esclarecimentos. Informei-me. Estou doente. O meu perfume foi “reinterpretado” pelo novo nariz da casa Dior. Há já algum tempo. Tenho tido sorte. Tenho comprado de stocks. E agora? Se alguém encontrar Diorissimo Eau de Toilette, diga-me — significa que é anterior a 2009, anterior à “reinterpretação”. Diga-me aqui mesmo. Please, please. Merci.
Ó VALHA-ME EDMOND ROUDNITSKA!
O que é que Marcel Rochas, Elizabeth Arden, Christian Dior e Emile Hermès têm em comum? Edmond Roudnitska. Perfumista de todos eles. Quem? Fixe o nome, merece, prometo que sim, e aposto mesmo que o seu nariz já foi feliz por causa dele. E se é rapaz também fez feliz o nariz de alguém – devia era ter sido o meu, seu malvado: há lá melhor cheiro nas narinas de uma menina que a rapaz fresco de banho, fresco de folhas, fresco de manhã fresca de Primavera e mar ao fundo, seco de montanha perto? Há, mas isso é depois, é cheiro a sono acabado de acordar. Mas este perfume onde cabe tudo o que um rapaz em condições deve ser, um rapaz de se comer, portanto, é dele, de Edmond Roudnistka e mais não digo, se não o meu nariz apaixona-se. Olha!…
Nariz
Roudnitska
Feliz
Perfumista
Viu, que linda mnemónica de escola? Conto só um bocadinho antes de me zangar muito: antes dele, usavam-se uns perfumes doces e gordos de morrer de dor de cabeça e de náuseas. Já sei o que está a pensar. E Madame Chanel? Sim, é verdade que sabemos todos conjugar Nº 5 em gotinhas nuas de Marilyn, um frasco vendido em cada 55 segundos. Ou é 1 minuto e 55 segundos? Não sei. Mas que diabo, se até a minha avó trocou o famoso Nº 5 pelo Rochas Femme. Sabia que o Nº5 foi de serem várias as amostras levadas para que Coco escolhesse uma entre as que o famoso nariz de Ernest Beaux preparara em frascos etiquetados e numerados? Foi o frasco Nº5. Fase russa. Ernest Beaux havia sido perfumista de grande sucesso na Rússia dos Romanov, estava habituado a opulentos aromas, cheios, ricos e ostentados, e era amigo do então amante de Chanel, Dimitri Pavlovitch, um dos primos do czar Nicolau II, que os apresentou em Cannes. O resto é história como será o tweed da fase inglesa durante a relação com duque de Westminster. Para Chanel este aroma incorporava nas suas notas o desejo que tivera de um odor completamente artificial, um cheiro que se vestisse como uma peça de roupa segundo as palavras usadas pela sua própria língua e boca. Procurava um perfume que fizesse uma mulher cheirar à ideia que tinha de mulher e não, ó nunca, a flores.
Derivemos um tudo nadinha. Depois deste bem conseguido sucesso seguiram-se muitos, de outras marcas, pesados, grosseiros, gordos e enjoativos. Passaram mais de vinte anos sobre os loucos anos vinte, sobre o Nº 5, uma nova mulher saíra das fábricas do pós guerra, do esforço da guerra, e à força de uma necessária igualdade de direitos inventa-se uma impossível igualdade de géneros ditos opostos — na verdade complementares. As posições extremavam-se em miudezas de estilo divisoras de mulheres, guerra aberta, sou feminista porque tu não o és suficientemente, mulher homem-mulher pin up, duas irrealidades.
É por esta altura que se dá o escândalo. Christian Dior volta a definir as cinturas abolidas. As maminhas. A linha curva. As saias abrem-se em metros e metros de despesismo e tecido para uma corola de flor. Um escândalo. Mas será? Não será antes uma naturalidade o coração desejar o que não teve? Não se sonhou durante a escassez da guerra com a prosperidade da paz? Ao sofrimento agudo não apetece a macieza curva? A fome pode querer um bife, mas a saciedade prefere petits fours.
A Edmond Roudnitska, em 1956, apetecia uma mulher que cheirasse a flores. A lírio do vale, flor de Dior como a camélia é ainda a de Chanel. Não a flores avós. Flores acabadinhas de florir, simples de campo, sofisticadas em bouquet. Criou, porque foi essencialmente um criador, um homem que pensou o perfume para fazer perfume, criou, dizia, uma molécula. Sim. Sintética. Até parece que foi a primeira vez. Nem a segunda, quanto mais. Mas a primeira assim mesmo. Porque aquela flor que escolheu para uma das notas essenciais, o lírio do vale, não é extraível. E deu-lhe jasmim, ylang ylang, não sei que verdes nem sei que mais, sei que rosas e lilazes, sândalo. Fez o Diorissimo e um cisma na perfumaria. Agora não se nota, claro, há florais por todo o lado e cítricos e chipres, orientais e o raio, há tudo. Só não há desde 2009 o Diorissimo que sempre houve. Foi reinterpretado pelo senhor François Demachy. Ficou primo do J´Adore. Mas mal. Gritado. Ácido onde foi fresco. As más línguas dizem que a fórmula era demasiado cara para o gosto da LVMH, detentora da Dior. Não quero acreditar nisso. Que após a substituição dos constituintes que a IFRA obrigou, se alterava significativamente. Nisto não acredito. É assinatura. Nota-se. É um erro. Aquela assinatura tem o seu nicho. Esta tem o dela. Parecem o mesmo, contudo não são.
O Diorissimo é o meu perfume. Tive outros, parei neste. Não quero outro. Um perfume é como um amor. Não é para trocar. É para ficar com ele logo que se o encontra, e de cada vez que se percebe que ele está ali, pensar, ai que bom, e no resto do tempo não o perceber e ser feliz dele com ele, o que é ainda melhor. O Diorissimo cheira à aurora primaveril nas primeiras notas, as altas, as que primeiro se sentem, o lírio do vale ainda orvalhado da noite, frio, cresce ao centro para o jasmim debaixo da luz, mas leve porque a temperatura não é quente demais e está refrescado pelo verde tenro das folhas, doce e leve, é Maio, uma brisa, e ao fundo, na segurança mais seca de rosas antigas, na memória, no lilás, o sândalo. Longo. Muito inteiro. Complexo na simplicidade. Inalterável, quase conservador não fora tão fresquinho. E agora? Chanel dizia: uma mulher sem perfume é uma mulher sem futuro. E agora?
Chanel tinha uma inteligência interpretativa, ancorada no tempo, percebia as tendências e isso permitia-lhe trazer o futuro para o presente. Era permeável a todas as influências. Edmond Roudnistka tinha uma inteligência criativa, voltada para atemporalidade que é o dia a dia da eternidade, e por isso trouxe a beleza que sempre existiu para dentro de um frasco. Juntos teriam sido uma equipa portentosa. E eu, decerto, não estaria aqui à beira de um ataque de nervos porque teria perfume inalterado até ao dia do juízo final.
Ps: sabe pôr perfume? Não me diga que é como aquela gente doida que nos faz ficar com a cabeça a estalar de tão mal o usarem — foram a banhos. Ou parece que não pôs nada? É fácil.
1. parfum: uma linha, a mesma e chega para tudo, na parte de trás do pescoço, não não é das lindas orelhas, decote, pulsos e parte de trás dos joelhos.
2. eau de parfum: borrife uma, duas vezes no máximo o ar diante de si e depois passe por ele.
3. eau de toilette: borrife, uma vez directamente na roupa, outra no cabelo.
* Não nos largam!, é que não nos largam. Parece mentira…
Mr. Fonesca, qual é a sua mais antiga memória de viagem?
Olhe, parece-me pouco profissional, mesmo indigno da publicação que representa, não só que insista em trocar o nome ao nosso Manuel Fonseca, mas que nem se tenha apercebido que já terminou a anterior entrevista. Posso não ter os encantos do dr. Fonesca, perdão, Fonseca, não sou, por isso, de se jogar fora. Ou foi um lapsus linguae e quer que o chame de volta? Ou só lhe quer repetir a pergunta e podemos deixar o tio Freud no ó-ó dele?
Como?
Deixe lá, assim como assim, perde-se na tradução como a da outra. Bem, a mais antiga memória de viagem, diz você. Azarucho. Não é a melhor.
O irmão mais novo do meu pai corria. Na verdade corria sempre, mesmo fora dos circuitos. Era o bebé da família, mimado de miminhos, filho de todos os irmãos, herói e mascote. Bebé casado e pai. Naquela manhã foi ele, que nunca ia, deixar o filho ao colégio e ao voltar para a quinta, correu contra si mesmo ao fim de uma noitada mal dormida, feliz de amigos, copos e fados. Despistou-se. Morreu logo. O meu pai apareceu em casa: ardia em velocidade como se esta fosse transmissível de mortos para vivos. Não havia avião diário, não havia tempo, não havia nada. Carro. A minha mãe no banco da frente ao lado do meu pai. Eu, atrás, ainda antes dos cintos obrigatórios, três anos, adorava ir deitada na chapeleira a fazer adeuses sorridos aos passageiros nos carros que de lá via muito bem. Quilómetros. Não recordo onde passámos a noite, lembro o quarto, as escadas que desci para o pequeno almoço, perfeita e nitidamente, a guarda das escadas em ferro, a madeira do corrimão, tão escura, verniz demais, a eterna calma deslizante da minha mãe. Outra vez no carro. Foi perto do Porto que comecei: quero um copo de leite quente, quero um copo de leite quente, quero um copo de leite quente. Agora não há onde parar. Quero um copo de leite quente, quero um copo de leite quente. Foi a única vez. Foi a primeira vez. A última. Nem vi. Nem me lembro de o ver voltar-se. Ao meu pai. Apanhei um estalo na cara. Imenso como a vergonha de o apanhar.
Um impacto irrepetível, o da primeira viagem, claro!
Um impacto, não, o impacto da mão na cara, sim, irrepetível. Lembro-me de ter decidido que nunca mais apanharia uma chapada na vida, ai isso, lembro-me. Nem uma lágrima. Mas custou-me. Foi cá um esforço… Bebo muitas vezes leite quente quando paro numa viagem de carro. O impacto do embate da morte também. O do carro: vi carro todo enfiado numa árvore. Parecia muito velho.
Associa sempre as viagens a pessoas?
Não. Às vezes são apenas lugares, coisas, acontecimentos, o que se pensou que seria e o que é de facto, também, como disse o Manuel Fonseca, a ausência, aquele ó gostava disto contigo, onde estás — e já agora, quem és? Muitas vezes a pessoa que nos acompanha não está presente. Já morreu. Percebi isso logo naquela viagem. Ou apenas não está connosco. Não existe. Ou sonha-se que talvez exista e por isso existe enquanto a sonhamos. Por estes istos todos, faço sempre como nos filmes, como na canção do Sting de quando era miúda e ainda ele era Police, quando pensava que era crescida, Message in Bottle: deixo um recado mínimo numa garrafa de Coca Cola, na última noite, na mesa de cabeceira. Há Coca Cola em todo o mundo, já reparou?
Tudo muda quando se passa a viajar profissionalmente. Já nem se olha lá para fora!
Não sei. Sou sempre igual. Ou não sei ser profissional ou não sei ser amadora. Não me faz diferença, não faço diferença, sou de uma monotonia confrangedora.
Prefere os hotéis de luxo ou os familiares?
Há hotéis pequeninos de luxo familiar, prefiro esses. Não tenho vontade de passar mal. É a puta da idade. Ou falta-me um argumento justificativo que aja como uma varinha mágica e me altere a percepção, um que faça de uma abóbora uma carruagem. Mas sou a pessoa que conheço que mais gosta de hotéis. Podia viver num. Pelo menos penso que poderia, de facto, não sei. Também gosto de pensões. As do Wong Kar Wai, as dos romances de espionagem, enfim, dessas.
O dinheiro é importante quando se viaja?
Prefiro ficar em casa a ver o Mezzo com um belo vinho branco, doce e fresco, um tinto e tapas, ou fazer uma ligação directa à Amazon, a ir onde haja o que quero e não ter dinheiro para o bilhete. Ou para o restaurante, o que for. Prefiro ficar a ler o mundo, mesmo que seja o mundo de alguém, ou a escrever, do ficar que à porta a pensar: está-me fechada.
Escreve?
Num cemitério. O mesmo do Manuel.
Perdão?
Estou morta. De onde, e onde, queria que escrevesse?
Num hotel, por ordem de importância, o que é que mais valoriza?
Se excluirmos o óbvio da limpeza e da segurança: localização, sou fanática da localização, é muito importante para mim, preciso de uma localização estratégica, definida em função do perímetro pretendido. Quanto ao resto, cama, almofadas, temperatura, varanda, varandim ou vista, pelo menos uma vista. Tenho fraqueza por esplanadas, pátios. Mais uma vez, o exemplo do Manuel serve-me: em Lisboa, York House — ainda por cima, come-se bem. Em NY também há uma York House, é o 414. É a York House lá do bairro, de verdade que é — vá, pronto, mais singelo, mais pequeno, sem restaurante, enfim, menos tudo.
Imagino que tenha episódios pitorescos…
Não, sou muito romana em Roma. Já viu o Super Man na cabine a trocar de roupa? Sou eu. Ser estrangeiro cheio de mariquices dá muito trabalho, não se come isto, não se faz aquilo, vai-se a sítios esquisitos, tira-se fotografias à frente das coisas, tenho embirração a tirar fotografias quanto mais à frente do que quer que seja, não tenho paciência para ter muitas mariquices.
Do passado, em viagens, de que é que tem mais saudades?
De ir a Paris. Desde pequena, de cada vez que se marca, planeia, pensa, acontecem-me despropósitos. Até já fui parar a Cannes numa viagem a Paris — onde comi o melhor entrecôte da minha vida, diga-se. Só a Paris é que nunca. É um mistério.
Já perdeu as malas?
Não. Mas já me as perderam. Só me perco a mim. Em todo o lado. Mesmo dentro da cidade onde vivo. Chamam-me despistada, contudo não sou. Vou é concentrada noutra coisa e falha-me o GPS. Já percebeu melhor aquilo da localização dos hotéis? É para me perder controladamente. Vou parar a sítios inacreditáveis. Eu, pelo menos, estou lá e não acredito. Às vezes tenho de pedir ajuda para sair. Tem corrido bem. Mesmo as pessoas tidas por pouco recomendáveis são, têm sido, muito prestáveis: um assaltante de carros, há uns bons anos, ao fim de me explicar três vezes o caminho, e isto foi quando Lisboa tinha os Olivais, levou-me a casa. Nunca tinha ido aos Olivais. Fiquei a conhecer. A polícia também já me levou, ou melhor, foi à frente. Com luzes e tudo. Gostei muito.
Ameaças de acidente?
Em Portugal. Noutra altura, nem tinha carta, tirei muito tarde, obrigaram-me a tirar, fazia voos domésticos com alguma frequência. A minha companhia aérea preferida, foi uma fase, já nem existe, ou não lhe sei a existência, ninguém a gostava então, era a LAR. Se fosse eu a tratar dos bilhetes, qual TAP verdadeira, qual Portugália de pastelinhos de nata quentes. LAR. Os aviões, brinquedos, estavam sempre em cascos de rolha, no fundo do fim do aeroporto. Tanto podiam ter uma escada como uma caixa. Hospedeira? Nicles. Galley? Pois sim… Uma cortina cor de laranja separava o cockpit dos passageiros. Ao fundo, uma geleira de praia com latas e garrafas de refrigerantes, cervejas e águas para pessoal e clientes em modo, se quiseres serve-te, se não quiseres não te sirvas. Os pilotos com um ar desgraçado. Nunca vi umzinho só composto. A preceito, nunquinha. Os estrangeiros, nunca voei com passageiros portugueses, tinham cara de escândalo, de composição mental de texto para livro de reclamações lá na escuridão da agência por onde vinham, ó Portugal sub sahariano, God save us all. Adorava aquilo, eu — mas não mostrava, sonsa, punha-me inexpressiva, muito superior de você é much ado about nothing que é para aprenderem inglês. Uma vez pensei, zás, estamos lixados. O avião cheio — para aí uma dúzia de lugares. Todos em posição de emergência. Transbordavam dos bancos. Todos. Pousei o leque em cima dos Maias. Olhei pela janela para morrer com uma vista bonita. Estava um dia imaculado, um postal, todo dos azuis de mar, céu e seda em que o Manuel Fonseca acordou transatlântico, e não sei como nem porquê, tive a certeza, não, não é hoje. E voltei a pegar no leque. Não foi.
Pior: já viajou ao lado de pessoas famosas?
O Pedro Norton e José Navarro nunca me dizem em que voo vão.
Perdão?
Perdão?!
E nos hotéis?
Se sim, não reparei. Uma vez, na rua, dei um encontrão a um senhor. Disse-lhe, desculpe-me, e segui. Era o meu avô. As minhas, chamemos-lhes distracções são metade das histórias à mesa de Natal. Mas ainda não perdi a esperança de encontrar o Pedro ou o Zé num hotel, logo ao pequeno almoço.
QUASE GAUDÍ: CASTELO DE AREIA E CONCHAS
Antes que o fim da tarde viesse desfazer
os minúsculos nós, tão apertados,
nos fios compridos dos cabelos finos,
empeço de mar, vento e areia o dia inteiro,
o balde vermelho, a pá de cavar o fosso.
O guarda sol aberto, uma casa na duna.
A mãe estendida à sombra.
Mais uma corrida até à água, carregar água, que peso,
tornar duras, com palmadinhas suaves e molhadas,
que mãos pequenas, as paredes desse castelo tão novo,
acabado de fazer
e já quer cair de ruínas antes de se enfeitar de conchas?
Não, não. Não pode pode ser.
Na maré baixa, os caranguejos
pequenos, muito encarnados, este verde é o quê?,
isto aqui à volta das bocas? Talvez limos, pegue com cuidado.
Eu bem disse, com cuidado,
vire-o para cima. Olhe, Mãe, está andar para trás e de lado,
vai para o mar? Conquilhas!
Se as quer apanhar, deixe a água no saco.
A onda levou metade do castelo,
a outra metade, moura de conchas brilhantes ao sol,
o fosso cheio, os melrões delicados em caracóis de areia escorrida,
vista daqui, de longe, olhos de crescido, é quase Gaudí.
A GAIVOTA
O meu avô, filho do meu bisavô Manuel, tinha, aos 15 anos, uma gaivota de estimação. Encontrou-a no Inverno, na praia, quase morta, uma pata partida. Levou-a para casa, gota a gota de água com açúcar no bico, uma tala.
O meu bisavô, nessa noite:
– trate de não se animar que lhe morre, está muito mal. E não a tire do sótão. Se a mãe descobre, já sabe. Depois ainda tenho ouvir que a culpa é do pato.
Não morreu. Levou muito tempo para se reestabelecer. Não tinha só a pata partida, estava muito fraca de a ter partido. Aos 15 anos, um Inverno inteiro e mais parte da Primavera duram uma eternidade. Aos poucos, curou-se. Ao início, voltava todos os dias à janela do sótão em gritos latidos como só as gaivotas sabem. E, acredite se puder, nos dias de ginástica, aparecia-lhe no liceu, imenso par de asas para uma aterragem suave, ao ombro, como um papagaio de pirata.
Depois foi espaçando as visitas até desaparecer: demora algum tempo até se conseguir devolver um rapaz à civilização.
Talvez não seja a mais saramaguiana das pessoas. Li. Claro. Tive mesmo gosto em ler O Ano da Morte de Ricardo Reis. De manhã até à noite, nem pus o pé no calor da rua, um quarto de sombra, de barriga para baixo, estendida na cama, a ler, numa pensão baratíssima: pelas seis, mesmo antes da primeira luz, da rua, a voz de um cigano numa saeta até ao céu, atravessou paredes, janelas fechadas, e lá foi até muito mais alto.
Foi na exacta pensão onde já estivemos todos. Nunca me esqueci, ainda que jamais tenha voltado ou a lugar parecido. Pode ser um motel duvidoso, ou um apartamento velho, de papel, cheio da vida aos solavancos dos vizinhos. É cinematográfica e literária mesmo quando é concreta e definitiva, aquela era, porque se reconhece a cinematografia e a literatura, tem-se a certeza de que se pode ser feliz nos clichés onde a decadência da canalização não contamina a alma de passagem.
Tentei a leitura de muitos outros, depois. A alguns, forcei-os, colher de xarope, e lá foram goela abaixo, os outros, não, não consegui engoli-los. Não sei. Talvez me tenha faltado a pensão. Ou a voz de romper auroras do cigano. Ou os amantes do quarto ao lado – eram tão velhos, parecia-me, para tanto ai que não corava de ser ouvido por ouvidos voyeurs à força, eram velhos, tinham à vontade mais de quarenta anos. Também não me esqueci deles: a mulher, saia-lhe o riso pelos olhos, um vestido castanho e amarelo, sandálias de tiras castanhas, a mala verde, sintética na esfoladela, via-se que andara a matutar naquele arranjo, uma princesa com idade para ser rainha.
Enfim, vi ontem o documentário José e Pilar. Não posso mentir. As línguas dogmáticas, ainda que nobelizadas, fazem-me desligar, sequer é de propósito, deixo de saber onde estou porque não sei para onde me fugi. Porém. Há toda aquela psicochinfrineira de ai casou com pai: que treta, casou com o amor, assim, nem menos, nem mais porque mais não há. E o outro barulho todo, na perfeita estereofonia: ai controlava, hárpia, Saramago até à respiração: que treta, também ele casou com o amor. Estas coisas é que são dogmáticas sem dogma nenhum, vêem-se, agarram-se, a dedicação, que é sempre a da vida, a paixão, fogo do pensamento e alegria da carne, mesmo a alegria da presença, pensamento nas linhas, carne igual, pequeníssimos gestos, prender os dedos da própria mão, fechá-la num punho rápido, à velocidade de um sorriso de triunfo enquanto lê uma página nova escrita pelo marido, e a satisfação, o orgulho, o agarraste-o pelo cachaço, no gesto rápido, como um sorriso. Que orgulho amar um homem assim, percebe-se, e outra vez amar o amor. E ele, com voz de filho, voz de amante: Pilar, o que digo? A determinação de amar o amor mais que atingida. Este parágrafo é inútil, cabe todo numa imagem do filme que decorre durante a escrita de A Viagem do Elefante. Ele está à secretária. Computador diante de si. Para alcançar qualquer coisa, ela não o rodeia, antes estende o corpo sobre ele que aproveita para roçar o rosto no corpo dela, umas festas mansas e mesmo uma palmada no rabiosque.
E diante da interpretação de João Afonso que tão presente deixou o tio Zeca Afonso, dizer: talvez a morte não exista.
Quando já não se pode acreditar em nada daquilo em que se acreditou, se aspirou, resolve Miguel Gonçalves Mendes mostrá-lo, porque existe, num documentário, saeta até ao céu, porque existe, uma só carne que a morte não separa. Isso para mim é prova bastante de Deus ainda que não creia Nele.
PÉ DE FEIJÃO
Era uma vez um homem. O homem era muito rico. Mesmo o pai do homem e o pai do pai do homem já tinham sido muito ricos. Ainda antes: os mais velhos dos antepassados ossos enterrados, eram ricos ossos. Dava-se, com a riqueza deste homem, aquele caso que se dá nas fortunas crescentes: crescia como o pé de feijão de João e de um pé de feijão de João como todas as fortunas.
Este homem, além de rico, era muitíssimo sério, pouco ria, mas sorria pelos cantos levantados da boca quando alguém lhe dizia, por exemplo:
– um homem tão rico e de barrete e sapatos de quarto a patinhar pela casa o dia todo…
Dava sempre respostas estapafúrdias que nada tinham a ver com o comentário ou com a pergunta, ou quando tinham, era pior, pois nada tinham a ver com a resposta desejada.
– pensa-se bem assim. As ideias não fogem para muito longe que o barrete caça-as, bem vê, não preciso de botinas para correr atrás delas.
O homem tinha um estranho hábito que mais estranho era porque cada vez mais enriquecia: volta e meia, pegava num milhão de dinheiros e zás, oferecia-o. A mulher dele, sempre bem vestida e composta, vestido de missa, vestido de baile, diamantes nas orelhas, ficava piursa e vinha logo zangar-se muito. Ele gostava e então, sim, ria.
– porque é que deu um milhão àquele bêbado pingão?
– porque ele me plantou boas macieiras.
– balelas! Também o Joaquim lhe cuida dos pomares e é um primor de homem que do vinho nem o cheiro e não lhe viu um centavo.
Ela insistia. Que alegria.
– e esta maluca agora? Não vê que deixou o marido e os filhos e se largou com um cigano estrada fora, voltou só Deus saberá porquê?
– não vamos incomodar Deus.
E mais. Ele adorando.
– fez bem, fez bem, meu querido, a vila precisava de reconstruir a igreja depois do incêndio a ter comido até às paredes.
– fiz o trabalho do diabo…
– cruz em credo, que não pode uma pessoa apontar-lhe um bem! Vade retro, homem intratável. Que maçada.
Um dia, o filho perguntou-lhe porquê?, como?, qual o critério que segue na sua virtuosa caridade? E de que natureza: moral, social, qual, meu pai, não percebo? Queria, coitado, era um bom filho, seguir os passos dele, dar e enriquecer. O pai disse-lhe:
– vais ao engano se fores nas minhas pantufas. E vais arruinar-te. Eu não o faço para enriquecer. Sigo, e em consciência, o critério que presidiu ao mérito do meu enriquecimento, como o sigo, e em consciência, o critério que presidiu ao mérito da minha inteligência e obras: nenhum, que eu saiba, e em consciência que é mesmo que dizer, sem mim, ou melhor vistas as coisas, de mim, a gota que sou na chuva do mundo.
De facto, deixou ao filho dez vezes mais do que o muito que herdara. O filho, respeitador e orientado, jamais tentou negócios de grande risco e nenhuma segurança, uma mina que ninguém vira no coração do Quénia, algodão da Colômbia, como o pai os fazia de olhos fechados, sem sair de casa, em sapatos de quarto, barrete, a patinhar o dia todo. Trabalhou, esforçou-se, investiu, e foi até filantropo, benemérito só de desvalidos, antes de se arruinar.
A PORTA ERRADA
– esta parte da cidade é tão bonita. Os batentes… gostas destas mãozinhas aldravas?
– gosto de ti. Mas porque é que estás a descalçar-te?
– não consigo correr por estes passeios abaixo em cima de saltos de doze centímetros.
– dá cá as sandálias, eu levo-as. Queres fazer uma corrida? — és como os miúdos -, vais perder.
– claro que perderia, se não fosse feita justiça correctiva na casa da partida: as tuas pernas são mais altas do que as minhas, é logo batota a teu favor, tens de dar-me avanço. Olha, já não estou em equilíbrio precário, não preciso do teu braço, dá-me a mão.
– falsa! És tão falsa! Fizeste-me bater à porta sei lá de quem, com toda a força, a esta hora. Bem podes fugir que te apanho.
– deixa-me respirar! deixa-me respirar, não me faças rir mais.
– sou tão feliz contigo. Casas comigo?
– casar?
– sim. Ou que é que andamos a fazer?
– pensei que nos andávamos a divertir.
ADORO-TE
– não quero divorciar-me, adoro-te.
– sei que não queres, mas eu preciso. Fica tranquilo, vai correr tudo bem: tu não me adoras, tu odeias-me.
– és parva ou quê?!
– não sou parva. Se usar a mesma linguagem que tu, tu odeias-me.
– já te disse que não quero ter essa conversa.
– isso é irrelevante se não me dás o divórcio. O factos permanecem. Traíste-me.
– não significou nada, porra, quantas vezes tenho de te dizer?!
– nenhuma. Se me traíste com essa lógica, e fizeste-o abundantes vezes, então terias de ser burro porque te arriscavas a perder o que significava alguma coisa por aquilo que nada significava. Ora, o problema é que tu não és burro. Havia uma intenção. Sabias o que fazias, tinhas escolha e escolheste em consciência. Em cada vez que estiveste com uma mulher, preferiste-a a mim. Eu não sou a tua mãezinha.
– o casamento não é só o sexo. Vai muito mais além do que a fidelidade ou a infidelidade.
– é verdade. Mas sem ela é uma merda que fere. Além do que é preciso detestar, verdadeiramente detestar uma mulher, ou parte dela e do casamento, para ser infiel dentro da própria casa.
– essa é uma daquelas bojardas que só da boca de uma mulher. O lugar é circunstancial, aquela gaja não me dizia nada, calhou, fim de noite. Achas que se eu soubesse que tu ias chegar de viagem mais cedo, estaria com ela aqui? Passa-te pela cabeça que se eu soubesse que iria precipitar isto tudo, a tinha trazido para aqui?
– não é esta ou a outra, ou sequer as paixonites e as paixões que tiveste. Sei que tiveste. Tu podias estar fora deste casamento, mas eu estava dentro: sei. Não quero, não vou continuar casada com um homem que me agride, com um abusador.
– o que é que tu dizes?
– és igual a qualquer um desses que um dia matam as mulheres à pancada de tanto as espancarem a vida toda e porque as amam muito. Igual, só que não há o que mostrar no hospital nem à polícia, só o que esconder, e vergonha, humilhação. Tu és um homem violento e odeias-me.
– nesse caso, tu és daquelas que um dia pegam numa caçadeira e dizem: a mim, nem mais uma vez e matam.
– Pum Pum, darling.
ODEIO-TE
– gostava que ficássemos amigos.
– amigos? Porquê? Para quê?
– gosto muito de ti, acho-te excepcional.
– tanto que acabas de me mandar à merda.
– sabes que te estou a dizer a verdade.
– bem te podes ir foder mais a tua verdade. De quantos egoísmos há, nenhum me ofende mais que esse: queres o mundo à tua medida, enfias a faca e esperas que eu te beije a mão e tenha o bom gosto de transformar o sangue em rosas para não te sujar, para que pises só a felicidade. E a seguir o quê? Vais-me contar a tua nova vida amorosa? Vai-te foder, pá!
O que é que a Madre Teresa de Calcutá e a Beyoncé têm em comum? Juízo. Porquê? Muitas vezes perguntada sobre o facto de se negar a fazer campanhas contra causas meritórias como, por exemplo, a da violência, Madre Teresa respondeu que preferia comportar-se a favor, por exemplo correspondente, da paz. A Beyoncé, não sei, mas avaliar pela decisão de colaborar com Michelle Obama na Let´s Move, também. Já lá vou. Agora apetece-me perorar.
Peroro. Confesso que estou um bocadinho farta das campanhas de bicho papão: ai ai a obesidade… és um monstro e agora vem aí o colesterol mais a diabetes e comem-te! Perda de tempo e quem ganha é a balança. Em Portugal e no resto do mundo ocidental, a obesidade engorda a olhos vistos. Porquê? Porque já ninguém é gordo — também ninguém é drogado, só há toxicodepentes, nem há alcoólicos ou bêbedos, só adictos, sequer alguém está triste, apenas deprimido. Gordo puro e simples é coisa que ninguém é: lá banhas é que nunca por nunca, ninguém as tem — devo ser a última pessoa que tem polpas indesejáveis, no resto do país só há depósitos localizados de gordura. É um drama, a obesidade. E tem de ser? Não tem de sê-lo — nem comédia. Não é preciso gastar rios de dinheiro numa acção para que ela seja eficaz, seja uma acção individual ou institucional.
Estas campanhas contra não funcionam, salvo muito raras, concertadas e investidas excepções. O faz engordar o gordo, é o mesmo que faz emagrecer o magro: estar triste, alimentar-se mal em regra, não ter hábitos de felicidade, e sentir-se impotente. A felicidade, é preciso dizê-lo, fica mal, não é intelectual: os intelectuais são gordos ou magros, ou bêbados ou drogados, ou, pelo menos, muito infelizes. Não são gente rija, a menos que sejam ensaístas. Ninguém diz que a felicidade é questão de higiene, como o duche. De respeito pelos outros. De disciplina. Uma pessoa habitua-se. Até porque a felicidade é inclusiva, mesmo a tristeza lhe cabe dentro, e como não havia de caber se é uma naturalidade?
Contra? Não. A favor. Explico tudo o que está farto de saber mas é sempre bom lembrar. Freud deu-nos cabo da moleirinha de tanto a escarafunchar. Não me entenda mal, o homem foi um crâneo, todavia um crâneo de filósofo: a psicanálise é um discurso, um código de entendimento como outros, contudo, como solução… está quieto ó preto — não me chateie, tenho sangue de muitas cores e credos. Já no I Ching, que é outro discurso igualmente interessante, ainda que com uns aninhos valentes no lombo, se aprende que quando a escuridão se adensa, é preciso que os olhos busquem a luz. Isto é, o enfoque deve ser na solução, o corpo cuida do resto. Deixe lá a obesidade em paz. Lixe-se nas banhas. Está gordo? Tem o colesterol pelo telhado? Apanhe luz de sol como quem apanha uma gripe. Ande de bicicleta, vá, pronto, ande a pé. A coisa fundamental é move your body, baby, que em português é: mexe-te, filho. Ou filha — não lhe digo que faça como a menina Beyoncé, de saltos altos e meias até ao joelho… bem, se estiver com o seu marido/namorado/híbrido pode exibir-se um bocadinho e deixá-lo ser voyeur. Have fun.
Ps: o primeiro é para comer com os olhos, não engorda, o segundo é para aprender os moves, são muito cool.
THE GRAND HOTEL
Era uma vez um homem assim desde menino:
– onde está o teu irmão?
– está no quarto, a ler.
– onde está o meu irmão?
– está no quarto, a escrever.
Mais tarde, era assim o homem:
– onde está o pai?
– está no escritório, a ler.
– onde está o pai?
– está no escritório, a escrever.
O homem lia e escrevia e pouco mais fazia, mesmo pouco convivia, porque era só o queria fazer:
– gosta da reabilitação do jardim?
– sim, o não sei quantos escreveu-o bem: ali havia um jacarandá.
– não senhor, nunca houve.
– houve pois, foi ali à sombra do jacarandá que o Tomás montou a esplanada que servia ao café quando veio para a capital.
– não, nunca ali houve uma esplanada.
– o seu mundo é muito incompleto e fechado. Boa tarde.
Era Natal e o homem adoeceu. Meteu-se uma dor por ele adentro e nunca mais saiu. Acordava de noite de sonhos que mordiam no exacto lugar onde lhe doía. Muito contrariado, acabou por ir ao médico na Primavera. Fez uma tac abdominal e ouviu a sentença:
– vamos operá-lo.
Abriram, fecharam, correu lindamente. Quando acordou para a náusea pós anestésica ouviu surpreendido:
– era isto o que o senhor tinha dentro de si e lhe doía.
Então não havia de doer? Um romance de quatrocentas páginas, capa dura e cantos bicudos. Teve alta com recomendação de repouso. Mal chegou a casa, deitou-se e pôs-se a lê-lo. Quando a mulher lhe foi levar o jantar, ao quarto, num tabuleiro com uma flor, deu com ele debruçado sobre o livro: o livro aberto sobre a cama, ele em pé, dobrado sobre a página, olhando com uns enormes olhos:
– ó filha, as letras, afinal, fazem mais do que fazer palavras…
– o quê? O que dizes tu?
– este O maiúsculo aqui, por exemplo, está aberto para o espaço: um buraco negro. O que haverá do outro lado?
– mau!, vê lá mas é se descansas.
– e este T é a piscina de água salgada do The Grand Hotel em 1929. Vai pôr o fato de banho. Aproveitamos que os miúdos estão com a tua mãe. Vamos nadar.
– ainda estás com os vapores da anestesia?! Vou ligar para o dr. Fernandes.
– se não vens, vou sozinho.
Como ela se dirigiu para o telefone, ele mergulhou.
Sou um narrador sério. Competente. Sei que está a pensar: ah, como n´A Rosa Púrpura do Cairo. Não. É preciso pesar pelo menos o mesmo que a Mia Farrow para ser uma variável que altere o curso de um filme. E pesar ainda mais para um livro de quatrocentas páginas. Ora, o homem não tinha peso, era uma variável insignificante. Mergulhou e desapareceu. Nunca mais ninguém o viu.
DA MECÂNICA ANTI MILAGRES E OUTRAS PEÇAS MÍNIMAS DE RELOJOARIA ÍNTIMA
Éramos côncavos, o tempo durava, a permanência durava, as palavras eram côncavas, acolhíamos mesmo o medo e feitos para a duração podíamos dormir: os corações, incansáveis bússolas acordadas, patas de touro troavam na alegria das ervas celestes.
As palavras côncavas da manhã são convexas à tarde, sacodem-nos, caímos, caímos, nem uma cauda de estrela, e que inconveniência, a nemésis, visita que não sabe sair a horas: existimos e recordamos a geografia das origens, explosão de vida, pecado capital no mundo de descartáveis, caídas carcaças rotas, as bestas da alegria.
Merecemos os exílios onde nos desterrem e a pedagogia do pêndulo, tempo convexo que havemos de aprender ou morrer.
YIPITTY BOOM DE BOOM
– olha para cá.
– não me vais tirar uma fotografia de toalha de banho!
– vá, faz-me um sorriso.
– não quero, não gosto de tirar fotografias, não é segredo, pois não?
– quem a tira sou eu. De mãos da cara?! Não sejas pateta. Agora fazes-me caretas? Vá lá, quero lembrar-me de ti exactamente como estás.
– estavas a planear esquecer-me e queres criar memória?
– ó céus, a psicotreta da linguagem, a filosofia da imagem, câmara clara dum raio, mulher impossível! Não sabes que és toda remembered for ever like shoo bop shoo wadda wadda yipitty boom de boom? Não te mexas, deixa-te estar assim mesmo, a rir.
A minha irmã resolveu ser mãe outra vez. O que significa que o meu sobrinho, o de poucas falas que deu em gralha, este valente, este guerreiro, enfim, tem, ó dele, um irmão — os pais só servem para dar desgostos aos filhos. O que vale é que me tem por tia.
A incompreensiva da mãe dele, ao telefone, para mim:
– bela obra!
Eu, a incompreendida da tia dele, ao telefone, para ela:
– qual? Qual? Tiraste-lhe os dinossauros de castigo e cantou-te a frase da Diana Ross? És um coração de pedra.
A incompreensiva da mãe dele, ao telefone, para mim:
– qual Diana Ross, não desconverses, foste tu, é que só podes ter sido tu: agora só trata o irmão por vampiresa!
Eu, a incompreendida da tia dele, ao telefone, para ela:
– já o viste a mamar? É um autêntico vampiro! Vá, uma querida vampiresa. Linda vampiresa. E não faz mal, ele não sabe que sabe o que é um vampiro e quando se lembrar, terá humor, é bom para a ciumeira, afinal, a vampiresa atraca-se à mãe dele… há-de ser um desgosto tal visão.
A incompreensiva da mãe dele, ao telefone, para mim:
– não comeces a falar de mim como se não fosse comigo que falas, não lhe podes ensinar essas coisas e pronto! A minha sogra ficou em transe: ele virou-se para ela quando eu estava lá dentro a trocar a fralda ao irmão e disse-lhe: venha ver, avó, a vampiresa a ser mudada.
Eu, a incompreendida da tia dele, ao telefone, para ela:
– ingrata! Porque não me agradeces o belo uso do particípio passado?!
The Supremes na fila de espera. Mal posso aguardar…
Where there is no love of art, there is no criticism either. “Do you want to be a
connoisseur of the arts?” Winckelmann says. “Try to love the artist, look for beauty in his
creations.”
A. Pushkin in PUSHKIN ON LITERATURE
O senhor que está aí todo em preto e fumo, fúnebre, se faz favor… Sim, você que espera o cortejo que aqui fazemos à quinta feira e porque hoje as exéquias cabiam ao Vasco. Olhe, é para dizer que o Vasco não pôde, faço eu — foi o que arranjou à pressa, sabe, é que isto de insónias não são só desvantagens: se o cansaço não for excessivo, os dias ficam maiores, aliás, o sol da meia noite só nasce assim nos países mais a sul. Fartei-me de pensar em si, coitado, no seu desapontamento. Decidi, por isso, matar à grande. O Caravaggio. Porém maçava-me ter de matá-lo à pressa, de qualquer maneira. Não que ele se importe, isso será para o lado que melhor dormirá no além como dormiu no aquém, em macieza de cama feita ou catre, conforme o desaguar da fúria dos dias. Não, é porque gosto do malvado: hei-de matá-lo bem, com tempo para torturas.
Não se perde tudo, trago-lhe um cadáver falso falso falso! Tanto que nem sei se não estará vivo, se não terá bebido a morte da pena de Shakespeare. Da do Salagri. Da do Dumas. Morte molhada, vinda do tinteiro, amortalhada em letras e de repente, ai que alívio, vivos!, estão vivos, ó que morrem os noivos, patetas, todos suicidados de desgosto, mas salva-se Monte Cristo e o… Trago-lhe a ficção. Não a morte na ficção, bem vê, isso seria um trabalho de Hércules, mas a morte da ficção. Tem razão, tem razão, nem é preciso dizer duas vezes: sem desejo do que não há, não se traz à existência o que não haja, não há vida que nasça. A génese da verdade, que é a vida, é a ficção de uma vida. Tem toda a razão, todavia pergunto-lhe: e ficção sem verdade? é simulacro, é mentira, é o rascunho do desejo, linhas imprestáveis, lixo? É ensaio? Pergunto porque não sei. A minha ignorância é o mar, conformo-me à beleza salgada de tudo quanto jamais conhecerei que é quase tudo — se calhar é por isto que as lágrimas têm uma natureza marinha, há qualquer coisa triste no conhecimento, não interessa do quê, se do próprio desconhecimento, se de se saber feliz, se de não se poder sê-lo.
E se fôssemos despensar isto para o ballet? Não revire os olhos, pode dormir, eu acho graça, não lhe espeto o cotovelo. Também não prometo que não lhe sopre, discretamente, claro, no ouvido, ou no nariz. Ou onde faça mais comichão. É no pescoço?
Viu como o trouxe a uma linda interpretação? Aquela menina, não é a sua menina, é a outra menina larina, a Tatiana, tem quelque chose muito da terra, não é? Uma sensualidade carregada que a inocência, perdão, a dança clássica orvalha, quase brinca. Humedece em curvas suaves — gosto. Gostou? E que lhe pareceu? Já tem resposta para a pergunta que lhe fiz? Ai dormiu?! Parece mentira… dormiu bem? Não zango: conto-lhe o que dormido não viu, para que possa responder-me e mesmo contradizer-me depois – sou uma interesseira. Conto à vol d´oiseau, sim? Era uma vez o há muito tempo na Rússia dos czares. Lá, vivia um senhor muito grande. Um gigante. Calhava mesmo bem porque o território era vasto. Não era infinito, no entanto, o que permitia ao gigante, da secretária à qual se sentava, ver tudo desde as dachas de Verão às estepes de Inverno. Talvez mais: há quem diga que via até à Grécia sem otomanos e mesmo até à revolução do por vir — fico só com Grécia, um dia explico, não será hoje. A este gigante tratavam por Pushkin. Senhor Pushkin porque o respeitinho é muito bonito e ele inventou o russo contemporâneo — é o nosso Eça. Era casado com uma senhora que tinha cara de grão de bico, e mal sabia, quando a desposou, que seria por ela que morreria num duelo com o cunhado – o cunhado dela, um marido de uma irmã, grão de bico também.
Ora um dia, o senhor Puskin estava gigante de ver o mundo ao longe e disse: Eugene. Eugene Onegin. E de repente, diante dele, milhares e milhares de versos, versos macho e fémea, rimados e mimados de vida apareceram e apareceram no mundo, primeiro em folhetins vistos e revistos e mais que modificados, depois fixados em livro, em ópera, em ballet. Mesmo em filmes que nunca vi. Em meia dúzia de linhas:
Onegin, colagem de colagens, e pai de colagens futuras, e tédio de as ser, parte para o campo – mal comparado é o Jacinto da Cidade e as Serras, feito com o barro do lado menos interessante do feitio e sucessos do Carlos da Maia. É um homem saciado. Como a todas as bestas satisfeitas, sobra-lhe, diante da presa, só a indiferença, crueldade que não mata. Conhece Tatiana: leitora de livros, sucedâneo de vida, pensamento sem corpo, assépsia e nenhum risco, ainda Tatiana em flor sem ontem de botão, sem amanhã de madureza. Conhece Olga, a irmã dela. A um poeta, Lenski, o noivo de Olga. Tatiana, reconhece nele, Eugene, o rosto do amor. Não porque tenha conhecido o amor, ou a ele, antes, mas porque os leu a ambos antes, sabe identificar o que sente e quem é quem — ou sentirá porque leu? Assim, oferece-lhe o seu amor. Por carta. Ele rejeita-a a ela e ao amor oferecido com tanta simplicidade a tanta sofisticação. Acaba por flirtar Olga e matar em duelo inútil como os dias que tem, o noivo desta, o amigo, Lenski. E parte.
Quanto do amor é sabedoria? Quanto da sabedoria é inocência? Quanto do bom sucesso é mundo? Não, a estas não precisa responder-me.
Tatiana vai até à casa agora vazia de Onegin e cheia dos despojos de Onegin. E faz o que sabe fazer e quem ama: lê até ler cada palavra das que fazem de Eugene Onegin, Eugene Onegin.
Mais tarde, já casada, também ela é um disputado sucesso de sociedade. É neste exacto mais tarde que reencontra Eugene. Ele quer o amor que ela lhe havia penhorado. Pede-lho por carta. Cartas. Nenhuma resposta além do silêncio. Confronta-a. Ela, pasme-se, não nega amá-lo, afirma amá-lo, apenas se nega a amá-lo e por mais do que lealdade ao marido. Porquê? Não tem ciência: porque no mais tarde vê com os olhos com que ele a viu mais cedo, pior, viu-se a ela nele, uma ela que não se adequa aos seus interesses.
Eugene Onegin existiu para além dos personagens e do amor que encarnou? Tatiana tornar-se-ia quem se tornou sem a consciência da existência de Eugene Onegin, da natureza deste, do espaço em branco das ausências de ser e de ter onde tudo acontece? Onde mais se não no vazio? Completamente a despropósito, teve oportunidade de assistir a este filme?
Todos os concretos frutos que mordemos foram semente de ficção. Dos Vedas à Bíblia, do preto atrás do preto, tudo se fez pelo sopro quente do espírito. Onde mais senão no vazio? Deus é escritor.

Ps: esta é uma obra que serve à ficção. À ficção da criação, pois o próprio autor a escreveu em directo, um folhetim de que até o fim duvidavam e também pelas suas sucessivas recriações, e pelas reinterpretações seguintes. À ficção da literatura, da arte, da linguagem, pela charneira que imprimiu na paisagem literária, artística, linguística. À ficção da crítica, ou melhor, das críticas contemporâneas das publicações e até agora. À ficção nacional, social, a de correntes literárias, filosóficas, psicológicas, à da teoria da literatura, aos movimentos culturais, e até à ficção das traduções com enredos nabokovianos. E serve mais e muito melhor, à ficção do amor, ao quem sou eu, ao quem és tu, ao quem somos nós.


























