A essência da alheira

destavida

Não gosto de domingos à tarde nem de chuva. Mas ontem à tarde dois rapazes de avental branco fizeram-me rir de tal forma que até me esqueci de que era domingo e de que estava a chover.
Não gosto de embustes mas gosto muito de alheira, aquele enchido que tem tanto de porco como eu de Heidi Klum, e que permitiu aos judeus manterem os chatos dos cristãos longe da porta.
Pois estes rapazes do avental branco passam uma hora e meia a falar da dita (da alheira, não da Heidi) como se estivessem a dissecar as obras de Nietzsche ou de Foucault. Para dizer a verdade, eles até falaram de Sócrates.
É uma hora e meia de pingue pongue delicioso sobre a arte, a inspiração, a imprevisibilidade e o azoto, aquele composto químico que faz a comida deitar fumo.
Imperdível para adeptos da cozinha molecular, chef’s armados ao pingarelho e gulosos (como eu). Tanto assim que mal saí do teatro, fui a correr jantar. Pena que não houvesse alheira…

P.S. — Quem quiser divertir-se e pensar um bocado (tudo misturado, como na Bimbi) pode ver O que se leva desta vida, até dia 21 de Novembro, no Teatro S. Luíz. Um conselho: marque um bom restaurante para depois da peça.

Fernanda

ErnestoSampaioFernandaAlves

Oiço dizer que o amor é uma vocação. No filmes e nos livros, as meninas que vão para freiras tentam estancar as lágrimas dos pais e dos amados, evocando uma irreprimível ‘vocação para amar a Deus’. Não é amar Deus, é amar a. Isto deve querer dizer alguma coisa.
Amar Deus até parece fácil. O seu retrato é perfeito, a sua bondade infinita, o seu poder absoluto. O pior é amar homens e mulheres normais. Gente que acorda mal disposta, que amua, que diz palavras feias e magoa, mesmo que seja sem querer. E, todavia, há quem tenha essa vocação. A de amar. Apesar das remelas e das lágrimas.
Não sei como tropecei no livro. Eram oito letras a agitar-se numa estante com papelinhos autocolantes a separar autores e temas.
Depois de o descobrir, comprei-o uma boa dezena de vezes. Ofereci-o a todos os que acreditei poderem conhecer a verdade. Um reputado neurologista infantil, que já acompanhou dezenas de crianças com cancro, e viu morrer várias, disse-me um dia: “O amor é a única forma de salvação”. Acho que é esse o segredo.  E quando o esqueço, volto ao livrinho de capa negra, fino e delicado, com as palavras a explodirem lá dentro, para o recordar.
Fernanda. Nome de uma actriz talentosa. Fundadora do teatro A Barraca, residente do D. Maria II, assídua no Teatro Experimental do Porto e no São João, onde se preparava para estrear uma peça quando a morte, súbita, a apanhou num quarto de hotel, em 1999. Um rosto intenso, de olhos grandes, negros, e boca larga, talhada para grandes sorrisos.
Fernanda era também – ou acima de tudo? – o amor de Ernesto Sampaio, jornalista, ensaísta e poeta, um teórico do surrealismo que se sentava à mesa do Café Gelo com Herberto Helder e Mário Cesariny.
Mais discreto e comedido do que os seus pares, parece ter guardado a inflamação para esse amor que viveu com Fernanda Alves.
Cesariny ilustrou assim a grandeza do homem e do sentimento que o matou, num texto para o jornal Público:  “Ernesto Sampaio tinha a grande rebeldia e a grande inteligência. Dentro do grupo surrealista, era dos mais lúcidos, dos que mais sabiam (…). Um sentido de humor formidável, uma agudeza de espírito extraordinária, amabilíssimo. Uma figura muito rara, de saber e dedicação (…) Desde a morte de Fernanda Alves, já não sabia viver. É a única pessoa que conheço que morreu de amor”.
Fernanda é o último livro de Ernesto Sampaio. Escreveu-o e a seguir morreu, um ano depois do seu amor sair sem se despedir – e sem querer.
Apesar da solidão e da mágoa de algumas passagens, é um remédio contra a descrença. Porque os que não têm a certeza de Deus, e não conhecem o melhor do amor, precisam das suas orações.  

“Apresentei Fernanda ao João Rodrigues (um suicida) e ele disse-me: ‘Sempre tiveste muita sorte’. O Tunhas (outro suicida) disparou-me um dia: ‘Ela é a sua mãe’. Sorte grande, mãe, companheira, a Fernanda foi a salvação da minha vida. O meu mar. O mar sempre mais forte com a sua voz de amante e a sua voz maternal traz-me palavras muito puras que dizíamos outrora”.
“Numa carta comovente, diz-me a Isabel de Castro que eu e a Fernanda éramos um. Penso que ainda somos. Mas a raiz, a alma e o corpo desse ‘um’ era ela. Eu podia entregar-me às minhas manias, não querer saber de nada nem de ninguém, afastar-me, isolar-me; tinha-a a ela, que era tudo, e agora não tenho nada. A Fernanda era a minha embaixatriz do mundo”.
“Quando a Fernanda estava viva, quase tudo era magia. O resto é utilitário e dá-me vontade de chorar. A magia é interior. A Fernanda era-me interior e exterior. Agora só me é interior. Não chega. Que fazer? Onde ir? Não posso deixar de amá-la. A recordação do seu rosto, da expressão do seu sorriso, ainda me enchem o coração de êxtase, de amor e de desespero. Desespero por não lho ter dito e por já não poder dizer-lho. Não posso imaginar-me sem ela. Sem ela não teria sido nada”. 

Encontrar alguém com quem se deseja partilhar a vida é um milagre. Partilhá-la, de facto, durante 40 anos é uma bênção. Numa história assim, só a morte podia pôr o ponto final. Apesar de tudo, é a menor de todas as injustiças.

Dulce Garcia

Era só um desabafo

“Como é difícil entendermo-nos com a vida. Nós a compor, ela a estragar. Nós a propor, ela a destruir. O ideal seria então não tentarmos entender-nos com ela mas apenas connosco” Virgílio Ferreira, em Conta Corrente