Como já vos disse, estive numa pintura de Rousseau. O que é o mesmo do que dizer, para quem não tenha percebido, que fui de viagem à Ilha de S. Tomé. Um dos ilustres co-bloggers, cuja identidade não estou autorizado a revelar salvo instruções em contrário, propôs-me uma especial missão de espionagem. Sabendo da minha atracção por ruínas de glórias passadas e matagais exóticos, encarregou-me de ir espreitar a roça que foi de sua família até à independência das ilhas e subsequente nacionalização. Dona Augusta, foi a referência que me deu. E lá estava ela no mapa. Bem ao lado da Roça S. João (dos Angolares), a tal que mereceu honras de RTP África por ter sido ser o palco regular do programa “Na Roça com os Tachos” do chefe João Carlos Silva.
Escusado será dizer que, com a honrosa excepção, justamente, da Roça S. João (a que ainda voltarei, bem como a João Carlos Silva, em futuro post), já desconfiava daquilo que me esperava no circuito das roças. Que pouco ou nada sobrava da prosperidade dos tempos áureos do cultivo do cacau e do café, já o sabia. E já me preparara também para o choque que certamente sentiria ao ser confrontado com o que restava da monumentalidade das casas senhoriais dos roceiros portugueses dos tempos coloniais. Das “casas grandes”, onde viviam os proprietários ou administradores das roças, bem como da fábrica, dos hospitais (obrigatórios em qualquer roça nesses tempos), das creches, dos escritórios, das oficinas, e por aí fora. E das sanzalas, onde se dizia que os trabalhadores chamados “serviçais”pernoitavam com pouca ou nenhuma dignidade, não esperava, também, que as condições de habitabilidade fossem melhores do que naqueles tempos. Pois é, confirmei tudo isso e a roça Dona Augusta não fugiu à regra. Segundo pude perceber, há razões complexas, económicas e não só, que explicam tanto abandono, degradação e insalubridade. Explicam mas não desculpam obviamente, e digo-o sem o saudosismo que me pareceu ver (mas talvez tenha sido só impressão minha, não me levem a mal os hospitaleiros santomenses) em alguns dos anciãos com quem falei.
Mas, antes de vos levar às outras roças e de nos determos um pouco nessas tais razões, deixem-me cumprir a parte dolorosa de mostrar a quem de direito o estado actual da roça Dona Augusta.

A outrora majestosa escadaria da fachada da “casa grande”

O que resta da maquinaria de produção de café

As antigas sanzalas, que se mantêm como habitações dos que lá ficaram

O difícil momento em que eu, cercado pelas ruínas das glórias antigas,
transmitia telefonicamente ao meu mandante as primeiras impressões sobre o estado da roça







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