Les portes de la nuit

Saiba: há um bailado que se fez filme, sendo, também, um poema de sol nocturno, do sol nocturno, e mais se fez, canção, na voz de Montand e título mudado de outro filme por causa do sucesso do mesmo excerto de poema, ainda por publicar na íntegra, a canção, desta vez na voz de Nat King Cole. Fôlego. Mostro só o filme, que vi hoje pela primeira vez e nunca o soube antes de hoje. Gosto tanto destas surpresas felizes por haver.. Tem, este filme, coisa queirosiana de sombrinha vermelha de Maria a descer sobre Pedro, na carruagem, premonição de sangue, ferida, escoamento de vida, morte. Está lá em baixo, a premonição, outra, no entanto: procurei para si no YouTube, encontrei, claro, logo a seguir à linda cena da fabulosa Joan, de fato de banho, ao espelho. Poderia deixar algo do bailado, ou do primeiro filme, da primeira canção, do poema. Não. Só o que descobri hoje. Porquê? Ao Nat king Cole já o dancei com o meu avô, Les feuilles mortes, não é segredo, ouço, ouço — mas sou suspeita por causa de Prévert -, e de Roland Petit nem digo um ai: ai ai..

Autumn Leaves, Robert Aldrich (1956, Wm. Goetz Productions) Producer: William Goetz. Screenplay: Jack Jevne, Lewis Meltzer, and Robert Blees. Director of Photography: Charles Lang, Jr. (1:85:1). Music: Hans Salter. Cast: Joan Crawford (Millicent Wetherby), Cliff Robertson (Burt Hanson), Vera Miles (Virginia), Lorne Greene (Hanson). Filmed at Columbia Studios, Los Angeles, beginning August 31, 1955. Completed: November 21, 1955. Running time: 107 minutes. Distribution: Columbia. Released: September 11, 1956 (Los Angeles).Original Title: The Way We Are. Silver Bear Award for Best Direction from the 6th Berlin Film Festival.


Hugh Hefner? Pois sim..

O mais nu por encomenda a mais nua. Um pediu, o coleccionador. O outro, o pintor, sim, sim, com certeza. Mas há-de ser um escândalo, digo o quê? Olhe, diga que é A origem do mundo, pois que há-de dizer?1975?! Estou em crer que foi lá para os idos de 1866.

Courbet

Mais compostinha, presa num rochedo, ó dela, à espera de Perseu há uma fartura de tempo, e o diabo do homem, perdão, deus, a matar medusas, a Andrómeda de Lempicka. Não teve de esperar até 2006. Em 1929 foi salva.

Tamara de Lempicka

Se playboy, playgirl. É para que saiba.

Le coeur n´a qu´une seule bouche

Não revi Alphaville. Bem, não hoje –  e quem raio quer viver em Alphaville? Morrer. Já morreu em Alpahville, um bocadinho? Bem, não hoje. E a culpa é de Truffaut. Não, não me enganei. Há muitos anos, nem sei quantos, sei no entanto que tudo cheirava a novo na sala, até o escuro era novo e o ar condicionado limpo, fui ver Alphaville. Não sei se era nova, a sala, cheirava, pelo menos, a de novo. Sempre troquei datas e acontecimentos, tinha-me enganado, portanto, não muito, porém, era Jules et Jim, no Fórum Picoas, num ciclo de cinema ao abrigo da Nouvelle Vague. Ó diabo. Tão velha estava a Nouvelle e  não sabia de nada dela — ainda não sei. Na altura tinha alegrias à hora certa, solitárias como os vícios. Outra: Gulbenkian. Os vidros rasgavam a sala de alto a baixo e fora era dentro: sempre fui feliz disso, e ainda. Respiro fundo. Descanso. Jardins. Ruas. Instituições no centro do mundo que nos aliviam do peso ignorância: museus, cinemas, teatros, galerias e livrarias. Bibliotecas. Já disse jardins, mais ou menos botânicos, ruas? Antiquários, passeios, esplanadas. Mais que tudo livros, textos e conversas. Conversas com os livros e os textos também. Música. Habituei-me cedo e bem a ir sozinha, sem interrupções que não fossem as minhas, sem enervantes toques rápidos e repetidos no braço, sem vozes a comerem-me a paciência. É horrível, não é, dizer isto assim? Da primeira vez que vi a menina Bailarina de Degas, depois de a circundar dentro do caixão de vidro, eu ponteiros de relógio, tive de me sentar a vê-la. Foi na Tate. Sentei-me no banco, daqueles bancos o mais ao lado, de onde via quase tudo, menos o outro lado. Quem quereria ficar lá comigo, sabe Deus quanto tempo foi o tempo que fiquei, só a pasmar, sem um único pensamento? De vez em quando dou por mim, não a rememorar, a ver, de facto, o peso perfeitamente distribuído para aquela posição. Sem interrupções, nem enervantes toques rápidos e repetidos no braço, sem vozes a comerem-me a paciência. Se voltar a ter um amor, logo logo vou-lhe perguntar: você adormece? Eu  queria. A ver filmes no sofá, no ballet, em conferências. Em tudo o que lhe desse seca e a mim gosto, ou mesmo que lhe desse gosto, queria um amor que adormecesse. Ao meu lado, claro, muito diferente de cada um para seu lado. Também não precisa de ter um ouvidinho de tuberculoso. Há qualquer coisa sexy num homem que ouve ligeiramente mal. E que adormece. Tudo está bem quando um homem adormece. Até o malinho que apetece fazer-lhe. Não vale a pena voltarmos ao mesmo, já tinha ficado assente que eu era horrível. Isto para dizer que acabei de rever Jules e Jim. Tinha, no entanto, planeado ontem um texto sobre Paul Éluard dito pela Natacha. Duas vezes na mesma vida o mesmo desencontro-encontro. Gosto-os tanto – ao Éluard de Natacha e ao Jules e Jim. Só poderia gostar mais se um amor que fosse meu, eu dele, ressonasse agora, ao de leve, o genérico.

Pardon my french..

Bichezas puras e líricas.. pois sim, Manuel Fonseca. Não é para o amor que os homens pedalam desde os dias do triciclo, é para o muro! E este não cai que não é o de Berlim: sempre foi assim, sempre assim será. E porquê? Porque o homem, essa besta flor, separa o mundo em tulas e kittys, quer moedas de uma só face. Azarucho. Não há. As mulheres são de outra loiça, pedalam para outro lugar, querem o que querem. E o que é? Eu digo-lhe, não o deixo a perguntar-se do além como o tio Freud. Tudo. Não se assuste, porém, não vá provocar um estampido entre a sua espécie: o tudo das mulheres é feito de ces petits riens que me venaient de vous.

Ps: Manuel Fonseca, francamente, então passou-lhe pela cabeça que deixava, como deixou, neste lindo cemitério, o Christopher Walken a gritar pela Delilah e eu não ia ver isso tudo tudinho?

 

GODARD! Odeio-te..

Há mil razões para odiar Godard. Se esta não vos for suficiente, a mim basta-me, recordem Rimbaud, o mínimo feminino de alteração obrigatória, je est une autre, na boca de Nana. Ou lembrem-se dela a dançar.



Um dois três, mate lá outra vez..

Reincide. Reincide sempre. E nós, reincido,  nós em ahs e ohs. Queremos mais: o Manuel S. Fonseca mata bem e, como em rima bebé, matou Bogart como ninguém: de cansaço, desilusão e, por ser carta fora do baralho, rosto fora do talho, peça que não se sabe pegar. Depois contou-nos dos olhos abertos de Louise Brooks e de como viram nele o que Hollywood acabou por lhe dar: numa prosa de sombras, a escuridão nossa de cada dia. E disse o como, o onde e por mão de quem. Depois calou-se e não nos disse mais nada. A culpa é do Bogart: porque não fez também filmes de capa e espada?! Um bilhete para a sessão da tarde, se faz favor.


A outra infância #2

Quando eu era pequena, muito pequena, tinha, não é segredo, já contei, uma grande fúria escritiva que a custo, e só de tão tremenda vontade, me cabia dentro. Não era só por não ter a desejada independência leitora — e isso era-me muito. Tanto. Era a ainda mais grave incompreensão do significado das letras, desenho de curvas e rectas que correspondiam, por uma lógica que me escapava, a sons que faziam palavras para dizer no papel. E eu, que desespero!, não as sabia nem percebia porque é que um A dito se desenhava em A de bico. Fazia aquela fúria estreitar-se até passar pela ponta redonda da lapiseira, e em cima de folhas cheiinhas de frases escritas por alguém, o que apanhasse, zás! era meu, apontamentos, listas de compras, o diabo, era-me igual, sabia lá eu o que estava escrito, só sabia que havia de saber nem que tivesse que escrever por cima, letra a letra, tudo. Tudinho a fazer força demais na caneta, a exasperar-me do cansaço de intermináveis linhas de uma folha toda de palavras de alto a baixo. Mas feliz de sei escrever por cima, só não sei o que diz, não faz mal, faz de conta que diz.. será que diz? Uma vez tirei as teimas: pedi que lessem. Tinha esperança que tivesse ficado escrito por cima, não o que estava escrito por baixo, antes aquilo que tinha pensado enquanto escrevia por cima: o meu pensamento também escrevia, soprava pela tinta coisas de uma cadela e uma menina, circo, rua, casas, ser grande, malinhas, princesa e príncipe e encantamentos, pessoas crescidas, árvores, mar, feira. Porém não: a mão não escrevia o pensamento. Um dia. Às vezes, quando aquele caudal de esforço rasgava o papel e me fugia nas linhas, ficava submersa dele, apetecia-me gritar ou chorar ou as duas coisas juntas mais atirar livros ao chão com estrondo, rasgar tudo. Sabe Deus como, em vez de, ia a velocidade alucinante, a minha avó, páre vendaval, dar banho a uma boneca, aconchegar o chorão no carrinho azul escuro de rodas brancas, pô-lo a dormir nos lençóis com patinhos amarelos bordados, fronha igual, a dobra debruada a bordado inglês, e fitinha também amarela, sobre a manta macia, de tricot, por cima. Ou andar de bicicleta. Páre vendaval. Uma infância inteira, a vida toda, páre. Eu vendaval parava. Depois, calma, voltava. No quintal, traseiras de tudo já depois de tudo, não no pequenino, de cozinha, ao lado, bonitinho, onde um enorme Dezembro floria de vermelho o Natal, alecrim, hortelã, salsa e coentros o ano todo, acesso restrito por causa de um canteiro em pedra que a minha avó inventara. Não, no outro, ao fundo do fim da casa, onde um cavalete, o meu avô fazia-me vontadinhas, improvisara-me um cavalete enorme, não no quarto fechado e sério com escrivaninha, nem pensar, no quintal, com o melhor movimento de entra e sai, gente de fora que eu não via dentro, e máquinas, pias, tanques, alguidares de roupa  que esperavam para subir as escadas até aos estendais lá de cima, e até uma galinha sem cabeça a correr uma dança circular de morte. Quando era pequena e quase até ser grande tinha calo no dedo médio.

A pedra espera ainda dar flor

No outro dia reli HÚMUS, de Raul Brandão, e na noite seguinte HÚMUS, de Herberto Helder. Ficou-me — deve-me ter ficado, só agora dei pela fome -  a apetecer exercício com as mesmas regras inventadas por este último, brincadeira como a dos miúdos, mesmo a sério, brincadeira  igual à paixão que se apropria do corpo do amor para o conhecer e fazê-lo seu — ou melhor, de si. Tudo em pequenina escala, claro, que os supra citados danados são pesos pesados. Por isso, não a partir de HÚMUS, apenas de: A pedra espera ainda dar flor.

Material: texto do HÚMUS de Herberto Helder
Regra: fuga?

Fotografia de Maria João Cabrita

A PEDRA ESPERA AINDA DAR FLOR
Soerguido pelo único esforço da erva, sou o grito dos mortos. Ouves?
Uma tarde que viesse nas pontas dos pés.. uma candeia em mão de mulher: claridade  de primaveras extasiadas, flores desmedidas, uma candeia em mão de mulher.
A praça debaixo de água, tudo isto, pátio castelo escada torre porta, tudo isto flutua debaixo de água com um povo de estátuas por cima, um povo de mortos em baixo. Somos o reflexo, o mundo não é real.
Uma tarde que viesse nas pontas dos pés.. uma candeia em mão de mulher: claridade  de primaveras extasiadas, flores desmedidas, uma candeia em mão de mulher.
Fecho os olhos. O silêncio. E o que se cria no silêncio é uma voz, as bocas falam por muitas bocas: floresta apodrecida, tocamo-nos todos como as árvores no interior da terra, uma atrás da outra, floresta apodrecida, um remexer de treva, a terra treva remexe, põe-se a caminho a floresta apodrecida — uma vida monstruosa, ouve-se a dor das árvores, sente-se a dor dos seres.
Uma tarde que viesse nas pontas dos pés.. uma candeia em mão de mulher: claridade de primaveras extasiadas, flores desmedidas, uma candeia em mão de mulher.
E o céu? Ponho o ouvido à escuta: palavras vivas através da paciência que desliza, mar inesgotável que desliza, som de água que desliza, o céu. Desliza. Muitas bocas, o céu. Estou só e a noite, vem a noite, pausa e silêncio, a noite com outras noites em cima, inferno: uma camada de flor, um grito, outra camada de flor, outro grito. Também eu atravessei vivo o inferno entre o inferno e o sonho: dessa pata escorre sempre ternura. E o grito dos mortos, uma voz de palavras vivas, as bocas falam por muitas bocas as palavras vivas.
Uma tarde que viesse nas pontas dos pés.. uma candeia em mão de mulher: claridade de primaveras extasiadas, flores desmedidas, uma candeia em mão de mulher.

Don´t ask me..

Botero, Homenagem a Bonnard

ASK ME HOW DO YOU GET TO TOMORROWLAND*
Ao quotidiano máximo as arestas mínimas: mundo curvo de linhas côncavas que nos retêm, corpo na rede em balanço de domingo; mundo curvo de linhas convexas que nos expulsam sem nos deixar cair; vida de anos feitos de meses feitos de horas feitas de gravidade e força centrípeta, não queremos sair das linhas côncavas de domingo, agarram-nos os anos nas linhas convexas, não nos deixam cair das linhas convexas, máximo quotidiano, mínimas arestas.
Aqui, imersa e morna, já satisfeita e bem cumprida a higiénica do sexo na mecânica do orgasmo, penso-nos: em que dia, meu amor ao espelho, meu espelho, deixámos de ser paixão e passámos a ser família?

 

* verso da canção TOMORROWLAND**, interpretada por Terry McKay, Deborah Kerr, em  AN AFFAIR TO REMEMBER, 1957
** TOMORROWLAND,
música de Harry Warren, letra de Harold Adamson e Leo McCarey

Wishing you a hot time in the old town.. today

Confesso, pensei pôr isto na voz da minha Bessie Smith: faz tão justa justiça à temperatura  do círculo do inferno ouvido que o céu pode esperar. Para mais, parece-me razoável que um diabo cante para que outro ouça. Mas o diabo é que os diabos se conhecem todos.. E eu queria isto, sim, porém de fresco, quer dizer, de novo, ou melhor, ressuscitado hoje sem que antes de hoje o diabo em causa tivesse dado pela existência e pela morte disto. De repente, Zás!, lembrei-me. Uma para ver e rir, outra para dançar e ser feliz. Será que estão lá? Não devem estar.. E não é que sim, que estavam. Todas todinhas. Trouxe-as. Parabéns.


Tweet ou lá o que é..

A minha mãe para mim:
— mas quando é que tu cresces?
Eu para a minha mãe:
— moi?
E tudo porquê? Ó injustiça, ó malvada incompreensão materna.. Porque estava na sala de casa dela maman, a dançar e cantar para O Cão, vá, a desafinar para O Cão, vestida com o exacto guarda roupa com que as mulheres costumam fazer o encore final depois do duche, vulgo de toalhão e toalha, coisa, bem se vê, só para as grandes estrelas da pop em geral e da cantoria em particular. Estava em plena expressão, portanto, da minha privada e atoalhada alegria em turco Torres Novas de boa gramagem e conforto, quando fui surpreendida em flagrante coreografia de altíssimo gabarito, e condicente com a afinação, por uma surpreendente maman que deveria estar, por razão de trocas e baldrocas, em casa de sa fille, moi. O que cantava eu ao meu Lindo Cão para merecer tal escarninho? Carregue no play. É por estas e por outras como estas que uma pessoa precisa de.. como direi, do recato de seu lar?

Atrás desta vila há outra vila maior*

Edvard Munch, Manhã

Ontem à noite até hoje de manhã, agarrei-me ao Raul Brandão: Húmus. Não sei porquê. Felizmente, vivo bem com o desconhecido, issos de escuros, de salas vazias atrás de portas fechadas, também vivem bem em mim, nenhum terror nocturno abre os olhos às minhas noites brancas: é preciso espaço, liga pouco densa de tecidos, para que nos caibam os mortos e os espíritos que nos iluminam, clareira para aprender os vivos.
Se amor é atenção, amar é aprender. Não interessa se do corpo a curva onde as cócegas, se da língua o tempero de sal. A alegria, a grande alegria, a imensa alegria à boca do sol no poema de luz. Ou em que água o coração mais bate: se é na de abraços de mar, frescura de peixe riso de espuma, ou na de lágrimas que atravessam a dureza da pedra quanto postos os olhos de doçura na montanha. Onde se faz canto para nenhuma voz. Aprender de todos os mapas onde se faz canto para nenhuma voz. Assim, com amorosa atenção educados para a melodia do silêncio, auscultamos. Nem a morte, lugar de escoamento de todos os rios da decomposição fétida, nem ela nos roubará de mais do que desses líquidos podres.  
Agora vou ler o florescimento do Raul Brandão no Herberto Helder: todos apodrecendo juntos na mesma terra misturada e revolvida.*

 

Ps: não deixa de ser interessante, neste cemitério, a descombinada sincronicidade: o Pedro Norton passou, num sopro?, da fotografia no Lit de Mort ao Munch, no mesmo dia em que amanheci nele. O José Navarro foi a Cleveland para, sem mais que de cuecas e de peúgas, nos lembrar que de cuecas e de peúgas fazemos, não podemos impedir-nos de fazer, sabemos que fazemos todo o trabalho insano […]: reduzir a vida a uma insignificância… Tapá-la, escondê-la, esquecê-la. *

* Raul Brandão, in HÚMUS, Dom Quixote

Short, claro, e como sempre: story

Retrato de Raul Brandão por Columbano Bordalo Pinheiro

- Eu não vivi! eu não vivi! eu não vivi!
Raul Brandão, in HÚMUS, Dom Quixote

DEUS AGORA NÃO PODE, ESTÁ EM REUNIÃO COM O UNIVERSO
— boa tarde, se faz favor, queri
— tirou a senha?
— sim, mas como estou à espera há tant
— para o que é que o senhor acha que serve o número de atendimento?
— não me interrompa, peço-lhe. Não pensei que o número correspondesse ao atendimento, nem consigo lê-lo, é enorme, e também não ouvi qualquer número, ou nome, chamados desde que estou aqui. Não vem estimado o tempo de espera. Se me deixar expli
— tempo? Nós não tratamos com essa unidade de medida! Se quiser o livro de reclamações, faça o favor de se dirigir à biblioteca das reclamações: digite ali, está ver?, no teclado ao lado direito da porta do elevador, a sua data de nascimento seguida de 0 +, senão, por defeito, assume 0 — , foi um mau serviço, enfim, o certo é que irá para o piso errado. Depois é só seguir a informação nas estantes, já essas estão perfeitamente classificadas.
— 12.03.1867
..
— isto é um movimento de últimas compras de Natal!
— é verdade, muita gente, creio porém que o senhor está enganado, aqui é 0 -, o senhor é?
— Raul Brandão, muito gosto.
— igualmente, igualmente meu amigo, Jacob, pastor, servo de Labão, pai de Raquel, serrana bela.

In a Lily Allen state of mind

Não sou de intrigas, se fosse apontava o dedo e dizia: o menino Pedro Correia lailailai.. Mas não sou. Portanto, discreta, informo que me convidaram para cometer um delito. De opinião. Perguntei logo qual. Responderam-me: a sua. E pode até alongar-se como um discurso de Fidel Castro. Aceitei, claro. Foi um gosto. Merci.

Ps: estou, como direi.. um tudo nadinha blogubíqua?

Lindo Rimance do Fuzilamento de Dom Diogo e, vá, de certos uns..


DOM DIOGO, fatigado,
dos trabalhos, dos cuidados,
rumou ao sul, rumou.
Mas à sua fera maldade,
à egoísta ruindade,
também de férias as levou.
Passeava à beira d´água
ostentando,  da liberdade,
o precioso bem: o tempo,
e entre golinhos na caipirinha,
o fresco mar, na areia fresquinha
debaixo do sol abrasador,
Dom Diogo era leitor e
com Maalouf, amigo Maalouf, Amim
tentava quem trabalhava ao calor,
e do mar só o saudoso odor
de uma lonjura sem fim.
O destino, justiceiro,
espada da lei dos céus
faz das serpentes de Adão,
tentadoras de então, réus.
Sabedor da culpa e culpado,
pedia o perdão de quem mente
à vida que não o consente:
se não há arrependimento,
haja fuzilamento!

Perfilados na justa parede,
à espera, os seus iguais,
de outros crimes, maldades tais,
que por balas de vis metais
certeiramente disparadas
contra a ingratidão do peito,
aguardavam a morte a preceito.
Perguntava Dom Manuel,
assassino confesso,
ao endemoinhado Dom Pedro, o possesso:
— e Dom Diogo, onde está que não vem?
O Demónio respondia-lhe, pasme-se!, bem:
— atrasado como só ele e mais ninguém.
Eis que enfim chegou
aquele que tanto prevaricou,
lavado, barbeado e ATRASADO
até para o encontro final -
não lhe serviu de nada, coitado -,
porém vinha esperançado
pois, mal chegado, inquiriu:
— o pelotão onde está?
Dona Eugénia sorriu
e mui docemente explicou:
— o tiro cobarde de muitos,
é de nenhum,
comigo é pim, pam, pum,
cada bala mata um..

Sapatos vermelhos


Sorrow will pass, belive me. Life is so unimportant.

Lermontov a Vicky in THE RED SHOES

Cresci, crescemos, creio, com a ideia de que um botão vermelho filme, sapatos vermelhos, pressionado num gabinete longe de casa, de todas as casas, abriria qual cortina de teatro o início do fim do mundo, o último acto, a luz sobre a ausência em palco. Foi no tempo dos espiões, enquanto as gravatas dos homens passavam de estreitas a largas, os cabelos deles desciam devagar até tocarem os colarinhos e no rosto avançavam patilhas enquanto creio que crescíamos. Em vermelho filme, sapatos vermelhos, o botão, e havia também, ouvi, um telefone vermelho filme para o fim debaixo do comboio onde os sapatos, contra vontade, dançariam a morte, mesmo antes do botão carregado soaria o trim trim dos sapatos vermelhos, depois o botão, o princípio do fim e ao fim, o fim do mundo. Debaixo do comboio.
Os soldados, de cabelo mais comprido à chegada, patilhas à chegada, nenhum à chegada era o mesmo que fora à partida, nunca somos, o mesmo era outro à chegada, somos outros, os soldados iam e vinham em barcos enormes. Horas no cais, ao colo, esperei o meu primo com uma blusa nova, marinheira em riscado azul e branco que a minha avó mandara fazer na máquina de tricot grande como um piano pequeno, um tear de segredos com mínimos dentes metálicos, se visto de cima da cadeira para lhe ver as entranhas tricotadeiras, milhares, pareciam-me milhares alinhados, ligados e bicudinhos, a minha avó tinha isto das máquinas, a máquina de lavar louça da primeira memória era um monstro em duas partes, duas portas, podia enfiar-me por qualquer uma delas e desaparecer, desaparecia, o monstro não se deixava mexer, metia medo, a louça era lavada à mão, a minha avó dizia: mas se eu já lhe ensinei a montar a besta, qual o quê, mostro-lhe outra vez, não tenha medo, não parte, qual o quê, a louça lavada à mão. A besta dormia enquanto a tricotadeira cantava, da tricotadeira, boca rasgada cheia de dentes de metal, ninguém tinha medo, ela cantava para um fim macio de lã, a blusa riscada, eu marinheiro num colo de horas à espera de outro primo, um desconhecido de patilhas, cabelo comprido na gola, escurecido por África desde a pele até à alma encardida, outro. A plataforma do cais era larga, muitas pessoas, o  navio enorme em manobras de horas lentas, ao colo, tinham morrido todos, ele vivo, o jipe explodira, uma mina, na verdade foram dois jipes, no da frente, no dele, ele vivo, todos mortos, e sequer alguém ouvira o telefone vermelho filme, vermelho fim aos pedaços desmembrados de carne quente, sequer alguém soubera que carregava no botão do mundo, era uma cirurgia local, era uma morte localizada, ultramarina e fardada, vinham os mortos e os vivos no mesmo barco, uns pelo próprio pé, os outros descidos aos bocados dentro de caixões fechados, todas as mãe eram a mesma, todo o choro a mesma lágrima,  o coração feito em iguais retalhos sobrados de estilhaços, o ronco do barco no colo de horas lentas era a lágrima, a moínha do sofrimento audível, o  ronco, uníssono doloroso, o sofrimento à mostra, uma mulher tinha uma saia cor de vinho e uma blusa preta, o cabelo curto despenteado, era larga, dobrada para a frente, nem um grito, era um gemido, o mesmo gemido do fundo do navio, quase um nada de já não poder, a nudez do desgosto à mostra debaixo do comboio. Horas.
Ninguém quer os sapatos que dançam até debaixo do comboio, não enquanto não tocar o telefone, ninguém carrega no botão vermelho enquanto não tocar o telefone, e mesmo depois:  o plano de vida e a vida são mapa incoincidido com o caminho, uma só coincidência: não sinalizam as minas. O mundo acaba assim, cirúrgico, para uma só pessoa, uma pessoa de cada vez, o comboio avança na plataforma do cais, morte à chegada ou à despedida, serve-se a morte, o telefone toca sozinho, o botão dispara sozinho, o mundo acaba, cirúrgico, só para uma pessoa. Ninguém calça os sapatos vermelhos. Ninguém pode tirá-los dos pés.

Story tão pequenina..


Fotografia de Pedro Norton


Tudo isto me parece hoje um espelho duplo que o príncipe do mundo faz deslizar como um diafragma por entre as raízes e as copas da alma: para que a estas nunca mais seja concedido reflectirem-se naquelas nem a ambas nutrirem-se umas das outras, felizmente, como o céu e a terra.

Cristina Campo, in OS IMPERDOÁVEIS, A&A

AMOR, O NOSSO AMOR
— O futuro ficou para trás.
— Decompomos a saudade em sílabas aquáticas, pequenas, que flutuem.

Um poema para amanhecer

Fotografia de Maria João Cabrita

ESCURAS ERAM AS NOITES
Escuras eram as noites
em que lua se escondia
na copa da floresta
e água no lago adquiria
a espessura da do poço

O amor levanta as árvores pela raiz
para enterrar lanternas
que nasçam frutos amanhecidos

06 Coisas lindas de românticas para dizer ao Grande Amor

ONDE?
No restaurante. Logo logo ao primeiro convite que a menina aceite do GA que, como convém, não deverá ser o primeiro nem o segundo nem – enfim, percebeu a ideia, terá de ser o certo, não é uma questão meramente quantitativa. O quê, custa-lhe dizer não? Pois sim.. se vai gostar dele uma fartura porque carga de água é que não há-de verificar que ele tem paciência de santo?! Ai e a vida e lailailai, agora é tudo pronto a vestir, pronto a comer e em para ontem. Diz você. Lixe-se nisso: são tretas de saltimbancos amorosos que montam a tenda em qualquer coração — a menos que seja exactamente essa volatilidade que a faz feliz, isso é outra conversa que não é esta. As coisas que dizem respeito ao GA são resistentes ao tempo. Malvadas! Malvadas coisas! Enfim, conforme-se. Olhe, mal comparado é como os acordos ortográficos: amor é farmácia que ainda se escreve com ph. Dura que se farta a danada da botica porque ninguém passa sem a terapêutica. Adiante que já tergiversei um mundo. Logo logo, dizia, ao primeiro almoço juntos – não me diga que pensava em jantar?! Tenho de explicar tudo eu? Para quê jantar se pode almoçar? Para quê a esganadeira? Assim quando for finalmente jantar com o raio do GA vai ficar tão feliz como a menina lá de cima, só que ninguém mais vai ver a coreografia. Boa?

O QUÊ?
Vamos fazer o pacto do caldo verde?
Ouviu bem. Pacto do Caldo Verde: PCV. E antes que ele pergunte o que é, acrescente: não é que o menino não fique sexy de me fazer cair para trás se por um acaso ficar com caldo verde, coentros, vá, o preto do pastel de nata enfiado nos dentinhos, mas ó de mim que minha beleza não resiste ao encalacranço dentário. Eu digo-lhe a si e o menino diz-me a mim: Pacto do Caldo Verde. Estenda-lhe a linda mãozinha por cima da mesa para fechar o negócio — viu, ainda tem este bónus de mão na mão?!

Estou em crer que isto é do melhorzinho que haver possa quanto a lindezas românticas de enternecer o coração do Malvado do GA. Eu própria só não o disse ainda porque, olhe, azarucho dum raio, não me deu para conhecer ninguém que merecesse tal odontologia. Ó vida madrasta da Branca de Neve!


Para dizer it´s a wonderful life

A minha vida é muito pequena. Não tenho muitas nem mais nem belas histórias. Estas apenas. Sequer tal coisa faz mal, não tem mal: outros têm muitas mais belas, eu ouço com os ouvidos, ouço pelos olhos de ver e ler, ouço pelo nariz dos poros, toco no que ouço, sou permeável à substância da coisa ouvida, sou feliz de ouvir. É uma vida pequena num tempo de vidas grandes. Mesmo as distâncias na minha vida se medem em passos no Verão ou voltas de bicicleta quando o calor se modera. Não é preciso passe social ou carro. Sim, esta é a medida da minha vida: não é preciso. É uma vida de palavras, cão, sobrinho e sushi. Às vezes, tantas vezes, até cão sobrinho sushi são palavras quando, de trela na boca, brinquedo na boca o cão pede, eu não dou, não vejo sobrinho, não encomendo sushi. É pequena. É não. Devorados a partir do ecrã e eles fazem-se ecrã nas letras pretas sobre a folha branca que tão pouco são letras ou folha branca, mas código invisível aos meus olhos que vêem letras e folha. Cão de letras. Sobrinho de letras. Sushi de letras. Habitantes todos da folha branca. Esta é a minha vida pequena e comigo Capra não faria George Bailey nem Clarence ganharia asas. Há pessoas que têm vidas grandes mesmo se parecem pequenas de George Bailey. Lindas. Vidas sim. Vidas asas para clarences. Outras têm vidas grandes que parecem grandes e fazem o mundo pequeno. Cabe-lhes tudo, até Bedford Falls inteiras. Admiráveis. E ainda há aqueles que nem consigo entender. O Richard Branson vai para o ano iniciar o turismo orbital, a terra entrará pela retina adentro dos turistas que já calcaram pó na Patagónia com vista para o mar  de acasalar baleias, mar quarto, mar cama, esses mesmos que fotografaram todas as torres eiffels do mundo, coleccionam cromos de mundo e finalmente, por agora, o último cromo, a terra pela retina adentro. Não saberia fazer uma fábrica de turismo. Também, que pena, nunca saberia fazer Bedford Falls. Porém repito, não tem mal, ouço as histórias, as muitas mais belas, vejo as bondades nas pedras do passeio ao lado das beatas e do lixo. Flores pequeninas. Caem das mesmas mãos de onde as beatas e o lixo. Vejo as mãos, vejo como primeiro fizeram as próprias mãos, depois as mãos a fazer o mundo e como, ao fim, fazem adeus. E as outras, árvores de sombra e jardim de fresco a iluminar de verde os escuros, oxigénio puro, boca a boca.